Este artigo compara “A Guerra dos Mundos” com a ascensão do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), demonstrando como a sociedade lida com ameaças desconhecidas e a necessidade de estratégias efetivas.
No fascinante “Guerra dos Mundos” de H.G. Wells, descobri paralelos impressionantes com a realidade brasileira do “Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533)”. Prepare-se, vou te levar nessa viagem intrigante.
Vamos explorar como, tanto na ficção quanto na realidade, as pessoas reagem a ameaças antes inimagináveis. Marcianos invasores ou o surgimento de uma organização criminosa poderosa, ambos os cenários desafiam nossas percepções e exigem respostas firmes.
E aqui vem a reviravolta: no final, faço uma ligação entre a “Guerra dos Mundos” e a histórica Guerra de Canudos. Quer descobrir como? Confira e, depois, adoraria ouvir suas ideias! Deixe seus comentários no site, no nosso grupo de leitores, ou envie-me uma mensagem direta. Mal posso esperar para saber o que você acha!
Intrigante como consigo encontrar correspondências mesmo em contextos distintos. Apesar das diferenças, vejo muitas similaridades entre a obra de Wells e a origem e ascensão da facção PCC 1533 no Brasil.
No livro de Wells, marcianos invadem a Terra sem aviso prévio, empregando tecnologia superior para rapidamente dominar a humanidade. A sociedade humana, avançada e confiante, não está preparada para este inimigo desconhecido e mais poderoso. Isso resulta em caos e destruição em massa, deixando as pessoas desesperadas e impotentes.
A situação do PCC tem semelhanças notáveis. O grupo criminoso emergiu dentro do sistema prisional brasileiro na década de 1990, um resultado não planejado de políticas de Segurança Pública e de práticas de encarceramento desumanas e segregadoras. Assim como os marcianos no livro de Wells, o PCC era inicialmente um inimigo desconhecido e invisível para muitos. No entanto, tornou-se rapidamente uma força poderosa e influente, instigando medo e insegurança na sociedade brasileira.
As semelhanças continuam na maneira como a sociedade e as autoridades reagiram em ambos os casos. Em “A Guerra dos Mundos”, líderes e militares mundiais inicialmente subestimam a ameaça marciana, até que é tarde demais. Da mesma forma, o PCC foi inicialmente ignorado ou subestimado pelos líderes políticos e pela polícia, que não possuíam estratégias eficazes para lidar com esse novo tipo de crime organizado. O resultado foi um crescimento da violência e da criminalidade, com o PCC expandindo sua influência por todo o Brasil e até mesmo além de suas fronteiras.
O Governador Mário Covas, que Deus o tenha em Seu Reino, bradou aos sete ventos que não existia a facção criminosa que dominava presídios, impondo aos detentos uma lei de cão… Foram sete anos negando até que a realidade chutou sua porta. Muita gente morreu e sofreu enquanto ele tapava o sol com a peneira, e nós, todos nós, incluindo você não queríamos ver.
Em ambos os cenários, havia pessoas que tentaram alertar a sociedade por meio da imprensa ou em conversas pessoais sobre a catástrofe iminente. No entanto, esses indivíduos foram ignorados ou ridicularizados, situação retratada no filme “Não Olhe Para Cima”. Experimentamos situação semelhante aqui, com pesquisadores, principalmente aqueles ligados às universidades, sendo menosprezados por apontarem o problema que estava sendo gerado dentro de nosso sistema prisional.
Invasão Comparada: ‘A Guerra dos Mundos’ e a Ascensão do PCC
Assim como os terráqueos do livro, o Estado buscou o confronto direto com a facção PCC, utilizando seu máximo poderio bélico contra o inimigo. Em “A Guerra dos Mundos”, o resultado foi a destruição de Londres, escassos danos aos alienígenas e a ampliação de seu domínio. Na nossa realidade, apesar da disparidade de forças, o Estado conseguiu inicialmente exibir muitos corpos à imprensa, presos ou mortos. No entanto, em relação ao contingente, a vitória foi mínima, permitindo que a facção dominasse todos os presídios e grande parte das periferias das grandes cidades, além de uma rápida e consolidada expansão.
Em “A Guerra dos Mundos”, as pessoas confrontam uma força alienígena além de seu entendimento ou controle, causando pânico e desordem generalizada. As estruturas sociais e políticas que geralmente proporcionam segurança e estabilidade desintegram-se rapidamente diante dessa ameaça desconhecida. Isso espelha reações humanas comuns ao medo e à incerteza: desorientação, negação, raiva, pânico e, por fim, desespero.
A ascensão do PCC provocou reações similares na sociedade brasileira. A facção paulista PCC é uma força poderosa que atua fora do controle das autoridades, instigando medo e incerteza. Muitos se sentem impotentes e frustrados, pois as estruturas sociais e políticas parecem incapazes de lidar com essa ameaça. Isso pode levar ao desencanto com as instituições, sentimentos de desesperança e, em alguns casos, à resignada aceitação do PCC como uma realidade inevitável.
A Política e a Organização Criminosa
O resultado na nossa sociedade é o uso do “Primeiro Comando da Capital” como argumento discursivo por todas as vertentes políticas para angariar votos. Isso é feito seja pela exploração do sucesso de suas ações no combate à facção, seja pela exploração da incapacidade do outro lado em controlar o problema. A manipulação do pânico, medo e incerteza é uma ferramenta política frequentemente utilizada.
Não, senhores liberais conservadores, não foram os governos de esquerda do PT ou o ‘isentão’ PSDB que geraram a facção PCC! Ela foi gerada em um ambiente liberal e conservador.
PCC: PT PSDB, quem é o pai da criança?
Tanto “A Guerra dos Mundos” quanto a ascensão do PCC revelam as falhas e fragilidades das nossas instituições sociais. Em ambos os casos, é evidente que a sociedade não está preparada para lidar com esses desafios, e as estruturas existentes são insuficientes ou inadequadas. Isso pode provocar uma crise de confiança nas instituições e na liderança, bem como mudanças sociais e políticas radicais.
A presença de uma ameaça persistente e incontrolável como os marcianos ou o PCC pode afetar significativamente a saúde mental das pessoas. Isso pode resultar em ansiedade crônica, estresse, depressão e outros problemas de saúde mental. Também pode levar a um estado de hipervigilância, onde as pessoas estão constantemente à espera do próximo ataque ou ameaça. Esses fenômenos físicos e psicológicos podem levar os indivíduos a tomarem atitudes equivocadas, seja por desespero, seja por terem simplesmente abandonado a luta.
Nós, o padre e o artilheiro
Em “A Guerra dos Mundos”, o padre e o artilheiro adotam estratégias muito diferentes para lidar com a invasão marciana. O padre, perdendo a esperança e a fé, se entrega à desesperança e ao desespero. Já o artilheiro tenta se adaptar à nova realidade.
Observamos nossa sociedade dividida em dois grupos distintos. O primeiro, assemelhando-se ao padre, deposita sua fé na resolução do problema pela intervenção de um poder superior, no caso, o Estado e suas forças policiais. No entanto, a cada ano, esses veem suas esperanças cada vez mais distantes.
Existem aqueles que, como o padre, entram em desespero diante de uma ameaça aparentemente insuperável. Eles se rendem ao medo e põem sua fé em dúvida, optando pela rendição em vez da luta. O desespero do padre e sua incapacidade de se adaptar à nova realidade culminam em sua eventual morte pelas mãos dos marcianos.
O pragmático artilheiro
Por outro lado, o artilheiro, um personagem mais pragmático, busca desenvolver estratégias para sobreviver no novo mundo dominado pelos marcianos. Concebe um plano para viver nas tubulações de esgoto e, eventualmente, lançar uma resistência contra os marcianos. Apesar de suas ideias serem extremas e, por vezes, desumanas, ele tenta se adaptar, sobreviver e resistir, com o objetivo de, no futuro, infiltrar-se e vencer os inimigos utilizando sua própria tecnologia e suas fragilidades.
Existem aqueles que, como o “artilheiro”, buscam desenvolver um planejamento de resistência a longo prazo, mesmo aceitando a inconveniência da convivência com o grupo criminoso. No entanto, assim como o artilheiro, algumas dessas abordagens podem ser extremas e até mesmo contraproducentes, como a adoção de políticas de segurança pública muito severas que não abordam as raízes sociais e econômicas do crime organizado, e o enraizamento que a organização pode alcançar após um certo tempo no poder.
Encontrando o meio termo
Em ambos os cenários, a solução ideal provavelmente se encontra em algum lugar entre esses dois extremos. É necessária uma abordagem equilibrada que reconheça a gravidade da ameaça representada pelo PCC, mas que também busque soluções eficazes e sustentáveis baseadas em políticas sociais justas, reformas prisionais e judiciais, e melhor treinamento e apoio para a polícia.
Em última análise, tanto “A Guerra dos Mundos” quanto a situação do PCC nos lembram que a sociedade frequentemente não está preparada para enfrentar ameaças desconhecidas e poderosas, sejam elas de invasores alienígenas ou do crime organizado. Em ambos os casos, é necessária uma abordagem proativa e adaptável para enfrentar essas ameaças e proteger a sociedade.
Por último, também existem diferenças significativas entre os dois casos. Por exemplo, a ameaça marciana é externa e claramente maligna, enquanto o PCC é um produto das condições sociais e políticas internas do Brasil. Além disso, enquanto os marcianos são derrotados por uma doença, é menos claro como o problema do crime organizado pode ser resolvido. Isso exige uma abordagem multifacetada, incluindo políticas sociais e econômicas justas, reforma do sistema prisional e judiciário, e melhor treinamento e apoio para a polícia.
A Guerra dos Mundos e Canudos: Opressão além da Ficção
Em 1897, enquanto H.G. Wells trazia ao mundo a narrativa de “A Guerra dos Mundos”, onde uma sociedade bem-estruturada era atacada e dizimada por marcianos superiores, algo semelhante, porém cruelmente real, acontecia no sertão da Bahia, Brasil. Canudos, uma comunidade autônoma e estruturada, era cercada e atacada pelas forças do recém-estabelecido governo republicano brasileiro.
Ambas as histórias, uma fictícia e a outra tristemente real, trazem paralelos inquietantes de sociedades sendo oprimidas por forças invasoras.
Os marcianos de Wells eram uma força estrangeira tecnologicamente superior que, impiedosamente, sugavam o sangue dos seres humanos para se sustentarem. A imagem dos alienígenas consumindo o sangue humano é uma metáfora literal da exploração e do roubo de recursos pelos invasores, um reflexo grotesco da exploração colonial que marcou a história humana.
Já em Canudos, o governo brasileiro representava uma força autoritária que, com o pretexto de unificar a nação sob a nova bandeira republicana, destruiu uma comunidade que procurava viver segundo suas próprias regras e convicções. Milhares foram mortos e Canudos foi erradicada, numa demonstração brutal do poder estatal de subjugar seu próprio povo.
Marcianos, Canudos e o Mundo Moderno
A opressão narrada tanto em “A Guerra dos Mundos” quanto na “Guerra de Canudos” não é um fenômeno relegado ao passado. Hoje, continuamos a testemunhar a dominação de estruturas de poder econômico e estatal sobre as pessoas, especialmente as mais vulneráveis.
Nos vemos diante de forças corporativas e governamentais que, em busca de lucro e controle, exploram trabalhadores, consomem recursos naturais de maneira insustentável e ignoram as necessidades das comunidades marginalizadas.
Da mesma forma que os marcianos sugavam o sangue dos humanos e o governo republicano esmagava a resistência em Canudos, as forças do capitalismo moderno e os governos complacentes muitas vezes ignoram os direitos humanos e a justiça social em nome do progresso e da ordem.
Essa opressão, embora menos visível do que os marcianos de Wells ou as tropas em Canudos, é igualmente devastadora e exige resistência e mudança.
A história nos ensina que é possível resistir e, eventualmente, transformar as estruturas de poder opressivas. Hoje, assim como nos tempos de “A Guerra dos Mundos” e Canudos, a responsabilidade recai sobre nós para garantir que nossa sociedade não seja vítima de invasores, sejam eles marcianos fictícios, governos autoritários ou forças econômicas desenfreadas.
Podemos agir diante dessa situação como os personagens do livro de Wells: o padre, o artilheiro ou o narrador. No entanto, o que não podemos fazer é ignorar o que está se passando e acreditar que a situação não chegará até nós.
A jornada deste texto percorre a história da facção PCC 1533 de 2001 a 2006, um período marcado por intensas disputas de poder e contradições, revelando uma faceta complexa da criminalidade em São Paulo.
Este relato acompanha um período em que a disputa por poder não ficou nos bastidores. Entre 2001 e 2006, o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) avança enquanto a política de segurança pública, em vez de conter o problema, cria condições para sua ampliação. O que se vê não é apenas violência, mas método: escolhas, omissões e efeitos que o tempo torna mais visíveis.
Em 1997, um grito audaz ressoou do submundo criminoso, desafiando a sociedade como um fantasma emergindo das sombras. O Primeiro Comando da Capital, ousadamente, forçou o reconhecimento de sua existência, garantindo a publicação de seu estatuto e selando sua imagem como uma organização criminosa.
Essa atitude, talvez impulsionada por uma busca de satisfação do ego, talvez pelo desejo de derrubar o estigma do criminoso comum, tido como “inferior e ignorante”, surgiu como um movimento ousado e estratégico.
No jogo xadrez das “Disputas de Poder”, esta manobra se revelou mais do que uma simples busca por reconhecimento. Foi uma jogada tática astuta, um lançamento calculado de um dado que traçaria o caminho para o crescimento iminente da organização nos anos que viriam.
Medo, Repulsa e a Imprensa como Alto-falante
As entranhas da cidade escondiam mais do que apenas o medo e a repulsa – elas abrigavam uma força emergente, prestes a deixar sua marca indelével no tecido da sociedade. Esta era a ascensão silenciosa, porém inconfundível, do Primeiro Comando da Capital.
Em meio a um cenário que desafiava qualquer lógica convencional, a mídia assumiu o papel de alto-falante para as atividades do PCC, aumentando exponencialmente a sua notoriedade. Em uma tentativa de projetar uma imagem de eficácia e ação à população, várias correntes ideológicas implementaram políticas de Segurança Pública. No entanto, ao invés de subjugar a influência do PCC, elas fortaleciam inadvertidamente a organização criminosa. Como um fogo alimentado pelo vento, a estrutura do PCC parecia apenas se fortalecer frente a estes esforços.
O período de 2001 a 2006 marcou a entrada do Primeiro Comando da Capital numa nova fase, uma era definida por intensas disputas de poder. Este tempo, preenchido com dilemas e conflitos tanto internos quanto externos, escancarou a complexidade do ambiente no qual a facção PCC estava imersa.
No palco externo, a intenção das políticas governamentais colidiu com sua eficácia na prática. Ao invés de conter a influência da PCC, as medidas adotadas pela segurança pública paulista deram um impulso inesperado à organização criminosa. As transferências de presos, pensadas para diluir a força da PCC, acabaram por criar uma rede de influência mais extensa e consolidada, tanto dentro quanto fora das prisões.
Sede fecundos, disse-lhes ele, multiplicai-vos e enchei as trancas. Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo aquele que pensar em se opor a vós. Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva e o pó. Somente comereis carne com a sua alma, com seu sangue. Todo aquele que trair a nós terá seu sangue derramado pelos irmãos, porque faço de vós a nossa imagem. Sede, pois, fecundos e multiplicai-vos, e espalhai-vos sobre a terra abundantemente.
No cenário interno, as disputas de poder intensificaram-se. Os líderes, outrora respeitados e inquestionáveis, agora enfrentavam um panorama de incerteza e instabilidade. Sombra, um dos generais mais admirados, fora brutalmente assassinado em 2001, durante seu banho de sol na prisão de Taubaté. Os motivos do assassinato de Sombra nunca foram confirmados oficialmente, mas diversas teorias circulavam entre os membros da PCC. Talvez fosse uma jogada de uma facção rival, talvez uma rixa pessoal, ou ainda uma tentativa de outro líder da PCC para aumentar seu poder. A verdade permaneceu nebulosa.
O Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), já estabelecido, encontrou forte resistência entre os detentos. No entanto, as lideranças do PCC incessantemente buscavam meios para se evadir deste castigo institucional, agitando o ambiente penitenciário. Paralelamente, a PCC logrou eliminar diversas organizações rivais em São Paulo, isolando as que apresentavam mais resistência. Curiosamente, ao concentrar todas as lideranças no presídio P2 de Presidente Venceslau, o estado inadvertidamente forjou um Quartel General para o Primeiro Comando da Capital, facilitando a coordenação entre os diferentes líderes do estado.
[…] o RDD acabou por contribuir para a consolidação de lideranças dentro do sistema prisional. A construção da autoridade das lideranças no interior de organizações tais como o PCC se dá a partir da valorização de alguns atributos do indivíduo, especialmente ligados à autonomia e independência frente a qualquer poder ou autoridade formal de modo que o preso que recebe como punição a alguma falta a remoção para o RDD acaba encarnando a imagem exemplar da insubmissão às regras oficiais do Estado.
A hegemonia da PCC nas prisões estava em plena expansão, com a organização ocupando o vácuo de poder deixado pelas facções extintas.
No implacável jogo de poder do submundo, o PCC mostrou-se eficiente ao enfrentar seus rivais. Ao eliminar muitas organizações adversárias em São Paulo, orquestrando uma verdadeira guerra estratégica, cujo objetivo era estabilizar sua influência e conquistar o poder e a hegemonia nas prisões. Organizações contrárias como o Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade CBRC, a Seita Satânica SS, o Serpentes Negras e Comando Democrático da Liberdade CDL, de fato, desapareceram após 2001.
Este cenário gerou um vácuo de poder, um espaço vazio que ansiava por domínio. A habilidade do PCC em preencher essa lacuna tornou-se evidente à medida que expandiam gradualmente seu controle, utilizando a violência como um instrumento para reforçar seu poder e recrutando novos membros para suas fileiras. A cada passo, o Primeiro Comando da Capital foi tomando as rédeas, crescendo não apenas em influência, mas também em número, com o aumento constante de seus afiliados. Nesse tabuleiro de xadrez do crime, a cada movimento, a facção PCC consolidava sua supremacia.
Apesar das circunstâncias adversas, a Primeiro Comando da Capital conseguiu estabelecer uma espécie de “pacificação” nos presídios entre 2002 e 2004. Este termo, contudo, não significava uma verdadeira paz, mas o fim das violentas disputas de poder entre as facções. No entanto, os crimes fora das prisões, como fugas, assaltos e sequestros, continuaram a ocorrer.
A pacificação dependeu da capacidade do PCC em construir um discurso de união do crime e organizar o interesse dos empreendedores de drogas numa mesma direção. Em São Paulo, a facção conseguiu funcionar como agência reguladora.
Mergulhando ainda mais fundo nos corações das sombras de São Paulo, em nossa narrativa do período entre 2001 e 2006, palco das “Disputas de poder” do notório Primeiro Comando da Capital. Vidas tecidas na violência, corações pulsando contra a corrente de seus destinos prescritos – é neste cenário que Mizael, um líder na trama da facção, encontra seu fim abrupto em fevereiro de 2002.
Mizael, uma figura emblemática do PCC, se destacou por sua visão que ia além do cotidiano criminoso. Ele sonhava com um diálogo direto com o governo brasileiro e organizações de direitos humanos, enxergando na denúncia de abusos do governo paulista, uma chance de mudança. Essa aspiração foi abruptamente interrompida por uma trama interna.
Te convido a enxergar além da brutalidade dos atos do criminoso condenado. Tente ver em Mizael um homem com um plano, um estrategista almejando mudanças para além das grades. Seus desejos ecoavam em um manifesto, onde fazia menção a figuras políticas e intelectuais relevantes, numa tentativa de criar diálogo no âmbito político-jurídico.
Entretanto, dentro do universo fechado do Primeiro Comando da Capital, os sonhos costumam ser encurtados. Cesinha, antigo aliado de Mizael e um dos generais do PCC, baseado em boatos, determinou o fim de Mizael. O líder foi assassinado em um ato simbolicamente cruel, tendo seus olhos arrancados, uma forma de suplício que ecoa a brutalidade deste universo.
Jogos de Poder
Neste jogo de xadrez humano, Mizael e Sombra, outro líder do PCC, se destacaram por suas visões inovadoras. Viu-se em Mizael o potencial de um líder político, ainda que dentro da estrutura de uma organização criminosa. Sua visão, entretanto, foi impedida por uma disputa de poder, comprovando a velha máxima de que em uma guerra interna, não há vencedores, apenas sobreviventes.
Para além dos atos violentos, percebemos os homens por trás da facção PCC, suas ambições e desejos, frustrações e medos. Em um mundo onde a luta pelo poder pode custar a vida, cada decisão tem um peso imenso e os erros, consequências fatais. Entre as sombras das disputas de poder, encontramos seres humanos em sua mais crua essência, lutando pela sobrevivência em um ambiente hostil.
A Reconfiguração do Poder: Traição e Reformulação
Durante esse período de 2001 a 2006, encontramos um cenário volátil nas entranhas do emblemático Primeiro Comando da Capital. As perdas de lideranças chave levaram a uma reestruturação significativa do poder dentro do grupo, dando início a uma fase de intensa reconfiguração interna.
Neste período, presenciamos o assassinato de Ana Maria Olivatto Camacho, ex-esposa de Marcola, perpetrado por Natália, esposa de Geleião. Este evento acendeu o estopim para uma onda de vingança dentro do PCC, com parentes de Natália sendo eliminados por seguidores de Marcola.
