Hanfeizi combatendo o PCC no reino de Qin

O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) passa pela destruição de uma cultura depravada construída por acadêmicos, jornalistas e artistas.

Hanfeizi combatendo o PCC no reino de Qin

O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) passa pela destruição de uma cultura depravada construída por acadêmicos, jornalistas e artistas.

A sabedoria chinesa e o combate ao PCC 1533

Há dois mil anos, na China, havia um estudioso chamado Hanfeizi, que devotou sua vida pelo estabelecimento de um Estado forte que pudesse garantir a paz e a segurança.

Hanfeizi ofereceu seus serviços ao imperador Zheng do reino de Qin por acreditar, assim como eu e você, que o legalismo é fundamental para a construção de uma nação segura e um Estado consolidado.

O pensador viveu na China no final da Dinastia Zhou, em um “Estado nacional” enfraquecido e diversos reinos autônomos fortes, cada qual cuidando de sua segurança enquanto sofriam ataques de bárbaros e saqueadores.

Eu e você vivemos no Brasil recentemente democratizado com um Estado nacional enfraquecido e diversos estados autônomos fortes, cada um cuidando da segurança enquanto sofrem ataques de facções criminosas.

Quem me guiou por essa trilha pela qual levo você agora foi André Bueno, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em seu artigo “Abolir o passado, reinventar a história: a escrita histórica de Hanfeizi na China do século III a.C.”.

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Controlar a liberdade de opinião para vencer o PCC

A imprensa e os intelectuais vitimizam criminosos sob uma leniente política de Direitos Humanos enquanto demonizam as forças policiais e os cidadãos de bem que defendem as normas jurídicas do Estado de Direito.

Políticos, imprensa e artistas falam abertamente sobre as vantagens da implantação de sistemas tolerantes de convivência com o crime organizado, pregando uma “repressão condicional”.

É o caso do artigo “Can Governments Deter Violence Committed by Crime Groups?”, do jornalista Mike LaSusa, que compara sob um tênue manto de imparcialidade três políticas de combate ao crime organizado: a “repressão condicional” no Rio de Janeiro, a “condicionalidade atrelada à submissão” na Colômbia e a “militarização” no México.

Hanfeizi teria aconselhado o imperador Zheng de Qin a deletar essa postagem e a enterrar seu autor como forma de abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

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Guerra sem quartel ao PCC 1533

Mike, assim como quase todos aqueles que estudam a facção Primeiro Comando da Capital e boa parte dos analistas em Segurança Pública dos grandes meios de comunicação, aponta as vantagens do sistema de pacificação condicionada.

O jornalista do site InSight Crime explica que o México, desta forma, manteve sob controle as taxas de homicídio por quase um século graças a acordos informais e pontuais entre políticos, policiais, militares, agentes públicos e traficantes de drogas.

A paz foi mantida até o dia em que o presidente Felipe Calderón colocou a ”Rota na Rua” ao decretar a “guerra sem quartel” aos grupos criminosos.

Desde então, a taxa de homicídios não parou mais de subir, e hoje chega a 21,3 mortos ao ano para cada 100 mil habitantes – só para comparar, em São Paulo, que mantém a pacificação condicionada, o índice está em 7,8.

As autoridades mexicanas estimam que 40 por cento do país está sujeito à insegurança crônica e alguns estados estão paralisados ​​devido extrema violência organizada – já são mais de 200 mil mortos, muitos dos quais enterrados em valas comuns.

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Controlar a criação artística para vencer o PCC

Hanfeizi ofereceu seus serviços ao imperador Zheng de Qin por acreditar, assim como eu e você, que o legalismo é fundamental para a construção de uma nação segura e um Estado consolidado.

Dessa forma, as polícias devem decretar uma “guerra sem quartel” às facções criminosas, como o México fez. Quem sabe por aqui, agindo da mesma forma que os mexicanos agiram por lá, não cheguemos a resultados diferentes, menos desastrosos?

Hanfeizi teria apontado o erro de Calderón: ele não atacou o âmago do problema – acadêmicos, jornalistas e artistas que incentivam uma cultura depravada e que se opõe ao estabelecimento de um Estado Forte, incentivando a rebeldia popular.

