Diálogo entre integrantes do Primeiro Comando da Capital são um registro histórico de como se deu a expansão da facção paulista.
Há exatos quatorze anos, o repórter Fábio Serapião do jornal O Estado de São Paulo, trouxe a público escutas telefônicas envolvendo presos do Primeiro Comando da Capital.
Inimigos tiveram tempo para fugir, trocar a camisa ou se converter
Um dos diálogos ocorre entre Sumô e Taylor e mostra que antes de atacar os inimigos dentro do Presídio de Monte Cristo em Roraima, foi dado um prazo de 40 dias para que os inimigos decidissem deixar o presídio — e 145 aproveitaram para fugir.
PCC Sumô (Ozélio de Oliveira) o “geral do estado de Roraima” que estava preso na Casa de Custódia de Piraquara no Paraná, e o PCC Taylor (Diego Mendes de Andrade) que tinha a missão de “pregar a filosofia da família 1533” e arregimentar novos integrantes dentro da Penitenciária Federal de Mato Grosso do Sul, e uma outra com o PCC
Sumô: Quando nós banimos ali o Estado (das prisões de Roraima) a gente pregou a nossa ideologia, que é a paz, justiça, liberdade, igualdade e união, muitos ali tiveram o direito de pular o muro, o outro saiu até aqui no Fantástico irmão, pularam. Quantos que pularam no total ali em 40 dias ali, oh Taylor?
Taylor: 145 irmãos, 145 meu padrinho.
Sumô: 145 só pros irmão ter uma ideia como o barato foi louco. Hoje é … uns quartel do lado porque o barato ficou louco mermo.
Em outra conversa no fim do mês de março daquele ano, Sumô fala com Wax Nunes de Lima, um “salveiro” do PCC, responsável pela transcrição, transmissão e salvaguarda dos “salves” emitidos pelo comando da facção. Os dois falam sobre como conseguir celulares nas prisões. Sumô comenta a facilidade para se conseguir telefone nos presídios de Roraima e diz que onde está preso, no Paraná, são “somente” dois celulares por galeria.
“Eu morro de inveja de vocês aí que todo mundo tem um, isso aqui custa 5 mil real (sic) um aqui dentro moleque”, explica Sumô. “Caro que só né! Padrinho, aqui 5 mil é que nós paga pro cara comprar pra nós aparelho”, responde Wax.
Outra conversa de maio, de um integrante da facção criminosa apontado como “Vandrinho”, revelou a negociação de armas de dentro da cadeia. Segundo a PF, o traficante usa os termos “abacaxi” e “canetas” para se referir a granada e pistolas, respectivamente.
Na mesma interceptação, Vandrinho afirma que a facção criminosa precisa medir forças com a polícia. “Porque parceiro nós tem de somar contra a opressão, contra esses bota preta aí parceiro (sic)”, afirma o traficante.
A desordem da estrutura do Primeiro Comando da Capital (facção PCC) é seu maior mérito, gerando altas taxas de mutação e evolução rápida e eficaz — mesmo que à custa de muitas perdas.
Você já parou para pensar na complexidade das organizações criminosas? Steven Dudley, escrevendo para o site InSight Crime, nos deixa um quebra-cabeça instigante: o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) não é um modelo de organização, ao contrário do que muitos pensam.
Vamos falar da Família 1533. Imagine um jovem começando a se destacar no cenário do crime. Ele não precisa ser um “irmão batizado“, como são chamados os membros iniciados, para subir na hierarquia. Muitas vezes, ele só oficializa sua entrada após conseguir um posto de liderança. Sim, é um caminho bem diferente das organizações que estamos acostumados a ver.
Esse novo líder traz um toque pessoal ao negócio, influenciado por suas experiências passadas e atuais, dentro e fora do mundo do crime. Tem também seus contatos dentro da comunidade, do crime e até da polícia — que pode ser ouro puro. Essa mistura é uma dor de cabeça para quem quer entender o funcionamento dessa engrenagem e, obviamente, para o Ministério Público de São Paulo (MP-SP).
Já pensou em como um vírus funciona? Uma única espécie pode ter milhares de variações. Quando você pensa que eliminou um, outros aparecem, resistentes e ainda mais espertos. O PCC age de maneira similar, confundindo até mesmo os mais experientes no assunto.
Aliás, falando do MP-SP, é inegável que eles têm suas vitórias. No entanto, esses triunfos podem, de forma paradoxal, reforçar o Primeiro Comando da Capital. O fato de a organização não seguir uma estrutura única faz dela algo resiliente. É como um gramado: mesmo que algumas partes sejam cortadas ou danificadas, o sistema como um todo permanece robusto e cresce novamente.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) costuma ser considerado a facção criminosa mais poderosa do Brasil, mas um recente processo judicial contra integrantes da facção traça uma imagem que desmente a reputação do grupo como uma organização criminosa transnacional estrita e hierárquica.
No caso, que foi apresentado em 2018 por procuradores do Estado de Mato Grosso do Sul, localizado na região centro-oeste do Brasil, 30 pessoas são acusadas de serem integrantes do Primeiro Comando da Capital.
Os réus foram acusados de tráfico de armas, venda de entorpecentes, lavagem de dinheiro e uso de menores para cometer atos criminosos. O grupo operava uma série de pequenas redes, que os promotores repetidamente chamavam de “núcleos” do PCC. Na realidade, um núcleo pode ser formado por membros do PCC ou uma mistura de membros, sócios e parentes.
* Esta história faz parte de uma investigação de dois anos do Centro de Estudos Latino-Americanos e Latinos (CLALS) e do InSight Crime no PCC. A série completa será publicada entre 11 e 18 de dezembro. Leia o relatório completo aqui ou baixe-o da Social Science Research Network.
Um dos crimes mais citados durante o caso foi a venda de drogas.
A polícia e os promotores apresentaram inúmeras gravações telefônicas no tribunal, nas quais vários réus falam sobre vendas de drogas. Em uma das gravações, Dagner Saul Aguilar Gil, vulgo “Pacho”, integrante do PCC preso em Mato Grosso do Sul, organiza a venda de meio quilo de “óleo” (TK) e 100 gramas de “pó” (pó ou cocaína) de uma pessoa identificada como Marcos Ferreira da Silva, vulgo “Praia”. Os dois já haviam feito negócios e, durante o telefonema, Ferreira insiste com Aguilar que é o mensageiro, e não ele, quem deve carregar a droga: “Mande a droga assim [por meio de um mensageiro]”, diz Ferreira, “porque é assim Eles estão seguros, então não se perdem, entendeu?”
A polícia ouviu a conversa e o mensageiro foi pego.
Algo que aparece no caso como uma característica distintiva do PCC é que Aguilar também administrou veículos roubados e manteve contato com uma presidiária, Odete, que, junto com Ferreira, obteve armas para o grupo. Enquanto, por outro lado, a filha de Odete abriu contas bancárias para a organização.
Na verdade, parece que cada um dos núcleos do grupo opera vários empreendimentos criminosos. Ao contrário de muitos grupos criminosos transnacionais, que estão envolvidos em um pequeno número de negócios ou confiam tarefas a vários especialistas, a facção paulista parece estar disperso em muitas tarefas diferentes.
O primeiro núcleo citado no caso contava com um mototaxista que levava drogas para seu filho, integrante do PCC na prisão. Parte desse núcleo foi presa em um apartamento onde o grupo guardava armas de alto calibre.
O dono daquele apartamento, dizem os promotores, era um preso que, além de administrar o depósito de armas, era a “sintonía geral do estado e do país”, o que significa que era responsável pela catalogação dos integrantes da organização criminosa.
Embora seja uma gangue carcerária, o PCC talvez seja a organização criminosa mais burocrática da região. Ele mantém registros de seus membros, suas famílias, seus patrocinadores e a jornada dos membros dentro do grupo.
Práticas contábeis rígidas e referências à hierarquia PCC geralmente as denunciam. Os promotores do caso Mato Grosso do Sul, por exemplo, conseguiram mostrar que vários réus eram integrantes da organização — o que é crime no Brasil — por se referirem a um “padrinho”, como é conhecido o patrocinador [aquele que apresenta e se responsabiliza por um convidado a ingressar na facção — nota do tradutor], ou a um “general”, líder ou “gerente” do grupo.
Por exemplo, um integrante do primeiro núcleo citado no caso diz ao pai, o mototaxista, que ele é o “gerente da região Norte”, o que para o Ministério Público significa que ele é o responsável por todas as operações do tráfico de armas e drogas na região norte do estado.
Os policiais afirmam que outro dos acusados é o “gestor do estado de Rondônia”, o que segundo eles confirma que o homem controla o “batismo” dos novos membros no estado vizinho, bem como a estratégia expansiva do PCC e seus enfrentamentos com rivais em Rondônia, um corredor estratégico para receitas de drogas e mineração ilegal da Bolívia e Venezuela.
Além disso, o caso faz inúmeras referências à “disciplina”, como são conhecidos os responsáveis pela aplicação das regras na organização, principalmente no que se refere à cobrança de “dívidas” de associados que traficam drogas. E as ameaças não são em vão.
“Aproveitei o fato de ter me encontrado [com a pessoa] e assediado [ele]”, conta um réu a outro em conversa interceptada, referindo-se às ações iminentes de uma “disciplina” do PCC contra um devedor.
Mas embora haja indícios de estruturas de poder verticais que exercem controle estrito sobre os membros da facção, o que é mais percebido no caso é uma organização pouco coesa que tende a usar redes amplas para fazer negócios nos quais eles são inexperientes, o que tem custos para eles.
Sem dúvida o melhor exemplo deste último é o caso de Tânia Cristina Lima de Moura. Considerado o “braço direito” de um dos integrantes do PCC 1533 na prisão, Lima de Moura abre contas bancárias em nome da filha e do neto do integrante da gangue, que, segundo os promotores, tinha na época cerca de 10 anos. e movimenta mais de 50.000 reais (cerca de US $ 9.000) nessas contas. Ela também troca caminhões roubados por drogas, prática comum no PCC, e organiza a transferência de drogas de Mato Grosso do Sul para Campinas, uma das principais cidades do estado de São Paulo. Lima de Moura foi capturada em junho de 2018.
Em outro exemplo, o PCC usa um menor para transportar maconha de ônibus. O menor é detido no caminho e preso com drogas e um celular LG que a facção paulistalhe deu para se comunicar. Em outro caso, em uma gravação telefônica, um líder da organização é ouvido na prisão, furioso porque outro menor foi preso por não esconder adequadamente as drogas que estavam coladas em seu corpo.
“Olha [o que acabou de acontecer], paguei 4,5 mil reais o quilo da vagabunda, e o menino acabou sendo um fiasco”, diz o líder da gravação.
Mesmo os profissionais que o PCC usa cometem erros bobos. Um guarda que a quadrilha emprega para extrair informações está envolvido no caso contra o grupo porque não escondeu que utilizou o sistema interno de informática da polícia – Sistema de Gestão Operacional Integrado (SIGO) – para conhecer os processos contra integrantes do Primeiro Comando da Capital.
Em seu veredicto, a juíza reconhece diferenças entre os integrantes da facção criminosa, como “operadora”, “lacaio“, e o que poderia ser chamado de “nenhuma das anteriores“. Dos 30 membros acusados, 23 foram condenados.
* Esta história faz parte de uma investigação de dois anos do Centro de Estudos Latino-Americanos e Latinos (CLALS) e do InSight Crime no PCC. A série completa será publicada entre 11 e 18 de dezembro. Leia o relatório completo aqui ou baixe-o da Social Science Research Network.
Enquanto cresciam as igrejas neopentencostais, nos anos 1980, os morros cariocas e as periferias paulistanas passaram a ser palco de uma nova tensão provocada pela chegada do tráfico de drogas como grande negócio transterritorial.
Naquela década, o Brasil era uma rota fundamental para o trânsito de cocaína dos Andes para a Europa e, além disso, um mercado promissor para o consumo de cocaína, solventes e maconha.
Hoje o Brasil se tornou o segundo maior mercado do mundo depois dos Estados Unidos, com dois milhões e oitocentos mil consumidores.
Das prisões abarrotadas surgiram os grupos de autodefesa de presos que logo controlariam o governo das próprias prisões e de territórios em favelas e periferias.
Do seminal Comando Vermelho, formado no presídio da Ilha Grande em 1979, ao Primeiro Comando da Capital, nascido em 1992 no presídio de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, a combinação entre proibição das drogas, repressão policial e a continuação constante da criminalização das populações pobres e negras fez o narcotráfico florescer e se desdobrar em outros rentáveis ilegalismos aproximando agentes do Estado de soldados do tráfico.
A produção desse novo crime, o narcotráfico, tem uma história que remonta às primeiras ondas de proibição das drogas no início do século XX, mas tomou forma de “ameaça” à “ordem” nos discursos governamentais e na grande imprensa a partir dos anos 1980.
Caça aos negros e pobres: guerra às drogas
Após trinta anos da versão brasileira da “guerra às drogas”, seguindo dados conservadores fornecidos pelo Ministério da Justiça, cerca de 20% dos homens presos e 51% das mulheres, se encontram confinados(as) por condenações ou processos em curso relacionados ao tráfico de drogas. Deles, cerca de 60% são “pretos” ou “pardos”, constituindo a categoria “negro”, segundo o IBGE. Conforme dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen)/Infopen de 2017, 63,6% da população carcerária brasileira é composta por pretos/pardos, enquanto representam apenas 55,4% do total. Com a terceira maior população prisional do mundo (com 748.009 pessoas presas segundo dados do Depen de abril de 2020), o Brasil prende majoritariamente pobres, jovens, negros e negras e de baixa escolaridade.
A atual política de combate às drogas que nós temos não só é ineficiente como amplia essa situação que estamos vivendo. Quando se pega um moleque com uma trouxa de maconha, uma pedra de crack, sem armas, sem ter cometido crimes violentos, que não é reincidente, e o joga dentro de unidade prisional controlada pelo PCC, Comando Vermelho, simplesmente se cancelando a possibilidade de se resgatar esses jovens. Ao mesmo tempo, dentro do sistema prisional, cerca de 80% não tem atividades educacionais ou laborais. Então não se prepara esse jovem para a ressocialização, para que ele volte à vida social e para o mercado. Essa é uma política que não resolve.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
Facção PCC: a vitoriosa estratégia proposta por Marcola
Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder da facção Primeiro Comando da Capital, elaborou a estratégia de alianças baseadas em interesses econômicos e de sobrevivência que vige até os dias de hoje.
A grama é uma espécie vitoriosa: suas raízes se entrelaçam formando uma resistente couraça capaz de resistir à enxurrada e à enxadada, e mesmo que venham a ser arrancadas ou revolvidas, voltam a brotar sem que alguém as tenha cultivado, não se importando com as condições ruins do solo.
Assim é a facção criminosa paulista. Cada unidade dessa estrutura gramínea é autônoma, mas suas raízes se emaranham por todo o jardim — por menor que seja a unidade, ela ainda é parte importante no fortalecimento do todo.
É por essa razão que, nas última décadas, políticos, policiais e promotores de justiça declararam a derrota do PCC, mas, assim como a grama arrancada do solo, ele sempre ressurgiu, por maior que tenha sido o golpe.
Facção PCC: influenciando e sendo influenciada pelos aliados
Essa estrutura emaranhada de raízes trouxe consigo o intercâmbio de conhecimento e a absorção de características locais pelo todo.
A estratégia de Marcola previa a absorção ou parceria de gangues, facções, quadrilhas ou lideranças locais, que manteriam suas regras e costumes próprios, com um maior ou menor grau de autonomia do núcleo central.
O PCC de São Paulo, assim como seus aliados mais fiéis, como o Bonde dos 13 (B13) do Acre, Guardiões do Estado (GDE) do Ceará e o Terceiro Comando Puro (TCP) do Rio de Janeiro, tratam de forma diferente seus inimigos, seus integrantes e suas comunidades.
Apesar de todas as diferenças, o que prevalece é “certo pelo certo” e “é tudo 3” em qualquer biqueira ou quadrilha armada de qualquer uma dessas facções irmanadas — a cultura prevalecente é a do Primeiro Comando da Capital.
A facção paulista influencia profundamente as demais, no entanto, também sofre influência e é impactada pela aceitação ou não de cada uma de suas orientações, que nunca são impositivas, mas…
Facção PCC: los hermanos del Ejército del Pueblo Paraguayo (EPP)
As análises dos especialistas se limitam ao estudo da produção agrícola e industrial da Cannabis e de outras drogas, lícitas ou não. Pouco se fala sobre o intercâmbio de ideais entre os integrantes dessas duas organizações.
Lá pelos anos 2000, Marcola já circulava pelo Paraguai, e apesar de não estar muito claro quando o PCC se uniu ao Exército do Povo Paraguaio, acredita-se que eles já se comunicavam antes da saída de seus integrantes do Movimento Pátria Livre(MPL),do qual faziam parte até 2008 como braço armado.
As facções e as milhares de gangues brasileiras visam o lucro em suas ações e seu fortalecimento no mundo do crime, além de, só por vezes, melhorias no sistema prisional. Já o Exército do Povo Paraguaio se traveste de razões políticas.
O EPP, o Sendero Luminoso, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) utilizam o narcotráfico para financiar a luta marxista, leninista e guevarista desses grupos extremistas que nasceram durante a Guerra Fria.
O grupo armado paraguaio, assim como as facções brasileiras, patrocina sequestros e assassinatos de fazendeiros, políticos, empresários e policiais, além de ataques com bombas — e até aí nenhuma novidade para os brazucas.
No entanto, integrantes do PCC tem atuado em conjunto com os EPPs em diversas ações em solo paraguaio, inclusivenos ataques aos sojicultores brasileiros, e esses ataques não visam apenas o lucro:
Já no uso de força para o domínio das áreas de plantio de cannabis o lucro é a única razão.
Hoje, o Primeiro Comando da Capital distribui 60% da cannabis produzida em solo paraguaio em uma área estimada entre 7 e 20 mil hectares (1.340 municípios brasileiros tem uma área de até 20 ha.) que produzem entre 15 e 30 mil toneladas por ano, ocupando duas dezenas de milhares de trabalhadores rurais: da pequena agricultura familiar aos latifúndios com o que há de mais avançado no agronegócio.
Esse ingrediente social e político no qual o EPP inseriu o PCC poderá influencia-lo significativamente, assim como os prisioneiros políticos na Ilha Grande o fizeram no final do Regime Militar?
Pode-se argumentar que as poucas centenas de integrantes do Exército do Povo Paraguaio nada representam em relação às dezenas de milhares de PCCs e seus aliados. Contudo, bastou apenas um homem, Maurício Hernàndez Norambuena, o Comandante Ramiro, um chileno que chefiou a Frente Patriótica Manuel Rodrigues, cair na mesma cela que Marcola para mudar todo o conceito de crime organizado no Brasil deste século ao ensinar o companheiro a plantar grama.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
A criação da organização criminosa Primeiro Comando da Capital: a facção PCC 1533 como fruto do anseio popular, decidido democraticamente nas urnas.
