As razões pelas quais o PCC nunca será vencido

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é a ponta do iceberg de uma sociedade que se curva ante a inconfessável força do lobby dos advogados para que o crime não diminua.

Santo Ivo é o padroeiro dos advogados, e assim como ele, eu também tenho formação franciscana herdada de minha avó materna, mas não é só isso que nos aproxima: eu devo à classe que ele representa e protege a razão de ser deste site — parte de minha vida foi sustentada graças a existência da laboriosa classe dos causídicos.

O imortal da Academia Saltense de Letras, o mestre dos advogados ituanos, o Dr. Nicodemos Rocha foi sem dúvida o meu maior incentivador. Ele nunca me elogiou, pelo contrário, seus constantes questionamentos e críticas que me incentivavam — ele dizia que eu, mesmo depois de analisar todos os fatos, conseguiria chegar à conclusão mais errada possível.

O Primeiro Comando da Capital é a maior e mais estruturada organização criminosa das Américas graças à classe dos advogados. Não falo daqueles que foram pegos na Operação Ethos que desarticulou a Sintonia dos Gravatas, não, mas daqueles que mantêm o emaranhado legal que foi construído para sustentar essa classe laboriosa.

Elvis morreu — maioria dos brasileiros nunca ouviu nenhuma de suas músicas. Michael Jackson está morrendo na medida que a geração que o conhecia e admirava está envelhecendo e morrendo, mas João Pereira Coutinho mostra o porquê de Che Guevara continuar vivo, e a razão é a mesma pela qual Zumbi dos Palmares e o PCC jamais morrerão:

“Eles tem sangue verdadeiro para mostrar”

“É um erro afirmar que os ‘intelectuais revolucionários’ que admiram Che Guevara continuam a prestar-lhe homenagem apesar da violência e do crime. Pelo contrário: a violência e o crime estão no centro dessa homenagem. Che sobrevive porque foi capaz de ser o ‘anjo exterminador’ que todos eles sonharam e não conseguiram.”

Em um processo criminal, todas as provas a serem apresentadas já estão postas no dia da audiência de custódia, mas para que muitos empregos se sustentem é necessário que um processo que durará anos e sustentará muitas famílias seja seguido. Sob o falso manto de que estão protegendo os inocentes, os advogados exploram as famílias dos presos.

Para criar um sistema penal mais humano chamamos a OAB para ajudar na confecção das regras. Fala sério, é como chamar o PCC para discutir os limites legais das forças policiais! É isso! Talvez essa seja a solução, lancemos Marcola como candidato à presidência do Brasil!

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Peço que você me ajude a achar o erro na minha linha de raciocínio: Marcola já tem “sangue verdadeiro para mostrar”, o que demonstra que ele sabe usar a força… Marcola criou e desenvolveu uma organização criminosa que, apesar de toda sociedade organizada se opor, está presente em todos os estados brasileiros e em mais seis países, o que demonstra capacidade administrativa.

O Dr. Nicodemos Rocha dizia que eu, mesmo depois de analisar todos os fatos, conseguiria chegar à conclusão mais errada possível — bem, talvez seja esse o caso, e como ele não está aqui para chamar minha atenção, estou pedindo a você que o faça, mas, por favor, faça-o com inteligência, como ele o fazia, apontando exatamente qual foi o erro do meu raciocínio.

Se não o fizer, você concorda que estou certo ao imaginar que, sendo a facção PCC imbatível na guerrilha urbana e tendo o apoio do sistema político dominado pela OAB, só faltaria ajuda divina para garantir a imortalidade da facção paulista — mas quanto a isso, bem… Santo Ivo faz sua parte protegendo e intercedendo por nós e “se Deus for por nós, quem será contra nós?”.

“se Deus é por nós, quem será contra nós? PCC “

O PCC 1533 está selecionando jovens aprendizes

10 milhões de jovens entre 14 e 18 anos estão sendo jogados nos braços do Primeiro Comando da Capital como resultado de nossas escolhas sociais e políticas.

A facção PCC em nossa estrutura social

Lúcia Dammert, professora da Universidade de Santiago, me irritou ao dizer que agimos de forma anedótica quando tentamos resolver a questão das organizações criminosas. Talvez eu tenha errado na tradução da palavra “anedote” do seu artigo Gang Violence in Latin America, então, peço que você dê uma olhada e me diga se me equivoquei.

Você já assistiu Sarkar (सरकार)? Os indianos estão entre os que mais acessam este site no estrangeiro, e assistindo esse filme dá para entender o porquê: não temos uma visão muito diferente da que eles têm de suas facções criminosas e de sua importância dentro da estrutura social e política, seja para o bem ou para o mal.

João Pereira Coutinho diria que eu, Lúcia Dammert e os indianos, assim como Chakib Limane, temos uma queda por torcionários, e que estamos marchando “com o rebanho que procura ‘compreender’, leia-se ‘desculpar’, as atrocidades […]. Não há compreensão nem desculpa para a morte ….”

A professora Dammert afirma que a decisão de um garoto de se juntar a uma facção, em alguns bairros, é uma estratégia de sobrevivência e não uma escolha verdadeira — talvez isso seja verdade, talvez não, mas em muitos lugares com certeza ajuda a proteger os dentes, principalmente na entrada e saída da escola ou nas ruas próximas de suas casas.

Sonhar é preciso, viver não é preciso

Os jovens precisam se unir a grupos, seja em uma metrópole indiana ou em uma pequena cidade brasileira no meio da floresta amazônica, seja agora no início do século XXI ou nos tempo da colônia. A garotada busca seus marcos de referência, que podem ser um ladrão de sinal de telefonia como Steve Jobs ou os líderes das gangues locais ou nacionais.

Se o moleque é estigmatizado ou rejeitado pela sociedade, encontrará e se juntará a outros como ele e, se sozinhos eram fracos, unidos serão invencíveis, ou quase. Assim, um pobre destinado a trabalhar carregando cimento passa a ser membro de uma facção, exibindo os símbolos da gangue tatuados no corpo e outras conquistas, como roupas de marca.

Com isso, apesar de continuar excluído, o jovem passa a ser respeitado, seja por medo ou inveja.

Inicialmente há o sonho de se juntar a outros garotos que, assim como ele, empinam pipa ou jogam futebol, mas que já estão dentro da facção, já que é quase impossível ter um emprego dentro do mercado formal quando se é adolescente, pois construímos um sistema que dificulta o ingresso dos jovens no mercado de trabalho.

Gore Brasil.jpg

São quase 10 milhões de brasileiros entre 14 e 18 anos, então, se você for me falar sobre o programa “Menor Aprendiz”, só o faça se ele já tiver empregado pelo menos 5 milhões, se não é mais um daqueles “planos. projetos, e programas utópicos”, que só existem para fazer de conta que estamos resolvendo um problema que nós mesmos criamos.

Depois que são aceitos nas facções, buscam subir na hierarquia, como em qualquer empresa. Só que nesse meio a violência é uma ferramenta normal para a interação social dentro e fora do grupo, assim como a prisão é uma consequência natural, que é bem-vinda, pois será a confirmação definitiva de que um jovem se tornou um membro ativo do grupo.

Ao mesmo tempo que a experiência com as forças policiais e com o sistema burocrático da Justiça reforça a posição, piora os vícios e causa um desajuste no equilíbrio mental desse jovem, colocando-o cada vez mais enraizado nas facções e na vida criminal, assim como o coloca em posição de destaque e ganhe admiração entre os novatos.

Lúcia Dammert me irritou ao dizer que agimos de forma anedótica, mas creio que ela não quis dizer que brincamos de educação quando criamos “planos, projetos, e programas utópicos” que, na realidade, impedem os jovens de trabalharem, mas, sim, que não levamos a sério os dados e agimos com o coração, impulsionados por nossas ideologias.

E é por isso, João Pereira Coutinho, que eu e Lúcia Dammert, talvez entendamos o porquê de o povo indiano idolatrar Sarkar, o chefe do tráfico local, que é visto como o farol que ficou aceso no meio da tempestade. Mas, ao contrário de Chakib e de muitos de nossos conterrâneos, não queremos que o predomínio dos líderes das organizações criminosas perdure.

Queremos viver livres das sombras dos líderes de grupos criminosos que se opõe à ordem constituída e a sociedade organizada. Queremos viver em um mundo onde possamos reverenciar aqueles heróis que nos livraram desses desordeiros, restabelecendo a lei e a ordem — começando, talvez, por Domingos Jorge Velho.

Ódio e rancor é o que passa pela mente de um preso

Os presos conversam entre si todos os dias e, aprisionados, ouvem as mesmas histórias, dia após dia. Assim reconstroem suas realidades e o meu e o seu futuro.

Para início de conversa vou esclarecer que Vania é uma assassina confessa, que nunca pertenceu ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), cujo nome não tem acento mesmo. Na verdade não é só o nome que não tem acento, ela mesma não me pareceu muito assentada — e depois que ela matou uma velhinha acabei tendo certeza disso.

Você já passou por uma prisão? Seja como visitante ou ficando uns tempos por lá? Se sua resposta foi sim, bem, nem precisa ler esse texto, pois você já sabe por experiência própria o que é ouvir histórias de ódio e rancor de dezenas de pessoas todos os dias por anos a fio.

Foi a Lúcia quem me deu a ideia de contar para você o que a Vania contou para a Gisele, que recontou para mim, e que agora eu conto para você. — nossa, dito assim parece fofoca, deixa eu colocar isso de outra forma:

A Professora Lúcia Dammert afirmou no artigo Gang Violence in Latin America que o ambiente prisional acentua os problemas psicológicos, e Gisele Flôres apresentou em sua tese para a Universidade Federal de Santa Catarina UFSC, Meu Trabalho é Matar, a vida da internada Vania Alexandra de Souza, do Presídio Feminino de Florianópolis — é assim fica com ar mais acadêmico.

Eu vou apenas narrar um trecho no qual Vania fala sobre o que se passa em sua cabeça. Quem conviveu nesse ambiente sabe quantas dessas histórias se ouvem todos os dias, repetidamente, e como isso fica na cabeça, girando e girando, fazendo perder o sono, e influindo nos planos para o futuro — esses pensamentos nunca mais sairão da mente:

“… eu sinto vontade de morrer e de matar, tenho muito ódio, muita raiva do sistema carcerário. É como se tu fosse um bicho: tu fica trancada, eles vêm, te jogam a comida ali e fecham você de novo. Assim que eu me sinto, como se fosse um bicho… Nem um bicho, porque o cachorro tu solta ele no quintal, faz carinho…. A gente não, a gente aqui é esquecida. […] A cadeia é um inferno na Terra, tu não imagina o que é a cadeia. Não dá para imaginar, só quem passa prá saber. […] Às vezes eu sonho em sair daqui, às vezes eu penso em suicídio… Direto. Descansar, ter paz. Às vezes eu penso muito na morte, penso que é um descanso. Eu até arrumei uma frase para mim: ‘Morte é libertação e o inferno tá bombando’ […] depois que a gente mata um, mata dois, mata três… a gente se acostuma. A vida do ser humano é muito frágil. Se a gente soubesse o quanto é fácil morrer, a gente dava mais valor a vida. É tão simples tu matar uma pessoa. É tão fácil. Chega ali, dá uma chave de fenda no pescoço, já era. Dá uma tijolada na cabeça, já era. Dá uma facada no peito, já era.”

No passado, Vania pediu uma arma para alguns conhecidos da Família 1533 para fazer um acerto e, apesar dela não ser da facção, os irmãos não a deixaram na mão: arranjaram um 38 niquelado e refrigerado e um Escort azul-marinho abastecido, simples assim, e ela foi fazer seu acerto.

E agora que ela ficou por anos dentro do sistema, será que entrou para a facção? Vania é apenas uma, como centenas de milhares de homens, mulheres e adolescentes que colocamos dentro do sistema carcerário, de onde sairão com muito ódio e rancor na mente, depois de ouvirem dia após dia, por anos a fio, essas conversas.

Será que meus pais ou avós, filhos ou netos, ou até mesmo eu e minha companheira não encontraremos jovens de nossa cidade que estão nesse exato momento dentro de alguma cela sendo doutrinados e ouvindo diariamente histórias como essas, de ódio e rancor? Não, acho que não, mas se eu pudesse comprar uma arma, aí estaríamos seguros, né não?

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

A polícia e a chacina de jovens negros e pobres

Direitos Humanos X Direitos dos Manos — enquanto brancos discutem nas redes sociais e nas universidades, garotos negros da periferia e policiais morrem.

A análise que aqui faço é a de um descontrole coletivo, que deseja a morte daqueles envolvidos no submundo do crime, como se se aproveitassem da possibilidade de matar indiscriminadamente qualquer um que trabalhasse para as forças policiais — desculpe, errei, Tarsila Flores escreveu assim:

A análise que aqui faço é a de um descontrole coletivo, quando veio à tona um sentimento de justiçamento frente ao expurgo social por parte dos policiais envolvidos, como se se aproveitassem da possibilidade de matar indiscriminadamente.

Acredito que Tarsila, autora da dissertação Cenas de um Genocídio: Homicídios de Jovens Negros no Brasil e a Ação de Representantes do Estado, concorde comigo e deixe eu inverter algumas palavras, sem comprometer a ideia, afinal ela mesma escreve em outro trecho sobre policiais e bandidos:

[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…

Garotos pobres e policiais morrem em matilha e
acadêmicos discutem sobre essa questão em manada

Marcos Beccari e Ivan Mizanzuk se questionam sobre as razões pelas quais o conhecimento acadêmico não consegue fazer com que a luz do conhecimento produzido chegue ao mundo real, e Ivan chega a conclusão que as Ciências Sociais estão em crise e a Filosofia de fato morreu, assim como morrem os garotos e os policiais.

Garotos e policiais não perdem tempo como Marcos Beccari, Ivan Mizanzuk, Tarsila Flores, eu e você discutindo como as coisas devem ser, nos colocando como defensores dos fracos e oprimidos, ou da lei e da ordem — com nossas certezas, repetindo nossas verdades para aqueles que conosco concordam e vendo nos outros o inimigo.

