Júri condena preso por não cumprir regra do PCC.

Se Ratinho RT (Bruno Augusto Ramos) teria cumprido a regra do Primeiro Comando da Capital de “sumariar” o acusado Rodrigo antes de executá-lo, eu não sei, mas esse foi o foco do debate entre o advogado de defesa e a Promotoria de Justiça, no caso do assassinato de Rodrigo Teixeira Lima, presidente da Associação dos Moradores da Cidade Nova, e ex-assessor do Deputado Missionário José Olímpio.

Graham Denyer Willis em seu livro “The Killing Consensus: Police, Organized Crime, and the Regulation of Life and Death in Urban Brazil” nos convida a abandonar nossas ilusões e enfrentar o fato que policiais e facções criminosas mantém uma normalidade dentro de nossa sociedade através de mecanismos de justiças que não apenas são conhecidos, mas reconhecidos e parcialmente aceitos pelo restante da sociedade.

Ratinho RT foi condenado a 18 anos de reclusão em regime fechado pelo assassinato, mas a dúvida que restou no final do julgamento não foi se ele cometeu ou não o crime, mas se ele cumpriu as regras da facção Primeiro Comando da Capital 1533 ao cumprir a execução.

Como os fatos como foram apresentados no Tribunal:

Gabi, uma garota de 13 ou 14 anos, “ficou” com o Rodrigo em uma das muitas festas que ele promovia e onde álcool e drogas circulavam em abundância, mas ele não estava afim dela e a “chutou para fora”. Ela também se relacionava com um irmão da facção chamado Zóio da Cidade Nova em Itu, e como não aceitou ter sido desprezada por Rodrigo contaminou Zóio dizendo que tinha sido estuprada. Zóio teria cuidado ele mesmo, mas foi morto em troca de tiros com a polícia…

… mas o veneno já estava no ar, na boca do povo, e nas redes sociais, daí alguém pediu providência ao Comando para aplicar a Lei do Crime que pune com a morte estupradores, mas antes tem que ser sumariado, isto é ouvido e julgado. Foi decidido que Ratinho RT ia sumariar o Rodrigo e se o tribunal decidisse ele seria morto.

Quando Rodrigo morreu Gabi comemorou nas redes sociais, mas depois caiu a ficha e viu a besteira que tinha feito. Segundo palavras do investigador Moacir Cova: “Ela sabia a caca que fez , é mil vezes certeza que ela não foi estuprada”.
(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Não tinha cabimento o que ela dizia: com ela tinha uma amiga que não quis ficar com o Rodrigo e foi embora e ele não impediu, Gabi ficou porque quis na casa dele, e lá ele teve todas as chances possível de fazer com ela o que quisesse e nada fez.

Ela disse que ele tentou a estuprar no carro quando estava a levando embora, o que não tem lógica. Outra coisa que chamou a atenção é que o Rodrigo em nenhum momento negou que tivesse ficado com ela e sequer negou o relacionamento, só estranhou que estavam falando que tinha sido estupro, e confiou que indo falar sua versão para o Comando tudo ficaria esclarecido.

Pelo que um dos envolvidos no caso disse ele não teve tempo de se defender. Eles passaram pelas câmeras de monitoramento às 20:16 e voltaram depois de chegar ao local do julgamento, ouvir o acusado, e executá-lo menos de dez minutos. O companheiro que estava dirigindo declarou que depois que Ratinho e Rodrigo desceram do carro foi o tempo dele manobrar o carro e o cara já estava morto.

Moacir Cova declarou que “Ratinho é um molecão novo rendo subir rápido no Partido. Essa morte tinha que acontecer para ele ser respeitado e parecer poderoso no bairro e no crime”. Bem, isso lá ele conseguiu além é claro da pena de 18 anos pelo assassinato e mais 8 por tráfico de drogas. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Dr. Nicolau Iusif Santarém depõe no Júri.

Depoimento do delegado Dr. Nicolau aos jurados durante o Tribunal do Júri no qual o Élio Aparecido de Oliveira, o político e empresário do futebol conhecido como Oliveira Júnior, foi condenado a 20 anos de prisão em regime fechado.

Foi mais ou menos assim…

No dia 26 de Janeiro de 2006 uma hora depois do crime ele chegou ao Hospital onde se encontravam as vítimas: o advogado Dr. Humberto da Silva Monteiro que havia falecido, e o jornalista Josué Soares Dantas Filho que não foi atingido.

Os tiros foram disparados pelo garupa de uma moto que estava a uns três metros e nem parou, portanto não foi um latrocínio. Foram quatro tiros: um na traseira do veículo, e os outros do lado direito, sendo que um na porta traseira em baixo, outro na porta dianteira na altura da maçaneta, e um quarto que teria passado direto.

Pela posição dos tiros, o delegado concluiu que foram disparados assustar as vítimas, e apenas por um azar um projétil acertou a cabeça do advogado depois de se desviar na lataria do veículo.

Nos dias seguintes apareceram muitas pistas, o que era esperado em um caso de repercussão como esse, mas parecia que estavam sendo passadas para confundir a polícia.

Separado o joio do trigo, chegou-se ao nome do Zeca, como era conhecido José Roberto Trabachini, que naquela época era o presidente da Torcida Jovem do Ituano. Bom, não foi fácil encontra-lo, pois já tinha sido preso por tráfico e por estelionato, e era um informante da polícia. Quando o delegado e os policiais chegaram a ele perguntando se ele estava envolvido nesse caso ele nem titubeou:

“Não. O Brito me pediu para arranjar uns garotos para fazer dar um susto no Dantas, eu arranjei, mas eles desistiram, pode perguntar para eles: o Careca (menor) e o Luizinho (menor).”

Depois o Zeca mudou sua versão acusando a própria vítima, o Dantas, de ter encomendado o atentado: o jornalista levaria como passageiro de seu carro o Dr. Humberto que era seu amigo até o local da emboscada, e ele contrataria alguns moleques para o serviço.

Zeca voltou para sua versão inicial depois de ficar preso um tempo e ver que seus advogados defendiam o mandante e não a ele. Quando já estava quase acabando o prazo para vencer sua prisão temporária ele não estava mais aguentando aquilo, e foi nesse momento que o Dr. Nicolau o procurou em Pilar do Sul onde estava preso, e ele acusou Oliveira Júnior como mandante.

Ele contou que a história envolvendo Dantas como mandante passada por orientação: do segurança do Ituano Clube que era seu cunhado Nicéias de Oliveira Brito; do testa de ferro do empresário, o Cleber Antonio Maldaner; e dos advogados arranjados pelo Oliveira Júnior.

Brito era fiel a seu chefe o Oliveira Júnior. Podia até preso, mas não ia falar.

Mas para a polícia o quadro já estava claro, além dos depoimentos, os advogados ligados a Oliveira Júnior sempre apareciam para acompanhar os envolvidos no caso, e isso era muito estranho. Agora faltava conseguir provar o envolvimento do empresário, e isso só poderia ser conseguido com um depoimento de Brito acusando o próprio chefe.