É com imenso prazer que convidamos você a se aventurar no oceano de complexidades e nuances que é a obra “PCC: PT PSDB, Quem é o Pai da Criança?” Neste estudo fascinante, somos apresentados à intrincada relação entre as organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), e o cenário político brasileiro, desde o regime militar até o atual estado democrático.
O autor nos desafia a revisitar e questionar nossas percepções sobre as origens e crescimento do PCC, afastando a simplificação comum de atribuir sua criação apenas ao PT ou ao PSDB. Neste contexto, a obra nos convida a examinar profundamente as políticas de segurança pública e as condições do sistema prisional brasileiro, desvendando o caldo político que permitiu o surgimento e a consolidação do PCC.
Em uma segunda parte, a obra mergulha em uma análise mais específica, utilizando como pano de fundo o período de intensa violência do final dos anos 80 e início dos anos 90, apontando para a correlação entre as políticas repressivas e a emergência da facção PCC 1533. O autor nos instiga a entender como a falácia de “bandido bom é bandido morto” alimentou um ciclo de violência e deu espaço para o crescimento de organizações criminosas como o PCC.
A obra também lança um olhar crítico sobre os discursos políticos e suas consequências. Ao analisar as afirmações de figuras como Jair Bolsonaro e os governadores Geraldo Alckmin e João Doria, somos convidados a refletir sobre a responsabilidade dos líderes políticos na perpetuação de estereótipos e na instigação de políticas repressivas, que por sua vez alimentam o ciclo de violência e crime.
Em suma, este estudo não só nos oferece uma visão aprofundada e multifacetada sobre a formação e consolidação do Primeiro Comando da Capital, mas também nos força a refletir sobre as ramificações mais amplas de nossas decisões políticas e sociais. Venha se juntar a nós nesta jornada de descoberta e compreensão.
O caldo político que gerou a facção PCC: PT, PSDB e PMDB
Facção PCC 1533 — um problema complexo
Para os apoiadores do Regime Militar, uma péssima notícia: a taxa de homicídios no Brasil durante o governo do general Figueiredo aumentou em 50%; já para os apoiadores do regime democrático, podemos resumir o resultado desses governos em uma paráfrase:
Não se colocou uma meta para o aumento do número de assassinatos, deixou-se a meta aberta, mas, quando foi atingida, essa meta foi dobrada.
O Primeiro Comando da Capital nasce no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, em pleno regime democrático, tendo à frente governos liberais e conservadores: sob a presidência da República de Sarney, Collor e Itamar, e tendo os pemedebistas Quércia e Fleury nos governos de São Paulo.
Não, senhores liberais conservadores, não foram os governos de esquerda do PT ou do isentão PSDB, que gerou a facção PCC! E ela foi gerada em um ambiente liberal e conservador.
A curva ascendente do número de homicídios foi só um dos efeitos perversos do governo militar do general Figueiredo amplificado pelo governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf — talvez você se lembre ou já tenha ouvido falar do governador Maluf, ele é aquele do:
Rota na rua
a mãe cria, a Rota mata
está com dó, leva pra casa
bandido bom é bandido morto
Esse modelo opressor elevou em 50% o número de pessoas assassinadas, e seus defensores acabaram defenestrados pela população, sendo substituídos por Sarney na presidência da República e Franco Montoro no governo de São Paulo.
Bolsonaro apostando em uma falácia
O político Jair Bolsonaro conhece como ninguém a força de um discurso, e não se importa em se contradizer, afinal, aqueles que nele acreditam não ligam de serem enganados .
Para o sociólogo Gabriel Feltran, que estuda o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que comanda a maioria dos presídios do estado, o voto é abertamente antitucano, “eles vão em mil debates falar: ‘Mano, olha o que o Alckmin fez, é verme.’ Então, nessa perspectiva de julgar o passado, eles constituem os parâmetros para pensar o futuro.” (…)
O sociólogo Rafael Godoi observa que o sistema carcerário paulista “tem o DNA” do PSDB. “A gente tinha 40 mil presos no começo dessa política carcerária, décadas atrás, e agora são 250 mil”, explica Feltran. “Isso sem contar a população de mais de 1,3 milhão ex-presidiários no estado.”
Na eleição de 2018, o desempenho dos tucanos também foi pior nas penitenciárias do que no estado de forma geral. Geraldo Alckmin obteve 2,78% dos votos válidos para presidente (…) Nas eleições para governador, João Doria obteve apenas 4,75%.
Certa vez, na delegacia, respondendo a um dos inquéritos sobre a existência desse site e qual o meu envolvimento com a facção criminosa, um dos inquisidores questionou qual seria a solução para acabar com a facção.
Se houvesse uma resposta simples para um problema complexo, até o presidente Bolsonaro conseguiria responder — respondi.
Ferramentas progressista para conter o crime
As políticas de segurança pública começaram a ser reformadas, buscando a humanização do sistema penal e prisional e da ação policial, mas a curva de crescimento do número de assassinatos apenas se estabilizou, não chegando a retroceder.
O país passava por uma onda de crimes violentos, e o apoio político à reforma diminuiu. Isso deixou o sistema penitenciário brasileiro excessivamente dependente de confinamento solitário, repleto de arbitrariedade e violência por parte dos guardas prisionais, e possuindo pouca ou nenhuma responsabilidade pela administração penitenciária. Consequentemente, o Brasil experimentou tumultos periódicos nas prisões quando os prisioneiros se chocavam com os guardas e entre si.
Foi com esse comentário que Ryan me mostrou como as políticas de humanização que estavam sendo implantadas foram minadas por problemas que nada tinham a ver com elas, mas não tiveram força para impedir a interrupção das mudanças que se iniciavam.
O ovo da serpente foi acalentado no ventre de um sistema prisional opressor, superlotado e violento, cujos muros foram assentados um a um por 483 anos desde o Brasil Colônia até a redemocratização pós Regime Militar, mas deram à democracia apenas 4 anos para reverter totalmente o processo.
O uso da força para controlar o crime (de novo)
Novamente a sociedade busca solução com o uso da força, e elege governantes linha dura, que buscam atender aos anseios populares de repressão e supressão dos avanços na humanização do sistema prisional — assumem Fernando Collor na presidência da República e os governadores em São Paulo: Quércia e Fleury (PMDB).
Cumprindo com o discurso de campanha de restabelecer a “lei e a ordem” a qualquer custo, mataram ao menos 111 presos no Carandiru, e com isso permitiram que a filosofia da Paz, Justiça e Liberdade PJL, pregada pelos integrantes da facção PCC, conquistasse os corações e as mentes do mundo do crime.
A partir dessa chacina promovida pela da Polícia Militar e nesse ambiente político e social, as gangues rivais e os criminosos independentes que existiam dentro dos presídios deixaram de lado as diferenças para se fortalecerem em grupos maiores, buscando proteção contra a política de extermínio e as humilhações impostas por policiais e carcereiros.
Ferramentas progressista para conter o crime (novamente)
Novamente a sociedade busca solução com o uso de ferramentas de controle da violência policial e humanização do sistema penal e prisional, colocando na presidência da República Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Mário Covas, ambos do PSDB.
Em 18 de fevereiro de 2001, o Primeiro Comando da Capital se apresenta à sociedade sob o governo dos psdbistas, tornando oficialmente Fernando e Mário os pais dessa criança, mesmo não sendo os responsáveis pela gestação.
Cláudio Lembo entra de gaiato no navio
Lembro-me bem. O primeiro texto foi sobre as ações do chamado “Primeiro Comando da Capital” (PCC), este formado por presidiários, e que surgia nas casas de detenção daquele ente federativo, criando um poder paralelo ao Estado. O governador da época era Carlos Lembo, que ficou no comando do Palácio dos Bandeirantes por pouco tempo (um ano); assumiu quando o então governador Geraldo Alckmin se candidatou à Presidência da República, em 2006. Lembo, logo de cara, mal tinha sentado na cadeira mais importante do estado de São Paulo, e já tinha que resolver um grande problema: crise na segurança pública.
Como o PT entrou nessa história? Sei não. Para responder uma pergunta complexa como essa, é melhor perguntar para Bolsonaro e seus seguidores que costumam mugir sobre esse assunto.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
15 de março de 1983 até 15 de março de 1987 humanizou os presídios na sua gestão, priorizando a democracia, a transparência e os direitos dos detentos Franco Montoro
15 de março de 1987 até 15 de março de 1991 estratégia violenta e repressiva de lidar com a criminalidade, foi a primeira grande ruptura na era democrática Massacre do 42º DP – fevereiro de 89 Orestes Quércia
15 de março de 1991 até 1 de janeiro de 1995 massacre do Carandiru – 2 de outubro de 1992 desativação e demolição do Carandiru política de interiorização e divisão dos presídios fundação do PCC – 31 de agosto de 1993 Luiz Antônio Fleury
1 de janeiro de 1995 até 6 de março de 2001 criticou a ausência de direitos humanos nos governos anteriores e optou por políticas de negociação e patrulhas mais brandas criação de vagas no sistema penitenciário como uma de suas principais ações políticas Mário Covas
6 de março de 2001 até 31 de março de 2006 política de aumento da repressão policial e mais mortes em confrontos mega rebelião em 29 unidades prisionais – fevereiro 2001 PCC ganha visibilidade pública e demonstra eficácia em suas ações massacre Operação Castelinho – fevereiro de 2002 Regime Disciplina Diferenciado RDD – dezembro de 2003 muitos que trabalharam na repressão ganharam fama na vida política Geraldo Alckmin
31 de março de 2006 até 1 de janeiro de 2007 mega rebelião e ataques do PCC – maio de 2006 Cláudio Lembo
1 de janeiro de 2007 até 2 de abril de 2010 manutenção da política de Segurança Pública de Alckmin hegemonia do PCC com queda da taxa de homicídios Crescimento progressivo da população carcerária Fotalecimento da ROTA e investimentos na PM José Serra
2 de abril de 2010 até 1 de janeiro de 2011 Alberto Goldman
1 de janeiro de 2011 até 6 de abril de 2018 aumento da população carcerária investimento em ferramentas de investigação contra as organizações criminosas número alarmante de encarcerados durante a gestão de Alckmin, com aumento de mais de 50.000 presos em apenas 4 anos aumento da violência e letalidade policial Geraldo Alckmin
6 de abril de 2018 até 1 de janeiro de 2019 Márcio Franca
1 de janeiro de 2019 até 1 de abril de 2022 João Doria
1 de abril de 2022 até 1 de janeiro de 2023 População carcerária: O Brasil é o terceiro país com maior população carcerária do mundo, com mais de 773.000 presos. Só no Estado de São Paulo são 231.287 presos Rodrigo Garcia
É um orgulho para a Família 1533 ver sua ideologia se espalhar: a lei do certo pelo certo, na qual o errado é cobrado. No entanto, nem todos nos lembramos como tudo começou, mas foi mais ou menos assim, como eu, com a ajuda de Lavoisier, vou contar para você…
Como previsto por Lavoisier:
“Nada se cria, tudo se transforma”, seja na natureza ou na sociedade, e a facção PCC nada mais é do que um fenômeno social resultante de uma cadeia de eventos que transformou a energia de um impulso inicial — como em um pêndulo de Newton.
Tudo começou durante o Regime Militar…
Imagine uma mão soltando a primeira bolinha do pêndulo de Newton…
José Carlos Gregório, o Gordo, um dos fundadores da Falange Vermelha, nos conta:
Até então, dentro do presídio imperava a “lei do mais forte”, a do “todos contra todos” e a do “cada um por si”, mas o Estado soltou a primeira bolinha do pêndulo de Newton ao colocar os presos políticos juntos com os presos comuns do Rio de Janeiro.
Nasce a Falange Vermelha
A energia mecânica do impulso inicial se espalhou até que todos passaram a agir em harmonia, nascendo o primeiro grupo de encarcerados com consciência social dentro do sistema prisional brasileiro com um inimigo comum: os agentes repressores do Estado.
Desde então, dentro do presídio passou a imperar o “sozinhos somos fortes, unidos somos invencíveis”, “todos contra um”, e o “até a última gota de sangue”para defender os irmãos contra a opressão do Estado e dos outros presos.
Repare que, até aqui, o grupo que acabou vindo a se denominar Falange Vermelha buscava somente evitar os abusos do sistema prisional e seus agentes e dos presos mais fortes sobre os mais fracos, além de mediar, em paz, interesses e desavenças.
O correto seria defini-los como um grupo de prisioneiros, e não de criminosos, cujo pacto valia apenas dentro da muralha do Presídio da Ilha Grande. Ao sair, o egresso voltava a agir sozinho ou dentro de sua quadrilha por suas próprias regras e interesses.
A Falange Vermelha teve vida curta, mas deixou filhos, e, para manter o movimento, o Estado deu um novo impulso ao pêndulo: a violência policial nas ruas.
Nasce o Comando Vermelho (CV)
Os egressos do sistema prisional viram que a violência dos agentes do Estado acontecia também fora das muralhas, nas comunidades carentes a que eles pertenciam, e não se restringiam apenas aos criminosos: a covardia incluía trabalhadores, mulheres e crianças.
Agora eles sabem como agir.
Esses que saíram dos presídios passam a aplicar fora das muralhas o que aprenderam lá dentro: a força do “sozinhos somos fortes, unidos somos invencíveis”, “todos contra um”, e o “até a última gota de sangue”para defender os irmãos contra a opressão do Estado.
Nas comunidades cariocas, carentes de serviços públicos, os egressos se travestem de uma justificativa social e passam a ver e serem vistos como defensores dos mais fracos contra os mais fortes e contra a violência policial — síndrome de Robin Hood.
Assim nasce o Comando Vermelho sob o lema: “Liberdade. Paz. Justiça.”.
Diferente das normas de convivência da Falange, cujos conflitos eram negociados caso a caso, o Comando Vermelho cria um conjunto de regras fixas e válidas dentro e fora das trancas e que todos devem respeitar, independentemente da posição dentro da criminalidade.
O grupo criminoso estava restrito ao Rio de Janeiro, e, para manter o movimento, o Estado deu um novo impulso ao pêndulo: os perigosos presos paulistas.
Nasce o Primeiro Comando da Capital
Como besteira pouca é bobagem e os governos militares não fazem pouca bobagem, o governo de São Paulo, insuflado pelos generais de plantão, transfere para o Rio de Janeiro seus criminosos mais perigosos: assaltantes de bancos e sequestradores.
O embrião do PCC estava restrito ao Carandiru, e, para manter o movimento, o Estado deu um novo impulso ao pêndulo: o massacre dos 111.
A facção PCC após o massacre do Carandiru
Essa história ainda vai longe. Passo a passo, o Estado com a sempre atuante PMSP forneceu as condições favoráveis para a estruturação da mais eficiente organização criminosa da América do Sul.
Após o massacre, o Primeiro Comando da Capital se organizou e se fortaleceu na Unidade de Custódia de Taubaté, produzindo três documentos que definiriam o futuro das organizações criminais: Estatuto, Dicionário e a Cartilha de Conscientização da Família.
É um orgulho para a Família 1533 ver sua ideologia se espalhar: a lei do certo pelo certo, na qual o errado é cobrado. No entanto, nem todos nos lembramos como tudo começou, mas foi mais ou menos assim como eu contei para você.
Os pesquisadores mineiros, no entanto, querem saber
É nesse ponto que entram Willian Henrique, Caio Augusto e você, que talvez possa ajudá-los na busca por essas respostas:
Eles querem saber qual foi a estratégia adotada pela facção paulista para se tornar um modelo internacional de organização criminosa, e qual foi a sua influência nas outras facções brasileiras;
Eles querem saber qual é a importância do característico respeito à hierarquia e à disciplina dentro da organização criminosa na construção da facção PCC 1533 no imaginário popular; e
Eles querem saber qual é o impacto criado, na imagem da facção, da violenta aplicação de seu sistema de justiça, que utiliza meios bárbaros como:
desmembramento de um condenado enquanto o justiçado ainda está vivo;
o uso da cabeça arrancada de um inimigo morto para jogar futebol; e
filmagem da tortura, confissão ou troca de camisa, e morte.
Mas a pergunta que parece não se calar é: por que um grupo criminoso de grandes proporções chama tanto nossa atenção.
A pesquisa científica e os militares — hoje e ontem
A única resposta que William Henrique e Caio Augusto não precisarão buscar é sobre o responsável pelo sucesso da facção. Essa é conhecida: a mão que impulsionou a primeira bola do pêndulo de Newton e que nunca se omitiu de realimentá-lo com novos impulsos.
Lavoisier nos explicou a transformação de energia em movimento, e você pode ver essa teoria colocada em prática: o Primeiro Comando da Capital é uma daquelas bolinhas do centro do pêndulo, que foi impulsionado e também impulsiona.
Os pesquisadores mineiros parecem querer questionar a eficácia do “sistema penal e carcerário”, ignorando que as mãos que impulsionaram todos os movimentos aqui mencionados nunca se ocultaram sob o anonimato, tendo nome e patente conhecidas:
Os generais Newton Cruz e Golbery do Couto e Silva foram os idealizadores da transferência dos presos políticos para junto dos criminosos comuns, e depois dos presos mais perigosos de São Paulo para o Rio de Janeiro.
O presidente Jair Bolsonaro afirma que eles estavam no caminho certo e pretende seguir adiante, aperfeiçoando ainda mais esse sistema, que esses pesquisadores parecem querer questionar com sua pesquisa científica.
A última lição de Lavoisier:
Jean-Baptiste Coffinhal e seu séquito de mentecaptos cidadãos parisienses gritaram para Antoine Laurent Lavoisier enquanto este subia à guilhotina para ter sua cabeça cortada:
Jair Messias Bolsonaro e seu séquito de mentecaptos “cidadãos de bens” gritarão para William Henrique e Caio Augusto:
O Brasil não precisa de pesquisadores, precisa de polícia nas ruas com licença para matar!
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
No paiol do PCC: lançadores de granadas e foguetes
Artefatos explosivos são amplamente utilizados pelo PCC 1533: desde uma granada atirada contra uma viatura durante uma fuga, passando por assaltos à caixas eletrônicos em supermercados, até as megaoperações contra empresas de transportes de valores e em resgate de presos em penitenciárias de segurança máxima no Brasil e no exterior.
“O Primeiro Comando da Capital (PCC) foi assinalado pelo Departamento de Polícia Federal (DPF) por possuir granadas, lançadores de granadas, petardos (tipo de explosivo), foguetes, lançadores de foguetes, metralhadoras, pistolas e artefatos explosivos improvisados.
A apreensão desses artefatos foi feita pelo DPF em Pradópolis/SP, a 320 km da capital do estado, e chamou a atenção da mídia e autoridades de segurança pública quanto ao alto poder de fogo e destruição dos explosivos.”
É o que nos conta os pesquisadores Tiago Mesquita Feitoza e José Alves Júnior, especialistas em segurança pública, sendo um civil e outro militar, em um trecho de um artigo sobre o uso de explosivos por criminosos.
