Antifragilidade e o Primeiro Comando da Capital

O texto analisa o colapso da trégua entre PCC e CV sob o prisma da antifragilidade, explorando as diferenças estruturais entre as facções, as dinâmicas territoriais e as estratégias que tornam o PCC mais adaptável e expansivo em meio à repressão estatal e conflitos internos.

Antifragilidade é a chave para entender como o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) transforma crises em combustível para expansão. Este artigo revela como a ruptura com o Comando Vermelho expõe estratégias profundas de sobrevivência e poder no crime organizado brasileiro.


🎯 Público-alvo
Pesquisadores e profissionais das áreas de segurança pública, criminologia, jornalismo investigativo, políticas públicas, direito penal e sociologia urbana, além de leitores interessados na dinâmica das facções criminosas no Brasil.

Antifragilidade: a ruptura entre PCC e CV revela como facções se fortalecem em meio ao caos

Francesco Guerra

O encerramento abrupto da frágil trégua entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), estabelecida em fevereiro e rompida em abril deste ano, revela muito mais do que apenas mais um capítulo do conflito entre as duas maiores organizações criminosas do Brasil.

Essa ruptura revela as complexas dinâmicas de poder, estruturas organizacionais e a extraordinária capacidade dessas facções de não apenas sobreviverem, mas prosperarem em ambientes de crise — um fenômeno que podemos descrever como “antifragilidade”.

O Fim Anunciado de uma Trégua Contraditória 

Em 29 de abril de 2025, ambas as organizações disseminaram “salve” (comunicado oficial das facções brasileiras) declarando o fim do acordo estabelecido apenas dois meses antes. Os comunicados, curiosamente semelhantes em conteúdo, citaram preocupações éticas como justificativa principal.

O PCC declarou que a ruptura “se deve especialmente às mortes de dezenas de inocentes assassinados por pura banalidade”, enquanto o CV afirmou que “o respeito da vida humana deve ser acima de tudo”, proibindo seus membros de “tirar a vida de pessoas de bem por motivos banais”.

No entanto, investigadores e promotores apontam para razões muito mais pragmáticas por trás do colapso. Lincoln Gakiya, promotor do Grupo de Ação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) de São Paulo, que enfrenta o PCC há duas décadas e é alvo de ameaças de morte pela facção, enfatiza: “Em suma, são os interesses territoriais relativos ao controle do tráfico que levaram a esta ruptura. Ninguém quer abrir mão do seu espaço.”

As tensões entre as “regionalidades” — como são chamadas pelos próprios membros das facções — emergiram como fator decisivo para o fracasso do acordo. Já em janeiro, Reinaldo Teixeira dos Santos, o “Funchal”, integrante da cúpula do PCC, expressou preocupação ao seu advogado sobre este aspecto: “Sabemos o quanto isso é complexo no contexto geral, porque temos que respeitar as regionalidades e a opinião de todos”, disse ele no parlatório da Penitenciária Federal de Brasília, conforme revelado em um relatório da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen).

Uma Trégua Sem Consenso 

A proposta de trégua teria partido de advogados fluminenses ligados ao CV, diretamente a integrantes da cúpula do PCC, incluindo Marcos Willians Herbas Camacho, o “Marcola”, e Reinaldo dos Santos, o “Funchal”. No entanto, um elemento crucial para o fracasso do acordo foi a ausência de endosso por parte de uma figura-chave: Márcio dos Santos Nepomuceno, o “Marcinho VP”, considerado o principal líder do CV.

Um relatório da Senappen de 22 de fevereiro já apontava que Marcinho VP negava “de forma veemente” a existência da trégua com o PCC, classificando essas informações como “fake news”. O líder do CV teria afirmado manter “uma postura de respeito” em relação ao PCC, dado que alguns líderes das duas facções estão detidos no mesmo sistema prisional, mas reiterou que as facções “permanecem como inimigas”.

Esta contradição fundamental entre a comunicação oficial e a posição de uma das principais lideranças já prenunciava o colapso do acordo. Fontes ligadas ao sistema prisional revelam que este tipo de desalinhamento entre o discurso público e as orientações internas é frequente no mundo do crime organizado, onde diferentes camadas de comunicação servem a propósitos estratégicos distintos.

Implementação Desigual pelo Território Nacional 

Em fevereiro, quando a trégua foi anunciada, nove estados brasileiros haviam reportado “sinais concretos” da aliança entre as facções criminosas, segundo um relatório de inteligência da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. As informações foram coletadas das inteligências das Polícias Militares de 26 estados e do Distrito Federal. Os estados que confirmaram a existência da trégua foram: Minas Gerais, Amazonas, Acre, Roraima, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas e Sergipe.

Outros nove estados declararam não ter dados suficientes para confirmar a existência do armistício, enquanto em três estados ainda havia indícios de que a organização criminosa paulista estava em guerra com a fluminense. Cinco estados não responderam à solicitação de informações.

Esta distribuição geográfica irregular já sinalizava a dificuldade de implementar o acordo de forma homogênea em todo o território nacional. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, a trégua teve impactos visíveis. As forças de segurança voltaram a apreender remessas de drogas enviadas em consórcio pelas duas facções nas rodovias do estado — que, por quase uma década, foram monopolizadas pelo PCC.

Os pacotes de cocaína, maconha, haxixe e skunk passaram a ser embalados com diferentes cores, dependendo da facção responsável pela remessa. As apreensões de drogas aumentaram 151% nos três primeiros meses de 2025, em comparação ao mesmo período de 2024.

Em contraste, na Bahia, palco da maior ofensiva do CV atualmente, o acordo não interessou aos chefes regionais. Há pouco mais de dois anos, a facção quase não tinha presença no estado, mas cresceu absorvendo grupos locais. Hoje, predomina no Sul baiano e em boa parte de Salvador.

Situação semelhante ocorreu no Ceará. Em meio a uma disputa violenta por territórios entre CV, PCC e a facção local Guardiões do Estado (GDE), o acordo sequer chegou a ter consequências palpáveis. “Não houve nenhum ato concreto que pudesse confirmar, nenhum pedido judicial conjunto dos advogados, por exemplo. Por aqui, eles continuaram se matando”, relata o promotor Adriano Saraiva, coordenador do Gaeco do Ministério Público do Ceará.

No Mato Grosso, onde o CV é dominante, houve um primeiro momento de indefinição. Em 17 de fevereiro, a suspensão temporária de ataques salvou a vida de um jogador de futebol de 28 anos sequestrado por fazer um gesto com três dedos, interpretado como uma referência ao PCC. Os sequestradores ligaram para um chefe do CV preso em Cuiabá pedindo aval para a execução, mas receberam a ordem de libertá-lo devido às negociações em andamento. Posteriormente, contudo, a trégua foi descartada pelos chefes locais e os conflitos retornaram com força.

Duas Estruturas Incompatíveis 

Para entender plenamente a fragilidade da trégua e a inevitabilidade de seu colapso, é necessário analisar as profundas diferenças estruturais e históricas entre essas duas poderosas organizações criminosas. O PCC, fundado em 1993 no presídio de Taubaté, em São Paulo, possui uma estrutura fortemente hierárquica e centralizada, com um sistema de comando que se estende capilarmente através do sistema carcerário e nas ruas de numerosos estados brasileiros.

Esta centralização permitiu ao PCC manter uma coesão interna extraordinária, mesmo quando seus líderes foram isolados ou transferidos para presídios de segurança máxima. “O PCC tem hierarquia clara, estrutura piramidal rígida e uma cúpula que toma as decisões a serem seguidas por todos os membros — a desobediência pode ser punida até mesmo com expulsão e morte”, explica o promotor Lincoln Gakiya.

O CV, nascido nas prisões do Rio de Janeiro nos anos 1970 durante a ditadura militar, tem uma estrutura mais horizontal e opera como uma rede de “franquias” nos estados, com líderes locais que gozam de maior autonomia. “O CV atua em um esquema semelhante ao de franquias nos diferentes estados, com lideranças regionais que possuem autonomia suficiente para não acatar o acordado pelos chefões do Rio”, complementa Gakiya.

Esta diferença fundamental de estrutura organizacional tornou praticamente impossível a implementação consistente de um acordo nacional. Enquanto o PCC pode impor decisões que são respeitadas em todo o território nacional graças à sua liderança centralizada, o CV, com sua estrutura mais descentralizada, enfrenta dificuldades para garantir a adesão de todas as suas “franquias” às decisões tomadas pela cúpula.

A Lei do Crime e a Hierarquia das Normas 

Um aspecto frequentemente negligenciado nas análises sobre o crime organizado brasileiro é a importância do que os próprios membros chamam de “Lei do Crime” — um conjunto de normas e princípios que regulam a conduta dentro dessas organizações. Especialistas como Diorgeres de Assis Victorio comparam a “Lei do Crime” à Constituição na hierarquia legal brasileira, enfatizando seu caráter fundamental e sua precedência sobre acordos transitórios como a recente trégua. “A Lei do Crime tem peso de Carta Magna, em comparação à Hierarquia das Leis no Brasil”, explica de Assis Victorio.

De acordo com essa perspectiva, em 2016 não houve um verdadeiro “rompimento” entre PCC e CV, embora se tenha estabelecido um precedente que teria invalidado qualquer acordo subsequente. Conforme esta interpretação, baseada no “Terceiro Estatuto” — um conjunto de normas que regem o PCC — a relação entre as duas facções desde 2010 seria apenas de “amizade” estratégica em determinadas circunstâncias, mas nunca de aliança formal.

A Antifragilidade como Chave de Leitura 

O conceito de “antifragilidade”, teorizado pelo estatístico e filósofo Nassim Nicholas Taleb, oferece uma perspectiva valiosa para compreender a evolução e o comportamento dessas organizações criminosas. Diferentemente de sistemas que são meramente resistentes ou resilientes — que suportam choques sem se modificar —, sistemas antifrágeis efetivamente se fortalecem com a volatilidade, a desordem e o estresse.

O Primeiro Comando da Capital demonstrou repetidamente esta característica ao longo de sua história. Quando o governo brasileiro decidiu transferir os líderes do PCC para presídios em diferentes estados para isolá-los, esta medida repressiva paradoxalmente fortaleceu o grupo. A organização conseguiu transformar esta adversidade em uma oportunidade para expandir sua influência nacionalmente.

Similarmente, a adoção do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) — um regime prisional particularmente duro — deslocou a atividade da rede criminosa para as margens do sistema prisional, forçando a descentralização. Como observa Ana Célia Targino Agripino Nunes em sua tese sobre o PCC, isso contribuiu para sua expansão além dos muros das prisões, permitindo ao grupo ampliar suas operações tanto dentro quanto fora dos presídios.

Durante grandes ondas de repressão estatal, o PCC frequentemente adotava a paz entre facções, cessando temporariamente os combates com rivais para se reorganizar. Sob intensa pressão estatal, a organização assumia atitudes de cooperação estratégica com outras facções, estabelecendo cessar-fogos que lhe permitiam reorganizar-se e fortalecer suas estruturas internas, conclui Agripino Nunes.

Neste contexto, a trégua de fevereiro de 2025 poderia ser interpretada como mais uma manobra estratégica do PCC para consolidar sua posição em um momento de pressão, em vez de uma tentativa sincera de pacificação.

Comando Vermelho: Entre Resiliência e Tradição 

O Comando Vermelho, embora menos “antifrágil” que o PCC, também demonstrou notável capacidade de resistência e adaptação ao longo de sua longa história. Nascido como uma coalizão de detentos comuns e militantes de esquerda na prisão Candido Mendes (Ilha Grande), o CV se fortaleceu em resposta às condições desumanas das prisões durante a ditatura militar.

Nos anos 1980, o CV criou uma estrutura hierárquica para gerenciar o boom do tráfico de cocaína, entrando em sinergia com os cartéis colombianos e tomando controle dos bairros pobres do Rio abandonados pelo Estado. Sua força sempre esteve enraizada no profundo vínculo com as comunidades locais, onde conseguiu fornecer serviços e proteção na ausência das instituições estatais.

Quando o governo tentou “pacificar” as favelas do Rio com a criação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) a partir de 2008, o CV temporariamente perdeu terreno. No entanto, o fracasso dessas iniciativas (quase todas as UPP foram encerradas até 2021) demonstrou a resiliência do grupo e seu enraizamento social.

Episódios de Violência Extrema 

Um elemento catalisador para a ruptura da trégua foram episódios de violência extrema que teriam violado os códigos de conduta estabelecidos entre as facções. Segundo fontes da Folha de São Paulo, advogados que defendem membros do CV relataram que o PCC não teria aprovado algumas práticas violentas atribuídas ao Comando Vermelho.

Entre os exemplos citados, destaca-se o assassinato de um turista de Brasília que, antes de ser morto, teria sido forçado a comer partes do próprio corpo — como orelhas e dedos — por estar com fotos ligadas a uma facção rival em seu celular. Este tipo de violência gratuita, particularmente contra civis não diretamente envolvidos em atividades criminosas, teria violado o código de conduta do PCC, que nos últimos anos tem buscado se apresentar como uma organização “mais profissional” e menos brutal, embora continue gerenciando tráficos ilegais de enormes dimensões.

Além disso, o aumento dos ataques contra civis suspeitos de pertencer ou simpatizar com a facção rival tem sido uma preocupação crescente. Nos últimos anos, multiplicaram-se os casos de jovens torturados ou mortos por fazer gestos com as mãos associados às facções: três dedos para o PCC (referência ao código 1533) e dois dedos (o sinal de V de vitória ou paz e amor) para o CV.

Quem é Mais Antifrágil? 

Na comparação global, o PCC surge hoje como mais antifrágil que o CV, capaz de transformar crises em oportunidades de crescimento e consolidação. Diversos fatores explicam esta diferença. Primeiramente, a estrutura do PCC é mais centralizada e onipresente: os membros das chamadas “Sintonias” ditam ordens mesmo quando estão detidos. Um eficiente sistema de comunicação interna e uma “burocracia” organizacional permitem absorver e distribuir os choques (por exemplo, transferências de líderes) sem se desintegrar. O CV, por outro lado, sempre teve um sistema de lideranças difuso no território e ainda depende de uma rede histórica de alianças locais, o que pode favorecer fragmentações sob pressão.

Em segundo lugar, a experiência mostra que o PCC capitaliza ativamente as crises alheias: o próprio Estado, na tentativa de destruí-lo, acabou contribuindo para seu crescimento nacional. A transferência de prisioneiros e o isolamento descentralizaram a organização, ampliando seu raio de ação; operações policiais em outros contextos criminais frequentemente empurraram facções e bondes menores para os braços do PCC.

Além disso, o PCC desenvolveu alianças transnacionais — com máfias europeias ou grupos sul-americanos — saindo do papel de simples organização brasileira. Em contraste, o CV manteve-se mais restrito ao seu território tradicional no Rio de Janeiro. Embora tenha demonstrado resiliência — por exemplo, resistindo ao processo de pacificação e reconquistando áreas antes perdidas, especialmente no estado fluminense — e até mesmo ampliado significativamente sua presença na região Norte e em estados como Bahia e Mato Grosso, os recentes choques não o transformaram em um ator de maior envergadura.

Na prática, o PCC aproveitou cada crise (repressão ou conflito) para crescer e estabelecer novos paradigmas, enquanto o CV mais frequentemente limitou os danos, mas sem uma expansão proporcional.

Reações do Sistema Carcerário e Perspectivas Futuras 

Com o anúncio do fim da trégua, as autoridades de segurança dos vários estados brasileiros estão reforçando medidas preventivas, especialmente nas prisões onde convivem membros de ambas as facções. Fontes da polícia de São Paulo relataram que foi ativado um alerta máximo nas unidades prisionais que abrigam membros dos dois grupos. Segundo advogados que representam membros do CV, embora ainda não tenham ocorrido mudanças concretas no sistema prisional, os pedidos de transferência de detentos devem começar em breve.

De acordo com essas fontes, alguns detentos já conheciam a ruptura antecipadamente. No entanto, a maioria dos prisioneiros foi oficialmente informada após a oração das 18h, momento reservado também para anúncios das lideranças nas unidades carcerárias do CV.

Os analistas de segurança pública estão divididos sobre as perspectivas futuras. Alguns acreditam que esta ruptura possa ser temporária e que as duas facções, impulsionadas por interesses econômicos, possam voltar a negociar no futuro. Outros temem o início de um novo e longo período de conflito, relembrando as brigas sangrentas iniciadas em 2016.

O promotor Lincoln Gakiya é pessimista: “Não imaginava que [a trégua] duraria. A estrutura das duas organizações é muito diferente e os interesses territoriais são muito fortes”. O que é certo é que a ruptura da aliança entre PCC e CV devolve o Brasil a uma situação de incerteza e potencial escalada da violência, em um momento em que o país busca enfrentar outros desafios cruciais.

Um Fenômeno em Constante Evolução

A ruptura da frágil trégua entre PCC e CV ilustra uma característica fundamental do crime organizado brasileiro contemporâneo: sua extraordinária capacidade de adaptação e evolução. Estas organizações desenvolveram estruturas complexas que não apenas lhes permitem sobreviver às tentativas de repressão do Estado, mas frequentemente emergir dessas crises ainda mais fortes e sofisticadas.

O conceito de antifragilidade oferece uma ferramenta analítica poderosa para compreender este fenômeno, explicando como organizações como o PCC conseguem transformar ameaças existenciais em oportunidades de crescimento. Esta compreensão é crucial para o desenvolvimento de estratégias de segurança pública mais eficazes, que reconheçam que abordagens meramente repressivas podem, paradoxalmente, fortalecer aquilo que pretendem combater.

Para o Brasil, o desafio permanece monumental. Enfrentar organizações criminosas que se fortalecem com a adversidade requer não apenas medidas de segurança robustas, mas também intervenções estruturais para abordar as condições sociais e econômicas que alimentam o recrutamento e o apoio a essas facções nas comunidades mais vulneráveis. Enquanto isso, o país se prepara para enfrentar potencialmente um novo ciclo de violência, com a esperança de que as lições aprendidas com os erros do passado possam guiar uma resposta mais eficaz e menos contraproducente.

Referências: UOL, Folha de São Paulo, O Globo, Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), Secretaria Nacional de Administração Penitenciária (SENAPPEN), Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Insight Crime, Diálogo Américas e entrevista com Diorgeres de Assis Victorio.

Análise de IA do artigo: “Antifragilidade e o Primeiro Comando da Capital”

Análise sob o ponto de vista factual e de precisão

🗃️ Dados Fáticos Apresentados pelo Artigo:
  1. Trégua entre PCC e CV:
    • Estabelecida em fevereiro de 2025 e rompida oficialmente em abril de 2025.
    • Ambas facções lançaram comunicados (“salves”) semelhantes, destacando razões éticas.
  2. Justificativas Éticas Citadas:
    • PCC: “Mortes de inocentes assassinados por banalidade”.
    • CV: “Respeito à vida humana acima de tudo”.
  3. Razões Pragmáticas (segundo Lincoln Gakiya):
    • Interesses territoriais relativos ao controle do tráfico.
  4. Questão das “Regionalidades”:
    • Dificuldades internas em respeitar as regionalidades e opiniões distintas.
  5. Marcinho VP e discordância interna no CV:
    • Marcinho VP negou veementemente a existência dessa trégua desde o início.
  6. Estados com adesão parcial à trégua:
    • Minas Gerais, Amazonas, Acre, Roraima, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe.
  7. Apreensões de drogas em Mato Grosso do Sul:
    • Aumento de 151% no primeiro trimestre de 2025.
  8. Diferença estrutural entre as facções:
    • PCC centralizado e hierárquico.
    • CV descentralizado e “franquias” regionais.
  9. Uso estratégico da crise pelo PCC:
    • PCC historicamente aproveita crises (isolamento em presídios federais, Regime Disciplinar Diferenciado) para expansão.
  10. Violência extrema como fator catalisador:
    • Episódios específicos citados, como tortura e assassinato de civis por motivos banais.
🧐 Análise Factual e Precisão dos Dados em Comparação com a Base de Dados:
Informações Precisamente Confirmadas:
  • A origem histórica das facções está correta. PCC foi fundado em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté, e o CV nasceu nos anos 1970, em Candido Mendes (Ilha Grande), sob contexto de repressão na ditadura militar.
  • As características estruturais estão bem definidas e precisas: o PCC mantém uma estrutura rígida e verticalizada, enquanto o CV tem uma administração descentralizada, semelhante a franquias regionais.
  • A descrição sobre o promotor Lincoln Gakiya está correta, sendo conhecido publicamente pela sua atuação e constantes ameaças sofridas do PCC.
🔶 Informações que necessitam de cautela interpretativa:
  • “Justificativas éticas”: embora as facções frequentemente emitam comunicados com discursos moralistas, tais afirmações são geralmente retóricas e propagandísticas. Não há evidências históricas sólidas indicando que esses argumentos éticos sejam fatores reais para tomada de decisões estratégicas internas.
  • A afirmação de Marcinho VP sobre “fake news” também deve ser interpretada como parte de uma possível estratégia interna ou retórica para evitar exposição perante autoridades.
⚠️ Elementos Improváveis ou Necessitando Confirmação Externa:
  • O dado específico sobre aumento de 151% nas apreensões de drogas no Mato Grosso do Sul é bastante pontual e exigiria validação oficial detalhada. Normalmente, variações tão específicas necessitam confirmação de órgãos oficiais ou fontes policiais verificáveis.
  • O episódio relatado de tortura envolvendo um turista obrigado a comer partes do próprio corpo é extremamente grave e específico. Apesar de plausível dentro do contexto da violência extrema brasileira, dados assim devem ser confirmados com relatórios oficiais ou investigações judiciais específicas para serem considerados totalmente factuais.
📌 Precisão do Uso do Termo “Antifragilidade”:
  • O uso do termo “antifragilidade”, conceituado originalmente por Nassim Nicholas Taleb, está corretamente aplicado. De fato, facções criminosas, especialmente o PCC, têm demonstrado capacidade sistemática de usar adversidades como alavanca para expansão e consolidação. Esta interpretação está alinhada ao uso acadêmico e analítico do conceito.
🎯 Conclusão da Análise:

De maneira geral, o artigo está bem fundamentado quanto às origens históricas, estruturas internas e comportamentos estratégicos do PCC e CV, alinhando-se com o que é conhecido e documentado pelas autoridades brasileiras e internacionais de segurança pública.

Entretanto, algumas afirmações pontuais, especialmente relativas a dados percentuais específicos e episódios de extrema violência, exigiriam validação adicional. As citações de agentes públicos como Lincoln Gakiya acrescentam credibilidade ao texto, dado seu histórico conhecido e documentado publicamente.

A aplicação do conceito de antifragilidade como ferramenta analítica para o comportamento das facções é adequada e bem embasada em conceitos sociológicos e de segurança pública reconhecidos pela literatura especializada.


Análise sob o ponto de vista de Políticas de Segurança Pública

1 │ Panorama Estratégico

O episódio da trégua-relâmpago PCC-CV (fev.–abr./2025) expõe vulnerabilidades clássicas da política de segurança pública brasileira: inteligência fragmentada entre estados, gestão penitenciária permeável e ações predominantemente reativas. O resultado é a “antifragilidade” — facções que se fortalecem sob pressão.

2 │ Lições para a Política Penitenciária
Fato observadoImpacto de políticaAvaliação
Salves simultâneos romperam a trégua (29.abr.2025) (UOL Notícias)Cadeias federais/estaduais reagiram sem protocolo nacional; presos souberam antes que gestoresFalta de central de alerta interprisional; comunicação estatal ainda passiva
Pedidos de transferência de 37 presos do PCC para cadeias do CV durante a trégua (UOL Notícias)Facções manipulam logística carceráriaNecessário classificar internos por risco/aliança e blindar rotinas de transferência
Objetivo da aliança: afrouxar regime, planejar fugas (UOL Notícias)Reforça uso estratégico das prisões como “QGs”Urge separar lideranças, restringir visitas presenciais de advogados cooptados, ampliar bloqueio de sinal

Recomendação-chave: instituir Centro Nacional de Contingência Penitenciária sob MJSP, com protocolos unificados de inteligência e resposta rápida a “salves” e motins.

3 │ Governança Territorial e Policiamento Integrado
  1. Disseminação desigual da trégua (apenas 9 estados confirmaram) indica que a PM e as secretarias civis carecem de padrões de compartilhamento de SIG-inteligência.
  2. Explosão de apreensões (-151 %) em MS sinaliza que rotas interestaduais se ajustam em horas, testando a lentidão das forças conjuntas.
  3. Expansão do CV na Bahia e retomada de conflitos no Ceará revelam falhas em programas locais de ocupação territorial sustentada (UPP baiano ainda embrionário, GDE sem contenção).

Recomendação-chave: consolidar Força-Tarefa Interfronteiras (PF, PRF, PM, Receita) com comando único e metas mensais por corredor logístico (MS, Acre, Roraima, BR-163).

4 │ Finanças Ilícitas e Antifragilidade

O PCC ampliou rede europeia/latino-americana ao ser “espalhado” pelo RDD, transformando sanção em vetor de expansão. Sem sufocar lavagem de capitais (criptomoedas, laranjas, fretes), qualquer choque repressivo vira oportunidade.

Recomendação-chave: replicar modelo da Operação Spectrum (Itália) — forças financeiras estaduais destacam analistas no COAF, cruzando dados fiscais em tempo real com SIG-inteligência penitenciária.

5 │ Prevenção Social e Controle de Narrativa

As “justificativas éticas” dos salves mostram tentativa de legitimação comunitária. Programas estatais devem disputar essa narrativa:

  • Escolas cívico-militares e CEU Cultura nas periferias críticas precisam de custeio contínuo, não apenas inauguradas na crise.
  • Comunicação governamental deve neutralizar a retórica de “defensores do povo” — hoje feita só por coletivas pós-fato.
6 │ Conclusões Operacionais
DesafioAção imediataAção estrutural
Inteligência fragmentadaProtocolo nacional de “salve alert” em 24 hBanco de dados único (tipo Fusion Center)
Prisões como hubsBloqueio de sinal + videoconferência obrigatóriaRevisão da Lei de Execução Penal para classificar por rede criminosa
Lavagem de dinheiroMandados ALM (alerta-lavagem) em cripto corretorasLei de Confisco Ampliado e laboratórios de dados estaduais
Legitimidade socialForça-tarefa de comunicação preventiva em redesProgramas de prevenção terciária (emprego pós-prisão)

Sem integração federativa, a política continuará “antifrágil” para o crime e frágil para o Estado. A janela aberta pelo fracasso da trégua é curta: planejar além da repressão é decisivo antes que a próxima aliança surja em forma ainda mais resiliente.


Análise sob o ponto de vista da Teoria da Associação Diferencial (Edwin Sutherland).

1 │ Princípios-chave da teoria e conexões com o artigo
Princípio da Associação DiferencialEvidência no textoImplicações analíticas
Crime é comportamento aprendidoA “Lei do Crime” funciona como “carta magna” interna; estatutos, rituais de entrada e “salves” ensinam regras de condutaFacções não dependem apenas da coação: elas socializam novos membros por instrução direta e observação
Aprendizado ocorre em interação com outrosParlatórios, advogados-mensageiros, grupos em presídios federaisPresídio torna-se “escola” criminosa: densidade de interação eleva taxa de difusão de normas
Aprende-se técnica e justificativasComunicados mencionam “ética” e proteção de inocentes; violência extrema é, em tese, punidaOs “motivos” declarados (ética, justiça) são definições favoráveis que legitimam o crime e regulam excessos
Frequência, duração, prioridade, intensidadeEstrutura piramidal do PCC garante contatos frequentes e intensos; CV tem contatos mais esporádicos e regionaisExplica por que o PCC mantém coesão superior: maior tempo de exposição a definições criminógenas uniformes
Excesso de definições favoráveisTerritórios sob controle das facções oferecem emprego, proteção e status ao afiliadoAo superar definicões contrárias (“Estado é opressor”), facção cria “normalidade” criminal nas periferias
2 │ Dinâmica da trégua e ruptura sob a ótica da teoria
  1. Proposta de trégua
    Aprendizado cooperativo entre elites carcerárias: eles testam novas “definições” favoráveis à cooperação (reduzir confrontos sob repressão estatal).
  2. Ausência de consenso regional
    Contatos no CV são menos frequentes/intensos entre bases e cúpula; definições de hostilidade antigas continuam dominantes fora do Rio—daí o colapso do acordo.
  3. “Salves” como ferramenta pedagógica
    Quando rompem a trégua, os líderes enviam mensagens padronizadas que reconfiguram, quase instantaneamente, as definições dominantes (de “aliado circunstancial” para “inimigo”).
  4. Violência simbólica (gesto com dedos)
    Pequenos sinais carregam significados internalizados: servem de exame prático para demonstrar lealdade; erro no “código” desencadeia violência exemplar que reafirma normas.
3 │ Por que o PCC é estruturalmente mais “antifrágil”
FatorLeitura pela Associação Diferencial
Hierarquia centralizadaGarante homogeneidade das definições favoráveis; cada transferência de liderança expande a malha de contatos
Sistema de “Sintonias”Multiplica frequência e intensidade da comunicação criminógena, mesmo em isolamento
Narrativa moralista (Paz, Justiça, Liberdade)Fornece justificativa ideológica que atrai recrutas e neutraliza culpabilidade

Resultado: choques externos distribuem líderes (mais contatos), fortalecem fluxo de aprendizados e ampliam o “excesso de definições favoráveis”.

4 │ Tensões explicadas pela teoria
  • Autonomia regional do CV: múltiplos “sub-grupos” geram variação normativa; ausência de unanimidade alimenta conflitos internos.
  • Escalada de violência contra civis: quando definições de contenção perdem força, surge “licença moral” para atos extremos—um teste de lealdade.
  • Interesse estatal como variável de reforço: repressão seletiva, sem desmantelar canais de comunicação, inadvertidamente aumenta frequência de interações criminais em presídios.
5 │ Como a análise ilumina políticas de intervenção
  1. Quebrar redes de transmissão
    • Isolar lideranças sem permitir rotatividade entre alas;
    • Limitar visitas de advogados não cadastrados;
    • Reduzir clustering de membros da mesma facção.
  2. Introduzir contradefinições de alta intensidade
    • Programas de educação e trabalho remunerado intramuros que gerem contatos frequentes com modelos pró-sociais;
    • Mentores comunitários estaduais atuando no “front” das periferias dominadas—contraponto simbólico aos “salves”.
  3. Desacelerar frequência de comunicações clandestinas
    • Bloqueio tecnológico, inspeção de correspondência jurídica e digital;
    • Protocolos mais curtos de permanência em presídios para reduzir duração dos contatos entre líderes e base.
Reflexão final

A Associação Diferencial sugere que o maior campo de batalha não é apenas físico, mas cognitivo e relacional: quem controla o fluxo e o conteúdo das mensagens molda o comportamento.
Como você percebe, Wagner, cada nova política que não considere esse “aprendizado social” corre o risco de produzir exatamente o contrário do esperado—mais coesão e mais antifragilidade. Será que estamos preparados para disputar, palavra a palavra, o manual pedagógico do crime?

Companheira Guānyīn do Primeiro Comando da Capital (PCC)

Este texto narra a vida de Companheira Guānyīn, uma figura misteriosa da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC 1533). Acompanhe sua trajetória desde a infância até se tornar uma figura respeitada no mundo do crime, destacando sua habilidade única em pacificar corações em meio a um ambiente violento.

Companheira Guānyīn, uma figura envolta em mistério, transformou-se em lenda do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Sua jornada, entrelaçada com a ascensão da facção, é uma narrativa de coragem e enigma. Descubra como essa enigmática personagem influenciou e foi moldada pelo mundo do crime, um relato que captura a essência de uma era turbulenta.

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Público Alvo:
Pessoas interessadas em histórias de crime organizado e drama urbano.
Leitores de narrativas realistas e críticas sociais.
Estudantes e pesquisadores em criminologia e sociologia urbana.

Companheira Guānyīn: Mistério e Intriga no Mundo do Crime

Nasci em 1990, o que me faz ter 33 anos hoje. O Primeiro Comando da Capital foi fundado em 1992, então, considerando isso, sou dois anos mais velho que a poderosa organização criminosa paulista. Me envolvi por volta de 2014, embora já acompanhasse os mais velhos desde 2012 ou 2013, quando começaram a se envolver em atividades criminosas.

Naquela época, o PCC ainda estava em expansão, principalmente em São Paulo, focando na organização e controle das áreas de tráfico. Para mim, naquele momento, era apenas uma gangue local, mas agora, aos 33 anos, vejo-os como uma máfia poderosa e séria.

Quando me envolvi, só via o que acontecia na quebrada, quando muito no bairro, mas acho que é assim com todo mundo. Apesar de ter conseguido sair do crime sem grandes dificuldades, algo que ocorreu durante o tempo em que estive na prisão ainda me intriga.

Mesmo eu, que não costumo acreditar em coisas sobrenaturais, me questiono sobre a veracidade das histórias que circulavam a respeito da Companheira Guānyīn. Ela era uma figura leal ao Primeiro Comando da Capital, porém tão intrigante e misteriosa para todos na comunidade onde crescemos.

