O PCC existira sem o neocapitalismo? Por que isso é importante?

Ao tentar entender se o PCC existira sem o neocapitalismo, entendemos a razão dos crias do Primeiro Comando da Capital serem como são hoje.

Se a facção PCC existira sem o neocapitalismo, pode nem parecer importante para você, mas não é assim não.

O sonho do moleque de enriquecer e ostentar tem mais haver com essa teoria econômica que com as raízes da facção dentro na opressão carcerária e das periferias.

Entendendo se o PCC existira sem o neocapitalismo

O neocapitalismo e o PCC são duas coisas difíceis de entender e totalmente diferentes, né não? Não, é não!

Não teria o Primeiro Comando da Capital se não fosse o mercado globalizado, tá ligado?

É por isso que estou chegando para dar a real numa questão que parece assim ser tão complicada.

Onde o PCC nasceu? Com o Massacre Carandiru em 91,com o Comando Vermelho no Rio ou na Casa de Custória de Taubaté em 93?

Todas as respostas estão certas, mas vou te provar, mano, que o buraco é ainda mais fundo e que tem mais bagulho envolvido aí.

E só vamos entender direito quando descobrirmo se o PCC existira sem o neocapitalismo.

Volta comigo até 9 de novembro de 1989

Foi aí na virada dos anos 90 que o mundo viu a queda do Muro de Berlim e a vitória do neocapitalismo sobre o socialismo internacional.

Mas não foi só isso, irmão. Tem o que tinha por trás disso que todo mundo tava olhando.

Essa história da queda do muro abriu as portas do Brasil pro neocapitalismo e pra globalização.

No embalo acabaram com um monte de regras de mercado e veio a privatização de serviços públicos, deixando vários irmãos desamparados e vulneráveis à criminalidade.

E foi aí que a organização criminosa Primeiro Comando da Capital entrou, irmão.

Com uma estrutura organizacional forte e bem montada, os caras ofereceram proteção e serviços pra uma galera abandonada pelo governo.

E assim, a facção PCC 1533 mostrou que conseguia controlar o comércio de drogas nas comunidades periféricas, nas prisões e até em outros países.

Tá entendo da razão que eu tô questionando você se o PCC existira sem o neocapitalismo?

Mesmo com filosofias diferentes o PCC existira sem o neocapitalismo?

Mas, peraí, isso não quer dizer que o Primeiro Comando da Capital é só uma organização criminosa, que visa lucro.

Um ex-irmão do 31 dá a real, a facção PCC 1533 é uma Família:

Li a reportagem mas só quero fazer uma observação que um integrante do 1533 não visa o lucro como prioridade.

Pode ter alguns na organização que visam apenas o lucro, mas eles estão com uma visão equivocada em relação a causa que é maior.

Porque a expansão do Primeiro Comando da Capital veio com muita luta ao longo desses anos.

Se fosse necessário travar outras batalhas para a continuação da filosofia do PCC eu não exitaria, mas a guerra é apenas uma consequência extrema de uma situação quando não se tem concordância….

Fica na paz

Os crias do 15 têm uma filosofia própria, baseada em ideias de solidariedade, justiça e respeito aos direitos humanos.

Eles são uma reação ao individualismo e ao egoísmo que são valores fundamentais do neocapitalismo, mano.

Enquanto a filosofia capitalista promove a competição e o lucro a qualquer custo, o PCC se preocupa com o bem-estar da comunidade e com a proteção dos mais fracos.

Mas não dá pra ficar só falando do PCC sem entender como a organização paulista nasceu, irmão.

Sê vai ver que não tem nada de sonho de riquesa na origem, o que se queria era liberdade, igualdade e justiça. Essa história do lucro e da ostentação só veio depois — muitos ainda, bravamente resistem.

PCC existira sem o neocapitalismo? organização social X empresa de sucesso

O neocapitalismo é um sistema social e econômico que privilegia os mais ricos e poderosos em detrimento dos mais pobres e vulneráveis.

Então, se queremos mesmo entender o Primeiro Comando da Capital, precisamos entender o modelo econômico e político de nosso país, irmão.

A facção PCC nasceu para tentar construir um sistema de solidariedade, justiça social e direitos humanos, e não para acumular poder e dinheiro nas mãos de poucos.

Quando isso mudou? Será que mudou?

Facção PCC: uma semente lançada em solo fértil

Não vem tirar o corpo não! Fomos nós todos que deixamos o solo fértil pras sementes que eram jogadas por Zé Márcio Felício, o Geleião do PCC.

Não sei onde cê tava e o que fazia em 90, mas enquanto isso…

Zé Márcio caminhava pelos corredores e pátios ocultos por trás das muralhas das cadeias, semeando a ideia nos corações e nas mentes dos detentos.

Quem me deu os detalhes dessa história foram: Marcio Sergio Christino, Antônio Marcos Barbosa de Quadros, e Leonardo Mèrcher Coutinho Olimpio de Melo.

Facção PCC 1533 e o admirável mundo novo

Cabe ao semeador retirar as sementes do celeiro e levá-las ao campo, ou a safra não virá; mas se ele jogar no tempo certo e num solo fértil, a colheita vem, não importa quem jogou a semente ou quem botou adubo no solo.

Na parada do semeador, o nome do cara que jogou a semente nem é falado, o que vale é o trampo que ele fez.

E aí, mano, quando a gente ajuda a fertilizar o solo pras sementes do Primeiro Comando da Capital, a nossa participação é importante, mas nosso nome também não.

A gente fica na humildade, negando que o resultado da nossa participação, mas cara, no fundo tamo ligado que ajudamos também.

Cada um de nós ajudamos a construir a facção PCC, mesmo que a gente tenha só escolhido o Collor pra presidente achando que ia ser uma coisa.

Collor implantou fortaleceu a organização criminosa ao abrir os portos para o mundo e derrubar barreiras. Simples assim.

O Partido do Crime da Capital é fundado no sangue de Rato

Mano, no dia 11 de março de 1991, as sementes do PCC foram plantadas em solo fértil durante um banho de sol no presídio do Carandiru.

O PCC não brotou em 1993 lá no Piranhão e se espalhou de uma vez só, mas na real, ele já tinha começado lá atrás, mas foi nesse ano que ele se consolidou…

Naquela tarde de chuva de 93, o Rato caiu morto pelas mãos do Geleião no Piranhão, como era chamado a Casa de Custódia de Taubaté.

Gelião fundava o PCC, regando-o com o sangue do Rato, enquanto o Zé Márcio (Geleião) jogava sementes de presídio em presídio, pregando a “boa nova”.

E assim foi a fundação oficial do “Partido do Crime da Capital – PCC”, mas também se definia o método que viria a ser adotado pela organização criminosa prá poder dominar territórios: botar terror sobre as lideranças inimigas para dominar todo o grupo que eles lideram.

Enquanto Rato morre o Muro de Berlim cai

Enquanto Rato morria, eu e você, derrubávamos o Muro de Berlim – o fim da história segundo o mano Fukuyama, só que não.

Deixamos as fronteiras livres para a circulação de pessoas e produtos, e nossa grande vitória foi a chave para o crescimento da facção PCC 1533.

É isso aí, irmão!

A facção PCC 1533 tava surfando na onda neocapitalista que varria o mundo, mano.

O Collor abriu os portos pra negociação com os parceiros gringos, baixando as taxas de importação e aumentando a concorrência no mercado.

E aí, cê sabe o que aconteceu?

Os preços das drogas e armas caíram e a gente nunca mais passou sufoco nas biqueiras.

Neocapitalismo e o PCC: feitos um para o outro

Com o mercado mais disputado, o tráfico deixou de ser coisa de muambeiro e passou a ser gerido por grupos que manjavam de comércio internacional.

Aí, meu chapa, começaram a surgir filiais de grupos criminosos de todo canto: Ndrangheta, Sacra Corona Unita, BGang, e até as máfias russas.

A fronteira já não era mais barreira, agora eles tavam negociando direto com os produtores e distribuidores daqui.

Muita gente já tava formando cartéis nacionais aqui na América Latina, mas aí, eu, você e o Zé Márcio derrubamos as barreiras que existiam.

Agora ele sorria, porque suas sementes não mais caíam em espinhos e pedras.

O Geleião teve uma visão foda, parecida com a de Lucky Luciano, que criou o primeiro sindicato do crime nos States e depois na Sicília.

Ele disse:

Vamos juntar as lideranças aqui e fazer uma organização que vai dominar tudo. 

E assim foi.

Morte alimentando o fim do ciclo da opressão carcerária

Eram espetáculos de morte dentro dos presídios, preso matando preso, que alimentavam nossa sede por sangue na televisão.

Os governantes e agentes públicos providenciavam tais espetáculos, mas sem saber fortaleciam a divulgação da “boa nova” de Geleião e do PCC.

O solo tava pronto, mas quem planta deve se arriscar e era hora de começar mais o show.

Zé Márcio foi escolhido e mandado pra Avaré, pra morrer, mas a história não foi fácil assim

Os administradores da prisão queriam vingança e botaram Geleião no meio dos inimigos, jogaram ele na cova dos leões.

Mas Zé Márcio não se acovardou, foi até o campo de futebol onde Zorro, líder da facção Comando Democrático da Liberdade (CDL) jogava, chutou a bola pra fora e desafiou:

O que você quer? Se quer me matar, então me mata agora, resolve aqui mesmo!

A atitude corajosa de Geleião não foi ignorada e Zorro e sua gangue CDL se converteram naquela hora para o Primeiro Comando da Capital.

E mais um campo fértil foi plantado pro PCC florescer, mas não se engane, a culpa pelas chacinas é nossa também.

Nós e as chacinas nos presídios

Todo mundo aplaudia a violência nos presídios e pedimos mais morte em segredo.

“Chacina” pode ser uma palavra popular, mas no mundo jurídico é só um jeito que descreve a violência contra um grupo de pessoas por outra que se acha superior.

Enquanto isso, os “cidadãos de bem”, podem escolher seu caminho superior ao nosso.

Mas essa liberdade tem um preço, e somos nós quem vendemos para eles as drogas que, mesmo sabendo que fazem mal, eles consomem porque é difícil resistir ao seu apelo fatal.

Mas é o livre mercado de um mundo sem fronteiras, não era isso que queriam? Então, enquanto se achavam mais inteligentes, foram os PCCs que dominaram o mercado.

E o mercado negro de drogas tá aí, é poderoso e influente.

Quem jogou a semente não assume

A semente foi plantada, o PCC cresceu e se consolidou nos presídios, mas quem deu as sementes que jogou Zé Márcio em Avaré nunca vai assumir sua culpa.

E nós, que negamos nossa participação nas chacinas, também temos nossa parte obscura.

E aí a gente se pergunta: onde foi que erramos, como chegamos aqui?

É só lembrar como tudo isso começou, com a ganância de uns e o sofrimento de outros.

Será que alguém quer o fim da opressão carcerária, e um mundo mais justo e mais humano, enfim?

Será que o Primeiro Comando da Capital esqueceu suas origens se curvando para o lucro prometido pelo neocapitalismo das fronteiras abertas?

O ex-irmão do 31 afirma que não, que continuam fiéis, mas o que eu vejo, é cada vez mais é o sonho por riqueza, poder e ostentação predominar.

Irmão excluído da facção PCC 1533 — entrevista de Camila Nunes

Irmão excluído da facção PCC 1533, Primeiro Comando da Capital, conta seu trajeto no mundo do crime até se tornar líder da facção paulista.

A socióloga Camila Nunes Dias

Entrevista com um irmão excluído da facção PCC 1533 dando a real na tv? Fala aí, quantas vezes você viu? Nunca né?

A mídia só mostra um lado do mundo do crime, só vê a violência, o sangue, o tráfico, o terror.

Mas e o que tem por trás de tudo isso? A mídia não fala disso, não.

E as histórias dos manos, as razões que levaram eles a seguir esse caminho?

Aí vem a socióloga Camila Nunes Dias e faz a diferença e por isso ela foi atrás de falar direto com o irmão exlcuído da facção PCC.

Ela mostra que tem mais do que essa gente da imprensa consegue ver: tem um contexto social, político, econômico que tá por trás de tudo isso.

Camila Nunes Dias mostra que os manos não são monstros, que são seres humanos como todo mundo, que tem sonhos, que tem medos, que tem esperanças.

É por isso que a gente fica feliz quando vê Camila falando sobre o Primeiro Comando da Capital em lugares tão importantes mundo afora.

Novo artigo de Camila é a entrevista com o irmão excluído da facção PCC

Agora trombo com ela publicando um trecho de uma entrevista com um irmão excluído da facção PCC no site do Centro Estratégico para Pesquisa do Crime Organizado (SHOC) do Royal United Services Institute (RUSI).

Ela tá dando voz pros manos, tá mostrando a realidade deles, tá desmistificando a imagem que a mídia quer passar.

E é isso que eu tento aqui fazer nesse Site também. A gente tenta mostrar que tem mais do que a violência, que tem um contexto social que explica tudo isso.

Claro que não é pra passar a mão na cabeça do crime, não é pra romantizar a violência.

A gente sabe que o mundo do crime é pesado, que tem muita trairagem, que tem muita injustiça.

Mas a gente também sabe que tem muita gente boa envolvida nisso, muita gente que tá ali por falta de oportunidade, por falta de opção, por falta de alternativa.

Então é isso, mano. A gente fica feliz quando vê a Camila Nunes Dias falando sobre o PCC, porque ela tá dando voz pros manos, tá mostrando a realidade deles, tá humanizando essa galera que a mídia só vê como bandido.

Irmão excluído da facção PCC falando a real

Se quiser ler a entrevista original, com as palavras dela e as resposta do irmão, o link é esse aqui…

A Conversation with Carlos: Former Member of the Primeiro Comando da Capital (PCC), by Camila Nunes Dias

… mas se preferir, acompanha aí minha visão, que não é a mesma coisa, mas também dá para entender.

Irmão excluído da facção, eu entendo a tua situação

Aqui não tem julgamento, não tem condenação

Vamos conversar, vamos trocar ideia

Pode falar a real, sem medo de ser repreendido ou censurado

Aqui o respeito é mútuo, a dignidade é valorizada

Não importa o que você já passou, aqui você é acolhido e respeitado

Então fala, irmão, desabafa, expõe a tua verdade

Aqui nós somos uma família, unidos na busca por paz, justiça e igualdade.

Ele começa falando sobre sua adolescencia e ingresso na facção…

Tive uma infância pobre e simples.

Durante a adolescência, fiquei muito zangado com a minha realidade e suas limitações, descrente de que conseguiria qualquer coisa mesmo que me dedicasse aos estudos.

Naquele momento, as drogas e o contato com o narcotráfico entraram no meu cotidiano, até que perdi de vista meus próprios objetivos.

Na adolescência, me envolvi com drogas e comecei a conhecer membros importantes do PCC que trabalhavam no tráfico local.

Eles logo me recrutaram, identificando o potencial que eu tinha para administrar seus negócios.

Ele fala de como foi sua prisão e crescimento na organização criminosa…

Aos 18 anos fui preso, aos 19 fui batizado no PCC e aos 20 estava no topo da estrutura da organização, no estado mais importante e rico do Brasil no coração da organização criminosa, São Paulo.

O primeiro ano na prisão serviu como um curso intensivo sobre a vida na prisão.

Aprendi como funcionava o PCC e tive alguns mentores.

No meu segundo ano, fui transferido para uma penitenciária para prisioneiros de primeira viagem.

Depois de alguns anos fui dispensado de minhas responsabilidades e, a partir disso, analisei eticamente minha situação e entendi que a vida das drogas não era o que eu queria para o meu futuro.

Saí e fui embora, mas não tive uma segunda chance no meu país e decidi começar uma nova vida fora do Brasil.

Ele conta então de como chegou na liderança da facção PCC…

Eles precisavam de um líder local de confiança e começaram a me dar responsabilidades e poderes.

À medida que fui correspondendo às expectativas, eles me deram mais poder e tarefas mais difíceis até que fui transferido para uma cadeia de liderança do PCC: o depósito dos líderes da organização, onde aconteceu meu batismo.

Depois que fui batizado, fui nomeado padrinho de aproximadamente 60 outras pessoas que foram meus afilhados.

A prisão é um mundo com suas próprias regras, leis e estrutura de liderança.

Nos espaços prisionais, você assume um papel social em uma microssociedade criminosa.

E também sobre a ideologia da Família 1533…

O PCC é uma federação criminosa democrática que parasita o Estado por dentro, organiza o crime em todas as escalas, fornece segurança, proteção, equipamentos, e rede criminal.

Por algum tempo, a ideologia dominante me fez perceber o Estado tradicional como um inimigo e me deu motivos para resistir e lutar.

Quando a liderança local vê que um preso entende e subscreve os ideais do Comando e tem qualidades para avançar nos objetivos da organização, ambas as partes sabem que é hora do batismo.

Não me lembro quando decidi me dedicar totalmente a essa ideologia, simplesmente aconteceu.

No fim, ele termina falando de como virou um irmão excluído da facção

Você só pode sair do PCC por morte, mas pode obter permissão para sair do PCC por motivos religiosos.

Aos olhos do PCC, você sempre será um marginal que pode a qualquer momento tentar uma reviravolta.

No meu caso, fui afastado das minhas funções na sequência de um “processo administrativo” que constatou a minha “falta de responsabilidade” que resultou na perda de dinheiro do Comando.

6. Abandono de responsa:
Quando fecha em uma responsa e deixa de cumpri-la sem motivos (fora do ar, transferências, saúde, etc…). A Sintonia deve analisar todos que serão cadastrados para evitar esses tipos de situações.
Punição: De 90 dias à exclusão (depende da gravidade analisada pela Sintonia).

Dicionário da Facção 1533 – um dos três pilares da organização criminosa Primeiro Comando da Capital – afinal, no PCC é “Tudo 3”

Quebrei uma das regras que estruturam o PCC e fiquei afastado por dois anos. Após esse período, decidi que não queria voltar à organização.

Entendendo a pessoa por trás do criminoso

Sabe, a mídia só mostra a violência e o mal da quebrada, mas nossa irmã Camila Nunes Dias iria mais além.

Ela provavelmente veria, o que eu e você vemos, mas que a imprensa que só pega a visão da polícia e dos políticos não veria nunca.

Olha só…

Uma vida de pobreza e dificuldades pode ter gerado um vazio e falta de oportunidades, levando a desacreditar nas chances de sucesso com estudo e trabalho normal.

Entrando no mundo das drogas e do tráfico, talvez tenha sido uma forma de lidar com essa falta de perspectiva, oferecendo uma solução rápida e aparentemente vantajosa para ganhar dinheiro e status.

Ser recrutado pelo PCC pode ter rolado por ter habilidades de liderança e organização valorizadas pelos chefes do crime.

Esse reconhecimento e posição dentro da organização também pode ter suprido a autoestima e propósito que faltava na vida da pessoa.

Pra resumir, pelo que dá para entender das respostas do irmão excluído da facção PCC, ele vem de uma história de privação e falta de oportunidades, combinada com uma falta de confiança nos governos e na sociedade.

É isso. E não é só ele. Taí o recado.

O Sport Club Corinthians Paulista e o Primeiro Comando da Capital

Corinthians Paulista e o Primeiro Comando Comando da Capital. É mito ou realidade a interferência da facção no clube de futebol de São Paulo?

Mito ou realidade Corinthians Paulista e o Primeiro Comando?

Vincular o Corinthians Paulista com o Primeiro Comando da Capital me parece mais preconceito social que fato.

Meu caro Francesco Guerra,

Bem sabe que não estou mais disposto a me dedicar ao estudo da organização criminosa PCC 1533.

No entanto, ao abrir meu note deparo-me com uma situação intrigante.

O site The Football Lovers, especializado em artigos baseados em opinião, escritos por apaixonados fãs de futebol de todo o mundo, alega que sete clubes estão ligados ao mundo do crime:

  • Juventus e Lazio da Itália;
  • Leeds United e Sheffield Wednesday da Inglaterra;
  • Boca Juniors da Argentina; e
  • Corinthians do Brasil.

Corinthians is a Brazilian club has also been linked to organized crime, with connections to the notorious First Capital Command gang.

Os crimes do Corinthians Paulista

O autor do artigo, Shimil Umesh, lembra que o Corinthians foi implicado no escândalo de corrupção da FIFA em 2015, com alegações de suborno e propinas envolvendo vários dirigentes de alto escalão.

