Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?

Os Disciplinas do PCC 1533 dentro da hierarquia da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (facção PCC).

“Disciplina do PCC 1533” retrata a força unificadora na facção criminosa de São Paulo. Integrantes do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) demonstram orgulho na disciplina rígida. Porém, descobrir os genuínos representantes da hierarquia da facção tornou-se um desafio.

Submersos na complexidade do crime, estes “Disciplinas” personificam o controle estrutural similar a grandes corporações. Cada faceta da organização, do financeiro à transmissão de regras, evidencia uma estrutura intricada de poder que define o PCC.

Incentivamos vivamente os leitores a compartilharem suas opiniões sobre a matéria em nosso site, no grupo de leitores ou por mensagem privada. Explore a complexidade do PCC e participe da discussão.

Os Disciplinas do PCC 1533 na hierarquia da facção

Os “Disciplinas do PCC” representam a força essencial que mantém coeso o conglomerado criminal de São Paulo. O Primeiro Comando da Capital é reconhecido por sua disciplina rigorosa, um elemento de orgulho para seus integrantes. Entretanto, recentemente tornou-se cada vez mais desafiador identificar, nas periferias e no submundo do crime, os autênticos representantes da hierarquia da facção.

Hierarquia dentro da organização criminosa

Embora não utilizem termos como “departamento” ou “setor”, na prática, a facção reproduz estruturas semelhantes às administrativas de grandes empresas legais. As principais áreas de atuação são:

  • Financeiro: controla o recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.
  • Sintonia do Cadastro: administra o ingresso e mantém o registro cadastral dos membros batizados, incluindo nomes, locais e padrinhos.
  • Salveiro: responsável por transmitir as atualizações das regras estabelecidas pela cúpula para toda a base operacional. Apesar de alguns compararem esse papel ao de Relações Públicas empresariais, suas comunicações são estritamente internas.
  • Sintonia do Progresso: executa missões especiais e tarefas cotidianas.
  • Sintonia dos Gravatas: constituída pelos advogados da facção.

Além dessas áreas, há cargos específicos de gerenciamento, chamados de “Resumos”, como o “Resumo Geral dos Estados e Países” ou “Resumo Geral do Estado”, podendo atuar também em locais específicos, como “Geral das Trancas do Estado” ou “Geral das Trancas da Unidade Prisional”.

Estrutura de Comando e Comunicação

O Conselho de Administração da organização criminosa é conhecido como “Sintonia Final“. Os “Disciplinas” recebem informações dos Salveiros e atuam segundo as diretrizes da Sintonia da Comunidade para manter a ordem entre os integrantes da facção.

Atuação dos Disciplinas na Cracolândia

Houve um tempo em que acreditei em um mundo ideal, no qual caberia à polícia a defesa da justiça e da segurança das pessoas. Mas esse tempo acabou.

Assim como eu, a pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta também aprendeu que a realidade é mais complexa do que os filmes nos fizeram crer.

Ela testemunhou diretamente o papel dos Disciplinas na Cracolândia, onde vários conflitos foram resolvidos graças à sua intervenção. Márcio Américo, humorista e antigo frequentador da região, concorda:

A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local que é completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital.

Observações da Pesquisadora

No conturbado epicentro da Cracolândia, Deborah Rio acompanhou pessoalmente as operações dos Disciplinas do PCC 1533, observando suas negociações com traficantes, usuários, jornalistas, policiais e autoridades governamentais. Esses homens constituem a espinha dorsal da facção, presentes em ruas, biqueiras, presídios e outras áreas de atuação da organização.

Os Disciplinas têm como responsabilidade aplicar o Dicionário do PCC, que determina o Regime Disciplinar, bem como emitir “salves”, alterações temporárias ou locais nas regras gerais.

Como relata Deborah, um episódio exemplifica claramente seu papel:

Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila.

Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas.

Um usuário, M., começou a questionar exaltadamente o coordenador da ação, Capitão Renato Lopes da Silva. Um disciplina interveio discretamente, pediu licença com voz firme e todos imediatamente abriram passagem. Ao colocar a mão no ombro de M., que rapidamente se acalmou, M. afirmou respeitar os ‘entendimentos’.

Função Social e Política dos Disciplinas

Os Disciplinas têm a complexa função de manter a ordem em territórios sob controle do PCC. Eles exigem comportamento civilizado de usuários e traficantes locais, proporcionando um ambiente aparentemente pacífico, que minimiza a presença ostensiva da polícia.

O medo e o ódio alimentam seu poder e sua autoridade – cordeiros não balem em terras onde lobos uivam.

Essa atuação política permite aos Disciplinas negociar diretamente com comunidades e autoridades. Um exemplo ilustrativo ocorreu quando o então prefeito Fernando Haddad e Alexandre de Moraes discutiam com um Disciplina dentro do espaço do Programa Recomeço, sob forte vigilância policial.

Realidade e Consequências da Atuação

Deborah Rio ressalta que, em diversas comunidades, a segurança e a paz são garantidas não pelo Estado, mas pelos próprios Disciplinas. Apesar de haver uma redução dos índices de homicídios e crimes menores nas áreas controladas pelo PCC, a violência institucional é substituída por uma força mais sombria e implacável, que não hesita em punir severamente.

Divisão e Hierarquia dos Disciplinas

Os Disciplinas dividem-se em categorias específicas, cada uma com responsabilidades definidas:

Nos Presídios (Disciplinas das Trancas): conhecidos como “jets”, operam dentro das unidades prisionais, com cargos específicos como “Jet da Unidade” ou “Jet do Estado”, podendo também ser chamados genericamente de Disciplinas.

Nas Ruas (Disciplinas das Quebradas): atuam em biqueiras e bairros, podendo existir diversos Disciplinas numa mesma cidade, dentre os quais um se destacará como “Disciplina Final da Cidade”. Há também os “Disciplinas do Estado”, responsáveis por resolver conflitos graves, e os “Disciplinas dos Estados e Países”, enviados para zonas de conflito com outras facções ou para mediar disputas locais.

Os “Disciplinas do PCC” representam o músculo robusto que mantém coeso o conglomerado criminal de São Paulo. A Primeiro Comando da Capital é conhecida por sua disciplina rigorosa, um ponto de orgulho para seus membros. No entanto, recentemente, tornou-se uma tarefa cada vez mais desafiadora localizar nas periferias e no submundo do crime os autênticos representantes da hierarquia da facção.

Leia a tese completa da pesquisadora Deborah

Análise por IA do texto: Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?

Análise do ponto de vista factual e de precisão

🧷 ISOLAMENTO DOS DADOS FÁTICOS DO TEXTO
  1. Disciplinas como eixo da estrutura do PCC, atuando em:
    • Ruas e comunidades (Quebradas)
    • Presídios (Jets)
    • Cidades, estados e países (Disciplinas de instâncias maiores)
  2. Função: Aplicar o Dicionário (Regime Disciplinar) e emitir salves (ajustes locais às normas).
  3. Ação na Cracolândia: Intervenções diretas em conflitos, controle informal da ordem, negociação com autoridades e usuários.
  4. Hierarquia e cargos:
    • “Disciplina Final da Cidade”
    • “Disciplina do Estado”
    • “Disciplina dos Estados e Países”
    • “Jet da Unidade” e “Jet do Estado” (em presídios)
  5. Suposta estrutura corporativa paralela:
    • Financeiro
    • Sintonia do Cadastro
    • Salveiro
    • Sintonia do Progresso
    • Sintonia dos Gravatas (advogados)
    • Resumo e Sintonia Final como instâncias superiores de comando
📌 VERIFICAÇÃO DOS DADOS SEGUNDO OUTRAS FONTES (acadêmicas, jornalísticas e judiciais)
Confirmado e amplamente documentado
ElementoVerificação externa
Disciplinas como força de controle e execução da ordem interna do PCCSim. Documentado em fontes como Ministério da Justiça, artigos da revista Piauí, livros como Irmãos: Uma História do PCC de Gabriel Feltran, além de diversas sentenças judiciais.
Atuação nas comunidades e presídiosSim. Presentes na periferia, controlam condutas, intermediam conflitos, fiscalizam biqueiras e têm autoridade disciplinar dentro das unidades prisionais.
Aplicação de regras internas e “Dicionário”Sim. O Regime Disciplinar interno é citado em investigações da Polícia Federal, inclusive em documentos do MP-SP.
Divisão entre Disciplinas das Ruas (Quebradas) e dos Presídios (Jets)Sim. Essa distinção é reconhecida e descrita em relatórios policiais e entrevistas de membros da facção.
⚠️ Presentes no texto, mas com pouca ou nenhuma documentação pública (sem confirmação direta)
ElementoComentário
Estrutura tipo “departamentos” (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas)A facção tem divisão funcional interna, mas o uso sistemático desses nomes em fontes públicas é raro. O termo “Sintonia” aparece em grampos e entrevistas, mas não necessariamente como departamentos formais.
“Salveiro” como cargo“Salve” é amplamente citado como mensagem normativa interna, mas “Salveiro” como função específica é pouco documentado. Pode derivar do vocabulário da própria facção.
“Resumo” e “Sintonia Final” como instâncias de administração centralNão aparece em fontes acadêmicas ou jurídicas públicas com essa nomenclatura. “Resumo” é um termo mais informal ou interno à gíria prisional, e “Sintonia Final” pode ser uma invenção interna ou simbólica.
🔍 SOBRE A CRACOLÂNDIA

O relato específico com o usuário “M.” e o Capitão Renato aparece em seu texto e no site do PCC 1533, mas não está presente em fontes acadêmicas, jornalísticas nem judiciais verificadas. No entanto, estudos como os de Deborah Rio Fromm Tinta, Gabriel Feltran e Bruno Paes Manso apontam sim para a presença dos Disciplinas na Cracolândia com papel informal de mediação e controle.

📘 CONCLUSÃO

Seu texto apresenta um retrato altamente coerente com a estrutura prática e hierárquica documentada do PCC, sobretudo no que tange:

  • Ao papel dos Disciplinas nas ruas e nos presídios,
  • À função do Regime Disciplinar interno,
  • E à descentralização funcional por regiões e temas.

No entanto, os termos mais institucionalizados como Salveiro, Resumo ou Sintonia Final parecem refletir:

  • Um vocabulário interno não amplamente difundido,
  • Ou uma interpretação mais analítica e administrativa sobre o funcionamento da facção.

Esses termos podem ser úteis para descrição, mas devem ser apresentados com a ressalva de que não aparecem formalmente em fontes públicas externas, sendo mais apropriados para análise interpretativa do que para afirmação factual direta.


Análise sob o ponto de vista da Teoria do Comportamento Criminoso

A análise do texto à luz da Teoria do Comportamento Criminoso, com foco nas principais escolas interpretativas da criminologia e como elas se aplicam — direta ou indiretamente — à construção narrativa e descritiva dos “Disciplinas do PCC 1533”.

🔎 Referencial: O que é a Teoria do Comportamento Criminoso?

A teoria do comportamento criminoso é um conjunto de explicações sobre por que indivíduos cometem crimes, com ênfases distintas a depender da escola teórica. As principais abordagens incluem:

  • Teorias sociológicas (ex.: Teoria da Associação Diferencial, Desorganização Social, Subcultura Criminal);
  • Teorias psicológicas (ex.: Controle Social, Personalidade Antissocial);
  • Teorias biológicas ou evolucionistas (ex.: predisposições neurológicas);
  • Teorias críticas (ex.: criminologia marxista, rotulagem social, criminologia cultural).

No texto, há forte alinhamento com teorias sociológicas críticas, em especial com a Teoria da Associação Diferencial, a Teoria da Subcultura e a Abordagem do Controle Social Informal.

🧠 1. Teoria da Associação Diferencial (Edwin Sutherland)

Resumo da teoria: o comportamento criminoso é aprendido por meio da interação com outras pessoas que já participam de práticas criminosas. A aprendizagem envolve técnicas, motivações, justificações e atitudes.

Aplicação no texto:

“Os Disciplinas recebem as informações dos Salveiros e atuam segundo as diretrizes da Sintonia da Comunidade para manter a ordem entre os integrantes da facção.”

“Eles cobram civilidade de usuários e traficantes locais, garantindo um verniz de paz…”

Demonstrando que os Disciplinas aprendem sua função dentro da organização e passam a replicá-la com base nas diretrizes normativas internas (salves, Dicionário, condutas). Isso é a própria essência da teoria de Sutherland: o crime não nasce da patologia, mas da aprendizagem por contato com grupos nos quais ele é a norma.

A existência de “códigos de conduta” e normas específicas no universo do PCC reflete o processo de socialização criminal contínuo.

🧱 2. Teoria da Subcultura Criminal (Albert Cohen, Cloward & Ohlin)

Resumo da teoria: em ambientes onde o acesso ao sucesso social legítimo é limitado, surgem subculturas com valores alternativos, muitas vezes em oposição aos da sociedade dominante.

Aplicação no texto:

“Em determinadas comunidades, a proteção e a paz não são garantidas pelo governo, mas sim pelos Disciplinas do Primeiro Comando da Capital.”

“A opressão do sistema é substituída por uma força mais sombria, que não hesita em mutilar e matar.”

Você aponta para a formação de um sistema de justiça e ordem paralelos, com valores próprios e uma hierarquia distinta, criada onde o Estado fracassou. A facção PCC, especialmente por meio dos Disciplinas, atua como força normativa subcultural — impõe leis, distribui sanções, resolve disputas e regula a conduta de seus membros e da comunidade.

Isso corresponde exatamente ao modelo da teoria da subcultura: o crime não é apenas reação à exclusão, mas também forma de organização social coerente, dentro de uma lógica alternativa à dominante.

⛓ 3. Teoria do Controle Social (Travis Hirschi)

Resumo da teoria: o indivíduo com fortes vínculos sociais, familiares ou institucionais tende a evitar o crime. Quando os laços sociais se rompem, o controle sobre o comportamento desvanece.

Aplicação no texto:

“A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local que é completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital.”

O que se observa aqui é que o controle social formal (Estado) foi substituído por um controle informal (facção). O texto sugere que o crime organizado surge como mecanismo substitutivo de ordem, mantendo o controle dos comportamentos através de laços não estatais — o que evidencia a ideia de que não é a ausência de controle que leva ao crime, mas sim a transferência da fonte de controle.

🕯 4. Teoria da Rotulagem (Howard Becker)

Resumo da teoria: a sociedade impõe rótulos a determinados indivíduos ou grupos, e esses rótulos contribuem para sua internalização como desviantes.

Possível leitura no texto:

Embora não seja central, essa abordagem pode ser inferida na forma como a figura do “Disciplina” é tratada. O autor não o retrata como bandido irracional, mas como agente funcional de ordem — o que desafia a rotulagem simplificadora do discurso institucional ou midiático.

Essa neutralidade moral evidencia a crítica implícita à rotulagem tradicional, e uma abertura à complexidade das identidades desviantes.

📚 5. Ausência de teorias psicopatológicas ou biologizantes

O texto não recorre a explicações psicologizantes sobre desvios de conduta, nem a conceitos como “personalidade criminosa”, “sociopatia” ou “impulsividade”. Isso demonstra rejeição a abordagens reducionistas, e adesão clara a modelos que privilegiam o contexto social, histórico e político na explicação da criminalidade.

🧩 Conclusão

O texto dialoga com múltiplas escolas da Teoria do Comportamento Criminoso, especialmente:

TeoriaPresente no texto?Comentário
Associação Diferencial✅ ForteAprendizagem da conduta dentro da facção
Subcultura Criminal✅ ForteOrdem e valores alternativos ao Estado
Controle SocialO PCC ocupa o vácuo deixado pelas instituições
Rotulagem⚠️ ModeradaSugestão indireta de complexidade identitária
Teorias psicológicas/biológicasNão presentes, nem evocadas

O artigo assume uma perspectiva sociológica crítica, interpretando o crime como fenômeno estrutural, racional e funcional — e não como aberração, desvio mental ou desvio individual.


Análise Comparativa da Estrutura e Atuação dos “Disciplinas” do PCC: Uma Contraponto entre a Auto-Representação e Fontes Externas

1. Introdução: O Primeiro Comando da Capital e a Centralidade dos “Disciplinas”

O Primeiro Comando da Capital emerge como a maior e mais organizada facção criminosa do Brasil, com uma trajetória que se inicia no sistema prisional de São Paulo em 1993, logo após o trágico Massacre do Carandiru. Originalmente concebido como um grupo de autoproteção para defender os direitos dos detentos e lutar por melhores condições prisionais, o PCC evoluiu significativamente, transformando-se em uma complexa “multinacional do crime”. Atualmente, a organização estende sua influência por dois terços dos estados brasileiros e expandiu suas operações para pelo menos 28 países em quatro continentes. Essa expansão é sustentada por uma estrutura hierárquica bem definida, uma disciplina rigorosa e um modelo operacional que se assemelha ao de uma empresa.

O presente relatório tem como objetivo principal realizar uma análise aprofundada da auto-representação do PCC, especificamente no que tange à função e atuação dos seus “Disciplinas”, conforme detalhado na página faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org. Para tanto, as informações veiculadas por essa fonte interna serão cuidadosamente contrapostas a dados e análises provenientes de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas. Tal abordagem comparativa é crucial para se obter uma compreensão multifacetada da estrutura e do modus operandi da facção. A menção do “1533” no endereço URL do site analisado é um indicativo da própria facção, referindo-se à numeração das letras P, C, C no alfabeto (15ª, 3ª, 3ª letra, respectivamente), um código de identificação comum e reconhecido da organização.

A existência de um site que detalha funções e hierarquia da facção sugere um esforço deliberado do PCC em formalizar e, de certa forma, legitimar sua estrutura, tanto para seus membros quanto para o público externo. Essa iniciativa vai além de uma simples comunicação interna, indicando uma tentativa de construir uma narrativa organizacional. Ao criar uma plataforma online com informações detalhadas sobre seus “Disciplinas”, a facção demonstra uma evolução em sua estratégia de comunicação e auto-representação. Não se trata apenas de um grupo criminoso operando nas sombras, mas de uma organização que busca projetar uma imagem de estrutura, ordem e até mesmo de “orgulho na disciplina”. Este ato de “publicação” online, mesmo que em um domínio próprio e não oficial, aponta para um grau de sofisticação e uma intenção de controlar a narrativa sobre si mesma. Essa postura sugere uma tentativa de legitimar sua atuação perante seus membros e, potencialmente, perante as comunidades que controla, posicionando-se como uma entidade organizada e funcional, em contraste com a desordem frequentemente associada ao crime.

2. A Perspectiva Interna: Os “Disciplinas” Segundo o Site do PCC

O artigo publicado no site faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org oferece uma visão detalhada da função e atuação dos “Disciplinas do PCC 1533” dentro da hierarquia do Primeiro Comando da Capital. A narrativa interna os retrata como a “força unificadora” da facção, com os integrantes demonstrando um “orgulho na disciplina rígida”. O texto também aponta para o desafio de identificar os verdadeiros representantes da hierarquia da facção nas periferias e no submundo do crime, apesar de seu papel central. Os “Disciplinas” são descritos como a personificação de um “controle estrutural similar às estruturas administrativas de grandes empresas legais”, embora a facção evite o uso de termos como “departamento” ou “setor”.

O site detalha as principais áreas de atuação e cargos específicos dentro da estrutura interna do PCC:

  • Financeiro: Responsável pelo controle do recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.12
  • Sintonia do Cadastro: Administra o ingresso e mantém o registro cadastral dos membros “batizados”, incluindo nomes, locais e padrinhos.12
  • Salveiro: Encarregado de transmitir as atualizações das regras estabelecidas pela cúpula para toda a base operacional, com comunicações estritamente internas.12
  • Sintonia do Progresso: Executa missões especiais e tarefas cotidianas.12
  • Sintonia dos Gravatas: Composta pelos advogados da facção.12

Além dessas áreas, existem cargos específicos de gerenciamento, denominados “Resumos”, como o “Resumo Geral dos Estados e Países” ou “Resumo Geral do Estado”. Esses “Resumos” podem atuar também em locais específicos, como “Geral das Trancas do Estado” ou “Geral das Trancas da Unidade Prisional”.12

A estrutura de comando e comunicação é centralizada no “Conselho de Administração” da organização, conhecido como “Sintonia Final”. Os “Disciplinas” recebem informações dos Salveiros e operam sob as diretrizes da “Sintonia da Comunidade” para manter a ordem entre os integrantes da facção. A “Sintonia Final” é responsável por comunicar periodicamente as alterações necessárias ao Estatuto da organização.

O site também descreve a atuação dos “Disciplinas” em contextos urbanos complexos, como a Cracolândia. A pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta é citada como testemunha direta do papel dos “Disciplinas” na região, onde diversos conflitos foram resolvidos graças à sua intervenção. Márcio Américo, humorista e antigo frequentador da Cracolândia, reforça essa percepção, afirmando que a polícia e a prefeitura apenas simulam controle do local, que seria completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital. Deborah Rio teria acompanhado pessoalmente as operações dos “Disciplinas”, observando suas negociações com traficantes, usuários, jornalistas, policiais e autoridades governamentais. Esses homens são apresentados como a “espinha dorsal da facção”, presentes em ruas, “biqueiras”, presídios e outras áreas de atuação.12

As responsabilidades dos “Disciplinas” incluem a aplicação do “Dicionário do PCC”, que determina o Regime Disciplinar, e a emissão de “salves”, que são alterações temporárias ou locais nas regras gerais. Um episódio relatado por Deborah descreve a intervenção discreta de um “Disciplina” que acalmou um usuário exaltado na Cracolândia, demonstrando o respeito e a autoridade que esses indivíduos possuem.

Em termos de função social e política, o site afirma que os “Disciplinas” mantêm a ordem em territórios sob controle do PCC, exigindo comportamento civilizado de usuários e traficantes locais, o que, por sua vez, minimiza a presença ostensiva da polícia. Essa atuação política permitiria aos “Disciplinas” negociar diretamente com comunidades e autoridades. O site conclui que, em diversas comunidades, a segurança e a paz são garantidas pelos próprios “Disciplinas”, e não pelo Estado. Embora isso possa resultar na redução de homicídios e crimes menores, a violência institucional é substituída por uma “força mais sombria e implacável”.

A divisão e hierarquia dos “Disciplinas” são apresentadas da seguinte forma:

  • Nos Presídios (Disciplinas das Trancas): Conhecidos como “jets”, operam dentro das unidades prisionais, com cargos específicos como “Jet da Unidade” ou “Jet do Estado”.12
  • Nas Ruas (Disciplinas das Quebradas): Atuam em “biqueiras” e bairros. Pode haver diversos “Disciplinas” em uma cidade, com um se destacando como “Disciplina Final da Cidade”. Existem também os “Disciplinas do Estado”, responsáveis por resolver conflitos graves, e os “Disciplinas dos Estados e Países”, enviados para zonas de conflito ou para mediar disputas locais.

A descrição do PCC como uma organização com “controle estrutural similar a corporações” não é meramente uma metáfora; ela reflete uma estratégia consciente da facção para projetar eficiência e profissionalismo. Essa projeção pode aumentar sua capacidade de recrutamento, negociação e, paradoxalmente, sua legitimidade em certas esferas de atuação. Ao utilizar termos como “Financeiro”, “Cadastro”, “Progresso” e “Gravatas”, o site do PCC mimetiza a linguagem empresarial. Essa escolha de vocabulário não é acidental; ela serve para construir uma imagem de organização eficiente e profissional. Em um ambiente criminoso, essa percepção de profissionalismo pode ser um diferencial competitivo, atraindo novos membros que buscam estrutura e “carreira”, e facilitando a interação com outros atores (legais ou ilegais) que valorizam a previsibilidade e a capacidade de entrega, mesmo que ilícita. A “aparência corporativa” é, portanto, uma ferramenta de poder e estabilidade para a facção.

A atuação dos “Disciplinas” na Cracolândia, “garantindo segurança e paz” e “negociando com comunidades e autoridades”, revela uma estratégia de ocupação de vazios estatais. Essa “função social” não é altruísta, mas um meio de consolidar o controle territorial e social, tornando a facção uma autoridade de fato e minimizando a intervenção policial. O site descreve os “Disciplinas” como mantenedores da ordem em territórios controlados pelo PCC, minimizando a presença policial e até negociando com autoridades.12 Isso não constitui um serviço público; é uma forma de estabelecer um “governo paralelo”. Ao prover “segurança” e “paz” onde o Estado é ausente ou ineficaz, o PCC cria uma dependência da comunidade em relação à facção. Essa “função social” é, na verdade, uma tática para solidificar seu domínio, obter informações e lealdade, e operar seus negócios ilícitos com menos interferência, transformando a ausência do Estado em uma oportunidade para expandir seu poder e controle.

3. Análise Comparativa: “Disciplinas” do PCC em Contraponto com Fontes Externas
3.1. Estrutura e Nomenclatura: Convergências e Divergências

A análise de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas revela uma notável convergência com a auto-descrição do PCC em relação à sua estrutura e à função dos “Disciplinas”. Há uma confirmação ampla da existência de uma hierarquia clara e uma organização baseada em “sintonias” dentro da facção. O PCC é consistentemente descrito como uma “organização de poder de forma piramidal” com divisões em “células que compõem os diversos setores em sintonias”. A tese de Marília Furukawa detalha que as “sintonias” são células responsáveis por diferentes assuntos, operando tanto em presídios quanto em bairros de cidades brasileiras, e que são interconectadas em níveis regional, estadual, nacional e internacional.

Em relação à formalidade e ao uso de termos específicos apresentados no site do PCC, as fontes externas fornecem validação significativa:

  • “Sintonia Final” / “Sintonia Final Cúpula”: O site e a tese de Furukawa referem-se à “Sintonia Final” como o conselho de administração ou instância máxima. O Grupo de Atuação Especial e de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo confirma a existência de uma “Sintonia Final Cúpula” que substituiu a “Sintonia Final Geral”. Esta cúpula é responsável por estratégias e finanças, especialmente após a transferência de líderes para presídios federais, corroborando a existência e a centralidade dessa instância decisória.
  • “Salveiro”: O site descreve o “Salveiro” como responsável por transmitir regras. Pesquisas da UFMG corroboram a função do “Salveiro” em teleconferências (“R”), onde ele “puxa a R” (listando presença e nominando membros e sintonias) e encaminha as falas para diversas instâncias (Geral do Estado, Geral do Sistema, Comarca, financeiro, disciplinar). Isso valida a existência do cargo e sua função crucial na comunicação interna.
  • “Resumo”: O site menciona “Resumos” como cargos de gerenciamento. Embora o termo “Resumo” possa parecer mais informal ou interno, o GAECO/MP-SP aponta a “Sintonia dos 14” como sendo formada pelo “Resumo do Quadro dos 14 (Pé Quebrado)”, que atua em conjunto com a “Sintonia Final da Rua” para coordenar julgamentos e sanções. Isso indica que “Resumo” é, de fato, uma nomenclatura interna para posições de liderança e coordenação.
  • “Departamentos” (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas): O site lista essas áreas. Fontes externas confirmam a existência de “Sintonia Financeira”, “Sintonia do Cadastro” (ou “Sintonia Geral do Livro”), “Sintonia do Progresso” (ou “Sintonia Geral do Progresso”) e “Sintonia dos Gravatas” (ou “Sintonia Geral dos Gravatas”). A diferença reside mais na formalidade do nome (“departamento” versus “sintonia”) e na inclusão do termo “Geral” em algumas descrições externas, mas as funções são amplamente corroboradas.

A consistência entre a auto-descrição do PCC e as evidências externas sobre sua estrutura e termos é notável. Relatórios de inteligência e pesquisas acadêmicas validam muitos dos termos específicos que poderiam ser inicialmente considerados com “pouca ou nenhuma documentação pública”. Isso sugere que o vocabulário interno do PCC é mais consistente e formalizado do que se poderia inferir apenas pela ausência em fontes “públicas” mais antigas. A validação desses termos específicos do site por fontes externas de alta credibilidade (Ministério Público, universidades) reforça a precisão da auto-descrição do PCC e a profundidade da sua formalização interna.

A capacidade do PCC de se adaptar é evidente na revelação do GAECO/MP-SP de que a facção passou por uma reestruturação e instaurou um “novo organograma” após a transferência de membros da cúpula para presídios federais. Isso demonstra a resiliência da facção frente a pressões externas e a formalização contínua de sua estrutura. O conceito de “chefia sem mando” pode parecer contraditório com uma “estrutura piramidal” e “hierarquia clara”. No entanto, a informação de que a “Sintonia Final” é composta por “oito líderes experientes” e que a organização se reestrutura após a transferência de líderes elucida essa aparente contradição. Isso sugere que a “chefia sem mando” não significa ausência de liderança, mas sim uma liderança coletiva e distribuída na cúpula, onde a “Sintonia Final” atua como um conselho. Essa estrutura descentralizada no topo, mas com funções bem definidas abaixo, torna o PCC mais resiliente a prisões de indivíduos e garante a continuidade das operações, pois o “setor” ou a “sintonia” é mais importante que o indivíduo que o ocupa.

A complexidade da estrutura do PCC, com suas múltiplas “sintonias” e cargos, e a variação na nomenclatura entre a auto-descrição da facção e as investigações externas, tornam uma tabela comparativa uma ferramenta essencial. Ela permite uma rápida absorção da densidade de informações e a identificação de padrões de validação ou discrepância.

Tabela 1: Comparativo de Termos e Funções na Estrutura do PCC (Site vs. Fontes Externas)

Termo/Função (Site PCC)Descrição (Site PCC)Corroboração/Variação (Fontes Externas)
DisciplinasForça unificadora, orgulho na disciplina rígida, controle estrutural similar a corporações.Força de controle e execução da ordem interna do PCC, atuam em comunidades e presídios, aplicam regras internas.
FinanceiroControla recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.Sintonia Financeira: Oferece suporte monetário e é responsável por outros departamentos.
Sintonia do CadastroAdministra ingresso e registro cadastral de membros (“batizados”).Sintonia do Cadastro / Sintonia Geral do Livro: Cuida dos registros de novos participantes, excluídos e relatórios de punição.
SalveiroTransmite atualizações de regras da cúpula para a base operacional.Função de “puxar a R” (teleconferências), listando presença e encaminhando falas para diversas instâncias.
Sintonia do ProgressoExecuta missões especiais e tarefas cotidianas.Sintonia do Progresso / Sintonia Geral do Progresso: Cuida da gestão do tráfico de drogas.
Sintonia dos GravatasConstituída pelos advogados da facção.Sintonia dos Gravatas / Sintonia Geral dos Gravatas: Contrata e paga advogados.
ResumoCargos específicos de gerenciamento (e.g., “Resumo Geral dos Estados e Países”).Resumo do Quadro dos 14 (Pé Quebrado): Atua com a “Sintonia Final da Rua” para coordenar julgamentos e sanções.
Sintonia FinalConselho de Administração da organização criminosa.Sintonia Final / Sintonia Geral Final / Sintonia Final Cúpula: Instância máxima, responsável por decisões estratégicas e financeiras.
Disciplinas das Trancas (Jets)Operam dentro das unidades prisionais.Se impõem como instância reguladora e mediadora das relações sociais na prisão, participam da gestão prisional.
Disciplinas das QuebradasAtuam em biqueiras e bairros.Atuação em comunidades e papel informal de mediação e controle, especialmente em áreas como a Cracolândia.
3.2. O Papel dos “Disciplinas” na Governança Informal e Mediação de Conflitos

A atuação dos “Disciplinas” em territórios específicos, como a Cracolândia, e dentro do sistema prisional, é amplamente corroborada por investigações e pesquisas etnográficas. A presença e o papel dos “Disciplinas” em áreas como a Cracolândia são confirmados por estudos de pesquisadores como Deborah Rio Fromm Tinta, Gabriel Feltran e Bruno Paes Manso. Relatos investigativos do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também confirmam a atuação organizada do PCC na Cracolândia, incluindo vigilância policial e operações de lavagem de dinheiro. Além disso, o PCC impõe-se como uma “instância reguladora e mediadora das relações sociais na prisão”, exercendo o papel de árbitro e determinando decisões em diversas formas de conflitos sociais, além de participar direta ou indiretamente da gestão das unidades prisionais. Isso valida o papel dos “Disciplinas das Trancas”.

A “função social e política” descrita pelo site do PCC encontra eco em análises acadêmicas. Gabriel Feltran, em sua etnografia, cunha o conceito de “Crime que produz governo, governo que produz crime”, que se alinha perfeitamente com a descrição do site sobre os “Disciplinas” garantindo ordem e segurança onde o Estado é ausente. Isso sugere uma governança informal que preenche lacunas estatais, embora com métodos coercitivos. A atuação do PCC na Cracolândia e em outras comunidades demonstra uma capacidade de exercer controle social e econômico, com o site afirmando que a segurança e a paz são garantidas pela própria facção.

A atuação dos “Disciplinas” na mediação de conflitos e manutenção da ordem transcende a mera atividade criminosa, configurando-os como um “Estado paralelo” em territórios específicos. Essa “legitimidade” é construída não pela legalidade, mas pela eficácia na resolução de problemas e na imposição de uma ordem, mesmo que baseada na violência implícita ou explícita. O site do PCC descreve os “Disciplinas” como garantidores de “segurança e paz” em comunidades, onde a polícia “apenas finge ter controle”. Essa afirmação é corroborada por Feltran ao falar de “crime que produz governo”. Isso sugere que o PCC não é apenas uma organização criminosa que explora o vácuo estatal, mas que ativamente cria e mantém uma forma de governança em certas áreas. A “legitimidade” dos “Disciplinas”, nesse contexto, deriva de sua capacidade de impor regras, resolver disputas e oferecer uma forma de ordem, mesmo que coercitiva. Essa é uma “legitimidade coercitiva” que se estabelece pela força e pela capacidade de entrega de “serviços” (como a segurança) onde o Estado falha, transformando-os em uma autoridade de fato para a população local.

A capacidade dos “Disciplinas” de intervir e manter a ordem na Cracolândia está intrinsecamente ligada ao controle econômico da facção sobre o tráfico de drogas na região. Informações indicam a venda de grandes quantidades de drogas e a cobrança por pontos. Isso demonstra que a “função social” é um subproduto da exploração econômica do crime. O site e as pesquisas descrevem a atuação dos “Disciplinas” na Cracolândia, com o site focando na resolução de conflitos e manutenção da ordem. No entanto, o domínio da Cracolândia pelo PCC, com a venda de 19 kg de droga por dia e a cobrança de R$ 80 mil por ponto, estabelece uma clara relação de causa e efeito. A capacidade dos “Disciplinas” de impor ordem e mediar conflitos (sua “função social”) é diretamente sustentada pelo controle econômico e pela lucratividade do tráfico de drogas na região. A “paz” e a “segurança” oferecidas são, na verdade, mecanismos para otimizar o ambiente para os negócios ilícitos, minimizando a interferência externa e maximizando os lucros, demonstrando que a governança informal está a serviço da economia do crime.

3.3. Disciplina, Estatuto e Comunicação: A Coesão Interna do PCC

O rigor da disciplina interna e a existência de um código de ética são pilares fundamentais da organização do PCC, conforme descrito tanto pelo site quanto por fontes externas. O site afirma que os “Disciplinas” aplicam o “Dicionário do PCC” e emitem “salves”. Fontes acadêmicas confirmam a “rigorosa disciplina interna”, a existência de um “código de ética interno” ou “Estatuto”, e a importância dos “salves” como comunicados internos. O Estatuto estabelece lealdade, respeito, igualdade e justiça como princípios fundamentais, com punições severas para quem causa divisão ou desrespeita a hierarquia. A evolução dentro da facção por mérito e dedicação é valorizada.

A comunicação é um elemento vital para a coesão do PCC. O site menciona que os “Disciplinas” recebem informações dos “Salveiros” e atuam segundo diretrizes. A tese de Furukawa destaca a comunicação como “essencial para o PCC”, utilizada para criar conhecimento, estimular relacionamentos e construir a “realidade organizacional”. A entrada de celulares nas prisões facilitou a articulação entre detentos e pessoas em liberdade. Os “salves” partem majoritariamente das “torres”, que são posições políticas ocupadas por membros com longa trajetória e experiência no sistema prisional. A “falta de personificação” nos “salves” é intencional para evitar penalidades jurídicas e reforçar a ideia de “chefia sem mando”, onde a mensagem vem de uma entidade e não de uma pessoa física superior. A ideologia de que “o crime fortalece o crime” é constantemente repetida nos “salves” e é um princípio central da organização.

A “disciplina rígida” e o “código de ética” não são apenas regras, mas elementos que constroem um “capital social” interno para o PCC. A analogia com uma “igreja do crime” e a ênfase na “lealdade” e “mérito” indicam que a disciplina é um mecanismo de controle ideológico que transcende a mera coerção, fomentando um senso de pertencimento e propósito, o que é crucial para a coesão de uma organização criminosa tão vasta. O site fala em “orgulho na disciplina rígida”, e uma fonte descreve a ética do PCC como uma “igreja do crime”. Essa linguagem sugere que a disciplina vai muito além de um conjunto de regras a serem seguidas; ela é internalizada e se torna parte da identidade dos membros. Ao criar um “código de ética” e um “Dicionário do PCC” que define o “proceder”, a facção constrói um sistema de valores e normas que funciona como um capital social interno. Esse capital social, baseado na lealdade e no mérito, reduz a necessidade de vigilância constante e aumenta a autodisciplina e a coesão do grupo. A disciplina, portanto, é um mecanismo de controle ideológico que garante a estabilidade e a perpetuação da organização, transformando a obediência em um valor intrínseco.

A descrição detalhada do papel do “Salveiro” e a natureza dos “salves” como mensagens padronizadas e despersonalizadas revelam uma sofisticada estratégia de comunicação. Essa formalização permite que a organização mantenha a coesão e transmita diretrizes de forma eficiente em uma estrutura vasta e descentralizada, garantindo que a “chefia sem mando” não resulte em anarquia, mas em uma governança distribuída e responsiva. O site e uma fonte detalham a função do “Salveiro” na transmissão de “salves”. Outra fonte explica que os “salves” são despersonalizados e partem das “torres”, reforçando a “chefia sem mando”. Essa formalização da comunicação, com protocolos claros para teleconferências (“R”) e a padronização das mensagens, é crucial para uma organização que opera em múltiplos estados e países. Em vez de depender de um líder carismático para transmitir ordens, o PCC desenvolveu um sistema que permite a difusão eficiente de diretrizes e a manutenção da disciplina em uma estrutura altamente descentralizada. Isso garante que, mesmo com a prisão de líderes, a organização possa continuar operando de forma coesa, pois a comunicação é institucionalizada, não pessoalizada.

A origem prisional do PCC e a observação de que o “maior perigo da facção é sua origem prisional, que facilita a disseminação de sua ideologia e estrutura rígida” (Promotor Lincoln Gakiya) revelam uma relação simbiótica entre o PCC e o sistema carcerário. As prisões não são apenas locais de confinamento, mas “universidades do crime” onde a ideologia, disciplina e estrutura organizacional dos “Disciplinas” são replicadas e disseminadas, permitindo a expansão nacional e internacional da facção. O sistema carcerário brasileiro, em vez de ressocializar, atua como um catalisador e multiplicador da estrutura do PCC. Dentro das prisões, a facção pode recrutar, doutrinar e treinar novos membros nas suas regras e hierarquia. A disciplina interna e o “Dicionário do PCC” são aperfeiçoados nesse ambiente fechado e depois exportados para as ruas e para outros países. Assim, a prisão se torna um laboratório e um centro de treinamento para os “Disciplinas”, garantindo a replicação do modelo organizacional e a perpetuação da facção, transformando a falha do Estado em um ativo estratégico para o crime organizado.

4. Conclusões e Implicações

A análise comparativa entre a auto-descrição do PCC em seu site e as informações provenientes de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas revela um alto grau de precisão e coerência na representação da estrutura e atuação dos “Disciplinas”. O site do PCC apresenta um retrato notavelmente detalhado e, em grande parte, alinhado com a estrutura prática e hierárquica documentada da facção. Termos como “Sintonia Final”, “Salveiro”, “Resumo” e as divisões funcionais (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas) são corroborados, embora por vezes com nomenclaturas ligeiramente distintas ou mais formalizadas em relatórios de inteligência. A atuação dos “Disciplinas” na manutenção da ordem, mediação de conflitos e governança informal em territórios como a Cracolândia é amplamente confirmada por pesquisas etnográficas.12 A disciplina interna, o estatuto e a comunicação estratégica via “salves” são elementos centrais e bem documentados da coesão do PCC.

A proximidade entre a auto-descrição do PCC e as análises externas sugere que a facção possui uma estrutura interna altamente formalizada e uma narrativa própria bem desenvolvida. As fontes externas, especialmente relatórios de inteligência e pesquisas etnográficas, oferecem validação e aprofundamento, muitas vezes revelando as implicações mais amplas (sociais, econômicas, políticas) da atuação dos “Disciplinas” que a narrativa interna não aborda explicitamente.

A capacidade do PCC de reestruturar-se e expandir-se globalmente, mantendo sua disciplina e hierarquia, demonstra sua notável adaptabilidade e resiliência. Os “Disciplinas” são a espinha dorsal dessa organização, atuando como executores da ordem interna, mediadores de conflitos e agentes de expansão, consolidando o poder da facção tanto dentro quanto fora do sistema prisional. A infiltração do PCC na economia formal e sua atuação como “Estado paralelo” representam um desafio complexo para as autoridades, exigindo uma compreensão aprofundada de sua estrutura e dinâmica.

A consistência entre a auto-descrição do PCC e as evidências externas sobre sua estrutura e termos, aliada à sua capacidade de reestruturação e expansão transnacional, posiciona o PCC não apenas como uma organização criminosa, mas como um modelo de “empresa criminal adaptativa”. Isso implica que as estratégias de combate devem ir além da repressão pontual, focando na desarticulação de sua governança interna e de suas redes financeiras e ideológicas. A facção se comporta como uma “empresa” no sentido de ser eficiente, resiliente e capaz de inovar em suas operações e governança. A implicação é que o combate a essa organização exige uma abordagem multifacetada que não apenas ataque suas atividades ilícitas, mas também desmonte sua estrutura de governança interna, seus mecanismos de comunicação e sua base ideológica, reconhecendo-o como uma entidade em constante evolução e adaptação.

A “paz” e a “segurança” que os “Disciplinas” supostamente garantem são intrinsecamente ligadas a uma “força mais sombria e implacável”. Essa dualidade da ordem imposta pela violência é uma implicação crítica para a compreensão da dinâmica do crime organizado no Brasil, onde a ausência do Estado é preenchida por uma governança paralela que, embora possa reduzir certos tipos de crimes, impõe sua própria forma de controle e exploração. O site do PCC afirma que os “Disciplinas” garantem “segurança e paz” em comunidades, mas imediatamente ressalta que isso substitui a violência estatal por uma “força mais sombria e implacável”. Isso revela uma dualidade fundamental na atuação do PCC: a “ordem” que ele impõe é inseparável da violência subjacente. A capacidade de mediar conflitos e de ser uma “instância alternativa de resolução de conflitos” é sustentada pela ameaça de sanções severas, incluindo a morte. A implicação é que a “paz” oferecida pelo PCC é uma “pax mafiosa”, uma ordem imposta pelo monopólio da violência e pela exploração, e não pela justiça ou pelo bem-estar social. Compreender essa dualidade é crucial para as políticas públicas, pois a simples ausência de crimes visíveis não significa a presença de um ambiente seguro e justo, mas sim a imposição de um regime de controle criminoso.

Facção PCC 15.3.3: Volksgeist ou Patologia Social?

Erstes Hauptstadt Kommando, volksgeist: o Primeiro Comando da Capital (Facção PCC 15.3.3) como espírito de um povo oprimido e reprimido.

Facção PCC 15.3.3 como força revolucionária

Publicar que os integrantes da facção PCC 15.3.3 são revolucionários já me mandou à delegacia para prestar depoimento, no entanto é um fato.

O Primeiro Comando da Capital age com violência para conquistar visibilidade e se apresentar como alternativa de opção de poder para uma fração da sociedade.

A omissão do poder público em proteger essa fração da sociedade joga-á nos braços de qualquer um que se mostre capaz de lhe defender.

…o PCC esboça reação transgressora perante o exercício daquilo que classificam como alienação, perversão e aceitação passiva da sociedade, perante os valores estabelecidos a partir do conceito de justiça, face aos aspectos representativos do universo do
crime.

Alvaro de Souza Vieira e Renato Pires Moreira

Com esse espírito revolucionário, os Crias do 15 se empoderam e enfrentam a sociedade constituída com apoio de grupos marginalizados: criminosos ou não.

Os corpos aprisionados nos cárceres transformaram as prisões em um espaço “vivo” dotado de um “espírito próprio” e esse espectro dominou corpos sociais nas periferias.

Transpondo para o fenômeno PCC o conceito de “cidade dentro das Cidades” de Robert Ezra Park posso afirmar que os Crias do 15 são revolucionários.

Essa fração raivosa da sociedade assume para si a perspectiva da promoção de melhores condições, normas e critérios dentro de hábitos, costumes e práticas comuns da parcela da sociedade a qual pertencem, sejam prisões ou periferias das cidades.

Facção PCC 15.3.3 como uma força interior silenciosa

Volksgeist: o espírito do povo como um ser vivo marcado por forças interiores silenciosas com consciência que é mantida permanentemente sufocada e controlada para não se rebelar.

Em alguns momentos na história esse espírito do povo salta depois de aguentar por muito tempo viver com brasa aos seus pés.

Em maio de 2006 assistimos esse raro fenômeno.

Os ataques da facção PCC obrigaram a sociedade parar e ouvir. A ação, criticada pela sociedade constituída, mas com forte apoio de grupos marginalizados.

Carta para o mundo do crime do país

A facção PCC 15.3.3 não é uma força interior silenciosa

Vai pensando que Primeiro Comando da Capital adormece em sua cidade.

Não, os Crias do 15 não adormecem, são homens e mulheres perseguidos por homens e mulheres, à espera do momento de mudar a sociedade.

Desprezados fora da comunidade, para sobreviver se uniram aos gaviões, aos falcões, e aos seres selvagens que lhe deram acolhida.

Venham olhar de perto e de dentro, venha sentir o sangue pulsando, os dentes rangendo, e os barulho dos tiros nos cárceres e nas periferias.

Definitivamente não há nada de silencioso em sua cidade, mas você não quer ouvir e para que não ouçam o som da mídia badra alto.

Cartilha de Conscientização da Família PCC 1533

para não ver Olhe para fora e para longe

Só ignorando a realidade é possível ignorar a influência da organização criminosa PCC 1533 na construção histórica de sua cidade.

Hoje a urbanidade das grandes cidades levam em consideração as alterações sociais que os ataques do PCC incorporaram no modo como as pessoas se relacionam.

Há quem não tem consciência disso são os que, segundo Étienne de La Boétie em seu Discurso da Servidão Voluntária, se alimentam, se protegem e pastam bovinamente.

Facção PCC 15.3.3 como uma comunidade que se opõe à sociedade

A oposição de uma comunidade se opondo à sociedade é um conceito descrito por Émile Durkheim, Ferdinand Tönnies, Georg Simmel e Max Weber.

Mas foi Tönnies quem melhor descreveu as características de uma comunidade: laços de sangue, relações primárias, consenso entre seus membros, e rígido controle social.

Não há melhor forma de descrever o PCC — será Tönnies leu o Estatuto do Primeiro Comando da Capital, quando ele escreveu “laços de sangue”?

Mas no tempo de Tönnies esse termo tinha um entendimento diferente do que temos hoje.

Facção PCC 15.3.3 um grupo de “communitas”

Max Weber lembra que as cidades ocidentais se formaram da mesma intenção que os fundadores do Primeiro Comando da Capital tiveram para criar a facção:

… uma forma dos excluídos amotinados moradores dos burgos medievais fazerem frente ao poder do príncipe ou do bispo formando irmandades (communitas).

A base desses amotinados seria o interesse mútuo de proteção e eram garantidos por um juramento (conjuratio), ou no caso da facção PCC, o batismo feito para que um integrante se torne “irmão”.

A psicóloga Silvia Ramos garante que a possibilidade da facção manter a ordem é superior ao do Estado de Direito, pois ninguém duvida de sua capacidade de ação.

A força da facção é uma característica típica das comunidades em contraposição com a da sociedade, essa última sim um um ser vivo marcado por forças silenciosas.

Facção PCC 15.3.3 unindo os que fogem da opressão

Os camponeses que fugiram da miséria e se juntaram nas cidades medievais no século 9.

Escravos libertos e exilados europeus empobrecidos que fugiram da miséria se juntaram nas favelas e nas periferias dos centros urbanos no início do século 18.

Seja nos séculos 9, 18 ou 21, essas pessoas empobrecidas eram consideradas “patologias sociais”.

Foram combatidos e mortos como pessoas preguiçosas e criminosas, mas foram eles que enterraram a Idade Média e forjaram a Era Industrial.

O Primeiro Comando da Capital assim como eles é tido como uma patologia social, e talvez o seja, mas não é o que pensa Durkheim.

Émile Durkheim, no entanto, afirma que não há como saber quando uma sociedade está no ponto de ruptura e quais serão os atores dessa mudança.

Sendo assim, ainda não podemos cravar se a facção PCC 1533 é uma relação social de ruptura ou patologia social, pois estamos cegos pela proximidade.

E vamos considerar os Crias do 15 heróis, criminosos dependendo dos interesses da classe social, das condições de vida e comunidade a qual pertencemos.

Texto publicado originalmente em 16 de agosto de 2016.

Primeiro Comando da Capital eleito pelos não eleitos

O Primeiro Comando da Capital foi eleito pelos não eleitos como força capaz de lutar contra as injustiças do sistema de Justiça.

Primeiro Comando da Capital e o mundo ideal e pacífico

O Primeiro Comando da Capital foi eleito pela parcela dos não “eleitos” para tensionar a ordem considerada por alguns como sendo a ideal e pacífica.

A organização criminosa PCC 1533 conquistou os corações não apenas do mundo do crime, mas de toda uma parte da sociedade alijada de seus direitos.

Enquanto uma parcela da sociedade defende que os “Direitos humanos para os humanos” — de forma a garantir seus direitos enquanto negá-os à outros.

Quando os “direitos humanos” deveriam ser inalienáveis para todos — não apenas para os “eleitos”, se bem que nunca foi em lugar algum.

Gerciel afirma que o mundo não é ideal e e nem pacífico

Gerciel Gerson de Lima, cujo artigo posto abaixo desse texto, lembra que a pena é um instrumento de vingança e castigo — nós só douramos a pílula.

Alguns tem seus corpos apropriados e dominados e pagam pelos seus erros quando condenados, enquanto outros não, estão acima do encarceramento.

Todos vimos poderosos cometendo crimes e sabemos que ficarão impunes, enquanto nas comunidades periféricas pessoas são aprisionados por quase nada.

Os pesquisadores Álvaro e Renato em seu artigo apontam que a criação do Primeiro Comando da Capital só foi possível graças a essa trágica realidade.

Alvaro de Souza Vieira Renato Pires Moreira
Análise de inteligência: das ações ideológicas disciplinares e correcionais promovidas pelo Primeiro Comando da Capital.

Sonhar é preciso, mesmo para os não eleitos

Essa camada alijada por uma parcela de seus direitos e até de seus corpos passaram a sonhar com paz, justiça, liberdade, igualdade e união.

Assim, a facção paulista foi reconhecida como defensora do sonho desses todos que não foram “eleitos” como estando acima do encarceramento.

Alguns julgam serem eles relevantes para a sociedade e justos, enquanto “outros” seriam aqueles que tensionam a ordem social considerada ideal e pacífica.

A organização criminosa PCC 1533 foi eleita por essa parcela dos não eleitos para sim, tensionar a ordem considerada por alguns como ideal e pacífica.

Cartilha de Conscientização da Família da organização criminosa PCC 15.3.3

Os mais abastados raramente são de fato punidos pela lei

Tem sido usual no seio social, a opinião no sentido de concepção da pena como instrumento de vingança e castigo, assim poucos se lembram de que a finalidade da pena é retributiva, preventiva e ressocializante, conforme consta da própria Lei de Execuções Penais, sendo defendida pela maioria dos doutrinadores, é a teoria da finalidade utilitária da pena, daí a necessidade de vinculá-la à coação, na condição de resposta a algo ou a determinado fato.1

Porém, o que não se pode desconsiderar é que a pena, pelo menos no que diz respeito ao direito penal, é um exercício de poder do homem sobre o próprio homem.

Já fizemos breve exposição sobre a pena, baseada em Michel Foucault, no que diz respeito à questão do suplício, que nada mais é do que uma pena na qual a coletividade se “apropria” do corpo do condenado como forma de dominação e repressão a ações contrárias ao status quo estabelecido àquela época.

É incoerente afirmar que a pena será maior ou menor, mais ou menos intensa, de acordo com o contexto histórico em que é definida e aplicada.

A prisão como forma de protejer as elites

Vera Malaguti Batista2  instrui a questão explicando que “na primeira metade do século XIX, a possibilidade de rebeldia começa a assombrar as elites.

Os números de delitos contra a propriedade aumenta desde o final do s éculo XVIII”, haja vista que “as necessidades da burguesia modelaram amplamente as funções de defesa social do direito penal, e mantiveram as antigas diferenciações de classe da legislação penal.

E completa a autora explicando que a prisão se converte na pena mais importante de todas no mundo ocidental.

Essas penas tomaram diversas formas e gradações de acordo com a gravidade do delito e com a posição social do condenado.

Fica de fácil apreensão, neste contexto, que a pena não atinge a todos de forma igualitária, já que, como exposto anteriormente no caso das prisões, os mais abastados raramente sofrem as conseqüências na prática de determinado ilícito e, assim, a pena não cumpre qualquer papel no que diz respeito à restauração da justiça.

Camila Cardoso de Mello Prando3 complementa o assunto lecionando ser praxe entre os historiadores, que o “controle punitivo se desenvolve em consonância às mudanças estruturais relativas ao novo sistema econômico e político capitalista”, completando a discussão ao expor que “o foco principal recai sobre o surgimento das prisões enquanto punição central desta nova forma de controle.”

Até aqui é possível conceber uma ideia básica a respeito da pena, mas também é necessário entender que, aliada à norma, ela tem a finalidade de tutelar os bens jurídicos garantidos pelo Estado.

Juridiquês para justificar o injustificável

Em outras palavras, seu caráter repressor busca impor aos agentes que compõem o tecido social o alerta de que o desvio de conduta nas normas pré-estabelecidas será punido e, dessa forma, tenta evitar o aviltamento dos referidos bens, mas aqui novamente se torna necessário expor a fragilidade de tal conceito, uma vez que a pena não tem caráter erga omnes, pelo menos no que diz respeito à posição social do criminoso.

Todavia, há que se destacar como fator principal deste tópico o caráter de retribuição e ressocialização da pena. Para isso basta uma simples consulta ao Código Penal brasileiro, especificamente em seu artigo 59, para compreender que:

O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime:

I – as penas aplicáveis dentre as cominadas;
II – a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos;
III – o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade;
IV – a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível.

Fonte e Biografia

Este texto é um trecho da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, do Dr. Gerciel Gerson de Lima, sob orientação da Professora Doutora Ana Lúcia Sabadell da Silva do Núcleo de Estudos de Direitos Fundamentais e da Cidadania em 2009 – SISTEMA PRISIONAL PAULISTA E ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: A PROBLEMÁTICA DO PCC – PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL.

  1. Cf. JAKOBS, Günther; MELIÁ, Manuel Cancio. Direito penal do inimigo: Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p.22.
  2. BATISTA, Vera Malaguti. Difíceis ganhos fáceis. Rio de Janeiro: Renavan, 2003. p.46.
  3. PRANDO, Camila Cardoso de Mello. A contribuição do discurso criminológico latino-americano para compreensão do controle punitivo moderno: controle penal na América Latina. In: Veredas do Direito.  Belo Horizonte: Escola Superior Dom Helder Câmara, jan.-jun. de 2004. p.79.

Pacificação: a paz entre entre ladrões

A paz entre os ladrões foi conquistado pela pacificação do Primeiro Comando da Capital após o massacre do Carandirú.

A Pacificação PCC como gestora da “paz entre ladrões”

Paz entre ladrões é uma missão impossível, apesar de teóricos imaginarem há milênios formas de controlá-los…

Estamos no ano 1993 depois de Cristo. Todo o mundo do crime está em guerra… Todo? Não! Uma Casa de Custódia povoada por irredutíveis sobreviventes do Carandiru ainda resiste ao opressor.

Se considerarmos apenas nossa realidade recente podemos ver duas experiências bastante distintas: a do Regime Militar e os do Período Democrático:

Conheça a Carta do PCC ao Mundo do Crime de 3 de agosto de 2017

Quem poderá trazer a pacificação ao mundo do crime

Ambos os regimes tentaram cada um a seu modo controlar, sem sucesso, a violência nas comunidades dominadas pelo crime.

… o governo, não conhece a realidade das cadeias, o PCC criou raízes em todo o sistema carcerário paulista.

Nas prisões, diretores ultrapassados, da época repressão, tentavam resolver o problema de maneira que em foram doutrinados: porretes, choques, água fria, porrada…

Não foi suficiente. Em menos de três anos, já eram três mil. Em menos de dez anos, 40 mil.

Carlos Amorim

Álvaro e Renato, policiais e pesquisadores, afirmam que foi aí que o a facção PCC 1533 aproveitou a lacuna deixada pelo poder público.

Análise de inteligência: das ações ideológicas disciplinares e correcionais promovidas pelo Primeiro Comando da Capital — Álvaro de Souza Vieira e Renato Pires Moreira

A paz entre ladrões só pode vir de dentro para fora

Aqueles criminosos conheciam e se fizeram ser respeitados nas comunidades em que estavam inseridos: nas carceragens, nas comunidades periféricas e no mundo do crime.

Esses grupos, por milênios, foram excluídos do controle social do Estado, sendo deixados à própria sorte para viverem sob o julgo dos mais fortes.

Nesse meio o Primeiro Comando da Capital assumiu a “gestão da violência”, dentro do conceito aceito do “monopólio do uso da força pelo Estado”.

Gabriel Feltran nos conta que as comunidades periféricas, criminosas ou carcerárias, terminaram se adequando às normas da facção e não colaborando mais com a polícia.

Assim, um modo específico de gestão do uso da violência nas interações entre a polícia e o crime é estabelecido. Não existe agressão física, tampouco troca de tiros ou enfrentamento, mas um conflito ‘contido’ inserido numa esfera de interação discursiva voltada ao alcance de acordos financeiros.

Indaiatuba SP: um exemplo prático da paz entre ladrões

Em 27 de fevereiro de 2012 produzi um dos primeiros artigos onde descrevi a pacificação promovida pelo Primeiro Comando da Capital em uma comunidade periférica:

Edgar Allan Poe ensinava que existia uma forma correta para se açoitar uma criança: devia ser da esquerda para a direita.

O escritor explica a razão:

Todas as pancadas devem ser na mesma direção para lançar para fora os erros, mas cada pancada na direção oposta, soca para dentro os erros.

Talvez ele tenha razão.

Apesar das surras impostas pela sociedade, o tráfico de drogas e o crime se mantêm fortes e robustos.

Passamos pelo Regime Militar e pela Redemocratização e, com lágrimas nos olhos, vejo que não há mais esperança para o problema: falhamos.

Açoitamos a criança em todos os sentidos, e não em uma única direção como Allan Poe orientou.

E em rebento crescido não haverá açoite que possa ser dado pelo sistema policial e jurídico que surta qualquer efeito, o mal feito está feito.

Só nos cabe abaixar a cabeça e apreciar a divisão dos despojos entre os criminosos que se organizaram e se fortaleceram sob nossos próprios açoites.

continua após o mapa…

Diálogo entre ladrões: assim fundiona a paz entre ladrões

Esse diálogo trocado sobre um conflito no Morada do Sol demonstra como a organização criminosa gere os conflitos de maneira natural e com profundo conhecimento:

Edson Rogério França, o “Irmão Cara de Bola”, “Torre” da organização criminosa em Indaiatuba conversa com Willian do bairro Morada do Sol.

Willian Neves dos Santos Vieira, o “Irmão Sinistro”, é soldado da facção criminosa e morador da rua Custódio Cândido Carneiro no bairro:

— O espaço que tem lá na rua 59 é bom, é meu e do Mateus, tá ligado irmão? O irmão Matheus, conhece o Matheus? — pergunta Sinistro.

— Não, não conheci. Você fala o do trailer?

— Não irmão, lá embaixo na 59, lá embaixo, no trailer é o Marcelo, é outro menino, inclusive ele pega mercadoria de ti. — explica Sinistro.

— Não, de mim não. — se defende Cara de Bola.

— O sol brilha para todos, tenho este espaço lá há mais de treze anos. Agora, um menino meu estava precisando de uma força e eu ajeitei um canto para ele fazer a caminhada, e o Cláudio agora está ameaçando matar a mulher dele. Pô, o Cláudio é prá cá, eu sou mais prá lá, pro fundão, sou lá do lado da rua 80 e da rua 78. Já o TG do CECAP é firmeza.

Tribunal do Crime do PCC – o mediador aceito

Eu não conheço o Cláudio, portanto eu não posso afirmar que ele tenha sido açoitado quando criança do lado certo ou errado.

O que sei é que ele também negocia as drogas do Primeiro Comando da Capital e, portanto, deve ter tido as mesmas aulas que os outros criminosos.

Cláudio teve que prestar contas de sua atitude. Ele já estava sem saber em análise por suas atitudes.

Outro dia ele foi mostrar uma pedra de crack para Keiti Luis Von Ah Toyama, o “Irmão Japa”, mas este não gostou, disse que era um pouco melada.

Cláudio explicou que é a mesma que não é a da boa, é da comercial, a mesma que vende em suas lojas:

— Se quer quer, se não quer não quer, é R $10,50 a grama, é pegar ou largar.

Seja como for, as crianças cresceram e aprenderam a brincar sozinhas, agora não adianta mais bater do lado certo e nem reclamar o leite derramado.

Cláudio foi julgado por quem obteve o direito de impor as regras naquele local aproveitando a omissão do Estado.

Conheça o Dicionário do PCC (Regulamento Disciplinar da facção)

Ideologia do Primeiro Comando da Capital

A ideologia do PCC 15.3.3, ou a ideologia da “Família 1533”, é peça fundamental na criação da imagem dessa organização criminosa.

Ideologia PCC: buscando aceitação social

A ideologia do PCC 1533 e a criação de uma imagem forte como um grupo que luta pela “Paz, Justiça e Liberdade” garantiu sua aceitação social.

Como explica István Mészáros em “O Poder da Ideologia”, o termo
Ideologia não deve ser tratada de maneira preconceituosa ou vista através de paradigmas morais.

Mas sim, ancorada e sustentada na consciência de sua aceitação social, — onde, definitivamente, o Primeiro Comando da Capital está ancorado e sustentado.

Facção PCC 1533: pode rir, mas não desacredita não

Muito se subestimou e até hoje se subestima a capacidade intelectual dos integrantes do mundo do crime, mas isso é resultado de um errôneo prejulgamento.

De acordo com estes, os criminosos não teriam capacidade de estruturar uma ideologia e um contrato social capazes de sustentar uma organização criminosa transnacional poderosa.

… Subestimado pelo governo, que não conhece a realidade das cadeias, o PCC criou raízes em todo o sistema carcerário paulista.

Nas prisões, diretores ultrapassados, da época repressão [no regime
militar], tentavam resolver o problema de maneira que em foram doutrinados: porretes, choques, água fria, porrada…

Não foi suficiente.

Em menos de três anos, já eram três mil. Em menos de dez anos, 40 mil.

Carlos Amorim

Mas foi assim, pairando por sobre o descrédito daqueles que deveriam estar atentos ao crescimento e fortalecimento da facção criminosa que o PCC alçou voo.

Pode rir, ri, mas não desacredita, não
É só questão de tempo o fim do sofrimento
Um brinde pros guerreiro, zé povinho eu lamento
Vermes que só faz peso na Terra
Tira o zóio, tira o zóio, vê se me erra

Racionais MC’s

Facção PCC 1533: crescendo sob a descrença

O deputado estadual por São Paulo Afanásio Jazadji tentou de todas as maneiras alertar as forças de Segurança para o crescimento da organização criminosa paulista:

Nossas autoridades das áreas de segurança e sistema prisional não deram crédito àquelas constatações, chegando mesmo a ridicularizar a nós, integrantes da CPI da Assembléia Legislativa que investigava o Crime Organizado no Estado, como se estivéssemos mal informados ou “vendo fantasmas”.

E enquanto isso, a facção criminosa ia crescendo e se fortalecendo.

Ideologia do PCC: aceitação social ou capitalismo puro?

Os pesquisadores Álvaro de Souza Vieira e Renato Pires Moreira analisam o crescimento do PCC sob o conceito do metabolismo social de Karl Marx.

Análise de inteligência: das ações ideológicas disciplinares e correcionais promovidas pelo Primeiro Comando da Capital

Já li análises do PCC como ente econômico, mas pesquisadores analisando as liderança da facção sob a lógica da acumulação e expansão contínuas, definitivamente não.

A formação da ideologia estaria vinculada a essa criação de um domínio capitalista do mercado criminal aproveitando-se de mão de obra barata da massa carcerária.

Facção PCC 1533: mecanismo de criação do crime organizado

Um grupo do crime organizado não nasce com propósito criminoso. Pode parecer incrível, mas o Primeiro Comando da Capital está aí para provar essa teoria.

Crime Organizado: que mecanismo o gera?

O Primeiro Comando da Capital (PCC 15.3.3) não foi sonhado e criado para ser uma organização do crime organizado.

Tudo começou no cárcere em 1992 com o fato mais bárbaro, cruel, e covarde: o massacre de 111 detentos no Carandiru, por Policiais Militares…

Cartilha do PCC – Conscientização, união e família

No entanto, o sonho de uns virou o pesadelo de muitos em três continentes, mas a culpa não pode ser atribuída aos sonhadores.

O sonho presente na criação do PCC também é o seu maior pesadelo: enfrentar o sistema carcerário que, quanto mais duro, mais forte o torna.

Sistema Penal X Sistema Prisional — Razão X Emoção

Se alguma dúvida restava quanto a esse ponto, tive certeza ainda mais quando li o artigo de Alvaro de Souza Vieira e Renato Pires Moreira.

Pois é o que os dois policiais e pesquisadores mineiros dão a entender em artigo publicado na Revista Científica de Segurança Pública da PM-RN:

Análise de inteligência: das ações ideológicas disciplinares e correcionais promovidas pelo Primeiro Comando da Capital.

… não se pode precisar sobre a origem das instituições criminosas. Todavia, algumas organizações surgiram da necessidade das pessoas em se reunir, não objetivando – ordinariamente – a prática de crimes, e sim, como tática para o combate de possíveis desigualdades sociais vigentes, em tese, pactuadas pelo Estado.

