Facção Criminosa PCC 15.3.3 em Portugal

Os relatórios que apontam que a facção criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital (PCC 15.3.3) estaria assumindo o comércio de cocaína em Portugal ainda não tem fundamento.

É possível saber a importância da Facção Criminosa em Portugal?

A facção criminosa PCC e tráfico de drogas em Portugal tem chamado cada vez mais atenção da mídia e das autoridades.

Já que em 2022, suas apreensões de cocaína atingiram 16,3 toneladas, o nível mais alto em 16 anos.

Ainda mais agora que Portugal está agora entre os cinco principais países da União Europeia com as maiores apreensões de drogas.

continua após o aviso…

Leia texto original em “Reports of Brazil’s PCC Taking Over Portugal Cocaine Trade Remain Unfounded” de Chris Dalby e Sean Doherty publicado no site InSight Crime.

Qual a participação real do PCC no aumento do tráfico?

As autoridades portuguesas estão preocupadas com o que pode estar a sustentar a crescente presença de integrantes do PCC.

O Diário de Notícias, em artigo de 16 de janeiro, cita uma fonte judicial brasileira sobre a importância do PCC em Portugal.

Desde 2021, as autoridades brasileiras teriam encontrado pelo menos 40 integrantes do PCC e seus aliados vivendo em Portugal.

Os integrantes da facção criminosa brasileira controlavam grande parte do comércio de cocaína entre o Brasil e Portugal.

No entanto, as fontes do Diário de Notícias dão poucos detalhes sobre quem são esses membros ou o que eles podem estar fazendo.

Duas prisões como estopins do crescimento

A expansão do PCC supostamente surgiu no verão de 2022, após as prisões de Sérgio Roberto e de Xuxas.

Um dos principais traficantes de drogas do Brasil, Sérgio Roberto de Carvalho, foi preso na Hungria em 21 de junho.

Grande parte do império de Carvalho estava baseado em Portugal, onde ele possuía ativos no valor de milhões de dólares.

Carvalho possuía, inclusive, uma empresa de voos fretados que ele usava para transportar cocaína e dinheiro.

Em poucos dias, Rúben Oliveira, conhecido como “Xuxas”, um dos homens mais procurados de Portugal, também foi preso.

Prisão de PCCs abala a facção criminosa PCC

Xuxas seria era o principal operador de Carvalho em Portugal, recebendo e distribuindo grandes remessas de cocaína.

Seria ele também o responsável por lavar grandes somas de dinheiro, segundo a revista portuguesa Visão.

O desmantelamento de sua operação deixou a porta aberta para o PCC, assumir diretamente algumas de suas rotas de tráfico de drogas.

Pelo que sabemos, Carvalho era o maior traficante de cocaína da Península Ibérica. Ele também era cliente do PCC.

João Amaral Santos – Revista Visão.

frustração na facção criminosa e preocupação na polícia

A prisão dos parceiros na Europa gerou frustração entre as lideranças brasileiras do PCC.

Por isso, o Primeiro Comando da Capital resolveu montar uma célula própria em Portugal,acredita Amaral Santos

De acordo com um chefe da polícia portuguesa, a situação é alarmante:

A Europa não está preparada para isso. Existe um possível cenário em que o PCC quer controlar o narcotráfico para a Europa a partir de Portugal.

As declarações das autoridades são um show de generalidades sem dados comprobatórios e a polícia não presta esclarecimentos.

Em 2021, essa falta de dados impediu um procurador brasileiro fornecer à Portugal informações que identificassem supostos membros do PCC.

Análise Criminal InSight

Geográfica e linguísticamente, Portugal se torna um centro crescente para o tráfico transnacional europeu de cocaína.

Sob esse ponto de vista, a surpresa é que demorou tanto para essa tendência se tornar tão aparente.

No entanto, a extensão da influência da organização criminosa Primeiro Comando da Capital em Portugal continua difícil de provar.

As denúncias feitas nas investigações dos periódicos portugueses Expresso e do Diário de Notícias falam de várias dezenas de integrantes do PCC no país.

Facção Criminosa PCC em processo de expanção

Os integrantes da facção criminosa paulista estariam preparados para ampliar o controle da entrada de drogas no país, mas há poucos detalhes além disso.

Em novembro de 2021, autoridades de São Paulo prenderam um integrante do Primeiro Comando da Capital com uma lista de membros de gangues no exterior.

Segundo o promotor de Justiça Lincoln Gakiya haveriam em Portugal, 42 pessoas já identificadas, mas apenas como números, como tendo recebido dinheiro da facção.

A facção criminosa PCC 1533 costuma recrutar membros entre os que buscam refúgio em Portugal ou que por lá já realizam algum tráfico de drogas.

As prisões de Wanderson e leonardo em Dubai

Em setembro de 2022, a polícia portuguesa prendeu Wanderson Machado de Oliveira, também relatado como membro da organização criminosa paulista PCC.

Ele foi acusado de tráfico de drogas e sequestro de dois homens que erroneamente pensou ter roubado 240 quilos de cocaína que pertenceriam à facção.

No entanto, as drogas haviam sido apreendidas pelas autoridades no porto de Sines, no sul de Portugal.

Em novembro, Leonardo Serro dos Santos foi preso em Dubai. Ele seria um dos líderes do PCC responsável pelo tráfico transnacional que passava por Portugal.

Ele negou todas as acusações contra e foi solto após 45 dias porque o Brasil não fez um pedido de extradição a tempo.

Restam ainda mais dúvidas que certezas

Em primeiro lugar, o PCC já faz parte da parceria de tráfico de drogas que sustenta grande parte do narcoduto de cocaína para a Europa.

Há quarenta anos a máfia italiana ‘Ndrangheta, mantém relações comerciais e culturais com São Paulo, de vêm a cocaína e a organização criminosa PCC.

Assim também estas relações ainda continuam e é graças a elas que o PCC fornecer uma grande percentagem de toda a cocaína que se dirige para a Europa.

No entanto, Portugal não é destino destes carregamentos de cocaína. Em vez disso, a ‘Ndrangheta manda suas drogas para a Bélgica, Holanda, Alemanha e Itália.

Uma pequenas marcas da facção criminosa PCC

Como uma pessoa comum vê em seu dia a dia a facção criminosa Primeiro Comando da Capital.

facção criminosa PCC -Z L impõe respeito pelo nome

A facção criminosa Primeiro Comando da Capital PCC 15.3.3 está na Zona Leste de São Paulo, mas a “ZL” não é apenas uma região.

  • Se fosse cidade, seria a terceira em população, ficando atrás de São Paulo e Rio de Janeiro.
  • Tem mais gente morando lá do que na famosa Los Angeles dos filmes, mas rolam mais histórias por lá do que em Hollywood.

Aquela é uma região de respeito dentro do mundo do crime. Um cria do PCC da Zona Leste é visto com respeito até fora de São Paulo.

Lá bandido perigoso é morto por lá no café da manhã se não tomar cuidado onde pisa, como aconteceu com o Galo.

O mundo dá voltas, Gegê e Paca foram mortos por Cabelo Duro, Cabelo Duro foi morto por Galo, Galo foi fuzilado na Zona Leste de São Paulo… — Luís Adorno

O Primeiro Comando da Capital está divido?

Os bairros da Zona Leste mais violentos são: Itaim Paulista, Cidade A E Carvalho, Guaianases, e São Mateus.

E foi em São Mateus que fui procurar Vinícius, um leitor desse site que não está ligado ao mundo do crime para me ajudar a entender como o PCC é visto por quem não participa do mundo do crime mas vive em um bairro especialmente dominados pela facção.

Eis o que me respondeu:

É inegável que, nas comunidades ou “quebradas” de São Paulo, a influência e a presença do Primeiro Comando da Capital PCC.

Posso listar inúmeras coisas em que o Comando é presente, porém, citarei apenas as escolas de São Mateus:

Em todos os banheiros, sem exceção, existem símbolos do PCC, em TODAS as portas dos sanitários masculinos, um padrão que se repete de cabine a cabine o “☯” é o que mais se repete, mas tem os números 1533, que no geral é grafado apenas o “15” ou “33”.

De antemão, é bom citar, que a maioria das pessoas que dizem serem envolvidas com o Primeiro Comando da Capital, não são.

Mas ao falar de tal assunto causa-se um sentimento de medo por parte dos que não sabem direito do que se trata a facção paulista.

Os que se dizem envolvidos, usam seus conhecimentos superficiais para causar um clima de ameaça, e sempre citam nas discussões: “eu sou envolvido” ou “você nunca roubou”.

Portanto, o PCC é representado como um time nas comunidades paulistas no qual a grande maioria “torce” ou a favor ou contra mesmo.

A facção criminosa PCC e a uruguaia PCU

A facção criminosa Primer Comando Uruguayo (PCU)

A facção criminosa Primeiro Comando da Capital atua no Uruguai em parceria com grupos criminosos locais, como o Primer Comando Uruguayo (PCU).

O PCU é a responsável pela logística e segurança do esquema de parte do tráfico do PCC em território uruguaio.

A apreensão de grandes carregamentos de drogas, oriundos do Uruguai, em diversos portos pelo mundo comprova a existência dessa rota alternativa de tráfico do PCC 15.3.3.

Uma menor rigidez na fiscalização fizeram do porto de Montevidéu uma opção para suprir o mercado europeu com as drogas colombianas.

Já na Argentina, a principal rota ligando ao Paraguai é a hidrovia do rio Paraná-Paraguai, que possui poucos controles em ambos os lados da fronteira, mas um complexo nível regulatório para controlar as barcaças.

facção criminosa envia drogas da América do Sul para a Europa.

Desde junho de 2020, as autoridades uruguaias reconhecem a presença da organização criminosa paulista, atuando em parceria com grupos locais.

facções aliadas, neutras e inimigas do PCC

Essa união entre criminosos permitiu cooptar ou coagir os agentes públicos responsáveis pela repressão e de Justiça através de bombas, ameaças, sequestros, e subornos.

facção criminosa mata militares em base naval de fortaleza de cerro

O assassinato sem precedentes de três soldados no Uruguai, alerta para a ousadia crescente dos criminosos em um país há muito considerado um dos mais seguros.

No início da manhã de 31 de maio, foram localizados os corpos de três soldados que foram executados na base naval de Fortaleza de Cerro, em Montevidéu.

Uruguai: Primeiro Comando da Capital reposicionando o crime

Em três anos, o Uruguai deixou de ser um paraíso para lavagem de dinheiro para ser um importante entreposto para o tráfico internacional.

O Primeiro Comando da Capital passou a usar o Uruguai como interligação entre a Colômbia, o Paraguai e a Bolívia à Europa.

O porto de Santos continua sendo a principal saída do PCC, mas recentemente abriram outras rotas, como a Hidrovia ou o porto de Montevidéu.

Clarìn

PCC-PCU é resultado da Política Carcerária do Uruguai

O PCU é resultado da política de Segurança Pública latino-americana de encarceramento em massa, que lotam as prisões com uma massa amorfa.

As prisões sul-americanas passaram a ser centros logísticos, de treinamento e doutrinação do Primeiro Comando da Capital.

O aprisionamento em massa sem critério de separação por periculosidade e faixa etária, permitiu que em 2009 o Primer Comando Uruguayo estivesse atuando depois de poucos meses em contato com facciosos brasileiro e paraguaios dentro das prisões uruguaias.

Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing explicam que dentro dos presídios e no meio de milhares de soldados prontos para serem doutrinados na filosofia e nas estratégias da organização fica fácil para as chefias da facção ficarem protegidas de seus inimigos e se dedicarem ao gerenciamento dos negócios da facção.

Como o PCC chegou a outros países sul-americanos

Bauman, o PCC, o GDE e a pacificação do Serviluz

Com a entrada no jogo do Primeiro Comando da Capital, a organização criminosa paulista PC 15.3.3 a ruptura era inevitável…

Se quiser assumir meu lugar, toma que o filho é teu!

E no princípio eram trevas, no início do início, e é para lá que eu te levarei, para que você possa me entender, não só a mim, mas também a Aline, e a Lincoln e seus colegas.

Você deve saber de onde nós viemos e o que já superamos, para só então decidir o que você vai fazer. E se você ou o Lincoln e seus colegas quiserem pegar meu lugar, boa sorte, vai firme e vamos ver se vão aguentar.

Não adianta se esconder ou tapar os ouvidos, pois os espíritos das trevas não se calarão até que eu, agora, ou alguém, algum dia, lhe conte essa história. E se já for tarde, e se eu já tiver me juntado a eles nas trevas, só lamento por você e por Lincoln e seus colegas.

Você acha que sabe o que é sofrer, mas poucos viveram nas quebradas trabalhando, de sol a sol, para chegar ao dia do pagamento e virem todo seu suor roubado, ao entrar na favela ou no bairro, pelo moleque da rua de baixo, para pagar o arrego para o policial do tático…

… ou para ser vendido assim que ia para dentro da muralha, para ser usado por um outro preso ou um carcereiro como achassem melhor — geralmente sendo estuprados, obrigando seus familiares a levarem coisas para dentro ou servindo de garagem (não vou explicar).

O site eb.mil.br replica uma reportagem de Aline Ribeiro para O Globo e me obriga a vir até você para lhe levar a esse passado, para que você, por si mesmo, possa vislumbrar o futuro que, assim como eu, Aline e Lincoln e seus colegas já estamos vislumbrando.

Alguém pode temer o fim do PCC?

Meu pai vivia me advertindo: ”tome cuidado com o que você deseja. Você pode acabar por conseguir”.

Os pais de Lincoln e de seus colegas do MP-SP deveriam ter dado o mesmo conselho a eles, pois agora que estão perto de realizar o sonho impossível de acabar com o PCC 15.3.3, parece que começam a ver que talvez tivesse sido melhor ter tido outro desejo. Agora é tarde:

“A ruptura é inevitável. É o início do fim de uma era – diz o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado de Presidente Prudente.” Quatrocentos integrantes da facção fora da cadeia, farão o possível para “tirar o câncer da nossa família” que “não pensa no coletivo e só quer ostentar enquanto os irmãos passam fome em outros estados”.

Lincoln e seus colegas derrotaram a Hidra de Lerna, cortando sua cabeça Uh, Uh!!!

Aline, eu, Lincoln e seus colegas nos lembramos de como eram as trevas antes que Marcos Willians Herbas Camacho e sua equipe assumissem o patriarcado da Família 1533. Se você não se lembra, vou pedir para Deiziane lhe contar um pouco de como era…

A pacificação do PCC na Modernidade Líquida

E no princípio eram trevas, no início do início, antes que a paz chegasse à comunidade do Serviluz em Fortaleza com os acordos firmados entre as gangues de jovens locais, como ela narra após dezenas de entrevistas com moradores e pessoas que atuam na região.

Deiziane Pinheiro Aguiar apresentou suas conclusões ao Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará: Marcado para Morrer: moralidades e socialidades das crianças na comunidade do Serviluz.