A trama de nosso relato se adensa com a delação de Geleião à polícia, num esforço desesperado para proteger sua esposa e a si mesmo. Esta traição foi repudiada pela facção, levando à expulsão de Geleião e Cesinha, líderes renomados do PCC.
O vácuo de poder deixado por estas convulsões internas foi preenchido por Marcola, que ascendeu à liderança do Primeiro Comando da Capital em 2003. Implementou uma reformulação radical, mudando a forma de atuação financeira, política e estratégica da organização.
O PCC Evolui e se estrutura como empresa
A nova fase do PCC foi marcada por uma reorganização, passando de uma estrutura piramidal centralizada para uma organização complexa e descentralizada. Esta mudança democratizou as formas de atuação do grupo, concedendo voz e voto na estrutura interna da facção.
Marcola introduziu o conceito de “Sintonias”, comissões ou setores compostos por vários “irmãos” que reportavam a uma “sintonia final”. Além disso, a facção incluiu os termos “Igualdade e União” no seu lema, evitando problemas internos de poder e melhorando a divisão do trabalho.
No seio desta remodelação, o tráfico de drogas surgiu como uma atividade lucrativa e segura, reduzindo a perda de membros em assaltos e sequestros. Esta mudança levou a facção PCC a se tornar uma organização de caráter empresarial, embora mantendo sua luta contra as opressões e injustiças.
Neste contexto, o PCC, que começou como um partido, continua a existir, agora também como uma empresa. Uma dualidade que produziu uma ruptura singular na história da facção, transformando-a numa entidade complexa e multifacetada.
Este texto oferece uma análise perspicaz do submundo criminoso em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Ambientado no contexto atual, descortina o controle e influência do grupo “Turma do Apito” na região, através de um narrador peculiar que observa a dinâmica da cidade a partir da perspectiva de uma ave, um macuco, e um integrante da facção PCC.
“Turma do Apito” – um nome de tom quase inocente para um grupo que é tudo, menos isso. Descubra neste relato sombrio o poder invisível que regula o crime em Pernambuco.
Tendo como pano de fundo o sinistro Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), a história desvela a face de um distrito preso nas garras de uma milícia cruel. Aceite o convite à leitura e mergulhe neste universo desconcertante.
Estava sentado em uma rocha, isolado em um canto da Reserva Ecológica do Paiva. Me disseram que não havia macucos por aqui, mas ali estava um, um emblema da imprevisibilidade da natureza. Vindo de São Paulo, eu era um estranho naquelas terras, mas o macuco parecia ainda mais deslocado, um espectador quieto em um palco estrangeiro.
Era um belo pássaro, de presença solitária, que capturou minha atenção naquele instante. Assim como eu, o macuco estava distante de sua terra natal, parecendo estar à procura de algo, ou alguém. Este pássaro me lembrava de mim mesmo – observador, cauteloso, e, talvez, à procura de um novo começo.
Há alguns meses, desde que pisei em Recife, me aninhei silenciosamente em uma casa pouco visível no bairro Bomba do Hemetério. Minha vizinhança inclui um irmão do PCC, este, da terra, vive na moita, ambos observando, ambos sem levantar suspeitas. Nossa existência ali, como fantasmas invisíveis, é uma metáfora perfeita para o controle discreto e nefasto das facções criminosas na região. E foi ali, nesse silencioso reduto, que ouvi a história que mexeu com os nervos de todos nós.
Em Cabo, o domínio é do Comando Litoral Sul, a facção conhecida como CLS. Em outros lugares, eles não detêm o mesmo poder, exceto talvez em Ibura, onde a disputa sangrenta entre o Comando Vermelho e o PCC continua a ser travada. Camaragibe é outro local que vale a pena mencionar. Lá, a presença do PCC é tão forte quanto um vendaval. Orlando de Camaragibe é um nome que ressoa com intensidade. Ainda é incerto se ele é apenas um simpatizante do PCC ou se é um membro batizado, mas ele e seus crias proclamam abertamente sua lealdade ao PCC.
Aqui no nosso canto, as notícias da repressão que seguiu a morte de um policial, cujo erro fatal foi tentar denunciar as bocas de fumo do grupo, circularam com velocidade. O ocorrido enfraqueceu a quadrilha momentaneamente, mas já está claro que isso apenas a aguçou. A consequência direta foram execuções sumárias, com muitas pessoas se encontrando no alvo – desafetos, e surpreendentemente, até aliados. O líder, agora desconfiado de todos e de tudo, lançou um clima de pânico e tensão que é quase palpável. Em Camaragibe, o medo é a nova moeda, e está sendo gasto livremente.
Macuco: Coloca seu Ninho onde há Fartura de Alimento
Fui aconselhado por conhecidos a me instalar no Distrito de Cavaleiro, em Jaboatão dos Guararapes. Disseram-me que seria um bom lugar para passar despercebido, perto o suficiente do Recife para não perder contato com a metrópole, mas distante o suficiente para viver na obscuridade. Um lugar perfeito para alguém como eu, alguém que precisava se esconder à vista de todos.
O macuco se alimentava de vermes, e isso me levou a uma reflexão mórbida. Aqueles vermes, desprezíveis e repulsivos, me lembravam dos grupos criminosos que infestam o distrito de Cavaleiro, os milicianos chamados de “Turma do Apito” ou simplesmente de Cavaleiro.
Na minha cabeça, esses criminosos da “Turma do Apito” eram os vermes da sociedade, se alimentando da decadência e do medo, criando um clima de terror. Haveria um macuco para acabar com essa praga também?
Agora, aqui, observando a ave em seu ambiente tranquilo, percebi uma irônica semelhança entre nós dois. Ambos éramos observadores, ambos éramos estranhos em uma terra que não nos pertencia, e ambos éramos sobreviventes em nosso próprio caminho.
Estava perdido em meus pensamentos quando um ruído suave chamou minha atenção. Meu contato finalmente havia chegado. Olhei uma última vez para o macuco, ainda apanhando vermes com seu bico afiado, e pensei no que estava por vir. Como o macuco, eu também teria que me alimentar dos “vermes” da sociedade para sobreviver.
Dominância Oculta: A Força do PCC em Pernambuco
Com um aceno de cabeça, levantei-me e caminhei até a figura à distância. Ele era um homem de porte médio, com traços marcantes e uma expressão dura no rosto, fruto de anos de convivência com uma realidade cruel e implacável.
Estendemos a mão ao mesmo tempo, nosso aperto de mão foi firme, seco. Seus olhos, profundos e intensos, encontraram os meus, e em um instante silencioso, selamos o nosso entendimento. Nenhuma palavra foi dita, mas a mensagem era clara. Ele era um homem com uma história para contar, e eu estava lá para ouvi-la.
Ele começou a descrever a praga que assolava o distrito de Cavaleiro, um problema que se espalhava silenciosamente, como uma sombra, cobrindo a região com um véu de insegurança e medo. Com a voz grave e severa, falou sobre os “vermes” que eu já havia observado, a “Turma do Apito”, como eles eram conhecidos, e a ameaça que representavam para a ordem local.
Enquanto ouvia suas palavras, senti o peso das realidades que ele descrevia. A gravidade da situação que eu tinha pela frente era inegável, uma verdade dura que eu teria que enfrentar em minha nova vida em Cavaleiro.
Ele confirmou algumas coisas que eu tinha ouvido falar em São Paulo. O Primeiro Comando da Capital, tinha seus tentáculos estendidos por todo o interior de Pernambuco, e estavam ancorados firmemente em Caruaru.
No centro de Recife, a presença dos “crias do 15” também era sentida de maneira significativa. Os presídios, nesses locais, tornaram-se fortalezas para o PCC, especialmente os de Igarassu e Caruaru, mas os “Crias do 15” também ganhavam espaço em Itaquitinga e Palmares.
Uma situação cabulosa: PCCs cercados de oposição
No entanto, a situação se tornava nebulosa quando o olhar se voltava para o complexo do Curado. Este era um caldeirão fervente de várias facções e os chamados “chaveiros”, em geral eram milicianos.
Apesar do que aquele homem disse, eu me lembrava bem do depoimento que recebi de dentro de um presídio pernambucano.
Um forte abraço aí, uma boa noite aí prá nóis. Quem tá na voz aqui é …
Veja só, que a gente numa situação difícil, que aqui está descabelado, sem aparelho para fazer a conexão, tamo fora da sintonía por isso aí.
Estou dizendo a você, aqui tem o Comando Vermelho, a CLS, tudo inimigos nossos, entendeu? Tem o Comando Litoral Sul e tem FDN também misturado aqui. Aqui é cheio de lixo mesmo.
Aqui na cadeia que estou, não está favorável não! É pouca quantidade dos irmãos nossos, é mais Comando Vermelho, entendeu? É mais tumulto, não é qualidade não, é mais tumulto.
Muita guerra eu tive em … através da facção, faz … anos que sou da facção, eu era Geral do Sistema, eu fechei como Geral do Sistema e Geral de Estados e Países, eu fechei nessas duas responsas aí.
Pronto irmão, você faz a anotação aí, pedindo uma ajuda irmão, porque altas cadeias de Pernambuco aqui a gente está sendo oprimidos.
Porque tem muito lixo e os irmão do PCC tem pouco aqui. Em todas as cadeias de Pernambuco está tá expandindo o lixo. Eu queria que você fizesse um relatório aí dizendo o que está acontecendo nas cadeias de pernambuco, entendeu?
É isso aí que estou dizendo a você, um forte abraço aí uma boa noite para nós aí tamo junto aí viu irmão…
O que ocorre em Pernambuco está ocorrendo em todo o Norte e Nodeste, eu sei, e o Primeiro Comando da Capital também sabe. Pouco tempo depois que o grito desse irmão de trás das muralhas, a organização criminosa emitiu um documento:
O Primeiro Comando da Capital vem deixar a todos os criminosos do país cientes que o nosso objetivo de expansão pelos estados tem por prioridade fortalecer o crime contra a opressão, covardia e inveja imposta dentro e fora do regime prisional.
Deixamos claro que respeitamos aqueles que merecem respeito do crime e continuaremos a crescer e fortalecer os que nos respeitarem de igual.
Mostrarmos que somos capazes de fortalecer o crime e trataremos sempre com a igualdade todos criminosos que defendem a ideologia do Primeiro Comando da Capital.
Estaremos juntos para lutar contra todos opressores, somos de cobrar diretamente das forças opressoras.
Acreditamos nessa resposta. Onde estamos não importa a região e o número de integrantes, a polícia e os agentes do governo sabem que não terão paz conosco se não nos respeitarem como seres humanos, com tudo.
O Primeiro Comando da Capital está progredindo e cada vez mais enxergamos o quanto estamos no caminho certo.
Turma do Apito, um Grupo de Extermínio e seu Poder Sombrio
Para além disso, o Nordeste era dominado por grupos de extermínio, compostos por policiais e jagunços – remanescentes de um tempo antigo, ainda carregando as práticas brutais de um passado que se recusa a morrer. As maiores milícias de Pernambuco, no entanto, tinham suas raízes cravadas ali em Cavaleiro e na Bomba do Hemetério, territórios onde o poder paralelo florescia de maneira sinistra.
Despedimo-nos com um aceno e ele se afastou, deixando-me ali, sozinho novamente com o macuco. Ele continuava sua tarefa de se alimentar dos vermes, indiferente às complexidades da vida humana, mas de alguma forma, se tornando um símbolo poético e sombrio das verdades que eu tinha acabado de ouvir.
Os vermes, criaturas rastejantes que vivem na sujeira e na decomposição, se assemelham aos criminosos que dominam as ruas daquela comunidade e outras pelo interior de Pernambuco. Sim, estou falando da Turma do Apito. Eles são como vermes, se alimentando da desgraça alheia, criando um ambiente de medo e exploração.
A Turma do Apito que domina a região de Cavaleiro, outrora era comandada por um policial reformado, preso durante a Operação Canaã, passou a ser controlada por um jovem que nunca foi policial, mas se sentia como um. Sob sua liderança, o grupo começou a se envolver com tráfico de drogas, roubos de carga, pistolagem, agiotagem e extorsões.
Uma coisa que aquele homem me disse não me saía da cabeça:
Se você mora em Cavaleiro, ou dá uma parte do roubo pra eles ou ele manda os policiais que fecham com eles para prender a pessoa, isso quando eles não mata. Policiais militares, civis e inclusive promotores têm vínculos com eles.
A Turma do Apito e o subtenente: Uma Tragédia Anunciada
O homem me contou também, o caso do subtenente, morto em uma emboscada em 2020 em Recife.
Dizem que foi morto porque ele matou um integrante da equipe de Cavaleiro, outros dizem que foi o ex-vereador que armou a cocó pra ele. O fato é que ele sabia demais e tava peitando esses milicianos. Esse subtenente estava envolvido com coisa errada também. Extorsão etc.
Aí tudo indica que ele pegou uma mala cheia de dinheiro com o ex-vereador e saiu para fazer alguma coisa, mas era uma casinha armada pelo ex-vereador que passou a informação que ele estava saindo da casa dele para determinado local para os comparsas da Turma do Apito. Aí os meninos de Cavaleiro interceptaram ele na BR entre o bairro do Curado e Cavaleiro. Mas isso é boatos.
O subtenente encontrou seu fim porque se entrelaçou demais com a milícia de Cavaleiro, absorvendo informações perigosas demais para um homem só. No momento de sua morte, uma maleta contendo 80 mil Reais estava em seu carro – uma origem misteriosa e enigmática para tal quantia.
Naturalmente, boatos circulavam, mas em tempos como esses, quem ousaria colocar sua fé na polícia, quando tantos dos seus próprios estavam comprometidos com a milícia? A credibilidade da polícia, aos olhos do público, agora carrega a mesma validade que qualquer rumor sem fundamentos.
… são investigados um perito papiloscopista da Polícia Civil, três policiais militares de Pernambuco e um de Alagoas, além de um ex-PM que foi excluído da corporação pernambucana e outras pessoas que não tiveram profissões detalhadas. Os policiais tinham papel de liderança. Facilitavam a atuação de outros indivíduos, utilizavam a questão de ser servidor público para facilitar a execução dos crimes.
Mais de dois anos se passaram até que em uma ação policial foram capturados alguns integrantes deste grupo criminoso, entre eles, um ex-vereador de reputação duvidosa. O saldo da operação foi significativo, com a apreensão de 64 milhões em bens oriundos de suas atividades ilícitas.
No entanto, como uma melodia desafinada em um concerto, eles voltaram às ruas pouco tempo depois, retomando suas atividades como se nada tivesse acontecido.
Um Futuro Incerto: Pernambuco nas Garras de Políticos, da Milícia e do PCC
Não dá para saber até onde o grupo de Cavaleiro é financiado, financiam ou têm vínculos com vereadores, deputados, policiais militares, civis e promotores, mas já se tem notícias que até prefeitos já pediram favores para a organização criminosa.
O grupo criminoso dos Thundercats, juntamente com o Primeiro Comando da Capital, são os únicos que se mantêm fechados em conflito com os milicianos Cavaleiro, além da disputa com as facções rivais do Bomba do Hemetério e do Vasco da Gama.
Ainda assim, Pernambuco parece definhar nas garras dessas milícias, de policiais corruptos e de políticos gananciosos. Não é uma derrocada silenciosa, ao contrário, acontece sob o olhar da imprensa e da população, que se dividem entre a complacência e o aplauso, num espetáculo grotesco de resignação.
Dizem que os deuses, quando querem punir os homens, realizam seus desejos. Este provérbio soa dolorosamente verdadeiro quando observamos o Brasil nas mãos de Bolsonaro e suas comunidades à mercê dessas milícias.
Observo o macuco apanhando outro verme com seu bico afiado. Penso em como somos parecidos, ele e eu. Observadores em um mundo dominado por vermes e predadores. O macuco e eu, nós somos apenas sobreviventes, testemunhas silenciosas do que nossa sociedade se tornou, mas assim como a ave, talvez eu não precise apenas observar passivamente o rastejar de um verme.
A exemplo do macuco, estou cercado por inimigos, aqui personificados pela Turma do Apito. Contudo, assim como a ave, persevero na vida, na observação. Nutro a esperança de que, talvez um dia, testemunhemos Cavaleiro, Recife e todo Pernambuco livres dessa praga que são as milícias, permitindo que pessoas e macucos vivam em harmonia e paz.
Este texto detalha a criação do Primeiro Estatuto do PCC 1533, suas metas e valores, e como a organização enfrenta injustiças no sistema penitenciário paulista.
Primeiro Estatuto PCC, as palavras ecoam como um raio de luz sombrio, iluminando uma história entrelaçada com a luta pela justiça e dignidade em um ambiente de prisão. Me acompanhe nessa viagem tensa e carregada de ansiedade, um passeio pelas sombras das celas superlotadas, onde este documento histórico foi meticulosamente concebido.
A cada passo, descobrimos as motivações profundas do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), a batalha silenciosa que eles travam contra a opressão e injustiça dentro do sistema penitenciário paulista. Uma narrativa que se desdobra como um romance noir, onde as palavras do estatuto se tornam personagens de um enredo em que a sobrevivência, a solidariedade e a resistência são os temas centrais.
Pode-se ouvir a batida do coração da organização, pulsando nos artigos cuidadosamente traçados, cada um um manifesto de resistência, cada palavra um sussurro de desafio. Venha, leitor, descubra os segredos do Primeiro Estatuto do PCC, deixe-se envolver nesta saga de determinação e coragem, onde a luta pelos direitos dos encarcerados se torna uma história de suspense eletrizante.
Primeiro Estatudo do PCC: Pensado Palavra por Palavra
Era uma tarde tensa em um ambiente superlotado, quando Mizael, Sombra e outros detentos se reuniram em um espaço improvisado como escritório dentro de sua cela. O ar estava pesado, carregado de ansiedade e o barulho incessante da prisão abafava qualquer tentativa de silêncio. As paredes, desgastadas e marcadas, eram testemunhas da elaboração de um manifesto político que mudaria o destino de muitos. Com caneta e papel em mãos, delinearam 17 artigos bem definidos, meticulosamente pensados para servir de base para a coesão política de seu grupo.
No entanto, em 1997, o documento viria à tona, tornando-se público e causando alvoroço na opinião pública. As autoridades do governo paulista, encurraladas e desconfortáveis, tentaram desmentir a existência do estatuto, mas a verdade já havia escapado de suas garras, ganhando vida própria.
Primeiro Estatudo do PCC: Artigos de Solidariedade
Lealdade, respeito, e solidariedade acima de tudo ao Partido
A Luta pela liberdade, justiça e paz
A união da Luta contra as injustiças e a opressão dentro das prisões
A contribuição daqueles que estão em Liberdade com os irmãos dentro da prisão através de advogados, dinheiro, ajuda aos familiares e ação de resgate
O respeito e a solidariedade a todos os membros do Partido, para que não haja conflitos internos, porque aquele que causar conflito interno dentro do Partido, tentando dividir a irmandade será excluído e repudiado do Partido.
A solidariedade era o grito mudo que ecoava entre as palavras escritas, unindo os filiados da organização em um laço indissolúvel. Esse vínculo estendia-se além das grades enferrujadas, alcançando aqueles que, agora livres, caminhavam pelas ruas, carregando consigo o peso do passado e a esperança de um futuro melhor.
Assim, as páginas do estatuto se desdobravam, cada artigo um manifesto de resistência e determinação, um mapa para navegar nas águas turbulentas do sistema penitenciário, uma chama de esperança na escuridão opressiva da prisão.
Códigos de Ferro: Disciplina e Hierarquia na Facção PCC
Jamais usar o Partido para resolver conflitos pessoais, contra pessoas de fora. Porque o ideal do Partido está acima de conflitos pessoais. Mas o Partido estará sempre Leal e solidário à todos os seus integrantes para que não venham a sofrerem nenhuma desigualdade ou injustiça em conflitos externos.
Aquele que estiver em Liberdade “bem estruturado” mas esquecer de contribuir com os irmãos que estão na cadeia, serão condenados à morte sem perdão
Os integrantes do Partido tem que dar bom exemplo à serem seguidos e por isso o Partido não admite que haja assalto, estupro e extorsão dentro do Sistema.
O partido não admite mentiras, traição, inveja, cobiça, calúnia, egoísmo, interesse pessoal, mas sim: a verdade, a fidelidade, a hombridade, solidariedade e o interesse como ao Bem de todos, porque somos um por todos e todos por um.
Todo integrante tem que respeitar a ordem e a disciplina do Partido. Cada um vai receber de acordo com aquilo que fez por merecer. A opinião de Todos será ouvida e respeitada, mas a decisão final será dos fundadores do Partido.
Nos corredores sombrios da organização, duas palavras ecoavam como um mantra: disciplina e punições. O sexto artigo do estatuto delineava com uma clareza brutal que o Primeiro Comando da Capital devia se sobrepor a qualquer forma de interesse individual que não buscasse o coletivo. Eles haviam estabelecido uma linha clara, e aqueles que ousassem cruzá-la, buscando lucrar à custa do partido ou abandonando suas funições para benefício próprio, seriam atingidos com as mais severas punições. A mentira, a traição, qualquer forma de quebra da aliança com o PCC, não seria tolerada.
O oitavo artigo era o fruto dessa intrincada rede de sociabilidade, unida pela disciplina e pela punição. A conduta exemplar que se esperava dos membros produzia uma espécie de legitimidade e aprovação moral, fortalecendo ainda mais o poder e a disciplina que permeavam a organização.
