O PCC Koringa desacreditou que seria preso

O PCC acreditava estar protegido pelo poder da facção Primeiro Comando da Capital.

Chris Dalby para o InSigh Crime — em tradução livre

O suposto líder do PCC no Paraguai, conhecido como “Koringa”, foi extraditado ao Brasil depois de alguns dias tumultuosos nos quais membros da organização criminosa paulista encenaram uma tentativa ousada, mas sem sucesso, de livrá-lo da prisão.

Giovanni Barbosa da Silva, vulgo “Koringa”, foi detido no dia 9 de janeiro pela polícia paraguaia na cidade fronteiriça de Pedro Juan Caballero. Segundo nota da Procuradoria-Geral da República, ele vinha sendo procurado por autoridades do Paraguai desde junho de 2020 sob a acusação de organização criminosa, narcotráfico e tráfico de armas. Barbosa da Silva era considerado o comandante paraguaio do Primeiro Comando da Capital (PCC), informaram as autoridades.

Sua importância para a organização ficou evidente quando, poucas horas após sua prisão, na manhã de 10 de janeiro, cerca de 40 assaltantes armados atacaram a instalação policial onde Barbosa da Silva estava detido. Inicialmente, eles fizeram três policiais como reféns, mas as forças de segurança conseguiram revidar, resgatar seus colegas e capturar dois dos agressores, de acordo com um relatório da EFE citando fontes policiais.

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Mais tarde naquele dia, Barbosa da Silva foi entregue às autoridades brasileiras na ponte que separa os dois países em Foz do Iguaçu e depois transferido para uma penitenciária federal. Os outros dois membros do PCC presos foram mantidos sob custódia no Paraguai.

Na noite de 11 de janeiro, autoridades brasileiras rastrearam vários integrantes do PCC que participaram do ataque para libertar Barbosa da Silva até uma casa em Ponta Porã, cidade próxima à fronteira com Pedro Juan Caballero, segundo informações da mídia. Houve um tiroteio que acabou se espalhando pelas ruas e deixou oito membros da facção mortos.

A violência continuou ao longo da fronteira com um policial sendo baleado e morto em 12 de janeiro em Pedro Juan Caballero. O mesmo oficial, Fredy César Diaz, teria ajudado a repelir a tentativa de resgate alguns dias antes.

Segundo informes da polícia brasileira, Barbosa da Silva é muito próximo de Anderson Lacerda Pereira, vulgo “Gordão”, suspeito de ser um grande narcotraficante do PCC, responsável por lavar dinheiro da facção e aficionado por arte — já esteve ligado ao furto de obras de Pablo Picasso.

Antes de se instalar no Paraguai, Barbosa da Silva residia em São Paulo, onde supostamente dirigia as operações do PCC na zona norte da cidade e onde foi ferido em um tiroteio em 2017, segundo reportagem do UOL.

Análise de crime InSight

A longa investigação das autoridades brasileiras e paraguaias que levou à identificação e prisão de Barbosa da Silva, bem como à tentativa de resgatá-lo, deixa poucas dúvidas de que ele era um dos principais operadores do PCC no Paraguai.

Koringa ignorou os contínuos e significativos golpes que a facção vinha colecionando, crente que estaria protegido pelo poder da facção Primeiro Comando da Capital.

Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, vulgo “Minotauro”, outro líder do PCC no Paraguai foi preso em fevereiro de 2019, se bem que continuava a exercer influência significativa sobre as operações da organização criminosa de dentro da prisão.

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As forças de segurança paraguaias prenderam dezenas de integrantes do Primeiro Comando da Capital, muitas vezes graças à inteligência de seus colegas brasileiros, mas a organização criminosa paulista costuma aproveitar as prisões para estender sua influência e recrutar novos membros dentro das prisões.

Em janeiro de 2020, 75 faccionados do PCC conseguiram abrir um túnel para fora de uma prisão em Pedro Juan Cabellero — o ministro da Justiça do país acredita que a gangue pode ter pago US $ 80.000 a funcionários da prisão para permitir a fuga.

A incapacidade do Paraguai em avançar na luta contra o Primeiro Comando da Capital permitiu a organização criminosa transformar grande parte do país em base de operações, a partir da qual supre de cocaína o mercado brasileiro, com Integrantes do PCC operando através da fronteira com virtual impunidade, o próximo Bonitão pode não demorar muito para surgir.

