O Rei Arthur e o combate à facção PCC 1533

O assassinato do embrião jurídico e operacional internacional que germinava na UNASUL dificulta o combate à facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

Da corte do Rei Artur ao fortalecimento do PCC 1533

Lúcia Helena Galvão Maya parou para me contar uma história do Rei Artur: O casamento de Sir Gawain e Lady Ragnell.

Eu, assim como você ou qualquer outra pessoa pessoa de bom senso, cheguei às minhas próprias conclusões antes mesmo que Lúcia Helena, que estudou profundamente o assunto, concluísse seu pensamento.

Eu e você sabemos que não faz a menor diferença qual foi a conclusão a que ela chegou, afinal nós sabemos que a moral da história foi: “nós não sabemos o que de fato queremos” – fique claro que quando digo “nós”, não me refiro a mim ou a você.

Caso você não se lembre da história de Lady Ragnell, te refresco a memória:

Um cavaleiro enorme desafia o Rei Artur a descobrir qual seria o maior desejo de uma mulher, e, para cumprir essa missão, o monarca e seu sobrinho Sir Gawain saem pelo império fazendo essa pergunta a todas as mulheres que encontram.

Se você se lembrou da história, beleza, mas caso não, pergunte como ela termina para a professora Lúcia Helena e ela lhe contará.

Esse conto me ajudou a entender o artigo “El Crimen Organizado Transnacional (COT) en América del Sur – Respuestas regionales” dos pesquisadores Jorge Riquelme Rivera, Sergio Salinas Cañas e Pablo Franco Severino.

Arte com o mapa da região da Tríplice Aliança tendo na linha de fronteira um símbolo do Primeiro Comando da Capital.
Estados Divididos fronteiras invisíveis

Um sistema unificado de combate ao crime organizado

No artigo publicado pelo Instituto de Estudios Internacionales, da Universidade do Chile, os pesquisadores concluem que as organizações criminosas transnacionais só seriam contidas se houvesse legislação que desse amparo ao combate internacional.

Eles apontam debates e iniciativas tomadas dentro da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) nesse sentido, como o que propunha a formação de um Tribunal Criminal Sul-americano e o “Conselho Sul-Americano sobre Segurança Civil, Justiça e Coordenação de Ações Contra a Criminalidade Organizada Transnacional”.

Essas entidades seriam moldadas para combater especificamente às organizações criminosas latinoamericanas, o que possibilitaria a implementação de medidas legais e operacionais feitas sob medida para uma realidade emaranhada típica do subcontinente:

Na Bolívia, atuam dois grupos colombianos, os urabeños e os rastrojos, em paralelo, quando não em parceria com as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), e além desses as autoridades detectaram a influência dos cartéis mexicanos para o fortalecimento de grupos criminosos locais para se contraporem às facções estrangeiras.

Apenas a criação uma legislação que possibilitasse a investigação, a prisão e a condenação dos criminosos em qualquer nação sul-americana teria chance de vencer a permeabilidade dos grupos criminosos transnacionais.

Arte com um helicóptero sobrevoando a região da Tríplice Aliança sob a frase "pirotecnia midiática"
Pirotecnia Midiática PCC 1533 e polícia

Nosso mais profundo e sinistro desejo

Há quase uma década ironizo a cobertura midiática das ações promovidas pela “Operação Ágata” e cada novo passos na implementação do SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras) por servirem apenas como pirotecnia:

As cenas impressionantes de policiais e militares fechando estradas e cumprindo mandados com helicópteros dando rasantes – apesar de produzirem imagens para a imprensa há quase dez anos, nenhuma biqueira da região sudeste deixou de receber suas drogas ou os criminosos sua encomendas de armas.

A “Operação Ágata” e o SISFRON são ferramentas de combate aos crimes desenvolvidos e operados por profissionais altamente preparados e dentro de um planejamento estratégico para atender aos mais profundos e secretos anseios da população.

Nós não queremos que Lúcia Helena venha a nos esclarecer de qual seria a moral por trás da história do casamento de Sir Gawain e Lady Ragnell simplesmente porque nós sabemos o que queremos ouvir, e talvez não seja exatamente o que ela viesse a nos dizer.

Da mesma maneira policiais e militares que atuam nas operações contra as drogas não querem ouvir que estão atuando apenas em um picadeiro montado para que grupos políticos mantenham entretidos os cidadãos, alimentando-se do medo como os Amanojakus.

As armas e as drogas continuam sendo entregues apesar da eficácia do sistema que não visa de fato a eliminação do tráfico e sim a espetacularização do combate ao crime.

Fotomontagem sobre um mapa antigo da logomarca da UNASUR e do Rei Artur da Távola Redonda. Acima da imagem a frase "Reia Artur, UNASUR e PCC, Segurança Pública é nosso real desejo?"
Rei Artur UNASUL e facção PCC 1533

Manter vivo o inimigo para garantir sua própria existência

Eu, assim como você ou qualquer outra pessoa pessoa de bom senso, sei que o presidente Jair Bolsonaro está certo em abandonar a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) por esta ser um organismo de viés ideológico gramsciano que se baseia em estudos empíricos.

Artur e Gawain não descobriram a resposta para a questão do gigante por terem justamente utilizado uma técnica empírica: perguntar às mulheres sobre seus desejos.

Assim como as mulheres arturianas, nós não sabemos realmente o que queremos e do que precisamos, e daí vem a beleza da política: entender nossos desejos mais profundos e secretos.

Certa vez Fernando Haddad afirmou ao AntiCast que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva possuía esse dom:

Muitas vezes, alguém chegava para pedir algo a ele, mas Lula, com toda a sua sensibilidade às vezes percebia que o que aquela pessoa realmente queria era um pouco de atenção, às vezes um abraço.

O que almejamos, eu, você e qualquer outra pessoa, é que um bom vendedor nos ofereça esperança, e nos mantenha como se estivéssemos assistindo a um filme de suspense na telinha, nos enchendo de medo e expectativa a cada instante.

“Aprendi que as polícias e as políticas de segurança pública são ferramentas políticas muito potentes, e que os governantes dispõem daquelas ferramentas para manter o poder. Eles utilizam o medo do crime ou do terrorismo para manter o apoio de uma grande parcela da população, a qual termina autorizando e até exigindo que as entidades de segurança pública reprimam populações vulneráveis da sociedade por causa daquele medo.”

Yanilda Maria González

Crê que eu esteja errado em minhas conclusões? Bem, tenho 57.797.847 razões para discordar.

O governo brasileiro abandonou a UNASUL porque sua política de combate ao crime organizado difere daquelas propostas pela entidade:

  • Fortalecer a segurança cidadã, a justiça e a coordenação de ações para enfrentar o Crime Organizado Transnacional.
  • Propor estratégias, planos de ação e mecanismos de coordenação, cooperação e assistência técnica entre os Estados membros para influenciar as áreas mencionadas.
  • Promover a articulação de posições de consenso sobre temas da agenda internacional relacionados à segurança cidadã, à justiça e à ação do Crime Organizado Transnacional, favorecendo a participação cidadã e atores sociais e cidadãos no desenvolvimento de planos e políticas nos referidos itens
  • Viabilizar o intercâmbio de experiências e boas práticas, fomentar a cooperação judiciária, as agências policiais e de inteligência e formular diretrizes sobre prevenção, reabilitação e reintegração social.

Enquanto isso o Primeiro Comando da Capital e o presidente Jair Bolsonaro parabenizam a todos aqueles que apoiaram o fim da integração internacional proposta pela UNISUL, assim o espetáculo pode continuar com policiais, militares e helicópteros em voos rasantes.

A matemática política da opressão carcerária

A opressão no ambiente carcerário como fator necessário para o sucesso de uma política de segurança pública.

O carcereiro, a facção PCC 1533, o Estado e a sociedade

Digo a minha garota que ela merece o que está se passando com ela, afinal, foi uma de suas mãos que marcou um “X” no quadrinho de “opção de função” quando ela se inscreveu no concurso público, o mesmo ocorrido talvez se dê no caso de Diorgeres, ou talvez não.

Você se lembra do carcereiro Diorgeres, não?

Nem esquenta, nem ele e nenhum outro carcereiro tem alguma importância para mim, para você ou para aquelas duas acadêmicas, mas, mesmo assim, vou lhe contar algo sobre ele.

(Não devia citar as duas acadêmicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], pois o presidente Jair Bolsonaro alertou que não se deve dar palanque a acadêmicos doutrinados em Gramsci, mas com a permissão do Capitão prefiro dar nome aos bois.)

O que você fazia em fevereiro de 2001?

Caso você não se lembre ou caso não vincule a pessoa ao fato, Diorgeres de Assis Victorio era o carcereiro que foi levado como refém ao telhado do Carandiru com uma faca ao pescoço na apresentação pública do Primeiro Comando da Capital:

“Então um dos detentos que parecia um líder disse que precisava de dois reféns para ir com ele até a muralha do pátio. Era ali, na frente de todo mundo, que eles costumavam matar os reféns. Como na época do Exército eu havia tido aulas de prisioneiro de guerra, com porrada, tapa na cara etc., concluí que poderia estar mais preparado do que os outros para ir, então eu acenei com a cabeça para um colega que achei que tinha mais frieza e nós dois dissemos que iríamos.”

Arte sobre foto de um repórter e do governador Wilson Witzel em um presídio sob a frase "Quanto pior melhor, ganhando visibilidade midiática".
Governador Wilson Witzel na prisão

Quanto pior for a prisão, melhor será

Assim como a minha garota escolheu marcar um “X” no quadrinho de “opção de função” quando ela se inscreveu no concurso público, Diorgeres escolheu viver nos traiçoeiros corredores do sistema prisional e ser um refém do PCC. Foi escolha dele — ou talvez não.