Assim, ações consideradas “imorais”, como assaltos entre os próprios presos, estupros e extorsões de presos mais poderosos, deveriam ser erradicadas. Antes da existência do grupo, tais práticas eram, infelizmente, comuns. O oitavo artigo, então, se tornou uma forte declaração contra os estupros, instaurando uma nova cultura política nos territórios dominados pelo PCC.
O décimo artigo lembrava a todos a necessidade de obediência dentro da estrutura disciplinar. A estrutura inicial do PCC, de caráter piramidal, garantia o “direito” dos componentes de falar e julgar em favor do partido, mas a decisão final e o poder sempre retornavam às mãos dos fundadores. Nessa divisão interna, havia os que mandavam, os “generais”, e os que obedeciam, os “soldados”. Uma clara divisão do trabalho, uma hierarquia incontestável.
Nesse sistema, o poder se manifestava sem disfarces, sem necessidade de mascarar a realidade. “Soldado”, “general”, os termos deixavam evidente a estrutura rígida e intransigente que governava cada membro, cada decisão, cada ação dentro do Primeiro Comando da Capital.
Lema e Legado: A Batalha Simbólica do PCC
O Primeiro Comando da Capital PCC fundado no ano de 1993, numa luta descomunal e incansável contra a opressão e as injustiças do Campo de concentração “anexo” à Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, tem como tema absoluto a “Liberdade, a Justiça e Paz”.
O partido não admite rivalidades internas, disputa do poder na Liderança do Comando, pois cada integrante do Comando sabe a função que lhe compete de acordo com sua capacidade para exercê-la.
Temos que permanecer unidos e organizados para evitarmos que ocorra novamente um massacre semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção em 02 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre este que jamais será esquecido na consciência da sociedade brasileira. Porque nós do Comando vamos mudar a prática carcerária, desumana, cheia de injustiças, opressão, torturas, massacres nas prisões.
A prioridade do Comando no montante é pressionar o Governador do Estado à desativar aquele Campo de Concentração “anexo” à Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, de onde surgiu a semente e as raízes do comando, no meio de tantas lutas inglórias e a tantos sofrimentos atrozes.
O lema “Paz, Justiça e Liberdade”, outrora entoado pelo Comando Vermelho, agora ecoava nos corredores do PCC, um emblema de seus ideais e batalhas políticas. As linhas rígidas da unidade e disciplina, delineadas no estatuto inicial, foram forjadas para a preservação da organização, um escudo contra as injustiças, um grito silencioso contra novos massacres como o de 1992 no Carandiru. Eles lutavam por direitos básicos que lhes eram negados, direitos que pareciam evaporar ao cruzar as portas de ferro do sistema prisional.
Disciplina e punição, essas eram as ferramentas que mantinham o equilíbrio delicado do poder entre generais e soldados. Uma estabilidade necessária para evitar divisões dentro da organização. Se os presos não estivessem unidos por uma causa comum, o sistema prisional continuaria a triunfar, a manter seu status quo inabalado.
O décimo quarto artigo carregava um objetivo simbólico, mas ao mesmo tempo, incrivelmente palpável. A desativação da Casa de Custódia de Taubaté era um sonho, quase um mito, para os membros do PCC. Ali, onde tudo começou, onde a fama de ser uma das prisões mais violentas de São Paulo foi cimentada, eles desejavam provocar uma mudança. Expor os crimes de José Pedrosa, libertar as celas da tortura, essa era uma meta que se estendia além do simbólico, era uma meta que precisava ser alcançada.
O Juramento: Centralização e Aliança contra a Opressão do Sistema
Partindo do Comando Central da Capital do QG do Estado, as diretrizes de ações organizadas simultâneas em todos os estabelecimentos penais do Estado, numa guerra sem trégua, sem fronteira, até a vitória final.
O importante de tudo é que ninguém nos deterá nesta luta porque a semente do Comando se espalhou por todos os Sistemas Penitenciários do estado e conseguimos nos estruturar também do lado de fora, com muitos sacrifícios e muitas perdas irreparáveis, mas nos consolidamos à nível estadual e à médio e longo prazo nos consolidaremos à nível nacional.
Em coligação com o Comando Vermelho – CV iremos revolucionar o país dentro das prisões e nosso braço armado será o Terror “dos Poderosos” opressores e tiranos que usam o Anexo de Taubaté e o Bangu I do Rio de Janeiro como instrumento de vingança da sociedade na fabricação de monstros.
Conhecemos nossa força e a força de nossos inimigos Poderosos, mas estamos preparados, unidos e um povo unido jamais será vencido.
LIBERDADE! JUSTIÇA! E PAZ!
O Quartel General do PCC, Primeiro Comando da Capital, em coligação com Comando Vermelho CV UNIDOS VENCEREMOS
As sombras do cimento frio da cela pairavam sobre os homens que se reuniam, seus rostos tensos iluminados apenas pela fraca luz que se infiltrava pelas estreitas janelas. O ar estava espesso, carregado com a importância do que estava prestes a ser discutido. Os últimos dois artigos do estatuto – o coração da sua visão política – estavam em jogo.
A centralização do poder e a aliança com o Comando Vermelho eram questões cruciais, a essência que moldaria a identidade do Primeiro Comando da Capital. A figura do “bandido” estava em processo de evolução, de uma presença individual para um sujeito coletivo, uma nova forma de organização que se espalharia por todo o Brasil na década de 2000.
O PCC, desde o seu início, alimentava a visão de uma frente unida de organizações de presos contra o estado – um inimigo comum. O 17º artigo do estatuto delineou a esperança de uma coligação nacional entre o PCC e o CV, uma fortaleza que se estenderia além das fronteiras de São Paulo e Rio de Janeiro.
A desativação das penitenciárias Bangu I e Piranhão – dois ícones sinistros do sistema carcerário – era mais do que um objetivo prático; era uma declaração simbólica de intento. A mensagem era clara: unidade contra a injustiça, a desigualdade e a opressão.
A tensão na sala se dissipou, substituída por uma resolução silenciosa. As palavras finais do estatuto foram escritas, selando o compromisso de luta por paz, justiça e liberdade. Sob a luz fraca, esses homens haviam forjado um novo caminho, uma nova forma de resistência, cujas ondas ressoariam em todo o sistema penitenciário brasileiro.
Iniciação e Juramento: O Batismo no Submundo do PCC
Imagine-se na pele de um novato no Primeiro Comando da Capital, o temido PCC. O processo de admissão, longe de ser algo simples, requer a indicação de um padrinho, um membro já consolidado que lhe avalia e indica para a facção. A sua entrada não é uma questão de oferecer-se, mas sim de ser convidado. Uma vez convidado, a preparação para a entrada começa, sempre sob a vigilância atenta do padrinho.
E nesse universo, a interdependência entre o padrinho e o afilhado é crucial. Seu padrinho assume uma responsabilidade quase paternal por você e, caso cometa algum erro, é ele quem sofrerá as consequências até o final deste sinistro “ritual de passagem”. O laço que os une é reforçado por valores como lealdade, honestidade, confiança e a obrigação de seguir as regras da facção. Se conseguir respeitar estes princípios, você é admitido na organização.
A cerimônia de batismo é uma ocasião de gravidade sombria, onde o padrinho, o afilhado e um terceiro membro se reúnem. O novato deve proferir um juramento de lealdade, comprometendo-se a cumprir o estatuto, assumir responsabilidade e manter uma reputação respeitável no mundo do crime, para assim consolidar sua posição no universo do PCC.
O PCC tem sua própria linguagem, um código criado para reforçar o vínculo entre seus membros. Essa linguagem codificada cria novos laços de interdependência dentro e fora das prisões, e provoca uma profunda transformação do indivíduo durante o processo de batismo. Nessa transformação, um novo vocabulário nasce, um glossário do crime, se preferir, influenciado pela dura realidade do mundo do crime, conforme documentado meticulosamente por Feltran.
Uma vez admitido no PCC, o novato torna-se um “Irmão”. Não importa onde ou como ocorreu o batismo, em São Paulo ou em outra unidade federativa, dentro ou fora das prisões – uma vez batizado, será sempre um irmão. Tal como em qualquer organização, o PCC tinha a sua própria hierarquia no início, com os generais – os fundadores e líderes da organização – no topo, e os soldados – os membros da base que seguem as ordens dos generais – formando a coluna vertebral da facção.
Linguagem Codificada: A Semiótica do Submundo do PCC
Imagine-se agora imerso em um universo onde o vernáculo é tão estranho e específico quanto o ambiente em si. No mundo do PCC, os inimigos de facções rivais são denominados “Coisas”, enquanto os policiais militares, carcereiros ou qualquer outro agente de segurança pública são chamados pejorativamente de “Vermes”. Qualquer intruso que não pertence a este universo é designado como “Zé Povinho”.
Para entender melhor esta classificação peculiar, convém citar uma etnografia sobre o assunto: Segundo o sistema classificatório usado pelos presos, “irmão” é o termo usado para um membro batizado do PCC; “primo” se refere ao preso que vive em prisões do PCC, mas que não é membro batizado; “coisa” é o termo usado para os inimigos, que podem ser tanto presos de outras facções quanto funcionários da segurança pública. Aqueles que não pertencem ao mundo do crime, que não são irmãos, primos ou coisas, recebem a denominação pejorativa de Zé Povinho.
A terminologia estende-se ainda ao espaço territorial dominado pela “família” PCC. Os bairros periféricos são conhecidos como “quebradas”. Qualquer indivíduo, pertença ele ou não ao mundo do crime, reconhece o bairro de origem como “sua quebrada”. Esse local de pertencimento transcende as barreiras do espaço físico, carregando consigo costumes, hábitos, gírias e a nostalgia de suas origens. O indivíduo se orgulha de onde veio, tornando-se uma parte integral de sua identidade.
O glossário do PCC é vasto e pode ser encontrado em uma grande variedade de bibliografias. A semiótica dentro deste universo é vasta e complexa, proporcionando uma significação única que os indivíduos atribuem a determinados significados. Eles reinterpretam diversos procedimentos, normas e comportamentos, criando dialetos dentro do mundo da periferia que são incorporados ao mundo do crime e vice-versa. E assim, um novo mundo linguístico é forjado, tão complexo e fascinante quanto o próprio universo do PCC.
Mano Dyna solta a real sobre como o abandono das políticas de humanização dos presídios, especialmente no ‘Complexo do Carandiru’, deu força pro PCC e mudou a cena política do Brasil.
A guinada à direita, com o Bolsonaro e o Tarcísio no comando, veio do abandono das políticas de humanização dos presídios. Na responsa? Franco Montoro e Mario Covas. Eles queriam trazer dignidade pros presídios, mas os que vieram depois largaram a fita. E aí, já viu.
Complexo do Carandiru: o Sistema Abandonou os Manos e Deu no que Deu
Vou te soltar a real, bora pro papo reto. Nesse corre da vida, a Segurança Pública em São Paulo sofreu um baque pesado. Os manos Montoro e Covas tinham um plano de humanização dos presídios, mas a fita mudou.
O Complexo do Carandiru foi um lugar que marcou com sangue a história do Brasil. Em 1992, a polícia desceu o aço de forma bruta e covarde, alimentando uma raiva que espalhou um clima tenso na sociedade.
Quando a casa caiu, a polícia chegou de forma pesada. Mais de 300 policiais, liderados por caras como o Coronel Ubiratan Guimarães. O resultado foi um moedor de carne humana: entre 111 e 300 mortos.
Então, é isso, mano. O abandono das políticas de humanização dos presídios, a falta de direitos humanos, tudo isso contribuiu pro crescimento do Primeiro Comando da Capital e da direita. Fica ligado na segunda parte que vou mandar, onde vou fechar essa fita.
Complexo do Carandiru: símbolo do descaso e da impunidade
O bagulho é doido, a chapa esquentou e o Brasil inteiro levou um puxão de orelha da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. A resposta violenta à rebelião e a demora pra punir os culpados foram condenadas.
O Complexo do Carandiru virou um churrasco de gente, fez o Brasil virar a cara pra direita. Paulo Maluf, o cara do sistema, se deu bem com o sangue dos manos nas eleições municipais de São Paulo.
A parada aconteceu um dia depois do massacre, no pior estilo do sistema. E, pra quem não sabe, o mano Danilo Cymrot botou no papel, no livro “Da chacina a faxina”, que a vitória do Maluf tá ligada, sim, à essa tragédia.
Foi o primeiro eleito no sangue dos manos mortos covardemente do presídio.
Guinada à Direita: Maluf, Bolsonaro, Tarcísio e as Cicatrizes do Abandono
E quem pagou o pato? Só o Coronel Ubiratan Guimarães, condenado a 632 anos por 102 homicídios e 5 tentativas. Mas o cara recorreu em liberdade, virou deputado e morreu sem ver o sol nascer quadrado.
Os outros PMs? Não tiveram que encarar o juiz. O Carandiru, símbolo da mão pesada do sistema, fechou as portas em 2002. Os presos foram jogados pra outros lugares, resultado da política dos tucanos.
A chacina mexeu com a cabeça do povo. A luta contra o abuso policial e as desigualdades ganharam força. A música “Diário de um Detento”, dos Racionais MC’s, botou a real na roda sobre o episódio e criticou o sistema penitenciário e a desigualdade social brasileira.
Pra resumir, o Carandiru mostra a contradição da segurança pública. A violência policial alimentou o conservadorismo, levando Bolsonaro à presidência e Tarcísio ao comando de São Paulo. Tudo começou com o abandono das políticas de humanização dos presídios. O massacre de ’92, sem punição, revela a predileção pública por discursos de ordem e repressão.
15 de março de 1983 até 15 de março de 1987 humanizou os presídios na sua gestão, priorizando a democracia, a transparência e os direitos dos detentos Franco Montoro
15 de março de 1987 até 15 de março de 1991 estratégia violenta e repressiva de lidar com a criminalidade, foi a primeira grande ruptura na era democrática Massacre do 42º DP – fevereiro de 89 Orestes Quércia
15 de março de 1991 até 1 de janeiro de 1995 massacre do Carandiru – 2 de outubro de 1992 desativação e demolição do Carandiru política de interiorização e divisão dos presídios fundação do PCC – 31 de agosto de 1993 Luiz Antônio Fleury
1 de janeiro de 1995 até 6 de março de 2001 criticou a ausência de direitos humanos nos governos anteriores e optou por políticas de negociação e patrulhas mais brandas criação de vagas no sistema penitenciário como uma de suas principais ações políticas Mário Covas
6 de março de 2001 até 31 de março de 2006 política de aumento da repressão policial e mais mortes em confrontos mega rebelião em 29 unidades prisionais – fevereiro 2001 PCC ganha visibilidade pública e demonstra eficácia em suas ações massacre Operação Castelinho – fevereiro de 2002 Regime Disciplina Diferenciado RDD – dezembro de 2003 muitos que trabalharam na repressão ganharam fama na vida política Geraldo Alckmin
31 de março de 2006 até 1 de janeiro de 2007 mega rebelião e ataques do PCC – maio de 2006 Cláudio Lembo
1 de janeiro de 2007 até 2 de abril de 2010 manutenção da política de Segurança Pública de Alckmin hegemonia do PCC com queda da taxa de homicídios Crescimento progressivo da população carcerária Fotalecimento da ROTA e investimentos na PM José Serra
2 de abril de 2010 até 1 de janeiro de 2011 Alberto Goldman
1 de janeiro de 2011 até 6 de abril de 2018 aumento da população carcerária investimento em ferramentas de investigação contra as organizações criminosas número alarmante de encarcerados durante a gestão de Alckmin, com aumento de mais de 50.000 presos em apenas 4 anos aumento da violência e letalidade policial Geraldo Alckmin
6 de abril de 2018 até 1 de janeiro de 2019 Márcio Franca
1 de janeiro de 2019 até 1 de abril de 2022 João Doria
1 de abril de 2022 até 1 de janeiro de 2023 População carcerária: O Brasil é o terceiro país com maior população carcerária do mundo, com mais de 773.000 presos. Só no Estado de São Paulo são 231.287 presos Rodrigo Garcia
A política de cada governador de São Paulo em relação ao sistema prisional e a facção PCC. Da política de humanização à guerra nas ruas, acompanhe essa narrativa.
“Governador de São Paulo” é o tema do nosso novo artigo, irmão. O Primeiro Comando da Capital (Facção PCC 1533) e os governantes de SP estão no foco. A quebrada quer entender como a política rolou e como o PCC nasceu daí. No final, tem um fichamento com os dados que embasaram a ideia. Cola lá!
Ah! Quem me passou toda essa visão, foi o mano Dyna. Forte e leal abraço!
Governor de São Paulo: cada um com sua gestão prisional
Governador de São Paulo: já tevivemos um Franco Montoro e um Mario Covas
Segura a visão, irmão, dos role dos governo de São Paulo. Montoro (1983-1987), chega no corre e traz uma ideia nova, de humanizar os presídios, dar chance pro preso buscar os direitos dele. Tipo, uma luz no fim do túnel, saca?
Mas aí, Quércia (1987-1991) assume o poder e muda o jogo. Troca a ideia de Montoro e chega com uma pegada mais pesada, violenta. Cê lembra, né? Foi nessa época que rolou aquele pico do 42° DP e o massacre do Carandiru, treta pesada.
Na sequência, Covas sobe no comando. Ele criticou a treta de Quércia e Fleury, e escolheu outro caminho. Ao invés de botar a PM pra bater de frente, ele preferiu o diálogo, uma patrulha mais tranquila.
Só que, no segundo mandato de Covas, o sistema prisional começou a crescer muito. O cara priorizou a criação de vagas nos presídios como uma das principais ações políticas dele. Isso afetou a relação com o Primeiro Comando da Capital, e ainda hoje sentimos os efeitos disso na quebrada.
Ninguém sabe como nós escolher o caminho mais sinistro
Na sequência do baile, mano, Carandiru já era, prisões superlotadas, aí rolou a política de interiorização. Distribuíram os irmãos pelo estado, pra dificultar a união da massa. A estratégia foi clara, os governantes decidiram espalhar os presos, fugindo da aglomeração.
Construíram novas penitenciárias, mano, pros regimes fechado e semiaberto, espalhadas pelo oeste paulista. As novas casas do sistema são diferentes, menores, compactas, modernas, evitando a treta das fugas e o descontentamento da massa.
Mas saca só, o desenho do lugar tá ligado na vigilância, fazendo o preso virar a base da própria opressão, sacou? Igual aqueles filmes loko de futuro, onde o sistema oprime a massa.
Segura a visão, que vou te mostrar como a parada desenrolou pra gente chegar onde estamos, tá ligado? Mas primeiro a lista com o nome dos governadores porque ninguém tem obrigação de lebrar de cor, né não?
Governadores do Estado de São Paulo
15 de março de 1983 até 15 de março de 1987 humanizou os presídios na sua gestão, priorizando a democracia, a transparência e os direitos dos detentos Franco Montoro
15 de março de 1987 até 15 de março de 1991 estratégia violenta e repressiva de lidar com a criminalidade, foi a primeira grande ruptura na era democrática Massacre do 42º DP – fevereiro de 89 Orestes Quércia
15 de março de 1991 até 1 de janeiro de 1995 massacre do Carandiru – 2 de outubro de 1992 desativação e demolição do Carandiru política de interiorização e divisão dos presídios fundação do PCC – 31 de agosto de 1993 Luiz Antônio Fleury
1 de janeiro de 1995 até 6 de março de 2001 criticou a ausência de direitos humanos nos governos anteriores e optou por políticas de negociação e patrulhas mais brandas criação de vagas no sistema penitenciário como uma de suas principais ações políticas Mário Covas
6 de março de 2001 até 31 de março de 2006 política de aumento da repressão policial e mais mortes em confrontos mega rebelião em 29 unidades prisionais – fevereiro 2001 PCC ganha visibilidade pública e demonstra eficácia em suas ações massacre Operação Castelinho – fevereiro de 2002 Regime Disciplina Diferenciado RDD – dezembro de 2003 muitos que trabalharam na repressão ganharam fama na vida política Geraldo Alckmin
31 de março de 2006 até 1 de janeiro de 2007 mega rebelião e ataques do PCC – maio de 2006 Cláudio Lembo
1 de janeiro de 2007 até 2 de abril de 2010 manutenção da política de Segurança Pública de Alckmin hegemonia do PCC com queda da taxa de homicídios Crescimento progressivo da população carcerária Fotalecimento da ROTA e investimentos na PM José Serra
2 de abril de 2010 até 1 de janeiro de 2011 Alberto Goldman
1 de janeiro de 2011 até 6 de abril de 2018 aumento da população carcerária investimento em ferramentas de investigação contra as organizações criminosas número alarmante de encarcerados durante a gestão de Alckmin, com aumento de mais de 50.000 presos em apenas 4 anos aumento da violência e letalidade policial Geraldo Alckmin
6 de abril de 2018 até 1 de janeiro de 2019 Márcio Franca
1 de janeiro de 2019 até 1 de abril de 2022 João Doria
1 de abril de 2022 até 1 de janeiro de 2023 População carcerária: O Brasil é o terceiro país com maior população carcerária do mundo, com mais de 773.000 presos. Só no Estado de São Paulo são 231.287 presos Rodrigo Garcia
1 de janeiro de 2023a Tarcísio de Freitas
As Heranças do Governador de São Paulo Geraldo Alckmin 1: RDD e o Estouro do Sistema Carcerário
Covas partiu dessa para uma melhor em 2001, e quem pegou o bonde foi Alckmin, de 2001 a 2006. O mano foi contra a maré, intensificando a treta com as organizações dos presídios.