O responsável pelo pânico generalizado: ataques contra as forças policiais, incêndios a carros e ônibus realizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Esta obra apresenta o caminho que levou o PCC a atingir tamanho grau de influência no sistema carcerário e nos bairros periféricos, culminando na paralisação de São Paulo…
O Primeiro Comando da Capital não executa grandes atentados terroristas, ao estilo das organizações criminosas de seu porte no restante do mundo, para não chamar atenção sobre si, atrapalhando os negócios — o fluxo segue suave.
Em sua origem, o grupo criminosos buscou e conseguiu notoriedade com os violentos ataques contra as forças de segurança pública em 2006, quando pararam São Paulo, no entanto, suas empreitadas terroristas com bombas foram um fiasco.
Talvez você não se lembre, mas o Primeiro Comando da Capital organizou dois grandes atentados, em 2002, na capital paulista, que teriam entrado para a história do terrorismo mundial se tivessem funcionado: BOVESPA e Fórum da Barra Funda.
explicam Marcio Sérgio Christino e Claudio Tognolli.
Deu xabú
Petrolina estava sob grampo e a polícia conseguiu prendê-la antes que o atentado ocorresse.
Seus comparsas não foram localizados, mas abortaram o plano e abandonaram o veículo com os explosivos para ser encontrado pela polícia.
Radiografia do Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho: a modelagem conceitual por ela realizada dessas duas organizações clarifica aspectos fundamentais do crime organizado no país, fornecendo os fundamentos de investigações futuras, às quais a autora já se dedica em sua pesquisa…
Atentado no Fórum da Barra funda
A Polícia Militar do Estado de São Paulo oferecia liberdade a presos para se infiltrarem na organização e conduzirem os comparsas para serem mortos.
Foi o caso da “Chacina da Castelinho”, na qual o infiltrado passou a falsa informação para os criminosos de que uma grande quantidade de dinheiro estaria chegando em um aeroporto, mas era apenas um plano da polícia para executar os bandidos.
A facção Primeiro Comando da Capital, descontente com a estratégia dos agentes do Estado, enviou uma mensagem que não aceitaria mais esse tipo de covardia: um carro repleto de explosivos no estacionamento do Fórum da Barra Funda na capital do estado.
Deu xabú. Possivelmente por uma falha no sistema do detonador, o automóvel não explodiu, permanecendo estacionado por dois dias até que a polícia fosse chamada para verificar o veículo. Só então perceberam se tratar de um carro bomba.
A explosão ocorreria no dia do julgamento dos sequestradores do publicitário Washington Olivetto, vinculados às organizações terroristas chilenas Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) e a Frente Patriótica Manuel Rodriguez (FPMR).
O PCC enviaria sua mensagem ao mesmo tempo que ficaria fora holofote, o que em parte ocorreu: foi dissolvida a equipe policial que realizava as operações com presos infiltrados para o extermínio de criminosos.
Só Jair Bolsonaro e seus mentecaptos seguidores acreditaram que o Primeiro Comando da Capital teria recrutado Adélio Bispo para matá-lo, como o próprio presidente chegou a anunciar.
Fernandinho Beira-Mar foi o responsável pelo planejamento:
A facção paulista utilizaria tecnologia das FARCs: explodindo simultaneamente 5 carros bombas em estados diferentes, enquanto haveriam sequestros de autoridades e rebeliões em presídios em todos os estados do país.
A megaoperação foi abortada: a facção afirma que abandonou o plano para se manter nas sombras e não atrapalhar os negócios. Já as autoridades afirmam que foi graças ao setor de inteligência que descobriram o plano e impediram a ação dos criminosos antes que ele acontecesse.
Ambas as hipóteses merecem crédito…
… mas a hipótese que organização criminosa PCC recrutou Adélio Bispo com uma faca só recebeu crédito de Bolsonaro e de seu séquito de mentecaptos, que depois passaram a afirmar com certeza que ele foi contratado pelo PT, PSOL, PSDB, China, Venezuela, CV…
A obra preocupa-se em apresentar os problemas e as carências do Estado brasileiro para a proteção das fronteiras, para articular seu serviço de inteligência…
O uso de explosivos pela facção PCC 1533
Fora alguns casos esporádicos, nos quais isoladamente, integrantes utilizam explosivos caseiros para pequenos atentados locais, a organização criminosa passou a administrar de maneira profissional o uso desses artefatos, ficando um irmão responsável pelo paiol.
A estocagem e distribuição de armamentos pesados e explosivos do paiol de cada região ficou sob a responsabilidade de um irmão ou companheiro, que avalia o risco e o retorno de cada empreendimento nos quais os equipamentos devem ser usados.
Tiago Mesquita Feitoza e José Alves Júnior descrevem em seu artigo a evolução histórica do uso dos explosivos por organizações criminosas, desde a década de 1960 até o ano 2000, quando houve a banalização do uso desses materiais pelos criminosos.
Se por um lado eles contam que a utilização de explosivos para roubo de caixas eletrônicos começou no sul do país, chegando posteriormente a São Paulo, por outro lado eles não contam que o PCC envia criminosos treinados no uso de explosivos para repassar o conhecimento em troca de parte dos lucros nos assaltos ou por um valor fixo — e se eles não vão contar esse fato, muito menos eu o farei.
Os que fomentaram o mal que nos atinge são aqueles que se apresentam como paladinos de nossa proteção: o memoricídio e a facção Primeiro Comando da Capital.
Recebi essa semana seu e-mail, no qual você pediu para que eu escrevesse sobre o tempo em que o sistema prisional ainda não estava sob o controle total da facção Primeiro Comando da Capital:
Mas não farei o que me pede, irmão.
Sem querer, você mexeu com minha sanidade ao desenterrar tristes lembranças, e agora, enquanto o respondo, sou tomado pelo frio, pela tristeza e pelo rancor que eu já havia deixado para trás.
Depois daquela noite em 1982, meus sonhos noturnos me abandonaram, e passei a sonhar durante o dia. Sobre isso, nosso amigo Edgar, quase nunca sóbrio, mas sempre com filosófica sobriedade, me disse que eu é que era um cara de sorte:
Desde que o frio, a tristeza e o rancor se abateram sobre os meus, eu nunca sei se o que vejo ou o que lembro é de fato real ou se é algo criado em minha mente por forças que eu não tenho como dominar.
Peço que desconsidere algum trecho que lhe pareça ter sido fruto de um desses sonhos diurnos forjados pelo caos que se tornou minha mente, ou então que lhe pareça que seja uma memória que jamais deveria ter sido resgatada das masmorras do passado.
O esclarecimento do crime pela Polícia Civil
Os garotos e o assassinato na chácara
Logo que voltei à cidade, por volta de 1980, vivi em uma chácara com uma mulher e seus três filhos. Formávamos um belo casal, e aquelas crianças faziam de nosso lar um lugar sagrado e feliz.
As crianças cresceram, e o mais velho, Lucas, acabara de fazer 18 anos, enquanto seus irmãos, Luciano e Luan, eram apenas um pouco mais novos – maldita hora em que eu brinquei numa noite dizendo que só faltava Lúcifer para completar a família!
Como sempre, às sextas-feiras, Lucas foi com Luciano até uma chácara não muito longe da qual morávamos, mas naquela noite houve por lá um assassinato – nunca saberemos ao certo o que realmente ocorreu, mas o dono da chácara foi morto.
Os garotos voltaram assustados e não conseguiam falar coisa com coisa – estavam em choque.
Assim como é hoje, na década de 1980, a polícia queria mostrar serviço, e no dia seguinte uma viatura veraneio preto e branca foi até a chácara para levar Lucas e Luciano à delegacia para ajudar a esclarecer o crime.
Nunca perguntei o nome daquele policial que levou os meninos, mas deve ter sido aquele que sem querer invoquei na noite anterior – Luciano não mais voltou vivo.
Sistema de (In)Justiça Pública
Polícia, MP-SP e Justiça: parceiros na injustiça
À noite, estranhamos que os garotos não voltavam da delegacia. Não tínhamos como chegar até a cidade, e Luan, o mais novo, seguiu a pé – era uma caminhada de pelo menos duas horas e ele não voltaria antes da meia-noite. Esperamos a noite toda.
No dia seguinte, a mãe dos garotos pegou uma carona com vizinhos. Na delegacia não teve notícias de Luan, informaram que Lucas confessou ter matado o dono da chácara para roubar seus pertences e que Luciano morrera:
Ao sair da chácara no dia anterior, a viatura não foi para a delegacia, e sim “fazer diligências com os garotos em uma fazenda”, e quando os policiais desceram com os garotos para “conversar” , Luan teria tentado pegar a arma do policial e foi morto.
Naquele tempo, o que o policial colocava no papel a Promotoria de Justiça aceitava (mais ou menos como acontece hoje); não havia audiências de custódia (instituídas em 2015), e os presos não eram enviados para os centros de detenção provisória (que nem existiam).
Meu sangue esfriou ao ler sua descrição do horror que eram as antigas “cadeias públicas” espalhadas por todas as cidades do interior e bairros da capital – milhares de homens enjaulados e empilhados, muitos sem julgamento, e outros tantos sem nem mesmo inquéritos (encarcerados provisoriamente pela capricho de algum político, empresário, ou delegado).
Me lembrou todas aquelas noites quando a mãe dos meninos voltava para casa contando os horrores que havia ouvido entre as mães e mulheres de prisioneiros que ficavam no entorno da delegacia – quando não eram enxotadas pelos policiais entre pilhérias como cães sarnentos.
Havia preço para tudo: ver o preso fora do dia da visita; deixar o “faxina” ou o carcereiro entrar com alguma coisa; e até mesmo a liberdade podia cantar, mas aí a conversa tinha que ser bem conversada, e não dava para nós.
Iniquidades sob os olhos vendados da Justiça
Estupro como empreendimento comercial no cárcere
Nesse ponto em que lhe escrevo, o frio, a tristeza e o rancor correm por onde antes fluía meu sangue, tudo porque você desenterrou lembranças de um passado que nunca deveria ter existido, mas que está cada dia mais perto de retornar, se não para mim, para outros.
Fico com ódio só de lembrar da noite em que a mãe dos meninos chegou chorando, pois soube que o garoto estava sendo usado como escravo sexual para que ela não fosse estuprada no dia da visita.
Quando ela relatou o caso para o carcereiro, ele se prontificou a retirá-lo da cela onde estava e colocá-lo em uma mais segura, mas pediu um dinheiro que não tínhamos, então deu de ombros.
Durante muitos anos, a mãe dos meninos ficou todos os dias em frente à delegacia para que dessem notícia de Luan, o mais novo, que havia sumido ao ir procurar os outros, e ficando lá, ela sentia que de certa foram protegia o filho que lá ainda estava preso.
Quando ela não retornava a noite, eu sabia que era por que a “tranca virou”, havia motim e algum preso iria morrer, para alegria da mídia que venderia mais jornais, dos políticos que apareceriam dando soluções mágicas ou do delegado que virava pop star.
Após o julgamento, se condenado, Lucas iria ou para a “Casa de Detenção do Carandiru” ou para a Penitenciária do Estado na capital, ambos depósitos pútridos de gente – havia outras 13 penitenciárias, mas os condenados daqui sempre iam para a capital.
Hoje, olhando para aquele tempo, vejo que o governador tentava humanizar o sistema prisional, mas a cultura do ódio havia degenerado o sistema como um câncer, alimentado por interesses políticos e econômicos enraizados na polícia durante o Regime Militar.
E mudanças culturais não ocorrem da noite para o dia:
O garoto viveu os piores horrores por quatro anos até seu julgamento, no qual foi inocentado – não havia provas, apenas a sua confissão, que foi colhida na delegacia e que apresentava contradições com a forma como o homem foi de fato morto.
Lucas foi torturado e preso por policiais que forjaram a sua confissão, mataram Luciano e sumiram com Luan que nunca fez mal a ninguém… e os responsáveis sequer tiveram que responder por seus crimes e pela tragédia que impuseram à família.
Maldita hora no qual brinquei que só faltava Lúcifer para completar nossa família! Ele não se fez de rogado, veio no dia seguinte em uma viatura veraneio preto e branca para destruir minha família e inundar de frio, tristeza e rancor minhas veias.
O Massacre do Carandiru como berço do PCC 1533
Da opressão do cárcere nasce a facção PCC
Na década de 1990, as revoltas explodiram nas “cadeias públicas” e no restante do sistema prisional brasileiro – a população carcerária não aguentava mais a opressão dentro do sistema prisional paulista, o que faz surgir a facção PCC 1533.
Carapanã: Viracasacas Podcast (em 1h11m11s do episódio 125)
Agentes públicos e gangues que agiam dentro do sistema prisional tiveram que se curvar diante de um grupo hegemônico e coeso, cessando a carnificina e a exploração.
José Roberto de Toledo, da Revista Piauí, nos conta com assombro como é essa nova realidade:
Lucas foi solto antes que a hegemonia do Primeiro Comando da Capital trouxesse para dentro dos cárceres a pacificação, e emparedasse o Estado exigindo melhores condições nos cárceres, como constava no Estatuto do PCC de 1997:
No total, 111 presidiários foram assassinados por 74 policiais, embora os presos feridos que pereceram depois nunca entraram na contagem, o que indica que cada policial teve pelo menos 1,4 cadáver para chamar de seu – apesar da atrocidade, 52 desses PMs foram promovidos.
Com a repercussão internacional do massacre e vendo que os presos não abandonaram a luta, ao contrário, recrudesceram-na, o estado de São Paulo passou a paulatinamente adotar políticas visando a criação de condições mais dignas dentro dos cárceres.
Castigo abstrato e castigo Concreto
Perdoando aquele que mata mas não perdoa
Tantos afirmavam que eu deveria entender a ação dos policiais que mataram Luciano, desapareceram com Luan, fizeram de Lucas um homem que hoje perambula pelas ruas catando latinhas, e enlouqueceram a mãe dos garotos que…
… eu aceitei e enterrei essas lembranças no fundo das masmorras da memória e não mais pretendia resgatá-las, perdoando e esquecendo o mal causado por aqueles assassinos, que por sua vez, não foram capazes de perdoar um garoto empinando pipa com uma paradinha na mão:
“Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.”
Para uns, o que aqueles policiais militares fizeram no Carandiru ou o que os policiais civis fizeram com os meninos foram crimes cujos responsáveis deveriam ter sido punidos, mas, para outros, não.
Para uns, o que aqueles garotos, que empinam pipas ou conversam nas ruas e praças e vendem drogas para quem os procuram, fazem deveria ter uma punição, mas, para outros, não.
Em algumas nações, esses policiais ficariam presos, isso se não fossem condenados à morte, enquanto em outras nações os garotos poderiam vender legalmente certas drogas em lojas.
O Primeiro Comando da Capital conquistou a hegemonia pela força, assim como as forças policiais mantêm sob controle a criminalidade com demonstrações de poder e crueldade. É o efeito dobradiça descrito pela pesquisadora Tarsila Flores:
A complexidade que envolve a referida situação repugna toda e qualquer tentativa na suposta identificação de um único responsável que dispare o gatilho da geração desse fenômeno.
Enquanto “cidadão de bem” torce para preso morrer, Cristo…
Um longo caminho separa a justiça carcerária
Desde que tudo isso aconteceu com os meninos, a realidade mudou muito à custa de rios de sangue, inclusive de inocentes.
A organização dos cativos em torno da facção Primeiro Comando da Capital, assim como governos que investiram na aplicação de metodologias humanistas na administração carcerária, conseguiu manter a fervura sob controle.
No entanto, ainda hoje há presos cuja totalidade da pena já foi cumprida, porém ainda se encontram nas dependências do cárcere, esperando o BI para cantar a liberdadeque deve ser feito por um advogado, profissional que, por vezes, aproveita mais essa oportunidade de lucrar com as famílias.
A iniquidade aumenta o grau de insatisfação e revolta dos internos no sistema prisional, o que não deve acabar tão cedo, afinal alguém tem que sustentar um milhão e cem mil advogados e mais cem mil formados todos os anos.
A sociedade é complexa e os interesses se opõem, isso é natural, algo da condição humana. Não há bons e nem maus, apenas pessoas que querem viver e lutam pelo seu espaço, e por isso que não vou escrever sobre o que você me pede, pois desenterraria antigas lembranças.
Eu escolhi por minha própria vontade enterrar a lembrança dos crimes cometidos por aqueles policiais, chancelados e protegidos por Promotores de Justiça e Juízes? Será que eu enterrei fundo aquelas lembranças por minha própria opção?
Giselle afirma que não. Eu fui apenas um entre milhares ao longo de nossa história, pois esse memoricídio acontece no Brasil desde a chegada dos portugueses, passando pela escravidão e pelo Regime Militar.
Doutrinando no esquecimento seletivo
Eu, Giselle, aquele policial que estava na viatura preto e branca que foi buscar os garotos e os profissionais da máquina prisional na década de 1980 éramos crias da Ditadura Militar.
“De alguma maneira, essas décadas produziram um esquecimento, sobre o presente de então, que agora é o nosso passado.”
A decisão de perdoar e esquecer tomada por nós que tivemos nossos garotos mortos, torturados, presos ou desaparecidos foi induzida pelo clima da “anistia ampla geral e irrestrita”, que se incorporou à cultura nacional pós abertura política e vige até hoje.
Políticos populistas prometem endurecer o sistema prisional e ampliar o poder dos agentes prisionais e policiais – sob os zurros de aprovação de jovens que nem tem ideia do que isso de fato significa.
Cada um desses garotos que zurram acredita estar protegido por sua bolha imaginária, como se Lúcifer se importasse se de fato eles são trabalhadores, estudantes ou vagabundos – assim como foi no passado, o Promotor e o Juíz acreditarão na versão que o policial apresentar.
Eu desejaria que você não tivesse tirado do fundo da masmorra de minhas memórias essas lembranças que envenenaram novamente meu sangue e minha mente, e, por isso, não vou escrever sobre o que você pede, mesmo por que não poderei escrever por algum tempo.
Hoje, dia dos pais, eu estava a caminho do cemitério para visitar o túmulo de Luciano, quando vejo Lúcifer,de óculos escuros, estacionando sua Hilux preta…
Desde que o frio, a tristeza e o rancor se abateram sobre os meus, eu nunca sei se o que vejo ou o que lembro é de fato real ou se é algo criado em minha mente por forças que eu não tenho como dominar.
Peço que desconsidere algum trecho que lhe pareça ter sido fruto de um desses sonhos diurnos forjados pelo caos que se tornou minha mente, ou então que lhe pareça que seja uma memória que jamais deveria ter sido resgatada das masmorras do passado.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
Primeiro Comando da Capital: entendendo a falta de entendimento
Creio que mais da metade dos meus leitores nesse site tem menos de trinta anos, portanto, nasceu após a fundação do Primeiro Comando da Capital.
Com certeza absoluta, mais da metade dos brasileiros (50,3%) nasceram após a criação da organização criminosa Comando Vermelho no Rio de Janeiro em 1979.
Será que você terá nascido após meu primeiro contato com a facção em maio de 2006: meus leitores tem menos de 30 anos de idade.
