Google Trends 2019: Facção PCC 1533

O que o Google Trends 2019 pode nos dizer sobre as mudanças pelas quais passou o Primeiro Comando da Capital no Brasil de Bolsonaro?

A facção PCC 1533 na era Bolsonaro

Se até 2018 não se podia falar em “crime organizado” sem mencionar a facção PCC 1533, neste ano ela ficou somente em 14º lugar entre os “principais assuntos relacionados” e sequer apareceu no quadro das “principais pesquisas relacionadas”.

Além disso, os usuários do Google, pela primeira vez, não vincularam o nome da facção paulista ao termo “organização criminosa” ― em 2018 o PCC estava em 16º lugar nos “principais assuntos relacionados”.

Nada acontece por acaso, e essa invisibilidade e desinteresse do usuário do Google é consequência do amadurecimento da organização e da ascensão ao poder do presidente Jair Bolsonaro e do fortalecimento das milícias pelo Brasil.

Os links no decorrer deste texto encaminham para o gráfico Treds específicos; e os índices estão na escala de 0 a 100, mesmo que sejam fruto da análise de termos independentes que se completam, como: “guerra entre facções” e “PCC vs CV” ou “Primeiro Comando da Capital”, “PCC 1533” e “facção PCC”.

Homem passa em frente aos símbolos do Primeiro Comando da Capital e dos milicianos sob o título "Promotor de Justiça confirma".
Aliança: facções PCC TCP e milicia

O fim da era das guerras entre facções

Bolsonaro e Wilson Witzel enfraqueceram a facção carioca Comando Vermelho (CV), e com isso a facção paulista Primeiro Comando da Capital pôde se dedicar aos negócios longe dos holofotes midiáticos.

As cruéis execuções que ocorreram corriqueiramente até 2018, tanto nas ruas quanto dentro dos presídios, quase que desapareceram dos noticiários e das redes sociais, tendo sido substituídas pela “violência policial”. 

Em janeiro de 2017, no ápice da guerra entre o PCC e o CV, o interesse público alcançou 100 pontos, mas 2019 fechou com o índice médio em 3,2 pontos.

O PCC e seu aliado carioca, o Terceiro Comando Puro (TCP), teriam fechado acordos com grupos milicianos evitando o confronto direto com seus inimigos, que passaram a morrer em “confronto com a polícia”, diminuindo a atenção pública sobre a organização criminosa.

O crime organizado estaria ainda mais organizado: agora passa a utilizar as forças de segurança do Estado.

A tradicional aliada do PCC no Rio, a facção Amigo dos Amigos (ADA), quase foi varrida do mapa em 2018 pelos grupos rivais, mas o interesse público sobre ela e sobre o TPC ganhou novo fôlego em 2019.

Em 2018, enquanto a “guerra entre facções” alcançou 90 pontos, a busca por “violência policial” chegou a zero. Já em 2019 a posição se inverteu, e para cada pesquisa pelo termo “guerra entre facções” foram feitas quatro por “violência policial”.

Quem te via e quem te vê:

Até meados de 2018 o brasileiro que pesquisava sobre “guerra entre facções” procurava saber sobre o PCC, o CV e a facção Família do Norte (FDN). Já em 2019 o interesse dos usuários focava-se mais sobre filmes do que sobre a realidade.

Miniaturas das imagens mais buscadas na internet em 2019 sobre a facção "Primeiro Comando da Capital"
Imagens mais buscadas 2019: “Primeiro Comando da Capital”

A “facção PCC 1533” já é de casa

Cada vez mais o usuário do Google trata com intimidade a facção paulista.

Historicamente 67% das pesquisas são para o termo “Primeiro Comando da Capital”, mas em 2019, pela primeira vez, as consultas com os termos abreviados “PCC 1533” e “Facção PCC” foram mais utilizadas (60%).

A forma como se faz a consulta reflete o tipo de usuário: se o termo completo é, por um lado, mais utilizado por profissionais como jornalistas, pesquisadores ou agentes públicos, por outro, os termos curtos são buscados pela garotada.

O uso da facção como argumento político fica claro quando analisamos as buscas feitas nos últimos 10 anos. Em 2019, com as eleições nacional e estaduais, mesmo não havendo ataques da facção, o índice de busca ficou muito acima da média.

A garotada quer saber sobre “frases do PCC” ou “o que significa 1533” e navegar pelas imagens dos símbolos; já os que pesquisam pelo nome completo buscam informações sobre o Estatuto, Marcola e o Comando Vermelho.

As principais perguntas feitas na rede mundial sobre o PCC 1533 foram: “quando surgiu?”, “qual é o lema?” e “qual é a maior facção criminosa do Brasil?”.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, voltou a ser lançado ao estrelato em 2019, mantendo o mesmo índice de audiência de sua transferência de 2014 (49 pontos). O interesse público por ele só foi superior em 2006 durante os ataques do PCC (100 pontos).

As pesquisas por imagens da facção utilizando-se o Coringa superaram Yin Yang (Town & Country), Marcola, carpa e Bob Marley somados, só ficando atrás do “palhaço” (não obrigatoriamente o Coringa) ― consequência do filme lançado em 2019.

Segundo o Google, outras pesquisas relacionadas à facção são: favelas, penitenciária, grupo musical Facção Central, arma, mal e, por incrível que pareça, curriculum vitae.

Para minha maior surpresa:

Os usuários do Google não vincularam o Primeiro Comando da Capital aos termos “sistema prisional”, “opressão carcerária”, e “tráfico de drogas”. Nas buscas relacionadas a “presídio” o PCC ficou apenas em 16ª posição.

Miniaturas das 10 imagens mais relevantes segundo o buscador sob a frase 2019 Top 10 - "facção PCC"
Imagens mais buscadas 2019: “facção PCC”

A facção PCC 1533 no mundo

A falta de ações espetaculares derrubou o interesse pela organização criminosa no exterior, que passou quase despercebida. As principais pesquisa foram feitas em Portugal, Taiwan, Países Baixos, Argentina e Itália.

Em língua espanhola se consolidou “Primer Comando Capital”, sendo o termo “Primer Comando de la Capital” utilizado apenas raramente na Argentina. Os países onde houve mais buscas foram: Uruguai, Paraguai, Argentina, Peru e Chile.

Assim como no Brasil, a facção também foi utilizada como ferramenta em campanha política, como demonstra os dados do Trends: o Uruguai alcançou 100 pontos em 2019, enquanto que no restante da década a média foi inferior a 1 ponto.

A soma de todas as pesquisas em língua espanhola feita pelo mundo (excetuado o Uruguai) seguiu a proporção usual: para cada quatro pesquisas feitas no Paraguai, uma é feita em outro local da América do Sul.

Em inglês, as pesquisas têm duas origens: Inglaterra e Estados Unidos. Sendo que na terra da Rainha todas as pesquisas utilizam o termo “First Capital Command”, enquanto que nos EUA 57% delas seguem a grafia “First Command of the Capital”.

Miniatura das 10 imagens mais relevantes segundo o Google para a frase "PCC 1533"
Imagens mais buscadas 2019: “PCC 1533”

A facção PCC 1533 nos estados

Historicamente Alagoas é o estado em que mais se pesquisa a respeito do termo “Primeiro Comando da Capital”, e neste ano não foi diferente, mas o que salta aos olhos é o aumento que se deu nas pesquisas vindas do Distrito Federal, do Espírito Santo e do Maranhão.

Se na maioria dos estados da federação não houve alteração significativa de interesse a respeito da facção, nos estados da Bahia, do Mato Grosso do Sul e do Rio Grande do Norte as buscas caíram pela metade.

Agradecimento aos mais de 130.000 visitantes que nos prestigiaram em 2019 com 265.000 visualizações.

PCC 1533: Pacote Anticrime, Lei de Abuso de Autoridade, e Lei de Armas

Colocando em dúvida as conclusões de pesquisadores e seus argumentos contra as alterações na legislação propostas pelo governo federal

PCC 1533: Pacote Anticrime, Lei de Abuso de Autoridade e Lei de Armas

A facção PCC 1533 entre o Impuro e o Puro

De certo, Bolsonaro e Sérgio Moro estão certos, e o tempo há de provar.

Eu não tenho dúvidas que a “voz do povo é a voz de Deus”, e foi o povo quem elegeu nas urnas Jair Messias Bolsonaro e nas ruas e nos corações Sérgio Moro; portanto, eles representam a vontade de nosso povo e, consequentemente, a de Deus.

As mudanças legislativas propostas permitirão o efetivo combate aos criminosos pelas ilibadas forças policiais nas ruas assim que forem retiradas as amarras que ameaçam os agentes da lei com punições por supostos abuso de autoridade.

O aparelhamento de um sistema carcerário rigoroso e a investigação criminal e financeira são as outras duas bases desse tripé que levarão ao solo as organizações criminosas como a facção paulista Primeiro Comando da Capital.

De certo, José e os outros estão errados, e o tempo há de provar.

“E trará sobre eles a sua própria iniquidade; e os destruirá na sua própria malícia; o Senhor nosso Deus os destruirá.”

Salmos 94:23

Não venham José e Leonardo me dizer que são as condições sociais degradadas e o abandono das comunidades pelo Estado que levam os garotos ao crime, apontando que em São Paulo os homicídio se dão principalmente em regiões com alta concentração populacional, congestionamento domiciliar, menores oferta de emprego, leitos hospitalares e espaços e agências de promoção de lazer.

Não venham José e Leonardo me dizer que as ações policiais e prisionais propostas pelo governo não surtirão efeito pois o crime só recuará com a melhora da qualidade de vida da comunidade, a redução das desigualdades, o investimento no treinamento para a força de trabalho e a promoção do desenvolvimento social.