Desde que eu o conheço, ele não concorda com o zurro popular que exige penas mais longas e condições mais duras e cruéis de encarceramento; assim como ele, o fazem as pesquisadoras da UFRGS: Oriana Hadler e Neuza Maria de Fátima Guareschi.

Contrariando nosso presidente, cito-as, pois foram elas que me explicaram a lógica matemática que leva o Estado a triturar Diorgeres e outros agentes de segurança carcerária (ASPens), sob os aplausos ou indiferença da sociedade, de mim e de você:

“Os cálculos estatais relacionados ao sistema prisional brasileiro têm se constituído tanto pelos investimentos financeiros no encarceramento, corpos físicos de policiais e mais aprisionamentos […] Questionar como organizam-se as relações pautadas na lógica de segurança é provocar estranhamento em relação a um estado naturalizado de violências […]”

As pesquisadoras Oirana e Neusa Maria, ao contrário de mim, de você e do capitão Jair, não acreditam que aqueles trabalhadores e apenados padecem por conta de suas escolhas, mas pelo resultado de uma desumana equação política.

Arte sobre foto de agentes penitenciários tendo ao fundo gladiadores em um coliseu sob a frase "O espetáculo não pode parar, ave Caesar, morituri te salutant".
Ave caesarm moritum te salutam

Dos holofotes da mídia ao breu cotidiano

Gilson César Augusto da Silva no artigo “Reality Show das Prisões Brasileiras” faz um breve histórico da evolução do Sistema Carcerário da antiguidade até chegar aos dias de hoje, e compara com a realidade transmitida pelo Big Brother Brasil:

“… os chamados “reality shows” … semanalmente um participante é eliminado … embora de discutível gosto, os programas mostram o quão difícil é a convivência humana. As casa onde se realizam esses “reality shows são verdadeiras mansões … há, ainda, boa comida, psicólogos, psiquiatras comportamentais, médicos, entre outras regalias. Além do competidor poder deixar o programa quando quiser … o que se vê em poucos dias de convivência? Pessoas extremamente estressadas, depressivas, agressivas, com reclamações de toda ordem, brigas, choros, ofensas recíprocas. É difícil a referida convivência? Sem dúvida. Mas se é difícil para os referidos participantes, com todas essas benesses, imaginem para os presos [e para aqueles que lá trabalham].”

Como fica então aqueles que arriscam sua saúde trabalhando nas galerias do Sistema Prisional, confinados em um ambiente insalubre e claustrofóbico em companhia de pessoas que tiveram problemas de adaptação às normas sociais?

A Segurança Pública e seus agentes são utilizados como peças publicitárias pela mídia e pelos políticos, mas quando os holofotes se apagam são abandonados para sofrerem o desgaste cotidiano, seja nos corredores dos cárceres ou os meandros burocráticos:

“O Departamento de Perícias Médicas do Estado, vendo o meu quadro clínico grave, entendeu por bem me readaptar e determinou que eu fosse afastado do contato com presos. Mas o Estado, vendo o conhecimento que eu tinha sobre o cárcere, ao invés de me afastar do contato de presos, determinou que eu fosse à Autoridade Apuradora da Unidade Prisional …”

A depressão carcerária dos corredores para as mentes

Sangue novo como combustível para o espetáculo

Nós não nos importamos com as condições de saúde daqueles que passam suas vidas dentro das muralhas, sejam eles prisioneiros condenados ou aqueles que por lá trabalham – a imprensa e os políticos sabem disso e entregam à nós o que queremos: um espetáculo.

O cruel abandono dos profissionais

Por vezes tratados como refugo, com falsa benevolência, são postos de lado, havendo uma política de isolar estes das novas “equipes especializadas”, formadas por jovens recém-engajados – prontos para começarem o seu próprio desgaste.

O ambiente insalubre do Sistema Prisional afetará diretamente a saúde mental desses garotos, assim como o fez com aqueles profissionais que os antecederam, no entanto a Administração Penitenciária vende a ideia de que agora será diferente…

… e sempre haverá garotos para assumirem as posições daqueles que já se desgastaram perambulando pelo claustros e que agora não mais aceitam alimentar o espetáculo midiático e político com seu sangue e o de sua família .

Você não acredita? Diorgeres explica com detalhes no artigo “Síndrome do pânico em agentes de segurança penitenciária”, publicado no site Canal Ciências Criminais:

“Muitos agentes não conseguem suportar todo esse descaso do Estado com a sua saúde e assim cometem o suicídio. Espero que eu resista a ponto de ver o Judiciário tomar uma atitude quanto a isso e que assim o Judiciário não caia em descrédito.”

Arte sobre foto de João Dória Júnior em frente a um quadro negro e uma equação matemática.
A matemática política da insegurança

A matemática política da opressão carcerária

Para a administração pública prevalece a lógica matemática do ganho político e midiático:

“ […] Trata-se, portanto, de um cálculo mínimo sobre vidas a serem gerenciadas em um plano de investimento entre baixos custos e a menor repercussão possível, combinada com a ampliação e execução de práticas violentas.”

O espetáculo (Esp) apresentado pela mídia para o público é igual ao grau de opressão (Op) multiplicado pela economia feita no investimento carcerário (Ec).

A matemática é simples: Op x Ec = Esp

Quanto maiores forem os fatores maior será a possibilidade do caos extrapolar as muralhas dos presídios e, consequentemente, gerar o maior espetáculo midiático possível, elevando a sensação de insegurança do cidadão e abrindo espaço para um grupo político específico.

Aplaudem-se as novas levas de prisioneiros e de agentes de segurança, não porque o mundo ficará mais seguro, mas por nos trazer uma maior sensação de segurança, não importando quem é Diorgeres ou quem são os agentes penitenciários que vivem nas galerias das carceragens.

Arte sobre foto do presidente Jair Bolsonaro com uma família assistindo a uma cena de massacre na televisão.
Bolsonaro e o show da isegurança pública

A política de inSegurança Pública e a política

Fora do meio acadêmico, poucos admitem que toda sociedade é afetada pelo resultado de uma iníqua equação matemática produzida por grupos políticos especializados em vender sua imagem de paladinos da lei e da ordem discursando sobre pilhas de cadáveres:

“Nesse cenário, encontramos diversos atores que ocupam o lugar daqueles que matam e, concomitantemente, dos que morrem nesse jogo de cálculos sobre vidas e grades. Pode-se dizer que é estabelecido um jogo onde a provisoriedade se torna eternidade […] Esse jogo morfético se mantém e é produzido junto a campos de saber e narrativas especialistas, que mantêm e instauram a violência do direito.”

Se é compreensível que um cidadão caia no conto do político salvador da pátria, é difícil explicar a posição de profissionais que sofrem na pele as consequências dessa política repressiva e ainda assim continuam as apoiando.

Alguns como Diorgeres questionam há muito políticas que tornam esses ambientes pútridos que impregnam os corpos, as mentes e as almas de todos aqueles que por lá vivem e trabalham. Mas esses são exceções, mas…

… ele, assim como outros ASPens, ao assinalarem com um “X” o quadrinho de “opção de função” quando eles se inscreveram no concurso público não pretendiam carregar os estigmas de dentro do cárcere para suas vidas, suas famílias e seus descendentes.

Transferência de Marcola: o Apocalipse chegou?

A transferência de Marcola para uma prisão federal e a análise comparativa sobre o PCC e sua evolução em relação às principais organizações criminosas latino-americanas.


Marcos Willians Herbas Camacho transferido

Facção PCC 1533: estará ativo o salve geral do apocalipse?

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola do PCC, foi transferido para um presídio federal. E agora? O que se pode esperar como resultado disso? Haverá represálias por parte de integrantes da facção?

Há alguns anos, o Apocalipse foi previsto. Não pelos profetas de Israel ou pelos apóstolos cristãos, mas pelos líderes da Família 1533, prisioneiros da P2 de Presidente Venceslau – e já se vão mais de cinco anos…

O fim do mundo planejado pelos chefes do Primeiro Comando da Capital se daria no exato momento em que Marcola, o líder maior da facção, fosse impedido de sair do encarceramento após cumprir o seu tempo normal de prisão.

Aconteceu com Gegê do Mangue e teria que acontecer com Marcola

Rogério Jeremias Simone, o Gegê do Mangue, acabou saindo pela porta da frente do presídio, dentro das normas legais, e assim também se esperava que acontecesse com Marcola. Contudo, temia-se que a Justiça encontrasse subterfúgios para mantê-lo preso.

A prorrogação do período de prisão de Marcola seria o gatilho do Apocalipse: ataques à ordem pública e às forças de segurança, que, diferentemente de 2006, em que estiveram à frente dos ataques os crias do 15, esses seriam orquestrados pelos profissionais da facção.

O tempo passou, e cada vez menos se ouvia falar dentro da facção sobre o Apocalipse, afinal outras condenações estavam a caminho de Marcola, que não mais contava com a saída a curto prazo. Assim, um novo gatilho foi criado: a transferência de Marcola para a federal.

Princípio básico da ação policial: uso progressivo da força

Até hoje, os governos paulistas utilizaram a técnica de endurecimento paulatino para a retomada do controle do sistema carcerário, algo assim como quando se coloca uma rã na água e esta é colocada em fogo brando, e ela assim, vai se deixando ficar até morrer.

Hoje, a revista das visitas nos presídios é feita através de sistemas eletrônicos, e o serviço de inteligência das Secretarias de Segurança e da Administração Penitenciária (SASP), assim como a Promotoria Pública de São Paulo (MP-SP), têm conseguido interceptar e bloquear as comunicações dos presos.

O governo do Ceará, logo no começo da mais recente administração, optou por quebrar a ideologia de paulatinidade no endurecimento do tratamento dado aos prisioneiro — deu no que deu, e foi necessário o envio de forças federais para o estado.

Ao escolher agir de forma abrupta e não seguir com um processo gradual, o governo João Dória abandonou o bom senso e escolheu o caminho mais perigoso e ao alertar a rã a colocou em movimento.

