Mulheres: PCC oferece oportunidade de trabalho

A facção paulista Primeiro Comando da Capital e a situação da mulher que trabalha para o tráfico nas cidades amazônicas fronteiriças com a Colômbia.

As garotas do tráfico internacional amazônico

O Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) oferece vagas de trabalho na região da fronteira com a Colômbia. Têm preferência moradoras das cidades brasileiras de Vila Bittencourt, Ipiranga e Tabatinga ― caso tenha interesse, procure Júlia.

Júlia mudou meu conceito de quem são e como vivem as garotas que trabalham para as organizações criminosas e guerrilheiras na fronteira amazônica ― e a situação dessas mulheres, confesso, muito me entristeceu.

Hoje já não troco mais mensagens com nenhuma arlequina que vive no norte, mas quando o fazia, de longe podia sentir o calor, a vida e a alegria daquelas garotas ― de uma morena em especial, cujo nome não direi.

Eu convidei algumas vezes a morena para que viesse a São Paulo, mas, sempre por conta das responsas, estava impedida, contudo, se tivesse ouvido antes Júlia, eu teria me esforçado mais para trazer a arlequina para terras paulistas.

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A mulher do tráfico no amazonas e a família do norte

A morena rasgou a camisa do 3 (e eu nem vi)!

A situação, naquela região, descrita por Júlia, com palavras de uma graduanda em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, seria algo que Granuja talvez descrevesse mais ou menos assim:

“La frontera de las chicas poderosas y hombres malos, y ladrones, y bandidos, y ladillas, y de perras de rodillas Casquillo de las balas y de grillas Los dos igual de peligrosos por si no lo pillás No sabes, no opinés.”

Após a morte de Jorge Rafaat Toumani e o massacre de Compaj, a equipe da qual a morena fazia parte migrou para o inimigo Comando Vermelho e, depois do racha CV FDN, passou a atuar como braço da facção inimiga Família do Norte.

Nem sei por que comentei essa história do passado com você, pois o que realmente me chamou a atenção no trabalho de Júlia foi algo que ela descreve como sendo a feminização da pobreza das mulheres que entram para o tráfico.

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a feminização da pobreza Júlia Henriques Souza

A feminista, o cidadão de bem e a morena

Essa história de feminização ou o escurecimento da pobreza talvez seja um discurso desenhado por minorias de mulheres e negros indolentes ― a Constituição Cidadã (CF-88) e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já garantem o tratamento igualitário à todos.

Um candidato a presidente da república em debate deixou clara essa posição hipócrita de feministas e de grupos raciais que lutam pela paridade dos salários e do acesso aos cargos de chefia ― se mulheres ou negros querem ganhar mais, que trabalhem mais e melhor!

Júlia Henriques Souza, ariana e pertencente à elite cultural, discorda desse ponto de vista em seu artigo para a Revista Fronteira de Iniciação Científica e Relações Internacionais: “O narcotráfico nas fronteiras brasileiras e a feminização da pobreza: um ciclo vicioso”.

E ainda, de quebra, acabou por destruir minha ideia de quem era a morena amazônica que morou por tanto tempo em minha mente e em meu coração.

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companheiras do primeiro comando da capital diferenças regionais

A mulher dentro do PCC

Mesmo que você ache que nunca encontrou algum membro da facção paulista, com certeza já ouviu falar de alguns deles, no mínimo de Marcola e Gegê do Mangue, mas duvido que possa mencionar uma mulher.

Em um esforço de memória, lembrei de algumas companheiras e aliadas, como Marcela Chagas no Rio de Janeiro e Jasiane Silva Teixeira, a da Dama de Copas que liderava (ou lidera) a facção aliada Bonde do Neguinho (BDN).

Aqui em São Paulo, as companheiras são muito ativas, e em geral têm algum relacionamento, seja de parentesco, seja amoroso, com um irmão ou um companheiro, e assim entram no mundo do crime.

Algumas acabam por ganhar autonomia nos corres, e raramente lideram equipes, mas sempre têm o maior respeito dos homens da facção.

A cúpula do PCC apregoa o respeito pela mulher do crime em todos os cantos nos quais mantém o domínio, no entanto Júlia nos mostra que na prática, por lá, pouco ou nada mudou.

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a mulher do tráfico da farc na fronteira no brasil

A mulher do tráfico na fronteira colombiana

Júlia utiliza os estudos de Diana Parce para demonstrar que o ciclo de pobreza no qual as mulheres amazonenses estão inseridas as leva cada vez mais a buscar, nos grupos criminosos, uma forma de driblar as barreiras de ascensão social.

Se você conhece a vida em Vila Bittencourt, Ipiranga e Tabatinga pode dizer que Júlia está errada, mas, se não, bem, é melhor seguir o conselho de Granuja: No sabes, no opinés”.

As oportunidades de emprego são mínimas, e são oferecidas preferencialmente para os homens. As mulheres devem se limitar a algumas atividades de menor reconhecimento social e de baixa remuneração ― mercado formal é um luxo para poucas.

Não há como se falar naquela região sem mencionar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o tráfico de cocaína em um ambiente em que “muitas mulheres são forçadas a se prostituir e/ou trabalhar tanto para as FARC quanto para grupos paramilitares”.

Aquele ambiente é uma selva, e não estou usando uma metáfora: a fronteira é coberta por densa floresta e igarapés, e as cidades daquele lado da fronteira têm sempre uma cidade irmã do outro lado ― a aproximação cultural é regra, para o bem ou para o mal.

Júlia conta, inclusive, que, ao contrário do que se pensa no restante do país, a fronteira não é assim tão precisa. Os povos indígenas Tikuna circulam livremente e “a fronteira geográfica formal praticamente não tem significância, gerando problemas de nacionalidade emigração”.

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o tráfico de drogas como opção ao mercado de trabalho

Drogas como a melhor opção de trabalho

Famílias deixam suas regiões de origem na Colômbia e buscam abrigo em outras regiões, sem um homem jovem ou adulto, pois esses foram recrutados à força pelas FARC ou pela milícias ― isso quando não morreram. Restaram apenas velhos, mulheres e crianças.

Algumas chegarão a La Pedrera/Vila Bitencour, Tarapacá/Ipiranga e Letícia/Tabatinga, e integrarão a azeitada indústria do tráfico da região.

Hoje há um maior controle ambiental do lado brasileiro à indústria extrativista, o que empobreceu e dificultou ainda mais a possibilidade de emprego deste lado, principalmente para as mulheres.

Enquanto você leu esse artigo, as facções criminosas transferiram de um país para outro cerca de 200 reais. Infelizmente para as garotas e para os policiais que gostavam de apresentá-las no plantão, elas já não são mais importante no processo.