Se você realmente quer a paz, deve saber de onde nós viemos e o que nós já superamos, para só então decidir o caminho que deve tomar, e não fazer como o Governo cearense, que creditou a baixa da taxa de homicídios a suas políticas de segurança pública.

Você pode concordar ou não com a realidade, mas ela continuará prevalecendo sobre sua opinião, e Deiziane a analisou e previu o fim desse equilíbrio e da pacificação. muito antes que os governantes cearenses, Aline, eu e Lincoln e seus colegas o fizéssemos.

O amigo e o inimigo moram ao lado

O deputado Ferreira Aragão concorda com Deiziane quanto à influência que as organizações criminosas têm dentro da comunidade:

“No bairro de Serviluz, quando alguém é morto, não se recorre mais à Polícia ou à Justiça.’É o chefe da gang que é buscado para resolver o crime. E vão lá fazer justiça com as próprias mãos’”.

Poucos garotos que vivem naquela comunidade ouviram falar em Zygmunt Bauman, mas Deiziane afirma que o sociólogo e filósofo polonês descreveu com perfeição o que se passa pela mente dos meninos do mundo do crime:

“Existem amigos e inimigos. […] Amigos e inimigos colocam-se em oposição uns aos outros. Os primeiros são o que os segundos não são e vice-versa. Isso, no entanto, não é testemunho de sua igualdade. […] Os inimigos são o que os amigos não são. Os inimigos são amigos falhados; eles são a selvageria que viola a domesticidade dos amigos, a ausência que é uma negação da presença dos amigos. O avesso e assustador “lá fora” dos inimigos é, […] “aqui dentro” dos amigos. […] A oposição entre amigos e inimigos separa a verdade da falsidade, o bem do mal, a beleza da feiura […] o próprio do impróprio, o certo e o errado […].”

Os garotos podem não ter as palavras bonitas de Bauman, porém sabem que quem não corre pelo lado certo do lado errado da vida, é o inimigo. Mas quem traça esses limites, determina a pacificação e decreta a guerra?

O Ceará pode ser aqui

Há poucas semanas, fui à Indaiatuba gravar uma entrevista. A cidade tem uma taxa de homicídios de 0,86 para cada cem mil habitantes – muito diferente do Ceará, com seus 52 para cada cem mil – e, se não bastasse isso, está entre as 80 com maior IDH do país.

Há alguns anos, em um dos meus primeiros estudos a respeito da facção, conheci o bairro Jardim Morada do Sol, hoje com 70 mil habitantes, e que, na época, vivia em clima de incertezas: assaltos, furtos em residências, estupros e guerra de gangues.

Haviam três biqueiras principais que disputavam entre si os limites de atuação, e os garotos, para se garantir, andavam armados em plena luz do dia. Lembre-se que não estou falando do Serviluz no Ceará, e sim do bairro da hoje pacata e progressista cidade paulista.

A ordem para a paz e os limites de cada grupo foram definidos por acordos fechados dentro das muralhas da Penitenciária de Hortolândia, que determinou, inclusive, pena para os crimes cometidos contra a população próxima às biqueiras. Mas quem traça esses limites, determina a pacificação e decreta a guerra?

A vitória dos moderados e o controle das bases

E no princípio eram trevas, no início do início, antes que a paz chegasse às diversas cidades e estados sob a hegemonia do Primeiro Comando da Capital, que sob o controle dos moderados mantém a pacificação e o controle da base.

As mortes de Rogério Geremias Simone, o Gegê do Mangue, Edilson Borges Nogueira, o Birosca, Fabiano Alves de Souza, o Paca, Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, entre outros, comprovam algo que ouvi há alguns anos de um faccionário:

“Eles estão mais seguros lá dentro que na rua. Se sair morre.”

A admiração dos garotos do Primeiro Comando, em especial pelo Marcola, não foi sequer arranhada pela revelação do colega de Lincoln, o Marcio Sergio Christino, que acusou Marcola de ter sido um informante da polícia e ter entregue seus aliados.

No entanto, as rígidas regras impostas pelo grupo liderado por Marcola justificam a indignação, principalmente nos níveis intermediários da organização, que se sente tolhida ao não poder armar as biqueiras para reagir às ações policiais, entre outras limitações.

A vitória de Lincoln e seus colegas e o fim dos moderados

A disputa para ampliação de limites territoriais, influência ou poder acontece em todos os grupos sociais, seja entre as crianças nas creches ou nas ruas, ou entre os adultos nas igrejas, nos locais de trabalho, nas biqueiras, e até mesmo dentro da viatura policial.

Entre os membros de facções que disputam o mesmo território e dentro das organizações criminosas por aqueles que disputam o poder interno isso não poderia ser diferente, essa é uma característica humana.

Há quem prefira não se arriscar e deixar a luta para outros: esses são os cordeiros, que servem de alimento na cadeia alimentar e mantêm nossa estrutura social funcionando com certa estabilidade, como nos ensinou Étienne de La Boétie.

Mas entre os faccionados não existem cordeiros. O mais pacífico é um alfa que tem seu domínio territorial garantido por sua força — não há amigos dentre os aliados, companheiros e irmãos, há o respeito pelo mais forte e pelo grupo.

Lincoln e seus colegas estão agora a um passo da vitória. As ações do MP-SP e do GAECO enfraqueceram o grupo dos Catorze alfas que lideram a facção, e é por essa razão que Lincoln acredita que o PCC se desintegrará nas guerras internas.

arte sobre foto do promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o Leviatã tendo ao fundo a batalha entre o bem e o mal., abaixo do texto "cotada a cabeça da Hidra de Lerna".
PCC fica sem liderança após transferência de líderes

E no final serão as trevas, no fim do fim

A liderança enfraquecida terá que disputar o poder dentro das muralhas de Presidente Prudente, e de lá essa guerra vai se espalhar para o restante do estado.

Enquanto isso, centenas de pequenas facções sem estrutura aterrorizarão os bairros periféricos de vários estados, que hoje já estão pacificados, e muitos deles seguirão o destino dos morros cariocas, com grupos de milicianos disputando o tráfico.

As periferias das cidades paulistas, os cortiços, as ocupações e as biqueiras próximas aos centros das cidades, sem garantias e ordem, vão se armar para garantir suas bases comerciais de tráfico de drogas.

As viaturas policiais, que hoje abordam os cidadãos com certa tranquilidade, pois quase todas as biqueiras paulistas atuam desarmadas, voltarão a enfrentar grupos armados, e a cabeça dos policiais mais ativos ou corruptos voltarão a ser disputadas.

Vencemos o Crime Organizado – Uh, uh!!!

Entregaremos para aqueles que nasceram após a década de 1990 uma São Paulo e um Brasil como eles nunca viram, livre da hegemonia da facção Primeiro Comando da Capital!

Só não entendo por que não senti a empolgação que esse momento merecia por parte da repórter Aline Ribeiro e do promotor de Justiça Lincoln e seus colegas, afinal, vencemos – Uh, uh?

Venda de drogas na escola, pode?

O Dri do PCC 1533, a escola e o estuprador

Ao ler o conto “Mundo Novo” revivi o dia no qual Dri da Vertente garantiu seu lugar como companheiro da facção Primeiro Comando da Capital:

A luz do sol não era muito intensa e a tarde já cedia lugar para a noite quando a primeira paulada lhe atingiu o ombro. Ele não gemeu, mas em um gesto que demonstrava dor levou a mão ao lugar atingido. Seu rosto expressava um medo intenso. Tentou fugir, mas o empurravam de volta…

Jota Alves descreve tão bem a cena que parece que estava lá ao meu lado quando o Dri matou o homem acusado de ter estuprado uma menina da comunidade ─ Dri tem 13 anos de idade, mas é maior e mais forte que a maioria dos adultos.

Ele não foi chamado para aquele Tribunal do Crime, mas chegou e pediu para ele mesmo fazer a justiça, o que só depois de muito debate com a liderança foi autorizado, mas o garoto se mostrou à altura da responsabilidade.

Não foi bonito de se ver.

Dri brincou com o cara que, apesar de ser adulto, não era páreo para o garoto. Ninguém ajudou o menino quando o homem tentou revidar. Dri da Vertente poderia tê-lo matado com um só golpe, mas ficou se divertindo: batendo e chutando aqui e ali e rindo.

Dri do PCC 1533 e o filho do polícia

Essa história do isolamento por conta do Coronavírus acabou atrasando o meu lado. Eu estava no Jardim Novo Horizonte para afinar uma sintonia, mas sem fluxo não teve o que fazer, então aproveitei esse tempo para conhecer algumas histórias desse moleque zika.

O esquema do Dri

A polícia já cansou de “dar geral” no garoto que sempre anda acompanhado das garotas tidas como as mais certinhas da escola, mas ele nunca está com nada ilegal, e de vez em quando o Tático ou as Rocans tentam dar um flagrante nos moleques na frente da escola, mas todo o fluxo é feito lá dentro ─ a droga entra na mochila do filho de um policial, que não recebe para isso, mas trabalha de mula só para não apanhar ou morrer.

O Dri do PCC e a diretora da escola

A pequena escola do Jardim Novo Horizonte era nova e até que bem ajeitada, mas quem comanda lá dentro é o Dri e os garotos do tráfico.

A facção PCC 1533 não determina como seus integrantes devem se comportar no ambiente escolar: uns não dão na vista para evitar a presença da polícia, mas outros, assim como Dri, querem aparecer mais que fogos de final de ano, e adoram um confronto.

Há algum tempo assumiu a direção da escola do Jardim Novo Horizonte uma educadora experiente que fez sua fama de enérgica na escola do Central Parque, muito maior e localizada em uma região ainda mais violenta.

Antes de assumir, enquanto todos falavam sobre sua vinda e como enfrentaria o Dri, Idelma conversara com os funcionários da escola traçando uma estratégia de abordagem, e ao entrar como diretora foi para o portão de entrada dos alunos.

Quando Dri entrou, ela chamou o garoto de lado e afirmou de maneira firme:

“De onde venho, você pode vender droga do portão para fora, AQUI dentro, se eu te pegar, te meto em cana.” – contou ela depois para a pesquisadora Ellís Regina Neves Pereira.

O moleque respondeu sem se alterar: “Você morre no dia seguinte. Escolhe”. E seguiu para dentro sem sequer olhar para trás.

O irmão do PCC 1533 e a diretora da escola

Não é verdade que Dri da Vertente é irmão do PCC, mas é um companheiro (na hierarquia da facção, alguém que ainda não foi batizado), e é ele quem controla a venda na escola do Jardim Novo Horizonte, mas aquela é só uma das biqueiras da quebrada.

Idelma não conseguiu parar o fluxo de drogas na escola e, por experiência, sabia que se tentasse acionar a polícia poderia ser pior para ela, para os funcionários e para os alunos.

Passado alguns dias, o irmão que comandava toda aquela quebrada mandou um recado que queria conversar com ela. Idelma aceitou, pensando implantar alí o mesmo acordo que tinha feito no Central Parque: nada de tráfico ou regras do crime dentro da escola.

Minha quebrada, minhas regras

O irmão do Novo Horizonte veio com papo reto:

“Nada vai acontecer com a senhora se a gente cuidar.”

Só que para isso ela não deveria se meter nos negócios dos garotos, a disciplina dentro da escola seguiria como sempre foi, e a escola, mesmo pequena, continuaria nova e até que bem cuidada.

Idelma sabia o que isso significaria, Dri continuaria não só traficando dentro da escola mas mantendo a disciplina, e isso era para ela inaceitável. Ellís Regina contou como a diretora lhe descreveu o que se passou depois que recusou o acordo e a proteção:

“Destruíram a escola, quebraram assim, tipo ‘quero ver, então, se você fica ai!’. Ele ia chegar lá, tipo um inspetor do aluno do tráfico dentro da minha escola? Meu! Você está doido que eu vou deixar alguém entrar aqui para lidar com os meus alunos! Quando não fiz esse ‘tal acordo’ com esse rapaz, a represália foi enorme, enorme! Depredação. Destruição. Parecia que tinha alguém de dentro da escola que falava para eles, então quando a gente comprava material pedagógico, que é uma verbinha no semestre e outra no fim do ano, os caras entregavam de dia e à noite meteram fogo em todo o material, novinho! Teve perícia, teve polícia, e eu passei a madrugada no meio do mato, no escuro, porque ninguém podia mexer no local… deu o quê? Nada! Aí quebraram vidro, quebravam carteira…”

A escola do Novo Horizonte continua nova e pequena, só que não é mais bem cuidada, e após a saída de Idelma ficou sem diretor.

Tribunal do Crime busca Marabel

O jovem Bruno Marabel que está preso no Paraguai por matar toda a sua família conseguiu na Justiça proteção contra a facção PCC 1533.

O Primeiro Comando da Capital teria julgado Bruno Marabel no Tribunal do Crime da facção PCC 1533 e o teria sentenciado à morte o jovem que matou em 2020 sua mãe e seu padrasto, a mulher com que com ele vivia e seus dois filhos de 6 e 4 anos.

Outras fontes apontam que Bruno não teria sido aceito dentro da facção, mas que teria comprado favores dentro do cárcere com o dinheiro e os presentes que lhe são enviados pelos fãs, no entanto acabou se enrolando nas contas e ficou devendo dentro do sistema carcerário.

El caso de Bruno Marabel “la casa del horror de Paraguay” | Criminalista Nocturno

Por ter sido torturado por agentes carcerários em na Penitenciária Nacional de Tacumbú, Bruno foi transferido para Centro de Rehabilitación Social (Cereso) de Itapúa onde teria sido alertado que sua vida estaria em risco. Devido a natureza de seus crimes, a organização criminosa PCC teria decidido que o jovem deveria morrer. Transferido novamente, agora para a Penitenciaría Regional de Concepción.

Habeas Corpus Genérico a favor de Bruno Marabel Ramírez.

Em uma rara decisão, a Suprema Corte de Justiça (CSJ) emitiu um habeas corpus que obriga que as autoridades garantam a segurança de Bruno do Tribunal do Crime do PCC 1533.

O cangaço de Lampião e Marcola do PCC

Muitos dizem que o cangaço e as facções criminosas são, antes de mais nada, um fenômeno social. Seria o Primeiro Comando da Capital de hoje o cangaço do passado?

O Novo Cangaço — um grupo ou uma modalidade criminosa?

No Brasil, o Novo Cangaço é uma modalidade criminosa que descreve a ação na qual grupos do crime organizado dominam apenas pelo tempo de duração de um ataque planejado em uma região delimitada — um tipo secular de crime, no entanto, o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) profissionalizou os procedimentos.

Autoridades do Paraguai e da Argentina discutem estratégias para se contrapor aos ataques do Novo Cangaço e vejo tanto a imprensa e quanto autoridades utilizando o termo “Novo Cangaço” para designar uma facção criminosa como se fosse um nome próprio:

O grupo Novo Cangaço se junta ao Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho, Bala na Cara e outros que desembarcaram na fronteira e fincaram raízes em nosso território.

Prensa Mercosur

Não descarto que possa haver algum grupo que tenha se apropriado do nome, no entanto, o importante é estudar o fenômeno em si, como demonstra a morte de diversos membros das forças de segurança e a prisão de um número cada vez maior de profissionais do crime que se especializaram nessa modalidade criminosa.