A prisão de Brito foi decretada pela Justiça. O tempo na prisão foi fazendo efeito. Devagar, devagarinho, o ele foi vendo seus comparsas abrirem o bico para conquistarem a delação premiada, e ao mesmo tempo seu chefe estava evitando contato com ele.

Brito era fiel ao Oliveira Júnior. Cansou de ficar preso e resolveu falar.

Brito contou que foi por Oliveira “dar um susto” no Dr. Humberto e Dantas, mas depois que os dois publicavam em um jornal a foto dele e da esposa acusando-os de ações ilegais, Oliveira mudou de ideia: agora queriam a ambos mortos.

Brito não tinha nada contra os dois, e argumentou com o chefe, afinal todo mundo desconfiaria do Oliveira, mas o empresário insistiu e mandou chamar para o serviço alguém que não tivesse ligação nem com ele.

Brito então foi atrás do Zeca, que arranjou os dois garotos que desistiram quando a ordem de “dar um susto” virou “para matar”.

Tonhão do Ituano Clube (Luiz Antônio Roque) ficou sabendo que os moleques pularam para trás e disse para o Zeca que: “Se quiser eu mando fazer o serviço, é dois palitos.” Tonhão e sua família são barra pesada, ninguém desconhecia disso. E de fato ele resolveu o serviço em “dois palitos”.

Bom, depois disso o delegado Dr. Nicolau Santarém disse que não acompanhou mais as investigações que ficaram por conta da delegacia de Sorocaba. Foi assim, segundo o delegado que as coisas aconteceram.

Duas causas da condenação de Oliveira Júnior.

Dr. Nicolau Iusif Santarém, delegado que conduziu na fase inicial o inquérito que investigou a morte do advogado Dr. Humberto da Silva Monteiro, recebeu rasgados elogios tanto por parte da defesa quanto por parte da acusação durante a sessão do Tribunal do Júri na qual o empresário e político Oliveira Júnior foi condenado a vinte anos de reclusão. Acusar as autoridades policiais de conseguir confissões sob tortura e pressão parece ser uma dos pilares canônicos dos advogados de defesa, mas Dr. Nicolau teve o cuidado de gravar em vídeo todas as inquirições e só ouvir os suspeitos na presença de seus advogados, com isso derrubando várias tentativas feitas de anulação do processo.

Mesmo com todos os cuidados tomados pela polícia, os diversos advogados que atuaram no caso insistiam que houve abuso, mas… dessa vez não deu.

Por incrível que isso possa parecer, foram justamente os advogados contratados por Élio Aparecido de Oliveira que o colocaram de forma inequívoca na cena do crime, e não as força policiais. Os jurados da comarca aceitaram a argumentação do Ministério Público que o batalhão de advogados que compareciam para acompanhar os suspeitos do crime só podia estar a paga do político.

“Quem é que pagava tantos advogados? Aquele preso que não tinha nem dinheiro para comprar leite para seus próprios filhos? Eu, o Promotor Público? Vocês, os jurados? O Ituano Clube? Quem?” ̶̶ bradava Dr. Ormeleze para os jurados.

Vários profissionais foram citados: Dr. Ricardo Luis de Campos Mendes, Dr. Marcos Alexandre Bochini, Dr. Newton Cesar, Dr. Haroldo Santarelli, Dr. Edward Simeira, e Dr. Artur Eugenio Mathias.

A vítima que sobreviveu, o jornalista Josué Soares Dantas Filho, chegou a afirmar que “Dr. Ricardo Mendes tinha uma paixão doentia pelo Oliveira Júnior, qualquer coisa que envolvesse o nome do homem ele estava lá para intervir”, e em outro momento do Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze, lembrou que era tal a dedicação dos advogados ao político que o Dr. Ricardo Mendes e o Dr. Marcos Bochini acabaram condenados em uma ação penal por práticas ilegais durante o processo.

Uma reunião feita pouco tempo após o crime no Jardineira Grill na Avenida dos Bandeirantes onde compareceram Cleber Antonio Maldaner, testa de ferro de Oliveira, advogados ligados ao político, e o intermediário confesso do crime Nicéias de Oliveira Brito, jogaram uma pá de cal em qualquer dúvida sobre uma ligação entre mandante e executores.

A revolta do Promotor de Justiça e o nosso futuro incerto.

Indignação não seria a palavra apropriada, talvez um misto de fúria e irritação descrevesse melhor o sentimento externado durante a audiência do Tribunal do Júri de Itu em 22 de Maio de 2014 pelo Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze. Indignação não é também a palavra apropriada para definir o que eu sinto quando penso no que aconteceu, estando mais para um misto de medo e revolta.

Sejam lá quais forem nossos sentimentos o que não podemos é ficarmos indiferentes ao que aconteceu e ao que pode vir acontecer se tivermos como regra seguir por essa trilha. A vida e a segurança de cada um de nós dependerão do desenrolar desse caso.

O réu que supostamente ligado ao PCC e mentor e executor da onda de assaltos às chácaras que ocorriam em nossa cidade até 2004, além de já ter sido condenado em um duplo homicídio e suspeito de praticar um terceiro de um colega da facção criminosa Primeiro Comando da Capital, quase volta ao convívio de nossa sociedade.

Esse sujeito foi condenado pelo Tribunal do Júri de nossa cidade por ter assassinado por motivo fútil e através de traição um companheiro que trabalhava com ele em um posto de gasolina e que possivelmente teria uma promoção passando a ser seu chefe: armada a emboscada lhe desferiu dez facadas sendo a primeira pelas costas.

Digam-me os senhores, se eu não tenho motivos para me preocupar quando através de um processo revisional um sujeito como esses poderia ter sido colocado em liberdade? O Promotor de Justiça se indignou (Ah! É pouco) com a pronúncia por ter sido feita em um acórdão de uma página e meia de pífia argumentação.

Não creiam que eu e o Promotor de Justiça vemos o caso e medimos as consequências da mesma forma.

A fúria e a irritação do Promotor de Justiça se deram por ter sido um caso sólido que nada justificaria a afronta e a anulação da soberana decisão do Tribunal do Júri — segundo ele “uma verdadeira aberração”.

O medo e revolta que eu sinto é pelo que pode vir por aí. Hoje quase tudo é permitido: menor traficando e matando, contrabando, pirataria, sonegação… Só não vê quem não quer que nosso sistema penal e prisional faliu, consequência de nossa escolha do sistema político e educacional. Mas agora provavelmente homicídio — pasmem, até assassinato — passará a impunidade.

Claro que a lei não foi mudada e não se apregoará aos sete ventos que poderemos matar, mas na prática é o que ocorrerá se os argumentos utilizados pelo Desembargador Ivan Marques forem adotados como norma.