Não venham José e Leonardo me dizer que para diminuir a sensação de impunidade e a descrença nas forças policiais é preciso que elas sejam fortalecidas e aperfeiçoadas, e que os agentes que cometerem abusos precisam ser punidos.

Não venham José e Leonardo me dizer que ao mesmo tempo em que o Estado deve investir na qualificação do policiamento ostensivo e repressivo e no sistema prisional, deve também valorizar as pessoas que trabalham nessa difícil missão.

Não venham José e Leonardo me dizer que é necessário criar mais vagas dentro do sistema carcerário para que haja condições de segurança, saúde e dignidade.

“Não há qualquer ação voltada à capacitação e/ou ao incentivo aos funcionários, que seguem despreparados para a função e incapazes, muitas vezes, de se afastarem das práticas corruptas e dos jogos de poder que envolvem liderança e a direção da unidade – isso sem falar na redução cada vez maior do número de funcionários em relação ao número de presos.”

Camila Caldeira Nunes Dias

Não venha Sandra Cristiana Kleinschmitt me dizer que a criminalidade se fortalecerá sob o império do liberalismo econômico proposto por aquele que foi eleito pelo povo e reverbera a voz de Deus. Cristina chega a afirmar que:

“… o primeiro passo a ser dado é a mudança cultural na herança legada à maioria dos brasileiros do ‘crescer sempre mais’ […]. O desenvolvimento sustentável e solidário pode ser uma das formas de combater a incidência cada vez mais elevada de criminalidade violenta no país.”

Não me venha Fabrício Potim me dizer que a trilha seguida pelo eleito, facilitando a compra de armas automáticas (incluindo as 9mm que até então eram de uso exclusivo das forças armadas):

“Menos acesso a armas letais, por exemplo, é uma excelente idéia. Jovens se matam com mais facilidade porque achar uma arma de fogo é brincadeira de criança (literalmente, muitas vezes).” 

Não me venha Fabrício Potim me dizer que segurança pública “não é resultado direto da política de policiamento ostensivo, mas uma articulação de policiamento ostensivo junto com uma melhoria das condições básicas de vida nos bairros onde a violência era mais marcada.

Enfim, os pesquisadores José Orlando Ribeiro Rosário e Leonardo de Oliveira Freire em seu livro “Instrumentos de aprimoramento do acesso à Justiça” utilizam argumentos, apresentam referências e analisam dados que contradizem as propostas legislativas e ações de combate ao crime pelo governo do ungido.

Imagem com o Presidente Jair Bolsonaro, o ministro Sérgio Moro e uma mulher desesperada tendo ao fundo e a frente prisioneiros amotinados.

A facção PCC 1533 entre o Santo e o Profano

“Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios.”

Isaías 6:5

Um “cidadão de bem” deve ignorar argumentos e provas produzidas por pessoas que não foram ungidas pela vontade das urnas ou pelo coração do povo.

Deixe, o tempo há de provar quem está certo, mas nesse momento…

O Primeiro Comando da Capital se fortalece com as ações do governo Bolsonaro:

  • com o fortalecimento das milícias no Rio de Janeiro, o Comando Vermelho (CV) tem perdido espaço para a facção aliada do PCC, o Terceiro Comando Puro (TCP);
  • com o encarceramento em massa e a maior rigidez prisional, o recrutamento de novos membros para a facção e sua doutrinação cresce exponencialmente;
  • com o “cidadão de bem” comprando armas, as biqueiras vão poder novamente se rearmar – em vários estados as armas hoje só estão disponíveis para missões;
  • com Flávio Bolsonaro no apoio, não há que se preocupar com o Coaf pesquisando as movimentações financeiras da facção; e
  • com o aumento da letalidade e da violência policial incentivada pelos governantes, a comoção gerada pela morte de inocentes possibilitará a criação de regras mais rígidas para controlar o trabalho policial.

“E a meu povo ensinarão a distinguir entre o santo e o profano, e o farão discernir entre o impuro e o puro.”

Ezequiel 44:23

A aliança entre a ‘Ndrangheta e o PCC 1533

Resumidamente, o que existe de verdade na parceria entre a máfia italiana ‘Ndrangheta e a facção paulista Primeiro Comando da Capital.

PCC-‘Ndrangheta, a aliança criminosa internacional que inunda a Europa com cocaína

Yuri Neves e Monica Betancur → InSight Crime – Investigation and Analysis of Organized Crime

As recentes capturas de dois membros da ‘Ndrangheta, em São Paulo, revelaram mais uma vez a proximidade entre a máfia italiana e o PCC brasileiro, dois dos grupos criminosos mais poderosos do mundo.

Em 8 de julho, a Polícia Federal do Brasil prendeu Nicola e Patrick Assisi em São Paulo por suspeita de tráfico de drogas. Nicola Assis é supostamente o principal contato da ‘Ndrangheta na América do Sul e trabalhou com o grupo brasileiro Primeiro Comando da Capital (PCC) para introduzir a cocaína na Europa, segundo pesquisa publicada no jornal Expresso.

Essas prisões não são mais do que os mais recentes indícios de que os dois grupos coordenam de perto suas atividades de tráfico de drogas. Uma investigação policial constatou que o chefe do clã Pelle de la ‘Ndrangheta, Domenico Pelle, viajou a São Paulo pelo menos duas vezes entre 2016 e 2017. Durante esse período, acredita-se que ele tenha se encontrado com Gilberto Aparecido dos Santos, também conhecido como Fuminho, a mão direita do líder preso do PCC Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. Fuminho é um dos criminosos mais procurados no Brasil e acredita-se que coordena as remessas internacionais de cocaína da Bolívia para o PCC.

Enquanto isso, no primeiro semestre de 2019, as apreensões de drogas no Brasil aumentaram mais de 90%. Grande parte dessa cocaína se dirigia para a Europa, onde a ‘Ndrangheta controla as rotas de tráfego em grande parte do continente.

Sobre um fundo azul o símbolo das duas organizações criminosas: Primeiro Comando da Capital e 'Ndrangheta
‘Ndrangheta e PCC 1533 logística transoceânica

Análise da organização InSight Crime:

Uma união de conveniência entre a ‘Ndrangheta e o PCC para contrabandear narcóticos do Brasil para a Europa foi consumada. Cada grupo controla um ponto no fluxo de cocaína, o que não representa risco para a contraparte.

Nos últimos anos, o PCC tem trabalhado para dominar redes de entrada ilegal e centros de transporte no Brasil e nos países vizinhos. Essa extensa rede de logística transformou-os no principal aliado criminoso de organizações estrangeiras que procuram tirar cocaína do Brasil. Por seu turno, o ‘Ndrangheta tem controle do movimento de cocaína para os consumidores no continente europeu.

A expansão do PCC inclui incursões na Bolívia, onde o grupo pode comprar cocaína diretamente dos produtores daquele país, segundo a Americas Quarterly. Fontes policiais no Brasil, falando sob condição de anonimato, disseram à InSight Crime que Fuminho está desempenhando um papel crucial na presença do PCC na Bolívia. Então, a cocaína é transferida para o Paraguai, um destino importante para mercadorias ilegais sob cujo controle o PCC travou uma dura batalha .

Do Paraguai, o grupo direciona a cocaína para cidades brasileiras de fronteira, como Ponta Porã e Foz do Iguaçu, segundo uma investigação do UOL. No entanto, fontes consultadas pela InSight Crime revelaram que Foz do Iguaçu foi em grande parte substituída por outros cruzamentos, especialmente pequenos atrelados entre Ponta Porã, no estado do Mato Grosso do Sul, e Guaíra, no estado do Paraná, onde há menos segurança. .

A droga é então transferida para o interior do país e, finalmente, para os portos de Santos (22,7 toneladas de cocaína apreendidas em 2018), Paranaguá (4,3 toneladas) e Itajaí (0,46 toneladas) no sudeste do Brasil. . O porto de Santos é um dos maiores centros portuários de toda a América Latina e um importante canal de narcóticos para a Europa. Em 2019, cerca de metade das apreensões de drogas foram realizadas neste porto, onde o PCC controla o fluxo de narcóticos .

Nenhum outro grupo criminoso no Brasil conseguiu uma rede logística que cubra toda a região, o que permite ao grupo controlar o movimento e a venda de cocaína para organizações estrangeiras, como a ‘Ndrangheta.

VEJA TAMBÉM: Detenções indicam que policiais corruptos estão colaborando na expansão do PCC no Paraguai

A máfia italiana opera no Brasil desde pelo menos os anos oitenta, segundo a Polícia Europeia. Naquela década, o clã Morabito de ‘Ndrangheta, dirigido por Giuseppe Morabito, coordenava as remessas de drogas de São Paulo para a cidade italiana de Milão.

Agora, o grupo tem cúmplices em toda a Europa, com a capacidade de descarregar drogas em portos de importância crucial, como Antuérpia, Hamburgo e Roterdã. Quando os carregamentos chegam, o ‘Ndrangheta trabalha com traficantes italianos , que transportam os narcóticos para uma distribuição mais ampla em toda a Europa.

Embora ambos os grupos tenham outras fontes de renda, esse canal transnacional desempenhou um papel importante no sucesso e expansão de cada um dos grupos. Nos últimos anos, o PCC experimentou um crescimento exponencial. Documentos apreendidos pelas autoridades em 2018 mostraram que a renda anual dos grupos poderia chegar a US$ 200 milhões. Os documentos também revelaram que as afiliadas do grupo em todo o Brasil e outros países se multiplicaram, passando de pouco mais de 3.000 em 2014 para mais de 20.000 em 2018.