O Primeiro Comando da Capital já possui em território paraguaio 700 integrantes conhecidos pelas autoridades e suas ações tem se concentrado nas províncias paraguaia e argentina próximas à fronteira com o Brasil.

O criminologista Juan Martens ressalta para o Prensa Mercosur que “Infelizmente, os policiais continuarão morrendo nas mãos de criminosos, enquanto não houver um sistema institucional que os proteja”.

Devido ao planejamento, a sofisticação na execução, aos contatos dentro das forças de segurança pública e privada, e o alto investimento envolvido é impossível os agentes de rua reagirem com eficácia aos ataques, e sua coerção só é possível através de um sofisticado processo de investigação com respaldo em legislação específica — o que pode contrariar interesses políticos.

Quando chegavam, eles chegavam em uma comunidade, aqueles jovens, aqueles adolescentes, sem nenhuma perspectiva de vida, que muitas vezes não tinham nem o que comer, viam aquele bando de homens com armas e roupas imponentes.

Aquela visão impressionava, e muitos desses garotos passavam a desejar para si aquela vida para poder ter esse mesmo tipo de acesso a coisas que eles jamais teriam.

Esse trecho do “Temacast Lampião” poderia estar se referindo tanto ao bando de Lampião quanto a um grupo de criminosos de hoje nas favelas e comunidades carentes brasileiras e agora ultrapassam a fronteira em direção ao Paraguai e a Argentina:

O Temacast, o cangaço e a facção PCC 1533

O Primeiro Comando da Capital é fruto de nosso tempo, mas não tem como não notar as semelhanças entre esse fenômeno criminal e a era de ouro do cangaço ao ouvir o podcast “Lampião”, do canal Temacast.

Lampião (…) cria um próprio poder paralelo, por isso que comparam a ele com os traficantes atuais, por que não existe ausência de poder (…) onde o governo não chega, alguém vai ocupar aquela lacuna, é a chamada ausência do poder legal. O crime exerce o poder por que o Estado não fez antes dele.

Leia este texto, que é uma transcrição de parágrafos inteiros (como o acima), Em alguns deles, substituo a palavra “cangaço” pelo termo “facção criminosa”, e a descrição do passado se encaixa como uma luva para os dias de hoje, mas, se preferir, ouça você mesmo o bate-papo entre os acadêmicos Francisco Seixas, Larissa Abreu, Igor Alcantara e Fabrício Soares: Temacast

O cangaço, as milícias e o PCC 1533

Facções criminosas: milicianas e criminosas

Hoje não há uma clara diferença entre os facciosos oriundos do mundo do crime e aqueles que vieram das milícias, no entanto os milicianos se originaram da mesma forma que os antigos cangaceiros do nordeste.

Os primeiros milicianos tiveram sua origem como meros “prestadores de serviço”, aí o termo prestadores de serviço tem que ficar entre aspas, porque eles prestavam serviços de jagunços para os chefes políticos locais e pequenos empresários das comunidades.

Na década de 1970 e início da de 1980 outros grupos de extermínio agiam por todo o país. Os “mãos brancas” eram grupos de justiceiros compostos por policiais civis e militares que mataram, durante duas décadas, milhares de pessoas.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David
faces controle social tráfico cangaço pol[icia

A finalidade social das facções criminosas

Por outro lado, as grandes organizações criminosas brasileiras cuja origem se deu no mundo do crime, como o Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital e Família do Norte, tiveram sua célula mater na antiga Falange Vermelha (FV), do Rio de Janeiro.

Os primeiros grupos facciosos de que se tem relato eram, na verdade, meros grupos de presos que visavam apenas se autoproteger dentro das muralhas do sistema carcerário, mas que passaram a atuar fora das celas, inicialmente em suas próprias comunidades.

Conta-se que já em 1840, em Feira de Santana, na Bahia, havia um cangaceiro chamado Lucas da Feira, que tinha uma maneira de agir muito parecida com a de Robin Hood: ele fazia os saques e distribuía parte do butim para a comunidade carente.

José Carlos Gregório, o Gordo da Falange Vermelha, afirma que repartir parte dos roubos e do tráfico também era uma das bases da ética criminosa da FV e que isso acabou sendo incorporado por outras facções, como o PCC e o CV.

Assim como o cangaceiro Lucas da Feira, os facciosos faziam uso de extrema violência e crueldade para garantir o sucesso de suas ações, contudo eram aceitos com certa naturalidade e até com boa vontade dentro de suas bases territoriais.

Marcola do PCC Marcos Willians Herbas Camacho

O Lampião de ontem, o Marcola de hoje, e o antagonista de amanhã

Da forma com que a imprensa e a história apresentam Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tem-se a impressão que ambos foram fundadores dos movimentos que representam: facções criminosas e cangaço.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

No entanto, foram apenas frutos de um processo que os antecederam em décadas.

Creio que você, assim como eu, não possui uma bola de cristal que possa lhe dizer como o futuro há de julgar Marcola do PCC, mas, se me basear no passado, em Lampião, posso afirmar que o antagonismo se manterá vivo por muito tempo:

  • odiado, pois sob o ponto de vista da lei, Marcola é, assim  como Virgulino foi, um bandido, um criminoso sanguinário que matava e fazia negociatas sujas com políticos; e
  • amado, pois sob o ponto de vista político, Marcola é, assim como Virgulino foi, uma dessas pessoas que não aceitava o modelo oligárquico, no qual uma minoria privilegiada tem acesso aos bens de consumo e a ampla maioria da população vive disputando um espaço de sol na miséria.
o mito do cangaceiro revolucionários

Jesuíno Brilhante, Lampião e Marcola

A socióloga Camila Nunes Dias afirma que o “O PCC não é revolucionário, é uma organização conservadora e que tem valores como o machismo e o repúdio aos homossexuais”, assim como era o comportamento dos cangaceiros de Lampião.

… meninos entram para o tráfico e meninas pegam uma barriga deles. Quanto mais poderoso e rico é o menino, mas elas disputam entre si pra ver quem vai engravidar dele primeiro. Estamos falando de meninos e meninas de 16 a 20 anos.

Luiz Felipe Pondé

Jesuíno Alves de Melo Calado, o cangaceiro Jesuíno Brilhante, buscava contestar o sistema da forma como ele estava montado, ao contrário de Lampião e Marcola, que se integraram, cada um de seu jeito, ao sistema, se aliando a políticos conservadores.

“Essa visão de mocinho e bandido só existe em história infantil”

Esses ícones do Estado paralelo tiveram suas vidas esmiuçadas por dezenas de estudiosos em milhares de trabalhos acadêmicos e audiovisuais. No entanto não há consenso, alguns refletiram a visão daqueles que combateram o cangaço ou que tiveram seus antepassados mortos ou saqueados por eles; já outros, se basearam nos depoimentos do povo que convivia com eles.

Talvez nunca saberemos, afinal, se era um deus ou um diabo que reinava na terra do sol, assim como não sabemos, hoje, como serão vistos, no futuro, aqueles que reinam nas periferias, nos morros ou dentro do Sistema Prisional.

Qualquer grande líder político, militar ou religioso desperta essa reação de amor e ódio, e, se fizermos uma análise profunda, encontraremos grandes razões para amá-los e odiá-los ― não foi diferente com Lampião e Jesuíno Brilhante, e não será diferente com Marcola.

brincando de segurança pública pcc 1533

O Estado como controlador da violência

Lampião comandou seu homens com pouca resistência no período que sucedeu a Proclamação da República, em 1888, e Marcola viu o fortalecimento de sua organização após a derrubada do Regime Militar e com a Promulgação da Constituição Cidadã de 1988.

Espécies nocivas que frequentam o ambiente se proliferam com rapidez pela falta de predadores naturais, e assim o cangaço e as facções criminosas se fortaleceram na ausência do Estado nos presídios, nas periferias e no sertão nordestino.

Assim como no passado, o medo impera naqueles que comandam os diversos níveis de poder mas não temem a criminalidade tanto quanto temem a eles mesmos:

Os fazendeiros e políticos locais do século XIX e o governo federal temiam a política dos governadores. Um século e meio após, se um candidato à presidência propor a federalização ou a municipalização da segurança pública ― os governadores pirariam!

Dentro dessa realidade, o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) não consegue ser implementado deixando uma via aberta e bem pavimentada para as organizações criminosas enquanto os diversos entes federativos lutam pelo poder.

Getúlio Vargas subindo o morro

Getúlio Vargas para acabar com o PCC?

Até hoje, não há dados confiáveis sobre as questões de Segurança Pública. Cada estado é responsável pelo cadastramento de seus cidadãos e dos criminosos, através da emissão de documentos, e estes não estão disponíveis em tempo real.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não aposta em um novo salvador da pátria e explica suas razões:

Os estados sempre quiseram cuidar das forças de segurança, até a Constituição de Cidadã de 1988 as polícias militares respondiam diretamente às Forças Armadas, mas nós, democratas, lutamos para retirar dos militares esse poder.

A Segurança Pública deve ser gerida pelos estados, os estados nunca aceitaram intervenção porque a polícia é um espaço de poder. O exército não está preparado para enfrentar inimigos urbanos, ele é feito para defender o Brasil de possíveis inimigos externos.

Contra inimigos externos você não conversa, você atira e não é isso que vai acontecer em uma favela. O exército ficou na Favela da Maré um ano e não deu nada, subia tanque do exército na favela e a sociedade ficava acreditando.

No passado também foi assim, pelo menos até que chegou o cara, o salvador da pátria! Getúlio Vargas derruba o poder dos governadores e dos senhores locais e encerra a era de ouro do cangaço.

Talvez apareça um novo messias para nos salvar, talvez o Sistema Único de Segurança Pública dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

O esquema dos PCCs do Morro do Algodão em Caraguatatuba

Como funcionava o núcleo do Primeiro Comando da Capital da cidade de Caraguatatuba no litoral de São Paulo

Foi negado o habeas corpus para José Francisco. Nada que o advogado alegou foi aceito pelo Tribunal de Justiça e uma a uma as teses foram caindo.

Para quem não se lembra do caso, José Francisco caiu com outros sete acusados de pertencer a uma célula do Primeiro Comando da Capital que atuava no Morro do Algodão em Caraguatatuba no litoral de São Paulo.

Até outubro de 2019, quando o esquema foi descoberto, ele e os demais, todos moradores do morro ou próximos a ele, foram presos com 43 quilos de maconha, 800 gramas de cocaína e 700 de crack, que estavam uma bela residência na rua São Miguel que era usada como “padaria” e depósito.

A venda das drogas ficava por conta dos moleques que ficavam pelas ruas do “Brejinho” próximo a EMEI, entre as ruas um e dez, e na rua São Marcos — segundo os moradores do bairro, o grupo afirmava que eles eram da facção PCC e se alguém denunciasse morreria.

O Bar do Leão na rua três era o ponto de encontro para relaxar, conversar e passar as mercadorias para a distribuição e o recebimento dos valores das vendas. Era lá que se podia procurar o Véio Lau, cujo padrasto, José Francisco, tentou sem sorte o habeas corpus.

Veio Lau é uma liderança que, não só dominava o comércio de drogas naquela quebrada, mas também era o responsável pela distribuição de armas para quem precisasse no mundo do crime, pela venda e direito de exploração de biqueiras, e até articulava atentados contra a vida de policiais que vivem na região.

Sempre conversando com ele estava seu braço direito, o Nego Bifa, gerente do tráfico e quem controlava os moleques, e o Leandro, que fazia a segurança das biqueiras e do depósito da São Miguel.

Bolão era outro personagem importante no esquema do Véio Lau, era o disciplina do PCC da quebrada, o cara responsável pelo cumprimento do Estatuto e do Dicionário.

A Renata que cuidava do tráfico nos bares do Golfinho e Morro do Algodão, e no Bar do Formiga, que era o ponto mais forte, e o Orelha e o Quadrado faziam os corres para não deixar os moleques na rua sem mercadoria para vender, pegando as coisas na casa da rua São Miguel onde o Rafael ficava organizando o estoque e embalando as paradas.

No dia que a casa caiu para todos eles e o esquema desmorona, foram apreendidos carro, armas, balanças de precisão, prensas, celulares, notebooks, recibos de depósito, uma caminhonete, algum dinheiro, explosivos e armas de airsoft e munição de festim.

Facção PCC: Mensagem do Resumo às lideranças dos estados

O que a alta hierarquia da facção Primeiro Comando da Capital espera dos “gerais do estado” nessa nova fase da organização criminosa.

Meus irmãos, aí um abraço, boa noite para todos da parte do André Júnior, tamô junto meus irmãos?

Bom meus irmãos, a caminhada é a seguinte.

Nós estamos reunindo para trocar um papo com vocês em relação a várias situações que vem acontecendo dentro dos estados, mas principalmente, estar conscientizando e estar tentando trazer uma imagem para vocês em relação a realidade que a gente vive hoje.

O Primeiro Comando da Capital está carente de liderança.

Carente de líderes, mas porque carente de líderes André Júnior, se todos os estados tem a sintonia, se todos os estados tem todo mundo puxando bonde, porque que está dessa forma?

Tá carente irmãos, porque o Comando precisa de líderes e não de chefes. Infelizmente, a gente, tem se deparado com alguns irmãos que não tem levado o Comando tão a sério, da forma que tem que ser.

Do que que a gente precisa? Nós precisamos que vocês tomem ciência da importância que é ser uma liderança, que mostra a direção mais real que a gente tem que seguir, ou seja, a direção aonde leva todo mundo a pregar e viver nossa ideologia.

O Comando hoje, vive um momento delicado em relação às facções, e muitas vezes os irmãos não tá tendo ciência disso aí. Os irmãos tem que procurar trazer a nova cara do PCC para seu estado.

Hoje, a nossa maior dificuldade é fazer os irmãos entender que o Comando é uma organização criminosa que tem que ser levada a sério: o comando não tem que ser tratado como se fosse um clube social.

É como fala no nosso Estatuto: o Comando não tem que ser tratado como se fosse uma quadrilhina ou um bando de vila.

O Comando é uma organização criminosa muito séria por sinal — é compromisso de vida que a gente faz, é a nossa vida que está ali no momento em que você aceita o convite.

Você tem que tomar ciência que ser liderança no seu estado é você deitar planejando o que vai ser melhor para o Comando no outro dia.

Você tem que tomar ciência que ser liderança no seu estado, é você planejar algo que seja em prol do interesse coletivo, e não interesse próprio.

Ser liderança no seu estado é você buscar cada dia mais tá aprimorando conhecimento, evoluindo, crescendo do seu estado em nossa organização.

Ser liderança no seu estado é muitas vezes você ter que se abster da sua família, dos seus corres particular, das suas necessidades pessoais prá viver em prol do Comando.

Isso é ser uma liderança dentro do seu estado.

Eu não estou aqui tentando dizer para vocês pararem de viver, ou deixar de ter família, ou deixar seus corres não. Eu estou querendo dizer que vocês tem que levar o Comando muito mais a sério, do que da forma que tem sido levado.

