Facção criminosa PCC 1533: terroristas ou criminosos?

O que diria Michael Fredholm sobre o terrorismo e a facção Primeiro Comando da Capital.

A facção paulista é ou não um grupo terrorista?

Você e eu já sabemos a resposta à pergunta: “O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é uma organização terrorista ou uma facção criminosa?” — a resposta está na ponta da língua: eles são criminosos. É incrível, mas tem gente que não entende isso, como é o caso do sueco Michael Fredholm.

Fredholm acha que entende das coisas só porque é um analista militar e historiador, especialista em estratégias de defesa, política de segurança internacional, tendo feito estudos profundos sobre a geopolítica da Eurásia, o extremismo islâmico, as causas e as estratégias de defesa para combater o terrorismo, isso tudo e muito mais.

Eu e você sabemos a resposta, e ele, com todo o estudo que fez, ainda tem dúvidas sobre se o PCC 15.3.3 é ou não um grupo terrorista. Eu sei que ele não sabe porque deixou essa dúvida clara no livro Transnational Organized Crime and Jihadist Terrorism: Russian-Speaking Networks in Western Europe (Contemporary Terrorism Studies).

Ele conta que entre os especialistas “atualmente, poucos, se houver algum, argumentam que o crime organizado e o terrorismo são organizações significativamente diferentes […] ambas utilizam os mesmo meios e métodos criminais para adquirir o financiamento necessário [para alcançar seus objetivos ideológicos] (tradução minha).

Facção PCC: inversão total da lógica tradicional

Ambos utilizam-se de métodos e modus operandi semelhantes: a criação do medo como ferramenta estratégica para a captação ou a circulação de recursos ilegais. Essa é a essência do terrorismo, mas também é utilizada pelas facções criminosas. Algo que deveria diferenciar um grupo de outro seria a origem do financiamento da organização, mas não é bem assim.

Os terroristas, para assim serem denominados, deveriam ser sustentados por estados ou grupos de simpatizantes, enquanto o crime organizado seria alimentado pelas ações criminosas, mas na prática, por vezes essa lógica não prevalece.

Um exemplo da inversão na prática desse conceito teórico é que o Primeiro Comando da Capital, que tem como uma importante fonte de recursos as doações feitas por todos os irmãos batizados, que pagam um valor mensal, se contrapondo a organização islâmica Al-Qaeda que tem utilizado como fonte de recursos o contrabando de armas, drogas, e seres humanos na região no Cone Sul.

As organizações terroristas que dependiam dos estados nacionais e simpatizantes para se sustentarem, sofrendo cada vez mais com o controle internacional sobre seus recursos (ONU Resolução 54/109 — International Convention for the Suppression of the Financing of Terrorism), passaram a atuar muitas vezes como as organizações criminosas tradicionais, executando assaltos a bancos ou traficando drogas e armas.

Facção PCC: questão política ou terrorismo


Michael Fredholm utiliza a América Latina para demonstrar quão difícil é saber o limite entre um grupo e outro. Você e eu sabemos que Dilma Rousseff lutou contra a Ditadura Militar, e naquele tempo todos acreditávamos que era a URSS quem sustentava o movimento, mas, na realidade, o caixa vinha dos assaltos a bancos e sequestros.

Ignore seu pensamento político (direita ou esquerda) e responda, pelos critérios técnicos ela seria uma: terrorista ou ladra? Afinal, lutava por uma ideologia, estaria sendo sustentada por um governo que partilharia de seus ideais, recebia recursos de lá, mas reforçava o caixa com ações criminosas.

A fronteira entre um e outro grupo, como tudo no Mundo Líquido de Zygmunt Bauman, está se dissolvendo, se já não se dissolveu e apenas não nos demos conta disso. Só citei até agora um único ponto nebuloso que separa os dois grupos, terroristas e criminosos, Fredholm enumera e discorre a respeito de quase uma dezena.

Outro é a ideologia. Agora sim. Um ponto forte que separa os terroristas dos criminosos é que o primeiro luta por uma causa, e o segundo apenas por lucro. O Primeiro Comando da Capital, desde que foi criado, busca acabar com a opressão dentro do sistema prisional, as desigualdades sociais e a ausência do Estado nas periferias das cidades, então…

O sueco que fique com suas dúvidas

O PCC é uma organização terrorista, não uma organização criminosa, pois utiliza-se de “métodos criminais para adquirir o financiamento necessário [para alcançar seus objetivos ideológicos]”.

“Nem mesmos as armas nucleares podem trazer uma PAZ sólida e duradoura sem que a humanidade enfrente as injustiças sociais. Onde houver dominação, haverá sempre luta pela libertação e pelo fim da opressão. Onde houver violações dos direitos haverá sempre combate e resistência em nome da IGUALDADE, por isso a dificuldade em se manter uma PAZ sólida e duradoura. Por isso nossa luta consciente, nosso lema é PAZ, JUSTIÇA, LIBERDADE, IGUALDADE, e UNIÃO.” — Trecho da Cartilha de Conscientização do PCC.

Fredholm escreveu um livro todo explicando que hoje não existe uma linha clara que separa um grupo de outro, mas você e eu sabemos a resposta à pergunta: “O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é uma organização terrorista ou uma facção criminosa?” — a resposta está na ponta da língua, e o sueco que fique com suas dúvidas.

Autor: Ricard Wagner Rizzi

O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)

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