O recado no entanto foi mandado.

Transferir Marcola para um presídio federal é um fato histórico e uma aposta do governador João Dória que tem poucas chances de não lhe ser vantajosa politicamente:

  • se houver reação por parte dos facciosos, ele ganhará com o aumento do medo da população que reforçará sua estratégia de combate rígido às organizações criminosas.
  • se não houver uma reação dos criminosos, ele terá demonstrado que venceu a facção criminosa ao enfrentá-la de frente, o que os seus antecessores não tiveram coragem ou falta de senso de fazer.

Dentro da facção, não se acreditava que João Dória, assim como seus antecessores, resolveria arriscar o embate, pois o número de mortos entre os agentes públicos e as ações de terror desgastariam o governo.

O erro de cálculo dos faccionados se deu ao acreditar que o governador estaria preocupado com a vida dos policiais e seus familiares, que ao contrário do salve de 2006, também seriam alvo no Apocalipse, no entanto…

Um novo tempo, um novo Primeiro Comando da Capital

Já se vão mais de cinco anos desde que o Apocalipse foi planejado. O mundo e a facção não são mais os mesmos, contudo, a imagem que a população tem do que é uma facção criminosa pode não ter acompanhado essa evolução.

Se aproveitando da ingenuidade da maioria, políticos e parte da imprensa vendem soluções se coadunam com o imaginário popular, como a política de aprisionamento e a transferência das lideranças criminosas para os presídios federais.

No entanto, hoje, o Primeiro Comando da Capital é uma organização mais horizontal e formada por subgrupos que não terão sua vida alterada pelo envio de Marcola e outros líderes para fora do estado e sua colocação no regime disciplinar diferenciado.

A estrutura da organização criminosa dentro e fora dos presídios continua existindo e me parece natural que haverá uma disputa interna para ocupar o lugar dessas lideranças que conseguimos isolar nos presídios federais. Não tenho nenhuma esperança que o PCC acabou

Lincoln Gakiya para a Revista Isto É

Nesse novo horizonte, o Apocalipse passou a ser apenas uma opção. Se será colocada em marcha ou não, será uma decisão tomada levando em conta os interesses políticos, econômicos e sociais da maioria dos integrantes da facção.

Será que justamente no momento em que se está sendo colocado em pauta uma nova legislação penal seria interessante para o mundo do crime uma onda de atentados?

A mim parece claro. A facção Primeiro Comando da Capital retaliará apesar de não ser a melhor solução técnica, pois assim como João Dória, sabe que deve agir pensando em sua platéia mesmo que seus homens sejam mortos.

A questão não é se, mas sim quando e se estamos preparados para contar os mortos e o prejuízo, mas o importante é que o governador cumpriu sua promessa de campanha.

Todo cuidado é pouco quando se mexe com a Família 15

Esperando uma possível onda de ataques o governo do estado de São Paulo colocou em prontidão 100 mil policiais militares e o governo federal autorizou a utilização da Força Nacional para guardar os presídios federais de: Brasília, Porto Velho (RO) e Mossoró (RN).

Apesar de Marcola e os demais líderes transferidos terem deixado de ser uma peças fundamentais para o bom funcionamento da facção os faccionados podem optar pela retaliação para impedir que outras medidas venham a ser implementadas.

Esperando uma possível onda de ataques o governo de São Paulo colocou em prontidão 100 mil policiais militares e fez operações em 3.300 pontos em todo o estado.

O governo federal autorizou a utilização da Força Nacional para guardar os presídio federal de Brasília e efetivos das forças armadas para guardarem o entorno dos presídios federais de Porto Velho (RO) e Mossoró (RN).

Leia mais detalhes sobre a transferência dos presos e as ações preparatórias das forças públicas no G1.

Lista com o nome dos 22 integrantes do PCC transferidos

  1. Lourinaldo Gomes Flor (‘Lori’)
  2. Marcos Williams Camacho (‘Marcola’)
  3. Pedro Luís da Silva (‘Chacal’)
  4. Alessandro Garcia de Jesus Rosa (‘Pulft’)
  5. Fernando Gonçalves dos Santos (‘Colorido’)
  6. Patric Velinton Salomão (‘Forjado’)
  7. Lucival de Jesus Feitosa (‘Val do Bristol’)
  8. Cláudio Barbará da Silva (‘Barbará’)
  9. Reginaldo do Nascimento (‘Jatobá’)
  10. Almir Rodrigues Ferreira (‘Nenê de Simone’)
  11. Rogério Araújo Taschini (‘Taschini’/’Rogerinho’)
  12. Daniel Vincius Canônico (‘Cego’)
  13. Márcio Luciano Neves Soares (‘Pezão’)
  14. Alexandre Cardoso da Silva (‘Bradok’)
  15. Julio Cesar Guedes de Moraes (‘Julinho Carambola’)
  16. Luis Eduardo Marcondes Machado de Barros (‘Du da Bela Vista’)
  17. Celio Marcelo da Silva (‘Bin Laden’)
  18. Cristinao Dias Gangi (‘Crisão’)
  19. José de Arimatéia Pereira Faria de Carvalho (‘Pequeno’)
  20. Alejandro Juvenal Herbas Camacho Marcola Júnior (‘Marcolinha’)
  21. Reinaldo Teixeira dos Santos (‘Funchal’)
  22. Antonio José Muller Junior (‘Granada’)

Leia mais detalhes sobre os principais líderes transferidos no G1.

Entre as facções que mais se destacaram em 2018, o Primeiro Comando da Capital foi a vencedora.
Facção PCC 1533 Criminal Winner 2018

PCC o “vencedor” do crime na América Latina (GameChangers 2018)

Os especialistas em crimes transnacionais do site InSight Crime, Jeremy McDermott, Mimi Yagoub, Victoria Dittmar e Mike LaSusa, analisaram as principais organizações criminosas que se fortaleceram em 2018 e ranquearam, após investigarem as estratégias e a virulência de sua expansão territorial e econômica durante o ano, sua capacidade de resistir às investidas das forças públicas e sua capacidade de domínio fora de suas fronteiras.

O Primeiro Comando da Capital, segundo esses especialistas é a que melhor resultado teve, ficando à frente do Exército de Libertação Nacional (ELN)da Colômbia e do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) do México. Essa resiliência se deve à adaptação às novas realidades e ao uso racional da força, por isso não houve nenhuma reação imediata à transferência de sua lideranças.

A seguir passo as principais conclusões desses especialistas, publicado aqui de acordo com as exigências do “Creative Commons” (clique neste link para acessar o texto original):

Embora a tendência geral durante a última década na América Latina tenha sido a fragmentação de estruturas criminosas, três grupos quebraram esse paradigma e ganharam grande visibilidade, crescendo em número e influência territorial dentro e fora das fronteiras de seus países.

Enquanto muitos criminosos buscavam agir nas sombras, atuando em operações cada vez mais longes dos olhos do público, esses grupos foram para as ruas e apresentaram-se abertamente como organizações criminosas.

A exposição pública de sua força e marca são o segredo de seu sucesso? Ou será que a atenção que as facções estão atraindo com suas ações resultará na fúria e no poder de repressão das autoridades nacionais e internacionais, motivando sua fragmentação e desaparecimento definitivo?

Breve histórico da facção Primeiro Comando da Capital e de Marcola seu líder.

Primeiro Comando da Capital (Primeiro Comando da Capital – PCC)

A gangue prisional mais poderosa do Brasil em 2018, se aproveitou a total falta de vontade política para enfrentá-la:um governo fraco, paralisado e aparentemente corrupto do presidente Michel Temer gastou seu limitado capital político simplesmente agarrando-se ao poder. Foi nesse ambiente que o então candidato Jair Bolsonaro, um extremista em questões de segurança, concorreu e ganhou as eleições para presidente da República de 2018.

O PCC passou vários anos em expansão, mas em 2018 houve uma aceleração de seu crescimento, e sua estrutura estava muito mais coesa do que as estimativas levavam a crer: com operações agressivas no Paraguai e na Bolívia, e tentáculos que alcançam Colômbia, Argentina, Uruguai e Venezuela. A participação da quadrilha no comércio internacional de cocaína também revela uma capacidade de obter maiores lucros e se expandir para fora da América do Sul.

Um dos fatores que teriam influenciado o crescimento acelerado da facção seria a quebra, em 2016, da aliança que havia firmado com o Comando Vermelho (CV). Seu fortalecimento permitiu que a organização carioca fosse enfrentada, e esse enfrentamento não só não a enfraqueceu como levou o PCC ao domínio tanto de fontes primárias quanto de rotas.

Arquivos apreendidos pelas autoridades em 2018 elucidam fontes de renda, táticas de lavagem de dinheiro e aumento de recrutas do PCC. Os documentos indicaram que a receita anual do grupo pode chegar a US $ 200 milhões. De acordo com os arquvios, os membros do PCC pagam uma taxa de afiliação de até R$ 950,00 por mês, que é usada principalmente para manter os membros do grupo que estão na prisão.

A expansão do PCC no exterior tem sido mais evidente no Paraguai. O crescimento nesse país e a vontade do grupo para agir em desafio aberto a qualquer resposta paraguaia ficaram claros após o assalto cinematográfico na sede da Prosegur, uma empresa de carros blindados em Ciudad del Este. Com precisão militar, 60 homens armados explodiram as portas da sede da empresa e pacificamente levaram US$ 11,7 milhões, passaram em carreata atirando para em direção à fronteira e terminaram a fuga em barcos pelo rio Paraná em direção ao Brasil.

Desde então, as raízes do PCC no Paraguai, principal produtor de maconha na América do Sul e paraíso dos contrabandistas, se tornaram arraigadas e disseminadas. Acredita-se que o PCC agora domine a cidade fronteiriça paraguaia de Pedro Juan Caballero, onde exerce o controle total dos negócios de maconha e cocaína que passam por lá.