Gostaria de viver em uma sociedade ideal onde a decisão desse desembargador poderia ser considerada como correta, mas não vivemos em uma sociedade nem ideal e nem justa. Não temos no Brasil um CSI com todos seus equipamentos e pessoal — se bem que provavelmente a segurança pública americana custe menos que a nossa — aqui os raros casos de homicídio que são concluídos pela Polícia Civil e chegam à Justiça não são frutos de uma intensa investigação científica e recheadas de testemunhas e provas materiais. Dentro dessa nova regra deixa de ser proibido o assassinato, passa apenas a ser proibido ser muito burro e assassinar na frente de testemunhas e não se livrar da arma do crime.

O povo de Itu, através de seu Tribunal do Júri deu a primeira resposta representando a nós como sociedade quando condenou novamente o cidadão a mesma pena que tinha sido condenado no primeiro julgamento: 16 anos de prisão.

Agora cabe a sociedade se posicionar para que nossa polícia que se diz investigativa, a Polícia Civil tenha meios e pessoal para poder investigar de fato, pois se a posição do Desembargador Ivan Marques se tornar corriqueira, nós estaremos definitivamente abandonados a nossa própria sorte.

Quase foi morto ao procurar uma mulher no forró.

Poucos são os seres que tem o poder de ver as cores, muitos vislumbram formas e tons, mas cores é um privilégio de poucos. Os cães veem um mundo cinza, nem por isso são mais tristes que os homens com seus bilhões de cores.

O Plenário do Tribunal do Júri da Comarca de Itu, dois homens debatiam: um deles defendia que o mundo era preto e branco e o outro que havia tons de cinza…

O Promotor de Justiça, Dr. Luiz Carlos Ormeleze, acusava André Aparecido da Silveira de no domingo, 10 de agosto de 2008, por volta da cinco horas da madrugada, ter tentado matar de maneira covarde Edvaldo Jesus de Almeida.

Contou que André, dono da Comercial AgroAndré no Bairro Potiguara, casado há 12 anos, ao invés de estar em sua casa com sua esposa, foi procurar outras mulheres no forró Caipirão de Itu, na Cidade Nova, mas estando bêbado o que encontrou foi confusão. Alguns menores haviam se incomodado com ele e quebrado seu carro, e daí ele os ameaçou com um facão que trazia no veículo.

Edvaldo chegou para fazer o meio campo, o “deixa para lá”, o “não vale a pena”, e dispersou a confusão. André inconformado com os danos no veículo foi até sua casa pegou uma arma e já desceu do carro atirando para matar: foram cinco tiros e pelo menos um acertou o peito de Edvaldo, perto do coração, mas Edvaldo sobreviveu.

André aterrorizou sim, lesionou sim, tentou matar sim. Por isso os jurados deveriam julgar o fato como ele realmente ocorreu, tentativa de homicídio qualificado, fazendo assim Justiça. O mundo é assim: preto ou branco, dizia Dr. Ormeleze.

A coisa não é bem assim, nos ensina o Dr. Wilson José dos Santos Múscari, nem ele nem o Promotor de Justiça estavam lá quando tudo aconteceu, e mesmo que estivessem, cada pessoa tem um entendimento diferente sobre um mesmo fato.

André alegou que agiu em legítima defesa, afinal eram sete rapazes contra ele, mas como deixou o local e retornou mais tarde para cometer o crime, isso desqualificaria essa linha de defesa, visto que para se configurar a legítima defesa ela deve ocorrer “…logo em seguida a injusta provocação da vítima”. Dr. Múscari afirma no entanto que o réu pode, mesmo assim, pedir o benefício, é um direito dele. No entanto em nenhum momento André teve a intenção de matar, como lhe acusa injustamente o Promotor de Justiça, prova disso é que disparou cinco tiros, mas apenas um em direção ao peito de Edvaldo, e antes poderia ter matado a todos com o facão.

André aterrorizou sim, lesionou sim, mas não tentou matar, e por isso os jurados deveriam julgar o fato como ele realmente ocorreu, lesão corporal, fazendo assim Justiça. O mundo é assim: diversos tons de cinza, dizia Dr. Múscari.

Mesmo que os jurados achassem que ele quisesse mesmo matar, deveriam atenuar a pena. André uma pessoa normalmente calma estava alterado naquele momento, quem é que não ficaria nervoso ao ver o carro sendo destruído por um bando de moleques.

André aterrorizou sim, lesionou sim, e tentou matar sim. Por isso os jurados deveriam julgar o fato como ele realmente ocorreu, tentativa de homicídio executado sob o domínio de violenta emoção, fazendo assim Justiça. O mundo é assim: diversos tons de cinza, dizia Dr. Múscari.

Além disso é um ultraje por parte do Promotor tentar agravar a pena alegando que ele foi covarde e pegou a traição Edvaldo: ambos haviam brigado, e ele disse que iria voltar, se o outro rapaz ficou esperando foi justamente para continuar a briga, portanto Edvaldo não foi pego à traição.

André aterrorizou sim, lesionou sim, tentou matar sim, e por isso os jurados deveriam julgar o fato como ele realmente ocorreu, tentativa de homicídio sem agravante, fazendo assim Justiça. O mundo é assim: diversos tons de cinza, dizia Dr. Múscari.

No grená mundo do Dr. Múscari, muitas possibilidades existem. No mundo preto e branco do Dr. Ormeleze apenas duas.

Os jurados decidiram que André tentou sim, matar Edvaldo mediante ato covarde, e condenaram-no a seis anos de reclusão em regime fechado.

O vermelho do sangue nos olhos apagou os outros bilhões de cores, agora tudo é preto e branco, ou talvez cinza. Os cães veem um mundo cinza, mesmo quando seus olhos estão vermelhos de sangue.

Traficante morto no Jardim Rancho Grande.

Ninguém há de me convencer que Bornai não sonhou noites a fio com aquele momento. Sentia-se pesado ao entrar no Tribunal do Júri da Comarca de Itu, no interior paulista.

Bornai foi retirado da cela do Fórum, onde aguardou sozinho ser chamado frente aos cidadãos que decidiriam se ele havia matado Ozenildo Bezerra Freire e tentado matar Juarez Brito Souza, o Alemão.

Cabeça baixa seguiu um Policial Militar pelo curto corredor estreito e escuro que separa a cela do salão do júri, este um lugar démodé, austero, e com seus cadeirões inquisitoriais.

Ele passou por ali inúmeras vezes nos últimos anos, pois o local é passagem entre a cela e as salas de audiências do Fórum. Sua mente fantasiou os diálogos milhares de vezes, ora ganhava a liberdade, ora não.

Fé em Deus! Não resistiu e deu uma breve olhada em direção aos seus amigos e familiares que foram para assistir o julgamento, mas não olhou para os jurados e para mais ninguém.

Dr. Hélio Villaça Furukawa, juiz presidente do Tribunal do Júri, faz breve narrativa sobre à razão pela qual Luciano Manoel da Silva, o rapaz conhecido como Bornai, está ali para ser julgado.

