Talarico é só rajada: PCC mata para fugir do Tribunal do Crime

Caso real: acusado de ser talarico, matou o acusador, ganhou moral na organização criminosa Primeiro Comando da Capital e assumiu liderança.

Talarico: Quando o envolvido tenta induzir a companheira de outro integrante e não é correspondido, usa de meios como, mensagens, ligações, ou gestos. Punição: exclusão sem retorno, fica a cobrança a critério do prejudicado e é analisado pela Sintonia. — Dicionário da facção PCC 1533

Talarico é uma palavra que carrega peso no submundo do crime, em especial dentro da organização do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Infringir esse código moral pode significar uma sentença de morte, sancionada pela própria organização. Neste contexto complexo e tenso, convido você a ler mais sobre as nuances e as ramificações deste conceito no mundo criminoso.

Após a leitura, e passado o carrossel de matérias relacionadas, você encontrará uma série de análises feitas por Inteligência Artificial sobre o texto e os temas tratados. Sinta-se à vontade para comentar, curtir e compartilhar em suas redes sociais.

Talarico é só rajada, e Lelé sabia disso.

O talarico de onde estava, podia contemplar a sinistra beira do precipício, o qual seria seu destino final.

Cada passo dado pelo pobre coitado o aproximava cada vez mais da sua derradeira sentença. A realidade macabra se impunha sem piedade.

O infeliz Lelé, um sujeito de Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso, já havia enfrentado inúmeros momentos de tensão em seus trinta anos de existência.

Mas, Lelé confiava em sua astúcia para salvá-lo do juízo final. A facção criminosa PCC 1533 não colocaria os seus olhos nele.

Além disso, ele sabia como ninguém como lidar com as regras do Primeiro Comando da Capital — no mundo do crime ele nadava com um peixe na água.

Não seria graças às acusações feitas por um tal de Beleza que ele morreria.

Primeiro ele precisaria estar sempre um passo à frente do inimigo e usar táticas que possam desestabilizar sua influência ou elimaná-la.

O uso de agentes infiltrados

E foi assim, com uma informação recebida de um chegado seu no lava-jato de propriedade do o impiedoso Disciplina irmão Narizinho, que soube que Beleza marcara um encontro para entregá-lo ao Tribunal do Crime do PCC.

Analisou qual o ponto mais fraco para agir. Jamais poderia se contrapor ao irmão Disciplina ou ao Tribunal do Crime. O ponto fraco era justamente o acusador: o Beleza.

O motivo do medo de Lelé

As aventuras amorosas do infeliz com mulheres casadas, uma ofensa que a lei do PCC punia com severidade.

A talaricagem é o primeiro dos 45 mandamentos da organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

1. Ato de Talarico:
Quando o envolvido tenta induzir a companheira de outro e não é correspondido, usa de meios como, mensagens, ligações, ou gestos.
Punição: exclusão sem retorno, fica a cobrança a critério do prejudicado e é analisado pela Sintonia.

Dicionário do Primeiro Comando da Capital

Lelé, contudo, não assistiria de braços cruzados à sua própria queda, empurrado pelas mãos vingativas de Beleza por uma questão pessoal: Lelé se engraçou com a filha de Beleza.

Mostraria a Beleza que com ele não se brinca… no entanto, sabia que não poderia fazer o serviço ele mesmo.

Gordão e Pezão eram homens de sua confiança, e chegaram para conversar com ele no sobrado de blocos vermelhos de esquina, localizado no Portal do Éden em Itu.

Tudo foi acertado. Beleza nunca falaria com o Disciplina da Facção PCC. Beleza nunca mais falaria.

De talarico à líder da facção PCC

Uma semana depois, a notícia da morte de Beleza na Cidade Nova se espalhou rapidamente pelo submundo do crime.

Lelé estava a salvo e ninguém mais iria denunciá-lo ao Primeiro Comando da Capital.

No mundo do crime, apenas os mais fortes sobrevivem e Lelé havia provado ser um lobo em pele de cordeiro.

A partir daquele dia, Lelé ganhou o respeito de seus pares no mundo do crime e passou a ser temido e respeitado.

Ele sabia que teria que continuar a jogar sujo e a pisar em quem fosse necessário para manter seu lugar na hierarquia.

Mas ele estava pronto para isso, afinal, no submundo do crime, só os mais fortes sobrevivem.

história postada originalmente nesse site em 16 de agosto de 2011

O Primeiro Comando da Capital não é para os fracos

Você pode ficar indignado com Lelé e achar impossível que ele tenha assumido a Sintonia da quebrada depois do que ocorreu, mas a vida é assim.

Para o mundo do crime, aquele homem, talarico ou não, reunia algumas características essenciais para liderar criminosos:

Astúcia: Lelé é descrito como um homem astuto, que já enfrentou inúmeros momentos de tensão ao longo de sua vida. Essa habilidade de lidar com situações difíceis sugere que ele tem um bom grau de inteligência e sagacidade.

Autoconfiança: Lelé mostra uma forte autoconfiança em sua capacidade de lidar com as situações de perigo e proteger a si mesmo. Isso é evidente em sua decisão de buscar ajuda para se proteger contra Beleza e na forma como ele resolve seus problemas.

Vingança: Lelé não é um homem que se contenta em ser passivo diante de ameaças. Ele mostra uma forte tendência para buscar vingança quando se sente ameaçado. Isso é evidente em sua decisão de matar Beleza depois de descobrir que ele estava tentando entregá-lo à facção criminosa.

Ambição: Lelé parece ser ambicioso em seu desejo de se estabelecer no mundo do crime. Ele está disposto a fazer o que for preciso para manter seu lugar na hierarquia e ganhar respeito entre seus pares. Isso é sugerido pela forma como ele joga sujo e pisa em quem for necessário para manter sua posição.

Falta de empatia: Lelé parece não ter empatia por aqueles que cruzam seu caminho ou que ele considera uma ameaça. Ele não hesita em tomar medidas extremas para se proteger, mesmo que isso signifique matar alguém.

O segredo do sucesso da facção PCC 1533

Pode rir, ri, mas não desacredita não

Conhecidos meus diziam que o Primeiro Comando da Capital era um grupo violento de criminosos semi-analfabetos.

Verdade, mas não são os bancos escolares que ensinam as coisas mais importantes da vida, e a vida não é para os fracos.

A guerra na qual os PCCs vivem exige estratégia, tática e habilidade para se obter a vitória.

Apesar de o caso de Lelé e o PCC não envolver uma guerra convencional, ainda é possível avaliar esse caso segundo um conceito estratégico.

Aimportância de conhecer o seu inimigo

No caso de Lelé e o PCC, é importante entender as motivações e estratégias do PCC para poder lidar com ele de forma eficaz.

Isso pode incluir a análise da hierarquia e estrutura da facção paulista, suas redes de comunicação e sua presença geográfica.

Qual teria sido o melhor resultado para a organização criminosa na região da Cidade Nova / Portal do Éden em Itu?

Punir o talarico Lelé e cumprir o seu principal mandamento, ou dar um cargo de liderança para o perigoso e respeitado Lelé?

a importância da flexibilidade e da adaptabilidade

Isso significa que, em vez de adotar uma estratégia fixa e inflexível, é preciso estar preparado para se adaptar às mudanças nas circunstâncias e no comportamento do inimigo.

No caso de Lelé e a organização criminosa, isso pode significar estar sempre vigilante e preparado para se adaptar a novas ameaças e táticas, e ele pareceu por sua atitude capaz desse desafio.

aproveitar as oportunidades e explorar as fraquezas do inimigo

Isso pode envolver o uso de táticas como a criação de armadilhas, a divisão do inimigo ou a exploração de conflitos internos no grupo.

No caso de Lelé e a organização criminosa, ele soube explorar as fraquezas e divisões internas dentro do PCC.

Lelé utilizou seus contatos e sua influência na facção para desestabilizar o grupo que queria sua punição e enfraquecer sua influência.

Análises da AI do artigo: Talarico é só rajada: PCC mata para fugir do Tribunal do Crime

Teses defendidas pelo autor do texto e Contrateses:

O texto retrata uma visão muito específica do mundo do crime organizado, especificamente do Primeiro Comando da Capital, e dos elementos que contribuem para o sucesso ou fracasso dos indivíduos nesse contexto. O personagem central, Lelé, serve como uma lente através da qual vários aspectos do funcionamento do PCC e das características necessárias para sobreviver nesse ambiente são explorados.

Teses Defendidas Pelo Autor do Texto:
  1. Astúcia e Adaptabilidade como Virtudes Criminais: O autor sugere que a inteligência tática e a capacidade de adaptação são essenciais para sobreviver e prosperar no mundo do crime. Lelé é descrito como um indivíduo extremamente astuto que sabe como manobrar dentro das complexidades do PCC.
  2. Moralidade Flexível: O autor argumenta implicitamente que, nesse universo, a moralidade é flexível e depende do contexto. Lelé sobrevive não porque é moralmente superior, mas porque é mais esperto e implacável.
  3. Hierarquia e Regras: Há uma forte ênfase na existência de uma hierarquia e de regras rígidas dentro do PCC, como o mandamento contra a “talaricagem”. O autor sugere que conhecer e saber manipular essas regras pode ser uma questão de vida ou morte.
  4. Importância do Respeito e do Medo: A história de Lelé sugere que respeito e medo são recursos valiosos no mundo do crime. Após eliminar Beleza, Lelé ganha respeito e solidifica seu lugar na hierarquia do crime.
  5. A Vida Não é para os Fracos: A narrativa propõe que o mundo do crime é um ambiente darwiniano, onde apenas os mais fortes (ou mais espertos) sobrevivem.
Contra-Argumentos às Teses:
  1. Astúcia e Adaptabilidade: Embora essas características sejam importantes, elas não garantem a sobrevivência em um ambiente tão volátil e perigoso. Fatores como sorte, circunstâncias e conexões externas também podem ser cruciais.
  2. Moralidade Flexível: Este ponto pode ser problemático porque minimiza as repercussões morais e éticas das ações dos personagens. Isso pode desumanizar os indivíduos envolvidos e ignorar o impacto mais amplo do crime organizado na sociedade.
  3. Hierarquia e Regras: A capacidade de Lelé de manipular as regras sugere que essas diretrizes não são tão infalíveis quanto parecem. Pode haver espaço para corrupção, favoritismo e ineficácia dentro da própria organização.
  4. Importância do Respeito e do Medo: Esses elementos são transitórios e podem ser perdidos devido a fatores fora do controle de um indivíduo. Confiar unicamente neles é perigoso.
  5. A Vida Não é para os Fracos: Este argumento pode ser visto como redutivo, ignorando as complexas redes de influência e poder que podem afetar a sorte de um indivíduo.

É importante mencionar que esta é uma análise literária e não deve ser interpretada como uma representação precisa da realidade do crime organizado ou do PCC. O texto serve mais como um estudo de caráter e um exame dos elementos que podem contribuir para o sucesso em um ambiente criminal específico, conforme retratado pelo autor.

Análise sob o prisma da Sociologia

O texto em questão é um rico material para uma análise sociológica sobre a cultura, estrutura e dinâmicas do mundo do crime organizado, mais especificamente o Primeiro Comando da Capital. Abaixo segue a análise baseada em diferentes ângulos sociológicos:

  1. Estrutura Social e Hierarquia
    O texto destaca a existência de uma estrutura hierárquica e de regras bem definidas dentro da facção criminosa. Lelé, que inicialmente se encontra em uma posição vulnerável devido à acusação de “talaricagem”, consegue subverter esta situação e ascender na hierarquia do grupo. Isso demonstra uma complexidade organizacional que vai além do estigma social frequentemente associado ao mundo do crime como desorganizado ou caótico.
  2. Capital Social
    Lelé não age sozinho; ele usa sua rede de contatos e aliados confiáveis, demonstrando a importância do capital social dentro da facção. Seu acesso a informações privilegiadas e a aliados dispostos a agir em seu favor representa um tipo de capital que ele pode mobilizar para seu benefício.
  3. Normas e Sanções
    O texto também apresenta o conceito de normas e sanções dentro do grupo. No caso do PCC, a “talaricagem” é vista como um crime sério, punido com severidade. Isso reflete uma moralidade própria e um sistema de leis internas, sinalizando aos membros o que é aceitável e o que não é.
  4. Poder e Autoridade
    A narrativa demonstra como o poder e a autoridade dentro do grupo não são estáticos, mas sim dinâmicos. Lelé é um exemplo de como a astúcia e a capacidade de se adaptar podem ser mais valorizadas do que o estrito cumprimento das regras da organização. Essa flexibilidade dentro da rigidez da estrutura sugere uma complexidade que muitas vezes é subestimada em análises externas do crime organizado.
  5. Mecanismos de Sobrevivência
    Lelé exibe uma série de qualidades—astúcia, falta de empatia, vingança, autoconfiança e ambição—que, embora moralmente questionáveis em uma sociedade convencional, são valorizadas dentro da lógica da sobrevivência no mundo do crime.
  6. Subcultura do Crime
    O texto destaca como a facção criminosa tem sua própria subcultura, com valores, códigos e linguagens que diferem significativamente da cultura dominante. Esse fenômeno pode ser entendido como uma forma de resistência ou de construção de identidade coletiva em um ambiente hostil.
  7. Estratégia e Tática
    O texto também ressalta a necessidade de estratégia e tática na guerra não convencional em que os membros do PCC se encontram. A narrativa sugere que o sucesso na vida criminal não é resultado do acaso ou da brutalidade, mas da aplicação inteligente de táticas e estratégias, incluindo o conhecimento profundo do inimigo e a flexibilidade para adaptar-se às circunstâncias.

O relato não apenas oferece uma visão sobre o funcionamento interno do PCC, mas também levanta questões importantes sobre a complexidade e a adaptabilidade das organizações criminosas, as quais, por vezes, refletem e até mesmo espelham as estruturas e dinâmicas do mundo legal.

Análise sob o prisma da teoria do comportamento criminoso

A análise do comportamento criminoso é uma subdisciplina das ciências sociais e da psicologia forense que busca entender os fatores subjacentes que levam os indivíduos a cometerem atos criminosos. Utilizando essa lente, podemos considerar alguns elementos centrais no relato fictício de Lelé e o ambiente do Primeiro Comando da Capital.

  1. Escolha Racional e Avaliação de Risco-Recompensa
    Na teoria do comportamento criminoso, muitas vezes assume-se que o criminoso é um ator racional que pesa os riscos e recompensas de uma ação antes de cometê-la. Lelé avalia cuidadosamente suas opções e escolhe um curso de ação que minimiza o risco para si mesmo enquanto maximiza a recompensa potencial, que, neste caso, é a preservação de sua vida e aumento de status dentro da facção.
  2. Pressão Social e Conformidade às Normas do Grupo
    O PCC tem um conjunto claro de regras e mandamentos que seus membros devem seguir. Neste ambiente, o comportamento criminoso não é apenas aceito, mas também reforçado pelas normas do grupo. Lelé sabe como “nadar” nesse sistema porque ele entende essas regras. Esta conformidade às normas do grupo é um fator importante na perpetuação do comportamento criminoso.
  3. Personalidade Anti-Social e Falta de Empatia
    O texto sugere que Lelé exibe características frequentemente associadas a personalidades anti-sociais, incluindo falta de empatia e disposição para manipular ou prejudicar outros para alcançar seus objetivos. A falta de empatia pode ser um traço que é tanto inato quanto moldado pelo ambiente social e pelas experiências de vida de um indivíduo.
  4. Hierarquia e Poder
    O mundo do crime, e especialmente organizações como o PCC, frequentemente tem uma hierarquia rigorosa. A ascensão nessa hierarquia pode exigir atos de violência e demonstrações de lealdade. Lelé está claramente consciente dessa dinâmica e age de acordo, primeiro ao eliminar a ameaça representada por Beleza e depois ao assumir uma posição de poder dentro do grupo.
  5. Situacionalismo
    Finalmente, a teoria do comportamento criminoso muitas vezes olha para os fatores situacionais que podem precipitar o crime. Lelé estava em uma situação de risco iminente de ser entregue ao “Tribunal do Crime” do PCC. Em resposta a essa situação, ele toma medidas extremas para neutralizar a ameaça.

O comportamento de Lelé, dentro do contexto fictício apresentado, é complexo e multifacetado, mas pode ser analisado eficazmente através da lente da teoria da análise do comportamento criminoso. Ele exibe racionalidade na avaliação de riscos, conformidade às normas sociais do seu grupo, traços de personalidade que são congruentes com comportamentos anti-sociais, e uma habilidade de adaptar-se a situações que exigem ações criminosas para a autopreservação e ascensão dentro da organização criminosa.

Análise sob o prisma da Antropologia

Ao analisar o texto fornecido sob um ponto de vista antropológico, alguns aspectos merecem atenção. Primeiramente, a antropologia muitas vezes examina microcosmos sociais para entender processos mais amplos de formação de comunidades, construção de identidades e regulação social. O texto apresenta um universo social bem específico, o do crime organizado representado pelo Primeiro Comando da Capital.

  1. Códigos Culturais e Normas Sociais
    A narrativa aborda a complexidade das normas sociais dentro da organização criminosa, destacando a noção de “talaricagem” como uma forma de violação dessas regras. Essas normas são internalizadas e respeitadas como códigos culturais não escritos, que guiam o comportamento dos membros e determinam sua inclusão ou exclusão. O termo “talarico”, por exemplo, tem significados muito específicos nesse contexto, representando uma infração grave dentro da cultura da organização.
  2. Estratégias de Sobrevivência e Mobilidade Social
    O texto também fala da mobilidade social dentro dessa organização criminosa, através do personagem Lelé. A escalada dele na hierarquia do PCC reflete não apenas suas habilidades pessoais, mas também como a organização valoriza traços como astúcia, vingança e falta de empatia como mecanismos de ascensão.
  3. O Individual e o Coletivo
    Lelé serve como um estudo de caso de como o individual e o coletivo interagem nesse ambiente específico. Ele tem que navegar um caminho cuidadoso entre seguir as regras da organização (o coletivo) e garantir sua própria sobrevivência (o individual). É uma interação delicada e sua habilidade de fazer isso de forma bem-sucedida fala volumes sobre o tipo de comportamento e características valorizadas dentro deste grupo social específico.
  4. Etnografia do Crime
    O texto também pode ser visto como uma forma de etnografia do crime, destacando as complexas relações de poder, regras sociais e códigos de comportamento que regulam essas comunidades. A antropologia, ao estudar grupos como esses, busca entender os sistemas de significado e a lógica interna que orienta suas ações, sem necessariamente fazer um julgamento moral.
  5. Espaço Geográfico e Social
    A menção a locais específicos como “Cidade Nova / Portal do Éden em Itu” e “Mirassol D’Oeste, no Mato Grosso”, sugere que o espaço geográfico também é um fator relevante. O território não é apenas um lugar físico, mas também um espaço social e culturalmente construído.

Em resumo, o texto oferece um olhar complexo sobre um mundo frequentemente marginalizado, revelando a complexidade e a estrutura subjacentes que regem as vidas dos que nele habitam. Isso tudo pode servir como um campo fértil para análises antropológicas sobre como as normas culturais são formadas, mantidas e transformadas, e como os indivíduos operam dentro dessas estruturas.

Análise sob o prisma factual e de precisão

O texto faz uso de diversos elementos factuais para contextualizar e dar credibilidade à narrativa. Ele cita regras específicas e mecanismos de funcionamento do PCC, como o “Tribunal do Crime” e os “45 mandamentos”, para conferir realismo à trama. No entanto, o texto é uma obra de ficção e, portanto, qualquer análise sobre a precisão dos eventos descritos deve levar isso em consideração.

Além disso, é crucial notar que o texto se desenvolve em torno de uma série de decisões e estratégias empregadas por Lelé para preservar seu lugar na facção criminosa e, eventualmente, subir na hierarquia. Ele demonstra uma profunda compreensão da psicologia dos indivíduos envolvidos, bem como das regras não escritas que governam o comportamento dentro deste tipo de organização. Isso sugere que a história tem um fundo de verdade na forma como o crime organizado realmente funciona, mesmo sendo uma narrativa fictícia.

O texto também reflete sobre as qualidades consideradas valiosas dentro dessa cultura criminal: astúcia, autoconfiança, propensão para a vingança, ambição e falta de empatia. Essas características são consistentes com o que se conhece sobre o comportamento de criminosos de alto nível em organizações ilícitas.

O texto fornece uma visão envolvente e tecnicamente informada sobre o funcionamento interno de uma facção criminosa. Ele faz uso de elementos realistas e factuais para criar uma história que parece crível, mesmo sendo uma obra de ficção. A partir de uma perspectiva de análise do comportamento criminoso, a história de Lelé serve como um estudo de caso interessante sobre como indivíduos dentro dessas organizações operam, adaptam-se e sobrevivem. Ele demonstra uma combinação de características pessoais e habilidades estratégicas que lhe permitem não apenas sobreviver, mas prosperar dentro de um ambiente extremamente hostil e competitivo.

Análise sob o prisma da filosofia

O texto apresenta uma visão profunda e até mesmo distópica da sobrevivência no mundo do crime organizado, focalizando na astúcia e adaptabilidade de Lelé como meios de ascender dentro da hierarquia da organização criminosa Primeiro Comando da Capital. Vários tópicos filosóficos podem ser abordados a partir desta narrativa.

  1. O Existencialismo e a Busca pela Autenticidade
    A vida de Lelé parece refletir elementos do existencialismo, um movimento filosófico que enfatiza a liberdade individual, a escolha e a responsabilidade pessoal. Lelé enfrenta um mundo sem significado intrínseco e o cria através de suas escolhas e ações. Ele é o arquiteto de seu destino, traçando seu caminho com base em sua própria moralidade, que é subjetiva e flui dos seus interesses e desejos.
  2. O Contratualismo Social e o Mundo do Crime
    O texto também traz à tona a ideia de um “contrato social” dentro do mundo do crime, semelhante ao conceito discutido por filósofos como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau. No entanto, esse contrato social é pervertido. As regras do PCC servem como um conjunto de leis que visam manter a ordem e a hierarquia, mas não refletem necessariamente um senso comum de bem e justiça.
  3. A Natureza Humana e o “Homo Homini Lupus”
    O texto reforça a ideia de que, em determinadas circunstâncias, o ser humano pode tornar-se lobo para o próprio homem, ecoando a famosa frase de Thomas Hobbes: “Homo homini lupus”. Lelé revela sua verdadeira natureza não como um “cordeiro”, mas como um “lobo”, pronto para devorar qualquer um que se coloque em seu caminho para a autoconservação e ascensão.
  4. O Fatalismo e o Determinismo
    Por fim, o texto sugere um ambiente de fatalismo ou determinismo. Lelé, apesar de suas ações, talvez nunca escape realmente do mundo em que vive. Ele pode ter evitado um destino, mas isso o leva a outro, potencialmente igualmente perigoso. Nesse sentido, sua liberdade é ilusória, aprisionada dentro das barreiras invisíveis de um ambiente social e cultural que limita suas opções e escolhas.

O texto é rico em camadas de significado e pode ser analisado de várias perspectivas filosóficas. O ambiente complexo e moralmente ambíguo em que Lelé opera oferece uma lente através da qual se pode examinar questões mais amplas sobre a condição humana, a moralidade, a liberdade e o destino.

Análise sob o prisma político

O texto em questão descreve uma narrativa dentro do mundo do crime, focalizando-se na ascensão de Lelé, um homem que, apesar de violar regras intrínsecas da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, consegue subir na hierarquia desta. Embora o texto possa ser lido como um relato fictício ou como parte de uma crônica, o pano de fundo é altamente político em natureza. Aqui, a política não se restringe aos processos governamentais ou institucionais, mas estende-se à governança e ao controle social exercidos por organizações não-estatais, como o PCC.

  1. Conceito de Poder: O texto apresenta uma representação complexa do poder. Lelé desafia as regras formais da organização, mas não é apenas punido; em vez disso, ele adquire mais poder. Isso coloca questões sobre como o poder é construído e mantido dentro de tais organizações e como isso reflete ou contrasta com estruturas de poder mais tradicionais na sociedade.
  2. Justiça Paralela: O ‘Tribunal do Crime’ do PCC e o sistema de ‘mandamentos’ exemplificam uma forma de justiça paralela que opera fora do sistema judicial estabelecido. Essa realidade lança luz sobre a falha do Estado em manter o monopólio sobre o uso legítimo da força e a administração da justiça, permitindo que tais organizações preencham o vácuo.
  3. Economia Política do Crime: Lelé não atua isoladamente; ele é parte de uma economia criminosa maior que inclui uma variedade de atores, desde “Gordão e Pezão” até o “irmão Disciplina”. Isso aponta para uma estrutura organizacional que vai além do individualismo e requer uma análise política.
  4. Flexibilidade e Adaptabilidade como Estratégias Políticas: O texto também fala sobre a importância da flexibilidade e adaptabilidade, traços que são valiosos tanto em política convencional quanto na clandestina. Lelé é mostrado como alguém capaz de se adaptar às circunstâncias, o que eventualmente lhe confere uma vantagem política dentro da organização.
  5. Questões de Moralidade e Ética: A narrativa questiona os conceitos convencionais de certo e errado, ao mostrar que, dentro desse contexto específico, ações moralmente questionáveis podem resultar em ascensão social e respeito. Isso sugere que a ética e a moralidade são relativas e contextualmente determinadas, algo frequentemente explorado em debates políticos.
  6. Sociedade e Crime: Finalmente, o texto também pode ser visto como uma crítica da sociedade que permite a existência de tais organizações, levantando questões sobre desigualdade social, falha institucional e a complexa relação entre legalidade e legitimidade.

O texto não apenas descreve a ascensão de um indivíduo dentro de uma organização criminosa, mas também provoca reflexões sobre a natureza do poder, da justiça e da governança em espaços onde o Estado é ausente ou ineficaz. Esses são temas intrinsecamente políticos que exigem uma análise mais profunda.

Análise sob o prisma ético e moral

O texto apresentado traz uma narrativa dramática em torno de personagens envolvidos com atividades criminosas, especificamente dentro da organização Primeiro Comando da Capital. A história aborda temas como lealdade, traição, violência e sobrevivência dentro de um ambiente hostil e regulado por suas próprias leis e hierarquias. Vou analisar o texto sob os pontos de vista ético e moral.

Análise Ética

  1. Violação de Princípios Universais: Do ponto de vista ético, a narrativa apresenta múltiplas transgressões de princípios universais como o respeito à vida, à dignidade humana e à justiça. Há um clima de ‘lei do mais forte’, onde o poder é exercido à custa da opressão e violência.
  2. Relativismo Moral Interno: A narrativa revela uma moral interna ao grupo, onde há regras claras (como os 45 mandamentos do PCC). No entanto, essas regras são ética e legalmente questionáveis, pois incitam violência e retribuição em vez de justiça.
  3. Consequencialismo: Lelé, o personagem principal, opera sob um sistema ético fortemente consequencialista. Ele toma decisões baseadas no que beneficiará sua própria posição dentro da organização, mesmo que isso implique em atos de violência extrema.

Análise Moral

  1. Normas e Valores do Submundo: No contexto do mundo criminoso em que Lelé está inserido, ele é retratado como alguém ‘forte’ e ‘astuto’. Seus atos, embora moralmente repreensíveis do ponto de vista da sociedade em geral, são valorizados dentro dessa subcultura.
  2. Questão da Lealdade e Traição: Lelé enfrenta dilemas morais específicos, como a lealdade ao grupo versus a autopreservação. A ‘talaricagem’, por exemplo, é vista como um ato grave de deslealdade, punível de acordo com as regras do grupo.
  3. Desumanização e Falta de Empatia: A narrativa também explora a falta de empatia e a desumanização como traços valorizados nesse ambiente. Isso é evidente quando Lelé toma a decisão de eliminar Beleza para se proteger.
  4. Contraste com a Moral Socialmente Aceitável: O texto faz um esforço em mostrar que, mesmo dentro de um ambiente com normas e regras tão distintas, há um tipo de ordem e hierarquia que faz sentido para os envolvidos, ainda que completamente alheias ao que é socialmente aceitável.

Em suma, a narrativa se encontra em um espaço moral e ético alternativo, regido por princípios muito distintos daqueles que a sociedade em geral considera aceitáveis. Este é um espaço onde a ética da sobrevivência supera a ética da civilidade, e onde a moral é frequentemente flexionada para atender às necessidades ou desejos de poder e segurança individual. O texto, portanto, oferece uma visão perturbadora, mas elucidativa, de como funcionam as dinâmicas de poder e moralidade dentro de organizações criminosas.

Análise sob o Prisma da Cultura

O texto apresenta uma intrincada trama que aborda as complexas dinâmicas dentro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A partir de uma análise cultural, vários aspectos saltam à vista:

  1. Normas e Valores Culturais do PCC
    O texto mergulha na cultura do PCC, explorando seus códigos e regras internas. A “talaricagem”, por exemplo, é retratada como uma ofensa séria, alinhada com as regras da organização. Esse é um reflexo de como certas normas sociais podem ser reconfiguradas ou intensificadas em contextos específicos, como é o caso do mundo do crime organizado.
  2. Linguagem e Terminologia
    O texto utiliza um jargão específico que reflete o ambiente cultural do PCC e do submundo do crime. Termos como “Sintonia”, “Tribunal do Crime”, e “Disciplina” não são apenas títulos ou descrições, mas sim signos culturais que carregam significado e peso dentro dessa comunidade específica.
  3. Mobilidade Social Dentro da Organização
    O protagonista Lelé, através de sua astúcia e habilidades de sobrevivência, consegue ascender dentro da hierarquia do PCC. Isso sugere uma forma particular de mobilidade social dentro dessa cultura, baseada não em educação formal ou origem social, mas em astúcia, coragem e até mesmo brutalidade.

Em resumo, o texto oferece uma visão multifacetada e complexa da cultura do PCC, servindo como um microcosmo que exemplifica as regras, normas, e complexidades desse universo. A análise dessa narrativa através da lente cultural revela não apenas os códigos de conduta dentro dessa organização, mas também os modos de operação e sistemas de crença que sustentam tal subcultura.

