Falta cocaína no varejo – causas e consequências

Está faltando pó nas biqueiras paulistas, e as consequências já podem ser sentidas dentro do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

Um atraso inesperado na fronteira

Quem não tem nada para falar deve ficar de boca fechada, e por isso não te dei mais notícias. Então, vim aqui só para dizer que meus dois parceiros morreram e te aconselhar a tomar cuidado para não seguir o mesmo destino.

“Descansem em paz, guerreiros, onde estiverem, sei que estarão olhando por nós aqui.”

Eu estava de mau humor quando almocei pela última vez com Brunão e o De Lua. Eu gosto de almoçar nesses restaurantes na beira da estrada, próximo à janela, vendo a liberdade lá fora – liberdade é tudo de bom, mas eles decidiram que iríamos almoçar na cidade.

Pararam no Restaurante da Dona Ilda em Coronel Sapucaia. O lugar era perfeito: ambiente familiar com pessoas tranquilas. Chances de sermos abordados ali: zero. Além disso, nunca comi um prato caseiro tão bom, e ainda fomos muito bem atendidos por lá.

Não havia pressa, teríamos que esperar até o dia seguinte para acompanhar o caminhão que traria mercadoria da fronteira do Paraguai para São Paulo.

O plano inicial era escoltar o caminhão do momento em que a carga chegasse de Capitán Bado até encostar no galpão na Zona Leste de São Paulo. Sairíamos no final da tarde e chegaríamos antes do dia clarear, só parando para abastecer.

Percorrer 1.200 quilômetros à luz do dia não me parecia muito promissor, mas a paga seria boa, e não dava para voltar atrás.

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Chuva forte na Bolívia seca as biqueiras paulistas

Já no Restaurante da Dona Nina conheci alguns brasileiros que trabalhavam na Bolívia e estavam por lá de passagem, e o que me contaram me pareceu mentira, mas não era: a falta de cocaína em São Paulo estava sendo causada pela chuva na Bolívia.

Eles  que dos cinco caminhões que haviam conseguido carregar com as folhas de coca, apenas dois chegaram ao seu destino. Os demais acabaram atolados, e suas cargas foram perdidas ou se tornaram imprestáveis.

Milhares de hectares de plantação da coca foram dizimadas pelas tempestades, muitas delas de granizo, destruindo todo o esforço dos campesinos para a contenção de danos às plantações – este foi o ano mais chuvoso dos últimos 50 anos.

As tempestades conseguiram o que Lincoln Gakiya e seus colegas do MP-SP há muito prometem: derrubar o tráfico de cocaína em solo paulista e colocar em risco toda a estrutura da facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

Antes de seguir para Coronel Sapucaia, em Mato Grosso do Sul, fomos avisados que os militares estavam tomando a região da fronteira, o que poderia dificultar o acesso. Quanto a isso estávamos preparados, mas não tínhamos como nos contrapor ao clima.

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Tombou: toneladas de maconha pelo solo

Nosso trunfo para burlar a fiscalização e os militares acabou sendo a causa de nosso fracasso. Não que ele não tenha feito sua parte, mas foi por orientação dele que pegamos a estrada durante o dia e não à noite, como pretendíamos.

A engrenagem entrou em movimento às nove e meia da manhã e só deveria parar às onze da noite. À uma da manhã já estaríamos em casa.

O Ecosport prata seguido do caminhão entrou na MS-289 em direção à Amambaí, e nós passamos a escoltá-los à certa distância. O batedor havia garantido que não seríamos parados pela fiscalização na estrada, pelo menos no Mato Grosso do Sul.

A manhã estava nublada, sem chuva, mas a pista estava escorregadia – foi o que bastou para que tudo desse errado logo no começo da viagem.

Vimos apenas o caminhão fazendo uma manobra brusca e saindo da pista, sem mais nem menos – talvez tenha sido uma distração do motorista com o celular, um buraco ou um animal –, nós o vimos apenas entrar no barreiro e tombar, simples assim.

Chegamos juntos com o batedor que voltou pela pista de ré. Ele levou o motorista do caminhão para a Ecosport e deu pinote enquanto nós recolhemos o que deu em nosso veículo – De Lua queria recolher mais, mas Brunão ameaçou deixá-lo por lá.