É o caso da música Racistas Otários, do grupo Racionais MC’s, que faz uma crítica social sob um tênue manto de imparcialidade, mas, de fato, insufla a revolta contra a opressão exercida pelo Estado Constitucional, como querem os cidadãos de bem:

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“A lei que é implacável com os oprimidos

Tornam bandidos os que eram pessoas de bem.

Eles são os certos e o culpado é você

Se existe ou não a culpa

Ninguém se preocupa

Pois em todo caso haverá sempre uma desculpa”

Hanfeizi teria aconselhado o imperador Zheng de Qin a proibir essa música e a enterrar seus autores como forma de abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

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Controlar as lideranças políticas para vencer o PCC

Políticos adotam hoje abertamente a defesa de ideologias que francamente colocam em dúvida a efetividade das ações de governo, suas forças policiais e os cidadãos de bem que defendem as normas jurídicas do Estado de Direito.

É o caso de Guilherme Boulos, do PSOL, que afirma publicamente:

“Existe uma lógica que foi vendida para parte de que botar mais gente na cadeia ou nas prisões resolve os problemas.

Quem pensa com essa lógica precisa nos explicar por que nos últimos 10 anos a população carcerária do Brasil dobrou, se tornando o terceiro país em população carcerária do mundo, e a sociedade não está mais segura por isso.

Opa! Vamos parar para pensar, pois esse pode não ser o caminho. Entulhar gente em masmorras que se dizem de recuperação. Recuperação coisa nenhuma, às vezes a pessoa entrou lá por um crime leve e saí de lá PHD no crime.

Isso não quer dizer defender a impunidade, não! Se alguém mata, rouba ou estupra, tem que ser punido! O que não pode é achar que vai entulhar as cadeias, fazer cadeias em todos os cantos e a sociedade vai ficar mais segura.

Desculpe, não está ficando mais segura. Estão fazendo isso há um tempão, e não está ficando mais segura.

Nos últimos 30 anos nós estamos fazendo a política de segurança baseada na chamada Guerra às Drogas exportada pelos Estados Unidos, onde você pega forças militares do Estado e faz o suposto ‘combate ao narcotráfico’.

Essa Guerra às Drogas, isso virou uma maneira de militarizar as favelas, as periferias, os morros e de matar a juventude pobre e negra!

Vamos pensar duas coisas:

  • primeiro – vocês acham mesmo que combater o narcotráfico é pegar o cara que está na laje da favela, que a cabeça do narcotráfico está no barraco de uma favela? A cabeça do narcotráfico está ligada ao poder, aliás, em helicóptero cheio de cocaína de senador da República que está livre leve e solto até hoje, não é? É aí que está e ninguém mexe; e
  • segundo – o fato de ser proibido faz com que alguém não use drogas? Quem quer usar sabe onde comprar, vai lá, compra e usa, e o narcotráfico não diminuiu em nada nos últimos 30 anos, ao contrário, as facções só cresceram. Essa política está errada, totalmente errada”

Para manter o Estado de Direito e atendendo aos anseios dos cidadãos de bem, mais uma vez, um conselheiro devoto como Hanfeizi não teria hesitado em orientar o imperador a proibir a divulgação de ideias como essa:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

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A pacificação através da leniência

Eu e você sabemos que Hanfeizi tinha inteira razão, que não basta a Rota na Rua para vencer o inimigo quando ele está enfronhado no nosso emaranhado cultural.

Assim, sabemos que teríamos que abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro colocando sob controle a informação e, se for preciso, sacrificando acadêmicos, jornalistas e artistas que incentivem uma cultura depravada, afinal, quem defende bandido é bandido também, e bandido bom é bandido morto.

Quando alguém como Mike demonstra o insucesso das operações militares no Rio de Janeiro por sua inexequibilidade em grandes extensões, ele está acusando o Estado e as forças policiais de incompetência e hipocrisia.

Mike demonstra em sua reportagem que o melhor resultado a longo prazo é o governo deixar claro os limites em que vai atuar, dando oportunidade para a marginalidade sair da comunidade ou mudar de vida e, só depois disso, agir, tomando o perímetro.

Não adianta Mike provar que os números demonstraram o sucesso da pacificação condicionada no conturbado Rio de Janeiro, na Colômbia ou em São Paulo – são apenas números, e eu e você sabemos que o que funciona é a Rota na Rua.

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Eu e você e o destino de Hanfeizi no reino de Qin

O imperador Zheng do reino de Qin venceu as hordas bárbaras e os governos provinciais fortes e pôde nos mostrar o caminho para derrotar o Primeiro Comando da Capital e as outras organizações criminosas.

Eu e você podemos lutar para emplacar um governo forte, que combata a pacificação condicionada, os acadêmicos, os jornalistas, os artistas e os influenciadores que incentivam uma cultura depravada e a rebeldia popular Só que – sempre tem o “só que…”

Alguém duvida que essa onda de ódio que estaremos alimentando não vai novamente acabar bem?

O pesquisador André da Silva Bueno que me perdoe pelo spoiler, mas como o fim dessa história já é conhecida há dois mil anos, todo mundo já sabe:

A Dinastia Qin do imperador Zheng foi um fracasso, durou míseros 15 anos, queimou milhares de escritos antigos e matou milhares de pensadores – só para comparar, a Dinastia Zhou que a antecedeu durou 790 anos e a Dinastia Han que a sucedeu durou 426 anos.

Hanfeizi cobrou de seu rei tratamento cruel contra aqueles que se opunham a implantação da nova ideologia e acabou sendo condenado à morte pelo próprio imperador Zheng, sem conseguir ver o reino de Qin vencer seus inimigos.

Um dos 400 eruditos mortos tinha em um dos livros que foi queimado um ensinamento de Confúcio que era mais ou menos assim:

“Quando alguém atacar alguém por sua ideologia, prepare duas covas”.

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Marcola do PCC e o mito de Frankenstein

A elevação de Marcola como figura heroica para determinados grupos sociais é uma criação do Estado e da imprensa, que apenas buscavam os holofotes.

PCC 1533 Marcola o mito de Frankenstein

Afinal quem seria o monstro? A criatura ou seu criador?

Em 15 de agosto de 2011, escrevi meu primeiro artigo sobre o Primeiro Comando da Capital, mas só há pouco tempo, em resposta ao uso dos termos “crime organizado” ou “organização criminosa”, pararam de chegar mensagens como esta:

“Presos semi-alfabetizados montando uma organização criminosa kkk”

Em uma das vezes que fui prestar depoimento na delegacia, até o inquiridor batia na tecla que um grupo de semi-alfabetos era incapaz de gerir uma facção ― então tá! Se eles diziam isso, quem seria eu para contrariar?

Agora que imprensa, delegados, promotores de Justiça e juízes tratam o PCC como crime organizado, creio que me deixarão em paz, parei de receber os “kkks”, então o próximo passo é falar sobre o Mito de Frankenstein.

Na história de Mary Shelley, o doutor Victor Frankenstein coloca-se no lugar de Deus e decide criar um ser, formado essencialmente de partes de cadáveres. O resultado da empreitada é uma criatura de aparência horrível.

Ao deparar-se com sua criação, o doutor a abandona à própria sorte. Rejeitada, a criatura adentra, então, em um curso de caos e destruição. Essa história, que completa duzentos anos este ano.

Na nossa história, o Estado Constituído e a imprensa criaram e mantêm viva a imagem de um demônio folclórico chamado Primeiro Comando da Capital, só que esse ser ganhou vida e seus criadores tem agora que conviver com sua criatura, senão submeter-se a ela.

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Charles Darwin o pcc e as prisões brasileiras

O darwinismo e a seleção natural das espécies

O sistema carcerário, da maneira como foi montado, possibilita aos presos tempo e ambiente propícios para a seleção natural dos mais fortes ― se você faltou à aula sobre Charles Darwin e Alfred Wallace, não tem problema, deixo aqui o link:

Nietzsche, a Seleção Natural Proposta por Charles Darwin e a Eugenia Antonio Baptista Gonçalves 127

Demorou para que a imprensa mudasse seu discurso, e só o fez após as autoridades mudarem o delas também: inicialmente negavam a existência da facção, depois a reconheciam como um grupo sem importância e hoje a apresentam como uma organização internacional.

A questão puramente semântica, é sobre se o Primeiro Comando da Capital é um grupo formado por bandidos semi-alfabetizados, ou uma facção criminosa, ou uma organização que age dentro e fora dos presídios, ou um cartel internacional, ou nada disso.

O que vale para a imprensa é a venda dos artigos, já para os representantes do Estado é mostrar cabeças rolando na guilhotina ― e se for a cabeça de um rei do tráfico, o sucesso da execução pública será maior que a de um bandido semi-analfabeto.

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pastor Lyman Beecher álcool e drogas

O PCC e pastor Lyman Beecher de Connecticut

Eurico fez um comentário em um artigo deste site no Grupo do Facebook “Discutindo Segurança Pública” que me levou a pesquisar sobre as razões que levaram Lincoln Gakiya e seus colegas do MP-SP entre outras autoridades a demonizar o PCC:

“Conversa do Emê Pê, pura autopropaganda […] querem se mostrar para o próximo governo, para permanecer na elite dos poderes. Muito fácil, requisitar, por as mãos na massa, somente diante dos holofotes. Já não enganam mais ninguém…”

Trecho de diálogo Facebook

Michael Woodiwiss, em seu artigo Organized Evil and the Atlantic Alliance: Moral Panics and the Rhetoric of Organized Crime Policing in America and Britain, publicado na The British Journal of Criminology, explica-nos a criação do que ele intitula de demônios folclóricos.

E foi lendo seu trabalho que tive o prazer de conhecer o reverendo Lyman Beecher:

As pessoas estão mudando, estamos nos tornando um outro povo. As pessoas que antes não roubavam por vergonha, agora não estão nem aí, ostentavam seu desprezo pela lei. Se não agirmos rapidamente, a sociedade sucumbiria aos traficantes de drogas.

Lyman disse algo assim em 1812. Bastou substituir “vendedores de rum” por “traficantes de drogas” para que parecesse que isso foi escrito hoje ― os discursos dos caçadores dos demônios folclóricos não mudaram em dois séculos de história.

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Conflitos urbanos regime militar e constituição cidadã

A causa da criminalidade urbana

Podemos apontar como causa do aumento da criminalidade tanto o Regime Militar de 1964 quanto a Constituição Cidadã de 1988 ― a criminalidade explodiu durante os governos militares, mas a sensação de insegurança só aumentou após a redemocratização.

Ambas as afirmações seriam falaciosas: a criminalidade aumentou com o inchaço das cidades devido ao êxodo rural, e a insegurança veio com o acesso às notícias antes manipuladas.

Assim como, no passado, fez o pastor Lyman, as autoridades e a imprensa apresentaram as hordas de pobres urbanos e vendedores de bebidas como causadores da criminalidade, papel atribuído hoje à facção PCC e aos traficantes de drogas.

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O demônio que vive entre nós

O demônio não é a causa, e, sim, o sintoma da doença

Lyman começou em 1812 a caça aos misteriosos ruff-scruffs, seres demoníacos que ameaçavam a sociedade, inimigos estranhos e nebulosos, “demônios folclóricos” que podiam atacar e destruir toda a sociedade.

Precisávamos criar por aqui algo parecido, os nossos ruff-scruffs, mas a sociedade brasileira não se assustava mais com os homens-do-saco ou com as loiras-do-banheiro.

Mostrava-se necessária a existência de alguém ou algo que pudesse ser demonizado e que tivesse se atrevido a exercer funções do Estado:

“O sistema político deixou muitas pessoas em estado de abandono, então elas tiveram que criar alguma solução. A regulação do PCC é o principal fator sobre a vida e a morte em São Paulo. O PCC é produto, produtor e regulador da violência”

A destruição da facção, sem que em paralelo se combatam as causas sociais que permitiram sua ascensão, terá tanta possibilidade de êxito quanto as ações de Lyman contra a venda de bebidas alcoólicas e a prostituição, há dois séculos.

O PCC é uma organização tão grande que, se você tentar eliminá-lo, você criará uma enorme quantidade de violência.

O crime desorganizado causa mais mortes nas periferias e entre policiais do que o crime organizado ― mas isso não é problema nosso, pobre tem de monte para morrer, e se um policial for morto é só contratar outro no lugar.

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Intervenção militar 2018 Rio de Janeiro

Papai resolve tudo, federalizar para ser feliz

Michael, em seu trabalho, conta-nos que uma das características da demonização é o clamor para que o Governo Federal assuma as rédeas do controle social, seja por meio da formulação de leis nacionais ou do controle direto das ações.

O pesquisador cita dezenas de exemplos na América e na Europa, no entanto, aqui mesmo no Brasil, vemos esse fenômeno se repetir.

Você já deve ter ouvido críticas ao fato de o Governo do Estado de São Paulo não entregar os condenados às prisões federais. Nome bonito, “PRISÃO DE SEGURANÇA MÁXIMA FEDERAL”, mas sempre tem o mas…

Foi dentro de uma máxima federal que se articulou a ação do Primeiro Comando da Capital, na Rocinha, no Rio de Janeiro, e…

Foi graças à federalização dos presos paulistas que a facção 1533 se espalhou com êxito por todo o país, e ninguém vai me convencer que o Governo Federal tem alguém que entende tão bem o PCC quanto Lincoln e seus colegas do MP-SP.

Aqueles que têm carência da autoridade paterna, assim como Lyman tinha, clamaram pela intervenção federal na Segurança Pública e pelo envio da Força Nacional para o estado do Ceará. Pois bem, seus sonhos foram realizados ― só que não.

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A história como repetição cíclica

Eu e você sabemos que o mundo segue uma linha contínua: passado, presente e futuro, mas talvez isso seja apenas uma mentira construída por nossa formação judaico-cristã. Aqueles que foram criados sob a cultura hindú crêem que tudo no universo é cíclico.

Michael me lembrou essa diferença quando contou a história do Comitê Kefauver, e não há possibilidade de não associar a descrição do que aconteceu em 1950 com o que acontece hoje. Se há um ciclo histórico a ser repetido, estamos passando por ele.

Leia a descrição que Michael faz do caso do comitê americano e verá que cada linha pode ser utilizada para descrever com perfeição a caça aos PCCs, orquestrada na nossa contemporaneidade:

O governo federal estaria cada vez mais comprometido com o policiamento de mercados ilegais uma tarefa que estava provando estar além da capacidade das administrações locais.

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Marcola, Frank Costello e o Mito de Frankenstein

Frank Costello foi elevado pelas autoridades como sendo o o líder mais influente do submundo. Ele declarou:não operava em lugar algum, não era convidado, e mesmo negando liderar a organização criminosa, passou a ser visto como seu líder.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, foi elevado pelas autoridades como sendo o “líder máximo do PCC”. Ele declara que nem pertence à facção, e mesmo negando liderar a organização criminosa, passou a ser visto como seu líder.

A facção Primeiro Comando da Capital surgiu para suprir demandas de grupos sociais abandonados pelo Estado à sua própria sorte. No entanto, foi demonizada para suprir o Estado de grupos sociais que pudessem ser culpabilizados pela falência da Segurança Pública.

Um líder assumiu o Primeiro Comando da Capital, e o Estado, para conquistar a atenção dos holofotes para sua guilhotina, o demonizou ― só lamento, agora o criador deve conviver com sua criatura, senão submeter-se a ela.

3 de agosto de 2018

PCC a facção que não para de crescer
Se eu colocasse essa manchete estava preso
Isto É  → Vicente Vilardaga e Fernando Lavieri
→ São Paulo
→ Organização Criminosa
No dia seguinte que eu postasse um artigo com essa chamada seria levado para prestar depoimento e responder por apologia ao crime, então é melhor lerem a reportagem na fonte (desculpe se me rio: kkkk).

 

Há um PCC pertinho de você! Ligue 190!

Diariamente vemos na imprensa escrita e televisionada integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital. Então, saberíamos reconhecê-los entre nós?

Há um PCC pertinho de você! Ligue 190!

É importante demonizar a facção PCC

Se você conhece os integrantes da facção Primeiro Comando da Capital pela televisão, não poderia, de fato, saber o que pensam e como agem.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para esse fato no artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Os pesquisadores demonstram que os órgãos de imprensa repetem e reforçam o ponto de vista das autoridades policiais, auxiliando a demonizar aqueles que fazem qualquer tipo de oposição à lei ou aos costumes estabelecidos.

Sejam criminosos que roubem ou matem trabalhadores, sejam oficiais islamitas matando cristãos, sejam policiais de regiões nas quais exista distinção oficial de etnias ou raças reprimindo manifestações igualitárias: a imprensa local reportará a versão do status quo.

Por enquanto, no Brasil, são os integrantes da organização criminosa PCC 1533, mas se não fossem eles, seriam outros os demônios que estariam sendo caçados e apresentados.

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O dia perfeito para um policial

Assisti a uma palestra ministrada para um grupo de jovens policiais. O palestrante perguntou aos novatos qual seria o melhor resultado possível a ser apresentado ao final de um plantão.

As respostas variaram: troca de tiros que resultasse na morte de criminosos, resgate de uma vítima de sequestro ou interceptação de uma grande carga de drogas.

Eram respostas esperada dos novatos, mas estranhas para os veteranos, que prefeririam chegar ao final do turno e apontar em seu talão de ocorrências: “plantão sem alterações” ― confessou o instrutor.

Afinal, se os policiais tiveram que utilizar a força, significaria que todo o trabalho de prevenção e inteligência falhou, colocando em risco a vida dos agentes e de terceiros.

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O dia perfeito para um criminoso do PCC

A analogia é válida para as crias do Primeiro Comando da Capital.

As crias do 15 sonham com uma reação bem sucedida a uma abordagem policial e a ações criminosas, com fugas espetaculares que os permitam levar para suas comunidades dinheiro e histórias para ostentar diante das garotas, dos colegas e da família.

É o que se espera dos novatos, o que não reflete os anseios dos veteranos do mundo do crime, que prefeririam chegar ao final da noite garantindo estabilidade e segurança para si e suas famílias.

“Um lugar gramado e limpo, assim verde como o mar, com cercas brancas, e uma seringueira com balança, para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

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O tempo passou e muitos chegaram lá

Quando você pensa na facção Primeiro Comando da Capital, talvez pense nos garotos que vendem drogas e estouram caixas eletrônicos, ou talvez, no máximo, você se lembre do prefeito de Embu das Artes, mas será que…


As centenas de convidados para o casamento da filha do subtenente da Polícia Militar, ou as centenas de funcionários das dezenas de empresas pertencentes a ele diriam que aquele simpático policial seria líder do PCC?

Possivelmente não. Ele e sua família não correspondem à imagem que o Datena, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde e outros formadores de opinião nos mostram: moradores de barracos mal acabados, com suas famílias desestruturadas e criminosas.

Ao contrário do que se imagina, a classe média do PCC é tão presente quanto os garotos dos corres. Quem sabe você ou um de seus familiares não trabalhe em um setor público ou uma empresa privada onde alguma liderança seja do PCC ― e você nem desconfia.

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Fugindo com medo do perigo das grandes cidades

Alexandre Almeida Barbalho e Amanda Nogueira de Oliveira me surpreenderam com o artigo “Juventude, comunicação, sociabilidade e cidadania: A atuação da ‘família Os poderosos e as Poderosas’”, publicado pela E-Compós.

Há muito acompanho a revoada de membros da organização criminosa PCC para os condomínios e bairros de luxo, afinal, segundo eles mesmos, é o melhor lugar para se livrar de abordagens policiais ― a polícia age de maneira violenta apenas nos bairros pobres.

Facciosos ironizam que os policiais que fazem “bico” nos condomínios cuidam de sua segurança e os cumprimentam quando passam nas portarias e de dentro das viaturas.

Foi no artigo Alexandre e Amanda que li pela primeira vez que os PCCs estavam buscando o nordeste para fugir da violência de São Paulo:

[…] diversas famílias […] explicaram que o Primeiro Comando da Capital teria vindo para Fortaleza. Isso teria acontecido depois que uma boa parte de seus componentes se sentiu coagida em São Paulo e precisou se estabelecer em outros locais do Brasil, dentre eles algumas cidades do Nordeste.”

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Vizinhos pacatos que buscam manter a paz

A imprensa relatou diversos casos de PCCs que foram capturados em suas mansões, condomínios e empresas ― invariavelmente os vizinhos e funcionários os descreveram como sendo pessoas pacatas e que se dedicam à família.

Os Racionais MCs não estavam errados quando disseram que o sonho dos criminosos, ao contrário do que mostra a TV, era conseguir “um lugar gramado e limpo […] para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

A busca da pacificação nas quebradas por parte da liderança da facção paulista segue nesse sentido, pois além de garantir o fluxo de drogas sem interrupções, a segurança de membros das equipes de base, suas lideranças e suas famílias também é defendida.

Em regiões não pacificadas, com guerra entre gangues de jovens, mesmo nas partes nobres da cidade, a vida pode ser perigosa, como conta Alexandre e Amanda:

O bairro da Sapiranga em Fortaleza, onde vive a maioria dos poderosos, não foge desse contexto de disputas e homicídios que tem os jovens como agentes e vítimas. […] Não é de hoje que o medo de ser a próxima vítima faz parte de seu dia a dia […] seja devido ao tráfico de drogas, seja devido a ações policiais no bairro.

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Estamos prontos para reconhecer o inimigo

Alexandre e Amanda afirmam que é relativamente fácil reconhecer os integrantes dos grupos sociais, e sobre isso eu e você precisamos concordar ― quem é que não reconheceria um criminoso da Família 1533?

“… observa-se a existência de grupamentos de jovens que se autointitulam família […] nos bairros populares da cidade. Reunindo dezenas de integrantes, tais grupos se reúnem em espaços públicos, geralmente praças, e privados e mantêm troca de mensagens por meio de dispositivos e plataformas digitais tais como WhatsApp e Facebook.

Recorrem ainda a elementos de delimitação identitária, como camisas personalizadas e músicas autorais, de modo a demarcarem sua presença no espaço urbano.”

Antônio Mateus Soares, Matheus Reis de França e Claudemir Santana descreveram com minúcias as características dos PCCs e dos CPs no estudo “A economia do ilegalismo: tráficos de drogas e esvaziamento dos direitos humanos em Porto Seguro, BA”.

MERCADO DO POVO ATITUDE MPA — Bairro Baianão.

Ligação: PCC-SP — Símbolo: Caveira e Cruz (1533 MPA) — Grupo coeso e hierárquico. Produto de consumo da marca Cyclone (bonés, camisas e bermudas).

COMANDO DA PAZ CP — Área do Campinho.

Ligação: CP-Salvador — Símbolo: Escorpião (315 CP) — Grupo pulverizado com ritos de execução, mas primam pela discrição no seu cotidiano. Produto de consumo da marca Nike (bonés, camisas e bermudas).

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Hora de começarmos a caça

Se você conseguir deixar de lado a visão distorcida de como localizar um membro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital terá condições de localizar aí, em seu meio, pessoas que pertençam ou sejam parentes ou amigos de facciosos.

Alexandre e Amanda terminam colocando algumas dicas de como você pode reconhecer o membro de uma família:

“A família, ainda que sendo uma ‘pequena entidade local’ não deixa de atuar no seu entorno social, para além de sua ambiência comunitária e sua comunidade […]

O engajamento cívico no esforço coletivo pela paz no bairro onde habitam revela que o grupamento também é uma espécie de esfera civil ao fomentar a capacidade crítica e a integração democrática.

Enfim, ainda que autointitulada ‘família’, os poderosos não se limitam à esfera do privado, como se poderia esperar, até por conta de seu forte gregarismo, mas interagem com o espaço público…

Como sintetiza a mensagem retirada de um print do grupo de WhatsApp da família:

‘Chegou o grande dia, convocamos todas as equipes para o evento mais importante do nosso bairro, o grandioso 8 meses sem ter nenhuma violência na nossa comunidade’.”

Então, se você receber uma mensagem assim, ou tiver um vizinho pacato ligado à família, ou um garoto que vista bonés, camisas e bermudas da Cyclone, ou ouça Racionais MCs, fique esperto e ligue 190 para auxiliar a manter a paz e a ordem social.

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