Análise sob o prisma da psicologia

Para analisar o texto do ponto de vista psicológico, podemos abordar vários aspectos que caracterizam os personagens e as dinâmicas de poder e sobrevivência dentro da facção criminosa, o Primeiro Comando da Capital.

  1. Astúcia e Inteligência Emocional de Lelé: Lelé é retratado como um indivíduo que entende bem a dinâmica e as regras não escritas do mundo do crime. Ele é astuto e usa essa astúcia para manobrar pelas complexas estruturas do PCC. A inteligência emocional também desempenha um papel crucial aqui, ajudando-o a avaliar rapidamente as situações e as pessoas, permitindo que ele tome decisões que o mantenham vivo.
  2. Autoeficácia e Autoconfiança: Lelé confia em suas próprias habilidades para navegar por situações perigosas. Essa autoconfiança pode ser vista como uma forma de autoeficácia, que é a crença na própria capacidade de executar tarefas e alcançar metas. Esta é uma característica muitas vezes necessária em ambientes de alto risco e incerteza.
  3. Vingança e Agressão: O personagem de Lelé não é apenas um sobrevivente, mas também um predador no ecossistema do crime. Ele sente a necessidade de se vingar quando ameaçado, o que pode ser interpretado como um mecanismo de defesa agressivo para desencorajar futuras ameaças.
  4. Falta de Empatia e Moralidade Flexível: A falta de hesitação em tomar medidas extremas, como o homicídio, reflete uma falta de empatia e uma moralidade flexível que se adapta às necessidades da sobrevivência dentro do contexto criminoso.
  5. Ambição e Motivação para o Poder: Lelé é movido por uma vontade de subir na hierarquia do mundo do crime. Essa motivação extrínseca pode mascarar ou complementar outras necessidades psicológicas, como a busca por respeito, segurança ou mesmo um sentido distorcido de pertencimento.
  6. Adaptação e Flexibilidade: Lelé mostra uma capacidade de adaptar-se às circunstâncias. Esta é uma habilidade psicológica crucial em ambientes instáveis. A capacidade de mudar de tática e estratégia de acordo com a situação é um traço valioso que provavelmente contribui para sua sobrevivência e ascensão dentro do grupo.
  7. Uso Estratégico de Relações Sociais: Lelé utiliza suas relações dentro do grupo para obter informações e apoio. Ele entende o valor do capital social e o usa para sua vantagem.
  8. Pressão Social e Conformidade: Há um conjunto de regras e mandamentos dentro do PCC que todos os membros devem seguir. O medo de punição serve como um forte mecanismo de controle social que influencia o comportamento dos membros, incluindo Lelé.
  9. Realismo e Cognição Situacional: Finalmente, Lelé também demonstra uma percepção muito realista de seu ambiente, entendendo tanto suas limitações quanto suas oportunidades. Este é um aspecto crítico da cognição situacional, que é vital em cenários de alta pressão e risco.

Em resumo, o texto apresenta uma tapeçaria complexa de traços psicológicos, estratégias de sobrevivência e dinâmicas sociais que refletem a realidade brutal e complexa do mundo do crime organizado. Cada decisão feita pelos personagens pode ser vista como um cálculo cuidadoso para maximizar as chances de sobrevivência e poder dentro deste sistema perigoso e instável.

Análise sob o prisma Econômico

A narrativa pode ser analisada sob diversas óticas, incluindo a econômica. Aqui estão alguns pontos que ressaltam as implicações econômicas da história:

  1. Custos de Oportunidade: Lelé pondera os riscos e benefícios de suas ações em termos de sobrevivência e ascensão na hierarquia criminosa. Seu objetivo é maximizar seu próprio ‘lucro’, o que, neste contexto, pode ser a preservação da vida e a elevação de status. Isso envolve o cálculo econômico dos custos e benefícios de cada ação.
  2. Economia de Recursos: Lelé utiliza recursos disponíveis (seus contatos, informações e agentes de confiança como Gordão e Pezão) de forma eficiente para alcançar seus objetivos. Isso reflete uma gestão cuidadosa dos recursos, algo crucial em qualquer sistema econômico.
  3. Mercado de Informações: A informação é tratada como um bem valioso. Lelé recebe informações vitais de um contato no “lava-jato”, que o ajuda a tomar decisões informadas. Essa informação tem valor econômico dentro da narrativa, uma vez que pode significar a diferença entre vida e morte.
  4. Capital Social: Lelé possui um capital social considerável que ele emprega para evitar sua morte e até mesmo ascender na organização. Em termos econômicos, o capital social pode ser muito valioso e é muitas vezes crucial para o sucesso de empreendimentos e negociações.
  5. Análise de Risco: Lelé, conscientemente ou não, faz uma análise de risco ao considerar as consequências potenciais de suas ações. Ele decide que eliminar Beleza seria mais benéfico para ele do ponto de vista de risco e recompensa, algo que é frequentemente calculado em decisões econômicas.
  6. Sistemas de Incentivos: O PCC possui seus próprios sistemas de incentivos e punições, algo que também é característico de sistemas econômicos. O medo da punição e a esperança de recompensa (neste caso, a elevação na hierarquia da organização) são fortes incentivadores do comportamento de Lelé.
  7. Ajustamento de Estratégias: A flexibilidade e adaptabilidade mostradas por Lelé podem ser vistas como uma reação às “condições de mercado” em constante mudança dentro da facção criminosa. O ambiente é dinâmico e requer ajustes constantes, algo comum em economias complexas.
  8. Gestão de Marca e Reputação: Lelé busca ativamente melhorar sua “marca” dentro da organização. No mundo econômico, a marca e a reputação são ativos intangíveis mas extremamente valiosos.

Em resumo, a história de Lelé pode ser vista como um estudo de caso sobre como as decisões são tomadas em um ambiente com recursos limitados, informações incompletas e riscos elevados, temas que são essenciais em economia.

Análise sob o prisma da Segurança Pública

Do ponto de vista da Segurança Pública, o texto traz diversas questões preocupantes que merecem análise detalhada:

  1. Eficácia dos Órgãos de Segurança
    É alarmante que personagens como Lelé consigam operar com tanto grau de complexidade e eficiência dentro da estrutura criminosa, o que leva a questionar a eficácia dos órgãos de segurança em penetrar essas redes e desarticular suas atividades.
  2. Regras Paralelas e Justiça Própria
    A existência de um “Tribunal do Crime” e um código próprio (“os 45 mandamentos”) dentro da facção demonstra que estamos diante de um “Estado paralelo”, onde o grupo criminoso toma para si as funções de legislar, julgar e executar, funções estas que em uma sociedade democrática deveriam ser exclusivas do Estado. Isso mina a autoridade do sistema legal oficial e é uma ameaça direta ao Estado de Direito.
  3. Cultura de Violência
    O texto retrata a naturalização da violência, onde matar um rival é apenas mais um passo na consolidação do poder. Tal cultura não apenas perpetua o ciclo de violência, mas também torna mais desafiador o trabalho de reintegração social desses indivíduos.
  4. Inteligência e Estratégia Criminal
    O personagem Lelé demonstra um alto grau de astúcia e inteligência estratégica. Ele é adaptável e sabe explorar as fraquezas do inimigo, habilidades estas que o tornam um adversário difícil para as forças de segurança. Isso sublinha a necessidade de uma abordagem mais sofisticada por parte das autoridades, que deve incluir inteligência policial avançada e estratégias coordenadas para combater essas redes criminosas.
  5. Dilemas Éticos e Morais
    Por fim, o texto também levanta questões éticas e morais, como a aparente recompensa que o crime organizado oferece a indivíduos que são eficientes, mas imorais e desumanos. Isso cria um cenário onde as normas e valores sociais são invertidos, o que é particularmente problemático do ponto de vista da segurança e bem-estar públicos.

Em resumo, o texto evidencia a complexidade e a multi-dimensionalidade do desafio que o crime organizado representa para a segurança pública. Ele aponta para a necessidade de abordagens multidisciplinares que vão além da simples aplicação da força, exigindo um entendimento mais profundo dos aspectos sociais, psicológicos e estruturais que sustentam essas organizações criminosas.

Análise sob o Prisma Jurídico

Sob o ponto de vista jurídico, é crucial salientar que o texto aborda diversas condutas que seriam criminalmente puníveis sob a legislação brasileira. A seguir, destaco alguns pontos:

Aspectos Jurídicos Abordados no Texto:
  1. Associação Criminosa: O texto faz menção ao PCC como uma facção criminosa, o que poderia ensejar o crime de associação criminosa previsto no artigo 288 do Código Penal Brasileiro.
  2. Homicídio Qualificado: O enredo descreve a morte planejada de um indivíduo chamado Beleza, o que configura homicídio qualificado, dado o aspecto premeditado.
  3. Tráfico de Influência e Corrupção: Há também a sugestão de que Lelé utilizou contatos dentro da facção para se proteger, o que pode ser interpretado como tráfico de influência ou mesmo corrupção, dependendo das circunstâncias.
  4. Vigilantismo e Justiça Paralela: A existência de um “Tribunal do Crime” dentro da facção indica a prática de justiça paralela, o que é totalmente contrário aos princípios do Estado Democrático de Direito.
  5. Ameaça e Coação: A simples ameaça ao indivíduo chamado Beleza, antes de sua morte, também seria classificada como crime sob a lei brasileira.
  6. Regras e Mandamentos do PCC: O texto menciona o termo “talaricagem” como sendo um dos mandamentos do PCC. Do ponto de vista jurídico, a existência dessas “regras” internas pode ser usada como evidência de uma organização criminosa bem estruturada, o que pode levar a penas mais graves.
Análise Jurídica da Estrutura e Organização:

O texto apresenta uma estrutura hierárquica e organizacional da facção, mencionando cargos como “Sintonia” e “Disciplina”. Esse tipo de organização pode ser utilizado pelo sistema de justiça para qualificar a facção como organização criminosa, prevista na Lei n. 12.850/2013, o que leva a sanções mais severas.

Decisões Morais e Éticas versus Jurídicas:

O texto também levanta questões éticas, como a flexibilidade moral de Lelé em cometer atos violentos para ascender ou manter seu status. É importante sublinhar que, do ponto de vista jurídico, a motivação pessoal para cometer um crime geralmente não atenua a responsabilidade penal, salvo em circunstâncias muito específicas previstas em lei.

O Papel do Direito na Regulação da Ordem Social:

O texto em si pode ser visto como uma crítica ou exposição da falha do sistema jurídico em regular eficazmente a ordem social, levando à formação de ‘ordens’ e ‘leis’ paralelas dentro de grupos criminosos. Este é um aspecto que é objeto de estudos no campo da criminologia.

Em resumo, o texto apresenta uma narrativa que, se transposta para a realidade, envolveria múltiplas infrações ao Código Penal Brasileiro e à Lei de Organizações Criminosas. A descrição minuciosa dessas atividades ilícitas e da organização da facção pode fornecer uma visão detalhada que é tanto intrigante quanto perturbadora do ponto de vista jurídico.

Análise sob o prisma da Criminologia

  1. Regras e Hierarquia
    O PCC tem regras e hierarquias bem definidas. Lelé, ciente dessas regras, é representado como alguém que sabe como navegar no mundo do crime, demonstrando sua familiaridade com as leis internas e a estrutura da organização. A hierarquia e o respeito pelas regras parecem ser mecanismos de controle social dentro do grupo, reduzindo o caos e aumentando a eficácia da organização.
  2. Comportamento Desviante
    O ato de “talaricagem”, ou seja, o envolvimento com a parceira de outro membro, é considerado um grave delito dentro do PCC, sujeito a punições sérias. Lelé, portanto, não é apenas um criminoso em um sentido legal mais amplo; ele também é um desviante dentro das regras específicas do submundo em que opera.
  3. Táticas de Sobrevivência
    Lelé utiliza estratégias de sobrevivência que são típicas em organizações criminosas, como a obtenção de informações privilegiadas e o uso de agentes infiltrados. Ele também exibe traços de manipulação e estratégia ao identificar e explorar o ponto fraco de seu adversário, neste caso, Beleza, para neutralizá-lo.
  4. Punição e Vingança
    O desejo de vingança e a aplicação de punições são elementos intrínsecos ao funcionamento de muitas organizações criminosas. Nesse sentido, o ato de Lelé de eliminar Beleza não é apenas uma estratégia de sobrevivência pessoal, mas também um ato que se alinha com as normas de punição e retaliação do grupo.
  5. Liderança e Ascensão Social
    Apesar de suas falhas morais e desvios de conduta, Lelé é apresentado como um indivíduo que, por suas ações, ganha respeito e até uma forma de promoção dentro da estrutura do PCC. Isso ilustra uma forma distorcida de mobilidade social dentro da organização criminosa.
  6. Flexibilidade e Adaptabilidade
    A história também aponta para a importância da flexibilidade e adaptabilidade, tanto para o indivíduo quanto para a organização criminosa como um todo. O PCC, ao não punir Lelé e permitir sua ascensão, mostra um certo pragmatismo que pode ser vital para a sobrevivência e eficácia do grupo.

Em resumo, o texto oferece uma rica tapeçaria de elementos criminológicos que refletem tanto a complexidade dos indivíduos envolvidos quanto a da própria organização criminosa. Ele ilustra como traços psicológicos, táticos e sociais interagem dentro de um ambiente regido por suas próprias regras e normas, que, embora desviantes em relação à sociedade em geral, são rigorosamente aplicadas dentro desse submundo.

Análise sob o prisma Estratégico

Para entender a estratégia empregada por Lelé e a dinâmica do cenário descrito, é preciso considerar vários aspectos.

Estratégia de Lelé
  1. Conhecimento do Inimigo: Lelé conhece bem as regras e as estruturas do PCC. Ele não só entende as regras mas também sabe quem são os players envolvidos – Beleza, Disciplina e outros.
  2. Análise de Pontos Fracos: Ele identifica o ponto mais fraco da estrutura que o ameaça, que é Beleza, e não a estrutura do PCC em si, o que seria um alvo muito grande e perigoso para atacar.
  3. Uso de Informações e Recursos: Lelé usa informantes e recorre aos seus aliados Gordão e Pezão para agir contra Beleza de forma indireta.
  4. Adaptabilidade: O personagem mostra-se disposto a adaptar-se às mudanças e novos desafios, evidenciando uma flexibilidade estratégica.
Organização Criminosa e Seu Contexto Estratégico
  1. Hierarquia e Regras: O PCC tem uma hierarquia e um conjunto de regras bem definidos. Quem as desobedece está sujeito a punições severas. Porém, a organização também valoriza força, audácia e poder.
  2. Flexibilidade Estratégica: Em teoria, a organização deveria punir Lelé por desobedecer uma de suas regras fundamentais. No entanto, Lelé se prova útil e capaz, e isso parece oferecer a ele uma espécie de imunidade.

Então, se formos falar sobre o “melhor resultado” para o PCC na região da Cidade Nova / Portal do Éden em Itu, é uma questão debatível. Depende do que a organização valoriza mais: estrita adesão às regras ou a habilidade de manobrar com eficácia no submundo do crime. O texto sugere que o último pode, em certas circunstâncias, superar o primeiro.

Análise sob o prisma da Teoria da Carreira Criminal

A história ilustra diversas características e princípios que são geralmente estudados na teoria da carreira criminal, uma subárea da criminologia que examina o desenvolvimento de comportamentos criminosos ao longo da vida de um indivíduo.

Características e Decisões Pessoais na Carreira Criminal
  1. Astúcia: A história de Lelé sugere que ele é muito astuto e capaz de navegar pelos perigosos terrenos do mundo do crime. Na teoria da carreira criminal, esses traços podem ser vistos como ativos que permitem a alguém estabelecer e manter uma “carreira” bem-sucedida em atividades ilícitas.
  2. Autoconfiança e Habilidade de Autopreservação: Lelé também é retratado como alguém muito autoconfiante, capaz de se proteger. Isso está em conformidade com teorias que ressaltam a importância da autoeficácia e da habilidade de se adaptar a ambientes hostis na persistência de comportamentos criminosos.
  3. Vingança: A vingança é um fator que impulsiona Lelé a tomar medidas extremas, como matar seu acusador, Beleza. Este aspecto da história toca na teoria da carreira criminal ao ilustrar como motivações pessoais e emocionais podem influenciar a escalada de atividades criminosas.
  4. Ambição e Hierarquia: A história apresenta Lelé como uma pessoa ambiciosa que busca subir na hierarquia do PCC. A escalada na hierarquia é um elemento bem estudado na teoria da carreira criminal, pois reflete o nível de comprometimento do indivíduo com uma vida de atividades criminosas.
  5. Falta de Empatia: A falta de empatia de Lelé é outro traço que a literatura sobre carreiras criminais frequentemente associa a criminosos de longo prazo.
Contexto Organizacional e Adaptabilidade
  1. Conhecimento do Inimigo: Lelé sabe como o PCC funciona e como as decisões são tomadas dentro da organização. Ele usa esse conhecimento para sua vantagem, o que é uma característica da adaptabilidade, um traço frequentemente presente em carreiras criminosas bem-sucedidas.
  2. Flexibilidade e Adaptabilidade: Lelé mostra que está disposto a mudar suas estratégias conforme as circunstâncias exigem. Essa flexibilidade é outra característica que a teoria da carreira criminal identifica como crucial para a longevidade e sucesso em atividades criminosas.
  3. Exploração das Fraquezas do Inimigo: A habilidade de Lelé de identificar e explorar as fraquezas dentro da organização demonstra uma compreensão sofisticada de dinâmicas de grupo e poder, outro indicativo de uma carreira criminal bem-sucedida.

Em resumo, o caso de Lelé apresenta múltiplos elementos que são considerados na teoria da carreira criminal para entender como alguns indivíduos conseguem estabelecer e manter uma “carreira” em atividades ilícitas. Ele demonstra habilidades pessoais e adaptabilidade, bem como uma compreensão profunda do contexto organizacional em que opera, fatores que, segundo a teoria da carreira criminal, são fundamentais para o sucesso neste tipo de “carreira”.

Análise da Linguagem do Texto

Certamente o texto é uma narrativa rica em detalhes, contextos e personagens, refletindo a realidade complexa do mundo do crime organizado no Brasil, mais especificamente sobre o Primeiro Comando da Capital.

  1. Uso de Jargão e Termos Específicos
    O texto faz uso extensivo de termos e jargões específicos ao PCC e ao mundo do crime, como “Talarico”, “Sintonia”, “Tribunal do Crime” e “Disciplina”. Esse uso contextualiza o leitor na subcultura que está sendo apresentada e confere autenticidade à narrativa.
  2. Estilo e Tonalidade
    O estilo é narrativo, e o tom é sombrio e tenso. Isso é evidenciado pelo uso de adjetivos e descrições que invocam um sentimento de perigo e fatalidade (“sinistra beira do precipício”, “realidade macabra”). Há uma mistura de formalidade com coloquialismo que faz o texto parecer mais realista.
  3. Estrutura e Fluxo
    O texto segue uma estrutura que começa com um problema (Lelé sendo um “talarico” e, portanto, em perigo dentro do PCC), se desenvolve com um conflito (a decisão de eliminar Beleza para proteger-se) e termina com uma resolução (Lelé sai não apenas vivo mas também mais forte dentro da organização). Isso mantém o leitor engajado e cria uma narrativa completa com início, meio e fim.
  4. Perspectiva Narrativa
    O texto adota uma terceira pessoa que parece onisciente, oferecendo insights não apenas sobre a situação, mas também sobre os sentimentos e pensamentos de Lelé. Isso ajuda a criar uma conexão mais profunda com o personagem.
  5. Intertextualidade
    O texto faz referência a locais geográficos reais e potencialmente a figuras e estruturas conhecidas dentro do mundo do crime organizado. Isso pode criar um sentimento de realismo e urgência.
  6. Implicações Sociais e Morais
    Apesar de ser uma obra de ficção, o texto aborda questões muito reais sobre crime, ética e sobrevivência em ambientes hostis. Embora não glorifique o crime, não evita os elementos mais sombrios e imorais da vida de Lelé.

Em resumo, o texto faz um excelente trabalho ao mergulhar o leitor no mundo do crime organizado, usando uma linguagem e estilo apropriados para o tema. É uma janela para um universo muito específico, proporcionando não apenas entretenimento mas também uma reflexão sobre a complexidade do mundo que está retratando.

Análise do rítmo do texto

Analisar um texto a partir do ponto de vista do ritmo envolve observar elementos como pausas, velocidade, tensão, variação no uso de palavras, entre outros. O texto sobre Lelé e sua relação com o Primeiro Comando da Capital certamente possui um ritmo que emula a tensão e urgência do mundo criminoso em que está inserido.

  1. Começo e Definição do Contexto: O texto começa com frases curtas e informações concentradas, introduzindo rapidamente o ambiente e o personagem principal. Isso atua como um convite quase imediato à leitura.
  2. Construção da Tensão: O uso de palavras como “precipício”, “derradeira sentença”, “realidade macabra” e “sem piedade” ampliam a sensação de risco e urgência. A progressão da história, delineada em etapas bem definidas, contribui para a construção de uma narrativa tensa.
  3. Picos e Vales: O texto não é monótono; ele tem seus momentos de pico e seus vales. Por exemplo, a seção “O USO DE AGENTES INFILTRADOS” funciona como um pico, revelando um momento crucial. Logo após, temos uma espécie de vale onde o texto entra em uma análise mais detalhada dos traços de personalidade de Lelé.
  4. Uso de Terminologia Específica e Detalhes: A inserção do “Dicionário do Primeiro Comando da Capital” e o uso de nomenclaturas como “Sintonia”, “Tribunal do Crime” e outros termos técnicos do universo criminoso acrescentam profundidade e um tipo de realismo ao texto. Isso pode ser visto como uma mudança de ritmo, pois nos faz pausar e refletir sobre o contexto mais amplo.
  5. Conclusão e Reflexão: O texto termina com um tom quase filosófico, questionando as noções de força, sucesso e moralidade dentro do mundo do PCC. Isso age como um desacelerador do ritmo frenético estabelecido anteriormente, oferecendo ao leitor um momento para reflexão.
  6. Comentários Analíticos: O texto também faz uma pausa no seu ritmo narrativo para entrar em um modo mais analítico. Aqui, o texto avalia as características de Lelé que o tornam apto para sobreviver e prosperar dentro do mundo criminoso, que poderia ser visto como um “ritmo dentro do ritmo”.

Em resumo, o ritmo deste texto é cuidadosamente construído para manter a atenção do leitor, variando entre ação, reflexão e análise, refletindo assim a complexidade e a tensão do mundo que ele descreve. É um excelente exemplo de como o ritmo pode ser usado efetivamente para aumentar o impacto de um texto.

Análise do Estilo de Escrita

  1. Linguagem e Tom
    O texto usa uma linguagem que tenta aproximar-se tanto do jargão popular como do discurso mais formal, dando uma espécie de legitimidade narrativa. Isso facilita a imersão do leitor no universo do crime organizado.
  2. Estrutura
    A narrativa é linear, focada principalmente no personagem Lelé e suas manobras para sobreviver dentro da estrutura do PCC. O autor intercala informações sobre a facção, suas regras e sua hierarquia, tornando o texto informativo bem como narrativo.
  3. Descrição dos Personagens
    Os personagens são descritos de forma a apresentar suas características psicológicas sem entrar em muitos detalhes físicos. A descrição de Lelé como “astuto”, por exemplo, é revelada através de suas ações e decisões ao longo do texto. O mesmo vale para outros personagens, cujos traços são delineados por suas ações ou pela posição que ocupam dentro da facção.
  4. Elementos Factuais e Ficcionais
    O texto mistura elementos factuais sobre o PCC, como a descrição dos “45 mandamentos”, com elementos ficcionais. Isso serve para contextualizar o leitor e adicionar uma camada de autenticidade à narrativa.
  5. Ponto de Vista
    O texto é narrado em terceira pessoa, o que permite uma visão mais ampla dos eventos e personagens. Isso também facilita a inclusão de elementos informativos sem romper a continuidade da narrativa.
  6. Estilo de Escrita
    O estilo é objetivo, embora carregado de tensão e suspense. A escolha de palavras como “sinistra”, “macabra”, e “impiedoso” adicionam uma dimensão emocional, mantendo o leitor envolvido. Ainda assim, o texto evita floreios linguísticos desnecessários, mantendo-se focado nos eventos e nos personagens.
  7. Técnica Literária
    O texto se utiliza de diversas técnicas literárias, como o foreshadowing (antecipação), para construir suspense. Por exemplo, a menção do “Tribunal do Crime do PCC” cria uma sensação de iminência e perigo que se mantém ao longo da narrativa.

O texto é uma mistura de reportagem e conto, utilizando técnicas literárias para acrescentar profundidade e emoção a uma narrativa que também busca informar. O estilo de escrita é, portanto, uma fusão eficaz de elementos jornalísticos e literários, criando uma narrativa rica e envolvente que serve tanto para entreter quanto para educar.

Análise Estilométrica do Texto

Em minha opinião, o texto consegue alcançar o que se propõe: descrever o mundo de um personagem imerso em uma organização criminosa, tornando palpável a tensão e as complexas decisões morais que tal ambiente pode gerar. Também destaca o fato de que a inteligência e estratégia podem prevalecer mesmo em ambientes violentos e perigosos, que não são espaços exclusivos de pessoas sem educação formal.

A análise estilométrica revela que o autor tem uma boa compreensão tanto da linguagem formal quanto do jargão associado ao mundo que descreve, conseguindo misturar ambos de forma habilidosa para criar um texto envolvente e informativo.

Análise do perfil psicológico do autor pela obra

A análise do perfil psicológico do autor do texto revela um profundo interesse e entendimento do funcionamento das organizações criminosas, especificamente o Primeiro Comando da Capital. O autor apresenta uma visão complexa e detalhada das regras, hierarquias e dinâmicas de poder dentro dessa organização. O tom do texto é um misto de fatalismo e realismo brutal, capturando a essência da vida no submundo do crime, onde a violência e a traição são consideradas ferramentas válidas para a sobrevivência.

Características notáveis:
  1. Conhecimento Especializado: O autor está bem informado sobre o funcionamento do PCC, incluindo sua linguagem, suas regras e suas dinâmicas internas. Isso sugere um estudo sério ou uma experiência direta com o tema.
  2. Estilo Narrativo: O texto utiliza uma forma narrativa para discutir as complexidades éticas e morais associadas ao mundo do crime. Isso pode refletir uma tentativa de humanizar os personagens e tornar a informação mais acessível.
  3. Enfoque em Estratégia: O texto se aprofunda na estratégia e táticas, sugerindo que o autor valoriza o pensamento estratégico e é capaz de analisar situações complexas de forma aprofundada.
  4. Tom Somério: O autor adota um tom que não julga os personagens, ao invés disso, ele os apresenta como produtos do ambiente em que estão inseridos. Isso pode indicar uma abordagem mais objetiva, focada em entender o fenômeno em vez de emitir juízos de valor.
  5. Análise Psicológica: O autor também tenta se aprofundar na psicologia dos personagens, atribuindo-lhes características como astúcia, falta de empatia, e ambição. Isso sugere um interesse nas motivações humanas e nas complexidades do comportamento individual.
  6. Complexidade Moral: O autor parece estar interessado nas complexidades morais do mundo que descreve. Não há uma clara demonização ou glorificação dos personagens, o que sugere uma visão mais nuançada da moralidade dentro desse contexto específico.

O autor demonstra um grau significativo de sofisticação em sua abordagem ao tema. Ele parece ser altamente informado e capaz de pensar de forma crítica e estratégica sobre as complexidades do mundo do crime. Além disso, o uso de um estilo narrativo sugere um talento para a escrita e para comunicar ideias complexas de uma forma que seja ao mesmo tempo envolvente e informativa. Tudo isso indica uma pessoa que é tanto analítica quanto criativa, com um forte interesse em entender a complexidade humana em contextos extremos.

O que é o sintonia do PCC? O que significa sintonias no PCC?

Sintonia do PCC. Sintonia não é apenas uma palavra, uma idéia ou uma função dentro da organização criminosa. Sintonia é a base de tudo no PCC

Sintonia do PCC: luz guia nas trevas

Assim começa o comunicado de um Sintonia do PCC:

Um forte e sincero e leal abraço a todos os irmãos e companheiros.

Inicialmente o “sintonia” que for transmitir para os “irmãos” e “companheiros” deve com respeito lembrar a todos que só com a conscientização é possível alcançar a PAZ, mesmo que dentro das muralhas, dos difíceis ambientes e situações que os soldados da facção e suas famílias estejam.

Introdução da Cartilha do Primeiro Comando da Capital

Afirmar que a facção é invensível não é verdade, mas em Deus tudo é possível, até sobreviver no inferno.

Como controlar as feras que vivem dentro de nós? Como controlar as feras que vivem no Mundo do Crime?

Sintonia: apenas os que vivem em sintonia conseguirão sobreviver e andar nas trevas de nosso mundão.

Complexidade como forma de sobrevivência

A organização criminosa Primeiro Comando da Capital é tão complexa que nem mesmo Marcola ou os 14, conhecem todas as engrenagens.

E é assim que tem que ser.

Um pequeno vírus sobrevive no mundão graças ao seu grande poder de mutação.

Quando os anticorpos aprendem seu funcionamento, o vírus já mudou, já não é o mesmo.

E assim acontece com a facção PCC 1533:

As lideranças estavam dispersas: o governo achou que a divisão deixava a facção forte e incontrolável, então juntaram toda a liderança em Presidente Venceslau.

O governo fez um show na televisão com os líderes do Primeiro Comando da Capital sendo transferidos para o P2 em Presidente Venceslau:

Agora o PCC acabou!

apregoram os de sempre

As lideranças juntas se reestruturaram: o governo achou que a união dos líderes deixou os caras mais fortes e incontroláveis, novamente as separaram.

O governo fez um show na televisão com os líderes do Primeiro Comando da Capital sendo transferidos para os Presídios Federais:

Agora o PCC acabou!

apregoram os de sempre

Vai pensando. Vai sonhando. A transferência causou mais uma mutação na facção que continua tão forte quanto antes com a criação da Sintonía dos 14.

O sucesso da organização criminosa PCC é essa complexa estrutura de sintonias independentes, em permanente mutação mas trabalhando em harmonia para o progresso do conjunto.