Ter um fluxo contínuo de cocaína do Brasil também tem sido crucial para a ‘Ndrangheta. O grupo pode controlar até 80% de toda a cocaína que entra na Europa, a principal fonte dos enormes ganhos criminosos do grupo, estimados em US$ 60 bilhões por ano, comparável ao PIB da Croácia ou da Bulgária, segundo a CNN.

O memoricídio e o nascedouro da facção PCC 1533

Os que fomentaram o mal que nos atinge são aqueles que se apresentam como paladinos de nossa proteção: o memoricídio e a facção Primeiro Comando da Capital.

O memoricídio e o nascedouro da facção PCC 1533

Recebi essa semana seu e-mail, no qual você pediu para que eu escrevesse sobre o tempo em que o sistema prisional ainda não estava sob o controle total da facção Primeiro Comando da Capital:

Mas não farei o que me pede, irmão.

Sem querer, você mexeu com minha sanidade ao desenterrar tristes lembranças, e agora, enquanto o respondo, sou tomado pelo frio, pela tristeza e pelo rancor que eu já havia deixado para trás.

Depois daquela noite em 1982, meus sonhos noturnos me abandonaram, e passei a sonhar durante o dia. Sobre isso, nosso amigo Edgar, quase nunca sóbrio, mas sempre com filosófica sobriedade, me disse que eu é que era um cara de sorte:

“Aqueles que sonham de dia sabem muitas coisas que escapam àqueles que somente de noite sonham. Nas suas vagas visões obtêm relances de eternidade e, quando despertam, estremecem ao verem que estiveram mesmo à beira do grande segredo.”

Mas você sabe, Edgar é um otimista patológico.

Desde que o frio, a tristeza e o rancor se abateram sobre os meus, eu nunca sei se o que vejo ou o que lembro é de fato real ou se é algo criado em minha mente por forças que eu não tenho como dominar.

Peço que desconsidere algum trecho que lhe pareça ter sido fruto de um desses sonhos diurnos forjados pelo caos que se tornou minha mente, ou então que lhe pareça que seja uma memória que jamais deveria ter sido resgatada das masmorras do passado.

Arte sobre foto de uma veranio da Polícia Civil em frente a uma chácara sob o texto "A investigação da Civil e o esclarecimento do homicídio".
O esclarecimento do crime pela Polícia Civil

Os garotos e o assassinato na chácara

Logo que voltei à cidade, por volta de 1980, vivi em uma chácara com uma mulher e seus três filhos. Formávamos um belo casal, e aquelas crianças faziam de nosso lar um lugar sagrado e feliz.

As crianças cresceram, e o mais velho, Lucas, acabara de fazer 18 anos, enquanto seus irmãos, Luciano e Luan, eram apenas um pouco mais novos – maldita hora em que eu brinquei numa noite dizendo que só faltava Lúcifer para completar a família!

Como sempre, às sextas-feiras, Lucas foi com Luciano até uma chácara não muito longe da qual morávamos, mas naquela noite houve por lá um assassinato – nunca saberemos ao certo o que realmente ocorreu, mas o dono da chácara foi morto.

Os garotos voltaram assustados e não conseguiam falar coisa com coisa – estavam em choque.

Assim como é hoje, na década de 1980, a polícia queria mostrar serviço, e no dia seguinte uma viatura veraneio preto e branca foi até a chácara para levar Lucas e Luciano à delegacia para ajudar a esclarecer o crime.

Nunca perguntei o nome daquele policial que levou os meninos, mas deve ter sido aquele que sem querer invoquei na noite anterior – Luciano não mais voltou vivo.

Arte sobre foto de uma viatura veraneio da Polícia Civil, uma carceragem lotada e o símbolo da Justiça.
Sistema de (In)Justiça Pública

Polícia, MP-SP e Justiça: parceiros na injustiça

À noite, estranhamos que os garotos não voltavam da delegacia. Não tínhamos como chegar até a cidade, e Luan, o mais novo, seguiu a pé – era uma caminhada de pelo menos duas horas e ele não voltaria antes da meia-noite. Esperamos a noite toda.

No dia seguinte, a mãe dos garotos pegou uma carona com vizinhos. Na delegacia não teve notícias de Luan, informaram que Lucas confessou ter matado o dono da chácara para roubar seus pertences e que Luciano morrera:

Ao sair da chácara no dia anterior, a viatura não foi para a delegacia, e sim “fazer diligências com os garotos em uma fazenda”, e quando os policiais desceram com os garotos para conversar , Luan teria tentado pegar a arma do policial e foi morto.

Naquele tempo, o que o policial colocava no papel a Promotoria de Justiça aceitava (mais ou menos como acontece hoje); não havia audiências de custódia (instituídas em 2015), e os presos não eram enviados para os centros de detenção provisória (que nem existiam).

Foto do pesquisador Wilton Antonio Machado Junior tendo ao fundo uma carceragem superlotada.
Wilton Antonio Machado Junior

Sozinho não resgataria essas minhas antigas lembranças que estavam enterradas, mas você com o auxílio de Wilton Antonio Machado Junior, que me mostrou imagens do passado em sua análise das violações dos Direitos Humanos a partir do “Massacre do Carandiru”, regataram essas lembranças.

Meu sangue esfriou ao ler sua descrição do horror que eram as antigas “cadeias públicas” espalhadas por todas as cidades do interior e bairros da capital – milhares de homens enjaulados e empilhados, muitos sem julgamento, e outros tantos sem nem mesmo inquéritos (encarcerados provisoriamente pela capricho de algum político, empresário, ou delegado).

Me lembrou todas aquelas noites quando a mãe dos meninos voltava para casa contando os horrores que havia ouvido entre as mães e mulheres de prisioneiros que ficavam no entorno da delegacia – quando não eram enxotadas pelos policiais entre pilhérias como cães sarnentos.

Havia preço para tudo: ver o preso fora do dia da visita; deixar o “faxina” ou o carcereiro entrar com alguma coisa; e até mesmo a liberdade podia cantar, mas aí a conversa tinha que ser bem conversada, e não dava para nós.

Arte com um jovem branco e um negro, ambos atrás das grades tendo a frente o símbolo vendado da Justiça.
Iniquidades sob os olhos vendados da Justiça

Estupro como empreendimento comercial no cárcere

Nesse ponto em que lhe escrevo, o frio, a tristeza e o rancor correm por onde antes fluía meu sangue, tudo porque você desenterrou lembranças de um passado que nunca deveria ter existido, mas que está cada dia mais perto de retornar, se não para mim, para outros.

Fico com ódio só de lembrar da noite em que a mãe dos meninos chegou chorando, pois soube que o garoto estava sendo usado como escravo sexual para que ela não fosse estuprada no dia da visita.

Quando ela relatou o caso para o carcereiro, ele se prontificou a retirá-lo da cela onde estava e colocá-lo em uma mais segura, mas pediu um dinheiro que não tínhamos, então deu de ombros.

Durante muitos anos, a mãe dos meninos ficou todos os dias em frente à delegacia para que dessem notícia de Luan, o mais novo, que havia sumido ao ir procurar os outros, e ficando lá, ela sentia que de certa foram protegia o filho que lá ainda estava preso.

Quando ela não retornava a noite, eu sabia que era por que a “tranca virou”, havia motim e algum preso iria morrer, para alegria da mídia que venderia mais jornais, dos políticos que apareceriam dando soluções mágicas ou do delegado que virava pop star.

As fotos dos ex-governadores Franco Montoro e Mario Covas tendo ao fundo uma sala com grades e um prisioneiro.
A redemocratização e o sistema prisional

O Estado humanizando o sistema carcerário

Após o julgamento, se condenado, Lucas iria ou para a “Casa de Detenção do Carandiru” ou para a Penitenciária do Estado na capital, ambos depósitos pútridos de gente – havia outras 13 penitenciárias, mas os condenados daqui sempre iam para a capital.

Hoje, olhando para aquele tempo, vejo que o governador tentava humanizar o sistema prisional, mas a cultura do ódio havia degenerado o sistema como um câncer, alimentado por interesses políticos e econômicos enraizados na polícia durante o Regime Militar.

E mudanças culturais não ocorrem da noite para o dia:

“Ainda nos meados dos anos 1980, tentou-se mudar as políticas carcerárias sob o governo de Franco Montoro em São Paulo. O propósito da mudança era a de tornar mais transparentes os sistemas prisionais e tentar acabar com a péssima visão que as pessoas tinham de decisões tomadas de forma arbitrária pela força policial, além da violência que era atrelada ao regime militar.”

O garoto viveu os piores horrores por quatro anos até seu julgamento, no qual foi inocentado – não havia provas, apenas a sua confissão, que foi colhida na delegacia e que apresentava contradições com a forma como o homem foi de fato morto.

Lucas foi torturado e preso por policiais que forjaram a sua confissão, mataram Luciano e sumiram com Luan que nunca fez mal a ninguém… e os responsáveis sequer tiveram que responder por seus crimes e pela tragédia que impuseram à família.

Maldita hora no qual brinquei que só faltava Lúcifer para completar nossa família! Ele não se fez de rogado, veio no dia seguinte em uma viatura veraneio preto e branca para destruir minha família e inundar de frio, tristeza e rancor minhas veias.

