Hanfeizi combatendo o PCC no reino de Qin

O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) passa pela destruição de uma cultura depravada construída por acadêmicos, jornalistas e artistas.

Hanfeizi combatendo o PCC no reino de Qin

O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) passa pela destruição de uma cultura depravada construída por acadêmicos, jornalistas e artistas.

A sabedoria chinesa e o combate ao PCC 1533

Há dois mil anos, na China, havia um estudioso chamado Hanfeizi, que devotou sua vida pelo estabelecimento de um Estado forte que pudesse garantir a paz e a segurança.

Hanfeizi ofereceu seus serviços ao imperador Zheng do reino de Qin por acreditar, assim como eu e você, que o legalismo é fundamental para a construção de uma nação segura e um Estado consolidado.

O pensador viveu na China no final da Dinastia Zhou, em um “Estado nacional” enfraquecido e diversos reinos autônomos fortes, cada qual cuidando de sua segurança enquanto sofriam ataques de bárbaros e saqueadores.

Eu e você vivemos no Brasil recentemente democratizado com um Estado nacional enfraquecido e diversos estados autônomos fortes, cada um cuidando da segurança enquanto sofrem ataques de facções criminosas.

Quem me guiou por essa trilha pela qual levo você agora foi André Bueno, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em seu artigo “Abolir o passado, reinventar a história: a escrita histórica de Hanfeizi na China do século III a.C.”.

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Controlar a liberdade de opinião para vencer o PCC

A imprensa e os intelectuais vitimizam criminosos sob uma leniente política de Direitos Humanos enquanto demonizam as forças policiais e os cidadãos de bem que defendem as normas jurídicas do Estado de Direito.

Políticos, imprensa e artistas falam abertamente sobre as vantagens da implantação de sistemas tolerantes de convivência com o crime organizado, pregando uma “repressão condicional”.

É o caso do artigo “Can Governments Deter Violence Committed by Crime Groups?”, do jornalista Mike LaSusa, que compara sob um tênue manto de imparcialidade três políticas de combate ao crime organizado: a “repressão condicional” no Rio de Janeiro, a “condicionalidade atrelada à submissão” na Colômbia e a “militarização” no México.

Hanfeizi teria aconselhado o imperador Zheng de Qin a deletar essa postagem e a enterrar seu autor como forma de abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

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Guerra sem quartel ao PCC 1533

Mike, assim como quase todos aqueles que estudam a facção Primeiro Comando da Capital e boa parte dos analistas em Segurança Pública dos grandes meios de comunicação, aponta as vantagens do sistema de pacificação condicionada.

O jornalista do site InSight Crime explica que o México, desta forma, manteve sob controle as taxas de homicídio por quase um século graças a acordos informais e pontuais entre políticos, policiais, militares, agentes públicos e traficantes de drogas.

A paz foi mantida até o dia em que o presidente Felipe Calderón colocou a ”Rota na Rua” ao decretar a “guerra sem quartel” aos grupos criminosos.

Desde então, a taxa de homicídios não parou mais de subir, e hoje chega a 21,3 mortos ao ano para cada 100 mil habitantes – só para comparar, em São Paulo, que mantém a pacificação condicionada, o índice está em 7,8.

As autoridades mexicanas estimam que 40 por cento do país está sujeito à insegurança crônica e alguns estados estão paralisados ​​devido extrema violência organizada – já são mais de 200 mil mortos, muitos dos quais enterrados em valas comuns.

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Controlar a criação artística para vencer o PCC

Hanfeizi ofereceu seus serviços ao imperador Zheng de Qin por acreditar, assim como eu e você, que o legalismo é fundamental para a construção de uma nação segura e um Estado consolidado.

Dessa forma, as polícias devem decretar uma “guerra sem quartel” às facções criminosas, como o México fez. Quem sabe por aqui, agindo da mesma forma que os mexicanos agiram por lá, não cheguemos a resultados diferentes, menos desastrosos?

Hanfeizi teria apontado o erro de Calderón: ele não atacou o âmago do problema – acadêmicos, jornalistas e artistas que incentivam uma cultura depravada e que se opõe ao estabelecimento de um Estado Forte, incentivando a rebeldia popular.