É inadmissível para nós achar que a Sintonia do Comando é só depois da sete horas da noite. É importante para nós entender que o Comando é uma filosofia de vida, é uma ideologia que a gente segue, que a gente escolheu para nós.

Porque querendo ou não, se nós não tiver de mão dada, se nós não tiver unido, nós infelizmente não vai conseguir alcançar o nosso objetivo.

Então irmão, é primordial que a gente faça uma conscientização de nossa luta para que os irmãos do estado comecem a refletir e seguir a nossa luta da maneira que tem que ser irmão.

Porque não adianta dizer que “sou liderança dentro do meu estado, eu sou isso, eu sou aquilo” mas os resultados não aparecerem — a sua falta de dedicação não pode contaminar os demais irmãos do estado.

Eu canso de falar isso aí! Para você ser uma liderança do estado não precisa você sair gritando: “eu sou PCC, eu sou isso, eu sou aquilo”.

Os irmãos do estado, pela sua atitude, pela forma de você agir, pela forma que você se conduz no dia a dia, eles vão ver que você é um PCC e que você vive a realidade que o Comando exige de você.

Todos os estados que estão com nós hoje passaram por momentos turbulentos.

Todos os estados que estão com nós hoje, vêm das crises do crescimento para a evolução, mas todos tem que dar a mão para continuar lutando e, sem a nossa união e sem nossas mãos dadas é impossível que cheguemos ao nosso objetivo.

Eu, André Júnior, querer, o Príncipe, ou qualquer outro irmão do resumo querer, é uma caminhada, mas vocês querer, e vocês buscar por onde, pode ter certeza que o resultado vai ser bem maior. Porque vocês é que estão dentro do problema. É vocês que estão dentro dos estados. É vocês que vivem a realidade de vocês.

Então irmão, é dedicação irmão! É a seriedade! E hoje a gente vê uma grande quantidade de irmão que não está levando o Comando a sério! Tá levando o Comando na brincadeira, irmão! É sintonia na hora que quer! Conduz do jeito que quer! É pedido um levantamento, não é levado com seriedade! O resumo chega e pede um levantamento, irmão, e parece que os irmãos ficam esperando ser punidos ou ser afastado para daí correr atrás!

E não é isso irmão! O Comando é dedicação, o Comando é seriedade, o Comando é responsabilidade com o compromisso que você tem com o crime! Entendeu irmão?

Então não adianta vocês vir falar, não adianta vocês vir querer fazer as coisas de uma maneira, sendo que a realidade, sendo que as coisas estão acontecendo de outra e muitas vezes o comodismo, a falta de interesse, de comprometimento, de responsabilidade está fazendo com que o Comando começa a abrir um caminho triste no seu estado.

Aonde você acha que o Comando só tem que fortalecer, fortalecer e fortalecer, e não é isso. A nossa realidade é um fortalecer o outro. É o crime fortalecendo o crime. É seriedade, é responsabilidade!

As vezes vocês acham… “Ah! Lá em São Paulo o Comando é isso. Ah! Lá em São Paulo o Comando é aquilo”.

O Comando de São Paulo, o Comando do Paraná, o Comando MS, o Comando do MG, o Comando de qualquer canto do Brasil é um Comando só!

Só que para o Comando ser um pouquinho mais evoluído aqui, um pouquinho mais evoluído aí, dependeu da dedicação, da responsabilidade, do compromisso e do comprometimento dos irmãos!

Hoje, vocês tem acesso muito mais fácil as informações da organização e ao andamento da organização. O entendimento que vocês tem hoje, muitas vezes eu não tive lá atrás quem me trouxesse o entendimento na hora.

Muitas vezes irmão, eu queria ter alguém para falar sobre o PCC mas eu não encontrava porque as pessoas tinham a visão distorcida.

Quantas vezes, chegava em uma cadeia como eu cheguei, e você entrar em um pavilhão com 60 coisas pedindo para você sair se não iam te matar — e hoje é tudo mais fácil, é tudo irmão.

Todos integrantes do PCC tem acesso fácil a sintonia.

Eu fui conseguir falar com um resumo em 2013! Nunca consegui falar com um irmão de hierarquia maior: só Geral do Estado e Geral do Sistema, eu nem sabia como funcionava direito e muitas vezes eu levava o Comando pela Ética do Crime que eu já trazia comigo.

Hoje a gente tem o privilégio de falar com vocês, dividir ideia, de falar do Comando, de falar da nossa criação, de falar do porque que foi criado e muitas vezes isso aí é jogado ao vento! Muitas vezes isso aí não é tratado com a seriedade que tem que ser! Muitas vezes isso aí é tido como loucura, como fanatismo, e não é, é um compromisso que nós assumimos que não é só eu que tem que levar a sério, não é só eu que tem que pensar no Comando 24 horas, não é só eu quem tem que deixar muitas vezes a minha família sentindo falta de mim lá porque estão precisando de mim por alguma situação e eu estar aqui falando com vocês. Sabe porque? Isso é amor a causa, isso é amor ao Comando, isso é amar meus irmãos, isso é amar meus afiliados e querer que o Comando cresça e evolua.

Hoje por exemplo, eu fiquei do meio dia e quarenta até agora a pouco, sete e meia da noite, escrevendo estado por estado as necessidades que está tendo, a dificuldade para que os irmãos possam olhar por nós e depositar mais alguma coisa em nós para que possamos fazer o Comando andar melhor.

E aí a gente olha para os lados e vê os estados acumular ideia em aberto, acumular inadimplência, a sintonia do estado se apagando, os irmãos fazendo ali um pouquinho de corpo mole, porra meus irmãos!

Vamos levar a sério o compromisso que nós tem, vamos nos comprometer com nossa causa, nós não vai chegar a lugar nenhum se cada um procurar se acomodar, se vocês pegar a revolução que teve no mundo, a mudança que teve na história, lá de três mil anos atrás até a data de hoje, você vai ver irmão, que foi através de comprometimento, foi através de suor, foi através de sangue, foi através de muita luta, muitas vidas que se perderam para nós chegar aonde nós chegou!

E dentro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital da qual você faz parte, na qual você exerce uma função dentro, uma responsabilidade dentro, lá atrás nós perdemos muitas vidas para que fosse tomada essa iniciativa e após tomada e criado o Primeiro Comando da Capital, muitas vidas se foram em prol dessa causa e muitos irmãos nossos estão hoje dentro de tranca estadual e tranca federal, muitas vezes sem família, muitas vezes sem notícia de ninguém porque lutavam, lutaram e estão lutando mesmo dentro dessas trancas em prol da causa, irmão.

Hoje é um verdadeiro privilégio pegar um telefone e gritar o nome do Comando nos quatro cantos do Brasil e do mundo e muitas vezes a gente se acomoda por falta de interesse.

Muitas vezes a gente acha melhor ficar aí no Zap namorando, ficar olhando foto de mulher pelada!

Então irmão, é uma responsabilidade muito grande que você carrega e que quando a gente tem o privilégio de ter um minuto falando do PCC, ouvindo nossa história, a gente tem que dar valor nisso aí!

A gente tem que dar valor nisso aí, e não é só ouvir e guardar para nós não! É ouvir, analisar, refletir, e no outro dia você estar falando para seus irmãos e para seus companheiros a importância que eles têm para o Primeiro Comando! A importância que eles tem para nossa organização, como é muito mais importante se eles tiverem se doando de corpo e alma em prol dessa causa.

Há cerca de dois anos e pouco atrás a gente tinha cerca de 2,440 em todos os estados, fora São Paulo, hoje, a gente tem tranquilamente 13.700, 13.800, quase 14 mil irmãos — não tenho o fechamento exato porque vou fechar agora dia 1º (agosto 2021).

Isso não foi uma caminhada que nós começou e falou que nós queria ir e foi, nós tivemos que planejar, tivemos que se articular, nós tivemos que falar do Comando.

Se hoje muitos de vocês estão dentro do Comando, foi porque uma hora alguém encostou e falou do PCC. Eu mesmo quantas vezes não peguei a Cartilha e não fui ler junto com muitos de vocês, dentro da cela, pregando para sete ou oito companheiro ali, irmão?

Acreditando que vocês ia estar passando aquilo para frente, foi o que aconteceu e hoje graças a Deus a gente tem aí 13 mil integrantes para 14 mil integrantes dentro dos estados fora São Paulo.

Hoje vocês pedem um telefone e a gente com muito custo a gente consegue um dinheirinho e consegue colocar vocês no ar. Isso é fruto de união, irmão! Isso é fruto de uma ousada, é nós querer melhor, é nós passar pros irmãos nossa dificuldade e os irmãos acreditar em nós irmão!

Eu peço para vocês de verdade, nós estamos vivendo um momento muito crítico em relação as outras facções e é primordial irmão, que nós estejamos um olhando para o outro, que nós estejamos de mãos dadas.

A gente hoje tem uns quadros que apoiam vocês 24 horas do dia, com apoio nos estados, com apoio do resumo, e está toda hora aí falando com vocês!

Mano, vocês tem que sugar, vocês tem que pegar esses caras aí, mano, e absorver todas as informações, todo o conhecimento, pedir, ajudar, montar projeto para seu estado, e trazer os irmãos para perto de vocês!

Isso não quer dizer que a linha nossa do resumo está fechada para vocês, nossa linha é aberta, todo mundo pode chegar na nossa linha. Se não der para responder na hora, liga de novo irmão, mas nós estamos aqui para compartilhar com vocês essa nossa alegria de ver o Comando crescendo.

Nós queremos compartilhar com vocês essa nova alegria de ver vocês em sintonia, falando da nossa Cartilha e do nosso Estatuto — pregando o Comando!

Dedicação meus irmãos, seriedade, respeito, responsabilidade é o que nós pedimos para vocês, meus irmãos.

Eu peço para vocês de verdade, do fundo do meu coração que vocês comecem a pensar mais na organização, e não é só pensar da boca para fora, não é só pensar em vão. É viver o Comando, irmão. É respirar o Comando!

Nós temos vários irmãos nossos que daria tudo para estar aqui hoje para ver isso acontecer, mas eles estão na tranca, recebendo o mínimo de informação possível daquilo que eles mais sonharam, daquilo que eles mais almejaram.

Vocês estão vivendo um momento histórico, um momento único da facção, da facção não, da organização dentro dos estados e muitas vezes vocês não estão valorizando isso cara!

Vocês vão ter história para contar lá na frente:

“Porra mano, nós tivemos um momento no Comando… eu me lembro quando o Comando estava em 13 mil, eu lembro quando o Comando estava em 14 mil”.

Vocês vão poder escrever a história de vocês no Comando, e eu pergunto, vocês vão querer deixar sua história no Comando em branco? Vocês vão querer escrever uma de fracasso ou de sucesso?

Está nas mãos de vocês! Vocês foram os escolhidos para estar na frente dos estados de vocês, para estar na frente do sistema, na frente de qualquer responsabilidade.

Vocês foram os escolhidos e isso não quer dizer que sua hierarquia é menor do que a outra que você vai se sentir menor e vai querer fazer menos — não quer dizer que a hierarquia minha é maior que a de vocês que eu vou pisar por cima de vocês não, eu quero estar junto, eu quero estar de mãos dadas, eu quero estar abraçado assim como meu quadro quer, assim como os irmãos da financeira quer, como os irmãos do progresso quer!

A importância do pagamento das contribuições: cebola e rifa

Quando a gente fala da Cebola, a gente não está falando que esse dinheiro vai para o meu bolso, vai para o bolso da nossa liderança não! Esse dinheiro ele volta para os irmãos, ele volta em forma de ajuda nas contas de água e de luz, ele volta em forma de cesta básica, ele volta, de alguma forma ele retorna, não fica parado no bolso de ninguém não, esse dinheiro compra munição, esse dinheiro compra arma, esse dinheiro paga transporte de visita para as unidades carentes.

Quando a gente fala da Rifa, tem irmão que tem a capacidade de falar… “ah, mas eu nunca ganhei!”.

Como que você nunca ganhou se não é o premio da rifa? É o seu irmão que está na Federal chegar no final do mês ele não receber a ajuda dele? É a cunhada que está lá na casa de apoio tendo comida, tendo onde morar, tendo água e luz paga, …. ajuda, poder mandar para os filhos do seu irmão! Você quer premio maior que esse da rifa, irmão?

Você quer prêmio maior do que esse, meu irmão, não tem prêmio maior que esse para quem está lutando pela vida!

Para quem compra a rifa, só pensando em carro, só pensando em premiação, não está de verdade na causa! Você tem que comprar a rifa pensando que você está contribuindo!

Se você ganhar, meu irmão, eu fico feliz por você, mas isso aí é segundo plano, o primeiro plano é contribuir com os irmãos menos favorecidos. A premiação que os irmãos estão mandando para nós é uma forma de incentivação, é uma forma de motivação!

O maior premio você vai receber como eu já recebi quando estava lá na Federal e a minha mulher recebia lá no finalzinho do mês os 500 realzinhos dela lá para poder mandar para meus filhos para poder comprar as coisas dela, esse era o maior prêmio da minha vida.

O maior prêmio que eu recebi da RPF foi quando eu estava na Federal, chegava no final do mês aquele único dinheirinho minha mulher conseguia mandar um livro e uma revista para mim ler.

Esse foi o maior prêmio que eu recebi na minha vida! E a gente vê alguns irmãos não levando a sério a rifa, levando o trabalho da rifa na hipocrisia.

Muitas vezes tem irmão levando o subterfúgio para não pagar a rifa para ser afastado da responsa, para ser punido, para não dizer que está fazendo uma para sair do Comando eles ficam usando como subterfúgio.

O irmão usando dinheiro da cebola para falar:

“Ah irmão, eu tenho que me ausentar da cebola por que minha situação tá difícil.”

Então eu não estou entendendo mais, então antes de ser PCC você passava fome na rua? Antes de você ser PCC, até então você andava descalço… não andava, é isso que os irmãos tem que entender! Para contribuir com o Comando é só um passo a mais na luta que ele assumiu, porque comer, beber, comprar roupa, isso daí já tinha antes de ser PCC.

Colocando a ideologia da organização criminosa a frente

Vamos colocar a frente de tudo que o trabalho que o Comando oferece para nós, vamos colocar a frente de tudo a nossa ideologia que é o crime fortalecendo o crime, não vamos mudar o direcionamento dessas ideias irmão. Porque o dia que nós mudar o direcionamento dessas ideias, nós vai enfraquecer nossa causa e nós não pode enfraquecer!

Nós fomos escolhidos para estar a frente dessa luta e nós vai estar de verdade, e é o que nós está pedindo para você irmão! É o coração, põe o coração na frente da causa irmão. Ponha a mente na frente da causa.

Quando eu falo coração, eu falo, é de amor, é querer fazer as coisas com amor, com vontade, não estou falando de fazer as coisas na emoção. De fazer aqui e depois se arrepender, não!

Coloque a causa na frente de tudo o que você for fazer meu irmão. Quando você for comprar a rifa, pensa que um dia você pode estar na tranca e você vai precisar.