Aí teve as mega rebeliões, aumento da letalidade policial e o Primeiro Comando da Capitalentrou na mira da opinião pública.
Foi nessa época que Alckmin criou o RDD, o Regime Disciplinar Diferenciado, mano. Uma medida pesada, que cortou direito dos irmãos atrás das grades, trancados em solitárias, sem visita de família e advogado.
Em 2002, rolou a Operação Castelinho. PM fechou o cerco e 12 suspeitos de serem do PCC foram mortos. Apesar dos protestos, o barato continuou.
A Herança do Governador de São Paulo Cláudio: os ataques do PCC de maio de 2006
Em 2006, Alckmin saiu e Cláudio Lembo entrou. Nesse ano, rolou a maior crise de segurança, com a PCC tocando o terror em mais de 70 cadeias e nas ruas. Ficou pouco, mas foi o bastante para jogar farofa no ventilador.
No auge da treta, a mega rebelião e os ataques de maio, a cidade virou um caos, todo mundo em pânico. Depois da tempestade, José Serra assumiu o poder, manteve a linha do PSDB e os índices de violência deram uma diminuída.
As Heranças do Governador de São Paulo José Serra: Lotando as Trancas e a Violência na Periferia
No entanto, quando Serra assumiu o trono (2006-2010), a parada ficou mais tensa. O discurso era de vitória, mas o que rolou mesmo foi o aumento da população carcerária. Alckmin voltou em 2010, ficou até 2018, e o sistema só piorou. A vida na periferia seguia na mesma, enquanto as celas enchiam cada vez mais.
As Heranças do Governador de São Paulo Geraldo Alkimin 2: Mais Violência, Confronto com o PCC e Aumento do Encarceramento
Na quebrada, Alckmin chegou no poder novamente, em 2010. Daí, a coisa não mudou, irmão. A treta com o PCC continuou e a violência só aumentou. Em 2012, rolou uma fita diferente. O sistema policial passou por uma reforma. Antônio Ferreira Pinto, um ex-milico, assumiu a fita, botando a polícia pra cima do crime organizado. A PM e a ROTA, na gestão do cara, só cresciam, levando a violência às alturas.
Porém, em 2012, o bagulho ficou doido. A PM e o PCC bateram de frente, deixando São Paulo em estado de sítio. Nessa parada, Ferreira Pinto e os comandantes da PM e ROTA tiveram que sair do jogo. Eles foram pro lado da política, mas o estrago já tava feito. O número de presos aumentou demais, mais de 50.000 em 4 anos.
O Brasil é o terceiro do mundo em população carcerária, mais de 773 mil presos, mano. Em São Paulo, são mais de 231 mil. Mas tá ligado que essa treta toda, essa disputa entre as políticas dos governantes, só beneficiou quem tá no poder, os que precisam do discurso da violência pra se manter no comando.
No final, a gestão do Alckmin ficou marcada pela treta com o PCC e a violência das polícias. A quebrada sangrou, e a pergunta é: quem vai limpar essa bagunça agora, Governador de São Paulo?
Mário Covas falece em 2001, seu vice-governador, Geraldo Alckmin assume (2001-2006).
Alckmin intensifica a violência policial e a repressão.
Fortalecimento da PM e estratégia de confronto elevam o número de mortes pela ação do Estado.
Mega rebelião organizada pelo PCC em 2001.
Primeiro grande desafio do governo Alckmin.
PCC ganha visibilidade pública e demonstra eficácia em suas ações.
Alckmin cria o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).
Medida mais dura do Estado de São Paulo contra líderes do PCC.
RDD restringe direitos básicos dos presos, como tempo de banho de sol, visitas de familiares e advogados.
Operação Castelinho em 2002.
12 suspeitos de pertencerem ao PCC são assassinados pela PM em uma emboscada, gerando críticas.
Cláudio Salvador Lembo assume o governo em 2006, após renúncia de Alckmin.
Ano marcado pela maior crise da segurança pública em São Paulo, com mega rebelião em mais de 70 unidades prisionais e ataques a prédios públicos a mando do PCC.
José Serra Chirico assume o governo (2006-2010).
Continua as políticas de Alckmin de fortalecimento das polícias e enfrentamento ao crime.
Após os ataques de 2006, os índices de homicídio e violência diminuem.
Crescimento progressivo da população carcerária refletindo as políticas de segurança pública.
Geraldo Alckmin retorna ao governo (2010-2018).
Neste período, a população carcerária continua a crescer além da capacidade dos presídios.
Alckmin vence novamente e se reelege em 2014, totalizando 8 anos de governo nesse segundo mandato.
Alckmin, em sua segunda gestão (2010-2018), continuou as políticas de segurança pública do PSDB, com enfoque na repressão e confronto.
Em 2012, a força policial foi reestruturada sob Antônio Ferreira Pinto, policial militar e procurador da justiça, promovido como secretário da SAP após os ataques de 2006.
Ferreira Pinto utilizou força policial e instrumentos de investigação para combater grupos criminosos.
Em 2009, Álvaro Batista Camilo e Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada foram nomeados para postos chave na Polícia Militar e ROTA, respectivamente.
Aumento significativo nos investimentos para a Polícia Militar e ROTA.
Em 2012, aumento da violência em São Paulo devido aos confrontos entre a PM e o PCC.
Retirada de Ferreira Pinto e dos comandantes da PM e ROTA em 2012, que migraram para a vida política.
Número alarmante de encarcerados durante a gestão de Alckmin, com aumento de mais de 50.000 presos em apenas 4 anos.
Os últimos anos da gestão de Alckmin marcados por violência policial e embates com o PCC.
Montoro humanizou os presídios na sua gestão, priorizando a democracia, a transparência e os direitos dos detentos.
Muitos que trabalharam em gestão ganharam fama na vida política.
Governo Quércia, marcado por uma estratégia mais violenta e repressiva de lidar com a criminalidade, foi a primeira grande ruptura na era democrática.
Aumento substancial dos homicídios cometidos pela PM durante o governo Fleury, com destaque para os episódios do 42° DP e o massacre do Carandiru.
Mário Covas se elegeu em 1995 e iniciou o governo tucano, que já dura 25 anos.
Covas criticou a ausência de direitos humanos nos governos anteriores e optou por políticas de negociação e patrulhas mais brandas.
A expansão do sistema prisional foi acelerada a partir de 1998, durante o segundo governo de Mário Covas, que priorizou a criação de vagas no sistema penitenciário como uma de suas principais ações políticas.
Política de interiorização: Com a desativação do Carandiru e a superlotação das cadeias, uma política de interiorização foi implementada, expandindo-se por todo o estado. Essa política visava dificultar a organização de grupos criminosos.
Construção de novas penitenciárias: As grandes cadeias foram descentralizadas e novas penitenciárias foram construídas para os regimes fechado e semiaberto em todo o oeste paulista. As novas instalações, mais compactas e modernas, diferiam das antigas construções do século XIX e XX.
Panóptico: O novo arranjo das penitenciárias é comparado a um “Panóptico”, onde a arquitetura do local é atrelada à vigilância e ao poder, tornando o preso o princípio de sua própria sujeição.
Governador Geraldo Alckmin: Após a morte de seu antecessor em 2001, Alckmin assumiu e adotou uma postura mais dura contra o crime, enfrentando situações como as mega rebeliões e o aumento da letalidade policial.
Primeiro Comando da Capital (PCC): Durante o governo de Alckmin, o PCC ganhou visibilidade pública. Medidas punitivas, como a criação do RDD, foram implementadas para combater o grupo.
Mega rebelião de 2006: Esta rebelião elevou o pânico social em todas as classes da sociedade paulista. Posteriormente, José Serra assumiu o poder, mantendo a política do PSDB e presenciando uma diminuição nos índices de violência.
População carcerária: O Brasil é o terceiro país com maior população carcerária do mundo, com mais de 773.000 presos. Só no Estado de São Paulo são 231.287 presos.
Disputa política: Há uma disputa entre políticas mais moderadas (como as de Montoro e Covas) e políticas mais radicais. As últimas foram vencedoras, beneficiando os setores que necessitam do discurso sobre a violência para manter seus micropoderes.
Efeito das políticas na criação do PCC: O texto argumenta que o Estado, por meio de suas políticas, produziu as condições para a criação do PCC.
A investigação policial revela a crescente influência da facção PCC 1533 nas eleições paraguaias e destaca a importância da cooperação internacional para combater o crime organizado.
Eleições no Paraguai revelam conexões perigosas entre o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) e forças políticas, desafiando a cooperação internacional no combate ao crime.
Eleições no Paraguai: Relatório de inteligência do GAECO / SENASP
Memorando nº 325/2023
De: Inspetora Rogéria Mota Para: Exmº. Sr. Dr. Promotor de Justiça Assunto: Resultado das investigações realizadas em cooperação com a SENAD no Paraguai
Data: 5 de maio de 2023
Exelentíssimo Senhor Doutor Promotor,
Por meio deste memorando, apresento os resultados e considerações obtidas durante minha missão no Paraguai, onde estive a convite da Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) para investigar a influência da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no país.
Expansão do Primeiro Comando da Capital no Paraguai
Durante a investigação, constatamos que o PCC expandiu significativamente suas atividades no Paraguai, estabelecendo conexões com políticos, autoridades e outros grupos criminosos locais. A facção tem se beneficiado da corrupção e da impunidade prevalentes no país, principalmente em razão da longa permanência do Partido Colorado no poder.
Relação entre o PCC e as elites políticas paraguaias
Identificamos que a facção PCC possui relações estreitas com membros do Partido Colorado e outras elites políticas no Paraguai. Essas conexões facilitam as operações da organização criminosa no país, incluindo o tráfico de drogas e o contrabando de cigarros. Além disso, observamos que a vitória do Partido Colorado nas recentes eleições no Paraguai pode fortalecer ainda mais essas relações, dificultando avanços significativos no combate à corrupção e ao crime organizado.
Cooperação internacional entre Brasil e Paraguai
A cooperação entre as forças policiais do Brasil e do Paraguai é essencial para combater efetivamente o PCC e outros grupos criminosos que operam na região. Entretanto, é necessário que as autoridades paraguaias demonstrem genuíno comprometimento no combate à corrupção e ao crime organizado, a fim de enfraquecer a influência do PCC no país.
Recomendações
Com base nas informações obtidas durante a investigação, sugiro que o GAECO continue trabalhando em cooperação com as autoridades paraguaias para compartilhar informações, experiências e estratégias, visando aprimorar a luta contra o crime organizado na região. Além disso, é crucial que as instituições brasileiras continuem pressionando as elites políticas do Paraguai a implementar medidas efetivas de combate à corrupção e ao Primeiro Comando da Capital.
O objetivo da investigação era desvendar a influência do PCC nas eleições no Paraguai e na sociedade em geral, bem como identificar e desmantelar as operações da facção criminosa no país vizinho.
METODOLOGIA
Analisar o histórico da organização paulista ao longo das últimas décadas no Paraguai, explorando seus negócios legais e ilícitos, bem como a relação com as elites políticas do país.”
RESULTADOS
A análise revelou as seguintes informações cruciais:
Cartes, ex-presidente do Paraguai, enfrenta diversas acusações criminais, incluindo lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, contrabando de cigarros e envolvimento com o PCC.
A ex-procuradora-geral Sandra Quiñones nunca apresentou acusações contra Cartes, apesar de suas atividades criminosas serem amplamente conhecidas.
Vários legisladores do partido Colorado estão envolvidos em tráfico internacional de cocaína, em conexão com grupos criminosos como o Comando Vermelho do Brasil, o clã Insfrán do Paraguai e o traficante uruguaio Sebastián Marset.
A corrupção se estende além do partido Colorado, afetando despachantes aduaneiros, a Marinha do Paraguai e o desvio de munições das Forças Armadas.
As tentativas anteriores de combate à corrupção no Paraguai foram frustradas e, sem mudanças significativas no cenário político, é provável que o problema com o crime organizado permaneça.
Relações Perigosas: PCC e Elites Políticas Paraguaias
A análise também apontou que a organização criminosa Primeiro Comando da Capital saiu ganhando com o resultado das eleições. Apesar do discurso de endurecimento do presidente eleito, o fato de ser ele do Partido Colorado, que está há décadas no poder, permitiu que a facção PCC ganhasse grande espaço e mercado no país.
O atual presidente, Horacio Cartes, e grande parte dos políticos eleitos têm relações diretas ou indiretas com o poder, sinalizando continuidade nas relações entre a facção PCC e as forças políticas paraguaias. A estabilidade e a manutenção dos elos é um bom sinal para os negócios da organização criminosa.
CONCLUSÃO
A influência do grupo criminoso Primeiro Comando da Capital na sociedade paraguaia é extensa, afetando as elites políticas, instituições governamentais, empresas comerciais e até mesmo as forças armadas do país. A falta de vontade política e a corrupção generalizada dificultam os esforços para combater o crime organizado, e sem mudanças significativas.
Apesar dos desafios, a cooperação internacional entre Brasil e Paraguai são passos cruciais na luta contra o crime organizado na região. A troca de informações e experiências entre as forças policiais de ambos os países pode levar a avanços na compreensão das estratégias e operações do PCC, bem como na identificação de políticos e autoridades envolvidas na corrupção.
No entanto, para que mudanças significativas ocorram, é necessário que haja uma vontade política genuína e um compromisso sério com a luta contra a corrupção e o crime organizado por parte das elites políticas e das instituições do Paraguai. Apenas então será possível enfraquecer a influência do Primeiro Comando da Capital e de outras organizações criminosas no país e na região.
É um fenômeno que remonta à época em que os militares abriram caminho para grupos criminosos internacionais que se envolveram na produção de maconha, heroína e cocaína. O Paraguai começa a construir sua indústria no ramo da maconha e isso ocorre a partir de lideranças políticas locais em cidades como Capitán Bado e Pedro Juan Caballero no departamento de Amambay. Depois estende-se a praticamente todo o território, sobretudo à fronteira.
Todos esses produtores, traficantes e facilitadores do inicialmente tráfico de maconha para o Brasil eram líderes políticos do Partido Colorado. O clã Morel, formado por prefeitos e presidentes da sucursal vermelha de Capitán Bado, foi o canal por onde passou o Comando Vermelho. Situação semelhante ocorre em diferentes áreas do país. O fenômeno dessa vinculação com a política também conta com alguns sujeitos de outros partidos políticos, mas são minoria. A presença de políticos e funcionários do Partido Colorado é tremendamente majoritária.
Juan Martens, Doutor em Criminologia, alertou que indivíduos identificados em uma investigação do Primeiro Comando da Capital triunfaram nestas eleições e ocuparão cargos em governadores de fronteira e na Câmara dos Deputados.Ele não quis citar nomes por questões de segurança, mas destacou o quão perigoso é o grupo criminoso estar em ascensão e ocupando posições de poder.
Após o resultado das eleições, constatamos que várias pessoas ligadas ao PCC foram eleitas governadores e deputados em três departamentos de fronteira, disse ele.
Trocando uma ideia sobre a estigmatização dos “bandidos”, a real nas quebradas e o papel do Primeiro Comando da Capital na luta pela igualdade.
“Bandido” carrega estigma e preconceito do “cidadão do mal”. Cola nesse texto pra entender a real das quebradas e o papel do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) nessa quebrada da história.
Salve, irmãos! Vamo trocar uma ideia sobre a realidade dos “bandidos” nas quebradas, principalmente envolvendo o Primeiro Comando da Capital.
O sistema e a mídia criam um estigma, colam na gente, marcando pra vida toda. Chamam de “bandido” quem é pobre, preto ou mora na periferia. Pra fugir da marca, cê não pode ser você. Tem que ser eles, se vestir, falar e agir como eles. Se não, cê é bandido, essa é sua marca…
Mas não se engana, irmão. Cê pode fazer tudo certinho, como eles mandam. Ainda assim, cê vai ser visto como bandido. Só esperam um vacilo pra te apedrejar. Esse rótulo vem de tempos antigos e só fortalece a discriminação.
O mano Feltran enxerga a conexão entre o mundo da lei e o ilegal, tipo como a violência nas quebradas e o crime são moldados pelo Estado e pela polícia. Ele dá uma olhada nos termos “bandido” e “criminoso” nas periferias de São Paulo, sacando que o “mundo do crime” é uma nova parada, com as práticas ilícitas virando fita normal, é aí onde a violência urbana rola solta, com roubos, sequestros e assaltos. Tudo isso forma uma teia de relações sociais e ideias nas quebradas esquecidas.
A violência é uma instituição tão natural como a própria vida humana. Decorre do nosso instinto de sobrevivência, sendo o grande motivo para o homem ter dominado a natureza. Mas essa afirmação não pretende trazer glamour à violência.
Talvez no último estágio da existência humana, a evolução definitiva seja exatamente vencer o instinto natural que nos propala a nos destruirmos mutuamente.
A polícia e o Estado entram em ação pra combater o “mundo do crime”, mas só fazem aumentar a agressão contra quem já tá sofrendo. Os próprios manos e minas acabam adotando esses discursos e se identificando com eles.
O corre no “mundo do crime” e os bagulhos doidos
O mano Misse mostra que não é tudo igual no mundo do crime, tem conduta ilegal de todo tipo, e cada uma é vista de forma diferente pela sociedade. A ligação entre pobreza e crime é uma visão deturpada, injusta e hipócrita, segundo o autor.
Os irmãos do Primeiro Comando da Capital tão ligados em “correr pelo certo no lado errado da vida”. Essa ética do crime pode parecer doidera pra quem tá de fora, mas é real e tá lá no estatuto da facção.
Mano, o “bandido” é uma parada que vem de antigamente, criação dos discursos da mídia, polícia e daqueles conservadores. Nos últimos anos, fita das organizações criminosas tipo a facção PCC e o Comando Vermelho (CV) dominaram o papo sobre segurança pública, já que eles controlam os territórios e influenciam a geral. E aí, o discurso que já era pesado ficou sinistro, muita maldade nessa história, irmão.
No final do dia, os que tão no comando e espalham essa ideia só querem controlar não só o corpo da galera, mas também o conjunto da sociedade. A rotulação tem lugar certo, classe social e cor específica: geralmente, são os manos negros, pobres e que moram nas quebradas das metrópoles que levam a marca de “bandido”.
“Bandido”: A Verdadeira História Por Trás dos Rótulos
Na quebrada, o criminoso, o “bandido”, o traficante, não é só um vilão, mas um personagem complexo que vive várias fitas, tem sua família, negócios e um lado psicológico pesado. Muitas vezes, o crime é a única saída pra quem tá na luta.
Ao invés do “cidadão de bem” e a mídia ficarem só questionando “quem é o bandido”, eles precisam entender o “por quê” do rolê. Quais as motivações de entrar no crime, o que leva o mano ou a mina a tomar essa atitude, tá ligado?
Cê sabe que o sistema é cruel, e muitas vezes é ele que empurra o mano pra vida do crime, deixando sem opção, sem saída. E aí, irmão, fica difícil resistir quando a oportunidade aparece.
Buscando mudanças e igualdade na periferia
Então, antes de julgar o tal “cidadão do mal”, o “bandido”, temos que entender o contexto em que ele tá inserido, as dificuldades que ele enfrenta, a violência que ele vive e tudo que o levou até ali.
A sociedade precisa enxergar além daquele rótulo colado na testa e ver as pessoas por trás das fitas. Eles são mais que “bandidos” ou “assassinos”, são seres humanos com histórias, sonhos e desejos, e muitos tão guerreando pra sobreviver nesse mundão véio sem porteira.
Não é pra passar pano na criminalidade, mas é preciso entender sem preconceito pra poder resolver essa parada que é muito mais embaçada que um filmezinho de mocinho e bandido americano.
É nóis! Vamo continuar trocando ideia e lutando pra mudar essa realidade, buscando sacar o “por quê” e não só o “quem”, pra que um dia a vida na quebrada seja mais firmeza e igualitária pra todos.
Neste texto, exploramos o pânico social, os discursos que o alimentam e as causas históricas e sociais, tudo no ritmo e a relação de tudo isso com a facção PCC 1533.
Pânico social, cê tá ligado? Cola com a gente pra entender como essa parada mexe com a vida da geral e a sociedade, e qual é a relação com o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533).
Pânico Social: a mídia e o pânico social: qual é a fita?
E aí, irmão, tá ligado na fita do pânico social, né?
Eduardo Armando Medina Dyna mandou a real, falando que a violência urbana com fitas tipo o Primeiro Coamando da Capital deixa a geral com medo. Pânico social é o nome da parada, e não é só causa e efeito dos corres do dia a dia.
Mano, é uma fita complexa envolvendo racismo, desigualdade, treta econômica e política, tudo isso cria a “criminalidade” que a gente vê por aí, e alimenta esse monstro do tal pânico social.
A mídia tá sempre de olho, reforçando as ideias erradas e botando mais lenha na fogueira. A relação entre o governo e os presos, tipo a facção PCC, só aumenta o medo e a insegurança da galera.
Pra entender a fita toda, tem que analisar o que a mídia, a polícia e os conservadores tão falando. Foucault explica que esses discursos tão cheios de poder e moldam como a gente enxerga as coisas.
Nas quebradas da vida, irmão, a cena é tensa. A história é contada em dois lados, os “cidadão do bem” e os “cidadão do mal”. Mas nessa selva de pedra, a coisa não é tão simples, não.