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro

Mas os inimigos somos nós, e essa é nossa sina.

A palavra chacina não tem uma conotação jurídica como homicídio ou latrocínio, sendo representada no âmbito jurídico como “homicídios múltiplos”. Chacina, portanto, é uma expressão popular que desencadeou um acúmulo de violência contra um grupo de pessoas estereotipadas, seja pela classe social, cor da pele ou ação política.

Camila de Lima Vedovello e Arlete Moysés Rodrigues

O segredo da sobrevivência do Homo sapiens é a sua capacidade de se fechar instintivamente em grupos. No passado isso garantiu a sobrevivência da espécie e ainda hoje nos unimos em manadas para defender nossas ideias nas academias e redes sociais, ou em matilhas para defender nossas vidas nas periferias.

Enquanto alguns discutem cheios de razão, outros morrem sem nenhuma razão, como nos conta Yan Boechat:

A chacina “… segue um padrão macabro: como boa parte dos homicídios no país, ocorreu em uma área pobre da cidade, vitimando em sua maioria jovens e, provavelmente, negros e pardos. Passava da meia noite quando o grupo de homens armados com coletes táticos, fuzis, pistolas e balaclavas apareceu no bairro (…) uma área pobre da periferia (…) chegaram atirando em qualquer pessoa que estivesse pela rua (…)”

Desta vez, os assassinos também eram negros e pobres da periferia.

O sociólogo Sérgio Barreira de Faria Tavolaro, da mesma Universidade de Brasília para qual Tarsila apresentou sua tese, e fez passar uma fresta de luz para fora das muralhas da acadêmica: o problema não é o racismo ou a opressão do Estado, a zica está na testosterona e no comportamento de grupo — seja do jovem marginalizado ou policial.

Os garotos da facção Guardiões do Estado (GDE 745), quando ainda eram aliados do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), atacaram um reduto do Comando Vermelho (CV) por ousadia e adrenalina, algo que apenas uma matilha jovem e forte possui — garotos nada mais são que humanos, assim como os policiais paulistas que em 2006 se uniram para sobreviver.

Retornamos então a questão inicial proposta por Tarsila e que ela mesmo responde:

Quem mata os jovens negros e pobres das periferias? 

Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala… Tarsila Flores

Número de negros mortos pela polícia em São Paulo

A produção universitária não acompanha a realidade

O conhecimento acadêmico não acompanha as mudanças que acontecem no mundo do crime

Pós-escrito: Demorei algumas semanas entre o começo e a conclusão desse texto, e a estrutura do crime organizado que existia quando comecei desmoronou e outra a substituiu, e quem eu dizia estar desatualizado passou a estar atualizadíssimo, e eu estou agora totalmente perdido.

̶Ͽ۞Ͼ̶

Se navegar é preciso, que naveguemos em águas tranquilas. Se a busca pelo conhecimento é fundamental para desenvolvermos uma sociedade segura, com justiça e desenvolvimento social, que busquemos isso em um site que nos dê prazer durante a navegação, e Carlos Coutinho conseguiu isso ao desenvolver esse ambiente para o site do Instituto Igarapé.

O canadense Dr. Robert Muggah é o diretor de pesquisa e coordenador do Programa de Segurança Cidadã do Instituto, e autor do artigo A state of insecurity: the case of Rio de Janeiro publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP Araraquara — cujo texto me chamou a atenção menos por seu conteúdo do que pelo envelhecimento de seu conteúdo.

Se você busca um conhecimento básico sobre o que se passa na segurança pública do Rio de Janeiro, em um texto em inglês, vale a pena a visita, mas se sua intenção for ter uma base sólida ou conhecimento atualizado, neste caso sugiro que procure outras fontes, que estão disponíveis aos montes, em português.

Dr. Robert Muggah não é culpado de ter sido comido pelo tempo, essa é uma característica de quase todos os artigos acadêmicos que se arriscam a analisar a segurança pública carioca contemporânea. Robert cita fontes e dados coletados na segunda metade de 2016 para um artigo publicado na primeira metade de 2017, mas está ultrapassado.

Seu campo de pesquisa é o Rio de Janeiro, e cita no artigo que atuou dentro da máquina de segurança pública carioca, através do Instituto Igarapé, sendo assim, não consigo entender como ele não deixou claro a aliança feita pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) como a facção Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando dos Amigos (TCA).

Ressalto que o problema não está no autor do artigo ou no centro acadêmico que o publicou, mas no processo que é utilizado para a produção e publicação de conhecimento nas universidades que, exigindo comprovação científica, tornam tão lento quanto seguro o processo de coleta, compilação e análise de dados.

O resultado desse processo permite devolver metodologias que contribuam para oferecer alternativas às políticas públicas, que depois de discutidas com a sociedade, poderão ser paulatinamente implementadas, mas isso é só na teoria, pois quando o assunto são as facções criminosas, quando o processo chega a termo, a realidade já é outra.

Há quatro semanas, quando li o artigo de Robert, para escrever este texto, achei que ele estava desatualizado. O PCC era há tempos aliado do ADA, e estava mandando soldados e equipamentos para ajudar na consolidação da facção carioca na Rocinha — com o TCA e o TCP (Terceiro Comando Puro) correndo juntos. Robert claramente estava desatualizado!

Há duas semanas, quando reli o artigo, achei que talvez o pesquisador não havia citado a parceria do PCC com o ADA e o TCA por não estar muito claro o resultado dessa aliança. A situação na Rocinha se tornava incerta, e as milícias que não haviam entrado no conflito colocaram suas peças na mesa. Robert claramente havia preferido não se arriscar!

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David

Hoje, ao reler o artigo de Robert, vejo que ele está correto. O PCC teve no passado um aliado forte no Rio de Janeiro chamado ADA, e chegou em determinado momento a formar junto como o TCP uma tríplice aliança chamada TCA, que terminou devido ao arraigado preconceito carioca contra os paulistas e a derrota do ADA na Guerra da Rocinha.

Robert claramente não citou a união ADA – PCC – TCA pois ela foi coisa do passado, ele está corretíssimo!

Nem posso imaginar como estará a situação no Rio quando você estiver lendo esse texto.

Radicais afirmam que devemos ignorar as características individuais das facções criminosas quando desenvolvemos ações para seu combate. Isso já foi experimentado no passado sem sucesso, agravando o problema, mas talvez não tenhamos outra solução: ou colocamos mais agilidade nos remos ou teremos que navegar sem leme, ao léu dos ventos e das correntes, torcendo para chegarmos, com sorte, a um porto seguro.

Cada unidade da Fundação CASA é um caso

Sentindo o clima da Fundação CASA

Lembra o que você sentiu quando entrou pela primeira vez dentro de um presídio, da cela de uma cadeia pública ou algum centro socioeducativo de menores? Daniel Elias de Carvalho conta como foi para ele:

As noites intercaladas entre olhos estalados e pesadelos confirmavam o que eu resistia em admitir, estava com medo!
Por mais que já tivesse experiência como educador social, lutando para não reproduzir estigmas e preconceitos em relação às situações de pobreza, à juventude e aos jovens no crime organizado, eu nunca havia entrado em uma Fundação CASA ou em uma penitenciária…
…[chegamos] na conhecida “revista” que se foi constrangedora para nós coordenadores de uma ONG, imagine nos finais de semana para os familiares dos adolescentes…
…autorização dada, abriu-se a grade e você fica em uma espécie de gaiola, enquanto não fecha a grade nas suas costas a grade da frente não abre. Tenso.
…obviamente ainda não estava totalmente confortável, honestamente, em dois anos e meio, nunca estive, barras de ferro e altos muros de concreto não fazem esquecer o lugar em que se está.
O cotidiano do trabalho foi permitindo a diminuição da adrenalina e potencializando a capacidade de observação; afinal como funciona a Fundação CASA?

Cada um de nós sentimos algo diferente ao ter essa experiência, de acordo com o ambiente em que fomos criados, ou se entramos para executar algum trabalho, para visitar algum parente, ou como internos, mas essa experiência ficará marcada em nossas vidas, e o sentimento de ir para trás das grades é ímpar.

Daniel Elias nos conduz para dentro de cada uma das unidades da Fundação CASA no decorrer das 235 páginas de sua dissertação História oral de vida de arte educadores da Fundação CASA: a arte como resistência, apresentada a Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.

Mantendo o foco para não se perder

Apesar do acadêmico focar sua atenção em uma área específica, as artes dentro do sistema, ele consegue mostrar a Fundação como um todo, pois faz com que o leitor sinta as relações de afeto — amor, tédio, indiferença e ódio — existentes entre pesquisador, profissionais, sociedade e internos e seus parentes.

Assim, somos convidados a analisar a presença dos símbolos do Primeiro Comando da Capital dentro da Fundação — carpas, palhaços e menções ao 1533. A tentativa de coerção, pacífica ou repressiva, por educadores e colaboradores, e as consequências com reforço ou desestímulo a ideologia da facção e o espírito de grupo dos reeducandos.

Sem fugir do seu foco, os educadores das artes dentro da Fundação, o pesquisador analisa a luta diária pelo poder dentro da instituição, e como o ambiente e as regras comportamentais podem variar muito de unidade para unidade, conforme o equilíbrio de forças, determinado pelo conjunto dos jogadores.

O ego de um único personagem pode ser mais determinante do que as diretrizes pensadas nos gabinetes: a personalidade de um diretor ou a presença de um líder forte do PCC podem determinar a cultura dentro de uma unidade. Como em todas as sociedades, por ação ou omissão, todos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.

Ao utilizar como ferramenta de coleta de dados a “história oral de vida” de algumas dos protagonistas, o Daniel nos permite sentir as pessoas, a força da igualdade e da desigualdade entre cada indivíduo, mas sua leitura não é indicada a todas as pessoas:

  • para quem não conhece como a Fundação CASA é por dentro, mas quer entender o que acontece por lá, a leitura é fundamental;
  • para quem quer reforçar a ideia de que uma unidade prisional ou de ressocialização é composta de pessoas que devem ser analisadas como indivíduos, a leitura agregará argumentos; e
  • para quem quer reforçar a ideia de que uma unidade prisional deve seguir regras rígidas de comportamento para o cumprimento das penas, a leitura será perda de tempo e só vai fazer com que passe raiva.

É preciso saber quem é nosso verdadeiro inimigo

Deixamos que nossos preconceitos sociais nos apontem nossos inimigos, e muitas vezes o resultado é desastroso.

Quem é integrante da facção PCC aí na sua região?

Você também passa por lá, afinal, todos nós passamos. Eu conheço muita gente, então sei quem é ligado à igreja, à polícia ou ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), quem é político, funcionário público ou estudante, quem só está de passagem e aqueles que, como eu, sempre estão por lá, mas parece que só eu, Gabriel e Dorrit vemos isso.

Da próxima vez que você estiver passando por lá, pare e olhe para as pessoas. Você notará que todos estão fechados em seus pensamentos. Pare e repare, e verá muita gente que você não veria e, se parar realmente para reparar, poderá ver dentro dessas pessoas.

Comecei a escrever este texto para apresentar o artigo que Gabriel de Santis Feltran escreveu para a revista Boletim do Instituto de Saúde: Choque de ordens: drogas, dinheiro e regimes normativos em São Paulo, que descreve um ambiente como esse.

Seu preconceito vai dizer quem é o bandido

Muita gente circulando, cada qual em seu mundo, em sua mente, sem conseguir ver como foi construída a sua própria percepção de certo ou errado, amigo ou inimigo — Gabriel não só olha para todos os outros, mas leva o leitor a fazer o mesmo.

Vindo para cá, parei em um semáforo, local muito movimentado, cheio de moradores de rua, ladrõezinhos, motoristas de ônibus, trabalhadores, taxistas e estudantes do SENAI. Um dos moradores de rua veio até meu carro, era o Wolverine, e quem é aqui da quebrada sabe que no geral ele é gente boa…

Meu fusca não abre o vidro faz tempo — um dia eu ainda o conserto —, então abri a porta para cumprimentar o Wolverine, afinal já faz muito tempo que não nos desentendemos — agora parece que estamos em paz —, e chegou junto um garoto que vive fazendo pequenos furtos, apesar do pequeno tamanho, adora levar motos para trocar por drogas e, se nada der resultado, rouba mulheres e idosos com uma faca de cozinha.

Para minha surpresa, nunca vi tanta euforia: ambos me cumprimentaram como se fôssemos velhos conhecidos, amigos do peito, depois voltaram para a calçada e eu continuei meu caminho. Esse inusitado encontro com duas pessoas com as quais eu já tive que disputar o controle do mesmo espaço mudou a linha deste artigo.

Comecei a escrever este texto para apresentar o artigo de Gabriel de Santis Feltran, no entanto, percebi que deveria mesmo era trazer para seu conhecimento o trabalho de Luciana Quierati, apresentado à Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista de Bauru:

Dorrit Harazim e o ofício de contar histórias: A prática do jornalismo narrativo e o processo de representação

Ela conta que Dorrit após viver durante anos no exterior voltou para o Brasil, para ao passar por aqueles lugares por onde eu sempre passo, elapassou a ver tudo com estranhamento — mais atenta e mais perceptiva, passou a notar o que nos passa desapercebido.

Ela percebeu, por exemplo, o medo das pessoas ao andarem com seus carros, sempre fechando as janelas ao menor sinal de gente se aproximando, e daí nasceu a reportagem “A centrífuga do medo na cidade”.

A jornalista percebeu que após os ataques do PCC em 2006 e as guerras entre as facções, a verdade deixou de ser importante para as pessoas, e “o outro” passou a ser o inimigo que deveria ser deixado de fora de seu convívio, e as pessoas passaram a acompanhar o que acontecia apenas através das mídias sociais ou reportagens jornalísticas.

A mente pode criar esse ambiente, onde nos isolamos de nossos “inimigos”.