Madrugada de sábado, 12 de maio de 2007. 3h20
Próximo ao Quiosque do Japa, Praça Segundo Ferreti, Itu, SP.

Bornai conversa com Alemão, os ânimos se acirram. Alemão quer receber o dinheiro da droga que teria vendido e Bornai tenta mais um prazo. “Vou pagar, vou pagar, sê rá ligado que eu pago!” – não suplica pelo prazo, diz de maneira definitiva.

Alemão não baixa a bola, não pode, pois os fracos não sobrevivem no mundo do tráfico. Encara de frente Bornai e manda que pague. Talvez tenha dado uma última chance de acertar suas contas, talvez não.

O fato é que Bornai em algum momento passou a Leandro Henrique Rodrigues, o Neguinho, a arma que matou Ozenildo. Ele estava lá, e fez ver ao traficante que os fortes também morrem.

Juarez deve sua vida a falta de precisão nos tiros dado por Neguinho, e no decorrer do processo negou ter reconhecido Bornai como sendo participante no crime. Se por medo ou por preito a verdade só ele sabe.

In dúbio pro societate” o rapaz ficou preso quase três anos até aquele momento em que entrou no salão do júri, ouviu o juiz presidente e foi ouvido por ele. Poucas perguntas. Queria falar tudo que tinha pensado, mas pouco falou.

O promotor de justiça da comarca de Itu, Dr. Luiz Carlos Ormeleze, pede aos jurados que absolvam o réu por falta de provas. A família e o rapaz exultam em silêncio. A sentença é dada e Bornai volta a liberdade.

Em doze de maio de 2007, dia das mães, Bornai escolheu ficar no convívio de seus amigos, três anos ficou preso por ter tomado esta decisão, agora livre terá chance de escolher novamente.

Já Neguinho, só veio a ser julgado em 26 de agosto de 2010, sendo também considerado inocente pelo Tribunal do Júri de Itu, pelo mesmo motivo que Bornai, falta de provas.

Assassinato no Jardim Santa Laura em Itu.

Normalmente quando policiais prendem alguém, principalmente quando é o caso de um homem que acabou de matar a mulher com facada no peito, o clima é de comemoração e os comentários ficam por conta da façanha e da reação do criminoso, mas naquela madrugada de terça-feira dia 10 de abril de 2012 não era isso que estava acontecendo no plantão da DELPOL.

Até mesmos os policiais falavam com cautela a respeito do crime e sempre o comentário começava da mesma forma: “Ele era trabalhador, evangélico, calmo, não tinha nenhum vício, e ninguém esperava isso dele. Os vizinhos e parentes não entendem como é que ele pode fazer uma coisa dessas, não ele, jamais ele…” – e a conversa seguia só então para o crime e a prisão.

Aquele homem de trinta e um anos matou sim a mulher a facadas, crime passional e aparentemente sem grandes mistérios. A polícia militar chegou ao local faltando dez minutos para as duas da madrugada, pois um homem teria tentado matar a mulher à facadas na frente de sua filha de doze anos, mas ela ainda estava com vida e o resgate foi acionado.

Apesar da eficiência da equipe do Corpo de Bombeiros a Nilza Maria Mendes de trinta anos de idade, auxiliar de produção, acabou falecendo. A polícia militar imediatamente começou as buscas em um matagal que fica no final da rua onde é praticamente impossível se encontrar uma pessoa à noite, daquele ponto é possível acessar: a Represa do Braiaiá; ao terreno de uma cerâmica; e as matas e campos atrás dos bairros São Judas e Jardim Aeroporto.

Uma pessoa poderia seguir por aquelas matas até os municípios de Cabreúva, Jundiaí e Salto, sem passar por áreas urbanas e por essa razão, após fazer uma busca à polícia interrompeu a procura. Mas o assassino não fugiu, ficou ali nas proximidades e uma denúncia anônima deu a localização quase exata de seu paradeiro, e aí os policiais não perderam viagem. O procurado foi capturado e apresentado ao delegado de plantão.

As duas facas utilizadas pelo assassino foram entregues ao escrivão de polícia, e se não aparecerem fatos novos o Tribunal do Júri de Itu e o promotor de justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze não terão dificuldade em condenar o rapaz pelo crime, cabendo a defesa encontrar alguns DVDs que teriam a prova da traição conjugal da mulher e que teria sido entregues ao irmão do criminoso, para reforçar a teoria de defesa de que ele teria agido sob “forte emoção”, e assim diminuir um pouco a pena.

Já estará nas ruas o Tenente Júlio César Gabarron?

Júlio César Gabarron foi considerado inimputável do assassinato de sua esposa grávida de sete meses Miriam de Castro Gabarron e da tentativa de homicídio contra o GCM Rovaldo e o GCM Edmur Pessoa, devendo ser internado em manicômio judiciário para tratamento. Decisão tomada às 15:30 do dia 29 de abril de 2010, pelo Tribunal do Júri de Itu, presidido pelo juiz de direito Dr. Hélio Villaça Furukawa.

Tanto a Promotoria de Justiça, representada pelo Dr. Luiz Carlos Ormeleze, quanto os advogados de defesa, Dr. Daniel Gustavo Pita Rodrigues e Drª. Valéria Perruchi, sustentaram a tese que o 2º tenente da Polícia Militar Júlio César Gabarron é uma pessoa de alta periculosidade que sofre de paranoia, uma doença mental incurável, e pediram sua internação e afastamento do convívio da sociedade, mas não a sua condenação, pois no momento do crime agiu inconscientemente, pois estava mentalmente deformado, sendo movido por sua mente delirante, persecutória, que o fez agir pensando estar agindo em “legítima defesa”, defendendo-se de uma injusta e imaginária perseguição. E esta tese foi aceita pelo corpo de jurados.

Sexta-feira, 4 de agosto de 2006. 13:00
Hotel Vila do Conde, Itu, SP

Gabarron efetuou mais de cinquenta disparos contra Miriam, tendo acertado vinte e duas vezes e provocando sua morte e a do bebê. O oficial estava em trajes civis mas usando colete balístico e armado com duas pistolas, cercado pela Policia Militar e pela Guarda Civil Municipal, reagiu à tiros em direção do GCM Edmur Pessoa e do GCM Rovaldo, ferindo o primeiro na perna.

Após negociação acabou se rendendo aos seus colegas de farda, tentou inicialmente enganar aos colegas dizendo que o hotel havia sido alvo de uma organização criminosa, mas logo confessou a execução dos crimes, alegando que não estava em seu estado normal quando atirou contra a esposa, mas não apresentou as razões de sua atitude para a delegada Drª. Lia Limongi Arruda Matuck Feres, posteriormente na Justiça explicou que por trabalhar no P2 da Polícia Militar recebeu informações sobre possíveis assassinatos e de vereadores e outras autoridades pelo PCC na onda de atentados de 2006 e da presença do irmão de Marcola em Mairinque, oportunidade em que passou a fazer levantamentos e centenas de mandados de busca e apreensão, e todo este clima acabaram por abalar seu equilíbrio.