Arte sobre foto de policiais com calibre doze tendo ao fundo o Presídio do Carandiru.
O Massacre do Carandiru como berço do PCC 1533

Da opressão do cárcere nasce a facção PCC

Na década de 1990, as revoltas explodiram nas “cadeias públicas” e no restante do sistema prisional brasileiro – a população carcerária não aguentava mais a opressão dentro do sistema prisional paulista, o que faz surgir a facção PCC 1533.

“As organizações criminosas tomam conta porque elas fazem o trabalho que o Estado não vai fazer: o cara está querendo sobreviver a prisão, sem ser estuprado e tentar alguma dignidade básica e tem uma organização criminosa que fornece isso.”

Carapanã: Viracasacas Podcast (em 1h11m11s do episódio 125)

Agentes públicos e gangues que agiam dentro do sistema prisional tiveram que se curvar diante de um grupo hegemônico e coeso, cessando a carnificina e a exploração.

José Roberto de Toledo, da Revista Piauí, nos conta com assombro como é essa nova realidade:

“Nos estados onde você tem uma situação consolidada de poder, como é o caso de São Paulo, onde o PCC manda e desmanda e opera de dentro da cadeia sem nenhum tipo de oposição, aí a taxa de homicídio dentro dos presídios cai brutalmente. Tem até uma curiosidade […] em São Paulo, se você for um homem adulto, com mais de 18 anos, você tem o dobro de risco de ser assassinado se você estiver na rua do que se você estiver na cadeia”.

Lucas foi solto antes que a hegemonia do Primeiro Comando da Capital trouxesse para dentro dos cárceres a pacificação, e emparedasse o Estado exigindo melhores condições nos cárceres, como constava no Estatuto do PCC de 1997:

Temos que permanecer unidos e organizados para evitarmos que ocorra novamente um massacre, semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção em 02 de outubro de 1992, onde 111 presos, foram covardemente assassinados, massacre este que jamais será esquecido na consciência da sociedade brasileira. Por que nós do Comando vamos sacudir o Sistema e fazer essas autoridades mudar a prática carcerária, desumana, cheia de injustiça, opressão, torturas, massacres nas prisões.

No total, 111 presidiários foram assassinados por 74 policiais, embora os presos feridos que pereceram depois nunca entraram na contagem, o que indica que cada policial teve pelo menos 1,4 cadáver para chamar de seu – apesar da atrocidade, 52 desses PMs foram promovidos.

Com a repercussão internacional do massacre e vendo que os presos não abandonaram a luta, ao contrário, recrudesceram-na, o estado de São Paulo passou a paulatinamente adotar políticas visando a criação de condições mais dignas dentro dos cárceres.

Foto dos pesquisadores Vanessa Alexsandra de Melo Pedroso e Carlos Jardim de Oliveira Jardim tendo ao fundo a frase "desumanização, eficácia da estrutura da crueldade".
Castigo abstrato e castigo Concreto

Perdoando aquele que mata mas não perdoa

Tantos afirmavam que eu deveria entender a ação dos policiais que mataram Luciano, desapareceram com Luan, fizeram de Lucas um homem que hoje perambula pelas ruas catando latinhas, e enlouqueceram a mãe dos garotos que…

… eu aceitei e enterrei essas lembranças no fundo das masmorras da memória e não mais pretendia resgatá-las, perdoando e esquecendo o mal causado por aqueles assassinos, que por sua vez, não foram capazes de perdoar um garoto empinando pipa com uma paradinha na mão:

“Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.”

Colossenses 3:13

Os pesquisadores Vanessa Alexsandra de Melo Pedroso e Carlos Jair de Oliveira Jardim da Universidade Católica de Pernambuco me falaram longamente sobre o que eles chamam de castigo abstrato e castigo concreto.

Para uns, o que aqueles policiais militares fizeram no Carandiru ou o que os policiais civis fizeram com os meninos foram crimes cujos responsáveis deveriam ter sido punidos, mas, para outros, não.

Para uns, o que aqueles garotos, que empinam pipas ou conversam nas ruas e praças e vendem drogas para quem os procuram, fazem deveria ter uma punição, mas, para outros, não.

Em algumas nações, esses policiais ficariam presos, isso se não fossem condenados à morte, enquanto em outras nações os garotos poderiam vender legalmente certas drogas em lojas.

“[…] o elemento que transforma o ilícito em crime é a decisão política – o ato do legislativo – que o vincula a uma pena […]”

Foto da pesquisadora Tarsila Flores tendo ao fundo criminosos e policiais.
Diferentes porém iguais: policiais e criminosos

Presos do PCC e policiais e o efeito dobradiça

O Primeiro Comando da Capital conquistou a hegemonia pela força, assim como as forças policiais mantêm sob controle a criminalidade com demonstrações de poder e crueldade. É o efeito dobradiça descrito pela pesquisadora Tarsila Flores:

“[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…”

Muitas pessoas vivem em redomas imaginárias nas quais buscam não ver o mundo real onde “cortar as cabeças é uma forma de intimidar os inimigos e isso ficou mais fácil com as mídias sociais, com as imagens transmitidas por meio dos telefones celulares”.

A complexidade que envolve a referida situação repugna toda e qualquer tentativa na suposta identificação de um único responsável que dispare o gatilho da geração desse fenômeno.

Ilustração com Cristo na Mansão dos Mortos.
Enquanto “cidadão de bem” torce para preso morrer, Cristo…

Um longo caminho separa a justiça carcerária

Desde que tudo isso aconteceu com os meninos, a realidade mudou muito à custa de rios de sangue, inclusive de inocentes.

A organização dos cativos em torno da facção Primeiro Comando da Capital, assim como governos que investiram na aplicação de metodologias humanistas na administração carcerária, conseguiu manter a fervura sob controle.

No entanto, ainda hoje há presos cuja totalidade da pena já foi cumprida, porém ainda se encontram nas dependências do cárcere, esperando o BI para cantar a liberdade que deve ser feito por um advogado, profissional que, por vezes, aproveita mais essa oportunidade de lucrar com as famílias.

A iniquidade aumenta o grau de insatisfação e revolta dos internos no sistema prisional, o que não deve acabar tão cedo, afinal alguém tem que sustentar um milhão e cem mil advogados e mais cem mil formados todos os anos.

Esses, assim como “as polícias encarregadas da segurança pública, mas que não é a regra do comportamento do seu contingente, se esquecem, por vezes, do seu verdadeiro sentido de existência” – uns de garantir a aplicação da Justiça e outros de prestar segurança.

A sociedade é complexa e os interesses se opõem, isso é natural, algo da condição humana. Não há bons e nem maus, apenas pessoas que querem viver e lutam pelo seu espaço, e por isso que não vou escrever sobre o que você me pede, pois desenterraria antigas lembranças.

Fotomontagem com uma viatura da Polícia Civil em frente a um grupo de presos atrás das grades.
Apagando da memória o sofrimento alheio

A política do apagamento do sofrimento do outro

“Quem decide o que deve ser lembrado ou esquecido? Alguém toma a decisão do que fica guardado em nossa memória ou nós tomamos deliberadamente? É um processo deliberado ou algo que acontece por acaso? E o que há de político nisso?”

O repórter Walter Porto fez essas perguntas de maneira retórica em seu podcast, no qual entrevistou a pesquisadora Giselle Beiguelman, autora do livro “Memória da Amnésia – Políticas do Esquecimento”, mas pareceu-me que foram feitas diretamente a mim.

Eu escolhi por minha própria vontade enterrar a lembrança dos crimes cometidos por aqueles policiais, chancelados e protegidos por Promotores de Justiça e Juízes? Será que eu enterrei fundo aquelas lembranças por minha própria opção?

Giselle afirma que não. Eu fui apenas um entre milhares ao longo de nossa história, pois esse memoricídio acontece no Brasil desde a chegada dos portugueses, passando pela escravidão e pelo Regime Militar.

Imagem de um guarda ajudando as crianças de uma escola a atravessarem a rua.
Doutrinando no esquecimento seletivo

Eu, Giselle, aquele policial que estava na viatura preto e branca que foi buscar os garotos e os profissionais da máquina prisional na década de 1980 éramos crias da Ditadura Militar.

“De alguma maneira, essas décadas produziram um esquecimento, sobre o presente de então, que agora é o nosso passado.”

Fomos doutrinados nas aulas de “Educação Moral e Cívica (EMC)” ou de “Organização Social e Política do Brasil (OSPB)”, que nos apresentavam um mundo separado entre o “bem”, encarnado nos agentes de segurança, e o “mal”, rebelde e insubordinado.

A decisão de perdoar e esquecer tomada por nós que tivemos nossos garotos mortos, torturados, presos ou desaparecidos foi induzida pelo clima da “anistia ampla geral e irrestrita”, que se incorporou à cultura nacional pós abertura política e vige até hoje.

Políticos populistas prometem endurecer o sistema prisional e ampliar o poder dos agentes prisionais e policiais – sob os zurros de aprovação de jovens que nem tem ideia do que isso de fato significa.

Cada um desses garotos que zurram acredita estar protegido por sua bolha imaginária, como se Lúcifer se importasse se de fato eles são trabalhadores, estudantes ou vagabundos – assim como foi no passado, o Promotor e o Juíz acreditarão na versão que o policial apresentar.

Eu desejaria que você não tivesse tirado do fundo da masmorra de minhas memórias essas lembranças que envenenaram novamente meu sangue e minha mente, e, por isso, não vou escrever sobre o que você pede, mesmo por que não poderei escrever por algum tempo.

Hoje, dia dos pais, eu estava a caminho do cemitério para visitar o túmulo de Luciano, quando vejo Lúcifer, de óculos escuros, estacionando sua Hilux preta…

Desde que o frio, a tristeza e o rancor se abateram sobre os meus, eu nunca sei se o que vejo ou o que lembro é de fato real ou se é algo criado em minha mente por forças que eu não tenho como dominar.