Sintonía do PCC é a base da facção

Sintonia do PCC não é apenas uma frase, não é apenas um termo.

Sintonia do PCC é a sua razão de existir, de entender o Mundo do Crime e a sociedade.

Foi por falta de sintonia entre o Governo do Estado e a comunidade carcerária que os ataques do Primeiro Comando da Capital ocorreram em 2006.

Graças a perfeita sintonia entre a comunidade carcerária e o mundo do crime nas ruas que os ataques do PCC de 2006 pararam São Paulo.

Sintonía quer dizer correr-lado-a-lado, estar junto na mesma caminhada, ligar a prisão às ruas, quando estão plenamente dentro dos objetivos da facção o integrante está em uma sintonia total ou sintonía 100%.

Não só os irmãos e companheiros que estão em sitonia: hip hoppers, educadores, oficineiros, artistas, blogueiros, ravers, skatistas, pichadores, e qualquer um que queira a pacificação das ruas e justiça para quem está nos presídios.

A teoria na prática é outra

Para preservar a vida de todos nossos irmãos e se precisar de qualquer apoio para sair busque a sintonia de seu estado e se não tiver apoio busque a hierarquia acima.

Mas deixamos claro que aquele que for para a rua tem a obrigação de manter contato com a Sintonia da sua quebrada ou da quebrada que ele estiver.

Os integrantes que estiverem na rua e passando por algum tipo de dificuldade, poderão procurar a Sintonia para que o Comando possa ajudar ir para o corre, deixando claro que o intuito da organização é fortalecer todos os seus.

No entanto, aqui no site, recebo muitas solicitações de ajuda de irmãos e companheiros que tem dificuldade encontrar sua sintonía após saírem do Sistema Carcerário.

Com exceção de São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul, é comum receber mensagens de integrantes perdidos sem conseguir sintonizar o comando.

Lembrando que o irmão ou Disciplina de uma quebrada ou cidade tem acesso ao Sintonía de sua região e não ao Sintonía dos Estados, e assim por diante.

Sintonia do PCC é tudo e nada existe sem sintonía

Talvez por isso os “sintonias” da organização criminosa Primeiro Comando da Capital sejam peças tão fundamentais para a facção criminosa paulista PCC 1533.

Dentro da hierarquia do PCC os sintonias tem a função de harmonizar as ações e o pensamento das partes dispersas e compartimentadas da organização.

Foi a forma criada para impedir que a organização criminosa se fragmenta-se mesmo que perseguida por agências policiais de diversos níveis em todo o mundo,

Mesmo investigadores especialistas no Primeiro Comando da Capital não tem condições de entender a complexidade das partes que formam a complexa engrenagem sempre em mutação.

Mas até onde podem chegar as sintonias?

… se prepara, mas sem alarmar a todos e quanto todo o sistema no Brasil tiver nessa mesma sintonia e lá fora a gente tiver uns 2 dep. federal ou senador […] nas mãos, nós damos nosso grito de guerra: “Paz, justiça e liberdade.”

O que nos preocupa atualmente é a firme disposição da facção de espalhar seus líderes por todos os presídios em Sintonia (…) o objetivo da facção é espalhar os seus líderes pelo interior para fortalecer as regiões que, como eles chamam, não estão na Sintonia.

Espalhai-vos sobre os presídios abundantemente

O Sintonía do PCC: metodologia do caos

Cada sintonía é liderada por um “irmão” batizado da facção paulista PCC 1533.

Diferentemente de outros grupos criminais e mafiosos baseados em laços familiares, a pessoa não é fundamental, e sim a função, como em uma empresa.

Um “irmão” que seja sintonía de uma região ou setor, pode passar a outra posição ou região de acordo com os interesses da Família 1533.

O Barone, escolhido para ser o Sintonia da tranca do Complexo de Gericinó no Rio de Janeiro pelo paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) em parceria com a facção aliada Terceiro Comando Puro (TCP).

Por um estranho acordo, Barone não respondia ao “Sintonia do estado do Rio de Janeiro” ou ao “Sintonia geral das trancas do Rio de Janeiro”.

Barone que não era nem paulista e nem carioca. Veio de Belém do Pará, mas por alguma razão continuava a responder manter a Sintonia Geral de Pernambuco que o indicou para assumir a Sintonia da Tranca no Rio de Janeiro.

Um flash sobre a expansão do PCC no Rio de Janeiro

O Sintonía do PCC: integrando as partes

O sintonía é o responsável por tomar decisões e coordenar as atividades dentro de sua região e de sua especialidade em harmônia com o todo.

Na sua grande maioria, os sintonias são responsáveis por diferentes áreas de atuação da organização criminosa: tráfico de drogas e armas, assaltos, lavagem de dinheiro…

Cada setor do PCC atua de forma totalmente independente do conjunto, por isso a importância de todas as partes seguirem sintonizadas.

A liderança dos 14 precisa harmonizar as disputas constantes entre as diversas sintonias: Trancas, Progresso, Ruas, Interior, Capital, Financeiro, Rifa, Disciplinas… — a tensão é constante.

SintonIa do PCC: segurança, lucro e Família

O PCC não pode ser visto como fonte de lucros ou ganhos financeiros para seus líderes, e nem pode privilegiar pessoalmente seus integrantes conforme a posição ocupada mesmo para suas lideranças máximas.

Os irmãos que assumem cargos não tem salário ou ganhos diretos, só despesas com o cargo, mas com essas responsabilidades ganham moral e visão, abrindo portas para bons negócios.

Conhecer e ter acesso a mercados relevantes no mundo do crime cujas portas são abertas à poucos é um diferencial enorme para conseguir bons negócios.

Dessa forma, a facção opera de forma eficiente e segura, minimizando os riscos de infiltração policial e maximizando os lucros do crime.

Um negócio para poucos: pensar nos irmãos

Existem sintonias que podem gerir e negociar capitais, equipamentos e mercadorias da facção e obter lucros pessoais com isso, mas esses não podem ser abusivos.

No entanto, o intúito do irmão que pretende assumir um posto de liderança não deve ser nem o lucro e nem o poder, mas o que pode fazer pelos seus irmãos.

Aí pegamo firme, pegamo firme não, eu peguei firme. Trouxe a roupa do mundão. Depois consegui a comida do mundão. Aí, eu e o Fabrício começamo a botar o bagulho pra andar. E tava indo legal.

Você tá ali na frente da cadeia pra isso, é primeiro eles, depois nóis [os disciplinas]. Esse é o procedimento, é o fundamento da faxina. Se você for entrar pensando que você vai ter tudo, que você só vai ganhar e não vai contribuir, você tá muito enganado.

Coesão e Cobrança

Além disso, o sistema de sintonias mantém a disciplina e a coesão interna da facção, garantindo que as ordens da liderança sejam cumpridas.

Em caso de descumprimento das orientações das lideranças ou quando algum irmão foge dos princípios da facção ele pode ser punido por agir isoladamente.

Sintonia Fina: para não ter mal entendido

“Sintonia fina” é o termo usado na facção para se referir ao processo de comunicação e coordenação interna entre seus membros.

Entre criminosos todo cuidado é pouco e o clima é sempre tenso, mesmo dentro da Família, então é fundamental que o “papo esteja sempre reto”.

Esse processo é muito rigoroso para garantir que as diferentes células ou associados em todos os estados e países atuem de maneira coesa e segura.

A “sintonia fina” refere-se ao sistema de comunicação entre essas células e facções, que é baseado em um conjunto de regras e protocolos rigorosos.

Esses protocolos incluem a utilização de códigos secretos, comunicação criptografada, regras de conduta e punições para membros que não cumprem as regras estabelecidas.

O certo pelo certo o errado será cobrado

Cobrando de bate pronto os que não correm pelo comando, não correm pelo certo, não estão em sintonia com a ética do crime.

… zuando a quebrada, vou falá pra você, eu cheguei ontem na sintonia lá, falei pro irmão que eu preciso de aval para batizar uns quarenta e matar uns dez pra poder arredondar a regional aqui, irmão.

Allan de Abreu – Cocaína: A Rota Caipira

Assim, há um alto grau de coordenação e controle, permitindo o planejamento e execução de operações complexas, como tráfico de drogas, extorsões, sequestros e assassinatos.

A “sintonia fina” também é usada para resolver conflitos internos e manter a lealdade dos membros, o que é essencial para a sobrevivência da organização.

Os diversos níveis e setores das Sintonias do PCC

Os 14 — A Sintonia dos 14

A Sintonia Final ou Sintonía Geral Final foi substituída pela “Sintonia dos 14”. O Disciplina pega o “contexto das idéias” e manda para os “14”.

Os “14” analisam junto com o resumo e passam a visão para o Disciplina, Resumo e por fim para o Torre.

Se o caso envolve um “decreto” ou “check”, pode levar a vida de alguém ou uma situação entre facções, o Resumo tem que ser ouvido.

Os decretos, comuns no mundo do crime, são previstos no Estatuto e no Dicionário do PCC, mas são sempre processos complexos, mesmo para as lideranças.

O nome “Sintonia dos 14” possívelmente faz referência aos 14 líderes que compunham a antiga “Sintonia Final” em Presidente Bernardes. e mantêm basicamente três níveis hierarquicos: a “Sintonia dos 14”, a “Sintonia dos Estados” e a “Sintonia das Regiões”.

Sintonía Geral Final ou Sintonía Geral Fina (W2 P2 ou SGF)

Como a mudança para a “Sintonia dos 14” é recente, mantenho aqui os dados da Sintonía Geral Final, mas deixando ciente que não está mais ativa.

A “sintonia final” é o topo da hierarquia do Primeiro Comando da Capital e é composta pelos líderes mais graduados da facção.

Eram também conhecidos com W2 ou P2 por estarem os líderes concentrados no Presídio de Segurança Máxima de Presidente Venceslau em São Paulo.

A “sintonia final”, responsável por tomar as decisões mais importantes e estratégicas da organização, é formada por aproximadamente 14 integrantes.

Esses “irmãos” ocupam os mais altos níveis hierárquicos da organização e são responsáveis por coordenar as atividades da facção em todos os países.

Eles definem as estratégias de atuação, estabelecem alianças com outras organizações criminosas e tomam as decisões mais importantes e arriscadas da facção.

Líderes que decretam a morte de outros líderes

As principais lideranças do PCC podem ser enquadradas para responder por suas atitudes pela “Sintonía Final”, como foram os casos de GG, Paka e Pavão.

De lá partiram decisões como as ordens para executar integrantes da alta liderança como Gegê do Mangue e Paka que não estariam agindo de acordo.

Gegê do Mangue fez parte da “Sintonia Final” e foi quem teve a ideia de implantar a rifa paralela do PCC nos outros estados, e apesar de sua importância na facção ele foi condenado à morte pela própria Sintonía Final por enriquecer de maneira indevida com o dinheiro da facção.

A cobrança dentro da prisão paraguaia de Jarvis Gimenes Pavão para entender sua atitude de comercializar com o Comando Vermelho veio dessa instância.

Também de lá partiu em 2016 a ordem para a execução de Jorge Rafaat Toumani e outras lideranças rivais da organização.

Assim como decretar guerra, à paz e a associação a outros grupos criminosos passam por essa liderança.

Foi  a Sintonía Geral Final que acolheu e fez virar realidade a proposta do irmão Moreno que a aliança com o Comando Vermelho fosse quebrada.

Lideranças que planejam o crescimento

É de lá também que sai a decisão final de liberar rebeliões em presídios ou ataques nas ruas.

Roberto Soriano, o Tibiriçá, fazia parte da “Sintonía Final” quando desenvolveu o chamado “Projeto Paraguai” em 2010 que ampliou a ação do PCC naquele país.

São eles que tornam o PCC 1533 uma das organizações criminosas mais temidas do Brasil e um grande desafio para as autoridades que tentam combatê-lo.

Apesar dos esforços das autoridades em isolar essas lideranças suas ordens continuam, ainda hoje atravessando as muralhas das prisões e chegando às ruas.

Muitos advogados, parentes dos presos e funcionários são investigados e por vezes presos por servirem de despachantes para essas lideranças.

Lideranças que foram treinadas pelo melhor

A ideia de formar esse núcleo central decisório nasceu do contato que Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e outros líderes tiveram com Norambuena.

Mauricio Hernandez Norambuena, esteve preso junto com os PCCs era um ex-guerrilheiro chileno e comandante da organização político-militar Frente Patriótica Manuel Rodríguez.

Norambuena trouxe para o PCC sua experiência em lutas políticas e de guerrilha, e logística militar, entre elas a formação de um politburo. 

Esse órgão fundamental nas lógica soviética consistia em um comitê central com capacidade de gerir núcleos independentes em diversos níveis e funções e regiões.

Sendo assim, a “Sintonía Final” não tem um limite territorial definido, ao contrário de todos os outros níveis de sintonía da organização criminosa.

Lideranças que agem como Conselheiros Administrativos?

O objetivo principal da “Sintonia Final” é lutar pelos ideais da “Família 1533”, o crescimento e o progresso da organização e seus integrantes.

É muito comum se confundir Marcola e a “Sintonía Final” do PCC com o CEO (Chief Executive Officer) e o Conselho Administrativo de uma empresa.

No entanto, diferentemente de uma empresa onde seus administradores visam o lucro, na facção a função é uma missão que pode custar a vida.

Julinho Carambola foi por algum tempo o porta-voz e secretário-geral da Sintonía Geral.

A Sintonia do Progresso

O tráfico de drogas é o carro chefe da facção, e a Sintonia do Progresso é a responsável pelo comércio das drogas da organização criminosa.

A cúpula desse setor é a Sintonia do Progresso Final, sob as quais ficam as Sintonias dos Estados, Países e Regiões.

A “Sintonía do Progresso” é dividida em “Sintonía da FM” e “Sintonía da 100%”, a primeira gere as drogas batizadas distribuídas ao público nas biqueiras, e a segunda a droga pura que entra nos presídios.

A Sintonia dos Estados e Países ou Sintonía Geral dos Estados e Nações

Esta Sintonia pela sua complexidade e tamanho é dividida por regiões: Norte, Sul, Sudeste e Centro-Oeste — havendo mais de um sintonía para cada região.

A Sintonia dos Estados e Países tem a função de manter a coesão de cada região dentro das normas gerais da facção e das lideranças.

Cabe a esses Sintonias participar em conjunto dos “decretos”, julgamentos que podem resultar em morte do acusado, para que não seja cometido injustiças.

… de dois policiais da mesma corporação “”sangue derramado se cobra do mesmo modo”), tendo sido determinado o prazo de dez pias para cumprimento da “missão”, sob pena de a inércia ensejar “punição” por ordem da “Sintonía” da região.

PCC a organização criminosa primeiro comando da capital

Para isso, os responsáveis pelas Sintonias tem que conhecer profundamente toda a área que lhe foi conferida, seu mercado e seus integrantes.

Desta forma pode potencializar suas ações tanto dentro dos presídios quanto nas ruas, repassando e intermediando  informações dos Sintonias das Trancas e das Quebradas.

Esse elo entre a Sintonía Final e o nível operacional e administrativo é fundamental para o funcionamento da complexa engrenagem da organização criminosa paulista.

A sintonia dos outros Estados e Países e o Resumo Disciplinar dos Estados e Países são duas instâncias vinculadas e que aparentemente se confundem.

Sintonía das Trancas ou Sintonía das Cadeias ou Sintonía do Sistema

A sintonia das Trancas é liderada por um “irmão” que é responsável por tomar decisões e coordenar as atividades dentro do Sistema Prisional.

Ele controla os diversos grupos da facção que gerenciam o comércio de drogas, a disciplina dos presos e a realização de rebeliões ou pacificação.

O nome “Trancas” refere-se às celas dos presídios, que são trancadas para manter os presos confinados.

A sintonia das Trancas é responsável por manter a disciplina e a hierarquia dentro dos presídios, garantindo que os membros da facção sejam protegidos.

Essa Sintonia faz com que  as regras da organização sejam seguidas, e os abusos por parte de presos mais fortes e funcionários inescrupulosos sejam coibidos.

As trancas são a base de tudo no PCC

A sintonia das Trancas é muito importante para o PCC, pois o sistema prisional latinoamericano é uma parte fundamental da estrutura da organização.

É ela que garante a maior parte dos batizados que são recrutados dentro do sistema prisional dos diversos estados e países visando sua própria proteção.

Líderes e integrantes do PCC estão presos, e a sintonia das Trancas é responsável por gerenciar as atividades e a comunicação com o mundo exterior.

A intermediação de qualquer produto ilegal ou comunicação para fora das muralhas ou entre unidades dos presídios é gerenciado pela Sintonía das Trancas.

A Sintonia das Trancas é dividida em várias partes menores, como as Sintonias Femininas, Sintonía das Comarcas, Sintonía do Interior, e Sintonía dos CDPs.

“A irmã-sintonía” é a que recebe o “Salve”, comunicado transmitido através do celular pelo “Sintonía geral das cadeias”.

Mesmo essas subdivisões podem ser ainda fatiadas, como por exemplo uma Sintonía para as Padarias dentro de um complexo prisional.

As padarias produzem ou misturam as drogas para venda, tanto no varejo, quanto no atacado para os leilões, dentro e fora dos presídios.

Sintonia dos Gravatas

Essa sintonía ganhou notoriedade nos noticiários entre os anos de 2016 e 2018, mas já era conhecida desde 2006.

A Sintonia dos Gravatas é formada por advogados que trabalham para o Primeiro Comando da Capital — dezenas já foram presos e centenas investigados.

As ações de defesa dos presos integrantes da facção criminosa não constituem qualquer ilícito, no entanto os advogados da Sintonia dos Gravatas extrapolaram suas funções.

Seus integrantes atuam como despachantes dos criminosos, levando salves e decretos de morte, de dentro para fora das muralhas.

Também intermediam a entrada de objetos e pessoas para os presos, administram bens da organização e recebem e gerem objetos e dinheiro obtidos pelo crime.

É comum os advogados da “Sintonia dos Gravatas” serem os responsáveis pelos esquemas de lavagem de dinheiro e organizar manifestações públicas contra o governo.

Nas próprias comunicações do PCC isso fica explícito quando nos deparamos com a fase “Minar o governo e a SAP” (Secretaria de Administração Penitenciária), com imagens comprometedoras de supostos maus-tratos.

Promoto de Justiça Márcio Christino

Essa frase do Promotor Márcio Christino comprova que mesmo quando a organização utiliza imagens reais de maus tratos, os órgãos públicos consideram um abuso a acusação.

Christiano é a prova viva da importância de uma força poderosa para se contrapor a um sistema tão injusto.

Sintonía da Rifa  — Sintonía do Jogo do Bicho

Não sei como ficou a Sintonia das Rifas com a decisão de 2022 de tirar da obrigatoriedade a contribuição para a rifa de seus membros.

O nome “Rifa” refere-se a compra de bilhetes numerados onde os integrantes da facção concorriam a prêmios.

Apesar de não ser obrigatória, os integrantes eram coagidos a comprar os bilhetes para ajudar as famílias integrantes presos, mortos ou inválidos com cestas básicas.

As rifas e os bailes funk rendem um bom dinheiro para a facção e é essencial para fazer justiça com a família daqueles que necessitam.

Sintonía das Ruas

A “Sintonia das Ruas” que mais ganhou notoriedade foi o Dyego Santos Silva, o Coringa, que era Sintonía Geral da Rua em São Paulo.

Dyego geria uma verba maior que a maioria dos municípios brasileiros.

A sintonia geral de rua comunica a todos os seus integrantes interna e externa que graças a dedicação de muitos dos seus integrantes, a partir desta data 02/2011 será implantado dentro da organização um setor de apoio aos irmãos que vierem necessitar de um auxílio bélico e apoio financeiro para o auxílio aluguel e outras maiores necessidades emergenciais.

Este setor se caracteriza como sendo um banco de apoio aos irmãos. O objetivo central deste novo trabalho será unicamente fortalecer os irmãos que estão totalmente descabelados saindo da prisão ou também aqueles irmãos que se encontram na liberdade em período inferior a seis meses.

Revista Piauí – A GUERRA: Como o PCC deflagrou uma crise nas prisões brasileiras ao tentar ganhar poder fora de São Paulo

Sintonía Restrita — Progresso Restrito

Esses são a nata da atividade. São encarregados das ações de inteligência, investigação e planejamento.

Algumas de suas ações ganharam destaque e envolviam planejamento de longo prazo, com aluguel de casas próximas aos alvos e meses de observação.

No geral as ações desse grupo passam despercebidas pois os agentes da Sintonía Restrita simulam assaltos ou acidentes para cumprir os decretos.

As ações dessa Sintonia, no entanto, nunca serão descobertas. Funcionários públicos que foram investigados e suas famílias mapeadas, não denunciarão por medo de retaliação.

Estratégia, ousadia e muito acesso à informação permeiam um “setor de inteligência” criado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).

O grupo funciona como uma ampla rede de criminosos.

As grades e os muros de prisões ao redor do país não são suficientes para brecar o fluxo de informações que movimentam as engrenagens da chamada sintonia restrita – o atual cérebro da facção criminosa.

Carlos Carone e Mirelle Pinheiro para o Metrópoles

Como funciona a Sintonia do PCC no Estado de São Paulo 

Em São Paulo, além das sintonias setoriais ligadas à do estado, existem subdivisões entre interior e capital.

A Sintonia de São Paulo é responsável pela coordenação das ações do PCC dentro do estado de São Paulo e tem influência em outras regiões do país.

A estrutura da Sintonia de São Paulo é dividida em três níveis: a “Sintonia Geral”, a “Sintonia dos Estados” e a “Sintonia das Regiões”.

A “Sintonia Geral” de São Paulo por vezes é também responsável pela tomada de decisões estratégicas da organização criminosa PCC 1533 em todo o país.

A “Sintonia das Regiões” é responsável por coordenar as atividades do PCC em cada região dentro de cada estado.

Na capital há um “Sintonia Geral Final de SP” mas a metrópole é dividida pelas zonas: ZL, ZN, ZS e ZO, e depois por bairros.

Cada região tem um representante na Sintonia das Regiões, que é responsável por coordenar as ações do PCC em sua área geográfica específica.

Essa estrutura de organização do PCC permite que a facção atue de forma coordenada e eficiente não só no Estado, mas em todo o país.

Sintonía do PCC no Interior SP

São Paulo tem uma característica diferente de outros estados, ele é dividido em regiões e essas regiões são divididas pelos códigos de área DDD.

As regiões são Vale do Paraíba, Bauru, Sorocaba, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Litoral… (respectivamente 012, 014, 015, 016, 013…)

Além dessa divisão ainda há a “Sintonia Local” que é responsável por coordenar as atividades do PCC em cada cidade do interior.

Cada cidade tem um representante na Sintonia Local, que é responsável por coordenar as ações do PCC em sua área de atuação.

Todas essas sintonias estão sob a coordenação da “Sintonía Geral Final do Interior SP”

… mil membros pelo interior paulista, discriminado cidade a cidade. Toda a contabilidade empresarial do PCC ali, ao alcance de um clique. Com cifras volumosas. Só em julho entraram na caixa da sintonía do interior exatos…

Allan de Abreu – Cocaína: A Rota Caipira

Outras sintonias dentro da organização criminosa PCC

  • Sintonia do Financeiro – administração de bens e recursos;
  • Sintonia da Cebola ou Sintonía da Caixinha – arrecadação das mensalidades dos batizados;
  • Sintonia das Ajudas ou Sintonía do Apoio – administra o pagamento das cestas básicas ou pensões;
  • Sintonia dos Ônibus – garante transporte para a visita dos presos;
  • Sintonia do Pé de Borracha – administra os veículos da facção;
  • Sintonía dos Cigarros – um dos principais negócios da facção em várias regiões;
  • Sintonia das FM – controle de pontos de drogas que são cedidos a terceiros; e
  • Sintonia Bob Esponja ou Sintonía das drogas – Sintonía das IML que é da cocaína batizada)
  • Sintonia do Cadastro

Curiosidade:

A palavra sintonia é repedita 43 vezes no Dicionário do PCC; 17 vezes no Estatuto do PCC de 2017; e 4 vezes na Cartilha do PCC.

Das Trevas, irmão do Primeiro Comando da Capital na pequena Deodápolis em Mato Grosso do Sul era o Sintonia da Quebrada e do Cadastro, e não só mantinha suas biqueiras como entregava mercadoria para quem não tinha como investir.

Além de tudo o que foi dito, Sintonia também está na Netflix.

A Era do Resgate no PCC e o fim da caixinha do PCC

Atrair novos integrantes com o fim da cobrança da caixinha do PCC e chamar de volta antigos companheiros excluídos são algumas das estratégias da facção criminosa para um novo tempo.

A caixinha do PCC e as mudanças na facção paulista

O fim da caixinha do PCC 1533 não é apenas uma mudança no fluxo de caixa, é o sinal de uma nova Era do PCC.

Várias vezes nessas duas décadas, policiais e promotores de Justiça afirmam que a organização criminosa Primeiro Comando da Capital esteve com seus dias contados.

Faz muito tempo, muito tempo mesmo, o Secretário de Segurança de São Paulo afirmou que o então “Partido do Crime” tinha acabado — isso em 1997.

Depois dele, Secretários de Segurança, promotores de Justiça e políticos de plantão afirmam: É questão de tempo o fim do PCC!

MP-SP anuncia: é iminente a derrota da facção PCC (2018)

Família como base sólida

Todas as tentativas de acabar com a organização criminosa falharam.

Ao contrário das máfias tradicionais, o Primeiro Comando da Capital não se organizou em torno dos parentes de seus líderes.

A família é a base sódia de uma sociedade ou empresa, mas a Família 1533 não é formada apenas de parentes.

Os inimigos e as forças de segurança sabem que a família dos mafiosos são a força e o elo mais fraco da estrutura dessas organizações.

Mas como lidar com a Família 1533, que é uma família formada não pelo sangue do parentesco, mas pelo sangue das ruas, dos corres e dos ideais?

Cartilha de Conscientização da Família 1533

A facção PCC na Era do Resgate

Essa família impediu que os Secretários de Segurança, promotores de Justiça e políticos cumprissem suas promessas de acabar com a organização criminosa paulista.

Como toda a família, no Primeiro Comando da Capital também tiveram aqueles que não correram pelo certo, que erram e faltaram com a Família 1533.

Uma das faltas mais comum era a dos integrantes inadimplentes com o caixinha do PCC que eram expulsos.

Agora, como o filho pródigo da Bíblia, eles estão sendo recebidos de volta ao ceio da Família do Primeiro Comando da Capital.

A facção criminosa está indo atrás de cada um, em cada canto do Brasil para chamar para correr junto.

Regime Disciplinar — Dicionário do PCC

A facção PCC se reinventado para sobreviver

Atuando em quatro continentes, o Primeiro Comando da Capital é hoje a maior e mais abrangente organização de todas as Américas — dependendo do critério utilizado.

Ao conquistar um espaço territorial muito grande e sabendo que ainda tem todo um mundo à conquistar, as lideranças tiveram que mudar algumas estratégias.

Todos os integrantes da facção tem os mesmos direitos e obrigações, o que é motivo de orgulho para os seus “crias”.

Todos são iguais e não deve se cometer injustiça com ninguém.

Essa igualdade é a grande força da facção, mas também é o seu ponto mais fraco — seu calcanhar de Aquiles.

Todos os integrantes pagavam a caixinha, era o justo e o correto, no entanto, também era a maneira mais fácil das autoridades mapearem os integrantes.

Teve uma época em que as lideranças foram chamadas para garantir o pagamento da caixinha.

Administrar todos os picados sai caro

O fortalecimento alcançado pela organização criminosa permite que não se cobre mais de seus integrantes a mensalidade que colocava em risco toda a estrutura.

Agora, os Secretários de Segurança, promotores de Justiça e políticos que quiserem acabar com o Primeiro Comando da Capital terão também que se reinventar.

A cada baixa de uma liderança, novas surgem como um acender de lâmpada, e cada uma delas traz novas ideias, novas estratégias, novos arranjos pessoais e familiares.

A facção sobreviveu a tantos ataques das autoridades, pois foi unida por sangue e forjada no fogo, e para cada um que cai há dez querendo entrar.

Uma estória que contei há exatos 11 anos, em fevereiro de 2012

Acerto de contas no Primeiro Comando da Capital

Eu sabia que não devia ter me metido naquela enrascada.

Sempre disse que vira-latas não se mete em briga de pit-bull, mas falar é fácil, e eu entrei naquele assunto para o qual não tinha sido chamado.

Não podia dar outra coisa, dancei.

Desmaiei pouco tempo depois de começar a chutes de todos os lados.

Primeiro aquela dor indescritível, minha cabeça voava de um lado para outro, eu ainda sentia isso, não tinha perdido totalmente a consciência.

Não procurarei definir, ou descrever o que restava dela. Não era sonho, delírio, desfalecimento ou morte. Havia dor e imobilidade.

Sentia meu sangue quente fluir pelo meu nariz e escorre pelo meu rosto. O gosto do sangue agora era o único que sentia.

Sei que respirava, pois a cada inspiração havia muita dor, minhas costelas pareciam facas aguçadas querendo chegar cada vez mais fundo em meus pulmões.

Pronto, fui apresentado ao PCC, eu sabia disso.

Em meio a morte, em meio aquela teia de sonhos e alucinações acredito ter ouvido conversas, vozes que contavam histórias e discutiam seus assuntos como se eu não estivesse ali.

Um diálogo cabuloso definindo meu destino

Talvez imaginassem que eu não sobreviveria, ou talvez só estivessem esperando minha morte para poderem ir embora com a certeza da missão cumprida.

― Entendeu, eu acredito que você vai fazer o que é certo, o que se acha que é certo, entendeu irmão e, estou fechando junto e, é isso. Entendeu, por que tá demais, o mole que tá demais mesmo, né meu a gente sabe que a gente tem certo limite pra fazer as coisas, mas tem uns caras que tiram da linha, esse daí é o tipo que tira da linha. Eu vi ele trabalhando com o irmão Neizinho, ele tá trabalhando sim. Ta inclusive eu te liguei irmão, por que é o seguinte, tem um outro menino lá que tá trabalhando pro irmão Neizinho. Que é o Maicon, não sei se você já ouviu falar. Outro dia foi numa biqueira aí irmão e pegou lá parece um quilo de mercadoria lá no nome do irmão Pimenta, entendeu, moleque? Sem o conhecimento do irmão, moleque? – falou Luiz Carlos do Nascimento, o irmão Piloto.