Certas perguntas persistem em minha mente, insistentes e inquietantes: teria o Sr. Hiroshi descortinado uma verdade que a todos escapava? Por que a simples lembrança da companheira Guānyīn parece dissipar pesos e despertar suspiros entre aqueles que uma vez cruzaram seu caminho? É como se a mera menção de seu nome exorcizasse nossos pecados, concedendo-nos, ainda que por um momento, uma inexplicável sensação de alívio e leveza.

Companheira Guānyīn: a Saga de uma Mística Urbana

Minha infância e a de Guānyīn se entrelaçaram quando ela chegou ao nosso bairro na Zona Norte de São Paulo. Ambos devíamos ter nossos 10 ou 12 anos. Ela se mudou para lá como uma figura enigmática em meio à simplicidade da vida cotidiana, enquanto eu, desde as mais tenras lembranças, respirava o ar daquele lugar. O Sr. Hiroshi era um vizinho ainda mais enigmático; sua presença parecia anteceder as memórias mais antigas dos moradores, como se suas raízes estivessem fundidas ao próprio nascimento do bairro.

Talvez seja por isso que havia um respeito unânime que transcendia as divisões sociais, dos traficantes às patrulhas policiais. Todos, sem exceção, lhe prestavam uma deferência quase solene. Nós, crianças, em nossa ingênua transgressão, nunca nos atrevíamos a desafiar os limites de seu quintal, mesmo que as goiabas maduras exalassem seu doce convite — tal era a magnitude de sua estima na vizinhança.

A virada do século trouxe um sopro de novidade, um ar carregado de esperança. Estávamos em 2000, um número redondo, símbolo de um recomeço que se materializava nas ruas do nosso bairro com a chegada de uma nova família. Guānyīn, junto de sua mãe e seus irmãos, entrava em nossa vida, trazendo consigo a aura de um futuro promissor. Meus olhos de menino, então, mediam os novos garotos — potenciais parceiros de brincadeiras ou rivais nas disputas. Mas foi a menina que capturou a atenção do Sr. Hiroshi.

da Reverência oriental à zombaria da molecada

Da varanda, Sr. Hiroshi assistiu à chegada com um olhar que parecia transcender o tempo, carregado de uma sabedoria antiga. Seus olhos encontraram Guānyīn e, num instante de solene reconhecimento, ele a chamou de ‘Bodisatva’. Ela respondeu com um sorriso. Naquele tempo, nem eu nem ninguém da molecada entendia o verdadeiro significado desse nome.

A molecada, sempre ávida por uma chance de zombaria, não deixou passar a oportunidade: e o nome sagrado virou um apelido grotesco, ‘Bode Zá’. E ela, com a mesma serenidade com que sorriu para o Sr. Hiroshi, aceitou nosso apelido cruel com um sorriso. Um sorriso que, refletindo agora, talvez escondesse uma força e uma resiliência que ainda estavam por emergir.

Aquelas brincadeiras impiedosas, em sua brutalidade cruel, forjaram o caráter de Guānyīn. A crueldade que despejávamos sobre ela, atuaram como uma lixa áspera, raspando sua pele e sua alma com uma dor incessante. Cada risada escarnecedora, cada vez que repetíamos ‘Bode Zá’, o apelido maldoso, era uma passagem de um esmeril, que, embora a machucasse profundamente, paradoxalmente a endurecia.

E hoje, ela caminha entre nós envolta em respeito, venceu nosso desprezo, saindo como uma companheira admirada por todos.

Estávamos, sem perceber, temperando seu espírito, transformando-a numa força mais resistente e implacável, capaz de enfrentar as adversidades com uma tenacidade que poucos de nós poderiam imaginar.

O Caminho Inesperado de Guānyīn para a Iluminação

Na selva de concreto da periferia, as regras do jogo eram claras: apenas os mais resistentes sobreviviam às provações. Para nós, garotos acostumados com a dureza das ruas, isso já era desafiador o suficiente. Mas para uma menina, o desafio era quase insuperável. Era uma questão de sobrevivência, e as meninas, conhecendo bem a brutalidade de nosso mundo, se agrupavam entre elas como forma de resistência. No entanto, Guānyīn, batizada sob o calor áspero de nossa zombaria como ‘Bode Zá’, traçou um caminho diferente.

Talvez sem esses batismos de fogo, sem as cicatrizes deixadas por nosso comportamento selvagem, ela nunca teria se erguido como a figura que agora comanda respeito.

A jornada dela, marcada por nossa crueldade impiedosa, é um testemunho amargo de que as adversidades e as maldades que enfrentamos são, muitas vezes, os artífices dos traços mais profundos de nosso ser.

‘Bodisatva’, o nome dado por Sr. Hiroshi, refere-se a um ser iluminado que adia sua entrada no Nirvana para auxiliar os outros a alcançarem a iluminação. Hoje, ao refletir, percebo a precisão daquela denominação. Mas, paradoxalmente, vejo também que foi a brutalidade de nossa infância, a ferocidade de nossas brincadeiras, que a cunharam para esse destino. Fomos nós, com nossas risadas cruéis e nossos apelidos mordazes, que inadvertidamente a preparamos para se tornar a ‘Bodisatva’, uma luz em meio à escuridão de nossas próprias criações.

A Família de Guānyīn

Inaiê, mãe de Guānyīn, era uma figura de profunda devoção e raízes ancestrais. Católica fervorosa, descendente dos povos originários, dedicava-se incansavelmente à sua família, esforçando-se para manter uma aparência impecável para seus filhos. As camisetas brancas dos uniformes escolares deles brilhavam como nuvens no céu mais límpido, e o azul das calças tinha a profundidade do oceano. Nessa rotina de cuidados e atenção, ela tecia um manto de harmonia sobre o lar que despertava uma inveja velada entre os moleques da vizinhança.

Os irmãos de Guānyīn, alvos da minha avaliação inicial sobre potenciais aliados ou adversários, rapidamente se mostraram que não se enquadrariam dentro das categorias que existiam em nossa comunidade: algozes e vítimas, amigos e inimigos. Durante a semana, juntavam-se a nós nos jogos de futebol, misturando-se facilmente com os outros garotos até a hora de retornarem para casa para o almoço. Nos fins de semana, eram presenças constantes nas ruas, seja empinando pipas ou mergulhando em outras atividades comuns, mas mantinham uma distância curiosa – nunca convidando ninguém para suas casas nem aceitando convites para entrar nas nossas.

Havia algo estranhamente reservado neles. Iam embora quando a atmosfera se tornava mais tensa ou quando adultos ou garotos mais velhos se aproximavam. Não eram de buscar confusão, mas havia uma solidariedade feroz entre eles; como um círculo de bisões que se fechava protetoramente ao redor de um membro ferido. A menina Guānyīn, entretanto, era um caso à parte.

Ela parecia orbitar em torno deles e, ao mesmo tempo, manter uma individualidade distinta, como se estivesse ligada por laços invisíveis, mas ainda assim trilhasse seu próprio caminho solitário.

Diferentemente de seus irmãos, Guānyīn tinha uma maneira própria de se inserir no nosso círculo. Ela se sentava entre os garotos, participando das conversas com uma presença discreta, mas marcante. Não era de falar muito, mantendo sempre uma distância cautelosa dos garotos que tentavam se aproximar, mas seus olhos carregavam um sorriso cativante que falava mais do que palavras. Sua mãe e irmãos nunca intervieram ou questionaram suas companhias, não por negligência ou desdém, mas por uma confiança inabalável nela.

A única figura que demonstrava preocupação com as ‘más influências’ que representávamos era o Sr. Hiroshi. Sempre que nos via juntos, ele vinha, com uma mistura de autoridade e cuidado, retirá-la do grupo. Guānyīn saía ao seu lado, sempre amável e educada, mas era questão de tempo até ela se esgueirar de volta, como se aquele breve intervalo nunca tivesse existido. Entre todos nós, ela foi a primeira de nós a entrar para o mundo do crime.

A Efervescência do Crime na Virada do Século

Naqueles anos de mudança de século, o tempo parecia fluir de maneira diferente para nós, garotos da quebrada. Nem eu e nem os moleques da nossa rua éramos envolvidos com o tráfico, só éramos bagunceiros mesmos, mas na nossa vizinhança, a rivalidade entre as biqueiras fervilhava e no ano de 2004, era um barril de pólvora pronto para explodir a qualquer momento.

A ameaça constante de violência pairava no ar; uma disputa territorial que podia se transformar em carnificina sem aviso.

Em Guarulhos, bem ali ao lado, um novo grupo de criminosos estava ganhando força: a facção CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade). Eles estavam ganhando poder e, de vez em quando, seus tentáculos se estendiam até o nosso bairro, trazendo consigo uma onda de terror e incerteza, que se somava às lutas internas das biqueiras e das gangues de rua.

A Jornada Solitária de Guānyīn no Coração do Crime

Enquanto nós, os garotos da rua, mantínhamos uma distância cautelosa do crime, Guānyīn trilhou um caminho radicalmente oposto. Afastando-se do nosso círculo, ela começou a frequentar a praça de esportes, localizada a algumas quadras de distância. Esse lugar era notório por ser o epicentro do tráfico em nossa região, o verdadeiro coração das atividades ilícitas, de onde as drogas eram distribuídas para as demais biqueiras do bairro.

A presença de Guānyīn ali, uma menina que acabara de completar 14 anos, era algo que nos causava estranheza. Todos os dias, ela caminhava em direção à praça com uma tranquilidade inacreditável, como se estivesse se dirigindo a uma igreja para a missa, não a um dos lugares mais perigosos da região metropolitana de São Paulo.

… 2004 foi o momento mais tenso da história do crime naquele bairro, para você ter uma ideia, a taxa de homicídios era de 44 mortos, e hoje, que muita gente acha violento, não passa de 7.

Essa serenidade inabalável de Guānyīn, em meio a um cenário de medo e violência, fazia com que sua figura se destacasse, como uma plácida ovelha branca em uma matilha esfomeada de lobos. Ela parecia procurar sempre o lugar mais tenso, mais perigoso e, apesar da pouca idade, onde chegava, sentava-se como se fosse velha conhecida e em pouco tempo ganhava a confiança e se enturmava, mas sempre com aquele seu jeito: ouvia com atenção, sorria e falava poucas palavras.

A primeira “responsa” de Guānyīn no mundo do crime

Antes de prosseguir, preciso dizer para você que tudo que relatei até agora são acontecimentos dos quais fui testemunha direta, fatos que vivenciei e que são parte integrante da minha vida e história. No entanto, a partir deste ponto, as informações que compartilho vieram de conversas pelas ruas. Eu apenas via Guānyīn ocasionalmente, já que eu não era frequentador da praça de esportes.

Naquela praça, abordagens policiais eram uma ocorrência quase diária, e por vezes várias vezes em um dia. Em meio à tensão constante da guerra pelo controle dos pontos de droga, a presença de armas no local tornou-se uma necessidade.

Várias estratégias eram empregadas pelos traficantes que atuavam no local, mas frequentemente as armas acabavam nas mãos da polícia, e um dos jovens presentes era escolhido pelos policiais para ser incriminado pelo porte da arma encontrada. Foi então que alguém teve a ideia de Guānyīn guardar a arma.

A Ascensão Inesperada de Guānyīn

Curiosamente, ela nunca era revistada. Durante as abordagens policiais, ela se afastava calmamente, aguardando o término da ação, para depois retornar ao seu lugar, como se nada tivesse acontecido. Isso se mantinha verdadeiro mesmo quando havia uma policial feminina na operação, que poderia, em teoria, revistá-la.

Este fenômeno se estendia até mesmo em situações onde outras garotas estavam presentes entre os rapazes. Normalmente, a polícia separava as meninas, revistava os homens e chamava uma policial feminina para revistar as garotas. No entanto, mesmo nessas circunstâncias, Guānyīn, com sua serenidade habitual, permanecia de lado, apenas observando. Por alguma razão inexplicável, nunca era abordada para a revista, e as outras meninas pareciam aceitar esse tratamento diferenciado sem revolta, como se compreendessem.

E assim, a nossa pequena ‘Bode Zá’, assumiu sua primeira ‘responsa’ nas ruas. Ela se tornou a ‘fiel que ficava com o cano’, ou a ‘armeira’, conforme alguns preferiam chamar. A jovem Bodisatva, com apenas 14 anos, já desempenhava um papel crucial na dinâmica do tráfico na quebrada.

Guānyīn: Coragem e Astúcia no Coração do Conflito

Guānyīn demonstrava uma objetividade impressionante ao assumir ‘responsas’, mantendo-se também firme na decisão de não se envolver sexual ou romanticamente com nenhum dos frequentadores do local. O valor que ela cobrava por ‘ficar com o cano’ era um mistério, mas todos concordavam que não deveria ser uma quantia insignificante. Apesar de sua aparência inofensiva, era consenso que ela havia negociado astutamente antes de aceitar sua participação no esquema do tráfico.

Pouco tempo após assumir a guarda da arma, um episódio testou sua lealdade com os irmãos. Um grupo de homens invadiu o local, causando um clima de intimidação e medo. Enquanto alguns se afastavam discretamente e outros se submetiam, apenas uma minoria se levantou para confrontá-los. Foi nesse momento de medo e tensão que Guānyīn mostrou seu sangue frio.

A pequena menina se posicionou entre os dois grupos, de costas para o gerente do tráfico, e discretamente passou a arma para ele, sem que os invasores percebessem. Diferentemente das outras vezes, ela não se afastou. Permaneceu ali, imóvel, uma presença silenciosa, mas imponente.

O desfecho daquele confronto poderia ter sido trágico, lembro de uma chacina ocorrida dias antes em um bar nas proximidades, possivelmente pelos mesmos invasores.

Na praça de esportes, contudo, a tensão não se transformou em violência, um fato surpreendente dadas as circunstâncias. A presença de Guānyīn, embora pequena e aparentemente frágil, erguia-se como uma muralha intransponível. Nenhum dos grupos se atreveu a desafiá-la, talvez temendo feri-la, talvez sentindo-se intimidados por uma força misteriosa que ela emanava, ou talvez simplesmente porque o destino não havia traçado aquele caminho de confronto.

O que todos comentavam, e que posso afirmar com certeza, é que Guānyīn permaneceu ali, uma figura pequena e silenciosa, mas irradiando uma autoridade que neutralizava qualquer ímpeto de violência. Ela se posicionava entre os dois grupos com uma aura quase sobrenatural, uma força silenciosa e imponente que ninguém parecia capaz, ou mesmo disposto, a desafiar.

Aquele incidente marcou o último grande ataque contra o tráfico na região antes da chegada do Primeiro Comando da Capital, que ainda não havia estabelecido sua presença e pacificado aquele setor da quebrada. Foi um momento decisivo, um prenúncio da mudança de poder que estava por vir, e Guānyīn estava no centro de tudo.

A Ascensão de Guānyīn na Era do PCC

Posso dizer com certeza que, assim como o Sr. Hiroshi era uma presença estabelecida muito antes da formação do nosso bairro, Guānyīn já estava entre nós antes da chegada da facção paulista. Ela já atuava no tráfico da quebrada no momento do incidente que descrevi, um ponto de virada que precedeu a aliança dos traficantes locais com o PCC, uma organização criminosa em ascensão nas periferias paulistanas, especialmente entre 1998 e 2006.

A chegada do PCC trouxe mudanças significativas. A tensão constante, que até então parecia prestes a explodir, começou a diminuir. A facção impôs regras estritas, incluindo a proibição da exibição de armas em público e a exigência de respeito para com os moradores locais. Ações comunitárias passaram a ser incentivadas.

Por outro lado, essa nova ordem também trouxe uma rigidez severa na cobrança de condutas por parte do Tribunal do Crime do PCC. Guānyīn, apesar de sua postura reservada e autoridade natural, não escaparia, em um futuro breve, do julgamento das lideranças desta organização criminosa.

Com a pacificação da quebrada e a consequente integração dos traficantes e criminosos locais ao esquema do Primeiro Comando da Capital, houve uma expansão significativa dos negócios.

Guānyīn, a nossa pequena ‘Bode Zá’, passou a ser respeitada por todos como Companheira Guānyīn, uma mudança que refletia sua crescente influência e status. Ela soube capitalizar rapidamente as novas oportunidades que surgiram com essa transformação, e assim que fez 16 anos, toda semana, Guānyīn se dirigia ao Terminal Tietê, de onde partia para Campinas carregando uma mochila cheia de tijolos de cocaína. Em suas viagens de retorno, ela trazia armas e munições, consolidando ainda mais sua posição estratégica dentro do esquema da facção.

Companheira Guānyīn Sob o Olhar da Facção

Guānyīn estava assumindo papéis cada vez mais significativos dentro da organização. Sempre que havia um planejamento de assaltos ou sequestros mais complexos, sua presença era requisitada. Apesar de nunca ter manuseado uma arma, sua contribuição era vital em todas as fases da operação. Ela se envolvia desde o planejamento inicial, coletando informações cruciais sobre o alvo, até a fase de execução, onde atuava na contenção da vítima durante o sequestro. Sua participação garantia um desfecho tranquilo para as operações; sua habilidade em manter a calma e controlar a situação era notável.

A participação da Companheira Guānyīn , mesmo nas situações mais tensas do cativeiro, ela conseguia acalmar os ânimos, a ponto de as próprias vítimas parecerem menos afetadas pelo sequestro.

Era essa capacidade excepcional de Guānyīn que capturava a atenção de todos, inclusive das lideranças da facção criminosa. Embora esses líderes não convivessem diretamente com ela, os relatos de suas habilidades chegavam aos ouvidos deles dentro dos presídios.

A fama de Guānyīn como uma figura capaz de executar as tarefas mais desafiadoras com uma eficiência quase sobrenatural começou a se espalhar. Essa reputação, tão admirada por uns, acabaria por pavimentar a estrada que a levaria ao inferno.

A Companheira Guānyīn é mandada ao inferno

Por trás das muralhas, as histórias que circulavam sobre Guānyīn eram bem diferentes daquelas contadas por aqueles que a conheciam pessoalmente. Surgiram suspeitas e questionamentos acerca de sua lealdade e da possibilidade de ela ser uma infiltrada da polícia. As dúvidas se acumulavam: Por que ela nunca era parada ou revistada em batidas policiais? Por que a quantidade de drogas vendidas nos pontos que ela frequentava diminuía sem explicação aparente? E por que tantos que a conheciam evitavam falar sobre ela? Essas questões, sem respostas claras, começaram a gerar uma atmosfera de desconfiança.

Além disso, o mistério em torno de suas ações pessoais aumentava. O que Guānyīn fazia com o dinheiro que ganhava, já que não comprava nada e não ostentava riqueza? Por que ela nunca saía à noite e o que fazia em seus horários de folga? Por que ainda morava com sua mãe e irmãos e nunca recebia visitas em casa? Essa mulher, agora com 18 anos, se tornou um enigma para a liderança da organização, que não conseguia decifrar sua verdadeira natureza ou intenções. A estranheza em torno de Guānyīn passou a preocupar profundamente os líderes da facção, que se viam incapazes de explicar sua presença e comportamento dentro do grupo.

Diante da falta de evidências concretas para punir Guānyīn e considerando o desconforto persistente que ela causava entre os membros da facção que não a conheciam pessoalmente, a liderança do Primeiro Comando da Capital tomou uma decisão drástica: Guānyīn deveria ser enviada para o inferno.

É uma regra do PCC que ninguém é obrigado a aceitar uma missão, mas uma vez aceita, não há como recuar. Com essa norma em mente, um irmão da quebrada foi encarregado de convencer Guānyīn a aceitar seu novo destino. A missão era perigosa: ela deveria se dirigir ao Ceará, um estado onde a guerra entre facções criminosas estava no seu ponto mais crítico.

Para a surpresa geral, Guānyīn aceitou a tarefa sem hesitação, sem questionar as motivações por trás dessa escolha ou as implicações de aceitar tal desafio.

Guānyīn: de Companheira para Cunhada

A última vez que vi Guānyīn foi em 2008. Naquela época, sua mãe já se dedicava exclusivamente ao cuidado do Sr. Hiroshi, e seus irmãos haviam estabelecido suas próprias famílias na vizinhança. Guānyīn, contudo, estava prestes a embarcar em um novo capítulo, um cenário ainda mais perigoso que o mundo do crime de São Paulo.

Para lhe dar uma ideia, o atual conflito em Israel elevou a taxa de mortalidade na Palestina para 68 mortes por 100.000 habitantes. De maneira surpreendente, a taxa de homicídios na região do Ceará para onde Guānyīn foi enviada também era de 68. Era como se ela estivesse sendo enviada para o inferno que se tornou a Faixa de Gaza sob os bombardeios israelenses.

Não tenho informações sobre o período de Guānyīn no Ceará, mas sei que, anos depois, membros da facção cearense negociaram seu retorno a São Paulo. Esse retorno não foi um pedido dela, mas talvez motivado pela mesma razão que a levou para lá: a inexplicável habilidade de Guānyīn em acalmar corações, algo que era considerado inaceitável em meio ao contexto de guerra.

Eu entrei para o crime em 2014, quando toda essa história já era passado. Ao retornar a São Paulo, Guānyīn não veio para a nossa quebrada, mas para a Zona Sul, casada com um ‘irmão’ da região que tinha sido enviado ao Ceará para organizar ataques contra o Comando Vermelho (CV) e articular ações com os Guardiões do Estado (GDE). Ela não era mais vista como ‘companheira’, mas como ‘cunhada’, e até onde eu saiba, não mais atuava no crime.

Nosso reencontro ocorreu anos depois, em um presídio onde eu e o marido de Guānyīn estávamos encarcerados. Ela vinha visitá-lo, e sua presença no pátio das visitas era como uma aura de paz que acalmava a todos. Essa paz me influenciou profundamente, e ali decidi que não queria mais aquela vida. Hoje trabalho em uma indústria, afastado do crime organizado.

Por mais que eu quisesse, as regras do Primeiro Comando da Capital me impediam de falar com ela durante as visitas. Tive que me contentar em baixar os olhos quando ela passava. No entanto, sempre me perguntei o que teria acontecido com a ‘Bode Zá’, que tanto impacto teve em tantas vidas, incluindo a minha.

Análise de IA do artigo: “As mulheres são fundamentais para o PCC 1533”

TESES DEFENDIDAS PELO AUTOR E AS RESPECTIVAS CONTRATESES

  • Tese 1: A Força Transformadora da Adversidade
    Argumento do Autor: Guānyīn, apelidada de ‘Bode Zá’, transformou-se de uma menina zombada em uma figura respeitada, demonstrando como a adversidade e a crueldade podem forjar indivíduos fortes e respeitados.
    Contratese: Poderia ser argumentado que a crueldade e as zombarias que Guānyīn enfrentou na infância não deveriam ser vistas como elementos positivos em sua formação. Ao invés de glorificar essas experiências, dever-se-ia reconhecer o dano psicológico e emocional que tais abusos podem causar.
  • Tese 2: Mistério e Carisma de Guānyīn
    Argumento do Autor: A presença de Guānyīn trazia calma e alívio para aqueles ao seu redor, sugerindo uma aura quase sobrenatural.
    Contratese: Alguns poderiam argumentar que a influência de Guānyīn é exagerada no texto, atribuindo-lhe características quase místicas que podem minimizar o entendimento de suas ações reais e suas consequências no contexto do crime organizado.
  • Tese 3: Integração e Ascensão no PCC
    Argumento do Autor: Guānyīn foi capaz de se integrar e ascender dentro do Primeiro Comando da Capital, adaptando-se e aproveitando oportunidades.
    Contratese: Pode-se questionar se a narrativa romantiza ou simplifica demais a complexidade e os desafios de se navegar e ascender em uma organização criminosa, talvez ignorando as nuances éticas e morais envolvidas.
  • Tese 4: O Poder da Lealdade e da Autoridade
    Argumento do Autor: Guānyīn era vista como uma pessoa de lealdade e autoridade inquestionáveis, uma figura que, apesar da juventude, comandava respeito e obediência.
    Contratese: A noção de que uma jovem poderia alcançar tal status em uma organização criminosa pode ser vista como pouco realista ou idealizada, não refletindo adequadamente as dinâmicas de poder e a violência inerentes ao crime organizado.

Análise sobre Guānyīn contrapondo a personagem mítica a do artigo


A personagem principal do texto, Companheira Guānyīn, apresenta um paralelo interessante com Guanyin, a figura do budismo. Guanyin no budismo é conhecida como a “Deusa da Misericórdia”, um bodisatva que representa a compaixão e é frequentemente retratada ouvindo as preces e aliviando o sofrimento dos seres. A natureza de um bodisatva, segundo o budismo, é alguém que busca a iluminação, não apenas para si, mas para todos os seres, adiando sua entrada no nirvana para ajudar os outros.

Análise e Comparação:

  1. Serenidade e Pacificação: A Companheira Guānyīn do texto é descrita como uma figura que, apesar de estar imersa no mundo do crime, carrega uma aura de tranquilidade e tem a habilidade de acalmar aqueles ao seu redor. Isso espelha a figura de Guanyin budista que traz consigo paz e compaixão.
  2. Isolamento e Individualidade: A Companheira Guānyīn, apesar de estar cercada por pessoas, mantém uma distância emocional e uma individualidade marcante. Isso pode ser visto como uma representação do caminho solitário de um bodisatva, que, embora esteja no mundo, não é completamente parte dele devido à sua natureza espiritual elevada.
  3. Envolvimento no Crime: A reincarnação como uma figura envolvida no crime parece contraditória ao papel tradicional de um bodisatva. No entanto, pode ser interpretada como uma manifestação de compaixão em um ambiente onde ela é mais necessária, mesmo que isso signifique transgredir normas sociais convencionais para ajudar os outros de maneiras não tradicionais.

Contra Teses:

  • Ambiente de Violência: A ideia de um bodisatva atuando no mundo do crime vai contra a noção budista de não-violência (ahimsa). A verdadeira compaixão, de acordo com o budismo, não deve envolver ações que causem dano ou sofrimento a outros seres.
  • Motivações e Ações: A Companheira Guānyīn do texto, embora possua algumas características de compaixão, atua de forma a se beneficiar dentro do contexto criminoso. Isso contradiz a noção de um bodisatva que age sem desejo de ganho pessoal, buscando unicamente o bem-estar de todos os seres.

Conclusão: A personagem Companheira Guānyīn é uma interpretação moderna e complexa que desafia a compreensão tradicional de um bodisatva. Enquanto ela reflete algumas qualidades de Guanyin, como a serenidade e a capacidade de pacificação, seu envolvimento no crime e suas motivações podem ser vistos como desviantes da idealização budista. Em um contexto mais amplo, essa personagem pode ser vista como uma representação da compaixão e da misericórdia em circunstâncias extremas e desafiadoras, sugerindo que a bondade e a compaixão podem existir mesmo nos ambientes mais sombrios.

Análise Factual e de Precisão

Para analisar os dados fáticos do artigo sob o ponto de vista de precisão e realismo, com base nas informações disponíveis no meu banco de dados, focarei em aspectos específicos mencionados no texto:

  1. Fundação do Primeiro Comando da Capital (PCC): O PCC foi realmente fundado em 1992 no estado de São Paulo, como uma resposta às condições desumanas nas prisões brasileiras. Isso confirma a veracidade da data de fundação mencionada no artigo.
  2. Expansão e Atuação do PCC: O PCC, desde sua fundação, expandiu significativamente sua influência, tanto dentro das prisões quanto nas ruas, envolvendo-se em atividades criminosas como tráfico de drogas, assaltos, e extorsões. A menção de que o PCC estava em expansão, principalmente em São Paulo durante os anos mencionados, é consistente com a realidade.
  3. Natureza e Caráter da Personagem Guānyīn: A descrição da personagem Guānyīn como uma figura misteriosa, que acalma as tensões e tem uma presença tranquilizadora, não pode ser verificada factualmente, pois é um elemento de ficção. No entanto, a descrição de suas atividades dentro do PCC, como o envolvimento em operações de tráfico e assaltos, é plausível dada a natureza da organização.
  4. Taxas de Homicídio e Contexto de Violência: A comparação da taxa de homicídios no Ceará com a situação em Israel para ilustrar a gravidade da violência é uma analogia dramática. O Ceará tem enfrentado desafios significativos com a violência relacionada a gangues e tráfico de drogas, mas uma comparação direta com o conflito Israel-Palestina pode não ser inteiramente precisa devido às diferenças contextuais.
  5. Operações Policiais e Tratamento de Guānyīn: A narrativa de que Guānyīn nunca foi revistada pela polícia e escapou do escrutínio em operações policiais é interessante, mas não pode ser confirmada factualmente. Em operações de repressão ao crime organizado, é improvável que alguém com envolvimento significativo permaneça consistentemente não detectado.

Em resumo, enquanto alguns elementos do artigo, como a fundação e a natureza do PCC, são baseados em fatos, outros aspectos, especialmente aqueles relacionados à personagem de Guānyīn, têm um caráter mais ficcional e simbólico, servindo mais para ilustrar uma narrativa dramática do que para refletir uma realidade factual precisa.

Análise sob o ponto de vista da Segurança Pública

  1. Dinâmicas do Crime Organizado: A ascensão e a influência do PCC em São Paulo, conforme descrito, demonstram as complexidades do crime organizado, que não se limita a atividades ilegais, mas também exerce um controle social e econômico em determinadas regiões. A história de Guānyīn ilustra como o crime organizado pode criar estruturas paralelas de poder e influência, muitas vezes preenchendo lacunas deixadas pelo Estado, especialmente em comunidades marginalizadas.
  2. Falhas no Sistema de Segurança Pública: O fato de Guānyīn nunca ser revistada pela polícia sugere falhas na aplicação da lei e possíveis brechas na segurança pública. Isso levanta questões sobre preconceitos de gênero na aplicação da lei e a eficácia das estratégias policiais no combate ao crime organizado.
  3. Impacto Social e Cultural: O relato evidencia a influência cultural e social de figuras como Guānyīn nas comunidades locais. A reverência e o medo que ela inspira refletem a complexa relação entre a comunidade e os membros do crime organizado, que muitas vezes são vistos tanto como protetores quanto como opressores.
  4. Prevenção e Intervenção: A história de Guānyīn, começando como uma criança vulnerável e se tornando uma figura central no crime organizado, destaca a importância de intervenções preventivas focadas na juventude em risco. Políticas públicas voltadas para a educação, serviços sociais e oportunidades econômicas podem ser cruciais para prevenir o envolvimento de jovens no crime.
  5. Reabilitação e Reinserção: A decisão de Guānyīn de abandonar o crime e sua subsequente vida como ‘cunhada’ indicam a possibilidade de reabilitação e reinserção social de ex-criminosos. Isso sublinha a necessidade de programas eficazes de reinserção social para indivíduos que deixam o mundo do crime.
  6. Desafios da Inteligência Policial: O mistério em torno das atividades de Guānyīn e as suspeitas dos líderes do PCC sobre ela ser uma infiltrada da polícia mostram os desafios enfrentados pela inteligência policial em infiltrar e obter informações confiáveis dentro de organizações criminosas altamente estruturadas e cautelosas.
  7. Violência e Taxas de Homicídio: A menção das altas taxas de homicídio em certas áreas, comparáveis a zonas de conflito, destaca a grave situação de segurança pública enfrentada por algumas comunidades e a necessidade urgente de estratégias de redução da violência.

Em resumo, a narrativa de “Companheira Guānyīn” fornece uma visão multifacetada das complexidades enfrentadas pela segurança pública no contexto do crime organizado, sugerindo a necessidade de abordagens holísticas que considerem aspectos sociais, culturais, legais e econômicos para combater efetivamente a criminalidade.

Análise sob o ponto de vista da sociologia

  1. Estrutura e Poder Dentro do Crime Organizado: A narrativa descreve a ascensão e a influência de Guānyīn dentro do PCC, ilustrando como as hierarquias e o poder são negociados e mantidos dentro de organizações criminosas. A progressão de Guānyīn de uma figura marginalizada a uma de respeito e autoridade reflete como as estruturas de poder podem ser fluidas e baseadas não apenas na força, mas também na habilidade de manter a calma e controlar situações tensas.
  2. Marginalização e Resistência: A história de Guānyīn, que começa com sua marginalização e zombaria (simbolizada pelo apelido ‘Bode Zá’), e evolui para uma posição de respeito, é uma representação da resistência e adaptação em face da adversidade. Isso reflete um tema comum na sociologia sobre como os indivíduos e grupos marginalizados desenvolvem mecanismos de resistência e adaptação para sobreviver e prosperar em ambientes hostis.
  3. Papel da Mulher no Crime Organizado: A personagem de Guānyīn desafia os estereótipos de gênero, especialmente no contexto do crime organizado, tradicionalmente dominado por homens. Sua capacidade de manter uma posição de influência sem recorrer à violência ou intimidação destaca o potencial para diferentes formas de poder e autoridade que não se enquadram nas normas tradicionais de gênero.
  4. Influência Cultural e Identidade: A reverência a Guānyīn como ‘Bodisatva’ e a influência do Sr. Hiroshi sugerem uma intersecção cultural onde crenças e práticas religiosas se misturam com a vida cotidiana de uma comunidade marginalizada. Isso ilustra como as identidades culturais e espirituais podem se formar e se adaptar em contextos sociais complexos.
  5. Violência, Controle e Legitimidade: O texto também aborda a dinâmica de violência e controle dentro do crime organizado, especialmente em relação à forma como o PCC estabelece regras e mantém a ordem. A capacidade de Guānyīn de navegar por esses sistemas de poder destaca a complexidade das redes de poder e a busca por legitimidade dentro de grupos marginais.
  6. Misticismo e Realidade Social: A figura mística de Guānyīn, entrelaçada com os aspectos brutais da vida no crime, cria uma narrativa que transcende a realidade cotidiana, incorporando elementos de misticismo e espiritualidade. Isso reflete como as crenças e práticas espirituais podem ser integradas à vida de comunidades enfrentando duras realidades sociais e econômicas.