É o caso da música Racistas Otários, do grupo Racionais MC’s, que faz uma crítica social sob um tênue manto de imparcialidade, mas, de fato, insufla a revolta contra a opressão exercida pelo Estado Constitucional, como querem os cidadãos de bem:

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“A lei que é implacável com os oprimidos

Tornam bandidos os que eram pessoas de bem.

Eles são os certos e o culpado é você

Se existe ou não a culpa

Ninguém se preocupa

Pois em todo caso haverá sempre uma desculpa”

Hanfeizi teria aconselhado o imperador Zheng de Qin a proibir essa música e a enterrar seus autores como forma de abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

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Controlar as lideranças políticas para vencer o PCC

Políticos adotam hoje abertamente a defesa de ideologias que francamente colocam em dúvida a efetividade das ações de governo, suas forças policiais e os cidadãos de bem que defendem as normas jurídicas do Estado de Direito.

É o caso de Guilherme Boulos, do PSOL, que afirma publicamente:

“Existe uma lógica que foi vendida para parte de que botar mais gente na cadeia ou nas prisões resolve os problemas.

Quem pensa com essa lógica precisa nos explicar por que nos últimos 10 anos a população carcerária do Brasil dobrou, se tornando o terceiro país em população carcerária do mundo, e a sociedade não está mais segura por isso.

Opa! Vamos parar para pensar, pois esse pode não ser o caminho. Entulhar gente em masmorras que se dizem de recuperação. Recuperação coisa nenhuma, às vezes a pessoa entrou lá por um crime leve e saí de lá PHD no crime.

Isso não quer dizer defender a impunidade, não! Se alguém mata, rouba ou estupra, tem que ser punido! O que não pode é achar que vai entulhar as cadeias, fazer cadeias em todos os cantos e a sociedade vai ficar mais segura.

Desculpe, não está ficando mais segura. Estão fazendo isso há um tempão, e não está ficando mais segura.

Nos últimos 30 anos nós estamos fazendo a política de segurança baseada na chamada Guerra às Drogas exportada pelos Estados Unidos, onde você pega forças militares do Estado e faz o suposto ‘combate ao narcotráfico’.

Essa Guerra às Drogas, isso virou uma maneira de militarizar as favelas, as periferias, os morros e de matar a juventude pobre e negra!

Vamos pensar duas coisas:

  • primeiro – vocês acham mesmo que combater o narcotráfico é pegar o cara que está na laje da favela, que a cabeça do narcotráfico está no barraco de uma favela? A cabeça do narcotráfico está ligada ao poder, aliás, em helicóptero cheio de cocaína de senador da República que está livre leve e solto até hoje, não é? É aí que está e ninguém mexe; e
  • segundo – o fato de ser proibido faz com que alguém não use drogas? Quem quer usar sabe onde comprar, vai lá, compra e usa, e o narcotráfico não diminuiu em nada nos últimos 30 anos, ao contrário, as facções só cresceram. Essa política está errada, totalmente errada”

Para manter o Estado de Direito e atendendo aos anseios dos cidadãos de bem, mais uma vez, um conselheiro devoto como Hanfeizi não teria hesitado em orientar o imperador a proibir a divulgação de ideias como essa:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

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A pacificação através da leniência

Eu e você sabemos que Hanfeizi tinha inteira razão, que não basta a Rota na Rua para vencer o inimigo quando ele está enfronhado no nosso emaranhado cultural.

Assim, sabemos que teríamos que abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro colocando sob controle a informação e, se for preciso, sacrificando acadêmicos, jornalistas e artistas que incentivem uma cultura depravada, afinal, quem defende bandido é bandido também, e bandido bom é bandido morto.

Quando alguém como Mike demonstra o insucesso das operações militares no Rio de Janeiro por sua inexequibilidade em grandes extensões, ele está acusando o Estado e as forças policiais de incompetência e hipocrisia.

Mike demonstra em sua reportagem que o melhor resultado a longo prazo é o governo deixar claro os limites em que vai atuar, dando oportunidade para a marginalidade sair da comunidade ou mudar de vida e, só depois disso, agir, tomando o perímetro.

Não adianta Mike provar que os números demonstraram o sucesso da pacificação condicionada no conturbado Rio de Janeiro, na Colômbia ou em São Paulo – são apenas números, e eu e você sabemos que o que funciona é a Rota na Rua.