― Vai vendo. – respondeu o outro.

― Até uns dias atrás ele trabalhava com o irmão Neizinho. Então é um problema, viu, esses meninos, esses funcionários do irmão Neizinho. Aí moleque. Não, e essa aí é grave, pô, que o movimento tá muito descabeçado lá moleque. – falou piloto.

― Então tá usando o nome do irmão aí, colocando o irmão em BO, aí. – concordou o outro.

― Entendeu meu irmão. Aí amanhã eu pego o irmão, eu coloco ele na linha pá nóis pode trocar uma idéia, e aí, cê faz uma viagem só prá lá, já vai e já explica o bê-á-bá prá eles irmão, vê o que eles querem né irmão. Por que pelo simples fato deles estarem todos eles trabalhando com o irmão, pô eles estão totalmente errados… Mas corre com o irmão, então tem que ser no mínimo o bem comportado. Sê viu o outro empregado do Neizinho, o Fuscão, as caminhadas erradas que ele seguiu, num sabe?… – continuava Piloto.

Sabia eu que os dois falavam a respeito dos problemas das biqueiras de Salto, Maicon pegando mercado sem autorização de Pimenta. Ouvi também Piloto dizendo para Edson Rogério França, o irmão Cara de Bola alguma coisa, mas sei como este respondeu:

― Aí o cara já foi pondo o dedo no peito do “M”, aí o bagulho ficou louco. (Marcelo José Marques, o Tio ou “M”)

― Aí imagino né, não. – Piloto.

― Aí soco prá lá, soco prá cá, aí os seguranças rápido já fecho, já fui embora também irmão.

Acho que eles falavam sobre o Fuscão que estava no hospital mando de Cara de Bola, não tinha adiantado o cara dizer que tinha um salve passado por Sandro no papel.

Piloto e Cara de Bola estavam em ordem com a família, Bad Boy estava morto, Fuscão tinha tido sua lição, e eu não sabia onde estava.

Sei que o corvo sobe para quem está com a situação, e que volta a cobrar com quem fechou a caixinha em atraso.

Sobrevivi, narrei aqui o que vi e senti naquela noite, hoje já não pertenço àquele mundo, do qual fui brutalmente retirado, e mesmo se quisesse não mais poderia voltar a pertencer.

Emprego de Risco: Lavar dinheiro da facção PCC 1533

Estar sendo acusado de lavar dinheiro da facção PCC Primeiro Comando da Capital é hoje a menor preocupação de empresário de segurança privada.

Preso empresário acusado de lavar dinheiro da facção PCC

Lavar dinheiro da facção PCC 1533 (Primeiro Comando da Capital) é uma das atividades mais rentáveis e tem muitos integrantes querendo essa função.

Todos querem para si colocar as mãos nesse dinheiro, mesmo sabendo que os próprios colegas cobrarão qualquer desvio.

Todos querem para si essa posição, mesmo sabendo que as autoridades estão de olho para pegar como informante.

É muito dinheiro. É muita tentação. É muita informação.

Certa vez, um contador da facção criminosa Primeiro Comando da Capital caiu e para reduzir a pena entregou a estrutura da facção.

Theodorelli, o cagueta X9, garantiu a prisão de nada menos que 175 integrantes, entre eles a alta cúpula do PCC, incluindo o próprio Marcola.

Dicionário da Facção PCC – Regimento Disciplinar da Organização Criminosa

  1. Caguetagem:
    Fica caracterizado quando são exibidas provas concretas ou reconhecimento do envolvido. A
    sintonia deve analisar todos os ângulos, porque se trata de uma situação muito delicada.
    Punição: Exclusão, cobrança a critério do prejudicado.

Não prestou. Theodorelli não foi preso e entrou no Programa de Proteção às Vítimas e Testemunhas (Provita).

Por algum motivo ele saiu do Provita e foi assassinado logo em seguida no bairro Pedregal, em Novo Gama, Goiás, no entorno do Distrito Federal.

leia também como são os setores da facção e qual a função dos Disciplinas

Contador resolve Matar para não morrer

Pense em um lugar onde se pode procurar proteção contra o crime: algo assim como uma empresa de segurança.

Vinícius é o dono da empresa que conta com a colaboração de agentes públicos como policiais e agentes penitenciários.

Para não morrer Vinícius mata “Cara Preta” e “Sem Sangue”, integrantes do PCC — não em nome do combate ao crime, mas para salvar a própria pele.

O empresário era responsável por lavar dinheiro do Primeiro Comando da Capital, mas como a ganância é incontrolável acabou metendo a mão na cumbuca.

Tem como fugir da punição da facção PCC?

Dicionário da Facção PCC – Regimento Disciplinar da Organização Criminosa

  1. Mão na cumbuca:
    É caracterizado quando rouba algo da organização, dinheiro, drogas, armas, etc… Trata de uma situação grave.
    Punição: exclusão e morte, depende da situação com análise da Sintonia.

Ele seria julgado e condenado a morte pelo Tribunal do Crime do PCC, mas para evitar a sentença, matou seus antigos parceiros de negócios.

Assim, em 2021, matou um dos Sintonias da Rua, Anselmo Santa Fausta, o “Cara Preta”, e o seu braço direito, conhecido como “Sem Sangue”.

O contador foi o mandante e dois os executores. Um deles foi morto no ano seguinte e o outro, um agente penitenciário continua desaparecido.

Agora Vinícius quer dar uma de Theodorelli e se propôs a entregar toda a cúpula da facção ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa de São Paulo.

Boa sorte.

leia matéria completa no R7

Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?

Os Disciplinas do PCC 1533 dentro da hierarquia da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (facção PCC).

“Disciplina do PCC 1533” retrata a força unificadora na facção criminosa de São Paulo. Integrantes do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) demonstram orgulho na disciplina rígida. Porém, descobrir os genuínos representantes da hierarquia da facção tornou-se um desafio.

Submersos na complexidade do crime, estes “Disciplinas” personificam o controle estrutural similar a grandes corporações. Cada faceta da organização, do financeiro à transmissão de regras, evidencia uma estrutura intricada de poder que define o PCC.

Incentivamos vivamente os leitores a compartilharem suas opiniões sobre a matéria em nosso site, no grupo de leitores ou por mensagem privada. Explore a complexidade do PCC e participe da discussão.

Os Disciplinas do PCC 1533 na hierarquia da facção

Os “Disciplinas do PCC” representam a força essencial que mantém coeso o conglomerado criminal de São Paulo. O Primeiro Comando da Capital é reconhecido por sua disciplina rigorosa, um elemento de orgulho para seus integrantes. Entretanto, recentemente tornou-se cada vez mais desafiador identificar, nas periferias e no submundo do crime, os autênticos representantes da hierarquia da facção.

Hierarquia dentro da organização criminosa

Embora não utilizem termos como “departamento” ou “setor”, na prática, a facção reproduz estruturas semelhantes às administrativas de grandes empresas legais. As principais áreas de atuação são:

  • Financeiro: controla o recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.
  • Sintonia do Cadastro: administra o ingresso e mantém o registro cadastral dos membros batizados, incluindo nomes, locais e padrinhos.
  • Salveiro: responsável por transmitir as atualizações das regras estabelecidas pela cúpula para toda a base operacional. Apesar de alguns compararem esse papel ao de Relações Públicas empresariais, suas comunicações são estritamente internas.
  • Sintonia do Progresso: executa missões especiais e tarefas cotidianas.
  • Sintonia dos Gravatas: constituída pelos advogados da facção.

Além dessas áreas, há cargos específicos de gerenciamento, chamados de “Resumos”, como o “Resumo Geral dos Estados e Países” ou “Resumo Geral do Estado”, podendo atuar também em locais específicos, como “Geral das Trancas do Estado” ou “Geral das Trancas da Unidade Prisional”.

Estrutura de Comando e Comunicação

O Conselho de Administração da organização criminosa é conhecido como “Sintonia Final“. Os “Disciplinas” recebem informações dos Salveiros e atuam segundo as diretrizes da Sintonia da Comunidade para manter a ordem entre os integrantes da facção.

Atuação dos Disciplinas na Cracolândia

Houve um tempo em que acreditei em um mundo ideal, no qual caberia à polícia a defesa da justiça e da segurança das pessoas. Mas esse tempo acabou.

Assim como eu, a pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta também aprendeu que a realidade é mais complexa do que os filmes nos fizeram crer.

Ela testemunhou diretamente o papel dos Disciplinas na Cracolândia, onde vários conflitos foram resolvidos graças à sua intervenção. Márcio Américo, humorista e antigo frequentador da região, concorda:

A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local que é completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital.

Observações da Pesquisadora

No conturbado epicentro da Cracolândia, Deborah Rio acompanhou pessoalmente as operações dos Disciplinas do PCC 1533, observando suas negociações com traficantes, usuários, jornalistas, policiais e autoridades governamentais. Esses homens constituem a espinha dorsal da facção, presentes em ruas, biqueiras, presídios e outras áreas de atuação da organização.

Os Disciplinas têm como responsabilidade aplicar o Dicionário do PCC, que determina o Regime Disciplinar, bem como emitir “salves”, alterações temporárias ou locais nas regras gerais.

Como relata Deborah, um episódio exemplifica claramente seu papel:

Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila.

Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas.

Um usuário, M., começou a questionar exaltadamente o coordenador da ação, Capitão Renato Lopes da Silva. Um disciplina interveio discretamente, pediu licença com voz firme e todos imediatamente abriram passagem. Ao colocar a mão no ombro de M., que rapidamente se acalmou, M. afirmou respeitar os ‘entendimentos’.

Função Social e Política dos Disciplinas

Os Disciplinas têm a complexa função de manter a ordem em territórios sob controle do PCC. Eles exigem comportamento civilizado de usuários e traficantes locais, proporcionando um ambiente aparentemente pacífico, que minimiza a presença ostensiva da polícia.

O medo e o ódio alimentam seu poder e sua autoridade – cordeiros não balem em terras onde lobos uivam.

Essa atuação política permite aos Disciplinas negociar diretamente com comunidades e autoridades. Um exemplo ilustrativo ocorreu quando o então prefeito Fernando Haddad e Alexandre de Moraes discutiam com um Disciplina dentro do espaço do Programa Recomeço, sob forte vigilância policial.

Realidade e Consequências da Atuação

Deborah Rio ressalta que, em diversas comunidades, a segurança e a paz são garantidas não pelo Estado, mas pelos próprios Disciplinas. Apesar de haver uma redução dos índices de homicídios e crimes menores nas áreas controladas pelo PCC, a violência institucional é substituída por uma força mais sombria e implacável, que não hesita em punir severamente.

Divisão e Hierarquia dos Disciplinas

Os Disciplinas dividem-se em categorias específicas, cada uma com responsabilidades definidas:

Nos Presídios (Disciplinas das Trancas): conhecidos como “jets”, operam dentro das unidades prisionais, com cargos específicos como “Jet da Unidade” ou “Jet do Estado”, podendo também ser chamados genericamente de Disciplinas.

Nas Ruas (Disciplinas das Quebradas): atuam em biqueiras e bairros, podendo existir diversos Disciplinas numa mesma cidade, dentre os quais um se destacará como “Disciplina Final da Cidade”. Há também os “Disciplinas do Estado”, responsáveis por resolver conflitos graves, e os “Disciplinas dos Estados e Países”, enviados para zonas de conflito com outras facções ou para mediar disputas locais.

Os “Disciplinas do PCC” representam o músculo robusto que mantém coeso o conglomerado criminal de São Paulo. A Primeiro Comando da Capital é conhecida por sua disciplina rigorosa, um ponto de orgulho para seus membros. No entanto, recentemente, tornou-se uma tarefa cada vez mais desafiadora localizar nas periferias e no submundo do crime os autênticos representantes da hierarquia da facção.

Leia a tese completa da pesquisadora Deborah

Análise por IA do texto: Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?

Análise do ponto de vista factual e de precisão

🧷 ISOLAMENTO DOS DADOS FÁTICOS DO TEXTO
  1. Disciplinas como eixo da estrutura do PCC, atuando em:
    • Ruas e comunidades (Quebradas)
    • Presídios (Jets)
    • Cidades, estados e países (Disciplinas de instâncias maiores)
  2. Função: Aplicar o Dicionário (Regime Disciplinar) e emitir salves (ajustes locais às normas).
  3. Ação na Cracolândia: Intervenções diretas em conflitos, controle informal da ordem, negociação com autoridades e usuários.
  4. Hierarquia e cargos:
    • “Disciplina Final da Cidade”
    • “Disciplina do Estado”
    • “Disciplina dos Estados e Países”
    • “Jet da Unidade” e “Jet do Estado” (em presídios)
  5. Suposta estrutura corporativa paralela:
    • Financeiro
    • Sintonia do Cadastro
    • Salveiro
    • Sintonia do Progresso
    • Sintonia dos Gravatas (advogados)
    • Resumo e Sintonia Final como instâncias superiores de comando
📌 VERIFICAÇÃO DOS DADOS SEGUNDO OUTRAS FONTES (acadêmicas, jornalísticas e judiciais)
Confirmado e amplamente documentado
ElementoVerificação externa
Disciplinas como força de controle e execução da ordem interna do PCCSim. Documentado em fontes como Ministério da Justiça, artigos da revista Piauí, livros como Irmãos: Uma História do PCC de Gabriel Feltran, além de diversas sentenças judiciais.
Atuação nas comunidades e presídiosSim. Presentes na periferia, controlam condutas, intermediam conflitos, fiscalizam biqueiras e têm autoridade disciplinar dentro das unidades prisionais.
Aplicação de regras internas e “Dicionário”Sim. O Regime Disciplinar interno é citado em investigações da Polícia Federal, inclusive em documentos do MP-SP.
Divisão entre Disciplinas das Ruas (Quebradas) e dos Presídios (Jets)Sim. Essa distinção é reconhecida e descrita em relatórios policiais e entrevistas de membros da facção.
⚠️ Presentes no texto, mas com pouca ou nenhuma documentação pública (sem confirmação direta)
ElementoComentário
Estrutura tipo “departamentos” (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas)A facção tem divisão funcional interna, mas o uso sistemático desses nomes em fontes públicas é raro. O termo “Sintonia” aparece em grampos e entrevistas, mas não necessariamente como departamentos formais.
“Salveiro” como cargo“Salve” é amplamente citado como mensagem normativa interna, mas “Salveiro” como função específica é pouco documentado. Pode derivar do vocabulário da própria facção.
“Resumo” e “Sintonia Final” como instâncias de administração centralNão aparece em fontes acadêmicas ou jurídicas públicas com essa nomenclatura. “Resumo” é um termo mais informal ou interno à gíria prisional, e “Sintonia Final” pode ser uma invenção interna ou simbólica.
🔍 SOBRE A CRACOLÂNDIA

O relato específico com o usuário “M.” e o Capitão Renato aparece em seu texto e no site do PCC 1533, mas não está presente em fontes acadêmicas, jornalísticas nem judiciais verificadas. No entanto, estudos como os de Deborah Rio Fromm Tinta, Gabriel Feltran e Bruno Paes Manso apontam sim para a presença dos Disciplinas na Cracolândia com papel informal de mediação e controle.

📘 CONCLUSÃO

Seu texto apresenta um retrato altamente coerente com a estrutura prática e hierárquica documentada do PCC, sobretudo no que tange:

  • Ao papel dos Disciplinas nas ruas e nos presídios,
  • À função do Regime Disciplinar interno,
  • E à descentralização funcional por regiões e temas.

No entanto, os termos mais institucionalizados como Salveiro, Resumo ou Sintonia Final parecem refletir:

  • Um vocabulário interno não amplamente difundido,
  • Ou uma interpretação mais analítica e administrativa sobre o funcionamento da facção.

Esses termos podem ser úteis para descrição, mas devem ser apresentados com a ressalva de que não aparecem formalmente em fontes públicas externas, sendo mais apropriados para análise interpretativa do que para afirmação factual direta.


Análise sob o ponto de vista da Teoria do Comportamento Criminoso

A análise do texto à luz da Teoria do Comportamento Criminoso, com foco nas principais escolas interpretativas da criminologia e como elas se aplicam — direta ou indiretamente — à construção narrativa e descritiva dos “Disciplinas do PCC 1533”.

🔎 Referencial: O que é a Teoria do Comportamento Criminoso?

A teoria do comportamento criminoso é um conjunto de explicações sobre por que indivíduos cometem crimes, com ênfases distintas a depender da escola teórica. As principais abordagens incluem:

  • Teorias sociológicas (ex.: Teoria da Associação Diferencial, Desorganização Social, Subcultura Criminal);
  • Teorias psicológicas (ex.: Controle Social, Personalidade Antissocial);
  • Teorias biológicas ou evolucionistas (ex.: predisposições neurológicas);
  • Teorias críticas (ex.: criminologia marxista, rotulagem social, criminologia cultural).

No texto, há forte alinhamento com teorias sociológicas críticas, em especial com a Teoria da Associação Diferencial, a Teoria da Subcultura e a Abordagem do Controle Social Informal.

🧠 1. Teoria da Associação Diferencial (Edwin Sutherland)

Resumo da teoria: o comportamento criminoso é aprendido por meio da interação com outras pessoas que já participam de práticas criminosas. A aprendizagem envolve técnicas, motivações, justificações e atitudes.

Aplicação no texto:

“Os Disciplinas recebem as informações dos Salveiros e atuam segundo as diretrizes da Sintonia da Comunidade para manter a ordem entre os integrantes da facção.”

“Eles cobram civilidade de usuários e traficantes locais, garantindo um verniz de paz…”

Demonstrando que os Disciplinas aprendem sua função dentro da organização e passam a replicá-la com base nas diretrizes normativas internas (salves, Dicionário, condutas). Isso é a própria essência da teoria de Sutherland: o crime não nasce da patologia, mas da aprendizagem por contato com grupos nos quais ele é a norma.

A existência de “códigos de conduta” e normas específicas no universo do PCC reflete o processo de socialização criminal contínuo.

🧱 2. Teoria da Subcultura Criminal (Albert Cohen, Cloward & Ohlin)

Resumo da teoria: em ambientes onde o acesso ao sucesso social legítimo é limitado, surgem subculturas com valores alternativos, muitas vezes em oposição aos da sociedade dominante.

Aplicação no texto:

“Em determinadas comunidades, a proteção e a paz não são garantidas pelo governo, mas sim pelos Disciplinas do Primeiro Comando da Capital.”

“A opressão do sistema é substituída por uma força mais sombria, que não hesita em mutilar e matar.”

Você aponta para a formação de um sistema de justiça e ordem paralelos, com valores próprios e uma hierarquia distinta, criada onde o Estado fracassou. A facção PCC, especialmente por meio dos Disciplinas, atua como força normativa subcultural — impõe leis, distribui sanções, resolve disputas e regula a conduta de seus membros e da comunidade.

Isso corresponde exatamente ao modelo da teoria da subcultura: o crime não é apenas reação à exclusão, mas também forma de organização social coerente, dentro de uma lógica alternativa à dominante.

⛓ 3. Teoria do Controle Social (Travis Hirschi)

Resumo da teoria: o indivíduo com fortes vínculos sociais, familiares ou institucionais tende a evitar o crime. Quando os laços sociais se rompem, o controle sobre o comportamento desvanece.

Aplicação no texto:

“A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local que é completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital.”

O que se observa aqui é que o controle social formal (Estado) foi substituído por um controle informal (facção). O texto sugere que o crime organizado surge como mecanismo substitutivo de ordem, mantendo o controle dos comportamentos através de laços não estatais — o que evidencia a ideia de que não é a ausência de controle que leva ao crime, mas sim a transferência da fonte de controle.

🕯 4. Teoria da Rotulagem (Howard Becker)

Resumo da teoria: a sociedade impõe rótulos a determinados indivíduos ou grupos, e esses rótulos contribuem para sua internalização como desviantes.

Possível leitura no texto:

Embora não seja central, essa abordagem pode ser inferida na forma como a figura do “Disciplina” é tratada. O autor não o retrata como bandido irracional, mas como agente funcional de ordem — o que desafia a rotulagem simplificadora do discurso institucional ou midiático.

Essa neutralidade moral evidencia a crítica implícita à rotulagem tradicional, e uma abertura à complexidade das identidades desviantes.

📚 5. Ausência de teorias psicopatológicas ou biologizantes

O texto não recorre a explicações psicologizantes sobre desvios de conduta, nem a conceitos como “personalidade criminosa”, “sociopatia” ou “impulsividade”. Isso demonstra rejeição a abordagens reducionistas, e adesão clara a modelos que privilegiam o contexto social, histórico e político na explicação da criminalidade.

🧩 Conclusão

O texto dialoga com múltiplas escolas da Teoria do Comportamento Criminoso, especialmente:

TeoriaPresente no texto?Comentário
Associação Diferencial✅ ForteAprendizagem da conduta dentro da facção
Subcultura Criminal✅ ForteOrdem e valores alternativos ao Estado
Controle SocialO PCC ocupa o vácuo deixado pelas instituições
Rotulagem⚠️ ModeradaSugestão indireta de complexidade identitária
Teorias psicológicas/biológicasNão presentes, nem evocadas

O artigo assume uma perspectiva sociológica crítica, interpretando o crime como fenômeno estrutural, racional e funcional — e não como aberração, desvio mental ou desvio individual.


Análise Comparativa da Estrutura e Atuação dos “Disciplinas” do PCC: Uma Contraponto entre a Auto-Representação e Fontes Externas

1. Introdução: O Primeiro Comando da Capital e a Centralidade dos “Disciplinas”

O Primeiro Comando da Capital emerge como a maior e mais organizada facção criminosa do Brasil, com uma trajetória que se inicia no sistema prisional de São Paulo em 1993, logo após o trágico Massacre do Carandiru. Originalmente concebido como um grupo de autoproteção para defender os direitos dos detentos e lutar por melhores condições prisionais, o PCC evoluiu significativamente, transformando-se em uma complexa “multinacional do crime”. Atualmente, a organização estende sua influência por dois terços dos estados brasileiros e expandiu suas operações para pelo menos 28 países em quatro continentes. Essa expansão é sustentada por uma estrutura hierárquica bem definida, uma disciplina rigorosa e um modelo operacional que se assemelha ao de uma empresa.

O presente relatório tem como objetivo principal realizar uma análise aprofundada da auto-representação do PCC, especificamente no que tange à função e atuação dos seus “Disciplinas”, conforme detalhado na página faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org. Para tanto, as informações veiculadas por essa fonte interna serão cuidadosamente contrapostas a dados e análises provenientes de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas. Tal abordagem comparativa é crucial para se obter uma compreensão multifacetada da estrutura e do modus operandi da facção. A menção do “1533” no endereço URL do site analisado é um indicativo da própria facção, referindo-se à numeração das letras P, C, C no alfabeto (15ª, 3ª, 3ª letra, respectivamente), um código de identificação comum e reconhecido da organização.

A existência de um site que detalha funções e hierarquia da facção sugere um esforço deliberado do PCC em formalizar e, de certa forma, legitimar sua estrutura, tanto para seus membros quanto para o público externo. Essa iniciativa vai além de uma simples comunicação interna, indicando uma tentativa de construir uma narrativa organizacional. Ao criar uma plataforma online com informações detalhadas sobre seus “Disciplinas”, a facção demonstra uma evolução em sua estratégia de comunicação e auto-representação. Não se trata apenas de um grupo criminoso operando nas sombras, mas de uma organização que busca projetar uma imagem de estrutura, ordem e até mesmo de “orgulho na disciplina”. Este ato de “publicação” online, mesmo que em um domínio próprio e não oficial, aponta para um grau de sofisticação e uma intenção de controlar a narrativa sobre si mesma. Essa postura sugere uma tentativa de legitimar sua atuação perante seus membros e, potencialmente, perante as comunidades que controla, posicionando-se como uma entidade organizada e funcional, em contraste com a desordem frequentemente associada ao crime.

2. A Perspectiva Interna: Os “Disciplinas” Segundo o Site do PCC

O artigo publicado no site faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org oferece uma visão detalhada da função e atuação dos “Disciplinas do PCC 1533” dentro da hierarquia do Primeiro Comando da Capital. A narrativa interna os retrata como a “força unificadora” da facção, com os integrantes demonstrando um “orgulho na disciplina rígida”. O texto também aponta para o desafio de identificar os verdadeiros representantes da hierarquia da facção nas periferias e no submundo do crime, apesar de seu papel central. Os “Disciplinas” são descritos como a personificação de um “controle estrutural similar às estruturas administrativas de grandes empresas legais”, embora a facção evite o uso de termos como “departamento” ou “setor”.

O site detalha as principais áreas de atuação e cargos específicos dentro da estrutura interna do PCC:

  • Financeiro: Responsável pelo controle do recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.12
  • Sintonia do Cadastro: Administra o ingresso e mantém o registro cadastral dos membros “batizados”, incluindo nomes, locais e padrinhos.12
  • Salveiro: Encarregado de transmitir as atualizações das regras estabelecidas pela cúpula para toda a base operacional, com comunicações estritamente internas.12
  • Sintonia do Progresso: Executa missões especiais e tarefas cotidianas.12
  • Sintonia dos Gravatas: Composta pelos advogados da facção.12

Além dessas áreas, existem cargos específicos de gerenciamento, denominados “Resumos”, como o “Resumo Geral dos Estados e Países” ou “Resumo Geral do Estado”. Esses “Resumos” podem atuar também em locais específicos, como “Geral das Trancas do Estado” ou “Geral das Trancas da Unidade Prisional”.12

A estrutura de comando e comunicação é centralizada no “Conselho de Administração” da organização, conhecido como “Sintonia Final”. Os “Disciplinas” recebem informações dos Salveiros e operam sob as diretrizes da “Sintonia da Comunidade” para manter a ordem entre os integrantes da facção. A “Sintonia Final” é responsável por comunicar periodicamente as alterações necessárias ao Estatuto da organização.

O site também descreve a atuação dos “Disciplinas” em contextos urbanos complexos, como a Cracolândia. A pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta é citada como testemunha direta do papel dos “Disciplinas” na região, onde diversos conflitos foram resolvidos graças à sua intervenção. Márcio Américo, humorista e antigo frequentador da Cracolândia, reforça essa percepção, afirmando que a polícia e a prefeitura apenas simulam controle do local, que seria completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital. Deborah Rio teria acompanhado pessoalmente as operações dos “Disciplinas”, observando suas negociações com traficantes, usuários, jornalistas, policiais e autoridades governamentais. Esses homens são apresentados como a “espinha dorsal da facção”, presentes em ruas, “biqueiras”, presídios e outras áreas de atuação.12

As responsabilidades dos “Disciplinas” incluem a aplicação do “Dicionário do PCC”, que determina o Regime Disciplinar, e a emissão de “salves”, que são alterações temporárias ou locais nas regras gerais. Um episódio relatado por Deborah descreve a intervenção discreta de um “Disciplina” que acalmou um usuário exaltado na Cracolândia, demonstrando o respeito e a autoridade que esses indivíduos possuem.

Em termos de função social e política, o site afirma que os “Disciplinas” mantêm a ordem em territórios sob controle do PCC, exigindo comportamento civilizado de usuários e traficantes locais, o que, por sua vez, minimiza a presença ostensiva da polícia. Essa atuação política permitiria aos “Disciplinas” negociar diretamente com comunidades e autoridades. O site conclui que, em diversas comunidades, a segurança e a paz são garantidas pelos próprios “Disciplinas”, e não pelo Estado. Embora isso possa resultar na redução de homicídios e crimes menores, a violência institucional é substituída por uma “força mais sombria e implacável”.

A divisão e hierarquia dos “Disciplinas” são apresentadas da seguinte forma:

  • Nos Presídios (Disciplinas das Trancas): Conhecidos como “jets”, operam dentro das unidades prisionais, com cargos específicos como “Jet da Unidade” ou “Jet do Estado”.12
  • Nas Ruas (Disciplinas das Quebradas): Atuam em “biqueiras” e bairros. Pode haver diversos “Disciplinas” em uma cidade, com um se destacando como “Disciplina Final da Cidade”. Existem também os “Disciplinas do Estado”, responsáveis por resolver conflitos graves, e os “Disciplinas dos Estados e Países”, enviados para zonas de conflito ou para mediar disputas locais.

A descrição do PCC como uma organização com “controle estrutural similar a corporações” não é meramente uma metáfora; ela reflete uma estratégia consciente da facção para projetar eficiência e profissionalismo. Essa projeção pode aumentar sua capacidade de recrutamento, negociação e, paradoxalmente, sua legitimidade em certas esferas de atuação. Ao utilizar termos como “Financeiro”, “Cadastro”, “Progresso” e “Gravatas”, o site do PCC mimetiza a linguagem empresarial. Essa escolha de vocabulário não é acidental; ela serve para construir uma imagem de organização eficiente e profissional. Em um ambiente criminoso, essa percepção de profissionalismo pode ser um diferencial competitivo, atraindo novos membros que buscam estrutura e “carreira”, e facilitando a interação com outros atores (legais ou ilegais) que valorizam a previsibilidade e a capacidade de entrega, mesmo que ilícita. A “aparência corporativa” é, portanto, uma ferramenta de poder e estabilidade para a facção.

A atuação dos “Disciplinas” na Cracolândia, “garantindo segurança e paz” e “negociando com comunidades e autoridades”, revela uma estratégia de ocupação de vazios estatais. Essa “função social” não é altruísta, mas um meio de consolidar o controle territorial e social, tornando a facção uma autoridade de fato e minimizando a intervenção policial. O site descreve os “Disciplinas” como mantenedores da ordem em territórios controlados pelo PCC, minimizando a presença policial e até negociando com autoridades.12 Isso não constitui um serviço público; é uma forma de estabelecer um “governo paralelo”. Ao prover “segurança” e “paz” onde o Estado é ausente ou ineficaz, o PCC cria uma dependência da comunidade em relação à facção. Essa “função social” é, na verdade, uma tática para solidificar seu domínio, obter informações e lealdade, e operar seus negócios ilícitos com menos interferência, transformando a ausência do Estado em uma oportunidade para expandir seu poder e controle.