Pra quem nasce na periferia, o jogo é bruto, irmão. Uns tentam levar a vida na linha, buscando o pão de cada dia, enquanto outros tão encurralados, sem muita saída, sem chance de mudar a rota dessa trajetória. A sociedade marca a cara, rotula a gente, mas cê acha que é fácil assim, preto?
O “cidadão do bem” se esforça, tenta se virar, mas a parada é sinistra, as oportunidades são poucas e a realidade não dá trégua. E o “cidadão do mal”? Será que ele escolheu o caminho do crime ou foi a vida que o empurrou pra lá?
A verdade é que entre o “do bem” e o “do mal”, a linha é tênue, os dois vivem no mesmo mundo, enfrentando a mesma batalha. A gente precisa abrir os olhos pra entender o que tá rolando, buscar as causas lá no fundo, e não só julgar a superfície.
A vida é complexa, as lutas são duras e a esperança é escassa. Mas a gente resiste, mano, mesmo com a sociedade tentando nos dividir. Chega de rótulos, chega de preconceito. Só juntos a gente vai mudar essa história e escrever um novo capítulo.
A lei que é implacável com os oprimidos
Tornam bandidos os que eram pessoas de bem.
Eles são os certos e o culpado é você
Se existe ou não a culpa
Ninguém se preocupa
Pois em todo caso haverá sempre uma desculpa.
Racistas Otários – Racionais MCs
Buscando soluções: como sair dessa treta?
Só que também tem a parada da moral e religião nesses discursos, tipo a divisão entre “cidadão de bem” e “bandido do mal”. Essa fita dificulta a compreensão do pânico social, que tem raízes profundas e precisa de solução.
A mídia fica de olho no que rola perto e longe, saca os esquemas, os que sonegam e roubam a pátria e a galera, mas fica na moita e aponta pra outro lado, sem enxergar o mal de verdade onde a gente vive, e essa é a fita em que a gente tá metido.
Então, tem que olhar a história e as causas, desvendar os discursos e ver a relação entre o Estado e as organizações dos presos, como o PCC, pra entender o pânico social e buscar soluções que mudem o jogo.
No final das contas, mano, pânico social é uma fita complexa que envolve vários aspectos da nossa vida. A ideia é desvendar os discursos e enxergar a realidade, pra criar uma sociedade mais firmeza e justa.
Observando o fluxo, colamos na fita do Primeiro Comando da Capital. Vamos trocar ideia sobre violência, crime e políticas públicas, irmão.
Observando o fluxo, cola nessa fita que traz o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), e bora trocar ideia sobre violência, crime e políticas públicas? Pode ser aqui nos comentários do site, no grupo de WhatsApp, ou até no meu MP, quem sabe. Vamo nessa!
A violência é uma instituição tão natural como a própria vida humana. Decorre do nosso instinto de sobrevivência, sendo o grande motivo para o homem ter dominado a natureza. Mas essa afirmação não pretende trazer glamour à violência.
Talvez no último estágio da existência humana, a evolução definitiva seja exatamente vencer o instinto natural que nos propala a nos destruirmos mutuamente.
Observando o Fluxo: Análise da Facção PCC segundo o mano Dyna
Observando do fluxo, irmão, vou te falar dessa fita: Primeiro Comando da Capital, facção que mexe com a mente. Tamo aí nessa análise, baseada no trampo do pesquisador Eduardo Armando Medina Dyna, que se liga nos “Dois lados da moeda”.
Dyna busca sacar os bagulhos do PCC na segurança pública e na sociedade, sem demonizar como a mídia e a polícia fazem. O cara vê pesquisas e autores que colam nesse assunto, fala de violência, crime, Estado e políticas públicas.
Os manos das universidades, tipo o Núcleo de Estudos da Violência da USP, tão ligadões no PCC. O autor não se deixa levar por ideias pré-concebidas, chama a fita de “Organização”, “Comando”, “Facção”, “Irmandade”, “Grupo” ou “Partido”, de acordo com a parada.
Mano Dyna aborda a fita da desigualdade social e do crime organizado no Brasil, desde os anos 70. Ele cita o pesquisador Michel Misse, que enxerga conexão entre crime, pobreza e violência, e destaca como os crimes dos ricos e dos pobres são tratados de forma diferente, mostrando que tem a ver com a parada do preconceito de classe.
Mas, irmão, eu só tô te dando um resumo do que Dyna e os outros manos estudam. Pra sacar tudo, tem que colar nos estudos deles, vendo a complexidade da parada.
Vou continuar falando das fitas da violência e do crime, tipo o trampo do autor Feltran e outros pesquisadores.
Gabriel de Santis Feltran vê a relação entre o mundo legal e ilegal, como a violência nas quebradas e o crime são moldados pelo Estado e pela polícia. Ele examina os termos “bandido” e “criminoso” nas periferias de São Paulo, vendo que o “mundo do crime” é uma nova realidade, com práticas ilícitas normalizadas.
O crime é visto como construção social e problema das relações do Estado com a sociedade, influenciado pelas políticas de segurança pública. Tem vários autores que estudam a história das políticas de segurança pública em São Paulo, tipo Salla e Silvestre.
Fernando Salla examina a passagem do tempo autoritário pro democrático, percebendo que ainda rola uma herança da repressão militar no governo e no pensamento da galera. Ele liga a violência policial, a criação do PCC e os rolês de 2006 às políticas adotadas pelo Estado de São Paulo.
Giane Silvestre dá uma geral no papel das polícias civil e militar na batalha contra o crime, mostrando a polícia militar ganhando força e a civil perdendo espaço. Ela diz que isso acontece por causa da relação entre a grana, política e o poder das armas nas instituições. A corrupção na polícia civil atrapalhava, enquanto a pegada militar da polícia militar impedia esses problemas.
Observando o fluxo: o PCC e a política
Salla e Silvestre dão a fita que as políticas do governo do estado, nas mãos do secretário de segurança pública e de administração penitenciária, deram mó poder pras polícias no corre contra inimigo estigmatizado, tipo Misse falou.
Essa conversa errada fez nascer uns papos sinistros que zoaram a sociedade paulista e criaram um mito em volta do Primeiro Comando da Capital. Esse mito alimenta as conexões no “mundo do crime”, como Feltran falou.
Pra entender o PCC, sua história, líderes e metas, vários corres foram feitos. Josmar Jozino, jornalista que tá na área policial desde os anos 80, traz uma visão firmeza da história do PCC no seu livro. Com entrevistas e histórias, ele mostra as fitas, ideias, alianças e contras do grupo, e a violência no rolê dentro e fora dos presídios.
Mano, a socióloga Camila Caldeira Nunes Diaschega junto nas pesquisas sobre o PCC. Ela tá na área com trabalho de campo e teoria, analisando a história do Comando e as paradas em que eles atuam, até fora dos xadrez.
Na sua fita mais pesada, Dias manda a ideia de que o PCC virou um monopólio da violência, dominando os becos e promovendo um processo doido de paz. Essa teoria vai ser testada na pesquisa e traz um novo olhar pra entender a organização. A mina também investiga os novos códigos morais criados pela facção, que lança suas próprias leis e fortalece a expansão.
Observando o fluxo: o PCC vai à guerra
Que dá o papo reto da consolidação e expansão do PCC tão são Bruno Paes Manso, Camila Dias e Gabriel Feltran, que mandam a real sobre a transformação do Primeiro Comando da Capital numa parada internacional, firmando nos países da América do Sul e quase todas as quebradas do Brasil. Essa expansão fez a guerra entre facções rolar entre 2016 e 2018 nas áreas Norte e Nordeste, levando o PCC pra cena mundial.
Marcos Alan Ferreira e Rodrigo Framento tão ligados na treta de poder entre o PCC e outras fitas do Norte e Nordeste, mostrando uma nova quebrada das paradas no Brasil e no corre das drogas. Allan de Abreu tá na “rota caipira” do tráfico, e outros textos mandam a real sobre as rotas do bagulho ilegal, onde as disputas, com o PCC na liderança, envolvem grana, esquema e infra, levando pra outro nível e trazendo desafio pra segurança.
A mina Karina Biondi, antropóloga, fez um trabalho firmeza sobre as relações internas dos manos da facção e onde eles mandam. Nas entrevistas com os presos, ela descolou uns dilemas novos que a organização enfrenta, tipo conduta, respeito e os princípios que guiam a disciplina da galera. A proibição do crack nas quebradas e cadeias, o respeito com as famílias que visitam os manos e a divisão do corre na lógica do comando são alguns dos pilares da política do PCC.
Neste texto, contamos a história de “André do Rap”, líder do Primeiro Comando da Capital, mostrando que a realidade é muito diferente do que a mídia apresenta.
André do Rap: conheça real a história do líder do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) como pode ser bem diferente do que mostra a mídia.
André do Rap, a Facção PCC 1533, e a Realidade das Quebradas
André do Rap, líder do Primeiro Comando da Capital, apresentando a verdade, irmão. A grande mídia, sempre em busca de audiência, cria um mito folclórico em torno dele, distorcendo informações e associando qualquer evento no país ao nome de André.
Mas aí, o advogado criminalista Áureo Tupinambá Filho entra em cena. Ele esclarece que o helicóptero de R$ 7 milhões devolvido pelo STJ não pertencia ao líder da facção PCC, mas a mídia insiste na ideia contrária. Além disso brother, apreensão de itens foi feita de maneira incorreta, sem ordem judicial, irmão.
Áureo Tupinambá Filho deixa claro que a lei deve ser cumprida, mesmo que no caso de André do Rap ela tenha sido desrespeitada. Em 2019, durante a prisão, a polícia apreendeu celulares, computadores e moto aquática, tudo isso sem autorização judicial, falhando na missão.
André do Rap foi condenado em segunda instância por tráfico de drogas e teve sua prisão decretada. Outra investigação envolvendo lavagem de dinheiro e organização criminosa estava acontecendo, mas a mídia só quer saber de sensacionalismo, entende?
Então, irmão, fique atento e analise as informações com cuidado, especialmente quando envolve casos como o de André e a facção PCC. A realidade é bem diferente do que a mídia quer te fazer acreditar, mantenha-se informado e não se deixe enganar.
A mídia e suas histórias
Mano, tá complicado pra nossa sociedade escapar dessa fita – a construção de um ciclo policial-midiático-criminoso, um pelourinho da mídia que expõe e criminaliza a periferia pro prazer daqueles que se acham superiores.
A TV é um show que não traz informação, só faz espetáculo. Talvez ainda seja a maior influência na opinião sobre os manos das facções.
“O que é a facção e como agem os irmãos” são ideias criadas, não verdades absolutas. A imagem vive sendo reescrita, mexendo e sendo mexida pela mídia, que reconstrói junto com a sociedade toda.
A parada de quem é vilão e quem é herói muda pra cada um, e o que é “herói” pra um grupo de pessoas e classe social não é a mesma coisa pra outros grupos e classes.
Mas, é preciso sacar que essas imagens, tanto do vilão quanto do herói, são feitas pela mídia (e essa construção mexe, também, com a autoimagem da galera).
Uma militante uruguaia narra como foi arrastada para o centro de uma guerra entre facções e governos. Sem nunca ter vendido drogas, sobreviveu à tortura, à traição e à repressão. Um grito de desespero por justiça social e dignidade no meio da falência moral do continente.
Em meio a um Uruguai dividido entre facções, Estados e traições, este relato pessoal revela o impacto brutal da guerra por controle das drogas — com menções diretas ao Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Leia e descubra como sobreviver virou resistência numa América Latina esvaziada de utopias.
Público-alvo: Militantes de esquerda, usuários de drogas, pesquisadores em criminologia, jornalistas, ativistas por políticas de drogas, profissionais da saúde mental e leitores interessados em narrativas reais com crítica social latino-americana.
Aviso importante: Este relato cru expõe vivências marcadas por violência, drogas e traições em um cenário latino-americano. Não romantiza o crime nem simplifica a dor. Leitura recomendada para quem busca compreender as contradições de uma militância sobrevivente num continente partido entre utopias e guerras invisíveis.
Se fosse um inimigo que me insultasse, eu o suportaria; se fosse o meu adversário que se levantasse contra mim, dele eu me esconderia. Mas és tu, meu igual, meu companheiro, meu amigo íntimo.
Salmo 55:12-13
Vou contar minha história.
Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles nesses meus trinta e oito fevereiros vividos.
Lido com os códigos da velha escola da consciência de classe. Sou de esquerda e, embora tenha crescido entre bandidos, fui abençoado e muito cuidadoso, e nunca esperei que a traição viesse de um irmão, de um oprimido, pois para mim o inimigo eram os opressores, eram os fascistas.
Nestes últimos dois anos vivi coisas horríveis!
Pela primeira vez sofri a traição daqueles, sendo meus irmãos, cantavam canções revolucionárias comigo, e acredite, dos quais eu nunca teria imaginado sofrer uma traição que quase me matou, mas cuja dor me ceifou minha fé no homem.
Nasci em fevereiro de 1984, não tenho antecedentes criminais, morei em São Paulo, Bahia, Romênia, e muitos outros lugares sem nunca ter traficado. Respeito quem o faça, mas não é meu bastão — amo demais a classe trabalhadora, não poderia agir assim.
Apesar eu mesmo ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.
Eu e muitos outros, militamos pela legalização da maconha no meu país, o Uruguai. Conseguimos. A ideia era, com a legalização haver maior controle sobre o comércio desses produtos.
No final nada disso aconteceu. Como o governo não estatizou ou nacionalizou as empresas, nós apenas regularizamos o mercado para as empresas estrangeiras exportarem nossa produção — passamos a ser vacas de ordenha para sermos sugados por investidores estrangeiros.
Se eu planto, eles roubam, não tem brotos de qualidade na periferia, só prensagem paraguaia, e um bom broto vale tanto quanto cocaína. Tudo para o lucro dos capitalistas dos narcóticos. Entendo agora o porquê, poucos dias depois da legalização, os EUA ameaçaram o presidente José Mujica de congelar as contas bancárias uruguaias em território americano: queriam que a produção não pudesse ser nacionalizada e por isso o Uruguai só regulamentou o comércio.
Nós que militamos pela legalização de nossa produção fomos espancados pela polícia e agora, as empresas estrangeiras podem explorar esse mercado e nos deixar com as migalhas, colhendo os frutos de nossa luta.
No Uruguai a guerra continua! Na periferia, a direita perdeu o mercado de drogas, mas encontrou o caminho perfeito para virar o jogo: usam cavalos de Tróia!
A estratégia é procurar um consumidor ou parceiro de negócios e ao menor deslize ou crime, estes são presos e o preço de sua liberdade é pago com a traição de seus colegas, amigos ou familiares.
Muitos aceitam participar desse novo mercado que antes pertenciam as organizações criminosas argentinas ou a facções brasileiras como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Mais cedo ou mais tarde esses que aceitaram participar desse novo mercado acabam sendo presos por algum motivo e negociam sua liberdade com a condição de se infiltrarem para entregar seus antigos comparsas de facção.
Eu nunca pertenci ao tráfico de drogas, sou apenas um usuário, jornalista, cabeleireiro, e anarquista ligado às lutas sociais. Cresci em um bairro de trabalhadores e estudei no bairro de La Blanqueada. Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda, universitários, ateus, católicos, brasileiros, argentinos, e todo o tipo de gente boa e ruim.
Eu não me importo como cada um escolhe viver sua vida, desde que não seja fascista, nem policial, nem vote na direita, se tem códigos antiquados e a consciência de classe é a única coisa que me interessa.
Há dois anos minha vida se tornou um inferno.
Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros — só voltaria depois de avisar a todos do risco e da família ou os companheiros decidirem que queriam se arriscar.
Se alguém em risco me avisasse, eu correria o risco, mas sem avisar! Cagando para minha segurança e a da minha família, aí não! Isso para mim não é a ética de um bom criminoso — o certo pelo certo!
Há dois anos aluguei de um amigo uma pequena estância, lugar onde eu vendo artesanato com meu pai de coração, um ex-prisioneiro político pelo Partido Comunista da Argentina, um homem que merece o céu, incorruptível.
Eu com esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos, e entoávamos o hino “Violencia es Mentir”! E foi esse amigo quem colocou em risco a vida e a liberdade minha e a de toda a minha família.
Eu havia alugado um quarto em uma fazenda para usarmos para nossa diversão. Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem e, de repente, em uma noite de muita tensão, eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.
Não estávamos só nós dois, haviam outros amigos e eles falavam muito, e descobri que eles roubaram drogas de alguma das facções e para pagar tinham que roubar outro traficante que ia descarregar a mercadoria de uma embarcação.
Eu e minha família não tivemos nada com isso! Eu e minha família fomos colocados por eles na linha de tiro de grupos criminosos poderosos — eu matei, mas morreria por minha família.
Imagine meu avô de 88 anos, seguindo os antigos códigos de conduta, onde se uma chave de fenda é roubada da loja de móveis ele não chamaria a polícia, preferia ele mesmo ir procurar o ladrão e lhe quebrar o joelho. Imagine se ele descobre o roubo da cocaína!
Pequei um dos que estavam metidos nessa enrascada. O derrubei e coloquei seu pescoço debaixo de minha perna. Ele me ameaçou dizendo que era da facção brasileira Comando Vermelho.
A mãe desse CV chamou um amigo dela da polícia, mas para sua surpresa veio a Guardia Republicana criada por Mujica, que me levou para o Comissário de Castillos, onde inventaram uma falsa ordem para abordar minha família — ou eu aceitaria participar do esquema de denúncia ou a ordem seria cumprida.
Foi aí que entendi o que estava acontecendo. Como os negócios se davam entre o Uruguai, a Argentina e o Brasil; e entre os grupos criminosos Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC).
O Primeiro Comando da Capital pelo menos administra muito bem a empresa: dá tranquilidade e não obriga ninguém que não pertence ao mundo do crime de se integrar a facção.
A partir daí minha vida foi um inferno.
As pessoas descobriram ao longo do tempo que ninguém de fato é livre. Todos pagam por sua liberdade às autoridades e às facções. Quiseram me prender de várias maneiras e me silenciar.
Um antigo amigo do papai que há muito não aparecia veio com a desculpa de comer um churrasco, mas depois de um tempo apareceu com uma van que parecia ter sido puxada: com vidros quebrados e com muita droga.
Ele me convidou para participar de um esquema e eu exigi que ele fosse embora. Inconformado com a resposta, ele me sequestrou por dois dias durante o inverno. Enquanto fiquei cativo, minha cabeça era enfiada minha cabeça gelo enquanto me torturava, para no fim, plantar a van na porta da minha casa e me entregar para a Polícia de Azul, denunciando que eu estava com as chaves, sendo que, essas vans são destravadas por um sistema eletrônico!
Um pesadelo sem fim.
Depois de um tempo, apreenderam um caminhão de um paraguaio e eu estaria envolvido; depois foi algo haver com um estuprador que continuava foragido; e assim como essas, outras denúncias apareciam — toda vez que começo a me recuperar, eles invadem minha casa e roubam meus telefones.
Eles esperam que eu cometa um erro ou desista de resistir e negocie como outros fizeram minha paz e liberdade, mas eu prefiro morrer a ser um miserável traidor.
Não é minha guerra!
Eu obviamente prefiro o Primeiro Comando da Capital onde se corre pelo certo, mas meu lugar de militância é no social e não quero me envolver com o crime.
Espero que essa guerra termine e que eu e meus avós, que dedicamos nossas vidas pelo socialismo, não mais sejamos torturados pelo fascismo ou pela guerra por domínio de drogas!
Se eu morrer amanhã, não foi ajuste de contas, pois nada vendi. Não é que sou incorruptível, mas não deram nem o preço, mas meu lugar é na imprensa ou trabalhando com as crianças para tirá-las das mãos dos tiranos que agem com violência e mentira.
somos filhos de trabalhadores viciados em oxi
Se usássemos a mesma energia para encontrar uma dose para fazer a revolução, a realidade da América seria diferente. As utopias de esquerda morreram na periferia, você não sente cheiro de revolução, você só sente cheiro de crack, chumbo, abuso, paramos a exportar ladrões de primeira linha e ao invés de jogadores de futebol, hoje os garotos não jogam mais bola em bairros populares, todos querem ser traficantes, sem importa que envenenar seu colega de classe faz parte.
Traição é pão de cada dia, te vendem por um segundo fogo e nem por 3 gramas. Não há garantias de resistência real para o viciado, não há lugar em clínicas ou prazo inferior a 6 meses em psiquiatria. A droga é cortada cada vez mais, e com uma qualidade cada vez menor.
Só consigo pensar em uma solução, que os Estados de cada país latino nacionalizem o mercado de drogas, eu disse nacionalizar não regulamentar. É a humilde opinião de uma filha de trabalhadores viciada em oxi.
Análise de IA do artigo: “Um Estranho Caso no Uruguai”.
🔍 Dados fáticos e temas centrais
Tema
Afirmação
Identidade e trajetória
Nasceu em fevereiro de 1984; morou em São Paulo, Bahia, Romênia e outros locais; não tem antecedentes criminais; é usuário de drogas, jornalista, cabeleireiro e anarquista.
Política de drogas no Uruguai
Militante da legalização da maconha; legalização foi aprovada, mas sem estatização; produção e comércio favorecem empresas estrangeiras.
Ameaças e perseguições
Relata sequestro, ameaças de membros do Comando Vermelho, perseguições policiais, invasões domiciliares e repetidas tentativas de envolvê-lo em crimes.
Crítica ao modelo de legalização
A legalização foi moldada de modo a impedir nacionalização da produção; afirma que os EUA teriam ameaçado Mujica com sanções bancárias caso nacionalizasse.