Todas as organizações criminosas brasileiras querem acesso à farta produção de cocaína colombiana e peruana, tanto para abastecer o mercado interno quanto para baratear o preço de venda e para conseguirem se inserir no comércio internacional de drogas — o que só é possível com o controle de custo, pegando a mercadoria direto do fornecedor externo.

A presença do PCC na zona trilateral, entre o Brasil, a Colômbia e o Peru, outro país produtor de cocaína, intensificou-se nos últimos anos, muitas vezes acompanhada de massacres e extrema violência. A Bolívia não foi isenta de uma dinâmica semelhante, embora em 2018 fosse o Comando Vermelho, mais do que o PCC, que tinha uma presença mais óbvia naquele país .

A Venezuela, com corrupção generalizada e fracasso econômico, tornou-se uma fonte de armas para grupos criminosos, e o PCC procurou estocar armas pesadas para lá.

Embora alguns dos principais líderes do PCC tenham morrido, o grupo conseguiu manter sua direção e controle graças a sua estrutura de atuação, que mais se parece como uma franquia com um conselho de administração do que com uma estrutura verticalmente integrada. Esse conselho de diretores é conhecido como “Sintonia Geral Final”, e é formado por cerca de oito a dez membros, e seriam eles quem tomariam as decisões mais importantes sobre estratégia e diretrizes gerais para as atividades dos membros do PCC.

Ironicamente, a eleição de Bolsonaro pode ser um estímulo para o PCC, sem dúvida, em termos de recrutas, porque estão previstos mais confrontos e prisões de membros, segundo a retórica de campanha do presidente.

Especificamente, o motor de crescimento do PCC são as prisões. As prisões são os lugares onde o PCC ancora sua base e cria sua força e suas bases sociais. Quanto mais a política de aprisionamento for promovida como uma resposta à violência, mais o PCC será fortalecido e expandido. Paradoxalmente, o estado acaba atuando para fornecer mais membros ao PCC.

Camila Nunes Dias

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 700 mil presos, e segue de perto os Estados Unidos e a China, ambos com populações totais muito maiores. E esse número parece destinado a crescer durante o ano de 2019.

É opinião do InSight Crime que o PCC em breve se tornará uma das estruturas criminais mais importantes do continente americano, juntando-se aos colombianos e aos mexicanos. A expansão futura, especialmente no nível transnacional, dependerá de quanto o PCC está envolvido no negócio da cocaína, aproveitando a posição do Brasil como uma das principais pontes de tráfico da droga para a Europa e além.

“O PCC está no Brasil, Bolívia, Paraguai e está entrando no Uruguai e na Argentina. Eles vão nessa direção. Existe um vácuo e eles vão se expandir e expandir. E dominar “.

Márcio Sérgio Christino

Para ler a análise do InSight Crime sobre as outras duas organizações criminosas que se destacaram em 2018, Exército de Libertação Nacional (ELN da Colômbia) e o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), acesse este link.

ASPEN – agente penitenciário é polícia?

O Primeiro Comando da Capital e a Polícia Militar: a metodologia e o imaginário dos Agentes de Segurança Penitenciária (ASPENs).

PCCs e PMs vs. ASPENs

Os facciosos da organização criminosa Primeiro Comando da Capital e os integrantes da Polícia Militar sabem quem são e para onde vão. Agora, será que você, eu e os ASPENs temos tanta certeza de quem somos e de qual é nosso objetivo?

Essa não é uma pergunta meramente filosófica, mas prática, afinal se você não sabe quem você é, não tem como saber qual o melhor caminho para alcançar ao seu objetivo.

Iguais porém diferentes, por dentro e por fora.

Todos que trabalham nos presídios são iguais – pelo menos é assim que parece para quem apenas vê os agentes penitenciários pela telinha do celular ou da tv quando estes são feitos reféns por amotinados ou entram em greve; nada poderia ser mais enganoso.

Se você é uma dessas pessoas, Victor Neiva e Oliveira pode lhe contar com detalhes como se dividem os profissionais prisionais: os agentes de linha de frente, os GIRs, os GITs, os SOEs, os COPEs…

… mas, principalmente, como essas pessoas se veem – apesar de trabalharem lado a lado, cada um desses grupos tem objetivos e métodos de trabalho antagônicos.

Antípodas

As muralhas que separam esses grupos são tão elevadas quanto as dos presídios nos quais trabalham. Essas diferenças não são apenas profissionais e se aprofundaram em suas almas.

E foi esse universo que Victor me levou a conhecer, em sua tese apresentada à Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.

“O dilema identitário dos agentes de segurança penitenciária: guardiões ou policiais?”

Os facciosos do Primeiro Comando da Capital e os soldados da Polícia Militar é que são felizes, eles sabem exatamente quem são e para onde vão, e seguem firmes para seu destino – ao contrário dos agentes penitenciários, de mim e de você.

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Seu João, um dinossauro na carceragem

A primeira vez que vi Seu João eu estava na carceragem do Fórum…

Havia um desentendimento entre presos de dois bondes: um do CDP de Sorocaba e outro do Cadeião (CDP de Pinheiros). Os escoltas gritavam para que parassem a briga e ameaçavam represálias, mas os presos ignoravam as advertências e continuavam o confronto.

Seu João, carcereiro do DELPOL, chegou puxando mais um preso pela algema. Um dos PMs entrou na frente do velho carcereiro para lhe barrar a passagem. Seu João, um negro grande e pesado, fez que nem viu o PM, continuou em frente e entrou na cela.

Os que estavam brigando pararam.

Ninguém esperava que alguém entrasse na cela no meio da muvuca, muito menos um senhor de camisa aberta até quase o umbigo.

Seu João ficou de costas para os briguentos, tirou a algema do garoto que tinha levado para a cela e lhe deu alguns conselhos, quem não os conhecesse acharia que eram pai e filho. O carcereiros agiam como se não tivessem percebido o clima pesado.

Antes de sair da cela, Seu João comprimentou um a um os oito presos que lá estavam. Quando deu a mão para os que estavam tretando, ficou uns segundos a mais segurando suas mãos antes de soltar, olhos nos olhos, semblante plácido e sem ameaças.

Saiu da cela.

Os presos não mais se encararam, ficaram todos com as cabeças baixas: alguns se sentaram, outros não, uns passaram a conversar em tom baixo, enquanto outros ficaram em silêncio – foi assim até que os bondes voltassem para suas unidades com seus custodiados.

Você talvez tenha ouvido falar do que acontecia nos cárceres durante o Regime Militar – seu João era carcereiro naquele tempo. Algo sempre me intrigou: sempre tive a impressão que os PMs e os ASPENs olhavam com desprezo e superioridade para aquele dinossauro…

… e seu João ria muito daqueles garotos quando não estavam por perto – eles pensam que são durões”, e ria, ria muito.

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Seu João era único, só que não.

Víctor conta que ele era o típico carcereiro da década de oitenta – um dinossauro andando entre nós:

“[…] habilidoso da ‘malícia’. Conseguia o respeito e a obediência dos prisioneiros sem recorrer ao uso da força o que conferia a ele um status diferenciado na ‘turma dos guardas’. Os detentores dessa habilidade individual gozavam de uma posição de prestígio nas penitenciárias e, por isso, possuíam um profundo orgulho profissional.”

Eram outros tempos. Seu João não dava a mínima para os treinamentos, e hoje, com a profissionalização dos presídios, esse tipo de atitude isolada passou a ser vista com desprezo pela maioria da categoria.

Os policiais militares e os ASPENs, que olhavam com desprezo e superioridade o seu João, eram apenas algumas nuvens pesadas que prenunciavam a tempestade que iria levar quase à extinção os dinossauros.

“Permanecer operando nos pavilhões como há quatro décadas ou não buscar participar dos treinamentos ministrados pelo COPE pode relegar o agente a uma posição de inferioridade ou demérito nas penitenciárias.”

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

O crime se profissionalizou, assim como as forças policiais e carcerárias, e creio que é quase impossível saber se esse movimento foi simultâneo ou algum dos lados conduziu o processo.

O Primeiro Comando da Capital e as outras organizações criminosas estruturadas, assim como os PMs e os ASPENs, não aceitam mais condutas como as de seu João – se algum preso aceitasse o contato com o velho dinossauro, o vacilão seria chamado para o debate.

Os presos como empoderadores de seus algozes

Muitas vezes ouvi os gritos: “A GIR! A GIR!”. A reação é a mesma que nas ruas quando se grita “Rota!” – o clima muda: os criminosos se preparam para um confronto pesado ou assumem que a casa caiu, se possível viram pó, e, se não, baixam a bola.

“Esse ‘temor’ por parte da população prisional elevou os integrantes dos grupamentos táticos especializados a uma posição de superioridade antes ocupada pelo guarda de presídio portador do conhecimento sobre o uso habilidosos da ‘malícia’ e com ampla capacidade discricionária.”

Os GIRs, os GITs, os SOEs, os COPEs…, são os caras! Só que não:

“[Eles] se sentem extremamente ressentidos, indignados e menosprezados por não serem reconhecidos legalmente como policiais. A aspiração máxima da categoria no país hoje é se tornar uma polícia de direito […]. O reconhecimento como policiais penais significaria também uma via de legitimidade social pela qual poderiam positivar sua imagem perante a sociedade […].”

Agora, me responda, quem nasceu primeiro: as equipes táticas de uso da força no ambiente prisional ou o Primeiro Comando da Capital? Seja como for, o mundo não mais foi o mesmo após essa onda de profissionalização, tanto dos ASPENs quanto dos criminosos.

O que citei neste site sobre a GIR → ۞

Somos todos irmãos de sangue, não somos?

Nem todos os agentes prisionais gostariam de ser policiais carcerários – exceto pelas vantagens econômicas e trabalhistas que essa mudança traria, é claro.