No entanto, a principal acusação seria envolvimento da agremiação futebolística com o Primeiro Comando da Capital.

É fato que, conforme divulgado pela mídia, existe base para levarmos em consideração a possibilidade de que tais informações sejam verdadeiras.

No entanto, precisamos estar atentos às fontes e à veracidade dos fatos antes de tirarmos conclusões precipitadas.

É preciso investigar a fundo cada uma dessas alegações e obter provas concretas para confirmar ou refutar essas afirmações.

É preciso separar os fatos da ficção para chegar à verdade

No entanto, é verdade que existem casos de indivíduos associados ao clube que foram investigados e condenados por envolvimento com organizações criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital, como torcedores organizados e até mesmo alguns ex-jogadores.

Alguns casos que receberam ampla cobertura na mídia incluem a prisão de integrantes da torcida organizada Gaviões da Fiel em operações policiais contra o PCC, bem como acusações de que o ex-jogador corintiano Jorge Henrique teria ligações com o grupo criminoso.

No entanto, é importante ressaltar que tais casos não implicam que o clube Corinthians em si tenha algum envolvimento com atividades criminosas ou com o PCC.

PCC e favelas: tudo junto e misturado

As periferias de São Paulo são áreas historicamente marcadas pela pobreza, a desigualdade social e a violência, o nascedouro do time de futebol, e o berço da maioria daqueles que lotam as prisões paulistas.

O time de futebol Corinthians, foi fundado em 1910 no bairro do Bom Retiro, uma região com grande concentração de imigrantes e operários, populações marginalizadas naquele início de século.

Da mesma forma, a facção criminosa PCC 1533 teve origem nas prisões da capital paulista na década de 1990, onde muitos detentos eram oriundos das mesmas periferias que o time Corinthians Paulista.

O Primeiro Comando da Capital se fortaleceu a partir da união de presos que compartilhavam experiências de exclusão e marginalização social, assim como os torcedores do time, que encontravam no Corinthians uma identidade cultural e esportiva que os unia.

Dessa forma, pode-se entender que a associação entre o nome da facção PCC e o time Corinthians se dá principalmente pela origem e pela identidade social compartilhada pelas duas organizações.

Ambas têm suas raízes nas periferias da capital paulista, e seus membros compartilham uma experiência de exclusão e marginalização social que acaba se refletindo em suas respectivas culturas.

Separando o joio do trigo

Por isso é fundamental separar a conduta de indivíduos específicos da imagem e reputação do clube como um todo.

A grande maioria dos torcedores do Corinthians não tem envolvimento com o Primeiro Comando da Capital, e a associação entre os dois grupos é frequentemente exagerada pela mídia e por discursos preconceituosos.

No entanto, alguns estudos antropológicos têm se dedicado a investigar as relações entre torcidas organizadas de futebol e grupos criminosos.

Essas análises mostram que, em alguns casos, há uma sobreposição entre esses dois corpos sociais, com membros da torcida organizada também fazendo parte do grupo criminoso.

Essa sobreposição pode ser explicada por uma série de fatores, incluindo a cultura de lealdade e solidariedade presente em ambas as organizações, bem como a possibilidade de obter ganhos financeiros por meio do envolvimento em atividades criminosas.

Entre cobras e lagartos: o Corinthians Paulista e o Primeiro Comando da Capital

A relação entre torcidas organizadas e grupos criminosos é complexa e varia de acordo com cada contexto.

Nem todas as torcidas organizadas estão envolvidas com atividades criminosas, e nem todos os membros dessas organizações compartilham dos mesmos valores e práticas, no entanto, a maioria é oriunda da mesma fatia social.

Essa é a razão do preconceito das elites em relação a esses grupos sociais.

Uma série de fatores explicam esse prejulgamento, incluindo estereótipos negativos associados a torcedores de futebol e a grupos criminosos, bem como a visão elitista de que esses grupos representam uma ameaça à ordem social e aos valores civilizados.

Esta prenoção pode ser vista como uma forma de defesa psicológica utilizada por algumas pessoas, entre elas, Shimil Umesh, para preservar sua autoestima e senso de identidade.

Nesse sentido, a identificação de um grupo como “inferior” pode ser uma maneira de reforçar a crença na superioridade do próprio grupo e, consequentemente, proteger a autoimagem.

A imagem do Corinthians está vinculada à facção PCC

Além disso, a vinculação da imagem da facção PCC com o Corinthians pode ser vista como uma forma de estigmatização.

É uma forma de rotular indivíduos ou grupos com base em características estereotipadas ou negativas, contribuindo para a sua exclusão social e marginalização.

A psicologia social também pode contribuir para a compreensão da dinâmica entre grupos e a formação de identidades coletivas.

A identificação com um grupo pode ser uma fonte de apoio social e emocional, bem como de reconhecimento e pertencimento.

No entanto, quando essa identificação é baseada em estereótipos negativos e comportamentos prejudiciais, pode levar à discriminação e ao preconceito em relação a outros grupos.

A diversidade cultural, o Corinthians Paulista e o Primeiro Comando da Capital

Shimil Umesh, através de seu curto e sem dados comprobatórios, nos permitiu analisar como é importante desafiar estereótipos e preconceitos e promover o respeito às diferenças.

Isso pode envolver a conscientização dos indivíduos sobre seus próprios preconceitos e a valorização da diversidade cultural e social como fonte de enriquecimento e aprendizado.

É importante entender que o autor do texto, Shimil Umesh, não é uma ilha.

Ele é apenas mais um que nada no puro caldo do preconceito social que abunda em tempos onde a extrema-direita nada de braçada.

O autor faz uma análise raza sobre uma questão de grande complexidade e ambiguidade que é a relação entre a periferia, as torcidas organizadas e o PCC.

Nem teve Umesh a capacidade de imaginar as múltiplas perspectivas que existem dentro desses grupos e vislumbrar parte da dinâmica social envolvida.

Afora todas essas considerações, o autor da crítica também deixou de levar em consideração as relações entre esses grupos, Corinthians e facção PCC, e outras instituições sociais, como a polícia, a política, a mídia, e o sistema judicial.

O PCC como fruto de dinâmicas sociais e culturais

As relações entre o Corinthians Paulista e o Primeiro Comando Comando da Capital precisam analisar sob uma abordagem multidisciplinar e multifacetada.

Já o artigo no The Football Lovers não passou da soma de algumas palavras acusatórias cercadas de múltiplas imagens dos brasões dos clubes.

O sociólogo Gabriel Feltran que estuda as dinâmicas sociais e culturais nas periferias das grandes cidades, com foco especial na relação entre a juventude, a violência e as gangues, iria ainda mais longe do que eu, relacionando à esse fenômeno as estruturas políticas, socieis e econômicas do país.

Analisar a questão a partir de uma perspectiva histórica e sociológica mais ampla nos permitiria entender como a relação entre esses elementos se desenvolveu ao longo do tempo e como ela é moldada pelas estruturas que moldam a vida nas periferias.

Acusar o centenário Sport Club Corinthians Paulista sem considerar as dinâmicas internas, valores culturais e normas que governam suas torcidas organizadas e sua a administração do clube, não passa de preconceituoso amadorismo pretensioso.

Pedófilos e a lei do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533)

Todo pedófilo é punido com extremo rigor pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital. A lei é igual para todos na fação PCC 1533?

A facção PCC 1533 condena a morte pedófilos?

O que diria meu pai e Getúlio Vargas sobre a pedofilia no mundo do crime?

Meu pai repetia direto a frase: “a lei, ora a lei!”.

Não sei se ele sabia que essa frase era de ninguém menos que o político gaúcho.

Getúlio Vargas pronunciou a famosa expressão “Lei! Ora, a Lei!”, querendo dizer que apenas o cidadão comum está sujeito a sofrer as penalidades da lei, enquanto a própria legislação concede imunidades e benefícios a parlamentares e a outras classes privilegiadas.

Talaricos na lei do crime do PCC

A lei brasileira é branda com homens que pegam mulheres de outros homens, mas a lei de Deus (Bíblia) e a da facção PCC, não.

Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera.

Levítico 20:10

1. Ato de Talarico:
Quando o envolvido tenta induzir a companheira de outro e não é correspondido, usa de meios como, mensagens, ligações, ou gestos.
Punição: exclusão sem retorno, fica a cobrança a critério do prejudicado e é analisado pela Sintonia.

Dicionário da Facção 1533 – Regimento Disciplinar

Tanto pela lei mosaica quanto pela lei do crime o homem poderia ser morto pelo adultério ou talaricagem — afinal é a lei.

No entanto, outro dia, contei aqui a história do talarico que se tornou o Sintonía depois que matou o homem que iria denunciá-lo.

“A lei, ora a lei!”, diria meu pai. “A lei, ora a lei!”, diria Getúlio Vargas.

Hoje trago algo na mesma linha. A nossa profunda hipocrisia.

Pedófilos na lei do crime do PCC

Todos aqui concordamos, e se alguém não concordar é melhor guardar para si e dizer que concorda, que a pedofilia é um crime bárbaro.

Quando eu era garoto, me lembro de um pai que saiu matar um cara que, segundo ele, teria mantido relações com sua filha menor.

A garota tinha 20 anos, mas a legislação de então emancipava o homem aos 18 anos e a mulher aos 21 anos.

Vai ter leitor me chamando de dinossauro!

Não houve sequer um para tentar demover o homem desta empreitada, afinal ela era de menor.

Eu conhecia a todos ali e sabia que nenhum deles, inclusive o pai indignado, deixaria de pegar qualquer garota que pudesse.

A piada na época era falar com cara de sério:

Não saio com mulheres com menos de 35!

Para depois abrir um sorriso — todos sabiam que se referiam a 35 quilos.

Hoje a legislação mudou e é bem complexa.

Conheci um empresário que ficou preso por anos por ter saído com uma menina de 13 que ele realmente amava de paixão.

Acompanhei um outro caso onde o irmão do PCC que saiu na primeira audiência, mesmo tendo sido pego pela polícia na cama com uma menina de 13 anos e admitindo na Justiça que ficava direto com ela por diversão.

A juíza dos dois casos foi a mesma. A diferença é que o advogado do irmão provou que ela já saíra com outros homens.

No entanto, se nossa lei é dúbia, e a lei de Deus não fala uma linha sequer de pegar menor, parece que o Todo Poderoso não liga para isso, mas lei do crime é severa:

6 Item:
O comando não admite entre seus integrantes, estupradores, pedófilos, caguetas, aqueles que extorquem, invejam, e caluniam, e os que não respeitam a ética do crime.

Estatuto do PCC 1533

No entanto, apesar de previsto no Estatuto que dá as normas gerais, no Dicionário, assim como na lei mosaica não existe previsão.

Qual a idade mínima para o sexo consentido?

Por vezes me questionam sobre qual é a idade aceita pela facção para que uma garota possa ter relacionamento com um adulto.

Outro dia perguntei para um irmão de responsa que me respondeu na lata que a idade é 16 anos.

Então tá… só que sei que ele mantém relações constantes com garotas de 15, se não menos!

Lembram do caso do “Cria do 15 que assume assassinato que não cometeu”?

Nela conto o caso do armeiro do PCC foi morto poque teria estuprado uma menor de 15 anos?

Só que o tal armeiro foi o único naquela festa de PCCs e políticos que não manteve relações sexuais com ela!

“A lei, ora a lei!”, diria meu pai. “A lei, ora a lei!”, diria Getúlio Vargas.

Eu e a maioria de meus leitores, se revolta com a hipocrisia do “Povo de Deus”, dos “Patriotas” e da “Família de Bem”, mas…

… será que realmente somos tão melhores que eles?

Uma história que eu não devia ter esquecido

A história que publico hoje foi originalmente postada em 10 de abril de 2012.

Eu nem teria me lembrado dela se João Erik e “Vinny do 11” não tivessem me instigado a escrever essa semana sobre o papel das mulheres do mundo do crime e do Primeiro Comando da Capital.

Eu vi a garota dessa história algumas vezes, e sempre ela me deixou uma forte impressão.

Seu cabelo era cortado com máquina 2 ou 3, tanto que achei por algum tempo que se tratava um menino.

Bonitinha, pele clara, olhos sempre atentos e tristes.

Não sei o que aqueles olhos transmitiam, mas nunca vi uma garota como ela.

A lei para a menina

Como repararão, todos ali sabiam e a própria garota admitia que mantinha relações sexuais com os homens daquela casa.

Como repararão, todos ignoraram essa informação: PCCs, policiais e a Justiça.

Ninguém levou em consideração o relacionamento sexual dela com os adultos da casa para isso, afinal…

“A lei, ora a lei!”, diria meu pai. “A lei, ora a lei!”, diria Getúlio Vargas.

a lei para o menino

No texto, também cito um garoto de 13 anos, que também conheci. Parecia bem esperto, com sua cara e jeito de classe média.

Ele foi adotado, por assim dizer, pelo traficante que cuidava muito bem do garoto.

Não pensem besteiras!

O traficane aproveitava aquela sua cara de garoto inocente, gente boa, para mandar buscar de ônibus a droga na mochila em Campinas.

Um dia, o moleque, afinal era um moleque…

…cortou o cabelo escrevendo em baixo relevo: 157 de um lado e 33 do outro.

Na época, o 33 era o código penal para o tráfico.

Na primeira viagem foi abordado pela polícia e perdeu todos os tijolos de drogas.

Anos depois, em um torneio de skate no Aparecida, encontro com este garoto novamente, mas agora já de maior.

Estava cercado de garotos e todos estavam incomodando o evento.

Fui falar direto com ele que sabia que era o líder do grupinho.

Um dos que estava com ele, querendo impressionar, falou com ar de superioridade e orgulho:

Se não sabe que ele é irmão?

Respondi na lata:

Se é irmão devia estar no culto e não aqui!

Acho que até hoje os carinhas estão na dúvida se eu sabia que tipo de “irmão” ele era! O que eu sei é que deu certo!

Mina responsa, respeitada pelos manos de Itu

Os olheiros ficam na esquina e comunicam-se através de celulares, sinais e assobios. Ficam em um bar próximo…

O tal bar, era o trailer Tico e Teco Lanches, localizado na Avenida Caetano Ruggieri em frente ao Supermercado Alvorada.

A casa onde ocorria o comércio de drogas que caiu no Disque Denúncia era a residência de Aparecida, no Bairro Jardim São José.

Várias viaturas da Polícia Militar de São Paulo participam do cerco.

Lá chegando os policiais avistaram dois rapazes no portão da casa, os quais foram abordados e revistados, eram: Denis e Júlio.

Denis estava com dez reais e nada de ilegal consigo. Segundo ele estava lá para dar uns beijinhos em uma garota novinha que morava naquela casa.

Aquela menina tinha doze anos de idade e era uma saltense muito bonita e simpática.

Ela mesma contou aos policiais que “faz coisas” com os homens que conhece na “rua da Bica Dágua” para comprar drogas.

Seu nome é conhecido e respeitado pelos nóias da região, e de fato estava na casa, levada para a delegacia, seu pai foi chamado.

O homem compareceu à delegacia, mas negou-se a retirá-la, pois ela se recusa a obedecer e foge.

Quando o delegado avisou que ele responderia por abandono de incapaz, ele respondeu:

Prefiro responder na Justiça que ficar com essa pestinha em casa.

Alguns frequentadores da casa que abrigava a garota

Todos os que frequentam aquela casa no Bairro Jardim São José são usuários de algum tipo de droga.

Érica, viciada em crack e que frequenta o local há oito anos e que faz companhia para a menina:

… íamos lá para o uso comunitário de entorpecentes e tomar cerveja.

Edson, confirma e conta que não mais usava drogas mas…

…meu filho está com uma espécie de câncer maligno na cabeça… como ouvi dizer que na casa vende drogas, eu vim só para conferir.

Era no portão desta casa que Denis e Júlio estavam sendo revistados.

Com Júlio foram encontrados 59 Reais e uma pedra de crack, o que por si só não configura o tráfico, mas o fato de Denis estar com os dez reais em uma mão e estar segurando uma pedra de crack na outra, foi considerados pelos policiais indícios suficientes que ele estava recebendo a grana e entregando a pedra.

E assim, nossa nina de responsa é presa pela primeira vez

Enquanto ocorria a prisão, uma garota apareceu na porta da casa, e vendo a polícia, voltou correndo para dentro.

No quarto havia duas mulheres com 32 porções de crack embaladas individualmente e 20 ampolas de cocaína.

Posteriormente, espalhados pela casa foram encontrados diversos cachimbos improvisados para uso de drogas e duas porções de maconha, e na edícula no fundo da casa havia duas balanças e dois pacotes de amido de milho utilizados para “batizar” os entorpecentes.

Uma das mulheres era a dona da casa, Aparecida, mãe de Júlio, que havia saído da prisão há apenas meses e segundo ele só estava ali de passagem.

A menina e o tráfico

A menina trabalhava como mula no tráfico.

Júlio, o filho da dona da casa, já havia sido condenado dez anos antes por usar um garoto também de 13 anos em um esquema de tráfico semelhante.

Sua advogada, no entanto, diz que todos os indícios indicam que o tráfico era feito apenas pela garota e pela mulher, e que Júlio…

…estava apenas no local errado e na hora errada, e que ele jamais se associou ao tráfico de drogas.

Drª. Camila de Campos

No fim, mãe e filho ficam em segurança atrás das grades, e a menina foi levada pela mãe, que no dia seguinte me procurou para dizer que a garota fugiu assim que chegou em casa.

Esta foi a última vez que ouvi falar da “Mina responsa, respeitada pelos manos de Itu”.

A Marcola de Saias, a Guerreira do Acre e a cultura sexista do PCC

A Guerreira do Acre: como a mulher conquistou seu lugar na sociedade, e hoje tem o direito de morrer e apodrecer nas prisões como os homens.

A Mulher guerreira, Marcola de Saias, não é a primeira e não será a última

João Erik e Vinny do 11, vamos falar sobre a guerreira do Acre e a tal Marcola de Saias.

Ambos me procuraram essa madrugada para que eu comentasse sobre aquela mulher.

Ela ganhou as capas dos jornais de todo o país e lhes garanto, encontrei referência a ela em várias partes do mundo.

Suliane Abitabile Arantes, a Elektra, a Intocável, a Assombrada, a Kitana, a Mariana, e por fim e mais importante, a Marcola de Saias.

PCC ‘untouchable’ woman did trafficking accounting and registration of new members in the faction
Mujer ‘intocable’ del PCC hizo contabilidad de trata y registro de nuevos integrantes en la facción

Já devem ter notado que sou metódico e fujo das grandes manchetes sobre a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533).

É uma tentação e rende views repercutir os assuntos do dia, mas eu prefiro as notícias marginais, os detalhes que passam despercebidos do público.

Não me anima escrever sobre “Marcola de Saias” do dia. Sim! Pois é! Ela é a terceira que foi assim citada neste site desde que publico sobre o PCC em 2007!

O sexista Primeiro Comando da Capital

Estou prestes a compartilhar com vocês uma história real de horror que resgatei de uma mulher, guerreira da facção criminosa PCC 1533, realmente forte.

Esta história ilustra bem a mudança cultural a que vocês se referem, e que vocês acreditam estar ocorrendo.

Sei que será difícil de digerir, mas creio que é importante que vocês estejam cientes de que não é o caminho que está sendo seguido.

Vocês, assim como a maioria de nós, refletem no outro suas próprias expectativas, que por vezes vão de encontro à cultura do outro.

Não precisamos olhar no horizonte para ver isso, basta observarmos no nosso grupo de Zap: quantas mulheres há e a diferença do perfil dos homens.

O Primeiro Comando da Capital é um grupo sexista e não existe tendência de mudar essa realidade, existem sim, exceções.

A Guerreira do Acre e a Marcola de Saias são exceções à regra

A história que vou contar é a da Guerreira do Acre.

Não é a primeira história desse tipo e certamente não será a última, mas creio que é um exemplo da culturareal do PCC, que difere de nosso imaginário.

Ela lutou por sua família de sangue e pela Família 1533, acabou sendo perseguida e, em certo momento, nunca mais tive notícias dela.

Admirei a coragem dessa mulher que, possivelmente, nunca saberei se conseguiu sobreviver.

O Primeiro Comando da Capital na época era outro

A facção PCC 1533 investia pesado em ajuda aos guerreiros por mais isolados que estivessem.