Escuta telefônica do PCC — um registro histórico

Diálogo entre integrantes do Primeiro Comando da Capital são um registro histórico de como se deu a expansão da facção paulista.

Há exatos quatorze anos, o repórter Fábio Serapião do jornal O Estado de S, Paulo, trouxe a público escutas telefônicas envolvendo presos do Primeiro Comando da Capital.

Não é apenas uma reportagem, é um registro de histórico incluído e disponibilizado na Biblioteca Digital do Senado Federal — os diálogos ocorreram em março de 2014.

Inimigos tiveram tempo para fugir, trocar a camisa ou se converter

Um dos diálogos ocorre entre Sumô e Taylor e mostra que antes de atacar os inimigos dentro do Presídio de Monte Cristo em Roraima, foi dado um prazo de 40 dias para que os inimigos decidissem deixar o presídio — e 145 aproveitaram para fugir.

PCC Sumô (Ozélio de Oliveira) o “geral do estado de Roraima” que estava preso na Casa de Custódia de Piraquara no Paraná, e o PCC Taylor (Diego Mendes de Andrade) que tinha a missão de “pregar a filosofia da família 1533” e arregimentar novos integrantes dentro da Penitenciária Federal de Mato Grosso do Sul, e uma outra com o PCC

Sumô: Quando nós banimos ali o Estado (das prisões de Roraima) a gente pregou a nossa ideologia, que é a paz, justiça, liberdade, igualdade e união, muitos ali tiveram o direito de pular o muro, o outro saiu até aqui no Fantástico irmão, pularam. Quantos que pularam no total ali em 40 dias ali, oh Taylor?

Taylor: 145 irmãos, 145 meu padrinho.

Sumô: 145 só pros irmão ter uma ideia como o barato foi louco. Hoje é … uns quartel do lado porque o barato ficou louco mermo.

Em outra conversa no fim do mês de março daquele ano, Sumô fala com Wax Nunes de Lima, um “salveiro” do PCC, responsável pela transcrição, transmissão e salvaguarda dos “salves” emitidos pelo comando da facção. Os dois falam sobre como conseguir celulares nas prisões. Sumô comenta a facilidade para se conseguir telefone nos presídios de Roraima e diz que onde está preso, no Paraná, são “somente” dois celulares por galeria.

“Eu morro de inveja de vocês aí que todo mundo tem um, isso aqui custa 5 mil real (sic) um aqui dentro moleque”, explica Sumô. “Caro que só né! Padrinho, aqui 5 mil é que nós paga pro cara comprar pra nós aparelho”, responde Wax.

Outra conversa de maio, de um integrante da facção criminosa apontado como “Vandrinho”, revelou a negociação de armas de dentro da cadeia. Segundo a PF, o traficante usa os termos “abacaxi” e “canetas” para se referir a granada e pistolas, respectivamente.

Na mesma interceptação, Vandrinho afirma que a facção criminosa precisa medir forças com a polícia. “Porque parceiro nós tem de somar contra a opressão, contra esses bota preta aí parceiro (sic)”, afirma o traficante.

leia a reportagem na íntegra no site do Senado Federal

Covid-19: O tráfico de drogas na quarenta, no Brasil e no mundo

O Primeiro Comando da Capital e outras organizações criminosas se fortaleceram durante os fechamentos das cidades por conta do Coronavírus.

Douglas Farah, presidente da consultoria americana IBI Consultant, afirma que o crime organizado sairá fortalecido e capitalizado dessa crise, e terá melhores condições de adquirir negócios legais e ampliar suas atividades ilícitas se aproveitando da desorganização das forças políticas e de repressão ao crime…

… incluindo as áreas onde tradicionalmente essas organizações criminais transnacionais (TOC) não atuam, como Chile e Argentina. Entre as TOC que devem se consolidar com a Covid-19 estão a MS-13, uma gangue de rua que nasceu em Los Angeles (EUA), mas tem raízes em El Salvador, e o PCC (Primeiro Comando da Capital), no Brasil e também no Paraguai.

site blog do Nélio

As biqueiras seguiram abastecidas, e os clientes não foram impedidos de comparecer. Graças ao presidente Bolsonaro não houve lockdown e o fechamento do comércio foi frouxo, parcial e por pouco tempo.