Dias depois ficamos sabendo que o motorista do caminhão e o batedor acabaram sendo presos na primeira barreira policial ainda em Amambaí. Nós caímos pelo Paraná e chegamos em segurança – pelo menos o que recolhemos deu para garantir o nosso.

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Seu aliado agora pode ser seu inimigo – Brunão morre

Essa foi a última vez que vi os dois com vida. De Lua e Brunão continuaram juntos em diversos corres de roubo de carga e tinham o mesmo fornecedor fixo de pó, mas agora estavam com problemas para receber a mercadoria.

Ambos resolveram procurar, através dos irmãos conhecidos, outros fornecedores, mas cada um fez seus corres sem falar com o outro:

  • De Lua acabou chegando a uma companheira chamada Equidna. Deixa eu explicar, “companheira” não é a mulher de um irmão do PCC, estas são conhecidas como cunhadas: companheiras são as garotas que correm junto nas fitas.
  • Brunão chegou a um irmão que ficou de fazer a entrega em Sorocaba.

Brunão, o primeiro a rodar.

Chegou no local combinado, mas caiu nas idéias do irmão: entregou o dinheiro e ficou aguardando enquanto ele ia buscar a mercadoria.

Estaria esperando até hoje se ainda estivesse vivo.

Quando percebeu que caiu em um golpe, voltou sem nada para casa, furioso. Tentou recuperar o prejuízo, mas já era tarde, acabou sendo encontrado morto em seu carro.

Talvez o dinheiro que ele perdeu não fosse dele, talvez ele ameaçou quem não devia, ninguém sabe – o fato é que foi morto.

A trairagem e os golpes sempre existiram dentro da Família 1533, como acontece em qualquer outra família. A facção para controlar o sangue dos criminosos que ferve dentro de cada membro da organização criou regras de conduta, mas um lobo sempre será um lobo.

→ conheça o Estatuto do Primeiro Comando da Capital

→ conheça o Dicionário do PCC (Código Penal do Crime)

Agora os lobos estão esfomeados, e os carneiros estão escassos, e esse é o momento em que Charles Darwin fala mais alto: “a seleção natural não é a lei do mais forte, é seleção daqueles que estão mais bem adaptados para sobreviver”.

Brunão, você não foi selecionado, só lamento, guerreiro. Aqueles que colavam contigo prometeram vingança, mas o tempo e as dificuldades resfriam os ânimos, e mesmo agora, poucos dias depois de sua morte, poucos ainda falam sobre te vingar.

Onde citei nesse site trairagens e golpes → ۞

Peloponeso fica na Zona Sul de São Paulo

De Lua, por sua vez, foi à Zona Leste de São Paulo buscar sua encomenda: trinta mil reais de puro pó, sobre o qual ele já havia feito o teste e comprovado a qualidade. Mas em época de crise não se pode confiar nem mesmo na própria sombra.

O que lhe foi entregue era puro lixo. Sequer deveria ter 20% de pureza, mal poderia substituir a maizena como mistura. Trinta mil reais jogados fora. Porém, ao contrário de Brunão, De Lua tinha um nome para correr atrás: a companheira Equidna.

Eu pensei que Equidna fosse nordestina, por causa do nome, mas ela é paulista mesmo, e mãe de perigosos membros da facção. Quem me contou mais sobre ela foi Hesíodo, e foi ele quem contou a De Lua como encontrá-la:

“No Jardim Solange, na Zona Sul de São Paulo, vai pela Estrada do M’Boi Mirim até o COPAGAZ, daí quebra à esquerda em uma rua sem saída. Tem uns galpões do lado esquerdo, mas ela fica mocosada mesmo no morro no fim da rua Peloponeso.”

Não foi por falta de aviso. Hesíodo e seus amigos disseram para De Lua deixar quieto, que ela era mais perigosa até mesmo que seus filhos mais perigosos, mas ele não escutou, ele não era disso. Pegou sua moto e partiu para trocar umas idéias com a companheira.

Dessa viagem apenas seu corpo voltou. Acredito que tenha ainda sido socorrido com vida, pois Leonardo chegou a publicar com detalhes em seu site o que aconteceu, desde que ele chegou ao Peloponeso até quando perdeu a consciência.

Onde falei nesse site sobre as companheiras do PCC → ۞

Os últimos passos do guerreiro

Acredito que Leonardo tenha tido acesso aos registros policiais e às declarações do pessoal do resgate do SAMU, pois têm muitos detalhes que só De Lua poderia ter contado. Leonardo escreveu algo mais ou menos assim:

“Ninguém que entrava naquela parte do Peloponeso em busca de Equidna retornou com vida. De Lua, um pequeno traficante do interior resolveu realizar tal façanha, para alguns foi coragem, para outros mera estupidez.

Assim que parou sua moto, se dirigiu para um grupo de rapazes que ali estavam. Quando citou o nome de Equidna, ele percebeu que o clima fechou. Sabia que devia ter saído de lá naquele momento, ou melhor, nem devia ter ido até lá.

Atrás dos garotos havia uma passagem para dentro da favela, e para qual seguiu sem ser impedido ou seguido.

Seria entrar e sair, afinal aquela favela não podia ser muito grande: havia a estrada do M’Boi Mirim e do outro uma vasta área verde que devia ser um parque de manancial.”

Nas vielas do Peloponeso

“Nas comunidades normalmente tem muita gente pelas vielas, se ouvem vozes, música e o som dos rádios e televisores, mas ali quanto mais seguia pelas vielas, maior ficava o silêncio.

A noite era de lua, e em São Paulo não há escuridão. A própria luz da cidade ilumina até as ruas onde não há nenhum poste ou janela aberta, mas aqueles becos pareciam cada vez mais escuros.

Parou, tentou se orientar pelos sons, mas não conseguiu. Acendeu a lanterna do seu celular, e colocou a mão em seu 38 que estava sob a camiseta. Queria sacar a arma, mas sabia que podia encontrar uma criança na comunidade – melhor não.

Estava preparado para qualquer desafio, mas sentia algo que não era normal. Não era medo, era uma ansiedade muito forte, uma angústia que ele não conseguia descrever mas que parecia uma bola no seu peito.

A luz da lanterna de seu celular brilhava forte, mas não conseguia iluminar mais que as paredes de alvenaria da favela. O caminho se inclinava para baixo, e depois de descer por alguns minutos ele já estava totalmente perdido.

Primeiro bateu em algumas portas, depois as esmurrava e chutava, mas ninguém respondia. Nenhuma luz saía por de baixo das portas ou pelos vãos das janelas.”

Seguindo em frente, mas sem rumo

“Quanto mais o guerreiro andava, mais parecia que havia para andar. Chegou a virar em curvas que sequer existiam, indo de encontro a paredes – nada o ameaçava, mas sua angústia e seu desespero já o sufocavam.

Caminhava cada vez mais rápido, mas de repente parou, e uma rajada de ar arrepiou seu corpo e gelou sua alma, fazendo-o questionar se sua decisão de entrar ali teve algum mínimo de sensatez.

Deu mais um ou dois passos e viu que estava na beira de um barranco. Se virou para voltar, mas ficou parado no escuro, sentia que havia mais alguém ali mas não conseguia enxergar nada naquele breu.

Sacou a arma e apontou para frente. Esticou o braço que segurava a lanterna do celular para tentar ver um pouco à frente.”

O encontro com Equidna

“Um rosto feminino apareceu, iluminado apenas por sua lanterna, era Equidna. Eles se olharam, olhos nos olhos. Ela sorriu mostrando dentes irregulares e sem ameaças, mas ele tremeu pela primeira vez na sua vida.

De Lua sentiu uma fisgada, apenas uma, mas conta que caiu no chão gritando de dor. Ninguém apareceu por muito tempo até que perdeu a consciência.

Ele foi encontrado próximo à ponte do Aracati, à beira da Represa do Guarapiranga, na manhã do dia seguinte, ainda com vida, mas acabou morrendo naquele mesmo dia sem que sua família tivesse sido localizada.”

Texto original de Fernando sobre Equidna → ۞

A pacificação do PCC em São Paulo

Cenas da pacificação trazida pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) – a realidade brasileira superando a ficção dos americanos da DC Comics.