Ainda segundo ele, os atentados dos dias dos pais de 2006, perpetrados pelo PCC – Primeiro Comando da Capital, levaram-no a um estado de desespero contínuo, pois ele tinha certeza de que ele e sua família seriam alvos de atentados. Miriam teria inconscientemente provocado a sua própria morte ao relatar a ele que teria recebido telefonemas ameaçadores no local de trabalho e ele passou a suspeitar então que seus telefones celular e residencial estavam grampeados. A morte dos dois policiais militares em Salto e do Vereador Paulinho da Lanchonete, que era seu informante, assim como a explosão de bomba no Batalhão da PM, fizeram-no chegar ao ápice em sua paranoia, passando a desconfiar de seus colegas de farda e de seus superiores hierárquicos.

Apesar de todos estes transtornos que passavam pela mente de Gabarron, ele era conhecido por todos que conviviam com ele como uma pessoa boa, pacata e quieta. Policial há nove anos, estava trabalhando há dois anos no 5º Batalhão da Polícia Militar, e na época do crime exercia função de chefe da agência área do 50º BPM/I.

Interessante é ver como Gabarron sendo Policial Militar conseguiu esconder de todos seu ímpeto assassino, trabalhando no meio de profissionais que deveriam conseguir distinguir tais sintomas, mas isto é explicado no próprio comportamento do paranóicos que transmitem à todos uma aparente tranqüilidade e cuidado nas palavras, mas que basta um motivo para que o pior venha à luz e as palavras doces sejam substituídas por sangue em fração de segundos.

Em 2007 quando da decisão dos jurados, o Dr. Ormeleze garantiu que pelo menos por três anos Gabarron ficaria sob a custodia do estado, podendo ser liberado por parecer médico. Cabe agora, já passado estes três anos. Gabarron já está livre vivendo entre nós?

Em Itu cachorra é prova que madrasta foi a culpada.

O Tribunal do Júri de Itu julgará aquela mulher, e queira Deus que justiça seja feita, inocentando-a ou condenando-a, pois o crime foi bárbaro. O caso da madrasta que tentou matar enteado com golpes de talhadeira jamais será esquecido. Mas podemos ter certeza que de fato foi ela?

Meu velho amigo Auguste Dupin esclarece que discernimento é uma palavra cujas correspondentes em gregas são “anakrino” e “diakrino”, cujos significados se completam. Anakrino reporta-nos examinar ou julgar bem de perto e diakrino que nos instiga a investigar e examinar. De fato usamos nosso discernimento ao acusá-la?

Trago portanto aos senhores alguns dados tirados de perto das cenas onde os fatos transcorreram, para que possam então investigar e chegar as suas conclusões.

Sábado, 05 de abril de 2009. 3:30
Rua Cerquilho 25, Cidade Nova, Itu, SP.

O corpo do garoto de seis anos, deficiente físico nas mãos e nos pés, foi encontrado envolto sobre um monte de areia de construção no fundo da casa onde mora, envolto em um edredon, e empapado de sangue sobre sua cabeça, um pano de prato branco estampado: “Livrai-nos de Todo o Mal Senhor.”

A madrasta Camila Cristine Estefano de 20 anos, e a companheira de seu sogro Ivone Regina de Oliveira de 29 anos, encontram-no ainda com vida.

Ivone aciona um vigilante de rua que segue rapidamente até o PAM de Vila Martins, uma ambulância chega em dez minutos na residência. Os médicos do Pronto Atendimento Médico encaminham-no para o Hospital São Camilo, e acionam a Guarda Civil Municipal. Enquanto o GCM Rota passou a acompanhar o garoto e seus familiares, o GCM Marcelo preservava o local do crime.

A Dra. Paola Rosa de Queiroz, médica que atendeu o garoto no hospital lembra que ele chegou inconsciente, com fratura craniana e cortes com hemorragia na cabeça, foi entubado e seu estado era crítico. Segundo familiares, um dos médicos da UNICAMP disse que o “só por Deus” o garoto sobreviveria.

As investigações levaram naquela mesma manhã o delegado de polícia do 4º DP de Itu, Dr. José Moreira Barbosa Netto, a prender a madrasta, que acabou por confessar o crime.

O advogado Dr. José Aldo Ribeiro da Silva revolta-se contra a prisão de Camila. Segundo ele, o garoto só não morreu porque ela teria chamado ajuda em seu socorro. Reconhece que a confissão na delegacia tem validade, mas foi conseguida de maneira imprópria. Camila, uma pessoa simples, estava fora de seu estado normal por haver passado a experiência mais traumática de sua vida, vendo seu enteado naquela situação e ela acusada injustamente. Segundo Dr. Aldo ela foi portanto coagida a confessar através de técnicas de pressão psicológica.

Camila contou antes de ir até a delegacia e depois na Justiça que seu marido Fernando Torres exigia que não seja fechado o trinco da porta da casa que fica voltada para o corredor interno, faz isso para que o garoto pudesse ir até a casa do avô a hora que quisesse. Segundo ela, por lá entrou um casal que praticou este crime e ameaçaram Camila, caso ela os delatassem, voltariam fazer o mesmo com a filha dela, de apenas dois anos de idade.

Fernando Torres, o pai do garoto, seria o verdadeiro alvo da vingança, e o menino apenas o meio escolhido para feri-lo. O crime seria na verdade um plano muito bem elaborado engendrado de dentro da prisão por Adriana Lopes Siqueira, condenada por tráfico de drogas e legítima mãe do menino. Conseguindo incriminar Camila, Adriana se vingaria de Fernando e ainda abriria caminho para seu retorno com o garoto.

Em um país onde políticos inescrupulosos não roubam tanto o dinheiro destinado a segurança, saber o autor de um crime como este seria simples. A talhadeira usada para tentar matar o garoto foi recuperado na mesma madrugada pela Guarda Municipal e entregue à Polícia Civil. Digitais e traços de DNA estariam na arma. Mas aqui, neste caso,tanto a acusação e a defesa se baseiam em Neguinha.

Neguinha é uma cachorra vira-latas que mora naquele corredor. Segundo a acusação Camila mente pois se alguma pessoa estranha lá tivesse chegado, Neguinha teria latido. Já Camila conta que a cachorra não late para ninguém. O próprio garoto, hoje recuperado diz perante a juíza: “… a cachorra Neguinha não late não …” e logo em seguida “… eu tinha um pitbull chamado Thor mas morreu depois que Camila foi presa, mas ele não latia não, quem latia era Neguinha …”

A palavra final está então nos latidos de Neguinha. Isto é Brasil.

Mãe é acusada de tentar matar filho com talhadeira.

O promotor de justiça Luiz Carlos Ormeleze foi comedido quando descreveu o crime para a Drª. Andrea Ribeiro Borges: Camila Cristine, grávida no quarto mês de gestação, tentou matar usando uma talhadeira seu enteado de cinco anos enquanto este dormia, e além da brutalidade dos ferimentos e do atroz e desnecessário sofrimento por ela causado, ainda tentou induzir a Justiça a erro, retirando a criança do local do crime e abandonando-a no quintal.