Explorada pelas facções e milícias e esculachadas pelos agentes públicos, as mulheres do tráfico perderam espaço novamente para os homens que pilotam os aviões e os barcos com grandes quantidades de drogas ― algumas coisas não são tão ruins que não possam piorar.

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ascenção social das meninas do mundo do crime pcc1533

A mulher do tráfico na fronteira colombiana

Reitero o convite. Caso tenha interesse sobre o emprego de mulheres pelas facções criminosas na região da fronteira com a Colômbia, procure o artigo de Júlia, acessível neste link.

Júlia mudou meu conceito de quem são e de como vivem as garotas que trabalham para as facções na fronteira amazônica ― e a situação dessas mulheres, confesso, muito me entristeceu. A vida no mundo do crime não é fácil como muitos pensam, mas eu não esperava que fosse tão obscura.

Por maior que seja o empenho das lideranças paulistas para tentar uma isonomia ao tratamento dado às companheiras dos vários estados, Júlia demonstrou que razões culturais vão se impor na região, impedindo a ascensão das meninas amazonenses.

O mundo nunca foi justo, mas também não precisava ser uma selva tão hostil como é na fronteira do Amazonas com a Colômbia ― e nem falei dos piuns (mosquitos incômodos)!

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Cocaína barata da Bolívia é com o irmão do PCC

Existem oportunidades de mercado para a compra de cocaína da Bolívia e do Paraguai por um preço quase um terço abaixo das rotas atacadistas do Primeiro Comando da Capital.

Uma lembrança de quando eu era garoto

O assunto deste artigo é o Primeiro Comando da Capital, a compra de cocaína pura no atacado, a trairagem dentro da facção e o Regime Disciplinar ou Dicionário do PCC, mas nada disso de fato para mim importa, como pretendo demonstrar aqui.

Ernesto Sabato está certo ao afirmar que “viver consiste em construir futuras lembranças, [e eu, assim como ele, sabia que estava] preparando lembranças minuciosas que algum dia [haveriam] de me trazer melancolia e desesperança”.

E a pedido do próprio Ernesto, eu não vou me alongar no assunto, mesmo porque é tudo bastante simples, como você mesmo verá, e por isso não farei que você perca tempo lendo “palavras ao vento” ― hoje será papo-reto, resumo.

Só vou contar para você como eu fiquei sabendo de tudo, para que você não precise me chamar de novo na delegacia para dar explicações, assim, já fica tudo dito e pronto ― ah! antes que me esqueça, neste texto há trechos do livro do Ernesto: O Túnel.

Dicionário da Facção Primeiro Comando da Capital em áudio → ۞

Esfiha como te quero

A minha tão sonhada esfiha do Habib’s

Eu era office-boy em São Paulo, trabalhava no prédio da Jovem Pan na Avenida Paulista, e na esquina da Alameda Joaquim Eugênio de Lima com a Alameda Santos havia um Habib’s ― isso foi no começo da década de 1990.

Na empresa em que eu trabalhava, o pessoal do Departamento de Arte mandava que eu fosse comprar esfihas no Habib’s todos os dias. Era caro demais para meu bolso, então fiquei por meses só sentindo o cheiro e vendo os caras comendo.

É verdade me que ofereciam, mas eu dava uma desculpa e ia comer minha marmita de arroz, arroz, arroz, feijão e uma mistura (uma mistura era como minha mãe chamava o ovo).

Foi assim por meses, até que em um dia de pagamento, depois de acertar todas as minhas contas, fui ao Habib’s e me sentei sozinho para experimentar com gosto a tal da tão cheirosa e tentadora esfiha.

Só contei isso para que você entendesse o porquê de, naquela noite do ano passado, eu estar sozinho no Habib’s, degustando esfihas e lembranças minuciosas que sempre me fazem sentir melancólico e desesperançado ― eu curto esses momentos de solidão e deprê.

Basta de efusões. Eu disse que relataria esta história de forma enxuta, e assim o farei.

Onde citei neste site sobre a Bolívia → ۞

Dando um tempo no Habib's

Uma operação policial próxima ao Habib’s

Eu estava sentado junto à janela, e uma barreira policial havia sido montada no final do quarteirão, então, quem entrava na rua, obrigatoriamente teria que passar pelos policiais ― só que não.

Para minha surpresa, entram no restaurante dois conhecidos meus, que, ao verem as viaturas policiais fechando a via, entraram no estacionamento do Habib’s e resolveram esperar lá dentro pelo fim da operação policial.

Vieram para minha mesa ― pronto, acabou meu sossego, lá se foi minha paz e minha degustação deprê.

Pediram de cara duas pizzas, uma de calabresa e outra portuguesa ― ai, meu Deus, só falta pedirem que eu rache a conta e eu nem gosto dessas pizzas!

A barreira não se encerrava, o assunto fluía. Os garotos estavam indo buscar dois quilos de cocaína pura, puríssima, vindos diretamente da Bolívia por meio de um contato em Santa Cruz de La Sierra ― pense em dois garotos empolgados.

Onde citei neste site Santa Cruz de La Sierra → ۞

cinco mil na mesa do Habib's

Cocaína da Bolívia e o negócio da China

Iam faturar uma boa grana sem o risco de pegar dois mil quilômetros de estradas e fazer negócio em um país estrangeiro com um contato que não conheciam pessoalmente.

Garotos espertos, não marcaram a entrega na cidade deles, e sim em Campinas ― cidade grande, com muito fluxo de veículos e muitas entradas e saídas.

Colocaram sobre a mesa os pacotinhos de dinheiro totalizando cinco mil Reais.

Empolgados, me contaram que já haviam, no ato da encomenda, depositado em uma conta da Caixa quatro mil. Quinze dias depois de pegarem a mercadoria, depositariam outra parcela de cinco mil.

Para falar a verdade eu estava mais preocupado com a conta do Habib’s, mas algo me incomodou na conta dos garotos: 5+4+5=14, tudo bem, é um bom preço, afinal o preço da cocaína em São Paulo gira em torno de 18 mil, só que, sempre tem o “só que…”

O preço de mercado da cocaína pura, gira em torno de 18 mil DÓLARES o quilo, à vista, e eles estavam comprando por 14 mil REAIS dois quilos, parcelado! ― pense em dois garotos empolgados e um tiozinho olhando com cara de “Oh! Coitados!”.

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acompanhando a entrega da droga via google maps

Os garotos do corre e a garota do transporte

Bem, eu prometi que seria breve, que não iria me alongar, mas é importante que você saiba de tudo para entender que eu não tive nada a ver com isso, e só fiquei sabendo dos nomes, da história e dos locais por puro acaso.