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Eu e você e o destino de Hanfeizi no reino de Qin

O imperador Zheng do reino de Qin venceu as hordas bárbaras e os governos provinciais fortes e pôde nos mostrar o caminho para derrotar o Primeiro Comando da Capital e as outras organizações criminosas.

Eu e você podemos lutar para emplacar um governo forte, que combata a pacificação condicionada, os acadêmicos, os jornalistas, os artistas e os influenciadores que incentivam uma cultura depravada e a rebeldia popular Só que – sempre tem o “só que…”

Alguém duvida que essa onda de ódio que estaremos alimentando não vai novamente acabar bem?

O pesquisador André da Silva Bueno que me perdoe pelo spoiler, mas como o fim dessa história já é conhecida há dois mil anos, todo mundo já sabe:

A Dinastia Qin do imperador Zheng foi um fracasso, durou míseros 15 anos, queimou milhares de escritos antigos e matou milhares de pensadores – só para comparar, a Dinastia Zhou que a antecedeu durou 790 anos e a Dinastia Han que a sucedeu durou 426 anos.

Hanfeizi cobrou de seu rei tratamento cruel contra aqueles que se opunham a implantação da nova ideologia e acabou sendo condenado à morte pelo próprio imperador Zheng, sem conseguir ver o reino de Qin vencer seus inimigos.

Um dos 400 eruditos mortos tinha em um dos livros que foi queimado um ensinamento de Confúcio que era mais ou menos assim:

“Quando alguém atacar alguém por sua ideologia, prepare duas covas”.

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A pacificação do PCC em São Paulo

Cenas da pacificação trazida pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) – a realidade brasileira superando a ficção dos americanos da DC Comics.

A pacificação do PCC em São Paulo


A facção paulista, o delegado e o investipol

Juro que vi uma discussão entre um delegado de polícia e um investigador:

— Há alguns anos esse estado estava se afundando em homicídios, em 1999 foram quase 19.400 pessoas mortas no estado de São Paulo, em 2017 esse número baixou para 4.300. Deixaram de morrer 15.100 pessoas só no ano passado! E isso aconteceu porque o PCC assumiu o controle do crime no estado! – afirma, irritado, o delegado.

— Eu não vou entregar a cidade para o crime organizado, não importa o que os números digam! – retruca o investipol.

— E seus colegas? Quantos deles foram alvejados no ano passado? Nos ataques de 2005 o PCC matou 45 policiais em apenas alguns dias Em 1999, só em serviço foram 44 policiais mortos. No ano passado, já com a pacificação, apenas 11 colegas foram mortos. Em um único ano foram 33 policiais que deixaram de morrer nas mãos dos criminosos, voltaram para casa e continuaram com suas vidas e com suas famílias!

— Eu sei das estatísticas.

— Um dia eu prometo que nós vamos acabar com o Primeiro Comando da Capital. Esse país tem que ficar em pé outra vez, mas por enquanto vai devagar, por favor. – pede, em tom conciliador, o delegado.

— Mas a cada dia em que os cidadãos vão até um traficante, para pedir proteção ou justiça, mais difícil será para reconquistá-los. – insiste, inconformado e com a cabeça baixa, o investigador.

— Quer que as pessoas respeitem mais os policiais? Tem maneiras mais inteligentes que cuspir na cara do PCC: basta seguir as normas e os regulamentos. Se o cidadão estiver errado, prenda; se não tiver provas, não forje um flagrante ou abuse da força para conseguir informações. – finaliza o delegado.

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Reporter americano e o líder da facção pcc 1533

A pacificação do PCC, o repórter e o faccioso

Juro que vi um repórter entrevistando um líder da facção:

— Há rumores que a facção está controlando as comunidades, criando regulamentos e dizendo aos criminosos quais os crimes que podem ser executados e determinando os locais. Por exemplo, não seria permitido assaltar próximo às biqueiras. Essa informação procede?

— Me diga, Qual é a taxa de homicídios em São Paulo? – questiona o faccioso.

— Estamos em uma queda histórica. – responde de pronto o repórter.