Peço que desconsidere algum trecho que lhe pareça ter sido fruto de um desses sonhos diurnos forjados pelo caos que se tornou minha mente, ou então que lhe pareça que seja uma memória que jamais deveria ter sido resgatada das masmorras do passado.

A facção PCC 1533 e a rota africana

O combate ao Primeiro Comando da Capital e a rota da cocaína para a Europa via África segundo um artigo da pesquisadora Carolina Sampó da UNLP.

A impunidade impera para quem tem a lei em suas mãos

O garoto morto nunca botou a mão em uma arma. Ele, em seus corres, nunca ia armado ou agia com violência, mas na versão da polícia ele estava na garupa de uma moto em fuga e atirava em direção da viatura – por isso teria sido morto com dois tiros nas costas.

Eu o conhecia e tenho certeza que aquela arma foi entrouxada. Mais uma vez, a revolta dos Racionais MCs voltou a ecoar nas quebradas: “Eu não acredito na polícia, raça do caralho” – para o espanto de quem mora nas áreas nobres.

O garoto morreu na trairagem, e coube a mim buscar sua mãe e sua irmã no distrito de Santa Maria do Campo onde viviam. Foi lá, enquanto as esperava nos fundos da casa do pastor, que conversei com uma senhora que, se der certo, um dia você poderá conhecer.

O distrito é composto de umas quinze casas, uma vendinha e dois bares na beira da pista, uma rua que sobe para a igreja e uma ruela que desce e onde mora o pastor – o local ficou famoso anos atrás quando houve um “assassinato na casa do pastor”.

Uma comunidade simples, de gente simples, cujos filhos podem ser mortos sem constrangimento ou investigações, principalmente se os assassinos tiverem a lei em suas mãos.

Foto de João Doria olhando através de uma persiana.
João Doria e a realidade por trás da persiana

A senhora e o “sorriso sem vergonha” do governador

Chegando na vila, fui direto para a casa do religioso, onde estavam a mãe e a irmã do garoto. Aguardava junto ao carro quando uma senhora idosa que mora na casa ao lado e cuidava do jardim me trouxe uma jarra com chá gelado.

Primeiro ela falou sobre si mesma, com o olhar distante: só havia saído daquela vila duas vezes na vida, para cuidar dos documentos quando sua mãe faleceu, mas sempre acompanhava tudo o que acontecia ao seu redor pelo jornal e pelas coisas que outras pessoas vinham lhe contar.

Valha-me Deus! Preparei-me para uma enfadonha ladainha. Ora, pensei, sorte dela nunca ter saído daqui, o mundo lá fora não está nada fácil, não!

Mas ela me surpreendeu. Sabendo que eu estava lá por causa do garoto morto, ela me veio com essa:

A polícia! Posso lhe garantir que não a temos em alta conta. Não se fazem mais policiais como antigamente. E quanto a esse governador, só te digo que não se pode se fechar em casa com as persianas fechadas para sempre”.

Sei que foi preconceito meu…

… mas ao ver aquela senhora de olhos azuis, magra, vestida como a Bruxa do 71, e que nunca tinha saído da vila, eu tive a certeza que ela seria uma defensora ferrenha desses grupos radicais que pregam prisão e extermínio – só que não.

Sei que foi preconceito meu…

… mas aquele jeito de falar da vovozinha me fez acreditar que ela só entendia de receitas de bolo, fofocas de vizinhos e rezas – só que também não.

Percebi que tinha me equivocado quando ela afirmou que João Doria teria que “abrir a persiana” e ver a realidade. Seu olhar endureceu ao falar sobre o “sorriso de sem vergonha” que ele ostentava ao dizer: “não tem mais PCC comandando crimes de dentro dos presídios de São Paulo”.

Quando ela se referia ao governador ou à polícia, chegava bem perto, falava baixinho olhando para os lados e repetia: “sem vergonhas”. Eu nunca ia esperar isso de uma senhorinha como aquela – e isso foi puro preconceito meu!

Mapa com a rota africana do tráfico de drogas tendo ao fundo integrantes da facção PCC 1533.
As parcerias da Família 1533 no Brasil e no mundo.

Um banho de realidade em um sorriso de uma noite de verão

A senhora me chamou a atenção para o fato de que não se podia levar a sério a afirmação do governador por dois motivos:

  1. a organização continua agindo como sempre agiu – os 62 mortos na batalha para o domínio da Rota do Solimões estavam aí para provar; e
  2. a quebra da estrutura, como sugerida por Dória, causaria o ingresso de grupos estrangeiros ou uma guerra nas ruas pela liderança, por mercados e rotas – e nada indicaria que estivesse ocorrendo.

Você entendeu por que disse que aquela senhora, que nunca saiu daquela vila, me surpreendeu?

Como eu e você já conversamos sobre o que levou o Primeiro Comando da Capital à hegemonia nas prisões, e como e quando os grupos estrangeiros passaram a integrar essa estrutura logística ao tráfico internacional, eu não pretendia mais voltar a esse assunto.

No entanto, Carolina Sampó, da Universidade Nacional de La Plata, em seu artigo “Tráfico de cocaína entre a América Latina e a África Ocidental”, explica esse esquema internacional que João Dória com seu sorriso “de sem vergonha” afirma ter quebrado.

E tudo se encaixou: a conversa com a senhora, o massacre de Altamira na guerra pela Rota dos Solimões, a afirmação do governador de São Paulo e a morte do garoto, por isso voltei aqui para te falar um pouco mais sobre a Rota Africana no tráfico internacional.

O trabalho de Carolina demonstra a falta de senso de realidade (ou de ridículo) no discurso do governador:

Um terço da cocaína chega à Europa através da África vindo dos países interiores da América Latina, onde a área de cultivo cresceu 76% nos últimos 3 anos para atender ao crescente aumento da demanda, e…

João Doria, com seu sorriso “de sem vergonha”, afirma que retirou a facção Primeiro Comando da Capital dessa complexa questão transnacional, ao isolar seus líderes e fazer operações para sufocar sua estrutura administrativa.

A senhora de Santa Maria do Campo parece que não acreditou que os produtores hispano-americanos deixaram de exportar para a África e para hemisfério Norte sua produção de entorpecente, passando pelo Brasil, utilizando a estrutura logística da facção paulista.

Mas se isso tivesse acontecido, não teria sido a primeira vez que a estratégia de distribuição internacional de drogas se adaptaria aos novos métodos e mecanismos de controle, como me contou Carolina:

“… as rotas e estratégias utilizadas pelos traficantes sofreram mutações. Inicialmente, como resultado do aumento das políticas de controle por parte de alguns estados americanos; então, para evitar lidar com os cartéis mexicanos e sua cobrança de pedágio. A África Ocidental se posicionou como uma alternativa viável para nutrir o mercado europeu. Hoje, além de servir de ponte para a Europa, a África Ocidental é usada para traficar cocaína para os Estados Unidos, Ásia e, às vezes, Oceania …”

Foto dos governadores Geraldo Alckimin e João Doria tendo ao gundo presos falando ao celular.
Alckimin e João Doria e o sistema penitenciário

O Primeiro Comando da Capital organizou nacionalmente centenas de grupos criminosos locais, criando uma rede integrada de logística, que permitiu que o tráfico internacional de drogas se deslocasse dos tradicionais cartéis da América Hispânica para o Brasil.

Organizações criminosas estrangeiras, como a ‘Ndrangheta e o Hezbollah, aproveitando essa estrutura, firmaram parceria com a facção PCC 1533 e entregou a ela o gerenciamento de compra, transporte e envio em território americano.

Essa integração das facções sob o manto da facção paulista se deu nos últimos anos graças ao sistema carcerário brasileiro que, com sua política de transferências, integra os diversos líderes de facções.

Se é verdade que o governador de São Paulo sufocou e desestruturou a organização do Primeiro Comando da Capital, as drogas estariam se acumulando nos países produtores e os usuários europeus estariam sofrendo crises de abstinência – só que não.

Se o PCC deixasse de gerenciar o sistema, as drogas continuariam a ser distribuídas, seja por grupos locais pulverizados ou diretamente pela organização criminosa italiana. A realidade é que a estrutura de distribuição e embarque se mantém.

Será então que João Doria mente ao afirmar que a Família 1533 deixou de controlar o crime de dentro das prisões? Ou será, então, que era verdade quando o ex-governador Alckmin afirmou que já havia cortado a comunicação de dentro dos presídios paulistas?

E se assim for, os esforços e gastos nas megaoperações de transferências para presídios federais terão sido apenas para a satisfação da mídia e dos eleitores punitivistas, sem resultado nas ruas, exceto integrar cada vez mais as lideranças das facções.

A facção PCC e a rota da cocaína

PCC infiltrando-se no tecido social e abrindo caminhos

Há alguns anos, conheci através de grupos sociais, garotos que da África mantinham relações com os PCCs brasileiros. Era gente simples, vivendo em ruas de terra e ostentando – a única diferença que percebi é que entre eles alguns eram muçulmanos.

Antes de conhecer Carolina eu não imaginava como é a teia que envolve esses garotos que, tanto aqui quanto lá, são mortos pela polícia impunemente enquanto caravanas passam repletas de drogas com o conluio dos agentes públicos.

