O disciplina da facção PCC 1533 na escola

A difícil vida nas escolas em regiões sob a influência da facção paulista Primeiro Comando da Capital.

O disciplina do Primeiro Comando da Capital pisava na cabeça do garoto quando cheguei.

Rato estava orgulhoso de sua postura, e não seria eu quem iria lembrá-lo de que há alguns anos ele é quem estaria ali no chão, naquela mesma posição – quem sou eu para destruir a autoimagem de quem quer que seja, principalmente de alguém armado e drogado!

O garoto havia debatido com uma professora, e um de seus colegas de classe pediu que o disciplina da facção da quebrada chamasse a atenção do moleque – só lamento.

Rato, de garoto zica para disciplina do PCC 1533

Conheci Rato quando este não passava de um pirralho, mas o garoto já era zica naquele tempo. Cansei de vê-lo chegar em casa arrebentado, com olhos marejados, mas com a cabeça erguida, prometendo vingança.

Certa vez, ele devia ter dez anos, o encontrei indo para a escola com um taco de golfe para acertar um desacordo – deve ter dado tudo certo, afinal quando ele chegou não havia sangue em sua roupa.

Ele estudou na mesma escola do Central Parque que aquele moleque, agora ensanguentado no chão, e não foram poucas as vezes que ele mesmo debateu com professores, tendo até dado um pau em um deles.

Mesmo antes de se envolver com o crime, ele já levava o terror na escola, e agora, passado poucos anos, ele se via como pacificador do ambiente escolar – êta mundo estranho que dá voltas!

Liberando o garoto do disciplina

Quando eu era garoto não havia facções, eram as gangues que se enfrentavam para dominar a escola, e no Central Parque quem dominava eram os garotos da “Rifaina”, os únicos que tinham maconha – a única droga que rolava por lá.

Era muito diferente da complexa estrutura cultural e hierárquica implantada pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital, incluindo aquela escola no qual estuda o garoto que estava sob os pés de Rato.

Até aquele momento eu não tinha parado para pensar sobre como diretores, professores e outros profissionais haviam se adaptado a esse novo mundo, e aquele não era o melhor momento para pensar nisso – primeiro tinha que dar um jeito de tirar aquele garoto dali.

Puxei-o para o lado e só fiquei ouvindo enquanto Rato, que andava excitado de um lado para outro, falava, falava, falava…

Fui paciente, fiz cara de paisagem e fiquei concordando com tudo, depois disse que precisava passar uma responsa para ele, mas que ele precisava liberar o garoto porque não podíamos perder tempo – só teria que pensar em algo para passar para Rato.

Uma cultura marginal de gestão escolar

Ellís Regina Neves Pereira, ao contrário de mim, nunca colocou os pés no Central Parque, mas foi ela quem me contou o outro lado da história ao descrever como o Primeiro Comando da Capital impacta a vida dos profissionais que trabalham na escola.

A gestão escolar em territórios conflagrados e o efeito sobre a cultura dos diretores de escolas públicas do estado de São Paulo é o nome do trabalho apresentado à Faculdade de Educação da USP pela pesquisadora.

A estudiosa não esconde o sol com a peneira e afirma abertamente que vige uma “cultura marginal de gestão escolar” que destrói a escola utópica ao mesmo tempo que viabiliza a escola possível nas comunidades em conflito – e isso ninguém quer ver ou estudar.

 “… agressões a funcionários e professores que se recusavam a conceder privilégios a alunos ligados às práticas delituosas, assim como a impossibilidade de segurança, no espaço escolar, a estudantes cujos familiares eram ostensivamente perseguidos e viviam sob ameaça do poder da criminalidade …”

No geral não há “um acordo” entre diretores, professores e integrantes da facção Primeiro Comando da Capital para a manutenção da ordem e governabilidade no ambiente escolar, mas sim uma adaptação a essa realidade paralela para “manter a escola de pé”.

Negociar por todos e para que todos fiquem bem

Minha mãe, que foi diretora de escola na periferia paulistana, me contava como era tenso o ambiente.

Ela, como autoridade escolar, tinha que negociar com as lideranças locais e políticas – a polícia se fazia presente nas datas festivas, mas não sem antes a ela preparar o ambiente com todos os atores daquela comunidade para a chegada pacífica dos policiais.

A presença da polícia traz uma aparência de normalidade e controle, algo que chega tão rápido quanto vai embora. A consequência de sua presença, no entanto, podem permanecer no ambiente por muito tempo com efeitos incalculáveis:

 “Tenho um bom relacionamento com esse pessoal. Outro dia, eles invadiram a quadra […] e não dava para ir lá e conversar. Também não pude chamar a ronda escolar. Se faço isso, vão vir para cima da gente depois. Fiz isso um dia e me arrependi.”

Amaury, diretor de escola pública

Mesmo nesses ambientes onde há uma convivência pacífica, a subserviência não é aceita pelos educadores e administradores como normal ou costumeiro, e sim como necessário para a sobrevivência tanto na comunidade quanto dentro da própria estrutura governamental, afinal, como diz um diretor:

Escola boa é onde não aparecem problemas [e varrendo para baixo do tapete e sujando as mãos com esse relacionamento, a comunidade escolar pode] obter das instâncias superiores momentâneas recompensas morais  e sociais pelo ‘serviço bem feito’. Contudo [há] perdas morais e sociais [pela] insatisfação de servir para isso!”.

As novas lideranças da facção PCC são frutos do PT no governo

A comunidade escolar não é uma ilha isolada, mas sim um ente dentro de um complexo sistema social. Mesmo Rato atua tanto na escola quanto na associação de moradores, na igreja e no atendimento a população da comunidade – e ele não é um cidadão exemplar.

Eu vi moradores, lideranças comunitárias, políticas e religiosas passando para ele problemas como: instalação de postes para iluminação pública, problemas na pavimentação, talaricagem, furtos, briga entre vizinhos, ocupação de área pública…

Diversas vezes insisti para que ele não se envolvesse com alguns desses problemas, mas o moleque gosta de aparecer, e o encarceramento e o isolamento das antigas lideranças da facção paulista permitiram que jovens como ele, menos preparados, assumissem o controle das ruas após o endurecimento da legislação durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT):

  • Lei do Crime Organizado (Lei nº 12.850 de 2013)
  • Lei Antidrogas (Lei nº 11.343 de 2006)
  • Lei de Execução Penal com a previsão do Regime Disciplinar Diferenciado (Lei nº 10.792 de 2003)

Como todo jovem, Rato se empolga, principalmente se está sob o efeito de drogas, e por isso eu me preocupei quando o vi dando um salve no garoto que desrespeitou a professora. Gosto do garoto, mas definitivamente ele não está preparado para tanto poder.

Autor: Rícard Wagner Rizzi

O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)

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