A Facção PCC e a “Paz entre ladrões”

O Primeiro Comando da Capital impôs o conceito “paz entre ladrões”, mudando a violenta realidade do mundo do crime, do sistema prisional e das periferias das grandes cidades.

Arte sobre gravura de Julio Verne e a facção PCC 1533

Júlio Verne e como a facção PCC impôs a “paz entre ladrões

1999 — Chega ao fim o século 20

Estávamos para colocar os pés num futuro utópico no qual a humanidade chegaria em seu ápice moral e tecnológico… não… espera!

Durante séculos, a humanidade sonhou que esse futuro brilhante e longínquo se daria no século 20, e não no 21 — entre tantos, Jules Gabriel Verne.

1999 — Periferia de São Paulo

… um cenário bastante caótico, onde grupos fragmentados estavam inseridos em diversas cadeias de assassinatos, que giravam ao redor de conflitos interpessoais, retaliações e vinganças, em uma espécie de ciclo vicioso de homicídios e agressões que colocava a capital paulista entre as mais violentas do Brasil

Bruno Paes Manso

1879 — France-Ville USA

Júlio Verne já ouvira falar da Província de São Paulo, que, com suas plantações de café, clima agradável e vilas pequenas com casas arejadas e esparsas, poderia ser uma alternativa tupiniquim para sua idealizada cidade de France-Ville, descrita em “Os quinhentos milhões da Begum”.

2001 — Início da Era Caórdica

Para os astrônomos começa a Era de Aquário, que para os filósofos e sonhadores, como Verne, seria a Era do conhecimento, e para os intelectuais seria a Era Caórdica (um sistema que combina características de caos e ordem).

Com o Terceiro Milênio a paz volta, começa o império da ordem no caos das periferias, do sistema carcerário e do mundo do crime na cidade de São Paulo, que registrou uma impressionante queda de 78% dos seus homicídios no período entre os anos 2000 e 2010.

Muito desse resultado se deu pelo controle hegemônico do Primeiro Comando da Capital sobre a antes caótica e fragmentada periferia, com suas diversas cadeias de assassinatos, que giravam ao redor de conflitos interpessoais, retaliações e vinganças.

Chega o século 21 — Paz, Justiça, Liberdade, Igualdade e União (PJLIU)

O fortalecimento da organização criminosa PCC permitiu que ela assumisse nessas regiões conflituosas um papel de instância reguladora dos conflitos internos no mundo do crime — nada poderia ilustrar melhor essa Era Caórdica.

Com o controle do PCC nas periferias, o mote passou a ser o da paz entre os ladrões, com o fim dos conflitos violentos e retaliações entre atores do mundo do crime, e o inimigo comum passou a ser o Estado, principalmente as forças policiais e o sistema prisional.

1879 — France-Ville utópica de Verne; 2001 — São Paulo distópica do PCC

Em France-Ville, a paz seria garantida por um líder sábio e um conselho de notáveis. Já na São Paulo do século 21, a paz chegou graças a atuação de um grupo criminoso, que focou a criminalidade no lucro, no trabalho em equipe e na luta contra um Estado opressor.

O decreto da paz entre os ladrões é acompanhado, em alguma medida, de uma definição de um inimigo em comum, um terceiro mais forte cujas práticas consideradas opressoras, demandam a união e solidariedade entre os atores do mundo do crime.” — Rafael Lacerda Silveira Rocha

Tribunal do Crime do PCC como mediador aceito

O Tribunal do Crime é a face mais conhecida do Primeiro Comando da Capital, mas a organização criminosa só conseguiu aceitação no mundo do crime por um rígido código de ética escrito, a disciplina e a busca da justiça em sua execução:

No PCC as decisões e os julgamentos têm que passar obrigatoriamente pelo “debate”, no qual um grupo, seguindo as regras da facção e consultando a hierarquia, chegam a um consenso sobre um tema ou sobre uma pena a ser aplicada, de modo a garantir a justeza da decisão.

A utilização da violência armada é, evidentemente, a fonte última da legitimidade e autoridade do “mundo do crime” e dos “irmãos” nas periferias da cidade. Entretanto, cotidianamente, esses grupos manejam componentes muito mais sutis de disputa pelas normas de convivência, como a reivindicação de justeza dos comportamentos, amparados na “atitude”, “disposição” e “proceder” e na oferta de “justiça” a quem dela necessita.

Gabriel Feltran

1899 — Júlio Verne entra no sonhado Século de Ouro

Durante séculos, a humanidade sonhou que esse futuro brilhante e longínquo se daria no século 20, entre tantos, Jules Gabriel Verne, que conseguiu entrar no século tão esperado.

O sonhador ficcionista, no entanto, ao entrar no novo século se desilude, torna-se melancólico, acusando a humanidade de fazer o uso errôneo da tecnologia e de desrespeitar o meio-ambiente.

Em 1902 é atingido por uma catarata, deixa de trabalhar e perde o interesse pela vida. Morre em 1905, enterrando com ele o sonho de milhões que esperaram ver no século 20 o ápice moral e tecnológico da humanidade.


Essa crônica se baseou em um trecho da tese Vinganças, guerras e retaliações: Um estudo sobre o conteúdo moral dos homicídios de caráter retaliatório nas periferias de Belo Horizonte, de Rafael Lacerda Silveira Rocha. para o programa de pós-graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

Autor: Rícard Wagner Rizzi

O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)

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