Parte dos profissionais prefere trabalhar no dia a dia da prisão, sem se misturar com os “puliças” das equipes especializadas de intervenção, que alguns consideram como covardes enrustidos e arrogantes:

“Será que aqueles caras que chegam, invadem em bando, jogando bombas, batendo e gritando, por trás de seus equipamentos de proteção e com o rosto encoberto, teriam coragem de ficar desarmados circulando entre os presos diariamente só com a proteção de Deus?”

Parte dos profissionais prefere trabalhar nas equipes especializadas, sem se misturar com os “porteiros”, os agentes de linha de frente, que alguns consideram como covardes e displicentes:

“Se eles fizessem direito seu serviço não teríamos que entrar para acertar seus erros. Quando a coisa complica, eles fogem e ficam de fora, sobrando para as equipes especializadas entrarem para resolver tudo.”

Cada grupo sabe da importância do outro para o perfeito funcionamento do sistema prisional e juram que tem o sangue da mesma cor, só que, por dentro, os integrantes de um grupo acreditam serem melhores que os integrantes do outro grupo.

No entanto, não bastaram para mim as explicações de Victor para que eu entendesse as razões dessa disputa interna – tive que pedir ajuda à Ronie Silveira.

O que citei neste site sociólogos ou cientistas sociais → ۞

A partir desse ponto até o fim, as citações foram intertextualizadas e contextualizadas: para acessar o original clique nos links.

Brasileiros agem como brasileiros

Ao ouvir Ronie Alexsandro Teles da Silveira não pude deixar de notar a semelhança do comportamento dos agentes penitenciários com nós outros, e não poderia ser diferente. Eu e você fomos criados no mesmo caldo que qualquer agente de linha de frente ou de equipe especializada.

Fala sério! Alguém acredita que a cultura que vige dentro das muralhas não é a mesma que impera para todos os outros a brasileiros?

Vou contar para você alguns trechos intertextualizados e contextualizados do que eu ouvi do Ronie no episódio “Filosofia como parte da cultura”, do podcast Filosofia Pop:

“Isso seria um absurdo, isso seria dar muito poder [ao mundo carcerário], um poder que certamente não tem, que é o poder de isolar sua cultura”.

Os agentes penitenciários querem ser policiais, pois, inconscientemente, o universo prisional lhes parece pequeno, inferior, e a Polícia Militar é o modelo de corporação a ser seguido.

O padrão operacional prisional americano também é admirado e copiado – mesmo que este não apresente melhor resultado do que os dos cárceres europeus na pacificação dos presídios e na recuperação dos custodiados.

“Percebemos que muitas das características da cultura [laboral prisional] espelha a cultura brasileira. […] Que é feita com os olhos voltados para os países que nos colonizaram culturalmente, desvalorizando o conhecimento adquirido diretamente no mundo efetivo onde nós vivemos.”

Espelhando nossos ídolos

Ao ouvir Ronie, percebi que o seu João, o velho carcereiro, procurava espelhar o comportamento dos antigos policiais civis. Hoje a nova geração deixou de ter como seus malvados favoritos delegados e investigadores,e passou a seguir os PMs do Choque.

NON DVCOR DVCO (não sou conduzido, conduzo) poderia ser o lema dos homens da Polícia Militar e do Primeiro Comando da Capital, mas hoje não parece constar das flâmulas dos agentes de linha de frente, dos GIRs, dos GITs, dos SOEs, dos COPEs…

… assim como os minions, aqueles que tentam se espelhar são considerados como inferiores por seus modelos, e não podia ser diferente, pois o próprio agente penitenciário se colocou nessa posição, que não é só dele, mas faz parte de nossa cultura nacional:

“Nós olhamos nosso [sistema prisional] basicamente pelo olhar europeu e americano, e por essa perspectiva temos uma tentativa fracassada de [encarceramento] no qual não conseguimos realizar plenamente os valores da [ressocialização e do controle interno]. Ficamos a meio caminho, mais ou menos, em uma hipótese muito favorável para nós.”

Os facciosos do Primeiro Comando da Capital e os soldados da Polícia Militar é que são felizes, eles sabem exatamente quem são e para onde vão e seguem firmes para seu destino – ao contrário dos agentes penitenciários, de mim e de você, só que:

“[Mas não podemos viver em] mundo aparentemente sem critérios, ou seja os seus critérios são aqueles vigentes no seu próprio meio. É uma extrema dificuldade você fazer uma leitura moderna de olho nas experiências externas ao mesmo tempo que busca adequar as conquistas de sua própria história.”

PMs e PCCs são felizes porque vivem em seu próprio mundo, sob suas próprias regras (Efeito Dobradiça), se opondo ao controle externo de seu padrão operacional e ético. Ambos sabem exatamente o que fazer pelo bem da comunidade, só que não.

Talvez, eu, você e os agentes penitenciários, que ainda estamos construindo nossas identidades, possamos conviver em paz com o restante da sociedade, em que PCCs e PMs enfrentam a repulsa de parte dessa mesma comunidade, que eles acreditam estar protegendo.

“Diante do reconhecimento dessa lógica peculiar que é ser brasileiro, onde há uma lógica diferente dos valores ocidentais, modernos e contemporâneos, o que nos cabe fazer é reconhecer que há uma lógica alternativa, vigente no Brasil e que permite que soluções sejam formuladas de maneira contextual.”

A pergunta que resta é:

Faz diferença se os agentes da segurança prisional são policiais? Ou isso seria apenas uma questão de ego alimentada pela cultura norte-americana? – exceto pelas vantagens econômicas e trabalhistas que essa mudança traria, é claro.

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Deus e o Estado Vs. Primeiro Comando PCC

O Primeiro Comando da Capital ameaça o Estado Constituído, assim como outros grupos no passado já o fizeram – veja como a Bíblia nos orienta a agir.

Nem direita e nem esquerda, só Deus na causa!

O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o caos na Segurança Pública são consequências do governo:

  • de Direita: por meio do Regime Militar e da política da Rota na Rua, que criaram um ambiente favorável à intelectualização do crime, sem a qual o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho (CV) não existiriam;
  • de Centro: por meio dos governos do PSDB de Mário Covas e Geraldo Alckmin, que possibilitaram a hegemonia do PCC em São Paulo e o fortalecimento dos negócios da facção dentro e fora dos presídios; e
  • de Esquerda: por meio dos governos do Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma, que permitiram a proliferação da facção paulista por todos os estados da nação, levando-os a ampliar seus negócios para fora do país.

E essa história começa assim:

“Uma carta saiu de um presídio. Quem a recebeu odiava profundamente as forças opressoras do governo. Ele já havia sido preso e estava pronto para lutar contra o jugo do opressor agora teria irmãos para ajudá-lo, já não correria mais sozinho.”

Quem permitiu que esse preso se comunicasse?

O seu malvado favorito, assim como o meu, talvez tenha permitido que essa mensagem saísse do presídio:

  • Regime Militar
    • Como forma de punir com maior rigidez os presos políticos, eles foram colocados juntos aos presos comuns de alta periculosidade na Ilha Grande e no Carandiru. Em cima dessa união de métodos é que se solidificou as bases ideológicas do PCC e do CV. Essa carta pode ser uma daquelas tantas que divulgaram essa boa-nova;
  • Governo Geraldo Alckmin
    • Período de pacificação, em que supostamente houve uma trégua entre o Estado e as facções criminosas. Essa carta pode ter sido uma daquelas tantas que se aproveitaram desse ambiente propício, que permitia até a entrada de celulares nos presídios; ou
  • Governos do Partido dos Trabalhadores
    • Período áureo de expansão do PCC 1533 nacional, que se aproveitava das transferências de presos para outros estados e de uma política preocupada com o respeito aos Direitos Humanos. Essa carta pode ser uma das tantas outras que circulavam por todo o Brasil.

Só Deus na causa.

O importante é que você, assim como eu, não caia no conto de Benjamin, que critica o sistema, duvidando da capacidade do Estado em nos proteger do mau – ele veio para trazer dúvidas às nossas certezas, mas isso já era previsto.

A única certeza que posso ter é que “os homens jogam os dados sagrados para tirar a sorte, mas quem resolve mesmo é Deus, o Senhor.” – e Benjamin não é o Senhor.

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O roubo de armas do exército e da marinha

Uma carta saiu de um presídio. Quem a recebeu odiava profundamente as forças opressoras do governo. Ele já havia sido preso e estava pronto para lutar contra o jugo do opressor – agora teria irmãos para ajudá-lo, já não correria mais sozinho.

De posse daquela carta de corso, foi juntar-se aos seus novos irmãos que estavam concentrados em um outro estado mais ao sul.

Inicialmente fez alguns saques e pequenos ataques, mas era apenas uma preparação para uma mega-operação que envolveria muito dinheiro, armas e homens.

Não, não estou falando do mega-assalto do PCC ao Prosegur no Paraguai ou de tantos outros que você possa estar cogitando – foi algo maior.

As armas pesadas que precisavam foram tomadas dos paióis do exército e da marinha de Laguna, e por mais incrível que possa parecer para você, que, assim como eu, acredita na lei e na ordem, a população comemorou quando eles derrotaram os soldados:

A noite se iluminou, os festejos não acabavam mais, aqueles que oprimiam levaram uma surra daqueles homens que atacaram as forças do governo. Foram saudados como irmãos e libertadores, pois a comunidade “era simpática” aos seus ideais.

Giuseppe Garibaldi conseguiu apreender escunas imperiais, pequenos veleiros, canhões, 463 carabinas e 30.620 cartuchos…

… e tudo começou com a carta passada por Bento Gonçalves à Giuseppe Garibaldi de dentro de uma prisão imperial (ou como diríamos hoje: de um presídio de segurança máxima federal).