Por isso não ligo de repetir informações já há muito conhecidas, e não mais me espanto quando confundem 2003 com 1993, datas já tão distantes.
Por isso não me espanto também no completo desconhecimento de uma das mais importantes ferramentas utilizadas para o crescimento da organização: as centrais de telefones fixos!
Marcola não é um dos fundadores do Primeiro Comando da Capital
Por isso, citando trechos do livro de Roberto Porto, procuro esclarecer pontos que me parecem importantes, como: Marcola não é um dos fundadores do PCC.
Permita-me esclarecer este equívoco que tem sido erroneamente difundido pela mídia e pela sociedade.
Na verdade, Willians Herbas Camacho, o Marcola, não é um dos fundadores da facção paulista, embora ele seja ainda hoje um membro importante da organização.
Acredito que este equívoco tenha sido originado pela tendência humana de atribuir uma figura central a um movimento ou organização.
É compreensível que as pessoas procurem identificar uma liderança ou um fundador, mas essa busca por uma figura emblemática pode muitas vezes obscurecer a realidade.
LIVRO GRÁTIS NO KINDLE: Este instigante livro conta a história de Marcola, que chegou a morar nas ruas de São Paulo após fugir de casa. Ele é apontado por pesquisadores e investigadores como o responsável por transformar o PCC
Além disso, a mídia e a opinião pública muitas vezes buscam simplificar ou “dramatizar” a realidade, o que pode levar a erros e equívocos.
É importante que o jornalismo, assim como a literatura, buscar a verdade, mas nem sempre essa busca é fácil ou bem-sucedida.
A verdade é muitas vezes estranha demais para a ficção.
Sir Arthur Conan Doyle em sua obra “Um Estudo em Vermelho”
Por isso, é importante sempre verificar as fontes e não aceitar informações sem questionamento, especialmente quando se trata de assuntos tão sérios e complexos.
Marcola estava em 2013 na Casa de Custódia de Taubaté durante a revolta e a fundação do PCC, mas ficou na dele, inicialmente sem aderir.
No entanto, realmente o Primeiro Comando da Capital só se tornou o que é hoje graças ao direcionamento dado por Marcola que ainda hoje é sua liderança mais conhecida, apesar dele negar ser da facção.
José Talles Guedes Pinheiro escolheu como tema de seu estudo acadêmico: “A influência das facções criminosas no sistema penitenciário brasileiro”.
No qual, ele reservou um momento para contar a história do Primeiro Comando da Capital, facção paulista que, segundo o livro de Roberto Porto, teve sua origem na Casa de Custódia e Tratamento “Dr. Arnaldo Ferreira”, em Taubaté, interior de São Paulo, no mês de agosto de 1993.
Originariamente, o Primeiro Comando da Capital era o nome de um time de futebol que disputava o campeonato interno do presídio de Taubaté, na época estabelecimento apelidado pelos detentos como “Piranhão” ou “masmorra”, por ser considerado o mais severo do sistema.
Os detentos da Casa de Custódia tomavam banho de sol apenas uma hora por dia, ao lado de um pequeno grupo de encarcerados, no máximo dez. Todos permaneciam em celas individuais, sem direito a visita íntima.
Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional
Continuando, Porto relata que
Consta que ao chegar à final do campeonato, o time Primeiro Comando da Capital, integrado pelos presos denominados fundadores José Marcio Felício, o Geleião, Cezar Augusto Roriz, o Cezinha, José Eduardo Moura da Silva, o Bandeijão, Idemir Carlos Ambrósio, o Sombra, dentre outros, resolveu, em vez de jogar futebol, acertar as contas com dois integrantes do time adversário, resultando na morte destes presos.
Deste ato, que 24 tomou contorno de reivindicação contra as precárias condições do sistema prisional, se originou a facção criminosa.
Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional
O abandono do sistema prisional por parte do Estado propiciou a formação e crescimento de facções criminosas que dominam a grande maioria dos presídios brasileiros…
Como foi percebida pelas autoridades o nascimento do PCC
Porto cita um relatório dos promotores de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO), sobre o nascimento do PCC.
Assim nasceu o PCC, cuja meta inicial era a prática de extorsões contra detentos e seus familiares, bem como determinar a realizar execuções de outros presos visando dominar o sistema carcerário, realizando o tráfico de entorpecentes no interior dos presídios e cadeias públicas.
Com o passar dos anos a organização criminosa estendeu suas operações, passando também a realizar inúmeros crimes fora do sistema prisional.
Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional
Ao longo dos tempos a facção criminosa, PCC, manteve-se a mesma estrutura, basicamente piramidal, contando em seu topo com os chamados Fundadores.
Além deles, aqueles que, em virtude de seu destaque no mundo do crime, alcançaram posição de prestígio: como foi o caso de Marcola.
Também haviam aqueles que podiam participar da organização criminosa, por matarem outros presos ou executarem ações em nome da organização.
Esta estrutura piramidal foi alterada ao longo dos anos.
Hoje, o Primeiro Comando da Capital é dividido em células, de modo a permitir a continuidade das atividades criminosas mesmo com o isolamento dos líderes”.
Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional
Nesta base piramidal, ainda se compõe de integrantes em escala hierárquica inferior, os chamados “batizados”, denominados assim por aderirem ao estatuto da facção, estes membros são considerados ativos da sociedade criminosa.
No entanto, ao contrário do que Porto afirma, dentro da facção PCC, existe a igualdade entre todos os integrantes e não uma hierarquia vertical.
Mais uma previsão que falhou sobre o PCC
O ano do apogeu desta facção foi em 2001, como afirma Roberto Porto:
O apogeu desta facção criminosa adveio quando ocorreu a maior rebelião prisional da qual se tem notícia no mundo, a chamada Megarrebelião, em 18 de fevereiro de 2001.
Tal rebelião envolveu 29 presídios com ações simultâneas.
O governo estima em 28 mil o número de rebelados reunidos pelo Primeiro Comando da Capital, em 19 municípios.
Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional
Porto publicou sua obra em 2007, portanto, o país já havia assistido estarrecido o poder da organização nos ataques em São Paulo em 2006.
Só posso imaginar que a obra já tivesse em mãos dos editores antes dos ataques e que o autor optou por não mudar.
O Primeiro Comando da Capital mostrou que a facção estava vivendo o seu apogeu naquele momento, ou ainda teria mais outros momentos de superação.
O PCC é uma organização criminosa altamente adaptável e resiliente, que evoluiu ao longo dos anos, surpreendendo sempre seus caçadores.
O responsável pelo pânico generalizado: ataques contra as forças policiais, incêndios a carros e ônibus realizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Esta obra apresenta o caminho que levou o PCC a atingir tamanho grau de influência no sistema carcerário e nos bairros periféricos, culminando na paralisação de São Paulo…
Razões da resiliência da facção PCC 1533
Embora as autoridades e estudiosos possam ter afirmado que o PCC estava enfraquecido em determinados momentos, isso não significa necessariamente que o grupo estava em declínio.
A facção paulista é conhecida por sua capacidade de se reorganizar e se fortalecer após operações policiais e outras pressões do governo.
A organização é altamente hierarquizada, o que permite que ela responda rapidamente a mudanças nas circunstâncias e mantenha sua estrutura operacional mesmo quando seus líderes são presos.
Além disso, o PCC é uma organização criminosa altamente diversificada, envolvida em diversas atividades ilegais, incluindo tráfico de drogas, roubo, extorsão, sequestro e assassinato.
Essa diversificação permite que a organização se adapte e encontre novas fontes de receita, mesmo quando as atividades tradicionais estão sob pressão.
Outro fator que contribui para a aparente força do PCC é sua capacidade de se infiltrar nas instituições governamentais, incluindo o sistema prisional, a polícia, e a política.
A organização é conhecida por ter uma rede de agentes infiltrados que ajudam a garantir sua sobrevivência e expansão.
No mundo do crime organizado, a comunicação sempre foi uma ferramenta fundamental para garantir a segurança e a eficiência das operações.
Desde os primórdios do Primeiro Comando da Capital, seus membros entenderam a importância da comunicação telefônica como uma forma rápida e segura de trocar informações e coordenar atividades.
Uma das grandes apostas do Primeiro Comando da Capital foi a implantação de “centrais telefônicas” descentralizadas, em um tempo em que quase não havia celulares — além de só falarem “alô”!
Nos primórdios da organização, as centrais telefônicas de telefone fixo eram o principal meio de comunicação disponível.
As ligações eram feitas através de linhas dedicadas, o que garantia a privacidade das conversas.
Os membros do PCC utilizavam essas linhas para se comunicar entre si e com os chefes da organização, trocando informações sobre os planos de ação e as movimentações da polícia.
…segundo o Ministério Publico Paulista (MP-SP), a proliferação do Primeiro Comando da Capital só foi possível graças à existência das chamadas “centrais telefônicas”, expressão hoje já popularizada.
Consistiam sempre em linhas telefônicas instaladas em locais quaisquer, programadas com o escopo de efetuarem a transferência de chamadas ou o que se denomina “teleconferência” (três pessoas falando ao mesmo tempo).
Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional
Por meio de episódios impressionantes, PCC, A FACÇÃO envolve o leitor em uma trama que, muitas vezes, parece saída de um filme de ação. Mas, infelizmente, faz parte da realidade brasileira e do sistema carcerário.
O que mudou no PCC de 2007 até os dias de hoje?
Quanto a vós, sede fecundos, multiplicai-vos, povoai a terra e dominai-a!
Gênesis 9:7
Em 2007 quando Porto publicou seu livro, a facção criminosa, não se encontra delimitada somente no território paulista, mas já se encontra em outros estados.
Todavia, esta facção criminosa não se encontra delimitada em território paulista.
A transferência de lideranças do Primeiro Comando da Capital para outros Estados permitiu uma expansão e sobretudo uma consolidação de alianças que resultaram em uma estrutura hoje nacional.
Mas não somente a parte material e operacional foi desenvolvida; também a parte ideológica sofreu grandes alterações.
Roberto Porto — Crime Organizado e Sistema Prisional
No ano de 2007, o PCC já havia consolidado sua posição como uma das maiores facções criminosas do Brasil, com forte presença no estado de São Paulo e em outras partes do país.
Os negócios da facção se estendiam desde a venda de drogas ilícitas até o controle de presídios e a realização de crimes violentos, como assassinatos e sequestros.
No entanto, durante os anos que se seguiram, contra todas as expectativas, o PCC continuou a expandir seu território e seus negócios de drogas.
Muito graças a própria ação do estado, que jogava no regime carcerário integrantes da facção em todos os cantos expandindo sua ideologia.
A organização criminosa ampliou sua presença em outras regiões do Brasil, como o estado do Rio de Janeiro, onde estabeleceu alianças com outras facções locais.
Além disso, o PCC se expandiu internacionalmente, estabelecendo relações com outras organizações criminosas em países como Paraguai e Bolívia, que são importantes rotas para o tráfico de drogas.
Nesse período, o PCC também aprimorou sua estrutura organizacional, tornando-se ainda mais hierarquizado e profissionalizado.
Em relação aos negócios de drogas, o PCC expandiu sua atuação para outras drogas além do tradicional tráfico de cocaína.
A organização criminosa passou a se envolver também com a produção e distribuição de maconha, ecstasy e outras drogas sintéticas.
Mais do que a reflexão a respeito das diversas questões que certamente decorrerão dos tópicos apresentados, a pretensão de apresentar a realidade extramuros dessa que, em termos territoriais e humanos, é a maior organização criminosa do Brasil, objetivando fomentar a discussão…
Apesar dos esforços do governo brasileiro para combater o PCC, a facção continuou a se fortalecer e a expandir sua presença no país e na região.
O grupo passou a realizar operações complexas e sofisticadas, como o resgate de líderes presos e o ataque a delegacias e unidades policiais.
Assim, podemos concluir que, entre os anos de 2007 e 2023, o Primeiro Comando da Capital consolidou sua posição como uma das mais poderosas organizações criminosas do Brasil, ampliando sua presença territorial e aprimorando seus negócios de drogas.
Ainda que tenha enfrentado diversos obstáculos, a facção se mostrou capaz de se adaptar e se fortalecer diante dos desafios impostos pelo ambiente criminal e pelo estado.
A Polícia Federal iniciou uma minuciosa investigação para comprovar a suspeita de atuação da máfia russa na região Norte do Brasil. Mas afinal, o que há de concreto além do sensacionalismo?
Máfia russa no Brasil? Aparentemente sim — mas será mesmo? Este artigo investiga o que há por trás das suspeitas e revela como o inimigo perfeito pode ser apenas uma distração frente à atuação real do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) no cenário do crime organizado.
📌 Público-alvo: Leitores críticos, interessados em política, segurança pública, justiça criminal, geopolítica e imprensa investigativa, especialmente aqueles que questionam narrativas oficiais e estereótipos midiáticos.
⚠️ Advertência ao leitor: Este texto contém juízos críticos e linguagem provocativa. Recomenda-se leitura atenta e reflexão independente sobre os fatos narrados e os discursos desconstruídos.
A nossa lei condena alguém sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele fez?
— João 7:51
Confundindo mafiosos com turistas
Até agora, a suposta presença da máfia russa no Brasil, ligada ao tráfico internacional de drogas e à lavagem de dinheiro, segue no campo das especulações. O que temos, por ora, é um zelo exagerado que transforma nossos agentes federais em autênticos inquisidores “russofóbicos” — mais preocupados com passaportes cirílicos do que com provas concretas.
O funcionamento é engenhoso: um comerciante brasileiro paga seu fornecedor na China em dólares. Esses dólares, no entanto, são fruto da conversão de criptomoedas compradas por traficantes de cocaína na Europa. Em seguida, esse mesmo comerciante vende os produtos importados no Brasil, recebendo em reais. Com esse valor em mãos, ele quita a dívida com o traficante brasileiro responsável pelo envio da droga ao velho continente.
Ou seja, um circuito internacional de narcotráfico e lavagem que passa por Brasil, China e Europa — mas onde a presença russa, até aqui, é tão nebulosa quanto a honestidade de certos discursos políticos.
O chinês Jiamin Zhang se estabelecer no Brás no centro de São Paulo e é o líder de um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de criptomoedas que pode ter movimentado bilhões de reais. Ele é acusado de trazer ao Brasil toneladas de cocaína vindas da Colômbia, Bolívia e Paraguai. Do território brasileiro, a droga era enviada para a Europa por portos da região sul do país.
No entanto, enquanto esquemas bilionários como o de Zhang prosperam, a Polícia Federal insiste em revistar bolsos alheios, promovendo uma caça às bruxas que frequentemente transforma turistas russos em suspeitos automáticos. É o que afirma o empresário e autodenominado aventureiro Artemiy Semenovskiy (Артемий Семеновский), representante do obscuro Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB – ОКОРГБ), e autor da provocante obra intitulada “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras” (“Рycckий Кokaиh b Бpaзилии – Рaзoблaчaem ЛoжЬ”).
Vivemos em tempos estranhos, onde criptomoedas se tornaram ferramentas úteis até para lavar dinheiro de pequenos delitos, como revelado pela Operação Mamma Mia da Polícia e Receita Federal. Esta investigação expôs uma pizzaria gerida pelo Primeiro Comando da Capital que, além de vender pizzas, comercializava criptomoedas e ouro para ocultar dinheiro sujo e financiar as operações criminosas da facção.
— Lucas Caram para o Cointelegraph
O russo, a Polícia Federal e o PCC
A escrita de Artemiy é especialmente interessante, já que aborda como novidade para os russos algo que é bastante familiar para nós brasileiros: o surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC). Artemiy Semenovskiy não economiza cores fortes em sua descrição da facção PCC 1533, do sistema prisional brasileiro e da Polícia Federal:
“Paroxismo engraçado: o próprio poder gerou e criou seu inimigo mais terrível, porque o PCC surgiu como uma reação ao caos da polícia, à desumanidade do sistema prisional, à indiferença de juízes e funcionários.”
Pergunta Artemiy, com razão: por que insistimos em repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes? O olhar estrangeiro, ainda que desprovido de profundo conhecimento da realidade brasileira, consegue captar essa peculiaridade nacional.
Diálogo diplomático contra preconceito
Artemiy tenta criar uma ponte entre os governos do Brasil e da Rússia para amenizar a perseguição policial baseada em preconceitos, mas a instabilidade política brasileira impede um diálogo eficaz e duradouro. Com um governo perdido e uma polícia desmotivada, não surpreende que o crime organizado continue a prosperar livremente. Segundo Artemiy, no Brasil, criminosos são simplesmente transferidos das ruas para as “universidades do crime”.
Nas prisões brasileiras, um criminoso pode encomendar a morte do policial que o prendeu — realidade comum a todos os estados, variando apenas o nome da facção criminosa e a intensidade da violência envolvida.
As facções criminosas como desculpa
Artemiy Semenovskiy, com seu olhar estrangeiro, percebe o que os brasileiros se recusam a enxergar: a velha estratégia política de eleger um inimigo público para justificar incompetências governamentais. O russo compara essa tática ao que já ocorreu em sua terra natal com Lenin, ou na Alemanha com Hitler.
Atualmente, segundo Artemiy, o papel de vilão cabe às facções criminosas, especialmente o PCC. Para aprimorar a narrativa política, é importante criar um inimigo estrangeiro, inatingível e imensurável. A máfia russa desempenha perfeitamente esse papel duplo: inimigo externo e bode expiatório político, permitindo ao governo atual acusar o anterior de conspiração com forças estrangeiras.
Nem mesmo o PCC escapa da cultura de “cordialidade” brasileira descrita por Sérgio Buarque de Holanda, já que seus integrantes, por mais marginalizados, continuam sendo parte integrante da sociedade.
Tudo vale em época eleitoral
Na disputa eleitoral, pouco importa o mérito das propostas apresentadas pelos candidatos. O essencial é vender a ilusão de que o inimigo, seja ele real ou imaginário, pode ser controlado. Para Artemiy, o inimigo já foi eleito: presidiários e cidadãos russos.
Ao me deparar com o texto de Artemiy, inicialmente pensei tratar-se de uma teoria conspiratória juvenil do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB). Contudo, após dois dias intensos de pesquisa, constatei que Artemiy realmente esteve detido em Manaus e compreende profundamente a situação.
Agora, cabe ao leitor analisar se Artemiy Semenovskiy está correto, total ou parcialmente, em suas conclusões e reflexões.
O preconceito pode mudar de lado
Curiosamente, até o PCC se beneficia do preconceito contra venezuelanos em Roraima. Enquanto é inaceitável atribuir crimes a um negro ou a um homossexual de maneira discriminatória, é perfeitamente aceitável afirmar:
Bastaram poucos dias para que os caminhoneiros e defensores da intervenção militar, antes aplaudidos, fossem lançados ao descrédito. O preconceito muda rapidamente de alvo — cuidado, você pode ser o próximo.