Quando você estiver aí para cobrar seus irmãos a cebola, mostra para ele que o dinheiro não vai para nosso bolso. Se você participar de qualquer trabalho, não fica inadimplente, eu peço para vocês, cara, procura pagar o trabalho de vocês em dia. Precisa ter pontualidade, porque nós fazemos compromisso com esse dinheiro.

O Comando não é uma organização capitalista, mas o dinheiro é para o próprio sustento da organização, o dinheiro é uma vertente aonde entra sai, tudo em prol ao crime, entra no bolso do crime e sai do bolso do crime para o próprio crime.

Batizar, batizar, e batizar!

Selecionar os companheiros irmão, trazer os companheiros para perto e ver se não tem mancha no crime, ver se tem uma trajetória da hora, se o cara é bandido, se é criminoso mesmo e trás com nós irmao. Coloca na caminhada e fala para ele:

“A partir de hoje sua vida é o PCC e você vai fazer por onde, você vai escrever a nova história”.

É isso que eu quero passar para vocês e espero que vocês tenham entendido o meu recado. Se alguma palavra minha foi mal colocada eu peço perdão meu irmão, mas eu precisava falar para você que o comando precisa de vocês com mais seriedade, responsabilidade, dedicação e pontualidade.

Valeu meus irmãos?

O que significa o 1533 do PCC (PCC 15.3.3)

O que significa e como surgiu o 1533 da facção PCC.

O número 1533 ou 15.3.3 utilizado para designar o Primeiro Comando da Capital se refere colocação das letras no alfabeto:

  • 15 – P de Primeiro
  • 3 – C de Comando
  • 3 – C de Capital

O P, que é a letra de 16ª posição no alfabeto pelo novo acordo ortográfico da língua portuguesa de 1990 que incluiu oficialmente o K entre o J e o L. Pode-se argumentar que é o acordo ortográfico vigorou a partir de 2008, mas, a razão de ser 15 é mais simples:

Na tranca ninguém deu a mínima bola para esse detalhe. Alguém cantou o abecedário de cabeça e contou nos dedos, deu 15 e “já era”.

Tanto no Estatuto do PCC de 1987 quanto na versão de 2007 não consta os números 1533, no entanto na Cartilha de Conscientização da Família de 2007 consta:

Essa é a evolução para uma geração consciente, aperfeiçoando nossas deficiências, suprindo a carência do conhecimento, nos apoiando maciçamente na família 15.3.3 e na nossa família de sangue. Assim superamos nossas dificuldades e conquistamos o que é nosso por direito.

E no mesmo documento se assina:

OUSAR, LUTAR E VENCER.
Conscientização, união e família
UNIDOS VENCEREMOS — população carcerária do país
PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL – PCC 15.3.3

Em uma antiga foto de Evelson de Freitas do motim em um presídio na década de 90 ainda não consta os números, ao contrário de outra imagem captada por ele em 2001, mas sua origem é muito mais antiga, como conta Josmar Jozino no livro Cobras e Lagartos de 2004:

“… a numeração 15.3.3 também era muito usada. Ela obedecia ao chamado “Alfabeto Congo”, um sistema de codificação já utilizado pelo Comando Vermelho nos anos 80, ou ainda antes, pelos presos políticos nos anos 70.”

O uso dos números era para dificultar o entendimento das autoridades carcerárias e facilitar a visualização para quem estivesse distante, mas com o tempo, passou a ser uma marca conhecida e identificadora conhecida até por quem não pertence ao mundo do crime.

Os integrantes, hoje, se orgulham de pertencer à “Família 1533”, e utilizam o sinal do 3 tanto nas falas, quanto na escrita e nos gestos como: fazer o símbolo com os três dedos ou as frases “tudo 3” e “tá 3, tá lindo”.

Apesar o correto seja grafar 15.3.3, essa forma caiu em desuso e agora é apenas o 1533, mas a pronúncia pode ser feita das duas formas: “quinze, três três” ou “um cinco três três”.

O PCC e a dinâmica do crime internacional

Análise baseada no seminário promovido pelo site InSight Crime sobre expansão do Primeiro Comando da Capital e o mercado transnacional de drogas.

Entendendo o crime transnacional a partir da facção PCC 1533

Pesquisadores do InSight Crime analisaram a mecânica do crime organizado transnacional no Cone Sul através do processo de expansão da facção criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital.

Às informações passadas pelos pesquisadores Steven Dudley e Vinícius Madureira sob a mediação da professora Camila Nunes Dias somo outras para chegar às conclusões deste texto.

Para assistir ao vídeo do seminário em português: Explorando a profundidad el crimen organizado en Brasil y sus fronteras”

Facção PCC 1533: estratégia de domínio

Com mais de 10 mil integrantes só no estado de São Paulo e quase três décadas de história, a facção paulista gere a vida dentro das muralhas, assim como, a partir de suas biqueiras, as comunidades periféricas ou marginalizadas.

Somando negociação e violência extrema, a organização paulatinamente chegou a todos os recantos do país, com maior ou menor presença, de acordo com a realidade local e de seus interesses estratégicos.

O PCC prefere cooptar indivíduos, grupos, bondes e facções para correr junto, mas elimina os que optam por resistir.

Assim, o Primeiro Comando da Capital, passou de coadjuvante a coordenador do mundo do crime: criando regras, harmonizando desafetos, aplicando a justiça, e construindo um imaginário na população encarcerada e periférica.

Facção PCC 1533: como componente da equação

É fato que a violência dispara quando a facção disputa um território, no entanto, também é fato que os índices de homicídio desabam quando ela consolida sua presença:

Com o fim dos acordos de paz entre o Primeiro Comando da Capital com o Comando Vermelho, e deste com a Família do Norte, rios de sangue correram de norte a sul do Brasil: dentro das trancas, nas ruas, e quebradas.

gráfico com a taxa de mortalidade: Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro

Facção PCC 1533: a estratégica política de cooptação

O interesse por um território pode ser local, para garantir o fluxo em uma única biqueira, mas também pode ser estratégico, para dominar ou fortalecer sua presença nas regiões produtoras de drogas e nas rotas de distribuição.

A política de cooptação que tenderia a fragmentar a facção, então, segundo Camila Nunes Dias, a facção montou “uma estrutura horizontal flexível e muito forte, conseguindo cadastrar e vincular seus integrantes”.

Os novos aliados cooptados incorporam ao leque do Primeiro Comando da Capital: produtos, serviços, estratégias, contatos e conhecimentos específicos do submundo local.

Não faziam parte do leque original de produtos e serviços do PCC: contrabando de cigarros, prostituição, adulteração de combustíveis, participação em empresas e licitações públicas, entre outros — o contrabando de cigarro hoje é um dos braços mais rentáveis da facção.

E assim, as creches da prefeitura de São Paulo, a maior cidade da América Latina, acabam sendo usadas para lavar o dinheiro da organização criminosa.

A distribuidora Águia e a WMR Construções faziam transações financeiras nas contas de uma dedetizadora: o PCC paga notas fiscais emitidas pelas empresas e os impostos devidos pelas entidades ligadas a administração das creches, em dinheiro em espécie e parte deste valor, era recebido de volta por meio de transações bancárias, lavando o dinheiro.

A cooptação é usada tanto para o domínio de uma biqueira em uma vila amazônica, quanto para a criação de rotas transoceânicas — como nos casos de: Fuminho (Gilberto Aparecido dos Santos) e Gegê do Mangue (Rogério Jeremias de Simone).

Facção PCC 1533: Fuminho e Gegê do Mangue

Fuminho que já havia atuado na Bolívia junto aos produtores de coca, e na melhoria das linhas de escoamento para o Brasil, acabou preso em Moçambique quando tecia parceria entre o PCC com grupos criminosos do sudeste africano.

Moçambique não foi escolhido apenas pelo idioma, mas por sua posição estratégica — uma semente bem plantada naquele solo fértil, se devidamente regada, permitiria ao Primeiro Comando da Capital colher bons frutos:

As organizações criminosas moçambicanas atuam no tráfico regional de heroína e de armas, fazendo a ligação com as organizações asiáticas que atuam nos 47 países que integram a zona de influência do Oceano Índico.

Possivelmente negociava com a família comandada por “Mohamed Bachir Suleman, se aproveitando do acordo comercial assinado em 2015 entre Moçambique e Brasil que facilitou muito a importação de mercadorias em contêineres do Brasil” e a partir de de Moçambique, Malawi e África do Sul reexportar para a Europa, Austrália e EUA.

O eixo africano permitiria ao Primeiro Comando da Capital entregar diretamente para clientes europeus, evitando os portos da Bélgica, Holanda e Itália, onde é necessário pagar o agenciamento cobrado pelos cartéis locais que gira em torno de 40% do valor da mercadoria.

Não se pode afirmar com certeza quando o Primeiro Comando da Capital iniciou suas operações por lá, mas se acredita que tenha montado bases tanto em Moçambique quanto na África do Sul, e que mantenha laços comerciais desde 2012, e o Hezbollah tem uma presença importante naquelas bandas:

Estudando esse caso, Camila Nunes Dias chamou minha atenção para a dificuldade de se entender a estrutura da facção: Fuminho, liderança inconteste do grupo criminoso, sequer é um membro batizado da organização criminosa.

Teoricamente:

  • podendo fazer negócios particulares com grupos inimigos;
  • ficando nebulosa sua colaboração para o caixa da organização;
  • assim como qual seria o limite pelo qual poderia ser responsabilizado pelas regras do Regime Disciplinar (Dicionário do PCC).

Gegê do Mangue, batizado na facção, organizou rotas de distribuição da Bolívia para o Brasil, e foi morto no Ceará onde negociava com grupos locais a estruturação e segurança dos entrepostos e portos para o despacho de drogas para as organizações criminosas européias.

Facção PCC 1533: estruturando a Rota Caipira

O Brasil se tornou o segundo maior mercado do mundo depois dos Estados Unidos, com dois milhões e oitocentos mil consumidores, obrigando o Primeiro Comando da Capital a desenvolver uma cadeia logística que garantisse o fluxo constante, seguro e em grande escala do produto.

Para isso, lideranças da organização criminosa seguiram para Bolívia, Colômbia e Paraguai, para estruturar um sistema de parcerias interligando: plantadores de coca, refinadores, distribuidores autônomos, varejistas, e exportadores.

Quando a liderança da facção PCC 1533 seguiu para a região, já haviam células atuando em toda a extensão da Rota Caipira: Bolívia, Paraguai, Mato Grosso do Sul e Paraná — tendo lá chegado a partir dos presídios.

Por anos, PCCs foram aprisionados ou transferidos para essas regiões, difundindo a “filosofia do partido” nos presídios, e suas sementes ao serem libertadas, se espalhavam para as comunidades do entorno formando essas células por toda a extensão da Rota.

Facção PCC 1533: encontrando seu limite

O Primeiro Comando da Capital distribui 60% da cannabis produzida em solo paraguaio em uma área estimada entre 7 e 20 mil hectares (1.340 municípios brasileiros tem uma área de até 20 ha.), produzindo entre 15 e 30 mil toneladas por ano, ocupando duas dezenas de milhares de trabalhadores rurais: da pequena agricultura familiar aos latifúndios do agronegócio.

A organização criminosa atravessa com facilidade os ilícitos através dos 800 quilómetros da fronteira do Brasil com o Paraguai, utilizando-se para o transporte de empreendedores individuais ou coletivos autônomos — entre 2014 e 2021 foram apreendidos 48,42 toneladas de maconha, portanto, vazou um mínimo estimado de 90 mil toneladas.

A facção optou por não possuir uma estrutura logística própria, terceirizando como empreendimentos individuais ou coletivos autônomos: de mochileiros à caminhões e aviões (que em época de Covid tem ganhado competitividade).

Vinícius Madureira salienta que foi a partir dos presídios que o PCC dominou este que é o maior corredor de escoamento de drogas e ilícitos do Cone Sul — o Rio Grande do Sul e o Uruguai não estão integrados na rota principal por serem regiões onde o Primeiro Comando da Capital ainda enfrenta resistência.

O PCC não venceu a resistência dos diversos e consolidados grupos que atuam nos presídios gaúchos, e assim, não obteve o controle das comunidades e rotas, se mantendo, segundo Vinícius Madureira, apenas “como fornecedor de drogas e facilitador do desenrolar da mecânica criminal na região”.

Rio Grande do Sul

Essa miríade de facções, grupos e bondes, somados à facilidade de acesso por qualquer criminoso independente aos fornecedores da Tríplice Fronteira, levaram a facção paulista a optar pela cooptação dos grupos locais para concorrer do mercado gaúcho e não a ação das forças de Segurança Pública do estado.

No Uruguai a presença paulista, segundo Vinícius Madureira, é tênue também devido aos grupos locais, mas essa informação destoa de um conteúdo do próprio site InSight Crime:

[No Uruguai os] grupos criminosos não são tão poderosos quanto as gangues de rua em outros lugares da América Latina, e suas atividades têm sido tradicionalmente limitadas a pequenos furtos e tráfico de drogas em pequena escala.”

Facção PCC 1533: estruturando a Rota do Solimões

Vinícius Madureira argumenta que tanto para driblar o cerco policial, quanto por questões estratégicas, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, buscam ampliar um corredor alternativo: a Rota do Solimões.

O PCC para obter o controle da Rota do Solimões estruturou núcleos próprios na região Norte e Nordeste integrados a grupos criminosos locais como piratas ribeirinhos, facções e bondes.

A facção conta com aliados poderosos como o Bonde dos 13, mas tem dificuldade de dominar os quase 4 milhões de quilômetros quadrados, área equivalente aos territórios da Índia e do Paquistão somados, com baixa densidade demográfica e precária infraestrutura de transportes e comunicação.

A principal estratégia adotada pelos paulistas é estrangular as fontes de insumos da Família do Norte e do Comando Vermelho, descapitalizando-os, e assim, criando disputas internas que facilitam a tomada de suas quebradas pelas suas células ou aliados locais.

Apenas no dia 21 de abril de 2021: a polícia manauense identifica integrante do CV responsável pela morte de pelo menos 10 PCCs; e o PCC divulga um vídeo executando um integrante do CV no Amazonas, e outro ameaçando CVs de Parauapebas, um município próximo à tríplice fronteira do Pará, Maranhão e Tocantins — todos dentro do contexto da guerra pelo controle da Rota do Solimões.

Atualmente, o PCC busca os narcóticos diretamente dos produtores rurais ou seus distribuidores no Peru, na Colômbia e na Bolívia, e entrega o produto acabado para despacho nos portos com destino à Europa e à África, alimentando no caminho o mercado interno do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Essa disputa de mercado é a razão dos massacres ocorridos nos presídios do Norte e Nordeste do país: COMPAJ do Amazonas, Monte Cristo de Roraima, Alcaçuz do Rio Grande do Norte, Urso Branco em Rondônia, Altamira no Pará, além de mortes nas cadeias, nos centro sócio-educativos e nas quebradas.