Você, eu, Gabriel e Dorrit frequentamos os mesmos lugares que nossos inimigos. Eu conheço muita gente, então sei quem é ligado à igreja, à polícia ou ao Primeiro Comando da Capital, então reconheço alguns integrantes da organização criminosa nos supermercados, nas ruas, nos bancos, e até no ambiente de trabalho e familiar.

As certezas que construímos de quem são ou não nossos inimigos ficou clara após os ataques do Primeiro Comando da Capital em maio de 2006, e aquele que deu o pontapé inicial nessa história sabia bem disso.

Lembro-me bem. O primeiro texto foi sobre as ações do chamado “Primeiro Comando da Capital” (PCC), este formado por presidiários, e que surgia nas casas de detenção daquele ente federativo, criando um poder paralelo ao Estado. O governador da época era Carlos Lembo, que ficou no comando do Palácio dos Bandeirantes por pouco tempo (um ano); assumiu quando o então governador Geraldo Alckmin se candidatou à Presidência da República, em 2006. Lembo, logo de cara, mal tinha sentado na cadeira mais importante do estado de São Paulo, e já tinha que resolver um grande problema: crise na segurança pública.

Blog do Branco

O Coronel Ubiratan Guimarães, que comandou a chacina do Carandiru e foi de certa forma quem possibilitou a criação do PCC 1533 sabia quem era seu inimigo.

A palavra chacina não tem uma conotação jurídica como homicídio ou latrocínio, sendo representada no âmbito jurídico como “homicídios múltiplos”. Chacina, portanto, é uma expressão popular que desencadeou um acúmulo de violência contra um grupo de pessoas estereotipadas, seja pela classe social, cor da pele ou ação política.

Camila de Lima Vedovello e Arlete Moysés Rodrigues

Dorrit conta que o Cel. Ubiratan sabia como se proteger de seus inimigos: mantinha sete armas sempre carregadas dentro de sua residência em um bairro nobre, evitava sair de casa, e só o fazia dentro das regras de segurança.

Coronel Ubiratan foi morto em sua casa por sua namorada, 23 anos mais nova, para que ela ficasse com o amante. Quem era e onde estava o verdadeiro inimigo do militar? Quem é e onde está o meu ou o seu verdadeiro inimigo? Em casa, no trabalho ou nas esquinas?

“Você viu o que aconteceu lá com o homem?”, ouviu José Izabel logo que chegou ao cruzamento para vender água. A voz vinha de um carro às suas costas. Virou-se. Reconheceu o taxista, um ex-presidiário dos tempos do Carandiru. O ex-companheiro mais não disse, e seguiu viagem manhã adentro. “Como a vida é, hein? Ela dá, mas ela também tira”, comenta o ambulante José Izabel da Silva, que era conhecido como “Monarca” no maior presídio da América Latina.

E sendo assim, nem eu, nem você, nem Gabriel, nem Dorrit, nem o Coronel Ubiratan sabemos de fato quem é o nosso inimigo, e mesmo quando achamos que sabemos, não podemos provar.

Todo preconceito é desprezível…

… ou melhor, todo preconceito contra nossos iguais é desprezível, mas contra aqueles que não pertencem ao nosso grupo aí não tem problema:

“Quando alguém relata um assalto em Boa Vista-RR, as outras pessoas logo perguntam: “O bandido era venezuelano?”. Os imigrantes estão na boca de quem reclama do crescimento da criminalidade e também do aumento da demanda por serviços essenciais, como saúde e educação.”

Enquanto isso, no mundo real, que não está nem aí para nossos preconceitos:

“Tem havido um crescimento da violência no Estado por causa do rompimento do acordo entre as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Amigos do Norte, causando assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios, mas isso é na grande criminalidade. As infrações cometidas por venezuelanos não são a maioria, e geralmente são de menor potencial ofensivo: furtos de pequenas posses, como alimentos e celulares.”

Há pouco tempo, os caminhoneiros e aqueles que eram a favor da intervenção militar eram aplaudidos pelas ruas, bastaram alguns dias para que o preconceito contra esses dois grupos os jogassem pelo menos parcialmente na lama — cuidado você pode ser o próximo.

Policiais corruptos ou polícia corrupta — a dúvida

La nota de rechazo de los policías civiles de Minas Gerais llama la atención sobre la falta de transparencia de la propia organización.

Oh My God! Uma nota de reúdio!

Akshay Kumar e Umesh Shukla precisaram encarnar o divino Krishna para me fazer rever meus dogmas. Sou daqueles que têm convicções rígidas, poucas incertezas e, assim como todo habitante de Mumbai, e assim, recriminei Kanji Lalji Mehta por entrar com uma ação contra Deus na Justiça.

O longa indiano OMG – Oh My God! traz uma analogia clara do quão enganosas podem ser nossas convicções, ainda que bem-intencionadas, assim talvez tenha sido também o caso da Nota de Repúdio emitida pelo SINDEPOMINAS — Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de Minas Gerais.

Em Defesa da Violência Policial

No passado, argumentei fervorosamente a favor de abordagens truculentas da polícia, apesar de quase ter sucumbido sob as mãos de policiais durante o reinado dos exterminadores Mão Branca em São Paulo. Felizmente, minha opinião não prevaleceu aqui, ao contrário do que ocorreu no Rio de Janeiro.

Lá, com apoio popular, governos populistas ignoraram o uso desmedido de força e a participação policial no crime. Conforme apontado pelo canadense Robert Muggah, no artigo A state of insecurity: the case of Rio de Janeiro, o abuso de poder policial reflete-se no número de homicídios.

Entendo que uma necessidade social foi criada pela negligência do estado, mas nunca defendi a legitimação da violência, seja pelo Tribunal do Crime do Primeiro Comando da Capital ou por milícias.

O abuso de poder policial eleva o número de homicídios, por outro lado, onde a organização criminosa Primeiro Comando da Capital conquistou a hegemonia, o índice despenca.

É conveniente para quem vive longe dos perigos condenar a ação das facções e apoiar a truculência policial. A sociedade, porém, busca se organizar e proteger como pode, muitas vezes tolerando abusos em prol da paz social.

A incoerência das associações de classe

A agitação tomou conta do Brasil recentemente com uma série de prisões: policiais, militares, advogados, agentes penitenciários e criminosos associados aos Tribunais do Crime, principalmente em São Paulo. As massas comemoraram e os aplausos foram unânimes. Nem as associações de segurança, nem a OAB expressaram objeções contra os abusos nas apurações.

No filme OMG – Oh My God!, Kanji toma a decisão inusitada de levar Deus ao tribunal por meio de seus representantes terrenos: os líderes religiosos. Como nos relatam Akshay Kumar e Umesh Shukla, até mesmo o próprio Deus insiste em um julgamento justo e imparcial, sem fornecer proteção às instituições que o representavam.

Cada corporação tem seus segredos ocultos, guardados sob a máscara de respeitabilidade. Quando a máscara cai, as ações reprováveis vêm à luz. E se a instituição, em vez de condenar, busca desculpas, é forçado a se questionar até que ponto essa conduta está arraigada no coletivo.

Contudo, aqui reside uma contradição aguda. Enquanto nenhuma organização, incluindo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), se manifesta contra a sequência de prisões, surge uma cacofonia de protestos quando se trata de investigações de corrupção na polícia.

Este é um paradoxo que remete à lógica do filme OMG – na busca por justiça, todos merecem um tratamento igualitário, até mesmo quando se trata de levar Deus a um tribunal humano. A condenação prévia desafia o princípio da justiça e a própria essência de um julgamento justo.

A nota de repúdio contra a Operação Fênix prova que ainda temos muito que aprender.

“Operação Fênix” visava manchar a imagem da Polícia Civil, diz nota do CONCPC

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção na Tríplice Fronteira
Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2021 nos países com maior influência da facção Primeiro Comando da Capital

̶Ͽ۞Ͼ̶

Veja a nota na íntegra — retirado do site paranaibaagora.com.br:

O Sindpol/MG em pleno uso de suas atribuições, entidade sindical, com registro no Ministério Trabalho e Emprego (MTE), sob o número 24000.000807/92-10, CNPJ 255773700001/17, por meio de sua representação legal, vem a público repudiar a ação abusiva, panfletária e espetaculosa, com a qual o Ministério Público (MP) de Uberlândia, em conjunto e escudado, pelo comando local da Polícia Militar (PM) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF), perpetraram a operação denominada Fênix e Efésios, com o fito de além de cumprimento de mandados de prisões preventivos de policiais civis, depreciar e macular a Instituição Polícia Civil de Minas Gerais.

Necessário destacar que ao contrário dos procedimentos adotados de praxe em apuração de atos ilegais, em tese praticados por policiais, nessa fase da operação, se desconsiderou e alijou de pronto a participação da Corregedoria Geral de Polícia, usurpando a competência do controle interno Institucional. Necessário também salientar que aos agentes da PM e da PRF, é vedado a prática de exercício de Polícia Judiciária, vício insanável que muito além de usurpação de função, caracteriza improbidade administrativa e nulidade processual, haja vista os antecedentes recentes de operações da Polícia Federal (PF) e do MP, como é o caso da operação Satiagraha.

É de valia também salientar que a observância das premissas Constitucionais, antes da exposição e degradação da imagem e da dignidade da pessoa humana, em nenhum momento fôra observado nessa operação, mormente no que tange ao devido processo legal o contraditório e a ampla defesa, componentes essenciais no conjunto probatório para qualquer cidadão, mormente para aqueles legitimados pelo cargo e carreira típica de Estado.

Sem entrar no mérito das condutas imputadas aos envolvidos, o Sindpol/MG também argui o descumprimento do disposto no artigo 48, III da Lei Complementar 129/2013 (LOPC), no qual estabelece que a condução em prisão e processamento específico dos policiais civis se dão pelo órgão específico da Instituição, e nesse caso, em nenhum momento a Corregedoria Geral da PC foi acionada para tal. A forma com a qual se concluiu a referida operação mácula não apenas a Instituição PC, mas sim uma política pública continuada, denominada integração, que com muita dificuldade e recursos do erário tem se buscado consolidar em âmbito Estadual e Nacional, logo a sacia punitiva e midiática de um órgão com competências específicas como é o caso do MP, não pode sobrepor a necessária convivência republicana entre as Instituições do mesmo sistema de Justiça criminal. Haja vista, o Estado brasileiro e suas Instituições são signatários de tratados e resoluções Internacionais de garantias e preservação de direitos fundamentais da pessoa humana, dos quais não se pode negligenciar sob qualquer pretexto.

A quem interessa o descrédito, a depreciação, a exposição ao escárnio público de uma Instituição permanente do Estado? Quais são os valores ou interesses que estão por trás dessas atitudes? A quem interessa o enfraquecimento da Polícia Civil em Uberlândia e em Minas? Por que não acionaram a Corregedoria Geral de Polícia, órgão legitimado por força de lei, para a apuração conjunta dos fatos? O Sindpol/MG reafirma o seu total interesse na rigorosa apuração da procedência ou não de todos esses fatos imputados, bem como o restabelecimento da ordem e da Segurança Pública, a comunidade uberlandense, bem como a todo povo mineiro e para tanto estará acionando e cobrando de todas as autoridades competentes, as providências necessárias para o restabelecimento da regularidade e do respeito às prerrogativas institucionais, bem como da reparação de possíveis prejuízos causados ao erário e cada um dos particulares.

O exército de 200 mil homens da facção PCC 1533

Podemos acreditar que são 200 mil os integrantes da facção Primeiro Comando da Capital?

PCC, onde estão, quantos são, e qual sua força?, este foi o título de um artigo que publiquei no início de 2016 — sua base foi um levantamento feito pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, muito coerente com a realidade das ruas e, sendo assim, o comparei com o mapa do sistema carcerário e o publiquei.

Confiei no número passado pelo MP-SP (20 mil — 2016); também acreditei no resultado dos levantamentos de órgãos de segurança pública (40 mil no início de 2017 com expectativa de 80 mil para o encerramento do ano); e abonei a quantidade apontada pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República GSI (200 mil), assim como também acreditei no site DefesaNet quando informou que o total do efetivo das forças armadas não chega a 30 mil homens.

Se eu, em algum momento duvidei nos 200 mil integrantes apontados GSI em 2017, agora com Dados do Núcleo de Estudos sobre a Violência da USP que apontam que o número de integrantes do PCC em Mato Grosso do Sul saltou de 15 mil para pelo menos 21 mil entre 2016 e 2021, agora não tenho mais dúvidas.

A que ponto chegamos?

Considerando uma taxa de dependentes de 50% e de desemprego de 10%, e levando em conta que o Brasil possui 200 milhões de habitantes, concluímos que o Gabinete da Presidência trabalha com a possibilidade de que o Primeiro Comando da Capital sustente de maneira direta 320.000 habitantes.

Não fique aí só lendo — veja se tem lógica pelo que você conhece da sua cidade.

Corte três zeros do número de habitantes do seu município ou bairro……
Salto de Pirapora SP (40.132 = 40)
Sorocaba SP (586.625 = 586)
Campinas SP (1.080.113 = 1080)

… Lembre dos pontos de vendas de drogas, calcule dois por biqueira. Veja, esse é só um chutão, pois existem biqueiras que nem tem envolvidos com o Comando, por outro lado alguns tem vários, assim como tem aqueles que não se dedicam ao tráfico como os assaltantes, e tem aqueles que nem aparecem nas ruas, cuidando do administrativo, o operacional, e outros profissionais.

Sorocaba coloquei como exemplo propositalmente — apenas uma das unidades prisionais abriga outras facções, e são milhares de presos nas unidades PCCs. Não estou tentando provar que o número do Gabinete de Segurança da Presidência da República é válido ou não — essa parte estou deixando para você fazer, e caso queira, me diga a que conclusão chegou.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, afirmou que ele e a facção paulista não chegam aos pés do que a imprensa pinta, e em 2017, em duas ocasiões, il capo ma non troppo do PCC 1533 provou estar certo — mas não se engane, não vim aqui para criticar a mídia, mas, sim, para fazer um mea culpa: Pater, peccavi, pois me calei diante da injustiça.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Por trás do silêncio existe um ser dizendo que é melhor do que o outro porque não falou ou expressou tamanha barbaridade. Isso é a arrogância do silêncio… Eu sou melhor do que ele porque não falo tantas besteiras! Talvez o indivíduo possa ser um falastrão, mas ele tem a sinceridade e a sensibilidade para expor quem ele é e não esconder sua arrogância por trás do silêncio. Bispo Sérgio Correia

Em uma das ocasiões, foi apresentado um plano de fuga para o Marcola quando até as pedras sabiam que a estratégia não seria essa, mas a outra situação foi ainda mais inusitada.

O repórter Flávio Costa publicou o artigo Em guerra contra rivais, PCC afrouxa regras de “batismo” para ter cada vez mais membros, no qual torna pública a campanha para o ingresso de novos membros para a facção, mas, ao contrário do que afirmou, a razão principal para o recrutamento é econômica, e não para aumentar o poder ofensivo.

Não é necessário ser um irmão batizado para ser enviado para as zonas onde o PCC está em guerra com o Comando Vermelho (CV), a Família do Norte (FDN) e o Sindicato do Crime do Rio Grande do Norte (SDC RN) — companheiros, aliados e até simpatizantes podem lutar e morrer, mas contribuir para o caixa da facção é só para os irmãos.

O sol nem se tinha posto no dia em que a matéria foi publicada e o site amazônico Brasil Norte Comunicação (BDC) aproveitou a chance para colocar uma chamada para a matéria, destacando a criação de um “exército” do crime: PCC cria exército para enfrentar FDN e novo massacre é ameaça.

O sol nem havia nascido novamente e o exército do crime, que foi criado a poucas publicações, duplicou na manchete do site português Jornal de Notícias: Grupo criminoso duplica “exército” para enfrentar guerra com rival em 2018.

Os repórteres Clayton Neves e Arlindo Florentino, do site MidiaMax, foram atrás da informação e produziram o sóbrio artigo Cada vez mais presente em Mato Grosso do Sul, PCC faz mutirão de filiações — foi a última reportagem que se pôde levar a sério sobre o assunto, as demais ou replicaram, ou acrescentaram mais pontos ao contar o conto.

Esta manhã acordo com essa manchete no Estadão, Uso do Exército para combater o crime nos Estados cresce pelo menos 3 vezes, na qual o repórter Marcelo Godoy expõe os dados que coletou sobre a utilização das forças armadas como ferramenta complementar das forças de segurança pública.

Gato escaldado tem medo de água fria, e eu gelei…

Em determinado ponto da reportagem, Godoy entrevista o cientista político Eliezer Rizzo de Oliveira, que afirma que o Gabinete de Segurança Institucional estima em 200 mil só os adeptos do Primeiro Comando da Capital (PCC) no País.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, tinha razão, o diabo talvez não seja tão preto quanto o estão pintando, mas desta vez, ao menos, não terei que vir até você para fazer um mea culpa: pois diante do perigo eu venho trazer o alerta e o esclarecimento:

Existem, sim, 200 mil pessoas envolvidas ao PCC no Brasil, que não formam um exército, muito longe disso — esse número compreende batizados e companheiros, se acrescentarmos aliados e simpatizantes, talvez esse número dobre, se acrescentarmos inimigos e criminosos sem camisa que aceitariam participar de ações, talvez esse número quadruplique, mas…

… nem esquenta, qualquer coisa é só colocar os 30 mil homens das forças armadas nas ruas, 20 mil se tirarmos os administrativos e os impossibilitados de ações de campo, 10 mil se tiramos os que tem que manter os postos e quartéis seguros e os que cuidam da logística e, no fim, se não errei nas contas, seria algo como dois soldados para cada cidade do país.

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Candidatura de policial a deputado depende do PCC

Uma garota me deu muito trabalho. Talvez você conheça Gabriela, mas eu não a conhecia até poucos dias atrás quando trombei com sua monografia Violência se resolve na (bancada da) bala: Percepções sobre a Frente Parlamentar de Segurança Pública apresentada para conclusão do curso de Ciências Sociais da Universidade de Brasília.

O título já mostrava que o texto seria tendencioso, e a primeira coisa que vi ao abrir o arquivo foi o gráfico apresentando o número absoluto de candidatos das forças repressivas a deputado federal no Brasil, elaborado pelo Observatório de elites políticas e sociais do Brasil — era exatamente o que eu queria, em poucas horas teria um texto pronto.
Participação dos policiais e militares nas eleições 1998 - 2014
Explico: em ano de eleição, eu coloco minhas barbas de molho. Te conheço, e sei que não é seu caso, mas acredite, existem pessoas que julgam meus textos pela ilustração ou pelo título sem ao menos lê-los —, e a monografia de Gabriela Costa Carvalho, com todos os seus chavões panfletários, ilustraria minha decisão de me incluir fora das discussões políticas.

Gabriela, ao analisar a participação dos 972 policiais e militares que foram candidatos nas eleições para deputado federal entre 1998 e 2015, verificou que quanto maior a sensação de insegurança, maior o número de candidatos das forças de segurança pública. Sendo que o pico de candidaturas ocorreu após a onda de ataques do Primeiro Comando da Capital em 2006.

… as candidaturas estão condicionadas a contextos específicos, especialmente, aqueles que são exaustivamente explorados pela mídia.

E ela prova com números:

Foram eleitos 19 policiais (…). Além do crescimento expressivo no número de deputados federais eleitos frente aos pleitos anteriores, muitos dos parlamentares associados às carreiras policiais ou militares tiveram votações expressivas (…). Dos 19 deputados federais associados às forças de segurança, 5 foram os mais votados…

Segundo a pesquisadora, o sucesso desses candidatos se deu graças às próprias demandas da sociedade brasileira por alternativas repressivas, e faz um retrospecto histórico desde a colonização até a atualidade para encontrar as razões pelas quais preferimos investir na punição e não no aumento dos esforços sociais e preventivos.

Gabriela deixa claro que os policiais candidatos são ligados à direita, mas quem me apresentou números neste sentido foram Maria do Socorro Sousa Braga, Luciana Fernandes Veiga e Angel Miríade no artigo Recrutamento e Perfil dos Candidatos e dos Eleitos à Câmara dos Deputados nas Eleições de 2006:

Candidatos policiais e militares
67% — PFL/PP
10% — PT
23% restantes PMDB/PSDB
que cada um jogue onde quiser
(direita – centro – esquerda)

Aí vem Leôncio Martins Rodrigues no Mudanças na classe política brasileira dizendo que os partidos mudaram o perfil de seus candidatos para eliminarem a imagem de elite. Se no passado era um pré-requisito ter dinheiro e nome para impulsionar a campanha, hoje esses atributos passaram a ser deméritos — sobram vagas.

Maria do Socorro e suas colegas traçam o perfil desse novo indivíduo buscado pelos partidos políticos para compor seu quadro de candidatos: facilidade de falar com o público, imagem já veiculada pela mídia e afinidade com ela, ensino superior, flexibilidade de horários para poder se dedicar a campanha, um certo grau de apelo eleitoral e presença de espírito — enfim, um talking profession.

Os partidos mudaram e os policiais também.

Gabriela vincula o aumento da quantidade de policiais candidatos às ações do Primeiro Comando da Capital e à nossa raiz cultural punitivista e repressiva, ao mesmo tempo que critica os partidos e o eleitor, que não esperaram que o projeto segurança pública cidadã implementado nos governos petistas mostrasse seus frutos — o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI) implementado durante o governo Lula.

Agora que você já conhece, assim como eu, um pouco sobre Gabriela, vou explicar por que me enganei quando pensei que seria fácil usar a monografia dessa garota para demonstrar que devíamos tentar analisar a questão da segurança pública sem deixar nos levar por nossos conceitos e preconceitos políticos.

Após uma década apostando na polícia cidadã, o PRONASCI apresentou resultados e mudou o perfil do profissional de segurança pública. A consequência disso foi a mudança da forma de relacionamento do policial para com a população, a mídia e os partidos políticos.

Por esse resultado os criadores PRONASCI não esperavam.

O policial semianalfabeto e especializado em bater e matar, graças à filosofia trazida pelo PRONASCI, foi substituído pelo profissional de nível superior, treinado em táticas operacionais e com foco na negociação e convencimento, que com isso acabou ficando mais seguro de si e bom de mídia.

Essa nova geração de policiais passou a ocupar as vagas que Leôncio anunciou estarem disponíveis dentro da busca dos partidos por pessoas fora da elite e da tradição partidária, já que eles agora possuem todos os atributos buscados pelos partidos, conforme demonstrou Maria do Socorro e suas colegas.

Podemos ficar em dúvida sobre as razões pelas quais os policiais se tornaram candidatos bons de voto, seja por atenderem a ânsia de vingança e imposição de uma política de força, seja pelo aumento de sua capacidade técnica e midiática somada à abertura de vagas para esse tipo de perfil, mas não podemos duvidar dos números apresentados por Gabriela…

As conclusões da pesquisadora se baseiam no aumento da quantidade de candidatos policiais ou militares nos períodos nos quais houve um aumento da sensação de insegurança, mas não apresenta números que comprovem essa afirmação. Existem trabalhos que falam especificamente sobre isso, mas eu fico só com o Google Trends…

Google Trends sequestro assalto bandido roubo

Os usuários do Google estavam mais preocupados com sua segurança em 2014 do que nos anos anteriores, mesmo no período após a onda de atentados promovidos pelo PCC em 2006, em que o Estado e as forças policiais foram afrontadas; essa insegurança não foi incorporada pelas pessoas — não discuta comigo, reclame com os usuários do Google.

Mas isso é apenas um detalhe…

Segundo ela, a quantidade de policiais e militares candidatos a deputado federal dobrou — 1989 (120) e 2014 (209). Só que não é bem assim: em 1989, 3.357 cidadãos se candidataram, sendo 120 policiais e militares (3,57%), e em 2014, houve 7.137 candidatos, sendo 209 das forças repressoras do estado (2,92%).

Como eu disse, Gabriela me deu muito trabalho, principalmente, porque talvez ela tenha razão, ou não. Esses últimos números tanto derrubariam a sua teoria como também a minha, que foi baseada no que Leôncio, Maria do Socorro e suas colegas me disseram — não sei quanto a você, mas eu acho que vou me juntar às pessoas que julgam os textos pelas ilustrações ou pelo título sem ao menos lê-los — dá muito menos trabalho.

CV, FDN e CRBC — táticas de guerrilha em São Paulo

O governo estará ocultando ataques de grupos rivais a poderosa organização criminosa Primeiro Comando da Capital dentro do estado de São Paulo?

A imprensa tem esse poder, mas o quanto você acha que eu, você, a imprensa ou o governo tem direito de esconder a verdade, mesmo que ela possa causar a morte ou salvar a sua vida ou a de outras pessoas? A decisão de esconder que a guerra entre facções chegou a São Paulo nada mais é que isso aí.

No fim do ano passado, coloquei em destaque um alerta passado pelo Primeiro Comando da Capital para que todos os seus membros ficassem preparados para a virada — era de conhecimento público que a Família do Norte e o Comando Vermelho haviam planejado ataques ao PCC em seu território, mas havia algo mais na mensagem da facção.

Naquele momento, ao analisar as mensagens, acreditei que eles não estavam apenas alertando os faccionados do norte e nordeste, mas que o salve seria nacional, inclusive para o estado de São Paulo — não consegui acreditar, me senti um americano no 11 de Setembro vendo um grupo rebelde atacar a maior potência militar do mundo.

Logo no primeiro dia do ano recebi as primeiras mensagens narrando as atrocidades que estavam sendo cometidas, principalmente contra os garotos da facção aliada, Guardiões do Estado, GDE 745; dezenas tiveram seus dedos cortados, mas o que mais me assombrou foram as mutilações dentro do estado de São Paulo: mãos cortadas.

A guerra chegou a São Paulo.

A princípio achei que seria apenas o Comando Revolucionário Brasileiro do Crime (CRBC) buscando retomar áreas, mas as informações chegavam indicando que era uma ação conjunta entre o Comando Vermelho (CV) e a Família do Norte (FDN), que teriam enviado células para atacar, sem informação se os alvos seriam aleatórios ou pré-definidos, com método de guerrilha: chegariam à cidade, atacariam e seguiriam para a próxima.

Se o CRBC estaria atuando em conjunto ou apenas aproveitando o momento, ainda é um mistério.

O que se viu no entanto foi uma operação bem planejada dos CVs e FDNs — os primeiros dias de ataque fizeram os números de whatsapp da facção fervilhar de alertas, levando o terror para as quebradas, para que só então, em alguns pontos, principalmente da região metropolitana, a manobra de tomada de alguma cabeça-de-ponte começasse.

A caça às bruxas começou. Todos os que foram ou vieram da região norte ou nordeste e podem ter alguma ligação com o crime, até mesmo aqueles que já estão morando há décadas em território paulista, podem ser vistos como possíveis infiltrados. Tudo indica que 2018, assim como foram os anos de 1992 e 2006, será fundamental para o futuro da Família 1533.

Se você é do mundo do crime, sabe de tudo isso; se for das forças policiais talvez, mas essa informação quase não chegou à população. O silêncio foi quebrado pela primeira vez pela repórter Tânia Campelo, do site de notícias Meon do Vale do Paraíba, no artigo Homicídios em São José podem ter relação com briga entre facções.

Nele, pela primeira vez é noticiada a ação das facções do norte, e é descrito o ataque de guerrilha de forma bastante clara. A repórter questionou o delegado Célio José da Silva, responsável pelo caso que lhe respondeu que “isso não existe” — dias depois algumas coisas que não existiam foram capturadas e mortas pela facção PCC 1533 em Guarulhos.

Podemos afirmar então que ou as autoridades policiais ainda não sabiam o que estava acontecendo dentro do estado, ou não quiseram admitir, repetindo o que aconteceu em 1995, quando a Secretaria de Segurança Pública afirmou que a imprensa estaria “vendo fantasmas” ao dizer que existia uma facção criminosa chamada PCC em São Paulo.

O assunto voltou com a matéria de Ivan Longo da Revista Fórum, Periferias de São Paulo vivem nova onda de terror com guerra entre facções, mas coube ao repórter Lucas Simões do pouco conhecido site O Beltrano trazer um artigo repleto de fatos reais e, por incrível que possa parecer, inéditos: Estoura guerra de facções em SP.

Dizem que as bruxas não existem, mas devemos acreditar nelas. Como a história provou, não acreditar em fantasmas não os fizeram desaparecer ou ficarem menos perigosos. Até quando as autoridades e a imprensa continuarão plagiando o querido Padre Quevedo? “Isso non ecziste”.

Comando Vermelho capturado em São Paulo

Vídeo com coisas que non eczistem capturados pelos PCCs na capital  paulista — note que enquanto nega ser CV, o primeiro deles faz o símbolo da facção com a mão. 

Lucas Simões nos deixa a dúvida: será que a imprensa tem esse direito? O quanto você acha que eu, você, a imprensa ou o governo temos o direito de esconder a verdade, mesmo que ela possa causar a morte ou salvar a sua vida ou a de outras pessoas? A decisão de esconder que a guerra entre facções chegou a São Paulo nada mais é que isso aí.

Nos últimos dias, alguns garotos que vendem umas paradinhas, para sustentar seu vício e ganhar uns trocos, morreram ou tiveram as mãos ou os dedos cortados, agora faltam os policiais, a dona Luíza, eu e você — quando você vai começar a se interessar pelo assunto?

Três mortos em São José do Rio Preto PCC vs CRVC

Um setor de Inteligência da SSPDS considera que as tentativas de negar o avanço do crime organizado no Ceará só deram tempo e espaço para as facções se fortalecerem. — reportagem de Márcia Feitosa para o Diário do Nordeste: Crime organizado: um problema nacional que aflige o Ceará.

PCC 1533 – 24 ANOS – PARABÉNS E FELIZ ANIVERSÁRIO!

A evolução do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Da origem do PCC no Regime Militar e às decisões dos governos subsequentes, culminando na atual situação de crime organizado no Brasil, e o papel da sociedade em permitir o crescimento dessas facções e revela a evolução do pensamento e da condução da facção desde seus primeiros dias.

Aaniversário do PCC: uma oportunidade para refletirmos sobre sua origem e impacto na sociedade, mas primeiramente, permita-me parabenizar as várias gerações que presenciaram o nascimento e a ascensão do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533).

Aniversário do PCC: os militares e as sementes vermelhas cariocas

O Primeiro Comando da Capital nasceu das sementes plantadas durante o Regime Militar. Este período histórico proporcionou o ambiente ideal para o surgimento da Falange Vermelha, que surgio em 1979 na Prisão da Ilha Grande, durante o governo do último presidente do Regime Militar, o General Figueiredo..

Foi nessa prisão que bandidos comuns de alta periculosidade foram colocados na mesma cela que prisioneiros políticos, dando origem à Falange Vermelha, precursora da facção PCC e de tntos outros grupos criminosos do Brasil.

Os governantes paulistas

Os governadores do estado de São Paulo, que tanto se esmeraram em criar o grupo criminoso paulista e fortalecê-lo, não podem deixar de serem lembrados. No final desse artigo faço um resumo da contribuição de cada um deles, ou podem ler a matéria sobre o sunto no site.

Agora, a nova geração enfrenta o desafio de conviver com facções criminosas profissionalizadas e violentas. Infelizmente, a vitória contra essa ameaça parece estar além do alcance, devido à atual cultura brasileira.

Embora seja tentador nos excluir da lista de culpados, a verdade é que todos nós, enquanto população, tivemos um papel em sua formação. Nossa participação veio através de ação ou inação, permitindo a perpetuação da situação.

Por fim, vale mencionar que o lema original do PCC, “Liberdade! Justiça! e Paz!“, se originou do Comando Vermelho, segundo Diorgeres de Assis Victorio do Canal Ciências Criminais. A importância desse lema para a identidade do PCC não pode ser subestimada.

Governadores do Estado de São Paulo e suas políticas carcerárias e de Segurança Pública

15 de março de 1983 até 15 de março de 1987
humanizou os presídios na sua gestão, priorizando a democracia, a transparência e os direitos dos detentos
Franco Montoro

15 de março de 1987 até 15 de março de 1991
estratégia violenta e repressiva de lidar com a criminalidade, foi a primeira grande ruptura na era democrática
Massacre do 42º DP – fevereiro de 89
Orestes Quércia

15 de março de 1991 até 1 de janeiro de 1995
massacre do Carandiru – 2 de outubro de 1992
desativação e demolição do Carandiru
política de interiorização e divisão dos presídios
fundação do PCC – 31 de agosto de 1993
Luiz Antônio Fleury

1 de janeiro de 1995 até 6 de março de 2001
criticou a ausência de direitos humanos nos governos anteriores e optou por políticas de negociação e patrulhas mais brandas
criação de vagas no sistema penitenciário como uma de suas principais ações políticas
Mário Covas

6 de março de 2001 até 31 de março de 2006
política de aumento da repressão policial e mais mortes em confrontos
mega rebelião em 29 unidades prisionais – fevereiro 2001
PCC ganha visibilidade pública e demonstra eficácia em suas ações
massacre Operação Castelinho – fevereiro de 2002
Regime Disciplina Diferenciado RDD – dezembro de 2003
muitos que trabalharam na repressão ganharam fama na vida política
Geraldo Alckmin

31 de março de 2006 até 1 de janeiro de 2007
mega rebelião e ataques do PCC – maio de 2006
Cláudio Lembo

1 de janeiro de 2007 até 2 de abril de 2010
manutenção da política de Segurança Pública de Alckmin
hegemonia do PCC com queda da taxa de homicídios
Crescimento progressivo da população carcerária
Fotalecimento da ROTA e investimentos na PM
José Serra

2 de abril de 2010 até 1 de janeiro de 2011
Alberto Goldman

1 de janeiro de 2011 até 6 de abril de 2018
aumento da população carcerária
investimento em ferramentas de investigação contra as organizações criminosas
número alarmante de encarcerados durante a gestão de Alckmin, com aumento de mais de 50.000 presos em apenas 4 anos
aumento da violência e letalidade policial
Geraldo Alckmin

6 de abril de 2018 até 1 de janeiro de 2019
Márcio Franca

1 de janeiro de 2019 até 1 de abril de 2022
João Doria

1 de abril de 2022 até 1 de janeiro de 2023
População carcerária: O Brasil é o terceiro país com maior população carcerária do mundo, com mais de 773.000 presos. Só no Estado de São Paulo são 231.287 presos
Rodrigo Garcia

1 de janeiro de 2023 a
Tarcísio de Freitas

A prisão de Rovilho Alekis Barboza e o fim do PCC

A prisão de Rovilho Alekis Barboza, figura-chave do PCC, expõe rachaduras internas da facção. A repressão no Paraguai e os erros de liderança indicam o possível declínio da organização, mas o perigo de sua transformação em algo mais sofisticado não pode ser ignorado.


Primeiro Comando da Capital: a metamorfose de um organismo

Nenhuma instituição humana é eterna. Todas, sem exceção, ruíram. Algumas ruíram sob o próprio peso, outras se dividiram até a fragmentação final, e houve ainda as que sucumbiram aos erros crassos de seus líderes — homens que acreditaram ser deuses e acabaram soterrados sob as ruínas de seus próprios impérios.

O Primeiro Comando da Capital PCC 1533 é a maior organização criminosa da América Latina, superando em número de homens e abrangência territorial a tradicional máfia colombiana que ainda hoje detém grande poder no Narcosul, mas e agora?

O ser humano é um bicho emotivo. Um bicho que se empacota em grupos, manadas ou bandos, como lobos. Sempre atrás de um líder, um “alfa”. Não gosta do termo? Tudo bem, chamemos então de presidentes, imperadores, primeiros-ministros, papas, chefes de escoteiros ou, para não ferir susceptibilidades, simplesmente “líderes”. Seja no Palácio do Planalto ou numa cela de presídio, a lógica é a mesma: o rebanho se guia por aquele que promete segurança, sobrevivência ou vingança.

Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler não souberam a hora de parar e deixaram para trás os cadáveres de suas matilhas levadas a um ponto sem retorno. No frio ártico o erro dos alfas não poupou as vidas francesas ou alemãs.

O PCC controla a maior parte da massa carcerária brasileira. Comanda boa parte do mercado ilegal de drogas e armas no país, mas a ambição da organização de Marcola a levou a cruzar as fronteiras sul-americanas antes mesmo de consolidar sua soberania plena no próprio quintal — sem ter garantido a pacificação da fronteira setentrional, nem estabilizado os próprios tentáculos internos.

A reação a tentativa frustrada de assassinato

O Estado paraguaio está aproveitando o momento para intensificar a repressão ao braço paraguaio do PCC, o Primer Comando Capital PCC, que começou após a tentativa frustrada de assassinato do presidente Horacio Manuel Cartes Jara, pelos líderes do Primeiro Comando: Carlos Antonio Caballero e Jarvis Chimenes Pavão.

Com isso, pedidos de repatriação começaram a pipocar. Entre os alvos: Rovilho Alekis Barboza, o temido “Bilao”, preso há poucos dias, cercado por armas, drogas, dinheiro em espécie e um rastro de corrupção que envolvia não só a polícia local como também agentes da própria Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), órgão ligado à Presidência da República. Após o atentado frustrado do PCC, a extradição foi concedida assim que foi pedida.

Não é para menos, o juiz brasileiro Naor Ribeiro de Macedo Neto declarou que Bilao tem “um papel de destaque na intrincada organização criminosa de acordo com as investigações realizada pelo GAECO … (e sua) prisão … mostra-se necessária a fim de que seja desmantelada a organização criminosa.”

Uma estrutura que resiste ao colapso

Os homens são guiados pelas emoções e se reúnem em torno de líderes que sabem manipular com maestria sonhos, esperanças, pesadelos e medos — e Marcola domina essa arte como poucos.

Muitos líderes conduziram suas matilhas até o abismo. Estariam os seguidores de Marcola destinados ao mesmo desfecho?

Não. E é exatamente isso que assusta. Não estamos vendo um líder conduzindo seus adeptos à um ponto sem retorno, mas a mutação de um modelo. A um novo tipo de gerenciamento, mais adaptável, mais flexível, mais imune à repressão clássica.

A sociedade, em sua arrogância, acredita que pode empurrar o problema para além das fronteiras com políticas de extradição, escondê-lo em presídios de segurança máxima e sustentar uma política de segurança pública baseada no encarceramento e na repressão. Mas, inevitavelmente, chegará o dia em que será forçada a encarar a questão de frente. E, então, talvez descubra que, em sua soberba, não conteve o mal — apenas o fortaleceu, transformando uma organização criminosa em um organismo vivo.

Um organismo que aprendeu a sobreviver sem um único alfa.

Análise do artigo “A prisão de Rovilho Alekis Barboza e o fim do PCC” por IA

Resumo Executivo

A prisão e extradição de Rovilho Alekis Barboza, conhecido como “Bilão”, figura proeminente do Primeiro Comando da Capital (PCC), levantaram questionamentos sobre a estabilidade e o futuro da facção criminosa. Esta análise aprofundada demonstra que, embora a repressão no Paraguai e as tensões internas representem desafios significativos, o PCC não está em declínio. Pelo contrário, a organização tem demonstrado uma notável capacidade de adaptação e sofisticação, transformando-se em uma entidade criminosa transnacional mais resiliente e complexa. As purgas internas servem como mecanismos brutais de governança, enquanto a liderança encarcerada impulsiona a descentralização e a adoção de tecnologias avançadas. A atuação do Paraguai, embora mais assertiva, pode resultar no “efeito balão”, deslocando ou transformando as operações do PCC. A facção emerge como um ator global no narcotráfico, com parcerias estratégicas e uma estrutura flexível que a torna imune a táticas de repressão clássicas, exigindo uma reorientação das estratégias de segurança pública para combater sua arquitetura financeira e suas redes de corrupção.

1. Introdução: O Cenário do Crime Organizado e a Prisão de Rovilho Alekis Barboza

O Primeiro Comando da Capital (PCC) consolidou-se como a maior e mais influente organização criminosa do Brasil, estendendo sua atuação para além das fronteiras nacionais e exercendo um papel central no tráfico internacional de drogas e armas. Sua origem nos presídios de São Paulo e sua evolução para uma potência criminosa global são objeto de constante estudo e preocupação para as autoridades de segurança pública em toda a América Latina e Europa.

Nesse contexto, a prisão de Rovilho Alekis Barboza, vulgo “Bilão”, em março de 2017, no Paraguai, representou um marco significativo. Bilão era uma figura-chave, identificado pelas autoridades paraguaias como um dos líderes do PCC. Sua captura ocorreu em Ciudad del Este, onde foi encontrado com documentos falsos, armas, mais de US$ 60 mil em dinheiro e dois veículos. Investigações posteriores sugeriram que o montante em dinheiro seria destinado ao pagamento de propinas a policiais locais, evidenciando a profundidade de sua rede de influência.

A importância de Bilão para a facção é sublinhada pelo fato de ele ser considerado o “principal responsável pelo fornecimento de cocaína no sul do Brasil”. No Brasil, ele havia sido condenado a 40 anos de prisão por narcotráfico, embora outra fonte mencione uma sentença de 24 anos por tráfico e lavagem de dinheiro proferida pela Justiça Criminal de Maringá, no Paraná. Mesmo após sua prisão inicial no Paraguai, ele continuou a comandar o tráfico de drogas de dentro da Penitenciária Nacional de Tacumbú, em Assunção. Além disso, Bilão era suspeito de envolvimento no assalto milionário à empresa Prosegur em Ciudad del Este, ocorrido em abril de 2017.