Tocou o celular de um deles, era a garota que transportava a mercadoria, e como não tinha nenhuma mesa por perto ocupada, eles colocaram no viva-voz.

Ela falava com bastante naturalidade, e os garotos tentaram fazer com que que ela levasse a mercadoria para o estacionamento do Habib’s, ali mesmo, mas ela insistia em outro ponto.

Nunca tinha imaginado que o transporte funcionava assim. Eles haviam acompanhado o trajeto pelos Google Maps, legal essa tecnologia, só que, sempre tem o “só que…”

Reparei que não estava sincronizado on-line, que ela atualizava manualmente a localização ― estranhei isso.

Ela insistia em que eles fizessem o depósito da segunda parcela antes que a mercadoria fosse entregue ― estranhei isso também.

Só eu parecia achar que era muita coisa estranha para um negócio, mas cada um com seus problemas, a minha preocupação era que eles saíssem do Habib’s sem pagar as pizzas que por sinal, só eles estavam comendo.

Eu devia estar demonstrando nervosismo porque os garotos me intimaram a dar explicação para minha agitação.

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Conferência de Cara Crachá no Sistema PCC

Buscando cara crachá dentro do Sistema

Não ia dizer para eles que estava preocupado que não pagassem a conta do Habib’s, então disfarcei, e disse que o preço da droga estava incompatível, a atualização do localizador estava sendo feito manualmente e não senti firmeza na voz e no método da garota.

Vieram com aquela enxurrada de afirmações que tudo estava certo, que não tinham dúvidas, que era um irmão conhecido da facção, para depois de alguns momentos de silêncio, ficarem tensos e olhando um para o outro.

Pensei até que não tinham acreditado na minha história, e haviam percebido minha preocupação sobre quem iria pagar as pizzas, mas aí os dois foram para os celulares e esqueceram da minha presença ― eu deveria ter saído sem pagar naquele momento.

Começaram a ligar para o contato que estava intermediando o negócio, era um irmão de outro estado, mas que estava respondendo só em texto e, quando soltava a voz, dava para perceber que era gravação antiga ― só os garotos na empolgação não tinham manjado.

Dei o toque e, então, eles começaram a correr em busca de informações dentro do Sistema Carcerário ― um liga para um Sintonia, outro para um Cadastro, e começou o debate e a agitação dentro das trancas para conseguir informação do tal irmão.

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Ameaçando mandar para o Tribunal do Crime do PCC

A confirmação vem do Cadastro do MS

Veja, não estou tentando alongar o assunto, pelo contrário, estou resumindo ao máximo, pois assim eu havia dito a você que o faria, no entanto é importante que você entenda todos os detalhes para ver que fui apenas um mero observador nessa história.

O cadastro do Mato Grosso do Sul passou o Cara Crachá do tal irmão. De fato ele existia e não era excluído, porém, alguém estaria usando o nome dele para aplicar golpes, e eles estavam sendo vítimas de uma armação.

Imagine a cara dos dois quando receberam essa resposta das trancas. Planos maléficos foram feitos na hora, e pelo celular armaram rapidamente uma equipe para pegarem a garota, com ou sem drogas.

Engrossaram a voz quando ela ligou novamente, ameaçaram usar o Tribunal do Crime do PCC para pegar tanto ela quanto os outros envolvidos ― ela desligou. A barreira policial a essa altura já havia ido embora, e eu pensei em pedir um café.

2. Ato de Esperteza:
Quando usa de má fé ou abusa da confiança depositada, se parece com ratinagem, muda que o prejudicado confia e acaba sendo lesado.
Punição: exclusão sem retorno, cobrança a ser analisada.

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Eu sei onde você mora, vou mandar a polícia aí

Eu sei quem você é e onde você mora

Desisti do café. Se eles não pagassem a pizza, ia sobrar para mim, e teria que rezar para que o saldo no cartão desse para pagar a conta ― eu só tinha 10 reais em dinheiro. Será que daria para tirar os 10% do garçom? Às vezes por causa de cinco reais o cartão não passa.

Toca o celular, uma mensagem escrita, dizendo que eles deviam deixar quieto o bagulho e engolirem o prejuízo em paz, que eles sabiam quem os garotos eram. Mandaram até as fotos das casas dos dois rapazes, dizendo que fariam uma denúncia para a polícia caso insistissem.

Vi que a foto era do Google Street View, mas ficava evidente que o golpista tinha informações sobre os garotos e poderia causar problemas se quisesse.

Para acusarem o irmão no Tribunal do PCC, eles precisariam de provas 100% confiáveis, e eles só tinham textos e gravações de voz do WhatsApp, que eram trechos gravados e repetidos ― o processo viraria contra eles.

Onde citei neste site o Tribunal do Crime do PCC → ۞

Construindo uma nova lembrança para o futuro

Um golpe esperado, uma proposta inesperada

O tal do irmão ainda propôs um negócio para os garotos: ele pagaria 50% do lucro em outros golpes se eles indicassem possíveis compradores e dessem dados para ele poder chegar nos caras, assim como alguém tinha feito com eles.

Esse encontro no Habib’s aconteceu há um ano, e só agora me lembrei de contar essa história, pois fiquei sabendo que o mesmo golpe, utilizando o nome do mesmo irmão continua sendo aplicado, com alguma variação.

Fui àquela noite reviver uma lembrança do passado, mas acabei construindo mais uma futura lembrança, minuciosa, que hoje já me traz certa melancolia e desesperança.

Mas o importante é que consegui cumprir o que prometi: não me alonguei no assunto mais que o estritamente necessário ― como acaba de me lembrar Ernesto.

Documentos importantes do Primeiro Comando da Capital → ۞

A companheira PCC e o sistema prisional feminino

O nascimento de uma companheira do Primeiro Comando da Capital dentro do sistema prisional feminino brasileiro e sua morte por decisão do Tribunal do Crime da facção.

Nós fomos presos, mas só a arlequina do PCC morreu

Eu, Egeu e Berenice somos primos e crescemos juntos. Ela foi uma companheira do Primeiro Comando da Capital, e isso Egeu não postou, mas não foi ele quem a matou — afirmo com certeza pois a vi morrer.

Egeu se incriminou e foi preso pela morte de nossa Berenice, e eu não o desmenti. Agora, Raíssa tocou em um assunto que se entrelaça com a nossa história, por isso, e só por isso, venho contar para você o que realmente aconteceu.

Há muitos anos, Egeu me disse que “é da alegria que nasce a tristeza, e a felicidade passada é a angústia daquilo que podia ter sido e acabou não sendo” — parece que ele estava prevendo nosso futuro.