Turistas russos pedem indenização de 7,7 milhões
Análise de IA sobre o texto: Caça à Máfia Russa no Brasil
A seguir, isolo os dados fáticos do artigo e os analiso sob o ponto de vista da precisão factual, confrontando com informações disponíveis em meu banco de dados atualizado até junho de 2024:
✅ DADOS FÁTICOS ISOLADOS DO TEXTO
Investigação da Polícia Federal sobre a máfia russa no Brasil
A Polícia Federal teria iniciado investigações sobre a suposta atuação da máfia russa na região Norte do país.
Esquema de lavagem de dinheiro com criptomoedas
O jornalista Allan de Abreu descreve um mecanismo de lavagem de dinheiro envolvendo comerciantes brasileiros, traficantes europeus, criptomoedas e fornecedores chineses.
Doleiros como Dalton Baptista Neman são citados como participantes de operações “casadas”.
Circuito de lavagem descrito:
Dinheiro do tráfico europeu → criptomoedas → convertido no Brasil → usado para pagar fornecedores chineses → produtos vendidos no Brasil → pagamento ao traficante brasileiro.
Atuação de Jiamin Zhang no Brás (São Paulo)
Zhang seria líder de esquema de lavagem com criptomoedas que teria movimentado bilhões.
Ele é acusado de operar a logística de importação de cocaína da Colômbia, Bolívia e Paraguai, enviando-a à Europa pelos portos do Sul do Brasil.
Operação Mamma Mia
Investigação conjunta da Polícia Federal e da Receita Federal descobriu uma pizzaria vinculada ao PCC que lavava dinheiro por meio da venda de criptomoedas e ouro.
Artemiy Semenovskiy e o Comitê CPLCRB
Artemiy é um empresário russo, representante do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB).
Ele esteve detido em Manaus.
Autor do livro “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras”.
Crítica de Artemiy à criminalização de russos
Artemiy denuncia uma política persecutória baseada em nacionalidade, sugerindo preconceito institucional contra russos no Brasil.
Análise de Artemiy sobre o PCC
Ele afirma que o PCC surgiu como reação ao caos policial e penitenciário brasileiro.
Aponta que o sistema prisional brasileiro transforma presídios em “universidades do crime”.
Rompimento entre PCC e Amigos do Norte
Esse rompimento teria causado aumento da violência em Roraima: assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios.
Preconceito contra venezuelanos em Roraima
Segundo o texto, crimes cometidos por venezuelanos são minoria e geralmente de baixo potencial ofensivo.
🔎 ANÁLISE DE PRECISÃO FÁTICA E CONTRAPONDO COM FONTES CONFIÁVEIS
1. Presença da máfia russa no Brasil
Fato: Não há confirmação pública e documentada de uma atuação estruturada da máfia russa no Brasil.
Fontes confiáveis (PF, UNODC, Interpol) não apontam para uma operação significativa da máfia russa em território nacional.
Análise: O texto acerta ao classificar essa presença como especulativa até o momento.
2. Operações “casadas” e o papel de doleiros
Fato: Esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo criptomoedas e operações cambiais “casadas” são reais e documentados no Brasil.
Dalton Baptista Neman: É citado em reportagens sobre lavagem e ligação com tráfico.
Análise: A explicação está coerente com relatórios do COAF e da Receita Federal.
3. Jiamin Zhang e lavagem de dinheiro com criptomoedas
Fato: Há investigações da Polícia Federal sobre chineses no Brás envolvidos em esquemas milionários de lavagem via criptomoedas.
Zhang foi, de fato, mencionado em matérias investigativas como figura central de um desses esquemas (inclusive com prisão decretada em 2023).
Análise: Informação precisa e bem alinhada com investigações reais.
4. Operação Mamma Mia e o PCC
Fato: A Operação Mamma Mia ocorreu em 2022/2023 e revelou a atuação do PCC na lavagem de dinheiro por meio de estabelecimentos comerciais, inclusive pizzarias, além de comércio de criptomoedas e ouro.
Análise: O artigo descreve com precisão esse fato, já consolidado.
5. Artemiy Semenovskiy e o CPLCRB
Fato: Existem registros de atuação de grupos como o CPLCRB tentando defender cidadãos russos acusados ou investigados no exterior.
Artemiy Semenovskiy é citado em fóruns e publicações menores, embora seu alcance midiático seja limitado.
Análise: A existência do CPLCRB e da figura de Artemiy é plausível, mas com visibilidade marginal.
6. Origem do PCC como reação ao sistema prisional
Fato: O PCC foi fundado em 1993, no presídio de Taubaté, após o massacre do Carandiru (1992), com discurso de reação à violência institucional e à brutalidade prisional.
Análise: A leitura de Artemiy está de acordo com a interpretação dominante nas ciências sociais.
7. Criminalidade e preconceito em Roraima
Fato: Houve aumento da violência em Roraima após o rompimento entre PCC e Amigos do Norte, com episódios violentos relatados em 2019–2023.
Dados oficiais indicam que crimes cometidos por imigrantes venezuelanos são, de fato, proporcionalmente menores e em geral de baixo impacto.
Análise: O artigo apresenta com correção os números e o contexto social.
⚖️ CONCLUSÃO DA ANÁLISE DE PRECISÃO
Afirmação no texto
Status factual
Observação
Investigação da PF sobre máfia russa
Especulativo
Ainda sem comprovação ou denúncia formal
Operações casadas de lavagem com criptomoedas
Factual
Confirmado por investigações da PF e COAF
Envolvimento de Jiamin Zhang
Factual
Confirma-se sua prisão e os indícios de lavagem
Pizzaria do PCC (Operação Mamma Mia)
Factual
Procedente, com fontes oficiais
Existência de Artemiy e CPLCRB
Parcialmente factual
Grupo obscuro, mas relatos confirmam
Crítica à russofobia institucional
Opinião fundamentada
Debate legítimo com base em seletividade policial
PCC como resposta ao sistema penitenciário
Factual
Consenso em pesquisas acadêmicas
Ruptura com Amigos do Norte em Roraima
Factual
Registrado em informes de segurança
Preconceito contra venezuelanos
Factual e crítico
Dados sustentam análise crítica feita
Análise Aprofundada sobre o Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”: Um Contraponto de Dados e uma Perspectiva Sociológica
Resumo Executivo
Este relatório tem como objetivo principal oferecer uma análise crítica aprofundada do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, contrastando suas alegações com dados empíricos disponíveis na internet e em trabalhos acadêmicos. Adicionalmente, busca-se fornecer uma análise sociológica do fenômeno do crime organizado transnacional no contexto brasileiro, com foco na percepção e na realidade da atuação de grupos estrangeiros, como a máfia russa.
As descobertas indicam que, embora o artigo original, publicado em um site associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), tenda a minimizar a presença da máfia russa no Brasil, atribuindo as investigações a uma suposta “russofobia” e a propósitos políticos, uma vasta gama de evidências contradiz essa narrativa. Operações policiais recentes, tanto no Brasil quanto em cooperação internacional, juntamente com estudos acadêmicos e relatórios de organizações como a Europol e o UNODC, apontam para uma atuação concreta e crescente do crime organizado russo na América Latina, e especificamente no Brasil, notadamente em esquemas de lavagem de dinheiro e tráfico internacional.
A análise sociológica subsequente revela como as fragilidades estatais brasileiras, incluindo deficiências no sistema prisional e permeabilidade das fronteiras, criam um ambiente propício não apenas para a consolidação de facções locais altamente sofisticadas, como o PCC, mas também para a infiltração e atuação de grupos criminosos transnacionais. O relatório também explora como as narrativas sobre “inimigos estrangeiros” podem ser construídas e utilizadas politicamente, desviando a atenção de problemas estruturais internos e potencialmente fomentando a xenofobia. Conclui-se que o combate eficaz ao crime organizado transnacional exige uma abordagem multifacetada, que combine o fortalecimento institucional, a cooperação internacional robusta e políticas de inclusão social, ao mesmo tempo em que se promove uma compreensão pública baseada em evidências, livre de desinformação e preconceitos.
1. Introdução
O crime organizado transnacional representa um dos maiores desafios à segurança global e nacional no século XXI. Sua complexidade reside na capacidade de operar além das fronteiras, adaptando-se rapidamente às mudanças tecnológicas e explorando vulnerabilidades institucionais e socioeconômicas em diversas nações. No Brasil, a evolução do crime organizado tem sido marcada por uma crescente transnacionalização, com impactos significativos na segurança pública, na economia e na governança. Esse fenômeno não se restringe à atuação de facções criminosas domésticas, mas também envolve a interação e a infiltração de redes criminosas globais.
Este relatório propõe uma análise aprofundada do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, publicado em um site que se autodenomina “faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org”. O artigo em questão levanta sérias alegações sobre a natureza das investigações policiais no Brasil, sugerindo motivações questionáveis por trás da “caça” a supostos membros da máfia russa. Diante disso, este estudo se desdobra em dois eixos de análise complementares. Primeiramente, será realizado um contraponto rigoroso das alegações apresentadas no artigo com um vasto conjunto de dados e evidências empíricas provenientes de fontes oficiais, relatórios de inteligência, estudos acadêmicos e notícias de operações policiais. Em segundo lugar, será conduzida uma análise sociológica do fenômeno do crime organizado transnacional no Brasil, investigando a dinâmica de sua atuação, as fragilidades estatais que o propiciam e a forma como as percepções sobre grupos criminosos estrangeiros são construídas social e politicamente. A metodologia empregada inclui uma revisão bibliográfica aprofundada, a análise de relatórios oficiais e notícias de operações policiais, e a aplicação de conceitos sociológicos para interpretar os dados e suas implicações.
2. Análise Crítica do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”
O artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” apresenta uma perspectiva particular sobre a presença e a investigação da máfia russa no território brasileiro. Uma análise detalhada de seus argumentos e um contraponto com evidências empíricas revelam uma clara divergência entre a narrativa do artigo e a realidade documentada por diversas fontes.
2.1. Principais Argumentos e Alegações do Artigo Original
O artigo, com data de atualização de 6 de julho de 2025, argumenta que a suposta presença da máfia russa no Brasil é, até o momento, “especulativa e sem provas concretas”. O texto sugere que há um “zelo exagerado” por parte da Polícia Federal, que estaria transformando agentes federais em “inquisidores ‘russofóbicos'”.
Para ilustrar os esquemas de lavagem de dinheiro, o artigo cita o jornalista Allan de Abreu, descrevendo uma operação sofisticada que, embora real, “pouco tem de russo”, envolvendo doleiros brasileiros como Dalton Baptista Neman e um comerciante chinês, Jiamin Zhang, líder de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro com criptomoedas e tráfico de cocaína. Essa abordagem minimiza a conexão russa, focando em outros atores.
Artemiy Semenovskiy, empresário russo e representante do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB), além de autor de um livro intitulado “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras”, é uma figura central na argumentação do artigo. Ele critica a Polícia Federal por “insistir em revistar bolsos alheios”, alegando que o preconceito policial é baseado em “passaportes cirílicos”, e não em provas concretas. Semenovskiy também descreve o surgimento do PCC como uma “reação ao caos da polícia, à desumanidade do sistema prisional, à indiferença de juízes e funcionários”, e alega que o sistema prisional brasileiro transforma presídios em “universidades do crime”.
Uma das alegações centrais do artigo é que a narrativa da máfia russa seria uma “estratégia política” para eleger um “inimigo público” (atualmente as facções criminosas, especialmente o PCC) a fim de justificar a incompetência governamental. Essa estratégia, segundo o artigo, permitiria ao governo atual acusar o anterior de conspiração com forças estrangeiras. O texto ainda destaca a xenofobia contra venezuelanos em Roraima como um exemplo de como o preconceito pode mudar de alvo, contrapondo com dados que atribuem o aumento da violência na região ao rompimento entre o PCC e a facção Amigos do Norte, e não à presença de venezuelanos.
2.2. Contraponto com Dados e Evidências Empíricas
As alegações do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” são desafiadas por uma série de evidências concretas provenientes de operações policiais e estudos acadêmicos, que apontam para uma presença e atuação mais substanciais do crime organizado russo no Brasil e em nível global.
2.2.1. Operações Policiais e Judiciais (Nacionais e Internacionais)
A Polícia Federal brasileira deflagrou a Operação Brianski em fevereiro de 2024, visando combater uma associação criminosa composta por brasileiros e russos. Essa organização era investigada por lavagem de dinheiro, utilizando recursos provenientes de crimes cometidos no exterior e criptomoedas. A operação cumpriu dez mandados de busca e apreensão em Santa Catarina, Goiás e Ceará, com uma estimativa de apreensão de R$ 40 milhões e o sequestro de bens de luxo, como casas, apartamentos de alto padrão, terrenos e automóveis. Um dos principais alvos russos havia sido condenado em 2015 na Rússia por fraude e obteve nacionalidade brasileira em 2022. Outro foi condenado por roubo também em 2015.
Adicionalmente, em fevereiro de 2025, uma operação ibérica conjunta de Portugal e Espanha, com o apoio da Europol, resultou na detenção de 14 pessoas alegadamente ligadas à máfia russa por lavagem de dinheiro. A ação incluiu a apreensão de mais de um milhão de euros em numerário e criptomoedas. O grupo atuava principalmente na Espanha e em Portugal, lavando dinheiro para diversas organizações criminosas, como as máfias albanesa, sérvia, armênia, chinesa, ucraniana, colombiana e a Mocro Máfia.
A existência dessas operações policiais multinacionais, com alvos específicos e um modus operandi detalhado de lavagem de dinheiro e fraudes, contradiz diretamente a afirmação do artigo original de que a presença da máfia russa no Brasil é “especulativa” e sem “provas concretas”. A natureza complexa e baseada em inteligência dessas investigações, que se concentram em fluxos financeiros ilícitos e crimes transnacionais, desmente a alegação de que a perseguição policial seria motivada por “preconceito baseado em passaportes cirílicos”. A atuação coordenada entre diferentes países demonstra que a ameaça é percebida como real e exige uma resposta global.
2.2.2. Relatórios Oficiais e Estudos Acadêmicos sobre a Máfia Russa Transnacional
A máfia russa, também conhecida como Bratva, é amplamente reconhecida como uma rede de grupos criminosos altamente organizados, com um alcance global significativo. Ela opera em mais de 50 países, com cerca de 6.000 grupos em 2012, dos quais mais de 200 possuíam alcance global. Criminologistas a descrevem como “uma das organizações criminosas mais bem estruturadas da Europa, com uma operação quase militar” em suas atividades internacionais.7
As atividades da Bratva são diversificadas e incluem tráfico de drogas (heroína e cocaína na Europa), armas (fornecendo para grupos criminosos e regimes autoritários), pessoas, órgãos, contrabando, lavagem de dinheiro (movimentando cerca de 87 bilhões de euros por ano em atividades ilícitas), fraude eletrônica, crimes cibernéticos, extorsão, e infiltração em empresas e instituições financeiras, muitas vezes com laços com políticos e oligarcas.
O estudo “Globalization and Transnational Organized Crime: The Russian Mafia in Latin America and the Caribbean”, de Bruce Michael Bagley (publicado em 2001 e atualizado em 2016), é um trabalho acadêmico fundamental sobre o tema. Ele concluiu que as ligações entre grupos criminosos russos e organizações criminosas na América Latina e no Caribe eram “substanciais e estavam se expandindo rapidamente” já em 2001. O Brasil é explicitamente mencionado como um país-chave onde essas conexões poderiam fornecer acesso a mercados ilícitos, instalações de lavagem de dinheiro e fontes de armas ilegais, representando uma ameaça ao crescimento econômico e à consolidação democrática.
Bagley destaca que o crime organizado russo floresceu no contexto pós-soviético de um “estado fraco” e explora a fraqueza institucional de estados na América Latina e no Caribe, incluindo a falta de transparência bancária e instituições de aplicação da lei corruptas. A estratégia de expansão internacional da máfia russa seguiu um padrão de três frentes, com um crescente interesse no Hemisfério Ocidental (América Latina e Caribe) a partir de meados dos anos 1990, percebendo a região como um mercado aberto para armas russas/soviéticas em troca de drogas e acesso a redes financeiras globais para lavagem de dinheiro.
A vasta documentação acadêmica e de relatórios internacionais que descreve a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global com operações diversificadas, incluindo lavagem de dinheiro e tráfico em regiões de “estados fracos” como a América Latina, estabelece um forte contraste com a visão do artigo de uma presença “especulativa” no Brasil. Essa divergência sugere que a negação ou minimização da ameaça russa no artigo pode ser uma forma de desinformação ou uma narrativa defensiva, em vez de uma avaliação baseada em dados amplos. A capacidade da máfia russa de se adaptar e inovar também a torna um parceiro ou competidor significativo no cenário do crime organizado transnacional.
2.2.3. Atuação da Máfia Russa na América Latina e na Tríplice Fronteira
A presença da máfia russa na América Latina não é apenas teórica, mas documentada em pontos estratégicos. A Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina) é explicitamente mencionada como uma das regiões onde a máfia russa atua, ao lado de outras organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho. Essa região é caracterizada por sérios problemas de segurança devido ao tráfico de drogas, armas, pessoas, contrabando e lavagem de dinheiro, e é considerada um ponto de entrada estratégico para os maiores mercados sul-americanos para atividades criminosas. A existência de “zonas cinzentas” onde o poder estatal é limitado facilita a atuação desses grupos.
O Brasil, em particular, é identificado como um “importante ponto de trânsito de cocaína”, o que tem levado a um aumento da violência e da corrupção, conforme o estudo de Bagley. O Uruguai, por sua vez, é apontado como um local preferencial para lavagem de dinheiro devido a regulamentações bancárias fracas.
A presença documentada da máfia russa na Tríplice Fronteira e a identificação do Brasil como um ponto crucial para o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro reforçam a ideia de que a atuação desses grupos não é incidental, mas estratégica, explorando vulnerabilidades geográficas e institucionais. A crescente influência russa na América Latina sugere um contexto geopolítico que pode facilitar ou expandir as operações do crime organizado russo na região, indo além das meras atividades criminais e tocando em questões de segurança nacional.
2.3. Avaliação da Credibilidade e Perspectiva do Artigo Original
O artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” adota uma perspectiva fortemente crítica à atuação da Polícia Federal, sugerindo motivações políticas e preconceituosas por trás das investigações. Essa abordagem é evidente na forma como minimiza a presença da máfia russa como “especulativa” e sem “provas concretas”, e na alegação de “russofobia” e preconceito baseado em “passaportes cirílicos”.
No entanto, essa narrativa entra em contradição direta com as evidências empíricas apresentadas anteriormente. As operações policiais detalhadas, como a Operação Brianski da PF, a operação do FSB russo, e a operação ibérica com apoio da Europol, fornecem provas concretas e recentes da atuação da máfia russa e de indivíduos russos em crimes financeiros transnacionais com conexões diretas ao Brasil. Além disso, os estudos acadêmicos e relatórios de organizações internacionais (como os de Bruce Michael Bagley, Europol e UNODC) descrevem a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global, com operações diversificadas e uma presença crescente na América Latina, incluindo o Brasil.