Eu, na época, participava de diversos grupos de WhatsApp de “responsa” da facção, e de lá assisti a diversas “movimentações de tropas e armas”.

Foi assim para fortalecer os Amigos dos Amigos (ADA) no Rio de Janeiro, os Guardiões do Estado (GDE) no Ceará, e a Guerreira do Acre.

Hoje vemos a organização criminosa deixando crias para trás isoladas em diversos recantos do país para se focar no lucro seguro.

Esse meu comentário não deve ser entendido como uma crítica, mas como fruto de uma análise dos fatos, e posso estar errado.

Mudança na cultura do Primeiro Comando da Capital

Mas, ao contrário do que vocês possam pensar, a mudança que esperam vai de encontro à cultura da organização da facção paulista 1533.

Hamilton Pozo, com quem tive aula na faculdade, afirmava que uma mudança cultural em uma organização ou sociedade precisaria de 50 anos para se consolidar.

Não é fácil mudar a mentalidade de um grupo social, especialmente quando ela está enraizada em uma cultura que valoriza mais a sexualidade do que o lucro e os direitos humanos.

O imaginário do mundo do crime gira em torno da sexualização tanto do homem quanto da mulher, tornando o estereótipo como regra.

Vocês dois presenciaram ontem, no nosso grupo de Zap uma demonstração no caso do homem que queria contratar alguém para matar a própria mulher.

Sexo, armas e drogas

Nos próximos dias, atendendo a vocês, abordarei aqui no site a questão da sexualidade na facção Primeiro Comando da Capital.

Independente do que pensemos, eu, vocês ou um “cria do 15” do norte de Roraima, nós devemos continuar lutando por aquilo que acreditamos.

Assim como a Guerreira do Acre que lutou por sua causa, que lutou por sua família de sangue, que lutou pela Família 1533.

É isso que nos faz crescer e evoluir como seres humanos. Espero que essa história os inspire a continuar lutando e a não desistir de seus ideais.

o texto a seguir foi publicado neste site em 28 de janeiro de 2018 e na época eu utilizava base acadêmica para meus textos

A acadêmica de Roraima e a guerreira do PCC do Acre

É possível levar a sério um artigo acadêmico sobre a violência e a criminalidade urbana em um estado que é só selva?

E se eu disser ainda que foi escrito por uma mulher?

Este é o caso de Retratos da Violência Urbana e da Criminalidade em Boa Vista — Roraima: A capital mais setentrional do Brasil, de Janaine Voltolini de Oliveira.

Nossa! Me senti agora como Monteiro Lobato!

Você já leu o livro Éramos Seis, de Maria José Dupré?

Quem prefaciou a obra foi ninguém menos que Monteiro Lobato, ícone de nossa literatura e responsável por parte da formação cultural de nossa nação.

Nesse prefácio, Lobato não teve vergonha em contar que recebeu de seu editor o original do livro de Dupré que narrava a vida de uma mulher e de seus filhos, desde nasceram até a fase adulta, e ele inicialmente se recusou a ler a obra, pois tinha sido escrita por uma mulher e a premissa era ridícula.

Monteiro Lobato, eu e nossa misoginia

Após muita insistência do editor, Monteiro Lobato, acabou lendo e se apaixonando pelo trabalho da autora (assim como eu).

Janaine não é Dupré e eu muito menos sou Lobato, mas Dupré não podia prever que Lobato não iria querer lê-la por ser mulher, e Lobato não poderia prever que em cinquenta anos sua obra quase seria proibida por ser sexista e racista.

Assim como Janaine não poderia prever que um leitor se referiria ao seu trabalho dessa forma:

E se eu disser ainda que foi escrito por uma mulher?

A violência e o empoderamento da mulher

O artigo publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP faz uma avaliação do quadro de violência em Roraima e analisa seus números, apresentando as possíveis causas e soluções para o problema.

É um bom resumo do que acontece por lá e um facilitador para quem quer fazer uma análise rápida, mas não profunda, da situação do estado.

A questão da mulher me chamou a atenção assim que peguei o trabalho de Janaine — pensei em criar uma cota para a produção masculina nesse site, pois quase todos os trabalhos que fiz no último mês foram produzidos por mulheres ou cujo assunto eram as mulheres dentro da hierarquia do PCC.

Não acredito no acaso, e muito menos duvido dele.

A pesquisadora demonstra no artigo o aumento brutal do número de mulheres assassinadas — o Mapa da Violência 2015 denunciou o aumento de 500% da quantidade de homicídios de mulheres em Roraima em relação aos anos de 2003 a 2013.

Os números são o resultado do aumento da presença das mulheres, que estão dominando cada vez mais todas as áreas.

Uma escreve e outra derrama sangue

Quando Janaine escreveu o artigo, não poderia prever que trouxesse, a um de seus leitores, a lembrança de maneira tão viva de uma irmã ou companheira do PCC, que teve seu áudio viralizado um pouco antes dos ataques ocorridos no início de agosto de 2017 em Rio Branco:

Aqui o bagulho tá feio mesmo. Eu sou do Acre, só que os irmãos não estão muito unidos não. Mataram meus companheiros lá.

Até perder meu filho já perdi.

Tudo por causa dessa guerra. Agora os irmãos tem que tomar atitude aí.

Tem Irmão encurralado aí. Tem que ajudar Irmão.

Guerreira do Acre

Na voz, uma mulher, fiel de sangue ao Primeiro Comando da Capital, e seu pedido de apoio que mobilizou soldados e recursos da facção de diversas partes do Brasil.

A situação que estava quente, ferveu, sendo necessária uma operação de guerra envolvendo o governo estadual e federal para conter a situação.

A mulher conquistando o direito de matar e morrer

Monteiro Lobato teria que se conformar: a mulher conquistou seu lugar na sociedade, e hoje elas já escrevem tanto quanto os homens sobre a questão criminal, e com o incremento em torno de 1,5% ao mês do número de integrantes femininas nas facções.

Dentro de cinco anos elas possivelmente já estarão em pé de igualdade com os homens.

Eu não vou esperar tanto tempo para parabenizar as mulheres que conquistaram o direito de morrer como se fossem homem. Mary Wollstonecraft e Nísia Floresta devem estar muito satisfeitas com as conquistas das mulheres neste século.

Vídeo da execução de uma integrante do Bonde dos 13 do Acre (B13)

Cria do 15 assume assassinato que não cometeu — facção PCC

Nada é tão simples como pode parecer no caso do “Cria do 15 assume assassinato”, mas também não é tão complexo como vou demonstrar.

Ratinho, Cria do 15 assume assassinato de assessor de deputado e líder comunitário

Trago hoje um crime onde um Cria do 15 assume assassinato de um assessor de deputado federal da bancada evangélica.

Francesco Guerra pediu que eu resgatasse essa antiga história que aqui contei em 16 de março de 2017.

Primeiro eu conto o caso como hoje contaria, e na segunda parte coloco o texto original de 2017 com detalhes que hoje eu omito.

O Caso “Cria do 15 assume assassinato”: Estupro, Morte, Política e a Culpa Forjada

Meu caro “Frans do +39”,

Estou relendo um caso bastante complexo e intrincado que pode te interessar que envolve uma série de personagens desonestos e desesperados em busca de vantagens.

Tudo começa com um indivíduo conhecido como Rodrigo, que era líder comunitário, presidente da Associação dos Moradores da Cidade Nova, e ex-assessor do Deputado Missionário José Olímpio.

Mas além de ser essa figura pública admirada também era armeiro da poderosa organização criminal Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533).

Rodrigo teria cometido um crime terrível ao estuprar “Gabi”, uma garota de 13 anos, durante uma festa regada à álcool e drogas em sua mansão.

Por esse crime ele seria condenado à morte pelo próprio PCC que não tolera esse tipo de atitude.

6 Item:

O comando não admite entre seus integrantes, estupradores, pedófilos, caguetas, aqueles que extorquem, invejam, e caluniam, e os que não respeitam a ética do crime.

Estatuto do Primeiro Comando da Capital — PCC 1533

No entanto, ninguém é condenado no Tribunal do Crime sem ter tido o direito a se defender.

13. Decreto:

Para confirmar um decreto a Sintonia tem que analisar com cautela, por se tratar de uma situação de vida.

Tem situações que é claro o decreto, como traição, abandono as demais situações como mão na cumbuca, caguetagem e estupros, a Sintonia analisa num contexto geral.

Quando um decretado chegar em uma quebrada nossa tem que ser cobrado de bate pronto.

Dicionário do PCC 1533 — Regimento Disciplinar 45 ítens

Pressionada a polícia alguém assume o assassinato

A situação se complica ainda mais quando o Inspetor Moacir Cova é pressionado pela imprensa e por políticos a encontrar um culpado pelo crime.

O Inspetor avisa ao Mundo do Crime que a organização criminosa irá sofrer as consequências se o caso não for esclarecido.

Nesse contexto, a polícia consegue prender um indivíduo chamado “Ratinho RT”, que assume o crime perante o Investigador e o Delegado de Polícia.

Mas qual teria sido a culpa de Ratinho RT?

No entanto, durante o julgamento, o advogado de defesa de Ratinho RT argumentou que ele não foi o responsável pelo crime.

Ele teria sido forçado a assumir a culpa pelo PCC a troco de moral na facção, vantagens para a família e perdão de dívidas.

Ninguém é obrigado a nada pela lei da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, por isso ele teria que aceitar a tarefa.

Agora, o caso se torna ainda mais complicado, já que é necessário determinar a verdadeira identidade do criminoso e o grau de culpa de Ratinho.

Detalhes que podem não ser só detalhes

Eles passaram pelas câmeras de monitoramento às 20:16 e voltaram depois de chegar ao local do julgamento, ouvir o acusado, e executá-lo em menos de dez minutos.

Ata do Tribunal do Júri de Itu

“Eles passaram” — Ratinho não sabe dirigir e a câmera de monitoramento do “portal da cidade” prova que ele estava no banco do passageiro.

Quem pode garantir que o homen que dirigia o carro não foi quem puxou o gatilho?

Ratinho afirma que: foi ele que decidiu executar, que atirou, e que não sabe quem dirigia o carro.

Segundo as regras do Primeiro Comando da Capital, para um sujeito ser executado deve passar pelo Tribunal do Crime com direito a defesa e contraditório.

O assessor acreditou que seria inocentado

Rodrigo seguiu com Ratinho e com o outro indivíduo por vontade própria. Ele tinha certeza que era inocente e acreditava que podia provar.

O assessor de deputado e armeiro do PCC nunca negou que conhecia e tinha relacionamento com a menina e todos ali tinham relações sexuais com ela.

Gabi teria acusado Rodrigo porque ele se recusou a se relacionar com ela, uma amiga da garota que estava naquela noite com ela confirma isso.

O Promotor de Justiça não negou que Ratinho RT foi obrigado pela organização criminosa a assumir o crime, mas afirma que ele cometeu realmente o crime, e teve que se entregar porque não deu o direito de defesa à Rodrigo durante o Tribunal do Crime.

Em um mundo de certezas só restam dúvidas

Meu caro “Franz do +39”

Como um articulista que preza pela lógica e pelo raciocínio dedutivo, estou ansioso para ver você mergulhar mais fundo nesse caso e descobrir a verdade por trás desses eventos.

No entanto, eu temo que haja muitas camadas de engano e subterfúgio que devem ser desvendadas antes que possamos descobrir a verdadeira identidade do culpado.

Resta agora a nós, meu amigo, reunir todas as informações que temos sobre esse caso e analisá-las com cuidado, para que possamos finalmente trazer a justiça que a vítima merece.

E como pode ver, meu caro Franz, um líder comunitário e assessor de um deputado federal da Bancada Evangélica, defensor da tradicional família brasileira e dos cidadãos de bem, dava uma festa em uma mansão regada a bebidas e drogas e nenhum político foi mencionado durante o julgamento.

Atenciosamente,

Wagner do Site

História como publiquei em 16 de março de 2017

Júri condena preso por não cumprir regra do PCC

Se Ratinho RT (Bruno Augusto Ramos) cumpriu a regra do Primeiro Comando da Capital de “sumariar” o acusado Rodrigo antes de executá-lo, eu não sei.

Mas esse foi o foco do debate entre o advogado de defesa e a Promotoria de Justiça, no caso do assassinato de Rodrigo Teixeira Lima.

Rodrigo é líder comunitário, presidente da Associação dos Moradores da Cidade Nova, e ex-assessor do Deputado Missionário José Olímpio.

Cria do 15 assume assassintato: abandonando as ilusões

Graham Denyer Willis em seu livro “The Killing Consensus: Police, Organized Crime, and the Regulation of Life and Death in Urban Brazil” nos convida a abandonar nossas ilusões.

Segundo ele, devemos enfrentar o fato que policiais e facções criminosas mantêm uma normalidade dentro de nossa sociedade.

Existem mecanismos de justiças que não apenas são conhecidos, mas reconhecidos e parcialmente aceitos pela sociedade.

O Cria do 15 assume assinato e foi condenado a 18 anos de prisão, mas restou a dúvida: ele realmente executou a vítima?

Mas o que mais se discutiu no Tribunal do Júri foi se cumpriu as regras da facção Primeiro Comando da Capital ao cumprir a execução.

Os fatos como foram apresentados no Tribunal do Júri:

Gabi, uma garota de 13 ou 14 anos, “ficou” com o Rodrigo em uma das muitas festas que ele promovia e onde álcool e drogas circulavam em abundância, mas ele não estava afim dela e a “chutou para fora”.

Ela também se relacionava com um irmão da facção chamado Zóio da Cidade Nova em Itu, e como não aceitou ter sido desprezada por Rodrigo contaminou Zóio dizendo que tinha sido estuprada.

Zóio teria cuidado ele mesmo, mas foi morto em troca de tiros com a polícia…

… mas o veneno já estava no ar, na boca do povo, e nas redes sociais, daí alguém pediu providência ao Comando para aplicar a Lei do Crime que pune com a morte estupradores.

No entanto, o acusado deve ser “sumariado”, isto é ouvido e julgado pelo Tribunal do Crime, não pode ser uma decisão individual de um integrante.

Foi decidido que Ratinho RT ia “sumariar” Rodrigo e se o Tribunal do Crime decidisse ele seria executado.

Gabi comemora o assassinato de Rodrigo

Quando Rodrigo morreu Gabi comemorou nas redes sociais, mas depois caiu a ficha e viu a besteira que tinha feito.

Ela sabia a caca que fez , é mil vezes certeza que ela não foi estuprada.

palavras do Investigador de Polícia Moacir Cova

Não tinha cabimento o que ela dizia: com ela tinha uma amiga que não quis ficar com o Rodrigo e foi embora e ele não impediu.

Gabi ficou porque quis na casa dele, e lá ele teve todas as chances possíveis de fazer com ela o que quisesse e nada fez.

Ela disse que ele tentou a estuprar no carro quando estava a levando embora, o que não tem lógica.

Outra coisa que chamou a atenção é que o Rodrigo em nenhum momento negou que tivesse ficado com ela e sequer negou o relacionamento.

Rodrigo estranhou que falassem em estupro e confiou que indo dar a sua versão para o Tribunal do Primeiro Comando da Capital tudo ficaria esclarecido.

Não houve julgamento, houve execução

Pelo que os policiais apuraram no caso, Rodrigo não teve tempo de se defender.

Eles passaram pelas câmeras de monitoramento às 20:16 e voltaram depois de chegar ao local do julgamento, ouvir o acusado, e executá-lo em menos de dez minutos.

O companheiro que estava dirigindo declarou que depois que Ratinho e Rodrigo desceram do carro foi o tempo dele manobrar o carro e o cara já estava morto.

Ratinho é um molecão novo querendo subir rápido no Partido. Essa morte tinha que acontecer para ele ser respeitado e parecer poderoso no bairro e no crime.

contou o Investigador Moacir Cova

Quando o Cria do 15 assume assassinato ele ganha respeiro na facção, mas leva de lambuja uma pena de 18 anos pelo assassinato e mais 8 por tráfico de drogas.

A facção PCC manda parar a briga entre as torcidas organizadas

Briga entre torcidas organizadas de futebol: a organização Primeiro Comando da Capital PCC 1533 ainda não usou a força que já possui.

Briga entre torcidas e a polícia

No claustrofóbico interior do vagão de metrô, meus olhos eram testemunhas involuntárias da dança violenta das torcidas rivais na plataforma da Linha Verde:

O concerto amargo de punhos e ofensas ressoava pelo compartimento, impondo seu silêncio brutal aos demais passageiros.

Jovens protagonistas de duas torcidas encenavam um espetáculo de brutalidade insana.

Os grupos rivais, equiparados em sua determinação feroz, trocavam golpes impiedosos, cada ação impulsionada pela única intenção de derrubar o adversário.

Porém, a chegada abrupta da polícia e dos seguranças do metrô, com o claro objetivo de dissipar o caos, causou uma guinada na narrativa.

Ao invés de findar o confronto, a presença das forças de segurança pareceu forjar uma inusitada aliança entre os grupos oponentes, que agora se voltavam contra os recém-chegados com uma ferocidade redobrada.

Os agentes da lei, originalmente destinados a enfrentar duas facções rivais, agora se viam diante de um sólido grupo hostil, determinado e unificado.

No confinamento do vagão de metrô, havia assistido a um tumulto de torcidas, agora era testemunha da insólita pacificação de eternos antagonistas e da sua aliança contra a autoridade estatal e suas forças coercitivas.

PCC: O Mandante por Trás das Torcidas Organizadas

Os tais “cidadãos respeitáveis” parecem estar presos em um ciclo de erros, sem tirar lições dos próprios deslizes.

Falharam em 1991, quando se mantiveram indiferentes aos confrontos mortais entre facções rivais dentro das prisões – o pavio que desencadeou o Massacre do Carandiru.

Erraram novamente em 1993, ao aplaudirem as decapitações no presídio do Piranhão – um estopim para a criação do Primeiro Comando da Capital (PCC).

O erro persiste na atualidade, onde a visão miópica falha em perceber que o PCC não apenas dita ordens às torcidas organizadas, mas que as torcidas organizadas são, na verdade, uma extensão do PCC.

Esta não é uma condenação moral ou crítica, mas a pura constatação de que as torcidas organizadas consistem, na maioria, de jovens marginalizados, prontos para se rebelar contra a opressão do Estado e suas forças de segurança.

Isso foi o que relatei em 2012, embora com um maior número de palavras. E é isso que reitero hoje:

Os supostos “cidadãos de bem” parecem ter uma dificuldade crônica em aprender com os próprios erros.

Artigo original publicado em 3 de abril de 2012:

Arthur Conan Doyle e a briga entre torcidas

Arthur Conan Doyle me alertou nos idos de 1993 sobre algo que estava me passando despercebido — ele me acusa de ser muito pouco observador.

Ao assistir pela TV presos jogando futebol com a cabeça de outros presos em um presídio do interior de São Paulo eu fiquei abismado!

Em 31 de agosto de 1993 no Piranhão (Casa de Custódia de Taubaté) jogadores do time “Partido do Crime da Capital — PCC” decapitaram os adversários…

… e foi assim, sem jogadores vivos, que o “Partido Caipira” foi eliminado do campeonato daquele ano e o Brasil nunca mais foi o mesmo.

Como quase todas as pessoas, fiquei revoltado com aquela loucura, mas Arthur que assistia ao meu lado não!

Ele ficou ali, sem falar nada como se nada tivesse acontecido.

Ele viu em 1933 o que eu só vejo hoje

Aceito que não é o gênio que eu acho que é, e sei que cometeu muitos erros, mas ainda acho que ele é um gênio.

Portanto, entenderei as restrições que você possa colocar, mas você não tem como negar que ele vê coisas antes das outras pessoas.

Naquela noite histórica de 31 de agosto de 1993, quando finalmente desliguei a televisão, Arthur simplesmente disse:

O mundo está cheio de coisas óbvias, que ninguém, em momento algum, observa! E aí está uma delas.

Eu não vi nada de oculto por trás do horror que é  um jogo de futebol que termina em sangue! — Arthur às vezes fala merda.

Juntando os pontos

Resolvi dar uma desculpa e ir embora, Arthur é que era a visita em minha casa e não parecia que iria embora tão cedo!

No entanto, passados anos, vejo que ele viu o que eu não vi.

Em dezembro de 2010 quando outra revolução política começou em uma briga de futebol e então vi o óbvio que Arthur viu em 1993.