Governadores avisaram que fariam barreiras nas estradas, mas o governo federal bloqueou a iniciativa, impedindo a ação nas estradas federais, e contando com apoio tácito dos policiais estaduais e do movimento dos caminhoneiros, bases do bolsonarismo, que inviabilizaram a iniciativa nas estradas estaduais.

Enquanto as atividades legais e os indivíduos tiveram interrupção em seus empreendimentos, as organizações criminosas mantiveram seus negócios, as organizações criminosas mantiveram-se ativas.

Juntou-se a essa facilidade logística que não ocorreu em outros países que implantaram um rígido lookdown controle nas estradas, à natural experiência em burlar as restrições e negociar: prazos e formas de recebimento.

O Promotor de Justiça Lincoln Gakiya confirmou que as exportações gerenciadas pela facção Primeiro Comando da Capital a partir do porto de Santos para a Europa e África não tiveram significativa interrupção por problemas logísticos…

… mas como ficaram os negócios em outros locais onde o presidente da República não deu uma mãozinha para os irmãos?

Os pesquisadores do Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) respondem no artigo What Lockdown? World’s Cocaine Traffickers Sniff at Movement Restrictions, disponibilizado pelo site InSight Crime (leia no original).

Fechamento? Fala sério! O comércio internacional de drogas em tempos de pandemia.

Quando uma onda de infecções por coronavírus atingiu a Itália no final de março, Rocco Molè, um membro da organização criminosa ‘Ndrangheta, enfrentou um dilema.

Ele tinha um estoque 537 kg de cocaína, contrabandeados recentemente para o porto de Gioia Tauro, no sul da Itália, que seu clã controla. Mas, devido aos bloqueios trazidos para controlar o vírus, ele só podia mover pequenas quantidades da droga de cada vez para o norte, em direção aos usuários europeus de cocaína.

Então ele decidiu enterrar o esconderijo em um bosque de limão.

O incidente relatado em uma declaração da polícia italiana mostra a situação enfrentada pelos contrabandistas de cocaína, já que a pandemia global aumentou as fiscalizações nas rotas de transporte, forçando a interrupção das redes usuais de contrabando e distribuição, mas também demonstra a flexibilidade do comércio ilegal, que manteve os negócios em expansão, enquanto muitas atividades legais do mundo estavam impedidas de trabalhar.

No caso de Molè, a aposta acabou sendo um erro caro, de acordo com o comunicado de 28 de março. A polícia italiana, realizando verificações de bloqueio, viu quando um motorista desviou da barreira e o seguiu até o bosque onde ele havia enterrado os tijolos embrulhados em plástico. Ele agora está preso, acusado de tráfico de drogas.

Mas os repórteres da OCCRP descobriram que a indústria de cocaína do mundo – que produz cerca de 2.000 toneladas por ano e produz dezenas de bilhões de dólares — se adaptou melhor do que muitas outras empresas legítimas. A indústria se beneficiou dos enormes estoques de drogas e insumos que havia antes da pandemia e de sua ampla variedade de métodos de contrabando. Os preços de rua em toda a Europa aumentaram em até 30%, mas não está claro quanto disso se deve a problemas de distribuição e quanto às quadrilhas de traficantes que tiram proveito dos clientes locais.

O que está claro é que a cocaína continuou a fluir da América do Sul para a Europa e a América do Norte. As rotas de tráfico fechadas foram substituídas por novas e as vendas nas ruas e eventos foram substituídas por entregas de porta em porta.

Na Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína, bloqueios e esforços de erradicação do governo reduziram parte da produção, enquanto as restrições de viagens fecharam algumas rotas de exportação significativas, como lanchas. Nos mercados de destino na Europa e nos Estados Unidos, as autoridades ainda estão apreendendo grandes quantidades com frequência notável – um sinal de que os traficantes de drogas ainda estão fazendo um comércio vigoroso.

Por mais de um mês, os repórteres da OCCRP na Europa e na América Latina acompanharam anúncios de apreensões e conversaram com policiais, analistas e fontes do comércio de cocaína.

