A matemática política da opressão carcerária

A opressão no ambiente carcerário como fator necessário para o sucesso de uma política de segurança pública.

O carcereiro, a facção PCC 1533, o Estado e a sociedade

Digo a minha garota que ela merece o que está se passando com ela, afinal, foi uma de suas mãos que marcou um “X” no quadrinho de “opção de função” quando ela se inscreveu no concurso público, o mesmo ocorrido talvez se dê no caso de Diorgeres, ou talvez não.

Você se lembra do carcereiro Diorgeres, não?

Nem esquenta, nem ele e nenhum outro carcereiro tem alguma importância para mim, para você ou para aquelas duas acadêmicas, mas, mesmo assim, vou lhe contar algo sobre ele.

(Não devia citar as duas acadêmicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], pois o presidente Jair Bolsonaro alertou que não se deve dar palanque a acadêmicos doutrinados em Gramsci, mas com a permissão do Capitão prefiro dar nome aos bois.)

O que você fazia em fevereiro de 2001?

Caso você não se lembre ou caso não vincule a pessoa ao fato, Diorgeres de Assis Victorio era o carcereiro que foi levado como refém ao telhado do Carandiru com uma faca ao pescoço na apresentação pública do Primeiro Comando da Capital:

“Então um dos detentos que parecia um líder disse que precisava de dois reféns para ir com ele até a muralha do pátio. Era ali, na frente de todo mundo, que eles costumavam matar os reféns. Como na época do Exército eu havia tido aulas de prisioneiro de guerra, com porrada, tapa na cara etc., concluí que poderia estar mais preparado do que os outros para ir, então eu acenei com a cabeça para um colega que achei que tinha mais frieza e nós dois dissemos que iríamos.”

Arte sobre foto de um repórter e do governador Wilson Witzel em um presídio sob a frase "Quanto pior melhor, ganhando visibilidade midiática".
Governador Wilson Witzel na prisão

Quanto pior for a prisão, melhor será

Assim como a minha garota escolheu marcar um “X” no quadrinho de “opção de função” quando ela se inscreveu no concurso público, Diorgeres escolheu viver nos traiçoeiros corredores do sistema prisional e ser um refém do PCC. Foi escolha dele — ou talvez não.

Desde que eu o conheço, ele não concorda com o zurro popular que exige penas mais longas e condições mais duras e cruéis de encarceramento; assim como ele, o fazem as pesquisadoras da UFRGS: Oriana Hadler e Neuza Maria de Fátima Guareschi.

Contrariando nosso presidente, cito-as, pois foram elas que me explicaram a lógica matemática que leva o Estado a triturar Diorgeres e outros agentes de segurança carcerária (ASPens), sob os aplausos ou indiferença da sociedade, de mim e de você:

“Os cálculos estatais relacionados ao sistema prisional brasileiro têm se constituído tanto pelos investimentos financeiros no encarceramento, corpos físicos de policiais e mais aprisionamentos […] Questionar como organizam-se as relações pautadas na lógica de segurança é provocar estranhamento em relação a um estado naturalizado de violências […]”

As pesquisadoras Oirana e Neusa Maria, ao contrário de mim, de você e do capitão Jair, não acreditam que aqueles trabalhadores e apenados padecem por conta de suas escolhas, mas pelo resultado de uma desumana equação política.

Arte sobre foto de agentes penitenciários tendo ao fundo gladiadores em um coliseu sob a frase "O espetáculo não pode parar, ave Caesar, morituri te salutant".
Ave caesarm moritum te salutam

Dos holofotes da mídia ao breu cotidiano

Gilson César Augusto da Silva no artigo “Reality Show das Prisões Brasileiras” faz um breve histórico da evolução do Sistema Carcerário da antiguidade até chegar aos dias de hoje, e compara com a realidade transmitida pelo Big Brother Brasil:

“… os chamados “reality shows” … semanalmente um participante é eliminado … embora de discutível gosto, os programas mostram o quão difícil é a convivência humana. As casa onde se realizam esses “reality shows são verdadeiras mansões … há, ainda, boa comida, psicólogos, psiquiatras comportamentais, médicos, entre outras regalias. Além do competidor poder deixar o programa quando quiser … o que se vê em poucos dias de convivência? Pessoas extremamente estressadas, depressivas, agressivas, com reclamações de toda ordem, brigas, choros, ofensas recíprocas. É difícil a referida convivência? Sem dúvida. Mas se é difícil para os referidos participantes, com todas essas benesses, imaginem para os presos [e para aqueles que lá trabalham].”

Como fica então aqueles que arriscam sua saúde trabalhando nas galerias do Sistema Prisional, confinados em um ambiente insalubre e claustrofóbico em companhia de pessoas que tiveram problemas de adaptação às normas sociais?

A Segurança Pública e seus agentes são utilizados como peças publicitárias pela mídia e pelos políticos, mas quando os holofotes se apagam são abandonados para sofrerem o desgaste cotidiano, seja nos corredores dos cárceres ou os meandros burocráticos:

“O Departamento de Perícias Médicas do Estado, vendo o meu quadro clínico grave, entendeu por bem me readaptar e determinou que eu fosse afastado do contato com presos. Mas o Estado, vendo o conhecimento que eu tinha sobre o cárcere, ao invés de me afastar do contato de presos, determinou que eu fosse à Autoridade Apuradora da Unidade Prisional …”

A depressão carcerária dos corredores para as mentes

Sangue novo como combustível para o espetáculo

Nós não nos importamos com as condições de saúde daqueles que passam suas vidas dentro das muralhas, sejam eles prisioneiros condenados ou aqueles que por lá trabalham – a imprensa e os políticos sabem disso e entregam à nós o que queremos: um espetáculo.

O cruel abandono dos profissionais

Por vezes tratados como refugo, com falsa benevolência, são postos de lado, havendo uma política de isolar estes das novas “equipes especializadas”, formadas por jovens recém-engajados – prontos para começarem o seu próprio desgaste.

O ambiente insalubre do Sistema Prisional afetará diretamente a saúde mental desses garotos, assim como o fez com aqueles profissionais que os antecederam, no entanto a Administração Penitenciária vende a ideia de que agora será diferente…

… e sempre haverá garotos para assumirem as posições daqueles que já se desgastaram perambulando pelo claustros e que agora não mais aceitam alimentar o espetáculo midiático e político com seu sangue e o de sua família .

Você não acredita? Diorgeres explica com detalhes no artigo “Síndrome do pânico em agentes de segurança penitenciária”, publicado no site Canal Ciências Criminais:

“Muitos agentes não conseguem suportar todo esse descaso do Estado com a sua saúde e assim cometem o suicídio. Espero que eu resista a ponto de ver o Judiciário tomar uma atitude quanto a isso e que assim o Judiciário não caia em descrédito.”

Arte sobre foto de João Dória Júnior em frente a um quadro negro e uma equação matemática.
A matemática política da insegurança

A matemática política da opressão carcerária

Para a administração pública prevalece a lógica matemática do ganho político e midiático:

“ […] Trata-se, portanto, de um cálculo mínimo sobre vidas a serem gerenciadas em um plano de investimento entre baixos custos e a menor repercussão possível, combinada com a ampliação e execução de práticas violentas.”

O espetáculo (Esp) apresentado pela mídia para o público é igual ao grau de opressão (Op) multiplicado pela economia feita no investimento carcerário (Ec).

A matemática é simples: Op x Ec = Esp

Quanto maiores forem os fatores maior será a possibilidade do caos extrapolar as muralhas dos presídios e, consequentemente, gerar o maior espetáculo midiático possível, elevando a sensação de insegurança do cidadão e abrindo espaço para um grupo político específico.

Aplaudem-se as novas levas de prisioneiros e de agentes de segurança, não porque o mundo ficará mais seguro, mas por nos trazer uma maior sensação de segurança, não importando quem é Diorgeres ou quem são os agentes penitenciários que vivem nas galerias das carceragens.

Arte sobre foto do presidente Jair Bolsonaro com uma família assistindo a uma cena de massacre na televisão.
Bolsonaro e o show da isegurança pública

A política de inSegurança Pública e a política

Fora do meio acadêmico, poucos admitem que toda sociedade é afetada pelo resultado de uma iníqua equação matemática produzida por grupos políticos especializados em vender sua imagem de paladinos da lei e da ordem discursando sobre pilhas de cadáveres:

“Nesse cenário, encontramos diversos atores que ocupam o lugar daqueles que matam e, concomitantemente, dos que morrem nesse jogo de cálculos sobre vidas e grades. Pode-se dizer que é estabelecido um jogo onde a provisoriedade se torna eternidade […] Esse jogo morfético se mantém e é produzido junto a campos de saber e narrativas especialistas, que mantêm e instauram a violência do direito.”

Se é compreensível que um cidadão caia no conto do político salvador da pátria, é difícil explicar a posição de profissionais que sofrem na pele as consequências dessa política repressiva e ainda assim continuam as apoiando.

Alguns como Diorgeres questionam há muito políticas que tornam esses ambientes pútridos que impregnam os corpos, as mentes e as almas de todos aqueles que por lá vivem e trabalham. Mas esses são exceções, mas…

… ele, assim como outros ASPens, ao assinalarem com um “X” o quadrinho de “opção de função” quando eles se inscreveram no concurso público não pretendiam carregar os estigmas de dentro do cárcere para suas vidas, suas famílias e seus descendentes.

Subcultura criminal e a Facção PCC 1533

A pesquisadora Isabelle Lucena Lavor descreve como é a subcultura criminal, e aproveito a deixa para falar de um moleque zica e de um garoto irritante.

O certo pelo certo, o errado será cobrado!

Estava com meu sobrinho no McDonald’s da avenida marginal quando aquela mulher se sentou com o garoto na mesa ao lado da qual eu estava. Eu já havia encontrado com aqueles dois no shopping há poucas horas.

Uma hora antes, no shopping, eu havia deixado meu sobrinho no espaço de jogos e quando retornei ele estava chutando violentamente o garoto que estava com aquela mulher. Peguei-o pelo cangote e o levei para fora, mas, inconformado, ele não parava de dizer:

O certo pelo certo, o errado será cobrado!

Não sou de puxar muito assunto, para mim a história acabou alí, afinal, o garoto era maior do que meu sobrinho, então não foi covardia, e cada um com seus problemas.

Ao sair, vi que a mãe do garoto olhava com cara de espanto e medo em nossa direção. Foi o fim do passeio, saímos de lá direto para o estacionamento.

No caminho de casa paramos para tomar um lanche naquele McDonald’s. Coincidentemente,  chegam logo depois ela e o garoto. De certo não nos viram ou teriam desviado ou, se pá, ela teria vindo tomar satisfação – melhor que não tenha vindo.