A pacificação do PCC em São Paulo


A facção paulista, o delegado e o investipol

Juro que vi uma discussão entre um delegado de polícia e um investigador:

— Há alguns anos esse estado estava se afundando em homicídios, em 1999 foram quase 19.400 pessoas mortas no estado de São Paulo, em 2017 esse número baixou para 4.300. Deixaram de morrer 15.100 pessoas só no ano passado! E isso aconteceu porque o PCC assumiu o controle do crime no estado! – afirma, irritado, o delegado.

— Eu não vou entregar a cidade para o crime organizado, não importa o que os números digam! – retruca o investipol.

— E seus colegas? Quantos deles foram alvejados no ano passado? Nos ataques de 2005 o PCC matou 45 policiais em apenas alguns dias Em 1999, só em serviço foram 44 policiais mortos. No ano passado, já com a pacificação, apenas 11 colegas foram mortos. Em um único ano foram 33 policiais que deixaram de morrer nas mãos dos criminosos, voltaram para casa e continuaram com suas vidas e com suas famílias!

— Eu sei das estatísticas.

— Um dia eu prometo que nós vamos acabar com o Primeiro Comando da Capital. Esse país tem que ficar em pé outra vez, mas por enquanto vai devagar, por favor. – pede, em tom conciliador, o delegado.

— Mas a cada dia em que os cidadãos vão até um traficante, para pedir proteção ou justiça, mais difícil será para reconquistá-los. – insiste, inconformado e com a cabeça baixa, o investigador.

— Quer que as pessoas respeitem mais os policiais? Tem maneiras mais inteligentes que cuspir na cara do PCC: basta seguir as normas e os regulamentos. Se o cidadão estiver errado, prenda; se não tiver provas, não forje um flagrante ou abuse da força para conseguir informações. – finaliza o delegado.

Onde citei neste site a pacificação do PCC 1533 → ۞

Reporter americano e o líder da facção pcc 1533

A pacificação do PCC, o repórter e o faccioso

Juro que vi um repórter entrevistando um líder da facção:

— Há rumores que a facção está controlando as comunidades, criando regulamentos e dizendo aos criminosos quais os crimes que podem ser executados e determinando os locais. Por exemplo, não seria permitido assaltar próximo às biqueiras. Essa informação procede?

— Me diga, Qual é a taxa de homicídios em São Paulo? – questiona o faccioso.

— Estamos em uma queda histórica. – responde de pronto o repórter.

Queda histórica. – começa a responder em tom de ironia o líder criminoso –. Sabe? Augusto Cesar reinou no período de mais longa paz e prosperidade que o mundo já conheceu. Ficou conhecida como a Pax Romana, e talvez um dia a pacificação que temos hoje no estado de São Paulo seja chamada de Pacificação do Primeiro Comando da Capital, quem sabe?

Onde citei neste site a imprensa → ۞

Cidadão questiona líder do PCC sobre a pacificação

A pacificação do PCC, o jovem cidadão e o faccioso

Juro que vi um cidadão questionando um líder da facção sobre a pacificação em São Paulo:

— Eu quero agradecer por tudo que tem feito por essa comunidade. É verdade que o PCC proíbe mortes desnecessárias e controla na periferia o crime? Todo mundo está falando disso, eu só quero saber como funciona. – começa o rapaz.

— Primeiro, uma pergunta: você concordaria com a ideia de que uma organização criminosa impusesse as regras para os demais criminosos? – retruca o líder da facção.

— Se, há três anos, quando meus pais foram mortos, esse controle já existisse, eles talvez ainda estivessem vivos.

— Exatamente, mas a facção não controla diretamente o crime nas ruas, a facção dá as diretrizes e os disciplinas de cada cidade, de cada quebrada, são quem avaliam cada caso e, se acharem que alguém está furando as regras, chamam para o debate, e, se não resolver, manda para o Tribunal do Crime. – conclui o faccioso.

Onde citei neste site a questão das favelas e da periferia → ۞

A arte imita a vida pcc 1533

A pacificação no mundo real e no cinema

Juro que vi esses diálogos no primeiro episódio da quarta temporada da série “Gotam – Pax Pinguina” – com algumas modificações no texto para adequá-lo à nossa realidade:

Acresci os números referentes ao estado de São Paulo, substituí os termos “Pax Pinguina” pelo “Pacificação do Primeiro Comando” e “gangue do Pinguim” por “Primeiro Comando”, e as palavras “comissário” por “delegado”,e “Pinguim”por “um chefe da organização criminosa”.