A Primavera Árabe: regra, não foi exceção

Rodrigo Vianna lembra que as torcidas organizadas surgiram na América Latina nos anos 70 e se enraizaram na sociedade.

Esses grupos sociais são compostos na maioria por jovens na faixa dos 20 aos 30 anos de idade.

Meu amigo dizia que “ao eliminar o impossível, o que sobraria, por mais incrível que parecesse seria a verdade”, então, jogos de futebol tem um grande poder revolucionário.

Jovens, futebol, Piranhão e revolução

Geleião tinha 32 anos quando no dia do jogo no Piranhão. Marcola que não estava no jogo mas participou do movimento tinha 25 anos.

Pode se dizer que os fundadores do PCC foram os oito integrantes do time de futebol e todos jovens na faixa dos 20 aos 30:

  • Misael Aparecido da Silva, o Misa;
  • Wander Eduardo Ferreira, o Eduardo Cara Gorda;
  • Antonio Carlos Roberto da Paixão, o Paixão;
  • Isaías Moreira do Nascimento, o Isaías Esquisito;
  • Ademar dos Santos, o Dafé;
  • Antônio Carlos dos Santos, o Bicho Feio;
  • César Augusto Roris da Silva, o Cesinha; e
  • José Márcio Felício, o Geleião.

Todos, além de jovens, viviam isolados dentro do mundo que eles mesmos construíram por terem sido levados pela sociedade a criar.

Assim, foram os fundadores do Primeiro Comando da Capital, e assim é com os jovens das torcidas organizadas hoje.

PCC nascido do sangue no Piranhão

Faltou  imaginação à mim quando houve o banho de sangue no Piranhão, ou eu teria visto o potencial de tudo o que estava começando.

Olhar apenas na superfície me impediu de ver que naquele momento nascia a maior organização criminosa da América Latina, mas Arthur viu.

A falta de imaginação nos transforma em bichos que apenas observam e agem, sem se questionar e perceber as consequências do que vemos ou fazemos.

Assim, em 1991, policiais militares de São Paulo com idade entre 20 e 30 anos mataram 111 no Carandiru, plantando as sementes da facção PCC.

Assim, em 1993, criminosos do Piranhão com idade entre 20 e 30 anos decapitaram um inimigo, regando com sangue as sementes da facção PCC.

Assim, em 2010, jovens egípcios com idade entre 20 e 30 anos se revoltam contra o sistema político opressor, iniciando a Primavera Árabe.

Assim, hoje ao proibir briga entre as torcidas organizadas a organização criminosa está plantando para o futuro.

O PCC, os jovens e seu espírito revolucionário

Lá assim como aqui as torcidas organizadas e as organizações criminosas tem em sua maioria jovens  com até de vinte e cinco anos de idade.

Jovens de periferia que contestam a força repressora do Estado e sua polícia, que desprezam a corrupção política e a exclusão social.

Arthur não estava olhando para mim, sorte, pois detesto quando ele percebe que eu fico sem argumentos e não tenho como refutá-lo.

Sem dúvida, tanto o Primeiro Comando da Capital, quanto às torcidas organizadas tem o mesmo perfil: jovens entre 20 e 30 anos da periferia.

PCC e as torcidas organizadas

Haveria razão para que a maior organização criminosa da América Latina se infiltrasse nas torcidas?

Optei não mais conversar com Arthur a este respeito, pois sei que ele sempre diz que é um erro terrível teorizar antes de termos informação.

Principalmente por que o homem tem essa característica, a de se achar especialista em tudo, quando na realidade sua especialidade é apenas a omnisciência.

O tempo passou e agora devo novamente procurar Arthur e me desculpar, pois o respeitado jornalista Ricardo Perrone garantiu que o grupo criminoso PCC repreendeu a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde pela morte dos dois palmeirenses, o que confirma a influência da facção sobre as organizadas.

A pacificação do PCC nas ruas

Aqui em Itu, por muito tempo, a Avenida da Paz Universal esteve em paz graças a uma determinação dos traficantes ligados ao PCC para que não houvesse armas, brigas ou mortes, pois chamariam a atenção da polícia, criando situações de confronto que não interessavam aos negócios.

Ao falar hoje com meu amigo ele me explicou o último ponto de sua linha de raciocínio:

A razão. Ela não existe. Não existe razão para que o PCC influencie e domine as torcidas organizadas, mas ela existe pela própria natureza das duas culturas: a conta-cultura criminosa difundida pelas facções, e a cultura do futebol.

Ambas acéfalas, existem lideranças, mas sua base se move por vontade própria de modo pouco estruturado.

A tentativa das mídias sociais como a TV e o rádio de criar um clima familiar na torcida, é artificial.

Campos de futebol é o lugar onde milhares de cidadãos gritam “Filha da Puta Vai Se Fudê” e quebram as amarras sociais.

A facção ainda não optou por usar a força que já possui:

O próximo levante da facção criminosa, ao contrário do que se espera, deverá ocorrer usando esta reserva poderosa e inesperada, não para derrubar o governo, mas para conquistar ainda mais espaço.

Veremos duas torcidas brigando e quando houver intervenção policial se unirem contra o inimigo comum: a polícia.

Ao chegar a este ponto, razões justas serão postas: a excessiva repressão policial, corrupção na política e no esporte, desigualdade social…

O governo negará que as facções criminosas determinaram o fim das brigas, mas por trás das câmeras lhes darão mais regalias.

Os policiais serão punidos como bodes expiatórios.

As mídias sociais, todas elas, faturam horrores com o caso, e a população ficará entretida por algum tempo.

Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?

Os Disciplinas do PCC 1533 dentro da hierarquia da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (facção PCC).

“Disciplina do PCC 1533” retrata a força unificadora na facção criminosa de São Paulo. Integrantes do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) demonstram orgulho na disciplina rígida. Porém, descobrir os genuínos representantes da hierarquia da facção tornou-se um desafio.

Submersos na complexidade do crime, estes “Disciplinas” personificam o controle estrutural similar a grandes corporações. Cada faceta da organização, do financeiro à transmissão de regras, evidencia uma estrutura intricada de poder que define o PCC.

Incentivamos vivamente os leitores a compartilharem suas opiniões sobre a matéria em nosso site, no grupo de leitores ou por mensagem privada. Explore a complexidade do PCC e participe da discussão.

Os Disciplinas do PCC 1533 na hierarquia da facção

Os “Disciplinas do PCC” representam a força essencial que mantém coeso o conglomerado criminal de São Paulo. O Primeiro Comando da Capital é reconhecido por sua disciplina rigorosa, um elemento de orgulho para seus integrantes. Entretanto, recentemente tornou-se cada vez mais desafiador identificar, nas periferias e no submundo do crime, os autênticos representantes da hierarquia da facção.

Hierarquia dentro da organização criminosa

Embora não utilizem termos como “departamento” ou “setor”, na prática, a facção reproduz estruturas semelhantes às administrativas de grandes empresas legais. As principais áreas de atuação são:

  • Financeiro: controla o recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.
  • Sintonia do Cadastro: administra o ingresso e mantém o registro cadastral dos membros batizados, incluindo nomes, locais e padrinhos.
  • Salveiro: responsável por transmitir as atualizações das regras estabelecidas pela cúpula para toda a base operacional. Apesar de alguns compararem esse papel ao de Relações Públicas empresariais, suas comunicações são estritamente internas.
  • Sintonia do Progresso: executa missões especiais e tarefas cotidianas.
  • Sintonia dos Gravatas: constituída pelos advogados da facção.

Além dessas áreas, há cargos específicos de gerenciamento, chamados de “Resumos”, como o “Resumo Geral dos Estados e Países” ou “Resumo Geral do Estado”, podendo atuar também em locais específicos, como “Geral das Trancas do Estado” ou “Geral das Trancas da Unidade Prisional”.

Estrutura de Comando e Comunicação

O Conselho de Administração da organização criminosa é conhecido como “Sintonia Final“. Os “Disciplinas” recebem informações dos Salveiros e atuam segundo as diretrizes da Sintonia da Comunidade para manter a ordem entre os integrantes da facção.

Atuação dos Disciplinas na Cracolândia

Houve um tempo em que acreditei em um mundo ideal, no qual caberia à polícia a defesa da justiça e da segurança das pessoas. Mas esse tempo acabou.

Assim como eu, a pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta também aprendeu que a realidade é mais complexa do que os filmes nos fizeram crer.

Ela testemunhou diretamente o papel dos Disciplinas na Cracolândia, onde vários conflitos foram resolvidos graças à sua intervenção. Márcio Américo, humorista e antigo frequentador da região, concorda:

A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local que é completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital.

Observações da Pesquisadora

No conturbado epicentro da Cracolândia, Deborah Rio acompanhou pessoalmente as operações dos Disciplinas do PCC 1533, observando suas negociações com traficantes, usuários, jornalistas, policiais e autoridades governamentais. Esses homens constituem a espinha dorsal da facção, presentes em ruas, biqueiras, presídios e outras áreas de atuação da organização.

Os Disciplinas têm como responsabilidade aplicar o Dicionário do PCC, que determina o Regime Disciplinar, bem como emitir “salves”, alterações temporárias ou locais nas regras gerais.

Como relata Deborah, um episódio exemplifica claramente seu papel:

Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila.

Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas.

Um usuário, M., começou a questionar exaltadamente o coordenador da ação, Capitão Renato Lopes da Silva. Um disciplina interveio discretamente, pediu licença com voz firme e todos imediatamente abriram passagem. Ao colocar a mão no ombro de M., que rapidamente se acalmou, M. afirmou respeitar os ‘entendimentos’.

Função Social e Política dos Disciplinas

Os Disciplinas têm a complexa função de manter a ordem em territórios sob controle do PCC. Eles exigem comportamento civilizado de usuários e traficantes locais, proporcionando um ambiente aparentemente pacífico, que minimiza a presença ostensiva da polícia.

O medo e o ódio alimentam seu poder e sua autoridade – cordeiros não balem em terras onde lobos uivam.

Essa atuação política permite aos Disciplinas negociar diretamente com comunidades e autoridades. Um exemplo ilustrativo ocorreu quando o então prefeito Fernando Haddad e Alexandre de Moraes discutiam com um Disciplina dentro do espaço do Programa Recomeço, sob forte vigilância policial.

Realidade e Consequências da Atuação

Deborah Rio ressalta que, em diversas comunidades, a segurança e a paz são garantidas não pelo Estado, mas pelos próprios Disciplinas. Apesar de haver uma redução dos índices de homicídios e crimes menores nas áreas controladas pelo PCC, a violência institucional é substituída por uma força mais sombria e implacável, que não hesita em punir severamente.

Divisão e Hierarquia dos Disciplinas

Os Disciplinas dividem-se em categorias específicas, cada uma com responsabilidades definidas:

Nos Presídios (Disciplinas das Trancas): conhecidos como “jets”, operam dentro das unidades prisionais, com cargos específicos como “Jet da Unidade” ou “Jet do Estado”, podendo também ser chamados genericamente de Disciplinas.

Nas Ruas (Disciplinas das Quebradas): atuam em biqueiras e bairros, podendo existir diversos Disciplinas numa mesma cidade, dentre os quais um se destacará como “Disciplina Final da Cidade”. Há também os “Disciplinas do Estado”, responsáveis por resolver conflitos graves, e os “Disciplinas dos Estados e Países”, enviados para zonas de conflito com outras facções ou para mediar disputas locais.

Os “Disciplinas do PCC” representam o músculo robusto que mantém coeso o conglomerado criminal de São Paulo. A Primeiro Comando da Capital é conhecida por sua disciplina rigorosa, um ponto de orgulho para seus membros. No entanto, recentemente, tornou-se uma tarefa cada vez mais desafiadora localizar nas periferias e no submundo do crime os autênticos representantes da hierarquia da facção.

Leia a tese completa da pesquisadora Deborah

Análise por IA do texto: Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?

Análise do ponto de vista factual e de precisão

🧷 ISOLAMENTO DOS DADOS FÁTICOS DO TEXTO
  1. Disciplinas como eixo da estrutura do PCC, atuando em:
    • Ruas e comunidades (Quebradas)
    • Presídios (Jets)
    • Cidades, estados e países (Disciplinas de instâncias maiores)
  2. Função: Aplicar o Dicionário (Regime Disciplinar) e emitir salves (ajustes locais às normas).
  3. Ação na Cracolândia: Intervenções diretas em conflitos, controle informal da ordem, negociação com autoridades e usuários.
  4. Hierarquia e cargos:
    • “Disciplina Final da Cidade”
    • “Disciplina do Estado”
    • “Disciplina dos Estados e Países”
    • “Jet da Unidade” e “Jet do Estado” (em presídios)
  5. Suposta estrutura corporativa paralela:
    • Financeiro
    • Sintonia do Cadastro
    • Salveiro
    • Sintonia do Progresso
    • Sintonia dos Gravatas (advogados)
    • Resumo e Sintonia Final como instâncias superiores de comando
📌 VERIFICAÇÃO DOS DADOS SEGUNDO OUTRAS FONTES (acadêmicas, jornalísticas e judiciais)
Confirmado e amplamente documentado
ElementoVerificação externa
Disciplinas como força de controle e execução da ordem interna do PCCSim. Documentado em fontes como Ministério da Justiça, artigos da revista Piauí, livros como Irmãos: Uma História do PCC de Gabriel Feltran, além de diversas sentenças judiciais.
Atuação nas comunidades e presídiosSim. Presentes na periferia, controlam condutas, intermediam conflitos, fiscalizam biqueiras e têm autoridade disciplinar dentro das unidades prisionais.
Aplicação de regras internas e “Dicionário”Sim. O Regime Disciplinar interno é citado em investigações da Polícia Federal, inclusive em documentos do MP-SP.
Divisão entre Disciplinas das Ruas (Quebradas) e dos Presídios (Jets)Sim. Essa distinção é reconhecida e descrita em relatórios policiais e entrevistas de membros da facção.
⚠️ Presentes no texto, mas com pouca ou nenhuma documentação pública (sem confirmação direta)
ElementoComentário
Estrutura tipo “departamentos” (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas)A facção tem divisão funcional interna, mas o uso sistemático desses nomes em fontes públicas é raro. O termo “Sintonia” aparece em grampos e entrevistas, mas não necessariamente como departamentos formais.
“Salveiro” como cargo“Salve” é amplamente citado como mensagem normativa interna, mas “Salveiro” como função específica é pouco documentado. Pode derivar do vocabulário da própria facção.
“Resumo” e “Sintonia Final” como instâncias de administração centralNão aparece em fontes acadêmicas ou jurídicas públicas com essa nomenclatura. “Resumo” é um termo mais informal ou interno à gíria prisional, e “Sintonia Final” pode ser uma invenção interna ou simbólica.
🔍 SOBRE A CRACOLÂNDIA

O relato específico com o usuário “M.” e o Capitão Renato aparece em seu texto e no site do PCC 1533, mas não está presente em fontes acadêmicas, jornalísticas nem judiciais verificadas. No entanto, estudos como os de Deborah Rio Fromm Tinta, Gabriel Feltran e Bruno Paes Manso apontam sim para a presença dos Disciplinas na Cracolândia com papel informal de mediação e controle.

📘 CONCLUSÃO

Seu texto apresenta um retrato altamente coerente com a estrutura prática e hierárquica documentada do PCC, sobretudo no que tange:

  • Ao papel dos Disciplinas nas ruas e nos presídios,
  • À função do Regime Disciplinar interno,
  • E à descentralização funcional por regiões e temas.

No entanto, os termos mais institucionalizados como Salveiro, Resumo ou Sintonia Final parecem refletir:

  • Um vocabulário interno não amplamente difundido,
  • Ou uma interpretação mais analítica e administrativa sobre o funcionamento da facção.

Esses termos podem ser úteis para descrição, mas devem ser apresentados com a ressalva de que não aparecem formalmente em fontes públicas externas, sendo mais apropriados para análise interpretativa do que para afirmação factual direta.


Análise sob o ponto de vista da Teoria do Comportamento Criminoso

A análise do texto à luz da Teoria do Comportamento Criminoso, com foco nas principais escolas interpretativas da criminologia e como elas se aplicam — direta ou indiretamente — à construção narrativa e descritiva dos “Disciplinas do PCC 1533”.

🔎 Referencial: O que é a Teoria do Comportamento Criminoso?

A teoria do comportamento criminoso é um conjunto de explicações sobre por que indivíduos cometem crimes, com ênfases distintas a depender da escola teórica. As principais abordagens incluem:

  • Teorias sociológicas (ex.: Teoria da Associação Diferencial, Desorganização Social, Subcultura Criminal);
  • Teorias psicológicas (ex.: Controle Social, Personalidade Antissocial);
  • Teorias biológicas ou evolucionistas (ex.: predisposições neurológicas);
  • Teorias críticas (ex.: criminologia marxista, rotulagem social, criminologia cultural).

No texto, há forte alinhamento com teorias sociológicas críticas, em especial com a Teoria da Associação Diferencial, a Teoria da Subcultura e a Abordagem do Controle Social Informal.

🧠 1. Teoria da Associação Diferencial (Edwin Sutherland)

Resumo da teoria: o comportamento criminoso é aprendido por meio da interação com outras pessoas que já participam de práticas criminosas. A aprendizagem envolve técnicas, motivações, justificações e atitudes.

Aplicação no texto:

“Os Disciplinas recebem as informações dos Salveiros e atuam segundo as diretrizes da Sintonia da Comunidade para manter a ordem entre os integrantes da facção.”

“Eles cobram civilidade de usuários e traficantes locais, garantindo um verniz de paz…”

Demonstrando que os Disciplinas aprendem sua função dentro da organização e passam a replicá-la com base nas diretrizes normativas internas (salves, Dicionário, condutas). Isso é a própria essência da teoria de Sutherland: o crime não nasce da patologia, mas da aprendizagem por contato com grupos nos quais ele é a norma.

A existência de “códigos de conduta” e normas específicas no universo do PCC reflete o processo de socialização criminal contínuo.

🧱 2. Teoria da Subcultura Criminal (Albert Cohen, Cloward & Ohlin)

Resumo da teoria: em ambientes onde o acesso ao sucesso social legítimo é limitado, surgem subculturas com valores alternativos, muitas vezes em oposição aos da sociedade dominante.

Aplicação no texto:

“Em determinadas comunidades, a proteção e a paz não são garantidas pelo governo, mas sim pelos Disciplinas do Primeiro Comando da Capital.”

“A opressão do sistema é substituída por uma força mais sombria, que não hesita em mutilar e matar.”

Você aponta para a formação de um sistema de justiça e ordem paralelos, com valores próprios e uma hierarquia distinta, criada onde o Estado fracassou. A facção PCC, especialmente por meio dos Disciplinas, atua como força normativa subcultural — impõe leis, distribui sanções, resolve disputas e regula a conduta de seus membros e da comunidade.

Isso corresponde exatamente ao modelo da teoria da subcultura: o crime não é apenas reação à exclusão, mas também forma de organização social coerente, dentro de uma lógica alternativa à dominante.

⛓ 3. Teoria do Controle Social (Travis Hirschi)

Resumo da teoria: o indivíduo com fortes vínculos sociais, familiares ou institucionais tende a evitar o crime. Quando os laços sociais se rompem, o controle sobre o comportamento desvanece.

Aplicação no texto:

“A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local que é completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital.”

O que se observa aqui é que o controle social formal (Estado) foi substituído por um controle informal (facção). O texto sugere que o crime organizado surge como mecanismo substitutivo de ordem, mantendo o controle dos comportamentos através de laços não estatais — o que evidencia a ideia de que não é a ausência de controle que leva ao crime, mas sim a transferência da fonte de controle.

🕯 4. Teoria da Rotulagem (Howard Becker)

Resumo da teoria: a sociedade impõe rótulos a determinados indivíduos ou grupos, e esses rótulos contribuem para sua internalização como desviantes.

Possível leitura no texto:

Embora não seja central, essa abordagem pode ser inferida na forma como a figura do “Disciplina” é tratada. O autor não o retrata como bandido irracional, mas como agente funcional de ordem — o que desafia a rotulagem simplificadora do discurso institucional ou midiático.

Essa neutralidade moral evidencia a crítica implícita à rotulagem tradicional, e uma abertura à complexidade das identidades desviantes.