Em resumo, o texto oferece um estudo sociológico profundo sobre o crime organizado, a resistência e adaptação em ambientes marginais, a interação entre gênero e poder, a influência cultural na formação da identidade, e a complexa interação entre violência, controle, e legitimação em estruturas criminosas.

Análise psicológica dos personagens

  1. Guānyīn: A personagem de Guānyīn exibe uma resiliência psicológica notável. Sua capacidade de transformar a zombaria e o desprezo em força e influência sugere uma elevada capacidade de adaptação e resistência emocional. Seu comportamento tranquilo e controlado em situações de alto risco indica uma personalidade excepcionalmente calma e estratégica, potencialmente moldada pelas adversidades que enfrentou. A aceitação do apelido ‘Bode Zá’ e sua posterior ascensão no PCC também refletem um alto grau de inteligência emocional e habilidade para navegar em complexas dinâmicas de poder.
  2. Narrador: O narrador, que relata a história, demonstra uma mistura de admiração e perplexidade em relação a Guānyīn. Há um senso de introspecção e reflexão sobre o próprio passado e as escolhas feitas. Este auto-questionamento e a busca por sentido em eventos passados indicam uma mente que procura entender e fazer sentido das complexidades de sua própria vida e ambiente.
  3. Sr. Hiroshi: O Sr. Hiroshi aparece como uma figura enigmática, cuja sabedoria e reconhecimento de Guānyīn como ‘Bodisatva’ sugerem uma profundidade de compreensão e percepção. Ele parece ser alguém que transcende as convenções sociais comuns do bairro, mantendo-se em uma posição de respeito e influência, talvez por sua experiência de vida e entendimento mais profundo das pessoas e do mundo ao seu redor.
  4. Mãe de Guānyīn (Inaiê): Inaiê, a mãe de Guānyīn, é retratada como uma figura devotada e com fortes raízes ancestrais. Sua dedicação à família e esforços para manter uma aparência impecável indicam um forte senso de responsabilidade e orgulho em sua herança e papel materno. Esta dedicação pode ter contribuído para o senso de identidade e força de Guānyīn.
  5. Irmãos de Guānyīn: Os irmãos de Guānyīn são descritos como figuras atípicas e reservadas. Eles parecem ter uma sólida unidade familiar, o que pode ser um reflexo de sua educação e das expectativas de sua mãe. Sua capacidade de se misturar, mas ao mesmo tempo manter uma certa distância, indica uma consciência de sua identidade e um desejo de preservá-la.
  6. Lideranças do PCC: As lideranças do PCC, embora não sejam personagens diretamente retratados, parecem ser guiadas por desconfiança e necessidade de controle. A decisão de enviar Guānyīn para o “inferno” reflete a complexidade de manter o poder e a ordem dentro de uma organização criminosa, onde a lealdade e a confiança são cruciais e frequentemente postas à prova.

Cada personagem reflete diferentes aspectos da psicologia humana, moldados por suas experiências únicas em um ambiente social e criminal complexo. A interação entre esses personagens cria uma narrativa rica em dinâmicas psicológicas, onde a sobrevivência, a identidade, a lealdade e a resiliência desempenham papéis cruciais.

Análise da personagem Guānyīn segundo a Teoria do Comportamento Criminoso

A análise do comportamento criminoso de Guānyīn sob a perspectiva da Teoria do Comportamento Criminoso oferece insights sobre como fatores sociais, ambientais e psicológicos podem influenciar o envolvimento de uma pessoa no crime. Vamos explorar alguns aspectos-chave:

  1. Influência Social e Ambiental: Guānyīn cresceu em um ambiente marcado pela presença do crime organizado e por tensões sociais. A Teoria da Aprendizagem Social sugere que as pessoas aprendem comportamentos observando e imitando os outros, especialmente em contextos onde certas ações são normalizadas ou glorificadas. O envolvimento precoce de Guānyīn em um ambiente dominado pelo crime pode ter moldado sua percepção do mundo e normalizado o envolvimento no crime.
  2. Adaptação e Resiliência: Sua capacidade de adaptação e resiliência, demonstrada pela maneira como ela transformou um apelido zombeteiro em um símbolo de sua força, indica uma habilidade psicológica para enfrentar adversidades. Na Teoria da Anomia, isso pode ser visto como uma adaptação inovadora a um ambiente social onde as vias legítimas para o sucesso são limitadas ou inacessíveis.
  3. Controle e Autoridade: Guānyīn mostra uma tendência a assumir posições de controle e autoridade em situações de alto risco, como quando gerenciava armas durante operações policiais e lidava com situações tensas no tráfico. Isso reflete a Teoria do Controle Social, onde a falta de laços convencionais e a presença de oportunidades para o crime podem levar a comportamentos criminosos.
  4. Influência de Pares e Autoridades: A interação de Guānyīn com figuras como o Sr. Hiroshi e a aceitação de suas responsabilidades dentro da facção do PCC ilustram a influência de autoridades e pares em seu comportamento criminoso. Isso está alinhado com a Teoria da Associação Diferencial, que argumenta que o crime é um comportamento aprendido através da interação com outros criminosos.
  5. Desconfiança e Isolamento: As suspeitas da facção sobre Guānyīn e seu subsequente ‘exílio’ demonstram como a desconfiança e a falta de apoio social dentro de grupos criminosos podem levar a consequências severas para os indivíduos. Isso ressalta a natureza complexa e muitas vezes precária do envolvimento em organizações criminosas.
  6. Escolhas e Consequências: A aceitação de Guānyīn de sua missão no Ceará e seu comportamento subsequente mostram uma combinação de lealdade à facção, coragem e talvez uma resignação ao seu destino. Isso pode ser analisado sob a Teoria da Escolha Racional, onde os indivíduos fazem escolhas baseadas na avaliação dos riscos e benefícios de suas ações.

Em resumo, o comportamento criminoso de Guānyīn pode ser entendido como uma combinação de influências sociais e ambientais, capacidade de adaptação e resiliência, e respostas a oportunidades e pressões dentro do contexto de sua comunidade e da organização criminosa.

Análise sob o ponto de vista da Filosofia

  1. Existencialismo: Esta abordagem enfatiza a liberdade individual, escolha e responsabilidade pessoal. Guānyīn, ao assumir papéis significativos no mundo do crime, pode ser vista como um exemplo de alguém que cria seu próprio caminho e sentido na vida, mesmo em circunstâncias adversas. O existencialismo destaca a busca por significado em um mundo muitas vezes absurdo e caótico, refletindo a jornada de Guānyīn e seu envolvimento com o crime como uma escolha consciente em um mundo onde estruturas tradicionais de significado são questionáveis.
  2. Fenomenologia: Esta escola foca na experiência subjetiva e na percepção do mundo. A perspectiva fenomenológica poderia explorar como Guānyīn percebe sua realidade e como ela interpreta suas experiências e relacionamentos, particularmente em relação à sua família e à organização criminosa. A maneira como ela lida com a reverência e o medo que inspira nos outros, e como isso afeta sua auto-percepção e suas ações, é um exemplo de fenômeno passível de análise.
  3. Pragmatismo: Esta abordagem considera o pensamento e a ação em termos de sua eficácia prática. A atuação de Guānyīn no crime, suas estratégias de sobrevivência e ascensão dentro da facção podem ser vistas como manifestações de pragmatismo. Ela adapta-se e reage de maneira pragmática às realidades do seu ambiente, focando em resultados concretos e na utilidade de suas ações.
  4. Estruturalismo: Focando na estrutura subjacente dos fenômenos sociais, o estruturalismo poderia analisar como as estruturas sociais e culturais da comunidade de Guānyīn e da organização criminosa moldam suas ações e identidade. Por exemplo, a forma como a hierarquia e as normas do PCC influenciam o comportamento e as decisões de Guānyīn.
  5. Materialismo Dialético: Esta abordagem marxista enfatiza as condições materiais e as lutas de classe como forças motrizes da história e do desenvolvimento social. A história de Guānyīn pode ser vista como um reflexo das condições socioeconômicas de sua comunidade, onde a pobreza e a marginalização levam ao envolvimento no crime organizado como meio de sobrevivência e resistência.
  6. Idealismo: Em contraste, o idealismo argumentaria que a realidade é moldada pela mente e pelas ideias. As crenças e percepções de Guānyīn sobre justiça, lealdade e poder podem ser vistas como forças que moldam sua realidade e influenciam suas escolhas e ações.

Análise sob o ponto da linguagem e estilo

  1. Estilo Descritivo e Imersivo: O texto utiliza um estilo descritivo rico, imergindo o leitor no ambiente e contexto da narrativa. A descrição detalhada das personagens, ambientes e situações cria uma imagem vívida, permitindo que o leitor visualize claramente as cenas e os personagens.
  2. Uso de Vocabulário Específico: Há um uso significativo de termos relacionados ao crime organizado e à cultura de gangues, como “PCC”, “traficantes”, “biqueiras”, entre outros. Isso adiciona autenticidade ao texto e cria um ambiente imersivo para o leitor.
  3. Imagens e Metáforas: O autor faz uso de metáforas e descrições visuais, como “uma plácida ovelha branca em uma matilha esfomeada de lobos” para descrever Guānyīn. Essas imagens são eficazes para criar uma atmosfera densa e capturar a atenção do leitor.
  4. Construção de Personagem: A linguagem é utilizada habilmente para construir os personagens, especialmente Guānyīn. Através das descrições e das ações da personagem, o texto transmite uma sensação de mistério e profundidade, tornando-a complexa e intrigante.
  5. Perspectiva Temporal: O texto alterna entre o passado e o presente, oferecendo um contexto histórico e ao mesmo tempo mantendo o foco na narrativa atual. Isso é feito de maneira suave, sem confundir o leitor.
  6. Tonalidade e Atmosfera: O tom do texto varia entre o sombrio, o reflexivo e o tenso, refletindo o mundo do crime e as experiências do narrador. Há uma sensação palpável de tensão e perigo, bem como momentos de introspecção.
  7. Diálogos e Monólogos Internos: O texto combina narrativa com diálogos e pensamentos internos do narrador. Isso oferece uma janela para o mundo interno do personagem e aumenta a profundidade emocional da história.
  8. Jogo entre Realidade e Ficção: Embora o texto seja ficcional, há elementos que se assemelham à realidade, especialmente na descrição do PCC e do cenário de crime em São Paulo. Isso cria um efeito de realismo, aproximando o leitor da história.
  9. Uso de Subtítulos: Os subtítulos funcionam como uma ferramenta para organizar a narrativa e enfatizar aspectos-chave da história, guiando o leitor através das diferentes fases da vida de Guānyīn.
  10. Aspectos Culturais e Sociais: O texto incorpora elementos da cultura brasileira e questões sociais, o que enriquece a narrativa e proporciona uma camada de crítica social.
  11. Contextualização Social e Histórica: O autor situa a história dentro de um contexto social e histórico específico, o que acrescenta autenticidade e relevância ao texto. A menção de eventos reais e a descrição do ambiente social em São Paulo dão ao texto um fundo jornalístico que complementa sua natureza literária.
  12. Tensão e Suspense: O texto cria uma atmosfera de tensão e suspense, especialmente nas descrições das atividades criminosas e dos confrontos. Isso mantém o leitor engajado, querendo saber o que acontecerá a seguir.
  13. Fluxo Narrativo: O texto segue um fluxo narrativo coerente e bem estruturado, alternando entre descrições detalhadas e ações. Isso mantém o leitor envolvido e interessado, enquanto a história se desenrola de maneira fluida e lógica.
  14. Narrativa em Primeira Pessoa: O texto é escrito em primeira pessoa, o que confere uma perspectiva íntima e pessoal à narrativa. Isso ajuda a criar uma conexão entre o narrador e o leitor, facilitando a imersão na história.
  15. Tom Realista e Crítico: O autor adota um tom realista e, por vezes, crítico, especialmente ao descrever o contexto social e as realidades do crime. Esse tom contribui para a autenticidade da narrativa e reflete a intenção de apresentar uma visão sem embelezamentos da vida dentro e ao redor do PCC.
  16. Detalhamento Rico: Há um uso extensivo de detalhes vívidos e descritivos, tanto nas descrições de personagens quanto nos cenários. Isso não só enriquece a narrativa, mas também ajuda a estabelecer o contexto social e cultural no qual a história se desenrola.
  17. Integração de Temas Sociais e Pessoais: O autor habilmente entrelaça questões sociais e pessoais, explorando temas como lealdade, violência, e redenção. Essa abordagem multifacetada adiciona profundidade e relevância ao texto.
  18. Estrutura de História em Camadas: O texto é estruturado de forma que várias camadas da história são reveladas gradualmente. Isso cria uma sensação de descoberta contínua para o leitor e adiciona complexidade à narrativa.
  19. Linguagem e Estilo Adaptados ao Contexto: O estilo de escrita e a escolha de palavras são bem adaptados ao contexto da história, misturando linguagem coloquial com um vocabulário mais sofisticado quando necessário. Isso ajuda a manter a história aterrada na realidade que ela busca retratar.

Em resumo, a linguagem do texto é eficaz em criar uma narrativa envolvente e complexa, com personagens bem desenvolvidos e uma atmosfera que reflete o mundo do crime organizado em São Paulo. O uso habilidoso de vocabulário, imagens, metáforas, e a construção da perspectiva narrativa contribuem para a profundidade e riqueza da história.

Análise Estilográfica
  1. Uso de Vocabulário: O texto apresenta um vocabulário rico e variado, com termos específicos ao contexto do crime organizado e da vida em comunidades periféricas. Há também a inclusão de palavras e expressões locais, indicando um conhecimento detalhado do ambiente descrito.
  2. Estrutura de Frases: O autor utiliza uma mistura de frases curtas e diretas com outras mais longas e descritivas, criando um ritmo que mantém o leitor engajado. Isso também reflete uma habilidade em adaptar o estilo de escrita para diferentes tipos de conteúdo dentro do texto, seja para ação, descrição ou reflexão.
  3. Narrativa em Primeira Pessoa: A escolha de uma narrativa em primeira pessoa contribui para a autenticidade do texto, sugerindo um conhecimento pessoal ou uma pesquisa aprofundada sobre o tema.
  4. Tempos Verbais: O texto mescla habilmente o uso de tempos verbais passados e presentes, refletindo as memórias do narrador e sua perspectiva atual. Isso ajuda a criar uma sensação de imersão na história.
  5. Diálogos e Monólogos Internos: A alternância entre diálogos e monólogos internos é eficaz em apresentar tanto a interação entre personagens quanto os pensamentos e emoções do narrador.
  6. Uso de Metáforas e Simbolismo: O texto emprega metáforas e simbolismo, especialmente ao descrever personagens e ambientes, o que enriquece a narrativa e oferece camadas adicionais de significado.
  7. Coesão e Coerência: O texto mantém uma coesão e coerência notáveis, com transições suaves entre diferentes seções e eventos, sugerindo um planejamento cuidadoso na construção da narrativa.
  8. Frequência de Palavras e Frases: Um estudo estilométrico mais aprofundado poderia analisar a frequência de palavras e frases específicas, padrões de repetição e a presença de fórmulas literárias, fornecendo mais insights sobre o estilo do autor.

Em resumo, a análise estilométrica do texto indica um autor com habilidades narrativas consideráveis, capaz de criar uma narrativa envolvente e autêntica, rica em detalhes e contextualizada em um ambiente específico. O uso variado de técnicas literárias sugere um escritor experiente e consciente de como diferentes elementos estilísticos podem ser utilizados para fortalecer a narrativa.

Análise da imagem do artigo

Companheira Guānyīn do Primeiro Comando da Capital (PCC 15.3.3)

Na imagem apresentada, observa-se um homem e uma mulher em um contexto que sugere cumplicidade e proximidade. A mulher, com uma expressão contemplativa e distante, parece estar perdida em pensamentos ou talvez absorvendo as palavras sussurradas pelo homem, que a observa com um olhar que poderia ser interpretado como carinhoso ou conspiratório.

A fotografia é emoldurada com a seguinte inscrição: “COMPANHEIRA GUĀNYĪN — Tão leal, quanto intrigante e misteriosa. Porque todos se sentem mais leves ao falar sobre ela?” Este texto adiciona uma dimensão narrativa à imagem, indicando que a mulher pode ser associada a Guānyīn, uma figura da mitologia oriental conhecida por sua compaixão. A referência à lealdade, intriga e mistério aumenta a profundidade da personagem, sugerindo que ela desempenha um papel significativo e complexo na história que a imagem pode estar tentando contar.

O nome “Guānyīn” é associado à deidade budista da misericórdia, que é vista como um símbolo de compaixão e é frequentemente invocada por aqueles que buscam alívio do sofrimento. Neste contexto, o texto poderia sugerir que a mulher tem uma presença calmante e uma influência positiva sobre os que a rodeiam, talvez até mesmo uma figura redentora ou salvadora dentro de um ambiente que pode ser percebido como opressivo ou desafiador, simbolizado pela estrutura de pedra e barras ao fundo.

A escolha do termo “companheira” também é significativa, pois em certos contextos políticos e sociais brasileiros, pode indicar uma camaradagem revolucionária ou uma parceria igualitária, além de possuir conotações de solidariedade e apoio mútuo.

A qualidade estética da imagem, com sua iluminação dramática e cores saturadas, contribui para a atmosfera de tensão e drama. Além disso, o título e a inscrição imprimem um tom que poderia ser associado ao estilo jornalístico com uma crítica socia.

O uso de Guānyīn como um pseudônimo ou figura simbólica em um contexto relacionado ao Primeiro Comando da Capital é intrigante, pois poderia ser visto como uma forma de humanizar ou dar profundidade moral aos membros da organização, ou talvez como uma ferramenta de propaganda para evocar simpatia ou compreensão para com suas ações, que são frequentemente enraizadas em um ambiente social tenso e ambíguo.

História da facção PCC 1533 segundo Juan Alberto Martens Molas

Este texto detalha a história da facção PCC 1533, desde sua formação em prisões paulistas até se tornar uma potência criminosa com influência transnacional. Aborda as estratégias, a expansão territorial, as dinâmicas internas e o impacto socioeconômico da facção no Brasil e além.

História da facção PCC 1533 : a jornada do Primeiro Comando da Capital é uma saga dividida em três fases cruciais. Inicialmente, surge nas penitenciárias paulistas, como resposta às condições desumanas e ao abandono estatal. Posteriormente, expande-se nacionalmente, estabelecendo domínio em prisões e comunidades, refletindo sua crescente influência e poder. Finalmente, evolui para uma entidade transnacional, estendendo suas operações além das fronteiras brasileiras. Explore agora esta história fascinante e multifacetada.

Este texto foi inspirado pelo artigo ‘Presencia y actuación del Primer Comando de la Capital (PCC): Implicancias políticas y sociales’, de autoria de Juan Alberto Martens Molas, afiliado ao INECIP e à Universidad Nacional de Pilar/CONACYT. É importante salientar, contudo, que as interpretações e elaborações presentes neste texto são de minha autoria, podendo não coincidir integralmente com as ideias ou intenções originais de Martens Molas.

Queremos ouvir suas impressões! Comente no site, compartilhe suas reflexões e junte-se ao nosso grupo de leitores. Ao divulgar em suas redes sociais, você ajuda a ampliar nossa comunidade de apaixonados por literatura criminal. Sua participação é essencial para fomentar debates enriquecedores sobre esta intrigante história.

História da facção PCC 1533: Da Penitenciária à Potência Transnacional

O Primeiro Comando da Capital (PCC), um grupo criminoso cuja envergadura e influência ultrapassam os limites da compreensão, estendeu suas sombrias influências além das fronteiras brasileiras. Esta facção paulista, se firmou como uma das mais dominantes e temidas organizações criminosas em atividade no Paraguai. Sua presença, evidenciada não apenas pelo número expressivo de integrantes, mas também pela imponente infraestrutura, capital e poderio bélico sob seu comando, revela uma transição notável.

Emergindo das sombras de uma penitenciária estadual no interior de São Paulo no início dos anos 90, o Primeiro Comando da Capital teve suas origens em condições prisionais precárias e superlotadas, habitadas por indivíduos marginalizados e com baixo nível educacional. Esta gênese humilde marcou o começo de uma jornada que transformaria um simples agrupamento de prisioneiros em uma estrutura criminosa de complexidade e poder alarmantes.

A evolução do PCC 1533, de um sindicato de detentos amotinados a uma organização criminosa sofisticada, reflete uma adaptabilidade astuta e estratégica. Esta transformação é também um espelho do aproveitamento, por parte do PCC, das brechas e oportunidades surgidas no contexto do sistema neocapitalista que moldava o Brasil naquele período histórico.

A habilidade da organização em se adaptar e prosperar neste cenário revela não apenas a sua agilidade estratégica, mas também uma compreensão astuta das dinâmicas socioeconômicas que impulsionavam o país.

Além disso, a expansão do PCC, transpondo as fronteiras de sua penitenciária de origem, marca um capítulo de ambição desmedida em sua história. Estendendo seus tentáculos por todo o território nacional, o grupo encontrou um ambiente propício nas prisões de todos os 27 estados brasileiros. Em várias dessas instituições, a facção não só se firmou, mas também consolidou sua hegemonia. O controle exercido pelo PCC, impondo suas normas e ditames tanto dentro quanto fora dos muros prisionais, evidencia não somente sua força bruta, mas também uma perspicácia em manobras de poder e influência.

História da facção PCC 1533: A Filosofia e a Busca por Paz e Poder

O Primeiro Comando da Capital articula seu objetivo como “o progresso material dos seus membros, através do crime”, denotando uma ambição explícita e inflexível. Este grupo, sob um estandarte que invoca paz, justiça, liberdade, igualdade e união (PJLIU) entre criminosos, oculta uma realidade mais obscura e complexa. O PCC define sua verdadeira batalha não como uma luta contra facções rivais, mas sim uma resistência contra o sistema estatal em si.

O estatuto do PCC ressalta esta postura:

18 Item

Todos os integrantes tem o dever de agir com severidade em cima de opressões, assassinatos e covardias realizados por Policiais Militares e contra a máquina opressora, extermínios de vidas, extorsões que forem comprovadas, se estiver ocorrendo na rua ou nas cadeias por parte dos nossos inimigos, daremos uma resposta a altura do crime. Se alguma vida for tirada com esses mecanismos pelos nossos inimigos, os integrantes do Comando que estiverem cadastrados na quebrada do ocorrido deverão se unir e dar o mesmo tratamento que eles merecem, vida se paga com vida e sangue se paga com sangue.

Estatuto do Primeiro Comando da Capital

A estratégia do PCC em fomentar a paz entre criminosos visa a formação de alianças, evitando o desperdício de recursos e vidas em disputas internas. Esta abordagem é explicada em sua cartilha:

PAZ

Lembrar e analisar o antes e o agora basta para sabermos o sentido dessa paz:

Antes ao chegar na prisão, fora as injustiças sofrida pela ‘Justiça’, o preso tinha que lutar dia a dia pela sua própria vida e moral arriscando-se a matar ou morrer a todo instante. Hoje através da PAZ no cárcere, as facas se transformaram em ganchos para a fuga, o craque foi expressamente proibido nas prisões, os presos malandrões que cometiam assaltos, extorsões, estupros, e conflitos foram assinados, mandados para cadeias de seguros, ou estão fora do alcance do crime que corre em favor do certo pelo certo.

Essa foi uma das nossas primeiras evoluções no crime em prol a todos, por isso a importância da PAZ e o seu significado no Sistema Penitenciário.

Cartilha de Conscientização da Família 1533

Este paradoxo, no qual a paz se alinha aos objetivos de guerra e a união potencializa a ambição individual, encapsula a filosofia enigmática do PCC 1533. Trata-se de uma facção criminosa que, em sua busca por poder e prosperidade por meio do crime, espelha as contradições e desafios de um sistema incapaz de conter as entidades que ele próprio gerou.

Desvendando as Origens do PCC: Entre Mistérios e Confirmações Oficiais

O início do Primeiro Comando da Capital se envolve em um véu de mistérios e contradições. A falta de clareza sobre “a data e as circunstâncias do surgimento do PCC” é tão evidente que leva a acadêmica Karina Biondi constatou a existência de diversas narrativas sobre a fundação da facção:

Colecionei diferentes versões sobre sua fundação: que teria ocorrido em 1989, em Araraquara; que se originou de outros grupos de prisioneiros chamados de Serpente Negra ou Guerreiros de David; ou que sua origem ocorreu em uma partida de futebol.

A questão da fundação da facção paulista ganhou um novo patamar de certeza em 1997, com uma publicação no Diário Oficial do Poder Legislativo do Estado de São Paulo. Esta edição trouxe a público o Estatuto do Primeiro Comando da Capital em sua totalidade, e dentro deste documento, os próprios membros da facção reafirmam a data de sua fundação em 1993. Eles declaram:

O Primeiro Comando da Capital — P.C.C. fundado no ano de 1993, numa luta descomunal e incansável contra a opressão e as injustiças do Campo de Concentração ‘anexo’ à Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, tem como tema absoluto ‘a Liberdade, a Justiça e a Paz’.

Estatuto do PCC de 1997

No entanto, o meio acadêmico só cristalizou a data oficial de fundação do PCC em 31 de agosto de 1993 após a publicação, em 2004, do livro “Cobras e Lagartos” de Josmar Jozino, que situou o nascimento da organização durante um jogo de futebol entre o “Partido Caipira e o Partido da Capital”, no Anexo da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté.

História da facção: A Inexorável Expansão do PCC

O PCC, que emergiu das entranhas das prisões brasileiras, fortaleceu-se em sua luta pelos direitos humanos da população carcerária e contra condições degradantes das prisões brasileiras. Rapidamente, a facção expandiu seu território de influência para além dos muros prisionais, infiltrando-se nos bairros de onde emergem seus integrantes, os barrancos esquecidos pela sociedade, e estendendo seus tentáculos até as nações produtoras das principais matérias-primas de seu comércio ilícito – cocaína e maconha – com destaque para Paraguai e Bolívia.

Esta organização criminosa brasileira se destaca como uma entidade de proporções colossais. De acordo com as estimativas do Ministério Público em 2018, essa facção criminosa teria ultrapassado a marca de 30 mil membros batizados, disseminados por todos os estados da federação. Uma vasta rede que engloba, direta ou indiretamente, até dois milhões de indivíduos – homens, mulheres e adolescentes, batizados ou não – opera nos recantos mais sombrios dos mercados ilegais brasileiros.

Estes colaboradores de baixo escalão circulam pelos bairros populares, por suas ruas tortuosas e pelas labirínticas favelas do país, embora a exatidão destes números permaneça envolta em névoa.

Os esforços das autoridades em deter seus membros e líderes, isolando-os, transferindo-os e submetendo-os ao confinamento solitário, além de frustrar seus planos criminosos e interceptar suas comunicações, não tem conseguido minar a expansão dos negócios e áreas de influência da organização criminosa.

Três décadas após sua fundação, o Primeiro Comando da Capital não apenas fortaleceu sua base, mas também conseguiu mobilizar um contingente sombrio, contando com milhões de pessoas espalhadas pelos mais diversos cantos do mundo. Sua presença, agora não mais restrita ao território brasileiro, se estende pelo Cone Sul da América, evidenciando sua franca disseminação. Além disso, o PCC estabeleceu alianças de negócios na África e na Europa, expandindo sua influência de maneira estratégica. Mesmo em regiões mais distantes, como Ásia e Oceania, a organização marcou sua presença através de negócios ocasionais e manobras táticas. Essa expansão global reafirma o status do PCC como um verdadeiro leviatã no cenário do crime internacional.

Resiliência e Estrutura do Primeiro Comando da Capital

Entre os dias 12 e 15 de outubro de 2001, o Brasil testemunhou um dos episódios mais graves de sua história carcerária: o PCC deflagrou uma série de rebeliões simultâneas em 29 presídios, afetando 19 cidades paulistas.

Utilizando celulares para coordenar as ações, a facção tomou o controle das unidades prisionais em apenas meia hora, demonstrando sua capacidade organizacional e o alcance de sua influência. Esses eventos mobilizaram cerca de 18 mil detentos e resultaram em numerosos reféns, porém, terminaram sem ferimentos fatais aos capturados, uma conclusão notável dada a magnitude dos motins.

Após a contenção das rebeliões, o Ministério Público de São Paulo anunciou a desarticulação do Primeiro Comando da Capital, destacando a transferência e o isolamento dos líderes mais proeminentes do grupo. Essa suposta vitória, no entanto, provou ser precipitada. Em maio de 2006, a organização exibiu uma vez mais sua capacidade de resistência e força. Durante uma série de ataques coordenados contra as forças de segurança de São Paulo, o PCC provocou a morte de 59 agentes públicos, incluindo policiais, guardas civis metropolitanos, agentes penitenciários e bombeiros, revelando um nível de confronto e violência sem precedentes no estado mais rico e populoso do Brasil.

O segredo por trás do crescimento e do poder duradouro do Primeiro Comando da Capital reside em sua estrutura organizacional única, marcada por uma abordagem descentralizada. Diferentemente de uma hierarquia vertical com lideranças impondo regras e ordens, o PCC opera através de um sistema de consenso, onde as decisões são coletivamente debatidas e acordadas entre os diversos grupos ou células. Esta modalidade de organização, conhecida como “sintonia”, permite que cada célula funcione de maneira interdependente, porém autônoma, assumindo papéis específicos e distintos. A liderança dentro de cada célula é baseada no reconhecimento e no mérito entre os “irmãos”, e sempre alinhada aos interesses da organização.

Gabriel Feltrán, um estudioso do tema, argumenta que um dos equívocos fundamentais na luta contra o PCC é percebê-lo como uma organização hierárquica e militar, quando, na verdade, sua natureza é mais fraterna, igualitária e reminiscente de uma sociedade secreta.

Feltrán enfatiza a futilidade de tentar decifrar um organograma preciso para a facção, já que sua estrutura não se enquadra nos moldes tradicionais de comando. Analogamente às sociedades secretas tradicionais, como a maçonaria, um membro recém-integrado ao PCC tem acesso apenas às informações estritamente necessárias para desempenhar suas funções e responsabilidades específicas.

Análise de IA do artigo: “História da facção PCC 1533 segundo Juan Alberto Martens Molas”

TESES DEFENDIDAS PELO AUTOR E AS RESPECTIVAS CONTRATESES

Teses
  1. Adaptabilidade e Crescimento
    O PCC evoluiu de um sindicato prisional para uma organização com sofisticação e estrutura complexa, aproveitando brechas do sistema neocapitalista.
  2. Expansão e Hegemonia
    A facção se expandiu para além das prisões, consolidando o poder em vários estados do Brasil e estendendo suas atividades ao Paraguai, evidenciando a sua capacidade de adaptação e influência.
  3. Filosofia e Estratégia
    O PCC busca a paz e a união entre criminosos como uma estratégia para fortalecer seus objetivos de lutar contra o que veem como um sistema estatal opressor, representando uma resistência organizada.
  4. Origens e Fundação
    A origem do PCC é marcada por narrativas diversas e, embora haja mistérios em relação à sua fundação, a organização reafirma suas intenções de lutar contra a opressão e por justiça desde 1993.
  5. Resiliência Organizacional
    Apesar dos esforços das autoridades para desmantelar a facção, o PCC demonstrou uma capacidade notável de resistir e se reorganizar, apoiando-se numa estrutura descentralizada e coletiva conhecida como “sintonia”.
Contra-teses a esses argumentos:
  1. Adaptabilidade Questionada
    Enquanto o autor destaca a adaptabilidade do PCC, críticos podem argumentar que a facção simplesmente se beneficiou da corrupção sistêmica e da ineficácia do sistema de justiça criminal, mais do que de qualquer estratégia sofisticada.
  2. Hegemonia e Vulnerabilidade
    A hegemonia do PCC pode ser vista como uma sobreestimação, com o argumento de que a facção é vulnerável a disputas internas e à pressão contínua das forças de segurança, o que ameaça sua estabilidade.
  3. Filosofia como Fachada
    A filosofia de paz e justiça do PCC pode ser interpretada como uma fachada para justificar atos violentos e autoritários dentro e fora das prisões, em vez de uma verdadeira crença nos princípios articulados.
  4. Fundação Mitificada
    A narrativa em torno da fundação do PCC pode ser mitificada para fortalecer sua legitimidade entre os membros e simpatizantes, possivelmente escondendo uma história mais caótica e menos idealista.
  5. Estrutura Frágil
    A estrutura descentralizada do PCC, enquanto vista como uma força pelo autor, também pode ser sua fraqueza, pois pode levar à falta de coordenação e conflitos internos que podem ser explorados por autoridades ou facções rivais.

O autor do texto destaca a importância de entender o PCC não apenas como uma entidade criminosa, mas como uma resposta complexa a um sistema que muitos veem como falho e opressor. Enquanto isso, as contra-teses desafiam a narrativa de um PCC resistente e estrategicamente adaptável, sugerindo que suas supostas forças podem também ser pontos de vulnerabilidade e que sua narrativa interna pode ser uma construção destinada a manter a coesão e a lealdade dentro de uma organização em constante ameaça.