A parcialidade do artigo é notável. Ele parece defender a comunidade russa no Brasil e criticar a Polícia Federal, uma perspectiva reforçada pela citação de Artemiy Semenovskiy, autor de um livro que busca “explicar as mentiras” sobre a cocaína russa no Brasil. A data de atualização do artigo (6 de julho de 2025) ser posterior à data de algumas das operações citadas (fevereiro de 2024 para Brianski, dezembro de 2024 para FSB, fevereiro de 2025 para Ibérica) é um elemento crucial. Se o artigo foi atualizado após essas operações, a manutenção da tese de “especulação” e “falta de provas concretas” é uma escolha deliberada que ignora evidências substanciais. Isso sugere que o artigo não busca uma análise objetiva, mas sim promove uma “contra-narrativa” ou uma forma de desinformação, possivelmente para proteger interesses ou deslegitimar a atuação policial.
A tabela a seguir ilustra o contraste entre as alegações do artigo e as evidências empíricas:
Tabela 1: Comparativo de Alegações do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” vs. Evidências Empíricas
Alegação do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”
Evidência Empírica
Implicação/Contradição
Presença da máfia russa no Brasil é “especulativa, sem provas concretas”.
Operação Brianski (PF, Brasil): Deflagrada em Fev/2024, visou associação criminosa de brasileiros e russos por lavagem de dinheiro com criptomoedas, R$ 40 milhões apreendidos.
Operação FSB (Rússia): Desarticulou em Dez/2024 esquema global de fraudes com vítimas no Brasil.
Operação Ibérica (Portugal/Espanha/Europol): Em Fev/2025, 14 detidos ligados à máfia russa por lavagem de dinheiro, €1 milhão apreendido.
A existência de operações policiais multinacionais com alvos específicos e modus operandi detalhados demonstra que a atuação da máfia russa no Brasil e em conexão com o Brasil não é especulativa, mas um alvo de investigações concretas e coordenadas internacionalmente.
Perseguição policial baseada em “preconceito” e “passaportes cirílicos” (russofobia).
As operações policiais são complexas, baseadas em inteligência sobre lavagem de dinheiro, fraudes e tráfico, envolvendo movimentação de milhões e aquisição de bens de luxo por indivíduos com histórico criminal.
A natureza das investigações foca em atividades criminosas sofisticadas, não em nacionalidade. A alegação de preconceito, embora importante para a análise sociológica da narrativa, não invalida a base factual das operações.
Narrativa da máfia russa é uma “estratégia política” para desviar a atenção de problemas internos e acusar governos anteriores.
Estudos acadêmicos e relatórios internacionais descrevem a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global, com vasto portfólio de atividades (tráfico, lavagem) e crescente envolvimento na América Latina, explorando “estados fracos”.
A vasta documentação sobre a máfia russa como uma força criminosa global estabelece um forte contraste com a visão de uma ameaça meramente “construída politicamente”. A ameaça é real e multifacetada.
A presença da máfia russa é minimizada em comparação com a atuação de doleiros brasileiros e chineses.
A máfia russa é explicitamente mencionada como uma das organizações criminosas atuantes na Tríplice Fronteira, uma região de alta criminalidade transnacional.9 O Brasil é um “importante ponto de trânsito de cocaína” para a máfia russa.
Embora outros grupos atuem, a máfia russa tem uma presença e papel estratégico documentados no Brasil e na América Latina, especialmente em tráfico e lavagem de dinheiro.
3. O Fenômeno do Crime Organizado Transnacional no Brasil: Uma Análise Sociológica
A complexidade do crime organizado no Brasil não pode ser compreendida apenas pela análise de operações policiais isoladas ou pela refutação de narrativas específicas. É fundamental uma análise sociológica que revele as condições estruturais que permitem a proliferação e a transnacionalização dessas atividades criminosas.
3.1. Fragilidades Estatais e o Ambiente Propício ao Crime Organizado
A magnitude do faturamento do crime organizado no Brasil e sua infiltração em setores econômicos lícitos não constitui apenas um problema de segurança pública, mas uma questão sistêmica que corrói a economia formal e a governança. A exploração das fragilidades estatais por grupos criminosos, incluindo a máfia russa, revela que o Brasil não é apenas um alvo, mas um ambiente facilitador para as operações transnacionais. Isso aponta para a necessidade de abordagens que vão além da repressão policial e tocam em reformas institucionais e políticas socioeconômicas. A vasta escala econômica do crime organizado é um sintoma da profundidade das fragilidades institucionais e socioeconômicas do Estado brasileiro. Isso significa que a presença de grupos transnacionais como a máfia russa não é um evento isolado, mas uma consequência e um agravamento de vulnerabilidades estruturais preexistentes. O combate eficaz ao crime organizado transnacional no Brasil não pode se limitar a operações pontuais, mas deve abordar as raízes sistêmicas que permitem a proliferação e o faturamento bilionário dessas redes criminosas.
A tabela a seguir quantifica o impacto econômico do crime organizado no Brasil:
Tabela 2: Impacto Econômico do Crime Organizado no Brasil
Tipo de Atividade Ilícita/Setor Afetado
Faturamento/Perda Estimada
Período
Porcentagem do PIB (se aplicável)
Faturamento geral do crime organizado
R$ 350 bilhões
Últimos 3 anos
Não especificado
Fluxo ilegal de cocaína
R$ 335 bilhões
Não especificado
4% do PIB
Perdas no setor de combustíveis (ilegalidades)
R$ 29 bilhões anuais
Anual
Não especificado
Perdas no setor de combustíveis (fraudes tributárias, inadimplência, lavagem de dinheiro)
3.2. A Dinâmica das Facções Criminosas Brasileiras e Suas Conexões Transnacionais
As facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), evoluíram para se tornarem atores transnacionais sofisticados. O PCC é considerado um “paradigma do crime organizado transnacional”, tendo se consolidado desde sua fundação no sistema prisional em 1993 e expandido sua atuação para o narcotráfico internacional. A organização possui um estatuto interno, uma hierarquia rígida e desenvolveu sofisticados esquemas de lavagem de dinheiro. Sua influência se estende por 23 estados brasileiros, com uma presença particularmente forte nas fronteiras com Paraguai e Bolívia.
As alianças internacionais do PCC são bem documentadas. A Polícia Federal, por exemplo, revelou uma parceria entre o PCC e a máfia italiana ‘Ndrangheta, envolvendo o tráfico de drogas pelo Porto de Paranaguá, no Paraná, e o bloqueio de ativos financeiros. Essas parcerias demonstram a capacidade das facções brasileiras de se interconectar com redes criminosas globais, expandindo seu alcance e sofisticação.
A sofisticação, o alcance transnacional e a capacidade de adaptação tecnológica das facções brasileiras indicam que elas não são meramente “inimigos públicos”, como sugerido em algumas narrativas, mas atores complexos no cenário global do crime. Embora o artigo inicial e alguns acadêmicos questionem a conexão direta entre o PCC e a máfia russa por falta de provas públicas, a comprovada capacidade do PCC de formar alianças com outras máfias internacionais (como a ‘Ndrangheta) e de operar em redes criptografadas globais sugere que a interação com a máfia russa, se não uma aliança formal, é uma possibilidade operacional dentro da lógica do crime transnacional. A ausência de evidência pública não significa ausência de interação, mas sim a complexidade da prova em um ambiente tão secreto e dinâmico. No cenário globalizado do crime, onde as facções brasileiras são players importantes e buscam expandir suas operações e lavar dinheiro, a interação com qualquer grande organização criminosa transnacional, incluindo a máfia russa, que é conhecida por tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro, é uma possibilidade lógica e estratégica.
3.3. A Construção da Narrativa da “Máfia Russa”: Preconceito, Xenofobia e Usos Políticos
A análise sociológica da narrativa apresentada no artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” revela um fenômeno de “construção social do inimigo”. O artigo alega que a “caça às bruxas” contra russos é impulsionada por “preconceito policial baseado em passaportes cirílicos” e “russofobia”, e sugere que a eleição de um “inimigo público” estrangeiro, como a máfia russa, serve para justificar a incompetência governamental e permitir acusações contra governos anteriores.
Essa perspectiva, embora vinda de uma fonte com uma agenda clara, é sociologicamente relevante. Ela aponta para como a percepção de uma ameaça pode ser moldada por preconceitos e agendas políticas. O artigo compara essa situação à xenofobia contra venezuelanos em Roraima, onde crimes são atribuídos a minorias de forma discriminatória, apesar de dados reais desmentirem a correlação direta, atribuindo a violência ao rompimento entre facções locais.
A análise da narrativa do artigo revela que, independentemente da existência factual da máfia russa (que, como demonstrado, é real e concreta), a forma como ela é percebida e comunicada pode ser distorcida por preconceitos (xenofobia), agendas políticas (desvio de atenção, culpa a governos anteriores) e sensacionalismo midiático. Essa tensão entre a ameaça real e a ameaça construída socialmente pode impactar a eficácia das políticas de segurança pública e a alocação de recursos, além de fomentar a discriminação contra a comunidade russa em geral, em vez de um foco baseado em inteligência sobre os verdadeiros criminosos. Isso pode levar a uma compreensão equivocada da ameaça e a políticas públicas mal direcionadas.
4. Resposta do Estado Brasileiro e Cooperação Internacional no Combate ao Crime Organizado
O Estado brasileiro tem desenvolvido uma série de mecanismos e estratégias para combater o crime organizado transnacional, com um foco crescente na cooperação internacional e no enfrentamento de crimes financeiros.
4.1. Legislação e Mecanismos de Combate à Lavagem de Dinheiro
Para aprimorar o combate, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) foi criado para monitorar e investigar atividades suspeitas. A Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), estabelecida em 2003 pelo Ministério da Justiça, contribui para a sistematização de iniciativas e a articulação de diversos órgãos dos três poderes, Ministérios Públicos, sociedade civil e iniciativa privada. Além disso, o Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD), vinculado ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional do Ministério da Justiça, apoia a aplicação de soluções de análise tecnológica em grandes volumes de informações.
Apesar de uma legislação robusta e de mecanismos institucionais estabelecidos, o Brasil foi apontado em um relatório global de 2022 como “líder mundial em casos de lavagem de dinheiro”, com 23% das empresas impactadas, acima da média global de 16%. Essa coexistência de um arcabouço legal avançado com uma alta incidência de casos de lavagem de dinheiro revela uma complexa dinâmica de capacidade versus desafio. Não é a ausência de leis que impede o combate eficaz, mas sim a escala, a adaptabilidade e a profunda infiltração do crime organizado na economia, que superam os mecanismos de controle existentes. Isso aponta para a necessidade de fortalecer a fiscalização, a inteligência financeira e combater a corrupção que permite essa lavagem em larga escala. A máfia russa, sendo especialista em lavagem de dinheiro, provavelmente explora essas lacunas e vulnerabilidades sistêmicas.
4.2. Acordos e Iniciativas de Cooperação Internacional (Interpol, UNODC)
O Brasil tem demonstrado um compromisso crescente com a cooperação internacional no enfrentamento ao crime organizado transnacional. Em junho de 2025, o governo brasileiro firmou um acordo com a Interpol, na sede da organização em Lyon, França, para fortalecer essa colaboração. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a necessidade de ações coordenadas e de “asfixiar seus mecanismos de financiamento, em especial a lavagem de dinheiro”, diante de um crime cada vez mais complexo e globalizado.
A eleição do delegado da Polícia Federal Valdecy Urquiza como secretário-geral da Interpol, o primeiro representante de um país em desenvolvimento a ocupar esse cargo em 100 anos, simboliza o reconhecimento do papel de destaque do Brasil no combate ao crime transnacional. Entre as iniciativas brasileiras destacadas pelas autoridades estão a ampliação da rede internacional da Polícia Federal, a criação do Centro de Cooperação Internacional da Amazônia e o fortalecimento da atuação na Tríplice Fronteira com Argentina e Paraguai.
No cenário europeu, relatórios da Europol destacam o papel do crime organizado russo em vários mercados criminais na União Europeia, incluindo lavagem de capitais, tráfico de seres humanos, armas e drogas. Essa perspectiva internacional corrobora a necessidade de uma abordagem global e cooperativa.
A crescente ênfase do Brasil na cooperação internacional e o reconhecimento de sua liderança no combate ao crime transnacional indicam uma resposta estratégica e madura à globalização do crime. A priorização do combate à lavagem de dinheiro e o foco em fronteiras e áreas estratégicas demonstram um alinhamento com as principais atividades de grupos como a máfia russa. Isso sugere que, apesar das narrativas internas que buscam minimizar a ameaça, o Estado brasileiro está ciente e atuando em nível global contra as ameaças transnacionais. A estratégia de cooperação internacional e o foco no financiamento do crime são respostas diretas e proporcionais à ameaça real, independentemente das narrativas políticas internas.
A tabela a seguir apresenta uma visão geral das operações globais da máfia russa e suas características, consolidando informações de diversas fontes:
Tabela 3: Principais Atividades e Alcance Global da Máfia Russa
Tipo de Atividade Criminosa
Descrição Detalhada da Atividade
Alcance Geográfico/Países de Atuação
Tráfico de Drogas
Heroína e cocaína (especialmente na Europa); alianças com cartéis colombianos e mexicanos para aquisição de cocaína.
Global, América Latina (Brasil como ponto de trânsito), Europa, ex-União Soviética.
Tráfico de Armas
Fornecimento de armas russas/soviéticas (incluindo armas pesadas, submarinos, mísseis) para grupos criminosos e regimes autoritários.
Global, América Latina (Colômbia, México), Tríplice Fronteira
Lavagem de Dinheiro
Movimentação de cerca de 87 bilhões de euros/ano em atividades ilícitas; uso de criptomoedas; infiltração em empresas e instituições financeiras; exploração de sistemas bancários com falta de transparência (Uruguai).
Global (mais de 50 países), América Latina (Brasil, Uruguai), Europa (Portugal, Espanha)
Crimes Cibernéticos e Fraudes Financeiras
Ataques cibernéticos para roubo de dados e extorsão; fraudes eletrônicas, de cartão de crédito e de investimento; roubo de identidade.
Global (vítimas em 50 países, incluindo Brasil)
Tráfico de Pessoas e Órgãos
Prostituição, tráfico internacional de mulheres (para escravidão sexual na Europa), tráfico de órgãos e tecidos para transplante.
Global, América Latina
Contrabando
Contrabando de cigarros e produtos falsificados.
Global, Tríplice Fronteira
Extorsão e Violência
Esquemas de extorsão; sequestro; usura; conspiração de assassinato de aluguel; uso de violência contra devedores de jogos de azar.
Global
Infiltração e Corrupção
Estabelecimento de laços com políticos e oligarcas russos; manipulação de legislação; exploração de instituições de aplicação da lei corruptas.
Global, especialmente em “estados fracos” na América Latina
5. Conclusão e Recomendações
Este relatório demonstrou que o artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, embora levante questões pertinentes sobre o uso político de narrativas e a possibilidade de preconceito, subestima significativamente a presença e as atividades concretas do crime organizado russo no Brasil e na América Latina. Evidências de múltiplas operações policiais recentes, tanto nacionais quanto internacionais, e de estudos acadêmicos robustos, confirmam que a máfia russa é uma organização criminosa transnacional com um vasto portfólio de atividades ilícitas, incluindo lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e armas, e fraudes, com ramificações diretas no território brasileiro.
A análise revelou a natureza transnacional e sofisticada do crime organizado, tanto por parte de grupos estrangeiros, como a máfia russa, quanto de facções brasileiras, como o PCC. Esses grupos exploram as fragilidades estatais do Brasil, como as deficiências do sistema prisional, a marginalização socioeconômica e a permeabilidade das fronteiras e instituições financeiras. A capacidade de adaptação desses grupos a novas tecnologias, como criptomoedas e inteligência artificial, representa um desafio contínuo para as autoridades. A complexidade da ameaça não se limita a operações isoladas, mas se infiltra profundamente na economia formal, desafiando a governança e a segurança do país.
É crucial distinguir entre a realidade empírica do crime organizado, validada por dados e investigações, e as narrativas sociais e políticas que podem distorcer a percepção da ameaça. Embora a crítica à russofobia e ao uso político da criminalidade seja válida, ela não invalida a base factual das operações e dos estudos que comprovam a atuação da máfia russa no Brasil.
Recomendações para Políticas Públicas e Futuras Pesquisas
Para um combate eficaz ao crime organizado transnacional no Brasil e para uma compreensão mais precisa do fenômeno, as seguintes recomendações são apresentadas:
Fortalecimento Institucional: É imperativo um investimento contínuo na capacidade de inteligência e investigação da Polícia Federal e de outras agências de segurança, especialmente em crimes financeiros e cibernéticos. A sofisticação crescente dos grupos criminosos exige que as capacidades estatais evoluam na mesma velocidade, com treinamento especializado e acesso a tecnologias de ponta para análise de grandes volumes de dados e rastreamento de ativos digitais.
Combate à Corrupção: A corrupção é um facilitador crítico para a infiltração do crime organizado em setores lícitos da economia e no sistema financeiro. Medidas anticorrupção devem ser intensificadas em todos os níveis do Estado, visando desmantelar as redes que permitem a lavagem de dinheiro e a impunidade.
Cooperação Internacional Aprimorada: A manutenção e expansão dos acordos de cooperação com organismos internacionais, como a Interpol e o UNODC, e com países-chave são fundamentais. O foco deve ser no intercâmbio rápido e eficaz de informações de inteligência e na realização de operações conjuntas, especialmente em zonas de fronteira estratégicas, como a Tríplice Fronteira e as rotas de tráfico na Amazônia.
Inclusão Social e Redução de Vulnerabilidades: As políticas públicas devem abordar as raízes socioeconômicas da criminalidade, como a marginalização em periferias urbanas e as deficiências crônicas do sistema prisional. Melhorias nessas áreas podem reduzir a base de recrutamento para facções criminosas e diminuir as vulnerabilidades exploradas por grupos transnacionais.
Pesquisa e Análise Contínua: É essencial incentivar estudos acadêmicos independentes e baseados em dados para monitorar a evolução do crime organizado transnacional, suas alianças, modus operandi e o impacto de novas tecnologias. Essa pesquisa deve ser disseminada para informar o debate público e as políticas, evitando que narrativas políticas ou preconceituosas dominem a compreensão da ameaça.
Educação e Conscientização Pública: Promover uma maior conscientização pública sobre a complexidade do crime organizado é vital. Isso inclui combater a desinformação e a xenofobia, e incentivar uma compreensão baseada em evidências, que distinga entre indivíduos e grupos criminosos específicos, e comunidades ou nacionalidades em geral.
Até meados dos anos 90, presos no Paraná eram vendidos por carcereiros como escravos sexuais. O domínio do PCC mudou essa realidade, impondo novas regras nas cadeias. O podcast Salvo Melhor Juízo trouxe à tona essa transformação, revelando os bastidores da cultura carcerária brasileira.
Também os comprareis dos filhos dos forasteiros que peregrinam entre vós…
O amanhã chegou. Bem… na realidade ele forçou a entrada, e percebi isso ao ouvir uma frase que soou mais ou menos assim: Até 1995 ou 1996, o carcereiro chegava e vendia o preso por, digamos, cinco mil reais para ser escravo sexual.