Encaixou-se em nossa realidade como uma luva.

Os roteiristas de Gotam alegam que a quarta temporada foi baseada no enredo de três antigas revistas da coleção, mas o controle que Pinguim exerce sobre a criminalidade se assemelha à forma de agir do PCC, e não às descritas nas revistas da DC Comics.

O fato de uma produção estrangeira descrever de maneira tão precisa uma realidade nossa me leva a duas conclusões:

  • esse fenômeno não é local e está acontecendo em outras culturas ou
  • os autores se basearam em nossa experiência social.

Onde citei neste site a questão do real e do imaginário → ۞

O mundo real supera a imaginação do cinema

Entre as características quase universais e atemporais do mundo do crime estão as guerras entre grupos rivais (facções) – a hegemonia de organização criminosa com regras escritas e ficha de ingresso de membros é uma raridade tanto na ficção quanto na realidade.

O Primeiro Comando da Capital tem o mais sofisticado sistema burocrático entre todas as organizações criminosas.

Misael Aparecido da Silva foi quem elaborou o Estatuto do Primeiro Comando da Capital conforme as diretrizes traçadas por José Márcio Felício, o Geleião, entre o final de 1993 e 1995. O documento veio a público por meio do deputado estadual Afanásio Jazadji em 20 de Maio de 1997.

No PCC não há punição sem lei anterior que a regulamente:

O Estatuto do PCC foi a base sobre a qual a facção se consolidou. Funciona para a organização criminosa como a Constituição funciona para a legislação de um país.

Quando age em desacordo com a ética do crime:

O Dicionário da Facção é um conjunto de normas que determinam e regulamentam o que é passível de punição e qual a penalidade. O Dicionário regulamenta o Estatuto, assim como o Código Penal e o Código de Processo Penal regulamentam a Constituição.

Para que tenham consciência e apoiem a luta:

Os membros da facção, seus familiares e simpatizantes devem se relacionar com a sociedade segundo as diretrizes da Cartilha do Primeiro Comando da Capital, que detalha a forma como a facção e seu Estatuto devem ser apresentados ao público externo.

Quem somos e em que condições estamos vivendo:

Existe uma Ficha de Cadastro no Sistema para os membros da facção, com detalhamentos que impressionam qualquer departamento de recursos humanos – lembrando que esses dados são coletados, distribuídos e guardados fora do alcance das autoridades.

Conheça nosso arquivo de documentos básicos do PCC → ۞

Batman e Gordon versos SUSP

Vencendo o crime organizado

A realidade superou em muito a ficção criada pelos quadrinistas da DC Comics: enquanto o PCC criou um sistema complexo, o assecla do Pinguim, responsável pelo gerenciamento do RH, possui apenas o registro dos criminosos e os locais onde podem atuar.

Até o momento em que escrevo, eu ainda não assisti a toda a temporada, mas posso adiantar que o pequeno Batman e o Detetive Gordon irão demolir a organização montada pelo Pinguim – dúvida?

No mundo real, os mecanismos de divisão do poder e o Código de Processo Penal são uma máquina de moer carne que sustenta milhares de advogados por todo o país enquanto divide nossa sociedade em castas.

Talvez apareça um Batman e um Gordon ou um salvador da pátria para nos proteger, ou talvez o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica…

Onde citei neste site o Sistema Único de Segurança Pública → ۞

O cangaço de Lampião e Marcola do PCC

Muitos dizem que o cangaço e as facções criminosas são, antes de mais nada, um fenômeno social. Seria o Primeiro Comando da Capital de hoje o cangaço do passado?

Do cangaço de lampião às fações criminosas pcc 1533

Quando chegavam, eles chegavam em uma comunidade, aqueles jovens, aqueles adolescentes, sem nenhuma perspectiva de vida, que muitas vezes não tinham nem o que comer, viam aquele bando de homens com armas e roupas imponentes.

Aquela visão impressionava, e muitos desses garotos passavam a desejar para si aquela vida para poder ter esse mesmo tipo de acesso a coisas que eles jamais teriam.

Esse trecho do “Temacast Lampião” poderia estar se referindo tanto ao bando de Lampião quanto a um grupo de criminosos de hoje nas favelas e comunidades carentes brasileiras.