Eles descobriram que o um setor se mostrou ágil em encontrar maneiras de contornar as medidas globais sem precedentes de bloqueio e quarentena. O comércio de cocaína está prosperando em um mundo onde até mesmo os pilares do petróleo estão enfrentando grandes interrupções.

Como muitos países começam a reabrir parcialmente suas economias, os traficantes estão em posição de se tornarem mais poderosos do que nunca. Com as economias em perigo e muitas empresas enfrentando a ruína, os narcotraficantes estão capitalizados e serão capazes de comprar negócios legais.

Um helicóptero da polícia colombiana patrulha uma região produtora de coca no departamento de Nariño, no sudoeste do país. Crédito: Juan Manuel Barrero Bueno, c / o OCCRP

Os esconderijos estão em toda parte

A pandemia afetou inicialmente a produção nos países da América do Sul, onde as folhas de coca são cultivadas e transformadas em cocaína. Mas essa queda na produção nunca reduziu o comércio, porque a maioria das quadrilhas de traficantes tem grandes quantidades de drogas armazenadas em mãos.

No Peru, onde aproximadamente 20% da cocaína é produzida no mundo, os bloqueios de saúde pública impostos pelas comunidades locais paralisaram o cultivo e a produção de coca, de acordo com Pedro Yaranga, analista de segurança peruano.

“O que em quase quatro anos a agência de controle de drogas não conseguiu, o coronavírus fez em poucas semanas”, disse ele.

Na Bolívia, onde se produz cerca de um décimo da coca do mundo, o quadro é invertido, de  acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime  (UNODC). Nesse país, “o COVID-19 está limitando a capacidade das autoridades estatais de controlar o cultivo de coca, o que pode levar a um aumento na produção de coca”, disse o UNODC em um relatório de 7 de maio.

Na Colômbia, onde 70% da cocaína do mundo é produzida, o quadro é mais confuso. A polícia antinarcóticos erradicou mais de 1.969 hectares de plantações de coca nas três semanas após os bloqueios entrarem em vigor em todo o país em 25 de março, informou a polícia antidrogas do país ao OCCRP.

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“A percepção da população é que [o governo] está aproveitando a quarentena e as pessoas presas em suas casas para erradicar a coca”, disse Jorge Elías Ricardo Rada, chefe de um sindicato que representa os interesses dos pequenos agricultores na região de Córdoba. “Eles tiram o pouco que as pessoas têm.”

Em Catatumbo, uma região próxima à fronteira com a Venezuela, “os negócios estão praticamente paralisados”, disse Giovanny Mejía Cantor, jornalista independente sediada em Ocaña, a principal cidade da região. Normalmente, a área produz coca suficiente em um ano para produzir 84 toneladas de cocaína pura, mas isso diminuiu para um pouco.

“As comunidades entraram na estrada e criaram bloqueios para impedir que as pessoas entrassem em sua vila por medo de coronavírus”, disse Mejía, acrescentando que isso impediu o movimento de matérias-primas necessárias na produção, incluindo folhas de coca e produtos químicos.

Um fazendeiro de coca recolhe folhas de coca em Guaviare, Colômbia. Crédito: Juan Manuel Barrero Bueno, c / o OCCRP

O maior cartel de exportação do país, no entanto, não parece ter sofrido. Membros do clã do Golfo da Colômbia disseram que puderam recorrer aos estoques guardados antes da pandemia, bem como folhas de coca de fazendas menores que ainda estão funcionando e não exigem uma grande força de trabalho.

O reduto do Clã do Golfo fica em Urabá, no noroeste da Colômbia, uma região estratégica com plantações de coca, laboratórios e portos de exportação. O grupo normalmente tem cerca de 40 a 45 toneladas de cocaína processada armazenada naquela área, cerca de dois meses de exportações, de acordo com um membro do Clã do Golfo, que pediu para ser identificado como “Raúl”. Ele se recusou a ser identificado porque isso o colocaria em perigo físico e legal.

“Sempre houve um estoque, é uma cadeia muito organizada. É a maneira de controlar tudo, especialmente o preço. Os estoques estão em praias como Tarena [perto da fronteira com o Panamá], plantações de banana, na selva. Os esconderijos estão por toda parte”, disse Raúl.