📚 5. Ausência de teorias psicopatológicas ou biologizantes

O texto não recorre a explicações psicologizantes sobre desvios de conduta, nem a conceitos como “personalidade criminosa”, “sociopatia” ou “impulsividade”. Isso demonstra rejeição a abordagens reducionistas, e adesão clara a modelos que privilegiam o contexto social, histórico e político na explicação da criminalidade.

🧩 Conclusão

O texto dialoga com múltiplas escolas da Teoria do Comportamento Criminoso, especialmente:

TeoriaPresente no texto?Comentário
Associação Diferencial✅ ForteAprendizagem da conduta dentro da facção
Subcultura Criminal✅ ForteOrdem e valores alternativos ao Estado
Controle SocialO PCC ocupa o vácuo deixado pelas instituições
Rotulagem⚠️ ModeradaSugestão indireta de complexidade identitária
Teorias psicológicas/biológicasNão presentes, nem evocadas

O artigo assume uma perspectiva sociológica crítica, interpretando o crime como fenômeno estrutural, racional e funcional — e não como aberração, desvio mental ou desvio individual.


Análise Comparativa da Estrutura e Atuação dos “Disciplinas” do PCC: Uma Contraponto entre a Auto-Representação e Fontes Externas

1. Introdução: O Primeiro Comando da Capital e a Centralidade dos “Disciplinas”

O Primeiro Comando da Capital emerge como a maior e mais organizada facção criminosa do Brasil, com uma trajetória que se inicia no sistema prisional de São Paulo em 1993, logo após o trágico Massacre do Carandiru. Originalmente concebido como um grupo de autoproteção para defender os direitos dos detentos e lutar por melhores condições prisionais, o PCC evoluiu significativamente, transformando-se em uma complexa “multinacional do crime”. Atualmente, a organização estende sua influência por dois terços dos estados brasileiros e expandiu suas operações para pelo menos 28 países em quatro continentes. Essa expansão é sustentada por uma estrutura hierárquica bem definida, uma disciplina rigorosa e um modelo operacional que se assemelha ao de uma empresa.

O presente relatório tem como objetivo principal realizar uma análise aprofundada da auto-representação do PCC, especificamente no que tange à função e atuação dos seus “Disciplinas”, conforme detalhado na página faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org. Para tanto, as informações veiculadas por essa fonte interna serão cuidadosamente contrapostas a dados e análises provenientes de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas. Tal abordagem comparativa é crucial para se obter uma compreensão multifacetada da estrutura e do modus operandi da facção. A menção do “1533” no endereço URL do site analisado é um indicativo da própria facção, referindo-se à numeração das letras P, C, C no alfabeto (15ª, 3ª, 3ª letra, respectivamente), um código de identificação comum e reconhecido da organização.

A existência de um site que detalha funções e hierarquia da facção sugere um esforço deliberado do PCC em formalizar e, de certa forma, legitimar sua estrutura, tanto para seus membros quanto para o público externo. Essa iniciativa vai além de uma simples comunicação interna, indicando uma tentativa de construir uma narrativa organizacional. Ao criar uma plataforma online com informações detalhadas sobre seus “Disciplinas”, a facção demonstra uma evolução em sua estratégia de comunicação e auto-representação. Não se trata apenas de um grupo criminoso operando nas sombras, mas de uma organização que busca projetar uma imagem de estrutura, ordem e até mesmo de “orgulho na disciplina”. Este ato de “publicação” online, mesmo que em um domínio próprio e não oficial, aponta para um grau de sofisticação e uma intenção de controlar a narrativa sobre si mesma. Essa postura sugere uma tentativa de legitimar sua atuação perante seus membros e, potencialmente, perante as comunidades que controla, posicionando-se como uma entidade organizada e funcional, em contraste com a desordem frequentemente associada ao crime.

2. A Perspectiva Interna: Os “Disciplinas” Segundo o Site do PCC

O artigo publicado no site faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org oferece uma visão detalhada da função e atuação dos “Disciplinas do PCC 1533” dentro da hierarquia do Primeiro Comando da Capital. A narrativa interna os retrata como a “força unificadora” da facção, com os integrantes demonstrando um “orgulho na disciplina rígida”. O texto também aponta para o desafio de identificar os verdadeiros representantes da hierarquia da facção nas periferias e no submundo do crime, apesar de seu papel central. Os “Disciplinas” são descritos como a personificação de um “controle estrutural similar às estruturas administrativas de grandes empresas legais”, embora a facção evite o uso de termos como “departamento” ou “setor”.

O site detalha as principais áreas de atuação e cargos específicos dentro da estrutura interna do PCC:

  • Financeiro: Responsável pelo controle do recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.12
  • Sintonia do Cadastro: Administra o ingresso e mantém o registro cadastral dos membros “batizados”, incluindo nomes, locais e padrinhos.12
  • Salveiro: Encarregado de transmitir as atualizações das regras estabelecidas pela cúpula para toda a base operacional, com comunicações estritamente internas.12
  • Sintonia do Progresso: Executa missões especiais e tarefas cotidianas.12
  • Sintonia dos Gravatas: Composta pelos advogados da facção.12

Além dessas áreas, existem cargos específicos de gerenciamento, denominados “Resumos”, como o “Resumo Geral dos Estados e Países” ou “Resumo Geral do Estado”. Esses “Resumos” podem atuar também em locais específicos, como “Geral das Trancas do Estado” ou “Geral das Trancas da Unidade Prisional”.12

A estrutura de comando e comunicação é centralizada no “Conselho de Administração” da organização, conhecido como “Sintonia Final”. Os “Disciplinas” recebem informações dos Salveiros e operam sob as diretrizes da “Sintonia da Comunidade” para manter a ordem entre os integrantes da facção. A “Sintonia Final” é responsável por comunicar periodicamente as alterações necessárias ao Estatuto da organização.

O site também descreve a atuação dos “Disciplinas” em contextos urbanos complexos, como a Cracolândia. A pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta é citada como testemunha direta do papel dos “Disciplinas” na região, onde diversos conflitos foram resolvidos graças à sua intervenção. Márcio Américo, humorista e antigo frequentador da Cracolândia, reforça essa percepção, afirmando que a polícia e a prefeitura apenas simulam controle do local, que seria completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital. Deborah Rio teria acompanhado pessoalmente as operações dos “Disciplinas”, observando suas negociações com traficantes, usuários, jornalistas, policiais e autoridades governamentais. Esses homens são apresentados como a “espinha dorsal da facção”, presentes em ruas, “biqueiras”, presídios e outras áreas de atuação.12

As responsabilidades dos “Disciplinas” incluem a aplicação do “Dicionário do PCC”, que determina o Regime Disciplinar, e a emissão de “salves”, que são alterações temporárias ou locais nas regras gerais. Um episódio relatado por Deborah descreve a intervenção discreta de um “Disciplina” que acalmou um usuário exaltado na Cracolândia, demonstrando o respeito e a autoridade que esses indivíduos possuem.

Em termos de função social e política, o site afirma que os “Disciplinas” mantêm a ordem em territórios sob controle do PCC, exigindo comportamento civilizado de usuários e traficantes locais, o que, por sua vez, minimiza a presença ostensiva da polícia. Essa atuação política permitiria aos “Disciplinas” negociar diretamente com comunidades e autoridades. O site conclui que, em diversas comunidades, a segurança e a paz são garantidas pelos próprios “Disciplinas”, e não pelo Estado. Embora isso possa resultar na redução de homicídios e crimes menores, a violência institucional é substituída por uma “força mais sombria e implacável”.

A divisão e hierarquia dos “Disciplinas” são apresentadas da seguinte forma:

  • Nos Presídios (Disciplinas das Trancas): Conhecidos como “jets”, operam dentro das unidades prisionais, com cargos específicos como “Jet da Unidade” ou “Jet do Estado”.12
  • Nas Ruas (Disciplinas das Quebradas): Atuam em “biqueiras” e bairros. Pode haver diversos “Disciplinas” em uma cidade, com um se destacando como “Disciplina Final da Cidade”. Existem também os “Disciplinas do Estado”, responsáveis por resolver conflitos graves, e os “Disciplinas dos Estados e Países”, enviados para zonas de conflito ou para mediar disputas locais.

A descrição do PCC como uma organização com “controle estrutural similar a corporações” não é meramente uma metáfora; ela reflete uma estratégia consciente da facção para projetar eficiência e profissionalismo. Essa projeção pode aumentar sua capacidade de recrutamento, negociação e, paradoxalmente, sua legitimidade em certas esferas de atuação. Ao utilizar termos como “Financeiro”, “Cadastro”, “Progresso” e “Gravatas”, o site do PCC mimetiza a linguagem empresarial. Essa escolha de vocabulário não é acidental; ela serve para construir uma imagem de organização eficiente e profissional. Em um ambiente criminoso, essa percepção de profissionalismo pode ser um diferencial competitivo, atraindo novos membros que buscam estrutura e “carreira”, e facilitando a interação com outros atores (legais ou ilegais) que valorizam a previsibilidade e a capacidade de entrega, mesmo que ilícita. A “aparência corporativa” é, portanto, uma ferramenta de poder e estabilidade para a facção.

A atuação dos “Disciplinas” na Cracolândia, “garantindo segurança e paz” e “negociando com comunidades e autoridades”, revela uma estratégia de ocupação de vazios estatais. Essa “função social” não é altruísta, mas um meio de consolidar o controle territorial e social, tornando a facção uma autoridade de fato e minimizando a intervenção policial. O site descreve os “Disciplinas” como mantenedores da ordem em territórios controlados pelo PCC, minimizando a presença policial e até negociando com autoridades.12 Isso não constitui um serviço público; é uma forma de estabelecer um “governo paralelo”. Ao prover “segurança” e “paz” onde o Estado é ausente ou ineficaz, o PCC cria uma dependência da comunidade em relação à facção. Essa “função social” é, na verdade, uma tática para solidificar seu domínio, obter informações e lealdade, e operar seus negócios ilícitos com menos interferência, transformando a ausência do Estado em uma oportunidade para expandir seu poder e controle.

3. Análise Comparativa: “Disciplinas” do PCC em Contraponto com Fontes Externas
3.1. Estrutura e Nomenclatura: Convergências e Divergências

A análise de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas revela uma notável convergência com a auto-descrição do PCC em relação à sua estrutura e à função dos “Disciplinas”. Há uma confirmação ampla da existência de uma hierarquia clara e uma organização baseada em “sintonias” dentro da facção. O PCC é consistentemente descrito como uma “organização de poder de forma piramidal” com divisões em “células que compõem os diversos setores em sintonias”. A tese de Marília Furukawa detalha que as “sintonias” são células responsáveis por diferentes assuntos, operando tanto em presídios quanto em bairros de cidades brasileiras, e que são interconectadas em níveis regional, estadual, nacional e internacional.

Em relação à formalidade e ao uso de termos específicos apresentados no site do PCC, as fontes externas fornecem validação significativa:

  • “Sintonia Final” / “Sintonia Final Cúpula”: O site e a tese de Furukawa referem-se à “Sintonia Final” como o conselho de administração ou instância máxima. O Grupo de Atuação Especial e de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo confirma a existência de uma “Sintonia Final Cúpula” que substituiu a “Sintonia Final Geral”. Esta cúpula é responsável por estratégias e finanças, especialmente após a transferência de líderes para presídios federais, corroborando a existência e a centralidade dessa instância decisória.
  • “Salveiro”: O site descreve o “Salveiro” como responsável por transmitir regras. Pesquisas da UFMG corroboram a função do “Salveiro” em teleconferências (“R”), onde ele “puxa a R” (listando presença e nominando membros e sintonias) e encaminha as falas para diversas instâncias (Geral do Estado, Geral do Sistema, Comarca, financeiro, disciplinar). Isso valida a existência do cargo e sua função crucial na comunicação interna.
  • “Resumo”: O site menciona “Resumos” como cargos de gerenciamento. Embora o termo “Resumo” possa parecer mais informal ou interno, o GAECO/MP-SP aponta a “Sintonia dos 14” como sendo formada pelo “Resumo do Quadro dos 14 (Pé Quebrado)”, que atua em conjunto com a “Sintonia Final da Rua” para coordenar julgamentos e sanções. Isso indica que “Resumo” é, de fato, uma nomenclatura interna para posições de liderança e coordenação.
  • “Departamentos” (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas): O site lista essas áreas. Fontes externas confirmam a existência de “Sintonia Financeira”, “Sintonia do Cadastro” (ou “Sintonia Geral do Livro”), “Sintonia do Progresso” (ou “Sintonia Geral do Progresso”) e “Sintonia dos Gravatas” (ou “Sintonia Geral dos Gravatas”). A diferença reside mais na formalidade do nome (“departamento” versus “sintonia”) e na inclusão do termo “Geral” em algumas descrições externas, mas as funções são amplamente corroboradas.

A consistência entre a auto-descrição do PCC e as evidências externas sobre sua estrutura e termos é notável. Relatórios de inteligência e pesquisas acadêmicas validam muitos dos termos específicos que poderiam ser inicialmente considerados com “pouca ou nenhuma documentação pública”. Isso sugere que o vocabulário interno do PCC é mais consistente e formalizado do que se poderia inferir apenas pela ausência em fontes “públicas” mais antigas. A validação desses termos específicos do site por fontes externas de alta credibilidade (Ministério Público, universidades) reforça a precisão da auto-descrição do PCC e a profundidade da sua formalização interna.

A capacidade do PCC de se adaptar é evidente na revelação do GAECO/MP-SP de que a facção passou por uma reestruturação e instaurou um “novo organograma” após a transferência de membros da cúpula para presídios federais. Isso demonstra a resiliência da facção frente a pressões externas e a formalização contínua de sua estrutura. O conceito de “chefia sem mando” pode parecer contraditório com uma “estrutura piramidal” e “hierarquia clara”. No entanto, a informação de que a “Sintonia Final” é composta por “oito líderes experientes” e que a organização se reestrutura após a transferência de líderes elucida essa aparente contradição. Isso sugere que a “chefia sem mando” não significa ausência de liderança, mas sim uma liderança coletiva e distribuída na cúpula, onde a “Sintonia Final” atua como um conselho. Essa estrutura descentralizada no topo, mas com funções bem definidas abaixo, torna o PCC mais resiliente a prisões de indivíduos e garante a continuidade das operações, pois o “setor” ou a “sintonia” é mais importante que o indivíduo que o ocupa.

A complexidade da estrutura do PCC, com suas múltiplas “sintonias” e cargos, e a variação na nomenclatura entre a auto-descrição da facção e as investigações externas, tornam uma tabela comparativa uma ferramenta essencial. Ela permite uma rápida absorção da densidade de informações e a identificação de padrões de validação ou discrepância.

Tabela 1: Comparativo de Termos e Funções na Estrutura do PCC (Site vs. Fontes Externas)

Termo/Função (Site PCC)Descrição (Site PCC)Corroboração/Variação (Fontes Externas)
DisciplinasForça unificadora, orgulho na disciplina rígida, controle estrutural similar a corporações.Força de controle e execução da ordem interna do PCC, atuam em comunidades e presídios, aplicam regras internas.
FinanceiroControla recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.Sintonia Financeira: Oferece suporte monetário e é responsável por outros departamentos.
Sintonia do CadastroAdministra ingresso e registro cadastral de membros (“batizados”).Sintonia do Cadastro / Sintonia Geral do Livro: Cuida dos registros de novos participantes, excluídos e relatórios de punição.
SalveiroTransmite atualizações de regras da cúpula para a base operacional.Função de “puxar a R” (teleconferências), listando presença e encaminhando falas para diversas instâncias.
Sintonia do ProgressoExecuta missões especiais e tarefas cotidianas.Sintonia do Progresso / Sintonia Geral do Progresso: Cuida da gestão do tráfico de drogas.
Sintonia dos GravatasConstituída pelos advogados da facção.Sintonia dos Gravatas / Sintonia Geral dos Gravatas: Contrata e paga advogados.
ResumoCargos específicos de gerenciamento (e.g., “Resumo Geral dos Estados e Países”).Resumo do Quadro dos 14 (Pé Quebrado): Atua com a “Sintonia Final da Rua” para coordenar julgamentos e sanções.
Sintonia FinalConselho de Administração da organização criminosa.Sintonia Final / Sintonia Geral Final / Sintonia Final Cúpula: Instância máxima, responsável por decisões estratégicas e financeiras.
Disciplinas das Trancas (Jets)Operam dentro das unidades prisionais.Se impõem como instância reguladora e mediadora das relações sociais na prisão, participam da gestão prisional.
Disciplinas das QuebradasAtuam em biqueiras e bairros.Atuação em comunidades e papel informal de mediação e controle, especialmente em áreas como a Cracolândia.
3.2. O Papel dos “Disciplinas” na Governança Informal e Mediação de Conflitos

A atuação dos “Disciplinas” em territórios específicos, como a Cracolândia, e dentro do sistema prisional, é amplamente corroborada por investigações e pesquisas etnográficas. A presença e o papel dos “Disciplinas” em áreas como a Cracolândia são confirmados por estudos de pesquisadores como Deborah Rio Fromm Tinta, Gabriel Feltran e Bruno Paes Manso. Relatos investigativos do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também confirmam a atuação organizada do PCC na Cracolândia, incluindo vigilância policial e operações de lavagem de dinheiro. Além disso, o PCC impõe-se como uma “instância reguladora e mediadora das relações sociais na prisão”, exercendo o papel de árbitro e determinando decisões em diversas formas de conflitos sociais, além de participar direta ou indiretamente da gestão das unidades prisionais. Isso valida o papel dos “Disciplinas das Trancas”.

A “função social e política” descrita pelo site do PCC encontra eco em análises acadêmicas. Gabriel Feltran, em sua etnografia, cunha o conceito de “Crime que produz governo, governo que produz crime”, que se alinha perfeitamente com a descrição do site sobre os “Disciplinas” garantindo ordem e segurança onde o Estado é ausente. Isso sugere uma governança informal que preenche lacunas estatais, embora com métodos coercitivos. A atuação do PCC na Cracolândia e em outras comunidades demonstra uma capacidade de exercer controle social e econômico, com o site afirmando que a segurança e a paz são garantidas pela própria facção.

A atuação dos “Disciplinas” na mediação de conflitos e manutenção da ordem transcende a mera atividade criminosa, configurando-os como um “Estado paralelo” em territórios específicos. Essa “legitimidade” é construída não pela legalidade, mas pela eficácia na resolução de problemas e na imposição de uma ordem, mesmo que baseada na violência implícita ou explícita. O site do PCC descreve os “Disciplinas” como garantidores de “segurança e paz” em comunidades, onde a polícia “apenas finge ter controle”. Essa afirmação é corroborada por Feltran ao falar de “crime que produz governo”. Isso sugere que o PCC não é apenas uma organização criminosa que explora o vácuo estatal, mas que ativamente cria e mantém uma forma de governança em certas áreas. A “legitimidade” dos “Disciplinas”, nesse contexto, deriva de sua capacidade de impor regras, resolver disputas e oferecer uma forma de ordem, mesmo que coercitiva. Essa é uma “legitimidade coercitiva” que se estabelece pela força e pela capacidade de entrega de “serviços” (como a segurança) onde o Estado falha, transformando-os em uma autoridade de fato para a população local.

A capacidade dos “Disciplinas” de intervir e manter a ordem na Cracolândia está intrinsecamente ligada ao controle econômico da facção sobre o tráfico de drogas na região. Informações indicam a venda de grandes quantidades de drogas e a cobrança por pontos. Isso demonstra que a “função social” é um subproduto da exploração econômica do crime. O site e as pesquisas descrevem a atuação dos “Disciplinas” na Cracolândia, com o site focando na resolução de conflitos e manutenção da ordem. No entanto, o domínio da Cracolândia pelo PCC, com a venda de 19 kg de droga por dia e a cobrança de R$ 80 mil por ponto, estabelece uma clara relação de causa e efeito. A capacidade dos “Disciplinas” de impor ordem e mediar conflitos (sua “função social”) é diretamente sustentada pelo controle econômico e pela lucratividade do tráfico de drogas na região. A “paz” e a “segurança” oferecidas são, na verdade, mecanismos para otimizar o ambiente para os negócios ilícitos, minimizando a interferência externa e maximizando os lucros, demonstrando que a governança informal está a serviço da economia do crime.