As palavras do promotor são suaves para descrever os momentos de horror e sangue que Camila protagonizou aquela noite. O Distrito do Pirapitingui na cidade de Itu, com absoluta certeza, nunca tinha visto tamanha covardia.

Sábado, 5 de dezembro de 2009. 3:25
Rua Cerquilho 25, Cidade Nova, Itu, SP

Camila acorda no meio da noite, levanta e segue até o quarto onde estão dormindo seu enteado de cinco anos e sua filha de dois anos. O garoto é filho de outro casamento do azulejista Fernando, seu companheiro há dois anos.

Nunca saberemos ao certo o que Camila viu ali: dizem uns que ela flagrou o garoto em pé ao lado do berço da menina, outros que ela viu apenas duas crianças dormindo. O que se sabe é que ela tinha ciúmes do garoto pelo amor que ele nutria pelo pai.

Também é sabido que Camila não gostava que o garoto se aproximasse de sua filha, olhava feio e tirava-a de perto. Camila virou-se, foi até o banheiro, pegou a talhadeira que Fernando usava no seu serviço e aplicou vários golpes na cabeça da criança.

Camila contará para o Dr. José Moreira Barbosa Netto, delegado de polícia, que ela não sentiu nada, nem ódio, nem dó, nada, apenas fez. A criança nem se mexeu. Ela achou que havia matado o garoto e levou-o até um monte de areia de construção.

Depois de deixar lá o corpo, volta para a casa sem janelas que fica no corredor do fundo da casa de seu sogro e limpa a casa. Segue para a casa da frente e chama a companheira de seu sogro, a doméstica Ivone Regina para ajudar a procurar a criança.

Ivone quer começar procurar pela casa, mas Camila tenta evitar. Não consegue. Ivone encontra marcas de sangue na roupa de cama do garoto, em um brinquedo e no chão. Desesperada Ivone corre para o quintal e encontra o corpo do garoto.

Em pouco mais de dez minutos o menino está sendo atendido no PAM da Vila Martins, de lá é encaminhado para a Santa Casa de Itu e de lá vai para o Hospital da UNICAMP em Campinas. Seu estado é desesperador, mas Camila parece…

Ivone e o guarda municipal que atendeu a ocorrência estranham a atitude da madrasta. Não corre, não chora, apenas acompanha os acontecimentos. Se o GCM Rota e Ivone tivessem lido O Estrangeiro de Albert Camus talvez achassem essa atitude normal, mas não leram.

Camila foi levada para a delegacia, onde o delegado Dr. Moreira e o conselheiro tutelar Robson José Candiani Mota, que também não leram aquele autor francês, pressionaram Camila, que confessou o crime em todos seus detalhes.

Depois da prisão de Camila, a avó Maria de Lourdes ficou acompanhando o garoto até o retorno do avô e do pai que estavam em Minas Gerais. Agora o garoto, que já tinha deficiências nas mãos e nos pés, ficará agora com esta nova marca.

Fernando é um pai amoroso, e segundo Priscila Aparecida, irmã de Camila, seu único vício é a bebida. A madrasta já tinha sido internada também pelo mesmo problema. A mãe biológica, Adriana, está presa por tráfico de drogas.

Difícil é a situação deste garoto de futuro incerto. Difícil também está para Camila sustentar sua versão inicial que a mãe biológica e seu companheiro é que foram os autores do crime: a primeira está presa e o segundo morreu há anos.

Agora caberá ao Dr. Hélio Villaça Furukawa, juiz de direito da 2ª. Vara Criminal de Itu a decisão sobre mandar ou não Camila para o Tribunal do Júri da Comarca. Talvez ela tenha alguma chance se o magistrado preferir Camus à Kafka. Não quero desanimar ninguém não, mas Furukawa é latinista.

(Veja as explicações de Camila Cristina)

Menino assiste estarrecido o julgamento do pai.

Quando eu era pequeno às vezes ouvíamos casos de pais de colegas nossos que teriam sido presos. Era sempre igual, não adiantava perguntar para nossos amigos, filhos de detentos onde estava o pai. Invariavelmente vinha a resposta: viajando.

Nossos amigos não mentiam para nós, acreditavam sinceramente que seus pais estivessem viajando, seja lá a trabalho ou visitando algum parente. As mães não diziam jamais que eles eram filhos de bandidos ou presidiários.

Veio a política de humanização dos presídios e com ele o costume de levar as crianças para dentro dos cárceres, afinal os pais têm todo o direito de ver seus rebentos queridos e vice-versa. Com isso criamos a cultura do crime.

O Dr. José Maria de Oliveira chamou de lado aquela família e pediu para que tirasse do plenário do Júri o garoto cujo pai seria julgado aquele dia. Qual o quê? Os parentes exigiram o sacrossanto direito de o menino ver o pai.

Será uma lembrança que aquela criança levará para o resto de sua vida. Marcelo Lima, seu pai, um criminoso reconhecido, condenado por vários crimes ouviu do promotor de justiça, Dr. Luiz Carlos Ormeleze desfilar toda a sua vida pregressa, seu envolvimento com o PCC, seu relacionamento conturbado e sua participação no crime. Seu rebento também acompanhou a tudo com olhos arregalados, sob a guarda de seus entes queridos que deveriam tê-lo poupado de tudo isso.
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Se alguém tentasse tirar novamente o garoto no mínimo apelariam a força da Lei, feita por pessoas covardes que temem aos prisioneiros e não respeitam o direito mais fundamental da infância: a inocência.

É triste vermos crianças passando os vexames que nem um adulto deveria passar, e é por isso que milhares de crianças passam todos os finais de semana para satisfazer os desejos sádicos de criminosos sem escrúpulos e parentes sem escrupulos. Sem as humilhantes revistas impostas às crianças a situação ficaria ainda pior, pois em suas partes íntimas por vezes são enfiados os objetos de desejos dos prisioneiros: drogas e chips…

Mas imaginem privar os detentos de um momento tão em família. Marcelo Lima, durante um intervalo pede aos policiais militares que faziam sua escolta que peçam ao juiz a retirada de seu filho do plenário. Só com a intervenção do magistrado é que a família retirou o garoto, mas era tarde, ele já tinha ouvido a tudo, e Deus queira que pelo menos sirva de exemplo para que outros casos não voltem a ocorrer.

A prisão de Marcelo se deu baseado nas informações colhidas pelo guarda civil municipal GCM Rosival e de uma testemunha que só se apresentou na delegacia e depois nunca mais foi encontrada. Enzo Roberto Osti e Maria Auxiliadora Fernandes contaram também o que sabiam do crime, mas pouco esclareceram.