Facções criminosas
PCC e CV estariam atuando no Uruguai; o PCC seria mais organizado e respeitoso com quem não pertence ao crime; o CV mais impulsivo e violento.
Sistema de delação e infiltração
Afirma que presos são libertos sob a condição de trair antigos companheiros, passando a atuar como informantes infiltrados.
Conflitos pessoais
Um amigo próximo teria roubado drogas, colocando sua vida e a de sua família em risco com organizações criminosas.
Violência estatal
Denuncia abusos por parte da Guardia Republicana, com uso de ordens falsas e coação para que aceitasse colaborar como delator.
Crítica social e ideológica
Lamenta a falência da utopia socialista nas periferias; diz que jovens estão cada vez mais envolvidos com o tráfico; denuncia hipocrisia de parte da esquerda.
Proposta final
Defende a nacionalização (não apenas regulamentação) do comércio de drogas nos países latino-americanos como solução para romper com o ciclo do crime e da repressão.
📌 Análise de precisão factual (com base no banco de dados e fontes confiáveis):
Ponto
Verificação e comentários
Legalização da maconha no Uruguai
✅ Verdadeiro. Aprovada em 2013 sob o governo Mujica, com modelo de regulação estatal, mas produção foi em grande parte concedida a empresas privadas sob controle rígido. O Estado não estatizou a produção.
Ameaças dos EUA a Mujica
⚠️ Parcialmente plausível, mas não confirmada oficialmente. Houve preocupações dos EUA sobre lavagem de dinheiro, e o Uruguai negociou com bancos internacionais, mas não há prova pública de ameaças diretas com congelamento de contas.
Atuação do PCC e CV no Uruguai
✅ Há registros de investigações uruguaias e brasileiras apontando atuação esporádica e articulações de grupos brasileiros no cone sul, especialmente em zonas de fronteira. Porém, sua presença não é estrutural como no Brasil ou Paraguai.
Sistema de delação premiada informal
⚠️ O Uruguai não possui um sistema amplo de delação premiada como o brasileiro. Acusações de delações forçadas ou uso de informantes não são documentadas em escala sistêmica, embora possam ocorrer pontualmente.
Guardia Republicana criada por Mujica
✅ Verdadeiro. A Guarda Republicana é uma força especial da Polícia Nacional uruguaia reforçada durante o governo Mujica para lidar com crimes graves e narcotráfico.
Exploração por empresas estrangeiras após legalização
✅ Real. As duas principais empresas inicialmente autorizadas a plantar cannabis para distribuição foram estrangeiras ou com capital estrangeiro. Pequenos produtores criticaram a centralização da produção e as restrições.
Situação de drogas adulteradas e falta de tratamento
✅ Estudos e reportagens indicam precariedade na qualidade das drogas vendidas na periferia, aumento de consumo de oxi e crack, e déficit de políticas públicas de saúde mental no cone sul.
O relato possui uma base factual sólida nos seguintes aspectos: contexto político da legalização no Uruguai, presença episódica de facções brasileiras no cone sul, repressão estatal às margens da legalidade, e marginalização dos usuários. Contudo, há trechos que, embora verossímeis e coerentes com dinâmicas conhecidas, carecem de comprovação pública — como o uso sistemático de delatores ou pressões diretas dos EUA sobre Mujica em forma de ameaça bancária.
Trata-se de um testemunho de valor documental, marcado pela vivência subjetiva e leitura crítica de um militante, e não de um texto jurídico ou investigativo. Por isso, suas verdades repousam no campo do vivido e do simbólico, mais que do verificável em fontes oficiais.
Análise do texto sob o prisma da Teoria da Associação Diferencial
📌 1. O comportamento criminoso é aprendido — não herdado biologicamente
Texto: “Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles.”
Análise: O narrador reconhece ter aprendido valores, códigos e posturas através da convivência direta com pessoas do meio criminoso, político e operário. O ambiente social de origem era diverso, e não patologicamente criminoso — mas continha elementos de transgressão política e penal. Esse aprendizado é social, não genético.
📌 2. A aprendizagem ocorre em interações com pessoas próximas
Texto: “Eu e esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos […] e foi esse amigo quem colocou em risco a minha vida e de minha família.”
Análise: A traição vem de dentro da rede de convivência. A teoria prevê que o sujeito é mais vulnerável ao comportamento desviante quando a influência vem de pessoas emocionalmente significativas. A proximidade afetiva foi um vetor de risco.
📌 3. A aprendizagem inclui técnicas e racionalizações do crime
Texto: “Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem […] eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.”
Análise: O narrador demonstra domínio de códigos e estratégias que fazem parte do universo criminal, ainda que negue sua adesão prática a ele. Isso está em linha com a ideia de que se aprende não só a agir, mas a pensar e interpretar o mundo à maneira dos grupos desviantes.
📌 4. O contato com definições favoráveis ou desfavoráveis ao crime determina a inclinação para delinquir
Texto: “Apesar de ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.”
Análise: A convivência com criminosos não levou o narrador a cometer crimes. Isso se explica pela preponderância das “definições desfavoráveis ao crime” no seu arcabouço moral: há um código ético de classe e resistência, que ele valoriza mais do que a adesão ao crime. Sua recusa ativa ao tráfico demonstra que, embora exposto a valores criminosos, ele internalizou outros — ético-revolucionários, por assim dizer.
📌 5. O comportamento criminoso é aprendido como qualquer outro comportamento — pelas mesmas formas de comunicação e experiência
Texto: “Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros.”
Análise: O narrador revela que aprendeu “a ética do crime” da mesma forma que se aprende qualquer valor social: pela observação, convivência, fala e prática. Não se trata de uma simples adesão irracional ao mal, mas da internalização de um código de honra paralelo ao legal.
📌 6. A intensidade, frequência e duração das associações influenciam na aprendizagem
Texto: “Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda…”
Análise: A grande diversidade de contatos indica que o narrador foi amplamente exposto a múltiplas influências ideológicas, criminosas e sociais. Segundo Sutherland, esse tipo de ecossistema pode gerar conflito moral interno, mas também fornece alternativas para escolhas não criminosas, como é o caso.
📌 7. A associação diferencial pode explicar tanto o crime quanto a resistência a ele
Texto: “Prefiro morrer a ser um miserável traidor […] Meu lugar é na imprensa ou trabalhando com crianças.”
Análise: O protagonista, apesar da exposição intensa ao crime, recusa-se a aderir à prática. Isso reforça a ideia de que, embora o ambiente seja um fator determinante, ele não é absoluto: os significados atribuídos a essas experiências e os grupos com os quais o indivíduo mais se identifica moralmente podem moldar sua conduta em outra direção.
✅ Conclusão da análise com base na Teoria da Associação Diferencial
O relato é um exemplo claro da aplicação da teoria de Sutherland. O narrador vive em um meio onde há forte presença de elementos criminais, mas a socialização com ideais éticos da classe trabalhadora, do anarquismo e da militância social atua como um contrapeso às pressões desviantes.
Ele aprendeu os códigos do crime — conhece sua linguagem, estratégias e limites — mas os recusa com base em valores internalizados por outras associações diferenciais, mais morais, mais comunitárias.
Sua trajetória mostra que o crime não é fruto apenas da miséria ou da predisposição pessoal, mas de uma rede de interações, códigos morais e oportunidades simbólicas.
Análise do perfil psicológico do autor
A análise psicológica do autor do texto “Um estranho caso no Uruguai” revela um perfil singular, estruturado por três dimensões centrais: vivência de conflito crônico, rigor moral fora da legalidade institucional e resistência política de base afetiva. Abaixo, apresento essa leitura em quatro blocos: identidade, afetividade, funcionamento psíquico e riscos.
🧠 1. Identidade psicossocial
✓ Identidade combativa e marginal-ética O autor constrói uma narrativa de vida marcada pela convivência com marginais — “comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores” — mas reafirma que a criminalidade nunca foi seu caminho. Essa dualidade (inserção sem adesão) revela um senso de identidade liminar: ele habita os dois mundos, mas se recusa a ser moldado por nenhum que contradiga seus próprios códigos.
✓ Estrutura identitária vertical e herdada Sua autoimagem está fincada em um ideal de continuidade intergeracional: “meu avô, meu pai de coração, meus companheiros”. Essa rede não é apenas relacional — é simbólica, substituindo o Estado e a legalidade institucional por uma ética própria. Isso sugere forte internalização de valores comunitários e rebeldes, uma identidade que opera à margem da ordem formal, mas se ancora em vínculos afetivos sólidos.
❤️ 2. Afetividade e códigos emocionais
✓ Raiva moral canalizada como crítica social Há uma fúria constante no texto — contra o sistema, contra os traidores, contra a falsidade institucional — mas que não se desorganiza. Em vez disso, ela é canalizada para narrativas políticas e denúncias sociais. Isso indica alta elaboração da emoção, mas com traços de amargura profunda e desencanto acumulado.
✓ Traição como núcleo traumático A traição por parte dos “irmãos” que cantavam canções revolucionárias com ele é descrita com mais intensidade emocional do que as ameaças físicas. Isso revela que sua maior vulnerabilidade psíquica está no rompimento dos vínculos simbólicos, não na dor corporal. O trauma relacional o desestrutura mais que a violência estatal.
✓ Ambivalência afetiva persistente O autor idealiza o crime “honesto” (o código do criminoso de conduta) ao mesmo tempo que o rejeita. Ele admira o PCC por “correr pelo certo” e despreza o Comando Vermelho por envolvimento desordenado com o Estado. Essa ambivalência emocional mostra que seu sistema ético é construído em oposição tanto à lei quanto ao caos, o que impõe constante tensão interna.
🧩 3. Funcionamento psíquico
✓ Estrutura de pensamento discursiva e política A escrita é coerente, articulada, com raciocínio encadeado por causa e consequência, mesmo sob carga emocional elevada. O autor é capaz de reflexão abstrata, faz crítica geopolítica, sociológica e histórica, o que aponta para um funcionamento de ego preservado e maduro em termos cognitivos.
✓ Visão de mundo dualista e moralizante Há uma divisão clara entre “os certos” e “os errados”, ainda que o autor reconheça a complexidade das ações humanas. Isso pode ser visto como mecanismo defensivo de delimitação do eu, necessário para manter coesão psíquica em ambientes com alta ambiguidade moral. Ele não se perde nos cinzas: opta pelos extremos, mas consciente disso.
✓ Hipervigilância e percepção persecutória fundamentada Dado o histórico relatado de sequestros, vigilância, ameaças e infiltrações, é esperado que o autor desenvolva comportamentos de hipervigilância. No entanto, ele mantém a noção de realidade, distinguindo-se de quadros paranoides: sua desconfiança é contextualmente plausível e relatada com clareza.
⚠️ 4. Indicadores de risco psicológico
Risco
Evidência no texto
Interpretação
Trauma relacional
“…ceifou minha fé no homem”
Provável vivência de ruptura traumática de confiança, com impacto em vínculos futuros.
Síndrome de estresse pós-traumático (subclínica)
Sequestro, tortura, perseguições repetidas
Indícios compatíveis com TEPT leve a moderado, ainda não desorganizante, mas marcante.
Pensamento sacrificial
“Prefiro morrer a ser um miserável traidor.”
Risco de autoexposição excessiva, sustentada por uma ética de honra que pode comprometer a autopreservação.
Uso de substâncias
“Sou usuário de drogas.”
Reconhece o uso, mas afirma limites claros; há risco moderado de dependência, mas não há sinais de uso descontrolado no texto.
Isolamento social funcional
“Minha vida virou um inferno.”
Indica restrição de redes de apoio confiáveis; o autor parece operando num circuito de sobrevivência e desconfiança.
✅ Conclusão do perfil psicológico
O autor é um indivíduo de estrutura psíquica preservada, alta capacidade reflexiva e com uma ética pessoal profundamente enraizada na justiça de classe e na lealdade afetiva. Ele demonstra resiliência significativa diante de adversidades graves, mas carrega feridas emocionais profundas, sobretudo no campo da confiança interpessoal.
Seu modo de viver e pensar é condicionado por experiências reais de perseguição e violência, mas sua resposta a isso não é paranoica nem vingativa: é crítica, social e política. Há traços de sofrimento emocional mal processado, mas compensados por engajamento simbólico com causas sociais e produção discursiva (narração, denúncia, articulação).
Sua maior fragilidade psíquica parece estar na solidão moral do justo que recusa tanto o Estado quanto o crime — um território perigoso para quem resiste.
O Espírito Santo vive uma configuração única de alianças e rivalidades entre facções criminosas. A ausência de separação carcerária sob o governo Casagrande transformou o sistema prisional num laboratório de convivência forçada, refletindo nas ruas uma lógica fluida e instável de acordos, traições e execuções pontuais.
Espírito Santo vive um cenário caótico onde alianças e traições entre facções moldam o cotidiano das periferias. Entenda como a política prisional local influencia essas disputas e o papel do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) nesse intricado tabuleiro de sangue, poder e negociações silenciosas.
A política carcerária de Renato Casagrande promove uma convivência forçada entre facções rivais no Espírito Santo — e o caos, longe de ser exceção, virou regra.
Se você entende o que se passa no estado do Espírito Santo, só agradeço se me procurar no privado para contar, mas acho que nem quem é do mundo do crime consegue entender o que se passa na mente e nos corações dos crias capixabas.
As repórteres Kananda Natielly e Taynara Nascimento do Tribunaonline entrevistaram diversos especialistas e publicaram um artigo repleto de contradições, não por incapacidade ou desleixo, mas porque cada entrevistado apresentou um quadro diferente.
Eu só sei que o sangue continua correndo nas ruas do estado, como aconteceu há poucos dias, quando dois homens em uma moto executaram um rapaz e feriram uma mulher que estavam em um ponto conhecido de tráfico em Vila Velha, e assim como ele, já morreram uns 50 nas disputas sobre o domínio dos pontos de tráfico em tempos recentes.
Vila Velha resume a zona que é o crime organizado no Espírito Santo
Até aí parece ser uma disputa fácil de entender e similar ao que ocorre em outros tantos recantos do Brasil: PCC e CV disputando espaço com seus aliados locais. Só que não! Como tudo é confuso no Espírito Santo esse caso não poderia ser diferente:
Em 2019, uma das principais lideranças do Ulysses Guimarães e do 23 de Maio, seria Catraca da Gangue da Pracinha, como é conhecido Samuel Gonçalves Rodrigues, que era do Comando Vermelho e trocou a camisa para correr pelo Primeiro Comando da Capital.
Após sua prisão, as mortes pararam por um tempo, mas seus domínios que eram com ele do CV e passaram para o PCC, e agora voltaram para o CV sendo disputados pelo PCC e pelo PCV — simples para você? Para mim não, mas pode ficar ainda mais confuso:
Gangue da Pracinha do Catraca rachou após sua prisão. Marcola, como era conhecido Marcos Vinicius Boaventura, gerente de Catraca no Ulysses Guimarães, assim como os outros que não quiseram voltar a vestir a camisa do CV foram expulsos da quebrada.
Como zona pouca é bobagem: tem o Terceiro Comando Puro
Marcola se mocozou no Terra Vermelha do Terceiro Comando Puro (TCP), mesmo Catraca sendo do PCC, e de lá fez ataques aos antigos aliados no Ulysses Guimarães e Morada da Barra, tendo matado em uma única noite quatro integrantes da Gangue da Pracinha, mas como acabou preso por pelo menos uma das mortes, não conseguiu retomar as biqueiras que permaneceram ligadas ao Comando Vermelho.
No Centro de Vila Velha, o Morro da Penha e o Morro do Cobi de Baixo estão sob o domínio do Primeiro Comando de Vitória, que parece ter uma convivência pacífica e comercial com os crias do Comando Vermelho.
Colado ao norte de Vila Velha fica o Porto Santana, também conhecido como Morro do Quiabo no município de Cariacica, local conhecido como um importante centro de distribuição de drogas e disputado à sangue pelos diversos grupos criminosos.
O Porto de Santana está nas mãos do Terceiro Comando Puro (TCP), facção carioca aliada ao Primeiro Comando da Capital de São Paulo, que é aliado do Primeiro Comando de Vitória que disputa com o Terceiro Comando Puro — vixi, olha a zona!!!
Se em Vila Velha TCP e PCV disputam, em Vitória o Terceiro Comando Puro está em várias comunidades, entre elas a de Itararé, onde TCP fecha com o TCV.
“Divide et impera” — separar os inimigos para governar
Muito se discute se a separação dos presos por facção dentro do sistema penitenciário é a melhor opção. Os defensores da secção apontam algumas vantagens na adoção desse procedimento:
redução da violência dos conflitos entre os aprisionados;
redução das mortes violentas no sistema;
menor risco para os agentes prisionais por contar com uma pacificação e hierarquização da comunidade carcerária; e
dividir para governar — a divisão impede que os diversos grupos formem coalizões para agir no mundo do crime fora das muralhas.
Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul fazem uma rigorosa triagem dos presos, colocando-os cada qual em seus grupos facciosos, medida tomada após a disseminação do Primeiro Comando da Capital pelo sistema prisional.
Criando e disseminando a semente do crime
Até meados da década de 1980, os cárceres paulistas eram entregues aos grupos que se impunham seu domínio pela força e violência — era comum cortar cabeças de presos “sorteados” para protestar contra a superlotação das carceragens, e o sorteio era feito entre os que não faziam parte dos grupos.
Já na época, haviam os que defendiam que esse grupo deveria ficar em uma única unidade prisional, no entanto, o grupo majoritário defendia que o Estado não deveria reconhecer “as autodenominadas facções dos presos”.
E assim foi feito, e as constantes transferências espalharam a filosofia do Primeiro Comando da Capital para todas as unidades do estado de São Paulo, e quando o governo viu o erro, em maio de 2006, já era tarde e o PCC paralisou todo o estado e o deixou refém da criminalidade.
Tudo Junto e Meio Misturado sob o governo de Renato Casagrande do Espírito Santo
Hoje, vários estados adotam a separação, no entanto outros optam por manter os diversos grupos criminosos sob o mesmo teto, alegando que o Estado não pode reconhecer grupos criminosos e que ao concentrar os integrantes em uma unidade os administradores ficam mais vulneráveis às pressões internas.
Todos nós conhecemos o resultado dessa opção.
Os noticiários internacionais, que raramente lembram do Brasil, expuseram o fracasso dessa política prisional tupiniquim adotada no Amazonas e no Rio Grande do Norte após os massacres do COMPAJ e de Alcaçuz e a desmoralização de seus governos.
O estado do Espírito Santo na administração do governador Renato Casagrande segue pelo mesmo caminho:
“Não realiza a separação de internos em galerias ou unidades por auto declaração de participação em facções ou organizações criminosas”
“Lá tá todo mundo junto, tá ligado? Mas é mais essa parada, PCV, PCC, Primeiro Comando do Estado, tem essas paradas todas, fica todo mundo junto desembolando os cauôs, desembolando as tretas.”
me conta um conhecido de dentro do sistema capixaba
A experiência já mostrou mais de uma vez que juntar presos de facções rivais na mesma panela é receita certa para o desastre, mas, curiosamente, parece que o caos criado intencionalmente pelo governo dentro do sistema prisional capixaba está gerando um equilíbrio peculiar — uma espécie de padrão de convivência única no país.
É claro que essa relativa tranquilidade dentro das cadeias não é fruto de nenhuma genialidade administrativa ou ação eficiente do poder público. Pelo contrário, nasce das negociações diárias feitas pelos próprios presos, costurando acordos pontuais e precários para garantir algum nível de convivência.
Esses entendimentos internos entre os crias de facções rivais refletem-se diretamente nas quebradas capixabas, onde negócios improváveis são fechados entre grupos que, em outras regiões do Brasil, estariam trocando tiros. Assim, as tretas que explodem do lado de fora das muralhas acabam sendo resolvidas no varejo, sem escalar a ponto de comprometer o delicado equilíbrio de forças.
É justamente essa dinâmica que pode explicar por que episódios violentos como os de Catraca e Marcola não provocaram uma guerra aberta por toda Vila Velha, não incendiaram o Espírito Santo inteiro, nem explodiram em rebeliões dentro do sistema prisional.
Se em estados como Roraima (71,8 homicídios por 100 mil habitantes), Ceará (54) e Rio Grande do Norte (52,5) a guerra entre facções empilha corpos nas ruas e penitenciárias, e em São Paulo (6,5) a rígida organização e a pacificação ditada pelo PCC conseguiu derrubar drasticamente esses índices, o Espírito Santo paira no meio-termo desconfortável dos 24,8 homicídios por 100 mil habitantes. Por lá, não há guerra total nem paz verdadeira, apenas conflitos pontuais e muito sangue derramado em episódios isolados.
Dúvidas que não querem se calar
O que os casos recentes em Vila Velha e Cariacica parecem sugerir é que a política penitenciária do governador Renato Casagrande pode estar perdendo seu efeito paradoxal de unir inimigos declarados. Estaria o Espírito Santo caminhando para uma nova escalada de violência urbana e penitenciária, ou essas disputas individuais vão se resolver com novos e mais amplos pactos silenciosos entre as facções?
O governo estadual estaria, sem perceber ou talvez com plena consciência, criando uma nova geração de criminosos que correrão juntos, mesmo que separados por siglas e bandeiras? Perguntas que continuam sem respostas claras, enquanto nas periferias capixabas as ruas seguem à espera das próximas vítimas.