O Temacast, o cangaço e a facção PCC 1533

O Primeiro Comando da Capital é fruto de nosso tempo, mas não tem como não notar as semelhanças entre esse fenômeno criminal e a era de ouro do cangaço ao ouvir o podcast “Lampião”, do canal Temacast.

Lampião (…) cria um próprio poder paralelo, por isso que comparam a ele com os traficantes atuais, por que não existe ausência de poder (…) onde o governo não chega, alguém vai ocupar aquela lacuna, é a chamada ausência do poder legal. O crime exerce o poder por que o Estado não fez antes dele.

Leia este texto, que é uma transcrição de parágrafos inteiros (como o acima), Em alguns deles, substituo a palavra “cangaço” pelo termo “facção criminosa”, e a descrição do passado se encaixa como uma luva para os dias de hoje, mas, se preferir, ouça você mesmo o bate-papo entre os acadêmicos Francisco Seixas, Larissa Abreu, Igor Alcantara e Fabrício Soares: Temacast

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O cangaço, as milícias e o PCC 1533

Facções criminosas: milicianas e criminosas

Hoje não há uma clara diferença entre os facciosos oriundos do mundo do crime e aqueles que vieram das milícias, no entanto os milicianos se originaram da mesma forma que os antigos cangaceiros do nordeste.

Os primeiros milicianos tiveram sua origem como meros “prestadores de serviço”, aí o termo prestadores de serviço tem que ficar entre aspas, porque eles prestavam serviços de jagunços para os chefes políticos locais e pequenos empresários das comunidades.

Na década de 1970 e início da de 1980 outros grupos de extermínio agiam por todo o país. Os “mãos brancas” eram grupos de justiceiros compostos por policiais civis e militares que mataram, durante duas décadas, milhares de pessoas.

Onde citei neste site as milícias → ۞

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A finalidade social das facções criminosas

Por outro lado, as grandes organizações criminosas brasileiras cuja origem se deu no mundo do crime, como o Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital e Família do Norte, tiveram sua célula mater na antiga Falange Vermelha (FV), do Rio de Janeiro.

Os primeiros grupos facciosos de que se tem relato eram, na verdade, meros grupos de presos que visavam apenas se autoproteger dentro das muralhas do sistema carcerário, mas que passaram a atuar fora das celas, inicialmente em suas próprias comunidades.

Conta-se que já em 1840, em Feira de Santana, na Bahia, havia um cangaceiro chamado Lucas da Feira, que tinha uma maneira de agir muito parecida com a de Robin Hood: ele fazia os saques e distribuía parte do butim para a comunidade carente.

José Carlos Gregório, o Gordo da Falange Vermelha, afirma que repartir parte dos roubos e do tráfico também era uma das bases da ética criminosa da FV e que isso acabou sendo incorporado por outras facções, como o PCC e o CV.

Assim como o cangaceiro Lucas da Feira, os facciosos faziam uso de extrema violência e crueldade para garantir o sucesso de suas ações, contudo eram aceitos com certa naturalidade e até com boa vontade dentro de suas bases territoriais.

Onde citei neste site a Falange Vermelha → ۞

Marcola do PCC Marcos Willians Herbas Camacho

O Lampião de ontem, o Marcola de hoje, e o antagonista de amanhã

Da forma com que a imprensa e a história apresentam Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tem-se a impressão que ambos foram fundadores dos movimentos que representam: facções criminosas e cangaço.

No entanto, foram apenas frutos de um processo que os antecederam em décadas.

Creio que você, assim como eu, não possui uma bola de cristal que possa lhe dizer como o futuro há de julgar Marcola do PCC, mas, se me basear no passado, em Lampião, posso afirmar que o antagonismo se manterá vivo por muito tempo:

  • odiado, pois sob o ponto de vista da lei, Marcola é, assim  como Virgulino foi, um bandido, um criminoso sanguinário que matava e fazia negociatas sujas com políticos; e
  • amado, pois sob o ponto de vista político, Marcola é, assim como Virgulino foi, uma dessas pessoas que não aceitava o modelo oligárquico, no qual uma minoria privilegiada tem acesso aos bens de consumo e a ampla maioria da população vive disputando um espaço de sol na miséria.

Onde citei neste site Marcola → ۞

o mito do cangaceiro revolucionários

Jesuíno Brilhante, Lampião e Marcola

A socióloga Camila Nunes Dias afirma que o “O PCC não é revolucionário, é uma organização conservadora e que tem valores como o machismo e o repúdio aos homossexuais”, assim como era o comportamento dos cangaceiros de Lampião.

Jesuíno Alves de Melo Calado, o cangaceiro Jesuíno Brilhante, buscava contestar o sistema da forma como ele estava montado, ao contrário de Lampião e Marcola, que se integraram, cada um de seu jeito, ao sistema, se aliando a políticos conservadores.

“Essa visão de mocinho e bandido só existe em história infantil”

Esses ícones do Estado paralelo tiveram suas vidas esmiuçadas por dezenas de estudiosos em milhares de trabalhos acadêmicos e audiovisuais. No entanto não há consenso, alguns refletiram a visão daqueles que combateram o cangaço ou que tiveram seus antepassados mortos ou saqueados por eles; já outros, se basearam nos depoimentos do povo que convivia com eles.

Talvez nunca saberemos, afinal, se era um deus ou um diabo que reinava na terra do sol, assim como não sabemos, hoje, como serão vistos, no futuro, aqueles que reinam nas periferias, nos morros ou dentro do Sistema Prisional.

Qualquer grande líder político, militar ou religioso desperta essa reação de amor e ódio, e, se fizermos uma análise profunda, encontraremos grandes razões para amá-los e odiá-los ― não foi diferente com Lampião e Jesuíno Brilhante, e não será diferente com Marcola.

Onde citei neste site o controle social → ۞

brincando de segurança pública pcc 1533

O Estado como controlador da violência

Lampião comandou seu homens com pouca resistência no período que sucedeu a Proclamação da República, em 1888, e Marcola viu o fortalecimento de sua organização após a derrubada do Regime Militar e com a Promulgação da Constituição Cidadã de 1988.

Espécies nocivas que frequentam o ambiente se proliferam com rapidez pela falta de predadores naturais, e assim o cangaço e as facções criminosas se fortaleceram na ausência do Estado nos presídios, nas periferias e no sertão nordestino.

Assim como no passado, o medo impera naqueles que comandam os diversos níveis de poder mas não temem a criminalidade tanto quanto temem a eles mesmos:

Os fazendeiros e políticos locais do século XIX e o governo federal temiam a política dos governadores. Um século e meio após, se um candidato à presidência propor a federalização ou a municipalização da segurança pública ― os governadores pirariam!

Dentro dessa realidade, o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) não consegue ser implementado deixando uma via aberta e bem pavimentada para as organizações criminosas enquanto os diversos entes federativos lutam pelo poder.

Onde citei neste site o Estado Constituído → ۞

Getúlio Vargas subindo o morro

Getúlio Vargas para acabar com o PCC?

Até hoje, não há dados confiáveis sobre as questões de Segurança Pública. Cada estado é responsável pelo cadastramento de seus cidadãos e dos criminosos, através da emissão de documentos, e estes não estão disponíveis em tempo real.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não aposta em um novo salvador da pátria e explica suas razões:

Os estados sempre quiseram cuidar das forças de segurança, até a Constituição de Cidadã de 1988 as polícias militares respondiam diretamente às Forças Armadas, mas nós, democratas, lutamos para retirar dos militares esse poder.

A Segurança Pública deve ser gerida pelos estados, os estados nunca aceitaram intervenção porque a polícia é um espaço de poder. O exército não está preparado para enfrentar inimigos urbanos, ele é feito para defender o Brasil de possíveis inimigos externos.

Contra inimigos externos você não conversa, você atira e não é isso que vai acontecer em uma favela. O exército ficou na Favela da Maré um ano e não deu nada, subia tanque do exército na favela e a sociedade ficava acreditando.

No passado também foi assim, pelo menos até que chegou o cara, o salvador da pátria! Getúlio Vargas derruba o poder dos governadores e dos senhores locais e encerra a era de ouro do cangaço.

Talvez apareça um novo messias para nos salvar, talvez o Sistema Único de Segurança Pública dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica.

Onde citei neste site Getúlio Vargas → ۞