A versão contada pelo Dr. Ormeleze no júri foi a de que Marcelo Lima e Cleber de Carvalho, conhecido por Biu, pertenciam ao mundo do crime, à mesma facção criminosa (PCC), mas não se aceitavam, viviam em atrito e um prometia matar o outro. Marcelo Lima não esperou para ver.
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Após Biu ter dito que mataria ao rival na frente de seu filho, Marcelo apareceu com mais dois rapazes na Rua Lençóis Paulista 43, no bairro Cidade Nova, na cidade de Itu, arrebentou a porta e arrastaram para fora Biu. Ainda sendo puxado levou dois tiros, após o que teve seu corpo jogado por cima de um muro, caindo por quase seis metros, até o local onde foi encontrado morto pelo GCM Rosival, minutos após o crime ter sido cometido.

Seu defensor, o advogado criminalista Dr. José Maria de Oliveira tentou quatro teses para sua defesa, mas os jurados não se comoveram com os argumentos do defensor e o réu foi condenado com tudo o que tinha direito, doze anos de detenção, mas que pelas contas do promotor significa exatamente nada. Afinal ele está preso aguardando o julgamento há dois anos… hum sexto de doze anos é dois anos… pronto, já vai para o regime semi-aberto e em mais dois anos estará na rua, a menos que tenha que pagar por outros crimes que tenha cometido.

Neste caso quem sofreu a pena mais longa foi o garoto, que terá para sempre a lembrança de tudo o que ouviu a respeito de seu pai e seu herói. Por sinal, o pessoal dos direitos carcerários manda lembrança e um salve para o irmãozinho. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

O julgamento do investipol Moacir Cova em Itu.

Já assisti a muitas sessões do Tribunal do Júri, algumas muito importantes; neste aspecto, aquela sessão da quinta-feira, 22 de julho de 2010, não seria diferente. O fato pitoresco foi que não apenas os réus foram julgados ali, mas também aquele que os prendeu, o investigador de polícia Moacir Cova.

Foi um dia muito agitado, houve tensão dentro e fora do plenário: um dos irmãos dos réus presos ameaçou agredir um policial e outro acabou preso. O promotor de justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze bradou contra a conduta dos réus, enquanto o defensor buscou, desesperadamente, dar-lhes um resquício de esperança.

Durante aquelas conturbadas horas, apenas agi para o cumprimento de meu dever, sem poder de fato colocar as idéias em ordem, mas, durante a noite, todos aqueles personagens povoaram meus sonhos, tentando me perturbar, repetindo fantasmagoricamente os acontecimentos do dia.

Eu estava exausto demais para poder acordar, portanto deixei aquele espetáculo dantesco dar prosseguimento – a sentença de dezesseis anos de prisão. Foi assim que a Meritíssima Drª. Vanessa Velloso Silva Saad, juíza de direito, encerrou o destino dos assassinos do réu Salvador Luis.
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Segundo o que foi apurado no processo, Salvador Luis teria mexido com uma garota que tinha um relacionamento com um dos irmãos Nazário e por causa disso, na noite de 27 de fevereiro de 2007, a injúria  foi paga com seu sangue.

Hildo, o irmão Ildinho do PCC, convidou Salvador para fumarem e, juntos, seguiram até a casa da Pâmela. Um deles quis fazer com ela um programa: ela recusou o convite, mas forneceu a droga a Ildinho. Estranhou que ele tenha se afastado com Salvador para puxar fumo, pois nunca fazia isso. Quando os rapazes se distanciaram, ela entrou em casa.

Na esquina, Evandro, o Vandão, estava à espera dos dois e manteve assunto com Salvador enquanto fumavam. Aproveitando a distração do desafeto, Ildinho voltou à casa de Pâmela e pediu a Danilo uma chave de fenda emprestada, alegando que sua bicicleta havia quebrado.

Ela estranha novamente, pois não o havia visto com a bike. Pamela e Danilo entraram novamente na residência e Ildinho volta até a esquina. Foram momentos de terror para Salvador. Seus gritos por socorro e seus clamores para que parassem de espancá-lo foram em vão.

Vivo, mas sangrando muito, Salvador consegue chegar até a frente da casa de Pâmela, onde cai morto, depois de ter sua cabeça chutada e sua garganta perfurada pela chave de fenda várias vezes.

Dr. Daniel Benedito do Carmo, defensor de um dos réus, tentou demonstrar que as testemunhas estavam se contradizendo pois ora diziam ter sido um, dois, ou três os assassinos; diziam algo à polícia, outra à Justiça, e ainda outra ao Tribunal do Júri.

Como condenar alguém sem provas e apoiados em testemunhas assim? – questionava Dr. Daniel.

Mas o grande mote da defesa foi atacar o trabalho de investigação feito pelo investipol Moacir Cova. Segundo o Dr. Daniel do Carmo, o depoimento chave da acusação, Pâmela, foi conseguido por meio de tortura e ilegalidades. Ela foi levada à força à delegacia e o investigador ficou sozinho com ela, forçando-a para conseguir incriminar os irmãos Nazário.
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Moacir Cova estava presente na platéia do Tribunal do Júri e ouvia tudo sem mexer um músculo sequer. E não foi preciso. O promotor de justiça, partiu em sua defesa. Elogiou o trabalho do policial, lembrando que Pâmela confessou graças ao trabalho do investigador; ainda, disse que a Drª. Liliane Gazzola Faus, uma advogada criminalista com vinte e cinco anos de OAB, estava presente no interrogatório da garota, assim como uma testemunha, a escrevente Rosangela, além da própria delegada Drª. Márcia Pereira Cruz Pavoni Silva.

A pá de cal sobre os argumentos de brutalidade policial veio com a apresentação, pelo Dr. Ormeleze, de um DVD com a gravação do depoimento de Pâmela na delegacia. Moacir Cova gravou o vídeo, e as imagens não deixaram dúvidas  quanto a sinceridade da garota ao narrar a história do crime.

Vocês não contavam com minha astúcia! – diria Chaves.

Os jurados da Comarca de Itu não apenas ratificaram o trabalho de Moacir Cova como também mandaram prender uma testemunha trazida pela defesa e que contrariava as verdades postas. Essa, também um Nazário, saiu preso do plenário do tribunal direto para a 3ª DP de Itu e responderá pelo crime de falso testemunho.

O julgamento ocorrido aquele dia, para mim, ficará marcado pelas fortes emoções que provocou em todos; pelos momentos cruciais na vida da família Nazário; pelo julgamento de Moacir Cova e toda a polícia de Itu pelos cidadãos representados pelos jurados; e pela busca pela Justiça.

Os espectros de togas negras e cordões branco, vermelho e preto, cujas faces extremamente brancas povoaram minha noite, não poderiam mais me perturbar – mesmo repetindo, fantasmagoricamente, os fatos que ocorreram durante aquele dia –, pois a Justiça já tinha sido feita sobre aquele caso da Rua Dona Julia, no Jd. Alberto Gomes, eu sabia disso. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

O Tribunal de Júri de Itu e seu Promotor de Justiça.