3. Análise Comparativa: “Disciplinas” do PCC em Contraponto com Fontes Externas
3.1. Estrutura e Nomenclatura: Convergências e Divergências

A análise de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas revela uma notável convergência com a auto-descrição do PCC em relação à sua estrutura e à função dos “Disciplinas”. Há uma confirmação ampla da existência de uma hierarquia clara e uma organização baseada em “sintonias” dentro da facção. O PCC é consistentemente descrito como uma “organização de poder de forma piramidal” com divisões em “células que compõem os diversos setores em sintonias”. A tese de Marília Furukawa detalha que as “sintonias” são células responsáveis por diferentes assuntos, operando tanto em presídios quanto em bairros de cidades brasileiras, e que são interconectadas em níveis regional, estadual, nacional e internacional.

Em relação à formalidade e ao uso de termos específicos apresentados no site do PCC, as fontes externas fornecem validação significativa:

  • “Sintonia Final” / “Sintonia Final Cúpula”: O site e a tese de Furukawa referem-se à “Sintonia Final” como o conselho de administração ou instância máxima. O Grupo de Atuação Especial e de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo confirma a existência de uma “Sintonia Final Cúpula” que substituiu a “Sintonia Final Geral”. Esta cúpula é responsável por estratégias e finanças, especialmente após a transferência de líderes para presídios federais, corroborando a existência e a centralidade dessa instância decisória.
  • “Salveiro”: O site descreve o “Salveiro” como responsável por transmitir regras. Pesquisas da UFMG corroboram a função do “Salveiro” em teleconferências (“R”), onde ele “puxa a R” (listando presença e nominando membros e sintonias) e encaminha as falas para diversas instâncias (Geral do Estado, Geral do Sistema, Comarca, financeiro, disciplinar). Isso valida a existência do cargo e sua função crucial na comunicação interna.
  • “Resumo”: O site menciona “Resumos” como cargos de gerenciamento. Embora o termo “Resumo” possa parecer mais informal ou interno, o GAECO/MP-SP aponta a “Sintonia dos 14” como sendo formada pelo “Resumo do Quadro dos 14 (Pé Quebrado)”, que atua em conjunto com a “Sintonia Final da Rua” para coordenar julgamentos e sanções. Isso indica que “Resumo” é, de fato, uma nomenclatura interna para posições de liderança e coordenação.
  • “Departamentos” (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas): O site lista essas áreas. Fontes externas confirmam a existência de “Sintonia Financeira”, “Sintonia do Cadastro” (ou “Sintonia Geral do Livro”), “Sintonia do Progresso” (ou “Sintonia Geral do Progresso”) e “Sintonia dos Gravatas” (ou “Sintonia Geral dos Gravatas”). A diferença reside mais na formalidade do nome (“departamento” versus “sintonia”) e na inclusão do termo “Geral” em algumas descrições externas, mas as funções são amplamente corroboradas.

A consistência entre a auto-descrição do PCC e as evidências externas sobre sua estrutura e termos é notável. Relatórios de inteligência e pesquisas acadêmicas validam muitos dos termos específicos que poderiam ser inicialmente considerados com “pouca ou nenhuma documentação pública”. Isso sugere que o vocabulário interno do PCC é mais consistente e formalizado do que se poderia inferir apenas pela ausência em fontes “públicas” mais antigas. A validação desses termos específicos do site por fontes externas de alta credibilidade (Ministério Público, universidades) reforça a precisão da auto-descrição do PCC e a profundidade da sua formalização interna.

A capacidade do PCC de se adaptar é evidente na revelação do GAECO/MP-SP de que a facção passou por uma reestruturação e instaurou um “novo organograma” após a transferência de membros da cúpula para presídios federais. Isso demonstra a resiliência da facção frente a pressões externas e a formalização contínua de sua estrutura. O conceito de “chefia sem mando” pode parecer contraditório com uma “estrutura piramidal” e “hierarquia clara”. No entanto, a informação de que a “Sintonia Final” é composta por “oito líderes experientes” e que a organização se reestrutura após a transferência de líderes elucida essa aparente contradição. Isso sugere que a “chefia sem mando” não significa ausência de liderança, mas sim uma liderança coletiva e distribuída na cúpula, onde a “Sintonia Final” atua como um conselho. Essa estrutura descentralizada no topo, mas com funções bem definidas abaixo, torna o PCC mais resiliente a prisões de indivíduos e garante a continuidade das operações, pois o “setor” ou a “sintonia” é mais importante que o indivíduo que o ocupa.

A complexidade da estrutura do PCC, com suas múltiplas “sintonias” e cargos, e a variação na nomenclatura entre a auto-descrição da facção e as investigações externas, tornam uma tabela comparativa uma ferramenta essencial. Ela permite uma rápida absorção da densidade de informações e a identificação de padrões de validação ou discrepância.

Tabela 1: Comparativo de Termos e Funções na Estrutura do PCC (Site vs. Fontes Externas)

Termo/Função (Site PCC)Descrição (Site PCC)Corroboração/Variação (Fontes Externas)
DisciplinasForça unificadora, orgulho na disciplina rígida, controle estrutural similar a corporações.Força de controle e execução da ordem interna do PCC, atuam em comunidades e presídios, aplicam regras internas.
FinanceiroControla recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.Sintonia Financeira: Oferece suporte monetário e é responsável por outros departamentos.
Sintonia do CadastroAdministra ingresso e registro cadastral de membros (“batizados”).Sintonia do Cadastro / Sintonia Geral do Livro: Cuida dos registros de novos participantes, excluídos e relatórios de punição.
SalveiroTransmite atualizações de regras da cúpula para a base operacional.Função de “puxar a R” (teleconferências), listando presença e encaminhando falas para diversas instâncias.
Sintonia do ProgressoExecuta missões especiais e tarefas cotidianas.Sintonia do Progresso / Sintonia Geral do Progresso: Cuida da gestão do tráfico de drogas.
Sintonia dos GravatasConstituída pelos advogados da facção.Sintonia dos Gravatas / Sintonia Geral dos Gravatas: Contrata e paga advogados.
ResumoCargos específicos de gerenciamento (e.g., “Resumo Geral dos Estados e Países”).Resumo do Quadro dos 14 (Pé Quebrado): Atua com a “Sintonia Final da Rua” para coordenar julgamentos e sanções.
Sintonia FinalConselho de Administração da organização criminosa.Sintonia Final / Sintonia Geral Final / Sintonia Final Cúpula: Instância máxima, responsável por decisões estratégicas e financeiras.
Disciplinas das Trancas (Jets)Operam dentro das unidades prisionais.Se impõem como instância reguladora e mediadora das relações sociais na prisão, participam da gestão prisional.
Disciplinas das QuebradasAtuam em biqueiras e bairros.Atuação em comunidades e papel informal de mediação e controle, especialmente em áreas como a Cracolândia.
3.2. O Papel dos “Disciplinas” na Governança Informal e Mediação de Conflitos

A atuação dos “Disciplinas” em territórios específicos, como a Cracolândia, e dentro do sistema prisional, é amplamente corroborada por investigações e pesquisas etnográficas. A presença e o papel dos “Disciplinas” em áreas como a Cracolândia são confirmados por estudos de pesquisadores como Deborah Rio Fromm Tinta, Gabriel Feltran e Bruno Paes Manso. Relatos investigativos do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também confirmam a atuação organizada do PCC na Cracolândia, incluindo vigilância policial e operações de lavagem de dinheiro. Além disso, o PCC impõe-se como uma “instância reguladora e mediadora das relações sociais na prisão”, exercendo o papel de árbitro e determinando decisões em diversas formas de conflitos sociais, além de participar direta ou indiretamente da gestão das unidades prisionais. Isso valida o papel dos “Disciplinas das Trancas”.

A “função social e política” descrita pelo site do PCC encontra eco em análises acadêmicas. Gabriel Feltran, em sua etnografia, cunha o conceito de “Crime que produz governo, governo que produz crime”, que se alinha perfeitamente com a descrição do site sobre os “Disciplinas” garantindo ordem e segurança onde o Estado é ausente. Isso sugere uma governança informal que preenche lacunas estatais, embora com métodos coercitivos. A atuação do PCC na Cracolândia e em outras comunidades demonstra uma capacidade de exercer controle social e econômico, com o site afirmando que a segurança e a paz são garantidas pela própria facção.

A atuação dos “Disciplinas” na mediação de conflitos e manutenção da ordem transcende a mera atividade criminosa, configurando-os como um “Estado paralelo” em territórios específicos. Essa “legitimidade” é construída não pela legalidade, mas pela eficácia na resolução de problemas e na imposição de uma ordem, mesmo que baseada na violência implícita ou explícita. O site do PCC descreve os “Disciplinas” como garantidores de “segurança e paz” em comunidades, onde a polícia “apenas finge ter controle”. Essa afirmação é corroborada por Feltran ao falar de “crime que produz governo”. Isso sugere que o PCC não é apenas uma organização criminosa que explora o vácuo estatal, mas que ativamente cria e mantém uma forma de governança em certas áreas. A “legitimidade” dos “Disciplinas”, nesse contexto, deriva de sua capacidade de impor regras, resolver disputas e oferecer uma forma de ordem, mesmo que coercitiva. Essa é uma “legitimidade coercitiva” que se estabelece pela força e pela capacidade de entrega de “serviços” (como a segurança) onde o Estado falha, transformando-os em uma autoridade de fato para a população local.

A capacidade dos “Disciplinas” de intervir e manter a ordem na Cracolândia está intrinsecamente ligada ao controle econômico da facção sobre o tráfico de drogas na região. Informações indicam a venda de grandes quantidades de drogas e a cobrança por pontos. Isso demonstra que a “função social” é um subproduto da exploração econômica do crime. O site e as pesquisas descrevem a atuação dos “Disciplinas” na Cracolândia, com o site focando na resolução de conflitos e manutenção da ordem. No entanto, o domínio da Cracolândia pelo PCC, com a venda de 19 kg de droga por dia e a cobrança de R$ 80 mil por ponto, estabelece uma clara relação de causa e efeito. A capacidade dos “Disciplinas” de impor ordem e mediar conflitos (sua “função social”) é diretamente sustentada pelo controle econômico e pela lucratividade do tráfico de drogas na região. A “paz” e a “segurança” oferecidas são, na verdade, mecanismos para otimizar o ambiente para os negócios ilícitos, minimizando a interferência externa e maximizando os lucros, demonstrando que a governança informal está a serviço da economia do crime.

3.3. Disciplina, Estatuto e Comunicação: A Coesão Interna do PCC

O rigor da disciplina interna e a existência de um código de ética são pilares fundamentais da organização do PCC, conforme descrito tanto pelo site quanto por fontes externas. O site afirma que os “Disciplinas” aplicam o “Dicionário do PCC” e emitem “salves”. Fontes acadêmicas confirmam a “rigorosa disciplina interna”, a existência de um “código de ética interno” ou “Estatuto”, e a importância dos “salves” como comunicados internos. O Estatuto estabelece lealdade, respeito, igualdade e justiça como princípios fundamentais, com punições severas para quem causa divisão ou desrespeita a hierarquia. A evolução dentro da facção por mérito e dedicação é valorizada.

A comunicação é um elemento vital para a coesão do PCC. O site menciona que os “Disciplinas” recebem informações dos “Salveiros” e atuam segundo diretrizes. A tese de Furukawa destaca a comunicação como “essencial para o PCC”, utilizada para criar conhecimento, estimular relacionamentos e construir a “realidade organizacional”. A entrada de celulares nas prisões facilitou a articulação entre detentos e pessoas em liberdade. Os “salves” partem majoritariamente das “torres”, que são posições políticas ocupadas por membros com longa trajetória e experiência no sistema prisional. A “falta de personificação” nos “salves” é intencional para evitar penalidades jurídicas e reforçar a ideia de “chefia sem mando”, onde a mensagem vem de uma entidade e não de uma pessoa física superior. A ideologia de que “o crime fortalece o crime” é constantemente repetida nos “salves” e é um princípio central da organização.

A “disciplina rígida” e o “código de ética” não são apenas regras, mas elementos que constroem um “capital social” interno para o PCC. A analogia com uma “igreja do crime” e a ênfase na “lealdade” e “mérito” indicam que a disciplina é um mecanismo de controle ideológico que transcende a mera coerção, fomentando um senso de pertencimento e propósito, o que é crucial para a coesão de uma organização criminosa tão vasta. O site fala em “orgulho na disciplina rígida”, e uma fonte descreve a ética do PCC como uma “igreja do crime”. Essa linguagem sugere que a disciplina vai muito além de um conjunto de regras a serem seguidas; ela é internalizada e se torna parte da identidade dos membros. Ao criar um “código de ética” e um “Dicionário do PCC” que define o “proceder”, a facção constrói um sistema de valores e normas que funciona como um capital social interno. Esse capital social, baseado na lealdade e no mérito, reduz a necessidade de vigilância constante e aumenta a autodisciplina e a coesão do grupo. A disciplina, portanto, é um mecanismo de controle ideológico que garante a estabilidade e a perpetuação da organização, transformando a obediência em um valor intrínseco.

A descrição detalhada do papel do “Salveiro” e a natureza dos “salves” como mensagens padronizadas e despersonalizadas revelam uma sofisticada estratégia de comunicação. Essa formalização permite que a organização mantenha a coesão e transmita diretrizes de forma eficiente em uma estrutura vasta e descentralizada, garantindo que a “chefia sem mando” não resulte em anarquia, mas em uma governança distribuída e responsiva. O site e uma fonte detalham a função do “Salveiro” na transmissão de “salves”. Outra fonte explica que os “salves” são despersonalizados e partem das “torres”, reforçando a “chefia sem mando”. Essa formalização da comunicação, com protocolos claros para teleconferências (“R”) e a padronização das mensagens, é crucial para uma organização que opera em múltiplos estados e países. Em vez de depender de um líder carismático para transmitir ordens, o PCC desenvolveu um sistema que permite a difusão eficiente de diretrizes e a manutenção da disciplina em uma estrutura altamente descentralizada. Isso garante que, mesmo com a prisão de líderes, a organização possa continuar operando de forma coesa, pois a comunicação é institucionalizada, não pessoalizada.

A origem prisional do PCC e a observação de que o “maior perigo da facção é sua origem prisional, que facilita a disseminação de sua ideologia e estrutura rígida” (Promotor Lincoln Gakiya) revelam uma relação simbiótica entre o PCC e o sistema carcerário. As prisões não são apenas locais de confinamento, mas “universidades do crime” onde a ideologia, disciplina e estrutura organizacional dos “Disciplinas” são replicadas e disseminadas, permitindo a expansão nacional e internacional da facção. O sistema carcerário brasileiro, em vez de ressocializar, atua como um catalisador e multiplicador da estrutura do PCC. Dentro das prisões, a facção pode recrutar, doutrinar e treinar novos membros nas suas regras e hierarquia. A disciplina interna e o “Dicionário do PCC” são aperfeiçoados nesse ambiente fechado e depois exportados para as ruas e para outros países. Assim, a prisão se torna um laboratório e um centro de treinamento para os “Disciplinas”, garantindo a replicação do modelo organizacional e a perpetuação da facção, transformando a falha do Estado em um ativo estratégico para o crime organizado.

4. Conclusões e Implicações

A análise comparativa entre a auto-descrição do PCC em seu site e as informações provenientes de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas revela um alto grau de precisão e coerência na representação da estrutura e atuação dos “Disciplinas”. O site do PCC apresenta um retrato notavelmente detalhado e, em grande parte, alinhado com a estrutura prática e hierárquica documentada da facção. Termos como “Sintonia Final”, “Salveiro”, “Resumo” e as divisões funcionais (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas) são corroborados, embora por vezes com nomenclaturas ligeiramente distintas ou mais formalizadas em relatórios de inteligência. A atuação dos “Disciplinas” na manutenção da ordem, mediação de conflitos e governança informal em territórios como a Cracolândia é amplamente confirmada por pesquisas etnográficas.12 A disciplina interna, o estatuto e a comunicação estratégica via “salves” são elementos centrais e bem documentados da coesão do PCC.

A proximidade entre a auto-descrição do PCC e as análises externas sugere que a facção possui uma estrutura interna altamente formalizada e uma narrativa própria bem desenvolvida. As fontes externas, especialmente relatórios de inteligência e pesquisas etnográficas, oferecem validação e aprofundamento, muitas vezes revelando as implicações mais amplas (sociais, econômicas, políticas) da atuação dos “Disciplinas” que a narrativa interna não aborda explicitamente.

A capacidade do PCC de reestruturar-se e expandir-se globalmente, mantendo sua disciplina e hierarquia, demonstra sua notável adaptabilidade e resiliência. Os “Disciplinas” são a espinha dorsal dessa organização, atuando como executores da ordem interna, mediadores de conflitos e agentes de expansão, consolidando o poder da facção tanto dentro quanto fora do sistema prisional. A infiltração do PCC na economia formal e sua atuação como “Estado paralelo” representam um desafio complexo para as autoridades, exigindo uma compreensão aprofundada de sua estrutura e dinâmica.

A consistência entre a auto-descrição do PCC e as evidências externas sobre sua estrutura e termos, aliada à sua capacidade de reestruturação e expansão transnacional, posiciona o PCC não apenas como uma organização criminosa, mas como um modelo de “empresa criminal adaptativa”. Isso implica que as estratégias de combate devem ir além da repressão pontual, focando na desarticulação de sua governança interna e de suas redes financeiras e ideológicas. A facção se comporta como uma “empresa” no sentido de ser eficiente, resiliente e capaz de inovar em suas operações e governança. A implicação é que o combate a essa organização exige uma abordagem multifacetada que não apenas ataque suas atividades ilícitas, mas também desmonte sua estrutura de governança interna, seus mecanismos de comunicação e sua base ideológica, reconhecendo-o como uma entidade em constante evolução e adaptação.

A “paz” e a “segurança” que os “Disciplinas” supostamente garantem são intrinsecamente ligadas a uma “força mais sombria e implacável”. Essa dualidade da ordem imposta pela violência é uma implicação crítica para a compreensão da dinâmica do crime organizado no Brasil, onde a ausência do Estado é preenchida por uma governança paralela que, embora possa reduzir certos tipos de crimes, impõe sua própria forma de controle e exploração. O site do PCC afirma que os “Disciplinas” garantem “segurança e paz” em comunidades, mas imediatamente ressalta que isso substitui a violência estatal por uma “força mais sombria e implacável”. Isso revela uma dualidade fundamental na atuação do PCC: a “ordem” que ele impõe é inseparável da violência subjacente. A capacidade de mediar conflitos e de ser uma “instância alternativa de resolução de conflitos” é sustentada pela ameaça de sanções severas, incluindo a morte. A implicação é que a “paz” oferecida pelo PCC é uma “pax mafiosa”, uma ordem imposta pelo monopólio da violência e pela exploração, e não pela justiça ou pelo bem-estar social. Compreender essa dualidade é crucial para as políticas públicas, pois a simples ausência de crimes visíveis não significa a presença de um ambiente seguro e justo, mas sim a imposição de um regime de controle criminoso.

Pacificação: a paz entre entre ladrões

A paz entre os ladrões foi conquistado pela pacificação do Primeiro Comando da Capital após o massacre do Carandirú.

A Pacificação PCC como gestora da “paz entre ladrões”

Paz entre ladrões é uma missão impossível, apesar de teóricos imaginarem há milênios formas de controlá-los…

Estamos no ano 1993 depois de Cristo. Todo o mundo do crime está em guerra… Todo? Não! Uma Casa de Custódia povoada por irredutíveis sobreviventes do Carandiru ainda resiste ao opressor.

Se considerarmos apenas nossa realidade recente podemos ver duas experiências bastante distintas: a do Regime Militar e os do Período Democrático:

Conheça a Carta do PCC ao Mundo do Crime de 3 de agosto de 2017

Quem poderá trazer a pacificação ao mundo do crime

Ambos os regimes tentaram cada um a seu modo controlar, sem sucesso, a violência nas comunidades dominadas pelo crime.

… o governo, não conhece a realidade das cadeias, o PCC criou raízes em todo o sistema carcerário paulista.

Nas prisões, diretores ultrapassados, da época repressão, tentavam resolver o problema de maneira que em foram doutrinados: porretes, choques, água fria, porrada…

Não foi suficiente. Em menos de três anos, já eram três mil. Em menos de dez anos, 40 mil.

Carlos Amorim

Álvaro e Renato, policiais e pesquisadores, afirmam que foi aí que o a facção PCC 1533 aproveitou a lacuna deixada pelo poder público.

Análise de inteligência: das ações ideológicas disciplinares e correcionais promovidas pelo Primeiro Comando da Capital — Álvaro de Souza Vieira e Renato Pires Moreira

A paz entre ladrões só pode vir de dentro para fora

Aqueles criminosos conheciam e se fizeram ser respeitados nas comunidades em que estavam inseridos: nas carceragens, nas comunidades periféricas e no mundo do crime.

Esses grupos, por milênios, foram excluídos do controle social do Estado, sendo deixados à própria sorte para viverem sob o julgo dos mais fortes.

Nesse meio o Primeiro Comando da Capital assumiu a “gestão da violência”, dentro do conceito aceito do “monopólio do uso da força pelo Estado”.

Gabriel Feltran nos conta que as comunidades periféricas, criminosas ou carcerárias, terminaram se adequando às normas da facção e não colaborando mais com a polícia.

Assim, um modo específico de gestão do uso da violência nas interações entre a polícia e o crime é estabelecido. Não existe agressão física, tampouco troca de tiros ou enfrentamento, mas um conflito ‘contido’ inserido numa esfera de interação discursiva voltada ao alcance de acordos financeiros.

Indaiatuba SP: um exemplo prático da paz entre ladrões

Em 27 de fevereiro de 2012 produzi um dos primeiros artigos onde descrevi a pacificação promovida pelo Primeiro Comando da Capital em uma comunidade periférica:

Edgar Allan Poe ensinava que existia uma forma correta para se açoitar uma criança: devia ser da esquerda para a direita.

O escritor explica a razão:

Todas as pancadas devem ser na mesma direção para lançar para fora os erros, mas cada pancada na direção oposta, soca para dentro os erros.

Talvez ele tenha razão.

Apesar das surras impostas pela sociedade, o tráfico de drogas e o crime se mantêm fortes e robustos.

Passamos pelo Regime Militar e pela Redemocratização e, com lágrimas nos olhos, vejo que não há mais esperança para o problema: falhamos.

Açoitamos a criança em todos os sentidos, e não em uma única direção como Allan Poe orientou.

E em rebento crescido não haverá açoite que possa ser dado pelo sistema policial e jurídico que surta qualquer efeito, o mal feito está feito.

Só nos cabe abaixar a cabeça e apreciar a divisão dos despojos entre os criminosos que se organizaram e se fortaleceram sob nossos próprios açoites.

continua após o mapa…

Diálogo entre ladrões: assim fundiona a paz entre ladrões

Esse diálogo trocado sobre um conflito no Morada do Sol demonstra como a organização criminosa gere os conflitos de maneira natural e com profundo conhecimento:

Edson Rogério França, o “Irmão Cara de Bola”, “Torre” da organização criminosa em Indaiatuba conversa com Willian do bairro Morada do Sol.

Willian Neves dos Santos Vieira, o “Irmão Sinistro”, é soldado da facção criminosa e morador da rua Custódio Cândido Carneiro no bairro:

— O espaço que tem lá na rua 59 é bom, é meu e do Mateus, tá ligado irmão? O irmão Matheus, conhece o Matheus? — pergunta Sinistro.

— Não, não conheci. Você fala o do trailer?

— Não irmão, lá embaixo na 59, lá embaixo, no trailer é o Marcelo, é outro menino, inclusive ele pega mercadoria de ti. — explica Sinistro.

— Não, de mim não. — se defende Cara de Bola.

— O sol brilha para todos, tenho este espaço lá há mais de treze anos. Agora, um menino meu estava precisando de uma força e eu ajeitei um canto para ele fazer a caminhada, e o Cláudio agora está ameaçando matar a mulher dele. Pô, o Cláudio é prá cá, eu sou mais prá lá, pro fundão, sou lá do lado da rua 80 e da rua 78. Já o TG do CECAP é firmeza.

Tribunal do Crime do PCC – o mediador aceito

Eu não conheço o Cláudio, portanto eu não posso afirmar que ele tenha sido açoitado quando criança do lado certo ou errado.

O que sei é que ele também negocia as drogas do Primeiro Comando da Capital e, portanto, deve ter tido as mesmas aulas que os outros criminosos.

Cláudio teve que prestar contas de sua atitude. Ele já estava sem saber em análise por suas atitudes.

Outro dia ele foi mostrar uma pedra de crack para Keiti Luis Von Ah Toyama, o “Irmão Japa”, mas este não gostou, disse que era um pouco melada.

Cláudio explicou que é a mesma que não é a da boa, é da comercial, a mesma que vende em suas lojas:

— Se quer quer, se não quer não quer, é R $10,50 a grama, é pegar ou largar.

Seja como for, as crianças cresceram e aprenderam a brincar sozinhas, agora não adianta mais bater do lado certo e nem reclamar o leite derramado.

Cláudio foi julgado por quem obteve o direito de impor as regras naquele local aproveitando a omissão do Estado.

Conheça o Dicionário do PCC (Regulamento Disciplinar da facção)

Tribunal do Crime busca Marabel

O jovem Bruno Marabel que está preso no Paraguai por matar toda a sua família conseguiu na Justiça proteção contra a facção PCC 1533.

O Primeiro Comando da Capital teria julgado Bruno Marabel no Tribunal do Crime da facção PCC 1533 e o teria sentenciado à morte o jovem que matou em 2020 sua mãe e seu padrasto, a mulher com que com ele vivia e seus dois filhos de 6 e 4 anos.

Outras fontes apontam que Bruno não teria sido aceito dentro da facção, mas que teria comprado favores dentro do cárcere com o dinheiro e os presentes que lhe são enviados pelos fãs, no entanto acabou se enrolando nas contas e ficou devendo dentro do sistema carcerário.

El caso de Bruno Marabel “la casa del horror de Paraguay” | Criminalista Nocturno

Por ter sido torturado por agentes carcerários em na Penitenciária Nacional de Tacumbú, Bruno foi transferido para Centro de Rehabilitación Social (Cereso) de Itapúa onde teria sido alertado que sua vida estaria em risco. Devido a natureza de seus crimes, a organização criminosa PCC teria decidido que o jovem deveria morrer. Transferido novamente, agora para a Penitenciaría Regional de Concepción.

Habeas Corpus Genérico a favor de Bruno Marabel Ramírez.

Em uma rara decisão, a Suprema Corte de Justiça (CSJ) emitiu um habeas corpus que obriga que as autoridades garantam a segurança de Bruno do Tribunal do Crime do PCC 1533.

Um estranho caso no Uruguai

Uma militante uruguaia narra como foi arrastada para o centro de uma guerra entre facções e governos. Sem nunca ter vendido drogas, sobreviveu à tortura, à traição e à repressão. Um grito de desespero por justiça social e dignidade no meio da falência moral do continente.

Em meio a um Uruguai dividido entre facções, Estados e traições, este relato pessoal revela o impacto brutal da guerra por controle das drogas — com menções diretas ao Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Leia e descubra como sobreviver virou resistência numa América Latina esvaziada de utopias.


Público-alvo:
Militantes de esquerda, usuários de drogas, pesquisadores em criminologia, jornalistas, ativistas por políticas de drogas, profissionais da saúde mental e leitores interessados em narrativas reais com crítica social latino-americana.

Se fosse um inimigo que me insultasse, eu o suportaria; se fosse o meu adversário que se levantasse contra mim, dele eu me esconderia. Mas és tu, meu igual, meu companheiro, meu amigo íntimo.

Salmo 55:12-13

Vou contar minha história.

Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles nesses meus trinta e oito fevereiros vividos.

Lido com os códigos da velha escola da consciência de classe. Sou de esquerda e, embora tenha crescido entre bandidos, fui abençoado e muito cuidadoso, e nunca esperei que a traição viesse de um irmão, de um oprimido, pois para mim o inimigo eram os opressores, eram os fascistas.

Nestes últimos dois anos vivi coisas horríveis!

Pela primeira vez sofri a traição daqueles, sendo meus irmãos, cantavam canções revolucionárias comigo, e acredite, dos quais eu nunca teria imaginado sofrer uma traição que quase me matou, mas cuja dor me ceifou minha fé no homem.

Nasci em fevereiro de 1984, não tenho antecedentes criminais, morei em São Paulo, Bahia, Romênia, e muitos outros lugares sem nunca ter traficado. Respeito quem o faça, mas não é meu bastão — amo demais a classe trabalhadora, não poderia agir assim.

Apesar eu mesmo ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.

Eu e muitos outros, militamos pela legalização da maconha no meu país, o Uruguai. Conseguimos. A ideia era, com a legalização haver maior controle sobre o comércio desses produtos.

No final nada disso aconteceu. Como o governo não estatizou ou nacionalizou as empresas, nós apenas regularizamos o mercado para as empresas estrangeiras exportarem nossa produção — passamos a ser vacas de ordenha para sermos sugados por investidores estrangeiros.

Se eu planto, eles roubam, não tem brotos de qualidade na periferia, só prensagem paraguaia, e um bom broto vale tanto quanto cocaína. Tudo para o lucro dos capitalistas dos narcóticos. Entendo agora o porquê, poucos dias depois da legalização, os EUA ameaçaram o presidente José Mujica de congelar as contas bancárias uruguaias em território americano: queriam que a produção não pudesse ser nacionalizada e por isso o Uruguai só regulamentou o comércio.

Nós que militamos pela legalização de nossa produção fomos espancados pela polícia e agora, as empresas estrangeiras podem explorar esse mercado e nos deixar com as migalhas, colhendo os frutos de nossa luta.

No Uruguai a guerra continua! Na periferia, a direita perdeu o mercado de drogas, mas encontrou o caminho perfeito para virar o jogo: usam cavalos de Tróia!

A estratégia é procurar um consumidor ou parceiro de negócios e ao menor deslize ou crime, estes são presos e o preço de sua liberdade é pago com a traição de seus colegas, amigos ou familiares.