Rota dos Solimões

O fortalecimento do Comando Vermelho no Acre fez com que integrantes do Primeiro Comando da Capital se aventurassem em território boliviano.

Em San Matías, capital da Província boliviana de Ángel Sandóval no departamento de Santa Cruz, situado na fronteira com o Brasil, é comum a prisão de estrangeiros com ligação com a facção brasileira, mas segundo o ministro de Governo da Bolívia, Carlos Eduardo Del Castillo Del Carpio, nada que a polícia local não esteja preparada para resolver.

Outros indícios seria em menos de uma semana a execução de um empresário e seu ajudante naquela cidade em um confronto entre criminosos e, a morte de um sargento durante uma operação da Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (Felcn) em San Ignacio de Velasco, Santa Cruz. e um colombiano ex-combatente das FARC no Parque Noel Kempff.

A oposição de direita que afirma que o presidente Luis Arce deveria soicitar o apoio da  Drug Control Administration (DEA), no entanto o vice-ministro de Substâncias Controladas, Jaime Mamani Espíndola, acredita que seja apenas uma jogada política de grupos políticos visando levar terror para vender uma solução. Dados do Google Trends demonstram que a população não tem levado em conta essa narrativa.

Facção PCC 1533: expansão estratégica

Sem grupos capazes de lhe fazer frente, o PCC cooptou ou eliminou os reticentes, tornando-se hegemônico no tráfico de grandes quantidades de drogas e outros ilícitos — dominando com certa tranquilidade as rotas transnacionais do norte ao sul do país.

Estima-se que apenas a cannabis que circula no Cone Sul, se legalizada, geraria 10 bilhões de dólares anuais — daí o interesse dos grupos criminosos pelo domínio das rotas e de sua não legalização.

Apesar de sua força e influência, a organização paulista sofre oposição do Comando Vermelho e de grupos locais nos estados e países fronteiriços, como o Clan Rotela no Paraguai — havendo uma relação de rivais.

O avanço da facção PCC nos últimos anos foi impulsionado pela criação dessa rede para o atendimento do mercado interno ao mesmo tempo em que o mercado europeu de cocaína se expandia.

Para suprir o aumento do consumo na Europa, a ‘Ndrangheta e outras organizações criminosas europeias buscaram parceiros comerciais estruturados e capazes de garantir o suprimento dessa demanda.

Assim, as organizações do tráfico internacional ampliaram as parcerias já existentes com o Primeiro Comando da Capital, para se aproveitar dessa sofisticada estrutura de distribuição.

“Os corretores da máfia são tão poderosos que lidam diretamente com o PCC. Traficando da Colômbia, da Bolívia e do Peru, passando pelo Paraguai como rota de trânsito.” — Zully Rolón, ministro da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai

A parceria entre as duas organizações criminosas possibilitou que a ‘Ndrangheta passasse a hegemonia do tráfico de drogas da América para a Europa com o dominando 80% do fluxo.

Um dos esquemas, tinha como base as esteiras do Terminal do Aeroporto de Guarulhos: as bolsas seguiam pelas esteiras rolantes até a área restrita, onde funcionários aliciados pelo Primeiro Comando da Capital recebiam dos comparsas as fotos com as imagens das malas recheadas com drogas, e as embarcavam para Portugal, França e Holanda, na Europa, e também para Johannesburgo, na África do Sul.

O aquecimento do mercado interno aqui e na Europa deslocou o eixo do tráfico do hemisfério norte para o sul, onde a capacidade investigativa policial e o custo de transporte e produção, que já era menor, se amortizam.

Representantes do Primeiro Comando da Capital na Europa fizeram o “meio do campo” com as organizações criminosas europeias, optando por não atuar diretamente na distribuição para aquele mercado.

Fuminho, segundo Vinícius Madureira, seria um desses corretores autônomos (brokers) que agem em pequenos grupos com grande especialidade e capacidade de fechar grandes negócios.

Facção PCC 1533: o aliciamento das forças públicas

A relação entre as autoridades policiais e o Primeiro Comando da Capital pode se dar através da corrupção ordinária em uma biqueira ou delegacia, durante um flagrante ou de forma contínua com o pagamento do “arrego”.

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2020 nos países com maior influência da facção Primeiro Comando da Capital:

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção na Tríplice Fronteira

No entanto, também pode ser coletivo, como nos lembra Steven Dudley lembrando o caso de 2017 onde dezenas de policiais civis do Vale do Paraíba gerenciavam indiretamente através da facção PCC os negócios ilícitos em São José dos Campos.

Dois anos depois desse caso, provou-se que 53 policiais militares da Força Tática do 22º Batalhão de São Paulo estavam a soldo da facção PCC para manter a paz entre as biqueiras e garantir a segurança do comércio na região.

A Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) estima que a corrupção policial e institucional só no Paraguai consuma 49 milhões dos 63 milhões de dólares das receitas levantadas pela organização criminosa.

Em todas as regiões é usual a cooptação de policiais para a tomada ou compra de pontos de drogas de concorrentes com a prisão dos donos ou gerentes das biqueiras ou sufocando o acesso dos usuários à elas.

Facção PCC 1533: a mão de obra especializada

A participação de militares, policiais e agentes prisionais na facção é conhecida, mas é pouco explorado o trabalho de dezenas de milhares de outros profissionais de diversas nacionalidades.

Além dos agentes públicos, a logística inclui de norte a sul: transportadoras, aviões e helicópteros próprios ou terceirizados, assim como uma malha de contatos em empresas de transportes ferroviários, aeroportuários, marítimos e fluviais e em aduanas, distribuidoras e entrepostos.

Podendo usar um indígena…

“… a quantidade de índios presos em Tabatinga e Manaus suspeitos de atuar como “mulas de drogas”. (…) Dado seu conhecimento sobre os rios da Amazônia, os indígenas têm sido aliciados, transformando-se em mão de obra qualificada para o trabalho de transporte da droga no trecho Tabatinga-Manaus.” — Promotor de Justiça Walter Coutinho Jr.

… alguém com passaporte diplomático …

O Ministério Público de São Paulo revelou que Marcos Roberto, conhecido como Tuto, é adido no Consulado de Moçambique no Belo Horizonte, Minas Gerais. O quê? Isso mesmo! Por essa via, não espanta que tivesse passaporte diplomático moçambicano! Vejam…até onde tráfico brasileiro penetrou em Moçambique: até o tutano do Governo, traficante recebendo honrarias de diplomata.

Marcelo Mosse

… ou quem sabe coloque até drogas para ser transportado em avião presidencial.

A organização gere US $150 milhões por ano, utilizando-se para lavar o dinheiro: postos de combustíveis, redes de alimentos industriais ou de tratamento dentário, buffets para festas infantis, clubes de futebol, entre outros pequenos negócios.

Grandes valores seguem para as mãos de profissionais como o fazendeiro sul-mato-grossense Antonio Joaquim da Mota que tinha negócios com Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, o PCC Minotauro da região da Tríplice Aliança.

Vinícius Madureira ressalta que os mesmos doleiros que atuam em solo paraguaio para os políticos brasileiros na lavagem de dinheiro, também trabalham para o PCC, como seria o caso do senador Dario Messer. Até mesmo o ex-presidente do Paraguai Horácio Cartes poderia estar trabalhando com a facção através de suas empresas tanto como fornecedor quanto para lavar o dinheiro.

o repórter Allan de Abreu conta que doleiros como Dalton Baptista Neman faziam uma operação casada para lavar o dinheiro da facção: um comerciante paga um fornecedor na China em Dólar convertido de criptomoeda disponibilizada por um comprador de cocaína na Europa, daí, esse comerciante recebe pela venda da mercadoria vinda da China no Brasil em Reais e então paga o traficante brasileiro que vendeu a droga na Europa.

O chinês Jiamin Zhang se estabelecer no Brás no centro de São Paulo e é o líder de um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de criptomoedas que pode ter movimentado bilhões de reais. Ele é acusado de trazer ao Brasil toneladas de cocaína vindas da Colômbia, Bolívia e Paraguai. Do território brasileiro, a droga era enviada para a Europa por portos da região sul do país.

Thaís Nunes detalha e dá nome aos bois

No entanto, as criptomoedas também são utilizadas para lavagem do dinheiro doméstico, como se comprovou com a Operação Mamma Mia da Polícia Federal e da Receita Federal ao investigar uma pizzaria comandada pelos integrantes do Primeiro Comando da Capital que além de massas e queijo para pizzas, comprava criptomoedas e ouro para lavar dinheiro e financiar atividades da facção. — Lucas Caram para o Cointelegraph

Facção PCC 1533: e a escravização sexual nos presídios

O crescimento e a consolidação da facção paulista são consequências visíveis do colapso do sistema prisional brasileiro, que em nove anos quadruplicou a população carcerária.

O ovo da serpente acalentado no ventre de um sistema prisional opressor, superlotado e violento, cujos muros foram assentados um a um durante quinhentos anos. — Ryan C. Berg

Em seus pátios, corredores e celas, a ética do mundo do crime foi forjada e implantada pela facção 1533, permitindo o cumprimento da pena com certa dignidade, o que nunca antes fora garantido pelo Estado brasileiro:

Um garoto universitário branco com boa aparência, que entrasse em um presídio até 1996, antes do PCC, era negociado pelo carcereiro ou outro preso e todo mundo sabia a quem ele pertenceria no xadrez.

Era uma relação muito louca! O preso que comprou o garoto usava-o como achasse melhor, geralmente sexualmente, até que o novato ficasse “bagunçado”, daí ele era vendido para outro preso, e daí como ele estava totalmente zoado era usado como ‘cofre’ (ou ‘garagem’ para esconder drogas ou celulares no ânus quando havia revista nas celas) — imperava a lei do mais forte.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Facção PCC 1533: a prisão como ponte estratégica

O Primeiro Comando da Capital impôs a regra de correr pelo lado certo do lado errado da vida, conquistando o respeito do mundo do crime, abrindo caminho para doutrinar cada um dos ingressos no sistema prisional.

A avalanche de aprisionamentos tornou-se uma avalanche de convertidos e replicantes do discurso e da filosofia da facção.

Ninguém é obrigado a se submeter à facção, a servidão é voluntária, e, como descrito por Etienne de La Boétie: ao se colocarem voluntariamente em condição subserviente, fortalecem seus dominadores, que dominarão então mais, realimentando e fortalecendo o processo.

Como Sísifo, condenado a empurrar uma pedra até ao cimo de um monte, e ao chegar vê-la novamente cair montanha abaixo e repetindo esse trabalho por toda a eternidade, o PCC criou e foi criado por um círculo vicioso:

  • ao oferecer ao encarcerado segurança real e imediata na tranca, gera a perspectiva de que quando livre, ele trabalhará no rendoso mundo do crime para a organização; e
  • ao oferecer ao criminoso trabalho real e imediato na rua, gera a perspectiva de que quando preso, ele será respeitado dentro das muralhas pelo mundo do crime por pertencer a organização.

O PCC é poderoso por que impõe as regras, ou
o PCC impõe as regras por que é poderoso?

Stefen Dudley ressalta que o Primeiro Comando da Capital é uma exceção nas Américas, pois apesar de haverem outros grupos criminosos que atuam dentro dos presídios e nas ruas, nenhum tem a sua magnitude, e cita como exemplo:

  • MS-13: presente em 6 países, atua com uma estrutura horizontal em células relativamente independentes agregadas torno de regras conhecidas e uma marca forte, mas não tem atuação transnacional; e
  • Barrio Azteca: nascida no sistema prisional norte-americano, tem uma atuação forte na região fronteiriça com o México em parceria com o Cartel de Juarez, mas tem uma atuação pífia no interior do país.

Facção PCC 1533: criando um atalho para os EUA

O Primeiro Comando da Capital estaria expandindo suas atividades não só para países vizinhos, existiriam tentativas de se associar ao MS-13 de El Salvador, para conseguir uma porta de entrada para o mercado americano via América Central, hoje, a droga brasileira vai primeiro para a África para depois seguir para os Estados Unidos.

O que é mais assustador é que, pela primeira vez, o PCC e o MS13, de El Salvador, particularmente nos últimos meses, estão desenvolvendo relações sérias, especialmente em Puerto Cortés, em Honduras. Pela primeira vez na história, o MS13 está fazendo tráfico de cocaína. Eles nunca lidaram com drogas.

Douglas Farah

Facção PCC 1533: colecionando aliados, neutros e inimigos

A marca “Primeiro Comando da Capital ou facção PCC 1533” tem força no mercado e respeito entre os integrantes do mundo do crime (seus clientes em potencial).

Ao aderirem a marca, os novos integrantes, sejam individuais ou coletivos como gangues, bondes, e facções locais ou regionais, se comprometem a seguir determinadas regras de conduta:

  • o criminoso batizado ou companheiro responde pelo Regimento Interno (Dicionário PCC), deve seguir seu Estatuto, acompanhar os salves, e estar em dia com o pagamento da contribuição; e
  • os coletivos, podem aderir totalmente ao PCC assumindo sua marca e compromissos, ou se aliarem, usufruindo de parte dos benefícios, mas não tendo obrigatoriamente que seguir suas regras de comportamento.

O vínculo do indivíduo só poderá ser quebrado se ele abandonar o mundo do crime, seja: para seguir a vida como trabalhador, por ter se batizado em uma igreja, ou por outro motivo aceito em debate pelas lideranças locais.

Os coletivos podem sair da aliança, mas cada caso é avaliado de acordo com o grau de envolvimento e interesse:

Estatuto do PCC de 1997

Facção PCC 1533: Paraguai sucesso ou fracasso?

Camila Nunes Dias atesta que Jorge Rafaat Toumani com seu domínio da Tríplice Fronteira mantinha “uma certa ordem social na região fazendo uma regulação” entre os grupos criminosos e comerciais brasileiros e paraguaios.

Vinícius Madureira lembra que o controle de Toumani era intenso, chegando a armar emboscadas e matar integrantes do Primeiro Comando da Capital quando entravam em sua área de influência sem sua autorização.

As lideranças do PCC acreditaram que com a morte de Toumani, os fornecedores independentes de drogas e armas seriam sufocados e dominados, dificultando assim o acesso do Comando Vermelho à Rota Caipira.

No entanto, os planos das lideranças do PCC que executaram Toumani em 2017, foram frustrados pela complexa estrutura sócio econômica do Paraguai, baseada em sua vocação de polo de livre circulação de pessoas, serviços e mercadorias.

Desde o século XIX nação agrega povos e conhecimento, e em uma emaranhada rede internacional de relacionamentos e contatos — essa secular, arraigada e maleável estrutura socioeconômica não se dissolveu com o assassinato de Toumani.

Ao contrário, o vácuo de poder deu lugar a diversos fornecedores independentes a possibilidade dividir e absorver a demanda das facções inimigas do Primeiro Comando da Capital, deixando o quadro ainda mais intrincado.

Fahd Jamil George, o Fuad, outro megatraficante da região da Tríplice Fronteira, conseguiu manter-se independente, mesmo após a morte de Toumani, no entanto, escolheu se entregar às autoridades por medo de ser morto pelos integrantes da facção paulista.