Arte feita a partir da testa da Revista Diálogos Acadêmicos da Fametro sob o fundo do Primeiro Comando da Capital.
Isabelle Lucena Favor e o PCC 1533

Garotos irritantes e moleques zikas

Não perguntei ao meu sobrinho o motivo da zica que teve com o garoto, mas tenho certeza que ele teve suas razões – aquela amostra de playboyzinho era irritante, e o moleque não era de levar desaforo para casa.

Aí me veio uma dúvida: no que o papai dele trabalha? Quem sabe não poderia me render um trabalho, afinal, eu estava meio de bobeira mesmo…

… mas se essa não é narrativa de atividade, então vamos voltar ao assunto: estou aqui para falar de Isabelle, que naquele momento estava a três mil quilômetros daquele McDonald’s.

Se você for de Fortaleza talvez você conheça Isabelle, mas eu só a conheci por meio de seus artigos no Canal Ciências Criminais, até que, há alguns dias, tropecei em um artigo escrito por ela e publicado na Revista Diálogos Acadêmicos:

“Análise do discurso à luz da subcultura criminal: Primeiro Comando da Capital”.

Isabelle Lucena Lavor, com aquele artigo, me trouxe luz para o comportamento tanto do meu sobrinho quanto daquele garoto irritante e o meio em que ambos estavam sendo criados.

Imagem de um garoto e os personagens Coringa e Arlequina com o texto "Cultura e masculinidade, é de pequeno que se aprende".
A cultura e a masculinidade no PCC 1533

A subcultura criminal e o lado errado da vida

Me criticam por dizer que existe uma cultura do PCC ou uma cultura criminal; já Isabelle afirma que há subcultura criminal – será que ela também é criticada por isso?

Sempre me orgulhei do meu sobrinho, que é nossa cara: o garoto é zica.

Antigamente achava que era algo hereditário, mas depois percebi que os moleques do bairro também acabavam ficando nossa cara, mesmo não sendo da nossa família de sangue.

Os moleques se fazem homens dentro de nossa cultura – não me critique se digo “homens”, pois a mulher PCC tem seu lugar dentro da cultura criminosa, e se tiver alguma dúvida qual ela seja, pergunte a Camila Nunes Dias, que poderá lhe explicar melhor que eu.

(…) meninos entram para o tráfico e meninas pegam uma barriga deles. Quanto mais poderoso e rico é o menino, mais elas disputam entre si pra ver quem vai engravidar dele primeiro. Estamos falando de meninos e meninas de 16 a 20 anos.


Luiz Felipe Pondé

Para os garotos da comunidade conquistarem espaço nas escolas, nas ruas e no mercado de trabalho é preciso se impor e viver dentro das normas do mundo do crime – mesmo que nunca tenham se envolvido com ele.

O uso da força por vezes é necessário para legitimar sua posição perante a sociedade e seus pares, afinal, não será com doces palavras que conseguirão sucesso, mas sim com inteligência, estratégia e, quando necessário, com a quebra de normas sociais.

Quebrando normas sem temer punição

Meu sobrinho sabia que não sofreria retaliação por ter chutado o garoto, assim como aquele garoto mimado imaginou que estava acima das regras por estar no shopping.

Podemos entender o direito como uma compartição de liberdade, não existindo definição de um padrão como algo pronto e acabado, obtendo apenas uma única opção de conduta, mas um campo particular de atuação de cada indivíduo, pautado no livre arbítrio. Assim sendo, o direito irá existir como a limitação do ato social, definindo um conjunto de normas de conduta que ao serem ultrapassadas, ocorrerá o desvio pela violação às regras impostas.

Policiais militares apagando código de ética do crime escritas em um muro da comunidade.
Código de ética do crime

A hipocrisia do Estado e a ética do crime

A ética do crime me parece ser menos hipócrita do que a estudada nos cursos de direito, apresentada pela mídia ou ensinada nas escolas. Nas quebradas, o que é certo e o que é errado é analisado caso a caso dentro do código de conduta da facção.

Me procuram para perguntar se uma atitude pode ser cobrada ou não dentro das regras do PCC, e eu sempre respondo que não sei. Cada caso é analisado pelo disciplina – não há duas histórias e dois contextos exatamente iguais.

Meu sobrinho sabia que estaria sujeito à avaliação da conduta e à pena por agir errado, e por isso tinha eu certeza que ele não teria se arriscado a dar um pau naquele garoto sem ter certeza de estar correndo pelo certo.

As regras existem para servir à comunidade, e não para que as pessoas a sirvam.

A facção Primeiro Comando da Capital tem suas regras de conduta delineadas em três pilares:

  1. Estatuto da facção Primeiro Comando da Capital;
  2. Dicionário do PCC; e
  3. Cartilha de conscientização da Família 1533.
Arte com dois garotos brigando em frente a uma mesa estilizada de um juiz. Texto: "A Justiça imaginária, a segurança pública nas ruas".
A Justiça imaginária nas ruas

Análise social na aplicação da Justiça

Como cada caso é estudado levando em conta suas peculiaridades para que o Tribunal do Crime não caia no descrédito da comunidade:

(…) tendo em vista que a sociedade se modifica ao longo dos anos, e o que era considerado crime em uma dada sociedade, em outro momento, passa a não ser mais.

Se por um lado os Tribunais do Crime fazem essa análise, a Justiça do Estado Constituído puni sem qualquer análise social, cumprindo as frias letras e ritos do direito penal.

Aquele garoto mimado no Shopping caiu no conto da segurança pública…

(…) que consiste na utilização do medo e da sensação de insegurança por parte da sociedade para criar uma falsa percepção de controle, como se o único fator redutor do ato criminoso fosse a severa sanção imposta, o que pode ser compreendido como equivocado.

A realidade é bem diferente do que está no papel. Meu sobrinho poderia ser punido, só que não; embora, apesar de eu não saber o que aquele garoto tenha feito, tive  certeza que ele foi de fato punido.

Bem-vindo ao mundo real garoto.

Imagem de pintinhos em uma caixa de papelão em frente a um lobo esfomeado com o texto "o lobo e os pintinhos, a realidade e a sensação de segurança".
A facção pcc 1533, o lobo e os pintinhos

O Estado de Direito, as asas da galinha e o lobo

Meu sobrinho, apesar de ser apenas um garoto, já havia interiorizado que a justiça deveria ser justa, correta: “o certo pelo certo, e o errado será cobrado”. E, apesar da pouca idade, já não estava nem aí para as normas de conduta da sociedade constituída.

Ali, no McDonald’s, vendo aquela mulher e o garoto, percebi a diferença que havia entre eles e os moleques da comunidade que estavam sob o jugo pesado de leis que foram feitas para sua penalização, sem se preocupar com eles enquanto pessoas.

O Estado guardava aquela mãe, seu filho e seu patrimônio, assim como uma galinha guarda os seus pintos debaixo das asas, só que lobos não temem galinhas, e essa proteção simbólica não tem eficácia instrumental como meio de prevenção ao delito.

O que o Estado e a sociedade conseguem quando insistem em sua soberba, ao arrotarem um poder que não dispõem de fato, é conquistar a desconfiança e o ódio por parte daqueles que estão alijados de um lugar sob a asa da galinha.

Arte com vários garotos e garotas de várias "tribos" tendo ao fundo a estilização de um presídio e o texto "Subcultura criminal, Delinquent Boys de Albert Cohen".
A facção PCC 1533 e a subcultura criminal

Cultura do mundo crime ou subcultura mundo crime?

Graças a Isabelle, conheci Albert Kircidel Cohen, que em meados do século passado já havia diagnosticado esse fenômeno social em seu livro “Delinquent Boys”.

Moleque que mora na quebrada só conhece a bota do Estado, que quando chega na sua comunidade é para se impor pela força ou extorquir os garotos e os gerentes do corre.

(…) a teoria sociológica da Subcultura criminal (…) identifica seus seguidores como indivíduos que, por não atingirem as metas culturais (poder, riqueza, status social etc), através dos meios institucionalizados (escola, trabalho etc) disponíveis, rompem com o sistema como uma espécie de frustração e acabam por ter a sociedade e o Estado como inimigos, opressores e, consequentemente, corruptos.

Essa garotada entende a linguagem usada na confecção do Estatuto do PCC e do Dicionário do PCC e se identifica com o personagem criado e com os ideias apontados pelos seus idealizadores.

Meu sobrinho, assim como muitos daqueles que conheço, passaram “a aceitar a violência como um modo normal de resolver” seus problemas, sem mimimis e sem a tutela do Estado, seja na escola, no shopping ou nas ruas.

O moleque não se acha acima da lei, mas segue as regras de conduta assimiladas no seu convívio social e consolidadas nos documentos regulatórios escritos ou não da facção Primeiro Comando da Capital.

Esse fenômeno não é uma característica de nosso tempo, nação ou contexto político, apesar de muitos acreditarem que é uma consequência da civilização pós-moderna globalizada.

Arte com a imagem estilizada de um garoto em frente a um muro de tijolos com o símbolo da facção PCC 1533; texto "Nossa formação social: as subculturas de nossa sociedade".
Facção PCC 1533 e a nossa formação cultural

Aprendendo a relativizar as regras sociais

Meu sobrinho não havia interiorizado aqueles valores no aconchego de seu lar. Seus pais sempre foram trabalhadores esforçados e evangélicos fervorosos, mas uma criança não aprende apenas com seu papai e sua mamãe.

Aquelas crianças que jogam futebol, estudam na mesma escola, empinam pipa e jogam conversa fora por horas com meu sobrinho nasceram e cresceram naquela comunidade, filhos de gente boa e de gente ruim, mas todos vizinhos há décadas.

Quem sabe não foi com eles que meu sobrinho aprendeu e também ajudou a transmitir para as novas gerações essa ética do crime, a lei do “certo pelo certo”, mesmo que esta se contraponha em parte às normas legais ou de conduta do restante da sociedade.

Relativizando uma cultura geral

Ele, assim como os outros moleques da quebrada, os filhos dos policiais do patrulhamento assim como o daquela mulher do McDonald’s são criados e estão imersos na mesma cultura geral da sociedade judaico-cristã, mas imersos em diversas subculturas com as quais interagem.

“[Podemos] considerar o crime como um comportamento aprendido a partir do grupo direto em que o indivíduo se encontra, com quem estabelece relações sociais mais próximas”

Edwin Sutherland

Nossos núcleos familiares e sociais tem como base cultural os mesmos costumes, crenças, conceitos, preconceitos, códigos morais e jurídicos, no entanto, apenas alguns núcleos relativizam, ressignificam ou se contrapõem a pontos importantes da regra geral.

Aqueles que participam desses de oposição parcial às normas gerais são os doutrinados na subcultura do crime, e esses grupos não estão apenas nas periferias ou na contemporaneidade, como comprovou Alber.