O mercado nunca é combatido, sempre seus operadores, o que faz com que, por vezes, rotas e parceiros logísticos tenham que ser substituídos. Contudo, o volume produzido e consumido se mantenham crescendo:

“… os primeiros latino-americanos a entrar nessa rota foram os pôsteres Zetas, Sinaloa e Jalisco Nueva Generación, com a ajuda da italiana N´Drangheta . […] Da mesma forma, organizações criminosas colombianas têm ligações com a África. O porto de Santos funciona como um dos principais centros de saída do continente vizinho. Lá, o PCC lida com grande parte do tráfico de drogas.”

Assim como a década de 1990 foi fundamental para o amadurecimento da facção PCC 1533 e demais organizações criminosas brasileiras, as diásporas libanesa e nigeriana estruturaram as famílias de traficantes que já existiam na África desde a década de 1950.

O Primeiro Comando da Capital integrou essas famílias da África, se associando a elas sem lhes tirar a liberdade, o mesmo procedimento que é aplicado com sucesso dentro do território nacional e nos outros países nos quais atua.

Não se pode afirmar com certeza quando o Primeiro Comando da Capital iniciou suas operações por lá, mas se sabe que as facções brasileiras mantêm laços comerciais desde 2012, e o Hezbollah tem uma presença importante naquelas bandas:

O relacionamento é estratégico: o Hezbollah possui expertise e contatos nas rotas do Caribe e África, e mantêm relações comerciais com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC); por sua vez o PCC entra como intermediário na logística nos países do Cone Sul.

É fato que ao longo da última década os diversos governos paulistas, incluindo o de João Dória, implantaram com sucesso ações para controlar e isolar a massa carcerária das ruas, no entanto o tráfico e a criminalidade continuam aqui fora com seu fluxo inalterado.

A política de combate às drogas que levou ao poder governantes por todo o Brasil está se mostrado apenas eficaz como ferramenta na limpeza étnica e social, sem macular o tráfico de drogas, tanto o que nas ruas quanto o transnacional.

Assim, o Primeiro Comando da Capital mantém o ritmo das exportações por portos no Brasil, na Argentina e no Uruguai, consolidando nossa nação ao lado da Colômbia e Venezuela como os maiores exportadores de cocaína da América Latina,

Nem a senhora da vila Santa Maria do Campo acreditou que todo esse esquema internacional foi arranhado pelo governador João Dória, apesar do seu sorriso “de sem vergonha”.

A formação fasciculada da facção paulista permite que sejam desenvolvidos contatos nas mais diferentes camadas do tecido social, cooptando criminosos, trabalhadores e autoridades civis, militares e policiais nas mais diversas nações em que se faz presente.

Carolina conta que acredita que a mesma metodologia usada pelo Primeiro Comando da Capital é utilizada pela ‘Ndrangheta, distribuidora final de grande parte das drogas exportadas para o hemisfério norte:

“Da mesma forma, parece não haver necessidade de competir pelo controle de outro espaço territorial quando as organizações já gerenciam os lugares que são necessários para eles. O ‘saque’ é grande o suficiente para que todos fiquem satisfeitos com o ganho. Coloque em claro: por que o PCC enfrentará uma organização nigeriana, a fim de controlar um traço da rota da cocaína para o primeiro mundo, se ela puder se concentrar em tentar alcançar a hegemonia dentro do Brasil e até mesmo Você pode fortalecer sua presença transnacional em lugares estratégicos de produção e transporte, como Bolívia, Peru, Paraguai e até Argentina?”

Enquanto isso, acompanho a mãe e a irmã de mais um garoto morto pela polícia para que o Estado possa demonstrar que há um efetivo combate ao tráfico de drogas. Me pergunto se a senhora está certa. Será realmente que “não se pode se trancar em casa com as persianas fechadas para sempre”?

Garotos do tráfico: vagabundos ou trabalhadores?

Pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul afirmam que os garotos do tráfico se consideram trabalhadores, mas como é isso na vida real?

A “Operação Jiboia” e meu “retiro espiritual”

Dizem que “homens ameaçados tem vida longa” – não sei se isso se aplica às organizações, o que eu sei é que as autoridades ameaçam acabar com a facção Primeiro Comando da Capital há mais de vinte anos, embora ela só tem se fortalecido.

Há alguns dias, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) mais uma vez ameaçou “sufocar a organização criminosa” com a “Operação Jiboia”. O resultado disso: pegou uma pacotada de dinheiro, prendeu vários integrantes e me incentivou a viajar.

Sem a operação do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) contra a facção PCC 1533, sem que durante minha viagem eu tivesse acompanhado um companheiro em seus corres e sem que eu tivesse conhecido Ana e Betina, eu não viria aqui te dizer que garotos do corre não são vagabundos, ou, pelo menos, eles mesmos não se consideram como tais.

Tudo começou assim…

GAECO coloca 500 homens na caça aos PCCs

O GAECO saiu à caça aos PCCs aqui da região de Sorocaba: a “Operação Jiboia” cumpriu 50 mandados de busca, apreendeu veículos, armas e dinheiro e prendeu suspeitos.

Eu, por coincidência ou não, na madrugada desse dia, deixei meu carro que é muito manjado em uma oficina mecânica de um conhecido e tomei um ônibus para uma cidade próxima, onde um companheiro me recebeu para esse meu “retiro espiritual”.

Assim, assisti pela televisão a ação da polícia, imaginando quem estaria assumindo as biqueiras e quanto teriam que pagar de aluguel para as famílias daqueles que foram presos. Eu conhecia algumas daquelas biqueiras… talvez uns dois mil por semana, quem sabe?

Rodoviária: porta de entrada para as drogas

Encontrando um companheiro na rodoviária

Afastado das ruas e desse site, esperaria a poeira baixar, mesmo porque o fluxo continuaria como sempre, afinal, essa é a lógica do mercado em uma economia liberal: existindo demanda, haverá oferta, e todo vácuo é rapidamente preenchido.

“Enquanto houver consumidor haverá produção e comércio…” comentou o advogado Bruno Sobral quando a PM destruiu 18 mil pés de maconha em Várzea da Roça, e, assim como lá, aqui a lógica é a mesma e, sendo assim, resolvi relaxar e aproveitar minha viagem.

Quando cheguei na cidade, o companheiro já me esperava na rodoviária. Comemos pastéis em um dos boxes e ficamos conversando. Só lá pelas dez da manhã saímos da rodoviária, mas não fomos longe, paramos na praça em frente.

Um homem com uniforme de uma companhia intermunicipal de ônibus vem até nós e combina com o companheiro de trazer de Campinas um pacote em sua última viagem do dia – ele pega discretamente um maço de dinheiro para pagar o fornecedor e avisa para passarmos em sua casa à noite para pegar a mercadoria.

Conversa conosco sobre amenidades sempre de olho no relógio da rodoviária e, faltando dez minutos para dez da manhã, vai até a plataforma, abre o ônibus e começa a recolher as passagens. Pontualmente, às dez da manhã ele parte.

A realidade brasileira superando a ficção

Aquela cena em nada parecida com o que vemos na TV: sem aquelas figuras sinistras com problemas psicológicos e sociais ou negociações tensas.

Alguns dias depois, conheci melhor esse motorista, que sempre estava sorrindo e sua maior alegria era sua família, gente boa. De fato, ele entrou para o negócio porque era usuário – hoje nem sei se ainda usa, mas faz as entregas quando tem oportunidade de ganhar uns trocos.

“Há muito de humano em todos nós…”

Miss Marple

Qualquer um que visse aqueles dois conversando sossegadamente naquela praça jamais imaginaria que o abastecimento das biqueiras de parte da cidade estava sendo garantido ali, e confesso que até para mim isso foi uma grande surpresa.

Biqueira PCC ISO 9000

Biqueira: um negócio altamente rentável

Depois do almoço, voltamos para a mesma praça em que estivemos de manhã. Ali ao lado havia o ponto final de algumas linhas urbanas, e dois motoristas vieram até nós e entregaram pacotinhos com dinheiro trocado – de certo recolhe de algumas biqueiras.

Eu nunca tinha presenciado um esquema como esse:

Os ônibus eram usados desde a chegada da droga na cidade até o recolhe do caixa, mas fora essa opção logística, a organização do comércio seguia o modelo tradicional: gerente, vendedores e aviõezinhos.

Saindo de lá, passamos em uma biqueira que ele havia comprado. Segundo ele, nesse momento sua presença ali era essencial, mas depois de pegar embalo era só manter o equilíbrio e fazer o controle.

Essa biqueira lhe custou 50 mil reais, e estava sendo paga em parcelas, mas já valia mais que o dobro e nem havia três meses da compra! Foi um bom negócio, e ele pretendia vender o ponto por 180 mil em mais alguns meses.

Para isso ele investia na qualidade das drogas entregues ao usuário, evitava o desabastecimento e mudou a forma com que gerenciava seus “colaboradores” depois que percebeu que estava gastando muito sem aumentar a rentabilidade.

Montagem com o grupo de rap Racionais MCs tendo ao funco um grupo de negros trabalhando no garimpo sob a frase "o conceito é outro da ponte prá cá".
A realidade nas letras dos Racionais MCs

Garotos buscando trabalho, respeito e dignidade

As pesquisadoras Ana Paula Motta Costa e Betina Warmling Barros, no artigo “Traficante não é vagabundo: trabalho e tráfico de drogas na perspectiva de adolescentes internados” , explicam melhor o que o companheiro constatou em sua quebrada: por vezes, o trabalho nas biqueiras é uma forma de ascensão e reconhecimento social.

Tem garoto que chega a tirar limpo seus mil reais no dia, mas não é tanto pela paga que ele e outros trabalham no tráfico, e sim pelo respeito e a dignidade que o tráfico confere.