O conflito entre os PCCs da região e os órfãos de Fuad; e a análise das contas de Maria Alciris Cabral, esposa de Minotauro, e dos traficantes Pavão e Galã demonstram o quão ininteligível se tornou a relação entre os diversos grupos criminosos na região.

Para o promotor de Justiça Lincoln Gakiya do MP-SP, com a prisão de Fuad, o PCC Paraguai passou de fase e tendo dominado o mundo do crime começará a atacar as autoridades policiais, políticas e judiciárias.

O pesquisador Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias lembram que a facção carioca já havia tentado a mesma estratégia quinze anos antes, eliminando a família Morel, que até então dominavam a fronteira, mas também sem conseguir consolidar o domínio.

Facção PCC 1533: PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL®

Steven Dudley vê certa similaridade entre a forma com que a facção PCC permite e controla aqueles que agem em nome da facção e o mercado de franquias.

A tensão é da natureza do franchising: o investidor busca maximizar seu capital, aproveitando-se das vantagens oferecidas pelo franqueador, da mesma forma que esse na obtenção de lucro e vantagens do franqueado.

A mesma lógica pode ser empregada no mundo do crime, apesar da facção PCC não ser efetivamente uma franquia — ao se vincular ao nome do Primeiro Comando da Capital, o criminoso ou coletivo passam a usufruir de algumas vantagens:

  • logística local e internacional: ligando-o às rotas do Paraguai à Colômbia, que atendam a sua região;
  • credibilidade do produto ou do profissional: não há controle de qualidade por parte do PCC, mas, os ilícitos vendidos ou os serviços prestados são menos questionados;
  • acesso à trabalhos lucrativos: a facção tem condições de aproveitar os indivíduos ou coletivos em negócios altamente rentáveis;
  • marca consolidada no mercado: o benefício de ter uma organização forte por trás desestimula concorrentes de disputar o mercado;
  • treinamento, suporte, financiamento e acesso a equipamentos: disponibilizados de acordo com a demanda do empreendedor, quase sempre terceirizado por outros integrantes do grupo.

Os benefícios desse último item, não fazem parte de um pacote, mas ao aderir à marca, o indivíduo ou coletivo tem o acesso facilitado aos irmãos que os prestam.

A organização criminosa pode ignorar totalmente esses negócios paralelos, ou intermediá-los, se responsabilizando ou não pelo pagamento, ou até, de acordo com o interesse ou necessidade, bancando parcialmente o investimento:

Durante a consolidação do Terceiro Comando Puro (TCP) no Rio de Janeiro, o PCC enviou reforço de homens e armas para garantir suas posições na guerra contra o Comando Vermelho e as milícias.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David

Facção PCC 1533: um conjunto de partes autônomas

Assim como um vírus utiliza um agente externo ou uma ação do hospedeiro para passar de um indivíduo para outro, a facção utilizou-se das transferências de presos para passar de unidade prisional para outra.

Zé Márcio Felício caminhava pelos corredores e pátios ocultos por trás das muralhas das unidades prisionais, semeando a “boa nova” nos corações e nas mentes dos encarcerados.

Esse método de expansão, orgânico, eficaz e aleatório, tornou-se a alma da organização no qual os interesses pessoais dos integrantes e da organização se adequam e se aproveitam com naturalidade aos fatores extrínsecos.

Todo irmão, companheiro ou aliado é autônomo em seus negócios e seus procedimentos, desde que seguindo a ética do crime, sem chefes que determinem: funções, obrigações ou cobrando resultados.

Desta forma, as habilidades individuais são desenvolvidas independente da facção, mas são aproveitadas integralmente por ela.

Um exemplo é o caso dos paióis, cujas armas pertencem a um integrante da facção que as disponibiliza sob demanda, a seu preço e risco — desde que justo.

Quando as forças policiais e a imprensa noticiam a derrubada de um ponto de distribuição ou a apreensão de veículos ou aeronaves da organização, muito provavelmente esses bens são investimentos de um integrante e não da facção.

Cada fração do trabalho é investimento individual ou coletivo: desde as fazendas produtoras e os armazéns distribuidores no Paraguai e na Bolívia, passando pelas rotas de distribuição e exportação no território brasileiro, chegando até as biqueiras que atendem ao consumidor final.

O Primeiro Comando da Capital não possui estrutura própria, e mesmo as atividades administrativas são atividades autônomas remuneradas, como as centrais de comunicação e tráfico de drogas para dentro do presídio — havendo exceções.

A organização possui bens e capital, mas estes são juntados para uma ação ou um fim específico, diferentemente da lógica de acumulação do capital empresarial, podendo ser distribuído após alcançado cada objetivo.

A mesma lógica é aplicada na ações executadas por interesse da organização: irmãos, companheiros e aliados, são convidados a se voluntariar de forma remunerada ou não — podem recusar, mas após a aceitação não podem abandonar a empreitada ou agir de maneira displicente em sua execução:

Dicionário do PCC (Regimento Disciplinar) — artigo 6º

Abandono de responsa: Quando fecha em uma responsa e deixa de cumpri-la sem motivos (fora do ar, transferências, saúde, etc…). A Sintonia deve analisar todos que serão cadastrados para evitar esses tipos de situações. Punição: De 90 dias à exclusão (depende da gravidade analisada pela Sintonia).

Como qualquer integrante, os cargos dentro da facção, sintonias e disciplinas, tem autonomia em seus negócios particulares, mas quando agem em nome da facção não podem fugir ao procedimento correto ou tomar atitude isolada que possa denegrir a imagem da organização:

Dicionário do PCC (Regulamento Disciplinar) — artigo 4º

Atitude isolada: Fica caracterizada quando um integrante ou companheiro age sem buscar a Sintonia ou responsável pela quebrada, sendo agressão, morto, ou algo que venha a prejudicar alguém ou denegrir a imagem do Comando. Punição: 90 dias quando de natureza leve ou cobrança com análise da Sintonia.

Facção PCC 1533: autonomia e capilaridade

O mega assalto da transportadora de valores Prosegur, em Ciudad del Este em 2017, onde uma equipe composta de 40 homens saquearam US $12 milhões, é usado por Vinícius Madureira como exemplo da autonomia dos grupos dentro do Primeiro Comando da Capital.

Ironicamente, o mega assalto se deu no décimo aniversário da declaração dada pelo Ministério Público de São Paulo MP-SP no qual afirmava que “a transferência de 40 líderes da quadrilha para o presídio de Catanduvas, de isolamento total, marca o começo do fim do PCC”.

A facção paulista foi a liga que uniu para o mega assalto profissionais autônomos de diversas regiões dos dois países através de sua rede de relacionamentos e contatos — os empreendedores da operação utilizaram recursos próprios e dessa forma dispensaram o aval da hierarquia para a ação.

O caso do Prosegur deixa claro que a rede de contatos é mais dinâmica, autônoma, e complexa do que as autoridades imaginavam: indo do aviãozinho da biqueira até as principais lideranças das tranças aos residentes no exterior.

Dez anos depois que as lideranças do Primeiro Comando da Capital foram isoladas, e após um grande esforço para barrar a entrada dos celulares nos presídios paulistas, a facção provou que reinventou sua rede de network.

Facção PCC 1533: o caixa da organização criminosa

Os integrantes pagam uma parcela dos seus lucros para a organização e o responsável pela cobrança é o irmão da cebola, que também vende números da loteria interna do Primeiro Comando da Capital.

O jornalista Misha Glenny analisando o crime organizado na internet afirma que o poder da computação nas mãos de criminosos competentes pode ser perigoso, e a capacidade contábil da facção PCC demonstra que eles estão adquirindo rapidamente o domínio esse conhecimento.

Os fundadores da facção implantaram o conceito da função social do tributo ao PCC. A organização passou a ser vista como o ente em condições de gerir adequadamente os recursos arrecadados pelo bem comum da comunidade do mundo do crime.

Os valores aferidos financiam lotes de drogas e armas, e outras atividades para o crescimento e manutenção da facção, como o pagamento de advogados e funcionários públicos ou privados essenciais para o funcionamento da estrutura.

Diferentemente dos negócios privados ou de outros grupos criminosos, o lucro das operações não fica com os líderes ou investidores, devendo ser aplicados em benefício das demandas e dos mais necessitados do mundo do crime:

  • operações de resgate de presos,
  • domínio e pacificação de regiões de influência;
  • apoio de transporte as famílias que visitam os presos; e
  • indenização aos familiares de criminosos que foram mortos em ações de interesse da organização.

O desvio de finalidade do capital pago pelos integrantes é severamente punido. Gegê do Mangue e Cabelo Duro (Wagner Ferreira da Silva), foram alguns líderes que teriam morrido por usarem em benefício próprio dinheiro da facção.

Cabelo Duro chegava a lucrar 450 milhões de Reais todo o ano, mas mesmo com toda essa grana e poder, depois das mortes de Gegê e de Paca, ele percebeu que o próximo a ser morto pela facção.

Não deu outra. Integrantes sequestraram Nado que era de toda confiança de Cabelo Duro, desbloquearam o celular dele e usaram para chama-lo para o flat do Tatuapé, onde armaram uma casinha: Cabelo Duro foi metralhado e fala-se que nesse mesmo dia Nado foi decapitado e enterrado em região de favela.

O mundo dá voltas, Gegê e Paca foram mortos por Cabelo Duro, Cabelo Duro foi morto por Galo, Galo foi fuzilado na Zona Leste de São Paulo… — Luís Adorno para o R7

Estatuto do PCC — artigo 16:

É inadmissível usar o Comando para ter benefício próprio. Se algum integrante vier a subfaturar algo para ganhar dinheiro em cima do Comando, agindo com esperteza em benefício próprio, será analisado pela Sintonia e após ser comprovado o superfaturamento o mesmo será excluído e decretado. Nenhum integrante poderá usufruir do contato do Comando para transações comerciais ou particulares sem o conhecimento da Sintonia, os irmãos que investir o capital em mercadoria ou ferramentas para negociar, podem fazer negócio com a Família e obterem seu lucro desde que não seja abusivos, pois todo o fruto desse trabalho é destinado aos necessitados em prol a nossa ideologia.

Dicionário (Regimento Disciplinar) — artigo 31:

Mão na cumbuca: É caracterizado quando rouba algo da organização, dinheiro, drogas, armas, etc… Trata de uma situação grave. Punição: exclusão e morte, depende da situação com análise da Sintonia.

Facção PCC 1533: sobrevivendo onde outros pereceram

A rápida expansão do Primeiro Comando da Capital se deu graças a essa estrutura horizontal, permeável e multifacetada, que permitiu sua integração a outros grupos criminosos locais ou regionais: gangues, bondes, e facções.

Grupos criminosos tentam copiar o modelo, mas ao se expandirem e formarem alianças, perdem a coesão, se dividem, e partem para o fratricídio, colapsando por terem se organizado em torno de seus líderes ou grupos, e não sobre ideais e regras claras.

O Comando Vermelho, a mais antiga facção brasileira, falhou em se consolidar como força nacional, pois ao contrário da facção paulista que se estruturou em torno de pessoas e não de um ideal, baseando o seu crescimento na conquista física de territórios e não nas mentes e nos corações de seus integrantes.

Facção PCC 1533: seria um grupo terrorista?

Márcio Vinícius Nunes chega a sugerir que utilizemos a Lei Antiterrorismo 13.260/16 para rechaçar a facção Primeiro Comando da Capital devido a complexa e evidente semelhança entre o terrorismo e as organizações criminosas brasileiras.

Steven Dudley também vê similitude entre grupos terroristas e o PCC, já que ambos “fazem muitos recrutamentos dentro do sistema prisional” e possuem “uma ideologia que tem que ver com as diferenças de classes e a injustiça que existe no mundo”.

Michael Fredholm acrescenta que entre os especialistas “atualmente, poucos, se houver algum, argumentam que o crime organizado e o terrorismo são organizações significativamente diferentes […] ambas utilizam os mesmos meios e métodos criminais para adquirir o financiamento necessário [para alcançar seus objetivos ideológicos].

Todos concordam também que terroristas e PCCs utilizam-se de métodos e modus operandi semelhantes e utilizam o medo como ferramenta estratégica para a captação ou para circulação de recursos ilegais, assim como, utilizam-se de “métodos criminais para adquirir o financiamento necessário [para alcançar seus objetivos ideológicos]”.

Mas diferem na fonte de seus recursos e sua aplicação:

Enquanto grupos terroristas buscam financiamento e recrutamento através de simpatizantes, a organização criminosa obtém recursos através de ações criminosas autônomas nas quais seus filiados visam seu ganho pessoal.

Também diferentemente dos grupos terroristas, não fica com o butim das ações criminosas para realimentar-se: os criminosos ficam com o lucro das ações cedendo uma parcela, como um imposto sobre o lucro obtido, que deve ser aplicado pela facção em benefício das demandas e dos mais necessitados.

A fronteira entre um e outro grupo, como tudo no Mundo Líquido de Zygmunt Bauman, está se dissolvendo, se já não se dissolveu e apenas não nos demos conta disso.

Michael Fredholm enumera e discorre a respeito de uma dezena pontos nebulosos que separam os dois grupos, explicando que não há uma resposta simples para a pergunta:

“O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é uma organização terrorista ou uma facção criminosa?”

Vera Lúcia Monteiro da Mota Melo alerta para o risco de ao confundirmos um grupo terrorista com um grupo criminoso abrirmos campo para o desrespeito dos direitos:

“As sociedades estão fragmentadas, é necessário encontrar um caminho certo, para se poder chegar a uma solução eficaz e que vá ao encontro dos valores morais que sempre defendemos. Pois aquilo que se tem verificado tem sido o oposto, este combate ao terrorismo tem ultrapassado os limites do aceitável em sociedades modernas e democráticas.”

Facção PCC 1533 do futuro aos brasileiros pertencerá?

Pesquisadores do InSight Crime analisaram a mecânica do crime organizado transnacional através do processo de expansão da facção criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital.

Às informações passadas por Steven Dudley, Vinícius Madureira, e Camila Nunes Dias somadas a outras me deixam a dúvida se a facção paulista, tal qual a conhecemos, não está prestes a acabar.

Desde suas mais remotas origens até poucos anos atrás, a cúpula do Primeiro Comando da Capital era formada por uma massa disforme de presos oriundos das periferias das grandes cidades.

Por puro preconceito, os operadores da polícia, da mídia, da Justiça, e a população em geral, desacreditaram que uma empresa com todo esse poder pudesse ser gerenciada por essas pessoas simples de dentro dos presídios.

No entanto, mesmo antes, mas principalmente após a pandemia da Covid-19, esse controle estava se alterando, passando cada vez mais a grupos especializados que manipulam a massa carcerária e dos criminosos nas ruas.

Não é possível que os negócios internacionais sigam sob um domínio que não o mesmo do abastecimento interno, e este por sua vez se interliga a todo o mundo do crime: do furto e assaltos ao tráfico de armas e pessoas.