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Não devíamos ter sido tão felizes e com tantas esperanças no futuro

Nós três, quando crianças, estávamos sempre juntos. Nossos pais trabalhavam fora e as casas ficavam só para nós, sem ninguém para nos dizer do que podíamos brincar ou não, e assim tivemos todas as aventuras que queríamos.

Também não havia limites fora de casa. As ruas, as praças e até a estrada de ferro eram também parques de diversões, eram palco para nossas apresentações e aventuras — felicidade e aventuras sem limitações.

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Diferentes caminhos para a prisão e para a morte

Após nossa separação, apenas Berenice continuou vivendo, se aventurando e sorrindo; mas se eu e Egeu deixamos de viver, ela, sem perceber, rumou para uma morte cruel em uma véspera de Natal.

Toda vida e alegria que Berenice até então reservava para nós passou a ser entregue aos garotos do bairro, e ela aprendeu rapidamente a se aproveitar das vantagens de ser uma novinha da quebrada.

Eu ainda os via ocasionalmente: Egeu cada vez mais nerd e com o pensamento fixo nela; e ela cada vez mais feliz e pensando em qualquer um menos nele — ela deixou de ser nossa Berenice para ser a Nice Loira.

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Nice Loira presa por tráfico de drogas

Não acredite nas manchetes dos jornais, nossa Berenice nunca foi traficante. Um dos garotos com quem ela andava era um vaporzinho, e ela às vezes guardava para ele a droga no sutiã.

Pela letra fria da lei ela foi considerada tão culpada quanto seria o dono da biqueira ou o distribuidor do bairro. Se você considera que ela mereceu o que recebeu, eu respeito seu ponto de vista, mas garanto que nossa Berenice não mereceu.

Ficou quase dois anos presa até conquistar o direito à saidinha: a primeira foi no Dia das Crianças; a segunda no Natal, apenas para ser morta ao entrar na casa de seus pais, que estavam como sempre trabalhando.

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O sistema prisional feminino e a facção paulista

Raíssa Tavares de Araújo apresentou a tese Privatização do encarceramento da mulher: a inaplicabilidade do contrato de parceria público-privada aos presídios femininos no estado do Rio Grande do Norte à luz da criminologia ao Centro de Ciências Sociais aplicadas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Raíssa contou como as coisas funcionam dentro de um presídio feminino e esclareceu a morte de nossa Berenice.

“Antes do surgimento do PCC, os presídios […] eram conhecidos por suas barbáries entre os próprios apenados. Surge, então, para estabelecer regras de Conduta e solidariedade entre os que se encontram com a liberdade privada. Quem ousasse desestabilizar a ordem imposta, podia ser penalizado com a morte.”

E nossa Berenice foi morta por ordem da organização criminosa, não pelas mãos de Egeu, que nunca foi do mundo do crime — ele confessou um assassinato que não cometeu por amor, amizade e burrice.

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Por que nossa Berenice entrou para o PCC 1533?

“A inércia do executivo e a conivência do Judiciário […] provocam o surgimento de escolas do crime. […] Como consequência, aumenta a criminalidade fora dos muros da prisão. Torna-se um círculo vicioso, em que o Estado ainda não encontrou uma forma de rompê-lo.

A ausência da presença pública gera um vácuo tanto nos presídios como em áreas periféricas São nesses lugares que se legitima essa força paralela, ao passo que prestam serviços assistenciais à comunidade e impõe suas leis. Ainda utilizam-se da miséria desse povo para renovar o quadro de membros de sua facção e se perpetuar no poder.”

A pesquisadora do Rio Grande do Norte disse tudo. Nossa Berenice, alegre, comunicativa e cheia de vida, também era a Berenice aventureira, guerreira e audaz, que aproveitaria a situação para se juntar, dominar e quem sabe liderar as feras.

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A arlequina volta para casa para morrer

Eu não cheguei a ver a nossa Berenice quando ela veio na saidinha do Dia das Crianças, mas Egeu me mandou uma mensagem contando que ela estava irreconhecível.

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“Ela está sofrendo de alguma doença que está tomando conta de seu espírito e invadindo a sua mente. Ela mudou, não é mais aquela Berenice que nós conhecemos. É terrível e está mudando sua personalidade quase não se dá para a reconhecer.

Eu choro ao lembrar daquela sua vida alegre e doce, e agora ela vivendo na ruína total, enquanto nós, que nunca levamos alegria para ninguém estamos aqui vivos e com saúde.

Quando ela chegou, sua magreza era excessiva é nada lembrava aquela garota ardente que nos fazia rir o tempo todo. Nunca imaginei que poderia ficar tão pálida e seu cabelo que sempre foi de um castanho quase ruivo que vivia caindo na testa da onde ela tirava sempre com um sorriso, agora estava de um loiro aguado amarrado em um coque.

Por Deus, preferia ter morrido do que vê-la assim. Que agonia ela está passando!”

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A beleza da vida — a beleza como razão de vida

Raíssa me mostrou a razão do porque nossa Berenice se deixou definhar:

“A prisão neutraliza a pessoa, principalmente as que pertencem às minorias, como é o caso das mulheres, que sempre foram subjugadas e castrados de suas vontades e em uma prisão a realidade da massa carcerária feminina chega a ser próxima à exploração em razão das características que apresentam: mulheres jovens, condenadas por crimes sem violência ou grave ameaça e penas longas.

Essas mulheres são fáceis de serem domadas em razão da vulnerabilidade que apresentam em decorrência do abandono por parte da família.

As prisões não estão preparadas para resolverem os problemas próprios das mulheres como gravidez, cólicas, higiene, limpeza e o cuidado com a beleza para elevação da auto-estima no cárcere.”

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Nice Loira julgada pelo Tribunal do Crime do PCC

Raíssa matou a charada, nossa alegre Berenice não sobreviveria a falta de cuidado pessoal, mas a facção não esperou a morte levá-la aos poucos.

Ao contrário do que Egeu declarou, ele nada teve a ver com a morte de Berenice — por mais que eu gostasse dela, Nice Loira não seguiu as regras de conduta e entregou uma colega para uma agente penitenciária.

Mesmo no lado errado da vida é preciso correr pelo lado certo, pois o errado é cobrado.

Esse texto foi baseado no conto Berenice, de Edgar Allan Poe.

Como o PCC chegou a outros países sul-americanos

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e sua estratégia de expansão e domínio do mercado transnacional de ilícitos (MTI) na América Latina baseiam-se no uso de mão de obra do sistema prisional.

Sem estresse, os negócios vão bem, obrigado.

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continua crescendo, com seus executivos desenvolvendo estratégias e conquistando novos mercados e seus funcionários seguindo motivados em todas as filiais em todos os estados e países.