Ninguém naquele salão do Tribunal do Júri viu o que de fato estava acontecendo ali: os irmãos Nazários não estavam sendo julgados pelo assassinato de Salvador Luiz do Jardim Alberto Gomes de Itu. Poucos são aqueles que têm a capacidade olhar de longe as luzes de uma cidade e sentirem calafrios pelos horrores que acontecem em suas sombras, se um desses estava naquele dia 24 de fevereiro de 2011 no Fórum de Itu, com certeza se arrepiou prevendo a luta que ali estava se iniciando.
O Tribunal do Júri da Comarca de Itu é o Dr. Luiz Carlos Ormeleze.
Muito se falou de manipulação dos resultados do Júri Popular de Itu, mas é balela, pois o Promotor de Justiça da cidade não manipula resultados, ele os impõe. Podemos sentir, não digo propositadamente ver, digo sentir mesmo, pois o que vemos durante uma audiência daquele Tribunal do Júri é a justa luta entre os argumentos da promotoria e dos advogados de defesa, mas se deixarmos o que nossos olhos vêem de lado e passemos a sentir o que de fato por lá ocorre, chegaremos mais próximos da verdade.
Palavras não podem descrever os sentimentos e os pensamentos dos jurados quando se vêem prostrados à vontade do Promotor de Justiça Dr. Ormeleze. O defensor de Hildo, o Dr. José Maria de Oliveira, entrou decidido a destruir esta magia, pois nenhuma prova havia que condenasse Hildo e seu irmão Evandro. Havia razão e oportunidade para cometerem o crime, mas as provas dependiam de dois testemunhos nebulosos, portanto o defensor acreditava na absolvição de seu cliente.

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Isso talvez ocorresse se o promotor não fosse o Dr. Ormeleze.
O defensor abandonou a tradicional abordagem jurídica para tentar quebrar o encanto que o Promotor de Justiça exercia sobre o corpo de jurados. Não perdeu muito tempo em manter na defesa técnica de seu cliente, buscou questionar os métodos do Promotor de Justiça, e por diversas vezes exigiu que a juíza Dr. Vanessa Velloso Silva Saad constasse em ata afirmações, opiniões e atos do Promotor de Justiça – o que ela sistematicamente não fez.
Posteriormente ela teve que responder a representação feita contra sua atitude, e em sua defessa ela ela confirmará que de fato se negou a atender ao pedido do defensor por não ter havido segundo seu entendimento depoimento pessoal por parte do promotor durante o debate.

O Dr. Ormeleze também chamado a responder sobre esse fato acrescentou que a juíza atuou no limite da legalidade, e que o Dr. José Maria como de costume alega sem provar, mas que ele não aceitará as falsas acusações, que seriam fruto de um indigno comportamento na tentativa de fomentar uma rivalidade infundada, sem nenhum êxito ou propósito.
O advogado Dr. José Maria de Oliveira não deixou que aquela audiência caisse no esquecimento por ninguém: a juíza e Promotor de Justiça estão tendo que justificar junto as suas esferas os atos que praticaram naquele dia. Segundo o defensor de Hildo, o Promotor de Justiça afirmou que as testemunhas foram ameaçadas pelos pais do rapaz para mudarem seu depoimento e trouxe à luz o negro passado dos pais do réu, coisas que não constavam do processo.

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Sob as luzes da cidade se escondem as mais profundas e sórdidas realidades, mas sob o salão do Tribunal do Júri da Comarca de Itu esconde uma profunda magia. O Promotor de Justiça Dr. Ormeleze impõe seus desígnios, pela razão, pela emoção, por sua história, e por algo imaterial. 

Os irmãos Nazários foram condenados a quinze anos de prisão em regime fechado, algo que seu defensor tenta agora reverter, mas a realidade é que nada pode deter a Justiça, e Dr. Ormeleze é sua encarnação, e aí esta a magia. Os jurados da Comarca aceitaram-no como sendo o paladino da justiça e ninguém até hoje conseguiu destruir este seu manto sagrado, se bem que muitos tentaram.
Às acusações do Dr. José Maria o Dr. Ormeleze rebate com uma frase de Dalai Lama: “responder à ofensa com ofensa é lavar lama com lama”.

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Tentativa de assassinato no Reveillon em Itu.

Não teve como Tiago explicar a facada nas costas. Sua advogada tentou de tudo – a melhor tese foi legítima defesa – mas como convencer os jurados naquela situação?

O dia 1º de janeiro de 2009 foi o último réveillon que o jovem Tiago comemorou em liberdade. Ele sempre foi corajoso quando em quando se metia em confusão, foram diversas suas passagens pela policia quando menor de idade e agora com a maioridade resolveu comemorar com tudo que tinha de direito.

O sol já tinha raiado, eram quase nove horas da manhã, mas ele ainda estava comemorando ali pela Padaria Spina na rua Dr. Ulisses de Moraes 208, no Jardim São Judas Tadeu em Itu.

Tiago conta que “… já tinha bebido a noite inteira e depois estava bebendo na padaria”, quando resolveu ir até um grupo de homens que estavam sentados conversando em frente ao estabelecimento para desejar-lhes um Feliz Ano Novo, mas um deles o enxotou de lá.

O rapaz nunca foi de levar desaforo para casa, mas daquela vez achou melhor pedir desculpas e sair de fininho. Voltou para dentro da padaria e questionou um conhecido a razão da atitude daqueles homens para com ele, e ainda inconformado foi embora.

Segundo ele, no caminho encontrou um amigo e contou-lhe que estava sendo ameaçado pelos homens que estavam em frente à padaria, e este lhe forneceu uma faca e uma camiseta, sob a qual teria ocultado a faca. Aí vem uma contradição, pois ele e sua defensora durante o processo afirmaram que esta faca estaria sobre o balcão e foi pego apenas para se defender de um ataque inesperado por parte dos homens.
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O fato é que voltou a padaria e encarou Gilmar, dizendo que não tinha medo dele e queria saber o motivo pelo qual ele não o queriam lá. Quando o homem foi se levantar, já foi recebido com uma facada. Neste ponto também existem divergências, afinal o ferimento foi nas costas, portanto não tem cabimento a afirmação dele de que o homem estava vindo agredi-lo, por outro lado também a realidade não avaliza o argumento do promotor de justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze que ele foi surpreendido quando se levantava.

Seja como for, Gilmar ficou ferido, e seus amigos Oséias e Érico, que tentaram ajudá-lo também sofreram diversos ferimentos. Contaram aqueles que assistiram à cena que Tiago brigou como um louco, mas a superioridade dos homens fez com que fosse derrotado e apanhou então feito gente grande. Com a chegada da polícia foi encaminhado para a Santa Casa de Itu e de lá para a delegacia de polícia.

Um ano e oito meses se passaram até sair a condenação pelo Tribunal do Júri por tentativa de homicídio: cinco anos e quatro meses em regime inicial fechado.mmmmm (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

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