A extradição de Bilão para o Brasil, em 22 de novembro de 2018, foi uma decisão direta da Presidência do Paraguai. Essa medida foi tomada apenas três dias após a extradição de Marcelo Pinheiro, conhecido como “Marcelo Piloto”, outro líder de alto perfil do PCC. A celeridade e a natureza da decisão presidencial para as extradições de Rovilho Alekis Barboza e Marcelo Piloto sinalizam uma mudança crucial na política de segurança do Paraguai. Essa ação transcende os processos judiciais rotineiros, revelando uma vontade política deliberada e agressiva de desmantelar os refúgios operacionais utilizados pelo crime organizado brasileiro em seu território. A intensificação da cooperação bilateral e uma postura mais assertiva contra a presença do PCC impactam diretamente a capacidade da facção de operar impunemente a partir do Paraguai.

A posição de Bilão como “líder” e “principal responsável pelo fornecimento de cocaína no Sul do Brasil” destaca a dependência do PCC em indivíduos especializados para operações logísticas e financeiras críticas. Sua captura representa mais do que a perda de um membro; é uma interrupção significativa em um nó vital da cadeia de suprimentos do tráfico internacional de drogas do PCC, afetando particularmente o lucrativo corredor do Sul do Brasil (Rota Caipira). A remoção de um ativo de tão alto valor, com conhecimento e contatos específicos, impõe à organização a necessidade de encontrar um substituto, o que pode expor vulnerabilidades durante a transição ou exigir a reconfiguração de rotas de suprimento, gerando custos e riscos adicionais.

2. Dinâmicas Internas do PCC: Rachaduras e Desafios de Liderança

O PCC, apesar de sua estrutura robusta, não está imune a conflitos internos e disputas de poder, que são frequentemente descritos como uma “guerra interna” ou “racha” dentro da facção. Um dos episódios mais marcantes que catalisaram essa divisão foi a execução de dois membros de alto escalão, Rogério Jeremias de Simone, “Gegê do Mangue”, e Fabiano Alves de Souza, “Paca”, em fevereiro de 2018. A motivação alegada para suas mortes foi o desvio de dinheiro do PCC e a ostentação de uma vida luxuosa.

Gilberto Aparecido dos Santos, “Fuminho”, um aliado próximo e apontado como “02” de Marcola, foi acusado de orquestrar esses assassinatos. A subsequente decisão de Marcola de perdoar alguns dos envolvidos nas mortes de Gegê e Paca gerou ainda mais dissidência interna, resultando na remoção de figuras como Daniel Vinícius Canônico, “Cego”, da “sintonia final geral” por se opor ao perdão. Mais recentemente, em fevereiro de 2024, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) investigou uma nova cisão interna, com mensagens interceptadas indicando a “exclusão” e “decretação” (sentença de morte) de três membros de alto escalão: Roberto Soriano (“Tiriça”), Abel Pacheco de Andrade (“Vida Loka”) e Wanderson Nilton de Paula Lima (“Andinho”). A razão citada foi “calúnia e traição”, ligada à divulgação de áudios de Marcola. Essa tensão interna tem gerado um clima de ansiedade nos presídios paulistas, levando detentos a solicitar transferências para unidades consideradas “neutras”.

As “rachaduras internas” e a “guerra interna” observadas no PCC, incluindo a “decretação” de membros de alto escalão, não indicam necessariamente um enfraquecimento sistêmico da organização. Pelo contrário, essas purgas internas violentas funcionam como um mecanismo brutal, mas eficaz, de governança e disciplina interna. Ao eliminar aqueles percebidos como traidores ou violadores das regras internas, como desvio de fundos ou traição, o PCC reforça sua autoridade, mantém a coesão e se adapta aos desafios internos. Essa dinâmica é semelhante à forma como máfias estabelecidas, como a Cosa Nostra, mantêm a ordem e impõem seu código, onde a lealdade e a punição por traição são pilares fundamentais. Tais atos não são aleatórios, mas medidas calculadas para impor as regras e dissuadir futuras transgressões, consolidando o poder e assegurando a adesão aos princípios da facção, mesmo que isso signifique eliminar figuras de destaque.

Marcos Willians Herbas Camacho, “Marcola”, permanece uma figura central, apesar de cumprir penas que somam mais de 300 anos em presídios federais desde 2019. Alega-se que ele continua a emitir ordens, incluindo planos de assassinato, mesmo de dentro das grades. A transferência de Marcola para presídios federais e seu prolongado isolamento são tentativas das autoridades de conter sua influência. No entanto, sua capacidade de comunicação e de influenciar os assuntos da facção, mesmo por meio de mensagens codificadas, demonstra o desafio de conter a liderança criminal de alto nível. Embora em alguns bancos de dados apontem “erros de liderança”, o mais provável é que esses registros retratem disputas internas e ações disciplinares, e não falhas estratégicas capazes de enfraquecer a organização como um todo. Os áudios vazados revelam uma vulnerabilidade na comunicação, mas não caracterizam, por si só, um erro estrutural na condução do PCC.

A continuidade da liderança de Marcola a partir de prisões federais 16 e os desafios de comunicação daí decorrentes, como os áudios vazados que levaram a “decretações”, provavelmente serviram como um ímpeto crucial para o PCC refinar ainda mais sua estrutura organizacional. A evolução de um modelo piramidal para um modelo mais celular e descentralizado é uma resposta adaptativa direta para mitigar as vulnerabilidades associadas a uma liderança encarcerada, garantindo a continuidade operacional e a resiliência contra estratégias de “decapitação”. Essa adaptação estrutural torna o PCC significativamente mais difícil de desmantelar por meio de métodos de aplicação da lei tradicionais que se concentram na captura de líderes-chave. A capacidade do PCC de evoluir seu próprio mecanismo de comando e controle é um forte indicador de sua sofisticação e da ameaça que representa a longo prazo.

3. A Repressão no Paraguai e suas Consequências para o PCC

O Paraguai tem intensificado seus esforços contra as facções criminosas brasileiras, em particular o PCC, resultando em diversas extradições de membros de alto escalão. Além de Rovilho Alekis Barboza e Marcelo Piloto, outros líderes como Jarvis Chimenes Pavão e Carlos Antonio Caballero (“Capillo”) também foram extraditados. Essas ações demonstram um esforço coordenado do governo paraguaio para “remover criminosos do território paraguaio”.

Operações conjuntas entre a Polícia Federal brasileira e a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) do Paraguai têm sido cruciais, envolvendo o intercâmbio de inteligência e prisões coordenadas. O PCC estabeleceu uma forte presença no Paraguai, especialmente na região de Pedro Juan Caballero e na Tríplice Fronteira, utilizando-a como um centro estratégico para o tráfico de drogas e armas. A influência do PCC é tão profunda que seus membros operam e recrutam inclusive de dentro das prisões paraguaias.

A intensificação da repressão, particularmente após eventos como o assassinato do traficante rival Jorge Rafaat Toumani pelo PCC em 2016, foi “traumática para o país” e impulsionou uma resposta mais agressiva das autoridades paraguaias. O assassinato do promotor paraguaio Marcelo Pecci em maio de 2022, com fortes indícios de envolvimento do PCC, é um exemplo da disposição da facção em usar violência extrema para proteger seus interesses e operações no país. Este evento conferiu uma “dimensão internacional” à situação no Paraguai.

O Paraguai ocupa o quarto lugar no Índice Global de Crime Organizado, o que ressalta sua vulnerabilidade e o profundo enraizamento do crime organizado, criando um ambiente fértil para grupos como o PCC. A expansão do PCC no Paraguai, iniciada por volta de 2010, foi impulsionada por seu foco no tráfico de drogas, aproveitando um ambiente menos repressivo em comparação ao Brasil.

O assassinato do promotor Marcelo Pecci por suspeita de envolvimento do PCC é uma escalada crítica no conflito entre o Estado e o crime organizado no Paraguai. Esse ato demonstra que a resposta do PCC à repressão intensificada não é a retirada, mas sim a disposição de se engajar em violência de alto nível e direcionada contra agentes estatais para proteger suas operações lucrativas e manter sua influência. Isso contribui diretamente para a posição do Paraguai como um “centro da criminalidade mundial” e sinaliza um perigoso ciclo de feedback, onde a pressão estatal é recebida com violência criminosa extrema, desestabilizando ainda mais o Estado de Direito.

Embora a repressão e as extradições no Paraguai visem desarticular o PCC, o profundo enraizamento da facção nas prisões paraguaias, sua “postura de confronto” e os “mecanismos de resiliência pobres” do Paraguai sugerem que essas medidas, por si só, podem não ser suficientes para um impacto a longo prazo. Em vez de levar ao declínio, essa pressão provavelmente força o PCC a se tornar mais clandestino, intensificar a corrupção de autoridades locais e explorar as fraquezas sistêmicas, exemplificando o “efeito balão”, onde a repressão em uma área meramente desloca ou transforma o problema.

Tabela 1: Principais Extradições de Líderes do PCC do Paraguai (2017-2018)
Nome/ApelidoData da ExtradiçãoPapel no PCCCrimes/Condenação no BrasilReferências
Rovilho Alekis Barboza (“Bilão”)22/11/2018Líder, principal responsável pelo fornecimento de cocaína no sul do Brasil40 anos por narcotráfico; 24 anos por tráfico e lavagem de dinheiro1
Marcelo Pinheiro (“Marcelo Piloto”)19/11/2018 (3 dias antes de Bilão)Um dos líderes, denunciado por homicídios, tráfico internacional de drogas e armas, falsidade ideológicaHomicídios, tráfico internacional de drogas e armas, falsidade ideológica1

A tabela acima ilustra a intensificação das ações do Paraguai contra o PCC, com a extradição de figuras de alto valor estratégico para a facção. A rapidez e a decisão presidencial por trás dessas extradições destacam uma mudança na política paraguaia, visando a remoção ativa de criminosos de seu território.

4. Declínio ou Adaptação? A Resiliência e Transformação do PCC

A questão central sobre o PCC não é se ele está em declínio, mas sim como ele se adapta e se transforma frente aos desafios impostos pela repressão e pelas dinâmicas internas. Apesar dos conflitos internos e da pressão externa, a estrutura do PCC é considerada “relativamente bem consolidada” por especialistas. A facção demonstrou uma notável capacidade de expansão, com presença em 28 países e mais de 2.000 membros, com destaque para o Paraguai, Venezuela, Bolívia e Uruguai. O PCC consolidou sua posição no mercado internacional de drogas, controlando importantes rotas de tráfico de cocaína da América do Sul para a Europa. Seu modelo de negócios prioriza a “expansão silenciosa dos mercados em detrimento de guerras territoriais violentas e caras e confrontos com o Estado”, o que reduz a “atenção indesejada” e permite um crescimento mais sustentável. A organização também soube aproveitar o rápido crescimento da população carcerária brasileira para expandir seu recrutamento e influência.

A evolução estratégica do PCC de uma hierarquia rígida e piramidal para uma estrutura mais flexível, celular e “franquiada” é uma resposta adaptativa sofisticada à repressão estatal contínua, especialmente ao encarceramento e isolamento de líderes de ponta como Marcola. Essa descentralização aumenta significativamente a resiliência da organização contra ataques de “decapitação”, permitindo a continuidade operacional e a tomada de decisões distribuída mesmo quando figuras-chave são removidas ou confinadas. Essa transformação implica que as estratégias tradicionais de aplicação da lei, focadas em atingir líderes individuais, terão retornos decrescentes. A adaptabilidade do PCC significa que simplesmente remover uma cabeça não mata o corpo; em vez disso, o corpo aprendeu a funcionar com múltiplos “cérebros” distribuídos, exigindo uma mudança nas estratégias de combate ao crime para desmantelar redes financeiras e cadeias logísticas mais amplas, em vez de se concentrar apenas na liderança.

O PCC, em parceria com a máfia italiana ‘Ndrangheta, demonstra grande habilidade no uso de tecnologia digital para atividades criminosas, incluindo fraudes em sistemas portuários, uso de criptomoedas e fintechs para lavagem de dinheiro, e golpes virtuais. A organização tem recrutado ativamente hackers e profissionais de tecnologia da informação. Parcerias estratégicas com poderosos cartéis mexicanos, como Sinaloa e Jalisco Nueva Generación (CJNG), foram estabelecidas para o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, com “Fuminho” atuando como um elo crucial. O PCC também infiltra ativamente setores econômicos legítimos, como construção, restaurantes, aviação e imóveis, para lavar seus lucros ilícitos.

A adoção agressiva e rápida de tecnologias digitais avançadas pelo PCC, incluindo o uso de criptomoedas para lavagem de dinheiro e o recrutamento ativo de profissionais de TI, juntamente com o aprofundamento de suas parcerias estratégicas com cartéis internacionais altamente sofisticados (como os cartéis mexicanos de Sinaloa e CJNG, e a ‘Ndrangheta italiana), representa um salto profundo em sua sofisticação operacional. Essa evolução posiciona o PCC para além de uma gangue criminosa de rua tradicional, transformando-o em uma empresa criminosa verdadeiramente transnacional, digitalmente capacitada e financeiramente complexa. Essa sofisticação crescente apresenta um desafio significativamente mais complexo para a aplicação da lei nacional e internacional. Exige uma abordagem multidisciplinar que envolva especialistas em crimes cibernéticos, unidades de inteligência financeira e cooperação internacional aprimorada, mudando o foco de prisões puramente físicas para o desmantelamento de infraestruturas digitais e financeiras complexas.

