Assim nasce o PCC, segundo o Le Monde Diplomatique

A facção Primeiro Comando da Capital, assim como o Comando Vermelho surgiram como grupos de autodefesa de presos.

O PCC e as favelas no caminho entre os Andes e a Europa

leia reportagem completa Thiago Rodrigues e Juliana Borges no Diplomatique Brasil

Enquanto cresciam as igrejas neopentencostais, nos anos 1980, os morros cariocas e as periferias paulistanas passaram a ser palco de uma nova tensão provocada pela chegada do tráfico de drogas como grande negócio transterritorial.

Naquela década, o Brasil era uma rota fundamental para o trânsito de cocaína dos Andes para a Europa e, além disso, um mercado promissor para o consumo de cocaína, solventes e maconha.

Das prisões abarrotadas surgiram os grupos de autodefesa de presos que logo controlariam o governo das próprias prisões e de territórios em favelas e periferias.

Do seminal Comando Vermelho, formado no presídio da Ilha Grande em 1979, ao Primeiro Comando da Capital, nascido em 1992 no presídio de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, a combinação entre proibição das drogas, repressão policial e a continuação constante da criminalização das populações pobres e negras fez o narcotráfico florescer e se desdobrar em outros rentáveis ilegalismos aproximando agentes do Estado de soldados do tráfico.

A produção desse novo crime, o narcotráfico, tem uma história que remonta às primeiras ondas de proibição das drogas no início do século XX, mas tomou forma de “ameaça” à “ordem” nos discursos governamentais e na grande imprensa a partir dos anos 1980.

Caça aos negros e pobres: guerra às drogas

Após trinta anos da versão brasileira da “guerra às drogas”, seguindo dados conservadores fornecidos pelo Ministério da Justiça, cerca de 20% dos homens presos e 51% das mulheres, se encontram confinados(as) por condenações ou processos em curso relacionados ao tráfico de drogas. Deles, cerca de 60% são “pretos” ou “pardos”, constituindo a categoria “negro”, segundo o IBGE. Conforme dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen)/Infopen de 2017, 63,6% da população carcerária brasileira é composta por pretos/pardos, enquanto representam apenas 55,4% do total. Com a terceira maior população prisional do mundo (com 748.009 pessoas presas segundo dados do Depen de abril de 2020), o Brasil prende majoritariamente pobres, jovens, negros e negras e de baixa escolaridade.

A atual política de combate às drogas que nós temos não só é ineficiente como amplia essa situação que estamos vivendo. Quando se pega um moleque com uma trouxa de maconha, uma pedra de crack, sem armas, sem ter cometido crimes violentos, que não é reincidente, e o joga dentro de unidade prisional controlada pelo PCC, Comando Vermelho, simplesmente se cancelando a possibilidade de se resgatar esses jovens. Ao mesmo tempo, dentro do sistema prisional, cerca de 80% não tem atividades educacionais ou laborais. Então não se prepara esse jovem para a ressocialização, para que ele volte à vida social e para o mercado. Essa é uma política que não resolve.

Raul Jungmann em entrevista para o ConJur

leia reportagem completa Thiago Rodrigues e Juliana Borges no Diplomatique Brasil

O crime organizado, o PCC e o covid-19

Pesquisador afirma que as organizações criminosas no momento desenvolvem um trabalho social, mantêm seus negócios fluindo e sairão altamente capitalizadas dessa pandemia.

A facção PCC financiando a reconstrução pós-pandemia

O mundo pós-pandêmico poderá ter sua economia controlada por esses grupos, caso os Estados não recapitalizem as empresas, deixando-as à mercê das regras de mercado, em um momento em que os grupos criminosos detêm o capital.

Enquanto as populações mais carentes são assistidas pelos criminosos, as rotas do tráfico de drogas e armas continuam ativas, e milhares de operações ilícitas ou fraudulentas ocorrem em decorrência da própria pandemia.

“Precisamos ajudar essas pessoas pobres!” — o homem que diz essas palavras não é um voluntário da Cruz Vermelha, mas um membro do cartel de Sinaloa , uma das máfias mais poderosas do mundo. Do noroeste do México, ele nos explica por telefone, que o cartel está substituindo as autoridades, distribuindo máscaras e sacos de comida a milhares de pessoas deixadas sem recursos, no meio de uma economia parada.

As mesmas cenas no Brasil, onde o Primeiro Comando da Capital (CCP), principal organização criminosa do país, compra cestas embaladas em supermercados e as distribui nas centenas de favelas que controla.

No Japão, Yamaguchi-gumi é o estado,Yakuza , tentou oferecer sua ajuda para desinfetar um navio que transportava passageiros de cruzeiros carregando o coronavírus.

Bertrand Monnet para o L’Expansion L’Expresss

O Primeiro Comando da Capital está financiando a importação de proteção pessoal e equipamentos médicos, que estão sendo disponibilizados no mercado legal e paralelo, além de fraudar governos e negócios com empresas fantasmas.