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Livrando-se desta peste – bandido bom é bandido morto

O cientista político Benjamin Lessing pergunta, ao mesmo tempo que responde, à repórter Fernanda Mena da Ilustríssima da folha de S. Paulo:

“O PCC se enfraqueceu ou se fortaleceu ao longo dos anos 1990 e 2000, quando a população prisional do Estado quadruplicou e o número de prisões explodiu? O PCC cresceu junto com o sistema.”

O cárcere e as comunidades carentes são os ambiente nos quais as organizações criminosas recrutam seus homens e articulam seus planos de ataques, isso é tão verdade agora como foi há duzentos anos, quando Garibaldi se irmanou à facção dos Farrapos.

Você e eu sabemos que a questão carcerária é muito mais complexa do que aqueles que apontam a direita, a esquerda ou o centro fazem parecer. É claro que nem eu e nem você acreditamos que foi o Regime Militar, Alckmin ou o PT que causaram tudo isso.

Dúvida? Pergunte ao Bento Gonçalves quem foi que facilitou para ele passar de dentro da prisão aquela carta de corso para Garibaldi. Duvido que ele lhe diga que foram um desses que tanto acusam hoje em dia.

O que parece acontecer é que, entra século, sai século, insistimos em manter as masmorras intocáveis, entulhando-as com todos aqueles que não aceitam seguir as normas impostas por nós, cidadãos de bem, por meio de nossos governantes.

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Encarceramento em massa ou morte!

Só que a política de encarceramento em massa daqueles que não se ajustam ao sistema não funciona – pelo menos é o que afirma Benjamin:

“Não conheço nenhum lugar do mundo que tenha diminuído o poder de facções do crime organizado aumentando a população prisional.”

Há dois séculos nós, “cidadãos de bem”, gritamos que o governo deveria “se livrar de uma vez destas pestes”, que eram os farroupilhas. Hoje, continuamos bradando para que os bandidos das facções criminosas sejam caçados e mortos.

As forças militares imperiais não conseguiram tirar dos gaúchos os farroupilhas, assim como as polícias militares republicanas não conseguiram tirar os jovens sem oportunidade das comunidades periféricas da “Família 1533 TD3 passa nada”.

Um sistema que oprime e não protege

Os membros do Primeiro Comando da Capital de Marcola, assim como aconteceu com os farroupilhas de Bento Gonçalves, acreditam que lutam por um ideal: o fim de um sistema opressor que envia seus soldados para as regiões mais pobres apenas para oprimir e não para proteger.

E um ideal não pode ser encarcerado ou morto, como provou o estado de São Paulo:

“São Paulo é o estado com mais dinheiro, mais policiais bem treinados, com mais universidades” […] “dizia que era uma organização falida. Há falas de 2002 e 2003 de que o PCC havia sido desmantelado.” […] “E, em 2006, com os ataques, a organização mostrou seu poder. e não só não conseguiu eliminar o PCC como tem hoje a facção mais poderosa do Brasil.”

“O PCC é uma tecnologia de organização que envolve normas de ajuda mútua, sistemas de cadastramento, rituais de ingresso e comunicação entre prisões e entre as prisões e a rua. É uma ideia, como define o PCC. E as ideias são difíceis de conter.”

O governo mandou de soldados do exército imperial à ROTA para combater “ideias”; no entanto, o Estado não buscou eliminar o abandono e a opressão dentro no sistema prisional, nas favelas e nos cortiços:

Há um princípio em medicina que diz: sublata causa, tollitur effectus (“suprima a causa que o efeito cessa”, em latim)

O que falei nesse site sobre o PCC como ideologia → ۞

Deus, os governos e seus agentes

Eu, você e até mesmo o ateu mais positivista fomos criados dentro de uma cultura judaico-cristã, e foi nesse ambiente que formamos nosso conceito do que é certo ou errado e de como devemos agir em relação ao Estado e seus representantes:

“Por causa do Senhor, sejam obedientes a toda autoridade humana: ao Imperador , que é a mais alta autoridade; e aos governadores, que são escolhidos por ele para castigar os criminosos e elogiar os que fazem o bem. Vivam como pessoas livres. Respeitem todas as pessoas, temam a Deus e respeitem o Imperador.”

Segundo Bíblia Sagrada os governantes e os policiais agem em nome de Deus, e eu e você, assim como todos os homens corretos e justos, devemos-lhes obediência e respeito.

“Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.”

No entanto, Garibaldi e seus farroupilhas, assim como acontece hoje com Marcola e seus faccionários, não acreditaram nessa ladainha e optaram por se opor ao Estado Constituído e seus representantes.

Esses dissidentes recebem hoje, assim como receberam no passado, apoio nas comunidades mais pobres, que não se sentem protegidas pelas “forças de ocupação” do governo – os soldados há século raramente sobem o morro para proteger morador.

“Quem não está no crime, mas é jovem, pobre e negro, portanto, com maior chance de ser preso, sabe que vai precisar da proteção da facção. O Estado, inadvertidamente, é a corrente transmissora do poder do PCC nas quebradas.”

Onde citei neste site a comunidade → ۞

Homens de pouca fé questionam as autoridades

Eu e você, assim como todos os homens cheios de fé, sabemos que não podemos arredar o pé da Verdade:

“As pessoas honestas se desviam do caminho do mal; quem tem cuidado com a sua maneira de agir salva a sua vida. O homem violento engana os seus amigos e os leva para o mau caminho.

No entanto, alguns homens, como Garibaldi e seus farroupilhas, assim como Marcola e seus faccionários, não são como nós. Sendo homens de pouca fé, uniram-se, em suas respectivas épocas, para lutar contra aquilo considerado por eles como um sistema injusto.

Eu e você, assim como todos as pessoas de bem, sabemos como agir. Devemos ficar ao lado de nossos governantes quando estes atacam o mal em nome do bem. Devemos, mais uma vez ouvir a Verdade:

“Os maus provocam discussões, e quem fala mal dos outros separa os maiores amigos.”

Por isso, eu e você, assim como todos os justos devemos ignorar a advertência que Benjamin Lessing fez à Fernanda Mena:

“Sobre a disponibilidade de armas e a abertura de uma espécie de temporada de caça aos bandidos, não posso predizer o que vai ocorrer, mas o mais provável é que cause mais homicídios e mais confusão. O PCC é muitas coisas ao mesmo tempo: [e continuará] se expandindo e mudando ao longo do tempo, e de um lugar para outro.”

Sei que você ficará ao meu lado.

Não caia no discurso fácil de Benjamin “que sorri e pisca maliciosamente; pois sabemos que ele está com más intenções”. Não deixe que ele lhe convença que o uso da força não é o melhor caminho para vencer as facções criminosas.

Há duzentos anos nossos governantes apostam no aprisionamento em massa e na repressão, sem conseguirem vencer o crime organizado, sempre com o meu e o seu apoio, mas devemos manter a perseverança.

Tenho certeza que você não vai parar de insistir nesse caminho e não dará ouvido aà Benjamin e demaisoutros que apontam em outrao direçãocaminho, pois seitenho certeza que você sabe que a melhor solução para a segurança pública é a prisão ou a morte dos criminosos.

Eu, por via das dúvidas acho que prefiro me abster de dar meu palpite nessa nova rodada.

“Os homens jogam os dados sagrados para tirar a sorte, mas quem resolve mesmo é Deus, o Senhor.”

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Os PMs, o PCC 1533 e o comunismo

A dominação cultural das esquerdas fortalece a criminalidade ao fomentar através dos meios de comunicação idéias como os direitos humanos e a violência policial.

PCC 1533 e PM: jamais mornos

Existe algo em comum entre os integrantes do Primeiro Comando da Capital e da Polícia? Sei que você, assim como eu, sabe a resposta.

Gilberto e Dequex me apresentaram ao Antonio, que me respondeu algo mais ou menos assim:

Odeio os indiferentes. “Viver significa tomar partido”. Indiferença é parasitismo e covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o fosso que circunda a cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas e o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama aqueles que bravamente pretendem lutar.

Odeio os indiferentes também porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Qualquer coisa que aconteça não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim ao sacrifício daqueles que lutam.

Os indiferentes os são mornos: nem quentes e nem frios.

Os indiferentes são aqueles que ficam à janela a olhar enquanto um pequeno grupo de guerreiros imola-se no sacrifício. Os indiferentes pretendem usufruir dos benefícios conquistados pelos intrépidos, mas, se estes falharem, os condenarão.

Parte significante da classe política, da intelectualidade, dos cléricos católicos e da mídia são assim: mornos. Quem dera fossem frios ou quentes, como são os homens da Polícia Militar, a exemplo dos oficiais Gilberto e Dequex, ou dos PCCs.

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A teoria Gramsciana e a fragilização do Estado

Os especialistas em Segurança Pública, o major Dequex Araújo Silva Júnior e o Tenente-Coronel Gilberto Protásio dos Reis, honram a farda que vestem – são frios como devem ser os homens da polícia militar e não temeram escrever o que pensam.

Não sendo mornos, disseram sem meias palavras que “parte de significativa parcela da intelectualidade nacional [aderiu] ao sistema de ideais” que impede a justa aplicação da lei e da ordem por parte dos agentes do Estado.

“… os programas políticos para a redução da insegurança pública, […] (originárias dos ditos ‘especialistas’ em segurança pública, quase todos oriundos das ciências sociais), e o que é reproduzido pelos diversos meios de comunicação, não são eficazes, […] desinformam mais do que informam.”

“… as leis criadas pelo legislativo favorecem àqueles que cometem crimes, penalizam os cidadãos que se defendem de um atentado criminoso e ainda tolhem cada vez mais as ações das polícias no combate à criminalidade.”

Esses oficiais da Polícia Militar afirmam, assim como Ricardo Garcia no podcast “Dissecando a Hidra Vermelha: Antonio Gramsci”, que a cartilha Gramsciana está sendo usada pelos comunistas para dominar o Estado por meio da cultura de massa.