Muitos aceitam participar desse novo mercado que antes pertenciam as organizações criminosas argentinas ou a facções brasileiras como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Mais cedo ou mais tarde esses que aceitaram participar desse novo mercado acabam sendo presos por algum motivo e negociam sua liberdade com a condição de se infiltrarem para entregar seus antigos comparsas de facção.

Eu nunca pertenci ao tráfico de drogas, sou apenas um usuário, jornalista, cabeleireiro, e anarquista ligado às lutas sociais. Cresci em um bairro de trabalhadores e estudei no bairro de La Blanqueada. Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda, universitários, ateus, católicos, brasileiros, argentinos, e todo o tipo de gente boa e ruim.

Eu não me importo como cada um escolhe viver sua vida, desde que não seja fascista, nem policial, nem vote na direita, se tem códigos antiquados e a consciência de classe é a única coisa que me interessa.

Há dois anos minha vida se tornou um inferno.

Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros — só voltaria depois de avisar a todos do risco e da família ou os companheiros decidirem que queriam se arriscar.

Se alguém em risco me avisasse, eu correria o risco, mas sem avisar! Cagando para minha segurança e a da minha família, aí não! Isso para mim não é a ética de um bom criminoso — o certo pelo certo!

Há dois anos aluguei de um amigo uma pequena estância, lugar onde eu vendo artesanato com meu pai de coração, um ex-prisioneiro político pelo Partido Comunista da Argentina, um homem que merece o céu, incorruptível.

Eu com esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos, e entoávamos o hino “Violencia es Mentir”! E foi esse amigo quem colocou em risco a vida e a liberdade minha e a de toda a minha família.

Eu havia alugado um quarto em uma fazenda para usarmos para nossa diversão. Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem e, de repente, em uma noite de muita tensão, eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.

Não estávamos só nós dois, haviam outros amigos e eles falavam muito, e descobri que eles roubaram drogas de alguma das facções e para pagar tinham que roubar outro traficante que ia descarregar a mercadoria de uma embarcação.

Eu e minha família não tivemos nada com isso! Eu e minha família fomos colocados por eles na linha de tiro de grupos criminosos poderosos — eu matei, mas morreria por minha família.

Imagine meu avô de 88 anos, seguindo os antigos códigos de conduta, onde se uma chave de fenda é roubada da loja de móveis ele não chamaria a polícia, preferia ele mesmo ir procurar o ladrão e lhe quebrar o joelho. Imagine se ele descobre o roubo da cocaína!

Pequei um dos que estavam metidos nessa enrascada. O derrubei e coloquei seu pescoço debaixo de minha perna. Ele me ameaçou dizendo que era da facção brasileira Comando Vermelho.

A mãe desse CV chamou um amigo dela da polícia, mas para sua surpresa veio a Guardia Republicana criada por Mujica, que me levou para o Comissário de Castillos, onde inventaram uma falsa ordem para abordar minha família — ou eu aceitaria participar do esquema de denúncia ou a ordem seria cumprida.

Foi aí que entendi o que estava acontecendo. Como os negócios se davam entre o Uruguai, a Argentina e o Brasil; e entre os grupos criminosos Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC).

O Primeiro Comando da Capital pelo menos administra muito bem a empresa: dá tranquilidade e não obriga ninguém que não pertence ao mundo do crime de se integrar a facção.

A partir daí minha vida foi um inferno.

As pessoas descobriram ao longo do tempo que ninguém de fato é livre. Todos pagam por sua liberdade às autoridades e às facções. Quiseram me prender de várias maneiras e me silenciar.

Um antigo amigo do papai que há muito não aparecia veio com a desculpa de comer um churrasco, mas depois de um tempo apareceu com uma van que parecia ter sido puxada: com vidros quebrados e com muita droga.

Ele me convidou para participar de um esquema e eu exigi que ele fosse embora. Inconformado com a resposta, ele me sequestrou por dois dias durante o inverno. Enquanto fiquei cativo, minha cabeça era enfiada minha cabeça gelo enquanto me torturava, para no fim, plantar a van na porta da minha casa e me entregar para a Polícia de Azul, denunciando que eu estava com as chaves, sendo que, essas vans são destravadas por um sistema eletrônico!

Um pesadelo sem fim.

Depois de um tempo, apreenderam um caminhão de um paraguaio e eu estaria envolvido; depois foi algo haver com um estuprador que continuava foragido; e assim como essas, outras denúncias apareciam — toda vez que começo a me recuperar, eles invadem minha casa e roubam meus telefones.

Eles esperam que eu cometa um erro ou desista de resistir e negocie como outros fizeram minha paz e liberdade, mas eu prefiro morrer a ser um miserável traidor.

Não é minha guerra!

Eu obviamente prefiro o Primeiro Comando da Capital onde se corre pelo certo, mas meu lugar de militância é no social e não quero me envolver com o crime.

Espero que essa guerra termine e que eu e meus avós, que dedicamos nossas vidas pelo socialismo, não mais sejamos torturados pelo fascismo ou pela guerra por domínio de drogas!

Se eu morrer amanhã, não foi ajuste de contas, pois nada vendi. Não é que sou incorruptível, mas não deram nem o preço, mas meu lugar é na imprensa ou trabalhando com as crianças para tirá-las das mãos dos tiranos que agem com violência e mentira.

somos filhos de trabalhadores viciados em oxi

Se usássemos a mesma energia para encontrar uma dose para fazer a revolução, a realidade da América seria diferente. As utopias de esquerda morreram na periferia, você não sente cheiro de revolução, você só sente cheiro de crack, chumbo, abuso, paramos a exportar ladrões de primeira linha e ao invés de jogadores de futebol, hoje os garotos não jogam mais bola em bairros populares, todos querem ser traficantes, sem importa que envenenar seu colega de classe faz parte.

Traição é pão de cada dia, te vendem por um segundo fogo e nem por 3 gramas. Não há garantias de resistência real para o viciado, não há lugar em clínicas ou prazo inferior a 6 meses em psiquiatria. A droga é cortada cada vez mais, e com uma qualidade cada vez menor.

Só consigo pensar em uma solução, que os Estados de cada país latino nacionalizem o mercado de drogas, eu disse nacionalizar não regulamentar. É a humilde opinião de uma filha de trabalhadores viciada em oxi.


Análise de IA do artigo: “Um Estranho Caso no Uruguai”.

🔍 Dados fáticos e temas centrais

TemaAfirmação
Identidade e trajetóriaNasceu em fevereiro de 1984; morou em São Paulo, Bahia, Romênia e outros locais; não tem antecedentes criminais; é usuário de drogas, jornalista, cabeleireiro e anarquista.
Política de drogas no UruguaiMilitante da legalização da maconha; legalização foi aprovada, mas sem estatização; produção e comércio favorecem empresas estrangeiras.
Ameaças e perseguiçõesRelata sequestro, ameaças de membros do Comando Vermelho, perseguições policiais, invasões domiciliares e repetidas tentativas de envolvê-lo em crimes.
Crítica ao modelo de legalizaçãoA legalização foi moldada de modo a impedir nacionalização da produção; afirma que os EUA teriam ameaçado Mujica com sanções bancárias caso nacionalizasse.
Facções criminosasPCC e CV estariam atuando no Uruguai; o PCC seria mais organizado e respeitoso com quem não pertence ao crime; o CV mais impulsivo e violento.
Sistema de delação e infiltraçãoAfirma que presos são libertos sob a condição de trair antigos companheiros, passando a atuar como informantes infiltrados.
Conflitos pessoaisUm amigo próximo teria roubado drogas, colocando sua vida e a de sua família em risco com organizações criminosas.
Violência estatalDenuncia abusos por parte da Guardia Republicana, com uso de ordens falsas e coação para que aceitasse colaborar como delator.
Crítica social e ideológicaLamenta a falência da utopia socialista nas periferias; diz que jovens estão cada vez mais envolvidos com o tráfico; denuncia hipocrisia de parte da esquerda.
Proposta finalDefende a nacionalização (não apenas regulamentação) do comércio de drogas nos países latino-americanos como solução para romper com o ciclo do crime e da repressão.
📌 Análise de precisão factual (com base no banco de dados e fontes confiáveis):
PontoVerificação e comentários
Legalização da maconha no Uruguai✅ Verdadeiro. Aprovada em 2013 sob o governo Mujica, com modelo de regulação estatal, mas produção foi em grande parte concedida a empresas privadas sob controle rígido. O Estado não estatizou a produção.
Ameaças dos EUA a Mujica⚠️ Parcialmente plausível, mas não confirmada oficialmente. Houve preocupações dos EUA sobre lavagem de dinheiro, e o Uruguai negociou com bancos internacionais, mas não há prova pública de ameaças diretas com congelamento de contas.
Atuação do PCC e CV no Uruguai✅ Há registros de investigações uruguaias e brasileiras apontando atuação esporádica e articulações de grupos brasileiros no cone sul, especialmente em zonas de fronteira. Porém, sua presença não é estrutural como no Brasil ou Paraguai.
Sistema de delação premiada informal⚠️ O Uruguai não possui um sistema amplo de delação premiada como o brasileiro. Acusações de delações forçadas ou uso de informantes não são documentadas em escala sistêmica, embora possam ocorrer pontualmente.
Guardia Republicana criada por Mujica✅ Verdadeiro. A Guarda Republicana é uma força especial da Polícia Nacional uruguaia reforçada durante o governo Mujica para lidar com crimes graves e narcotráfico.
Exploração por empresas estrangeiras após legalização✅ Real. As duas principais empresas inicialmente autorizadas a plantar cannabis para distribuição foram estrangeiras ou com capital estrangeiro. Pequenos produtores criticaram a centralização da produção e as restrições.
Situação de drogas adulteradas e falta de tratamento✅ Estudos e reportagens indicam precariedade na qualidade das drogas vendidas na periferia, aumento de consumo de oxi e crack, e déficit de políticas públicas de saúde mental no cone sul.

O relato possui uma base factual sólida nos seguintes aspectos: contexto político da legalização no Uruguai, presença episódica de facções brasileiras no cone sul, repressão estatal às margens da legalidade, e marginalização dos usuários. Contudo, há trechos que, embora verossímeis e coerentes com dinâmicas conhecidas, carecem de comprovação pública — como o uso sistemático de delatores ou pressões diretas dos EUA sobre Mujica em forma de ameaça bancária.

Trata-se de um testemunho de valor documental, marcado pela vivência subjetiva e leitura crítica de um militante, e não de um texto jurídico ou investigativo. Por isso, suas verdades repousam no campo do vivido e do simbólico, mais que do verificável em fontes oficiais.


Análise do texto sob o prisma da Teoria da Associação Diferencial

📌 1. O comportamento criminoso é aprendido — não herdado biologicamente

Texto: “Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles.”

Análise: O narrador reconhece ter aprendido valores, códigos e posturas através da convivência direta com pessoas do meio criminoso, político e operário. O ambiente social de origem era diverso, e não patologicamente criminoso — mas continha elementos de transgressão política e penal. Esse aprendizado é social, não genético.

📌 2. A aprendizagem ocorre em interações com pessoas próximas

Texto: “Eu e esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos […] e foi esse amigo quem colocou em risco a minha vida e de minha família.”

Análise: A traição vem de dentro da rede de convivência. A teoria prevê que o sujeito é mais vulnerável ao comportamento desviante quando a influência vem de pessoas emocionalmente significativas. A proximidade afetiva foi um vetor de risco.

📌 3. A aprendizagem inclui técnicas e racionalizações do crime

Texto: “Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem […] eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.”

Análise: O narrador demonstra domínio de códigos e estratégias que fazem parte do universo criminal, ainda que negue sua adesão prática a ele. Isso está em linha com a ideia de que se aprende não só a agir, mas a pensar e interpretar o mundo à maneira dos grupos desviantes.

📌 4. O contato com definições favoráveis ou desfavoráveis ao crime determina a inclinação para delinquir

Texto: “Apesar de ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.”

Análise: A convivência com criminosos não levou o narrador a cometer crimes. Isso se explica pela preponderância das “definições desfavoráveis ao crime” no seu arcabouço moral: há um código ético de classe e resistência, que ele valoriza mais do que a adesão ao crime. Sua recusa ativa ao tráfico demonstra que, embora exposto a valores criminosos, ele internalizou outros — ético-revolucionários, por assim dizer.

📌 5. O comportamento criminoso é aprendido como qualquer outro comportamento — pelas mesmas formas de comunicação e experiência

Texto: “Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros.”

Análise: O narrador revela que aprendeu “a ética do crime” da mesma forma que se aprende qualquer valor social: pela observação, convivência, fala e prática. Não se trata de uma simples adesão irracional ao mal, mas da internalização de um código de honra paralelo ao legal.

📌 6. A intensidade, frequência e duração das associações influenciam na aprendizagem

Texto: “Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda…”

Análise: A grande diversidade de contatos indica que o narrador foi amplamente exposto a múltiplas influências ideológicas, criminosas e sociais. Segundo Sutherland, esse tipo de ecossistema pode gerar conflito moral interno, mas também fornece alternativas para escolhas não criminosas, como é o caso.


📌 7. A associação diferencial pode explicar tanto o crime quanto a resistência a ele

Texto: “Prefiro morrer a ser um miserável traidor […] Meu lugar é na imprensa ou trabalhando com crianças.”

Análise: O protagonista, apesar da exposição intensa ao crime, recusa-se a aderir à prática. Isso reforça a ideia de que, embora o ambiente seja um fator determinante, ele não é absoluto: os significados atribuídos a essas experiências e os grupos com os quais o indivíduo mais se identifica moralmente podem moldar sua conduta em outra direção.

Conclusão da análise com base na Teoria da Associação Diferencial

O relato é um exemplo claro da aplicação da teoria de Sutherland. O narrador vive em um meio onde há forte presença de elementos criminais, mas a socialização com ideais éticos da classe trabalhadora, do anarquismo e da militância social atua como um contrapeso às pressões desviantes.

Ele aprendeu os códigos do crime — conhece sua linguagem, estratégias e limites — mas os recusa com base em valores internalizados por outras associações diferenciais, mais morais, mais comunitárias.

Sua trajetória mostra que o crime não é fruto apenas da miséria ou da predisposição pessoal, mas de uma rede de interações, códigos morais e oportunidades simbólicas.


Análise do perfil psicológico do autor

A análise psicológica do autor do texto “Um estranho caso no Uruguai” revela um perfil singular, estruturado por três dimensões centrais: vivência de conflito crônico, rigor moral fora da legalidade institucional e resistência política de base afetiva. Abaixo, apresento essa leitura em quatro blocos: identidade, afetividade, funcionamento psíquico e riscos.

🧠 1. Identidade psicossocial

✓ Identidade combativa e marginal-ética
O autor constrói uma narrativa de vida marcada pela convivência com marginais — “comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores” — mas reafirma que a criminalidade nunca foi seu caminho. Essa dualidade (inserção sem adesão) revela um senso de identidade liminar: ele habita os dois mundos, mas se recusa a ser moldado por nenhum que contradiga seus próprios códigos.

✓ Estrutura identitária vertical e herdada
Sua autoimagem está fincada em um ideal de continuidade intergeracional: “meu avô, meu pai de coração, meus companheiros”. Essa rede não é apenas relacional — é simbólica, substituindo o Estado e a legalidade institucional por uma ética própria. Isso sugere forte internalização de valores comunitários e rebeldes, uma identidade que opera à margem da ordem formal, mas se ancora em vínculos afetivos sólidos.

❤️ 2. Afetividade e códigos emocionais

✓ Raiva moral canalizada como crítica social
Há uma fúria constante no texto — contra o sistema, contra os traidores, contra a falsidade institucional — mas que não se desorganiza. Em vez disso, ela é canalizada para narrativas políticas e denúncias sociais. Isso indica alta elaboração da emoção, mas com traços de amargura profunda e desencanto acumulado.

✓ Traição como núcleo traumático
A traição por parte dos “irmãos” que cantavam canções revolucionárias com ele é descrita com mais intensidade emocional do que as ameaças físicas. Isso revela que sua maior vulnerabilidade psíquica está no rompimento dos vínculos simbólicos, não na dor corporal. O trauma relacional o desestrutura mais que a violência estatal.

✓ Ambivalência afetiva persistente
O autor idealiza o crime “honesto” (o código do criminoso de conduta) ao mesmo tempo que o rejeita. Ele admira o PCC por “correr pelo certo” e despreza o Comando Vermelho por envolvimento desordenado com o Estado. Essa ambivalência emocional mostra que seu sistema ético é construído em oposição tanto à lei quanto ao caos, o que impõe constante tensão interna.

🧩 3. Funcionamento psíquico

✓ Estrutura de pensamento discursiva e política
A escrita é coerente, articulada, com raciocínio encadeado por causa e consequência, mesmo sob carga emocional elevada. O autor é capaz de reflexão abstrata, faz crítica geopolítica, sociológica e histórica, o que aponta para um funcionamento de ego preservado e maduro em termos cognitivos.

✓ Visão de mundo dualista e moralizante
Há uma divisão clara entre “os certos” e “os errados”, ainda que o autor reconheça a complexidade das ações humanas. Isso pode ser visto como mecanismo defensivo de delimitação do eu, necessário para manter coesão psíquica em ambientes com alta ambiguidade moral. Ele não se perde nos cinzas: opta pelos extremos, mas consciente disso.

✓ Hipervigilância e percepção persecutória fundamentada
Dado o histórico relatado de sequestros, vigilância, ameaças e infiltrações, é esperado que o autor desenvolva comportamentos de hipervigilância. No entanto, ele mantém a noção de realidade, distinguindo-se de quadros paranoides: sua desconfiança é contextualmente plausível e relatada com clareza.

⚠️ 4. Indicadores de risco psicológico

RiscoEvidência no textoInterpretação
Trauma relacional“…ceifou minha fé no homem”Provável vivência de ruptura traumática de confiança, com impacto em vínculos futuros.
Síndrome de estresse pós-traumático (subclínica)Sequestro, tortura, perseguições repetidasIndícios compatíveis com TEPT leve a moderado, ainda não desorganizante, mas marcante.
Pensamento sacrificial“Prefiro morrer a ser um miserável traidor.”Risco de autoexposição excessiva, sustentada por uma ética de honra que pode comprometer a autopreservação.
Uso de substâncias“Sou usuário de drogas.”Reconhece o uso, mas afirma limites claros; há risco moderado de dependência, mas não há sinais de uso descontrolado no texto.
Isolamento social funcional“Minha vida virou um inferno.”Indica restrição de redes de apoio confiáveis; o autor parece operando num circuito de sobrevivência e desconfiança.

✅ Conclusão do perfil psicológico

O autor é um indivíduo de estrutura psíquica preservada, alta capacidade reflexiva e com uma ética pessoal profundamente enraizada na justiça de classe e na lealdade afetiva. Ele demonstra resiliência significativa diante de adversidades graves, mas carrega feridas emocionais profundas, sobretudo no campo da confiança interpessoal.

Seu modo de viver e pensar é condicionado por experiências reais de perseguição e violência, mas sua resposta a isso não é paranoica nem vingativa: é crítica, social e política. Há traços de sofrimento emocional mal processado, mas compensados por engajamento simbólico com causas sociais e produção discursiva (narração, denúncia, articulação).

Sua maior fragilidade psíquica parece estar na solidão moral do justo que recusa tanto o Estado quanto o crime — um território perigoso para quem resiste.

Um agiota na Família PCC 1533

Embora a facção Primeiro Comando da Capital proíba agiotagem, há um caso conhecido de um agiota que financiava ações dentro da organização criminosa paulista.

Financiando as ações da facção PCC 1533

Se há agiotas dentro do Primeiro Comando da Capital, por que nunca conheci nenhum?

Essa questão me surgiu enquanto Joaquim Maria detalhava uma história que eu apenas conhecia superficialmente:

A história de Capitão, um homem responsável por parte do paiol do 19, e que financiava operações de quadrilhas compostas por integrantes da facção PCC 1533, tanto no Brasil quanto no exterior.

Meu encontro com Joaquim Maria no Boa Vista

Meu Encontro com Joaquim Maria em Boa Vista

Estava acompanhando um conhecido que tinha ido entregar um pacote ao “patrão das biqueiras” de Boa Vista. Enquanto aguardávamos no bar situado na entrada do bairro, ao lado da loja de rações, Joaquim Maria se aproximou e sentou-se na mureta para conversar conosco.

Foi dessa maneira que obtive os pormenores sobre a história do Capitão e das pessoas que lhe eram próximas.

Não posso negar o óbvio: eles pertenciam ao mundo do crime, e foi por meio desse lado obscuro da vida que realizaram os sonhos de muitos que vivem nas periferias.

E eu que sempre quis um lugar gramado e limpo, assim, verde como o mar, com cercas brancas, uma seringueira com balança… – Racionais MC’s

Dois casais brindando em uma mesa tendo ao fundo um casal de jovens na periferia e acima a frase "Abandonando Esteriótipos, eles não frequentam os bailes funks".
Facção PCC 1533 Abandonando Estereótipos

Abandone Seus Preconceitos para Ler Esta História

Comumente, altero os nomes dos envolvidos, seja para preservar a discrição ou para evitar possíveis processos judiciais. Contudo, nesta narrativa, muitos dos personagens são de conhecimento público. Portanto, optei por utilizar os nomes reais: José de Meneses (Mene), Eulália (Lia), Nogueira (Capitão) e Cristiana.

Eles se tornaram conhecidos não por serem membros da facção Primeiro Comando da Capital, mas pelos laços de amor e amizade que os uniam. Por essa razão, julguei pertinente compartilhar o que aconteceu com eles.

Nem todos os membros do PCC vivem e agem da mesma forma, ou frequentam os mesmos ambientes. Estes quatro são um exemplo disso; é falacioso o estereótipo construído em torno dos integrantes da Família 1533, como você poderá constatar se conhecer Mene, Lia, Capitão e Cristiana.

É indiscutível que eles, assim como todos nós, flexibilizavam as regras sociais, mas não eram pessoas más.

Vivemos, de certa forma, todos no mundo do crime, aceitando com naturalidade transgressões às normas sociais que nos são impostas e que nos desagradam. O que é trivial para um pode ser deplorável para outro.

A morte de um trabalhador, atingido por oitenta disparos efetuados por soldados do exército enquanto se deslocava com sua família para um chá de bebê, pode ser interpretada como um ato bárbaro, como consequência de discursos políticos populistas, ou como um incidente no qual “o exército não matou ninguém”.

Tudo é relativo; o que é injusto pode tornar-se justo, ou pelo menos aceitável, desde que haja uma justificativa que permita a autorredenção de nossos pecados:

  • Usar o celular enquanto dirige (“só por um minutinho”);
  • Dirigir sob influência de álcool (“estou bem e vou dirigir com cuidado”);
  • Comercializar drogas (“se eu não vender, alguém venderá; é a lei do mercado”);
  • Omitir renda na declaração de impostos (“o brasileiro já paga impostos demais”);
  • Assaltar bancos ou desviar dinheiro público (“roubar dos ricos ou do governo”), etc.

Os quatro, assim como nós, nos enquadramos em uma ou outra infração e condenamos implacavelmente outros grupos. No entanto, o foco aqui é a vida de Capitão Nogueira, e não a minha, a sua, ou a do presidente Bolsonaro. Retornemos ao tema principal…

Um casal trafica em uma área verde sob uma tarja com os dizeres "amar e trabalhar, sempre juntos no amor e nos corres".
Amar e trabalhar na facção pcc 1533

Crescendo no seio da Família 1533

Apesar dos delitos que cometeram, eles se consideravam pessoas de bem, que simplesmente rejeitavam alguns valores impostos por uma sociedade que viam como injusta e desigual. Acreditavam que era seu direito buscar reparações por isso.

Digo isso por conhecer diversas pessoas similares ao Capitão e seus amigos. Por sua vez, o filósofo, sociólogo e jurista italiano Alessandro Baratta, que não teve a oportunidade de conhecer tais indivíduos, expressa um ponto de vista similar, ainda que em termos mais acadêmicos:

“(…) a delinquência como forma de comportamento baseado sobre normas e valores diversos dos que caracterizam a ordem constituída e, especialmente, a classe média, em oposição a tais valores, do mesmo modo que o comportamento conformista se baseia sobre a adesão a estes valores e normas.”

Um vínculo especial se formou entre Lia e Cristiana. Enquanto os pertences eram descarregados do caminhão, Cristiana se ofereceu para ajudar. Naquele instante, elas se tornaram mais do que amigas; tornaram-se irmãs. Com Mene ocorreu algo similar: ele chegou, se interessou por Lia e nunca mais a trocou por outra pessoa.

Mene e Lia experimentaram a adolescência e o amor ao mesmo tempo que conheceram as drogas e o lado obscuro da vida. Cristiana, sendo filha do dono de uma “biqueira”, era quem levava as drogas para os “vaporzinhos” que atuavam nas ruas próximas à sua casa.

Cristiana era uma jovem excepcional, extrovertida, excelente conversadora e muito inteligente. Mene e Lia reconheciam a sorte que tinham em tê-la como amiga. Foi ela quem negociou com seu pai para deixar com eles algumas porções de drogas para vender enquanto namoravam no parque.

Mene e Lia sempre chegavam juntos e partiam juntos da escola, do parque e das festas. Apenas se separavam temporariamente quando Lia ia até a casa de Cristiana para buscar mais mercadorias para vender ou quando Mene era convocado os corres mil graus.

Fotomontagem com um garoto em uma moto em frente a um mapa e sob a frase "Mene cai pela primeira vez, deu fuga de Mairinque à Araçariguama".
Mene da facção PCC cai pela primeira vez

Conhecendo e fazendo negócios com o Capitão

Antes mesmo de completar dezesseis anos, Mene já possuía uma moto. Embora o veículo não estivesse registrado em seu nome, era de fato dele, adquirido com o dinheiro obtido através da venda de drogas no parque, bem como atuando como piloto em assaltos e na distribuição de entorpecentes.

Poucos meses após quitar a moto, Mene se envolveu em uma perseguição com a ROCAM (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas), que se estendeu de São Roque até Araçariguama. Acabou capturado quando o combustível se esgotou. Embora não tenha sido encarcerado, foi levado ao Conselho Tutelar e sua família precisou buscá-lo. Perdeu sua moto como consequência do incidente.

Ao retornar para casa, seus amigos o apresentaram ao Capitão. Mene já ouvira falar sobre essa figura enigmática, mas nunca tivera a oportunidade de encontrá-lo, pois o Capitão raramente frequentava a comunidade local. O ex-oficial da polícia militar, expulso da corporação, também tinha ouvido falar que Mene era firmeza nas responsas e já tinha desenrolado situações delicadas e, por isso, decidiu chamá-lo para uma conversa.

O Capitão fez uma proposta, que foi prontamente aceita por Mene. Ele saiu do encontro com uma moto significativamente melhor do que a que possuía anteriormente. A partir desse momento, Mene começou a realizar tarefas para o Capitão sempre que era convocado. Apesar da grande diferença de idade entre eles, estabeleceu-se uma amizade.

Fotomontagem de um casal sob a frase "deixando a quebrada, da comunidade para o condomínio".
Deixando a quebrada

Todo mundo invejava Mene e Lia

Após ser detido pela polícia pela primeira e única vez em sua vida, Mene resolveu que não queria mais que Lia continuasse naquela trajetória. No entanto, ambos mantiveram-se envolvidos no tráfico até o momento em que ele foi convocado para o serviço militar obrigatório.

No dia em que Mene ingressou no quartel, Lia abandonou a venda de drogas e não mais retornou a essa atividade. Quando Mene foi dispensado do serviço militar, foi ao encontro de Lia na casa dos pais dela, casaram-se e mudaram-se para um bairro de classe média em Indaiatuba.

Se restava alguma dúvida sobre o amor mútuo entre os dois, a atitude de Mene dissipou-as completamente.

Seria impossível amar mais do que aqueles dois se amavam. As garotas tinham todas as razões para invejar a felicidade de Lia.

Depois de se mudarem, o casal nunca mais voltou ao Boa Vista. Apenas “uma pessoa ou outra, especialmente escolhida, conseguia às vezes ter acesso ao santuário no qual os dois viviam. E cada vez que alguém saía de lá,” carregava consigo a impressão do profundo amor que unia o casal.

Mene decide que é hora de mudar o seu futuro e o de sua mulher

Ele não queria mais envolver sua esposa com o mundo do crime. Portanto, ambos deixaram para trás o passado e cortaram as relações que mantinham com o Boa Vista. Desde então, apenas Mene continuou engajado em atividades ilícitas.

Embora sempre tenha sido altamente considerado dentro da facção, Mene percebeu que seu tempo no serviço militar lhe proporcionou habilidades valiosas. Sua destreza e conhecimento na manutenção e operação de armas de fogo de longo alcance lhe permitiram aumentar ainda mais seus rendimentos.

Desde a mudança para Indaiatuba, ele se limitou a participar de assaltos em diferentes regiões do país, a transportar armamentos das fronteiras até São Paulo e a fornecer treinamento em tiro e manutenção de armas longas para os membros da organização.

Fotomontagem de um casal em uma  cidade européia sob a frase "A mulher do Capitão, um amor sincero seria possível?"
A mulher do Capitão

É possível amar um homem com o dobro de sua idade?

Uma década se passou nesta nova vida, e o casal Mene e Lia permanecia apaixonado. José Maria me descreveu a situação nos seguintes termos:

Nenhum obstáculo turvava a felicidade do casal, exceto quando ele precisava sair a trabalho e ficava alguns dias sem comunicação. Contudo, tais momentos eram como chuvas de primavera, que logo davam lugar ao sol, permitindo que florescessem os sorrisos e o amor duradouro.

O casal teve uma única filha, Ana Sophia. No dia do aniversário de dez anos da menina, um automóvel de alto padrão estacionou em frente à sua residência. Dele desceram duas figuras que haviam sido muito importantes no passado de Mene e Lia: o Capitão e Cristiana.

Tudo mudou após a mudança de Mene e Lia

Pouco tempo depois de os jovens Mene e Lia deixarem o Boa Vista, os pais de Cristiana faleceram em um acidente de carro. Sozinha, ela acabou indo morar com o Capitão, que a acolheu como se fosse sua própria filha.