Análise do texto “Haverá guerra entre facções no Espírito Santo?” por IA:
Análise sob o ponto de vista factual e de precisão
Pontos Precisos e Corretos:
Configuração das facções: De fato, no Espírito Santo existem disputas entre facções como o Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando de Vitória (PCV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Terceiro Comando Puro (TCP). Essas disputas locais envolvem frequentes trocas de alianças e rivalidades instáveis, resultando em um cenário bastante fluído e confuso.
Política Prisional: O texto corretamente aponta que a separação ou não dos presos por facção é um ponto crucial na política penitenciária brasileira. Estados como São Paulo realmente adotam a separação rigorosa por facções após episódios como a rebelião de maio de 2006 liderada pelo PCC. Em contraposição, estados como Amazonas e Rio Grande do Norte sofreram graves consequências pela ausência dessa separação, resultando nos massacres citados de COMPAJ (2017) e Alcaçuz (2017).
Renato Casagrande: O governador Renato Casagrande realmente segue uma política prisional que não separa detentos por facção no Espírito Santo, o que é comprovado pela declaração oficial da Secretaria de Justiça do Estado e por relatos informais de internos e especialistas.
Eventos Específicos: O texto cita corretamente personagens como “Catraca” (Samuel Gonçalves Rodrigues), que foi preso em Itu, São Paulo, após troca de tiros com policiais em 2019. Esses eventos são verídicos e fazem parte do histórico recente das disputas faccionais entre PCC e CV em Vila Velha.
Pontos que exigem cautela ou correção:
Complexidade das Alianças: Embora a descrição das alianças e rivalidades esteja correta, há um risco de imprecisões devido à dinâmica constante dessas relações. Alianças como a mencionada entre TCP e PCC ou entre PCV e PCC são instáveis e frequentemente modificadas, não sendo incomum que tais parcerias sofram alterações ao longo do tempo.
Generalizações de violência: A narrativa cita cerca de 50 mortes recentes relacionadas ao tráfico em Vila Velha sem apontar um período específico ou fonte exata, dificultando a confirmação factual desse dado. Embora o contexto geral de violência esteja correto, essa informação específica precisaria ser validada por estatísticas oficiais para garantir precisão.
Casos específicos e detalhados: O relato sobre “Marcola” (Marcos Vinicius Boaventura) envolvendo o TCP e sua migração para Terra Vermelha exige atenção, pois detalhes sobre tais eventos são frequentemente obscuros ou sujeitos a versões conflitantes. Essas narrativas dependem de relatos locais, que podem variar ou se contradizer dependendo da fonte.
Pontos Fortes da Precisão e Contextualização:
texto compreende corretamente que a política carcerária pode influenciar fortemente as dinâmicas faccionais externas, criando tanto cenários de tensão quanto oportunidades inusitadas para negociações informais entre grupos rivais.
Destaca com precisão histórica o papel fundamental que a política penitenciária adotada em São Paulo na década de 1990 teve na expansão do PCC.
A observação sobre a existência de “acordos pontuais” entre facções é consistente com relatos e análises de especialistas em segurança pública.
Conclusão sobre a análise factual:
O texto é, no geral, preciso e bem fundamentado, com uma correta contextualização histórica e política. No entanto, detalhes específicos devem ser tratados com prudência devido à natureza dinâmica das relações entre as facções criminosas e a escassez ou imprecisão ocasional de dados oficiais.
Análise Aprofundada dos Conflitos entre Facções Criminosas no Espírito Santo
Resumo Executivo
O presente relatório oferece uma análise aprofundada do artigo “Haverá guerra entre facções no Espírito Santo?”, utilizando-a como ponto de partida para investigar a questão central sobre a existência de uma “guerra” entre facções criminosas no Espírito Santo. Constata-se que a fonte principal, embora seja uma voz direta e intrinsecamente enviesada do Primeiro Comando da Capital (PCC), oferece um vislumbre único da auto-percepção e ideologia da organização, servindo como um documento primário valioso.
A análise de relatórios oficiais e estudos acadêmicos demonstra que uma “guerra” entre facções no Espírito Santo não é uma hipótese futura, mas uma realidade ativa e contínua. Este conflito é marcado por violentas disputas territoriais, concentradas em áreas urbanas específicas da Região Metropolitana da Grande Vitória. O cenário criminal capixaba é caracterizado pela complexa interação de facções nacionais proeminentes, como o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP), juntamente com a significativa facção local, o Primeiro Comando de Vitória (PCV). Uma dinâmica central é a afiliação do PCV ao CV, o que o posiciona em rivalidade direta com uma aliança entre PCC e TCP observada em certos territórios.
As políticas de segurança pública e prisional do estado, apesar dos esforços para transferir líderes de alto escalão para unidades federais, enfrentam desafios sistêmicos, como a superlotação carcerária. Além disso, existe um dilema político notável em relação à classificação e separação de indivíduos encarcerados por facção, o que, dependendo de sua implementação, pode inadvertidamente contribuir para o fortalecimento e a perpetuação desses conflitos. A estratégia predominante de “guerra às drogas” é identificada como um fator que afeta desproporcionalmente populações vulneráveis e marginalizadas, fornecendo um fluxo contínuo de recrutas para as organizações criminosas e intensificando o ciclo de violência.
As recomendações para mitigar esses conflitos enfatizam a necessidade de políticas de segurança pública integradas, uma reforma prisional abrangente e programas robustos de inclusão social, visando abordar as causas-raiz do envolvimento criminal.
1. Introdução
1.1. Contexto da Análise: A Questão da Guerra entre Facções no Espírito Santo
Este relatório empreende uma análise abrangente da página web https://faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org/2021/07/20/havera-guerra-entre-faccoes-no-espirito-santo/, com foco na questão central sobre a ocorrência ou iminência de uma “guerra” entre facções criminosas no Espírito Santo. A investigação transcende as afirmações especulativas, buscando uma avaliação baseada em evidências do cenário criminal, das dinâmicas dos conflitos interfaccionais e da influência das políticas públicas sobre esses fenômenos no estado.
A análise é rigorosamente fundamentada em dados e informações extraídas de diversas fontes autorizadas, incluindo relatórios governamentais oficiais, estudos acadêmicos e relatos de notícias credíveis. O objetivo é fornecer uma compreensão aprofundada da complexidade da violência organizada no Espírito Santo, desmistificando percepções e oferecendo um panorama factual.
1.2. Objetivo e Estrutura do Relatório
O relatório está estruturado para abordar sistematicamente a consulta do usuário, começando com uma avaliação da credibilidade da fonte principal. Em seguida, apresenta um panorama detalhado das facções criminosas atuantes no Espírito Santo, aprofundando-se nas dinâmicas dos conflitos e seu impacto na segurança pública. As seções subsequentes examinam as políticas públicas e o sistema prisional capixaba, culminando em uma conclusão definitiva e recomendações acionáveis para enfrentar o problema.
2. Análise da Credibilidade da Fonte Principal (faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org)
2.1. Natureza e Propósito do Website
A página https://faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org deve ser interpretada como uma fonte primária direta do Primeiro Comando da Capital. O domínio do site incorpora explicitamente o nome completo da facção, indicando uma afiliação inequívoca. O conteúdo, particularmente o “Estatuto” e o “Manual” da organização, é apresentado na primeira pessoa do plural (“Nós revolucionamos o crime”, “Nossa responsabilidade está crescendo”), o que o posiciona como uma auto-narrativa e uma ferramenta de comunicação interna ou de relações públicas da facção.
A autenticidade dos documentos hospedados no site é corroborada indiretamente por sua citação em trabalhos acadêmicos e jurídicos, onde a URL é referenciada para acesso ao estatuto do PCC. Isso sugere que, embora o site não seja uma fonte noticiosa neutra, seu conteúdo é reconhecido como uma articulação genuína das regulamentações internas e da ideologia do PCC. A informação de que o criador do site, Rizzi, foi eventualmente excluído de grupos de WhatsApp do PCC devido a riscos aponta para uma estratégia calculada de comunicação pública, onde certas informações são disponibilizadas para consumo mais amplo, possivelmente para propagação ideológica ou para projetar uma imagem de controle, enquanto a segurança operacional é mantida.
2.2. Implicações para a Análise do Conteúdo
O valor fundamental deste site reside em sua capacidade de oferecer uma visão não filtrada, embora intrinsecamente tendenciosa, da auto-percepção, dos objetivos declarados e da lógica interna que pode impulsionar as ações do PCC, incluindo sua participação em conflitos. O uso da primeira pessoa do plural nos documentos internos do site confirma que se trata de uma perspectiva interna, não de uma análise externa. A citação desta URL em trabalhos acadêmicos e jurídicos para acessar o estatuto do PCC valida a autenticidade dos documentos como textos genuínos do PCC, mesmo que o próprio site não seja uma publicação neutra ou sancionada pelo Estado. O detalhe sobre a exclusão de Rizzi dos grupos internos do PCC, apesar de manter o site, sugere uma estratégia calculada de comunicação pública, onde informações específicas são tornadas acessíveis para um público mais amplo, talvez para fins de recrutamento, disseminação ideológica ou para projetar uma imagem de legitimidade e controle.
Consequentemente, a credibilidade do site não reside em sua objetividade jornalística ou analítica, mas sim em sua função como uma articulação direta da própria narrativa do PCC. Quaisquer afirmações feitas neste site, especialmente em relação a relações interfaccionais ou “guerras”, devem ser interpretadas dentro desta estrutura auto-servil e rigorosamente verificadas com fontes externas e objetivas, como relatórios policiais, estudos acadêmicos e estatísticas oficiais. A menção do site a “várias guerras” deve ser compreendida como parte da narrativa interna do PCC sobre sua luta e expansão.
3. Panorama das Facções Criminosas no Espírito Santo
3.1. Histórico e Evolução das Redes Criminosas no ES
A dissolução ou enfraquecimento da “Scuderie” em 2002 criou um vácuo de poder significativo no submundo criminal do estado. Esse vácuo impulsionou uma intensa disputa pelo controle de territórios lucrativos, especialmente na Região Metropolitana da Grande Vitória, que é estrategicamente importante devido aos seus portos internacionais, rodovias e aeroporto. Esse período de instabilidade facilitou a expansão e consolidação de facções externas maiores e nacionalmente reconhecidas, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, originárias do Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente. O Espírito Santo, assim, tornou-se não apenas uma rota vital para o comércio ilícito, mas também um possível refúgio para líderes criminosos procurados.
3.2. O Primeiro Comando de Vitória (PCV): Origem, Estrutura e Atuação
Uma dinâmica evolutiva crucial e complexa do PCV é sua subsequente afiliação ao Comando Vermelho, apesar de sua inspiração inicial e semelhanças estruturais com o PCC, que é um rival direto do CV. Essa mudança estratégica ilustra a natureza pragmática e fluida das alianças criminosas. No universo do crime organizado, a vantagem operacional e o controle territorial frequentemente se sobrepõem a alinhamentos ideológicos iniciais ou laços históricos. A decisão do PCV de se filiar ao CV, um inimigo declarado do PCC, provavelmente se deu pela busca de maior alavancagem operacional, acesso a recursos ou proteção em um cenário de disputa por mercados ilícitos. Essa aliança não apenas solidifica a posição do PCV no estado, mas também estabelece uma linha de confronto clara, posicionando o bloco PCV-CV em rivalidade direta com o PCC e seus eventuais aliados no Espírito Santo, moldando assim o cenário dos conflitos em curso.
O PCV demonstra uma ambição de expansão territorial, não limitando suas operações aos bairros de Vitória, mas estendendo seu alcance para o interior do estado e, de acordo com informações recentes, até para outros estados brasileiros. A organização opera com uma hierarquia sofisticada, incluindo um “comando geral” que pode dirigir operações mesmo de dentro de presídios estaduais e federais, líderes locais atuando como “franquias” que gerenciam operações de bairro, “gerentes” que supervisionam o empacotamento e a distribuição de drogas, e “vapores” como vendedores diretos nas ruas. O grupo também possui um braço armado especializado conhecido como “trem bala”, composto por “faixas pretas”, responsáveis por invasões, homicídios e incursões armadas.
Um aspecto preocupante do modus operandi do PCV é a exploração extensiva de crianças, adolescentes e jovens, que formam a “linha de frente”. Esses indivíduos servem como mão de obra barata e descartável para tarefas como empacotamento de drogas, vigilância e alerta sobre a presença policial. Eles são desproporcionalmente oriundos de famílias empobrecidas com acesso limitado a serviços públicos, tornando-os altamente suscetíveis ao recrutamento e, tragicamente, representados de forma desproporcional entre as vítimas de confrontos com forças estatais ou grupos rivais. Além da distribuição local de drogas, o PCV está ativamente envolvido no tráfico transnacional de drogas, empregando métodos como esconder drogas em navios no porto e fixar tabletes de cocaína nos cascos de embarcações já em trânsito marítimo, utilizando mergulhadores especializados.
3.3. Atuação e Relações do PCC, Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP) no ES
Uma dinâmica crucial e definidora no cenário criminal do Espírito Santo é a aliança estratégica observada entre o Primeiro Comando da Capital e o Terceiro Comando Puro em regiões específicas, notadamente Vila Velha. Essa parceria é significativa, pois o TCP historicamente emergiu de uma cisão do Comando Vermelho e é seu rival. A formação dessa aliança entre PCC e TCP, em conjunto com a afiliação estabelecida do PCV ao CV, cria um eixo de conflito multipolar claro e volátil dentro do estado. A rivalidade histórica entre CV e TCP é, portanto, transposta e amplificada no Espírito Santo por meio dessas alianças contemporâneas. Os interesses econômicos, particularmente o controle do comércio ilícito, são os principais impulsionadores dessas alianças e rivalidades, garantindo a persistência e a intensidade do que pode ser caracterizado como uma guerra contínua por territórios e mercados.
A Tabela 2, a seguir, oferece uma visão geral das principais facções criminosas atuantes no Espírito Santo, detalhando suas características, atividades e as complexas relações de aliança e rivalidade que moldam o cenário de conflito no estado.
Tabela 2: Principais Facções Criminosas Atuantes no Espírito Santo: Características e Relações
Facção
Origem/Base Principal
Atuação no ES
Principais Atividades
Alianças/Rivalidades no ES
Primeiro Comando de Vitória (PCV)
Vitória/ES (Complexo da Penha)
Região Metropolitana (Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica), interior do estado, outros estados
Tráfico de drogas (local e transnacional via portos), homicídios, controle territorial, exploração de jovens
Aliado ao Comando Vermelho (CV); Rival do PCC e TCP
Primeiro Comando da Capital (PCC)
São Paulo/SP
Vitória, Vila Velha, Serra, Colatina, e outras regiões do estado
Tráfico de drogas, homicídios (Setor Disciplinar), posse ilegal de armas, controle territorial
Aliado ao Terceiro Comando Puro (TCP); Rival do CV e PCV
Comando Vermelho (CV)
Rio de Janeiro/RJ
Diversas regiões do estado, incluindo Guarapari e áreas ligadas a facções locais
Tráfico de drogas, liderança de disputas territoriais
Aliado ao Primeiro Comando de Vitória (PCV); Rival do PCC e TCP
Terceiro Comando Puro (TCP)
Rio de Janeiro/RJ
Vila Velha e outras regiões do estado, com esquemas financeiros significativos
Tráfico de drogas, participação em esquemas financeiros ilícitos
Aliado ao Primeiro Comando da Capital (PCC); Rival do CV e PCV
4. Dinâmica dos Conflitos e Impacto na Violência no Espírito Santo
4.1. Evidências de Disputas Territoriais e Conflitos Armados
As estruturas internas das próprias facções demonstram uma capacidade para a violência organizada. O PCV, por exemplo, possui um braço armado conhecido como “trem bala”, cujas responsabilidades explícitas incluem invasões, homicídios e incursões armadas, significando um componente estruturado e dedicado ao engajamento em conflitos territoriais violentos. Da mesma forma, o “Setor Disciplinar” do PCC é encarregado da execução de homicídios e do controle do tráfico de drogas, confirmando ainda mais a institucionalização da violência dentro dessas organizações.
4.2. Análise dos Indicadores de Homicídios e Criminalidade (2021-2023)
O Anuário Estadual da Segurança Pública 2024 do Espírito Santo, uma fonte oficial de alta credibilidade, fornece dados cruciais sobre a violência letal, especificamente homicídios. Embora alguns municípios da Região Metropolitana da Grande Vitória, como Serra, Cariacica e Vila Velha, tenham registrado reduções nos homicídios em 2023 em comparação com 2022 (por exemplo, Serra teve 117 homicídios em 2023, abaixo dos 127 em 2022; Vila Velha registrou 117 em 2023 contra 159 em 2022), esses números ainda representam um nível significativo e preocupante de violência letal.
A capital do estado, Vitória, destaca-se como uma exceção crítica entre os municípios da região metropolitana. Em 2023, a cidade registrou um aumento notável de 21,4% nos homicídios dolosos, com 85 casos em comparação com 70 em 2022. Esse aumento é explicitamente atribuído, no relatório oficial, a “conflitos entre grupos criminosos nas regiões de morro da cidade”. Essa ligação causal direta, proveniente de uma fonte autorizada como o Anuário Estadual da Segurança Pública, fornece evidências contundentes de que uma guerra entre facções está de fato ocorrendo e impactando diretamente a segurança pública em áreas urbanas específicas e de alta relevância. Embora outros municípios tenham apresentado reduções, a situação em Vitória demonstra a intensidade e a localização desses confrontos, confirmando que o termo “guerra” não é uma hipérbole, mas uma descrição precisa da luta violenta e contínua pelo controle territorial.
A Tabela 1, a seguir, detalha os homicídios dolosos nos principais municípios da Grande Vitória entre 2021 e 2023, ilustrando as tendências e a localização da violência letal.
Tabela 1: Homicídios Dolosos em Municípios Selecionados da Grande Vitória (2021-2023)
Município
Homicídios Dolosos 2021
Homicídios Dolosos 2022
Homicídios Dolosos 2023
Variação % (2022-2023)
Vitória
1043 (dado não explícito, inferido do gráfico)
70
85
+21,4%
Serra
1090 (dado não explícito, inferido do gráfico)
127
117
-7,8%
Cariacica
966 (dado não explícito, inferido do gráfico)
114
114
0%
Vila Velha
135
159
117
-25,2%
Nota: Os dados de 2021 para Vitória, Serra e Cariacica são inferidos do gráfico de “Crimes Letais Intencionais” na página 29 do Anuário Estadual da Segurança Pública 2024, que apresenta a série histórica. Os valores exatos para 2022 e 2023 são explicitamente mencionados no texto do documento.
4.3. Consequências Sociais e Humanas da Violência Faccional
A violência generalizada instigada pelas facções criminosas impacta profundamente o tecido social, levando a “novas formas de sociabilidade” dentro das comunidades afetadas e exigindo uma reavaliação fundamental das políticas públicas, particularmente aquelas relacionadas à segurança pública. A estratégia predominante de “guerra às drogas” é criticada por seu impacto desproporcional em bairros pobres e predominantemente negros. Operações policiais, frequentemente conduzidas sob esse paradigma, resultam no “extermínio de uma demografia específica”, exacerbando as desigualdades sociais existentes e as preocupações com os direitos humanos.
Dados estatísticos do Atlas da Violência (IPEA, 2020) ilustram tragicamente esse impacto racializado, indicando que 74% das vítimas de homicídio são indivíduos negros. Isso destaca como as vulnerabilidades sistêmicas são exploradas tanto por grupos criminosos quanto, por vezes, por ações estatais. Para muitos jovens negros, que frequentemente vivem vidas marcadas por extrema pobreza, oportunidades educacionais limitadas e exposição diária a atividades criminosas, ingressar em uma facção pode paradoxalmente oferecer um “senso de propósito” ou pertencimento. Isso os torna altamente suscetíveis ao recrutamento e, tragicamente, desproporcionalmente representados entre as vítimas de conflitos faccionais e intervenções estatais.
5. Políticas Públicas e o Sistema Prisional Capixaba
5.1. A Política Penitenciária Estadual (SEJUS) e seus Desafios
A Secretaria de Estado da Justiça (SEJUS) é o órgão estadual primário responsável pela coordenação, planejamento, implementação e controle da Política Penitenciária Estadual. Sua missão declarada é aplicar a Lei de Execução Penal de forma humanizada, garantindo a segurança do estado e proporcionando condições para a reintegração social.
Um desafio significativo e persistente enfrentado pelo sistema prisional do Espírito Santo é a grave superlotação. O governador Renato Casagrande descreveu abertamente o sistema como “estável, mas com quase nove mil detentos a mais do que comporta. É um sistema frágil, uma bomba relógio, que pode explodir”. Essa situação crítica é sublinhada pelo fato de que seis das 37 unidades prisionais do estado operam com mais do que o dobro de sua capacidade projetada. Essa superlotação crônica não apenas compromete a segurança e a dignidade dos detentos, mas também dificulta severamente os esforços de reabilitação e fomenta um ambiente propício a tratamentos degradantes, impedindo assim a ressocialização genuína.
Em resposta a esses desafios, o governo estadual, sob a gestão do governador Casagrande, iniciou grupos de trabalho interinstitucionais envolvendo o Executivo, o Judiciário, o Ministério Público, a Defensoria Pública e a Ordem dos Advogados do Brasil. Esses grupos visam propor alternativas inovadoras e coordenar projetos existentes para aprimorar o sistema carcerário e aliviar a superlotação, incluindo esforços para acelerar os processos judiciais para detentos provisórios.