“Respeito e dignidade” não são duas palavras muito vinculadas ao tráfico de drogas, mas “o mundo é diferente da ponte pra lá”, principalmente após profissionalização que ocorreu no setor a partir da década de noventa.

Com o crescimento e a padronização de procedimentos, o Primeiro Comando da Capital mudou o posicionamento na sociedade periférica dos traficantes e seus auxiliares: de vagabundos e drogados, eles passaram a ser vistos como integrantes de uma grande organização.

E o “patrão” nesse novo ambiente passou a ter de entender sua posição e de seus moleques na comunidade para ficar condizente com o discurso da facção e com a moral do mercado:

“… você tem de pagar os fornecedores, os empregados, a família de quem morre, a família de quem vai preso, festas e comemorações (…) e, claro, propina para a polícia.” – simples assim.

Ser vagabundo, nas favelas e nas comunidades, é não trabalhar, não ajudar no sustento do lar e explorar a própria família – esse não tem respeito. Por outro lado, aquele que tem uma renda constante em uma organização reconhecida é um trabalhador, seja ele um motorista de ônibus, um vendedor ou um gerente.

Você aceitará que um traficante, um palestrante ou um vendedor de chocolates sejam trabalhadores dignos, dependendo do lado da ponte em que estiver, ou talvez você seja como Torquato Jardim e Miss Marple, que acreditam que “a corrupção é da natureza humana” e “como há muito de humano em todos nós”

Bem, só tenho a agradecer ao GAECO que me deu a ideia desse meu período sabático, que me permitiu sair um pouco da rotina dos corres e do site e conhecer um pouco mais sobre como funciona a nossa sociedade. Agora, mãos à obra:

E para começar peço desculpas ao colega do (11) …99, que me perguntou sobre o destino do Capitão e de Mene, que foram retirados do condomínio para serem julgados pelo Tribunal do Crime do PCC e que eu disse a ele que estavam ambos mortos, mas não é verdade:

  • Mene foi deixado próximo ao condomínio, e a mulher foi informada para pegá-lo e conduzi-lo ao serviço médico. Ele sofreu lesões grave em ambas as pernas, quebrou braço esquerdo e teve um dedo da mão direita esmigalhado. Não está mais nos corres.
  • Capitão não mais foi encontrado. Há duas versões sobre o que pode ter acontecido: uma que diz que ele foi morto e outra que conta que ele estaria no Paraguai. A esposa continua morando no mesmo condomínio.

O Buguinho me mandou uma mensagem afirmando que na listagem das facções amigas e inimigas existe um erro, só que não posso alterar o texto pois ele foi passado por um Geral das Trancas em um grupo de WhatsApp da facção, então fica como está até que outra lista me chegue.

Agora vou buscar o carro no mecânico e ver como está o clima por aqui. Fui.

Facção PCC 1533 como “corpo político”

De que adianta matar um corpo se a alma continua viva? – a ineficácia das políticas de Segurança Pública baseadas em ações policiais de combate à facção PCC 1533.

Dar perdido em PM é diversão de cria do 15

Bardos cantavam histórias fantásticas que assombravam aqueles que as ouviam em volta das fogueiras nos bosques, nas aldeias ou nas mal iluminadas tabernas, e os heróis de suas narrativas eram jovens que se insurgiam, desafiando os soldados dos poderosos.

MCs cantam histórias fantásticas que assombram aqueles que as ouvem em seus celulares, nas avenidas e nos bailes funks, e os heróis de suas narrativas são os jovens que se insurgem, desafiando os policiais que entram nas comunidades a mando dos poderosos.

”Já que tu quer adrenalina, já que tu quer um lazer
É nós que mostra o dedo pros radar, pras viatura
Pra sentir o prazer, adrenalina de dar fuga.”

MC Kevin

E aquela noite eu não tinha dúvidas que estava olhando para um desses garotos cujas histórias seriam contadas pelas quebradas muito tempo depois que ele as tivesse deixado.

Os pequenos feitos daquele moleque seriam engrandecidos cada vez que alguém recontasse uma de suas aventuras, sempre aumentando um ponto ao conto, e, quem sabe, um dia não acabaria sendo letra de algum Proibidão?

Na noite de quinta-feira tive que entregar alguns pacotes no Planalto, e valeu a pena: a caminhada foi boa e conheci esse garoto.

Fotomontagem com homem fazendo  desaparecer um objeto na frente de policiais. Acima a frase "Revista Policial, desaparecendo com as drogas".
A arte de ocultar provas da polícia

Show de magia na quebrada do Planalto

Uma viatura da Polícia Militar deixava o Planalto no momento em que eu entrava no bairro.

Próximo ao local onde devia fazer a entrega havia um grupo de jovens, e logo que estacionei fui falar com eles para saber como estava o clima por lá – uma das garotas eu já conhecia.

Três moleques, duas meninas e dois Gols rebaixados, sendo um com placa de Campinas e outro de Indaiatuba; eles riam muito e quando a garota me viu, veio empolgada me apresentar aos demais – o clima não podia estar melhor.

Ela me contou que eles acabaram de ser abordados pela viatura que vi deixando o bairro, e enquanto a garota falava um dos garotos mostrou para mim com orgulho um saquinho com uns 100 gramas de cocaína. Todos voltaram a rir – o moleque havia feito mais uma das suas.

Eles me contaram a história…

Assim que a viatura entrou na rua, o garoto mostrou aos amigos o pacote; só deu tempo de levantarem os olhos: os policiais já os estavam abordando.

Procedimento padrão: revista pessoal e nos veículos. Como nada encontraram, os policiais foram embora, mas assim que a viatura virou a esquina o garoto abriu a mão e mostrou para os outros que continuava com o saquinho de cocaína.

Não era a primeira e nem a última vez que ele fazia uma jogada arriscada e se saía bem.

Nunca saberemos como ele fez para sumir com a droga tão rápido, na frente dos amigos e dos policiais e passar pela revista, afinal um mágico não revela seu truque – daí o fascínio pelo ilusionismo.

Fotomontagem onde uma mulher solta pela boca fumaça ocultando parcialmente um carro. Acima a frase "Cortina de Fumaça, garotos garantindo a segurança".
Jovens chamando atenção de policiais

Moleques como isca e cortina de fumaça

Fiquei pelo menos meia hora com eles, cada um contando uma façanha diferente protagonizada pelo moleque de Indaiatuba, enquanto ele mesmo apenas sorria.

Imagino que todos estavam ali para chamar a atenção para si caso aparecesse uma viatura policial, garantindo que a entrega ocorresse sem problemas – eles eram a isca e, se necessário, serviriam de cortina de fumaça.

Ouvi com prazer cada história que contaram e teria ficado ainda mais se não houvesse chegado o irmão que ia ficar com a mercadoria – a outra garota que estava com os moleques era sua companheira.

Imagino que se naquela noite os PMs não tivessem abordado os moleques, talvez ainda estivessem por lá quando eu chegasse ao Planalto.

Quando o irmão chegou, cumprimentou os garotos, me pegou pelo braço e me levou para trás dos carros onde me entregou o dinheiro.

Fomos até o meu carro, entreguei os pacotes a ele e saí dali me despedindo apenas com um aceno para os garotos.

Fotomontagem com o rosto do pesquisador Eduardo Yuji Yamamoto   abaixo da frase "Corpo Social, diferenciando o corpo da alma".
Pesquisador Eduardo Yuji Yamamoto

O Primeiro Comando da Capital como corpo social

No caminho de volta tentei entender o que ocorreu e o que estava acontecendo em nossa sociedade – não era nada daquilo que era mostrado pela televisão e pelas redes sociais.

Seriam esses os traficantes que precisavam ser abatidos com um tiro na cabecinha como prega a atual onda sócio-política ocidental?

Enquanto dirigia me lembrei do artigo “Corpo político, implicação, representação” do doutor em Comunicação Eduardo Yuji Yamamoto, publicado na INTERCOM – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação.

O pesquisador falava sobre os black-blocs, mas para mim o estudo se encaixava como uma luva naquilo que eu acabara de vivenciar, e descrevia com perfeição as pessoas que eu tão bem conhecia.

O fato de o Primeiro Comando da Capital haver se transformado em um “corpo político” é uma consequência da crise pela qual passa a democracia ocidental desse início de século:

“A instauração política aparece assim como a constituição de um corpo dotado de unidade, de vontade consciente, de eu comum […] As metáforas do corpo político não descrevem apenas uma procura de coesão social orgânica.”

Vladimir Safatle

Aqueles moleques e aquelas meninas nada mais são células que compõe um complexo “corpo político”, e aquele gesto do garoto de desafio velado ao Estado é apenas um entre milhares de “insurgências” que pipocam madrugada a dentro nas ruas das periferias.