3.3. Disciplina, Estatuto e Comunicação: A Coesão Interna do PCC

O rigor da disciplina interna e a existência de um código de ética são pilares fundamentais da organização do PCC, conforme descrito tanto pelo site quanto por fontes externas. O site afirma que os “Disciplinas” aplicam o “Dicionário do PCC” e emitem “salves”. Fontes acadêmicas confirmam a “rigorosa disciplina interna”, a existência de um “código de ética interno” ou “Estatuto”, e a importância dos “salves” como comunicados internos. O Estatuto estabelece lealdade, respeito, igualdade e justiça como princípios fundamentais, com punições severas para quem causa divisão ou desrespeita a hierarquia. A evolução dentro da facção por mérito e dedicação é valorizada.

A comunicação é um elemento vital para a coesão do PCC. O site menciona que os “Disciplinas” recebem informações dos “Salveiros” e atuam segundo diretrizes. A tese de Furukawa destaca a comunicação como “essencial para o PCC”, utilizada para criar conhecimento, estimular relacionamentos e construir a “realidade organizacional”. A entrada de celulares nas prisões facilitou a articulação entre detentos e pessoas em liberdade. Os “salves” partem majoritariamente das “torres”, que são posições políticas ocupadas por membros com longa trajetória e experiência no sistema prisional. A “falta de personificação” nos “salves” é intencional para evitar penalidades jurídicas e reforçar a ideia de “chefia sem mando”, onde a mensagem vem de uma entidade e não de uma pessoa física superior. A ideologia de que “o crime fortalece o crime” é constantemente repetida nos “salves” e é um princípio central da organização.

A “disciplina rígida” e o “código de ética” não são apenas regras, mas elementos que constroem um “capital social” interno para o PCC. A analogia com uma “igreja do crime” e a ênfase na “lealdade” e “mérito” indicam que a disciplina é um mecanismo de controle ideológico que transcende a mera coerção, fomentando um senso de pertencimento e propósito, o que é crucial para a coesão de uma organização criminosa tão vasta. O site fala em “orgulho na disciplina rígida”, e uma fonte descreve a ética do PCC como uma “igreja do crime”. Essa linguagem sugere que a disciplina vai muito além de um conjunto de regras a serem seguidas; ela é internalizada e se torna parte da identidade dos membros. Ao criar um “código de ética” e um “Dicionário do PCC” que define o “proceder”, a facção constrói um sistema de valores e normas que funciona como um capital social interno. Esse capital social, baseado na lealdade e no mérito, reduz a necessidade de vigilância constante e aumenta a autodisciplina e a coesão do grupo. A disciplina, portanto, é um mecanismo de controle ideológico que garante a estabilidade e a perpetuação da organização, transformando a obediência em um valor intrínseco.

A descrição detalhada do papel do “Salveiro” e a natureza dos “salves” como mensagens padronizadas e despersonalizadas revelam uma sofisticada estratégia de comunicação. Essa formalização permite que a organização mantenha a coesão e transmita diretrizes de forma eficiente em uma estrutura vasta e descentralizada, garantindo que a “chefia sem mando” não resulte em anarquia, mas em uma governança distribuída e responsiva. O site e uma fonte detalham a função do “Salveiro” na transmissão de “salves”. Outra fonte explica que os “salves” são despersonalizados e partem das “torres”, reforçando a “chefia sem mando”. Essa formalização da comunicação, com protocolos claros para teleconferências (“R”) e a padronização das mensagens, é crucial para uma organização que opera em múltiplos estados e países. Em vez de depender de um líder carismático para transmitir ordens, o PCC desenvolveu um sistema que permite a difusão eficiente de diretrizes e a manutenção da disciplina em uma estrutura altamente descentralizada. Isso garante que, mesmo com a prisão de líderes, a organização possa continuar operando de forma coesa, pois a comunicação é institucionalizada, não pessoalizada.

A origem prisional do PCC e a observação de que o “maior perigo da facção é sua origem prisional, que facilita a disseminação de sua ideologia e estrutura rígida” (Promotor Lincoln Gakiya) revelam uma relação simbiótica entre o PCC e o sistema carcerário. As prisões não são apenas locais de confinamento, mas “universidades do crime” onde a ideologia, disciplina e estrutura organizacional dos “Disciplinas” são replicadas e disseminadas, permitindo a expansão nacional e internacional da facção. O sistema carcerário brasileiro, em vez de ressocializar, atua como um catalisador e multiplicador da estrutura do PCC. Dentro das prisões, a facção pode recrutar, doutrinar e treinar novos membros nas suas regras e hierarquia. A disciplina interna e o “Dicionário do PCC” são aperfeiçoados nesse ambiente fechado e depois exportados para as ruas e para outros países. Assim, a prisão se torna um laboratório e um centro de treinamento para os “Disciplinas”, garantindo a replicação do modelo organizacional e a perpetuação da facção, transformando a falha do Estado em um ativo estratégico para o crime organizado.

4. Conclusões e Implicações

A análise comparativa entre a auto-descrição do PCC em seu site e as informações provenientes de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas revela um alto grau de precisão e coerência na representação da estrutura e atuação dos “Disciplinas”. O site do PCC apresenta um retrato notavelmente detalhado e, em grande parte, alinhado com a estrutura prática e hierárquica documentada da facção. Termos como “Sintonia Final”, “Salveiro”, “Resumo” e as divisões funcionais (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas) são corroborados, embora por vezes com nomenclaturas ligeiramente distintas ou mais formalizadas em relatórios de inteligência. A atuação dos “Disciplinas” na manutenção da ordem, mediação de conflitos e governança informal em territórios como a Cracolândia é amplamente confirmada por pesquisas etnográficas.12 A disciplina interna, o estatuto e a comunicação estratégica via “salves” são elementos centrais e bem documentados da coesão do PCC.

A proximidade entre a auto-descrição do PCC e as análises externas sugere que a facção possui uma estrutura interna altamente formalizada e uma narrativa própria bem desenvolvida. As fontes externas, especialmente relatórios de inteligência e pesquisas etnográficas, oferecem validação e aprofundamento, muitas vezes revelando as implicações mais amplas (sociais, econômicas, políticas) da atuação dos “Disciplinas” que a narrativa interna não aborda explicitamente.

A capacidade do PCC de reestruturar-se e expandir-se globalmente, mantendo sua disciplina e hierarquia, demonstra sua notável adaptabilidade e resiliência. Os “Disciplinas” são a espinha dorsal dessa organização, atuando como executores da ordem interna, mediadores de conflitos e agentes de expansão, consolidando o poder da facção tanto dentro quanto fora do sistema prisional. A infiltração do PCC na economia formal e sua atuação como “Estado paralelo” representam um desafio complexo para as autoridades, exigindo uma compreensão aprofundada de sua estrutura e dinâmica.

A consistência entre a auto-descrição do PCC e as evidências externas sobre sua estrutura e termos, aliada à sua capacidade de reestruturação e expansão transnacional, posiciona o PCC não apenas como uma organização criminosa, mas como um modelo de “empresa criminal adaptativa”. Isso implica que as estratégias de combate devem ir além da repressão pontual, focando na desarticulação de sua governança interna e de suas redes financeiras e ideológicas. A facção se comporta como uma “empresa” no sentido de ser eficiente, resiliente e capaz de inovar em suas operações e governança. A implicação é que o combate a essa organização exige uma abordagem multifacetada que não apenas ataque suas atividades ilícitas, mas também desmonte sua estrutura de governança interna, seus mecanismos de comunicação e sua base ideológica, reconhecendo-o como uma entidade em constante evolução e adaptação.

A “paz” e a “segurança” que os “Disciplinas” supostamente garantem são intrinsecamente ligadas a uma “força mais sombria e implacável”. Essa dualidade da ordem imposta pela violência é uma implicação crítica para a compreensão da dinâmica do crime organizado no Brasil, onde a ausência do Estado é preenchida por uma governança paralela que, embora possa reduzir certos tipos de crimes, impõe sua própria forma de controle e exploração. O site do PCC afirma que os “Disciplinas” garantem “segurança e paz” em comunidades, mas imediatamente ressalta que isso substitui a violência estatal por uma “força mais sombria e implacável”. Isso revela uma dualidade fundamental na atuação do PCC: a “ordem” que ele impõe é inseparável da violência subjacente. A capacidade de mediar conflitos e de ser uma “instância alternativa de resolução de conflitos” é sustentada pela ameaça de sanções severas, incluindo a morte. A implicação é que a “paz” oferecida pelo PCC é uma “pax mafiosa”, uma ordem imposta pelo monopólio da violência e pela exploração, e não pela justiça ou pelo bem-estar social. Compreender essa dualidade é crucial para as políticas públicas, pois a simples ausência de crimes visíveis não significa a presença de um ambiente seguro e justo, mas sim a imposição de um regime de controle criminoso.

Primeiro Comando da Capital eleito pelos não eleitos

O Primeiro Comando da Capital foi eleito pelos não eleitos como força capaz de lutar contra as injustiças do sistema de Justiça.

Primeiro Comando da Capital e o mundo ideal e pacífico

O Primeiro Comando da Capital foi eleito pela parcela dos não “eleitos” para tensionar a ordem considerada por alguns como sendo a ideal e pacífica.

A organização criminosa PCC 1533 conquistou os corações não apenas do mundo do crime, mas de toda uma parte da sociedade alijada de seus direitos.

Enquanto uma parcela da sociedade defende que os “Direitos humanos para os humanos” — de forma a garantir seus direitos enquanto negá-os à outros.

Quando os “direitos humanos” deveriam ser inalienáveis para todos — não apenas para os “eleitos”, se bem que nunca foi em lugar algum.

Gerciel afirma que o mundo não é ideal e e nem pacífico

Gerciel Gerson de Lima, cujo artigo posto abaixo desse texto, lembra que a pena é um instrumento de vingança e castigo — nós só douramos a pílula.

Alguns tem seus corpos apropriados e dominados e pagam pelos seus erros quando condenados, enquanto outros não, estão acima do encarceramento.

Todos vimos poderosos cometendo crimes e sabemos que ficarão impunes, enquanto nas comunidades periféricas pessoas são aprisionados por quase nada.

Os pesquisadores Álvaro e Renato em seu artigo apontam que a criação do Primeiro Comando da Capital só foi possível graças a essa trágica realidade.

Alvaro de Souza Vieira Renato Pires Moreira
Análise de inteligência: das ações ideológicas disciplinares e correcionais promovidas pelo Primeiro Comando da Capital.

Sonhar é preciso, mesmo para os não eleitos

Essa camada alijada por uma parcela de seus direitos e até de seus corpos passaram a sonhar com paz, justiça, liberdade, igualdade e união.

Assim, a facção paulista foi reconhecida como defensora do sonho desses todos que não foram “eleitos” como estando acima do encarceramento.

Alguns julgam serem eles relevantes para a sociedade e justos, enquanto “outros” seriam aqueles que tensionam a ordem social considerada ideal e pacífica.

A organização criminosa PCC 1533 foi eleita por essa parcela dos não eleitos para sim, tensionar a ordem considerada por alguns como ideal e pacífica.

Cartilha de Conscientização da Família da organização criminosa PCC 15.3.3

Os mais abastados raramente são de fato punidos pela lei

Tem sido usual no seio social, a opinião no sentido de concepção da pena como instrumento de vingança e castigo, assim poucos se lembram de que a finalidade da pena é retributiva, preventiva e ressocializante, conforme consta da própria Lei de Execuções Penais, sendo defendida pela maioria dos doutrinadores, é a teoria da finalidade utilitária da pena, daí a necessidade de vinculá-la à coação, na condição de resposta a algo ou a determinado fato.1

Porém, o que não se pode desconsiderar é que a pena, pelo menos no que diz respeito ao direito penal, é um exercício de poder do homem sobre o próprio homem.

Já fizemos breve exposição sobre a pena, baseada em Michel Foucault, no que diz respeito à questão do suplício, que nada mais é do que uma pena na qual a coletividade se “apropria” do corpo do condenado como forma de dominação e repressão a ações contrárias ao status quo estabelecido àquela época.

É incoerente afirmar que a pena será maior ou menor, mais ou menos intensa, de acordo com o contexto histórico em que é definida e aplicada.

A prisão como forma de protejer as elites

Vera Malaguti Batista2  instrui a questão explicando que “na primeira metade do século XIX, a possibilidade de rebeldia começa a assombrar as elites.

Os números de delitos contra a propriedade aumenta desde o final do s éculo XVIII”, haja vista que “as necessidades da burguesia modelaram amplamente as funções de defesa social do direito penal, e mantiveram as antigas diferenciações de classe da legislação penal.

E completa a autora explicando que a prisão se converte na pena mais importante de todas no mundo ocidental.

Essas penas tomaram diversas formas e gradações de acordo com a gravidade do delito e com a posição social do condenado.

Fica de fácil apreensão, neste contexto, que a pena não atinge a todos de forma igualitária, já que, como exposto anteriormente no caso das prisões, os mais abastados raramente sofrem as conseqüências na prática de determinado ilícito e, assim, a pena não cumpre qualquer papel no que diz respeito à restauração da justiça.

Camila Cardoso de Mello Prando3 complementa o assunto lecionando ser praxe entre os historiadores, que o “controle punitivo se desenvolve em consonância às mudanças estruturais relativas ao novo sistema econômico e político capitalista”, completando a discussão ao expor que “o foco principal recai sobre o surgimento das prisões enquanto punição central desta nova forma de controle.”

Até aqui é possível conceber uma ideia básica a respeito da pena, mas também é necessário entender que, aliada à norma, ela tem a finalidade de tutelar os bens jurídicos garantidos pelo Estado.

Juridiquês para justificar o injustificável

Em outras palavras, seu caráter repressor busca impor aos agentes que compõem o tecido social o alerta de que o desvio de conduta nas normas pré-estabelecidas será punido e, dessa forma, tenta evitar o aviltamento dos referidos bens, mas aqui novamente se torna necessário expor a fragilidade de tal conceito, uma vez que a pena não tem caráter erga omnes, pelo menos no que diz respeito à posição social do criminoso.

Todavia, há que se destacar como fator principal deste tópico o caráter de retribuição e ressocialização da pena. Para isso basta uma simples consulta ao Código Penal brasileiro, especificamente em seu artigo 59, para compreender que:

O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime:

I – as penas aplicáveis dentre as cominadas;
II – a quantidade de pena aplicável, dentro dos limites previstos;
III – o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade;
IV – a substituição da pena privativa da liberdade aplicada, por outra espécie de pena, se cabível.

Fonte e Biografia

Este texto é um trecho da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP, do Dr. Gerciel Gerson de Lima, sob orientação da Professora Doutora Ana Lúcia Sabadell da Silva do Núcleo de Estudos de Direitos Fundamentais e da Cidadania em 2009 – SISTEMA PRISIONAL PAULISTA E ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: A PROBLEMÁTICA DO PCC – PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL.

  1. Cf. JAKOBS, Günther; MELIÁ, Manuel Cancio. Direito penal do inimigo: Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p.22.
  2. BATISTA, Vera Malaguti. Difíceis ganhos fáceis. Rio de Janeiro: Renavan, 2003. p.46.
  3. PRANDO, Camila Cardoso de Mello. A contribuição do discurso criminológico latino-americano para compreensão do controle punitivo moderno: controle penal na América Latina. In: Veredas do Direito.  Belo Horizonte: Escola Superior Dom Helder Câmara, jan.-jun. de 2004. p.79.

Pacificação: a paz entre entre ladrões

A paz entre os ladrões foi conquistado pela pacificação do Primeiro Comando da Capital após o massacre do Carandirú.

A Pacificação PCC como gestora da “paz entre ladrões”

Paz entre ladrões é uma missão impossível, apesar de teóricos imaginarem há milênios formas de controlá-los…

Estamos no ano 1993 depois de Cristo. Todo o mundo do crime está em guerra… Todo? Não! Uma Casa de Custódia povoada por irredutíveis sobreviventes do Carandiru ainda resiste ao opressor.

Se considerarmos apenas nossa realidade recente podemos ver duas experiências bastante distintas: a do Regime Militar e os do Período Democrático:

Conheça a Carta do PCC ao Mundo do Crime de 3 de agosto de 2017

Quem poderá trazer a pacificação ao mundo do crime

Ambos os regimes tentaram cada um a seu modo controlar, sem sucesso, a violência nas comunidades dominadas pelo crime.

… o governo, não conhece a realidade das cadeias, o PCC criou raízes em todo o sistema carcerário paulista.

Nas prisões, diretores ultrapassados, da época repressão, tentavam resolver o problema de maneira que em foram doutrinados: porretes, choques, água fria, porrada…

Não foi suficiente. Em menos de três anos, já eram três mil. Em menos de dez anos, 40 mil.

Carlos Amorim

Álvaro e Renato, policiais e pesquisadores, afirmam que foi aí que o a facção PCC 1533 aproveitou a lacuna deixada pelo poder público.

Análise de inteligência: das ações ideológicas disciplinares e correcionais promovidas pelo Primeiro Comando da Capital — Álvaro de Souza Vieira e Renato Pires Moreira

A paz entre ladrões só pode vir de dentro para fora

Aqueles criminosos conheciam e se fizeram ser respeitados nas comunidades em que estavam inseridos: nas carceragens, nas comunidades periféricas e no mundo do crime.

Esses grupos, por milênios, foram excluídos do controle social do Estado, sendo deixados à própria sorte para viverem sob o julgo dos mais fortes.

Nesse meio o Primeiro Comando da Capital assumiu a “gestão da violência”, dentro do conceito aceito do “monopólio do uso da força pelo Estado”.

Gabriel Feltran nos conta que as comunidades periféricas, criminosas ou carcerárias, terminaram se adequando às normas da facção e não colaborando mais com a polícia.

Assim, um modo específico de gestão do uso da violência nas interações entre a polícia e o crime é estabelecido. Não existe agressão física, tampouco troca de tiros ou enfrentamento, mas um conflito ‘contido’ inserido numa esfera de interação discursiva voltada ao alcance de acordos financeiros.

Indaiatuba SP: um exemplo prático da paz entre ladrões

Em 27 de fevereiro de 2012 produzi um dos primeiros artigos onde descrevi a pacificação promovida pelo Primeiro Comando da Capital em uma comunidade periférica:

Edgar Allan Poe ensinava que existia uma forma correta para se açoitar uma criança: devia ser da esquerda para a direita.

O escritor explica a razão:

Todas as pancadas devem ser na mesma direção para lançar para fora os erros, mas cada pancada na direção oposta, soca para dentro os erros.

Talvez ele tenha razão.

Apesar das surras impostas pela sociedade, o tráfico de drogas e o crime se mantêm fortes e robustos.

Passamos pelo Regime Militar e pela Redemocratização e, com lágrimas nos olhos, vejo que não há mais esperança para o problema: falhamos.

Açoitamos a criança em todos os sentidos, e não em uma única direção como Allan Poe orientou.

E em rebento crescido não haverá açoite que possa ser dado pelo sistema policial e jurídico que surta qualquer efeito, o mal feito está feito.

Só nos cabe abaixar a cabeça e apreciar a divisão dos despojos entre os criminosos que se organizaram e se fortaleceram sob nossos próprios açoites.

continua após o mapa…

Diálogo entre ladrões: assim fundiona a paz entre ladrões

Esse diálogo trocado sobre um conflito no Morada do Sol demonstra como a organização criminosa gere os conflitos de maneira natural e com profundo conhecimento:

Edson Rogério França, o “Irmão Cara de Bola”, “Torre” da organização criminosa em Indaiatuba conversa com Willian do bairro Morada do Sol.

Willian Neves dos Santos Vieira, o “Irmão Sinistro”, é soldado da facção criminosa e morador da rua Custódio Cândido Carneiro no bairro:

— O espaço que tem lá na rua 59 é bom, é meu e do Mateus, tá ligado irmão? O irmão Matheus, conhece o Matheus? — pergunta Sinistro.

— Não, não conheci. Você fala o do trailer?

— Não irmão, lá embaixo na 59, lá embaixo, no trailer é o Marcelo, é outro menino, inclusive ele pega mercadoria de ti. — explica Sinistro.

— Não, de mim não. — se defende Cara de Bola.

— O sol brilha para todos, tenho este espaço lá há mais de treze anos. Agora, um menino meu estava precisando de uma força e eu ajeitei um canto para ele fazer a caminhada, e o Cláudio agora está ameaçando matar a mulher dele. Pô, o Cláudio é prá cá, eu sou mais prá lá, pro fundão, sou lá do lado da rua 80 e da rua 78. Já o TG do CECAP é firmeza.