Um relatório de inteligência da Marinha colombiana de abril obtido pelo OCCRP também concluiu que os cartéis provavelmente estavam exportando cocaína armazenada antes da crise do COVID-19.

A marinha colombiana também descobriu que os produtores de cocaína se adaptaram facilmente aos desafios na movimentação de seus produtos. Os Estados Unidos, no norte, são o maior cliente individual.

Tradicionalmente, os contrabandistas usavam lanchas pequenas e muito rápidas, bem como embarcações de pesca e submarinos, para percorrer sua rota norte. Os bloqueios tornaram esses métodos mais difíceis de usar, principalmente por razões logísticas. Então, em vez disso, os contrabandistas estão voltando para rotas mais antigas e lentas, que geralmente são divididas em partes.

Com base em várias fontes no norte da Colômbia, incluindo Raúl e um plantador de coca, a OCCRP conseguiu traçar aproximadamente seis rotas novas ou revividas que se acredita serem atualmente usadas pelos traficantes. Isso inclui rotas para o Panamá através de áreas indígenas.

Membros do povo indígena Kuna estão trazendo drogas por terra, fazendo pequenos barcos subirem as águas costeiras. No Darien Gap, uma selva espessa e montanhosa na fronteira da Colômbia e Panamá, a cocaína está sendo transportada por caravanas de até duas dúzias de carregadores de mochila.

Credit: Elena Mitrevska, c/o OCCRP

As exportações para o outro maior mercado de cocaína do mundo, a Europa, sofreram ainda menos interrupções. Diferentemente das exportações para os Estados Unidos, a cocaína com destino à Europa normalmente é transportada em cargas aéreas e marítimas legais, especialmente junto a produtos frescos de movimento rápido, como flores e frutas. Este último, como alimento, continuou a se mover desimpedido durante a pandemia, ajudando a alimentar o hábito de cocaína da Europa, com 9,1 bilhões de euros por ano.

A indústria de banana da Colômbia, por exemplo, foi isenta de medidas locais de bloqueio, permitindo que a cocaína continue se movendo pela cadeia de suprimentos da colheita.

[Qualquer pessoa] nas autoridades ou na segurança que se intromete nessa rota cai”, disse Rául, membro do Clã do Golfo, acrescentando que as pessoas que são pagas para facilitar o contrabando de cocaína têm um incentivo para manter as drogas fluindo.

“Todo mundo come”, disse ele.

A terceira principal rota de exportação da América do Sul – na qual cocaína da Colômbia, Peru e Bolívia é transportada por terra e depois enviada do outro lado do Atlântico a partir do porto brasileiro de Santos – ainda está em operação, disse Lincoln Gakyia, promotor de Justiça do Ministério Público de São Paulo encarregado de combater o crime organizado.

O Primeiro Comando da Capital – facção PCC 1533, conseguiu manter alguns de seus suprimentos, mas não está claro quanto tempo seu estoque vai aguentar, disse Gakyia.

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No México, os cartéis que controlam o tráfico para o norte nos Estados Unidos floresceram sob condições de bloqueio. As apreensões na fronteira dos EUA aumentaram mais de 12% nas duas semanas após a imposição das restrições de viagem, indicando tráfego intenso contínuo, segundo dados da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA.

Os traficantes de drogas “abandonaram o método tradicional de enviar remessas frequentes, porém pequenas, através da fronteira sudoeste, para remessas menos freqüentes, mas maiores”, disse a DEA em resposta às perguntas dos repórteres, acrescentando que não está claro se esse foi o resultado do COVID-19 ou outros fatores.

Os cartéis mexicanos usaram a crise como uma oportunidade de relações públicas. As pessoas associadas aos cartéis, incluindo a filha do chefe do cartel de Sinaloa, Joaquín “Guzmán, conhecido como El Chapo, distribuíram publicamente alimentos e outros itens essenciais para os pobres.

Enquanto isso, a violência contra as drogas do país continua inabalável, com uma média de 80 vidas por dia.

“Eles podem estar dando compras para as amigas da mãe de Chapo, mas isso não significa que se importem com o bem do país”, disse Guillermo Valdés, ex-chefe da agência nacional de inteligência do México.

A Marinha da Colômbia mostra o resultado de uma apreensão de cocaína no Oceano Pacífico em 17 de abril de 2020. Crédito: Marinha da Colômbia, c / o OCCRP

Recordes de apreensões de drogas na Europa

Na Europa, a pandemia provocou um aumento nas grandes apreensões nos portos e acelerou uma tendência que está tornando a Espanha um ponto de entrada cada vez mais importante para o suprimento de cocaína no continente. Apesar de um grande número de apreensões, os traficantes de drogas na Europa não estão vendo grandes interrupções no fornecimento de cocaína.

Em março e abril, a Espanha apreendeu mais de 14 toneladas de cocaína em remessas de entrada – um número seis vezes maior que o mesmo período do ano anterior, disse Manuel Montesinos, vice-diretor de vigilância aduaneira da Agência Espanhola de Impostos.

“Estamos muito impressionados com o ritmo frenético”, disse Montesinos. “Quase todos os dias recebemos alertas de detecções de operações suspeitas.”

Em um exemplo, as autoridades espanholas apreenderam quatro toneladas de cocaína de um navio a cerca de 555 km da costa. O navio com bandeira do Togo era um navio de suprimento offshore, não projetado para uma viagem em alto mar. No entanto, o navio havia sido ancorado no Panamá pela última vez e navegou através do Atlântico, em direção à costa galega da Espanha, com 15 pessoas a bordo.

Pelo menos sete outras grandes remessas de mais de 100 kg foram apreendidas na Espanha, principalmente em frete de entrada. Quatro deles pesavam mais de uma tonelada.

Um homem adiciona cal às folhas de coca, juntamente com outros produtos químicos, para fazer pasta de coca em Guaviare, Colômbia. Crédito: Juan Manuel Barrero Bueno, c / o OCCRP

Ramón Santolaria, chefe de narcóticos da polícia nacional da Espanha na Catalunha, disse que os traficantes de cocaína podem ter assumido erroneamente que a pandemia reduziria o monitoramento nos portos.

Os cartéis “precisam continuar exportando”, afirmou Santolaria. “Eles são como uma empresa. Eles não podem armazenar tudo em seus países, pois seria muito arriscado.”

Enquanto os portos da Espanha tiveram um boom de cocaína, a Itália ficou em silêncio como ponto de chegada, apesar de abrigar grupos da máfia que dominam o comércio de cocaína na Europa.

As apreensões caíram 80% nos meses de março e abril em comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com Riccardo Sciuto, diretor da Direção Central dos Serviços Antidroga (DCSA), a agência antidrogas da Itália.

A cocaína destinada ao mercado local agora está chegando por estrada do resto da Europa. “A Itália não recebeu muito via portos ou aeroportos e é porque durante o bloqueio os controlamos muito”, disse Marco Sorrentino, chefe do departamento anti-máfia da polícia financeira da Itália, a Guardia di Finanza.

Grupos criminosos italianos transferiram suas operações para a Espanha, onde possuem grandes “colônias”, segundo Sorrentino.

“As máfias italianas e seus parceiros enviaram cocaína principalmente para Algeciras ou Barcelona, ​​e de lá a transportaram sobre rodas para o resto da Europa e para a Itália”, disse ele. “Como cobertura, eles usavam caminhões cheios de frutas frescas ou também farinha de soja”, que se assemelha a cocaína.

Nos grandes portos do norte da Europa de Roterdã, na Holanda, e Antuérpia, na Bélgica, a cocaína continua chegando como antes, escondida em remessas de bens de consumo legais, segundo as autoridades locais.

“Não vamos ter ilusões, os criminosos continuarão sem piedade”, disse Fred Westerbeke, chefe de polícia de Roterdã.

“Vemos ainda mais atividade no porto. Nas últimas semanas, prendemos muitas pessoas que esvaziam os contêineres onde as drogas estão ocultas”, disse ele, acrescentando que houve mais de 40 prisões desde que os bloqueios entraram em vigor.

Talvez como resposta ao aumento das apreensões, o preço de venda da cocaína tenha aumentado de 20 a 30% durante o período de bloqueio, de meados de fevereiro até o final de abril, em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o Sciuto da DCSA. Seis meses atrás, grupos criminosos na Europa pagavam de 25.000 a 27.000 euros por um quilo de cocaína; agora eles desembolsam entre 35 mil e 37 mil euros, disse ele, acrescentando que a polícia espanhola notou a mesma tendência.