Quem nos garante isso são os pesquisadores Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing no trabalho “Legitimacy in Criminal Governance: Managing a Drug Empire from Behind Bars”, o qual deverei apresentar aqui em breve.

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Crimes transnacionais nos dias de hoje

Hoje, estou aqui para apresentar o livro Subsistemas fronteiriços do Brasil: mercados ilegais e violência (FLACSO), da pesquisadora Letícia Nuñez Almeida e colegas.

Não há como se estudar os crimes transnacionais do Cone Sul sem entender a facção paulista Primeiro Comando da Capital, e Letícia não se faz de rogada, analisando profundamente a origem e a história da gangue nascida em São Paulo.

As origens do PCC definiram seu presente

Fomos você e eu quem definimos a forma como as drogas e armas seriam hoje transportadas do exterior para dentro de nosso território, você se lembra?

Letícia deixa que Camila Caldeira Nunes Dias conte como a semente foi plantada no final de 1993, quando na Casa de Custódia de Taubaté (o Piranhão) os presos se reuniram para protestar contra a crueldade exercida pelos agentes penitenciários.

Talvez você, assim como eu, se lembre que nós entendíamos que preso tinha mesmo é que sofrer, e prisão deveria ter as piores condições de vida; mas, pensando assim, colocávamos no governo pessoas que também professavam as mesmas convicções.

A queda de braço entre governo e presos foi sangrenta, e forjou o espírito dos homens que tomariam em suas mãos, no futuro, o controle do tráfico internacional de drogas e armas — o embrião do PCC foram aqueles prisioneiros.

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O crescimento acalentado pelo povo brasileiro

Camila conta que nos anos de 1994 e 1995 a base se solidificou graças a intensificação da repressão dentro do sistema carcerário — quanto mais dura se tornava a vida no cárcere, mais presos se aliavam à bandeira de solidariedade empunhada pelo PCC.

Camila Caldeira Nunes Dias PCC

“… as demonstrações de crueldade e de espetacularização da violência […] desempenharam uma série de funções na conquista e na manutenção do poder e do domínio do PCC sobre a população carcerária.”

Enquanto eu e você aplaudíamos as atrocidades que aconteciam dentro dos presídios, o Primeiro Comando da Capital ganhava adeptos fiéis entre a população carcerária, e esses passaram a atuar como soldados da facção dentro e fora dos presídios.

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O Primeiro Comando da Capital ganha moral e ruas

Entre 2002 e 2004, conquistaram a pacificação dentro dos presídios e começaram a disseminar a cultura de que os presos deveriam eleger um grupo mediador, capaz de estabelecer acordos e manter a paz dentro das muralhas.

Quando os presos deixaram de se enfrentar, ganharam força e organização para exigir do Estado melhores condições de vida dentro dos presídios.

A pena é longa, mas não é eterna, e, paulatinamente, os prisioneiros vão ganhando as ruas e levando consigo as técnicas de negociação, união e pacificação desenvolvidas pela facção dentro das muralhas — graças às escolhas que eu e você fizemos.

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O confronto fortalece o Primeiro Comando nas ruas

As novas lideranças são treinadas dentro das trancas e saem prontas para o gerenciamento do pessoal fora dos presídios. Os escritórios são as celas onde se discutem estratégias, mas a organização ainda tem dificuldade em conseguir adeptos nas ruas.

Nós, eu e você, não satisfeitos por termos criado uma organização estruturada dentro dos presídios, buscamos fortalecer a facção fora. A violência policial e os grupos de extermínio tinham amplo apoio, e jovens eram mortos às pencas.

Se faltava apenas uma razão para a facção justificar para seus membros uma ação contra o “Estado opressor e sua polícia”, nós a entregamos de bandeja, e a liderança do Primeiro Comando da Capital não perdeu a oportunidade e mandou seus soldados atacarem.

Os ataques do PCC de 2006 no estado de São Paulo ficaram registrados na história, mas não era esse não era o principal objetido da liderança, como conta Guaracy Mingardi:

Guaracy Mingardi

“Para todos no sistema, o recado é que o Estado não tinha forças para enfrentar o PCC. Isso aumentou o prestígio do grupo, principalmente, nos presídios e entre os jovens rebeldes da periferia.”

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Ordem e Progresso — o céu é o limite

Como filhos, nós os trouxemos ao mundo e lhes mostramos o caminho a seguir, e se eles fizeram as escolhas que fizeram, não podemos nos eximir de nossas parcelas de culpa. O fato é que, crescidos, eles ganharam as ruas do Brasil.

Letícia explicou que o PCC cuidou de conseguir apoio dentro do sistema presidiário dos estados fronteiriços antes de cruzar as fronteiras, mas para isso precisaram de ajuda — e claro que eu e você não íamos deixar o pessoal do PCC na mão.

Lembra quando falaram em mandar para bem longe os prisioneiros que lideravam as revoltas? Nós aplaudimos e dissemos “amém”, e quanto mais longe fossem, melhor seria, não é mesmo?

Marcelo Batista Nery conta para Letícia que a consequência de nossa grande ideia foi o fortalecimento da posição do PCC dentro das trancas do Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia, nas fronteiras do Paraguai, da Bolívia, da Venezuela e da Guiana.

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Do Brasil para o mundo

O processo foi o mesmo: das trancas para as ruas, e de lá para o domínio das rotas de importação de drogas e armas.

Essa semana, o ministro do governo da Bolívia Carlos Romero está levando seu país a trilhar o mesmo caminho que nós já percorremos — apoiando a invasão do Centro de Rehabilitacion Santa Cruz “Palmasola”, que deixou mortos e dezenas de feridos.

Na Bolívia e no Paraguai, o mesmo padrão que nós levamos o PCC a desenvolver está servindo para a implantação da facção: aproveitar a opressão dentro do sistema carcerário para conquistar seguidores que, posteriormente, representarão o PCC fora dos presídios.

Marcelo ressalta que hoje a facção paulista tem se mostrado forte o bastante para controlar o comércio de drogas e armas e até gerir atividades econômicas legais, abrindo empresas e usando-as para lavagem de dinheiro.

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O Comando Vermelho (CV), de aliado fiel para inimigo mortal

Em um primeiro momento, o Comando Vermelho foi peça fundamental na estratégia de crescimento internacional do Primeiro Comando da Capital, mas a facção carioca via o Paraguai como fornecedor, enquanto a facção paulista criava raízes.

O PCC implantou a cultura da facção dentro dos presídios paraguaios e começou a doutrinar seguidores — por lá, ninguém imaginava que um grupo de presos poderia financiar os estudos de seus filhos, providenciar tratamento médico e alimentos para suas famílias.

Nas ruas, montaram suas próprias bases de distribuição, inicialmente por meio de parcerias locais, adquirindo aos poucos conhecimento e abrindo os próprios caminhos.