  • Se você for frio: concordará plenamente com eles;
  • se você for quente: afirmará que, ao substituir os nomes e os grupos à esquerda citados por eles por outros à direita, ficará claro que a busca da conquista e da manutenção do poder por meio do uso da hegemonia cultural se dá também em direção oposta; e
  • se você for morno, como eu, lamento: além de inocente útil da causa comunista, ainda será vomitado por Deus no Apocalipse.

Tão certos estão Ricardo, os frios e os quentes ao defenderem suas posições quanto Dequex e Gilberto ao afirmarem que a criminalidade aumenta junto com a influência dos intelectuais, dos acadêmicos e dos defensores dos Direitos Humanos.

Onde cito neste site Direitos Humanos → ۞

Marxistas e capitalistas: os dois lados do espelho

Do início ao fim do podcast é possível inverter papéis, bastando substituir os referenciais “marxistas” por “capitalistas” – o discurso serve tanto para aqueles que gostam do frio para quanto aqueles que preferem o calor:

“A tomada do poder pela dominação cultural se dá através da hegemonia nos meios formadores de opinião. Tendo formado uma opinião pública favorável a ideologia, o domínio do Estado se dá pelo caminho das eleições.”

Estaria Ricardo Garcia se referindo à extrema direita contemporânea que chega ao poder após conseguir a hegemonia das mídias sociais ou da esquerda após os avanços sobre os meios de comunicação de massa, escolas e centros acadêmicos?

Policiais e facciosos do PCC 1533, assim como todos os frios e os quentes,não teriam dúvidas: que o trecho se refere à dominação da extrema direita (afirmarão os primeiros), e que o trecho se refere a dominação comunista (afirmarão os outros).

Ao contrário de Ricardo Garcia, Dequex e Gilberto fazem uma detalhada análise histórica do Marxismo e do Gramscismo, descrevendo como essas ideologias estão sendo implantadas no Brasil sob a influência da igreja Católica e dos intelectuais no artigo:

“A ‘Crise Orgânica’ estimulada na Segurança Pública Brasileira”, publicado pela Revista do Instituto Brasileiro de Segurança Pública (RIBSP).

Não deixando margem para dúvidas.

Onde cito neste site a igreja → ۞

A intelectualidade preparando a tomada do poder

Segundo esses oficiais da Polícia Militar, as organizações criminosas e de Segurança Pública seriam peças-chaves para a tomada do poder pelos comunistas no Brasil – daí a importância do fortalecimento do PCC e do enfraquecimento da Polícia Militar.

“[…] os falsos filósofos, os pseudoespecialistas em segurança pública de viés marxista transformam as consequências em causas, insistindo na infundada concepção de que a causa da violência e da criminalidade está na exploração do sistema capitalista, na desigualdade social, nas injustiças sociais […].”

Se você é um dos mornos, é possível que esteja trabalhando para a tomada do poder pelos comunistas, seja a soldo, seja por militância ou até mesmo sem saber (inocente útil) – dentro da a estratégia marxista gramsciana de tomada do poder:

“É uma questão de tempo para a gente (PT) tomar o poder”, afirmou José Dirceu.

Dequex e Gilberto explicam que os pilares que mantêm em pé e em ordem todo o modo ocidental de viver são: o patriotismo, a moralidade e a espiritualidade. E os comunistas focam seu ataque nessas bases, levantando dúvidas e relativizando o bem e o mau:

“O certo pelo certo, e o errado será cobrado” – essa frase faz parte do código de ética dos militares ou dos criminosos? Plantada a dúvida?

Chegam induzir o cidadão que não há uma diferença entre o modo de pensar e agir de policiais e dos facciosos do PCC: “[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas …”

Onde cito neste site o Regime Militar → ۞

Religiosos católicos preparando a tomada do poder

Além dos intelectuais, os religiosos católicos também fazem parte desse movimento. Segundo os oficiais da Polícia Militar Dequex e Gilberto, dois papas, um arcebispo e vários bispos, que teriam instrumentalizado da Igreja Católica para ser ferramenta comunista:

“[…] a inédita aproximação com a cúpula comunista por parte de dois sucessivos Papas e a implantação pelo segundo, de um rito que coincide com os objetivos de agentes infiltrados na mesma organização vários anos antes, destinado a modificar silenciosamente a própria religiosidade dos sacerdotes e dos fiéis […]”

“[Dom Paulo Evaristo Arns], quando promovido a Cardeal em 1973, […] deu impulso logístico às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), […] que na prática foram um ambiente propício à propagação da Teologia da Libertação (de linhagem assumidamente gramsciana).

“Em 1968, a KGB conseguiu manobrar um grupo de bispos esquerdistas latino-americanos, fazendo-os sediar uma conferência em Medellín, na Colômbia apedido da KGB […]”

Além da ação direta da igreja e de seus pastores, a própria estrutura criada após o Concílio Vaticano II dificulta o controle social tradicionalmente exercido pela Igreja Católica no Brasil, valorizando o indivíduo ao contrário da comunidade, da pátria e de Deus:

“Na ‘Missa Nova’ de Paulo VI, […] o jeito de fazer orações mudou e com ele as crenças a ele associadas. Pode parecer desprezível a sutileza, mas a troca da posição do sacerdote, antes de frente, perante o Altar, e de costas em relação ao povo, significa ênfase teocêntrica, enquanto a posição predominante do sacerdote, de costas para o Altar e de frente para o povo, indica uma ênfase antropocêntrica.”

“A Teologia da Libertação tem sido, nesse contexto, o meio de promover o diálogo à moda hegeliana, benéfico aos objetivos comunistas, e de garantir o ataque ao patriotismo, à moralidade e à espiritualidade. Tendo sido idealizada pela agência de inteligência russa, no governo de Nikita Krushchev…”

“[…] da rigorosa cultura que obrigava a todos a ficar atentos aos pecados mais banais e mantinha na rotina religiosa do crente a sensação de dever comparecer espontaneamente […] a um ouvinte sacerdote, [onde] muitas ideias que tendiam a pavimentar carreiras criminosas puderam encontrar alertas de advertência para serem voluntariamente conduzidas a um silencioso fim.”

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Os comunistas e a Segurança Pública

Os oficiais da Polícia Militar afirmam sem meias palavras, com coragem típica daqueles que não são mornos, que a Segurança Pública deve ser deixada nas mãos fortes dos agentes públicos responsáveis, e não se deve dar ouvido à aventureiros com interesses escusos.

Não adianta a polícia agir nas comunidades e nos morros na caça aos traficantes enquanto as universidades, a igreja Católica e os meios de comunicação fortalecem a crise orgânica da Segurança Pública no asfalto, minando as ações dos policiais militares.

Além desses agentes externos à Segurança Pública (quase todos oriundos das ciências sociais) não compartilharem informações corretamente, ainda desinformam, ao mostrar a violência policial, ao vitimizar o criminoso, ao demonstrar a ineficácia do Sistema Penal e das condições carcerárias.

São essas forças que levam a classe política a criarem leis cada vez mais perniciosas, engessando os braços daqueles que estão na linha de frente do combate à criminalidade, favorecendo o criminosos, ignorando que “bandido bom é bandido morto”.

Segundo os oficiais da Polícia Militar Gilberto e Dequex, o caminho da paz social só será alcançada quando esses grupos formadores de opinião, responsáveis por essa nefasta “revolução cultural”, passarem a ser monitorados preventivamente pelas forças policiais.

Onde cito neste site a violência policial → ۞

Militares fortaleceram o comunismo e o crime organizado

Os estudiosos militares, Gilberto e Dequex, apontam que as organizações criminosas:

“[…] aprenderam muitas técnicas de guerrilha (luta armada), aprenderam também a ideologia da esquerda revolucionária marxista […] Os presos políticos que doutrinaram os presos comuns da Ilha Grande (mas não só lá, pois o Carandiru também passou pelo mesmo processo no mesmo período) e que alguns estão hoje em cargos políticos.”

O que os militares não disseram foi que a ideia de colocar presos políticos junto aos presos comuns de alta periculosidade foi ideia dos militares. Na época os intelectuais e os clérigos, inclusive Dom Paulo Evaristo Arns, foram contra essa medida.

Enquanto os policiais militares pensavam que estavam punindo os políticos, na verdade, estavam criando as bases para a chegada dos marxistas ao poder e colocando para cozinhar em fogo brando aquela que viria a ser a maior organização criminosa da América-Latina.

Acalentaram, assim, o medo e a situação que agora afirmam saber como resolver, e, assim como Pilatos, lavam as mãos como se não tivessem sido eles os causadores do problema.

Para os nossos: proteção contra os criminosos

“O direito da força supera a força do direito”; e, “os interesses particulares predominam sobre os gerais, a vontade popular é anulada e subordina-se à da krateria [poder]”.

Quem está no poder dita quando a lei deve ser aplicada ou não, nos lembra os oficiais. Creio que eles estão se referindo ao caso da suástica riscada na barriga de uma garota:

“A imagem de uma mulher com um desenho riscado em sua pele foi compartilhada à exaustão em grupos de WhatsApp, no Facebook e no Twitter nesta quarta-feira. Trata-se de uma moradora de Porto Alegre que disse ter sido abordada e agredida por três homens por causa de uma camiseta com a frase “Ele não” que ela usava – a referência é ao movimento de mulheres contra o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL).”

Quem está no poder pode decidir se a lei deve ou não ser aplicada, de acordo com sua convicção política ou a de seus mestres, como fez o delegado Paulo César Jardim ao ironizar o sofrimento da vítima para seu prazer sexual:

“Eu fui olhar o desenho que fizeram na barriga dela. É um símbolo budista, de harmonia, de amor, de paz e de fraternidade. Se tu fores pesquisar no Google, tu vai ver que existe um símbolo budista ali. Essa é a informação”

A sociedade brasileira não adotou as medidas para controlar a intelectualidade, os clérigos e as mídias sociais, conforme a proposta apresentada pelos oficiais da Polícia Militar Gilberto e Dequex…

… por isso, o delegado responsável pelo caso, que já havia arquivado o processo, foi substituído após enfrentar a ira dos ativistas dos Direitos Humanos, dos acadêmicos e dos clérigos que o acusaram de estar atuando em nome de seu mentor político.