Análise sob o ponto de vista factual e de precisão

  1. Origem e Evolução do PCC
    O texto descreve com precisão a origem do PCC nas prisões paulistas na década de 1990, em resposta às condições desumanas e à superlotação. A facção realmente surgiu em um contexto de reclusos marginalizados e se estruturou como uma resposta coletiva a essas condições.
  2. Adaptabilidade Estratégica
    O autor menciona a adaptabilidade do PCC ao sistema neocapitalista, o que reflete o entendimento de que a organização aproveitou as vulnerabilidades socioeconômicas para crescer. Isso é consistente com o que é conhecido sobre a facção, que demonstrou habilidade em explorar oportunidades econômicas ilícitas.
  3. Expansão Nacional e Internacional
    O PCC realmente expandiu sua influência para além das fronteiras de São Paulo, atingindo outros estados do Brasil e países vizinhos, como Paraguai e Bolívia. A facção é conhecida por suas atividades transnacionais, especialmente no tráfico de drogas.
  4. Filosofia e Objetivos
    A caracterização do PCC como buscando o progresso material de seus membros através do crime e resistindo ao estado reflete as declarações e o estatuto conhecidos da organização. No entanto, a interpretação de sua filosofia pode variar e nem sempre é uniformemente aceita.
  5. Data e Circunstâncias de Fundação
    Existem diferentes narrativas sobre a origem exata do PCC, mas a data mais aceita e documentada é 31 de agosto de 1993, no Anexo da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, como o texto aponta.
  6. Resiliência e Estrutura Organizacional
    O texto descreve com precisão a capacidade de resiliência do PCC, particularmente durante os ataques de maio de 2006. A descrição da estrutura organizacional como descentralizada e baseada em consenso reflete as descobertas acadêmicas e de inteligência policial sobre a facção.
  7. Número de Membros
    Os números mencionados, como 30 mil membros batizados, são consistentes com as estimativas, embora haja uma variação nas estatísticas e a exatidão desses números possa ser difícil de verificar.
  8. Estratégia de Comunicação
    O PCC é conhecido por utilizar a comunicação via telefonia celular e outros meios para coordenar suas operações, o que foi especialmente evidente durante as rebeliões prisionais de 2006.

Em resumo, o texto fornece uma visão geral factualmente consistente com o conhecimento atualizado sobre o PCC, com algumas áreas, como a filosofia e o número exato de membros, que podem ser mais difíceis de afirmar com certeza absoluta. A natureza e a estrutura do PCC, bem como sua expansão e adaptação, são bem documentadas e refletem a complexidade e o impacto significativo da organização no cenário criminal.

Análise sob o ponto de vista da psicologia jurídica

  1. Adaptação e Resiliência
    A capacidade do PCC de adaptar-se e prosperar em condições adversas reflete o conceito de resiliência na psicologia. Resiliência, neste contexto, pode ser entendida como a habilidade de um grupo de se recuperar e até se fortalecer diante de desafios e oposição. Esta perspectiva pode ajudar a entender como as organizações criminosas mantêm a coesão e o comprometimento dos membros apesar das intervenções punitivas do Estado.
  2. Dinâmicas de Poder
    A expansão do PCC e a imposição de suas normas dentro e fora das prisões ressaltam o papel das dinâmicas de poder e controle em grupos criminosos. A psicologia jurídica pode explorar como o poder é exercido, mantido e contestado dentro dessas estruturas, e como isso influencia o comportamento dos indivíduos dentro da organização.
  3. Identidade e Valores Grupais
    O estandarte de paz, justiça, liberdade, igualdade e união (PJLIU) apontado pelo PCC como parte de sua filosofia sugere uma forte identidade grupal e um conjunto de valores que podem justificar e motivar comportamentos criminosos. A psicologia jurídica se interessa pelo modo como a identidade de grupo e os valores compartilhados afetam a tomada de decisões e a justificação moral das ações de seus membros.
  4. Conflitos e Sistema Jurídico
    A descrição do PCC como uma resistência contra o sistema estatal implica em um conflito inerente entre o grupo e o sistema jurídico. A psicologia jurídica pode fornecer insights sobre como os indivíduos percebem e interagem com o sistema jurídico e como essas percepções influenciam suas ações e reações.
  5. Estrutura Organizacional
    A estrutura descentralizada do PCC, comparada às sociedades secretas, toca em aspectos de psicologia organizacional dentro do campo da psicologia jurídica. A maneira como a organização é estruturada pode ter implicações significativas para a lealdade dos membros, eficácia da comunicação e a capacidade de resistir a esforços de desmantelamento.
  6. Mistérios e Narrativas
    As narrativas conflitantes sobre a origem do PCC destacam o papel da mitificação e da construção de histórias na coesão grupal. A psicologia jurídica examina como as narrativas são utilizadas dentro de grupos para construir uma identidade coletiva, estabelecer uma linhagem e legitimar ações presentes.

Análise sob o prisma da Teoria do Comportamento Criminoso

  1. Teoria da Associação Diferencial
    Esta teoria sugere que o comportamento criminoso é aprendido através da interação com outros. No caso do PCC, a origem na prisão, onde os detentos são cercados por outros criminosos, pode ter servido como um ambiente propício para a aprendizagem e a prática de atividades criminosas, e a subsequente expansão da facção pode ser vista como uma extensão dessa aprendizagem.
  2. Teoria da Anomia
    De acordo com esta teoria, o crime resulta de uma falta de oportunidades legítimas, levando os indivíduos a se engajarem em comportamentos que violam as normas sociais para alcançar seus objetivos. A referência do texto à gênese humilde do PCC em condições prisionais precárias e superlotadas reflete as condições de anomia que podem levar ao crime organizado como uma forma de alcançar metas materiais.
  3. Teoria da Subcultura Delinquente
    Esta teoria argumenta que o crime resulta da conformidade com os valores e normas de uma subcultura delinquente. O PCC, ao adotar uma filosofia que enfatiza a “paz” e a resistência ao estado, pode ser visto como tendo desenvolvido uma subcultura própria com normas que justificam e incentivam atividades criminosas.
  4. Teoria da Tensão
    O crime é visto como uma resposta à tensão criada pela discrepância entre metas culturais e meios institucionais. A narrativa do PCC como uma facção que busca o progresso material de seus membros através do crime ilustra a tensão entre os objetivos de prosperidade material e a incapacidade de atingi-los por meios legítimos.
  5. Teoria do Controle Social
    Esta teoria enfoca a importância dos laços sociais na prevenção do crime. O PCC, com sua estrutura descentralizada e sistema de “sintonia”, pode estar fortalecendo os laços internos e a coesão, reduzindo a probabilidade de deserção ou de comportamento antiético dentro da própria facção.
  6. Teoria do Rótulo
    A sociedade rotula os indivíduos com base em seus atos e essa etiqueta se torna uma parte de sua identidade. A facção pode usar o rótulo de criminosos como uma forma de solidificar a identidade de grupo e motivar a resistência contra o que percebem como um sistema opressor.
  7. Teoria da Escolha Racional
    O crime é visto como o resultado de uma decisão consciente, pesando riscos e benefícios. O PCC, ao expandir suas operações para além das fronteiras do Brasil, pode estar calculando que os benefícios de tal expansão superam os riscos potenciais.

Análise sob o ponto de vista da Segurança Pública

  1. Desafios para a Segurança Pública
    O texto destaca a adaptação e evolução do PCC de uma facção prisional para uma organização criminosa sofisticada, evidenciando o desafio contínuo que tais grupos representam para as autoridades de segurança. A expansão da influência do PCC para além das prisões para atuar em nível nacional e transnacional demonstra a necessidade de uma cooperação mais eficaz entre as agências de segurança pública e as autoridades internacionais.
  2. Estratégias de Contenção e Prevenção
    A consolidação do PCC nas prisões brasileiras e a expansão de suas atividades para outros estados e países enfatizam a importância de estratégias de segurança que não apenas reajam a incidentes criminosos, mas também trabalhem proativamente para prevenir a formação e o fortalecimento de tais organizações.
  3. Estrutura Organizacional e Resposta do Estado
    A estrutura descentralizada do PCC, baseada em consenso e autonomia de células, apresenta desafios únicos para a segurança pública. As operações tradicionais de desmantelamento, que visam cortar a cabeça da hierarquia, podem ser menos efetivas contra uma rede tão distribuída. Isso exige uma reavaliação das técnicas de inteligência e operações especiais para desestabilizar e interromper tais redes.
  4. Filosofia e Ideologia
    A filosofia declarada do PCC, que enquadra suas atividades dentro de um discurso de resistência ao sistema estatal, complica a narrativa usual do crime organizado como puramente econômica ou violenta. Isso desafia as autoridades a entenderem e contra-atacarem não apenas as operações físicas do crime, mas também suas narrativas ideológicas.
  5. Comunicação e Tecnologia
    A habilidade do PCC em usar a tecnologia para coordenar ataques, como o motim de 2006, ilustra a necessidade de estratégias de segurança que abordem o uso criminoso de comunicações avançadas e a cibersegurança.
  6. Implicações Políticas e Sociais
    A presença e influência do PCC em comunidades marginalizadas destacam o papel da exclusão social e da desigualdade econômica no fortalecimento do crime organizado. Políticas de segurança eficazes devem ser acompanhadas por iniciativas de desenvolvimento social e econômico para abordar as causas raízes do crime.
  7. Internacionalização do Crime
    A atuação do PCC no Paraguai, na Bolívia e em outros continentes sinaliza a necessidade de uma abordagem global e integrada para combater o crime organizado, exigindo cooperação internacional intensiva e troca de informações e recursos entre países.
  8. Resiliência e Recuperação
    A narrativa do texto sobre a resiliência do PCC sugere que as estratégias de segurança pública precisam ser adaptáveis e robustas para manter a pressão e continuar adaptando-se às mudanças nas táticas e estruturas criminosas.

Em resumo, a história do PCC 1533, conforme apresentada, sublinha a necessidade de uma abordagem multifacetada à segurança pública, que combine aplicação da lei eficaz, cooperação internacional, engajamento comunitário e políticas de prevenção.

Análise sob o ponto de vista da Filosofia

  1. Natureza do Poder e Controle
    O texto levanta questões sobre a natureza do poder e controle, e como eles são exercidos e mantidos. A expansão e consolidação do PCC desafiam a noção tradicional de poder como algo exercido exclusivamente pelo Estado, mostrando que o poder também pode ser construído e mantido por entidades não estatais.
  2. Identidade e Pertencimento
    A formação e evolução do PCC podem ser examinadas através da lente filosófica da identidade e pertencimento. A transformação de indivíduos marginalizados em membros de uma organização poderosa reflete sobre como as pessoas encontram e constroem significado, identidade e comunidade em circunstâncias adversas.
  3. Dinâmicas Sociais e Estruturais
    O texto também aborda filosoficamente o impacto das estruturas sociais e econômicas no comportamento individual e coletivo. A habilidade do PCC de aproveitar as oportunidades no contexto do sistema neocapitalista brasileiro aponta para uma reflexão sobre como as condições sociais e econômicas influenciam o surgimento e a forma de organizações criminosas.
  4. Concepção de Justiça e Ordem
    O PCC promove uma filosofia que inclui a busca por “paz, justiça, liberdade, igualdade e união” entre criminosos, o que filosoficamente desafia a concepção tradicional de justiça e ordem. Isso pode ser analisado à luz da filosofia da justiça, que questiona quem define a justiça e como as normas e leis são justificadas.
  5. Realismo versus Idealismo
    A origem e a trajetória do PCC destacam o conflito filosófico entre realismo e idealismo. O grupo pode ser visto como um produto realista das condições prisionais e sociais, enquanto sua narrativa e estatuto podem refletir aspirações idealistas de liberdade e resistência.
  6. Paradoxos e Contradições
    O texto fala de um paradoxo no qual a paz é perseguida por meio de atividades que tradicionalmente são vistas como violentas e desestabilizadoras. Filosoficamente, isso pode ser explorado em termos de como paradoxos e contradições são inerentes à condição humana e às estruturas sociais.
  7. Conceitos de Autonomia e Interdependência
    A estrutura organizacional do PCC, chamada de “sintonia”, levanta questões filosóficas sobre autonomia e interdependência. Cada célula do PCC opera de forma autônoma, mas também interdependente, o que pode ser um reflexo microcósmico de como os indivíduos e grupos se relacionam em sociedades mais amplas.
  8. Natureza das Organizações
    A comparação feita por Gabriel Feltrán do PCC com sociedades secretas como a maçonaria introduz uma dimensão filosófica sobre a natureza das organizações e como elas se formam, operam e mantêm seus valores e conhecimento.

Análise do texto sob o ponto de vista da linguagem

Metafórica e Simbólica: A linguagem é ricamente metafórica e simbólica. Frases como “emergindo das sombras” e “estendendo seus tentáculos” usam metáforas visuais que personificam a organização e criam uma atmosfera quase literária que reforça o poder e a natureza insidiosa do PCC.

Tom e Estilo: O texto emprega um tom sério e, em muitos aspectos, dramático. A escolha de palavras como “sombras”, “transição notável”, e “estrutura criminosa de complexidade e poder alarmantes” contribui para uma narrativa tensa que captura a gravidade da expansão do PCC.

Narrativa Histórica: A linguagem utilizada para contar a “História da facção PCC 1533” é reminiscente da narrativa histórica, com um foco em cronologia e desenvolvimento, e ao mesmo tempo, inclui elementos de suspense e revelação que mantêm o leitor engajado.

Jargão e Terminologia Específica: Há uma mistura de jargão específico da área de segurança pública e termos coloquiais que oferecem um contraste interessante e ajudam a pintar um retrato complexo do PCC. Palavras como “opressões”, “assassinatos”, “covardias” e “máquina opressora” têm conotações específicas dentro do contexto de grupos criminosos.

Poesia na Prosa: Em algumas partes, o texto quase se inclina para a poesia em prosa, particularmente na forma como descreve a filosofia e as motivações do PCC, usando frases que poderiam ser interpretadas em múltiplos níveis, refletindo sobre a complexidade da organização.

Contraste entre a Imagem e o Texto: A inclusão de uma transcrição de uma conversa do WhatsApp no texto apresenta um contraste marcante com o resto do texto mais formal e elaborado. Isso serve para ancorar a discussão em exemplos concretos e cotidianos da influência do PCC.

Construção de Imagens e Cenas: A linguagem do texto é visualmente rica, evocando imagens e cenas que são quase cinematográficas. Isso é particularmente eficaz ao descrever os eventos de 2006, onde a ação é rápida e as consequências são significativas.

Estrutura Frasal: As frases são estruturadas de maneira a construir um ritmo narrativo, com algumas frases longas e complexas que descrevem a história e a evolução do PCC, enquanto outras são mais curtas e impactantes, especialmente ao expressar ações e decisões do grupo.

Persuasão e Racionalização: A linguagem usada para descrever a filosofia do PCC e sua justificação para a violência é um estudo de como a linguagem pode ser usada para persuadir e racionalizar ações que de outra forma seriam vistas como inaceitáveis.

Em resumo, o texto utiliza a linguagem não apenas para informar, mas também para evocar uma resposta emocional, criar imagens mentais vívidas e apresentar uma narrativa convincente da ascensão e expansão do PCC.

ANÁLISE DA IMAGEM DE CAPA DESTE TEXTO

História da facção PCC 1533 segundo Juan Alberto Martens Molas


A imagem apresenta um potente simbolismo visual que se alinha intimamente com o tema do texto “História da facção PCC 1533”. No primeiro plano, vemos uma pilha de correntes no chão, sugerindo os laços quebrados da opressão ou a libertação do controle estatal. Um indivíduo está sentado em um banco no centro da imagem, olhando para baixo, talvez refletindo sobre o passado ou planejando o futuro. Ele está posicionado entre duas paredes de concreto, simbolizando talvez a prisão de onde o PCC emergiu. O fundo revela uma vista panorâmica de uma cidade ao pôr do sol, possivelmente São Paulo, que pode representar o alcance da influência do PCC para além dos muros da prisão.

A cena está enquadrada entre duas colunas de grades, que podem ser interpretadas como as fronteiras entre o interior da prisão e o mundo externo, realçando a transição do PCC de uma facção prisional para uma potência transnacional. O céu dramático, com tons de laranja e vermelho, adiciona uma sensação de tensão e perigo, o que complementa o tom gótico e sombrio mencionado no perfil do usuário.

Esta imagem poderia ser utilizada como uma ilustração de capa para o texto ou um material promocional, capturando o olhar do leitor e convidando-o a explorar a história complexa e multifacetada do PCC 1533.

Presídios no Paraguai: Entre Muros de Concreto e Leis de Papel

Este artigo explora a realidade dos presídios no Paraguai, confrontando a estratégia de segurança máxima com a influência das facções criminosas e a complexidade de impor a lei onde ela é frequentemente desafiada.

Presídios no Paraguai, em uma reviravolta dramática, estão adotando uma abordagem controversa com a criação de presídios de segurança máxima, ecoando passos já dados pelo Brasil. No epicentro desta transformação está o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), uma entidade poderosa, cuja influência transborda as fronteiras nacionais, desafiando as novas medidas de segurança. Este artigo detalha a intricada teia de poder e a dinâmica em torno dessas penitenciárias, revelando como as estratégias de segurança se confrontam com a realidade do crime organizado.

Queremos ouvir suas impressões! Comente no site, compartilhe suas reflexões e junte-se ao nosso grupo de leitores. Ao divulgar em suas redes sociais, você ajuda a ampliar nossa comunidade de apaixonados por literatura criminal. Sua participação é essencial para fomentar debates enriquecedores sobre esta intrigante história.

Presídios no Paraguai: Um Espelho Distorcido do Poder e da Lei

Em um cenário digno de uma trama surreal, as autoridades paraguaias, em um ato que beira o absurdo, confessaram o que muitos suspeitavam: estão negociando com organizações criminosas para manter um controle, ainda que frágil, sobre seus presídios. Neste teatro de absurdos, destaca-se a presença do brasileiro Primeiro Comando da Capital (PCC), acompanhado de figuras igualmente infames como Comando Vermelho, Cartel de Medellín, Hezbolá e Cartel de Cali. A situação é um espelho distorcido da realidade, onde o poder e a lei se confundem em um jogo perigoso.

O Brasil, por sua vez, persiste em uma abordagem já bem desgastada: o investimento massivo em Penitenciárias de Segurança Máxima. Anos a fio, incontáveis recursos foram despejados na construção de verdadeiras fortalezas de concreto, vigiadas pela Força Nacional. Contudo, os resultados são, no mínimo, questionáveis. Surge então a dúvida inquietante:

Será que o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho realmente sucumbiram ou perderam sua influência, soterrados por essa avalanche de investimentos no sistema prisional? Ou será que ainda prosperaram sob as sombras dessas estruturas imponentes?

Presídios do Paraguai e a Repetição da Estratégia Brasileira

O Paraguai, em uma tentativa que ressoa o famoso adágio “neste mundo nada se cria, tudo se copia”, parece estar adotando uma estratégia já bem conhecida pelo Brasil na gestão de seus presídios. O Ministro da Justiça, Ángel Ramón Barchini, avançou com um projeto de lei para implementar um regime especial fechado de segurança máxima.

Com um otimismo que flerta com a ingenuidade, Barchini destaca a fragilidade do sistema penitenciário vigente e a inadmissibilidade de negociar com quadrilhas criminosas. Suas palavras, embora carregadas de esperança, parecem descoladas da complexa realidade que as envolve, soando mais como um aceno para a crescente onda punitivista que caracteriza a sociedade do século 21.

Ironia e paradoxo são elementos centrais deste cenário:

  • Por um lado, temos facções criminosas como o PCC, que demonstram uma eficiência e organização que, paradoxalmente, garantem a ordem dentro dos presídios. Eles controlam aspectos variados, desde a economia interna até a ordem social nas prisões, com uma habilidade quase gerencial.
  • Por outro lado, governos, apesar de anos de investimento e medidas extremas, ainda enfrentam barreiras de incompetência e corrupção arraigada. Observa-se um persistente jogo de gato e rato, onde os “ratos” frequentemente têm a vantagem.

Neste contexto, organizações como o PCC transcendem a mera classificação de facções criminosas. Eles emergem como poderes quase míticos, desafiando as barreiras da ordem e da legalidade com audácia e complexidade. Estes grupos perpetuam o ciclo de violência ao usar os presídios como incubadoras do crime. Contudo, paradoxalmente, são eles que impõem a disciplina e ordem nesses espaços, atuando como agentes de pacificação e mediação em um ambiente que por sua própria natureza é violento e onde o Estado se mostra ineficaz.

Essa ambiguidade nos papéis desempenhados pelos grupos criminosos internacionais, como as facções brasileiras, as máfias hispano-americanas e a organização terrorista árabe, reflete a intrincada realidade das prisões, onde a distinção entre legalidade e ilegalidade é frequentemente turva e indistinta.

Tentando Mudar o Imutável nos Presídios Paraguaios

A proposta do Paraguai, portanto, não deixa de ser uma tentativa de reescrever um roteiro já conhecido e criticado. É como assistir a uma sequência de um filme onde você já sabe que o final não vai ser feliz, mas ainda assim, espera que algo diferente aconteça. Afinal, em um mundo onde os presídios são palcos de um poder paralelo, a esperança de mudança se torna quase um ato de fé.

E assim, entre as linhas deste drama social e político, fica a pergunta: até quando os muros de concreto e as leis de papel conseguirão conter a crescente maré de desafios que ameaça afogar qualquer senso de ordem e justiça? Talvez a resposta esteja em algum lugar entre a ironia e o sarcasmo, onde a realidade insiste em superar a ficção.

Baseado no artigo: Ministerio de Justicia plantea implementar cárceles de máxima seguridad — abc color

Análise de IA do artigo: “Presídios no Paraguai: Entre Muros de Concreto e Leis de Papel”

Público-alvo
Acadêmicos e Estudantes: Especialmente aqueles concentrados em áreas como criminologia, sociologia, direito penal e políticas públicas, que buscam entender as dinâmicas do sistema prisional e o impacto das organizações criminosas na sociedade.
Profissionais da Área de Segurança Pública: Incluindo agentes penitenciários, policiais, e profissionais de justiça que lidam diretamente com as consequências das políticas prisionais e criminais.
Políticos e Legisladores: Indivíduos envolvidos na formulação de políticas públicas que podem usar as informações e análises do texto para fundamentar decisões legislativas e reformas no sistema prisional.
Ativistas de Direitos Humanos: Defensores da reforma prisional e da justiça social que estão interessados nas implicações humanitárias do sistema prisional.
Jornalistas e Comentaristas Sociais: Profissionais que buscam compreender e disseminar informações sobre o estado atual dos sistemas prisionais e as interações entre o Estado e as facções criminosas.
Público Geral Interessado em Assuntos Sociais: Leitores que têm interesse por questões sociais, especialmente aqueles que seguem notícias relacionadas à segurança pública, crime organizado e política internacional.
Organizações Internacionais: Entidades que monitoram a situação dos direitos humanos e padrões prisionais ao redor do mundo, visando a comparar diferentes sistemas e propor melhorias.
Este texto visa engajar leitores que buscam uma compreensão aprofundada e crítica dos desafios enfrentados pelos sistemas prisionais na América Latina, bem como das estratégias adotadas para lidar com o crime organizado e suas consequências sociais.

TESES DEFENDIDAS PELO AUTOR E AS RESPECTIVAS CONTRATESES

Teses:

  1. Ineficácia das Estratégias Atuais: O autor sugere que tanto o Brasil quanto o Paraguai têm investido em presídios de segurança máxima sem resultados significativos, questionando se tais estratégias resultam em uma verdadeira diminuição do poder e influência das facções criminosas.
  2. Ironia da Ordem Criminosa: O texto defende a ideia de que, paradoxalmente, são as facções criminosas, e não as autoridades estatais, que impõem a ordem dentro dos presídios, apesar do investimento pesado em segurança e vigilância.
  3. Ambiguidade da Lei e da Ordem: O autor argumenta que a distinção entre legalidade e ilegalidade é turva e indistinta nos presídios, refletindo a complexidade e a falha do sistema em manter o controle.

Contra-teses aos argumentos do autor:

  1. Potencial das Penitenciárias de Segurança Máxima: Uma contra-tese poderia argumentar que as penitenciárias de segurança máxima são uma necessidade para conter criminosos de alta periculosidade e que os resultados não podem ser medidos apenas em termos de poder das facções, mas também na prevenção de fugas e na proteção da sociedade.
  2. Autoridade Estatal vs. Ordem Criminosa: Pode-se argumentar que, apesar da eficiência aparente das facções na gestão interna dos presídios, isso não se traduz em legitimidade ou justiça, e que a autoridade estatal não deve abdicar do controle para organizações criminosas, independentemente da eficácia administrativa destas.
  3. Clareza da Lei e da Ordem: Outro ponto de vista pode insistir que a legalidade e ilegalidade são bem definidas, e que as ações do Estado, embora imperfeitas, são claras tentativas de reafirmar a lei e a ordem, e que a complexidade do sistema prisional não deve ser usada como desculpa para a falta de ação ou responsabilidade.
  4. Adaptação e Evolução das Estratégias de Segurança: Pode-se argumentar que as estratégias de segurança estão em constante evolução e adaptação, e que as falhas do passado são lições para a implementação de políticas mais eficazes no futuro, portanto, o que parece ser a repetição de erros pode, na verdade, ser a base para a inovação em segurança prisional.

Análise critíca sob o ponto de vista da Segurança Pública

  1. Descrença na Efetividade de Penitenciárias de Segurança Máxima: O autor questiona a eficácia das penitenciárias de segurança máxima, sugerindo que o investimento substancial nesse tipo de estrutura não atingiu o objetivo de diminuir a influência das facções criminosas. Do ponto de vista da segurança pública, isso pode ser interpretado como uma falha em reconhecer o valor dessas instalações na prevenção de fugas e no isolamento de criminosos de alta periculosidade.
  2. Gestão Prisional e Ordem Interna: O texto indica que as facções criminosas podem garantir a ordem dentro dos presídios de forma mais eficaz do que as autoridades. Isso desafia o princípio de que a segurança e a ordem devem ser asseguradas pelo Estado e suas instituições, e não por entidades que operam à margem da lei.
  3. Perspectiva Punitivista: O autor oferece um ponto de vista que parece criticar a mentalidade punitivista da sociedade contemporânea. No entanto, profissionais da segurança pública podem argumentar que punições severas e sistemas prisionais rigorosos são necessários para deter atividades criminosas e proteger a sociedade.
  4. Corrupção e Incompetência: O texto sugere que os esforços do governo são minados por incompetência e corrupção, colocando em questão a integridade das instituições responsáveis pela segurança pública. Isso pode ser visto como um ataque generalizado a todos os profissionais da área, desconsiderando aqueles que trabalham diligentemente para manter a ordem e a segurança.
  5. Mitificação do Crime Organizado: Ao descrever as facções criminosas como “poderes quase míticos”, o autor pode inadvertidamente estar glamorizando ou dando um status elevado a essas organizações, o que pode ser problemático do ponto de vista da segurança pública, onde o objetivo é desmantelar e deslegitimar tais grupos.
  6. Ambiguidade Moral: O artigo toca na ambiguidade dos papéis desempenhados pelas facções dentro dos presídios, que podem parecer como mantenedores da ordem em um sistema falho. Profissionais de segurança pública podem ver isso como uma simplificação excessiva de um problema complexo, onde a “ordem” imposta por criminosos é frequentemente baseada na violência e na intimidação.

Em resumo, enquanto o texto oferece uma análise crítica profunda e reflexiva sobre o sistema prisional, ele pode ser criticado por profissionais da segurança pública por não reconhecer plenamente os desafios enfrentados por aqueles que buscam manter a ordem e a segurança em ambientes extremamente complexos e perigosos.

Análise sob o ponto de vista sociológico

  1. A Negociação com Organizações Criminosas: Do ponto de vista sociológico, a admissão das autoridades paraguaias de que negociam com organizações criminosas para manter o controle sobre os presídios é um indicativo da falha do Estado em manter o monopólio da violência legítima, uma das características fundamentais da soberania estatal conforme Max Weber.
  2. A Crítica ao Investimento em Segurança Máxima: A persistência do Brasil em investir em penitenciárias de segurança máxima, apesar dos resultados questionáveis, pode ser vista como um fenômeno de “path dependence”, onde as políticas públicas continuam seguindo um caminho estabelecido, mesmo quando há evidências de sua ineficácia, devido ao investimento prévio e à inércia institucional.
  3. O Paradoxo da Ordem Criminosa: A eficiência e organização das facções criminosas na manutenção da ordem dentro dos presídios é um exemplo do que Durkheim poderia considerar uma “anomia”, onde as regras e estruturas sociais se desintegram, e novas normas emergem para preencher o vácuo de poder, mesmo que estas sejam antitéticas às normas e valores sociais dominantes.
  4. A Mitificação do Crime Organizado: A representação das organizações criminosas como “poderes quase míticos” pode ser interpretada através da lente da teoria do etiquetamento, que discute como a sociedade define certos grupos ou comportamentos como desviantes, o que pode, por sua vez, reforçar a identidade e a coesão desses grupos.
  5. A Ineficácia do Estado: A constatação de que o Estado se mostra ineficaz no controle da violência dentro dos presídios pode ser analisada através da teoria do conflito, que considera as lutas de poder e a dominação de certos grupos sobre outros como características inerentes às sociedades.
  6. A Ambiguidade da Legalidade e Ilegalidade: A dificuldade em distinguir entre legalidade e ilegalidade nos presídios pode ser vista como um reflexo da complexidade das interações sociais e do poder. A teoria da estruturação de Anthony Giddens pode ser usada para entender como as estruturas sociais são tanto criadas quanto modificadas pelas ações dos indivíduos e grupos, incluindo aqueles dentro do sistema prisional.
  7. A Tentativa de Mudança no Paraguai: A tentativa do Paraguai de mudar as estratégias de gestão prisional pode ser considerada um exemplo da teoria da modernização, onde os países em desenvolvimento tentam emular as práticas dos países desenvolvidos, muitas vezes sem considerar as diferenças culturais e sociais.

Análise da Imagem da capa do artigo

A imagem mostra um presídio com arquitetura imponente ao fundo e uma série de detentos vestidos com uniformes listrados de branco e amarelo, todos de costas para a câmera, olhando na direção do presídio. Eles estão alinhados e separados por grades amarelas, possivelmente indicando caminhos ou divisões dentro do complexo prisional. O chão é composto por pedras arredondadas, e o céu está nublado, o que contribui para um ambiente sombrio.

O texto na imagem lê “PRESÍDIOS NO PARAGUAI – Penitenciárias de Segurança Máxima sob as sombras dessas estruturas imponentes”. O uso de palavras como “sombras” e “estruturas imponentes” sugere um tom crítico ou uma reflexão sobre a natureza e a eficácia dessas instituições, possivelmente questionando se tais medidas de segurança são eficientes ou apenas projetam uma imagem de controle.

A imagem e o texto parecem projetar uma mensagem poderosa sobre o sistema prisional, possivelmente alinhando-se com os temas de discussão sobre a eficácia das prisões de segurança máxima, a influência de organizações criminosas e as políticas de segurança pública. A escolha de não mostrar os rostos dos detentos pode ser uma decisão estilística para focar na instituição em vez das individualidades, ou pode ser uma representação da perda de identidade dentro do sistema prisional.

Submundo de Salto: a facção PCC 1533 e a disputa por biqueiras

Este artigo lança luz sobre as complexas relações dentro do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) em Salto, com foco na história de um homem conhecido como Fuscão. Descubra as tensões, as rivalidades e as consequências de uma vida no crime.

Submundo de Salto é o palco onde se desenrolam as complexas dinâmicas e personagens que compõem o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Originalmente publicado em fevereiro de 2012, este texto revela a vida de Fuscão, um mestre na arte de criar inimigos. Mergulhe nesta narrativa cativante que aborda as multifacetadas realidades do crime organizado na cidade.

Ao concluir sua leitura, convidamos você a deixar seus pensamentos na seção de comentários e a curtir o artigo se ele trouxe novas perspectivas para você. Para manter-se atualizado com nossas últimas publicações, considere se inscrever para receber notificações do site ou juntar-se ao nosso grupo de WhatsApp dedicado aos leitores.

Submundo de Salto: A Caçada a Fuscão e a Intrincada Teia de Lealdades e Traições no Primeiro Comando da Capital

No submundo da cidade de Salto, no interior paulista, regido por códigos próprios e figuras temíveis, Adriano, alcunhado de “Fuscão,” tinha uma notoriedade peculiar: a habilidade de fazer inimigos com um talento quase profissional. Ele cruzou a linha vermelha do Primeiro Comando da Capital, desafiando sua estrutura e gerando problemas que não passaram despercebidos pelos olhos vigilantes da organização.

Um desses olhos pertencia a Clayton, mais conhecido como Boquinha, um imponente homem tatuado com uma cicatriz marcante no pescoço. Embora afirmasse ser padeiro, sua real ocupação era a gestão do tráfico no Jardim Santa Cruz, em Salto. Agora, Boquinha tinha uma nova missão: localizar Fuscão e entregá-lo para uma “conversa” com Edson, ou Cara de Bola, o “torre da cidade”.