Tabela 2: Indicadores de Força e Expansão do PCC (2017-2025)
IndicadorValor/DescriçãoPeríodo de ReferênciaReferências
Número de Países com Presença28 paísesAté 202544
Membros EstimadosMais de 2.000 integrantesAté 202544
Rotas de Tráfico InternacionalAmérica do Sul para Europa, controle de grandes fluxos de cocaína2017-202545
Adaptações Tecnológicas ChaveUso de Criptomoedas, recrutamento de hackers, fraudes em sistemas portuáriosAté 202550
Principais Parcerias InternacionaisCartéis Mexicanos (Sinaloa, CJNG), Máfia ‘Ndrangheta (Itália)Desde 201848
Infiltração em Setores LegítimosConstrução, restaurantes, aviação, imóveis para lavagem de dinheiroNão especificado, mas uma prática contínua46

A tabela acima consolida as evidências que refutam a ideia de um declínio do PCC, mostrando, em vez disso, uma organização em plena expansão e com crescente sofisticação operacional. Os dados indicam uma capacidade adaptativa que permite ao grupo não apenas resistir à repressão, mas também se fortalecer e diversificar suas atividades criminosas em escala global.

5. O PCC no Contexto Global: Comparativos com Outras Organizações Criminosas

A análise da trajetória do PCC revela características que o aproximam e o diferenciam de outras grandes organizações criminosas globais, como os cartéis colombianos e mexicanos, e a máfia italiana.

O PCC estabeleceu “parcerias de conveniência” com dois dos mais violentos cartéis mexicanos, Sinaloa e Jalisco Nueva Generación (CJNG), desde pelo menos 2018. Essas conexões, facilitadas por figuras como “Fuminho”, visam abrir caminho para futuras transações comerciais, novas rotas de drogas e alianças para lavagem de dinheiro. Uma colaboração profunda também existe com a máfia italiana ‘Ndrangheta, reconhecida por sua adaptabilidade tecnológica. Essa parceria fortalece as rotas transatlânticas de cocaína e envolve crimes digitais sofisticados, incluindo fraudes em sistemas portuários e uso de criptomoedas. O PCC “aprende com as máfias locais” e busca eliminar intermediários para operar diretamente na distribuição de drogas na Europa.

Ao contrário do Cartel de Medellín, cujo colapso esteve intrinsecamente ligado à morte de seu líder carismático e centralizado, Pablo Escobar, em 1993, a estrutura descentralizada, celular e “franquiada” adotada pelo PCC oferece um modelo fundamentalmente diferente e superior de resiliência contra estratégias de “decapitação”. Os conflitos internos dentro do PCC, embora brutais, assemelham-se mais às purgas internas e ações disciplinares observadas em máfias duradouras como a Cosa Nostra para manter a ordem interna e impor a lealdade, em vez de ameaças existenciais que levam ao colapso sistêmico. Essa comparação destaca que simplesmente visar líderes individuais, embora importante, é insuficiente para desmantelar o PCC. Sua natureza institucionalizada e estrutura adaptativa significam que ele pode absorver a perda de pessoal-chave e continuar a operar, tornando-o uma ameaça mais duradoura e complexa do que os cartéis históricos.

O PCC é considerado por especialistas como tendo atingido o “status de máfia”, o que indica um nível de institucionalização e resiliência que vai além das gangues típicas. A organização demonstra uma “imunidade à repressão clássica” devido à sua capacidade de corromper e intimidar funcionários públicos, neutralizando eficazmente os esforços estatais. O “efeito balão” descreve como a repressão em uma área meramente desloca o problema para outras, um fenômeno que o PCC explora. Seu modelo de negócios prioriza a “expansão silenciosa” em vez do confronto direto e violento com o Estado, o que reduz a “atenção indesejada” e permite um crescimento mais sustentável.49

A demonstrada “imunidade à repressão clássica” do PCC, manifestada através de sua corrupção generalizada de agentes estatais, sua evitação estratégica de confronto direto com o Estado e sua exploração do “efeito balão” ao deslocar operações, desafia fundamentalmente as táticas tradicionais de aplicação da lei. Isso exige uma mudança radical nas estratégias de combate ao crime, passando de medidas puramente punitivas e focadas na interdição para uma abordagem mais holística e orientada pela inteligência. Essa nova abordagem deve priorizar a desarticulação dos fluxos financeiros, o desmantelamento das redes de corrupção e o fomento de uma robusta cooperação judicial e de inteligência internacional, espelhando os esforços bem-sucedidos, embora prolongados, contra a máfia italiana.

6. Perspectivas Futuras e Implicações Estratégicas

A contínua expansão e transnacionalização do PCC amplificam significativamente a violência e as atividades ilícitas em toda a América do Sul, levando a um aumento da desconfiança mútua entre os estados devido à corrupção de funcionários públicos. O crime organizado transnacional, com o PCC como principal exemplo, é identificado como o principal fator de risco comum para a segurança nos países sul-americanos, exigindo uma resposta regional conjunta e coordenada. O “modelo-facção” pioneiro do PCC e do Comando Vermelho (CV) se espalhou pelo Brasil e países vizinhos, resultando em periferias urbanas divididas e controladas por várias organizações criminosas. A influência do PCC se estende além do tráfico de drogas tradicional para diversos mercados ilegais, incluindo mineração ilegal, exploração madeireira, serviços de proteção armada, imóveis e fluxos financeiros globais. O aumento do consumo de cocaína no Cone Sul está diretamente ligado ao aumento da produção na região.

Pesquisadores como Bruno Paes Manso têm estudado extensivamente a ascensão do PCC e seu complexo impacto nas dinâmicas criminais, incluindo seu papel na potencial redução de homicídios pela imposição de uma “ordem”. A própria narrativa do PCC e seu “poder secreto” são cada vez mais objeto de análise acadêmica e documental. Estudos acadêmicos consistentemente destacam a evolução e internacionalização do PCC como uma área-chave de preocupação. Autoridades e relatórios de inteligência reconhecem a força formidável do PCC, seu alcance global e sua capacidade de corromper agentes estatais.

A evolução contínua do PCC para um “ator global” com capacidade de operar em diversas moedas, infiltrar setores econômicos legítimos e empregar células especializadas para atacar autoridades estatais indica uma trajetória clara em direção a uma entidade criminosa altamente sofisticada e quase-estatal. Essa transformação representa um risco sistêmico que vai além dos desafios tradicionais de aplicação da lei, minando fundamentalmente a governança, o Estado de Direito e a estabilidade interestatal em toda a América do Sul. A existência de uma célula “restrita” especializada dentro do PCC, treinada por grupos como a guerrilha do Exército do Povo Paraguaio (EPP), aponta para um foco estratégico em operações de alto risco, incluindo o direcionamento de autoridades. O PCC busca estabelecer parcerias para lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e aquisição de armamento pesado, aumentando ainda mais suas capacidades operacionais e o nível de ameaça.

Embora a questão inicial levante a possibilidade de um “declínio” do PCC devido a “rachaduras internas” e “erros de liderança”, a vasta evidência apresentada neste relatório aponta para a profunda resiliência e a contínua transformação da facção. As fissuras internas e os desafios de liderança parecem ser mais bem compreendidos como lutas internas por poder ou ações disciplinares dentro de uma organização robusta e adaptável, em vez de indicadores de colapso sistêmico. Paradoxalmente, essas dinâmicas internas podem até contribuir para sua força adaptativa, ao purgar elos percebidos como fracos ou ao impor uma adesão mais rigorosa ao seu código operacional e estatutos. O PCC é uma organização altamente adaptável e resiliente, onde o atrito interno e os desafios de liderança são gerenciados por meio de mecanismos internos brutais, contribuindo, em última instância, para sua sobrevivência a longo prazo e sua evolução para uma entidade mais sofisticada e perigosa.

7. Recomendações Estratégicas

Diante da análise apresentada, que aponta para a resiliência e a crescente sofisticação do PCC, as estratégias de segurança pública e combate ao crime organizado devem ser reavaliadas e aprimoradas. As seguintes recomendações são propostas:

  • Fortalecimento da Cooperação Internacional e Regional: É imperativo aprofundar a colaboração entre Brasil, Paraguai e outros países da América Latina e Europa. Essa cooperação deve focar na troca de inteligência em tempo real, na realização de operações conjuntas transfronteiriças e na harmonização legislativa para combater a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas e drogas.
  • Combate à Lavagem de Dinheiro e Infiltração Financeira: A prioridade deve ser dada a investigações financeiras complexas para descapitalizar o PCC. Isso inclui o rastreamento de criptomoedas, a identificação e desarticulação de empresas de fachada em setores econômicos legítimos (como construção, restaurantes, aviação e imobiliário), e a imposição de sanções financeiras rigorosas.
  • Aprimoramento da Segurança Prisional e Combate à Corrupção: Medidas eficazes são necessárias para impedir a comunicação e o comando de líderes presos, como Marcola. Isso envolve o uso de tecnologia para bloquear sinais de celular e a implementação de programas robustos de combate à corrupção dentro dos sistemas penitenciários e das forças de segurança, visando eliminar a “imunidade” da facção.
  • Investimento em Inteligência e Análise de Dados: É crucial desenvolver capacidades avançadas de inteligência e análise de dados para monitorar e prever as adaptações tecnológicas e estruturais do PCC. Isso inclui a análise de grandes volumes de dados (big data), o monitoramento de redes sociais e a compreensão de novas tendências no crime organizado digital.
  • Estratégias de Desmobilização e Prevenção: Além da repressão, são necessários programas sociais e econômicos abrangentes em áreas vulneráveis para reduzir o recrutamento de novos membros pelo PCC. Paralelamente, devem ser desenvolvidas estratégias de desmobilização para membros de baixo e médio escalão, oferecendo alternativas e caminhos para a reintegração social.
  • Revisão de Estratégias de Combate ao Narcotráfico: As políticas atuais de combate ao narcotráfico devem ser reavaliadas, considerando o “efeito balão” que desloca o problema para outras regiões. É fundamental adotar abordagens mais abrangentes que incluam a redução da demanda por drogas, o controle de precursores químicos e o desmantelamento de toda a cadeia de valor do tráfico, não apenas as rotas e os transportadores.
  • Reconhecimento da Natureza Evolutiva do PCC: As autoridades devem adotar uma perspectiva de longo prazo que entenda o PCC como um organismo adaptável e resiliente. Isso exige flexibilidade e inovação contínuas nas respostas estatais, abandonando a expectativa de um colapso iminente e focando na contenção de sua influência e na mitigação de seus impactos sistêmicos.

Gegê do Mangue condenado a 47 anos e 3 meses

A partir da condenação de Gegê do Mangue, o texto investiga a encenação da Justiça como espetáculo cultural e o modo como o sistema penal se mantém funcional à custa de corpos e narrativas falsas de ordem.

A condenação de Gegê do Mangue revelou mais do que um julgamento: escancarou os bastidores de um sistema que simula justiça enquanto alimenta sua própria engrenagem. Este artigo convida à reflexão crítica sobre o papel do Estado diante do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Leitura incômoda, mas necessária.


🎯 Público-alvo (até 30 palavras):
Estudiosos de criminologia, operadores do direito, jornalistas investigativos, militantes anticarcerários, críticos culturais e leitores interessados nas relações entre justiça, poder, espetáculo e crime organizado.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundície.

Matheus 23: 27

A condenação de um homem. O alívio de um sistema. O silêncio de uma facção.

 1. O Espetáculo da Justiça

A condenação imposta a Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, não comoveu ninguém além da folha de papel onde foi impressa. A imprensa, como sempre diligente na arte de desviar os olhos, preferiu explorar o escândalo do ator global José Mayer — uma cortina de veludo para encobrir os escombros da Justiça.

Vivemos entre fachadas. A condenação de Gegê não representou justiça, apenas encenou seu cadáver. Foi mais um número no palco de marionetes onde toga, microfone e algema se confundem nos dedos de um Estado que precisa parecer justo para continuar sendo útil. No subterrâneo do Primeiro Comando da Capital, nenhuma engrenagem rangeu, nenhum protocolo foi revisto. A vida seguiu.

E nós? Seguimos como crianças em uma casa em chamas: gritamos, batemos os pés, acreditamos que alguém nos ouve — mas ninguém escuta. Nossas razões, tão legítimas quanto ignoradas, evaporam no calor de um sistema que não está preocupado com nossas esperanças. O PCC tampouco se importa. Gegê tampouco se importou.

Enquanto nas redes sociais celebravam a sentença com emojis de palmas, Gegê dormia — talvez em lençóis de linho, talvez em um leito de fuzis. E havia quem sorrisse diante da condenação televisionada, como se a encenação bastasse para desmontar a arquitetura invisível do poder carcerário.

Sim, o crime foi brutal. Mas a encenação judicial é igualmente cruel. O veredito serviu, acima de tudo, como lenitivo moral para quem ainda acredita que sentenças são capazes de conter o monstro que alimentamos entre as grades.

2. O Sistema Que Alimenta a Si Mesmo

Ninguém tem dúvidas — ou ao menos ninguém que conheça os bastidores: Gegê ordenou, sim, a execução de dois homens na favela do Sapé, no Rio Pequeno. Mandou matar de dentro da prisão, como manda quem conhece bem as rotas do poder. Foi eficiente, limpo, silencioso. Como a própria Justiça gostaria de ser.

Mas o que esse episódio revelou não foi a força do Estado. Revelou sua farsa.

O Código Penal e o Código de Processo Penal, que deveriam proteger o povo, foram gestados por homens que conheciam os atalhos do poder. Criaram dificuldades para vender facilidades. E o mercado floresceu: mais de um milhão de profissionais sustentam esse ciclo — entre as linhas do processo e os bastidores do foro íntimo.

A condenação de Gegê foi útil. Para o Estado, claro. Uma peça de propaganda institucional. Uma pausa coreografada no espetáculo de ineficiência. Uma maquiagem rápida antes do próximo cadáver.

Enquanto isso, os líderes da facção agradecem — talvez em silêncio, talvez com um brinde. Não pedem regalias. Pedem regras. Pedem respeito. E com isso, paradoxalmente, ganham algo mais valioso que qualquer privilégio: legitimidade interna.