Entretanto, a convivência os aproximou de outra forma, e acabaram se casando alguns anos mais tarde. Contudo, não nos iludamos: a jovem Cristiana nunca esteve verdadeiramente apaixonada pelo velho ex-militar.

José Maria, com seu jeito professoral típico de conversas de balcão de bar, descreveu assim essa relação:

Cristiana não nutria pelo Capitão um amor igual ou sequer inferior ao que ele sentia por ela; dedicava-lhe uma estima respeitosa. E o hábito, reconhecido por todos desde Aristóteles, aumentava a estima de Cristiana e conferia à vida do Capitão uma paz, uma tranquilidade e um contentamento suave, tão dignos de inveja quanto o amor entre Mene e Lia.

Fotomontagem com duas fotos com dois casais em frente a notícias de jornais sob a frase "Saqueando cidades: ações que podem render milhões".
Facção PCC 1533 saqueando cidades

As operações do Capitão e sua nova vida

Cristiana, uma jovem de trinta anos, possuía um sorriso genuíno, cabelos belos, pele sedosa e olhos brilhantes. “Gostosa” seria um termo insuficiente para descrevê-la. Mesmo para alguém que já tinha vivido as belezas que a vida podia oferecer, como era o caso de Mene, era impossível não invejar a sorte do Capitão, um homem na casa dos sessenta anos, mas ainda muito bem apessoado.

Imagine a surpresa e a felicidade de Mene e Lia ao descobrir que o Capitão e Cristiana planejavam mudar-se para perto. Estavam em busca de um lugar tranquilo para viver.

Mene e Lia ofereceram a eles a oportunidade de ficar em sua casa, pois havia quartos disponíveis. No entanto, o Capitão, valorizando sua privacidade, já havia escolhido uma residência em um condomínio luxuoso nas proximidades.

Capitão resolve que é chegada a hora de mudar o futuro seu e de sua mulher

Desde a morte de seus pais, Cristiana havia deixado de participar das atividades de rua para gerenciar os negócios do Capitão e os empreendimentos que lavavam dinheiro para a organização criminosa: lava-jatos, postos de gasolina, uma rede de pizzarias e uma franquia de buffet infantil.

O Capitão continuava a manter o arsenal da facção, financiar as quadrilhas e, apenas para sentir a adrenalina pulsar em suas veias, participava na linha de frente de grandes operações, como ataques a sedes de transportadoras de valores e pilhagens de pequenas cidades.

No entanto, durante uma viagem pela Europa, o Capitão e Cristiana decidiram que mudariam de vida, à semelhança do que Mene e Lia haviam feito no passado. Escolheram se estabelecer nos arredores de Indaiatuba, onde já viviam seus queridos amigos de longa data.

E assim o fizeram. Capitão desarticulou seu esquema criminoso, mantendo apenas o financiamento de atividades para quadrilhas associadas ao Primeiro Comando da Capital.

E assim o fizeram. Capitão desmontou seu esquema criminoso, ficando apenas com o financiamento de ações de quadrilhas ligadas ao Primeiro Comando da Capital.

Fotomontagem de ilustração de uma mão fazendo o símbolo do 3 a frente de uma outra mão colocando moedas na mesa sob a frase "O certo pelo certo, o PCC 1533 e a cobrança de juros".
O certo pelo certo os juros não serão cobrados

O Certo pelo Certo: Os Juros Não Serão Cobrados

Assim como o Capitão, Mene também abandonou todas as suas outras atividades criminosas para trabalhar exclusivamente no transporte de valores e na cobrança de dívidas para seu velho amigo.

Inicialmente, essa operação transcorria tranquilamente, e o lucro para ambos superava o que anteriormente obtinham com tráfico e assaltos. No entanto, a cobrança de juros em empréstimos foi proibida dentro da organização Primeiro Comando da Capital, afetando os rendimentos da dupla.

Segundo as novas regras do crime organizado, o financiador de operações poderia acordar em receber uma parte do butim obtido pela quadrilha nas ações, mas não tinha o direito de cobrar pelo uso do dinheiro em si, como se fosse um empréstimo a juros.

Ainda assim, o financiamento de assaltos e do comércio internacional de grandes quantidades de drogas assegurava lucros substanciais. No entanto, caso as operações fracassassem, a obrigação de pagamento permanecia com o devedor, sem a possibilidade de extorsão através da cobrança de juros.

Essa era uma das regras do “certo pelo certo, e o errado será cobrado”, incorporada para proteger as famílias dos encarcerados de serem extorquidas por dívidas contraídas pelos detentos. A regra também impedia que os recém-liberados carregassem consigo uma dívida impagável.

No entanto, era nesse espectro cinzento, situado entre o preto e o branco, que Capitão e Mene navegavam. Eles buscavam “correr pelo lado certo, do lado errado da vida”, enquanto ainda reivindicavam o que consideravam ser uma compensação justa pelo risco e investimento feitos.

Fotomontagem de um casal tendo ao fundo uma mulher olhando sob a frase "Amor e talaricagem, quando o amor se transforma em pecado".
Amor e talaricagem na facção PCC 1533

A Família 1533, o Amor e a Talaricagem

A vida prosseguia serena nos negócios, e os casais estavam cada vez mais unidos e felizes. As saídas de Mene agora eram menos frequentes e de curta duração, permitindo-lhe retornar rapidamente para Lia. Já Capitão e Cristiana raramente se ausentavam de sua residência.

Em uma ocasião, Cristiana decidiu fazer uma visita a Lia, que, como se verificou, não estava em casa, deixando apenas Mene. Relatarei o diálogo ocorrido entre os dois naquele dia, exatamente como foi descrito por Joaquim Maria:

Após trocarem várias palavras sobre assuntos completamente irrelevantes para nossa narrativa, Mene fixou seu olhar na interlocutora e ousou perguntar:

— Não sente saudade do passado, Cris?

Cristiana estremeceu, baixou os olhos e permaneceu em silêncio.

Mene insistiu, e a resposta de Cristiana foi:

— Não sei; me deixe!

Ela tentou libertar seu braço, mas Mene a segurou.

— Onde pretende ir? Tem medo de mim?

Nesse momento, Mene recebe quase que simultaneamente duas mensagens no WhatsApp. Dá uma olhada rápida, identifica os remetentes e decide não responder imediatamente, para evitar que Cristiana se solte.

Ela parecia claramente desconfortável, como se também nutrisse algum sentimento por ele, sentimentos esses que mantinha reprimidos devido ao seu casamento. Mene, percebendo isso, insistiu:

— Se não me ama, diga. Aceitarei essa confissão como punição por não ter me casado com você, mas sim com alguém que realmente nunca amei. Você sabe que fiquei com Lia apenas para estar mais perto de você e acabei me casando com ela para evitar que ela viesse a odiá-la por “roubar-me” dela. E foi você quem quis que nos separássemos.

Foi dessa forma que Joaquim Maria revelou algo a mim que permanecia desconhecido: o envolvimento anterior entre Cristiana e Mene, ocorrido enquanto este último já estava em um relacionamento com Lia.

Cristiana, naquela época, envolveu-se com Mene puramente por prazer e, percebendo a profundidade e sinceridade do amor de Lia, decidiu afastar-se e deixar o caminho livre para a amiga. Nunca revelou a verdadeira razão para Lia. Agora, depois de tantos anos, Mene decide cobrar a reavaliação de uma paixão juvenil.

A chegada oportuna de Lia interrompeu a conversa, e Mene prontamente mudou de assunto.

Um romance do passado escondido de todos

Foi assim que Joaquim Maria contou para mim algo que ninguém sabia sobre o caso que existiu entre Cristiana e Mene quando este já namorava com Lia.

Cristiana ficou naquela época com ele apenas por prazer, e quando viu que o amor de Lia era verdadeiro e sincero deixou o jovem para a amiga, sem nunca lhe dizer nada. Agora, depois de tantos anos, Mene resolve exigir o resgate de uma paixão adolescente.

Para sua sorte, Lia chegou, e Mene mudou de assunto.

Fotomontagem de duas garotas olhando uma outra mexendo no celular sob a frase "Sininho e Camila Veneno, recebeu não leu o pau comeu",
As mensagens de Sininho e Camila Veneno

O destino resolve que é chegada a hora de mudar o futuro daqueles casais

Cristiana se despediu do casal, mas, na saída, Mene ficou a sós com ela e novamente declarou seu amor, afirmando que não sossegaria enquanto não ficassem juntos, nem que fosse ao menos uma noite – ela lhe devia isso.

Quando Mene entrou novamente em casa, comentou com a esposa que Cristiana estava agitada e aconselhou que ela fosse visitar a amiga assim que possível para ver se o que a afligia.

Nunca saberei se o rapaz instigou a mulher apenas por um prazer doentio, para ver se Lia havia desconfiado de alguma coisa ou para testar o quanto a antiga amante conseguiria manter o antigo segredo.

Um descuido e uma descoberta

O que sei é que naquele dia, um pouco mais tarde, Mene teve que ir até o aeroporto de Viracopos retirar alguns equipamentos que chegavam e que deveriam ser levados até um galpão em Pirituba, na Zona Oeste de São Paulo, ainda naquele dia.

Enquanto isso, Lia foi à escola buscar Ana Sophia e deixou a menina para estudar na casa de uma amiga. Ao voltar para casa, sozinha, resolveu visitar Cristiana, conforme havia lhe sugerido o marido antes de sair.

Ela ligou para Mene para avisá-lo onde ela estaria, mas ouviu o telefone tocando no quarto – na pressa de sair, ele devia ter esquecido o aparelho em casa. Ela notou que havia duas mensagens não lidas, e resolveu ler as mensagens.

O casal não tinha segredos, confiavam totalmente um no outro. Foi ela mesma quem havia escolhido a senha do celular para ele. Eram as duas mensagens que Mene havia recebido e não lido enquanto estava tentando convencer Cristiana a voltar o relacionamento com ele.

Mensagem enviada por “Sininho”:

“Mene, se acha que sou trouxa, parabéns, a única coisa que você vai conseguir com isso é fika sozinho. Vc fika com a Camila, ela me disse. ME ESQUECE CARA DE PAU.”

Mensagem enviada por “Camila Veneno”:

“Seu merda, não aparece aqui, Sininho é minha amiga, vc é um bosta e td que vc disse prá ela é mentira, aprende ser homem. Vc me engana com ela, e vc nunca nunca nunca nunca me pagou, não sou sua puta. Rodada é sua mãe! Nunca vem mais.”

Lia sempre foi forte, mas sentou e chorou. Eram essas as missões que deixava o marido por dias fora de casa?

Fotomontagem tendo ao centro uma estrada, à esquerda uma doca de descarga, à direita a cidade de São Paulo.
Armas de Viracopos à ZO SP

Uma mensagem misteriosa interrompe a missão de Mene

Mene não havia esquecido o celular, ele o deixara de propósito, como sempre fazia quando saía em um missão – se o sinal do aparelho fosse rastreado, seu localizador apontaria que ele não saiu de sua residência.

O que de fato ele esqueceu, porque se distraiu com Cristiana, foi de apagar as duas mensagens. A mulher não costumava mexer no aparelho, então ele depois resolveria com calma a parada com as duas piranhas de Campinas.

Ele retirou o pacote no aeroporto de Viracopos e já seguia pela Rodovia dos Bandeirantes quando recebeu uma mensagem no aparelho que levava nas operações e que só o Capitão tinha o número:

“Vem para já minha casa, agora. Preciso falar com você sem demora.”

O Capitão sabia que ele estava no meio de um serviço que ele mesmo havia passado. O que podia ser tão urgente assim para interromper o trabalho?

Primeiro imaginou que o esquema foi descoberto pela polícia, que iria interceptá-lo na estrada ou no momento da entrega, mas também poderia ser que o parceiro percebeu alguma trairagem e os compradores poderiam tentar zerá-lo e ficar com o pacote sem pagar.

Se arrependeu de ter aceitado aquele serviço. A paga era boa, mais que o triplo que o normal, mas eles haviam prometido às mulheres que não mais iriam fazer esses corres, só que não resistiram à tentação de uma grana fácil.

Fotomontagem de uma interminável estrada sob a frase "missão cancelada, vem já para minha casa, agora."
Missão cancelada

Quando minutos se transformam em horas

O azar é que já havia passado o último retorno, ficando longe para voltar por Campinas, e até para cortar pela Vinhedo-Viracopos teria que ir até Itupeva, perto de Jundiaí, para fazer o retorno, uma hora e meia de viagem – nesse tempo daria para entregar o pacote…

A cada quilômetro rodado suas emoções se alteravam, ora se tranquilizava, ora ficava ansioso – e havia ainda longos sessenta quilómetros pela frente para se martirizar, e nem o trânsito estava colaborando.

Eles estavam tão sossegados, para que foram se meter nessa? – Mene não se conformava.

“Preciso falar com você sem demora.” – dizia a mensagem.

Isso não estava certo, se o plano tivesse sido descoberto eles tinham uma mensagem combinada para Mene abortar a missão e mocosar o pacote.

Será que a polícia estaria esperando na casa do velho?

Ou talvez não, pode ser que o Capitão ficou muito puto com o cancelamento da missão e queria a companhia do rapaz para se desestressar. Isso tinha acontecido no passado, quando ele era mais novo, mas agora pode ser que o velho militar tivesse uma recaída.

Aquela estrada parecia nunca acabar, nunca percebeu como era tão longa.

Pensou em seguir antes para sua casa, pegar a mulher e fugir, desaparecer por uns dias e só voltar depois de ter saído fora do flagrante; ou seria melhor seguir a ordem do companheiro?

Deveria ir a casa do Capitão armado ou desarmado, com ou sem o pacote?

Fotomontagem de um homem olhando para carros parados na garagem de uma residência sob a frase "na casa do capitão, espere sempre pelo inesperado",
Na casa do capitão expluso da PM

Mene resolve se deixar levar pelo destino

Entrou no condomínio e seguiu para a residência do Capitão. Não notou nenhuma reação diferente nos seguranças da portaria, que ligaram para a casa para que o proprietário autorizasse sua entrada.

Mas se a polícia estivesse esperando por ele, os seguranças, que eram todos policiais e guardas civis que faziam bico para o condomínio, não iriam estragar o flagrante, pelo contrário, deveriam estar torcendo contra ele.

“Foda-se”, pensou. Ele iria descobrir em poucos minutos.

Mene podia esperar tudo, menos aquilo

Ele gelou ao chegar próximo à casa e ver que o carro de Lia estava ali. Cristiana devia ter contado ao marido da talaricagem de Mene, e o velho que chamara Lia para resolverem juntos a parada.

Parou próximo, planejando uma forma de se livrar da acusação de Cristiana, pois talarico morre pelo Dicionário da Facção PCC 1533.

Talarico. O destino de talarico é a morte:

1. Ato de Talarico: Quando o envolvido tenta induzir a companheira de outro e não é correspondido, usa de meios como, mensagens, ligações, ou gestos. Punição: exclusão sem retorno, fica a cobrança a critério do prejudicado e é analisado pela Sintonia.

Não adiantaria fugir, ele seria caçado pela facção e seria justiçado.

Fotomontagem do Tribunal do Crime do PCC 1533 sob a frase "o certo pelo certo e o errado será cobrado".
Tribunal do Crime – Agiotagem

O destino não devia ter reunido novamente os quatro

Resolveu entrar, conversar, sentir o clima, ouvir as acusações e depois jogar a culpa em Cristiana, acusando-a de querer trocar o velho Capitão por ele, e como ele a teria recusado, ela o acusava falsamente para se vingar.

No final ela iria se ferrar e ele se sairia bem, quem duvidaria que ela não tivesse interesse em trocar o velho por ele?

Às vezes o destino nos prega algumas peças.

Mene e Capitão haviam resolvido abandonar a maioria de suas atividades criminosas para se dedicar às suas famílias.

A infidelidade de Mene com outras garotas poderia ter abalado um pouco esse cenário tranquilo, principalmente depois que Lia descobriu as mensagens e resolveu ir à casa de Capitão para desabafar com Cristiana, sem imaginar que a amiga também havia ficado no passado com Mene, e que agora desejava reatar o caso.

Mas nem Lia e nem o Capitão jamais saberiam disso por Cristiana – Mene estava certo, a garota realmente queria ficar com ele, só não tinha coragem de assumir essa posição, temendo que se o marido desconfiasse mataria a ambos.

O certo pelo certo e o errado será cobrado

Quando Lia chegou à casa, foi surpreendida por seis homens armados que mantinham Capitão e Cristiana sentados em um sofá, e ela foi colocada junto a eles.

Cristiana chorava, mas ela e o Capitão ficaram em silêncio por quase uma hora até que Mene entrou e também foi imediatamente rendido.

Com uma voz suave, mas com as gírias próprias da facção, um dos homens avisou ao Capitão e a Mene que seriam levados para um debate, pois estavam sendo acusados de agiotagem.

Com calma, o homem afirmou que não precisavam se preocupar, que tudo seria esclarecido e logo voltariam para casa se estivessem correndo pelo certo, e que o resto da quadrilha continuaria ali para garantir que eles não tentassem alertar a segurança ao sair.

Capitão saiu conduzindo seu carro, tendo ao lado Mene, e no banco de trás dois homens do Tribunal do Crime.

Passaram-se meia hora até que os que estavam na casa receberam a mensagem de que os homens estavam seguros no cativeiro e que podiam deixar a casa.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

Mas o xeque-mate não seria o caso para Mene.

A polícia atuando nas ruas

Foi mais ou menos essa história que Joaquim Maria me contou, se bem que acrescentei alguns detalhes que eu já conhecia, assim como outras coisas descobri depois conversando com um ou com outro por aí.

A noite já havia fechado quando o “patrão das biqueiras” no Boa Vista chegou para fechar o negócio, e tudo se resolveu rapidamente – ao lado do bar há uma loja de ração com uma balança, o que facilita tudo.

Por pura ironia do destino ficamos conversando por algum tempo antes de poder voltar para casa, porque uma equipe da força tática parou para fazer a abordagem em alguns garotos que desciam a avenida quase em frente ao bar em que estávamos.

Pedimos mais algumas cervejas enquanto olhávamos a polícia trabalhando. Como os garotos estavam limpos, só receberam os esculachos de praxe.

Me veio uma outra pergunta em mente: será que eles agiriam com esse mesmo procedimento se houvessem câmeras nos uniformes ou se estivessem em um bairro nobre da cidade?

Os policiais, assim como nós mesmos, cometemos uma ou outra infração e condenamos sem perdão os pecados cometidos pelos outros. Contudo, não vim aqui para falar sobre como os policiais fazem seu trabalho, e sim sobre dois casais de criminosos.

(Esse texto é baseado em fatos reais que foram adaptados tendo como base o conto “Casada e viúva” de Joaquim Maria Machado de Assis)

PCC um filho indesejado da PM-SP

Os policiais militares negam a paternidade do Primeiro Comando da Capital, mas três acadêmicos afirmam que eles são os pais da criança.

O PCC como fruto de uma intensa emoção

O Primeiro Comando da Capital é um filho nascido de um estupro coletivo praticado por policiais militares do estado de São Paulo.

Podia ver nos olhos daqueles policiais que estavam prestes a entrar no Carandiru as pupilas dilatadas por uma mistura de medo, excitação e ódio.

Podia sentir naqueles militares os tonéis de adrenalina sendo derramados no sangue que jorrava como cascata pelas veias – um prazer quase sexual:

Foi algo tão forte e tão excitante que por alguns segundos dessa forte emoção aqueles homens trocaram suas carreiras, a vida de 111 homens e a segurança de toda uma sociedade.

Onde citei neste site Polícia Militar → ۞

Penetrando com violência – um estupro coletivo

Aqueles policiais agiram como quaisquer outros homens teriam agido na mesma situação – todos participaram, e nunca saberemos com certeza quem é o pai da criança:

“[…] o diretor tentou convencer a Polícia Militar para que ele pudesse tentar negociar com os rebelados e chegou até a porta que dava acesso ao pátio externo setor nove, mas, a polícia utilizou do momento para disparar portão adentro […]”

O nascimento do PCC seria evitável até o momento no qual o diretor do presídio foi empurrado para o lado e os homens se enfiaram com violência para dentro da instituição.

A Casa de Custódia do Carandiru estava sendo invadida sob os olhares sedentos de prazer dos telespectadores que, de suas poltronas, acompanhavam o evento e repetiam com o Datena: “bandido bom é bandido morto”:

“Estupraram?? Sequestraram?? Assaltaram?? E daí? Essa polícia é mesmo danada! Prendam a Polícia!!! Soltem os santinhos!!!”, bradavam muitos, entre eles: eu, você e Marcia Guimarães de Almeida, de Franca (São Paulo).

Onde citei neste site o Massacre do Carandiru → ۞

Pesquisando o momento da concepção do PCC

A ereção e as emoções sentidas por aqueles homens que se enfiaram naquele emaranhado de corredores escuros e sujos baixou após algumas horas.

No entanto, os policiais, sem se darem conta, plantaram a semente do mal e regaram-na com o sangue de centenas de detentos e as lágrimas de milhares de seus amigos, mulheres e familiares.

Dez meses depois, há 134 km dali, na Casa de Custódia do Taubaté, o fruto daquele sêmen introduzido gerou o Primeiro Comando da Capital.

Os policiais militares negam que um deles seja o pai da criança, mas os pesquisadores de Ciências Sociais e Direitos Humanos Cezar Bueno de Lima, Danilo Augusto Gonçalves Carneiro e Deiler Raphael Souza de Lima afirmam que podem comprovar a paternidade.

Esse é o foco do artigo “O mundo é diferente da ponte para cá: uma análise da violação dos Direitos Humanos” publicado nos anais do II Simpósio Internacional Interdisciplinar em Ciências Sociais Aplicadas pelos pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Onde citei neste site sociólogos e trabalhos de Ciências Sociais → ۞

União em torno da ética do crime

Os pesquisadores lembram que na certidão de nascimento do PCC, registrada em 1997 no Diário Oficial do Estado de São Paulo, consta:

“13. [] em 02 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre que jamais será esquecido [] por que nós do Comando vamos sacudir o Sistema e fazer essas autoridades mudar a prática carcerária, desumana, cheia de injustiça, opressão, torturas, massacres nas prisões.

Até então existiam milhares de grupos de detentos agindo isoladamente em presídios, cadeias, abrigo de menores e clínicas de internação por todo o país, mas o Massacre do Carandiru teve o poder de integrar as diversas gangues.

Foi possível, então, implantar uma ética do crime dentro do sistema carcerário, algo que freasse os abusos sexuais, a violência física e a extorsão sofrida por outros encarcerados e por agentes públicos.

“[…] assim como a necessidade de união e solidariedade entre a população carcerária para enfrentar esse inimigo comum, representado na figura dos agentes prisionais e, principalmente, da polícia.”

O mundo do crime se auto impunha a obrigação de seguir regras dos Direitos Humanos, reforçando ”o caráter de partido, não no sentido da representação democrática burguesa, mas no sentido da indústria de controle do crime”.

Onde citei neste site o lema “Paz, Justiça e Liberdade” (PJL) → ۞

Nossa desumanidade cria uma nova sociedade

Ao receber a notícia do Massacre do Carandiru:

  • o pensamento de cada um dentro do governo era sobre como capitalizar os votos e diminuir o impacto negativo na imagem;
  • o pensamento de cada um da imprensa era sobre agradar seu público e conseguir mais audiência sem comprometer sua imagem; e
  • o pensamento de cada um das forças policiais que não estiveram presentes no evento, assim como boa parte do público, era de felicidade.

Liev Tolstói, em 1886, descreveu a morte de Ivan Ilitch, mais ou menos assim:

“[…] ao receber a notícia da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos presentes foi para as alterações e promoções que essa morte poderia provocar para eles ou seus conhecidos.”

Um século e meio se passou, e eu e você somos expectadores de um mundo que banaliza a vida e a morte. Somos parte integrante da desumanidade de uma sociedade frívola e cruel, construída por valores insensíveis.

Onde citei neste site a imprensa → ۞

A criança cresce e se torna um mito

O estupro era evitável até o momento em que o diretor foi empurrado para o lado e os corredores escuros eram transformados em rios de sangue.

Nós, eu e você, assistimos ávidos de um prazer quase sexul a morte dos detentos do Carandiru, mas aquele estupro coletivo gerou um filho que agora nos cobra vingança.

Lamento ser eu a vir lhe dizer, mas o garoto não pode ser morto. Ele nasceu de um estupro e foi batizado em um rio de sangue.

O garoto cresceu, tornou-se uma ideia, um mito, e hoje vive na mente e no coração de milhões de brasileiros e de milhares de outros latino-americanos.

Os pais não assumiram a criança quando ela nasceu, e agora não podem controlá-la apesar de, uma vez por ano, desde 2002, alegarem que acabaram com sua cria maldita.

Onde citei neste site o Sistema Carcerário → ۞

A pacificação do PCC em São Paulo

Cenas da pacificação trazida pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) – a realidade brasileira superando a ficção dos americanos da DC Comics.


A facção paulista, o delegado e o investipol

Juro que vi uma discussão entre um delegado de polícia e um investigador:

— Há alguns anos esse estado estava se afundando em homicídios, em 1999 foram quase 19.400 pessoas mortas no estado de São Paulo, em 2017 esse número baixou para 4.300. Deixaram de morrer 15.100 pessoas só no ano passado! E isso aconteceu porque o PCC assumiu o controle do crime no estado! – afirma, irritado, o delegado.

— Eu não vou entregar a cidade para o crime organizado, não importa o que os números digam! – retruca o investipol.

— E seus colegas? Quantos deles foram alvejados no ano passado? Nos ataques de 2005 o PCC matou 45 policiais em apenas alguns dias Em 1999, só em serviço foram 44 policiais mortos. No ano passado, já com a pacificação, apenas 11 colegas foram mortos. Em um único ano foram 33 policiais que deixaram de morrer nas mãos dos criminosos, voltaram para casa e continuaram com suas vidas e com suas famílias!

— Eu sei das estatísticas.

— Um dia eu prometo que nós vamos acabar com o Primeiro Comando da Capital. Esse país tem que ficar em pé outra vez, mas por enquanto vai devagar, por favor. – pede, em tom conciliador, o delegado.

— Mas a cada dia em que os cidadãos vão até um traficante, para pedir proteção ou justiça, mais difícil será para reconquistá-los. – insiste, inconformado e com a cabeça baixa, o investigador.

— Quer que as pessoas respeitem mais os policiais? Tem maneiras mais inteligentes que cuspir na cara do PCC: basta seguir as normas e os regulamentos. Se o cidadão estiver errado, prenda; se não tiver provas, não forje um flagrante ou abuse da força para conseguir informações. – finaliza o delegado.

Reporter americano e o líder da facção pcc 1533

A pacificação do PCC, o repórter e o faccioso

Juro que vi um repórter entrevistando um líder da facção:

— Há rumores que a facção está controlando as comunidades, criando regulamentos e dizendo aos criminosos quais os crimes que podem ser executados e determinando os locais. Por exemplo, não seria permitido assaltar próximo às biqueiras. Essa informação procede?

— Me diga, Qual é a taxa de homicídios em São Paulo? – questiona o faccioso.

— Estamos em uma queda histórica. – responde de pronto o repórter.

Queda histórica. – começa a responder em tom de ironia o líder criminoso –. Sabe? Augusto Cesar reinou no período de mais longa paz e prosperidade que o mundo já conheceu. Ficou conhecida como a Pax Romana, e talvez um dia a pacificação que temos hoje no estado de São Paulo seja chamada de Pacificação do Primeiro Comando da Capital, quem sabe?

Cidadão questiona líder do PCC sobre a pacificação

A pacificação do PCC, o jovem cidadão e o faccioso

Juro que vi um cidadão questionando um líder da facção sobre a pacificação em São Paulo:

— Eu quero agradecer por tudo que tem feito por essa comunidade. É verdade que o PCC proíbe mortes desnecessárias e controla na periferia o crime? Todo mundo está falando disso, eu só quero saber como funciona. – começa o rapaz.

— Primeiro, uma pergunta: você concordaria com a ideia de que uma organização criminosa impusesse as regras para os demais criminosos? – retruca o líder da facção.

— Se, há três anos, quando meus pais foram mortos, esse controle já existisse, eles talvez ainda estivessem vivos.

— Exatamente, mas a facção não controla diretamente o crime nas ruas, a facção dá as diretrizes e os disciplinas de cada cidade, de cada quebrada, são quem avaliam cada caso e, se acharem que alguém está furando as regras, chamam para o debate, e, se não resolver, manda para o Tribunal do Crime. – conclui o faccioso.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

A arte imita a vida pcc 1533

A pacificação no mundo real e no cinema

Juro que vi esses diálogos no primeiro episódio da quarta temporada da série “Gotam – Pax Pinguina” – com algumas modificações no texto para adequá-lo à nossa realidade:

Acresci os números referentes ao estado de São Paulo, substituí os termos “Pax Pinguina” pelo “Pacificação do Primeiro Comando” e “gangue do Pinguim” por “Primeiro Comando”, e as palavras “comissário” por “delegado”,e “Pinguim”por “um chefe da organização criminosa”.

Encaixou-se em nossa realidade como uma luva.

Os roteiristas de Gotam alegam que a quarta temporada foi baseada no enredo de três antigas revistas da coleção, mas o controle que Pinguim exerce sobre a criminalidade se assemelha à forma de agir do PCC, e não às descritas nas revistas da DC Comics.

O fato de uma produção estrangeira descrever de maneira tão precisa uma realidade nossa me leva a duas conclusões:

  • esse fenômeno não é local e está acontecendo em outras culturas ou
  • os autores se basearam em nossa experiência social.

O mundo real supera a imaginação do cinema

Entre as características quase universais e atemporais do mundo do crime estão as guerras entre grupos rivais (facções) – a hegemonia de organização criminosa com regras escritas e ficha de ingresso de membros é uma raridade tanto na ficção quanto na realidade.

O Primeiro Comando da Capital tem o mais sofisticado sistema burocrático entre todas as organizações criminosas.

Misael Aparecido da Silva foi quem elaborou o Estatuto do Primeiro Comando da Capital conforme as diretrizes traçadas por José Márcio Felício, o Geleião, entre o final de 1993 e 1995. O documento veio a público por meio do deputado estadual Afanásio Jazadji em 20 de Maio de 1997.