Ilustração do corpo estilizado de uma criança metade razão e metade emoção sob a frase "Corpo e Espírito, fortalecendo o "Espírito de Corpo".
Nossas emoções residem em nossa alma

Atacando o corpo do Primeiro Comando da Capital

Ouvindo os diversos discursos messiânicos de combate ao Primeiro Comando da Capital: Sérgio Moro com o seu “Projeto anticrime”, Wilson Witzel com seus drones e snipers com licença para matar, e João Dória prometendo “Guerra sem tréguas ao PCC”, me lembro dos passos que demos para chegarmos a situação que vivemos hoje:

  • Quando a República foi proclamada, os governantes resolveram acabar com a farra que era o uso de drogas no Brasil nos tempos do Império e incluíram no Código Penal de 1890 a criminalização das “substâncias venenosas”, e com isso esse mal seria extirpado…
  • após cinquenta anos ficou claro que o sonho não havia se tornado realidade, e as drogas haviam se tornado um problema ainda maior, então foi inserido no Código Penal de 1940 previsão para a prisão de usuários e traficantes, e com essas regras mais rígidas, específicas e abrangentes o mal seria eliminado…
  • após trinta e seis anos ficou claro que o sonho não havia se tornado realidade, mas vivíamos um Regime Militar, e agora, com as forças armadas e sob a vigência dos Atos Institucionais nenhum traficante sobreviveria, só faltava para isso uma lei que colocasse os criminosos em seu devido lugar. Os militares fazem ser aprovada a Lei de Tóxicos de 1976, e dessa vez, as drogas seriam eliminadas de uma vez por todas….
  • após trinta anos ficou claro que o sonha não havia se tornado realidade, então é aprovada Lei Antidrogas de 2006, pois a anterior não era suficientemente dura, e agora todos comemoraram, afinal, com o endurecimento das penas as facções seriam desmanteladas…
  • após sete anos ficou claro que o sonho não havia se tornado realidade, e a facção PCC 1533 se internacionalizava – mas com a Lei de Combate ao Crime do Organizado de 2013 as facções seriam desmanteladas…
  • após cinco anos ficou claro que o sonho não havia se tornado realidade, e as facções se fortaleceram – mas com o novo governo em 2019 que promete o justiçamento dos criminosos, a permissão para que o “cidadão de bem” tenha arma em casa, e a implantação de um pacote de leis com o endurecimento das penas, as facções serão desmanteladas…

O exército e as forças policiais já estão fazendo sua parte executando negros nas periferias como nunca antes, e sem economizar munição: “Um dia antes de ação com 80 tiros, Exército matou jovem pelas costas”.

Recorte do Jornal Extra com a manchete "Escalada da Violência".
Jornal Extra e a escalada da violência

O espírito se fortalece quando o corpo padece.

Se os policiais tivessem encontrado o saquinho com a cocaína que aquele moleque do Planalto havia ocultado, ele seria preso, mas a facção não teria se enfraquecido.

Marcola e Gegê do Mangue, dois dos principais líderes da facção, há muito foram retirados das ruas, e a facção também não se enfraqueceu, ao contrário do que foi apregoado na época por policiais e membros do Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

O Estado e seus justiceiros continuam a caçar as células da facção PCC 1533, e por não acreditarem em espíritos se negam a enxergá-los; e enquanto se concentram em combater o corpo, o espírito da organização criminosa continua a se fortalecer.

Fotomontagem onde a ilustração de  um garoto fica ao centro e de um lado dois garotos em azul e do outo um casal em vermelho.
Entre a comodidade e a adrenalina

Primeiro Comando da Capital afetando a alma

Encarcerar e matar criminosos não é eficaz, no entanto, essa é a “estratégia” utilizada pelo Estado. Não há um “Plano B”, uma política de controle e segurança eficiente, pois aqueles que habitam os gabinetes e os coturnos não entendem as razões que aqueles garotos têm para entrar no mundo do crime.

Moleques e meninas do corre possuem um espírito contraventor que não é movido por razões materiais.

As ruas estão vivas e se alimentam dos sentimentos comuns difundidos nas conversas, nas rodinhas, nas escolas e nas redes sociais. Cada um que é preso ou morto alimenta ainda mais o imaginário que afeta e fortalece o espírito do grupo.

É interessante como a palavra “afeta” pode transmitir mal seu significado.

Os sentimentos que afetam os jovens insurgentes em sua rodas de conversas ou daquilo que veem nas ruas e nas mídias, alimentam um espírito de corpo ilógico, baseado nas emoções do grupo. Essa miscelânea de emoções e informações levará essa garotada a passar parte de sua a vida buscando saciar desejos racionalmente insaciáveis.

“Falamos de desejo, e não de reivindicações, justamente porque reivindicações podem ser satisfeitas, mas o desejo obedece à outra lógica – ele tende à expansão, ele se espraia, contagia, prolifera, se multiplica e se reinventa à medida que se conecta com outros.” – Peter Pál Pelbart

A soma de todas essas emoções são compartilhadas, e mesmo quando uma de suas células é morta ou retirada das ruas esse afeto continua no coletivo daquela comunidade, reforçando-o ainda mais.

Jovens Insurgentes enfrentando as autoridades

O Primeiro Comando da Capital alimentando o medo

Aqueles garotos, assim como milhões de outros, buscam grupos de insurgentes para se unir e ajudar na construção de uma sociedade mais justa, se preciso enfrentando as autoridades do Estado e da família…

mas na real, eles estão mesmo fugindo da angústia e do tédio e procurando usufruir de momentos de emoção, seja de cólera ou de alegria, tanto faz.

A crise do sistema democrático ocidental leva esses garotos a lutarem por suas demandas sociais fora de um sistema político que não apresenta uma alternativa na qual eles possam se apegar.

Sem opções reais de perspectiva social, seguem a esmo, se juntando a grupos que mantenham vivas as suas esperanças.

Sigmund Freud descreve essa busca constante e inalcançável como pulsão, mas eu diria que essa garotada se alimenta de emoção e não vive sem ela.

O Estado, no entanto, precisa de um inimigo para manter vivo o medo, então dirá que esses garotos são criminosos que os “cidadãos de bem” precisam temer e promete que seus agentes os eliminarão.

“[…] nossos governos sabem bem, o crime não é uma patologia social, mas um dispositivo fundamental para o fortalecimento da coesão. Por isso, nunca houve e nunca haverá sociedade sem crime. […] Ela precisa do crime. Na governabilidade atual, o crime não é algo que se combate, ele é algo que se gerencia.”

Vladimir Safatle

Para a manutenção do Estado, alguns precisam ocupar hoje o lugar que já foi ocupado por outros insurgentes, como os Farroupilhas ou os Quilombolas, que, se hoje são considerados movimentos sociais, na época eram descritos como criminosos.

Para se manter o status quo, o ódio da população e dos agentes policiais devem ser direcionados sobre os garotos do tráfico de drogas.

Fotomontagem com pessoas andando à esmo abaixo da frase "Predestinação Divina, insurgentes contra o tédio e o destino".
Caminhando sem destino e sem futuro

Primeiro Comando da Capital como predestinação

Todos nós, eu, você e aquela garotada, somos afetados por alguma emoção. Acreditamos que somos senhores de nossos destinos, mas o fato é que não tivemos domínio sobre o que nos afetou durante nossa vida e nos fez ser quem somos hoje.

Alguns de nós nascemos para ser “vasos de ira”, enquanto outros nasceram para ser “vasos de misericórdia” e não adianta reclamar:

“Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?”

Paulo de Tarso

Nossa predestinação pode ser divina ou construída pelos afetos que se somam ao longo de nossas vidas, mas é inegável:

O apedrejado em praça pública é fruto de vivências diferentes daquele cidadão de bem que lhe atirou a primeira pedra enquanto clamava a Deus dizendo “Senhor, Senhor!”.

As experiências e sentimentos vividos tanto pelo algoz quanto pela vítima se distinguem e independeram de suas vontades, mas os políticos e as mídias utilizarão a mesma régua para medir a ambos.

Talvez por isso cada vez menos pessoas se sentem representadas pelo sistema político, e o número de insurgentes se prolifera por todo o ocidente, seja enfrentando a polícia na Champs Elysee ou no bairro Planalto.

Primeiro Comando da Capital como fator de coesão

O Estado para muitos é a bota do policial que só aparece na periferia para intimidar e extorquir, e se esse quadro é real ou foi construído pelo imaginário coletivo não vem ao caso, o fato é que ele alimenta o discurso de ódio e medo de grupos sociais.

Alguns desses garotos se calam e buscam se proteger evitando contato, submetendo-se a misericórdia dos dominantes, mas outros se “mobilizam pelo desejo e não pelo medo”, abandonando a segurança pessoal e aceitando o risco em defesa de um coletivo.

O Primeiro Comando da Capital é um coletivo, formado por insurgentes: indivíduos que não acreditam que possam ser representados e defendidos pelo sistema político e social vigente.

A facção PCC 1533 aparece como uma alternativa que permite que eles atinjam seus objetivos de vida, e, não sendo uma organização estratificada, aceitam ser afetados por ela da mesma forma que sabem que a estarão afetando.

As ações de combate à organização estão fadadas ao fracasso ao se focarem na criminalização dos indivíduos membros da facção, ignorando os afetos que acalentaram seus novos membros e que formam um sólido e ao mesmo tempo etérico “corpo político”.

“[…] a política moderna inventou a representação. Ela nos fez acreditar que só haveria sujeitos políticos onde houvesse representação, […] Fora da representação só haveria o caos, e é necessário organizar as vozes de maneira tal que se possa controlar seu tempo de fala, seu lugar de fala, sua perspectiva, suas ‘instâncias decisórias’.”

Os membros da facção Primeiro Comando da Capital se sentem representados e representantes, e acreditam que por lá todos têm a mesma voz e os mesmos direitos, sejam irmãos, companheiros, ou aliados, e por isso valeria a pena lutar “até a última gota de sangue”.

Esse é no fundo o conceito de nação, o “corpo social” do qual todos gostaríamos de fazer parte, mas que a cada dia cada um de nós nos sentimos mais distanciados.

E assim, dia a dia ouvimos cada vez menos que “um filho teu não foge à luta e nem teme, quem te adora, a própria morte” e cada vez maisaté a última gota de sangue”.

Facção PCC: “onde os membros devotam suas vidas em troca do interesse maior da organização”.