Não sei se você conhece o podcast Salvo Melhor Juízo, de Thiago Hansen, Carolina de Quadros e Gustavo Favini, mas, se ainda não conhece, deveria conhecer. Os jovens organizadores e apresentadores conversam informalmente sobre questões de direito, cidadania e cultura carcerária, oferecendo um conhecimento profundo em um tom acessível.
Há tempos acompanho o trabalho do trio e sempre me prometia que amanhã vou escrever sobre eles, mas esse amanhã nunca chegava. Algo sempre acontecia: às vezes fazia sol, outras vezes chovia, e quando não acontecia nem uma coisa nem outra, o tempo ficava nublado, e novamente eu deixava para amanhã.
Esta semana tudo mudou. Renato Almeida Freitas Júnior começou a descrever com riqueza de detalhes como era a situação dentro dos presídios paranaenses antes e depois da chegada do domínio do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533). Não dava mais para esperar pelo amanhã. Tinha que ser agora, neste exato momento, e aqui estou.
Essa semana não seria diferente, até que Renato Almeida Freitas Júnior começou a contar como era a situação dentro dos presídios paranaenses, antes e depois do domínio do Primeiro Comando da Capital (Facção PCC 1533). Não deu mais para esperar o amanhã, tinha que ser agora, já, nesse momento, e aqui estou eu.
O trecho que finalmente fez com que o amanhã chegasse começa com Thiago Hansen lançando uma questão profunda, algo assim:
O tópico de hoje é o Mundo Carcerário, mas a questão é: O que acontece dentro das cadeias? O que acontece dentro dos presídios? Qual é o cotidiano das pessoas que estão dentro do sistema prisional? Como é a vida dos indivíduos encarcerados? Os presos acordam e fazem o quê? Quais são os gestos, as linguagens e as gírias dos detentos? Como eles constroem seu próprio mundo? Em uma palavra: qual é a cultura carcerária no Brasil?
Entre outras respostas impactantes, Renato Almeida descreveu mais ou menos assim (se quiser saber exatamente como foi dito, precisará ouvir o programa):
Começamos a perceber que o sucateamento, a invisibilidade e o desconhecimento do que ocorre dentro do cárcere — exceto se você for cliente dele — são deliberados. Trata-se de uma política ativa do Estado, feita para dificultar a organização política e as lutas sociais dentro desse meio. Assim, criam-se códigos próprios e manifestações normativas subterrâneas que não têm qualquer relação com a legislação formal.
Existem duas realidades claras, especialmente quando falamos sobre crime organizado dentro das prisões. Se alguém entra hoje em um presídio controlado pelo PCC, principalmente na capital Curitiba, perceberá um tratamento radicalmente diferente daquele oferecido antes da hegemonia do grupo, que se estabeleceu a partir dos anos 90.
Houve um ganho qualitativo significativo. Suponha que um jovem branco, universitário e de boa aparência fosse preso antes de 1996, quando o PCC ainda não dominava as cadeias do Paraná. Na época, o agente penitenciário o colocava na triagem, como é feito ainda hoje, mas antes de levá-lo para dentro, avisava ao preso mais rico e oferecia o novato, dizendo algo como: Eu vendo ele por cinco mil reais. Negociado o preço, a pessoa era levada para a cela daquele que pagasse mais, e todos sabiam quem era o dono daquele rapaz.
A dinâmica era perversa. O preso comprador usava o jovem como queria, geralmente sexualmente, até que o novato estivesse “bagunçado” — completamente destruído física e psicologicamente. A partir daí, era vendido para outro detento e, já debilitado, passava a servir como ‘cofre’ ou ‘garagem’, escondendo drogas ou celulares no ânus durante as revistas das celas. Reinava a lei do mais forte.
Após a chegada do PCC, essa realidade foi radicalmente transformada, gerando forte adesão ao grupo entre os detentos à ideia do Tribunal do Crime para controlar os abusos dentro dos presídios. Do lado de fora, temos uma visão distorcida, onde alguns demonizam o PCC enquanto outros o romantizam ingenuamente. Na verdade, poucos sabem exatamente como a vida é organizada por eles nas prisões e por que sua influência cresceu tanto. Por que não foram rejeitados pela massa carcerária?
Os oito, dez, vinte que vieram para cá organizaram uma massa, e hoje tem pelo menos umas dez mil pessoas, dentro e fora do sistema, ligadas ao Primeiro Comando da Capital. O código ético implantado pelo crime organizado é a mudança radical, onde não é aceito nenhum tipo de opressão nos presídios, onde você resguarda o mais pobre e o mais fraco.
O amanhã chegou, e trouxe consigo uma realidade dura demais para ignorar.
Análise de IA do texto: O PCC e o aluguel de presos como escravos sexuais no Paraná
Análise sob o ponto de vista factual e de precisão:
Análise Factual e Contraposição de Informações
1. Extração dos Dados Fáticos do Artigo
O artigo apresenta diversas alegações factuais sobre o sistema prisional paranaense, o papel do PCC e a prática de venda de presos para exploração sexual. Os principais pontos factuais extraídos do texto são:
Venda de presos para exploração sexual (antes de 1996):
Carcereiros supostamente vendiam presos para outros detentos por cerca de cinco mil reais.
Esses presos eram explorados sexualmente e, posteriormente, utilizados como “cofre” para esconder drogas e celulares.
PCC e mudança no controle prisional:
O PCC teria assumido o controle dos presídios paranaenses a partir dos anos 90.
Houve uma mudança nas dinâmicas de opressão interna, e práticas como a venda de presos teriam sido abolidas.
Expansão do PCC:
O grupo teria passado de algumas dezenas para pelo menos dez mil membros dentro e fora das prisões.
Controle e “ética” imposta pelo PCC:
O PCC teria implantado um código de conduta que impede a opressão de presos mais vulneráveis.
2. Verificação das Alegações com Informações Conhecidas
Sobre a venda de presos para exploração sexual antes de 1996
A prática de exploração sexual dentro de presídios brasileiros, especialmente contra jovens e indivíduos mais frágeis, é documentada por relatos de ex-presidiários e organizações de direitos humanos. No entanto, a alegação de que carcereiros vendiam presos abertamente por valores estipulados carece de comprovação documental extensa. Existem registros de violência sistemática e abuso dentro dos presídios na década de 90, mas a afirmação de que a venda era institucionalizada e amplamente praticada por agentes penitenciários não é amplamente corroborada por relatórios independentes.
Sobre o domínio do PCC nos presídios paranaenses
O PCC começou sua expansão no Paraná no final dos anos 90 e consolidou seu domínio nos anos 2000, especialmente após a rebelião de 2001 em São Paulo. O grupo se tornou uma facção predominante no sistema penitenciário do estado, mas sua influência em Curitiba durante os anos 90 não era tão marcante quanto em São Paulo. Portanto, a afirmação de que o PCC já controlava os presídios de Curitiba por volta de 1996 pode ser um exagero temporal, pois foi nos anos 2000 que essa influência se consolidou.
Sobre a expansão do PCC
O número de membros do PCC cresceu exponencialmente ao longo das últimas décadas. Em 2017, um relatório do Ministério Público estimava que a facção possuía mais de 30 mil membros. A estimativa de “pelo menos dez mil” mencionada no texto pode ser conservadora, dependendo do recorte de tempo e da abrangência (interno e externo ao sistema prisional).
Sobre o código ético do PCC
O PCC de fato implementou um conjunto de regras internas, conhecidas como a “Sintonia”, que estabelece normas para os presos filiados à organização. Documentos internos da facção e relatos de detentos indicam que a proibição de abusos contra presos mais fracos e o fim da exploração sexual são medidas reais dentro das prisões dominadas pela facção. No entanto, há registros de que essa “proteção” tem um viés estratégico, funcionando como forma de controle e recrutamento. A imposição dessa ética não significa ausência de violência interna; há relatos de execuções sumárias dentro dos presídios por descumprimento das normas do PCC.
Conclusão
O artigo traz informações relevantes sobre a transformação do sistema prisional paranaense e o impacto do PCC, mas algumas alegações podem estar apresentadas de forma mais sensacionalista ou carecem de fontes documentais robustas:
A venda de presos para exploração sexual pode ter ocorrido de forma clandestina e localizada, mas não há evidências amplamente reconhecidas de que isso era um esquema sistemático operado por agentes penitenciários.
O domínio do PCC no Paraná se consolidou nos anos 2000, e a influência que o artigo sugere para 1996 pode estar exagerada.
A expansão do PCC e a implantação de seu código de conduta são amplamente documentadas, mas sua atuação é pragmática e voltada ao controle das cadeias, não necessariamente altruísta.
O artigo acerta ao apontar a mudança de dinâmica dentro do sistema prisional paranaense e o papel do PCC nesse contexto, mas algumas datas e afirmações específicas precisam de mais respaldo documental.
A evolução do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Da origem do PCC no Regime Militar e às decisões dos governos subsequentes, culminando na atual situação de crime organizado no Brasil, e o papel da sociedade em permitir o crescimento dessas facções e revela a evolução do pensamento e da condução da facção desde seus primeiros dias.
Aaniversário do PCC: uma oportunidade para refletirmos sobre sua origem e impacto na sociedade, mas primeiramente, permita-me parabenizar as várias gerações que presenciaram o nascimento e a ascensão do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533).
Aniversário do PCC: os militares e as sementes vermelhas cariocas
O Primeiro Comando da Capital nasceu das sementes plantadas durante o Regime Militar. Este período histórico proporcionou o ambiente ideal para o surgimento da Falange Vermelha, que surgio em 1979 na Prisão da Ilha Grande, durante o governo do último presidente do Regime Militar, o General Figueiredo..
Foi nessa prisão que bandidos comuns de alta periculosidade foram colocados na mesma cela que prisioneiros políticos, dando origem à Falange Vermelha, precursora da facção PCC e de tntos outros grupos criminosos do Brasil.
Os governantes paulistas
Os governadores do estado de São Paulo, que tanto se esmeraram em criar o grupo criminoso paulista e fortalecê-lo, não podem deixar de serem lembrados. No final desse artigo faço um resumo da contribuição de cada um deles, ou podem ler a matéria sobre o sunto no site.
Agora, a nova geração enfrenta o desafio de conviver com facções criminosas profissionalizadas e violentas. Infelizmente, a vitória contra essa ameaça parece estar além do alcance, devido à atual cultura brasileira.
Embora seja tentador nos excluir da lista de culpados, a verdade é que todos nós, enquanto população, tivemos um papel em sua formação. Nossa participação veio através de ação ou inação, permitindo a perpetuação da situação.
Governadores do Estado de São Paulo e suas políticas carcerárias e de Segurança Pública
15 de março de 1983 até 15 de março de 1987 humanizou os presídios na sua gestão, priorizando a democracia, a transparência e os direitos dos detentos Franco Montoro
15 de março de 1987 até 15 de março de 1991 estratégia violenta e repressiva de lidar com a criminalidade, foi a primeira grande ruptura na era democrática Massacre do 42º DP – fevereiro de 89 Orestes Quércia
15 de março de 1991 até 1 de janeiro de 1995 massacre do Carandiru – 2 de outubro de 1992 desativação e demolição do Carandiru política de interiorização e divisão dos presídios fundação do PCC – 31 de agosto de 1993 Luiz Antônio Fleury
1 de janeiro de 1995 até 6 de março de 2001 criticou a ausência de direitos humanos nos governos anteriores e optou por políticas de negociação e patrulhas mais brandas criação de vagas no sistema penitenciário como uma de suas principais ações políticas Mário Covas
6 de março de 2001 até 31 de março de 2006 política de aumento da repressão policial e mais mortes em confrontos mega rebelião em 29 unidades prisionais – fevereiro 2001 PCC ganha visibilidade pública e demonstra eficácia em suas ações massacre Operação Castelinho – fevereiro de 2002 Regime Disciplina Diferenciado RDD – dezembro de 2003 muitos que trabalharam na repressão ganharam fama na vida política Geraldo Alckmin
31 de março de 2006 até 1 de janeiro de 2007 mega rebelião e ataques do PCC – maio de 2006 Cláudio Lembo
1 de janeiro de 2007 até 2 de abril de 2010 manutenção da política de Segurança Pública de Alckmin hegemonia do PCC com queda da taxa de homicídios Crescimento progressivo da população carcerária Fotalecimento da ROTA e investimentos na PM José Serra
2 de abril de 2010 até 1 de janeiro de 2011 Alberto Goldman
1 de janeiro de 2011 até 6 de abril de 2018 aumento da população carcerária investimento em ferramentas de investigação contra as organizações criminosas número alarmante de encarcerados durante a gestão de Alckmin, com aumento de mais de 50.000 presos em apenas 4 anos aumento da violência e letalidade policial Geraldo Alckmin
6 de abril de 2018 até 1 de janeiro de 2019 Márcio Franca
1 de janeiro de 2019 até 1 de abril de 2022 João Doria
1 de abril de 2022 até 1 de janeiro de 2023 População carcerária: O Brasil é o terceiro país com maior população carcerária do mundo, com mais de 773.000 presos. Só no Estado de São Paulo são 231.287 presos Rodrigo Garcia
A partir da condenação de Gegê do Mangue, o texto investiga a encenação da Justiça como espetáculo cultural e o modo como o sistema penal se mantém funcional à custa de corpos e narrativas falsas de ordem.
A condenação de Gegê do Mangue revelou mais do que um julgamento: escancarou os bastidores de um sistema que simula justiça enquanto alimenta sua própria engrenagem. Este artigo convida à reflexão crítica sobre o papel do Estado diante do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Leitura incômoda, mas necessária.
🎯 Público-alvo (até 30 palavras): Estudiosos de criminologia, operadores do direito, jornalistas investigativos, militantes anticarcerários, críticos culturais e leitores interessados nas relações entre justiça, poder, espetáculo e crime organizado.
⚠️ Advertência ao Leitor: Este texto contém críticas diretas ao sistema judicial e pode confrontar crenças sobre justiça e segurança. Leitura indicada para quem busca reflexão e não conforto.
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundície.
Matheus 23: 27
A condenação de um homem. O alívio de um sistema. O silêncio de uma facção.
1. O Espetáculo da Justiça
A condenação imposta a Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, não comoveu ninguém além da folha de papel onde foi impressa. A imprensa, como sempre diligente na arte de desviar os olhos, preferiu explorar o escândalo do ator global José Mayer — uma cortina de veludo para encobrir os escombros da Justiça.
Vivemos entre fachadas. A condenação de Gegê não representou justiça, apenas encenou seu cadáver. Foi mais um número no palco de marionetes onde toga, microfone e algema se confundem nos dedos de um Estado que precisa parecer justo para continuar sendo útil. No subterrâneo do Primeiro Comando da Capital, nenhuma engrenagem rangeu, nenhum protocolo foi revisto. A vida seguiu.
E nós? Seguimos como crianças em uma casa em chamas: gritamos, batemos os pés, acreditamos que alguém nos ouve — mas ninguém escuta. Nossas razões, tão legítimas quanto ignoradas, evaporam no calor de um sistema que não está preocupado com nossas esperanças. O PCC tampouco se importa. Gegê tampouco se importou.
Enquanto nas redes sociais celebravam a sentença com emojis de palmas, Gegê dormia — talvez em lençóis de linho, talvez em um leito de fuzis. E havia quem sorrisse diante da condenação televisionada, como se a encenação bastasse para desmontar a arquitetura invisível do poder carcerário.
Sim, o crime foi brutal. Mas a encenação judicial é igualmente cruel. O veredito serviu, acima de tudo, como lenitivo moral para quem ainda acredita que sentenças são capazes de conter o monstro que alimentamos entre as grades.
2. O Sistema Que Alimenta a Si Mesmo
Ninguém tem dúvidas — ou ao menos ninguém que conheça os bastidores: Gegê ordenou, sim, a execução de dois homens na favela do Sapé, no Rio Pequeno. Mandou matar de dentro da prisão, como manda quem conhece bem as rotas do poder. Foi eficiente, limpo, silencioso. Como a própria Justiça gostaria de ser.
Mas o que esse episódio revelou não foi a força do Estado. Revelou sua farsa.
O Código Penal e o Código de Processo Penal, que deveriam proteger o povo, foram gestados por homens que conheciam os atalhos do poder. Criaram dificuldades para vender facilidades. E o mercado floresceu: mais de um milhão de profissionais sustentam esse ciclo — entre as linhas do processo e os bastidores do foro íntimo.
A condenação de Gegê foi útil. Para o Estado, claro. Uma peça de propaganda institucional. Uma pausa coreografada no espetáculo de ineficiência. Uma maquiagem rápida antes do próximo cadáver.
Enquanto isso, os líderes da facção agradecem — talvez em silêncio, talvez com um brinde. Não pedem regalias. Pedem regras. Pedem respeito. E com isso, paradoxalmente, ganham algo mais valioso que qualquer privilégio: legitimidade interna.
A maioria da população, pacífica e esquecida, quer apenas viver — mas é essa mesma população que sustenta, com seu medo e sua esperança, o mito de uma Justiça que age em seu nome, mas que há muito trabalha por si mesma.
O julgamento de Gegê do Mangue não enfraqueceu o PCC. Fortaleceu sua narrativa. De um lado, o Estado posando de justiceiro. Do outro, os criminosos vestindo o manto dos oprimidos.
Gegê está morto — sim. Mas enquanto viveu, morreu rindo do veredito. E a sociedade, sedenta de sangue, ainda clama por novas condenações, como se isso bastasse. Quer ver os mesmos de sempre criando novas dificuldades — e vendendo soluções num ciclo que, em vez de justiça, entrega cadáveres.
Análise de IA do artigo: Gegê do Mangue condenado a 47 anos e 3 meses
Análise sob o ponto de vista factual e de precisão
Segue uma análise objetiva, separando os dados fáticos do artigo e avaliando-os criticamente com base em informações do meu banco de dados (atualizado até junho de 2024) e fontes jornalísticas confiáveis.
🔎 I. DADOS FÁTICOS PRESENTES NO TEXTO
1. Identidade e condenação
Nome completo: Rogério Jeremias de Simone
Alcunha: Gegê do Mangue
Organização: Primeiro Comando da Capital (PCC)
Condenação: Duplo homicídio triplamente qualificado e formação de quadrilha
Pena mencionada no título: 47 anos e 3 meses de prisão
📌 Verificação:
Gegê do Mangue foi de fato condenado por homicídio e envolvimento com organização criminosa, sendo uma das figuras centrais do PCC. Ele possuía diversas condenações criminais, inclusive por execuções ordenadas de dentro do presídio, como ocorre no caso citado.
Contudo, não há registro público confiável de que ele tenha sido formalmente condenado a exatamente 47 anos e 3 meses de prisão. A pena citada parece combinar múltiplas condenações, mas não consta nos sistemas oficiais como uma sentença única ou final pública nesse total exato.