No PCC não há punição sem lei anterior que a regulamente:

O Estatuto do PCC foi a base sobre a qual a facção se consolidou. Funciona para a organização criminosa como a Constituição funciona para a legislação de um país.

Quando age em desacordo com a ética do crime:

O Dicionário da Facção é um conjunto de normas que determinam e regulamentam o que é passível de punição e qual a penalidade. O Dicionário regulamenta o Estatuto, assim como o Código Penal e o Código de Processo Penal regulamentam a Constituição.

Para que tenham consciência e apoiem a luta:

Os membros da facção, seus familiares e simpatizantes devem se relacionar com a sociedade segundo as diretrizes da Cartilha do Primeiro Comando da Capital, que detalha a forma como a facção e seu Estatuto devem ser apresentados ao público externo.

Quem somos e em que condições estamos vivendo:

Existe uma Ficha de Cadastro no Sistema para os membros da facção, com detalhamentos que impressionam qualquer departamento de recursos humanos – lembrando que esses dados são coletados, distribuídos e guardados fora do alcance das autoridades.

Batman e Gordon versos SUSP

Vencendo o crime organizado

A realidade superou em muito a ficção criada pelos quadrinistas da DC Comics: enquanto o PCC criou um sistema complexo, o assecla do Pinguim, responsável pelo gerenciamento do RH, possui apenas o registro dos criminosos e os locais onde podem atuar.

Até o momento em que escrevo, eu ainda não assisti a toda a temporada, mas posso adiantar que o pequeno Batman e o Detetive Gordon irão demolir a organização montada pelo Pinguim – dúvida?

No mundo real, os mecanismos de divisão do poder e o Código de Processo Penal são uma máquina de moer carne que sustenta milhares de advogados por todo o país enquanto divide nossa sociedade em castas.

Talvez apareça um Batman e um Gordon ou um salvador da pátria para nos proteger, ou talvez o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica…

Cocaína barata da Bolívia é com o irmão da facção PCC 1533

Existem oportunidades de mercado para a compra de cocaína da Bolívia e do Paraguai por um preço quase um terço abaixo das rotas atacadistas do Primeiro Comando da Capital.

Uma lembrança de quando eu era garoto

O assunto deste artigo é o Primeiro Comando da Capital, a compra de cocaínatribu pura no atacado, a trairagem dentro da facção e o Regime Disciplinar ou Dicionário do PCC, mas nada disso de fato para mim importa, como pretendo demonstrar aqui.

Ernesto Sabato está certo ao afirmar que “viver consiste em construir futuras lembranças, [e eu, assim como ele, sabia que estava] preparando lembranças minuciosas que algum dia [haveriam] de me trazer melancolia e desesperança”.

E a pedido do próprio Ernesto, eu não vou me alongar no assunto, mesmo porque é tudo bastante simples, como você mesmo verá, e por isso não farei que você perca tempo lendo “palavras ao vento” ― hoje será papo-reto, resumo.

Só vou contar para você como eu fiquei sabendo de tudo, para que você não precise me chamar de novo na delegacia para dar explicações, assim, já fica tudo dito e pronto ― ah! antes que me esqueça, neste texto há trechos do livro do Ernesto: O Túnel.

Esfiha como te quero

A minha tão sonhada esfiha do Habib’s

Eu era office-boy em São Paulo, trabalhava no prédio da Jovem Pan na Avenida Paulista, e na esquina da Alameda Joaquim Eugênio de Lima com a Alameda Santos havia um Habib’s ― isso foi no começo da década de 1990.

Na empresa em que eu trabalhava, o pessoal do Departamento de Arte mandava que eu fosse comprar esfihas no Habib’s todos os dias. Era caro demais para meu bolso, então fiquei por meses só sentindo o cheiro e vendo os caras comendo.

É verdade me que ofereciam, mas eu dava uma desculpa e ia comer minha marmita de arroz, arroz, arroz, feijão e uma mistura (uma mistura era como minha mãe chamava o ovo).

Foi assim por meses, até que em um dia de pagamento, depois de acertar todas as minhas contas, fui ao Habib’s e me sentei sozinho para experimentar com gosto a tal da tão cheirosa e tentadora esfiha.

Só contei isso para que você entendesse o porquê de, naquela noite do ano passado, eu estar sozinho no Habib’s, degustando esfihas e lembranças minuciosas que sempre me fazem sentir melancólico e desesperançado ― eu curto esses momentos de solidão e deprê.

Basta de efusões. Eu disse que relataria esta história de forma enxuta, e assim o farei.

Dando um tempo no Habib's

Uma operação policial próxima ao Habib’s

Eu estava sentado junto à janela, e uma barreira policial havia sido montada no final do quarteirão, então, quem entrava na rua, obrigatoriamente teria que passar pelos policiais ― só que não.

Para minha surpresa, entram no restaurante dois conhecidos meus, que, ao verem as viaturas policiais fechando a via, entraram no estacionamento do Habib’s e resolveram esperar lá dentro pelo fim da operação policial.

Vieram para minha mesa ― pronto, acabou meu sossego, lá se foi minha paz e minha degustação deprê.

Pediram de cara duas pizzas, uma de calabresa e outra portuguesa ― ai, meu Deus, só falta pedirem que eu rache a conta e eu nem gosto dessas pizzas!

A barreira não se encerrava, o assunto fluía. Os garotos estavam indo buscar dois quilos de cocaína pura, puríssima, vindos diretamente da Bolívia por meio de um contato em Santa Cruz de La Sierra ― pense em dois garotos empolgados.

O interesse do PCC na Bolívia começou em 2007 com o objetivo de estabelecer relações com narcotraficantes bolivianos e foi implementada inicialmente por aproximadamentes 100 integrantes da facção.

jornalista Allan de Abreu
cinco mil na mesa do Habib's

Cocaína da Bolívia e o negócio da China

Iam faturar uma boa grana sem o risco de pegar dois mil quilômetros de estradas e fazer negócio em um país estrangeiro com um contato que não conheciam pessoalmente.

Garotos espertos, não marcaram a entrega na cidade deles, e sim em Campinas ― cidade grande, com muito fluxo de veículos e muitas entradas e saídas.

Colocaram sobre a mesa os pacotinhos de dinheiro totalizando cinco mil Reais.

Empolgados, me contaram que já haviam, no ato da encomenda, depositado em uma conta da Caixa quatro mil. Quinze dias depois de pegarem a mercadoria, depositariam outra parcela de cinco mil.

Para falar a verdade eu estava mais preocupado com a conta do Habib’s, mas algo me incomodou na conta dos garotos: 5+4+5=14, tudo bem, é um bom preço, afinal o preço da cocaína em São Paulo gira em torno de 18 mil, só que, sempre tem o “só que…”

O preço de mercado da cocaína pura, gira em torno de 18 mil DÓLARES o quilo, à vista, e eles estavam comprando por 14 mil REAIS dois quilos, parcelado! ― pense em dois garotos empolgados e um tiozinho olhando com cara de “Oh! Coitados!”.

acompanhando a entrega da droga via google maps

Os garotos do corre e a garota do transporte

Bem, eu prometi que seria breve, que não iria me alongar, mas é importante que você saiba de tudo para entender que eu não tive nada a ver com isso, e só fiquei sabendo dos nomes, da história e dos locais por puro acaso.

Tocou o celular de um deles, era a garota que transportava a mercadoria, e como não tinha nenhuma mesa por perto ocupada, eles colocaram no viva-voz.

Ela falava com bastante naturalidade, e os garotos tentaram fazer com que que ela levasse a mercadoria para o estacionamento do Habib’s, ali mesmo, mas ela insistia em outro ponto.

Nunca tinha imaginado que o transporte funcionava assim. Eles haviam acompanhado o trajeto pelos Google Maps, legal essa tecnologia, só que, sempre tem o “só que…”

Reparei que não estava sincronizado on-line, que ela atualizava manualmente a localização ― estranhei isso.

Ela insistia em que eles fizessem o depósito da segunda parcela antes que a mercadoria fosse entregue ― estranhei isso também.

Só eu parecia achar que era muita coisa estranha para um negócio, mas cada um com seus problemas, a minha preocupação era que eles saíssem do Habib’s sem pagar as pizzas que por sinal, só eles estavam comendo.

Eu devia estar demonstrando nervosismo porque os garotos me intimaram a dar explicação para minha agitação.

Conferência de Cara Crachá no Sistema PCC

Buscando cara crachá dentro do Sistema

Não ia dizer para eles que estava preocupado que não pagassem a conta do Habib’s, então disfarcei, e disse que o preço da droga estava incompatível, a atualização do localizador estava sendo feito manualmente e não senti firmeza na voz e no método da garota.

Vieram com aquela enxurrada de afirmações que tudo estava certo, que não tinham dúvidas, que era um irmão conhecido da facção, para depois de alguns momentos de silêncio, ficarem tensos e olhando um para o outro.

Pensei até que não tinham acreditado na minha história, e haviam percebido minha preocupação sobre quem iria pagar as pizzas, mas aí os dois foram para os celulares e esqueceram da minha presença ― eu deveria ter saído sem pagar naquele momento.

Começaram a ligar para o contato que estava intermediando o negócio, era um irmão de outro estado, mas que estava respondendo só em texto e, quando soltava a voz, dava para perceber que era gravação antiga ― só os garotos na empolgação não tinham manjado.

Dei o toque e, então, eles começaram a correr em busca de informações dentro do Sistema Carcerário ― um liga para um Sintonia, outro para um Cadastro, e começou o debate e a agitação dentro das trancas para conseguir informação do tal irmão.

Ameaçando mandar para o Tribunal do Crime do PCC

A confirmação vem do Cadastro do MS

Veja, não estou tentando alongar o assunto, pelo contrário, estou resumindo ao máximo, pois assim eu havia dito a você que o faria, no entanto é importante que você entenda todos os detalhes para ver que fui apenas um mero observador nessa história.

O cadastro do Mato Grosso do Sul passou o Cara Crachá do tal irmão. De fato ele existia e não era excluído, porém, alguém estaria usando o nome dele para aplicar golpes, e eles estavam sendo vítimas de uma armação.

Imagine a cara dos dois quando receberam essa resposta das trancas. Planos maléficos foram feitos na hora, e pelo celular armaram rapidamente uma equipe para pegarem a garota, com ou sem drogas.

Engrossaram a voz quando ela ligou novamente, ameaçaram usar o Tribunal do Crime do PCC para pegar tanto ela quanto os outros envolvidos ― ela desligou. A barreira policial a essa altura já havia ido embora, e eu pensei em pedir um café.

2. Ato de Esperteza:
Quando usa de má fé ou abusa da confiança depositada, se parece com ratinagem, muda que o prejudicado confia e acaba sendo lesado.
Punição: exclusão sem retorno, cobrança a ser analisada.

Eu sei onde você mora, vou mandar a polícia aí

Eu sei quem você é e onde você mora

Desisti do café. Se eles não pagassem a pizza, ia sobrar para mim, e teria que rezar para que o saldo no cartão desse para pagar a conta ― eu só tinha 10 reais em dinheiro. Será que daria para tirar os 10% do garçom? Às vezes por causa de cinco reais o cartão não passa.

Toca o celular, uma mensagem escrita, dizendo que eles deviam deixar quieto o bagulho e engolirem o prejuízo em paz, que eles sabiam quem os garotos eram. Mandaram até as fotos das casas dos dois rapazes, dizendo que fariam uma denúncia para a polícia caso insistissem.

Vi que a foto era do Google Street View, mas ficava evidente que o golpista tinha informações sobre os garotos e poderia causar problemas se quisesse.

Para acusarem o irmão no Tribunal do PCC, eles precisariam de provas 100% confiáveis, e eles só tinham textos e gravações de voz do WhatsApp, que eram trechos gravados e repetidos ― o processo viraria contra eles.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

Construindo uma nova lembrança para o futuro

Um golpe esperado, uma proposta inesperada

O tal do irmão ainda propôs um negócio para os garotos: ele pagaria 50% do lucro em outros golpes se eles indicassem possíveis compradores e dessem dados para ele poder chegar nos caras, assim como alguém tinha feito com eles.

Esse encontro no Habib’s aconteceu há um ano, e só agora me lembrei de contar essa história, pois fiquei sabendo que o mesmo golpe, utilizando o nome do mesmo irmão continua sendo aplicado, com alguma variação.

Fui àquela noite reviver uma lembrança do passado, mas acabei construindo mais uma futura lembrança, minuciosa, que hoje já me traz certa melancolia e desesperança.

Mas o importante é que consegui cumprir o que prometi: não me alonguei no assunto mais que o estritamente necessário ― como acaba de me lembrar Ernesto.

O grupo criminoso Primeiro Comando da Capitalassim como as bruxas e o comunismo, é utilizado para que grupos políticos, que estão no poder ou desejam chegar a ele, criem um ambiente de terror com alguma finalidade específica.

Aparentemente é o que voltou a acontecer agora na Bolívia, onde parte do governo do presidente Luis Arce deseja facilitar a ação no país da  Drug Control Administration (DEA), apesar de há muito a facção PCC 1533 ter caído no esquecimento pela população boliviana.

Os números do Google Trends não deixam dúvidas de que o fantasma está sendo alimentado artificialmente para então poder ser combatido.

Facção PCC: os dois lados da questão

Quem se opõe a essa narrativa para justificar uma intervenção americana no país, que no geral não acaba bem, é o vice-ministro de Substâncias Controladas, Jaime Mamani Espíndola, que afirma que se fosse significativa a presença da facção paulista no país as autoridades não poderiam circular livremente como o fazem.

Quem apoia e alimenta essa narrativa e pede a presença do DEA, que no geral acaba trazendo dólares para o país e holofotes para políticos e agentes do Estado através de políticas de “intercâmbio”, é a oposição de direita que há poucos anos tentou tomar o país a força e a Comunidad Ciudadana (CC), uma coligação política de centro liderada pelo ex-presidente Carlos Mesa.

Em San Matías, capital da Província boliviana de Ángel Sandóval no departamento de Santa Cruz, situado na fronteira com o Brasil, é comum a prisão de estrangeiros com ligação com as facções brasileiras, mas segundo o ministro de Governo, Carlos Eduardo Del Castillo Del Carpio, nada que a polícia boliviana já não esteja preparada para atuar.

Já seus opositores, mesmo contrariando os dados estatísticos, apresentam exceções como regra, como a execução de duas pessoas naquela cidade em um confronto entre criminosos e, a morte de um sargento durante uma operação da Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (Felcn) em San Ignacio de Velasco, Santa Cruz. e um colombiano ex-combatente das FARC no Parque Noel Kempff.

Os líderes comunitários, o PCC e a polícia

A formação de uma liderança comunitária apoiada pelo Primeiro Comando da Capital e sua relação com a facção e as forças policiais.

PCC elegendo uma liderança para o bairro

Dona Celina só foi escolhida como líder da comunidade por ser evangélica e por ter sido indicada pela liderança do PCC. Ela nem imagina que foi assim, mas eu estava lá quando houve o debate da formação e de quem deveria liderar a comunidade.

Tinha acabado o jogo entre Vila Nova e Vila Progresso, e nós estávamos em frente ao bar Gordo, que fica ao lado do campinho, quando do nada surgiu a conversa, que virou um debate, e a aprovação e o fechamento foi na hora:

A estratégia seria montar uma associação de moradores na comunidade para lutar por melhorias na educação e na estrutura de escolas e creches, na pavimentação das ruas, no abastecimento de água , e também para servir como mediadora na pacificação das ruas.

Mas quem assumiria a liderança da associação?

Alguém falou no nome da Dona Celina e pronto. Ninguém ali duvidava que ela era a pessoa perfeita para o cargo. Ela devia estar em sua casa naquele momento preparando o almoço e nunca iria imaginar que seria formada uma associação e que ela viria a liderar.

Eu até posso contar a você como e por que ela foi escolhida, mas Rafael Lacerda Silveira Rocha é quem pode explicar como a igreja evangélica entra nessa história e como esse tipo de arranjo social funciona na prática, pois foi ele quem estudou a fundo essa questão.

Onde citei neste site a comunidade → ۞

Dona Celina chegou ao bairro quando as ruas eram de terra.

Todos conhecem a bondade e as lutas daquela mulher, que vive dando conselho para os garotos do corre e até para o patrão da biqueira, sempre se prontificando a ajudar quem quer sair daquela vida.

Ela é querida por todos e conquistou o respeito da da liderança local do  dono das biqueiras do bairro e representante do Primeiro Comando da Capital na comunidade.

Dona Celina é ministra de uma congregação evangélica que lhe empresta autoridade moral e cria empatia em muitos no bairro que percebem nela um pouco daquilo que veem em suas famílias, ou, pelo menos, gostariam de ver.

Ela é uma “pessoa de bem”, e é essa a face que a comunidade quer apresentar para a imprensa e para os representantes do governo. Ela é a luz que deverá iluminar o caminho da comunidade.

Onde citei neste site a liderança → ۞

É preciso força para se impor

Até mesmo Deus tem uma legião de anjos para garantir seu governo celestial (Isaías 40), e se fomos feitos à sua imagem, nós também temos que nos garantir.

Rafael conta em seu trabalho o caso de um pastor, líder em sua comunidade, que tentou manter a pacificação baseando-se apenas em sua força moral e em seu poder de negociação.

Apesar dos esforços do pastor, um jovem morreu, e o religioso, ao questionar os assassinos sobre o acontecido, escreve:

“A resposta destes – ‘não pega nada não’ –, é por si só uma declaração de que, não apenas a trégua era considerada sem importância, mas que os próprios mediadores que atuavam como terceiros entre os dois grupos não tinham tanta consideração e legitimidade assim dentre eles.”

Não é soltando pombos brancos ou fazendo um abraço simbólico em torno do Cristo Redentor que se conseguirá a paz, mas também é verdade que não se chegará a ela ligando para o 190, nem tampouco confiando no Tribunal do Crime do PCC.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

A polícia e a liderança do PCC como garantia

As relações de poder dentro de uma comunidade carente são complexas e necessárias para a equação de diversas forças, pacifistas, religiosas, de trabalhadores, policiais, criminosos e desocupados.

Sem a força do Primeiro Comando da Capital, Dona Celina não conseguiria o respeito e a tranquilidade para organizar a população. Nos primeiros meses foi o disciplina do PCC que passou a trocar umas ideias com os inadimplentes com o caixa da associação.

Sem a força policial, Dona Celina ficaria refém apenas da vontade do dono da biqueira e não conseguiria a tranquilidade para organizar as demandas da comunidade.

Rafael conta um caso em que o líder da comunidade organizou um jogo entre dois grupos opostos com o apoio da polícia. Ele colocou o Estado como força mediadora do conflito e ainda fortaleceu sua liderança:

Uns queriam a paz, outros queriam manter a guerra, se juntasse tudo em um único lugar poderia ter um banho de sangue, então o jogo foi marcado em um campo neutro:

“Aí o dia chegou, o galerão, aquele muvucão, aí o cara da protaria achou que era só aquela galera ali, aí depois chegou outra muvucona zoanado ea as mulheres dos caras também. Aí foi umas 15 mulheres, as mulheres dos caras, amigas, e o cara da portaria não queria deixar entrar, aí o tenente foi e ligou lá: ‘pode deixar entrar’. Aí foi aquela festa [risos].”

Esse relacionamento pode parecer estranho para você que mora em um condomínio ou um bairro bem estruturado, mas é comum nas periferias.

Onde citei neste site o disciplina do PCC → ۞

Ladrão e trabalhador falando a mesma língua

Rafael me contou que a relação entre líderes da comunidade e das facções não acontece só aqui no Brasil, e me apresentou a história de vida e as conclusões acadêmicas de uma simpática socióloga americana.

Mary Pattillo descreveu como as redes de relações desse bairro incluem tanto operadores e lideranças tradicionais, quanto atores fortemente identificados com práticas ilegais na comunidade.

Mary explica que as lideranças comunitárias e o crime organizado local compartilham uma série de valores, como o cuidado pela manutenção dos aparelhos públicos do bairro e o controle de brigas e demonstrações violentas em espaço público.

Essa ligação entre comunidade e mundo do crime acaba por dificultar a ação dos órgãos públicos na repressão ao tráfico de drogas local. É a teoria da eficácia coletiva pulando dos livros acadêmicos para as ruas das comunidades periféricas:

“[É importante] olhar para a participação de atores e grupos relacionados a práticas criminosas nas relações entre vizinhos e para como aqueles afetam as expectativas coletivas, valores e normas dessas comunidades.

Cansei de ver nas comunidades trabalhadores e estudantes defendendo a filosofia do 15, como a utilização do Tribunal do Crime para a pacificar os bairros ou evitar estupros e roubos nas quebradas.

“[…] a atuação de criminosos em determinadas comunidades pode ser mais do que puramente negativa – como instituições que promovem a ‘erosão da eficácia coletiva’ –, mas que não só podem compartilhar regras, valores e expectativas coletivas com o restante dos moradores, como também difundir normas e práticas originárias da gramática moral do ‘mundo do crime’ ao restante da comunidade.

Onde citei neste site sobre a ética → ۞

A liderança se conquista pelo respeito e pela ética

Se você é da Vila Nova, talvez conheça Dona Celina, e se você se acha que é mais importante, forte ou influente que ela, desculpa aí, mas ninguém dá a mínima para o que você pensa a seu próprio respeito.

Liderar é conciliar, saber ouvir e estar presente nas necessidades do grupo, se fazer entendido e tentar entender as opiniões dos outros, e Dona Celina faz isso como ninguém.

Líderes de bairros são acusados pela polícia ou por “cidadãos de bem” de terem conchavo com traficantes, mas aqueles que acusam não se candidatam e, se o fazem, não se elegem ― dona Celina se elegeu e circula livremente entre aqueles lobos.

Líderes de bairros são acusados por aqueles que vivem no mundo do crime de terem conchavo com a polícia, mas aqueles que acusam não se candidatam e, se o fazem, não se elegem ― dona Celina se elegeu e circula livremente entre aqueles lobos.

Agora ela estará sempre entre as matilhas mediando a paz, armada apenas de sua honestidade e confiabilidade, será testada e criticada todos os dias pela população, pela polícia, pelos líderes religiosos e por aqueles que vivem no mundo do crime.

Dona Celina está disposta e tem capacidade de enfrentar esse desafio, fluindo entre o mundo do crime e o mundo do Estado de Direito, assim como Marielle Franco o fazia até ser silenciada pela milícia.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David

Pena de morte no Brasil, sim ou não?

A decisão de tirar a vida de outra pessoa por parte dos representantes do Estado deve ser aceita ou não? Como essa questão é vista em nossa sociedade e dentro da facção paulista Primeiro Comando da Capital?

Eu posso te matar, você sabia?

Não sou Deus, mas posso ser o seu juiz. Basta que eu queira e que nos encontremos em determinadas situações para que, de acordo com uma razão obscura, eu possa te matar e não seja punido por isso.

Quem me deu a ideia de vir te contar que sua vida — e a de seus filhos, pais e amigos — pode estar em minhas mãos foi o canadense Graham Denyer Willis, através de seu artigo The right to kill?, publicado na página do MIT Center for International Studies.

O que falei neste site sobre Pena de Morte→ ۞

Quem vale mais, um brasileiro ou um americano?

Ele já começa citando um documento denominado White Paper, do Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América (DOJ), que garante ao governo dos Estados Unidos da América o direito de tirar a vida de qualquer americano.

Então, você — e seus filhos, pais e amigos —, vivendo aqui no Brasil sob a proteção da sociedade organizada brasileira, acha que tem mais garantia de vida que um cidadão americano protegido pelo Estado de Direito estadunidense? Fala sério!

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro

Quem garante seu direito à vida?

Esqueça aquela utopia iluminista e racionalista de que você está protegido pela sociedade, pois ela te deixará na mão, salvo exceções pontuais; e não reclame de eu poder te matar, pois isso é natural, seus antepassados já o haviam permitido e seus descendentes também o farão:

Graham Denyer Willis frazes da facção pcc 1533

“A ideia de que o Estado tem o direito de matar seus próprios cidadãos raramente é contestada. De Hobbes a Weber, é explícito ou implícito que os estados decidem as condições sob as quais os cidadão podem, e os que de fato devem morrer…” — Graham Denyer Willis

Quem é o Estado? O Estado sou eu!

Não acho que sou Napoleão, muito menos Luiz XVI, mas quem você acha que é o Estado que teria, e de fato o tem, o direito de tirar a sua vida?


Se você acredita que é o Estado de Direito, pode ficar tranquilo: você vai morrer de velhice, afinal, no Brasil não existe a pena de morte.

Só que a realidade não está nem aí para aquilo em que você acredita, e por isso eu, que não sou o Estado de Direito, posso tirar a sua vida impunemente.

Na calada da noite a lei é outra — o que é ilegal

Nas periferias das grandes cidades, onde grande parte da população vive ou trabalha, o Estado de Direito só chega através de viaturas policiais que casualmente entram, fazem algumas abordagens e saem.

Só na periferia paulistana são mais de 10 milhões de pessoas, e elas não atribuem mais legitimidade às ações policiais das forças públicas do que àquelas praticadas pelas facções criminosas por meio de seus Tribunais do Crime.

Parte da sociedade apoia o Tribunal do Crime — o que é ilegal

Mesmo que a lei no papel os proíbam, são mais de 160 assassinatos que acontecem por dia em nosso país; desses, menos de 20 chegam a ter seus culpados condenados — os outros 140 são mortes de pessoas que não valem o custo da apuração.

Segundo Willis, O Estado deixa que pessoas que não lhe fazem falta morram através de sua omissão, seja dentro ou fora dos presídios — para tal basta investir na Rota na rua sem garantir a eficácia da polícia investigativa.

Parte da sociedade não apoia o policial que mata — o que é ilegal

Essa semana, a sociedade organizada deixou claro os limites em que os agentes públicos podem matar em seu nome. Não faz parte das leis escritas de nosso país, mas desse grande pacto social do qual fazemos parte, ora com kkks, ora com carinhas vermelhas.

O cabo PM Victor Cristilder Silva, como dezenas de outros agentes da segurança pública de todos os níveis, acreditou que matar bandido era algo permitido em nossa sociedade e foi a Júri com esse argumento:

“Meu sangue na veia é de policial de rua. Chegava em casa, meu filho já estava dormindo e eu não dava atenção para minha esposa. Mas o que eu estava fazendo era para melhorar a vida deles. Nunca tive nada na minha vida. Meus pais me criaram com muita dificuldade, mas nunca me desviei para o caminho do mal. Entregaria a minha vida para proteger um cidadão de bem.”

Não colou, tomou 119 anos de reclusão, mas isso não significa que a sociedade, através do seu Tribunal do Júri, declarou que policial não pode matar quem ele acha que é bandido, mas, sim, a forma como isso não deve ocorrer, marcando o limite para tal ato — e Victor passou o limite socialmente aceito.

Parte da sociedade apoia o policial que mata — o que é ilegal

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, tido por muitos como aliado do PCC, foi o governador com o maior índice de letalidade policial e efetividade em prisões de membros de gangues, incluindo o tempo do governador Paulo Salim Maluf, o Rota na Rua.

Antes que alguém me corrija…

Sim, no tempo de Maluf o Primeiro Comando da Capital não existia, mas havia, sim, grupos organizados em gangues locais ou quadrilhas especializadas em assaltos a bancos e cargas e sequestros, que por vezes fechavam alguma pequena cidade para fazerem arrastões.

Alckmin prega que lugar de criminoso é na prisão ou no cemitério cada vez que a polícia paulista é acusada de chacinar bandidos, como foi o caso nesta semana, em que uma dezena de assaltantes foram cercados e mortos em uma estrada rural em Campinas.

A palavra chacina não tem uma conotação jurídica como homicídio ou latrocínio, sendo representada no âmbito jurídico como “homicídios múltiplos”. Chacina, portanto, é uma expressão popular que desencadeou um acúmulo de violência contra um grupo de pessoas estereotipadas, seja pela classe social, cor da pele ou ação política.

Camila de Lima Vedovello e Arlete Moysés Rodrigues+

Ninguém em sã consciência acreditaria que uma dezena de assaltantes de bancos armados com rifles, metralhadoras, granadas, pistolas e revólveres, se tivessem de fato trocado tiros com a polícia, não teriam acertado um policial, nem que fosse raspão.

No ano passado houve dezenas de casos semelhantes, o mais emblemático aconteceu nos Jardins, área nobre da capital paulista, onde uma dezena de assaltantes fortemente armados também foram mortos — só que dessa vez um policial foi atingido.

Ou em 2014 o caso dos doze PCCs mortos em um ônibus na Castelinho em situação similar, e ainda mais emblemático, os 111 prisioneiros chacinados durante a rebelião de 1992 no Presídio do Carandiru — ao contrário de Victor, os PMs ultrapassaram o limite socialmente aceito.

Quando “todos acabaram absolvidos pela Justiça em novembro de 2014. Porém, para o Ministério Público Estadual, a Operação Castelinho foi uma “’arsa macabra’ e ‘a maior farsa da história policial no Brasil’ ”.

O que falei neste site sobre o caso Castelinho→ ۞

Esse é o limite informal aceito por consenso — o que é ilegal

A legislação brasileira não prevê a pena de morte, mas aceita e faz com que os mecanismos de apuração e punição de certos crimes entrem no limbo seboso da burocracia, mas não são apenas as ações policiais do Estado constituído que têm esse direito.

Parte da sociedade apoia Tribunal do Crime que mata — o que é ilegal

O Tribunal do Crime mata em todo o país, e sua ação por vezes é acobertada pela população local, que considera positiva sua ação, assim como outra parte da sociedade vivendo em outras áreas considera legítimo, mesmo que ilegal, o extermínio feito pelas forças públicas.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

Eu não ia te contar nada, preferiria te deixar dormir tranquilo, mas já que Graham Denyer Willis puxou o assunto, taí. Posso não ser Deus, mas posso ser seu juiz, basta que eu queira e que nos encontremos em determinadas situações para que, mesmo sem uma razão, eu possa te matar.

O número aproximado de executados por pena de morte nos EUA é de 50 por ano; no Brasil, 50 por mês…
… e ainda tem gente que briga para que tenha pena de morte no Brasil kkk.