Arte com três jovens em frente a um carro da alto luxo, dois deles são negros e um é branco. Texto: "Ricos e pobres, somos iguais no crime ou na lei."
Ricos e pobres cometem crimes

Receita para formar um “delinquent boy

Meu sobrinho nada havia me dito sobre o que aconteceu no espaço de jogos do shopping, mas vendo agora quem era o pai do outro garoto tive quase certeza de que este havia tentado levar alguma vantagem indevida – daí os chutes.

Alguns grupos sociais consideram possível quebrar as regras impunemente, cada um dentro um espectro da cultura criminal:

Alguém que nunca venderia uma parada de maconha, sem pensar duas vezes, pode sonegar impostos, ou o contrário – cada um justificando que o crime alheio é mais danoso e o seu socialmente aceitável.

Não somos todos iguais, mas nossa natureza não muda, independentemente do poder econômico, político, físico ou cultural, pelo menos é o que afirma Edwin e Isabelle.

Olhei para meu sobrinho e para aquele garoto irritante e acredito que, se o pesquisador americano estiver com razão, no futuro aqueles moleques vão fazer negócios juntos, pois para que um indivíduo tenha tendências a quebrar regras são necessários quatro fatores:

  1. Frequência
  2. Duração
  3. Prioridade
  4. Intensidade

E depois que vi quem era o pai daquele garoto irritante e conhecendo o ambiente em que meu sobrinho está sendo criado, posso afirmar que não faltará a eles nenhum desses pontos – pelo contrário, eles vão aparecer em abundância.

Arte com médico cubano atendendo a uma pobre senhora de um lado e do outro um jogador da seleção brasileira. Texto: "Roubando dos pobres, subcultura criminal justifica sonegação".
Ricos roubando pobres e a pacividade social

Convivendo com os que bebem o vinho da violência

Não entres na vereda dos ímpios, nem andes pelo caminho dos maus. Evita-o, não passes por ele; desvia-te dele e passa de largo […]. Porque bebem o vinho da violência.

Como se desviar da vereda dos ímpios quando se vive nela e é visto que os únicos que conseguem deixar esse ambiente são aqueles que possuem melhores condições econômicas justamente porque andam pelo caminho dos maus?

Edwin Sutherland tinha razão ao afirmar que “a criminalidade perpassa por toda a escala social” e que “há tanto delito de pobres como de ricos e poderosos” – e ali estava, na minha frente, a prova disso.

Talvez o moleque e o garoto irritante venham a ter sucesso em suas carreiras profissionais.  A exigência de sucesso em nossa sociedade é evidente e perpassa todas as camadas sociais; mas talvez não, e eles busquem um atalho.

Ambos, cada um de uma forma diferente, conhecem e convivem em seus respectivos meios familiares ou sociais, e a quebra de regras desses meios poderá possibilitar um dia que o caminho para o sucesso seja encontrado mais rapidamente.

Terão interesse e escolherão abandonar a cultura criminal que se entranhada em suas almas cotidianamente? Esperarão por anos resultados que podem conseguir em dias? Bem, esse é um problema que não me cabe e não me interessa…

… mas até que estou curioso se eu ou você não fazemos parte de algum desses grupos de subcultura criminal – possivelmente responderemos que a nenhum. Aqueles que pertencem a um grupo não reconhecem como quebra da norma o que outros consideram.

Arte com um homem passando a outro um bilhete no estacionamento do McDonald's. Texto: "Diferentes porém iguais, juntos porém não misturados".
PCC 1533 troca de bilhete estre criminosos

Deus é pai, não é padrasto. Conheço o pai do garoto.

Ainda estava no McDonald’s quando o pai daquele garoto irritante chegou e se reuniu com a família – coisas da vida, eu já havia feito negócios com aquele homem em certa oportunidade, mas isso não vem ao caso.

Creio que o garoto seguirá o caminho do pai, e se assim o for, quem sabe no futuro não venha a fazer negócios com meu sobrinho e darem juntos boas risadas daquele incidente no shopping.

Há muito terminamos nossos lanches. Meu sobrinho ficou entretido no celular e eu me perdi nos pensamentos. A família na mesa ao lado conversa sem imaginar meus pensamentos – melhor assim.

Como de costume peguei no braço do moleque, que levantou de imediato. Gosto disso, sem muito diálogo, papo reto sem curvas. Quando chegamos no carro, o pai do garoto irritante veio até mim. O moleque entrou no carro enquanto ele me passou um papel.

Acertado com o fiteiro, a vida continua, bora juntar a quadrilha para a correria.

Transferência de Marcola: o Apocalipse chegou?

A transferência de Marcola para uma prisão federal e a análise comparativa sobre o PCC e sua evolução em relação às principais organizações criminosas latino-americanas.


Marcos Willians Herbas Camacho transferido

Facção PCC 1533: estará ativo o salve geral do apocalipse?

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola do PCC, foi transferido para um presídio federal. E agora? O que se pode esperar como resultado disso? Haverá represálias por parte de integrantes da facção?

Há alguns anos, o Apocalipse foi previsto. Não pelos profetas de Israel ou pelos apóstolos cristãos, mas pelos líderes da Família 1533, prisioneiros da P2 de Presidente Venceslau – e já se vão mais de cinco anos…

O fim do mundo planejado pelos chefes do Primeiro Comando da Capital se daria no exato momento em que Marcola, o líder maior da facção, fosse impedido de sair do encarceramento após cumprir o seu tempo normal de prisão.

Aconteceu com Gegê do Mangue e teria que acontecer com Marcola

Rogério Jeremias Simone, o Gegê do Mangue, acabou saindo pela porta da frente do presídio, dentro das normas legais, e assim também se esperava que acontecesse com Marcola. Contudo, temia-se que a Justiça encontrasse subterfúgios para mantê-lo preso.

A prorrogação do período de prisão de Marcola seria o gatilho do Apocalipse: ataques à ordem pública e às forças de segurança, que, diferentemente de 2006, em que estiveram à frente dos ataques os crias do 15, esses seriam orquestrados pelos profissionais da facção.

O tempo passou, e cada vez menos se ouvia falar dentro da facção sobre o Apocalipse, afinal outras condenações estavam a caminho de Marcola, que não mais contava com a saída a curto prazo. Assim, um novo gatilho foi criado: a transferência de Marcola para a federal.

Princípio básico da ação policial: uso progressivo da força

Até hoje, os governos paulistas utilizaram a técnica de endurecimento paulatino para a retomada do controle do sistema carcerário, algo assim como quando se coloca uma rã na água e esta é colocada em fogo brando, e ela assim, vai se deixando ficar até morrer.

Hoje, a revista das visitas nos presídios é feita através de sistemas eletrônicos, e o serviço de inteligência das Secretarias de Segurança e da Administração Penitenciária (SASP), assim como a Promotoria Pública de São Paulo (MP-SP), têm conseguido interceptar e bloquear as comunicações dos presos.

O governo do Ceará, logo no começo da mais recente administração, optou por quebrar a ideologia de paulatinidade no endurecimento do tratamento dado aos prisioneiro — deu no que deu, e foi necessário o envio de forças federais para o estado.

Ao escolher agir de forma abrupta e não seguir com um processo gradual, o governo João Dória abandonou o bom senso e escolheu o caminho mais perigoso e ao alertar a rã a colocou em movimento.

O recado no entanto foi mandado.

Transferir Marcola para um presídio federal é um fato histórico e uma aposta do governador João Dória que tem poucas chances de não lhe ser vantajosa politicamente:

  • se houver reação por parte dos facciosos, ele ganhará com o aumento do medo da população que reforçará sua estratégia de combate rígido às organizações criminosas.
  • se não houver uma reação dos criminosos, ele terá demonstrado que venceu a facção criminosa ao enfrentá-la de frente, o que os seus antecessores não tiveram coragem ou falta de senso de fazer.

Dentro da facção, não se acreditava que João Dória, assim como seus antecessores, resolveria arriscar o embate, pois o número de mortos entre os agentes públicos e as ações de terror desgastariam o governo.

O erro de cálculo dos faccionados se deu ao acreditar que o governador estaria preocupado com a vida dos policiais e seus familiares, que ao contrário do salve de 2006, também seriam alvo no Apocalipse, no entanto…

Um novo tempo, um novo Primeiro Comando da Capital

Já se vão mais de cinco anos desde que o Apocalipse foi planejado. O mundo e a facção não são mais os mesmos, contudo, a imagem que a população tem do que é uma facção criminosa pode não ter acompanhado essa evolução.

Se aproveitando da ingenuidade da maioria, políticos e parte da imprensa vendem soluções se coadunam com o imaginário popular, como a política de aprisionamento e a transferência das lideranças criminosas para os presídios federais.

No entanto, hoje, o Primeiro Comando da Capital é uma organização mais horizontal e formada por subgrupos que não terão sua vida alterada pelo envio de Marcola e outros líderes para fora do estado e sua colocação no regime disciplinar diferenciado.

A estrutura da organização criminosa dentro e fora dos presídios continua existindo e me parece natural que haverá uma disputa interna para ocupar o lugar dessas lideranças que conseguimos isolar nos presídios federais. Não tenho nenhuma esperança que o PCC acabou

Lincoln Gakiya para a Revista Isto É

Nesse novo horizonte, o Apocalipse passou a ser apenas uma opção. Se será colocada em marcha ou não, será uma decisão tomada levando em conta os interesses políticos, econômicos e sociais da maioria dos integrantes da facção.

Será que justamente no momento em que se está sendo colocado em pauta uma nova legislação penal seria interessante para o mundo do crime uma onda de atentados?

A mim parece claro. A facção Primeiro Comando da Capital retaliará apesar de não ser a melhor solução técnica, pois assim como João Dória, sabe que deve agir pensando em sua platéia mesmo que seus homens sejam mortos.

A questão não é se, mas sim quando e se estamos preparados para contar os mortos e o prejuízo, mas o importante é que o governador cumpriu sua promessa de campanha.

Todo cuidado é pouco quando se mexe com a Família 15

Esperando uma possível onda de ataques o governo do estado de São Paulo colocou em prontidão 100 mil policiais militares e o governo federal autorizou a utilização da Força Nacional para guardar os presídios federais de: Brasília, Porto Velho (RO) e Mossoró (RN).

Apesar de Marcola e os demais líderes transferidos terem deixado de ser uma peças fundamentais para o bom funcionamento da facção os faccionados podem optar pela retaliação para impedir que outras medidas venham a ser implementadas.

Esperando uma possível onda de ataques o governo de São Paulo colocou em prontidão 100 mil policiais militares e fez operações em 3.300 pontos em todo o estado.

O governo federal autorizou a utilização da Força Nacional para guardar os presídio federal de Brasília e efetivos das forças armadas para guardarem o entorno dos presídios federais de Porto Velho (RO) e Mossoró (RN).

Leia mais detalhes sobre a transferência dos presos e as ações preparatórias das forças públicas no G1.

Lista com o nome dos 22 integrantes do PCC transferidos

  1. Lourinaldo Gomes Flor (‘Lori’)
  2. Marcos Williams Camacho (‘Marcola’)
  3. Pedro Luís da Silva (‘Chacal’)
  4. Alessandro Garcia de Jesus Rosa (‘Pulft’)
  5. Fernando Gonçalves dos Santos (‘Colorido’)
  6. Patric Velinton Salomão (‘Forjado’)
  7. Lucival de Jesus Feitosa (‘Val do Bristol’)
  8. Cláudio Barbará da Silva (‘Barbará’)
  9. Reginaldo do Nascimento (‘Jatobá’)
  10. Almir Rodrigues Ferreira (‘Nenê de Simone’)
  11. Rogério Araújo Taschini (‘Taschini’/’Rogerinho’)
  12. Daniel Vincius Canônico (‘Cego’)
  13. Márcio Luciano Neves Soares (‘Pezão’)
  14. Alexandre Cardoso da Silva (‘Bradok’)
  15. Julio Cesar Guedes de Moraes (‘Julinho Carambola’)
  16. Luis Eduardo Marcondes Machado de Barros (‘Du da Bela Vista’)
  17. Celio Marcelo da Silva (‘Bin Laden’)
  18. Cristinao Dias Gangi (‘Crisão’)
  19. José de Arimatéia Pereira Faria de Carvalho (‘Pequeno’)
  20. Alejandro Juvenal Herbas Camacho Marcola Júnior (‘Marcolinha’)
  21. Reinaldo Teixeira dos Santos (‘Funchal’)
  22. Antonio José Muller Junior (‘Granada’)

Leia mais detalhes sobre os principais líderes transferidos no G1.

Entre as facções que mais se destacaram em 2018, o Primeiro Comando da Capital foi a vencedora.
Facção PCC 1533 Criminal Winner 2018

PCC o “vencedor” do crime na América Latina (GameChangers 2018)

Os especialistas em crimes transnacionais do site InSight Crime, Jeremy McDermott, Mimi Yagoub, Victoria Dittmar e Mike LaSusa, analisaram as principais organizações criminosas que se fortaleceram em 2018 e ranquearam, após investigarem as estratégias e a virulência de sua expansão territorial e econômica durante o ano, sua capacidade de resistir às investidas das forças públicas e sua capacidade de domínio fora de suas fronteiras.

O Primeiro Comando da Capital, segundo esses especialistas é a que melhor resultado teve, ficando à frente do Exército de Libertação Nacional (ELN)da Colômbia e do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) do México. Essa resiliência se deve à adaptação às novas realidades e ao uso racional da força, por isso não houve nenhuma reação imediata à transferência de sua lideranças.

A seguir passo as principais conclusões desses especialistas, publicado aqui de acordo com as exigências do “Creative Commons” (clique neste link para acessar o texto original):

Embora a tendência geral durante a última década na América Latina tenha sido a fragmentação de estruturas criminosas, três grupos quebraram esse paradigma e ganharam grande visibilidade, crescendo em número e influência territorial dentro e fora das fronteiras de seus países.

Enquanto muitos criminosos buscavam agir nas sombras, atuando em operações cada vez mais longes dos olhos do público, esses grupos foram para as ruas e apresentaram-se abertamente como organizações criminosas.

A exposição pública de sua força e marca são o segredo de seu sucesso? Ou será que a atenção que as facções estão atraindo com suas ações resultará na fúria e no poder de repressão das autoridades nacionais e internacionais, motivando sua fragmentação e desaparecimento definitivo?

Breve histórico da facção Primeiro Comando da Capital e de Marcola seu líder.

Primeiro Comando da Capital (Primeiro Comando da Capital – PCC)

A gangue prisional mais poderosa do Brasil em 2018, se aproveitou a total falta de vontade política para enfrentá-la:um governo fraco, paralisado e aparentemente corrupto do presidente Michel Temer gastou seu limitado capital político simplesmente agarrando-se ao poder. Foi nesse ambiente que o então candidato Jair Bolsonaro, um extremista em questões de segurança, concorreu e ganhou as eleições para presidente da República de 2018.

O PCC passou vários anos em expansão, mas em 2018 houve uma aceleração de seu crescimento, e sua estrutura estava muito mais coesa do que as estimativas levavam a crer: com operações agressivas no Paraguai e na Bolívia, e tentáculos que alcançam Colômbia, Argentina, Uruguai e Venezuela. A participação da quadrilha no comércio internacional de cocaína também revela uma capacidade de obter maiores lucros e se expandir para fora da América do Sul.

Um dos fatores que teriam influenciado o crescimento acelerado da facção seria a quebra, em 2016, da aliança que havia firmado com o Comando Vermelho (CV). Seu fortalecimento permitiu que a organização carioca fosse enfrentada, e esse enfrentamento não só não a enfraqueceu como levou o PCC ao domínio tanto de fontes primárias quanto de rotas.

Arquivos apreendidos pelas autoridades em 2018 elucidam fontes de renda, táticas de lavagem de dinheiro e aumento de recrutas do PCC. Os documentos indicaram que a receita anual do grupo pode chegar a US $ 200 milhões. De acordo com os arquvios, os membros do PCC pagam uma taxa de afiliação de até R$ 950,00 por mês, que é usada principalmente para manter os membros do grupo que estão na prisão.

A expansão do PCC no exterior tem sido mais evidente no Paraguai. O crescimento nesse país e a vontade do grupo para agir em desafio aberto a qualquer resposta paraguaia ficaram claros após o assalto cinematográfico na sede da Prosegur, uma empresa de carros blindados em Ciudad del Este. Com precisão militar, 60 homens armados explodiram as portas da sede da empresa e pacificamente levaram US$ 11,7 milhões, passaram em carreata atirando para em direção à fronteira e terminaram a fuga em barcos pelo rio Paraná em direção ao Brasil.

Desde então, as raízes do PCC no Paraguai, principal produtor de maconha na América do Sul e paraíso dos contrabandistas, se tornaram arraigadas e disseminadas. Acredita-se que o PCC agora domine a cidade fronteiriça paraguaia de Pedro Juan Caballero, onde exerce o controle total dos negócios de maconha e cocaína que passam por lá.

Todas as organizações criminosas brasileiras querem acesso à farta produção de cocaína colombiana e peruana, tanto para abastecer o mercado interno quanto para baratear o preço de venda e para conseguirem se inserir no comércio internacional de drogas — o que só é possível com o controle de custo, pegando a mercadoria direto do fornecedor externo.

A presença do PCC na zona trilateral, entre o Brasil, a Colômbia e o Peru, outro país produtor de cocaína, intensificou-se nos últimos anos, muitas vezes acompanhada de massacres e extrema violência. A Bolívia não foi isenta de uma dinâmica semelhante, embora em 2018 fosse o Comando Vermelho, mais do que o PCC, que tinha uma presença mais óbvia naquele país .

A Venezuela, com corrupção generalizada e fracasso econômico, tornou-se uma fonte de armas para grupos criminosos, e o PCC procurou estocar armas pesadas para lá.

Embora alguns dos principais líderes do PCC tenham morrido, o grupo conseguiu manter sua direção e controle graças a sua estrutura de atuação, que mais se parece como uma franquia com um conselho de administração do que com uma estrutura verticalmente integrada. Esse conselho de diretores é conhecido como “Sintonia Geral Final”, e é formado por cerca de oito a dez membros, e seriam eles quem tomariam as decisões mais importantes sobre estratégia e diretrizes gerais para as atividades dos membros do PCC.

Ironicamente, a eleição de Bolsonaro pode ser um estímulo para o PCC, sem dúvida, em termos de recrutas, porque estão previstos mais confrontos e prisões de membros, segundo a retórica de campanha do presidente.

Especificamente, o motor de crescimento do PCC são as prisões. As prisões são os lugares onde o PCC ancora sua base e cria sua força e suas bases sociais. Quanto mais a política de aprisionamento for promovida como uma resposta à violência, mais o PCC será fortalecido e expandido. Paradoxalmente, o estado acaba atuando para fornecer mais membros ao PCC.

Camila Nunes Dias

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 700 mil presos, e segue de perto os Estados Unidos e a China, ambos com populações totais muito maiores. E esse número parece destinado a crescer durante o ano de 2019.

É opinião do InSight Crime que o PCC em breve se tornará uma das estruturas criminais mais importantes do continente americano, juntando-se aos colombianos e aos mexicanos. A expansão futura, especialmente no nível transnacional, dependerá de quanto o PCC está envolvido no negócio da cocaína, aproveitando a posição do Brasil como uma das principais pontes de tráfico da droga para a Europa e além.

“O PCC está no Brasil, Bolívia, Paraguai e está entrando no Uruguai e na Argentina. Eles vão nessa direção. Existe um vácuo e eles vão se expandir e expandir. E dominar “.

Márcio Sérgio Christino

Para ler a análise do InSight Crime sobre as outras duas organizações criminosas que se destacaram em 2018, Exército de Libertação Nacional (ELN da Colômbia) e o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), acesse este link.

Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533)

Resumo histórico da formação da facção paulista Primeiro Comando da Capital.

Texto: "originalmente, o Primeiro Comando da Capital era o nome de um time de futebol que disputava o campeonato interno..."
Facções criminosas no Sistema Penitenciário

A influência das facções criminosas no sistema penitenciário brasileiro, foi o tema do TCC de José Talles Guedes Pinheiro apresentado ao Instituto de Pesquisa e Ensino Objetivo, e em determinado ponto, ele se detêm para contar um pouco da história da facção paulista:

O Primeiro Comando da Capital (PCC), facção paulista, surgiu em agosto de 1993, na Casa de Custódia e Tratamento “Dr. Arnaldo Ferreira”, em Taubaté, interior de São Paulo, conforme preconiza Roberto Porto em seu livro:

“Originariamente, o Primeiro Comando da Capital era o nome de um time de futebol que disputava o campeonato interno do presídio de Taubaté, na época estabelecimento apelidado pelos detentos como “Piranhão” ou “masmorra”, por ser considerado o mais severo do sistema. Os detentos da Casa de Custódia tomavam banho de sol apenas uma hora por dia, ao lado de um pequeno grupo de encarcerados, no máximo dez. Todos permaneciam em celas individuais, sem direito a visita íntima”.


Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional

Continuando, Porto relata que

“Consta que ao chegar à final do campeonato, o time Primeiro Comando da Capital, integrado pelos presos denominados fundadores José Marcio Felício, o Geleião, Cezar Augusto Roriz, o Cezinha, José Eduardo Moura da Silva, o Bandeijão, Idemir Carlos Ambrósio, o Sombra, dentre outros, resolveu, em vez de jogar futebol, acertar as contas com dois integrantes do time adversário, resultando na morte destes presos. Deste ato, que 24 tomou contorno de reivindicação contra as precárias condições do sistema prisional, se originou a facção criminosa”.


Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional

Porto menciona um trecho, em seu livro, do relatório dos promotores de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), quanto ao nascimento do PCC.

“Assim nasceu o PCC, cuja meta inicial era a prática de extorsões contra detentos e seus familiares, bem como determinar a realizar execuções de outros presos visando dominar o sistema carcerário, realizando o tráfico de entorpecentes no interior dos presídios e cadeias públicas. Com o passar dos anos a organização criminosa estendeu suas operações, passando também a realizar inúmeros crimes fora do sistema prisional”.


Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional

Ao longo dos tempos a facção criminosa, PCC, manteve-se a mesma estrutura, basicamente piramidal, contando em seu topo com os chamados “Fundadores”, ou aqueles que, em virtude de seu mister criminoso, alcançaram uma posição de prestígio dentro da entidade criminosa, quer por matarem outros presos, quer por executarem ações cujo retorno fosse especialmente proveitoso para a organização.

Afirma Porto que essa estrutura piramidal do PCC fora alterada ao longo dos anos. “Esta estrutura piramidal foi alterada ao longo dos anos. Hoje, o Primeiro Comando da Capital é dividido em células, de modo a permitir a continuidade das atividades criminosas mesmo com o isolamento dos líderes”.


Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional

Nesta base piramidal, ainda se compõe de integrantes em escala hierárquica inferior, os chamados “batizados”, denominados assim por aderirem ao estatuto da facção, estes membros são considerados ativos da sociedade criminosa. Ante a expansão da facção, foram criados, ainda, dentro dos presídios os cargos de “pilotos” e “torres”, presidiários que detém de poder dentro do presidio ou pavilhão como representantes dos fundadores.

O ano do apogeu desta facção foi em 2001, como afirma Roberto Porto:

“O apogeu desta facção criminosa adveio quando ocorreu a maior rebelião prisional da qual se tem notícia no mundo, a chamada “Megarrebelião”, em 18 de fevereiro de 2001. Tal rebelião envolveu 29 presídios com ações simultâneas. O governo estima em 28 mil o número de rebelados reunidos pelo Primeiro Comando da Capital, em 19 municípios”.


Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional

A proliferação desta facção, segundo o Ministério Público Paulista MP-SP, também foi possível devido a existência das chamadas “centrais telefônicas”.

“Ainda, segundo o Ministério Publico Paulista (MP-SP), a proliferação do Primeiro Comando da Capital só foi possível graças à existência das chamadas “centrais telefônicas”, expressão hoje já popularizada, e que consiste sempre em linhas telefônicas instaladas em locais quaisquer, programadas com o escopo de efetuarem a transferência de chamadas ou o que se denomina “teleconferência” (três pessoas falando ao mesmo tempo)”.


Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional

A facção criminosa, PCC, não se encontra delimitada somente no território paulista, mas já se encontra em outros estados, isto devido a transferência de lideranças do desta facção para outros estados, conforme Porto.

“Todavia, esta facção criminosa não se encontra delimitada em território paulista. A transferência de lideranças do Primeiro Comando da Capital para outros Estados permitiu uma expansão e sobretudo uma consolidação de alianças que resultaram em uma estrutura hoje nacional. Mas não somente a parte material e operacional foi desenvolvida; também a parte ideológica sofreu grandes alterações”.


Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional

Atualmente, a nova liderança do Primeiro Comando da Capital é centrada na figura do detento Marcos Wilians Herbas Camacho, o “Marcola”, como menciona a revista ISTO É.

“Líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), Marcola, 48 anos, nasceu na Vila Yolanda, em Osasco (SP). Órfão de mãe, não conheceu o pai e já roubava aos 9 anos, no Centro de São Paulo. Sua primeira condenação foi em 1987 por assalto à mão armada. Só foi preso em 1999 por participar de dois roubos a banco e cumpre pena em presídio de segurança máxima em Presidente Venceslau”.


Revista ISTO ÉOs donos do crime

Google Trends 2018 e a facção PCC 1533

O que os usuários do Google interessados na facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) buscaram em 2018 e o que podemos concluir destes resultados.

O Primeiro Comando da Capital prossegue firme e forte

Apesar do grande esforço da mídia, dos órgãos de segurança e dos políticos durante a campanha eleitoral, a facção PCC 1533 se manteve exatamente dentro de sua média histórica na década – 31 pontos:

 

PCC

CV

FDN

2018

31

13

10

2017

ano atípico

 

 

2016

32

13

6

2015

34

12

6

2014

46

16

2

2013

36

12

2012

29

5

2011

18

14

2010

22

6

Durante 2017 houve as grandes chacinas dentro do sistema prisional que se iniciaram com o ataque perpetuado pela facção Família do Norte (FDN) em Compaj, no Amazonas, culminando com a guerra dentro da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, e batalhas e assassinatos em carceragens por todo o país subvertendo o resultado, por essa razão optei por excluir os números desse ano na tabela.

Visite nossa página de estatísticas → ۞

A facção PCC 1533 e seus aliados e inimigos

Em 2017 ironizei as facções inimigas:

“… os usuários do Google não vinculam o Comando Vermelho ao tema [crime organizado]… desculpa aí 2, no Google é tudo 3!!!”

Em 2018 os usuários do Google continuaram relacionando apenas o Primeiro Comando da Capital ao termo “Crime Organizado”; não por menos, este ano se aprofundou o racha dentro Família do Norte, e o Comando Vermelho (CV) perdeu espaço com a intervenção militar no Rio de Janeiro – E aí 2, valeu ostentar os pesadões nas biqueiras?

“Eu estou a lembrar da siciliana Letizia Battaglia, ela ficou famosa pelas suas fotorreportagens sobre a máfia siciliana, a secular Cosa Nostra, para as revistas norte-americanas que lhe pedem fotografias sobre a máfia, ela tem sempre a mesma resposta: ‘Eu não sei mais como fotografá-la, porque não a encontro mais’. Fotografias de máfia hoje não existem, a máfia siciliana ficou invisível, não mais promove ações espetaculares, não mais atacam as forças de ordem, e não mais produzem excelentíssimos cadáveres.”


Wálter Fanganiello Maierovitch

Os usuários do Google deixaram de referenciar as facções criminosas cariocas Comando Vermelho e Amigo dos Amigos (ADA) ao termo “facção criminosa”, o que pode estar refletindo perda de importância desses dois grupos após a intervenção federal no Rio e a guerra pelo domínio da favela da Rocinha:

Termo: “facção criminosa”

2018

2017

Primeiro Comando da Capital

11

12

Família do Norte

7

Comando Vermelho

1

5

Amigo dos Amigos

2

Primeiro Grupo Catarinense

2

Terceiro Comando Puro

1

O interesse do internauta reflete o poder midiático das facções

As facções criminosas no Brasil se dividem em nacionais, regionais e locais. As facções nacionais PCC, CV e FDN mantêm rotas de importação e exportação e abastecem as facções regionais e locais com armas e drogas.

Os números do Trends 2018 confirmam a previsão de Camila Nunes Dias de que a hegemonia da facção paulista nas prisões se refletiria nas ruas, afinal imagem é tudo. Os garotos querem pertencer a um grupo de sucesso e a pouca pesquisa das outras facções nacionais demonstram que está havendo a quebra do interesse por elas, inclusive nas quebradas onde suas crias são captadas.

O Rio de Janeiro continua lindo, mas não tão amigo

A surpresa dos números do Trends 2018 se deu pela desimportância atribuída pelo internauta ao Comando Vermelho enquanto facção criminosa, que passou a ter tanta relevância na rede quanto o Terceiro Comando Puro (TCP), outra facção regional aliada do Primeiro Comando da Capital que sequer apareceu no Trends 2017.

A expectativa de crescimento da facção Amigo dos Amigos, outra aliada regional do PCC no Rio de Janeiro, não se concretizou; ao contrário, devido ao apoio dado pelas forças de segurança para as milícias, somado à batalhas nos morros contra as facções inimigas em 2018.

A utilização dos braços regionais permitiu ao PCC ser ignorado pelo carioca que pesquisa “facção criminosa”, mas os dois aliados regionais da facção, pela primeira vez, superaram individualmente o Comando Vermelho:

Terceiro Comando Puro

78

Amigo dos Amigos

50

Comando Vermelho

43

Primeiro Comando da Capital

21

Os usuários perderam interesse na facção inimiga Primeiro Grupo Catarinense (PGC) que chegou a aparecer na listagem de 2017, quando a facção capixaba que tentou barrar o Primeiro Comando da Capital, que buscava garantir o livre trânsito dos insumos oriundos do Paraguai, criar novas rotas alternativas para a exportação pelos portos de Santa Catarina e dominar os presídios.

Trends capixaba

2018

2017

Primeiro Comando da Capital

35

7

Primeiro Grupo Catarinense

24

21

Listagem das facções aliadas, inimigas e neutras → ۞

O internauta que se interessou em pesquisar sobre o PCC em 2019 queria saber mais a respeito do seu líder, do funcionamento do grupo criminoso e sobre os principais inimigos da facção.

Assim como no ano anterior, as pesquisas feitas por meio das palavras “homicídio”, “roubo”, “assalto”, “insegurança”, “assassinato”, “morte” não foram vinculadas ao PCC ou ao crime organizado, mas…

… diferentemente de 2017, o Primeiro Comando da Capital deixou também de ser uma referência nas pesquisas feitas sobre os termos “sistema prisional” e “sistema carcerário”, refletindo a pacificação imposta pela facção sobre as trancas sob seu domínio, a separação mais criteriosa feita pelos agentes públicos e o acordo tácito com as facções inimigas.

Personagens ligados à facção paulista

Apenas os nomes de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, tiveram relevância nas pesquisas vinculadas ao PCC, além é claro do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Qual é a música?

Pelo segundo ano consecutivo, o grupo musical Facção Central supera os Racionais MC’s e Mc Zóio de Gato nas pesquisas feitas pelos usuários.

A imprensa e a facção PCC

Nenhum órgão de imprensa se destacou esse ano, em oposição ao que aconteceu em de 2017, quando a UOL chegou a ser citada como referência de busca para questões sobre a facção criminosa paulista.

A pesquisa pela facção por estado da federação

Os sul-matogrossenses, que sequer pesquisavam sobre o termo “Primeiro Comando da Capital” em 2017, passaram a liderar como os usuários que mais procuram sobre o tema. Além das ações policiais tentando desarticular o braço da Rota Caipira que passa por lá, também houve destaque nas mídias das ligações da facção paulista com as forças policiais, que chegavam a disponibilizar escolta com viaturas oficiais para caminhões com contrabando de cigarros.

O Ceará manteve a posição de destaque devido à guerra entre facções que ainda impera por lá, onde o Primeiro Comando da Capital e seu aliado Guardiões do Estado (GDE) disputam palmo a palmo os corações e as almas dos jovens nas periferias.

Mato Grosso do Sul

100

Ceará

77

São Paulo

55

Alagoas

46

Bahia

29

Pará

29

Amazonas

28

Goiás

27

Santa Catarina

26

Maranhão

23

Paraíba

23

Minas Gerais

21

Paraná

21

Mato Grosso

20

Rio Grande do Norte

20

Distrito Federal

18

Espírito Santo

17

Rio de Janeiro

17

Pernambuco

16

Rio Grande do Sul

8

Os estados do Acre, Maranhão, Piauí, Rondônia, Roraima, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Tocantins, devido à baixa taxa de acesso à rede, não tiveram relevância na pontuação, por isso ficaram de fora da listagem. No entanto, o Alagoas teve um número significativo de pesquisas pelos termos “facção PPC” e “PCC 1533″.

O nome da facção paulista no Brasil e no mundo

O termo “Primeiro Comando da Capital” se tornou mais homogêneo, sendo preferido pela metade dos usuários em todas as regiões do país, ao contrário de 2017, quando os termos “Facção PCC” e “PCC 1533” tinham o mesmo índice de busca.

A tendência entre os povos de língua espanhola segue no caminho da unificação do termo para “Primer Comando Capital” em vez de “Primer Comando de la Capital”, que hoje só é predominante na Colômbia e ocasionalmente na Argentina e no Chile.

As nações latinas que mais buscam informações sobre o grupo criminoso foram: Paraguai (100), Bolívia (24), Argentina (5) e Colômbia (?).

A busca pelos termos em inglês “First Commander of the Capital” e “First Capital Commander” não tiveram relevância em 2018, esse segundo ainda foi consultado com alguma frequência este ano no Reino Unido e no ano passado na Dinamarca.

No exterior as pesquisas pelo termo em português “Primeiro Comando da Capital” foram feitas em 2018 principalmente em Portugal, Países Baixos, Taiwan e Itália. A surpresa ficou por conta da entrada na lista do país asiático que desbancou a tradicional Argentina.

A facção PCC, a polícia e o Contrato Social

A polícia e o Primeiro Comando da Capital gerenciando as normas nas comunidades carentes paulistas.

São Paulo, Zona Norte, dia molhado

A vida não é difícil e nem fácil, mas é cheia de regras que precisam ser seguidas para se caminhar em paz. Isso vale para mim, para você, para os crias do 15 e para a população das comunidades da periferia, mas para os que seguem as regras está suave.

É a lei do certo pelo certo e o que é errado será cobrado.

Toda vez que vou à região do Jaraguá na Zona Norte de São Paulo eu me perco. Por isso planejo cada passo antes de sair:

“… chegando na pracinha ‘que dá pros’ predinhos deixo o carro, vou o resto do caminho a pé, encontro o aliado, entro e saio da comunidade (um pé lá e um pé cá) – simples assim.”

Já estava escurecendo quando cheguei. Havia um grupo de garotos tomando cerveja próximo de onde eu havia planejado deixar o carro. De boa, quem não é visto não é lembrado, e se eu deixasse o carro ali toda viatura que passasse iria consultar a placa – melhor não.

Rodei mais dois quarteirões e parei na Lourenço Matielli, ali ninguém botaria reparo na placa de fora.

Onde citei nesse site favelas e comunidades → ۞

A imprensa obriga a polícia apresentar resultados

Deixei o carro, segui a pé até a entrada da comunidade onde o aliado estava me esperando, e entramos na comunidade.

Ao contornar o campinho, escorreguei em uma tábua molhada: ninguém riu, ninguém ajudou, ninguém disse nada – me levantei, seguimos e resolvemos a parada.

Eu só estava lá de passagem, jogo rápido, mas o aliado aconselhou que eu ficasse ali até seus familiares irem para o culto. O clima estava pesado e não dava para sair de lá sem trombar com alguma viatura, e eu sendo de fora de certo seria parado.

Não carregava nenhum bagulho comigo, mas regras são regras, e é melhor não dar sorte para o azar. Normas de conduta existem para serem seguidas, elas garantem a paz na comunidade e a segurança de todos.

A quebrada estava molhada, e desde que começaram a procurar Amanda qualquer deslize poderia entornar o caldo.

Era polícia para todo o lado depois que o caso ganhou espaço na televisão e chamou a atenção da mídia para a comunidade, e isso é ruim para todos.

A polícia querendo resultados pressionava até morador que nunca se envolveu com a criminalidade – patifaria com a população, a cara deles.

Ninguém comentou nada quando escorreguei, assim como ninguém falaria nada sobre o caso do desaparecimento de Amanda, a ex do irmão Vampirinho do PCC, principalmente depois que começou a correr o boato que ela estaria pagando de X9 para a Civil:

Dicionário da facção PCC 1533

42. Traição:

Caracterizado quando um integrante da organização leva informações para outras facções ou para a polícia…

A punição para caguetagem é a morte

Enquanto a polícia não encontrasse os corpos a pressão continuaria. Alguém teria que vazar a informação para dar chance para os agentes acharem o local, mas se nem assim isso fosse resolvido, alguém ia ter que pular na frente e assumir o B.O. para restabelecer a paz. – é assim que funcionam as coisas da ponte para cá.

A imprensa teria cenas para colocar no noticiário, os policiais iam pousar de Charles Bronson, os negócios voltariam a fluir suave e a população não ia ficar mais na pressão – só que alguém ia ter que assumir o B.O. voluntariamente, é a lei do PCC 1533.

Onde citei nesse site a imprensa → ۞

O proceder do certo pelo certo

Alguns dizem que ela não morreu por passar informações à polícia.

Amanda, ao romper o relacionamento com Vampirinho, se envolveu com Dentinho, um outro homem do mundo do crime, mas não é assim que se “corre pelo lado certo da vida errada”, e ela conhecia o proceder da facção.

“Assim como as mulheres são consideradas propriedade do homem, sua vida e sua morte são mantidas pelo homem.”

Existe todo um proceder a ser seguido para estar dentro do código de ética do crime, e Dentinho, sendo criminoso, também tinha a obrigação de conhecer:

  • Para não cair na talaricagem, Dentinho teria que ir falar com o ex-companheiro de Amanda para tirar a limpo a história da separação, para só então ficar com ela.

A facção Primeiro Comando da Capital é por sua natureza machista, e uma mulher ao se unir a um companheiro não pode simplesmente lhe dar as costas e trocá-lo por outro – a cobrança pela talaricagem fica a critério do prejudicado após a análise do Sintonia.

Eu não sei o que aconteceu por lá, o que sei é que Amanda e Dentinho desapareceram e que quatro corpos foram localizados enterrados na mata depois que a Guarda Civil Municipal recebeu uma dica de onde eles estariam – vamos ver se agora diminui a pressão.

Como o PCC lida com as mulheres → ۞

Contrato Social: a etiqueta da sobrevivência

Por estar circulando fora da minha quebrada, eu poderia até morrer ou ser preso, com sorte apenas levar um esculacho ou tomar um salve, ou, no mínimo, ter que dar explicações para os integrantes da facção ou da polícia. Tô fora!

  • Você imagina que só é morto, preso ou leva esculacho da polícia quem corre pelo lado errado da vida? – garoto inocente.
  • Você imagina que só pode tomar um salve ou ter que dar explicações para integrantes da facção quem for do crime? – acorda para a vida.

As pessoas que conheci naquela comunidade não sabem o que Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau disseram sobre o Contrato Social, mas elas sabem que não devem rir, ajudar ou fazer comentários quando uma visita escorrega numa tábua.

Ao abrir mão dessas pequenas liberdades privadas a comunidade garante em troca proteção contra aqueles que possam roubar, extorquir, matar ou estuprar na favela e nos predinhos.

Hobbes, Locke e Rousseau chamariam isso de Contrato Social, mas aquela gente que mora ali não chama de nada, apenas segue as regras, e todos continuam sem problemas – simples assim.

Eu, sendo uma visita naquela comunidade, tinha meus privilégios, mas deveria evitar encontrar com os representantes do Estado constituído (polícia) ou do Estado paralelo (facciosos) – se um me parasse e o outro visse, sujaria para meu lado. Tô fora!

Onde citei nesse site o Estado paralelo → ۞

Finn e Monique explicando nossas escolhas

Sabemos que é assim que a coisa funciona, mas Finn Stepputat e Monique Nuijten no artigo Antropologia e o enigma do Estado, publicado na obra Handbook of Political Anthopology, explicam as razões pelas quais as coisas acontecerem dessa forma.

Se você duvida que as coisas acontecem como estou lhe contando ou que Finn e Monique não estão certos em suas conclusões, não se preocupe, afinal os pesquisadores se basearam em Giorgio Agamben, que afirmou certa vez:

“Acredite em tudo que eu disse, não acredite em nada. Aprenda a diferenciar fatos e opiniões pessoais. Faça sua PRÓPRIA pesquisa, então, ESCOLHA no que acreditar.”

… ou talvez Giorgio não tenha dito isso – talvez seja uma opinião pessoal minha ou de outra pessoa qualquer. Pensando bem, é melhor você fazer sua própria pesquisa e só então escolher se acredita ou não em mim e em Finn e Monique.

A banalização da morte

Quando da morte de Marielle Franco, circularam pelas redes sociais fotos com uma garota sentada no colo de um homem e a frase: “Marielle e Marcinho VP, a santa da Globo e seu namorado” – tem gente boa que vai arder no inferno por ter compartilhado essa foto.

“Será possível que algumas vidas sejam consideradas merecedoras de luto, e outras não?”

Há quem comemore quando um ladrão, traficante, talarico, político, policial, inimigo, pederastra, empresário ou comerciante é morto pela ação legal ou ilegal do Estado: pelas mãos de policiais ou membros de facções criminosas – talvez seja este o seu caso.

O fato de aceitarmos cada vez com maior naturalidade que o outro seja morto é uma consequência natural de nossa paulatina imersão em um Estado de exceção – aquela história do sapo na água fervendo.

Ninguém daria a mínima se eu desaparecesse naquela quebrada da Zona Norte, assim como ninguém está preocupado com toda aquela população que vive à sombra de dois Estados, que impõem suas regras em troca de uma suposta garantia de segurança.

Para horror de Judith Butler, matar deixou de ser o ápice da desigualdade social para se tornar uma ferramenta de controle social aceita tanto por aqueles que vivem nas áreas de risco quanto por aqueles que assistem de longe, pelas telinhas da tv ou pela internet.

Martin Buber explica como funciona esse poder intrínseco do homem de negociar na prática sua liberdade em relação ao outro dentro de cada ambiente, tipo assim: não rir de uma visita que escorrega ou não comentar o que se sabe para quem não se deve.

Pode parecer hipocrisia ou foucaultionismo, mas esse nosso poder de gerir de forma calculista nossa vida é o que aos poucos nos trouxe para esse ponto onde estamos.

Onde citei nesse site Marielle Franco → ۞

Os efeitos de 11 de setembro da ponte para cá

Erra quem acredita que nós não fomos atingidos pelos aviões em 11 de setembro de 2001.

Aquele clima pesado que pairava sobre a comunidade na Zona Norte de São Paulo e que me obrigava a esperar o melhor momento para sair era apenas um dos reflexos na comunidade do ataque às Torres Gêmeas – se bem que ninguém por lá dava conta disso.

Há tempos, os Estados paralelos passaram paulatinamente a criar regras e a cobrar obediência para garantir a segurança das comunidades às quais pertencem, sob os aplausos de muitos e o silêncio da maioria, isso mesmo antes de 11 de setembro, mas…

… após o atentado da Al Qaeda, o Estado Constituído em diversos países, aos poucos, passou a questionar direitos e a tolerar abusos por parte de seus agentes, sob os aplausos de muitos e o silêncio da maioria, com o pretexto de manter a paz.

Por causa disso, policiais e facciosos estavam ainda mais empoderados para cobrar de mim e de qualquer outro que seguisse suas regras de comportamento, e eu estava lá, entre um e outro, mas a quem recorrer? Ao Chapolin Colorado?

Meu soberano deve me proteger, e é por isso que aceito seu jugo e suas ameaças – pelo menos é o que Hobbes me garantiu. Pode parecer uma posição hipócrita, mas, conscientemente ou não, é o que eu e você fazemos todos os dias.

Como foi descrito por Charles Tilly, a população da comunidade da Zona Norte sabe que deve obediência aos policiais que representam o poder da legalidade, mas também devem aos criminosos locais que efetivamente garantem a segurança no dia a dia.

Eu não preciso que Charles me diga que nesses tempos pós 11/9 a vida é menos valorizada, tanto pelos agentes do governo quanto pelos faccioso, e por isso esperei para sair em um momento em que não encontrasse nenhum deles pelo caminho.

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Nem todos podem ser mortos assim sem mais nem menos

Giorgio Agamben afirma que eu, Amanda, Dentinho e os garotos das favelas e das comunidades estamos na lista dos matáveis, mas nem todos têm “vidas nuas”, desprotegidas, que estão sujeitas à execução sem a punição dos matadores.

Giorgio só não negou o inegável

Enquanto alguns, entre eles talvez você, negam que estejam sob o jugo de algum poder soberano, Giorgio analisou os limites que essa elite se impõe e descobriu a lógica aplicada por esses grupos para separar quem pode ou não ser morto.

“Elite” talvez não seja como você descreveria um grupo pequeno de policiais ou criminosos que advogam para si o poder de decidir quem vive e quem morre, mas são eles que controlam os bens mais preciosos dos homens: sua vida e sua liberdade.

Giorgio chuta para o escanteio a noção de que o soberano é aquele que detém o poder legal, reconhecendo a soberania naquele que tem a “capacidade de matar, punir e disciplinar com impunidade”.

A vida nua não pode ser magra

Caroline Humphrey no entanto alerta que a vida pode “ser nua”, como afirma Giorgio, mas que esse conceito não pode ser entendido sem uma análise profunda de cada “modo de vida” em cada comunidade.

Eu sabia, mesmo sem que Caroline me dissesse, que naquela comunidade eu poderia ser punido por infringir uma das normas não escritas mas aceitas por algum daqueles soberanos, e ficaria por isso mesmo, sem punição para meus algozes.

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A tênue separação entre a realidade e a utopia

Em um mashrut na Mongólia ou em uma van irregular nas periferias brasileiras existe um universo real colorido convivendo com a utopia dos que enxergam o mundo em preto e branco – Lei! Ora, a lei.

Dentro de cada um daqueles veículos, assim como nas comunidades, as regras de conduta são aceitas ou toleradas pelos passageiros, acima mesmo das leis formais da sociedade, para que essa tênue película que separa o real do utópico não seja rasgada.

  • Experimente tirar a camiseta em uma van e se sentar ao lado de uma garota: a regra de conduta daquela comunidade não aceita. Diga que você está amparado pela Constituição Cidadã de 1988 (desculpe se me rio: kkk).

Cada proprietário de van ou de mashrut é um pouco soberano, mas responde a um grupo maior que garante sua soberania. Da mesma forma ocorre em comunidades urbanas e rurais com soberanos locais, ligados ou não ao governo oficial.

Cada nicho social abandonado pelo Estado de direito a sua própria sorte cria sua malha social com soberanos locais chancelados pela autoridade do Primeiro Comando da Capital ou alguma outra organização criminosa, como ressalta Graham Willis:

“[Impondo] sua própria violência estrutural, toda institucionalizada e simbólica”.

Assim, seus representantes, da mesma forma que os policiais, têm autoridade para fazer o uso da força e decidir quem poderá entrar na lista das vidas (in)desejáveis ​​e “mortais”.

A morte por consenso desnudada por Graham vale tanto para policiais quanto para criminosos, tanto para vítimas como para algozes. Aqueles que decidem sobre quem vive ou morre em uma comunidade também são mortos impunemente.

Do ponto de vista de Graham, não há dois soberanos, mas sim uma soberania consensual, em que o Estado de direito aceita a regulação da violência por “outros regimes” apenas quando é de seu interesse.

Então tá, mas, para mim, não muda nada. Vou ter que baixar a cabeça e responder às perguntas dos representantes do soberano ou do suserano, que podem decidir impunemente sobre minha vida ou minha liberdade.

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Junto com os crentes para evitar a polícia

Eu só pensava em sair de lá de boa e o mais rápido possível. Chegou a hora do culto e a família do aliado com seus trajes de igreja caminharam comigo a reboque – eu não estava muito no estilo “crente”, mas dava para passar batido.

Para quem mora em condomínio parece natural ter seguranças para impedir a ação de criminosos dentro de suas muralhas, assim como para quem mora em uma comunidade também parece natural que os traficantes locais mantenham a ordem na quebrada.

Isso não acontece apenas aqui – afirmam Finn e Monique.

O que horroriza não é o fato da facção PCC 1533 tomar para si parte da segurança pública, mas desnudar esse acordo tácito entre o Estado de direito e o poder paralelo, que desde sempre esteve nas mãos de policiais corruptos, vigilantes, milicianos ou gangues locais.

O Estado se apresenta como representante único e legítimo, mas os detentores da soberania local, mesmo que na ilegalidade, por vezes estão mais afinados ao “sistema de valores locais compartilhados” pelas comunidades, e daí sua aceitação tácita.

Ao contornarmos os predinhos passamos por um grupo de rapazes sendo abordados por duas viaturas da força-tática. Nem preciso descrever a cara que o policial que fazia a segurança da equipe fez em nossa direção.

Acostumados, o casal e as crianças nem ligaram – normal para eles, para mim, te conto o que pensei:

“É assim que pensam em formar um Estado unificado, onde o cidadão trabalhador se sente protegido pelo poder legal? Firmeza, vai nessa! Ponto para a criminalidade.”

No mundo real da comunidade, as pessoas andam dentro das regras de um Estado dividido e terceirizado, enquanto a mídia e os burocratas ficam atrás de suas mesas escondidos sob montanhas de procedimentos, ideologias e números, vivendo em um mundo utópico.

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Glauco e o novo membro da Família 1533

Me despeço da família e agradeço pela companhia, que me livrou do possível transtorno e do constrangimento de passar por uma geral da polícia ou ser chamado para o debate pelos garotos da comunidade.

No caminho de casa, já na Rodovia Castelo Branco, me lembrei de Glauco, não o cartunista, mas de Glauco Barsalini, que escreveu “Estado de exceção permanente: soberania, violência e direito na obra de Giorgio Agamben”.

  • “OK Google, me lembre amanhã de perguntar ao Dr. Barsalini na padaria Santo Antônio se o Glauco da PUC-Campinas é parente dele.”

O que me fez lembrar da tese de Glauco foi a cara de satisfação de dois rapazes que estavam de farda naquela abordagem policial na Zona Norte de São Paulo enquanto conduziam um dos aviõezinhos preso por tráfico de drogas na quebrada.

O trabalho do acadêmico aponta como consequência desse encarceramento em massa o surgimento e a expansão das organizações criminosas e o que aquelas “pessoas que vivem em comunidades pobres pensam sobre o crime e o policiamento”.

Assim como Finn e Monique, Glauco busca entender o crime organizado em um contexto global e contemporâneo, evitando se contaminar pelo ambiente provinciano que acredita que o fenômeno PCC 1533 é uma criação fora da realidade mundial e de seu tempo.

Ao chegar na segurança de meu lar, depois de resolver as responsas que tinha acertado com o aliado, fui para meu merecido descanso, tão satisfeito quanto aqueles dois policiais que levaram o garoto para ser doutrinado na filosofia da Familia 1533.

Como diria minha velha amiga Odete de Almeida: “É prá cá bá”

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Falta cocaína no varejo – causas e consequências

Está faltando pó nas biqueiras paulistas, e as consequências já podem ser sentidas dentro do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

Um atraso inesperado na fronteira

Quem não tem nada para falar deve ficar de boca fechada, e por isso não te dei mais notícias. Então, vim aqui só para dizer que meus dois parceiros morreram e te aconselhar a tomar cuidado para não seguir o mesmo destino.

“Descansem em paz, guerreiros, onde estiverem, sei que estarão olhando por nós aqui.”

Eu estava de mau humor quando almocei pela última vez com Brunão e o De Lua. Eu gosto de almoçar nesses restaurantes na beira da estrada, próximo à janela, vendo a liberdade lá fora – liberdade é tudo de bom, mas eles decidiram que iríamos almoçar na cidade.

Pararam no Restaurante da Dona Ilda em Coronel Sapucaia. O lugar era perfeito: ambiente familiar com pessoas tranquilas. Chances de sermos abordados ali: zero. Além disso, nunca comi um prato caseiro tão bom, e ainda fomos muito bem atendidos por lá.

Não havia pressa, teríamos que esperar até o dia seguinte para acompanhar o caminhão que traria mercadoria da fronteira do Paraguai para São Paulo.

O plano inicial era escoltar o caminhão do momento em que a carga chegasse de Capitán Bado até encostar no galpão na Zona Leste de São Paulo. Sairíamos no final da tarde e chegaríamos antes do dia clarear, só parando para abastecer.

Percorrer 1.200 quilômetros à luz do dia não me parecia muito promissor, mas a paga seria boa, e não dava para voltar atrás.

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Chuva forte na Bolívia seca as biqueiras paulistas

Já no Restaurante da Dona Nina conheci alguns brasileiros que trabalhavam na Bolívia e estavam por lá de passagem, e o que me contaram me pareceu mentira, mas não era: a falta de cocaína em São Paulo estava sendo causada pela chuva na Bolívia.

Eles  que dos cinco caminhões que haviam conseguido carregar com as folhas de coca, apenas dois chegaram ao seu destino. Os demais acabaram atolados, e suas cargas foram perdidas ou se tornaram imprestáveis.

Milhares de hectares de plantação da coca foram dizimadas pelas tempestades, muitas delas de granizo, destruindo todo o esforço dos campesinos para a contenção de danos às plantações – este foi o ano mais chuvoso dos últimos 50 anos.

As tempestades conseguiram o que Lincoln Gakiya e seus colegas do MP-SP há muito prometem: derrubar o tráfico de cocaína em solo paulista e colocar em risco toda a estrutura da facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

Antes de seguir para Coronel Sapucaia, em Mato Grosso do Sul, fomos avisados que os militares estavam tomando a região da fronteira, o que poderia dificultar o acesso. Quanto a isso estávamos preparados, mas não tínhamos como nos contrapor ao clima.

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Tombou: toneladas de maconha pelo solo

Nosso trunfo para burlar a fiscalização e os militares acabou sendo a causa de nosso fracasso. Não que ele não tenha feito sua parte, mas foi por orientação dele que pegamos a estrada durante o dia e não à noite, como pretendíamos.

A engrenagem entrou em movimento às nove e meia da manhã e só deveria parar às onze da noite. À uma da manhã já estaríamos em casa.

O Ecosport prata seguido do caminhão entrou na MS-289 em direção à Amambaí, e nós passamos a escoltá-los à certa distância. O batedor havia garantido que não seríamos parados pela fiscalização na estrada, pelo menos no Mato Grosso do Sul.

A manhã estava nublada, sem chuva, mas a pista estava escorregadia – foi o que bastou para que tudo desse errado logo no começo da viagem.

Vimos apenas o caminhão fazendo uma manobra brusca e saindo da pista, sem mais nem menos – talvez tenha sido uma distração do motorista com o celular, um buraco ou um animal –, nós o vimos apenas entrar no barreiro e tombar, simples assim.

Chegamos juntos com o batedor que voltou pela pista de ré. Ele levou o motorista do caminhão para a Ecosport e deu pinote enquanto nós recolhemos o que deu em nosso veículo – De Lua queria recolher mais, mas Brunão ameaçou deixá-lo por lá.

Dias depois ficamos sabendo que o motorista do caminhão e o batedor acabaram sendo presos na primeira barreira policial ainda em Amambaí. Nós caímos pelo Paraná e chegamos em segurança – pelo menos o que recolhemos deu para garantir o nosso.

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Seu aliado agora pode ser seu inimigo – Brunão morre

Essa foi a última vez que vi os dois com vida. De Lua e Brunão continuaram juntos em diversos corres de roubo de carga e tinham o mesmo fornecedor fixo de pó, mas agora estavam com problemas para receber a mercadoria.

Ambos resolveram procurar, através dos irmãos conhecidos, outros fornecedores, mas cada um fez seus corres sem falar com o outro:

  • De Lua acabou chegando a uma companheira chamada Equidna. Deixa eu explicar, “companheira” não é a mulher de um irmão do PCC, estas são conhecidas como cunhadas: companheiras são as garotas que correm junto nas fitas.
  • Brunão chegou a um irmão que ficou de fazer a entrega em Sorocaba.

Brunão, o primeiro a rodar.

Chegou no local combinado, mas caiu nas idéias do irmão: entregou o dinheiro e ficou aguardando enquanto ele ia buscar a mercadoria.

Estaria esperando até hoje se ainda estivesse vivo.

Quando percebeu que caiu em um golpe, voltou sem nada para casa, furioso. Tentou recuperar o prejuízo, mas já era tarde, acabou sendo encontrado morto em seu carro.

Talvez o dinheiro que ele perdeu não fosse dele, talvez ele ameaçou quem não devia, ninguém sabe – o fato é que foi morto.

A trairagem e os golpes sempre existiram dentro da Família 1533, como acontece em qualquer outra família. A facção para controlar o sangue dos criminosos que ferve dentro de cada membro da organização criou regras de conduta, mas um lobo sempre será um lobo.

→ conheça o Estatuto do Primeiro Comando da Capital

→ conheça o Dicionário do PCC (Código Penal do Crime)

Agora os lobos estão esfomeados, e os carneiros estão escassos, e esse é o momento em que Charles Darwin fala mais alto: “a seleção natural não é a lei do mais forte, é seleção daqueles que estão mais bem adaptados para sobreviver”.

Brunão, você não foi selecionado, só lamento, guerreiro. Aqueles que colavam contigo prometeram vingança, mas o tempo e as dificuldades resfriam os ânimos, e mesmo agora, poucos dias depois de sua morte, poucos ainda falam sobre te vingar.

Onde citei nesse site trairagens e golpes → ۞

Peloponeso fica na Zona Sul de São Paulo

De Lua, por sua vez, foi à Zona Leste de São Paulo buscar sua encomenda: trinta mil reais de puro pó, sobre o qual ele já havia feito o teste e comprovado a qualidade. Mas em época de crise não se pode confiar nem mesmo na própria sombra.

O que lhe foi entregue era puro lixo. Sequer deveria ter 20% de pureza, mal poderia substituir a maizena como mistura. Trinta mil reais jogados fora. Porém, ao contrário de Brunão, De Lua tinha um nome para correr atrás: a companheira Equidna.

Eu pensei que Equidna fosse nordestina, por causa do nome, mas ela é paulista mesmo, e mãe de perigosos membros da facção. Quem me contou mais sobre ela foi Hesíodo, e foi ele quem contou a De Lua como encontrá-la:

“No Jardim Solange, na Zona Sul de São Paulo, vai pela Estrada do M’Boi Mirim até o COPAGAZ, daí quebra à esquerda em uma rua sem saída. Tem uns galpões do lado esquerdo, mas ela fica mocosada mesmo no morro no fim da rua Peloponeso.”

Não foi por falta de aviso. Hesíodo e seus amigos disseram para De Lua deixar quieto, que ela era mais perigosa até mesmo que seus filhos mais perigosos, mas ele não escutou, ele não era disso. Pegou sua moto e partiu para trocar umas idéias com a companheira.

Dessa viagem apenas seu corpo voltou. Acredito que tenha ainda sido socorrido com vida, pois Leonardo chegou a publicar com detalhes em seu site o que aconteceu, desde que ele chegou ao Peloponeso até quando perdeu a consciência.

Onde falei nesse site sobre as companheiras do PCC → ۞

Os últimos passos do guerreiro

Acredito que Leonardo tenha tido acesso aos registros policiais e às declarações do pessoal do resgate do SAMU, pois têm muitos detalhes que só De Lua poderia ter contado. Leonardo escreveu algo mais ou menos assim:

“Ninguém que entrava naquela parte do Peloponeso em busca de Equidna retornou com vida. De Lua, um pequeno traficante do interior resolveu realizar tal façanha, para alguns foi coragem, para outros mera estupidez.

Assim que parou sua moto, se dirigiu para um grupo de rapazes que ali estavam. Quando citou o nome de Equidna, ele percebeu que o clima fechou. Sabia que devia ter saído de lá naquele momento, ou melhor, nem devia ter ido até lá.

Atrás dos garotos havia uma passagem para dentro da favela, e para qual seguiu sem ser impedido ou seguido.

Seria entrar e sair, afinal aquela favela não podia ser muito grande: havia a estrada do M’Boi Mirim e do outro uma vasta área verde que devia ser um parque de manancial.”

“Nas comunidades normalmente tem muita gente pelas vielas, se ouvem vozes, música e o som dos rádios e televisores, mas ali quanto mais seguia pelas vielas, maior ficava o silêncio.

A noite era de lua, e em São Paulo não há escuridão. A própria luz da cidade ilumina até as ruas onde não há nenhum poste ou janela aberta, mas aqueles becos pareciam cada vez mais escuros.

Parou, tentou se orientar pelos sons, mas não conseguiu. Acendeu a lanterna do seu celular, e colocou a mão em seu 38 que estava sob a camiseta. Queria sacar a arma, mas sabia que podia encontrar uma criança na comunidade – melhor não.

Estava preparado para qualquer desafio, mas sentia algo que não era normal. Não era medo, era uma ansiedade muito forte, uma angústia que ele não conseguia descrever mas que parecia uma bola no seu peito.

A luz da lanterna de seu celular brilhava forte, mas não conseguia iluminar mais que as paredes de alvenaria da favela. O caminho se inclinava para baixo, e depois de descer por alguns minutos ele já estava totalmente perdido.

Primeiro bateu em algumas portas, depois as esmurrava e chutava, mas ninguém respondia. Nenhuma luz saía por de baixo das portas ou pelos vãos das janelas.”

Seguindo em frente, mas sem rumo

“Quanto mais o guerreiro andava, mais parecia que havia para andar. Chegou a virar em curvas que sequer existiam, indo de encontro a paredes – nada o ameaçava, mas sua angústia e seu desespero já o sufocavam.

Caminhava cada vez mais rápido, mas de repente parou, e uma rajada de ar arrepiou seu corpo e gelou sua alma, fazendo-o questionar se sua decisão de entrar ali teve algum mínimo de sensatez.

Deu mais um ou dois passos e viu que estava na beira de um barranco. Se virou para voltar, mas ficou parado no escuro, sentia que havia mais alguém ali mas não conseguia enxergar nada naquele breu.

Sacou a arma e apontou para frente. Esticou o braço que segurava a lanterna do celular para tentar ver um pouco à frente.”

O encontro com Equidna

“Um rosto feminino apareceu, iluminado apenas por sua lanterna, era Equidna. Eles se olharam, olhos nos olhos. Ela sorriu mostrando dentes irregulares e sem ameaças, mas ele tremeu pela primeira vez na sua vida.

De Lua sentiu uma fisgada, apenas uma, mas conta que caiu no chão gritando de dor. Ninguém apareceu por muito tempo até que perdeu a consciência.

Ele foi encontrado próximo à ponte do Aracati, à beira da Represa do Guarapiranga, na manhã do dia seguinte, ainda com vida, mas acabou morrendo naquele mesmo dia sem que sua família tivesse sido localizada.”

Texto original de Fernando sobre Equidna → ۞