Se existe algo em comum entre os integrantes do Primeiro Comando da Capital e da Polícia? Sei que você, assim como eu, sabe a resposta: a busca da justiça – apesar de ambos terem um entendimento totalmente distinto sobre o sentido dessa palavra.

  • Se você for frio: acreditará que a busca pela justiça é monopólio da “lei e da ordem”, assim como o delegado Paulo César Jardim ou os oficiais da PM Gilberto e Dequex;
  • se você for quente: acreditará que a busca pela justiça é “correr pelo certo e cobrar o errado”, como fazem os PCCs, os acadêmicos, os clérigos e os ativistas nas mídias sociais; e
  • se você for morno, como eu, lamento: além de inocente útil da causa comunista, ainda será vomitado por Deus no Apocalipse.

Onde cito neste site cientistas sociais → ۞

O PCC, Marighella e a Teoria da Dependência

O Minimalismo Penal afirma que poderia ter sido evitada a criação do Primeiro Comando da Capital, afinal a organização criminosa é apenas um fruto da luta de classes.

O Primeiro Comando da Capital e Carlos Marighella

Eu gostaria de fazer uma dupla dedicatória:

Primeiro: em memória dos heróicos combatentes e guerrilheiros urbanos que caíram nas mãos dos assassinos da polícia militar, instrumentos odiados do repressor sistema de injustiça que existe em nosso país.

Temos que permanecer unidos e organizados para evitarmos que ocorra novamente um massacre, semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção em 2 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre este que jamais será apagado dos nossos corações e da consciência da sociedade brasileira.

Segundo: aos bravos homens e mulheres aprisionados em calabouços medievais do governo brasileiro e sujeitos a torturas que se igualam ou superam os horrendos crimes cometidos pelos nazistas.

A cada camarada que se oponha a esse sistema criminal e que deseje resistir fazendo alguma coisa, mesmo que seja uma pequena tarefa, eu desejo que seja firme em sua decisão. Não podemos permanecer inativos; sigam as instruções e juntem-se à luta agora.

A obrigação de todo revolucionário é fazer a revolução.

É importante não somente ler o Estatuto do Primeiro Comando da Capital, o Dicionário e a Cartilha, mas difundir seu conteúdo. Todos aqueles que concordam com esses ideais copiem à mão, mimeografem, tirem xerox e divulguem pelas mídias sociais.

Vamos maciçamente nos expressar à sociedade, mostrar esse lado esquecido, em um cenário de tanta injustiça e violência e, se for preciso, em último caso, a própria luta armada será necessária.

Onde citei neste site o Regime Militar → ۞

A Teoria da Dependência: “A Vida é um Desafio”

Claudia Wasserman do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS foi quem amarrou para mim o artigo Crime Organizado no Brasil”, de Amanda Regina Dantas dos Santos e seus colegas, à Teoria da Ondas, de Alvin Tofler .

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Até entendo que não tem cabimento utilizar os conceitos macroeconômicos como metáfora para analisar o comportamento de um grupo social, mas será mesmo que não posso fazê-lo? O que Alvin ou os Racionais MC’s diriam sobre isso?

“Desde cedo a mãe da gente fala assim:

‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.’

Aí passado alguns anos eu pensei:

Como fazer duas vezes melhor se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão e pela história? Duas vezes melhor como?

Quem inventou isso aí?

Quem foi o pilantra que inventou isso aí?”

Minha avó materna, que Deus a tenha, dizia que “nós somos pobres, mas honestos”. Racionais MC’s, Carlos Mariguella, e os garotos do PCC discordariam desse conformismo, assim como André e alguns outros defensores da Teoria da Dependência.

A professora da Federal Claudia me conta que existiu duas vertentes desse pensamento econômico:

  • Fernando Henrique Cardoso (FHC) e os catedráticos da USP, que apostavam que no final todos seríamos felizes para sempre, até mesmo “os pobres, mas honestos” – assim como pensamos eu, você, minha avó e a maioria das pessoas; e
  • André Gunder Frank e os catedráticos da Escola de Brasília, que apostavam que no final nós não seremos felizes por estarmos “pelo menos cem vezes atrasados pela escravidão e pela história” – assim como pensam os Racionais MC’s, Marighella e os garotos do PCC.

A catedrática da UFRGS já me adiantou que você, assim como eu e minha avó, iria apoiar o lado de FHC, por ser essa “uma tese extremamente palatável, extremamente otimista, com base em estudos e demonstrações científicas e sociológicas”.

Onde citei neste site os Racionais MC’s → ۞

Da luta de classes ao PHD do crime

Existem os ricos, os pobres e também os remediados, que se autodenominam de “classe média”, você bem sabe disso, mas ao contrário do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley todos querem conquistar melhores condições ou ascender de classe.

FHC explica que isso acontecerá naturalmente: os ricos continuarão a se desenvolver, mas os remediados e os pobres progredirão paralelamente pelo efeito demonstração, galgando lentamente novas conquistas e posições, até o momento que ascenderão à classe seguinte.

André explica que não. O sistema vende esse sonho e apenas ocasionalmente alguns ascendem de classe – alimentando a ilusão de milhões –, e mesmos esses só ascenderão para ocupar as vagas que as classes superiores já não querem mais para si.

Esse é “o desenvolvimento do subdesenvolvimento, e não propriamente o desenvolvimento em si”, e esse é o resultado esperado pelo sistema dessa relação de dependência que as classes inferiores mantêm em torno das classes superiores.

As melhorias conquistadas pelas classes inferiores, tanto dos pobres quanto dos remediados, não as aproximaram das classes mais ricas, pois ”o desenvolvimento se dá de modo igual e combinado”.

Racionais MC’s, Carlos Marighella e os garotos do PCC cansaram de jogar dentro dessas regras impostas nessa relação de dependência, em que geração após geração de “pobres, mas honestos” aguardam anos para dar mais um passo – quando dão.

Eles foram à luta, cometendo pequenos delitos pelos quais foram presos e enviados ao cárcere onde muito aprenderam. Racionais MC’s, Carlos Marighella e os garotos do PCC acabaram sendo forjados no fogo do inferno, e deu no que deu, e chegaram aonde chegaram.

E aonde eu e você, pobres remediados, chegamos? O que deixamos registrado na história?

Onde citei neste site sociólogos e cientistas sociais → ۞

O combate às injustiças do sistema prisional

Comecei esse texto transcrevendo com algumas alterações e enxertos a introdução do “Manual do Guerrilheiro Urbano” de Carlos Marighella, o “Inimigo Número Um” – que objetivava preparar fisicamente e psicologicamente aqueles que iriam combater o governo.

Confesso que nunca havia sequer ouvido falar dessa obra até cruzar com o artigo “O Crime Organizado no Brasil” dos acadêmicos da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR, publicada na Revista Liberdades da IBCCRIM.

Foram Amanda Regina Dantas dos Santos, Ítalo José Marinho de Oliveira, Pâmela Nunes Sanchez, Priscila Farias de Carvalho e Thais Ferreira de Souza que, além de me apresentarem a obra, contaram-me sobre a teoria do Minimalismo Penal.

Ao contemporizar o “Manual do Guerrilheiro Urbano” e miscigena-lo ao Estatuto do Primeiro Comando da Capital, evidenciei o ponto de vista desses acadêmicos: as injustiças do cárcere são as ferramenta que viabilizam a militarização dos conflitos sociais.

O PCC 1533 é formado por pessoas que sabem que não vão conseguir ascender de classe por meio do mercado de trabalho e abandonaram a crença que “sendo pobre, mas honesto” conquistarão seu lugar ao sol – a princípio um simples problema de luta de classes.

Contudo esse grupo de marginalizados, ao verem frustradas suas reivindicações pelos caminhos democráticos, optaram por usar a força com o objetivo de manter sua própria subsistência e evoluir socialmente, aproveitando-se dos conhecimentos obtidos nos pátios dos presídios.

Cada um deles, do preso mais desconhecido ao Marcola, dos Racionais MC’s ao capitão Carlos Marighella, começou timidamente, e se eles não tivessem sido jogados nas masmorras, não teriam feito o que fizeram – o sistema acaba por fortalecer suas vítimas, e basicamente é isso que prega o Minimalismo Penal. 

Onde citei neste site o Sistema Carcerário

Seriam os facciosos idealistas? – perguntaria von Däniken

Quando comecei a ler “A Terceira Onda”, e isso já faz algumas décadas, achei que Alvin Toffler era uma espécie de Erich von Däniken: alguém que produz uma obra crível e ao mesmo tempo absurda, mesmo baseando-a em fatos supostamente reais.

Ledo engano meu. Ao terminar a leitura da “A Terceira Onda”, tornei-me um adepto de sua teoria, pelo menos por alguns anos. Não adianta chorar: nós nascemos, vivemos e morremos em função do momento econômico.

Você já se questionou sobre se Deus existe ou não e chegou a uma conclusão, mas, ao contrário do que pensa, não foi uma conclusão sua: você apenas seguiu a determinação de uma necessidade econômica da sociedade – pelo menos é o que me afirmou Alvin.

Da mesma forma, os Racionais MC’s e a facção paulista PCC são frutos das necessidades de um ambiente econômico – Alvin e Adam Smith veriam aí a Mão Invisível em ação: esses grupos estariam tão somente atendendo a uma demanda do mercado.

É infrutífero buscar remédios para os sintomas sem conhecer a causa da patologia, assim como é inútil vitimizar ou idealizar esses grupos criminosos, ou combater seus adeptos nas ruas e nos presídios sem atuar na causa do problema – mas qual seria esse problema?

Onde cito neste site a ideologia