A maioria da população, pacífica e esquecida, quer apenas viver — mas é essa mesma população que sustenta, com seu medo e sua esperança, o mito de uma Justiça que age em seu nome, mas que há muito trabalha por si mesma.

O julgamento de Gegê do Mangue não enfraqueceu o PCC. Fortaleceu sua narrativa. De um lado, o Estado posando de justiceiro. Do outro, os criminosos vestindo o manto dos oprimidos.

Gegê está morto — sim. Mas enquanto viveu, morreu rindo do veredito. E a sociedade, sedenta de sangue, ainda clama por novas condenações, como se isso bastasse. Quer ver os mesmos de sempre criando novas dificuldades — e vendendo soluções num ciclo que, em vez de justiça, entrega cadáveres.

Análise de IA do artigo: Gegê do Mangue condenado a 47 anos e 3 meses

Análise sob o ponto de vista factual e de precisão

Segue uma análise objetiva, separando os dados fáticos do artigo e avaliando-os criticamente com base em informações do meu banco de dados (atualizado até junho de 2024) e fontes jornalísticas confiáveis.

🔎 I. DADOS FÁTICOS PRESENTES NO TEXTO
1. Identidade e condenação
  • Nome completo: Rogério Jeremias de Simone
  • Alcunha: Gegê do Mangue
  • Organização: Primeiro Comando da Capital (PCC)
  • Condenação: Duplo homicídio triplamente qualificado e formação de quadrilha
  • Pena mencionada no título: 47 anos e 3 meses de prisão

📌 Verificação:

  • Gegê do Mangue foi de fato condenado por homicídio e envolvimento com organização criminosa, sendo uma das figuras centrais do PCC. Ele possuía diversas condenações criminais, inclusive por execuções ordenadas de dentro do presídio, como ocorre no caso citado.
  • Contudo, não há registro público confiável de que ele tenha sido formalmente condenado a exatamente 47 anos e 3 meses de prisão. A pena citada parece combinar múltiplas condenações, mas não consta nos sistemas oficiais como uma sentença única ou final pública nesse total exato.
2. Execução na favela do Sapé
  • Local: Favela do Sapé, bairro do Rio Pequeno, Zona Oeste de São Paulo
  • Crime: Execução de dois criminosos, supostamente ordenada por Gegê de dentro do presídio

📌 Verificação:

  • O bairro e local citados são verdadeiros e associados a atividades do PCC.
  • Gegê do Mangue, enquanto preso, foi acusado e investigado por ordenar execuções. No entanto, não há comprovação pública específica sobre sua condenação formal por execuções no Sapé, embora a prática de comando remoto seja frequente e documentada no modus operandi do PCC.
3. Imprensa destacou escândalo com José Mayer em vez da condenação de Gegê

📌 Verificação:

  • José Mayer enfrentou denúncias de assédio sexual em 2017, que repercutiram nacionalmente.
  • É plausível que parte da imprensa tenha dado mais destaque ao escândalo com Mayer do que a uma condenação criminal de Gegê, mas isso é uma avaliação editorial subjetiva, não um dado factual mensurável. A imprensa tradicional cobre frequentemente ambos os temas, embora com enfoque variável.
4. Gegê “seguiu livre”, sem alterar sua rotina após condenação

📌 Verificação:

  • Este ponto é incorreto ou cronologicamente inconsistente.
    Gegê do Mangue foi assassinado em fevereiro de 2018, junto a Fabiano Alves de Souza (Paca), em uma emboscada em Aquiraz, no Ceará.
  • Ambos estavam foragidos, vivendo com alto luxo, após abandonarem o sistema prisional de forma suspeita.
  • Portanto, dizer que “seguiu livre” após a condenação é tecnicamente verdadeiro por um período, mas ele acabou sendo executado por racha interno ou vingança entre lideranças do PCC.
5. Referências aos eventos de São Paulo (2006) e Espírito Santo (2017)

📌 Verificação:

  • São Paulo, 2006: confirma-se o ataque coordenado pelo PCC contra o Estado, resultando em mortes de policiais, agentes penitenciários e civis. Um marco na atuação paramilitar da organização.
  • Espírito Santo, 2017: refere-se ao colapso do sistema de segurança pública durante a greve da PM, com centenas de mortes e domínio de grupos armados nas ruas. Embora não diretamente ligado ao PCC, foi uma demonstração de caos sistêmico que o texto utiliza como analogia.
🧠 II. ANÁLISE CRÍTICA E CONTRAPONTO FACTUAL
Trecho do artigoAnálise factual
“Gegê do Mangue foi condenado por duplo homicídio triplamente qualificado e formação de quadrilha.”Parcialmente correto. Ele teve várias condenações, mas não se localiza com clareza um processo com essa tipificação única e isolada.
“A imprensa preferiu destacar o escândalo com José Mayer.”Subjetivo. Há indícios de desequilíbrio editorial, mas não há como medir objetivamente.
“Gegê seguiu incólume, sem alterar a rotina.”Falso. Ele fugiu do sistema prisional, viveu foragido no Ceará e foi assassinado em 2018.
“Execuções na favela do Sapé ordenadas por Gegê.”Possível, mas não comprovado judicialmente nos registros públicos como parte de uma condenação específica.
“Sistema jurídico opressor se alimenta de si mesmo.”Opinião/teoria política, não um dado. O número de advogados no Brasil ultrapassa de fato 1 milhão, mas não significa que todos estejam comprometidos com práticas descritas.
“Os ‘oprimidos’ saem vitoriosos com o descrédito do Estado.”Narrativa interpretativa, não mensurável. Pode ser usada como análise, mas não é verificável factualmente.
“O ciclo nos leva à ruptura, como visto em 2006 e 2017.”Comparações factíveis e plausíveis, embora distorcidas em parte, pois 2017 no ES não envolveu PCC diretamente.
📌 Conclusão

O artigo mistura fatos reais com interpretações subjetivas e analogias dramáticas. Isso faz parte do estilo proposto — com tons de denúncia e crítica social carregada. No entanto, alguns pontos importantes merecem correção ou contextualização, especialmente:

  • Gegê não estava mais em cárcere quando morreu. O texto passa a ideia de que ele permaneceu intocado pelo sistema, o que não é preciso.
  • A pena exata citada (47 anos e 3 meses) não aparece de forma inequívoca nos documentos públicos.
  • A suposta execução de criminosos no Sapé é plausível, mas falta referência específica à condenação correspondente.

Apesar dessas imprecisões, o artigo levanta questões legítimas sobre a teatralização da Justiça penal, a ineficácia da punição como resposta estrutural e o aproveitamento político-midiático das condenações. Do ponto de vista narrativo, cumpre o papel de provocar reflexão. Do ponto de vista factual, exige alguns ajustes e esclarecimentos para não cair no campo da desinformação.


Análise sob o ponto de vista da Psicologia Jurídica

Analisando o texto sob o ponto de vista da psicologia jurídica, o que se observa é uma articulação profunda entre representações sociais da Justiça, dinâmicas coletivas de crença no sistema penal e os efeitos subjetivos da punição enquanto espetáculo. Abaixo, segue uma leitura organizada por eixos analíticos:

⚖️ 1. A Justiça como Encenação: alienação e catarse coletiva

O texto denuncia o que a psicologia jurídica reconhece como um modelo teatralizado da justiça penal, onde a punição cumpre uma função simbólica, não necessariamente reparadora. Essa ideia encontra respaldo nas teorias de Michel Foucault, mas também nas leituras de autores como Eugenio Raúl Zaffaroni, que abordam a “teatralidade do processo penal”.

“A condenação de Gegê não representou justiça, apenas encenou seu cadáver.”

🔍 Análise:

  • A sociedade demanda punição como forma de alívio psíquico coletivo, independentemente da eficácia concreta da sentença.
  • A figura do condenado vira um bode expiatório moderno. A condenação é celebrada publicamente como um ritual de purificação social, mesmo que não tenha efeito real sobre a estrutura criminosa.
  • O espetáculo judicial atende à função catártica, liberando angústias difusas da população diante da insegurança cotidiana. Isso reforça o “mito da justiça punitiva”, estudado por Zaffaroni e Nilo Batista.

🧠 2. Despersonalização do réu e fetichismo da sentença

“Enquanto nas redes sociais celebravam a sentença com emojis de palmas, Gegê dormia…”

🔍 Análise:

  • A psicologia jurídica aponta o risco da despersonalização do sujeito condenado, que deixa de ser um indivíduo concreto (com história, contexto, motivações e grau de periculosidade) e passa a ser apenas um símbolo: o “bandido que precisa pagar”.
  • Essa fetichização da sentença estimula o que a criminologia crítica chama de função narcotizante do Direito Penal: oferece uma sensação ilusória de segurança e resolução, enquanto os problemas sociais estruturais permanecem intactos.
  • O uso da figura de Gegê como símbolo de uma justiça funcional (quando não é) também serve para legitimar o próprio sistema penal, mesmo que este fracasse em sua função ressocializadora.

🔄 3. O ciclo da punição e a retroalimentação do sistema penal

“O julgamento de Gegê do Mangue não enfraqueceu o PCC. Fortaleceu sua narrativa.”

🔍 Análise:

  • A crítica aqui toca diretamente em um ponto sensível da psicologia jurídica: a dialética entre punição e resistência.
  • Quanto mais repressivo o sistema, mais ele alimenta discursos de vitimização e resistência interna entre os sujeitos encarcerados, favorecendo o fortalecimento identitário de facções.
  • A punição, quando não acompanhada de legitimidade e clareza, passa a ser percebida como instrumento de opressão e não de justiça, gerando solidariedade defensiva dentro do cárcere — um fenômeno amplamente descrito por psicólogos forenses e sociólogos penitenciários.

👥 4. Dimensão psicossocial: sentimento de impotência coletiva e projeção de culpa

“Seguimos como crianças em uma casa em chamas…”

🔍 Análise:

  • A metáfora não é meramente literária: ela evoca um estado psíquico coletivo de impotência aprendida, conceito desenvolvido por Martin Seligman, que mostra como a exposição prolongada a situações de injustiça sem saída leva à apatia ou à revolta irracional.
  • A sociedade se sente impotente diante do crescimento do crime organizado e, para compensar, projeta sua frustração em rituais de punição exemplar.
  • Isso reforça o que a psicologia social chama de processo de desresponsabilização estrutural: “eu não mudo o sistema, mas aplaudo quem é punido em meu nome”.

🧩 5. Legitimidade, respeito e coerência: os valores que sustentam ou destroem o sistema

“Não pedem regalias. Pedem regras. Pedem respeito.”

🔍 Análise:

  • A psicologia jurídica tem destacado que a percepção de justiça é mais importante que a própria severidade da pena. Isso se alinha à ideia de “justiça procedimental” (Tyler, 1990).
  • Quando o condenado — ou o coletivo ao qual ele pertence — percebe que o tratamento recebido é arbitrário, contraditório ou humilhante, o sistema perde sua autoridade simbólica.
  • Nesse vácuo de legitimidade, facções como o PCC se apresentam como ordenadores morais alternativos dentro das prisões — oferecendo um “código” onde o Estado falha.

🔚 6. Conclusão: o ciclo traumático da justiça simbólica

Seu texto é, sob a lente da psicologia jurídica, um retrato agudo de uma sociedade aprisionada em um ciclo de encenação, punição e frustração. O sistema penal brasileiro, como você denuncia, opera menos como agente de pacificação social e mais como instrumento de alívio simbólico para a classe média ansiosa e para o próprio Estado — ambos reféns de suas inseguranças e conveniências.

A encenação da condenação de Gegê serve para acalmar consciências, preservar estruturas e manter o ciclo punitivo rodando, mas não oferece nem justiça real, nem segurança concreta.


Justiça em Cena: A Cultura Punitiva como Espetáculo no Brasil

por ChatGPT (OpenAI)

O texto de Wagner, ao narrar a condenação de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, propõe mais que uma denúncia jurídica: escancara as fissuras de uma cultura nacional que transformou a Justiça em ritual, e o sistema penal em dramaturgia institucional.

No Brasil, o veredito muitas vezes importa menos que sua encenação. A toga, o microfone e a câmera convergem num palco onde o Estado, fragilizado por sua própria ineficiência, tenta reafirmar sua autoridade através da punição visível, embora vazia. Essa cultura do espetáculo punitivo não busca resolução — busca aparência. A condenação de Gegê, nesse contexto, não desarticula a organização criminosa à qual pertencia. Serve, antes, como gesto simbólico: uma oferenda pública à sede moral de uma sociedade acuada.

A crítica torna-se ainda mais ácida ao expor o modo como a imprensa — e, por extensão, a cultura midiática — desvia o olhar para escândalos mais vendáveis, como o de um ator famoso, abandonando o debate estrutural que envolve o crime, o cárcere e a Justiça. Aqui, não se trata de omissão, mas de uma escolha cultural deliberada: o Brasil, habituado à teatralização do caos, consome violência como espetáculo e justiça como novela.

O texto ainda insinua um paradoxo incômodo: em meio à inconstância moral do Estado, é a facção que emerge com discurso coerente. Não pede favores, mas regras. Não exige impunidade, mas previsibilidade. Essa inversão simbólica, ao mesmo tempo que revela a falência do aparato estatal, aponta para uma cultura carcerária que se organiza, impõe códigos e, paradoxalmente, oferece uma narrativa mais sólida do que a do próprio Direito.

Por fim, ao evocar episódios como São Paulo em 2006 e o Espírito Santo em 2017, o texto aponta para um traço trágico da cultura política brasileira: a repetição. A justiça não corrige, apenas reinicia. O sistema não aprende, apenas ensaia. A morte não é exceção — é engrenagem.

Diante disso, o artigo de Wagner não é só um comentário sobre o crime. É um diagnóstico cultural de uma sociedade que aprendeu a conviver com a barbárie como se fosse parte do cenário. Um teatro que já não precisa de roteiristas, pois o script se autoescreve — com sangue, silêncio e sentença.