Alvaro de Souza Vieira e Renato Pires Moreira

Mas os pesquisadores não se referiram à atuação da Polícia Militar de São Paulo, que com sua ação no Carandiru gerou a facção PCC.

Apesar dos policiais militares negarem a paternidade do Primeiro Comando da Capital, três acadêmicos afirmam que eles são os pais da criança.

PCC um filho indesejado da PM-SP

Tão pouco a direção da Casa de Custódia de Taubaté quando autorizou o jogo de futebol entre os presos que gerou a facção PCC 1533.

… Rato foi morto por Cesinha: a primeira semente jogada ao solo fértil utilizando o método que seria imortalizado na fundação oficial da facção criminosa.

O neoliberalismo e a facção PCC 1533

Na realidade, se refere aos fundadores do Partido do Crime da Capital (PCC), que desceram para campo naquela tarde de chuva em 1991, no Piranhão.

Aqueles oito presos entraram em campo capitaneados por José Márcio Felício, o Geleião, para defender o time da Capital contra o time do Partido Caipira.

Sob fortes provocações mútuas, tais como “Eu vou beber teu sangue”, a rixa inicial degenerou em um briga sangrenta na qual cabeças rolaram (literalmente).

Afinal, quanto mais sangrento, o simbolísmo da ruptura passa a ser mais marcante e duradouro.

Organização criminosa PCC: uma parto difícil

Como afirmaram Álvaro e Renato, aqueles homens não começaram aquele dia o mais poderoso grupo do crime organizado sul-americano com o objetivo criminoso.

Chegaram para aquele jogo após uma série de crimes cometidos pelo Estado e seus representantes e, naquele dia, com a conivência da direção do Piranhão.

… e saíram dos presídios passando a aplicar fora das muralhas o que aprenderam lá dentro:

“sozinhos somos fortes, unidos somos invencíveis”, “todos contra um”, e “até a última gota de sangue”.

Tudo para defender os irmãos contra a opressão do Estado.

Pesquisa sobre o Primeiro Comando da Capital

Crime organizado uma como soma de erros

A direção imaginou que os “Caipiras” eliminariam os remanescentes do Massacre do Carandiru, sepultando de vez os rebeldes que buscavam melhoria nas condições carcerárias.

… já atuando como advogado foi possível constatar in loco, a situação de calamidade por que passam as instalações e condições carcerárias do sistema penal.

O PCC como fruto das condições carcerárias.

Deu errado. A Polícia Militar de São Paulo, a diretoria do presídio, e aqueles oito presos não pretendiam, mas criaram o Primeiro Comando da Capital.

Afinal, se Georges Balandier teorizou, foi o octógono de Geleião que tornou real as imagens, as construções simbólicas e as narrativas míticas da facção PCC.

Tudo começou naquele jogo, mas os elementos construtivos da dominação foram se agregando: a sua fundação, o batismo e as execuções de inimigos e traidores.

A História lentamente se desenrola diante de nossos olhos. Precisamos apenas olhar e compreender de onde vêm e para onde vai e que mecanismo move.

Carta para o mundo do crime do país

Carta ao mundo do Crime é um documento do Primeiro Comando da Capital dirigida a outros criminosos que não façam parte da facção PCC 1533.

Comunicado do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533)

O Primeiro Comando da Capital vem deixar a todos os criminosos do país cientes que o nosso objetivo de expansão pelos estados tem por prioridade fortalecer o crime contra a opressão, covardia e inveja imposta dentro e fora do regime prisional.

Não buscamos inimizades de ninguém, muito pelo contrário, somos capazes de unir forças e buscar nossos objetivos em prol de todos.

Faremos tudo para os fracos contra os oportunistas. Somos um obstáculo para as intenções capitalistas.

Não deixaremos de aplicar nossa ideologia por vantagem nenhuma que não seja proporcionada ou por qualquer obstáculo no caminho.

Estamos vivendo tempos conturbados onde facções e oposição estão se manifestando contra inocentes para protestar nossa evolução.

Lamentavelmente as ações covardes estão sendo investidas de maneira cruel contra pessoas que não tem nenhuma responsabilidade.

Temos como exemplo:

  • a execução sumária de uma senhora tetraplégica no Rio grande do Norte por ser mãe de criminoso;
  • pais de integrantes do PCC são assassinados por nada no Maranhão;
  • uma menina de 14 anos em Santa Catarina assassinada somente por ser ADMIRADORA e ai vai…

Temos vários atos covardes a citar, esses estão violando o direito ao inocente agindo covardemente sem escrúpulos e sem razão.

Não entendemos esses comportamentos e tão pouco aceitaremos passivos, mais ao nosso ver esses tipos de atentados a pessoas inocentes só demonstrão a fraqueza, postura, e falta de objetivo dentro do crime.

Para estes a resposta chegará na direta e será implacável.

Estamos espalhados pelo país, somos mais de milhares integrantes em busca de Liberdade, Paz, Justiça, União e Igualdade.

Vivemos a realidade de cada estado e nos envolvemos na necessidade de encontrar soluções de igualdade para todos.

Não aceitamos a desigualdade do maior para o menor.

Para nós, todos estão envolvidos numa conquista entre direitos e deveres.

Muitos criminosos estão em São Paulo nas cadeias que predominamos, e tudo que precisam tem nosso apoio, pois o lema Igualdade é aplicada na íntegra sem extinção.

Respeitamos todas as facções criminosas que respeitam a igualdade, fizemos amizades, lutamos em batalhas em prol de objetivos comuns a todos.

Conquistamos o respeito e respeitamos a todos em todos os espaços. Não forçamos ninguém a nos seguir, apenas damos exemplos de como pensamos e agimos.

Assim, nossas fileiras crescem cada dia mais, pensamos que nossos inimigos são aqueles que dirigem e impõem as regras no sistema e a polícia nas ruas.

Contra esses somos sempre ousados e abrimos portas para atingi-los. Nossa forma de lutar contra esses é direta e não procuramos atingir aleatoriamente desferindo o patrimônio que a própria população carente necessita.

Nosso alvo é o opressor e contra esses, unimos toda nossa inteligência e violência: não colocamos fogos em escolas ou carro de populares que no amanhã prejudica e só prejudicaria quem se utiliza desse serviço, nesse caso é a população.

Aprendemos com nossos erros e acertos, nosso alvo é direto: o opressor.

Não se conquista com patifarias a população, que tem crescido nos estados onde outras facções sem ética tem tomado lojas, morros, favelas, e aterrorizando pessoas que não são do crime.

Eles visam somente o poder. Aprendemos que o alvo é o opressor e representante contra esses vai toda a fúria.

Deixamos claro que respeitamos aqueles que merecem respeito do crime e continuaremos a crescer e fortalecer os que nos respeitarem de igual.

Mostrarmos que somos capazes de fortalecer o crime e trataremos sempre com a igualdade todos criminosos que defendem a ideologia do Primeiro Comando da Capital.

Estaremos juntos para lutar contra todos opressores, somos de cobrar diretamente das forças opressoras.

Acreditamos nessa resposta. Onde estamos não importa a região e o número de integrantes, a polícia e os agentes do governo sabem que não terão paz conosco se não nos respeitarem como seres humanos, com tudo.

O Primeiro Comando da Capital está progredindo e cada vez mais enxergamos o quanto estamos no caminho certo.

Deixamos o nosso respeito a todos integrantes, amigos, companheiros e conhecedores da nossa filosofia e nos colocamos à disposição para qualquer esclarecimento.

Um abraço para todos.

Comunicado distribuído pelo Geral das Trancas do MS em 3 de agosto de 2017 nas redes sociais da facção e publicao no site aconteceuemitu.org

A facção criminosa brasileira PCC e a uruguaia PCU

A facção criminosa Primer Comando Uruguayo (PCU)

A facção criminosa Primeiro Comando da Capital atua no Uruguai em parceria com grupos criminosos locais, como o Primer Comando Uruguayo (PCU).

O PCU é a responsável pela logística e segurança do esquema de parte do tráfico do PCC em território uruguaio.

A apreensão de grandes carregamentos de drogas, oriundos do Uruguai, em diversos portos pelo mundo comprova a existência dessa rota alternativa de tráfico do PCC 15.3.3.

Uma menor rigidez na fiscalização fizeram do porto de Montevidéu uma opção para suprir o mercado europeu com as drogas colombianas.

Já na Argentina, a principal rota ligando ao Paraguai é a hidrovia do rio Paraná-Paraguai, que possui poucos controles em ambos os lados da fronteira, mas um complexo nível regulatório para controlar as barcaças.

Normas internas del Primer Comando de la Capital PCC — el grupo criminal PCC 1533

facção criminosa envia drogas da América do Sul para a Europa.

Desde junho de 2020, as autoridades uruguaias reconhecem a presença da organização criminosa paulista, atuando em parceria com grupos locais.

facções aliadas, neutras e inimigas do PCC

Essa união entre criminosos permitiu cooptar ou coagir os agentes públicos responsáveis pela repressão e de Justiça através de bombas, ameaças, sequestros, e subornos.

facção criminosa mata militares em base naval de fortaleza de cerro

O assassinato sem precedentes de três soldados no Uruguai, alerta para a ousadia crescente dos criminosos em um país há muito considerado um dos mais seguros.

No início da manhã de 31 de maio, foram localizados os corpos de três soldados que foram executados na base naval de Fortaleza de Cerro, em Montevidéu.

Uruguai: Primeiro Comando da Capital reposicionando o crime

Em três anos, o Uruguai deixou de ser um paraíso para lavagem de dinheiro para ser um importante entreposto para o tráfico internacional.

O Primeiro Comando da Capital passou a usar o Uruguai como interligação entre a Colômbia, o Paraguai e a Bolívia à Europa.

O porto de Santos continua sendo a principal saída do PCC, mas recentemente abriram outras rotas, como a Hidrovia ou o porto de Montevidéu.

Clarìn

Manifesto del Primer Comando Capital — el organización criminal brasileña PCC 1533

PCC-PCU é resultado da Política Carcerária do Uruguai

O PCU é resultado da política de Segurança Pública latino-americana de encarceramento em massa, que lotam as prisões com uma massa amorfa.

As prisões sul-americanas passaram a ser centros logísticos, de treinamento e doutrinação do Primeiro Comando da Capital.

O aprisionamento em massa sem critério de separação por periculosidade e faixa etária, permitiu que em 2009 o Primer Comando Uruguayo estivesse atuando depois de poucos meses em contato com facciosos brasileiro e paraguaios dentro das prisões uruguaias.

Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing explicam que dentro dos presídios e no meio de milhares de soldados prontos para serem doutrinados na filosofia e nas estratégias da organização fica fácil para as chefias da facção ficarem protegidas de seus inimigos e se dedicarem ao gerenciamento dos negócios da facção.

Como o PCC chegou a outros países sul-americanos

Estatuto del Primer Comando Capital PCC 1533— el banda criminal brasileña PCC 1533

A morte do Promotor de Justiça e a facção criminosa PCC 1533

O cerco contra a facção criminosa Primeiro Comando da Capital se fecha na medida em os envolvidos estão sendo presos.

Capturade em El Salvador aproxima facção criminosa do crime

A facção criminosa Primeiro Comando da Capital (facção PCC 15.3.3) ordenou o assassinato do promotor de Justiça Marcelo Pecci do Ministério Público do Paraguai — é o que acreditam as autoridades dos diversos países.

O crime ocorreu no dia 10 de maio de 2022 na praia de Barú, na província de Cartagena, na Colômbia, onde o funcionário do governo paraguaio aproveitava sua lua de mel quando dois homens invadiram a praia particular em jet skis e dispararam contra o promotor.

Marcelo Pecci se destacou no combate ao tráfico internacional de drogas geridas pela organização criminosa PCC 1533 oriundas do Paraguai, passando pelo Brasil com destino a Europa.

Os irmãos Andrés Felipe e Ramon Emilio Perez Hoyos foram presos crime ainda em solo colombiano, e agora foi capturada em El Salvador Margaretha Chacón Zúñiga, uma colombiana que teria participado da organização do atentado.

Juntamente com ela, um cidadão de El Salvador, Vibert Giovanni Rodrigues, foi detido por ajudar na fuga e ocultação de Margaretha. No entanto, ainda não há provas apontando os mandantes ou o envolvimento da organização criminosa paulista.

reportagem completa no Los Angeles Times

O fantasma da organização criminosa paulista PCC 1533

A organização criminosa Primeiro Comando da Capital sendo utilizada para desestabilizar governos e instituições pelo mundo.

A política e a organização criminosa PCC 1533

O que a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC 15.3.3) tem em comum com a obra “Os Ladrões” de 1857 de Orest Isaakovich Timashevsky que ilustra no site IA Primavera Vermelha (ИА Красная Весна) o artigo “No Chile, anunciaram a entrada de membros de gangues do Brasil no país”?

Grupos criminosos há muito são usados para encobrir as reais intenções de grupos políticos e a facção criminosa PCC 1533 é a desculpa da vez para justificar a corrosão do sistema democrático e das instituições.

O Ministro Alexandre de Moraes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) obteve o bloqueio da aposentadoria e de bens de Roberto Jefferson, ex-presidente do PTB, para garantir o pagamento de uma indenização no valor de R$ 144 mil por ter vinculado o nome do juiz à facção criminosa paulista.

Jefferson é uma peça que faz parte de um mecanismo de ataque que vincula o inimigo político a fantasmas com grande poder de assombro no imaginário popular como: o comunismo, as pautas morais e religiosas, e inimigos externos como a Venezuela e Cuba, ou o Primeiro Comando da Capital.

O PCC como ferramenta de ataque as instituições

Tenho como foco de estudo o PCC e acompanho há anos esses ataques, no entanto, nesses últimos 15 dias me surpreendi com a avalanche de réplicas dessa mesma acusação aparecendo em diversas partes do mundo quase que simultâneamente tanto nas redes sociais quanto na imprensa tradicional.

Grupos políticos de direita unificaram o discurso que a esquerda e o Judiciário estão em conlúio e sendo financiados pela organização criminosa.

Se houve ou não houve prisões de integrantes da facção durante o governo não faz diferença, há sempre um discurso pronto para justificar o envolvimento.

Quando a presidente Dilma Rousseff apresentou uma apreensão recorde de drogas do Primeiro Comando da Capital, o então deputado Jair Bolsonaro afirmou que aí estava a prova do aumento do tráfico de drogas e que “todos sabem como funciona”, apontando ao procedimento de deixar cair parte da mercadoria para afagar a polícia.

Anos depois, já presidente, Jair Bolsonaro bateu um novo recorde de apreensão de drogas do Primeiro Comando da Capital, e então? Isso seria prova do aumento do tráfico e o envolvimento das autoridades como ele mesmo afirmou poucos anos antes?

PCC uma ferramenta que se provou eficiente

O modelo de ataque às instituições, governos e políticos, no entanto, funcionou perfeitamente.

Para o público a que foi dirigido a realidade não importa, os partidos e políticos de esquerda ficaram marcados como tendo envolvimento com a facção paulista e esse discurso segue sendo repetido cotidianamente.

Assim, as decisões de Alexandre de Moraes não tem respaldo, pois ele advogaria para a facção PCC e Lula enfraquecerá as Forças Armadas e mudou os diretores da Polícia Federal e Polícia Rodoviária para impedir que atuem contra o Primeiro Comando da Capital.

Exportando o modelo comprovadamente eficiente

O czar Alexandre II governante de todas as russias em 1857 inaugurou uma colônia penal em Sacalina no extremo oposto de seu império enquanto Timashevsky entregava sua obra “Ladrões” no coração da Europa.

O Timashevsky era filho de servos e foi libertado sob os ventos da humanização das relações trabalhistas e sociais promovidas pelo imperador Alexandre II.

O governante russo enfrentou os gravíssimos problemas sociais e agrários derivados da política de servidão implantada 208 antes e garantiu a liberdade da servidão para os homens do campo, a liberdade de imprensa e das artes.

Não temos como não ver relação entre a Rússia de 1857 e o Brasil de 2023, assim como não temos como não ver que a transformação do Primeiro Comando da Capital de um problema policial em uma ferramenta de manipulação política.

Uma falácia do Brasil para o mundo

Por aqui os grupos de extrema direita vincularam com sucesso a imagem das instituições na organização criminosa paulista e esse mesmo modelo está sendo replicado em todos os países do continente americano, África e agora Europa.

Apesar do Paraguai e Uruguai, cujos governos estão alinhados com a direita, serem referências na expansão da organização criminosa, pouco se explora a proximidade política dos governos e instituições, ao contrário de Portugal ou do Chile.

Argentina

Douglas Farah afirma que grande parte do poder do casal Zamora vem da proteção que recebem de Cristina Kirchner, em termos políticos e fiscais, e a ela fornecem base não apenas no campo político. Dessa forma e por esse tortuoso caminho, o periódico La Nación repercutiu o trabalho do pesquisador que, “em tese”, vincula a vice-presidente Argentina à organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

Bolívia

A execução de duas pessoas em um confronto entre criminosos e a morte de um sargento durante uma operação da Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (Felcn) em San Ignacio de Velasco, Santa Cruz. e um colombiano ex-combatente das FARC no Parque Noel Kempff, além de prisões de integrantes da facção PCC e CV próximos a fronteira brasileira justificariam a interveção do DEA segundo a oposição de direita que há poucos anos tentou um golpe e a Comunidad Ciudadana (CC), uma coligação política de centro liderada pelo ex-presidente Carlos Mesa.

Chile

Sr. @gabrielboric CHILE va directo a la Xenofobia TOTAL y la AUTODEFENSA contra la delincuencia extranjera.Como no se da cuenta? DEBE ACTUAR RÁPIDAMENTE Y DAR UNA SOLUCIÓN AHORA YA o tendrá un regadío de muertes en las calles de criminales extranjeros #SantiagoAgoniza #expulsion pic.twitter.com/WW0DNQUrl9— Crva 🇨🇱🇨🇱🇨🇱 (@Crva_01) December 2, 2022

Portugal

El aeropuerto de Países Bajos que se posiciona como el punto de llegada de las drogas mexicanas, el juicio de Genaro García Luna en EE. UU. y el análisis sobre el control del PCC en el narcotráfico en Portugal.

Esto fue lo más leído de la semana en https://t.co/101plggnNb 🧵👀 pic.twitter.com/Vmlcx8johR— InSight Crime Español (@InSightCrime_es) January 23, 2023

O futuro a Deus pertençe, ou talvez não

A história talvez não se repita, no entanto, estamos vendo o filme sendo passado novamente em outros prados. A evolução social que ora se processa em vários países pode ser barrada por uma narrativa.

Alexandre II foi morto em um atentado e as reformas por ele implementadas em muito se perderam. Ao escolher a obra de Timashevsky de 1858, quais foram essas as ligações vistas pelos editores do site IA Primavera Vermelha? Seriam essas?

Foragidos do Primeiro Comando da Capital estão em Portugal?

Foragidos da Organização Criminosa Primeiro Comando da Capital teriam Portugal como opção para se abrigar.

PCCs foragidos da Justiça: um novo destino

Foragidos integrantes das facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC 15.3.3) e Comando Vermelho (CV) estão se escondendo em Portugal — essa hipótese entrou no radar das autoridades lusas após a prisão de alguns integrantes do PCC.

Portugal pode parecer uma escolha óbvia pela facilidade linguística e por ser um ponto de interligação dos países africanos que servem de entreposto de distribuição de drogas vindas da América do Sul para a Europa, mas nem sempre foi assim.

A mudança ocorre pela soma de vários fatores: fugitivos com mais dinheiro; o aumento da importância de Portugal como porta de entrada do tráfico na Europa; e os entraves na legislação lusitana para o repatriamento de brasileiros.

Não é apenas em Portugal que as autoridades estão em alerta por causa da presença de pelo menos 40 integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) em território luso. Representantes do sistema de segurança dos países que integram a União Europeia não descartam uma possível guerra entre a maior organização criminosa brasileira com traficantes mexicanos que têm criado bases na Espanha.

Rosana Hessel para o Correio Brasiliense

Portugal e suas vantagens aos fugitivos do PCC 1533

Os destinos escolhidos dos foragidos da Justiça brasileira eram principalmente o Paraguai e a Bolívia, e em menor número, para outros países do Cone Sul. Para a África, Moçambique e Angola, e para Europa, Portugal e Espanha, iam os mais estruturados, os que tinham conhecidos por lá ou aqueles que pretendiam construir alguma ponte comercial.

No início, os PCCs que iam para o Paraguai fugindo das autoridades brasileiras chegavam aos poucos, apenas para se esconder, mas hoje é diferente: quem chega já tem trabalho garantido:

“El Primer Comando Capital” é o maior grupo armado atuando naquele país, e possui infraestrutura, armas, muita grana, plantações de maconha, distribuidoras de cigarros, está presente em todas as prisões do país, e influência na política.

A facção PCC 1533 no nordeste do Paraguai

No entanto, as operações conjuntas entre os policiais do setor de investigação e os de imigração e fronteiras perceberam um aumento significativo a partir do final de 2022 no número de fugitivos.

São cada vez mais evidentes os indícios de que brasileiros condenados no Brasil e foragidos da justiça se escondem em território português e que integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) já montaram bases do outro lado do Atlântico.

Vicente Nunes para o Trend Detail News: Portugal seeks Brazilian fugitives hiding in the country

Bolívia: a facção PCC e o grupo criminal los Choleros de Pando

A disputa entre as organizações criminosas pelo controle do tráfico na fronteira entre o Brasil, o Peru e a Bolívia.

O banda criminal los Choleros disputa o estratégico eixo de tráfico de drogas do Departamento boliviano de Pando com o Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e facção carioca Comando Vermelho (CV).

O interesse do PCC na Bolívia começou em 2007 com o objetivo de estabelecer relações com narcotraficantes bolivianos e foi implementada inicialmente por aproximadamentes 100 integrantes da facção.

jornalista Allan de Abreu

Pando faz fronteira com o Acre, Rondônia, e Peru, além de dar acesso ao centro da Bolívia — controlar essa rota reduz o custo do tráfico devido ao menor risco de perda da liberdade, de investimentos e de vidas.

A capital Cobija se localiza ao lado dos núcleos urbanos brasileiros de Brasiléia e Epitaciolândia, e as organizações lutam também para tomar o controle do comércio local, como ilustra artigo do El Dia:

A comerciante boliviana Maria Eugenia Alavi Burgoa foi assassinada no Mercado Municipal de Epitaciolândia, (…) o crime teria sido executado pela facção Bonde dos 13 (B13) [até então] aliada do PCC. Ela levava produtos de Antofagasta (via El Alto) para a Zona Franca de Cobija e trocando com artigos brasileiros…

Explicando outro caso investigado, o chefe de polícia de Pando explica:

Há conflitos entre essas facções criminosas e eles cometem pistoleiros e acertam contas. Os Choleros se dedicam ao narcotráfico para ter controle ou poder.

Cel. Julio Monroy

O contexto da discórdia: Choleros, PCCs, B13s e CVs

O repórter Ivan Alejandro Paredes (El Deber) no artigo “Choleros, la mafia pandina que declaró la guerra al PCC y Comando Vermelho” que os Choleros se especializaram em aliciar jovens e adolescentes para atravessarem as fronteiras brasileiras com drogas, especialmente cocaína, mas agora o grupo disputa o controle e o poder territorial.

A organização criminosa paulista se associa às famílias e grupos locais bolivianos, seguindo a estratégia elaborada por seu líder Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, que privilegia a construção de alianças baseadas em interesses comuns econômicos e de sobrevivência.

conheça o arco de alianças e de inimigos da facção PCC

A aliança com o PCC não vingou em Pando

Dentro desse contexto, como entender a disputa com o grupo criminoso local?

Tudo começa com com o assassinato pelo PCC de Jorge Rafaat Toumani no centro de Pedro Juam Caballero em 15 de junho de 2016 que quebra da antiga aliança PCC/B13/ADA/GDE contra CV/FDN.

Essa ação coroou a tentativa do controle hegemônico do mercado ilegal paraguaio por parte da facção PCC 1533, mas acabou criando dificuldades além das previstas para o grupo paulista.

últimas notícias do Primer Comando de la Capital na Bolívia

As peças se arranjando sem Rafaat Toumani

Ao contrário do que previram os líderes do PCC, a morte do megatraficante paraguaio enfraqueceu, mas não acabou com o Comando Vermelho — essa fragilidade criou problemas colaterais para seu aliado amazonense Família do Norte (FDN).

Passados oito anos, a situação no Paraguai continua indefinida e no Norte, na Rota do Solimões as mudanças não param de acontecer.

Inicialmente, o Primeiro Comando da Capital uniu-se a um grupo desmembrado da Família do Norte, denominada a Cartel do Norte (CDN), para eliminar os crias que resistiam da facção Comando Vermelho e do que sobrou da FDN.

O tempo desgastou essa vantagem inicial e a aliança com a Cartel do Norte foi desfeita. Resultando na retomada de vastas áreas pelo Comando Vermelho, incluindo Manaus e Rio Branco, expulsando crias do PCC parte em direção à Bolívia e outra de volta às suas regiões nativas no sudeste e sul.

Divisão, caos e espaço para Los Choleros

Essa disputa entre os grupos brasileiros e a dificuldade cada vez maior do Primeiro Comando da Capital em fechar novas alianças permitiu que o antigo aliado do Acre, o Bonde dos 13, no lado brasileiro da fronteira do Departamento de Pando, se declarasse neutra.

E do outro lado da fronteira de Pando, na Bolívia, o grupo local Choleros tomasse coragem e fôlego para enfrentar de igual para igual e ao mesmo tempo os dois mais importantes grupos criminais do Cone Sul.

O Plano “Z” de combate ao crime em Pando

Site da Câmara dos Deputados da Bolívia já debatia o problema no Departamento de Pando em 4 de abril de 2022.

Na ocasião, a Brigada Parlamentar e o Comando da Polícia Departamental do Departamento de Pando apresentaram um plano para ação conjunta de combate aos grupos criminosos.

A ideia era localizar criminosos e controlar áreas de fronteira com o Brasil impedindo a presença de criminosos brasileiros em Cobija.

Comado Vermelho (CV), Primer Comando de la Capital (PCC) y el B13, preocupó a pobladores de Pando. Ante esta situación, autoridades pandinas y del Estado de Acre (Brasil) se reunieron para reforzar el control en el paso fronterizo que une ambos países.

O recrutamento de menores de idade por criminosos já era conhecido e foi considerado uma das prioridades:

“É preocupante que menores de idade estejam envolvidos em atos criminosos, são bolivianos comandados por brasileiros que estão à frente das quadrilhas”.

Deputada Ariana Gonzales (MAS) presidente da Brigada Parlamentar Pando

No entanto, passado quase um ano, todos os problemas apontados parecem apenas que se agravaram.

O narcotráfico está ganhando esta batalha contra o Estado, demonstrando supremacia no controle do território (…) Esses cartéis de drogas são organizados no exterior por grupos como Los Chapitos (um grupo de narcotraficantes do México), o PCC (Primeiro Comando da Capital), grupos combinados com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e, claro, eles têm equipamentos e armas de melhor qualidade do que as forças de ordem.

coronel do Exército da Bolívia Jorge Santistevan

Nota oficial do Primeiro Comando da Capital: sem paz com o CV

É verdade que houve um acordo entre as facções rivais: PCC e CV?

Através das redes sociais, o Primeiro Comando da Capital (facção PCC) divulga nota desmentindo o relatório da Polícia Federal, divulgada pela UOL, que alertava para a formação de uma aliança entre as organizações criminosas PCC e Comando Vermelho (CV) para atacar autoridades públicas.

☯ PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL🇧🇷 ☯
NOTA ESCLARECEDORA
  1. Nós do PCC, viemos deixar claro que não temos e nunca teremos nenhum tipo de aliança com Comando Vermelho, não existe a mínima chance de uma coisa dessas acontecer.
  2. Seria fora da ética PCC fechar aliança com o Comando Vermelho, esquecendo quanta mães de famílias, crianças, irmãos de sangue, e cidadãos eles assassinaram, e também nossos eternos irmãos, heróis que lutaram na guerra e acabaram caindo em prol de melhorias para todo o crime.
  3. Sabemos que o Comando Vermelho tem aliança com a Polícia Militar, Civil, e Federal, e também com os governos e diretores de penitenciárias.
  4. Eles usam dessas alianças para tentar prejudicar nossa Família PCC 1533, sem saber que a nossa luta e a nossa ideologia são exatamente contra essa raça opressora, que cada gota de suor e de sangue que estamos derramando é para que tenhamos um crime com ética em cima do justo, certo, e correto.
  5. A Família PCC completou 24 anos de luta em todo Brasil e outros países. Somos a facção mais perseguida dentro do Sistema porque batemos de frene com qualquer tipo de opressão que nossos integrantes ou nossos familiares possam sofrer.
  6. Mais uma vez o Comando Vermelho fechou acordo com diretores dos presídios federais e estaduais para terem visitas enquanto todos os outros criminosos do Brasil que estão sofrendo nesses presídios não tivessem visitas. É muita coincidência o PCC ser acusado de matar agentes federais e sofrer opressão nos presídios enquanto o CV tem privilégios nesses presídios federais se diferenciando dos demais criminosos tendo suas visitas asseguradas pelo governo.
  7. O Primeiro Comando da Capital é puro e verdadeiro e mesmo aqueles que nos acusam, reconhecem nossa luta contra a opressão e o governo que é clara e objetiva dentro de todos os estados e sem nunca se esconder.
  8. Agradecemos a todos os criminosos do estado do Ceará por juntar as forças, lutando nas ruas contra o Comando Vermelho. Sabemos quão é grande o mal que sofremos com eles aqui no estado e vamos todos juntos acabar com todos eles.
  9. Comando Vermelho, vocês e seus aliadados, policiais, diretores de presídios, e governo, não fiquem inventando mentiras, porque nascemos para combater vocês e estamos lutando contra todos.
☯ PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL – 24 ANOS DE LUTA CONTRA OPRESSÃO E OPRESSORES – PCC 1533 ☯

Estaremos firmes e fortes a cada dia até derrubar o último de vocês, pois somos o Primeiro Comando da Capital – 1533.

Bauman, as organizações criminosas e a pacificação do Serviluz

Com a entrada no jogo do Primeiro Comando da Capital, a organização criminosa paulista PC 15.3.3 a ruptura era inevitável…

Se quiser assumir meu lugar, toma que o filho é teu!

E no princípio eram trevas, no início do início, e é para lá que eu te levarei, para que você possa me entender, não só a mim, mas também a Aline, e a Lincoln e seus colegas.

Você deve saber de onde nós viemos e o que já superamos, para só então decidir o que você vai fazer. E se você ou o Lincoln e seus colegas quiserem pegar meu lugar, boa sorte, vai firme e vamos ver se vão aguentar.

Não adianta se esconder ou tapar os ouvidos, pois os espíritos das trevas não se calarão até que eu, agora, ou alguém, algum dia, lhe conte essa história. E se já for tarde, e se eu já tiver me juntado a eles nas trevas, só lamento por você e por Lincoln e seus colegas.

Você acha que sabe o que é sofrer, mas poucos viveram nas quebradas trabalhando, de sol a sol, para chegar ao dia do pagamento e virem todo seu suor roubado, ao entrar na favela ou no bairro, pelo moleque da rua de baixo, para pagar o arrego para o policial do tático…

… ou para ser vendido assim que ia para dentro da muralha, para ser usado por um outro preso ou um carcereiro como achassem melhor — geralmente sendo estuprados, obrigando seus familiares a levarem coisas para dentro ou servindo de garagem (não vou explicar).

O site eb.mil.br replica uma reportagem de Aline Ribeiro para O Globo e me obriga a vir até você para lhe levar a esse passado, para que você, por si mesmo, possa vislumbrar o futuro que, assim como eu, Aline e Lincoln e seus colegas já estamos vislumbrando.

Alguém pode temer o fim do PCC?

Meu pai vivia me advertindo: ”tome cuidado com o que você deseja. Você pode acabar por conseguir”.

Os pais de Lincoln e de seus colegas do MP-SP deveriam ter dado o mesmo conselho a eles, pois agora que estão perto de realizar o sonho impossível de acabar com o PCC 15.3.3, parece que começam a ver que talvez tivesse sido melhor ter tido outro desejo. Agora é tarde:

“A ruptura é inevitável. É o início do fim de uma era – diz o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado de Presidente Prudente.” Quatrocentos integrantes da facção fora da cadeia, farão o possível para “tirar o câncer da nossa família” que “não pensa no coletivo e só quer ostentar enquanto os irmãos passam fome em outros estados”.

Lincoln e seus colegas derrotaram a Hidra de Lerna, cortando sua cabeça Uh, Uh!!!

Aline, eu, Lincoln e seus colegas nos lembramos de como eram as trevas antes que Marcos Willians Herbas Camacho e sua equipe assumissem o patriarcado da Família 1533. Se você não se lembra, vou pedir para Deiziane lhe contar um pouco de como era…

A pacificação do PCC na Modernidade Líquida

E no princípio eram trevas, no início do início, antes que a paz chegasse à comunidade do Serviluz em Fortaleza com os acordos firmados entre as gangues de jovens locais, como ela narra após dezenas de entrevistas com moradores e pessoas que atuam na região.

Deiziane Pinheiro Aguiar apresentou suas conclusões ao Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará: Marcado para Morrer: moralidades e socialidades das crianças na comunidade do Serviluz.

Se você realmente quer a paz, deve saber de onde nós viemos e o que nós já superamos, para só então decidir o caminho que deve tomar, e não fazer como o Governo cearense, que creditou a baixa da taxa de homicídios a suas políticas de segurança pública.

Você pode concordar ou não com a realidade, mas ela continuará prevalecendo sobre sua opinião, e Deiziane a analisou e previu o fim desse equilíbrio e da pacificação. muito antes que os governantes cearenses, Aline, eu e Lincoln e seus colegas o fizéssemos.

O amigo e o inimigo moram ao lado

O deputado Ferreira Aragão concorda com Deiziane quanto à influência que as organizações criminosas têm dentro da comunidade:

“No bairro de Serviluz, quando alguém é morto, não se recorre mais à Polícia ou à Justiça.’É o chefe da gang que é buscado para resolver o crime. E vão lá fazer justiça com as próprias mãos’”.

Poucos garotos que vivem naquela comunidade ouviram falar em Zygmunt Bauman, mas Deiziane afirma que o sociólogo e filósofo polonês descreveu com perfeição o que se passa pela mente dos meninos do mundo do crime:

“Existem amigos e inimigos. […] Amigos e inimigos colocam-se em oposição uns aos outros. Os primeiros são o que os segundos não são e vice-versa. Isso, no entanto, não é testemunho de sua igualdade. […] Os inimigos são o que os amigos não são. Os inimigos são amigos falhados; eles são a selvageria que viola a domesticidade dos amigos, a ausência que é uma negação da presença dos amigos. O avesso e assustador “lá fora” dos inimigos é, […] “aqui dentro” dos amigos. […] A oposição entre amigos e inimigos separa a verdade da falsidade, o bem do mal, a beleza da feiura […] o próprio do impróprio, o certo e o errado […].”

Os garotos podem não ter as palavras bonitas de Bauman, porém sabem que quem não corre pelo lado certo do lado errado da vida, é o inimigo. Mas quem traça esses limites, determina a pacificação e decreta a guerra?

O Ceará pode ser aqui

Há poucas semanas, fui à Indaiatuba gravar uma entrevista. A cidade tem uma taxa de homicídios de 0,86 para cada cem mil habitantes – muito diferente do Ceará, com seus 52 para cada cem mil – e, se não bastasse isso, está entre as 80 com maior IDH do país.

Há alguns anos, em um dos meus primeiros estudos a respeito da facção, conheci o bairro Jardim Morada do Sol, hoje com 70 mil habitantes, e que, na época, vivia em clima de incertezas: assaltos, furtos em residências, estupros e guerra de gangues.

Haviam três biqueiras principais que disputavam entre si os limites de atuação, e os garotos, para se garantir, andavam armados em plena luz do dia. Lembre-se que não estou falando do Serviluz no Ceará, e sim do bairro da hoje pacata e progressista cidade paulista.

A ordem para a paz e os limites de cada grupo foram definidos por acordos fechados dentro das muralhas da Penitenciária de Hortolândia, que determinou, inclusive, pena para os crimes cometidos contra a população próxima às biqueiras. Mas quem traça esses limites, determina a pacificação e decreta a guerra?

A vitória dos moderados e o controle das bases

E no princípio eram trevas, no início do início, antes que a paz chegasse às diversas cidades e estados sob a hegemonia do Primeiro Comando da Capital, que sob o controle dos moderados mantém a pacificação e o controle da base.

As mortes de Rogério Geremias Simone, o Gegê do Mangue, Edilson Borges Nogueira, o Birosca, Fabiano Alves de Souza, o Paca, Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, entre outros, comprovam algo que ouvi há alguns anos de um faccionário:

“Eles estão mais seguros lá dentro que na rua. Se sair morre.”

A admiração dos garotos do Primeiro Comando, em especial pelo Marcola, não foi sequer arranhada pela revelação do colega de Lincoln, o Marcio Sergio Christino, que acusou Marcola de ter sido um informante da polícia e ter entregue seus aliados.

No entanto, as rígidas regras impostas pelo grupo liderado por Marcola justificam a indignação, principalmente nos níveis intermediários da organização, que se sente tolhida ao não poder armar as biqueiras para reagir às ações policiais, entre outras limitações.

A vitória de Lincoln e seus colegas e o fim dos moderados

A disputa para ampliação de limites territoriais, influência ou poder acontece em todos os grupos sociais, seja entre as crianças nas creches ou nas ruas, ou entre os adultos nas igrejas, nos locais de trabalho, nas biqueiras, e até mesmo dentro da viatura policial.

Entre os membros de facções que disputam o mesmo território e dentro das organizações criminosas por aqueles que disputam o poder interno isso não poderia ser diferente, essa é uma característica humana.

Há quem prefira não se arriscar e deixar a luta para outros: esses são os cordeiros, que servem de alimento na cadeia alimentar e mantêm nossa estrutura social funcionando com certa estabilidade, como nos ensinou Étienne de La Boétie.

Mas entre os faccionados não existem cordeiros. O mais pacífico é um alfa que tem seu domínio territorial garantido por sua força — não há amigos dentre os aliados, companheiros e irmãos, há o respeito pelo mais forte e pelo grupo.

Lincoln e seus colegas estão agora a um passo da vitória. As ações do MP-SP e do GAECO enfraqueceram o grupo dos Catorze alfas que lideram a facção, e é por essa razão que Lincoln acredita que o PCC se desintegrará nas guerras internas.

arte sobre foto do promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o Leviatã tendo ao fundo a batalha entre o bem e o mal., abaixo do texto "cotada a cabeça da Hidra de Lerna".
PCC fica sem liderança após transferência de líderes

E no final serão as trevas, no fim do fim

A liderança enfraquecida terá que disputar o poder dentro das muralhas de Presidente Prudente, e de lá essa guerra vai se espalhar para o restante do estado.

Enquanto isso, centenas de pequenas facções sem estrutura aterrorizarão os bairros periféricos de vários estados, que hoje já estão pacificados, e muitos deles seguirão o destino dos morros cariocas, com grupos de milicianos disputando o tráfico.

As periferias das cidades paulistas, os cortiços, as ocupações e as biqueiras próximas aos centros das cidades, sem garantias e ordem, vão se armar para garantir suas bases comerciais de tráfico de drogas.

As viaturas policiais, que hoje abordam os cidadãos com certa tranquilidade, pois quase todas as biqueiras paulistas atuam desarmadas, voltarão a enfrentar grupos armados, e a cabeça dos policiais mais ativos ou corruptos voltarão a ser disputadas.

Vencemos o Crime Organizado – Uh, uh!!!

Entregaremos para aqueles que nasceram após a década de 1990 uma São Paulo e um Brasil como eles nunca viram, livre da hegemonia da facção Primeiro Comando da Capital!

Só não entendo por que não senti a empolgação que esse momento merecia por parte da repórter Aline Ribeiro e do promotor de Justiça Lincoln e seus colegas, afinal, vencemos – Uh, uh?