Queda histórica. – começa a responder em tom de ironia o líder criminoso –. Sabe? Augusto Cesar reinou no período de mais longa paz e prosperidade que o mundo já conheceu. Ficou conhecida como a Pax Romana, e talvez um dia a pacificação que temos hoje no estado de São Paulo seja chamada de Pacificação do Primeiro Comando da Capital, quem sabe?

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Cidadão questiona líder do PCC sobre a pacificação

A pacificação do PCC, o jovem cidadão e o faccioso

Juro que vi um cidadão questionando um líder da facção sobre a pacificação em São Paulo:

— Eu quero agradecer por tudo que tem feito por essa comunidade. É verdade que o PCC proíbe mortes desnecessárias e controla na periferia o crime? Todo mundo está falando disso, eu só quero saber como funciona. – começa o rapaz.

— Primeiro, uma pergunta: você concordaria com a ideia de que uma organização criminosa impusesse as regras para os demais criminosos? – retruca o líder da facção.

— Se, há três anos, quando meus pais foram mortos, esse controle já existisse, eles talvez ainda estivessem vivos.

— Exatamente, mas a facção não controla diretamente o crime nas ruas, a facção dá as diretrizes e os disciplinas de cada cidade, de cada quebrada, são quem avaliam cada caso e, se acharem que alguém está furando as regras, chamam para o debate, e, se não resolver, manda para o Tribunal do Crime. – conclui o faccioso.

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A arte imita a vida pcc 1533

A pacificação no mundo real e no cinema

Juro que vi esses diálogos no primeiro episódio da quarta temporada da série “Gotam – Pax Pinguina” – com algumas modificações no texto para adequá-lo à nossa realidade:

Acresci os números referentes ao estado de São Paulo, substituí os termos “Pax Pinguina” pelo “Pacificação do Primeiro Comando” e “gangue do Pinguim” por “Primeiro Comando”, e as palavras “comissário” por “delegado”,e “Pinguim”por “um chefe da organização criminosa”.

Encaixou-se em nossa realidade como uma luva.

Os roteiristas de Gotam alegam que a quarta temporada foi baseada no enredo de três antigas revistas da coleção, mas o controle que Pinguim exerce sobre a criminalidade se assemelha à forma de agir do PCC, e não às descritas nas revistas da DC Comics.

O fato de uma produção estrangeira descrever de maneira tão precisa uma realidade nossa me leva a duas conclusões:

  • esse fenômeno não é local e está acontecendo em outras culturas ou
  • os autores se basearam em nossa experiência social.

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O mundo real supera a imaginação do cinema

Entre as características quase universais e atemporais do mundo do crime estão as guerras entre grupos rivais (facções) – a hegemonia de organização criminosa com regras escritas e ficha de ingresso de membros é uma raridade tanto na ficção quanto na realidade.

O Primeiro Comando da Capital tem o mais sofisticado sistema burocrático entre todas as organizações criminosas.

Misael Aparecido da Silva foi quem elaborou o Estatuto do Primeiro Comando da Capital conforme as diretrizes traçadas por José Márcio Felício, o Geleião, entre o final de 1993 e 1995. O documento veio a público por meio do deputado estadual Afanásio Jazadji em 20 de Maio de 1997.

No PCC não há punição sem lei anterior que a regulamente:

O Estatuto do PCC foi a base sobre a qual a facção se consolidou. Funciona para a organização criminosa como a Constituição funciona para a legislação de um país.

Quando age em desacordo com a ética do crime:

O Dicionário da Facção é um conjunto de normas que determinam e regulamentam o que é passível de punição e qual a penalidade. O Dicionário regulamenta o Estatuto, assim como o Código Penal e o Código de Processo Penal regulamentam a Constituição.

Para que tenham consciência e apoiem a luta:

Os membros da facção, seus familiares e simpatizantes devem se relacionar com a sociedade segundo as diretrizes da Cartilha do Primeiro Comando da Capital, que detalha a forma como a facção e seu Estatuto devem ser apresentados ao público externo.

Quem somos e em que condições estamos vivendo:

Existe uma Ficha de Cadastro no Sistema para os membros da facção, com detalhamentos que impressionam qualquer departamento de recursos humanos – lembrando que esses dados são coletados, distribuídos e guardados fora do alcance das autoridades.

Conheça nosso arquivo de documentos básicos do PCC → ۞

Batman e Gordon versos SUSP

Vencendo o crime organizado

A realidade superou em muito a ficção criada pelos quadrinistas da DC Comics: enquanto o PCC criou um sistema complexo, o assecla do Pinguim, responsável pelo gerenciamento do RH, possui apenas o registro dos criminosos e os locais onde podem atuar.

Até o momento em que escrevo, eu ainda não assisti a toda a temporada, mas posso adiantar que o pequeno Batman e o Detetive Gordon irão demolir a organização montada pelo Pinguim – dúvida?

No mundo real, os mecanismos de divisão do poder e o Código de Processo Penal são uma máquina de moer carne que sustenta milhares de advogados por todo o país enquanto divide nossa sociedade em castas.

Talvez apareça um Batman e um Gordon ou um salvador da pátria para nos proteger, ou talvez o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica…

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O PCC e as ocupações de edifícios e terrenos

Os movimentos sociais estão impregnados por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), que utilizam siglas como MSTS, MLSM e LMD, ou não?

facção PCC, MSTS, MLSM, e LMD

O PCC, o prédio do Paissandu, Sascha Facius, eu e você

Entre eu, você e Sascha, com certeza você seria a melhor pessoa para escrever sobre o envolvimento da facção paulista Primeiro Comando da Capital com os chamados movimentos sociais que ocuparam os prédios de São Paulo.

A imprensa, principalmente a televisionada, cobriu o episódio com horas de telejornalismo ao vivo e com especialistas, sobreviventes, vizinhos, policiais, bombeiros, governantes e políticos da oposição sendo entrevistados — e eu e Sascha perdemos tudo isso.

Com tanta informação que você recebeu, achei que seria inútil tentar lhe trazer algum conteúdo que tivesse o mínimo de relevância, mas ao ouvir um bate-papo entre o sociólogo Jessé de Souza e o publicitário Celso Loducca mudei de ideia.

Segundo Jessé, a nossa imprensa é pior que a norte-coreana, só que em vez de ser controlada pelo governo, ela o é pelo poder econômico. Cada emissora repete os mesmos interesses e os mesmos pontos de vista, só mudando o tom e os argumentos.

Segundo ele, a sua opinião foi direcionada pelos redatores dos grandes jornais e dos apresentadores de televisão que não disponibilizam de forma equânime todos os pontos de vista — até os repórteres que, por comodidade, se encaixam no sistema.

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A facção PCC é quem organiza as invasões urbanas

Pobre é burro e fraco e é manipulado pelo Primeiro Comando da Capital que utiliza os mais necessitados para ocultar nas ocupações drogas e armas, enquanto cobra aluguel dos ocupantes, colocando na liderança dos movimentos seus asseclas.

Jessé afirma que eu e você, como bons brasileiros, não diríamos isso com essas palavras. Seria algo como: aqueles coitados são massa de manobra para as organizações criminosas e políticas — pura hipocrisia, afirma o sociólogo.

Ao fazer isso, repetiremos a informação recebida dos órgãos de imprensa: os criminosos do PCC tentaram se impor no lugar do Estado Constituído — ignorando que o governo e seus agentes foram os que abandonaram essas pessoas a sua própria sorte.

Interessante é ver que as maiores críticas vêm dos que defendem o liberalismo, quanto essa situação nada mais é do que o mais puro capitalismo, fruto da lógica do mercado.

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Pobres urbanos do Brasil e do mundo, uni-vos

Eu prefiro não defender Jessé, o que ele pensa é problema dele, mas aí Sascha Facius, que nem é brasileiro, resolveu se meter em nossos problemas e dar sua opinião, só porque ele tem PhD em Sociologia Urbana e estudou profundamente a questão da sub-moradia.

Ele fez o levantamento comparativo sobre as estratégias que os pobres (sempre eles, coitados) desenvolveram e adotaram para lidar com o problema da sub-habitação. Sascha, assim como Jessé, apontou para a questão de mercado.

Em “Durable Housing Inequalities — How do urban poor cope with displacement (pressures)?” ele visitou as ocupações, favelas e cortiços em São Paulo e a gecekondus em Istambul.

Ele sabia que sem o aval do Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, e dos traficantes de Tarlabaşi, em Istambul, muitas moradias teriam sido lojas fechadas, e seria até perigoso para ele prosseguir com a pesquisa:

“Claro, eu sabia que os disciplinas do PCC não me receberiam com confiança e de braços abertos. No entanto, com o tempo e com referências pessoais, consegui convencer até mesmo esses indivíduos de que eu era inofensivo — ou, pelo menos, não era um alvo apropriado.”

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A compra de uma vaga em uma sub-habitação

Nas suas incursões, conversou com líderes comunitários, moradores e até com os responsáveis pela organização criminosa PCC:

“… ao longo dos meses em que residi em cada cidade, consegui obter acesso rotineiro a várias formas habitacionais mais ou menos informais, incluindo favelas e edifícios ocupados. Através de visitas frequentes, eu não só aprendi e me familiarizei com a vida cotidiana dos moradores, mas os moradores também se familiarizaram comigo até o ponto de confiança e amizade.”

Cida, uma das moradoras de um cortiço, é prova que a facção paulista dominava o local, pois em determinado momento ela é expulsa do quartinho minúsculo que havia comprado por 800,00 Reais e onde vivia com seu filho.

“Em agosto de 2016, uma ação policial ligou os líderes do MSTS ao tráfico de drogas e ao “desvio” de aluguel, então de R$ 200.” — ESTADÃO

Em São Paulo, Cida, no cortiço de Santa Cecília, e Arlete, na ocupação no Largo da Batata, assim como Sabiha, em Tarlabaşı, não eram pobres burras padecendo com a exploração, ao contrário, estavam utilizando uma estratégia econômica.

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A lógica matemática de quem vive na pobreza

Morar onde não é necessário pagar o aluguel pode alterar o status socioeconômico, permite comprar objetos e ir a lugares que de outra forma não seria possível. É a mais pura lógica liberal utilizada sendo utilizada pelos pobres urbanos considerados burros pela classe média.

“O dinheiro está se multiplicando [risos] e estou economizando um pouco, algo que eu não estava fazendo quando pagava aluguel. […] Eu não trabalho mais no shopping, como eu costumava ser faxineira, agora vou comprar lá! […] Eu também não tenho medo do despejo no futuro. Particularmente, há um ano, fiquei com medo, mas hoje não tenho mais medo. Porque hoje eu digo, tudo o que consegui hoje, tudo o que estou conseguindo, eu possuo este lugar, sabe? Eu não vou negligenciar o lugar, sabe? Eu consegui chegar tão longe já — eu tenho esse lugar aqui ”.

Cida mudou sua posição social. Por causa de seu acúmulo de capital econômico, ela pode ir ao shopping como consumidora, em vez de só ir para lá para trabalhar, limpar o espaço para os outros. Nesses termos, a Cida não apenas adquiriu capital econômico, mas também capital cultural (por exemplo, na forma do prestígio de poder comprar no shopping e não mais limpá-lo).

Voltamos assim a Jessé, que alerta que a classe média se enfureceu com essa ascensão social dos pobres que invadiram seus espaços culturais, como as universidades e os shopping centers, e a ética cristã do povo brasileiro impede de se verbalize essa insatisfação.

“O aeroporto agora está parecendo rodoviária, e a segurança do shopping não serve mais para nada” (ou seja, permitem agora a entrada de pobres como Cida e Arlete).

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A facção PCC 1533 entra com a pacificação

Jessé arranca a máscara dos hipócritas (ele não poupa adjetivos) e demonstra que aqueles que dizem que todos devem se deixar proteger pela Lei e pela Ordem Pública, são justamente aqueles que não moram em locais de risco.

Sasha concorda, argumentando que o PCC “ajudou a estruturar e organizar alguns dos bairros em que as forças estatais não entraram” e, muitas vezes, quando a pessoa não pode pagar aluguel, acertavam “uma contribuição de acordo com seus recursos econômicos”.

A visão que a imprensa passa das ocupações e é repetida por milhões de “cidadãos de bem é que as ocupações, cortiços e favelas estão ligados ao crime, às drogas e aos moradores de rua”, mas não é bem assim — sei, pois há alguns anos cheguei a visitar o cortiço em que viria mais tarde a morar Cida.

Não havia lá dentro medo e preconceito, exceto nos momentos em que a invasão polícia entrava e descia o pau em todos, gente boa e criminosos, mas isso foi antes que o Primeiro Comando assumisse, daí a entrada da polícia rareou.

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PCC para manter a ordem e disciplina no barraco

“Eu tive que tirar da boca para pagar o aluguel, porque o aluguel que você paga hoje, amanhã você está colocando sua cabeça no travesseiro já pensando na próxima renda que você tem que pagar.”

As necessidades humanas básicas de habitação, segurança e alimentação estão economicamente interligadas, e nesses ambientes sociais, os laços comunitários e a solidariedade entre os residentes podem ser mais problemáticos.

“[…] Mas aqui todo mundo se odeia. Por exemplo, fizeram muita sacanagem comigo e consigo mesmos, como cagar e fazer xixi no chão do banheiro e atacarem uns aos outros. Quando nós moramos em um lugar, nós temos que preservar esse lugar. E aqui está algo que não existe, união. Não existe. Porque se existisse, se fôssemos parte de algo maior, de um movimento ou de alguma coisa e conseguíssemos ajuda dos outros, não estaríamos em tamanha miséria.”

O poder constituído não sobe uma dezena de andares para separar uma briga de casal, nem investiga os roubos, furtos e estupros que ocorrem dentro de uma favela ou curtiço — a ordem é mantida pela organização criminosa.

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É nesse vácuo do poder público que a facção atua

Em milhares de bairros, favelas, prisões, cortiços e ocupações, o Primeiro Comando da Capital ocupa um espaço que o Estado não vai ocupar, por puro desinteresse econômico: exceto quando a coisa pega fogo — como ocorreu no prédio no Paissandu.

Políticos e imprensa precisam de um culpado, e voilá, a facção paulista é a escolha natural — inimigo universal, fácil de se entender e odiar, com pessoas de verdade que podem ser presas de verdade em rede nacional.

“Em algumas das divisórias de madeira usadas para delimitar cômodos, lia-se PCC em pichações. Investigação policial associou outra sigla de ascensão recente, o Movimento Sem Teto de São Paulo (MSTS), à facção criminosa paulista. Em 2016, a ocupação do grupo no Cine Marrocos foi alvo de operação em que a polícia diz ter encontrado armas e drogas.

Movimento Sem-Teto de São Paulo (MSTS)
Fundado em 2012, anunciava em sua página oferecer “uma completa estrutura, com portaria 24 horas, elevadores, escadas e portarias bem iluminadas”. Ocupou o Cine Marrocos, no centro, até 2016, quando investigação policial apontou o envolvimento de 28 líderes do grupo com a facção PCC e encontrou fuzis e drogas na ocupação”
Folha de S. Paulo

As interações sociais, econômicas e culturais descritas por Sascha para a Faculdade de Letras, Ciências Sociais e Educação da Universidade Humboldt de Berlim deixam de ter importância para a formação da opinião pública e para o desenvolvimento de novas políticas públicas.

Entre mortos e feridos, todos continuam seu jogo, e a facção não é nem mais e nem menos inocente ou culpada que emissoras de televisão, jornais, políticos e agentes públicos que a condena, e ela continuará forte nos seus outros domínios.

O Estado e a imprensa, em pouco tempo, esquecerão esse problema, pelo menos até a próxima vez que a coisa pegar fogo, e os pobres continuarão a buscar, por seus próprios meios, amparar suas necessidades básicas de moradia, segurança e alimentação.

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O maravilhoso mundo da televisão brasileira

Sascha conta uma experiência que ele viveu no Brasil:

“É noite e estou exausto de realizar várias entrevistas, eu ligo a TV e navego pelos diferentes canais. Fico com a Globo, uma cooperativa nacional de TV conhecida por suas produções de telenovelas. Estou organizando minhas anotações do dia em que algo na TV de repente me chama a atenção: vejo imagens brilhantes, vivas e coloridas da favela Paraisópolis. Eu estava lá outro dia para coletar dados quantitativos e ainda tenho as impressões do dia em minha mente — esgotos a céu aberto, becos inundados, barracos de madeira minúsculos e superlotados, e minhas interações com [o PCC]. O que eu vejo agora na TV é diferente: eu vejo pessoas ricas, cores brilhantes nas paredes dos prédios, carros grandes, ruas organizadas e estruturadas. Basicamente, uma versão ‘higienizada’ e romântica de Paraisópolis.”