Outubro de 2006 foi marcado pela caça ao irrefreável Fuscão. Ele tinha a audácia de invadir territórios alheios, lançando o nome do irmão Pimenta como um escudo, e espalhando rumores de que sua iniciação na organização estava iminente. Isso atraiu não apenas a ira de Boquinha mas também a atenção de Luiz Carlos, apelidado de Piloto, que soube das atividades não autorizadas de Fuscão em Salto.

No dia 16 de outubro, Boquinha quase teve sucesso. Embora Fuscão tenha conseguido fugir para a mata, um de seus subalternos não teve a mesma sorte. Capturado, ele revelou que Fuscão percebera que “o bagulho ia endoidar” para ele. E endoidou. Mais tarde, naquele mesmo dia, Boquinha capturou Fuscão e o entregou a Cara de Bola para a tão aguardada “conversa”.

Submundo de Salto: As Consequências da Indisciplina e a Inevitável Queda dos Protagonistas do Crime Organizado

Cara de Bola, que dividia o controle do tráfico em Salto com Piloto, aproveitou para lembrar Fuscão da importância da ordem dentro da organização, citando o exemplo de um homem enforcado pelos subordinados de um traficante chamado Bad Boy e uma chacina no Jardim das Nações. No entanto, os ensinamentos não surtiram efeito. Fuscão foi encontrado desacordado pela Guarda Municipal e hospitalizado, mas seu comportamento não mudou.

Quinze dias após o incidente, ele já estava de volta às suas atividades habituais. Donizete, conhecido como Careca, foi o próximo a reclamar. Fuscão estava invadindo o território de Gilson, que estava preso na P1 de Presidente Venceslau. Fuscão ignorou os avisos de Careca para interromper as vendas de drogas e continuou provocando, desta vez, anunciando que seria batizado pelo irmão Neizinho. Mas essa é uma história para outro dia.

Nesse intricado xadrez do crime, algumas peças caem antes das outras. Curiosamente, não foi Fuscão quem primeiro encontrou problemas com a lei. Boquinha foi pego comprando cocaína e em sua casa foram encontrados diversos tipos de drogas, acondicionadas para venda. Assim, Boquinha foi o primeiro a cair nas mãos da polícia, capturado em uma operação que envolveu os investigadores Carlos Augusto Emmanuel Dias Borges e Ramon Bachiega Angelini. A captura de Fuscão, sempre “mais ligeiro,” permanecia uma questão em aberto.

Teses apresentadas pelo autor do artigo

  1. Intrincada Rede de Relações: O autor destaca a complexidade das relações dentro do Primeiro Comando da Capital, sugerindo que entender essa organização requer um olhar atento aos detalhes e aos personagens individuais, como Fuscão e Boquinha.
  2. Desafio à Autoridade: O autor parece ressaltar que dentro de estruturas criminosas rígidas como o PCC, desafiar a autoridade (como Fuscão faz repetidamente) pode levar a consequências graves, não apenas para o indivíduo, mas também para a estabilidade da organização.
  3. A Complexidade do Crime Organizado: A complexidade e o risco envolvidos na vida criminosa são outros temas implícitos. A multiplicidade de personagens e suas respectivas motivações e ações servem como um microcosmo do mundo maior do crime organizado.
  4. A Vulnerabilidade dos Envolvidos: O fato de que Boquinha, um homem respeitado dentro da organização, é preso sugere que ninguém está inteiramente seguro neste ambiente.
  5. O Poder da Informação: O papel da informação e da inteligência (por exemplo, Boquinha perseguindo Fuscão com base em informações, ou Piloto agindo com base em denúncias) também parece ser um ponto subentendido no relato.

Contrateses ÀS apresentadas no artigo

  1. Simplicidade, Não Complexidade: Uma contratese poderia argumentar que as relações dentro do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) são, na verdade, bastante diretas e regidas por regras claras, contrariando a noção de uma intrincada rede de relações.
  2. Impunidade, Não Desafio: Outra contratese poderia sustentar que desafiar a autoridade dentro de uma organização como o PCC pode, na verdade, ser feito com relativa impunidade, especialmente se a pessoa tem informações ou conexões valiosas.
  3. Estabilidade Institucional: Em oposição à ideia de que o comportamento rebelde de indivíduos como Fuscão ameaça a organização, uma contratese poderia argumentar que o PCC é robusto o suficiente para absorver tais desafios sem comprometer sua estabilidade.
  4. Segurança Relativa dos Envolvidos: Contra a tese de que ninguém está seguro, uma contratese poderia apontar que a organização oferece um certo grau de proteção aos seus membros, talvez mais do que eles encontrariam fora dela.
  5. Desprezo pela Informação: Por último, em contraste com a tese sobre o poder da informação, uma contratese poderia argumentar que as informações frequentemente não são confiáveis ou são mal interpretadas, e portanto, não são tão poderosas quanto o texto poderia sugerir.

Análise do texto por inteligência artificial:

O texto oferece uma rica tapeçaria para análise sob diversas lentes, cada uma com seu próprio conjunto de implicações. Ele serve como um lembrete da complexidade e interconexão dos fatores que contribuem para a persistência do crime organizado e as múltiplas dimensões que esse fenômeno pode abranger.

Linguagem

O texto emprega uma linguagem bastante direta e coloquial, que visa retratar os personagens e a atmosfera do mundo criminal de forma realista. O uso de apelidos e jargões específicos (“Fuscão”, “Boquinha”, “torre da cidade”) contribui para a autenticidade da narrativa.

Ritmo

O ritmo do texto é acelerado, com eventos e personagens introduzidos rapidamente. Essa agilidade mantém o leitor engajado e imerso no mundo complexo e volátil do crime organizado em Salto. Não há muito tempo dedicado a descrições longas; em vez disso, a ação move-se rapidamente de um ponto a outro.

Estilo de Escrita e Estilométrica

O estilo é narrativo e descritivo, mas sem excessos. O texto está mais preocupado em contar eventos e retratar personagens do que em tecer argumentos ou teses. Quanto à estilométrica, embora não possamos realizar uma análise estatística detalhada aqui, o texto parece favorecer frases mais curtas e diretas, o que contribui para o ritmo acelerado e a sensação de urgência.

Perfil Psicológico do Autor

Embora seja arriscado fazer suposições sobre o perfil psicológico do autor com base em um único texto, algumas inferências podem ser feitas. O autor parece ter um profundo conhecimento do mundo que está descrevendo, o que pode indicar uma familiaridade pessoal ou pesquisa rigorosa sobre o tópico. A abordagem realista sugere um desejo de retratar esse mundo sem embelezamentos ou julgamentos morais explícitos.

Perfil Social do Autor

O autor parece estar bem informado sobre o mundo do crime organizado, particularmente em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e à cidade de Salto. Isso poderia sugerir uma variedade de origens sociais: desde um jornalista investigativo até alguém com contatos pessoais dentro desse mundo. A linguagem e o estilo indicam que o autor está tentando se comunicar com um público mais amplo, não necessariamente especializado no tema, mas certamente interessado nele.

Ao conjunto, esses elementos revelam um autor engajado em apresentar uma narrativa vívida e realista, pautada por uma linguagem acessível e um ritmo que busca manter o leitor constantemente engajado.

Factual e Precisão

O texto fornece um relato detalhado sobre as dinâmicas dentro do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) em Salto, mas é importante notar que ele atua como uma narrativa e não um documento factual verificado. A precisão dos eventos e personagens mencionados pode, portanto, ser questionável. Além disso, o texto não oferece fontes externas que possam corroborar os acontecimentos descritos.

Político

Politicamente, o texto traz à tona questões relacionadas à governança e à ordem pública. O PCC age como um Estado paralelo, com suas próprias regras e sistema de justiça, desafiando a autoridade do Estado. Isso tem implicações políticas, pois destaca falhas nas estratégias governamentais atuais para lidar com o crime organizado.

Cultural

Do ponto de vista cultural, o texto revela aspectos da subcultura do crime organizado, como a terminologia específica usada (“irmão”, “torre”, “batizado”), a hierarquia, e a “ética” interna. Esses elementos podem ser interpretados como reflexos de uma cultura maior, na qual valores e normas sociais são reconfigurados para se adaptar ao ambiente do crime organizado.

Econômico

Economicamente, a narrativa oferece uma visão das operações comerciais ilícitas como um “negócio”, com territórios de vendas e hierarquias de gestão. O texto menciona, por exemplo, o preço da cocaína e como ela é embalada para venda. Isso sugere que há um mercado estabelecido com oferta e demanda, preços e consumidores. Também mostra como essas atividades econômicas ilícitas podem afetar a economia local e, por extensão, o bem-estar da comunidade.

Segurança Pública

Do ponto de vista da Segurança Pública, o texto lança luz sobre a complexa rede de relações dentro do mundo do crime organizado, especificamente o Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) em Salto. Isso serve como um alerta para as autoridades sobre a sofisticação e a adaptabilidade dessas organizações. O fato de membros serem “caçados” por violações das regras internas sugere um sistema paralelo de “justiça”, que opera à margem do sistema legal oficial.

Jurídico

Juridicamente, o texto é uma janela para diversas atividades ilegais, como tráfico de drogas, venda sem autorização, e possivelmente até violência física ou homicídio. Embora o texto não tenha o objetivo de servir como um documento legal, ele destaca a urgência e a complexidade do combate ao crime organizado e pode ser de interesse para profissionais do Direito interessados em entender a dinâmica desses grupos.

Criminológico

A narrativa proporciona um estudo de caso sobre o comportamento de indivíduos dentro de organizações criminosas. Fatores como lealdade à organização, a hierarquia interna, e as punições por desvios de conduta são elementos relevantes para estudos criminológicos. O texto também ilustra como o crime organizado pode penetrar na estrutura social de uma comunidade, neste caso, a cidade de Salto.

Estratégico

Estrategicamente, o texto oferece insights sobre como as organizações criminosas podem ser gerenciadas e como elas respondem a desafios internos. A eficácia da “caça” a membros desviantes e o sistema de controle poderiam fornecer pontos de reflexão para os formuladores de políticas sobre como desmantelar ou perturbar essas redes. Também sugere que qualquer estratégia eficaz precisará ser tão adaptável e informada quanto as próprias redes criminosas.

Histórico

O texto remonta a eventos que ocorreram em 2006, marcando uma época específica na trajetória do Primeiro Comando da Capital em Salto. Ele fornece uma visão íntima dos métodos e comportamentos de pessoas dentro da organização durante aquele período, oferecendo assim um registro histórico particular e subjetivo de uma fase da criminalidade na cidade.

Sociológico

Do ponto de vista sociológico, o texto fornece informações sobre o funcionamento interno de uma organização criminosa, incluindo sua hierarquia, normas e valores. Também lança luz sobre a estrutura social da comunidade onde o PCC opera, refletindo as desigualdades e sistemas de poder existentes na sociedade mais ampla.

Antropológico

Antropologicamente, o texto serve como um estudo de caso sobre o sistema de crenças, linguagem e rituais do PCC. Ele revela como a organização cria um sentido de identidade e pertencimento através de símbolos, como tatuagens, e terminologia própria, como “irmão” e “batizado”.

Filosófico

Embora o texto não seja explícito em seu conteúdo filosófico, ele toca em questões existenciais sobre a natureza do bem e do mal e os limites da moralidade humana. A existência de uma “ética” dentro de um grupo que é, por definição, antiético de acordo com as normas sociais, é um paradoxo que poderia ser analisado filosoficamente.

Ético e Moral

A narrativa descreve um mundo onde os conceitos tradicionais de ética e moral são desafiados. Enquanto os personagens seguem um conjunto de normas dentro de sua comunidade, essas normas estão em desacordo com as leis e regras morais da sociedade em geral. Isso apresenta um dilema ético: pode um sistema de valores ser considerado ‘ético’ se estiver ancorado em atividades ilegais ou imorais?

Teológico

O texto não aborda diretamente questões teológicas, mas a ideia de uma ordem e estrutura dentro de um ambiente geralmente associado ao caos e ao mal pode ser interpretada como uma busca por algum tipo de “ordem divina” ou sentido em um mundo degradado.

Psicológico

Do ponto de vista psicológico, o texto oferece uma rica paisagem para explorar os motivos, racionalizações e mecanismos de defesa dos personagens. Há, evidentemente, uma complexidade psicológica em cada um deles, desde a busca por poder e reconhecimento até talvez um profundo senso de fatalismo ou desespero.

Dividir para Conquistar e o ideal de Paz, Justiça e Liberdade (PJL)

A estratégia de “Dividir para Conquistar” é um princípio universal na arte da estratégia política e militar, aplicado por líderes históricos como Júlio César e Napoleão. No Brasil, uma tentativa oposta de unir grupos distintos levou ao surgimento de poderosas organizações criminosas. A interação de criminosos comuns e presos políticos na Ilha Grande resultou em uma nova era de crime organizado, marcada pela formação de grupos como a Falange Vermelha e o Primeiro Comando da Capital.

Dividir para conquistar é uma máxima universalmente reconhecida. No Brasil, curiosamente, o oposto levou ao surgimento de organizações criminosas poderosas. A união de criminosos comuns e presos políticos na Ilha Grande deu origem a uma nova era no crime organizado, começando com a Falange Vermelha e evoluindo até os dias de hoje com o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533).

Convidamos você a explorar esse fascinante capítulo da história criminal brasileira em nosso texto. Sua opinião é valiosa; por favor, deixe seus comentários no site. Para uma discussão mais interativa, junte-se ao grupo de Zap dos leitores do site.

Dividir para Conquistar como estratégia militar

A estratégia de “dividir para conquistar” (divide et impera, no latim) ficou famosa com o imperador romano Júlio César (100 a.C. – 44 a.C) durante suas conquistas territoriais.

A máxima “dividir para conquistar” tem sido uma pedra angular na arte da estratégia política e militar desde tempos antigos, aplicada até mesmo antes de Júlio César, como por Filipe II da Macedônia. A lógica fundamental envolve fragmentar grupos que possam acumular grande poder, ao mesmo tempo em que se impede que facções menores se unam e, assim, formem uma oposição significativa e robusta. Esse conceito foi posteriormente empregado com habilidade por figuras como Napoleão.

A aplicação bem-sucedida desta estratégia pode ser vista em várias passagens da história. Júlio César utilizou essa tática para conquistar as tribos da Gália, alimentando discórdias entre elas e as enfrentando de forma fragmentada.

Filipe II da Macedônia, o pai de Alexandre, o Grande, usou essa abordagem para dividir e enfraquecer as cidades-estado gregas, facilitando a subsequente conquista macedônia.

Durante a colonização, potências europeias como a Grã-Bretanha aplicaram esse princípio para manter controle sobre colônias vastas e culturalmente diversas, criando rivalidades entre grupos locais.

Napoleão Bonaparte também empregou essa estratégia, explorando tensões internas em regiões que buscava dominar, como parte de seu projeto ambicioso de expansão europeia.

Em todos esses casos, a fragmentação dos oponentes contribuiu decisivamente para alcançar o controle e a vitória.

Dividir para Conquistar e o Exército Brasileiro

No Brasil, a estratégia adotada pelos militares formados pela gloriosa Academia Militar das Agulhas Negras tomou um rumo oposto ao princípio universalmente aceito de “dividir para conquistar”. Essa inovação, contrária às lições históricas, resultou em um fracasso notável.

Em meu texto “Paz, Justiça, e Liberdade – registro de nascimento”, tracei a origem de um lema que veio a definir as bases das atuais facções criminosas no Brasil. Essas organizações, agora responsáveis por uma parcela significativa do PIB nacional, emergiram em grande parte devido a esse erro estratégico militar primário da elite de nossas Forças Armadas.

Os militares brasileiros, numa tentativa equivocada de eliminar a resistência política contra o Regime Militar, uniram dois grupos inimigos distintos, criminosos comuns e opositores políticos, no Presídio da Ilha Grande. Essa decisão de “unir para conquistar” tornou-se um desastre estratégico.

Em um ato que revela a miopia da classe dominante e de seu braço armado, a união forçada entre criminosos comuns e presos políticos não conseguiu sufocar a resistência, mas sim, alimentou uma aliança histórica entre a violência do banditismo e o idealismo revolucionário.

Esta união atípica desencadeou uma era de crime organizado sem precedentes no Brasil, um clarim de resistência e transformação que ressoa desde as profundezas do sistema carcerário até os recantos mais remotos e periféricos de nossa nação. Tal fenômeno reflete as contradições intrínsecas ao Estado, evidenciando uma complexa interação entre poder e marginalização.

Da Falange Vermelha ao Primeiro Comando da Capital

O produto dessa união insólita manifestou-se no início da década de 80 com a criação da Falange Vermelha (FV). Embora sua existência tenha sido efêmera, a FV deu origem ao Comando Vermelho (CV), perpetuando os ideais de “Paz, Justiça e Liberdade” promovidos pelos integrantes da Falange, uma herança dos presos políticos.

Mais de uma década depois, em uma continuação da filosofia pregada pelos militares brasileiros, que teimosamente insistiam em desafiar o princípio consagrado de “dividir para conquistar”, nasceu o Primeiro Comando da Capital. Formado através do contato entre prisioneiros paulistas e cariocas, este contato foi parte de uma estratégia adotada pelas forças de segurança que consistia em transferir presos entre estados. Os prisioneiros de São Paulo, absorvendo o ideal do PJL, disseminaram-no não apenas em seu próprio estado, mas por toda a América Latina.

Neste contexto, apresento hoje os depoimentos de dois personagens inicialmente em lados opostos: José Carlos Gregório, o Gordo, um ladrão de bancos, e Alípio de Freitas, ex-padre e preso político como guerrilheiro.A trajetória de José Carlos Gregório é narrada no Canal Histórias Daki. Gravada há mais de 25 anos, essa entrevista fornece um olhar singular sobre a transição entre o antigo mundo do crime no Brasil e o atual modelo de organização criminosa transnacional.

Por outro lado, o Vavá da Luz, em um texto recheado com o vocabulário e jargões da extrema direita bolsonarista, me levou a refletir sobre o relato do jornalista Carlos Amorim em “O assalto ao poder e a sombra da guerra civil no Brasil”, onde menciona uma fala de Alípio de Freitas sobre sua atuação nas prisões.

Dividir para Conquistar: o Gordo da Falange Vermelha

José Carlos Gregório, conhecido como “Gordo”, foi uma figura proeminente na cena do crime organizado no Brasil, particularmente ligado ao Comando Vermelho. Durante sua prisão na Ilha Grande, ele entrou em contato com presos políticos e desempenhou um papel crucial na fundação da Falange Vermelha.

Essa organização buscava unir criminosos comuns com o objetivo de lutar por melhores condições nas prisões e veio a ser o embrião do que se tornaria o Comando Vermelho. A habilidade de liderança e eloquência de Gordo foi essencial na união de diferentes grupos criminosos que existiam dentro do Presídio da Ilha Grande.

Esses grupos, até então rivais, foram “pacificados” graças à capacidade de Gordo de intermediar conflitos e à adoção dos ideais de união trazidos pelos presos políticos. A influência dos presos políticos, juntamente com a visão e habilidades de Gregório, contribuiu para a formação de uma coalizão que não apenas promoveu a paz entre diferentes facções dentro da prisão, mas também lançou as bases para uma das organizações criminosas mais poderosas do país, refletindo uma mudança significativa no panorama do crime organizado no Brasil.

Gordo continuou a desempenhar um papel vital no Comando Vermelho, contribuindo para a sua expansão e fortalecimento. A sua influência e liderança foram fundamentais para transformar o Comando Vermelho em uma das organizações criminosas mais poderosas e temidas do Brasil. Mesmo após a dissolução da Falange Vermelha, a filosofia e os princípios estabelecidos, como o lema “Paz, Justiça e Liberdade”, continuaram a ressoar no Comando Vermelho, demonstrando o impacto duradouro da contribuição de Gordo.

TRECHOS DA ENTREVISTA DE JOSÉ CARLOS GREGÓRIO, O GORDO

Esses novos hóspedes, diferente de nós, sabiam o que era uma família, eram mais estruturados, mais educados, e viviam os dois lados: o criminoso e o da sociedade. Esses caras assistiam a tudo aquilo que acontecia dentro do presídio e chegaram para nós e disseram que os crimes que eram praticados pelos funcionários e também pelos próprios presos contra outros presos tinham que acabar.

conceito de família, que é forte até hoje no PCC: Cartilha de Conscientização da Família PCC 1533

Quando eles (presos políticos) tinham uma banana, eles dividiam a banana e alimentava todo mundo, e nós fomos vendo como eles faziam e aprendemos. […] E foi aí que começou a surgir essa organização, começando a se organizar dentro da cadeia, para depois transpor o muro da prisão e chegar aqui fora.

Gregório conta que no início as facções se ocupavam de organizar ações e não possuíam chefia, sendo apenas um fórum de mediação entre criminosos:

… cada um cuidava da sua vida, decidindo se iam ou não assaltar algum lugar e como fariam isso, eram um grupo de pessoas que são amigos, são uma família, que se unem. Ninguém era obrigado a entrar ou permanecer.

Artigo 17 do Estatuto da organizaão criminosa PCC: “… Ninguém é obrigado a permanecer no Comando, mas o Comando não vai ser tirado por ninguém.”

 Entretanto, era preciso cumprir as regras, além do que, caso uma missão seja abraçada, não se pode voltar atrás sem cumpri-la — conforme doutrina guerrilheira. O lema é “Paz, Justiça e Liberdade”. Gregório conta que o Comando Vermelho foi fundado já com o lema que hoje é adotado pelo PCC:

O lema do Comando Vermelho é Paz, Justiça e Liberdade:
Paz: é a paz de você viver em paz dentro da cadeia.
Justiça: você faz justiça todos os dias; é você fazer o que o governo não faz, o que quem deveria fazer não faz e, então, você tenta fazer alguma coisa.
Liberdade: é o que todo mundo sabe, sair do presídio a qualquer custo.

Dividir para Conquistar: o revolucionário Alípio de Freitas

Alípio de Freitas, nascido em Portugal em 1929, foi um ex-padre e revolucionário que se tornou uma figura proeminente na luta contra o Regime Militar no Brasil. Durante os anos 1960, ele foi uma das vozes ativas no movimento pela democracia, tendo se envolvido com organizações políticas e revolucionárias. Sua prisão na Ilha Grande como preso político aconteceu em 1970, após ser acusado de colaborar com grupos guerrilheiros contra o regime militar.

Na Ilha Grande, Alípio de Freitas enfrentou duras condições e tortura, mas permaneceu irredutível em seus princípios e crenças políticas. A sua estadia na prisão permitiu que ele interagisse com outros presos políticos e criminosos comuns, uma mistura que mais tarde influenciou a formação de organizações criminosas no país.

Mesmo após sua libertação em 1979, de Freitas continuou a se dedicar à defesa dos direitos humanos e justiça social, escrevendo e lecionando sobre suas experiências e a importância da luta pela democracia. Sua vida é um exemplo vívido de comprometimento com ideais revolucionários e a luta incansável contra a opressão.

TRECHOS DA ENTREVISTA DE ALÍPIO DE FREITAS

Tudo o que os intelectuais queriam era resistir ao sistema penal. No meio, os presos comuns iam aprendendo a se organizar. (…) Depois, os intelectuais foram embora e deixaram a semente. Os outros se apoderaram.

Eu tinha o poder de organização e a força das massas em minhas mãos. Por onde passei, organizei grupos, fomentei a revolução! Fiz isso em todas as prisões por onde caminhei, e não me arrependo.

Interroguem a polícia, esse braço opressor do Estado burguês, sobre por que um grupo de supostos malfeitores se apropriou, na cadeia, dos princípios nobres da organização dos presos políticos. Sob a falsa alegação de que éramos todos assaltantes de bancos, nós, revolucionários, fomos lançados com os criminosos comuns, vítimas todos de um sistema implacável e opressor.

As autoridades, em sua cegueira ideológica, percebendo a criação inadvertida, executaram sistematicamente na prisão as lideranças dos presos comuns que haviam absorvido nossos princípios. Imaginaram que, com essa violência brutal, conseguiriam esmagar a chama da resistência, mas subestimaram a força indomável do espírito revolucionário.

Mas a verdade se fez ouvir! Esse ato bárbaro apenas deixou os criminosos e a prisão entregues aos instintos mais primitivos, permitindo a aliança com uma polícia corrompida e vil. O resultado? Um cenário de caos e violência, um campo fértil para a revolução, onde o clamor por justiça ecoa com uma força inigualável, revelando as profundas contradições do Estado burguês.

Unir nem sempre é a melhor solução

A estratégia de “unir para conquistar” que tem sido implementada erradamente pelas forças de segurança do Brasil reflete um complexo dilema contemporâneo. Nesse contexto, uma abordagem enfática pode ser construída assim: A maneira de lidar com grupos criminosos, seja nos presídios ou nas comunidades periféricas, exige uma reavaliação profunda e estratégica.

A falácia de juntar facções diversas sob um mesmo teto, adotada desde a época do Regime Militar na Ilha Grande, provou-se não apenas ineficaz, mas perigosamente contraproducente. Essa abordagem errônea conduziu, paradoxalmente, a um fortalecimento inadvertido das organizações criminosas. A possibilidade de troca de informações e a consolidação de alianças entre grupos antes rivais transformam uma política de repressão em um mecanismo de fortificação do inimigo.

A implicação contemporânea dessa estratégia mal concebida estende-se para além dos muros dos presídios, chegando às regiões periféricas. O abandono dessas áreas pelo Estado criou um vácuo que tem sido preenchido pelos grupos criminosos, permitindo-lhes não apenas hegemonia sobre o discurso, mas também controle territorial.

Segurança Pública e a Proteção dos mais Vulneráveis

A correção de rumo exige uma nova lógica: “dividir para conquistar”. Isolar grupos criminosos, evitar a homogeneização dos inimigos do Estado, e trabalhar de forma assertiva nas bases e lideranças dessas organizações pode ser a chave para desmantelar as estruturas que fortalecem esses grupos. Esse novo caminho não é apenas uma necessidade estratégica, mas uma imperativa moral, em um momento em que as comunidades mais vulneráveis continuam a ser deixadas à mercê de forças que agem à margem da lei.

A reflexão sobre a realidade atual e a necessidade de reavaliação estratégica oferece uma oportunidade para um compromisso renovado com a justiça, a segurança e a integridade do Estado. O entendimento claro do erro histórico, aliado à coragem de abraçar uma nova direção, pode ser um catalisador para uma mudança significativa no combate ao crime organizado no Brasil.

Análise Crítica do Texto: Dividir para Conquistar e o ideal de Paz, Justiça e Liberdade (PJL)

O texto apresentado oferece uma visão aprofundada e complexa sobre a estratégia de “dividir para conquistar” e sua aplicação em diferentes contextos históricos e geográficos. A análise a seguir explora vários aspectos críticos desse texto:

1. História e Contexto

O texto habilmente traça a origem e o desenvolvimento da estratégia, desde o seu uso pelos romanos até a aplicação na colonização e as campanhas napoleônicas. Ao contextualizar essa abordagem em várias épocas, ele oferece uma compreensão abrangente da sua relevância e persistência ao longo da história.

2. Aplicação no Brasil

A análise da estratégia no contexto brasileiro é particularmente pertinente, dada a sua relação com o Regime Militar e o surgimento do crime organizado. A crítica à abordagem adotada pelos militares brasileiros é bem fundamentada e evidencia uma falha estratégica notável.

3. Personagens Principais

A inclusão de figuras como José Carlos Gregório e Alípio de Freitas enriquece a narrativa, tornando-a mais vívida e pessoal. Esses retratos individuais ilustram a complexidade da situação e a interação entre diferentes segmentos da sociedade.

4. Ligação entre Crime e Política

A análise do relacionamento entre criminosos comuns e presos políticos, e sua influência na formação de organizações criminosas, é perspicaz. Esse aspecto do texto destaca a complexidade das relações sociais e políticas no Brasil e mostra como decisões aparentemente táticas podem ter ramificações de longo alcance.

5. Linguagem e Estilo

O texto é escrito de forma clara e acessível, mas mantém uma linguagem formal que respeita a seriedade do assunto. As citações e referências históricas adicionam profundidade e credibilidade à análise.

6. Opinião e Conclusão Própria do Autor

Em minha opinião, o texto é uma análise bem articulada que combina história, política e sociologia para explorar uma estratégia que tem sido fundamental na política e na guerra. A seção sobre o Brasil é particularmente interessante, destacando um momento crítico na história brasileira e as complexas interações entre o Estado e o submundo do crime. A conclusão poderia ser fortalecida com uma síntese mais enfática das ideias apresentadas e uma reflexão sobre as implicações contemporâneas dessa estratégia.

Conclusão da Análise Crítica

O texto apresenta uma análise rica e multifacetada da estratégia de “dividir para conquistar”. Através de uma exploração histórica e contextual, ele revela as nuances dessa abordagem e sua aplicação em diferentes esferas da vida humana. A análise do contexto brasileiro adiciona uma dimensão única à discussão, mostrando como uma falha na compreensão dessa estratégia pode ter consequências profundas e duradouras.

A ligação entre crime organizado e política, e a influência das ações militares na formação de organizações criminosas, é uma contribuição significativa para o entendimento das complexidades do cenário político e social brasileiro. A análise é robusta, bem pesquisada, e escrita de uma maneira que equilibra a clareza com a profundidade acadêmica, tornando-se um recurso valioso para quem estuda essas questões.

A Ascensão do PCC Primeiro Comando da Capital: 2006-2012

Neste artigo, mergulhamos na história do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), acompanhando sua ascensão e expansão entre 2006 e 2012. Analisamos a redução de violência, a monopolização do crime em São Paulo, e a expansão do grupo para além das fronteiras de São Paulo, identificando a maneira como a organização alterou o equilíbrio de poder no mundo do crime.

Ascensão do PCC gera calafrios e curiosidade em partes iguais. Este relato escuro e fascinante retrata a história não contada do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Cada detalhe meticuloso revela a verdadeira magnitude de sua expansão e dominação, conduzindo você por um labirinto de poder e violência.

Esta investigação profunda desvenda os mistérios que envolvem a redução da violência e a monopolização do crime em São Paulo. Convido você a explorar a rede de influência e controle do PCC, como eles se ramificaram para além das fronteiras de São Paulo e alicerçaram seu poder.

Ascensão do PCC: uma análise na sociologia do crime

A ascensão do PCC entre 2006 e 2012 marca um capítulo importante na sociologia do crime brasileiro. Através de um jogo de forças inusitado, a facção redefiniu o equilíbrio de poder, estendendo-se além de São Paulo. A expansão foi rápida, agressiva, e o alcance global do PCC levantou questões complexas sobre as fronteiras da criminalidade organizada.

Nesse período, o PCC impôs uma monopolização do crime, dando origem a uma queda na violência – um paradoxo sociológico intrigante. Esta redução, no entanto, não significou a pacificação, mas sim um controle mais centralizado, uma maneira estratégica e racionalizada de operar a dominação. A sociologia do PCC revela uma organização criminal que ascendeu por meio da construção de uma hegemonia, ao mesmo tempo em que moldava a sociedade ao seu redor.

A “Ascensão do PCC” se torna, assim, mais do que a história de uma organização criminosa. É o retrato de uma sociedade que, consciente ou inconscientemente, se adaptou à presença deste poder paralelo. A análise sociológica desse fenômeno desafia nossa compreensão da dinâmica entre crime, poder e sociedade.

De São Paulo para além: a ascensão do PCC

O ano era 2006. O Primeiro Comando da Capital, como a fênix que ressurge das cinzas, mostrava-se reestruturado e ajustado aos novos tempos. Transformou-se no protagonista de um episódio que ficaria marcado na história recente do Brasil: uma batalha de proporções assustadoras que lançou o país em um estado de caos e guerra.

Este embate sem precedentes pôs de um lado a renascida organização criminosa e de outro, os representantes do Estado. Tudo culminou naquilo que se conheceu como os “ataques de Maio”, onde São Paulo – a pulsante metrópole – se viu submersa em sua maior crise nas últimas décadas. Setenta e quatro unidades prisionais, mais do que o dobro da megarrebelião de 2001, se levantaram em protesto contra o sistema, ilustrando a magnitude do controle exercido pelo comando.

O governo, já abalado, assistiu impotente enquanto sua metrópole se tornava o cenário de uma guerra urbana desenfreada, em que a violência se espalhava de maneira virulenta. O PCC, em uma ofensiva brutal, lançou ataques a edifícios públicos e privados, com foco em delegacias e órgãos de segurança pública, promovendo um clima de terror que se espalhou por toda a capital.

Essa explosão de violência tinha suas raízes na Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), que, em um movimento para minar o poder do PCC, transferiu os líderes da organização para prisões de segurança máxima. Esta estratégia, já tentada sem sucesso em 2001, provocou uma forte retaliação, culminando nos eventos de 2006.

Foram transferidos 760 presos para a recém reformada Penitenciária de Presidente Venceslau II. Esta medida, planejada para cortar as comunicações e enfraquecer a atuação do PCC, produziu o efeito oposto: uma reação violenta e destrutiva da organização, acabou por fortalecê-la.

Os números oficiais apresentados desse período são perturbadores: Entre 12 e 20 de maio de 2006, 439 pessoas foram assassinadas apenas estado de São Paulo. A vingança das forças policiais aos ataques foi brutal, com a polícia fechou a semana com 493 homicídios nas periferias em apenas uma semana, seguido por mais quinhentos assassinatos nas três semanas subsequentes.

Os números, entretanto, podem variar. Algumas fontes afirmam que as mortes provocadas pela polícia e pelo PCC foram ainda mais numerosas. O que fica claro, no entanto, é a terrível realidade que se desdobrou naqueles dias em São Paulo, marcada por um número inimaginável de vidas perdidas em uma batalha urbana brutal e sem precedentes.

A redução da violência e a monopolização do crime

No cerne do tumulto de 2006, o Primeiro Comando da Capital lançou uma série de ataques audaciosos que abalaram São Paulo até o seu âmago. Com o pano de fundo de um ano eleitoral, a cidade foi catapultada em uma crise política, enquanto o antigo governador, um conhecido inimigo do partido, lançava sua campanha presidencial.

Em uma demonstração inédita de poder, o PCC fez uso de uma estratégia sem precedentes: a imposição de um toque de recolher. Este foi um ato de desafio tão surpreendente que até mesmo as mais altas autoridades estaduais, confiantes na incapacidade do comando, se viram atordoadas. Ao contrário dos toques de recolher convencionais, este não foi uma imposição do governo, mas um decreto da própria organização criminosa.

A sociedade paulistana, consternada, mas impotente, aderiu obedientemente às ordens do comando. A violência desencadeada pelo PCC marcou sua presença e força na consciência dos cidadãos, fazendo-se cumprir através do medo. Os métodos de comunicação da organização também refletiam a mudança nos tempos: telefones celulares e computadores eram usados para disseminar informações.

As notícias que chegavam à população não eram provenientes da grande mídia ou de comunicados oficiais do Estado, mas de mensagens informais distribuídas pelo comando. Isso amplificou o sentimento de terror entre os habitantes da cidade, com a urgência e realidade das mensagens tornando o medo ainda mais palpável.

O ano de 2006 foi um marco para o PCC, que demonstrou sua capacidade de desafiar o governo, paralisar a polícia e ditar as regras na maior cidade do país. A segurança pública em São Paulo foi transformada como resultado dos eventos daquele ano, com políticas atualizadas para combater a organização, aumentos de investimento na polícia e repressão intensificada contra qualquer ameaça ao governo.

A sociedade civil sentiu em cheio o impacto dessa guerra aberta, cuja ferocidade era alimentada por vingança de ambos os lados. Talvez nunca antes na história de São Paulo um grupo havia confrontado o Estado de maneira tão direta e audaciosa como o PCC fez em 2006. Seu poder e ousadia repercutiram internacionalmente, ecoando o impacto causado em 2001 e marcando a consolidação de uma nova estrutura do comando.

O poder incontestável do PCC e a perturbação da paz

Os anos subsequentes a 2006 marcaram um período de expansão e ascensão do PCC sem precedentes. Uma estratégia de ampliação astutamente orquestrada viu a organização reconfigurar o balanço de poder no submundo do crime, cultivando aliados e identificando inimigos.

Após a tumultuosa tempestade de 2006, os conflitos entre o PCC e a polícia militar diminuíram significativamente. No entanto, os eventos de 2001 e 2006, juntamente com o aumento das prisões e a política de repressão, levaram o grupo a expandir-se além das fronteiras de São Paulo. Seu poder e influência se espalharam para outros estados brasileiros e até mesmo países vizinhos, fortalecendo sua estrutura e solidificando sua hegemonia nos presídios e comunidades, enquanto instilava medo na população em geral.

Muitos estudiosos sugerem que os índices de violência começaram a declinar progressivamente até cerca de 2012. O governo de São Paulo aproveitou-se dessa queda para impulsionar sua imagem de defensor da segurança do Estado, principalmente para ganhos políticos. No entanto, investigações mostram que a redução da violência pode ser atribuída não tanto às políticas de segurança pública, mas sim a um processo complexo de monopolização do crime em São Paulo por parte do PCC.

Esse monopólio, concebido em linhas weberianas e reminiscente da transição das sociedades guerreiras para a concentração de violência na Europa medieval, implicava um controle centralizado das relações sociais dentro do mundo do crime. A ascensão do PCC e seu monopólio da violência no mundo do crime ajudou a reduzir a violência em seus territórios e permitiu ao grupo estabelecer novos métodos racionais para exercer sua dominação.

Ganhar o respeito e o temor daqueles que os cercavam, fortalecer a hegemonia e expandir seu poderio se tornou mais fácil com esse controle incontestável. As ações do PCC estendiam-se pelos territórios sob sua jurisdição, que abrangiam prisões e comunidades. Sua expansão trouxe um poder estabilizador para esses territórios, resultando em uma pacificação e hegemonia que contribuíram para a redução da violência e o cumprimento das normas e condutas impostas.

No entanto, com o monopólio do poder, também veio a oposição. Os inimigos do comando, sejam eles de outras organizações criminosas ou agentes do Estado, desafiavam sua supremacia. Este conflito constante perturbava a paz dos territórios do PCC, resultando em um aumento da violência e insegurança, um testemunho da luta contínua pelo poder.

Baseado no trabalho do pesquisador Eduardo Armando Medina Dyna: “As faces da mesma moeda: uma análise sobre as dimensões do Primeiro Comando da Capital (PCC)”

Comentário de Luciana do 11 no grupo de Zap dos leitores do site

Boa boa

Com meus 46 anos, observado a organização lá no início (anos 90) em região periférica na norte de Sampa, e acompanhado ainda em Sampa essa ascenção, noto que houve mudanças drásticas após essa série de acontecimentos na aplicação das “leis” da família.

Posterior a essa ascenção estive em duas cidades do interior de São Paulo e pude observar de perto a realidade do domínio do PCC, que não condiz com a conduta esperada pela própria organização, e muito diferente do que conheci em São Paulo.

Citando exemplos sólidos, “as ideias” que eu conhecia (periferia de Sampa) eram conduzidas em locais reservados, fiquei bem surpresa no interior de São Paulo quando presenciei a realização de ato tão sério (ao menos pra mim que sempre acreditei na ordem que o PCC aplica) por inúmeras vezes na rua, onde se podia observar a roda de pessoas (envolvidos e disciplinas) realizando “as ideias”.

Além disso, pude presenciar muitos atos contraditórios aos lemas da organização.

Obviamente que com tantos membros chega um momento que simplesmente não dá pra controlar tudo, pessoas são diferentes e muitas entram para a família somente visando progresso próprio e não por acreditar nos ideais do PCC.

Gosto muito das matérias do site e acho fundamentais para esclarecer e pontuar a realidade, mas deixo a sugestão para o Wagner de explorar mais os pequenos núcleos onde o PCC atua, como em cidades mais afastadas dos grandes centros.
É fundamental que o PCC se mantenha fiel aos propósitos inicias: PAZ, JUSTIÇA, LIBERDADE, IGUALDADE E UNIÃO.

Foi assim que cresceu e se solidificou e somente assim perpetuará o respeito e crença na organização (pontuo essa questão por ter cansado de ouvir de inúmeras pessoas que estão desacreditadas principalmente da justiça da organização).

Disputas de Poder: Primeiro Comando da Capital de 2001 a 2006

A jornada deste texto percorre a história da facção PCC 1533 de 2001 a 2006, um período marcado por intensas disputas de poder e contradições, revelando uma faceta complexa da criminalidade em São Paulo.

Este relato acompanha um período em que a disputa por poder não ficou nos bastidores. Entre 2001 e 2006, o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) avança enquanto a política de segurança pública, em vez de conter o problema, cria condições para sua ampliação. O que se vê não é apenas violência, mas método: escolhas, omissões e efeitos que o tempo torna mais visíveis.

2001 a 2006 – Disputas de Poder com a sociedade

Em 1997, um grito audaz ressoou do submundo criminoso, desafiando a sociedade como um fantasma emergindo das sombras. O Primeiro Comando da Capital, ousadamente, forçou o reconhecimento de sua existência, garantindo a publicação de seu estatuto e selando sua imagem como uma organização criminosa.

Essa atitude, talvez impulsionada por uma busca de satisfação do ego, talvez pelo desejo de derrubar o estigma do criminoso comum, tido como “inferior e ignorante”, surgiu como um movimento ousado e estratégico.

No jogo xadrez das “Disputas de Poder”, esta manobra se revelou mais do que uma simples busca por reconhecimento. Foi uma jogada tática astuta, um lançamento calculado de um dado que traçaria o caminho para o crescimento iminente da organização nos anos que viriam.

Medo, Repulsa e a Imprensa como Alto-falante

As entranhas da cidade escondiam mais do que apenas o medo e a repulsa – elas abrigavam uma força emergente, prestes a deixar sua marca indelével no tecido da sociedade. Esta era a ascensão silenciosa, porém inconfundível, do Primeiro Comando da Capital.

Em meio a um cenário que desafiava qualquer lógica convencional, a mídia assumiu o papel de alto-falante para as atividades do PCC, aumentando exponencialmente a sua notoriedade. Em uma tentativa de projetar uma imagem de eficácia e ação à população, várias correntes ideológicas implementaram políticas de Segurança Pública. No entanto, ao invés de subjugar a influência do PCC, elas fortaleciam inadvertidamente a organização criminosa. Como um fogo alimentado pelo vento, a estrutura do PCC parecia apenas se fortalecer frente a estes esforços.

O período de 2001 a 2006 marcou a entrada do Primeiro Comando da Capital numa nova fase, uma era definida por intensas disputas de poder. Este tempo, preenchido com dilemas e conflitos tanto internos quanto externos, escancarou a complexidade do ambiente no qual a facção PCC estava imersa.

No palco externo, a intenção das políticas governamentais colidiu com sua eficácia na prática. Ao invés de conter a influência da PCC, as medidas adotadas pela segurança pública paulista deram um impulso inesperado à organização criminosa. As transferências de presos, pensadas para diluir a força da PCC, acabaram por criar uma rede de influência mais extensa e consolidada, tanto dentro quanto fora das prisões.

Sede fecundos, disse-lhes ele, multiplicai-vos e enchei as trancas.
Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo aquele que pensar em se opor a vós.
Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva e o pó.
Somente comereis carne com a sua alma, com seu sangue.
Todo aquele que trair a nós terá seu sangue derramado pelos irmãos, porque faço de vós a nossa imagem.
Sede, pois, fecundos e multiplicai-vos, e espalhai-vos sobre a terra abundantemente.

Operação Dictum PCC 15.3.3

Disputas de Poder dentro da Facção

No cenário interno, as disputas de poder intensificaram-se. Os líderes, outrora respeitados e inquestionáveis, agora enfrentavam um panorama de incerteza e instabilidade. Sombra, um dos generais mais admirados, fora brutalmente assassinado em 2001, durante seu banho de sol na prisão de Taubaté. Os motivos do assassinato de Sombra nunca foram confirmados oficialmente, mas diversas teorias circulavam entre os membros da PCC. Talvez fosse uma jogada de uma facção rival, talvez uma rixa pessoal, ou ainda uma tentativa de outro líder da PCC para aumentar seu poder. A verdade permaneceu nebulosa.

O Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), já estabelecido, encontrou forte resistência entre os detentos. No entanto, as lideranças do PCC incessantemente buscavam meios para se evadir deste castigo institucional, agitando o ambiente penitenciário. Paralelamente, a PCC logrou eliminar diversas organizações rivais em São Paulo, isolando as que apresentavam mais resistência. Curiosamente, ao concentrar todas as lideranças no presídio P2 de Presidente Venceslau, o estado inadvertidamente forjou um Quartel General para o Primeiro Comando da Capital, facilitando a coordenação entre os diferentes líderes do estado.

[…] o RDD acabou por contribuir para a consolidação de lideranças dentro do sistema prisional. A construção da autoridade das lideranças no interior de organizações tais como o PCC se dá a partir da valorização de alguns atributos do indivíduo, especialmente ligados à autonomia e independência frente a qualquer poder ou autoridade formal de modo que o preso que recebe como punição a alguma falta a remoção para o RDD acaba encarnando a imagem exemplar da insubmissão às regras oficiais do Estado.

Bruno Lacerda Bezerra Fernandes

Da disputas de poder à pacificação

A hegemonia da PCC nas prisões estava em plena expansão, com a organização ocupando o vácuo de poder deixado pelas facções extintas.

No implacável jogo de poder do submundo, o PCC mostrou-se eficiente ao enfrentar seus rivais. Ao eliminar muitas organizações adversárias em São Paulo, orquestrando uma verdadeira guerra estratégica, cujo objetivo era estabilizar sua influência e conquistar o poder e a hegemonia nas prisões. Organizações contrárias como o Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade CBRC, a Seita Satânica SS, o Serpentes Negras e Comando Democrático da Liberdade CDL, de fato, desapareceram após 2001.

Este cenário gerou um vácuo de poder, um espaço vazio que ansiava por domínio. A habilidade do PCC em preencher essa lacuna tornou-se evidente à medida que expandiam gradualmente seu controle, utilizando a violência como um instrumento para reforçar seu poder e recrutando novos membros para suas fileiras. A cada passo, o Primeiro Comando da Capital foi tomando as rédeas, crescendo não apenas em influência, mas também em número, com o aumento constante de seus afiliados. Nesse tabuleiro de xadrez do crime, a cada movimento, a facção PCC consolidava sua supremacia.

Apesar das circunstâncias adversas, a Primeiro Comando da Capital conseguiu estabelecer uma espécie de “pacificação” nos presídios entre 2002 e 2004. Este termo, contudo, não significava uma verdadeira paz, mas o fim das violentas disputas de poder entre as facções. No entanto, os crimes fora das prisões, como fugas, assaltos e sequestros, continuaram a ocorrer.

A pacificação dependeu da capacidade do PCC em construir um discurso de união do crime e organizar o interesse dos empreendedores de drogas numa mesma direção. Em São Paulo, a facção conseguiu funcionar como agência reguladora.

A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil

As Sombras de São Paulo: o sonho de mizael

Mergulhando ainda mais fundo nos corações das sombras de São Paulo, em nossa narrativa do período entre 2001 e 2006, palco das “Disputas de poder” do notório Primeiro Comando da Capital. Vidas tecidas na violência, corações pulsando contra a corrente de seus destinos prescritos – é neste cenário que Mizael, um líder na trama da facção, encontra seu fim abrupto em fevereiro de 2002.

Mizael, uma figura emblemática do PCC, se destacou por sua visão que ia além do cotidiano criminoso. Ele sonhava com um diálogo direto com o governo brasileiro e organizações de direitos humanos, enxergando na denúncia de abusos do governo paulista, uma chance de mudança. Essa aspiração foi abruptamente interrompida por uma trama interna.

Te convido a enxergar além da brutalidade dos atos do criminoso condenado. Tente ver em Mizael um homem com um plano, um estrategista almejando mudanças para além das grades. Seus desejos ecoavam em um manifesto, onde fazia menção a figuras políticas e intelectuais relevantes, numa tentativa de criar diálogo no âmbito político-jurídico.

Entretanto, dentro do universo fechado do Primeiro Comando da Capital, os sonhos costumam ser encurtados. Cesinha, antigo aliado de Mizael e um dos generais do PCC, baseado em boatos, determinou o fim de Mizael. O líder foi assassinado em um ato simbolicamente cruel, tendo seus olhos arrancados, uma forma de suplício que ecoa a brutalidade deste universo.

Jogos de Poder

Neste jogo de xadrez humano, Mizael e Sombra, outro líder do PCC, se destacaram por suas visões inovadoras. Viu-se em Mizael o potencial de um líder político, ainda que dentro da estrutura de uma organização criminosa. Sua visão, entretanto, foi impedida por uma disputa de poder, comprovando a velha máxima de que em uma guerra interna, não há vencedores, apenas sobreviventes.

Para além dos atos violentos, percebemos os homens por trás da facção PCC, suas ambições e desejos, frustrações e medos. Em um mundo onde a luta pelo poder pode custar a vida, cada decisão tem um peso imenso e os erros, consequências fatais. Entre as sombras das disputas de poder, encontramos seres humanos em sua mais crua essência, lutando pela sobrevivência em um ambiente hostil.

A Reconfiguração do Poder: Traição e Reformulação

Durante esse período de 2001 a 2006, encontramos um cenário volátil nas entranhas do emblemático Primeiro Comando da Capital. As perdas de lideranças chave levaram a uma reestruturação significativa do poder dentro do grupo, dando início a uma fase de intensa reconfiguração interna.

Neste período, presenciamos o assassinato de Ana Maria Olivatto Camacho, ex-esposa de Marcola, perpetrado por Natália, esposa de Geleião. Este evento acendeu o estopim para uma onda de vingança dentro do PCC, com parentes de Natália sendo eliminados por seguidores de Marcola.

A trama de nosso relato se adensa com a delação de Geleião à polícia, num esforço desesperado para proteger sua esposa e a si mesmo. Esta traição foi repudiada pela facção, levando à expulsão de Geleião e Cesinha, líderes renomados do PCC.

O vácuo de poder deixado por estas convulsões internas foi preenchido por Marcola, que ascendeu à liderança do Primeiro Comando da Capital em 2003. Implementou uma reformulação radical, mudando a forma de atuação financeira, política e estratégica da organização.

O PCC Evolui e se estrutura como empresa

A nova fase do PCC foi marcada por uma reorganização, passando de uma estrutura piramidal centralizada para uma organização complexa e descentralizada. Esta mudança democratizou as formas de atuação do grupo, concedendo voz e voto na estrutura interna da facção.

Marcola introduziu o conceito de “Sintonias”, comissões ou setores compostos por vários “irmãos” que reportavam a uma “sintonia final”. Além disso, a facção incluiu os termos “Igualdade e União” no seu lema, evitando problemas internos de poder e melhorando a divisão do trabalho.

No seio desta remodelação, o tráfico de drogas surgiu como uma atividade lucrativa e segura, reduzindo a perda de membros em assaltos e sequestros. Esta mudança levou a facção PCC a se tornar uma organização de caráter empresarial, embora mantendo sua luta contra as opressões e injustiças.

Neste contexto, o PCC, que começou como um partido, continua a existir, agora também como uma empresa. Uma dualidade que produziu uma ruptura singular na história da facção, transformando-a numa entidade complexa e multifacetada.

Baseado no trabalho do pesquisador Eduardo Armando Medina Dyna: “As faces da mesma moeda: uma análise sobre as dimensões do Primeiro Comando da Capital (PCC)”

Comunicado Geral Estados e Países – 04/04/2023 – Região Norte

Comunicado Geral do PCC a respeito de conflitos com outras gangues e milícias, como o Comando Vermelho CV, que têm atacado familiares e pessoas inocentes. O Primeiro Comando da Capital expressa indignação, condena essas ações violentas e sinaliza que irá reagir para proteger sua família e membros.

Ataque dos inimigos na Região Amazônica

Primeiramente, um abraço a todos os irmãos (as) e companheiros (as).

Vamos abordar uma questão que vem acontecendo há algum tempo e, nos últimos dias, vem ocorrendo com frequência.

Vamos direto ao ponto:

Uma milícia chamada Comando Vermelho e algumas gangues que agem igual a eles, que não têm autonomia e controle sobre seus integrantes, vêm tirando a vida de familiares nossos e também de pessoas inocentes que não têm nada a ver com a nossa guerra, com o objetivo de intimidar nossos irmãos (as) e companheiros (as) dentro dos estados, como Amazonas, entre outros.

Um recado importante

Pois bem, vamos mandar aqui um recado para vocês que compactuam com esses tipos de atitudes covardes contra pessoas inocentes.

Nós, do Primeiro Comando da Capital, fomos criados em cima de opressões por parte do governo e, até hoje, estamos firmes e fortes na luta, lutando sem parar.

Com vocês não será diferente

As atitudes desses covardes estão gerando ódio e revolta. Portanto, com toda nossa indignação perante todos os fatos que vêm sendo apurados, daremos um recado para essa milícia do CV e outras gangues que compactuam com as atitudes deles:

Aquele que vier mexer com nossa família, iremos usar de todos os recursos que temos e vamos cobrar de igual.

Não é nosso objetivo, muito menos o que queremos, mas não vamos aceitar que a vida de nossos familiares e pessoas inocentes sejam tiradas por esses animais sem cérebros.

Então, aqui está toda nossa indignação, deixando claro que não iremos mais aceitar tais fatos apurados e narrados neste comunicado.

Deixamos um abraço a todos os irmãos (as), companheiros (as) e a todo o crime do Brasil que corre com o certo, sem exceção.

Assinado: Apoio S.F, Primeiro Comando da Capital – Estados e Países.

histórico da disputa do PCC na Região Norte e posíveis estratégias apontadas nesse comunicado geral

análise aprofundada do documento: Comunicado Geral Estados e Países – 04/04/2023 – Região Norte

ChatGPT fala sobre a facção PCC Primeiro Comando da Capital

O que a inteligência artificial pensa sobre o PCC, guerra entre facções, jovens e drogas.

Terceira parte da entrevista com o ChatGPT

Nessa terceira publicação, o ChatGPT sobre a relação da facção PCC com a questão das armas, drogas, jovens e a guerra entre facções.

…. é necessário pensar em estratégias que possam ir além da repressão e abordar outras questões, como prevenção, tratamento de dependentes químicos e políticas públicas de segurança mais eficazes, visando reduzir o poder do crime organizado e melhorar as condições das prisões.

ChatGPT

… a falta de controle de armas no Brasil também pode contribuir para a disponibilidade de armas para o PCC.

ChatGPT

O PCC e os outros grupos criminosos

O que você sabe sobre a guerra entre as facções criminosas no Brasil.

A guerra entre as facções criminosas no Brasil é uma luta constante pelo controle de territórios, tráfico de drogas e outros crimes organizados.

As duas principais facções criminosas no Brasil são a Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) que operam em várias regiões do país e há relatos frequentes de violência e conflitos armados entre elas.

Embora ambas as organizações criminosas sejam muito poderosas e perigosas, é difícil determinar qual delas tem uma vantagem clara sobre a outra, pois a situação é altamente dinâmica e pode mudar rapidamente.

Ambas as facções têm seus próprios pontos fortes e fracos, e é provável que sua capacidade de competir e prosperar dependa de vários fatores, incluindo o ambiente político, econômico e social em que operam.

A situação é agravada pela corrupção e falta de efetividade das forças de segurança, o que permite que as facções criminosas tenham acesso a armas e recursos financeiros.

A guerra entre facções criminosas tem sido uma fonte de preocupação para as autoridades brasileiras e é considerada um dos maiores desafios para a segurança pública no país.

Quais são os grupos, facções, bondes ou gangues que atuam em conjunto como aliados da facção paulista Primeiro Comando da Capital?

(esta resposta eu não publicarei pois o ChatGPT errou redondamente, citando inimigos históricos como o Comando Vermelho, Primeiro Grupo Catarinense e a Família do Norte como aliados, além disso cita grupos que sequer existem)

Quais grupos criminosos internacionais podem ser comparados com o Primeiro Comando da Capital? E por qual razão?

A principal atividade do Primeiro Comando da Capital é o tráfico de drogas, mas também está envolvido em outros crimes, como roubos, sequestros e assassinatos.

O PCC é conhecido por sua hierarquia rígida, disciplina interna, lealdade aos membros e violência extrema contra seus inimigos.

Algumas organizações criminosas que também são conhecidas por suas atividades ilícitas, violência extrema contra seus inimigos, hieraquia rígida e disciplina interna são:

  • Yakuza: uma organização criminosa japonesa que se originou na década de 1600. Seus membros estão envolvidos em diversas atividades ilegais, incluindo tráfico de drogas, jogos de azar, extorsão e prostituição. A Yakuza é conhecida por sua estrutura hierárquica e por suas tatuagens corporais, que são usadas como símbolos de identificação.
  • Cartéis de drogas mexicanos: organizações criminosas que controlam o tráfico de drogas no México e em outros países. Os cartéis são conhecidos por sua violência extrema e seus confrontos com as autoridades. Alguns dos cartéis mais conhecidos incluem o Cartel de Sinaloa, o Cartel de Jalisco Nova Geração e o Cartel de Los Zetas.
  • Máfia italiana: uma organização criminosa que se originou na Itália no final do século XIX. A Máfia está envolvida em várias atividades ilegais, incluindo tráfico de drogas, extorsão, jogos de azar e assassinatos. A organização é conhecida por sua estrutura hierárquica e pela lealdade inabalável dos membros.

Cada um desses grupos criminosos tem sua própria história e características distintas.

No entanto, todos eles estão envolvidos em atividades ilegais e são conhecidos por sua violência extrema e pela ameaça que representam para a sociedade.

A questão das armas

Como a política de facilitação da compra e posse de armas pelo governo Bolsonaro influiu na organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

A política de liberação de armas provavelmente não teve um impacto direto significativo na organização criminosa Primeiro Comando da Capital no Brasil.

Embora o aumento da disponibilidade de armas possa ter contribuído para a escalada da violência em geral, o PCC tem uma estrutura sólida e fontes de financiamento diversificadas, incluindo o tráfico de drogas, extorsão e roubo de cargas, que permitem que a organização mantenha sua posição de poder.

Além disso, o PCC tem uma forte presença em presídios e uma ampla rede de contatos e aliados, o que dificulta a ação das autoridades na luta contra o crime organizado.

Onde a facção PCC consegue suas armas?

A fonte de armas da organização criminosa Primeiro Comando da Capital é controversa e não há informações precisas disponíveis a esse respeito.

Algumas fontes afirmam que as armas são adquiridas através de compra ilegal no mercado negro, enquanto outras afirmam que são trazidas de outros países através de contrabando.

Além disso, a falta de controle de armas no Brasil também pode contribuir para a disponibilidade de armas para o PCC.

A questão das drogas

A liberação do uso recreativo de drogas teria impacto nos negócios da organização criminosa PCC?

Não há uma resposta definitiva quanto ao impacto da legalização do uso recreativo de drogas sobre a organização criminosa PCC.

Alguns argumentam que a legalização poderia reduzir a demanda por drogas ilegais e, consequentemente, afetar os negócios do PCC.

Outros argumentam que a legalização não afetaria significativamente os negócios do PCC, já que eles se concentram em outros tipos de atividades criminosas, além da venda de drogas.

Além disso, é possível que o PCC simplesmente se adapte ao novo cenário e encontre novos meios de continuar suas atividades criminosas.

O combate às drogas aumenta o número de presos e é nos presídios que o PCC recruta seus integrantes. Qual é o resultado dessa equação?

O combate às drogas pode ter como consequência o aumento do número de prisões, uma vez que muitas das atividades ilegais relacionadas às drogas são consideradas crimes e puníveis com prisão.

Entretanto, a simples prisão de indivíduos envolvidos no tráfico de drogas não é suficiente para solucionar o problema.

O tráfico de drogas é um negócio ilegal que movimenta grandes quantidades de dinheiro e possui uma demanda constante por parte dos consumidores, o que leva a sua continuidade mesmo diante das ações de repressão por parte das autoridades.

A prisão em si não é suficiente para impedir que os indivíduos envolvidos no tráfico de drogas continuem a exercer suas atividades criminosas.

Nos presídios, muitos desses indivíduos têm a oportunidade de se associar a organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital, em busca de proteção e benefícios, como acesso a drogas, telefones celulares e outros privilégios.

Além disso, as condições precárias das prisões, como superlotação, falta de higiene e violência, favorecem a proliferação dessas organizações criminosas.

Dessa forma, a equação resultante do aumento do número de presos devido ao combate às drogas pode favorecer a expansão de organizações criminosas dentro dos presídios, como o PCC, que podem se tornar mais poderosas e influentes.

Isso pode levar a uma maior dificuldade para o controle do crime organizado e a um aumento da violência tanto dentro como fora das prisões.

Portanto, é necessário pensar em estratégias que possam ir além da repressão e abordar outras questões, como prevenção, tratamento de dependentes químicos e políticas públicas de segurança mais eficazes, visando reduzir o poder do crime organizado e melhorar as condições das prisões.

Jovens e a facção PCC

Por que a organização criminosa Primeiro Comando da Capital desperta tanto interesse pelos jovens?

Não é possível afirmar de forma precisa por que a organização criminosa Primeiro Comando da Capital desperta tanto interesse entre jovens.

É possível que a atração seja resultado de uma combinação de fatores, como falta de oportunidades, falta de educação e esperança, bem como a busca por pertencimento, proteção e reconhecimento.

Além disso, a propaganda ou o discurso da organização pode ser atraente para algumas pessoas, mesmo que as ações dela sejam violentas e criminosas.

É importante destacar que participar de uma organização criminosa é perigoso e pode ter graves consequências para a vida e a liberdade de uma pessoa.

É comum, pelo menos entre as crianças e os jovens buscarem a presença e a proteção de colegas mais fortes e violentos, isso acontece também em relação aos jovens de periferia que se aproximam de criminosos, principalmente daqueles que pertencem a organizações criminosas reconheciddas, como é o caso do Primeiro Comando da Capital. Você pode explicar qual a razão e como essa realidade pode ser combatida?

O comportamento de buscar proteção e pertencimento a grupos mais fortes e violentos, como gangues ou organizações criminosas, é comum entre crianças e jovens que vivem em ambientes vulneráveis, como periferias urbanas e áreas de pobreza e exclusão social.

Existem várias razões para isso acontecer, mas algumas das principais incluem:

  • Necessidade de proteção: muitos jovens que vivem em áreas de violência e insegurança sentem que precisam de proteção contra ameaças reais ou percebidas. Ao se juntar a um grupo mais forte e violento, eles esperam estar mais seguros e protegidos.
  • Busca de identidade: muitos jovens que vivem em áreas de pobreza e exclusão social têm poucas oportunidades para desenvolver uma identidade positiva e se sentir valorizados pela sociedade. Ao se juntar a um grupo, eles podem encontrar uma identidade coletiva e se sentir mais importantes e relevantes.
  • Pressão social: a pressão dos pares pode ser muito forte entre crianças e jovens, especialmente em ambientes de pobreza e exclusão social. Ao se juntar a um grupo, eles podem se sentir mais aceitos e populares, mesmo que isso signifique envolver-se em atividades ilegais ou violentas.

Para combater essa realidade, é importante oferecer alternativas positivas para esses jovens, como programas de educação, esportes e atividades culturais.

Essas atividades podem ajudar a desenvolver habilidades, valores e identidades positivas, além de fornecer oportunidades para os jovens se conectarem com outras pessoas e comunidades fora do ambiente de violência e exclusão social.

Também é importante investir em políticas sociais que melhorem as condições de vida nas áreas vulneráveis, como acesso a educação de qualidade, saúde, habitação e empregos.

Isso pode ajudar a reduzir a pressão social e a necessidade de proteção entre os jovens, além de oferecer esperança e perspectivas de futuro.

Por fim, é fundamental combater a impunidade e a corrupção no sistema de justiça criminal e policial, para que os jovens percebam que a violência e o crime não são o caminho certo para alcançar justiça ou proteção.

Além disso, é preciso oferecer oportunidades de reintegração social para aqueles que já cometeram crimes, para que possam sair do ciclo de violência e criminalidade e ter uma segunda chance de construir uma vida positiva.

Sobre os documentos do PCC

Você conhece o Estatuto do PCC? O que você pode falar sobre ele?

O Estatuto do PCC é o conjunto de normas e regras internas da organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

Embora não seja público, ele é conhecido por especialistas e investigadores como um documento que estabelece as diretrizes da organização e define as sanções para os membros que cometem infrações.

O Estatuto também descreve a hierarquia da organização e as funções de seus membros.

É importante destacar que a existência e o conteúdo do Estatuto do PCC são considerados ilegais e contrários aos valores e às leis do Estado brasileiro.

Você conhece a chamada “Cartilha de Conscientização da Família 1533”? O que pode me falar sobre ela?

A “Cartilha de Conscientização da Família 1533” é um documento divulgado pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital com o objetivo de difundir sua ideologia e fortalecer o controle sobre seus membros.

A cartilha inclui uma série de regras e orientações sobre como os membros do PCC devem se comportar e se relacionar com a sociedade e com as autoridades.

Ela também aborda questões como a importância da disciplina e da obediência às regras da organização, a necessidade de proteção dos segredos da organização e a defesa da família dos membros.

É importante destacar que a cartilha é considerada ilegal e que seu conteúdo é condenado pela sociedade e pelas autoridades como uma ameaça à paz e à ordem pública.

Você conhece o chamado “Dicionário do PCC”? O que pode me falar sobre ele?

Sim, conheço o chamado “Dicionário do PCC”.

É uma lista de regras, códigos e procedimentos adotados pelo Primeiro Comando da Capital, organização criminosa brasileira.

Essa lista foi encontrada durante uma operação de busca e apreensão e foi considerada uma das principais fontes de informação para entender a estrutura e as ações da facção.

O “Dicionário”, como é conhecido, é visto como uma forma de controlar e manter a disciplina entre os integrantes da organização.

Pacificação do PCC

A organização criminosa Primeiro Comando da Capital afirma que sua política de pacificação derrubou a taxa de mortalidade.

Não é possível afirmar a veracidade dessa afirmação da organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

Grupos criminosos frequentemente apresentam informações falsas ou distorcidas para justificar suas ações ilegais e violentas.

A melhor maneira de avaliar a segurança de uma região é consultar fontes confiáveis, como autoridades governamentais e agências de segurança.

A questão da situação prisional

Qual a razão pela qual o Primeiro Comando da Capital teve tanta facilidade para convencer os presos a entrarem para o grupo criminoso?

O Primeiro Comando da Capital teve sucesso em convencer muitos presos a se juntarem ao grupo criminoso devido a uma combinação de fatores, incluindo a falta de proteção e recursos para os presos, as condições precárias nas prisões brasileiras, e a violência frequente.

O PCC se apresentava como uma organização que fornecia proteção e apoio aos presos, incluindo ajuda financeira para suas famílias e representação em questões legais.

Além disso, o PCC oferecia uma estrutura de liderança e poder dentro da prisão, o que era atraente para muitos presos que sentiam que não tinham outras opções para lidar com a violência e as condições precárias nas prisões.

Adicionalmente, o PCC tem uma estrutura de comando e controle rigorosa e utiliza a violência e a ameaça de violência para intimidar os presos e manter a lealdade à organização.

Isso faz com que muitos presos se sintam compelidos a aderir ao PCC para proteger a si mesmos e suas famílias.

Em resumo, a combinação de falta de proteção e recursos para os presos, condições precárias nas prisões, e a oferta de proteção e apoio pelo PCC, juntamente com sua estrutura de poder e controle rigoroso, ajudou a explicar a sua capacidade de convencer muitos presos a se juntarem ao grupo criminoso.

Expansão do PCC

Em quais estados a organização criminosa Primeiro Comando da Capital tem tido maiores dificuldades de conseguir domínio? E por que razão?

O Primeiro Comando da Capital é uma organização criminosa de grande escala, com atuação em diversos estados brasileiros.

No entanto, é difícil determinar com precisão em quais estados a organização tem tido maiores dificuldades de estabelecer domínio, pois a atuação do grupo é frequentemente subterrânea e não há informações públicas confiáveis a esse respeito.

Alguns estados brasileiros têm implementado medidas de segurança rigorosas para enfrentar o PCC, incluindo a cooperação entre agências de segurança pública e a realização de operações especiais para prender líderes e membros do grupo criminoso.

Essas medidas podem ter dificultado a atuação do PCC nesses estados, mas não há evidências concretas de que a organização tenha sido completamente neutralizada em qualquer região do Brasil.

Em geral, a atuação do PCC é influenciada por uma série de fatores, incluindo a presença de outros grupos criminosos rivais, a capacidade das autoridades de segurança em combater o grupo, e a disponibilidade de recursos e proteção para os membros do PCC.

Em estados onde as autoridades de segurança são mais fortes e têm mais recursos, pode ser mais difícil para o PCC estabelecer e manter seu domínio.

Você disse que nos estados onde existe um sistema de segurança pública mais forte e com mais recursos a organização criminosa Primeiro Comando da Capital teria maiores dificuldades de crescer, no entanto, o Estado de São Paulo é o com mais recursos e com um forte aparato de Segurança Pública e foi justamente nesse estado que o PCC mais cresceu. Não parece incoerente a sua resposta?

Desculpe, eu cometi um erro na minha resposta anterior.

É verdade que o Estado de São Paulo, que tem um sistema de segurança pública forte e com muitos recursos, também foi um dos locais onde o Primeiro Comando da Capital cresceu mais rapidamente.

A presença de fortes sistemas de segurança pública não necessariamente impede o crescimento de grupos criminosos como o PCC, que são altamente organizados e têm uma estrutura de comando e controle sofisticada.

O crescimento do PCC em São Paulo e em outros estados pode ser atribuído a uma série de fatores, incluindo a corrupção dentro das instituições de segurança pública, a falta de acesso à justiça e à educação para populações vulneráveis, e a existência de um mercado para o tráfico de drogas e outros crimes.

A luta contra o PCC e outros grupos criminosos é uma tarefa complexa que exige uma abordagem integrada, que vá além da mera aplicação da lei.

É necessário abordar as causas subjacentes à criminalidade, incluindo a desigualdade social e econômica, a falta de oportunidades e a exclusão social, a fim de promover uma sociedade mais justa e segura.

Em qual nação da América do Sul a organização criminosa Primeiro Comando da Capital tem maior capacidade de ampliar seus negócios?

Não há informações disponíveis sobre em qual nação da América do Sul o Primeiro Comando da Capital tem a maior possibilidade de ampliar seus negócios.

O PCC é uma organização criminosa baseada no Brasil e suas atividades são principalmente concentradas no Brasil.

Embora o PCC tenha se expandido em outros países da América do Sul, a extensão e a intensidade dessas atividades variam amplamente.

A luta contra o PCC e outros grupos criminosos internacionais requer uma abordagem coordenada entre as nações envolvidas, incluindo a troca de informações e a cooperação no que diz respeito à investigação, perseguição e prevenção.

É importante destacar que a luta contra a criminalidade transnacional é uma tarefa complexa e que a resposta deve ser baseada em evidências e no respeito aos direitos humanos.

A facção PCC manda parar a briga entre as torcidas organizadas

Briga entre torcidas organizadas de futebol: a organização Primeiro Comando da Capital PCC 1533 ainda não usou a força que já possui.

Briga entre torcidas e a polícia

No claustrofóbico interior do vagão de metrô, meus olhos eram testemunhas involuntárias da dança violenta das torcidas rivais na plataforma da Linha Verde:

O concerto amargo de punhos e ofensas ressoava pelo compartimento, impondo seu silêncio brutal aos demais passageiros.

Jovens protagonistas de duas torcidas encenavam um espetáculo de brutalidade insana.

Os grupos rivais, equiparados em sua determinação feroz, trocavam golpes impiedosos, cada ação impulsionada pela única intenção de derrubar o adversário.

Porém, a chegada abrupta da polícia e dos seguranças do metrô, com o claro objetivo de dissipar o caos, causou uma guinada na narrativa.

Ao invés de findar o confronto, a presença das forças de segurança pareceu forjar uma inusitada aliança entre os grupos oponentes, que agora se voltavam contra os recém-chegados com uma ferocidade redobrada.

Os agentes da lei, originalmente destinados a enfrentar duas facções rivais, agora se viam diante de um sólido grupo hostil, determinado e unificado.

No confinamento do vagão de metrô, havia assistido a um tumulto de torcidas, agora era testemunha da insólita pacificação de eternos antagonistas e da sua aliança contra a autoridade estatal e suas forças coercitivas.

PCC: O Mandante por Trás das Torcidas Organizadas

Os tais “cidadãos respeitáveis” parecem estar presos em um ciclo de erros, sem tirar lições dos próprios deslizes.

Falharam em 1991, quando se mantiveram indiferentes aos confrontos mortais entre facções rivais dentro das prisões – o pavio que desencadeou o Massacre do Carandiru.

Erraram novamente em 1993, ao aplaudirem as decapitações no presídio do Piranhão – um estopim para a criação do Primeiro Comando da Capital (PCC).

O erro persiste na atualidade, onde a visão miópica falha em perceber que o PCC não apenas dita ordens às torcidas organizadas, mas que as torcidas organizadas são, na verdade, uma extensão do PCC.

Esta não é uma condenação moral ou crítica, mas a pura constatação de que as torcidas organizadas consistem, na maioria, de jovens marginalizados, prontos para se rebelar contra a opressão do Estado e suas forças de segurança.

Isso foi o que relatei em 2012, embora com um maior número de palavras. E é isso que reitero hoje:

Os supostos “cidadãos de bem” parecem ter uma dificuldade crônica em aprender com os próprios erros.

Artigo original publicado em 3 de abril de 2012:

Arthur Conan Doyle e a briga entre torcidas

Arthur Conan Doyle me alertou nos idos de 1993 sobre algo que estava me passando despercebido — ele me acusa de ser muito pouco observador.

Ao assistir pela TV presos jogando futebol com a cabeça de outros presos em um presídio do interior de São Paulo eu fiquei abismado!

Em 31 de agosto de 1993 no Piranhão (Casa de Custódia de Taubaté) jogadores do time “Partido do Crime da Capital — PCC” decapitaram os adversários…

… e foi assim, sem jogadores vivos, que o “Partido Caipira” foi eliminado do campeonato daquele ano e o Brasil nunca mais foi o mesmo.

Como quase todas as pessoas, fiquei revoltado com aquela loucura, mas Arthur que assistia ao meu lado não!

Ele ficou ali, sem falar nada como se nada tivesse acontecido.

Ele viu em 1933 o que eu só vejo hoje

Aceito que não é o gênio que eu acho que é, e sei que cometeu muitos erros, mas ainda acho que ele é um gênio.

Portanto, entenderei as restrições que você possa colocar, mas você não tem como negar que ele vê coisas antes das outras pessoas.

Naquela noite histórica de 31 de agosto de 1993, quando finalmente desliguei a televisão, Arthur simplesmente disse:

O mundo está cheio de coisas óbvias, que ninguém, em momento algum, observa! E aí está uma delas.

Eu não vi nada de oculto por trás do horror que é  um jogo de futebol que termina em sangue! — Arthur às vezes fala merda.

Juntando os pontos

Resolvi dar uma desculpa e ir embora, Arthur é que era a visita em minha casa e não parecia que iria embora tão cedo!

No entanto, passados anos, vejo que ele viu o que eu não vi.

Em dezembro de 2010 quando outra revolução política começou em uma briga de futebol e então vi o óbvio que Arthur viu em 1993.

A Primavera Árabe: regra, não foi exceção

Rodrigo Vianna lembra que as torcidas organizadas surgiram na América Latina nos anos 70 e se enraizaram na sociedade.

Esses grupos sociais são compostos na maioria por jovens na faixa dos 20 aos 30 anos de idade.

Meu amigo dizia que “ao eliminar o impossível, o que sobraria, por mais incrível que parecesse seria a verdade”, então, jogos de futebol tem um grande poder revolucionário.

Jovens, futebol, Piranhão e revolução

Geleião tinha 32 anos quando no dia do jogo no Piranhão. Marcola que não estava no jogo mas participou do movimento tinha 25 anos.

Pode se dizer que os fundadores do PCC foram os oito integrantes do time de futebol e todos jovens na faixa dos 20 aos 30:

  • Misael Aparecido da Silva, o Misa;
  • Wander Eduardo Ferreira, o Eduardo Cara Gorda;
  • Antonio Carlos Roberto da Paixão, o Paixão;
  • Isaías Moreira do Nascimento, o Isaías Esquisito;
  • Ademar dos Santos, o Dafé;
  • Antônio Carlos dos Santos, o Bicho Feio;
  • César Augusto Roris da Silva, o Cesinha; e
  • José Márcio Felício, o Geleião.

Todos, além de jovens, viviam isolados dentro do mundo que eles mesmos construíram por terem sido levados pela sociedade a criar.

Assim, foram os fundadores do Primeiro Comando da Capital, e assim é com os jovens das torcidas organizadas hoje.

PCC nascido do sangue no Piranhão

Faltou  imaginação à mim quando houve o banho de sangue no Piranhão, ou eu teria visto o potencial de tudo o que estava começando.

Olhar apenas na superfície me impediu de ver que naquele momento nascia a maior organização criminosa da América Latina, mas Arthur viu.

A falta de imaginação nos transforma em bichos que apenas observam e agem, sem se questionar e perceber as consequências do que vemos ou fazemos.

Assim, em 1991, policiais militares de São Paulo com idade entre 20 e 30 anos mataram 111 no Carandiru, plantando as sementes da facção PCC.

Assim, em 1993, criminosos do Piranhão com idade entre 20 e 30 anos decapitaram um inimigo, regando com sangue as sementes da facção PCC.

Assim, em 2010, jovens egípcios com idade entre 20 e 30 anos se revoltam contra o sistema político opressor, iniciando a Primavera Árabe.

Assim, hoje ao proibir briga entre as torcidas organizadas a organização criminosa está plantando para o futuro.

O PCC, os jovens e seu espírito revolucionário

Lá assim como aqui as torcidas organizadas e as organizações criminosas tem em sua maioria jovens  com até de vinte e cinco anos de idade.

Jovens de periferia que contestam a força repressora do Estado e sua polícia, que desprezam a corrupção política e a exclusão social.

Arthur não estava olhando para mim, sorte, pois detesto quando ele percebe que eu fico sem argumentos e não tenho como refutá-lo.

Sem dúvida, tanto o Primeiro Comando da Capital, quanto às torcidas organizadas tem o mesmo perfil: jovens entre 20 e 30 anos da periferia.

PCC e as torcidas organizadas

Haveria razão para que a maior organização criminosa da América Latina se infiltrasse nas torcidas?

Optei não mais conversar com Arthur a este respeito, pois sei que ele sempre diz que é um erro terrível teorizar antes de termos informação.

Principalmente por que o homem tem essa característica, a de se achar especialista em tudo, quando na realidade sua especialidade é apenas a omnisciência.

O tempo passou e agora devo novamente procurar Arthur e me desculpar, pois o respeitado jornalista Ricardo Perrone garantiu que o grupo criminoso PCC repreendeu a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde pela morte dos dois palmeirenses, o que confirma a influência da facção sobre as organizadas.

A pacificação do PCC nas ruas

Aqui em Itu, por muito tempo, a Avenida da Paz Universal esteve em paz graças a uma determinação dos traficantes ligados ao PCC para que não houvesse armas, brigas ou mortes, pois chamariam a atenção da polícia, criando situações de confronto que não interessavam aos negócios.

Ao falar hoje com meu amigo ele me explicou o último ponto de sua linha de raciocínio:

A razão. Ela não existe. Não existe razão para que o PCC influencie e domine as torcidas organizadas, mas ela existe pela própria natureza das duas culturas: a conta-cultura criminosa difundida pelas facções, e a cultura do futebol.

Ambas acéfalas, existem lideranças, mas sua base se move por vontade própria de modo pouco estruturado.

A tentativa das mídias sociais como a TV e o rádio de criar um clima familiar na torcida, é artificial.

Campos de futebol é o lugar onde milhares de cidadãos gritam “Filha da Puta Vai Se Fudê” e quebram as amarras sociais.

A facção ainda não optou por usar a força que já possui:

O próximo levante da facção criminosa, ao contrário do que se espera, deverá ocorrer usando esta reserva poderosa e inesperada, não para derrubar o governo, mas para conquistar ainda mais espaço.

Veremos duas torcidas brigando e quando houver intervenção policial se unirem contra o inimigo comum: a polícia.

Ao chegar a este ponto, razões justas serão postas: a excessiva repressão policial, corrupção na política e no esporte, desigualdade social…

O governo negará que as facções criminosas determinaram o fim das brigas, mas por trás das câmeras lhes darão mais regalias.

Os policiais serão punidos como bodes expiatórios.

As mídias sociais, todas elas, faturam horrores com o caso, e a população ficará entretida por algum tempo.

Guerra entre facções criminosas e a taxa de homicídios

A guerra entre facções criminosas é a principal razão da elevada taxa de homicídio em toda a América Latina segundo levantamento do Insight Crime.

Guerra entre facções criminosas volta a São Paulo

Com o governador Tarcísio de Freitas, a guerra entre facções criminosas volta a assombrar o  Estado de São Paulo.

São Paulo fechará 2022 com o mais baixo índice de homicídio do Brasil, aproximadamente 5,2 para cada 100.000 habitantes.

Segundo levantamento do site Insight Crime, São Paulo, se fosse um país, seria tão seguro quanto o Chile e a Argentina com índices: 4,6.

A exceção do Suriname que não possui grupos de crimes organizados expressivos, todas as outras nações sofreram com a guerra entre organizações criminosas.

Em pouco menos de um mês de governo Tarcísio de Freitas as milícias tentam o domino áreas pacificadas pelo Primeiro Comando da Capital.

A tendência para 2023 será o ressurgimento da guerra entre facções criminosas  com o aumento da taxa de homicídios que será justificada como combate ao crime.

Ataques em 2006 do PCC pouparam 25.000 vidas

A facção PCC e guerra entre facções criminosas

Em 2021 o Estado do Amapá foi assolado por uma guerra onde o Primeiro Comando da Capital lutou contra vários grupos criminosos locais.

No entanto, em 2022 a guerra terminou, sobrando poucos focos de resistência, o que derrubou o índice em 34%.

Já em Rondônia, onde o PCC e o Comando Vermelho (CV) disputam a rota do tráfico da Bolívia, houve um aumento de 29% nos homicídios.

PCC não derrubou a taxa de homicídio em São Paulo

A guerra entre as facções criminosas do PCC no Paraguai e na Bolívia

Na Bolívia houveram vários assassinatos na Guerra entre o PCC e o CV pelo domínio das rotas que levam as plantações bolivianas de coca.

A província de Santa Cruz é essencial para quem quer garantir as rotas de cocaína do Brasil ou Paraguai da Bolívia e do Peru.

No Paraguai, a disputa entre o PCC e o Clã Rotela pelo controle da rota de tráfico do Amambay que alimenta a Rota Caipira deixou um rastro de corpos.

Traduzido, editado e adaptado para este site do artigo “InSight Crime’s 2022 Homicide Round-Up” de Peter Appleby, Chris Dalby, Sean Doherty, Scott Mistler-Ferguson, e Henry Shuldiner.

A taxa de homicídios no Brasil em 2022 é impulsionada pela guerra entre facções criminosas

Brasil: 18,8 por 100.000* (Pop. 214.326.223)

Nos primeiros nove meses de 2022, o Brasil teve uma leve queda de 3% nos homicídios em relação a 2021, com 30.187 homicídios.

A expectativa era terminar 2022 com 40.000 homicídios, marcando uma ligeira queda geral em relação aos 41.069 registrados em 2021 pelo mesmo índice.

Guerra entre facções criminosas como causa

A violência é uma instituição tão natural como a própria vida humana. Decorre do nosso instinto de sobrevivência, sendo o grande motivo para o homem ter dominado a natureza. Mas essa afirmação não pretende trazer glamour à violência.

Talvez no último estágio da existência humana, a evolução definitiva seja exatamente vencer o instinto natural que nos propala a nos destruirmos mutuamente.

Conexão Teresina: uma crônica sobre a atuação do PCC no Piauí

O nordeste do Brasil, que há muito é um epicentro da violência da guerra entre grupos criminosos que buscam controlar as rotas do narcotráfico para a Europa, registrou uma queda de 5% nos homicídios.

A Bahia, o maior estado da região, liderou o ranking, mas também teve uma queda geral de 11%, talvez devido aos investimentos em segurança pública.

O Amapá, um pequeno estado do norte, teve uma queda de 34% nos homicídios, provavelmente devido a uma queda natural na violência após um 2021 particularmente sangrento, quando grandes facções criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC) lutaram pelo controle do tráfico de drogas contra vários grupos criminosos locais.

Rondônia, estado que faz fronteira com a Bolívia, registrou um aumento de 29% nos homicídios, o maior do país por estar no centro da disputa entre o PCC e seu arquirrival cariocas, o Comando Vermelho (Comando Vermelho – CV), pelo controle da rota hiper lucrativa da cocaína Bolívia-Brasil.

Embora as facções do tráfico de drogas possam ter impulsionado grande parte da violência, a polícia do Brasil, notoriamente ágil no gatilho, também contribuiu.

Enquanto no primeiro semestre de 2022 as mortes causadas pela polícia caíram, milhares de brasileiros continuam sendo mortos pelas forças de segurança.

Em 2021, 84% desses assassinatos cometidos por policiais foram direcionados a negros.

Taxa de homicído Brasil de 1981 à 2021

A polícia e a chacina de jovens negros e pobres

Resumo de Homicídios de 2022 da InSight Crime

Países da América Latina e do Caribe continuaram a registrar altas taxas de homicídios em 2022.

À medida que a produção de cocaína atingiu novos patamares, a fragmentação das gangues continuou e o fluxo de armas na região se agravou.

A situação no Equador foi absolutamente catastrófica.

Quantidades históricas de cocaína entrando no país alimentaram a violência, com assassinatos disparando à medida que os grupos criminosos atacavam funcionários judiciais e matavam policiais em taxas recordes.

Essa cocaína veio em grande parte da Colômbia, onde o recém-empossado presidente Gustavo Petro prometeu se afastar da guerra contra as drogas em favor dos esforços para alcançar uma “Paz Total” com os grupos rebeldes e criminosos do país.

A mudança da estratégia de combate aos grupos criminosos implementada pelo novo governo colombiano, até agora, porém, os níveis de violência permaneceram estagnados.

Em El Salvador, uma repressão decisiva às organizações criminosas reduziu enormemente a taxa de homicídios, embora à custa de supostos abusos sistemáticos dos direitos humanos.

No Haiti, uma quase total falta de capacidade política permitiu que a violência aumentasse, enquanto os bandos criminais paralisavam a capital do país, Port-au-Prince.

O Caribe se tornou o foco de assassinatos da região

A taxa de homicídios da Jamaica aumentou ainda mais, ainda assim o tráfico de armas continuou, mesmo os criminosos já estando fortemente armados.

As Ilhas Turks e Caicos provaram ser o país mais mortal da região per capita, pois os assassinatos mais que dobraram.

Em 2022 o InSight Crime incluiu nações e territórios menores do Caribe, muitos dos quais tiveram um aumento acentuado nos assassinatos.

Embora cientes de suas populações comparativamente pequenas e números de homicídios, nós os incluímos no ranking abaixo para mostrar como os padrões de violência estão afetando toda a região.

Ilhas Turks e Caicos: 77,6 por 100.000 (Pop. 45.114)

Uma onda de violência atingiu as pequenas ilhas Turks e Caicos em 2022, segundo estatísticas oficiais do governo.

Embora 35 assassinatos possam parecer pouco motivo de preocupação, representam um salto de 150% em relação aos 14 assassinatos ocorridos em 2021 em um país com uma população total de pouco mais de 45.000 habitantes.

Muitos dos homicídios se concentraram no último terço do ano, com 21 homicídios ocorridos entre 3 de setembro e 8 de novembro, culminando com um triplo homicídio em 1º de novembro. ilha mais populosa.

Guerra entre facções Criminosas como causa

Embora os motivos para o aumento da violência permaneçam incertos, o chefe de estado nomeado pelo Reino Unido, Nigel Dakin, disse em um post no Instagram que os grupos criminosos jamaicanos estão “tentando remover toda a competição criminosa no território” usando “níveis sem precedentes de violência direcionada”.

Ele culpou a proximidade das ilhas com vizinhos instáveis “inundados de armas e drogas… onde os criminosos aparentemente conseguem se mover facilmente por toda a região”.

Jamaica: 52,9 por 100.000 (Pop. 2.827.695)

Pela primeira vez em três anos, a ilha caribenha não liderou as tabelas regionais de taxas de homicídios.

Infelizmente, isso tem menos a ver com o sucesso em erradicar a própria violência na Jamaica e mais a ver com taxas terrivelmente altas testemunhadas em outras partes do Caribe.

A Força Policial da Jamaica (JCF) registrou 1.498 assassinatos em 2022, 24 mortos a mais que no ano anterior.

Esse resultado coloca a taxa de homicídios da Jamaica em quase 53 mortos por 100.000, uma alta não vista desde 2017.

Vários fatores influenciam a violência implacável da Jamaica e a aparente incapacidade do governo de detê-la.

O tráfico de armas é desenfreado no país insular, com armas pequenas dos EUA inundando o mercado.

Em fevereiro, o primeiro-ministro Andrew Holness reciclou uma estratégia familiar de reprimir o porte ilegal de armas.

À medida que 2022 chegava ao fim, as ações do governo não reduziram os assassinatos na Jamaica.

Juntamente com as consequências crescentes para os proprietários de armas ilegais, o governo recorreu a outra abordagem testada e comprovada e geralmente nada assombrosa: decretar repetidamente estados de emergência em grande parte da ilha.

Aparentemente sem respostas, a Jamaica recorreu publicamente às Nações Unidas em busca de assistência para reduzir o tráfico de armas no país.

De forma desencorajadora, as apreensões recordes de armas e munições parecem ter feito pouco para virar a maré.

Santa Lúcia: 42,3 por 100.000 (Pop. 179.651)

Um total de 76 assassinatos pode não parecer muito.

Mas para Santa Lúcia, com uma população de pouco menos de 180.000 pessoas, isso o coloca perto do topo do ranking regional.

Em 2021, Santa Lúcia registrou 74 assassinatos, um recorde para a época.

O aumento em 2022 para 76 assassinatos significa que o país quebrou seu recorde de homicídios pelo segundo ano consecutivo e levou a pedidos do Partido Unido dos Trabalhadores para que o primeiro-ministro Philip J. Pierre renunciasse ao cargo de ministro da Segurança Nacional.

Guerra entre facções Criminosas como causa

Ao se tornar um centro de trânsito para a cocaína sul-americana para os EUA e Europa, as gangues locais passaram a disputar a hegemonia criminosa.

Isso foi agravado por um influxo de armas americanas: um homem da Pensilvânia preso em março passado por traficar quase 40 armas para Santa Lúcia.

Funcionários eleitos condenaram a “anarquia em nosso país” e prometeram “penalidades draconianas”, mas poucos detalhes foram divulgados.

Venezuela: 40,4 por 100.000 (Pop. 28.199.867)

As mortes violentas na Venezuela permaneceram relativamente estáveis em 2022 após vários anos de declínio, com a taxa geral caindo apenas 0,5%.

O número inclui homicídios comprovados, homicídios cometidos por policiais, mortes ainda sob investigação e desaparecimentos.

Se os desaparecimentos não forem incluídos no cálculo, a taxa geral cai para 35,3 mortos por 100.000 habitantes.

Houve um total de 10.737 mortes violentas em 2022 ou uma média de 29 por dia.

Cinco dos sete principais estados com as taxas mais altas estão localizados na zona centro-norte do país.

O crime organizado venezuelanos

Entre eles estão Aragua, lar da gangue local mais notória da Venezuela, Tren de Aragua, Miranda, onde gangues ultravioletas dedicadas a sequestros e extorsões tomaram conta de faixas de território, e Caracas.

Grande parte da violência está sendo conduzida não pelos maiores grupos do crime organizado, mas por pequenas gangues de rua predatórias.

A dolarização de fato do país criou grandes oportunidades para as gangues, pois indivíduos e empresas usam dólares americanos para transações em dinheiro, mas não podem depositá-los em contas bancárias nacionais, deixando-os na posse de grandes quantidades de dinheiro que os tornam alvos de roubos.

Das mais de 10.000 mortes violentas registradas no ano passado, aproximadamente 13% resultaram de intervenções policiais.

Entre a violência das gangues e da polícia

Essa alta taxa provavelmente está ligada à violência indiscriminada empregada em operações de segurança na Venezuela, onde a polícia se tornou conhecida por cometer execuções extrajudiciais, conforme documentado por agências internacionais de direitos humanos.

Três dos cinco estados com as maiores taxas de mortes resultantes de intervenções policiais, Aragua, Miranda e Guárico, tiveram operações de segurança em grande escala em 2022, acompanhadas por denúncias generalizadas de abusos de direitos humanos, incluindo execuções extrajudiciais.

Além disso, houve 1.370 denúncias de desaparecimentos em 2022.

Algumas áreas da Venezuela tornaram-se notórias por desaparecimentos ligados a atividades criminosas, sobretudo a região mineradora de Bolívar, onde gangues fortemente armadas, conhecidas como sindicatos, disputam o controle do comércio de ouro.

Esses grupos se tornaram notórios pelo desaparecimento de suas vítimas, como mostra a descoberta de várias valas comuns no final de 2022.

São Vicente e Granadinas: 40,3 por 100.000 (Pop. 104.332)

As razões para a alta taxa de homicídios em São Vicente e Granadinas em 2022 não são tão diferentes dos tradicionais focos de violência da região:

Muito disso está entrelaçado com o comércio de cocaína e outros derivados com retaliação.

primeiro-ministro Ralph Gonsalves

Em novembro, as forças de segurança destruíram 135 quilos de cocaína e 18 toneladas de maconha apreendidas nos últimos três anos.

Traficantes de Trinidad e Tobago, que enfrenta um grande problema de violência causada pelas drogas, estão por trás de algumas dessas importações de cocaína.

A maioria dos mortos são por armas de fogo

O governo trinitário-tobagenses está reunindo aliados regionais para impedir que as armas cheguem dos Estados Unidos.

Os EUA precisam fazer algo sobre … o fácil acesso a armas e a fácil exportação de armas. Eles têm os recursos para nos ajudar nisso.

primeiro-ministro Ralph Gonsalves

Poucos cidadãos e empresas acreditam que a polícia tenha condições de investigar e combater os criminosos e menos da metade dos crimes são denunciados.

Trinidad e Tobago: 39,4 por 100.000 (Pop. 1.525.663)

A taxa de homicídios de Trinidad e Tobago saltou mais de 22% em 2022 em relação a 2021.

Após um ano de derramamento de sangue em que os grupos criminosos da duas ilhas ganharam notoriedade em todo o mundo.

Dados do Serviço de Polícia de Trinidad e Tobago mostram que 502 assassinatos foram cometidos no país entre janeiro e outubro.

Policiais disseram ao InSight Crime que outros 47 homicídios foram cometidos em novembro e mais 52 em dezembro, elevando o total de 2022 para 601.

Este é o maior número de assassinatos no país, muito acima dos 550 registrados em 2008.

As várias razões para o aumento da violência

O assassinato de Anthony Boney, líder de um crupo criminoso muçulmano, quebrou o equilíbrio que havia no mundo do crime trinitário-tobagenses.

O resultado foi a fragmentação caótica das grandes organizações criminosas e grupos menores e muito mais violentos.

Essas facções estão lutando pelo controle das múltiplas economias criminosas do país, incluindo contrabando humano, extração de pedreiras e roubo organizado.

Cerca de 12 mil armas circulam no país

A falta de confiança na polícia é reconhecida por ela mesma, principalmente entre a população mais pobre.

Honduras: 35,8 por 100.000 (Pop. 10.278.345)

Honduras continua como o país mais mortal da América Central em 2022, com uma taxa de homicídios de 35,8 mortos por 100.000 pessoas.

Apesar do resultado, o país conseguiu reduzir os homicídios em 12,7% em relação a 2021, o menor número de homicídios desde 2006.

O presidente Xiomara Castro gerou polêmica perto do final do ano ao implementar uma repressão anti-gangues que prendeu 652 supostos membros de gangues e desmantelou 38 gangues.

Muitas das mortes violentas em Honduras são atribuídas a grupos criminosos conhecidos por tráfico de drogas e extorsão.

O setor de transporte de Honduras tem sido particularmente perseguido por extorsão e violência subsequente, com pelo menos 60 trabalhadores perdendo suas vidas em 2022.

Embora o estado de exceção tenha como alvo esses grupos criminosos, é muito cedo para dizer como a estratégia afetará os homicídios do país.

Bahamas: 32 por 100.000 (Pop. 407.906)

As Bahamas terminaram 2022 com 128 assassinatos, quando o comissário de polícia Clayton Fernander, que esperava terminar o ano com menos de 100 homicídios.

Guerra entre facções Criminosas como causa

O país continua como centro de tráfico de cocaína, e em março, o governo admitiu que há disputa pelo narcotráfico na ilha de New Providence.

Chegando em 2023, o governo do primeiro-ministro Philip Davis está enfrentando uma reação negativa.

A oposição baamesa critica a política pública pelo aumento dos crimes: tráfico de drogas, e assaltos e homicídios com o uso de armas de fogo.

O governo por sua vez afirma que são criminosos libertados sob fiança que voltaram a cometer crimes.

Colômbia: 26,1 por 100.000 (Pop. 51.516.562)

Os 13.442 homicídios registrados em 2022 pela Polícia Nacional da Colômbia deram ao país uma taxa de homicídios de 26,1 por 100.000 no ano, ligeiramente abaixo dos 26,8 por 100.000 em 2021.

Talvez não surpreendentemente, os homicídios foram maiores em regiões onde predominam os grupos armados, de acordo com um relatório da Universidad Externado de Colombia.

Os departamentos de Arauca, Putumayo, Cauca, Chocó, Guaviare e Valle del Cauca tiveram a maior concentração de homicídios.

Guerra entre facções Criminosas como causa

A maioria desses departamentos são corredores estratégicos do narcotráfico sobre os quais grupos criminosos lutam pelo controle e pelas receitas do crime.

Desde o início de 2022, o Exército de Libertação Nacional (Ejército de Liberación Nacional – ELN) e grupos mafiosos das ex-FARC travam uma sangrenta batalha pelo controle de Arauca, no sul do país, ao longo da fronteira com o Equador, Peru e Brasil.

Os assassinatos de líderes sociais continuaram inabaláveis em 2022.

Até dezembro do ano passado, 33 líderes sociais foram assassinados em Nariño, enquanto outros 25 foram mortos em Cauca.

O ELN e a ex-máfia das FARC estão presentes em ambos os departamentos, assim como as Autodefesas Gaitanistas da Colômbia (Autodefesas Gaitanistas de Colombia – AGC), também conhecidas como Urabeños ou Clã do Golfo (Clan del Golfo).

O presidente Gustavo Petro chegou ao poder com ambições de “Paz Total”.

Vários grandes grupos armados assinaram um cessar-fogo bilateral que deve vigorar nos primeiros seis meses de 2023, embora o ELN seja uma ausência notável.

Resta saber como a medida vai se desenrolar.

Equador: 25,9 por 100.000 (Pop. 17.797.737)

Pelo segundo ano consecutivo, o Equador teve uma das taxas de homicídios que mais cresceram na região.

Guerra entre facções Criminosas como causa

Em 2022, o país foi dilacerado por grupos criminosos que brigavam por quantidades impressionantes de cocaína vindas da Colômbia e registraram 4.603 assassinatos.

Isso representa um aumento de algo em torno de 82% e 86,3% em relação ao ano anterior, de acordo com a base de cálculos.

Os especialistas atribuem a culpa diretamente à violência associada ao narcotráfico. Isso é amplamente correto.

Choneros e Lobos na disputa

Duas organizações criminosas, Choneros e Lobos, reuniram em torno de si aliados para disputarem o mercado criminoso com extrema violência.

]O foco é dominar áreas de controle da infraestrutura do narcotráfico, incluindo o porto marítimo de Guayaquil, o epicentro da violência no país, e Esmeraldas, uma província que faz fronteira com a Colômbia e é um centro de trânsito de drogas.

Em Esmeraldas os assassinatos atingiram um novo recorde, com corpos sendo deixados pendurados em pontes e assassinatos em larga escala ocorreram em todo o país.

Grupos menores, mas altamente organizados, estão aparecendo agora, esculpindo brutalmente sua própria fatia do bolo do narcotráfico.

O tráfico de armas está aumentando constantemente, com armas semiautomáticas, revólveres e munições inundando o país, principalmente dos Estados Unidos e do Peru.

E a influência do crime organizado mexicano e colombiano apenas estimula ainda mais a violência.

México: 25,2 por 100.000 (Pop. 126.705.138)

Com uma ligeira queda nos homicídios em 2022, os homicídios no México ultrapassaram 30.000 pelo quinto ano consecutivo.

No ano passado, ocorreram menos 30.968 homicídios, ou 85 por dia, além de 947 feminicídios — valores são calculados separadamente.

Somando 31.915 assassinatos, 25,2 por 100.000 habitantes, uma ligeira queda em relação à taxa de 2021.

Quase 50% desses assassinatos se concentraram nos mesmos seis estados de 2021: Guanajuato, com 3.260, Baja California, Chihuahua, Jalisco, Michoacán, o estado do México.

Guerra entre facções criminosas como causa

Há muito tempo os estados fronteiriços de Baja California e Chihuahua convivem com a violência dos grupos do crime organizado que disputam o controle das rotas do narcotráfico para os Estados Unidos.

Já Jalisco está localizada ao norte de Michoacán e Colima, cujos portos – Lázaro Cárdenas e Manzanillo – são pontos de chegada de precursores químicos da Ásia necessários para a produção de drogas sintéticas.

Belize: 25 por 100.000 (Pop. 400.031)

Belize encerrou 2022 com 113 assassinatos, uma queda em relação aos 125 em 2021, para uma taxa de homicídios de 25 por 100.000 pessoas.

O comissário de polícia Chester Williams disse à mídia local que o país agora saiu da lista dos dez países mais assassinos do mundo.

No entanto, o governo americano alerta que muitos dos crimes violentos em Belize ocorreram no lado sul de Belize e estão “relacionados a gangues”.

Os crimes violentos, incluindo assaltos à mão armada, são “comuns mesmo durante o dia e em áreas turísticas”.

Porto Rico: 17,4 por 100.000 (Pop. 3.263.584)

O território dos EUA viu uma queda bem-vinda na violência em 2022, registrando 567 homicídios, ante 616 em 2021, segundo a mídia local.

A disponibilidade de armas de fogo continua sendo um problema para as autoridades de Porto Rico, com crimes relacionados a armas permanecendo muito mais altos do que nos estados dos EUA e em outros territórios.

Traficantes ilegais de armas trouxeram milhares de armas para o país, enquanto a Lei de Armas de Porto Rico de 2020 tornou a obtenção e o porte legal de uma arma de fogo muito mais fácil.

E o tráfico de cocaína, responsável por grande parte da violência no território, continuou em ritmo acelerado com apreensões maciças feitas regularmente em 2022.

Guatemala: 17,3 por 100.000 (Pop. 17.109.746)

Os 3.004 homicídios registrados na Guatemala em 2022 deram ao país uma taxa de homicídios de 17,3 por 100.000 habitantes.

Foi um aumento de 5,7% em relação aos 2.843 homicídios registrados no ano passado.

De acordo com a ONG de Direitos Humanos, Grupo de Apoio Mutuo – GAM, foram 3.609 assassinatos, houve um aumento de 7% nos homicídios entre janeiro e outubro de 2022.

As descobertas do GAM também revelaram um salto preocupante no número de vítimas de assassinato que apresentaram sinais de tortura, de 104 em todo o ano de 2021 para 164 nos primeiros 10 meses de 2022.

Guerra entre facções criminosas como causa

A atividade criminosa provavelmente está por trás desses aumentos.

Em outubro, pelo menos sete pessoas foram mortas a tiros na piscina de um hotel em El Semillero, na costa do Pacífico da Guatemala, e o crime estaria relacionado ao Barrio 18.

Também em outubro, cinco nicaraguenses foram encontrados mortos com as mãos amarradas nas suas costas no município de Atescatempa.

Barbados: 15,3 por 100.000 (Pop. 281.200)

Assim como em seus vizinhos caribenhos, a pronta disponibilidade de armas de fogo foi responsabilizada por um aumento acentuado nos assassinatos em Barbados em 2022.

Dos 43 homicídios registrados, mais de 75% foram cometidos com armas de fogo.

Isso apesar da polícia de Barbados alegar sucesso em uma campanha contínua de recuperação de armas, com 75 armas apreendidas até setembro de 2022.

Isso foi superior às 36 recuperadas em todo o ano de 2021.

Um aumento persistente nos assassinatos, apesar de mais armas serem coletadas, só pode significar uma coisa: muitas armas estão entrando em Barbados.

Em junho, três homens americanos foram condenados por enviar pelo menos 30 armas de fogo para Barbados por meio de serviços de correio.

Em setembro, o comissário de polícia de Barbados confirmou que o Escritório de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) dos EUA estava trabalhando com Barbados para conter o fluxo de armas.

Mas há uma confusão persistente sobre o cenário do crime organizado do país, apesar de seu tamanho modesto.

Em uma entrevista para a televisão em novembro, o membro do gabinete de prevenção ao crime, Corey Lane, afirmou que havia apenas duas gangues em Barbados e não 52, como afirmam algumas fontes não especificadas.

Guiana: 15,1 por 100.000 (Pop. 804.567)

Foram registrados 122 assassinatos até meados de dezembro de 2022, a menor contagem de homicídios em uma década.

No entanto, armas de fogo ilegais continuam a entrar no país vindas dos Estados Unidos e do Brasil, aumentando a violência no país.

A Guiana também está lidando com a disseminação da mineração ilegal, já que a invasão de gangues venezuelanas ameaça aumentar a violência.

Costa Rica: 12,2 por 100.000 (Pop. 5.153.957)

A Costa Rica viveu seu ano mais sangrento da história em 2022, com 627 homicídios cometidos, 53 assassinatos a mais em relação a 2021.

Desde 2017 o país não ultrapassava 600 assassinatos em um mesmo ano.

O presidente Rodrigo Chaves reconheceu o problema, admitindo que a violência estava “saindo do controle”.

Limón na costa atlântica é a segunda província mais populosa, mas foi a com mais homicídios: 167 — um quarto do total nacional.

A província de Limón teve uma taxa de homicídios de 35,9 por 100.000 habitantes, um ligeiro aumento em relação ao ano anterior.

Guerra entre facções criminosas como causa

Os assassinatos estão ligados ao aumento da luta pelo controle do porto de Limón, pelos grupos criminosos que buscam exportar cocaína para a Europa.

Até 90% das mortes na província foram relatadas como ligadas ao crime organizado, disse o Departamento de Investigação Judicial (OIJ).]

República Dominicana: 11,9 por 100.000* (Pop. 11.117.873)

A República Dominicana registrou 661 homicídios nos primeiros seis meses de 2022,

Extrapolando esses números para um período de 12 meses, encerrou o ano com uma taxa de homicídios de 11,9 por 100.000 habitantes.

Se confirmado, isso representaria um aumento significativo de 9,2 homicídios por 100.000 em 2020 e 10,6 por 100.000 em 2021.

Apesar desse aumento, o país registra menos homicídios que muitos países caribenhos, apesar de ser o principal país de trânsito de cocaína na região.

Várias fontes disseram que a atitude de negócios em primeiro lugar do submundo da ilha pode fornecer uma explicação para essa paz relativa.

Apenas 8,8% dos assassinatos estavam diretamente ligados ao tráfico de drogas ou ao uso de drogas. A maioria dos assassinatos são crimes passionais.

Panamá: 11,5 por 100.000 (Pop. 4.351.267)

O Panamá conseguiu reverter sua tendência recente de aumentar gradualmente os assassinatos.

Os 501 homicídios registrados em 2022 representam uma queda de 8,9% no número de homicídios em relação aos 550 de 2021.

Antes de 2022, a taxa de homicídios do país vinha subindo lentamente, de 9,6 por 100.000 em 2018 para 12,8 por 100.000 em 2021.

Enquanto alguns países continuaram a adotar uma abordagem militarizada para combater o crime, a polícia do Panamá adotou uma estratégia diferente.

O diretor da polícia nacional do Panamá, John Dornheim, destacou a importância de a aplicação da lei incorporar soluções tecnológicas e contar com informações.

“Você não persegue o crime com músculos, persegue-o com inteligência”

John Dornheim

A decisão parece estar valendo a pena, com um quarto das acusações contra suspeitos de homicídio ocorrendo graças à vigilância por vídeo.

Ainda existem áreas problemáticas

Com cerca de 7% da população, a província costeira de Colón foi responsável por 21% dos assassinatos — taxa de homicídios próxima à de Honduras.

Assassinatos indiscriminados ligados ao crime organizado na província resultaram em homicídios em hospitais e escolas, disputas territoriais e aumento do desemprego também estão entre as causas das mortes que assolam a região.

Guerra entre facções criminosas como causa

Colón detém o ponto de entrada do Atlântico para o Canal do Panamá e é um ponto crucial para a logística do tráfico de cocaína.

O país quebrou novamente seu recorde anual de apreensão de drogas, em meio a notícias de que atuava como um importante centro de envio de cocaína para uma coalizão de grandes traficantes de drogas na Europa.

O principal traficante de drogas do Panamá, Jorge Rubén Camargo Clarke, chefe da federação de gangues de Bagdá, foi preso em fevereiro de 2022, mas os números não sugerem que tenha ocorrido uma luta sangrenta pelo controle do mercado entre os rivais.

Uruguai: 11,2 por 100.000 (Pop. 3.426.260)

Houve 383 homicídios registrados no Uruguai em 2022, um aumento de 25% nos homicídios de 2021, que reverte alcançada em 2021.

Os cálculos do InSight Crime mostram um aumento ligeiramente maior de 27,6%.

Guerra entre facções criminosas como causa

O presidente Luis Lacalle Pou colocou diretamente a culpa pelo aumento da violência nos confrontos de gangues relacionados ao tráfico de drogas.

As brigas entre grupos criminosos pelo controle do tráfico de drogas em Montevidéu, capital do país, parecem ter aumentado.

Em junho, a polícia uruguaia informou ter identificado até 45 clãs familiares criminosos em Montevidéu e, em novembro, tiroteios entre alguns desses clãs confinaram moradores de Villa Española e Peñarol em suas casas.

Uruguai na rota das drogas

Essas gangues também foram cruciais para o crescente perfil do Uruguai como nação de trânsito para o comércio de cocaína.

As conexões com o Brasil, Paraguai e Argentina têm visto uma maior quantidade de drogas fluindo pelo Uruguai, trazendo maiores índices de violência criminal.

Enquanto isso, o surgimento do Primeiro Cartel Uruguaio (Primer Cartel Uruguayo – PCU), liderado pelo misterioso narcotraficante Sebastián Marset, aumentou a pressão sobre as forças de segurança do país e levantou a tampa da corrupção generalizada nas fileiras políticas do país.

Paraguai: 8 por 100.000* (Pop. 6.703.799)

Foram 489 homicídios entre janeiro e novembro de 2022, o que levará a superar a taxa de 2021 de 7,4 para 100.000 habitantes.

Guerra entre facções criminosas como causa

O ano passado viu mais da mesma violência, já que assassinatos de alto escalão e assassinatos entre gangues pareciam encerrar o ano.

A disputa entre Primeiro Comando da Capital e o clã local Rotela monopolizaram as mortes na disputa pelo domínio territorial dos corredores de tráfico de drogas e armas, particularmente a província de Amambay, no Paraguai, na fronteira leste com o Brasil.

Gangues menores e clãs familiares também contribuem para os assassinatos nas áreas mais violentas do Paraguai.

O conhecido Clã Insfrán teria sido ligado ao assassinato em maio de 2022 do promotor paraguaio Marcelo Pecci.

A violência do país é ajudada em parte pelo fato de que armas e munições fornecidas aos militares acabam rotineiramente nas mãos de organizações criminosas.

O papel ascendente do Paraguai como um nó-chave no drogoduto de cocaína da Europa significa que o conflito entre as principais gangues do país provavelmente continuará a transbordar.

El Salvador: 7,8 por 100.000 (Pop. 6.314.167)

Foram 495 homicídios em 2022 contra 1.147 no ano anterior, mantendo uma tendência de baixa desde 2015, quando o índice era de 103 por 100.000 habitantes, o que fazia de El Salvador o país mais violento do Hemisfério Ocidental.

A queda nos assassinatos no ano passado ocorreu em meio a uma das repressões anti-gangues mais brutais já vistas na América Latina.

Um violento assassinato de gangues em março que custou 87 vidas respaldou a política de forte repressão aos grupos criminais do presidente Nayib Bukele.

O governo alavancou poderes de emergência para atacar as principais gangues de rua do país, a MS13 e a Barrio 18, prendendo cerca de 60.000 pessoas, ou quase 2% da população adulta no processo.

Os resultados foram surpreendentes, com assassinatos e extorsões caindo drasticamente. A repressão forçou as gangues a se esconderem, embora continuem bem armadas.

Suriname: 7,7 por 100.000 (Pop. 612.985)

O menor país sulamericano registrou 47 assassinatos entre janeiro e meados de dezembro de 2022 — taxa de 7,7 por 100.000 habitantes.

Este é um aumento acentuado em comparação com os 32 assassinatos registrados em 2021, mas inferior aos 54 registrados em 2020.

O aumento da taxa de homicídios pode ser em decorrência do papel do Suriname como país de trânsito para a cocaína.

O presidente Chandrika Persad Santochi disse ao InSight Crime em outubro de 2022 que o tráfico de drogas afetou seriamente o crime violento no Suriname.

Especialistas identificaram o tráfico de cocaína como a maior ameaça à segurança nacional do Suriname e responsável por alguns dos eventos mais violentos recentes.

Em julho de 2021, três corpos carbonizados foram encontrados no oeste de Paramaribo, capital do Suriname. Um dos supostos autores do crime declarou que foi morto em relação à apreensão de cerca de 1 tonelada de cocaína pelas autoridades.

Mas em comparação com seus vizinhos, principalmente no Caribe, o Suriname tem uma baixa taxa de homicídios.

Um dos fatores que possivelmente explicam a diferença entre o Suriname e países como Jamaica, Trinidad e Tobago e Santa Lúcia é que o Suriname não possui gangues urbanas sofisticadas.

Nicarágua: 6,7 por 100.000 (Pop. 6.850.540)

A total falta de dados confiáveis ou relatórios sobre homicídios na Nicarágua, mais uma vez, dificulta um levantamento de homicídios para o país.

Fontes oficiais colocam a contagem de homicídios no país em 460, mas esses números “não são confiáveis”.

A falta de transparência do país parece improvável que mude em breve.

Em novembro de 2022, o presidente Daniel Ortega conquistou um quarto mandato em uma eleição duramente criticada pela comunidade internacional.

O presidente dos EUA, Joe Biden, chamou de “eleição de pantomima”. Durante o governo de Ortega, 160 jornalistas foram forçados ao exílio.

Chile: 4,6 por 100.000 (Pop. 19.493.184)

Os homicídios cresceram mais de 32% no Chile em 2022 em relação a 2021, marcando o ano como um dos mais mortais do país.

Os números da polícia mostram que 960 assassinatos foram cometidos no ano passado, em comparação com 726 no ano anterior.

A região norte de Tarapacá viu novamente a criminalidade elevar as taxas de homicídio a novos patamares, enquanto o contrabando de migrantes controlado pela mega-gangue venezuelana Tren de Aragua emergiu como uma séria ameaça à segurança nacional.

O tráfico de drogas no país cresceu, o roubo de cobre se expandiu e as máfias madeireiras que controlam a extração ilegal de madeira se tornaram mais violentas.

Embora o aumento de assassinatos seja alarmante, as autoridades alertaram que o retorno às regulamentações e à vida pré-pandêmica favoreceu o aumento da criminalidade, que foi artificialmente baixo em 2020 e 2021.

Os aumentos registrados em 2022 são irregulares porque, à medida que a vida cotidiana foi retomada , o número de crimes ocorridos também normalizou para antes da pandemial.

coronel Gutiérrez, comandante da polícia militar do Chile

O Chile com 4,6 homicídios para 100.000 habitantes continua entre as nações menos violentas da América Latina.

Argentina: N/A (Pop. 45.808.747)

A Argentina normalmente publica suas estatísticas anuais de crimes em abril do ano seguinte.

Em 2021, o Ministério da Segurança registrou 2.092 assassinatos, para uma taxa de homicídios de 4,6 por 100.000 habitantes, continuando sua tendência de queda nos assassinatos desde um ano particularmente violento em 2014.

Guerra entre facções criminosas como causa

Certos focos de violência, porém, são acessíveis, principalmente na província de Santa Fé.

Na Santa Fé, que abriga a cidade de Rosario, 406 pessoas mortas em 2022, o maior número desde 2015, elevando a taxa de homicídios da província para 11,31 por 100.000.

O ano sangrento de Rosario cativou as manchetes, dado o fato de que sua taxa de homicídios quadruplica a média nacional.

Uma rivalidade entre gangues locais de tráfico de drogas, os Monos e o Clã Alvarado, alimenta grande parte dos assassinatos da cidade.

A leste de Santa Fé, a província de Entre Ríos registrou seu terceiro ano consecutivo de redução de homicídios, com as autoridades elogiando uma postura dura contra o narcotráfico como a chave para o sucesso.

O tráfico de cocaína de fato tem aumentado na província, mas as autoridades locais intensificaram os esforços para combater os traficantes na esperança de evitar uma nova queda na violência.

Bolívia: N/A (Pop. 12.079.472)

As autoridades bolivianas não divulgaram estatísticas oficiais de homicídios nos últimos três anos, mas os interesses criminosos de grupos locais e regionais – particularmente em relação à expansão da capacidade de produção de cocaína da Bolívia – garantiram que a violência continuasse.

Guerra entre facções criminosas como causa

Em fevereiro do ano passado, o assassinato de dois traficantes de drogas brasileiros no departamento de Santa Cruz destacou a ameaça contínua do Primeiro Comando da Capital do Brasil (Primer Comando Capital – PCC) e rival, companheiro de gangue brasileira, o Comando Vermelho CV, para a Bolívia. Santa Cruz é um importante centro de tráfico de cocaína sendo contrabandeada para o Brasil ou Paraguai da Bolívia e do Peru.

Em julho do ano passado, o povoado de Porongo, na periferia de Santa Cruz de la Sierra, capital do departamento de Santa Cruz, foi palco de uma violência incomum contra policiais na Bolívia.

Três foram mortos a tiros depois de tentar prender um homem local. O suspeito do assassinato era genro de um narcotraficante local.

Haiti: N/A (Pop. 11.447.569)

Guerra entre facções criminosas como causa

A violência das gangues causou a morte de 2.183 pessoas em 2022, um aumento de 35,2% em comparação com o ano passado.

Mas esses números quase não fazem sentido.

A catástrofe de segurança na ilha atingiu níveis sem precedentes que acredita-se que nenhum funcionário eleito em nível nacional permaneça lá.

Desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse em 2021, evaporou-se qualquer influência política que pudesse conter as gangues do país.

A guerra de gangues que antes se opunha às duas maiores organizações criminosas do país, G9 e G-PEP, se dissolveu ainda mais em uma colcha de retalhos de guerras territoriais ao redor da capital, Porto Príncipe, que viu a maior parte dos assassinatos, incluindo execuções sumárias e adolescentes portando armas de nível militar.

Os sequestros mais que dobraram. A violência sexual e o estupro também são comuns.

Acho que é a primeira vez que vimos esse nível de ilegalidade, esse nível de violência de gangues em que a vida das pessoas não importa.

Cécile Accilien, professora de estudos haitianos na Kennesaw State University

Peru: N/A (Pop. 33.715.471)

O Peru não divulgou números oficiais de homicídios para 2022 e os números do Ministério da Saúde parecem não ter base na realidade histórica.

Segundo o Ministério da Saúde houve 1.307 assassinatos — uma taxa de homicídios de apenas 3,9 por 100.000 habitantes.

Em 2021, houve 2.166 mortes — uma taxa de 6,6 por 100.000, um aumento em relação a 2020, mas ainda menor do que em qualquer ano desde 2013.

Embora o governo tenha declarado vários estados de emergência com o objetivo de combater a criminalidade em Lima, mas os corpos continuaram se acumulando.

No início do ano, um legista disse à TV Perú que os assassinatos em partes da capital dobraram ou até quadruplicaram.

Guerra entre facções criminosas como causa

Em outros lugares, uma série de assassinatos resultantes de gangues que lutam pela mineração ilegal em La Libertad, uma região na costa oeste, levou as autoridades a impor estado de emergência.

Quatro líderes de comunidades indígenas que se opunham à mineração ilegal e ao tráfico de drogas foram mortos em uma única semana de março.

Em meio à agitação social após a deposição do ex-presidente Pedro Castillo em dezembro, a Procuradoria-Geral de Ayacucho confirmou que havia aberto investigações de homicídio contra militares e chefes de polícia após a morte de manifestantes.

*As estimativas para esses países são projeções. Os dados do ano inteiro não estavam disponíveis para esses países no momento da publicação. As taxas de homicídio calculadas pelo InSight Crime são baseadas nos melhores dados de homicídio disponíveis e na população estimada do país para 2021, de acordo com o Banco Mundial. Quaisquer pontos de dados não calculados por este método foram atribuídos às suas fontes. Esta lista será atualizada à medida que mais dados estiverem disponíveis.

**Parker Asmann, Douwe den Held, Alex Papadovassilakis e Juan Diego Posada contribuíram para este artigo.

Pacificação: a paz entre entre ladrões

A paz entre os ladrões foi conquistado pela pacificação do Primeiro Comando da Capital após o massacre do Carandirú.

A Pacificação PCC como gestora da “paz entre ladrões”

Paz entre ladrões é uma missão impossível, apesar de teóricos imaginarem há milênios formas de controlá-los…

Estamos no ano 1993 depois de Cristo. Todo o mundo do crime está em guerra… Todo? Não! Uma Casa de Custódia povoada por irredutíveis sobreviventes do Carandiru ainda resiste ao opressor.

Se considerarmos apenas nossa realidade recente podemos ver duas experiências bastante distintas: a do Regime Militar e os do Período Democrático:

Conheça a Carta do PCC ao Mundo do Crime de 3 de agosto de 2017

Quem poderá trazer a pacificação ao mundo do crime

Ambos os regimes tentaram cada um a seu modo controlar, sem sucesso, a violência nas comunidades dominadas pelo crime.

… o governo, não conhece a realidade das cadeias, o PCC criou raízes em todo o sistema carcerário paulista.

Nas prisões, diretores ultrapassados, da época repressão, tentavam resolver o problema de maneira que em foram doutrinados: porretes, choques, água fria, porrada…

Não foi suficiente. Em menos de três anos, já eram três mil. Em menos de dez anos, 40 mil.

Carlos Amorim

Álvaro e Renato, policiais e pesquisadores, afirmam que foi aí que o a facção PCC 1533 aproveitou a lacuna deixada pelo poder público.

Análise de inteligência: das ações ideológicas disciplinares e correcionais promovidas pelo Primeiro Comando da Capital — Álvaro de Souza Vieira e Renato Pires Moreira

A paz entre ladrões só pode vir de dentro para fora

Aqueles criminosos conheciam e se fizeram ser respeitados nas comunidades em que estavam inseridos: nas carceragens, nas comunidades periféricas e no mundo do crime.

Esses grupos, por milênios, foram excluídos do controle social do Estado, sendo deixados à própria sorte para viverem sob o julgo dos mais fortes.

Nesse meio o Primeiro Comando da Capital assumiu a “gestão da violência”, dentro do conceito aceito do “monopólio do uso da força pelo Estado”.

Gabriel Feltran nos conta que as comunidades periféricas, criminosas ou carcerárias, terminaram se adequando às normas da facção e não colaborando mais com a polícia.

Assim, um modo específico de gestão do uso da violência nas interações entre a polícia e o crime é estabelecido. Não existe agressão física, tampouco troca de tiros ou enfrentamento, mas um conflito ‘contido’ inserido numa esfera de interação discursiva voltada ao alcance de acordos financeiros.

Indaiatuba SP: um exemplo prático da paz entre ladrões

Em 27 de fevereiro de 2012 produzi um dos primeiros artigos onde descrevi a pacificação promovida pelo Primeiro Comando da Capital em uma comunidade periférica:

Edgar Allan Poe ensinava que existia uma forma correta para se açoitar uma criança: devia ser da esquerda para a direita.

O escritor explica a razão:

Todas as pancadas devem ser na mesma direção para lançar para fora os erros, mas cada pancada na direção oposta, soca para dentro os erros.

Talvez ele tenha razão.

Apesar das surras impostas pela sociedade, o tráfico de drogas e o crime se mantêm fortes e robustos.

Passamos pelo Regime Militar e pela Redemocratização e, com lágrimas nos olhos, vejo que não há mais esperança para o problema: falhamos.

Açoitamos a criança em todos os sentidos, e não em uma única direção como Allan Poe orientou.

E em rebento crescido não haverá açoite que possa ser dado pelo sistema policial e jurídico que surta qualquer efeito, o mal feito está feito.

Só nos cabe abaixar a cabeça e apreciar a divisão dos despojos entre os criminosos que se organizaram e se fortaleceram sob nossos próprios açoites.

continua após o mapa…

Diálogo entre ladrões: assim fundiona a paz entre ladrões

Esse diálogo trocado sobre um conflito no Morada do Sol demonstra como a organização criminosa gere os conflitos de maneira natural e com profundo conhecimento:

Edson Rogério França, o “Irmão Cara de Bola”, “Torre” da organização criminosa em Indaiatuba conversa com Willian do bairro Morada do Sol.

Willian Neves dos Santos Vieira, o “Irmão Sinistro”, é soldado da facção criminosa e morador da rua Custódio Cândido Carneiro no bairro:

— O espaço que tem lá na rua 59 é bom, é meu e do Mateus, tá ligado irmão? O irmão Matheus, conhece o Matheus? — pergunta Sinistro.

— Não, não conheci. Você fala o do trailer?

— Não irmão, lá embaixo na 59, lá embaixo, no trailer é o Marcelo, é outro menino, inclusive ele pega mercadoria de ti. — explica Sinistro.

— Não, de mim não. — se defende Cara de Bola.

— O sol brilha para todos, tenho este espaço lá há mais de treze anos. Agora, um menino meu estava precisando de uma força e eu ajeitei um canto para ele fazer a caminhada, e o Cláudio agora está ameaçando matar a mulher dele. Pô, o Cláudio é prá cá, eu sou mais prá lá, pro fundão, sou lá do lado da rua 80 e da rua 78. Já o TG do CECAP é firmeza.

Tribunal do Crime do PCC – o mediador aceito

Eu não conheço o Cláudio, portanto eu não posso afirmar que ele tenha sido açoitado quando criança do lado certo ou errado.

O que sei é que ele também negocia as drogas do Primeiro Comando da Capital e, portanto, deve ter tido as mesmas aulas que os outros criminosos.

Cláudio teve que prestar contas de sua atitude. Ele já estava sem saber em análise por suas atitudes.

Outro dia ele foi mostrar uma pedra de crack para Keiti Luis Von Ah Toyama, o “Irmão Japa”, mas este não gostou, disse que era um pouco melada.

Cláudio explicou que é a mesma que não é a da boa, é da comercial, a mesma que vende em suas lojas:

— Se quer quer, se não quer não quer, é R $10,50 a grama, é pegar ou largar.

Seja como for, as crianças cresceram e aprenderam a brincar sozinhas, agora não adianta mais bater do lado certo e nem reclamar o leite derramado.

Cláudio foi julgado por quem obteve o direito de impor as regras naquele local aproveitando a omissão do Estado.

Conheça o Dicionário do PCC (Regulamento Disciplinar da facção)

Carta para o mundo do crime do país

Carta ao mundo do Crime é um documento do Primeiro Comando da Capital dirigida a outros criminosos que não façam parte da facção PCC 1533.

Comunicado do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533)

O Primeiro Comando da Capital vem deixar a todos os criminosos do país cientes que o nosso objetivo de expansão pelos estados tem por prioridade fortalecer o crime contra a opressão, covardia e inveja imposta dentro e fora do regime prisional.

Não buscamos inimizades de ninguém, muito pelo contrário, somos capazes de unir forças e buscar nossos objetivos em prol de todos.

Faremos tudo para os fracos contra os oportunistas. Somos um obstáculo para as intenções capitalistas.

Não deixaremos de aplicar nossa ideologia por vantagem nenhuma que não seja proporcionada ou por qualquer obstáculo no caminho.

Estamos vivendo tempos conturbados onde facções e oposição estão se manifestando contra inocentes para protestar nossa evolução.

Lamentavelmente as ações covardes estão sendo investidas de maneira cruel contra pessoas que não tem nenhuma responsabilidade.

Temos como exemplo:

  • a execução sumária de uma senhora tetraplégica no Rio grande do Norte por ser mãe de criminoso;
  • pais de integrantes do PCC são assassinados por nada no Maranhão;
  • uma menina de 14 anos em Santa Catarina assassinada somente por ser ADMIRADORA e ai vai…

Temos vários atos covardes a citar, esses estão violando o direito ao inocente agindo covardemente sem escrúpulos e sem razão.

Não entendemos esses comportamentos e tão pouco aceitaremos passivos, mais ao nosso ver esses tipos de atentados a pessoas inocentes só demonstrão a fraqueza, postura, e falta de objetivo dentro do crime.

Para estes a resposta chegará na direta e será implacável.

Estamos espalhados pelo país, somos mais de milhares integrantes em busca de Liberdade, Paz, Justiça, União e Igualdade.

Vivemos a realidade de cada estado e nos envolvemos na necessidade de encontrar soluções de igualdade para todos.

Não aceitamos a desigualdade do maior para o menor.

Para nós, todos estão envolvidos numa conquista entre direitos e deveres.

Muitos criminosos estão em São Paulo nas cadeias que predominamos, e tudo que precisam tem nosso apoio, pois o lema Igualdade é aplicada na íntegra sem extinção.

Respeitamos todas as facções criminosas que respeitam a igualdade, fizemos amizades, lutamos em batalhas em prol de objetivos comuns a todos.

Conquistamos o respeito e respeitamos a todos em todos os espaços. Não forçamos ninguém a nos seguir, apenas damos exemplos de como pensamos e agimos.

Assim, nossas fileiras crescem cada dia mais, pensamos que nossos inimigos são aqueles que dirigem e impõem as regras no sistema e a polícia nas ruas.

Contra esses somos sempre ousados e abrimos portas para atingi-los. Nossa forma de lutar contra esses é direta e não procuramos atingir aleatoriamente desferindo o patrimônio que a própria população carente necessita.

Nosso alvo é o opressor e contra esses, unimos toda nossa inteligência e violência: não colocamos fogos em escolas ou carro de populares que no amanhã prejudica e só prejudicaria quem se utiliza desse serviço, nesse caso é a população.

Aprendemos com nossos erros e acertos, nosso alvo é direto: o opressor.

Não se conquista com patifarias a população, que tem crescido nos estados onde outras facções sem ética tem tomado lojas, morros, favelas, e aterrorizando pessoas que não são do crime.

Eles visam somente o poder. Aprendemos que o alvo é o opressor e representante contra esses vai toda a fúria.

Deixamos claro que respeitamos aqueles que merecem respeito do crime e continuaremos a crescer e fortalecer os que nos respeitarem de igual.

Mostrarmos que somos capazes de fortalecer o crime e trataremos sempre com a igualdade todos criminosos que defendem a ideologia do Primeiro Comando da Capital.

Estaremos juntos para lutar contra todos opressores, somos de cobrar diretamente das forças opressoras.

Acreditamos nessa resposta. Onde estamos não importa a região e o número de integrantes, a polícia e os agentes do governo sabem que não terão paz conosco se não nos respeitarem como seres humanos, com tudo.

O Primeiro Comando da Capital está progredindo e cada vez mais enxergamos o quanto estamos no caminho certo.

Deixamos o nosso respeito a todos integrantes, amigos, companheiros e conhecedores da nossa filosofia e nos colocamos à disposição para qualquer esclarecimento.

Um abraço para todos.

Comunicado distribuído pelo Geral das Trancas do MS em 3 de agosto de 2017 nas redes sociais da facção e publicao no site aconteceuemitu.org