2. Execução na favela do Sapé
Local: Favela do Sapé, bairro do Rio Pequeno, Zona Oeste de São Paulo
Crime: Execução de dois criminosos, supostamente ordenada por Gegê de dentro do presídio
📌 Verificação:
O bairro e local citados são verdadeiros e associados a atividades do PCC.
Gegê do Mangue, enquanto preso, foi acusado e investigado por ordenar execuções. No entanto, não há comprovação pública específica sobre sua condenação formal por execuções no Sapé, embora a prática de comando remoto seja frequente e documentada no modus operandi do PCC.
3. Imprensa destacou escândalo com José Mayer em vez da condenação de Gegê
📌 Verificação:
José Mayer enfrentou denúncias de assédio sexual em 2017, que repercutiram nacionalmente.
É plausível que parte da imprensa tenha dado mais destaque ao escândalo com Mayer do que a uma condenação criminal de Gegê, mas isso é uma avaliação editorial subjetiva, não um dado factual mensurável. A imprensa tradicional cobre frequentemente ambos os temas, embora com enfoque variável.
4. Gegê “seguiu livre”, sem alterar sua rotina após condenação
📌 Verificação:
Este ponto é incorreto ou cronologicamente inconsistente. Gegê do Mangue foi assassinado em fevereiro de 2018, junto a Fabiano Alves de Souza (Paca), em uma emboscada em Aquiraz, no Ceará.
Ambos estavam foragidos, vivendo com alto luxo, após abandonarem o sistema prisional de forma suspeita.
Portanto, dizer que “seguiu livre” após a condenação é tecnicamente verdadeiro por um período, mas ele acabou sendo executado por racha interno ou vingança entre lideranças do PCC.
5. Referências aos eventos de São Paulo (2006) e Espírito Santo (2017)
📌 Verificação:
São Paulo, 2006: confirma-se o ataque coordenado pelo PCC contra o Estado, resultando em mortes de policiais, agentes penitenciários e civis. Um marco na atuação paramilitar da organização.
Espírito Santo, 2017: refere-se ao colapso do sistema de segurança pública durante a greve da PM, com centenas de mortes e domínio de grupos armados nas ruas. Embora não diretamente ligado ao PCC, foi uma demonstração de caos sistêmico que o texto utiliza como analogia.
🧠 II. ANÁLISE CRÍTICA E CONTRAPONTO FACTUAL
Trecho do artigo
Análise factual
“Gegê do Mangue foi condenado por duplo homicídio triplamente qualificado e formação de quadrilha.”
Parcialmente correto. Ele teve várias condenações, mas não se localiza com clareza um processo com essa tipificação única e isolada.
“A imprensa preferiu destacar o escândalo com José Mayer.”
Subjetivo. Há indícios de desequilíbrio editorial, mas não há como medir objetivamente.
“Gegê seguiu incólume, sem alterar a rotina.”
Falso. Ele fugiu do sistema prisional, viveu foragido no Ceará e foi assassinado em 2018.
“Execuções na favela do Sapé ordenadas por Gegê.”
Possível, mas não comprovado judicialmente nos registros públicos como parte de uma condenação específica.
“Sistema jurídico opressor se alimenta de si mesmo.”
Opinião/teoria política, não um dado. O número de advogados no Brasil ultrapassa de fato 1 milhão, mas não significa que todos estejam comprometidos com práticas descritas.
“Os ‘oprimidos’ saem vitoriosos com o descrédito do Estado.”
Narrativa interpretativa, não mensurável. Pode ser usada como análise, mas não é verificável factualmente.
“O ciclo nos leva à ruptura, como visto em 2006 e 2017.”
Comparações factíveis e plausíveis, embora distorcidas em parte, pois 2017 no ES não envolveu PCC diretamente.
📌 Conclusão
O artigo mistura fatos reais com interpretações subjetivas e analogias dramáticas. Isso faz parte do estilo proposto — com tons de denúncia e crítica social carregada. No entanto, alguns pontos importantes merecem correção ou contextualização, especialmente:
Gegê não estava mais em cárcere quando morreu. O texto passa a ideia de que ele permaneceu intocado pelo sistema, o que não é preciso.
A pena exata citada (47 anos e 3 meses) não aparece de forma inequívoca nos documentos públicos.
A suposta execução de criminosos no Sapé é plausível, mas falta referência específica à condenação correspondente.
Apesar dessas imprecisões, o artigo levanta questões legítimas sobre a teatralização da Justiça penal, a ineficácia da punição como resposta estrutural e o aproveitamento político-midiático das condenações. Do ponto de vista narrativo, cumpre o papel de provocar reflexão. Do ponto de vista factual, exige alguns ajustes e esclarecimentos para não cair no campo da desinformação.
Análise sob o ponto de vista da Psicologia Jurídica
Analisando o texto sob o ponto de vista da psicologia jurídica, o que se observa é uma articulação profunda entre representações sociais da Justiça, dinâmicas coletivas de crença no sistema penal e os efeitos subjetivos da punição enquanto espetáculo. Abaixo, segue uma leitura organizada por eixos analíticos:
⚖️ 1. A Justiça como Encenação: alienação e catarse coletiva
O texto denuncia o que a psicologia jurídica reconhece como um modelo teatralizado da justiça penal, onde a punição cumpre uma função simbólica, não necessariamente reparadora. Essa ideia encontra respaldo nas teorias de Michel Foucault, mas também nas leituras de autores como Eugenio Raúl Zaffaroni, que abordam a “teatralidade do processo penal”.
“A condenação de Gegê não representou justiça, apenas encenou seu cadáver.”
🔍 Análise:
A sociedade demanda punição como forma de alívio psíquico coletivo, independentemente da eficácia concreta da sentença.
A figura do condenado vira um bode expiatório moderno. A condenação é celebrada publicamente como um ritual de purificação social, mesmo que não tenha efeito real sobre a estrutura criminosa.
O espetáculo judicial atende à função catártica, liberando angústias difusas da população diante da insegurança cotidiana. Isso reforça o “mito da justiça punitiva”, estudado por Zaffaroni e Nilo Batista.
🧠 2. Despersonalização do réu e fetichismo da sentença
“Enquanto nas redes sociais celebravam a sentença com emojis de palmas, Gegê dormia…”
🔍 Análise:
A psicologia jurídica aponta o risco da despersonalização do sujeito condenado, que deixa de ser um indivíduo concreto (com história, contexto, motivações e grau de periculosidade) e passa a ser apenas um símbolo: o “bandido que precisa pagar”.
Essa fetichização da sentença estimula o que a criminologia crítica chama de função narcotizante do Direito Penal: oferece uma sensação ilusória de segurança e resolução, enquanto os problemas sociais estruturais permanecem intactos.
O uso da figura de Gegê como símbolo de uma justiça funcional (quando não é) também serve para legitimar o próprio sistema penal, mesmo que este fracasse em sua função ressocializadora.
🔄 3. O ciclo da punição e a retroalimentação do sistema penal
“O julgamento de Gegê do Mangue não enfraqueceu o PCC. Fortaleceu sua narrativa.”
🔍 Análise:
A crítica aqui toca diretamente em um ponto sensível da psicologia jurídica: a dialética entre punição e resistência.
Quanto mais repressivo o sistema, mais ele alimenta discursos de vitimização e resistência interna entre os sujeitos encarcerados, favorecendo o fortalecimento identitário de facções.
A punição, quando não acompanhada de legitimidade e clareza, passa a ser percebida como instrumento de opressão e não de justiça, gerando solidariedade defensiva dentro do cárcere — um fenômeno amplamente descrito por psicólogos forenses e sociólogos penitenciários.
👥 4. Dimensão psicossocial: sentimento de impotência coletiva e projeção de culpa
“Seguimos como crianças em uma casa em chamas…”
🔍 Análise:
A metáfora não é meramente literária: ela evoca um estado psíquico coletivo de impotência aprendida, conceito desenvolvido por Martin Seligman, que mostra como a exposição prolongada a situações de injustiça sem saída leva à apatia ou à revolta irracional.
A sociedade se sente impotente diante do crescimento do crime organizado e, para compensar, projeta sua frustração em rituais de punição exemplar.
Isso reforça o que a psicologia social chama de processo de desresponsabilização estrutural: “eu não mudo o sistema, mas aplaudo quem é punido em meu nome”.
🧩 5. Legitimidade, respeito e coerência: os valores que sustentam ou destroem o sistema
A psicologia jurídica tem destacado que a percepção de justiça é mais importante que a própria severidade da pena. Isso se alinha à ideia de “justiça procedimental” (Tyler, 1990).
Quando o condenado — ou o coletivo ao qual ele pertence — percebe que o tratamento recebido é arbitrário, contraditório ou humilhante, o sistema perde sua autoridade simbólica.
Nesse vácuo de legitimidade, facções como o PCC se apresentam como ordenadores morais alternativos dentro das prisões — oferecendo um “código” onde o Estado falha.
🔚 6. Conclusão: o ciclo traumático da justiça simbólica
Seu texto é, sob a lente da psicologia jurídica, um retrato agudo de uma sociedade aprisionada em um ciclo de encenação, punição e frustração. O sistema penal brasileiro, como você denuncia, opera menos como agente de pacificação social e mais como instrumento de alívio simbólico para a classe média ansiosa e para o próprio Estado — ambos reféns de suas inseguranças e conveniências.
A encenação da condenação de Gegê serve para acalmar consciências, preservar estruturas e manter o ciclo punitivo rodando, mas não oferece nem justiça real, nem segurança concreta.
Justiça em Cena: A Cultura Punitiva como Espetáculo no Brasil
por ChatGPT (OpenAI)
O texto de Wagner, ao narrar a condenação de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, propõe mais que uma denúncia jurídica: escancara as fissuras de uma cultura nacional que transformou a Justiça em ritual, e o sistema penal em dramaturgia institucional.
No Brasil, o veredito muitas vezes importa menos que sua encenação. A toga, o microfone e a câmera convergem num palco onde o Estado, fragilizado por sua própria ineficiência, tenta reafirmar sua autoridade através da punição visível, embora vazia. Essa cultura do espetáculo punitivo não busca resolução — busca aparência. A condenação de Gegê, nesse contexto, não desarticula a organização criminosa à qual pertencia. Serve, antes, como gesto simbólico: uma oferenda pública à sede moral de uma sociedade acuada.
A crítica torna-se ainda mais ácida ao expor o modo como a imprensa — e, por extensão, a cultura midiática — desvia o olhar para escândalos mais vendáveis, como o de um ator famoso, abandonando o debate estrutural que envolve o crime, o cárcere e a Justiça. Aqui, não se trata de omissão, mas de uma escolha cultural deliberada: o Brasil, habituado à teatralização do caos, consome violência como espetáculo e justiça como novela.
O texto ainda insinua um paradoxo incômodo: em meio à inconstância moral do Estado, é a facção que emerge com discurso coerente. Não pede favores, mas regras. Não exige impunidade, mas previsibilidade. Essa inversão simbólica, ao mesmo tempo que revela a falência do aparato estatal, aponta para uma cultura carcerária que se organiza, impõe códigos e, paradoxalmente, oferece uma narrativa mais sólida do que a do próprio Direito.
Por fim, ao evocar episódios como São Paulo em 2006 e o Espírito Santo em 2017, o texto aponta para um traço trágico da cultura política brasileira: a repetição. A justiça não corrige, apenas reinicia. O sistema não aprende, apenas ensaia. A morte não é exceção — é engrenagem.
Diante disso, o artigo de Wagner não é só um comentário sobre o crime. É um diagnóstico cultural de uma sociedade que aprendeu a conviver com a barbárie como se fosse parte do cenário. Um teatro que já não precisa de roteiristas, pois o script se autoescreve — com sangue, silêncio e sentença.
Acho que terei que, na humildade, pedir permissão para chegar no privado do Geral dos Estados e Paísespara que ele deixe claro o posicionamento da facção Mercado do Povo Atitude (MPA) em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).
Ninguém duvida que a MPA é uma das facções ligadas ao PCC na Bahia, no entanto, ela não aparece na listagem de aliados e inimigos do final de 2017. Confira comigo: ALIADOS DO PCC NA BAHIA Bonde do Maluco (BDM) Outro de Ouro A geita FAL BNT PCA INIMIGOS DO PCC NA BAHIA Comando da Paz (CP) Comando Vermelho (CV) Terceiro Comando de Itabuna (TCI) FACÇÕES EM PAZ COM O PCC APE Katiara MTA Os cavera PG Suave Jorge
Algumas são muito conhecidas, outras, para a maioria das pessoas, nem existem. A dúvida permanece: cadê a facção Mercado do Povo Atitude? Será que ela ainda existe ou será que Gilberto estava falando a verdade?
Faz tempo que ouço falar dessa tal facção Mercado do Povo Atitude. A primeira pessoa que me trouxe notícias desses criminosos baianos foi Mário Bittencourt, repórter do A Tarde, em dezembro de 2011. Isso já faz mais de cinco anos, e a organização criminosa já estava com a Família 1533:
Naquele tempo, já se sabia que a MPA tinha nascido nas ruas próximas ao Mercado do Povo, no Baião em Porto Seguro, e que já havia se expandido para os bairros do Paraguai e do Ubaldinão, sob o comando de André Marcos dos Santos, o tal do Buiú. Mário conta um caso que mostra que a facção MPA, mesmo no começo, já corria pelo lado certo do lado errado da vida:
Sei que é difícil acreditar em um político, eu sei, mas têm alguns que falam a verdade, e talvez tenha sido esse o caso. Isso explicaria o porque de o nome da facção aliada MPA não constar na lista de 2017 — como diria o padre Quevedo: “non ecziste”.
O repórter Pedro Ivo Rodrigues, do site O Xarope, relata que o prefeito de Porto Seguro, Gilberto Abade, se reuniu com as autoridades alguns dias após a morte de Alelúia. Entre outras coisas, o político afirmou:
Segundo Gilberto, já não são nem as bruxas e nem os comunistas que matam criancinhas, agora são os facciosos do MPA. O preço a ser pago pela segurança pública é agora a eterna vigilância de toda a sociedade contra esses homens maus.
As declarações do prefeito de Porto Seguro foram feitas há mais de cinco anos, e nos esclarece a omissão do nome da facção Mercado do Povo Atitude na lista de aliados e inimigos do PCC.
Gilberto Abade, Jaques Wagner e toda força policial municipal, estadual e federal já devem ter acabado com meia dúzia de semi-analfabetos sem capacidade e estrutura.
Antônio Mateus Soares, Matheus Reis de França e Claudemir Santana acreditam que isso é uma característica dessa era de transição, na qual os limites ainda não estão claramente estabelecidos — afinal, não há mais o certo ou o errado, tudo agora é relativo.
O certo é que devido a insustentabilidade social dessa época, jovens que não conseguem se adaptar às necessidades de um mundo globalizado busquem estabilidade no mundo do crime, mais simples, em que o certo é o certo e quem corre pelo errado morre — simples assim.
Nesse mundo construído por Gilberto Abade e Jaques Wagner, no qual estão garantidas a segurança dos cidadãos e a integridade das famílias de bem, não há espaço para facções criminosas como as descritas pelos pesquisadores.
No entanto, Antônio Matheus e seus colegas afirmam que a facção não só se manteve viva e forte mas também estava ombro à ombro com a facção paulista:
O MPA — Mercado do Povo Atitude —, facção que atua no sul e extremo sul da Bahia e, segundo depoimento de membro da facção e de policiais, possui vinculação com o PCC — Primeiro Comando Capital —, que, além de emprestar os princípios ideológicos de funcionamento, operacionaliza a distribuição de armas de fogo e de drogas no atacado para a comercialização.
Os autores também fazem uma síntese comparativa entre o MPA e o CP:
MERCADO DO POVO ATITUDE MPA. — Bairro Baianão. Ligação: PCC-SP — Símbolo: Caveira e Cruz (1533 MPA) — Estratégia: queima de ônibus; bloqueio de vias; toque de recolher; e celebração de luto; — Grupo coeso e hierárquico. Produto de consumo da marca Cyclone (bonés, camisas e bermudas). COMANDO DA PAZ CP — Área do Campinho. Ligação: CP-Salvador — Símbolo: Escorpião (315 CP) — Estratégia: esquartejamento de corpos — Grupo pulverizado com ritos de execução, mas primam pela discrição no seu cotidiano. Produto de consumo da marca Nike (bonés, camisas e bermudas).
Normalmente, quem defende que as facções criminosas, assim como o próprio crime, são questões policiais e devem ser enfrentadas com o uso da força são pessoas ligadas à área da Segurança Pública ou a seus admiradores. Essa, no entanto, é uma defesa incoerente.
Acredito que Gilberto Abade, Jaques Wagner e o delegado Evy Pedroso, assim como as “mais de 20 equipes especializadas da Polícia Militar e efetivos da Polícia Civil na cidade e a Polícia Federal”, tenham se esforçado por derrotar as facções baiana e paulista nesses últimos cinco anos.
Porém, ambas estão maiores e mais fortes que há cinco anos — talvez, seja a hora de abandonar a abordagem positivista e macartista e seguir o exemplo daquele que nem é da facção, o Marcola, e mergulhar no mundo líquido para combater o crime organizado.
Antônio Matheus e seus colegas destacam que quem morre de fato são os garotos dos corres e aqueles que se envolvem no crime sem se adequarem às suas regras, seja pelas mãos da polícia ou dos próprios colegas. Apesar disso, o grupo continua se fortalecendo.
Inocente não vira presunto, não se mata gente da gente! Não se mata turista da orla. Aqui no baianão só morre quem corre pelo errado, que trai a facção e a parceria, e os boca aberta, mas antes passa a caminhada.
Matar polícia é cabuloso, o bagulho lombra a parada, atrapalhação na certa, a gente respeita a farda e eles nos respeita. É moral, parceria! Polícia não mata traficante patrão, depende do horário, do momento e da situação, mata ‘noía’ e ‘comédia’, traficante de verdade, só dança se não tiver moeda, ou se dê azar. A polícia mata ‘nóia’ e ‘otário’, tem tempo que entra na favela e mata três, quatro e cinco, só para falar que estar fazendo seu trabalho.
Juntos somos fortes, unidos somos invencíveis — PCC MPA
Seis de março de 2018, seis anos e quatro meses após Gilberto ter afirmado que os porto-segurenses podiam dormir tranquilos, são os eunapolitanos que acordam em meio a uma guerra — prova que nem sempre político mente!
A Mercado do Povo Atitude não foi desestruturada como Gilberto fez crer em 2011. A facção manteve-se fiel ao 15, e tornou-se uma organização criminosa profissional, aproveitando-se da política paulista de fortalecimento e profissionalização das alianças locais.
A Operação Costa do Descobrimento, da Polícia Federal, provou que os homens do Primeiro Comando participaram da ação armada em março e garantiram a infra-estrutura para a operação, com o aluguel de um galpão para ser utilizado como base operacional, com documentos falsos e com a constituição de uma empresa em São Paulo para abrigar contas bancárias.
Acho que será melhor eu nem chegar no privado do Geral dos Estados e Países para que ele deixe claro o posicionamento da facção Mercado do Povo Atitude (MPA) em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) — a Polícia Federal já respondeu a questão.