Quando Camila Nunes Dias e Vinícius Madureira chamaram a atenção para o fato de que cada vez mais as decisões estratégicas e operacionais estão deixando os presídios para se concentrar nas mãos de empresários e da nova elite do PCC, colocaram uma pulga atrás de minha orelha.

Para Vinícius a questão é simples: haverão integrantes da facção capazes de ultrapassar essa nova fase da transnacionalização, a qual exige expertise em comércio e logística internacional — com domínio de línguas estrangeiras?

Mas, para mim, acendeu um sinal de alerta: qual a consequência para a política, a Segurança Pública, e para as comunidades se a facção deixar de atuar como defensora dos interesses difusos e dos negócios de seus integrantes e dos encarcerados, para ser uma facção com poder concentrado nas mãos de empresários, políticos e poucos líderes, que podem negociar o controle da organização criminosa para grupos estrangeiros, que, mesmo indiretamente passassem a ter sob suas ordens dezenas de milhares de integrantes armados?

Para assistir ao vídeo do seminário em português e chegar às suas próprias conclusões: Explorando a profundidad el crimen organizado en Brasil y sus fronteras”

A facção PCC e a flexibilização da lei de armas

Organizações de tráfico internacional de armas e parcerias com o Primeiro Comando da Capital, que domina uma sofisticada estrutura de distribuição.

A casa ficava em uma rua de terra, em frente ao córrego, no Jardim Marli, em Sorocaba — o lugar me acalmava e me sentia muito bem ali.

artigo 31. Mão na cumbuca: É caracterizado quando rouba algo da organização, dinheiro, drogas, armas, etc… Trata de uma situação grave. Punição: exclusão e morte, depende da situação com análise da Sintonia.

Regimento Interno do PCC

Se houvesse mais armas nas ruas, ele colocaria outra no lugar, “tomaria um salve para aprender”, e seguiria sua vida — como vi isso algumas vezes.

Sinto saudades daquele lugar, da pequena ponte sobre o córrego, onde os garotos aguardavam de sinaleiros, e dos cavalos que pastavam sossegados no meio do capim gordura — talvez fosse vê-los o que me acalmava.

Dificilmente alguém me trás boas lembranças, mas ao ler o trabalho de André, revivi aquele dia e me senti de volta naquele lugar. Devo isso a ele.

Em um país sem controle sobre as armas

Houve um tempo onde as armas sobravam nas mãos de policiais, civis, e criminosos.

Viaturas policiais com armas frias, tanto para o uso ilícito dos próprios policiais como para entrouxar em algum desafeto.

Traficantes com armas frias, tanto para sua segurança pessoal e de seu negócio como ferramenta de convencimento nas cobranças.

Hoje, no entanto, é raro a polícia paulista andar com arma fria mocosada na viatura, assim como são raríssimas as abordagens que encontram indivíduos armados, principalmente em biqueiras, e são milhares de abordagens diárias.

As armas curtas foram controladas tanto pela aprovação do Estatuto do Desarmamento de 2003 durante o governo Lula quanto por ordem do Primeiro Comando da Capital (PCC).

O Estado retirou as armas das ruas para diminuir a taxa de homicídio, e o PCC para acabar com as guerras entre as biqueiras dentro das comunidades.

Morreram mais de 1 milhão de pessoas por armas de fogo desde 1980, a maioria jovens negros de periferia — é como se toda a população de Campinas fosse morta.

Assim como o governo, as lideranças da facção PCC 1533 perceberam que esse genocídio é ruim para a sociedade e para a economia, exceto para os fabricantes de armas e seus defensores.

PCC e Bolsonaro no lucrativo mercado de armas

Assim como um vírus, a organização criminosa Primeiro Comando da Capital evolui exponencialmente e já se prepara para atuar em um mercado de armas com menor custo e maior oferta e demanda.

André, citando Evan Ellis e Daniel Sansó-Rubert, explica essa mudança na dinâmica nos negócios de armas curtas ilícitas:

“o fenômeno do crime, como qualquer outro evento social, está intimamente relacionado com as realidades que o cercam e materializado de acordo com um contexto específico no espaço-tempo e com determinadas condições sociais, tecnológicas, políticas e humanas”, onde “grupos de crime organizado transformam e são transformados pelas infraestruturas das sociedades nas quais eles operam”.

Ao analisarmos o Brasil, concluímos que existe uma correlação na flexibilização da lei de armas e na corrupção crescente de agentes públicos, que aumenta a circulação de armas, diminui o preço delas no mercado ilegal, aumenta eventuais colaborações entre agentes públicos corruptos e organizações criminosas no tráfico de armas leves e cria uma janela de oportunidade para este crime crescer no país.

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2020 nos países com maior influência da facção Primeiro Comando da Capital:

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção na Tríplice Fronteira

Sei que não existe corrupção no governo, principalmente por parte de Bolsonaro e seus filhos, e que com certeza eles nada recebem do mercado internacional de armas, que movimenta anualmente 80 bilhões de dólares.

Se estivessem, seria o que se chama de “corrupção sistêmica”, aquela na qual o agente público de alto escalão cria situações que facilitam em larga escala a atuação das organizações criminosas.

Bolsonaro aplica na política de armas a mesma lógica que aplica na gestão da Saúde: apostar no que acredita e no que agrada suas bases eleitorais independentemente dos resultados.

Existe um consenso internacional de que a diminuição do número de armas nas mãos da população tem influência direta no número de vidas poupadas, e no Brasil essa tendência se confirma.

A flexibilização da lei de armas do governo Bolsonaro fragiliza ferramentas que funcionam e estão sendo aperfeiçoadas há 25 anos: o “Sistema Nacional de Armas” (SINARM) e o”Sistema de Gerenciamento Militar de Armas” (SIGMA).

O governo federal, ao turbinar o mercado legal de armas e de segurança privada, impactará o mercado ilegal:

Logo, a maior circulação de armas cria uma janela de oportunidade para criminosos adquirirem armas sob preços inferiores àqueles anteriores à flexibilização da lei.

O Primeiro Comando da Capital e a flexibilização da lei de armas

As grandes organizações de tráfico internacional de armas, interessadas em investir nesse mercado, ampliarão as parcerias já existentes com o Primeiro Comando da Capital, que domina uma sofisticada estrutura de distribuição, com rotas estabelecidas com coparticipação de agentes públicos.

Traficantes de armas buscam o lucro através da comercialização deste produto em países com poucas ou fracas leis e mecanismos limitados de controle de armas, onde a sua transferência requer uma rede de traficantes e agentes públicos corruptos em um espaço transnacional entre Estados soberanos. — André citando Jeremy Haken

Para a facção PCC 1533, o custo operacional para o contrabando internacional de armas ainda é alto, precisando manter agentes nos órgãos policiais e de fiscalização para garantir o fluxo com menor índice de perdas.

Diversas rotas trazem as armas oriundas de diversos países fronteiriços, principalmente do Paraguai, ao sul, e da Venezuela, ao norte, mas também dos Estados Unidos, tanto pelos portos e aeroportos quanto pela Bolívia.

Além do apoio dos agentes públicos, as rotas geridas pelo Primeiro Comando da Capital incluem transportadoras, aviões e helicópteros próprios ou terceirizados, assim como uma malha de contatos em empresas de transportes ferroviários, aeroportuários, marítimos e fluviais e em aduanas e entrepostos.

Essa pesada estrutura não supre totalmente uma organização criminosa de estrutura gramínea, como a facção PCC 1533, e seus integrantes individualmente procuram soluções para seu próprio abastecimento:

  • militares e policiais desviam dos paióis;
  • empresas de segurança privada (de fachada ou por furto e roubo nas armarias);
  • contrabando, tanto o de poucas unidades em larga escala quanto em lotes maiores mas de forma independente;
  • furto e roubo de particulares em residência e comércio — em menor escala após a Lei do Desarmamento, mas com a flexibilização retomará seu volume e importância.

Em um país sem controle sobre os políticos

Interesses políticos impedem que haja um controle sobre o fluxo de dinheiro: da mesma forma que a família Bolsonaro consegue comprar dezenas de imóveis com dinheiro vivo, dinheiro legal, é claro, e a facção paulista também o faz.

Regras que acompanhassem, com eficiência, o dinheiro impediriam que tanto um deputado brasileiro quanto o sobrinho de Pablo Escobar em Barueri tivessem o trabalho de ter que ventilar seu apartamento para não embolorar as notas.

… é impossível olharmos para o tráfico de armas sem encontrarmos a participação da figura do Estado em alguma das etapas de sua cadeia de atividades.

A infraestrutura de distribuição do Primeiro Comando da Capital se soma aos interesses políticos em um menor controle na circulação de armas e dinheiro vivo (agora com notas de 200 Reais) e a criação de entraves para o funcionamento dos mecanismos federais de controle de atividades financeiras.

Long life the king!
Who shall we now turn to, when our leaders lost their heart?
Bolsonaro, lives are lost, but at what cost? Will your big dream fall?

A Paz da quebrada — saudades do Jardim Marli

O garoto de Sorocaba pegou a arma do mocó em um momento em que não se encontram armas com facilidade para substituir, se bem que o preço no mercado ilegal é mais baixo do que no legal.

A mão invisível de Adam Smith sumiu com as armas das ruas, mas seu valor de venda não subiu, pois o risco de tê-las e as altas penas impostas para quem for pego com elas desestimularam a busca pelo produto, confirmando a eficácia da teoria smithiana de mercado.

No imaginário popular, os integrantes do PCC estão montados em armas, mas não é bem assim: elas estão pulverizadas ou sob o controle dos responsáveis pelos paióis — certa vez conheci um deles, mas foi outra história.

Há muito não vou para Sorocaba, menos ainda para o Jardim Marli. Devo a André o recordar de boas lembranças — juro que enquanto escrevo, sinto a brisa, o cheiro e paz daquela quebrada.

Escuta telefônica do PCC — um registro histórico

Diálogo entre integrantes do Primeiro Comando da Capital são um registro histórico de como se deu a expansão da facção paulista.

Há exatos quatorze anos, o repórter Fábio Serapião do jornal O Estado de São Paulo, trouxe a público escutas telefônicas envolvendo presos do Primeiro Comando da Capital.

Não é apenas uma reportagem, é um registro de histórico incluído e disponibilizado na Biblioteca Digital do Senado Federal — os diálogos ocorreram em março de 2014.

Inimigos tiveram tempo para fugir, trocar a camisa ou se converter

Um dos diálogos ocorre entre Sumô e Taylor e mostra que antes de atacar os inimigos dentro do Presídio de Monte Cristo em Roraima, foi dado um prazo de 40 dias para que os inimigos decidissem deixar o presídio — e 145 aproveitaram para fugir.

PCC Sumô (Ozélio de Oliveira) o “geral do estado de Roraima” que estava preso na Casa de Custódia de Piraquara no Paraná, e o PCC Taylor (Diego Mendes de Andrade) que tinha a missão de “pregar a filosofia da família 1533” e arregimentar novos integrantes dentro da Penitenciária Federal de Mato Grosso do Sul, e uma outra com o PCC

Sumô: Quando nós banimos ali o Estado (das prisões de Roraima) a gente pregou a nossa ideologia, que é a paz, justiça, liberdade, igualdade e união, muitos ali tiveram o direito de pular o muro, o outro saiu até aqui no Fantástico irmão, pularam. Quantos que pularam no total ali em 40 dias ali, oh Taylor?

Taylor: 145 irmãos, 145 meu padrinho.

Sumô: 145 só pros irmão ter uma ideia como o barato foi louco. Hoje é … uns quartel do lado porque o barato ficou louco mermo.

Em outra conversa no fim do mês de março daquele ano, Sumô fala com Wax Nunes de Lima, um “salveiro” do PCC, responsável pela transcrição, transmissão e salvaguarda dos “salves” emitidos pelo comando da facção. Os dois falam sobre como conseguir celulares nas prisões. Sumô comenta a facilidade para se conseguir telefone nos presídios de Roraima e diz que onde está preso, no Paraná, são “somente” dois celulares por galeria.

“Eu morro de inveja de vocês aí que todo mundo tem um, isso aqui custa 5 mil real (sic) um aqui dentro moleque”, explica Sumô. “Caro que só né! Padrinho, aqui 5 mil é que nós paga pro cara comprar pra nós aparelho”, responde Wax.

Outra conversa de maio, de um integrante da facção criminosa apontado como “Vandrinho”, revelou a negociação de armas de dentro da cadeia. Segundo a PF, o traficante usa os termos “abacaxi” e “canetas” para se referir a granada e pistolas, respectivamente.

Na mesma interceptação, Vandrinho afirma que a facção criminosa precisa medir forças com a polícia. “Porque parceiro nós tem de somar contra a opressão, contra esses bota preta aí parceiro (sic)”, afirma o traficante.

leia a reportagem na íntegra no site do Senado Federal

Um flash sobre a expansão do PCC no Rio de Janeiro

Detalhes do funcionamento da parceria PCC TPC, apareceram com a indicação de um integrante da facção paulista para a posição de sintonia em um presídio carioca.

O Habeas Corpus de Lucas Daniel Dinelly da Silva, o Barone, escolhido para ser o sintonia da tranca do Complexo de Gericinó no Rio de Janeiro lança luz em peculiaridades de como se dá a expansão da organização paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) em parceria com a facção aliada carioca Terceiro Comando Puro (TCP).

HABEAS CORPUS Nº 0064406-30.2020.8.19.0000

Trechos do documento sugerem:

  • a descentralização, pois a princípio “Barone” não responderia ao “sintonia do estado do Rio de Janeiro” ou ao “sintonia geral das trancas do Rio de Janeiro”, apesar de se esperar que aja de acordo com os princípios gerais desses e dentro de um conjunto de regras e cadeias hierarquias; e
  • a ele é atribuída a maioria das ações que devem ser tomadas dentro de sua área de influência, sendo que ele sequer era oriundo do núcleo central do PCC, o estado de São Paulo, e nem do Rio de Janeiro onde chegou para atuar, morava em Belém do Pará e foi indicado pelo sintonia de Pernambuco! A esse emaranhado de relacionamentos e divisão de poderes e funções, Steven Dudley dá o nome de “desorganização”; já eu chamo de “metodologia do caos”.

Trechos do Habeas Corpus de Barone:

“… estabelecer no Estado do Rio de Janeiro uma extensão da organização criminosa acima referida, através de estruturas secundárias denominadas ‘sintonias’ “;

“o Rio de Janeiro já tá pronto” e “fecha em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Brasília, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul” — afirmou um dos envolvidos segundo uma escuta telefônica.

“… tráfico de armas e munições e tráfico de entorpecentes, concentrando as atividades ilícitas no Complexo de Gericinó, em especial nas unidades prisionais Esmeraldino Bandeira; Edgard Costa; Benjamim de Moraes e Bangu IV.”

[ele] integraria a “Sintonia Pernambuco” e [foi apresentado pelo] responsável pela “Geral do Estado da Externa de Pernambuco”.

Primeiro Comando da Capital conta com ‘normas estatutárias e disciplinares, estabelecendo funções específicas para cada um dos integrantes ou grupo de integrantes’ ”.

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