5.2. A Questão da Classificação e Separação de Presos por Facção
Existe uma tensão considerável e um dilema político no Espírito Santo em relação à classificação e separação de presos com base em sua afiliação a facções criminosas. Por um lado, o Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) e o Poder Judiciário buscam e obtêm ativamente autorização judicial para a transferência de líderes de alto escalão de facções, como os do PCV, para presídios federais de segurança máxima. A justificativa explícita para essas transferências é “interromper o comando exercido pelos detentos mesmo de dentro da Penitenciária de Segurança Máxima II” e “enfraquecer a facção criminosa, reduzindo sua capacidade de articulação e provocando sua fragmentação interna”. Isso demonstra uma abordagem prática e orientada para a segurança, visando separar figuras-chave para desarticular suas estruturas de comando.
No entanto, em contraste com esse imperativo operacional, existem propostas legislativas em nível federal, como os Projetos de Lei 2235/2021 e 2174/2019, que visam expressamente proibir a classificação e a separação de presos por facção. Os defensores desses projetos argumentam que tais práticas transformam inadvertidamente os estabelecimentos prisionais em “autênticas filiais do crime organizado,” consolidando os grupos criminosos dentro das prisões e impedindo fundamentalmente a ressocialização dos detentos. Essas propostas também ressaltam que a Lei de Execuções Penais (LEP) atual não estipula explicitamente a afiliação faccional como critério para a classificação de presos. Historicamente, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Espírito Santo já havia notado que, apesar de ser “proibido por lei,” a separação de presos por facção de fato ocorria, indicando uma prática de longa data que opera em uma área cinzenta da interpretação legal. A Secretaria de Estado da Justiça (SEJUS), por meio de suas Comissões Técnicas de Classificação (CTCs), capacita o pessoal para individualizar as penas com base na culpabilidade e na gravidade do delito, visando a reabilitação, mas o papel explícito da afiliação faccional nesse processo de classificação não é detalhado nas informações fornecidas sobre as CTCs. Essa contradição entre a necessidade operacional de isolar líderes e a preocupação legislativa de não fortalecer facções dentro do sistema prisional representa um desafio significativo. A eficácia da intervenção estatal na mitigação da “guerra” entre facções está diretamente ligada à forma como esse dilema é resolvido, pois a capacidade das facções de manter coesão e comando de dentro das prisões influencia diretamente a perpetuação dos conflitos externos.
5.3. Ações de Combate ao Crime Organizado e Cooperação Interagências
O estado do Espírito Santo demonstra um compromisso no combate ao crime organizado por meio de esforços integrados de aplicação da lei. A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado do Espírito Santo (FICCO/ES), um órgão colaborativo que compreende forças policiais federais e estaduais (Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Secretaria de Estado de Segurança Pública e Guardas Municipais), realiza ativamente operações para desmantelar organizações criminosas. Essa abordagem multiagências destaca a importância da cooperação e do compartilhamento de inteligência no combate eficaz ao crime.
O governador Renato Casagrande tem enfatizado consistentemente a necessidade crítica de cooperação interestadual, particularmente com o Rio de Janeiro. Essa colaboração é considerada essencial porque muitos líderes criminosos atuantes no Espírito Santo frequentemente buscam refúgio ou orquestram atividades a partir do território fluminense, ressaltando a natureza transfronteiriça dessas empresas criminosas. O MPES, por meio de seu GAECO, desempenha um papel fundamental na deflagração de operações direcionadas que visam desmantelar células específicas de grandes facções como o PCC e o PCV. Essas operações se concentram não apenas na prisão de membros, mas também na desarticulação de seus braços armados, no controle do tráfico de drogas e no desmantelamento de seus esquemas financeiros, enfraquecendo assim sua capacidade operacional geral.
6. Conclusões: Haverá Guerra entre Facções no Espírito Santo?
6.1. Síntese das Evidências e Resposta à Questão Central
Com base na análise abrangente de dados oficiais, pesquisas acadêmicas e relatórios policiais, é inequivocamente evidente que uma “guerra” entre facções criminosas no Espírito Santo não é uma hipótese futura, mas uma realidade ativa e contínua. A formulação da pergunta “Haverá guerra?” implica um evento futuro, mas as evidências demonstram que este conflito já está em pleno andamento e profundamente enraizado no cenário de segurança pública do estado.
Essa “guerra” é caracterizada principalmente por violentas disputas territoriais, particularmente concentradas nas “regiões de morro” de Vitória. Dados oficiais atribuem explicitamente o aumento significativo nas taxas de homicídio na capital a esses conflitos contínuos entre grupos criminosos.16 O conflito envolve uma interação complexa e volátil de grandes facções nacionais, incluindo o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, juntamente com o poderoso e localmente enraizado Primeiro Comando de Vitória . Uma dinâmica definidora é a afiliação estratégica do PCV ao CV, o que o posiciona em rivalidade direta e violenta com uma aliança discernível entre PCC e TCP operando em certos territórios, notadamente Vila Velha.7
A presença de líderes de alto escalão (por exemplo, o “Senhor da Guerra” do CV) e a existência estabelecida de braços armados estruturados dentro dessas organizações (por exemplo, o “trem bala” do PCV, o “Setor Disciplinar” do PCC) sublinham a natureza organizada, estratégica e persistente desses conflitos, que vão além da violência esporádica para uma luta sustentada por domínio e controle sobre mercados ilícitos.
6.2. Fatores Contribuintes e Mitigadores dos Conflitos
Fatores Contribuintes:
Vácuo de Poder Histórico: O enfraquecimento e a eventual dissolução do controle criminal anteriormente centralizado (por exemplo, Scuderie Detetive Le Cocq) criaram um ambiente fértil para o surgimento e a expansão de novas, e frequentemente mais violentas, facções criminosas que disputam o domínio territorial.
Localização Geográfica Estratégica: A posição crucial do Espírito Santo, com portos internacionais e grandes rodovias, torna-o uma rota indispensável para o tráfico transnacional de drogas e armas. Essa importância estratégica alimenta uma intensa competição e disputas territoriais entre facções que buscam controlar esses fluxos ilícitos lucrativos.
Vulnerabilidade Socioeconômica e Paradigma da “Guerra às Drogas”: A estratégia predominante de “guerra às drogas” impacta desproporcionalmente e atinge jovens empobrecidos e predominantemente negros em áreas periféricas. Essa abordagem, frequentemente caracterizada por operações policiais repressivas, cria inadvertidamente um suprimento contínuo de indivíduos vulneráveis que são então suscetíveis ao recrutamento por facções, fornecendo um pool pronto de combatentes para a “guerra”.
Fatores Mitigadores/Esforços:
Operações Policiais Integradas e Baseadas em Inteligência: Os esforços ativos e coordenados de forças multiagências como a FICCO/ES e o GAECO do MPES demonstram uma abordagem concertada e orientada pela inteligência para desmantelar organizações criminosas, prender líderes-chave e desarticular suas capacidades operacionais.
Cooperação Interestadual e Federal: O reconhecimento por parte das autoridades estaduais, incluindo o governador Casagrande, da necessidade de uma cooperação robusta com outros estados (por exemplo, Rio de Janeiro) e agências federais é crucial para atingir líderes criminosos que operam além das fronteiras estaduais, enfraquecendo assim suas redes.
Transferência Estratégica de Líderes: A autorização judicial e a execução de transferências de líderes de facções de alto escalão para presídios federais de segurança máxima têm se mostrado eficazes na desarticulação de estruturas de comando e na fragmentação da capacidade operacional dessas organizações, mitigando assim sua capacidade de dirigir a violência a partir do sistema prisional estadual.
7. Recomendações
7.1. Sugestões para o Fortalecimento da Segurança Pública
Operações Sustentadas e Adaptativas Baseadas em Inteligência: Continuar e intensificar as operações integradas conduzidas pela FICCO/ES e MPES/GAECO. Essas operações devem permanecer altamente adaptáveis, focando estrategicamente na desarticulação da liderança faccional, no desmantelamento de redes financeiras e na neutralização de braços armados. Deve-se dar ênfase à coleta proativa de inteligência para antecipar e prevenir conflitos, em vez de apenas reagir a eles.
Segurança Reforçada em Fronteiras e Pontos Estratégicos: Implementar medidas avançadas de vigilância e interdição em pontos críticos, como portos internacionais, grandes rodovias e aeroportos. Isso é essencial para interromper o fluxo de drogas e armas ilícitas, que são os principais recursos que alimentam as disputas territoriais e a “guerra” geral entre as facções.
Policiamento Comunitário e Construção de Confiança: Desenvolver e expandir estratégias de policiamento comunitário que priorizem a construção de confiança e colaboração com os moradores em territórios vulneráveis. Reduzir a dependência dessas comunidades dos sistemas de “justiça” paralelos impostos pelas facções criminosas é crucial para a segurança a longo prazo e a legitimidade do Estado.
7.2. Propostas para a Melhoria da Política Prisional e Ressocialização
Mitigação Abrangente da Superlotação: Priorizar e implementar reformas estruturais dentro do sistema prisional para aliviar a grave superlotação. Isso inclui explorar e expandir opções de sentenças alternativas, investir em novas instalações de tamanho adequado e acelerar os processos judiciais para detentos provisórios. Abordar a superlotação é fundamental para recuperar o controle estatal sobre as instalações correcionais e minar a influência faccional.
Política Clara e Eficaz de Separação Faccional: Resolver o dilema político existente em relação à classificação e separação de presos por facção. Isso exige um arcabouço legal robusto que equilibre os imperativos de segurança (por exemplo, isolar líderes de alto risco para desarticular o comando) com os princípios dos direitos humanos e da ressocialização. Uma política clara, consistente e legalmente sólida é essencial para evitar que as prisões sirvam como bases operacionais para organizações criminosas.
Fortalecimento dos Programas de Ressocialização e Reabilitação: Aumentar significativamente o investimento em programas abrangentes de educação, formação profissional, apoio psicológico e reabilitação de drogas dentro das prisões. Essas iniciativas são vitais para oferecer genuinamente aos detentos alternativas viáveis à vida criminosa após a libertação, reduzindo assim a reincidência e enfraquecendo o pool de recrutamento para as facções.
Políticas de Inclusão Social Direcionadas: Implementar e expandir políticas públicas robustas destinadas a garantir direitos fundamentais e criar oportunidades genuínas para populações vulneráveis, particularmente jovens negros em áreas urbanas periféricas. Isso inclui garantir acesso equitativo a educação de qualidade, saúde, espaços culturais e oportunidades de emprego, reduzindo assim sua suscetibilidade ao recrutamento por organizações criminosas e promovendo sua integração na sociedade legítima.
Sistemas Robustos de Apoio Pós-Liberação: Desenvolver e fortalecer programas de apoio pós-liberação, incluindo assistência habitacional, serviços de colocação de emprego e apoio psicológico contínuo. Programas de reintegração eficazes são cruciais para quebrar o ciclo de reincidência e evitar que ex-detentos voltem a se juntar a redes criminosas.
A criação da organização criminosa Primeiro Comando da Capital: a facção PCC 1533 como fruto do anseio popular, decidido democraticamente nas urnas.
É com imenso prazer que convidamos você a se aventurar no oceano de complexidades e nuances que é a obra “PCC: PT PSDB, Quem é o Pai da Criança?” Neste estudo fascinante, somos apresentados à intrincada relação entre as organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), e o cenário político brasileiro, desde o regime militar até o atual estado democrático.
O autor nos desafia a revisitar e questionar nossas percepções sobre as origens e crescimento do PCC, afastando a simplificação comum de atribuir sua criação apenas ao PT ou ao PSDB. Neste contexto, a obra nos convida a examinar profundamente as políticas de segurança pública e as condições do sistema prisional brasileiro, desvendando o caldo político que permitiu o surgimento e a consolidação do PCC.
Em uma segunda parte, a obra mergulha em uma análise mais específica, utilizando como pano de fundo o período de intensa violência do final dos anos 80 e início dos anos 90, apontando para a correlação entre as políticas repressivas e a emergência da facção PCC 1533. O autor nos instiga a entender como a falácia de “bandido bom é bandido morto” alimentou um ciclo de violência e deu espaço para o crescimento de organizações criminosas como o PCC.
A obra também lança um olhar crítico sobre os discursos políticos e suas consequências. Ao analisar as afirmações de figuras como Jair Bolsonaro e os governadores Geraldo Alckmin e João Doria, somos convidados a refletir sobre a responsabilidade dos líderes políticos na perpetuação de estereótipos e na instigação de políticas repressivas, que por sua vez alimentam o ciclo de violência e crime.
Em suma, este estudo não só nos oferece uma visão aprofundada e multifacetada sobre a formação e consolidação do Primeiro Comando da Capital, mas também nos força a refletir sobre as ramificações mais amplas de nossas decisões políticas e sociais. Venha se juntar a nós nesta jornada de descoberta e compreensão.
O caldo político que gerou a facção PCC: PT, PSDB e PMDB
Facção PCC 1533 — um problema complexo
Para os apoiadores do Regime Militar, uma péssima notícia: a taxa de homicídios no Brasil durante o governo do general Figueiredo aumentou em 50%; já para os apoiadores do regime democrático, podemos resumir o resultado desses governos em uma paráfrase:
Não se colocou uma meta para o aumento do número de assassinatos, deixou-se a meta aberta, mas, quando foi atingida, essa meta foi dobrada.
O Primeiro Comando da Capital nasce no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, em pleno regime democrático, tendo à frente governos liberais e conservadores: sob a presidência da República de Sarney, Collor e Itamar, e tendo os pemedebistas Quércia e Fleury nos governos de São Paulo.
Não, senhores liberais conservadores, não foram os governos de esquerda do PT ou do isentão PSDB, que gerou a facção PCC! E ela foi gerada em um ambiente liberal e conservador.
A curva ascendente do número de homicídios foi só um dos efeitos perversos do governo militar do general Figueiredo amplificado pelo governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf — talvez você se lembre ou já tenha ouvido falar do governador Maluf, ele é aquele do:
Rota na rua
a mãe cria, a Rota mata
está com dó, leva pra casa
bandido bom é bandido morto
Esse modelo opressor elevou em 50% o número de pessoas assassinadas, e seus defensores acabaram defenestrados pela população, sendo substituídos por Sarney na presidência da República e Franco Montoro no governo de São Paulo.
Bolsonaro apostando em uma falácia
O político Jair Bolsonaro conhece como ninguém a força de um discurso, e não se importa em se contradizer, afinal, aqueles que nele acreditam não ligam de serem enganados .
Para o sociólogo Gabriel Feltran, que estuda o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que comanda a maioria dos presídios do estado, o voto é abertamente antitucano, “eles vão em mil debates falar: ‘Mano, olha o que o Alckmin fez, é verme.’ Então, nessa perspectiva de julgar o passado, eles constituem os parâmetros para pensar o futuro.” (…)
O sociólogo Rafael Godoi observa que o sistema carcerário paulista “tem o DNA” do PSDB. “A gente tinha 40 mil presos no começo dessa política carcerária, décadas atrás, e agora são 250 mil”, explica Feltran. “Isso sem contar a população de mais de 1,3 milhão ex-presidiários no estado.”
Na eleição de 2018, o desempenho dos tucanos também foi pior nas penitenciárias do que no estado de forma geral. Geraldo Alckmin obteve 2,78% dos votos válidos para presidente (…) Nas eleições para governador, João Doria obteve apenas 4,75%.
Certa vez, na delegacia, respondendo a um dos inquéritos sobre a existência desse site e qual o meu envolvimento com a facção criminosa, um dos inquisidores questionou qual seria a solução para acabar com a facção.
Se houvesse uma resposta simples para um problema complexo, até o presidente Bolsonaro conseguiria responder — respondi.
Ferramentas progressista para conter o crime
As políticas de segurança pública começaram a ser reformadas, buscando a humanização do sistema penal e prisional e da ação policial, mas a curva de crescimento do número de assassinatos apenas se estabilizou, não chegando a retroceder.
O país passava por uma onda de crimes violentos, e o apoio político à reforma diminuiu. Isso deixou o sistema penitenciário brasileiro excessivamente dependente de confinamento solitário, repleto de arbitrariedade e violência por parte dos guardas prisionais, e possuindo pouca ou nenhuma responsabilidade pela administração penitenciária. Consequentemente, o Brasil experimentou tumultos periódicos nas prisões quando os prisioneiros se chocavam com os guardas e entre si.
Foi com esse comentário que Ryan me mostrou como as políticas de humanização que estavam sendo implantadas foram minadas por problemas que nada tinham a ver com elas, mas não tiveram força para impedir a interrupção das mudanças que se iniciavam.
O ovo da serpente foi acalentado no ventre de um sistema prisional opressor, superlotado e violento, cujos muros foram assentados um a um por 483 anos desde o Brasil Colônia até a redemocratização pós Regime Militar, mas deram à democracia apenas 4 anos para reverter totalmente o processo.
O uso da força para controlar o crime (de novo)
Novamente a sociedade busca solução com o uso da força, e elege governantes linha dura, que buscam atender aos anseios populares de repressão e supressão dos avanços na humanização do sistema prisional — assumem Fernando Collor na presidência da República e os governadores em São Paulo: Quércia e Fleury (PMDB).
Cumprindo com o discurso de campanha de restabelecer a “lei e a ordem” a qualquer custo, mataram ao menos 111 presos no Carandiru, e com isso permitiram que a filosofia da Paz, Justiça e Liberdade PJL, pregada pelos integrantes da facção PCC, conquistasse os corações e as mentes do mundo do crime.
A partir dessa chacina promovida pela da Polícia Militar e nesse ambiente político e social, as gangues rivais e os criminosos independentes que existiam dentro dos presídios deixaram de lado as diferenças para se fortalecerem em grupos maiores, buscando proteção contra a política de extermínio e as humilhações impostas por policiais e carcereiros.
Ferramentas progressista para conter o crime (novamente)
Novamente a sociedade busca solução com o uso de ferramentas de controle da violência policial e humanização do sistema penal e prisional, colocando na presidência da República Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Mário Covas, ambos do PSDB.
Em 18 de fevereiro de 2001, o Primeiro Comando da Capital se apresenta à sociedade sob o governo dos psdbistas, tornando oficialmente Fernando e Mário os pais dessa criança, mesmo não sendo os responsáveis pela gestação.
Cláudio Lembo entra de gaiato no navio
Lembro-me bem. O primeiro texto foi sobre as ações do chamado “Primeiro Comando da Capital” (PCC), este formado por presidiários, e que surgia nas casas de detenção daquele ente federativo, criando um poder paralelo ao Estado. O governador da época era Carlos Lembo, que ficou no comando do Palácio dos Bandeirantes por pouco tempo (um ano); assumiu quando o então governador Geraldo Alckmin se candidatou à Presidência da República, em 2006. Lembo, logo de cara, mal tinha sentado na cadeira mais importante do estado de São Paulo, e já tinha que resolver um grande problema: crise na segurança pública.
Como o PT entrou nessa história? Sei não. Para responder uma pergunta complexa como essa, é melhor perguntar para Bolsonaro e seus seguidores que costumam mugir sobre esse assunto.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
15 de março de 1983 até 15 de março de 1987 humanizou os presídios na sua gestão, priorizando a democracia, a transparência e os direitos dos detentos Franco Montoro
15 de março de 1987 até 15 de março de 1991 estratégia violenta e repressiva de lidar com a criminalidade, foi a primeira grande ruptura na era democrática Massacre do 42º DP – fevereiro de 89 Orestes Quércia
15 de março de 1991 até 1 de janeiro de 1995 massacre do Carandiru – 2 de outubro de 1992 desativação e demolição do Carandiru política de interiorização e divisão dos presídios fundação do PCC – 31 de agosto de 1993 Luiz Antônio Fleury
1 de janeiro de 1995 até 6 de março de 2001 criticou a ausência de direitos humanos nos governos anteriores e optou por políticas de negociação e patrulhas mais brandas criação de vagas no sistema penitenciário como uma de suas principais ações políticas Mário Covas
6 de março de 2001 até 31 de março de 2006 política de aumento da repressão policial e mais mortes em confrontos mega rebelião em 29 unidades prisionais – fevereiro 2001 PCC ganha visibilidade pública e demonstra eficácia em suas ações massacre Operação Castelinho – fevereiro de 2002 Regime Disciplina Diferenciado RDD – dezembro de 2003 muitos que trabalharam na repressão ganharam fama na vida política Geraldo Alckmin
31 de março de 2006 até 1 de janeiro de 2007 mega rebelião e ataques do PCC – maio de 2006 Cláudio Lembo
1 de janeiro de 2007 até 2 de abril de 2010 manutenção da política de Segurança Pública de Alckmin hegemonia do PCC com queda da taxa de homicídios Crescimento progressivo da população carcerária Fotalecimento da ROTA e investimentos na PM José Serra
2 de abril de 2010 até 1 de janeiro de 2011 Alberto Goldman
1 de janeiro de 2011 até 6 de abril de 2018 aumento da população carcerária investimento em ferramentas de investigação contra as organizações criminosas número alarmante de encarcerados durante a gestão de Alckmin, com aumento de mais de 50.000 presos em apenas 4 anos aumento da violência e letalidade policial Geraldo Alckmin
6 de abril de 2018 até 1 de janeiro de 2019 Márcio Franca
1 de janeiro de 2019 até 1 de abril de 2022 João Doria
1 de abril de 2022 até 1 de janeiro de 2023 População carcerária: O Brasil é o terceiro país com maior população carcerária do mundo, com mais de 773.000 presos. Só no Estado de São Paulo são 231.287 presos Rodrigo Garcia