A estratégia do PCC de negociação e ingresso em novos mercados e comunidades se mostrou perfeita para o ambiente de fronteira, onde os marcos divisórios fincados entre os países e entre os diversos setores econômicos e sociais são mais fluídos e pouco claros.

Quando a estrutura estava sólida, a parceria com a facção carioca CV passou a ser um peso que precisou ser eliminado, e a guerra pelo monopólio foi iniciada com uma ação cinematográfica típica da facção 1533: o assassinato de Jorge Rafaat Toumani Letícia resume a história:

Letícia Nuñez Almeida.jpg

“É dessa maneira que o PCC adquiriu a liberdade necessária para fortificar as relações com os nós fronteiriços e as suas conjecturas, transformando, portanto, os sistemas carcerários em pontos intrínsecos às suas redes do mercado ilegal nacional e internacional.”

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Sem estresse: com ordem e progresso

Os escritórios do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continuam atuando, os executivos dos mais diversos níveis continuam com o desenvolvimento de novas estratégias e os funcionários continuam motivados em todas as filiais.

Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing explicam que dentro dos presídios e no meio de milhares de soldados prontos para serem doutrinados na filosofia e nas estratégias da organização fica fácil para as chefias da facção ficarem protegidas de seus inimigos e se dedicarem ao gerenciamento dos negócios da facção.

Se bem que eles não teriam chegado aonde chegaram se não fosse por mim, você e nossas grandes ideias e escolhas de política social, carcerária e de segurança pública.

O Projeto CEU no combate ao Crime Organizado

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é uma liderança em diversas comunidades carentes. Como fica então o Projeto CEU quanto ao auxílio à comunidade?

Não é só com polícia que se vence o crime

Quando Roger Marchesini de Quadros Souza e José Cláudio Diniz Couto começaram a falar sobre o Projeto CEU — Centro de Artes e Esportes Unificados — como ferramenta de combate às organizações criminosas e auxílio na redução das taxas de homicídios, eu parei para ouvir, mesmo porque eles buscaram um enfoque diferente.

Em um artigo de oito páginas, os dois pesquisadores fazem um paralelo entre as cidades de São Paulo e de Medelim, esta última na Colômbia, pois ambas, na década de 1990, viram suas ruas virarem rios de sangue — a cidade colombiana atingiu o inimaginável índice de homicídios: 360 para cada 100.000 habitantes.

Para se ter uma ideia do que esse número de homicídios, significa, São Paulo em seu pior momento no final dos anos 1990 chegou a 70 homicídios, e hoje, mesmo com a guerra entre as gangues em andamento, o Brasil não chega a 30 mortos, mas ambas as cidades derrubaram as taxas de forma assombrosa, e em relativamente pouco tempo.

O que falei neste site sobre a Colômbia

Roger e José Cláudio foram atrás das políticas municipais que poderiam ter contribuído para o resultado dessa equação. E eles chegaram no céu, digo, no tupiniquim Projeto CEU, e nos projetos de integração social colombianos. A lógica para o sucesso dos projetos é bastante simples e pode se resumir em uma frase de Patrícia de Palma Soares:

‘… proporcionar respeito e dignidade a todos’, o objetivo geral do programa era ‘romper com o ciclo de violência – nenhuma criança deveria considerar o mundo do crime uma alternativa de vida, pois a violência é um elemento bastante perturbador do desenvolvimento humano’

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Veja todos os argumentos deles no artigo Implantação dos Parques-Bibliotecas em Medellín e dos Centros Educacionais Unificados em São Paulo – algumas considerações de um estudo exploratório, que reflete um pouco do que foi discutido no Grupo de Estudo e Pesquisa Sociais e Políticas em Fracasso Escolar – GEPESP.

Legal a leitura, verdade! Foi bom, pude conhecer a teoria que existe sobre aquilo que eu já havia conhecido na prática, e vou te contar o que eu vi lá no CEU. Não sei se minha experiência colaborará para a comprovação da teoria dos professores, isso eu deixo para você decidir.

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O Projeto CEU, da cidade de Itu, está localizado em uma área conturbada: entre o Jardim Vitória e o Jardim das Rosas. O prédio é um elefante branco que reluz de longe. Seu projeto foi muito criticado por não ter grades para protegê-lo de pichações, depredações e do mau uso do espaço.

Devido a essa característica, desde sua construção ele já foi refeito e repintado dezenas de vezes, pois a administração municipal anterior construiu o prédio e nomeou seus conselheiros no Diário Oficial em 2003, mas apenas a atual administração, fez um trabalho junto às lideranças locais, para que elas zelassem pelas instalações…

… e as pixações e depredações acabaram, mas antes:

Os vidros insufilmados dão visão para quem está dentro do local, mas impedem a visão de quem está fora, e, como o prédio ficou desocupado, a primeira sala servia como centro de distribuição de drogas: os garotos da venda ficavam sentados nos bancos do lado de fora ou sob a árvore sem nenhum flagrante, pegando as drogas a cada venda pela janela de quem estava na distribuição.

Quando a polícia chegava, não haviam nada com os vendedores; enquanto isso, quem estava na distribuição saía pelo lado oposto. O abastecimento da biqueira era feito por bicicleta, e o corredor que separa o projeto do posto de saúde era a área utilizada como ponto para uso de drogas, chegando a ficar tomada por dezenas de jovens aos fins de semana.

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Os Governos Federal, Estadual, e Municipal haviam se unido para construir a mais sofisticada biqueira da cidade, um orgulho para todos, mas isso acabou quando a atual administração municipal conseguiu apoio das lideranças do bairro, e houve um salve para que não mais se traficasse ou que drogas fossem utilizadas no local.

A comunidade de fato levou a sério a orientação, mas ocasionalmente alguém de fora acabava por utilizar mal o local, e era “orientado de acordo” por alguém do bairro. A Guarda Civil passou a estar presente com tranquilidade durante o dia, e a Polícia Militar, símbolo da “opressão do sistema” que vira e mexe entrava de sola, sumiu.

A ausência da Polícia Militar trouxe tranquilidade, não por sua presença ser negativa, mas por refletir uma nova realidade. Aquele local passou a ser livre de drogas e armas, agora as crianças do bairro podiam brincar, sem ver seus parentes serem escrachados pela polícia ou ver bandidos e traficantes ganhando dinheiro e virando heróis.

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Quer saber como está hoje o Projeto CEU? Não sou eu quem vou te contar, passe por lá e conheça, é só clicar na imagem e fazer a rota, até a última vez que passei por lá o governo mantinha apenas promessas, mas a liderança local mantinha firme a ordem.

Eu prestei bem atenção em tudo o que os dois pesquisadores falaram sobre o Centro de Artes e Esportes Unificados, e de fato ele é uma ferramenta de combate às organizações criminosas e auxilia na diminuição dos homicídios, mas por mais estranho que possa parecer, só é possível implantá-lo com sucesso com a conivência das lideranças locais.

Exercício:

1- assinale qual a frase que mais adequada ao texto acima:

( ) No entanto, na prática a teoria é outra

( ) A exceção confirma a regra

( ) É possível a implantação com o uso da polícia sem aprovação das liderança locais

As drogas proibidas pelo Primeiro Comando da Capital

O Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) proíbe o uso do crack dentro dos presídios? O PCC vende crack em suas biqueiras? Qual é a lei do crime para as drogas pesadas?

O Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) proíbe o uso do crack dentro dos presídios? O PCC vende crack em suas biqueiras? Qual é a lei do crime para as drogas pesadas?

Você já experimentou a cocaína 100% do Comando? Fala sério! Aquela branquinha cujos cristais brilham…

Não quero te falar nada não, mas essa não é a 100% do Comando — se te disseram que é, só lamento.

O que falei neste site sobre cocaína → ۞

Faltava oportunidade para vir falar para você sobre essa super droga, de edição limitada e de fabricação e distribuição controlada pelo alto escalão do PCC, mas agora, graças à pesquisadora Iara Flor Richwin Ferreira, vou tratar desse assunto.

Antes de começar, eu vou propor a você um acordo: você posta a fórmula da Coca-Cola e eu posto a fórmula da 100% do Comando.

Iara, em sua tese para a UnB Crack: substância, corpos, dispositivo e vulnerabilidades. A psicanálise e a prática clínico-institucional com usuários de crack, traça um perfil do usuário dessa droga e das suas relações com a sociedade e com os traficantes:

“… os usuários de crack, apesar de alimentarem o comércio de drogas, são humilhados, escarnecidos e violentados inclusive pelos próprios traficantes, que consideram que os ‘nóias’ atrapalham as dinâmicas dos pontos de venda com seu constante ir e vir, e, principalmente, os classificam moralmente como degradados que perderam o controle sobre o próprio corpo, sobre o próprio consumo, sobre a própria dívida, sobre o próprio caráter”

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Iara descreveu com perfeição o que é visto nas ruas.

Nas ruas — especialistas para venda do crack

Não é qualquer biqueira que distribui o crack, e, por algum tempo, o Primeiro Comando da Capital tentou retirar das ruas essas drogas, mas a demanda não pode ser reprimida, então, antes de perder o monopólio, voltou ao mercado.

No entanto, nem todos os comerciantes trabalham no varejo com esse tipo de cliente, mas a aproximadamente a metade dos pontos de venda de drogas no interior e 80% na capital paulista tem o crack entre as opções oferecidas ao consumidor.

Para atender aos usuários de crack, o vendedor tem que ser diferenciado. São: os mais violentos; aqueles que ainda não conquistaram espaço para atender a um público mais selecionado; alguém que está pagando uma dívida — alguns vendem por opção comercial, mas são minoria.

Nas trancas — nada de crack

Iara continua…

“Também nas cadeias controladas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), é possível observar a estigmatização e depreciação moral em relação ao crack, onde o fim da circulação e consumo dessa droga teve alcance. O que está na base da justificação da ‘extinção’ do crack nessas cadeias, […] relaciona-se ao seu grande potencial de promover a contração de dívidas e desencadear conflitos, mas […] também está estreitamente associada ao limite moral que o crack representa. ‘Degradação’, ‘falta de controle’ e ‘droga que faz o cara roubar a mãe, matar a mãe e tudo mais’ são os argumentos levantados por Marcola…”

O que falei neste site sobre Marcola → ۞

A pesquisadora faz um diagnóstico preciso, irretocável, expondo casos de dentro do sistema, mas faço uma correção — se a cadeia é “controlada pelo Primeiro Comando” não há crack em hipótese alguma.

Em determinadas unidades penais, o Primeiro Comando está presente e pode até ser maioria, mas, se existe comércio e consumo de crack, a facção ainda não está no controle da tranca.

O que falei neste site sobre o Sistema Carcerário → ۞

Quando eu era criança achava que os usuários de drogas e alcoólatras saiam do Sistema Carcerário limpos, já que com tanta polícia e com tanta muralha não teria jeito de se comprar drogas.

Quando crescemos, aprendemos que as regras impostas pelo Estado de Direito nem sempre são levadas a sério, principalmente nas periferias das grandes cidades e dentro do Sistema Prisional.

Mas nos presídios sob o controle efetivo da facção o crack não entra, pois está proibido no Regimento Interno do Primeiro Comando da Capital, conhecido como Dicionário do PCC, e esse funciona de verdade:

Dicionário do PCC — atualizado 2018

29º – USO DE DROGAS NÃO PERMITIDAS
Quando é feito o uso do crack ou até mesmo do mesclado.
→ exclusão sem retorno

Dicionário do PCC — versão original

Artigo 44. USO DE DROGAS NÃO PERMITIDAS:
Caracteriza-se quando faz uso do crack ou óxi, que a organização não permite. Em alguns estados foi solto um comunicado em cima do roupinol (comprimido e álcool), o que pode ser também punido.
Punição (no caso do crack e óxi): exclusão de início, sem retorno; (no caso do roupinol): de 90 a exclusão, dependendo da situação. Deve ser bem analisada pela Sintonia.

A cocaína 100% do Comando e o Crack

Se você não está dentro do Sistema, e em uma das unidades em que estão autorizadas a entrada da 100% do Comando, só lamento, mas vai morrer sem experimentar.

Vou te contar: nessas unidades, até os ASPENs sabem quando ela chegou, pois a tranca fica agitada e parece que vai virar, mas é só sairem da frente e esperarem a normalidade voltar.

A 100% do Comando — amarela e opaca — é uma super cocaína sem os efeitos colaterais trazidos pelo crack, uma droga especial, de edição limitada e de fabricação e distribuição controlada pelo alto escalão do PCC.

Antes de terminar, retiro o acordo que lhe propus.

Se você postar a fórmula da Coca-Cola, vai ser processado e fica por isso mesmo, mas eu, se postar a fórmula da 100% do Comando, vou ter que responder a um Salve — fala sério! Não é uma troca justa.

Um caso real de um aliado do PCC

Uso de drogas proibidas pela facçãoO Bonde dos 40 do Maranhão corre junto com os garotos do Primeiro Comando da Capital, e como acontece com a maioria dos aliados, algumas práticas da facção paulista são absorvidas. Ricardo matou seu companheiro de facção que não conseguiu abandonar uso do “loló, uma droga baseada baseado em clorofórmio e éter e que está na lista negra das facões criminosas.