O lucro será posteriormente aplicado, e você talvez venha a trabalhar, mesmo sem saber, em uma empresa financiada pela facção PCC.

Leia a matéria completa no lexpansion.lexpress.fr

Máfia no Brasil: Famiglia Bolsonaro ou Família 1533?

O Primeiro Comando da Capital ou a Famiglia Bolsonaro são grupos mafiosos? — o Prof. Roberto Bueno pode dar subsídios para chegarmos a uma resposta

Os símbolos do PCC, do assaltante e da máfia

Vivemos tempos estranhos, em que se discute se a família do presidente da República encabeça uma organização mafiosa.

Houve um tempo, em tempos, menos estranho, no qual se discutia se o Primeiro Comando da Capital seria organização criminosa, cartel, gangue ou facção.

No entanto, após a prisão de Fabrício Queiroz na chácara de Frederick Wassef, o advogado do Seu Jair, a possibilidade de existir uma organização mafiosa em torno do presidente passou a ser cada vez mais levantada devido aos símbolos que repousavam na lareira.

Leve em consideração três casos:

  1. com Queiroz havia três bonecos do mafioso Tony Montana;
  2. na casa de um traficante havia o símbolo do Yin-Yang; e
  3. na perna de um jovem flagrado armado havia a tatuagem de um palhaço. 

Se você pensar como eu, acreditará que:

  1. é um cinéfilo;
  2. é um adepto do taoísmo; e
  3. é um admirador das artes circenses.

Se você não pensar como eu, acreditará que:

  1. é um mafioso;
  2. é ligado ao Primeiro Comando da Capital; e
  3. é um ladrão ou matador de polícia.

Signos são importantes na investigação policial e na formação de conceitos, mas conhecer a fundo o assunto é sempre melhor do que se ater a símbolos que podem ser mal interpretados.

O professor Roberto Bueno nos presenteia com uma aula magna sobre o que é máfia, e apesar de eu só citar dois breves trechos do artigo, convido você a fazer a leitura do artigo completo, no site do Jornal GGN, ou continue a leitura aqui.

Comparando métodos e comportamentos PCC X Famiglia Bolsonaro

O Primeiro Comando da Capital domina diversos portos brasileiros, controlando o porto de Santos, essencial para seus negócios, e disputando a hegemonia dos portos do Rio de Janeiro com as milícias, que esperam garantir a entrada de armas e receber parte do lucro sobre o tráfico internacional, o qual ainda não domina.

Apesar do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro afirmar que os delegados desses locais estavam tendo um bom desempenho no combate ao crime organizado, o que acabou ficando provado, o presidente Jair Bolsonaro exigiu a troca dos delegados responsáveis.

O que nos diz o professor Roberto Bueno sobre os portos:

“A operação de importação de drogas da América do Sul e, especialmente, do Brasil, desde onde operaria rede de tráfico de drogas para os EUA, mas também mantendo ramificações associativas com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e passava pelo envio de contêineres desde os politicamente disputados portos de Paranaguá, o de Santos (cujo controle político é notório) e, nos últimos tempos, o já muito falado porto do Rio de Janeiro, o que leva a suspeitar do vastíssimo interesse de autoridades na região, cuja intervenção no modelo de operações mafiosas é central, servindo de muros de contenção às autoridades tanto quanto elaboradoras de rotas de fuga aos percalços de “outsiders” do esquema criminoso pactuado com segmentos delas.”

Se o PCC é apenas uma “ramificação associada” e se Seu Jair apenas nos causa estranheza pelo seu vastíssimo interesse pelo comando da PF nos portos, nós só podemos ver esses personagens como outsiders, prestadores de serviços, que não podem ser considerados mafiosos.

Não basta pertencer ao mundo do crime para para ser mafioso

O professor Roberto Bueno lembra que numa organização mafiosa, “para manter a sua funcionalidade, há regras inflexíveis. Uma delas, e talvez a principal, é a inadmissibilidade da traição, entendida esta como a publicização dos assuntos internos da organização, e por isto vigora a omertà (lei do silêncio)”.

Se é notória a exigência de Bolsonaro que seus ministros e demais lacaios possuam fidelidade canina, da mesma forma o estatuto da organização criminosa Primeiro Comando da Capital também é firme nesse sentido:

  • Item 9: “… poderá ser visto como traidor, tendo atitude covarde e o preço da traição é a morte.”,
  • Item 11: “… no caso de vazar as ideias poderá ser caracterizado como traição e a cobrança será a morte.”
  • Item 17: “… O integrante que vier a sair da Organização e fazer parte de outra facção caguetando algo relacionado ao Comando será decretado e aquele que vier a mexer com a nossa família terá a sua família exterminada.”

Agora é contigo. Convido você a ler o artigo completo de Roberto Bueno no site do Jornal GGN, analisar cada característica de um e de outro grupo e tirar suas próprias conclusões.