Credit: Elena Mitrevska, c/o OCCRP

Disque drogas em tempos de pandemia e a Dark Web

Nas ruas, os bloqueios causaram estragos nas vendas de cocaína – mas também não conseguiram parar o comércio. Mas, em alguns casos, pelo menos, as adaptações dos traficantes podem realmente colocá-los em uma posição mais lucrativa do que antes, pois os usuários de cocaína estão desesperados e confinados em casa.

“Embora não faltem produtos, aumentaram um pouco os preços e estão reduzindo mais”, disse Sorrentino, da Guardia di Finanza, da Itália, referindo-se ao processo de diluição da cocaína com substâncias mais baratas.

Os traficantes de cocaína e usuários regulares em Roma disseram que demorou várias semanas para que novos métodos de distribuição entrassem em vigor depois que medidas rigorosas de bloqueio tornaram o comércio regular muito arriscado.

A solução? Entregá-lo aos clientes sob a forma de pedidos de alimentos ou transportados por trabalhadores essenciais, carregando documentos que lhes dão permissão para circular livremente. Os revendedores também mantiveram posições em filas socialmente distanciadas fora dos supermercados – um dos únicos lugares permitidos para se reunir em público sob as rígidas regras de bloqueio da Itália, que começaram a diminuir no início de maio.

As restrições de bloqueio também levaram a um aumento no comércio pela dark web, parte da internet que não é visível aos mecanismos de pesquisa e deve ser acessada usando um software especial que oculta as identidades dos usuários.

“Vimos um aumento da dark web sendo usado também na Itália e existe a regra da ‘coronasale’ – descontos para a pandemia do COVID-19”, explicou Sorrentino, acrescentando que as grandes quantidades oferecidas indicaram que os descontos eram destinado a revendedores e não a usuários individuais.

As mãos de um apanhador de folhas de coca em Guaviare, Colômbia. Crédito: Juan Manuel Barrero Bueno, c / o OCCRP

As propagandas de “cocaína colombiana” aumentaram junto com o número de vendedores nos dois mercados, onde os traficantes oferecem um grama de 80% de cocaína pura por US $ 80. O preço de um grama é o mesmo, mas a pureza tende a ser muito menor.

Muitos clientes pareciam satisfeitos: “Excelente serviço em tempos difíceis”, escreveu um deles.

Os principais mercados da Dark Web registraram um aumento nas vendas de aproximadamente 30% desde que as medidas de bloqueio começaram a entrar em vigor em todo o mundo, mas não é possível identificar a origem dos vendedores, de acordo com Giovanni Reccia, chefe da Unidade Especial de Prevenção de Crimes Online da Guardia di Finanza da Itália. A maioria deles declara estar sediada na Holanda, Alemanha e Reino Unido.

Assim como antes da crise, a cocaína representava cerca de 15% de todas as vendas de drogas da Dark Web, atrás da maconha, que possui um quarto do mercado on-line de drogas ilegais.

O resultado do comércio contínuo de cocaína, segundo Sorrentino, da Guardia Finanza, é que os grupos do crime organizado provavelmente sairão da crise com muito dinheiro em uma economia onde muitos outros estão lutando para sobreviver.

“Cidadãos particulares que precisam e não têm acesso a um empréstimo bancário serão vítimas de agiotas”, disse ele. “Mas o que mais nos preocupa é que as empresas lícitas possam estar em necessidade e ser abordadas por organizações da máfia que se propõem a se tornar acionistas minoritários”.

“E quando isso acontece, eles realmente assumem a empresa inteira”, alertou Sorrentino.


O artigo original da OCCRP foi escrito por Cecilia Anesi, Giulio Rubino, Nathan Jaccard, Antonio Baquero, Lilia Saúl Rodríguez, Aubrey Belford; com reportagem adicional de Koen Voskuil, Raffaele Angius, Bibiana Ramirez, Juan Diego Restrepo E. e Luis Adorno. Esta história foi feita em colaboração com o jornal Algemeen Dagblad, na Holanda, e o VerdadAbierta.com, na Colômbia.

Leia no original no site InSigth Crime