Legalizar as drogas: sim ou não?

Policiais e bandidos concordam pelo menos em uma coisa: as vendas de drogas devem ser proibidas e combatidas, mas há presidentes americanos que discordam — qual a posição da facção paulista Primeiro Comando da Capital?

O que os traficantes pensam sobre a legalização das drogas?

Perguntaria para o Marcola em Venceslau sobre essa questão, mas ele não atende ao celular, e está certo ele — então como posso saber qual a posição do Primeiro Comando da Capital, a facção PCC 1533, em relação a legalização das drogas?

Para infelicidade daqueles que trabalham com jornalismo, todas as fontes tem que ser conferidas para não cair em descrédito, mas, para minha felicidade, no mundo das crônicas é diferente.

Na semana que passou, trombei com uma publicação sobre segurança internacional da Conferência do Forte de Copacabana, organizada em conjunto pela Fundação Konrad Adenauer (KAS) e pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), com apoio da Delegação da União Europeia no Brasil:

A visão sul-americana para uma melhor colaboração entre a América do Sul e a Europa contra o Tráfico de Drogas

Thiago Rodrigues e Carol Viviana Porto foram os autores do artigo que, pelo menos para mim, suscitou uma dúvida: Como os traficantes e os líderes do crime organizado analisam a questão da liberação do uso das drogas?

Onde citei neste site sobre a imprensa → ۞

Drogas — uma questão de ideologia

Posso não ter certeza do que Marcola pensa sobre esse tema, mas três presidentes americanos se manifestaram sobre a política de repressão às drogas:

Nixon, que considerou que a guerra contra as drogas era um grande fracasso; Obama, que a considerou inútil; e Carter que disse que a punição excessiva destruiu a vida de milhões de famílias.

No Brasil, jogamos no campo da ideologia questões técnicas, e abandonar a atual política de repressão e encarceramento na questão das drogas é um desses exemplos — coisa de comunista e de moleques nóias — mas qual dos dois casos se encaixam então os presidentes americanos Nixon, Obama e Carter?

Onde citei neste site sobre a legalização das drogas → ۞

E no Brasil — Lula e Dilma?

Ambos são assumidamente pessoas ligadas a “esquerda”, e no período de governo dos dois houve uma aceleração dos encarceramentos e do combate as drogas.

Se levarmos em conta apenas os fatos aqui citados, veremos então que à “direita” representada pelo ponto de vista dos presidentes americanos é a favor do abrandamento, e a “esquerda” prefere prender os envolvidos.

Mas isso é puro sofisma!

Sabemos então o que pensam cinco presidentes, mas e Marcola, os traficantes e os líderes do crime organizado? Os garotos do corre, a ponta mais conhecida do tráfico, dão de ombros, não pensam sobre isso, os gerentes de biqueira não esquentam, sempre se viraram e sempre se virarão, e a cúpula?

É fácil supor ao ler o artigo de Thiago e Carol:

O atual sistema de repressão ao tráfico de entorpecentes nos Estados Unidos não diminuiu o consumo naquela nação, mas impediu que se produzissem as drogas, permitindo rápida expansão das áreas cultivadas e da industrialização dos produtos para suprir o mercado americano — PCC, CV, FDN, GDE, SCRN e ADA agradecem.

Onde citei neste site sobre a crimes transnacionais → ۞

Sistema integrado transnacional

O tempo para o amadorismo passou e o sistema de repressão ao tráfico de entorpecentes obrigou a criação de organizações criminosas com uma intrincada estrutura dentro do território brasileiro e com ramificações internacionais:

  • produção das folhas — Peru e na Bolívia;
  • produção da pasta e distribuição internacional — Colômbia;
  • entrepostos — Caribe, Canárias, Madeira, Guiné-Bissau, Guiné e Costa do Marfim;
  • portos — Galícia, Marselha e Nápoles; e
  • sistema financeiro — China, Uruguai e Caribe.

Enquanto a polícia posta foto de trinta tubetes formando a sigla PCC acompanhada da frase “dando prejuízo ao tráfico”.

O mundo gira, a imprensa tem matéria para postar, um outro garoto vai substituir na biqueira aquele que foi levado pela polícia para fazer a doutrinação nas regras da facção dentro do sistema prisional, e o cidadão se sente mais seguro.

Onde citei neste site sobre os produtores: Peru e a Bolívia→ ۞

Só que a estrutura se fortalece e se profissionaliza ainda mais

Para infelicidade daqueles que trabalham com jornalismo, todas as fontes tem que ser conferidas para não cair em descrédito, mas, para minha felicidade, no mundo das crônicas é diferente.

Eu posso afirmar que Marcola, os traficantes e os líderes do crime organizado analisam a questão da liberação do uso das drogas como sendo prejudicial aos seus negócios — sem ter que perguntar a eles.

Thiago e Carol, em seu trabalho, fazem uma análise do fluxo internacional da cocaína e das metanfetaminas e da política de drogas na América do Sul.

A consequência desse movimento pode ser notado pela análise do número de homicídios em um quadro comparativo por país, além de uma análise da tendência de combate às drogas em países da União Européia e no Uruguai.

Os dois pesquisadores, o Uruguai e a Europa, estão buscando outras formas de resolver a questão das drogas, sem se preocuparem com o que o policial, você, eu ou Marcola pensamos a esse respeito — é um absurdo!

O combate, se houver terá que ser integrado

María del Rosario Rodríguez Cuitiño no artigo La lucha contra el crimen
organizado y el terrorismo en Uruguay: Un desafío a enfrentar, publicado pela Revista de Estudios en Seguridad Internacional, explica:

Dada a natureza transnacional das ameaças, para prevenir, punir e erradicar o crime organizado, os planos e as respostas devem basear-se na coordenação interinstitucional e nos acordos de cooperação internacional. Neste contexto, apresenta-se como uma questão central e um desafio, acompanhar com atenção as atividades expansivas nos países vizinhos, o maior grupo criminoso do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC), sendo essencial a cooperação com esse país para desmantelar futuras operações fronteiriças com o Uruguai.

Como Ramalho (2017) afirma, as receitas do PCC são estimadas em cerca de US $ 38 milhões por ano, A luta contra o crime organizado, dos quais 80% desse montante está ligado ao negócio de dogas. Em suas palavras, este grupo criminoso tem cerca de 11.000 membros que pagam parcelas mensais de beneficiar de serviços de proteção nas prisões (o grupo controla prisões em 22 dos 27 estados da federação), que impõe ordem e disciplina, gestão, incluindo a tipo de droga vendida internamente. (Ramalho 2017: 130).