Tribunal do Crime do PCC – o mediador aceito

Eu não conheço o Cláudio, portanto eu não posso afirmar que ele tenha sido açoitado quando criança do lado certo ou errado.

O que sei é que ele também negocia as drogas do Primeiro Comando da Capital e, portanto, deve ter tido as mesmas aulas que os outros criminosos.

Cláudio teve que prestar contas de sua atitude. Ele já estava sem saber em análise por suas atitudes.

Outro dia ele foi mostrar uma pedra de crack para Keiti Luis Von Ah Toyama, o “Irmão Japa”, mas este não gostou, disse que era um pouco melada.

Cláudio explicou que é a mesma que não é a da boa, é da comercial, a mesma que vende em suas lojas:

— Se quer quer, se não quer não quer, é R $10,50 a grama, é pegar ou largar.

Seja como for, as crianças cresceram e aprenderam a brincar sozinhas, agora não adianta mais bater do lado certo e nem reclamar o leite derramado.

Cláudio foi julgado por quem obteve o direito de impor as regras naquele local aproveitando a omissão do Estado.

Conheça o Dicionário do PCC (Regulamento Disciplinar da facção)

A ilusão hipnótica e a facção PCC 1533

A falácia de apontar o Primeiro Comando da Capital como peça fundamental no crime organizado na Região Norte do Brasil.

Alguém, por algum motivo, espalha aos quatro ventos que o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) domina o crime, aterroriza a política, a polícia e a população da região amazônica. Nada é menos real.

Quem ganha com esta desinformação?

Penso que as organizações criminosas que atuam na região se beneficiam com o uso dessa antiquíssima técnica: a ilusão hipnótica.

Chamando a atenção para um ponto de modo a ocultar outro, deixando-o fora do alcance da capacidade sensitiva e liberando-o de vencer as barreiras racionais daquele que deve sofrer o engodo, pois as áreas de seu cérebro que deveriam processar de maneira crítica a informação sobre um ponto acaba por desconsiderá-lo em detrimento de outro.

Essa técnica quando utilizada por uma pessoa se chama hipnose e pode fazer sumir uma moeda ou um mação e fazê-las aparecer em outro ponto. Essa técnica quando utilizada por um grupo se chama política e pode fazer sumir uma etnia ou uma floresta e fazê-las aparecer em outro ponto como dinheiro.

O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles do governo Jair Bolsonaro descreveu essa técnica como “deixar passar a boiada”: enquanto incentivavam e mudavam a legislação para facilitar a exploração ilegal de madeira e minerais na região amazônica chamavam a atenção para a perigosa presença entre os índios yanomâmis do rei da Noruega Harold V ou dos integrantes da facção paulista Primeiro Comando da Capital.

Nem mesmo quando a Polícia Federal apreendeu com 77 Kg de ouro dos garimpos ilegais em terras indígenas o tenente-coronel Marcelo Tasso, o sargento Gildsmar Canuto (ambos da Casa Militar), e alguns soldados da Polícia Militar de São Paulo, poucos meses depois do presidente Jair Bolsonaro haver entregue aos militares paulistas o controle sobre as terras yanomâmis, a imprensa e das redes sociais parecem ter acordado do transe.

Não foram poucas as vezes ao longo da última década que acompanhei os altos e baixos da facção PCC 1533 nos estados do Norte do país, mas a facção nunca chegou a assumir o poder que lhe atribuíram sendo que no artigo “Abandonados, crias do 15 entram em extinção no Acre” faço um apanhado da precária situação dos paulistas por aquelas bandas.

A plataforma de ciência ambiental e conservação Mongabay, em 2021, elaborou um mapa delimitando as áreas de atuação de cada grupo criminoso. No entanto, o projeto de pesquisa denominado “Cartografia da Violência na Amazônia” foi elaborado com dados obtidos nos anos anteriores e refletem a derrocada e o racha da facção Família do Norte (FDN).

Após esse período, parte da facção FDN se consolidou como o Cartel do Norte, que inicialmente se aliou ao PCC e posteriormente tornou-se seu inimigo. O dinamismo das guerras entre as gangues no Norte transformaram o belíssimo trabalho de compilação de dados do projeto Mongabay em um registro de um passado.

No entanto, mesmo esse quadro publicado no artigo Organized crime drives violence and deforestation in the Amazon, study shows captou o efêmero momento no qual Primeiro Comando da Capital esteve em seu ápice, mas mesmo nele podemos notar a insignificância do PCC nessa geleia geral que é a divisão das pelo menos duas dezenas de grupos criminosos nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Rondônia, Roraima, e Tocantins.

Se em tese a Ilusão Hipnótica é a capacidade de usar fortes ilusões para alterar e controlar os comportamentos e ideias dos seus alvos, na prática é apontar para o poder do rei da Noruega ou da facção paulista para desviar a atenção dos grupos paramilitares e militares envolvidos com madeireiros e garimpeiros em terras indígenas.

Um estranho caso no Uruguai

Uma militante uruguaia narra como foi arrastada para o centro de uma guerra entre facções e governos. Sem nunca ter vendido drogas, sobreviveu à tortura, à traição e à repressão. Um grito de desespero por justiça social e dignidade no meio da falência moral do continente.

Em meio a um Uruguai dividido entre facções, Estados e traições, este relato pessoal revela o impacto brutal da guerra por controle das drogas — com menções diretas ao Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Leia e descubra como sobreviver virou resistência numa América Latina esvaziada de utopias.


Público-alvo:
Militantes de esquerda, usuários de drogas, pesquisadores em criminologia, jornalistas, ativistas por políticas de drogas, profissionais da saúde mental e leitores interessados em narrativas reais com crítica social latino-americana.

Se fosse um inimigo que me insultasse, eu o suportaria; se fosse o meu adversário que se levantasse contra mim, dele eu me esconderia. Mas és tu, meu igual, meu companheiro, meu amigo íntimo.

Salmo 55:12-13

Vou contar minha história.

Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles nesses meus trinta e oito fevereiros vividos.

Lido com os códigos da velha escola da consciência de classe. Sou de esquerda e, embora tenha crescido entre bandidos, fui abençoado e muito cuidadoso, e nunca esperei que a traição viesse de um irmão, de um oprimido, pois para mim o inimigo eram os opressores, eram os fascistas.

Nestes últimos dois anos vivi coisas horríveis!

Pela primeira vez sofri a traição daqueles, sendo meus irmãos, cantavam canções revolucionárias comigo, e acredite, dos quais eu nunca teria imaginado sofrer uma traição que quase me matou, mas cuja dor me ceifou minha fé no homem.

Nasci em fevereiro de 1984, não tenho antecedentes criminais, morei em São Paulo, Bahia, Romênia, e muitos outros lugares sem nunca ter traficado. Respeito quem o faça, mas não é meu bastão — amo demais a classe trabalhadora, não poderia agir assim.

Apesar eu mesmo ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.

Eu e muitos outros, militamos pela legalização da maconha no meu país, o Uruguai. Conseguimos. A ideia era, com a legalização haver maior controle sobre o comércio desses produtos.

No final nada disso aconteceu. Como o governo não estatizou ou nacionalizou as empresas, nós apenas regularizamos o mercado para as empresas estrangeiras exportarem nossa produção — passamos a ser vacas de ordenha para sermos sugados por investidores estrangeiros.

Se eu planto, eles roubam, não tem brotos de qualidade na periferia, só prensagem paraguaia, e um bom broto vale tanto quanto cocaína. Tudo para o lucro dos capitalistas dos narcóticos. Entendo agora o porquê, poucos dias depois da legalização, os EUA ameaçaram o presidente José Mujica de congelar as contas bancárias uruguaias em território americano: queriam que a produção não pudesse ser nacionalizada e por isso o Uruguai só regulamentou o comércio.

Nós que militamos pela legalização de nossa produção fomos espancados pela polícia e agora, as empresas estrangeiras podem explorar esse mercado e nos deixar com as migalhas, colhendo os frutos de nossa luta.

No Uruguai a guerra continua! Na periferia, a direita perdeu o mercado de drogas, mas encontrou o caminho perfeito para virar o jogo: usam cavalos de Tróia!

A estratégia é procurar um consumidor ou parceiro de negócios e ao menor deslize ou crime, estes são presos e o preço de sua liberdade é pago com a traição de seus colegas, amigos ou familiares.

Muitos aceitam participar desse novo mercado que antes pertenciam as organizações criminosas argentinas ou a facções brasileiras como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Mais cedo ou mais tarde esses que aceitaram participar desse novo mercado acabam sendo presos por algum motivo e negociam sua liberdade com a condição de se infiltrarem para entregar seus antigos comparsas de facção.

Eu nunca pertenci ao tráfico de drogas, sou apenas um usuário, jornalista, cabeleireiro, e anarquista ligado às lutas sociais. Cresci em um bairro de trabalhadores e estudei no bairro de La Blanqueada. Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda, universitários, ateus, católicos, brasileiros, argentinos, e todo o tipo de gente boa e ruim.

Eu não me importo como cada um escolhe viver sua vida, desde que não seja fascista, nem policial, nem vote na direita, se tem códigos antiquados e a consciência de classe é a única coisa que me interessa.

Há dois anos minha vida se tornou um inferno.

Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros — só voltaria depois de avisar a todos do risco e da família ou os companheiros decidirem que queriam se arriscar.

Se alguém em risco me avisasse, eu correria o risco, mas sem avisar! Cagando para minha segurança e a da minha família, aí não! Isso para mim não é a ética de um bom criminoso — o certo pelo certo!

Há dois anos aluguei de um amigo uma pequena estância, lugar onde eu vendo artesanato com meu pai de coração, um ex-prisioneiro político pelo Partido Comunista da Argentina, um homem que merece o céu, incorruptível.

Eu com esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos, e entoávamos o hino “Violencia es Mentir”! E foi esse amigo quem colocou em risco a vida e a liberdade minha e a de toda a minha família.

Eu havia alugado um quarto em uma fazenda para usarmos para nossa diversão. Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem e, de repente, em uma noite de muita tensão, eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.

Não estávamos só nós dois, haviam outros amigos e eles falavam muito, e descobri que eles roubaram drogas de alguma das facções e para pagar tinham que roubar outro traficante que ia descarregar a mercadoria de uma embarcação.

Eu e minha família não tivemos nada com isso! Eu e minha família fomos colocados por eles na linha de tiro de grupos criminosos poderosos — eu matei, mas morreria por minha família.

Imagine meu avô de 88 anos, seguindo os antigos códigos de conduta, onde se uma chave de fenda é roubada da loja de móveis ele não chamaria a polícia, preferia ele mesmo ir procurar o ladrão e lhe quebrar o joelho. Imagine se ele descobre o roubo da cocaína!

Pequei um dos que estavam metidos nessa enrascada. O derrubei e coloquei seu pescoço debaixo de minha perna. Ele me ameaçou dizendo que era da facção brasileira Comando Vermelho.

A mãe desse CV chamou um amigo dela da polícia, mas para sua surpresa veio a Guardia Republicana criada por Mujica, que me levou para o Comissário de Castillos, onde inventaram uma falsa ordem para abordar minha família — ou eu aceitaria participar do esquema de denúncia ou a ordem seria cumprida.

Foi aí que entendi o que estava acontecendo. Como os negócios se davam entre o Uruguai, a Argentina e o Brasil; e entre os grupos criminosos Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC).

O Primeiro Comando da Capital pelo menos administra muito bem a empresa: dá tranquilidade e não obriga ninguém que não pertence ao mundo do crime de se integrar a facção.

A partir daí minha vida foi um inferno.

As pessoas descobriram ao longo do tempo que ninguém de fato é livre. Todos pagam por sua liberdade às autoridades e às facções. Quiseram me prender de várias maneiras e me silenciar.

Um antigo amigo do papai que há muito não aparecia veio com a desculpa de comer um churrasco, mas depois de um tempo apareceu com uma van que parecia ter sido puxada: com vidros quebrados e com muita droga.

Ele me convidou para participar de um esquema e eu exigi que ele fosse embora. Inconformado com a resposta, ele me sequestrou por dois dias durante o inverno. Enquanto fiquei cativo, minha cabeça era enfiada minha cabeça gelo enquanto me torturava, para no fim, plantar a van na porta da minha casa e me entregar para a Polícia de Azul, denunciando que eu estava com as chaves, sendo que, essas vans são destravadas por um sistema eletrônico!

Um pesadelo sem fim.

Depois de um tempo, apreenderam um caminhão de um paraguaio e eu estaria envolvido; depois foi algo haver com um estuprador que continuava foragido; e assim como essas, outras denúncias apareciam — toda vez que começo a me recuperar, eles invadem minha casa e roubam meus telefones.

Eles esperam que eu cometa um erro ou desista de resistir e negocie como outros fizeram minha paz e liberdade, mas eu prefiro morrer a ser um miserável traidor.

Não é minha guerra!

Eu obviamente prefiro o Primeiro Comando da Capital onde se corre pelo certo, mas meu lugar de militância é no social e não quero me envolver com o crime.

Espero que essa guerra termine e que eu e meus avós, que dedicamos nossas vidas pelo socialismo, não mais sejamos torturados pelo fascismo ou pela guerra por domínio de drogas!

Se eu morrer amanhã, não foi ajuste de contas, pois nada vendi. Não é que sou incorruptível, mas não deram nem o preço, mas meu lugar é na imprensa ou trabalhando com as crianças para tirá-las das mãos dos tiranos que agem com violência e mentira.

somos filhos de trabalhadores viciados em oxi

Se usássemos a mesma energia para encontrar uma dose para fazer a revolução, a realidade da América seria diferente. As utopias de esquerda morreram na periferia, você não sente cheiro de revolução, você só sente cheiro de crack, chumbo, abuso, paramos a exportar ladrões de primeira linha e ao invés de jogadores de futebol, hoje os garotos não jogam mais bola em bairros populares, todos querem ser traficantes, sem importa que envenenar seu colega de classe faz parte.

Traição é pão de cada dia, te vendem por um segundo fogo e nem por 3 gramas. Não há garantias de resistência real para o viciado, não há lugar em clínicas ou prazo inferior a 6 meses em psiquiatria. A droga é cortada cada vez mais, e com uma qualidade cada vez menor.

Só consigo pensar em uma solução, que os Estados de cada país latino nacionalizem o mercado de drogas, eu disse nacionalizar não regulamentar. É a humilde opinião de uma filha de trabalhadores viciada em oxi.


Análise de IA do artigo: “Um Estranho Caso no Uruguai”.

🔍 Dados fáticos e temas centrais

TemaAfirmação
Identidade e trajetóriaNasceu em fevereiro de 1984; morou em São Paulo, Bahia, Romênia e outros locais; não tem antecedentes criminais; é usuário de drogas, jornalista, cabeleireiro e anarquista.
Política de drogas no UruguaiMilitante da legalização da maconha; legalização foi aprovada, mas sem estatização; produção e comércio favorecem empresas estrangeiras.
Ameaças e perseguiçõesRelata sequestro, ameaças de membros do Comando Vermelho, perseguições policiais, invasões domiciliares e repetidas tentativas de envolvê-lo em crimes.
Crítica ao modelo de legalizaçãoA legalização foi moldada de modo a impedir nacionalização da produção; afirma que os EUA teriam ameaçado Mujica com sanções bancárias caso nacionalizasse.
Facções criminosasPCC e CV estariam atuando no Uruguai; o PCC seria mais organizado e respeitoso com quem não pertence ao crime; o CV mais impulsivo e violento.
Sistema de delação e infiltraçãoAfirma que presos são libertos sob a condição de trair antigos companheiros, passando a atuar como informantes infiltrados.
Conflitos pessoaisUm amigo próximo teria roubado drogas, colocando sua vida e a de sua família em risco com organizações criminosas.
Violência estatalDenuncia abusos por parte da Guardia Republicana, com uso de ordens falsas e coação para que aceitasse colaborar como delator.
Crítica social e ideológicaLamenta a falência da utopia socialista nas periferias; diz que jovens estão cada vez mais envolvidos com o tráfico; denuncia hipocrisia de parte da esquerda.
Proposta finalDefende a nacionalização (não apenas regulamentação) do comércio de drogas nos países latino-americanos como solução para romper com o ciclo do crime e da repressão.
📌 Análise de precisão factual (com base no banco de dados e fontes confiáveis):
PontoVerificação e comentários
Legalização da maconha no Uruguai✅ Verdadeiro. Aprovada em 2013 sob o governo Mujica, com modelo de regulação estatal, mas produção foi em grande parte concedida a empresas privadas sob controle rígido. O Estado não estatizou a produção.
Ameaças dos EUA a Mujica⚠️ Parcialmente plausível, mas não confirmada oficialmente. Houve preocupações dos EUA sobre lavagem de dinheiro, e o Uruguai negociou com bancos internacionais, mas não há prova pública de ameaças diretas com congelamento de contas.
Atuação do PCC e CV no Uruguai✅ Há registros de investigações uruguaias e brasileiras apontando atuação esporádica e articulações de grupos brasileiros no cone sul, especialmente em zonas de fronteira. Porém, sua presença não é estrutural como no Brasil ou Paraguai.
Sistema de delação premiada informal⚠️ O Uruguai não possui um sistema amplo de delação premiada como o brasileiro. Acusações de delações forçadas ou uso de informantes não são documentadas em escala sistêmica, embora possam ocorrer pontualmente.
Guardia Republicana criada por Mujica✅ Verdadeiro. A Guarda Republicana é uma força especial da Polícia Nacional uruguaia reforçada durante o governo Mujica para lidar com crimes graves e narcotráfico.
Exploração por empresas estrangeiras após legalização✅ Real. As duas principais empresas inicialmente autorizadas a plantar cannabis para distribuição foram estrangeiras ou com capital estrangeiro. Pequenos produtores criticaram a centralização da produção e as restrições.
Situação de drogas adulteradas e falta de tratamento✅ Estudos e reportagens indicam precariedade na qualidade das drogas vendidas na periferia, aumento de consumo de oxi e crack, e déficit de políticas públicas de saúde mental no cone sul.

O relato possui uma base factual sólida nos seguintes aspectos: contexto político da legalização no Uruguai, presença episódica de facções brasileiras no cone sul, repressão estatal às margens da legalidade, e marginalização dos usuários. Contudo, há trechos que, embora verossímeis e coerentes com dinâmicas conhecidas, carecem de comprovação pública — como o uso sistemático de delatores ou pressões diretas dos EUA sobre Mujica em forma de ameaça bancária.

Trata-se de um testemunho de valor documental, marcado pela vivência subjetiva e leitura crítica de um militante, e não de um texto jurídico ou investigativo. Por isso, suas verdades repousam no campo do vivido e do simbólico, mais que do verificável em fontes oficiais.


Análise do texto sob o prisma da Teoria da Associação Diferencial

📌 1. O comportamento criminoso é aprendido — não herdado biologicamente

Texto: “Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles.”

Análise: O narrador reconhece ter aprendido valores, códigos e posturas através da convivência direta com pessoas do meio criminoso, político e operário. O ambiente social de origem era diverso, e não patologicamente criminoso — mas continha elementos de transgressão política e penal. Esse aprendizado é social, não genético.

📌 2. A aprendizagem ocorre em interações com pessoas próximas

Texto: “Eu e esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos […] e foi esse amigo quem colocou em risco a minha vida e de minha família.”

Análise: A traição vem de dentro da rede de convivência. A teoria prevê que o sujeito é mais vulnerável ao comportamento desviante quando a influência vem de pessoas emocionalmente significativas. A proximidade afetiva foi um vetor de risco.

📌 3. A aprendizagem inclui técnicas e racionalizações do crime

Texto: “Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem […] eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.”

Análise: O narrador demonstra domínio de códigos e estratégias que fazem parte do universo criminal, ainda que negue sua adesão prática a ele. Isso está em linha com a ideia de que se aprende não só a agir, mas a pensar e interpretar o mundo à maneira dos grupos desviantes.

📌 4. O contato com definições favoráveis ou desfavoráveis ao crime determina a inclinação para delinquir

Texto: “Apesar de ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.”

Análise: A convivência com criminosos não levou o narrador a cometer crimes. Isso se explica pela preponderância das “definições desfavoráveis ao crime” no seu arcabouço moral: há um código ético de classe e resistência, que ele valoriza mais do que a adesão ao crime. Sua recusa ativa ao tráfico demonstra que, embora exposto a valores criminosos, ele internalizou outros — ético-revolucionários, por assim dizer.

📌 5. O comportamento criminoso é aprendido como qualquer outro comportamento — pelas mesmas formas de comunicação e experiência

Texto: “Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros.”

Análise: O narrador revela que aprendeu “a ética do crime” da mesma forma que se aprende qualquer valor social: pela observação, convivência, fala e prática. Não se trata de uma simples adesão irracional ao mal, mas da internalização de um código de honra paralelo ao legal.

📌 6. A intensidade, frequência e duração das associações influenciam na aprendizagem

Texto: “Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda…”

Análise: A grande diversidade de contatos indica que o narrador foi amplamente exposto a múltiplas influências ideológicas, criminosas e sociais. Segundo Sutherland, esse tipo de ecossistema pode gerar conflito moral interno, mas também fornece alternativas para escolhas não criminosas, como é o caso.


📌 7. A associação diferencial pode explicar tanto o crime quanto a resistência a ele

Texto: “Prefiro morrer a ser um miserável traidor […] Meu lugar é na imprensa ou trabalhando com crianças.”

Análise: O protagonista, apesar da exposição intensa ao crime, recusa-se a aderir à prática. Isso reforça a ideia de que, embora o ambiente seja um fator determinante, ele não é absoluto: os significados atribuídos a essas experiências e os grupos com os quais o indivíduo mais se identifica moralmente podem moldar sua conduta em outra direção.

Conclusão da análise com base na Teoria da Associação Diferencial

O relato é um exemplo claro da aplicação da teoria de Sutherland. O narrador vive em um meio onde há forte presença de elementos criminais, mas a socialização com ideais éticos da classe trabalhadora, do anarquismo e da militância social atua como um contrapeso às pressões desviantes.

Ele aprendeu os códigos do crime — conhece sua linguagem, estratégias e limites — mas os recusa com base em valores internalizados por outras associações diferenciais, mais morais, mais comunitárias.

Sua trajetória mostra que o crime não é fruto apenas da miséria ou da predisposição pessoal, mas de uma rede de interações, códigos morais e oportunidades simbólicas.


Análise do perfil psicológico do autor

A análise psicológica do autor do texto “Um estranho caso no Uruguai” revela um perfil singular, estruturado por três dimensões centrais: vivência de conflito crônico, rigor moral fora da legalidade institucional e resistência política de base afetiva. Abaixo, apresento essa leitura em quatro blocos: identidade, afetividade, funcionamento psíquico e riscos.

🧠 1. Identidade psicossocial

✓ Identidade combativa e marginal-ética
O autor constrói uma narrativa de vida marcada pela convivência com marginais — “comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores” — mas reafirma que a criminalidade nunca foi seu caminho. Essa dualidade (inserção sem adesão) revela um senso de identidade liminar: ele habita os dois mundos, mas se recusa a ser moldado por nenhum que contradiga seus próprios códigos.

✓ Estrutura identitária vertical e herdada
Sua autoimagem está fincada em um ideal de continuidade intergeracional: “meu avô, meu pai de coração, meus companheiros”. Essa rede não é apenas relacional — é simbólica, substituindo o Estado e a legalidade institucional por uma ética própria. Isso sugere forte internalização de valores comunitários e rebeldes, uma identidade que opera à margem da ordem formal, mas se ancora em vínculos afetivos sólidos.

❤️ 2. Afetividade e códigos emocionais

✓ Raiva moral canalizada como crítica social
Há uma fúria constante no texto — contra o sistema, contra os traidores, contra a falsidade institucional — mas que não se desorganiza. Em vez disso, ela é canalizada para narrativas políticas e denúncias sociais. Isso indica alta elaboração da emoção, mas com traços de amargura profunda e desencanto acumulado.

✓ Traição como núcleo traumático
A traição por parte dos “irmãos” que cantavam canções revolucionárias com ele é descrita com mais intensidade emocional do que as ameaças físicas. Isso revela que sua maior vulnerabilidade psíquica está no rompimento dos vínculos simbólicos, não na dor corporal. O trauma relacional o desestrutura mais que a violência estatal.

✓ Ambivalência afetiva persistente
O autor idealiza o crime “honesto” (o código do criminoso de conduta) ao mesmo tempo que o rejeita. Ele admira o PCC por “correr pelo certo” e despreza o Comando Vermelho por envolvimento desordenado com o Estado. Essa ambivalência emocional mostra que seu sistema ético é construído em oposição tanto à lei quanto ao caos, o que impõe constante tensão interna.

🧩 3. Funcionamento psíquico

✓ Estrutura de pensamento discursiva e política
A escrita é coerente, articulada, com raciocínio encadeado por causa e consequência, mesmo sob carga emocional elevada. O autor é capaz de reflexão abstrata, faz crítica geopolítica, sociológica e histórica, o que aponta para um funcionamento de ego preservado e maduro em termos cognitivos.

✓ Visão de mundo dualista e moralizante
Há uma divisão clara entre “os certos” e “os errados”, ainda que o autor reconheça a complexidade das ações humanas. Isso pode ser visto como mecanismo defensivo de delimitação do eu, necessário para manter coesão psíquica em ambientes com alta ambiguidade moral. Ele não se perde nos cinzas: opta pelos extremos, mas consciente disso.

✓ Hipervigilância e percepção persecutória fundamentada
Dado o histórico relatado de sequestros, vigilância, ameaças e infiltrações, é esperado que o autor desenvolva comportamentos de hipervigilância. No entanto, ele mantém a noção de realidade, distinguindo-se de quadros paranoides: sua desconfiança é contextualmente plausível e relatada com clareza.

⚠️ 4. Indicadores de risco psicológico

RiscoEvidência no textoInterpretação
Trauma relacional“…ceifou minha fé no homem”Provável vivência de ruptura traumática de confiança, com impacto em vínculos futuros.
Síndrome de estresse pós-traumático (subclínica)Sequestro, tortura, perseguições repetidasIndícios compatíveis com TEPT leve a moderado, ainda não desorganizante, mas marcante.
Pensamento sacrificial“Prefiro morrer a ser um miserável traidor.”Risco de autoexposição excessiva, sustentada por uma ética de honra que pode comprometer a autopreservação.
Uso de substâncias“Sou usuário de drogas.”Reconhece o uso, mas afirma limites claros; há risco moderado de dependência, mas não há sinais de uso descontrolado no texto.
Isolamento social funcional“Minha vida virou um inferno.”Indica restrição de redes de apoio confiáveis; o autor parece operando num circuito de sobrevivência e desconfiança.

✅ Conclusão do perfil psicológico

O autor é um indivíduo de estrutura psíquica preservada, alta capacidade reflexiva e com uma ética pessoal profundamente enraizada na justiça de classe e na lealdade afetiva. Ele demonstra resiliência significativa diante de adversidades graves, mas carrega feridas emocionais profundas, sobretudo no campo da confiança interpessoal.

Seu modo de viver e pensar é condicionado por experiências reais de perseguição e violência, mas sua resposta a isso não é paranoica nem vingativa: é crítica, social e política. Há traços de sofrimento emocional mal processado, mas compensados por engajamento simbólico com causas sociais e produção discursiva (narração, denúncia, articulação).

Sua maior fragilidade psíquica parece estar na solidão moral do justo que recusa tanto o Estado quanto o crime — um território perigoso para quem resiste.

O cangaço de Lampião e Marcola do PCC

Muitos dizem que o cangaço e as facções criminosas são, antes de mais nada, um fenômeno social. Seria o Primeiro Comando da Capital de hoje o cangaço do passado?

O Novo Cangaço — um grupo ou uma modalidade criminosa?

No Brasil, o Novo Cangaço é uma modalidade criminosa que descreve a ação na qual grupos do crime organizado dominam apenas pelo tempo de duração de um ataque planejado em uma região delimitada — um tipo secular de crime, no entanto, o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) profissionalizou os procedimentos.

Autoridades do Paraguai e da Argentina discutem estratégias para se contrapor aos ataques do Novo Cangaço e vejo tanto a imprensa e quanto autoridades utilizando o termo “Novo Cangaço” para designar uma facção criminosa como se fosse um nome próprio:

O grupo Novo Cangaço se junta ao Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho, Bala na Cara e outros que desembarcaram na fronteira e fincaram raízes em nosso território.

Prensa Mercosur

Não descarto que possa haver algum grupo que tenha se apropriado do nome, no entanto, o importante é estudar o fenômeno em si, como demonstra a morte de diversos membros das forças de segurança e a prisão de um número cada vez maior de profissionais do crime que se especializaram nessa modalidade criminosa.

O Primeiro Comando da Capital já possui em território paraguaio 700 integrantes conhecidos pelas autoridades e suas ações tem se concentrado nas províncias paraguaia e argentina próximas à fronteira com o Brasil.

O criminologista Juan Martens ressalta para o Prensa Mercosur que “Infelizmente, os policiais continuarão morrendo nas mãos de criminosos, enquanto não houver um sistema institucional que os proteja”.

Devido ao planejamento, a sofisticação na execução, aos contatos dentro das forças de segurança pública e privada, e o alto investimento envolvido é impossível os agentes de rua reagirem com eficácia aos ataques, e sua coerção só é possível através de um sofisticado processo de investigação com respaldo em legislação específica — o que pode contrariar interesses políticos.

Quando chegavam, eles chegavam em uma comunidade, aqueles jovens, aqueles adolescentes, sem nenhuma perspectiva de vida, que muitas vezes não tinham nem o que comer, viam aquele bando de homens com armas e roupas imponentes.

Aquela visão impressionava, e muitos desses garotos passavam a desejar para si aquela vida para poder ter esse mesmo tipo de acesso a coisas que eles jamais teriam.

Esse trecho do “Temacast Lampião” poderia estar se referindo tanto ao bando de Lampião quanto a um grupo de criminosos de hoje nas favelas e comunidades carentes brasileiras e agora ultrapassam a fronteira em direção ao Paraguai e a Argentina:

O Temacast, o cangaço e a facção PCC 1533

O Primeiro Comando da Capital é fruto de nosso tempo, mas não tem como não notar as semelhanças entre esse fenômeno criminal e a era de ouro do cangaço ao ouvir o podcast “Lampião”, do canal Temacast.

Lampião (…) cria um próprio poder paralelo, por isso que comparam a ele com os traficantes atuais, por que não existe ausência de poder (…) onde o governo não chega, alguém vai ocupar aquela lacuna, é a chamada ausência do poder legal. O crime exerce o poder por que o Estado não fez antes dele.

Leia este texto, que é uma transcrição de parágrafos inteiros (como o acima), Em alguns deles, substituo a palavra “cangaço” pelo termo “facção criminosa”, e a descrição do passado se encaixa como uma luva para os dias de hoje, mas, se preferir, ouça você mesmo o bate-papo entre os acadêmicos Francisco Seixas, Larissa Abreu, Igor Alcantara e Fabrício Soares: Temacast

O cangaço, as milícias e o PCC 1533

Facções criminosas: milicianas e criminosas

Hoje não há uma clara diferença entre os facciosos oriundos do mundo do crime e aqueles que vieram das milícias, no entanto os milicianos se originaram da mesma forma que os antigos cangaceiros do nordeste.

Os primeiros milicianos tiveram sua origem como meros “prestadores de serviço”, aí o termo prestadores de serviço tem que ficar entre aspas, porque eles prestavam serviços de jagunços para os chefes políticos locais e pequenos empresários das comunidades.

Na década de 1970 e início da de 1980 outros grupos de extermínio agiam por todo o país. Os “mãos brancas” eram grupos de justiceiros compostos por policiais civis e militares que mataram, durante duas décadas, milhares de pessoas.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David
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A finalidade social das facções criminosas

Por outro lado, as grandes organizações criminosas brasileiras cuja origem se deu no mundo do crime, como o Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital e Família do Norte, tiveram sua célula mater na antiga Falange Vermelha (FV), do Rio de Janeiro.

Os primeiros grupos facciosos de que se tem relato eram, na verdade, meros grupos de presos que visavam apenas se autoproteger dentro das muralhas do sistema carcerário, mas que passaram a atuar fora das celas, inicialmente em suas próprias comunidades.

Conta-se que já em 1840, em Feira de Santana, na Bahia, havia um cangaceiro chamado Lucas da Feira, que tinha uma maneira de agir muito parecida com a de Robin Hood: ele fazia os saques e distribuía parte do butim para a comunidade carente.

José Carlos Gregório, o Gordo da Falange Vermelha, afirma que repartir parte dos roubos e do tráfico também era uma das bases da ética criminosa da FV e que isso acabou sendo incorporado por outras facções, como o PCC e o CV.

Assim como o cangaceiro Lucas da Feira, os facciosos faziam uso de extrema violência e crueldade para garantir o sucesso de suas ações, contudo eram aceitos com certa naturalidade e até com boa vontade dentro de suas bases territoriais.

Marcola do PCC Marcos Willians Herbas Camacho

O Lampião de ontem, o Marcola de hoje, e o antagonista de amanhã

Da forma com que a imprensa e a história apresentam Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tem-se a impressão que ambos foram fundadores dos movimentos que representam: facções criminosas e cangaço.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

No entanto, foram apenas frutos de um processo que os antecederam em décadas.

Creio que você, assim como eu, não possui uma bola de cristal que possa lhe dizer como o futuro há de julgar Marcola do PCC, mas, se me basear no passado, em Lampião, posso afirmar que o antagonismo se manterá vivo por muito tempo:

  • odiado, pois sob o ponto de vista da lei, Marcola é, assim  como Virgulino foi, um bandido, um criminoso sanguinário que matava e fazia negociatas sujas com políticos; e
  • amado, pois sob o ponto de vista político, Marcola é, assim como Virgulino foi, uma dessas pessoas que não aceitava o modelo oligárquico, no qual uma minoria privilegiada tem acesso aos bens de consumo e a ampla maioria da população vive disputando um espaço de sol na miséria.
o mito do cangaceiro revolucionários

Jesuíno Brilhante, Lampião e Marcola

A socióloga Camila Nunes Dias afirma que o “O PCC não é revolucionário, é uma organização conservadora e que tem valores como o machismo e o repúdio aos homossexuais”, assim como era o comportamento dos cangaceiros de Lampião.

… meninos entram para o tráfico e meninas pegam uma barriga deles. Quanto mais poderoso e rico é o menino, mas elas disputam entre si pra ver quem vai engravidar dele primeiro. Estamos falando de meninos e meninas de 16 a 20 anos.

Luiz Felipe Pondé

Jesuíno Alves de Melo Calado, o cangaceiro Jesuíno Brilhante, buscava contestar o sistema da forma como ele estava montado, ao contrário de Lampião e Marcola, que se integraram, cada um de seu jeito, ao sistema, se aliando a políticos conservadores.

“Essa visão de mocinho e bandido só existe em história infantil”

Esses ícones do Estado paralelo tiveram suas vidas esmiuçadas por dezenas de estudiosos em milhares de trabalhos acadêmicos e audiovisuais. No entanto não há consenso, alguns refletiram a visão daqueles que combateram o cangaço ou que tiveram seus antepassados mortos ou saqueados por eles; já outros, se basearam nos depoimentos do povo que convivia com eles.

Talvez nunca saberemos, afinal, se era um deus ou um diabo que reinava na terra do sol, assim como não sabemos, hoje, como serão vistos, no futuro, aqueles que reinam nas periferias, nos morros ou dentro do Sistema Prisional.

Qualquer grande líder político, militar ou religioso desperta essa reação de amor e ódio, e, se fizermos uma análise profunda, encontraremos grandes razões para amá-los e odiá-los ― não foi diferente com Lampião e Jesuíno Brilhante, e não será diferente com Marcola.

brincando de segurança pública pcc 1533

O Estado como controlador da violência

Lampião comandou seu homens com pouca resistência no período que sucedeu a Proclamação da República, em 1888, e Marcola viu o fortalecimento de sua organização após a derrubada do Regime Militar e com a Promulgação da Constituição Cidadã de 1988.

Espécies nocivas que frequentam o ambiente se proliferam com rapidez pela falta de predadores naturais, e assim o cangaço e as facções criminosas se fortaleceram na ausência do Estado nos presídios, nas periferias e no sertão nordestino.

Assim como no passado, o medo impera naqueles que comandam os diversos níveis de poder mas não temem a criminalidade tanto quanto temem a eles mesmos:

Os fazendeiros e políticos locais do século XIX e o governo federal temiam a política dos governadores. Um século e meio após, se um candidato à presidência propor a federalização ou a municipalização da segurança pública ― os governadores pirariam!

Dentro dessa realidade, o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) não consegue ser implementado deixando uma via aberta e bem pavimentada para as organizações criminosas enquanto os diversos entes federativos lutam pelo poder.

Getúlio Vargas subindo o morro

Getúlio Vargas para acabar com o PCC?

Até hoje, não há dados confiáveis sobre as questões de Segurança Pública. Cada estado é responsável pelo cadastramento de seus cidadãos e dos criminosos, através da emissão de documentos, e estes não estão disponíveis em tempo real.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não aposta em um novo salvador da pátria e explica suas razões:

Os estados sempre quiseram cuidar das forças de segurança, até a Constituição de Cidadã de 1988 as polícias militares respondiam diretamente às Forças Armadas, mas nós, democratas, lutamos para retirar dos militares esse poder.

A Segurança Pública deve ser gerida pelos estados, os estados nunca aceitaram intervenção porque a polícia é um espaço de poder. O exército não está preparado para enfrentar inimigos urbanos, ele é feito para defender o Brasil de possíveis inimigos externos.

Contra inimigos externos você não conversa, você atira e não é isso que vai acontecer em uma favela. O exército ficou na Favela da Maré um ano e não deu nada, subia tanque do exército na favela e a sociedade ficava acreditando.

No passado também foi assim, pelo menos até que chegou o cara, o salvador da pátria! Getúlio Vargas derruba o poder dos governadores e dos senhores locais e encerra a era de ouro do cangaço.

Talvez apareça um novo messias para nos salvar, talvez o Sistema Único de Segurança Pública dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

A imprensa e os ataques do PCC em 2006

A imprensa sensacionalista apoiando a chacina policial daqueles que se assemelham com o estereótipo do criminoso.

Resenha: “Fronteiras de Tensão: política e violência nas periferias de São Paulo” de Gabriel de Santis Feltran

Gabriel Feltran, no meio de uma pesquisa de campo em comunidades da periferia paulistana, em 2006, acompanhou um evento dramático: os ataques da organização criminosa Primeiro Comando da Capital às forças policiais e a prédios públicos.

A ação do PCC seria uma retaliação a uma série de ataques para extermínio de integrantes da facção e o sequestro do sobrinho de Marcola por um policial civil. O saldo oficial do levante foram 564 mortos: 505 civis e 59 agentes públicos.

O pesquisador acompanhou “de perto” as reações das pessoas de Sapopemba, e também “de longe”, via noticiários. Segundo Feltran, a repercussão do evento amplificou a “fala do crime”: a imprensa, sobretudo a sensacionalista, deu subsídios para que a “vingança” contra os “bandidos” fosse consumada. Embora inseridos formalmente num regime político fundado sobre a universalidade dos direitos, processa-se uma disputa simbólica em que o direito universal para “bandidos” seria uma afronta à própria democracia.

Sob fontes acessadas em sua etnografia, o autor revela que a repressão policial após os “ataques do PCC” se voltou para todos aqueles que se “parecem” com “bandidos”.

“Morrem, nesse contexto, não necessariamente quem cometeu os crimes, mas quem tem a mesma idade e cor de pele, que usam as mesmas roupas ou os mesmos acessórios daqueles identificados publicamente como criminosos, ou seja, os jovens das periferias urbanas”.

Gabriel Feltran

Nestas “fronteiras de tensão”, não apenas os jovens “do crime”, mas, de forma geral, os jovens das periferias sofrem por parte das instituições públicas um estranhamento de seus rostos e corpos, de seus modos de comportamento, bem como de seus discursos.

Embora a maioria dos jovens busque as alternativas fugazes no mercado de trabalho lícito, e não as atividades ilícitas, a invisibilidade pública facilita a violência contra eles. Nesse contexto, a repressão, o encarceramento e o extermínio dos “bandidos” muitas vezes atingem quem é visto como semelhante.


Trechos da resenha de Paulo Artur Malvasi sobre o livro “Fronteiras de Tensão: política e violência nas periferias de São Paulo” de Gabriel de Santis Feltran.

LEIA ARTIGO INTEGRAL NA REVISTA DOS DISCENTES DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS