Lula e a expansão do PCC no Paraguai

Mito ou realidade?

Em minha pesquisa me deparo constantemente com mitos tratados como realidade. Matéria assinada por Rosendo Duarte no prestigiado site ABC Color garante que o crime organizado espera incrementar suas ações em Canindeyú após a posse do presidente brasileiro Luiz Inácio da Silva:

E as perspectivas de negócios na fronteira são crescentes porque acreditam que o presidente Lula será mais dócil que seu antecessor.

Tribunal do Crime busca Marabel

O jovem Bruno Marabel que está preso no Paraguai por matar toda a sua família conseguiu na Justiça proteção contra a facção PCC 1533.

O Primeiro Comando da Capital teria julgado Bruno Marabel no Tribunal do Crime da facção PCC 1533 e o teria sentenciado à morte o jovem que matou em 2020 sua mãe e seu padrasto, a mulher com que com ele vivia e seus dois filhos de 6 e 4 anos.

Outras fontes apontam que Bruno não teria sido aceito dentro da facção, mas que teria comprado favores dentro do cárcere com o dinheiro e os presentes que lhe são enviados pelos fãs, no entanto acabou se enrolando nas contas e ficou devendo dentro do sistema carcerário.

El caso de Bruno Marabel “la casa del horror de Paraguay” | Criminalista Nocturno

Por ter sido torturado por agentes carcerários em na Penitenciária Nacional de Tacumbú, Bruno foi transferido para Centro de Rehabilitación Social (Cereso) de Itapúa onde teria sido alertado que sua vida estaria em risco. Devido a natureza de seus crimes, a organização criminosa PCC teria decidido que o jovem deveria morrer. Transferido novamente, agora para a Penitenciaría Regional de Concepción.

Habeas Corpus Genérico a favor de Bruno Marabel Ramírez.

Em uma rara decisão, a Suprema Corte de Justiça (CSJ) emitiu um habeas corpus que obriga que as autoridades garantam a segurança de Bruno do Tribunal do Crime do PCC 1533.

Cristina Kirchner e a facção PCC

As ligações políticas da vice-presidente Cristina Kirchner com o casal Zamora a envolveria com a facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital?

Por um estranho e tortuoso caminho…

O Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) está na porta de entrada da Argentina, na “Madre de Ciudades”, como é conhecida Santiago del Estero, a mais antiga cidade platina fundada por colonizadores espanhóis. É o que afirma o jornalista americano Douglas Farah no relatório intitulado “Un caso de estudio de la convergencia criminal internacional: Santiago del Estero, Argentina”.

Farah é especialista em segurança internacional na América Latina e presta consultoria em sua área ao Banco Mundial, FMI, Departamento de Estado dos EUA, Departamento de Defesa, DEA e OEA, entre outras instituições e é frequentemente requerido como testemunha pelo Congresso dos Estados Unidos.

Segundo Farah, os narcotraficantes da facção brasileira PCC estão em conluio com a polícia provincial e as autoridades políticas, trocando proteção uns aos outros em suas esferas de poder e o governador da província, Geraldo Zamora, e sua mulher Claudia Ledesma Abdala, que também já foi governadora da província, se alimentam e alimentam essa estrutura.

Para Farah, grande parte do poder do casal Zamora vem da proteção que recebem de Cristina Kirchner, em termos políticos e fiscais, e a ela fornecem base não apenas no campo político. Dessa forma e por esse tortuoso caminho, o periódico La Nación repercutiu o trabalho do pesquisador que, “em tese”, vincula a vice-presidente Argentina à organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

Grandes organizações criminosas como as Farc na Colômbia ou a Mara Salvatrucha na América Central sempre se envolveram com as forças policiais e as elites políticas, no entanto, apesar de ocasionalmente utilizarem o território argentino não criaram. Já a facção PCC 1533 ameaça estender seu poder não só nas periferias e prisões, como também pela nata da sociedade platina.

reportagem completa El malabarista de la ilegalidad dos articulistas Alberto Fernández e Alfredo Sábat

A ilusão hipnótica e a facção PCC 1533

A falácia de apontar o Primeiro Comando da Capital como peça fundamental no crime organizado na Região Norte do Brasil.

Alguém, por algum motivo, espalha aos quatro ventos que o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) domina o crime, aterroriza a política, a polícia e a população da região amazônica. Nada é menos real.

Quem ganha com esta desinformação?

Penso que as organizações criminosas que atuam na região se beneficiam com o uso dessa antiquíssima técnica: a ilusão hipnótica.

Chamando a atenção para um ponto de modo a ocultar outro, deixando-o fora do alcance da capacidade sensitiva e liberando-o de vencer as barreiras racionais daquele que deve sofrer o engodo, pois as áreas de seu cérebro que deveriam processar de maneira crítica a informação sobre um ponto acaba por desconsiderá-lo em detrimento de outro.

Essa técnica quando utilizada por uma pessoa se chama hipnose e pode fazer sumir uma moeda ou um mação e fazê-las aparecer em outro ponto. Essa técnica quando utilizada por um grupo se chama política e pode fazer sumir uma etnia ou uma floresta e fazê-las aparecer em outro ponto como dinheiro.

O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles do governo Jair Bolsonaro descreveu essa técnica como “deixar passar a boiada”: enquanto incentivavam e mudavam a legislação para facilitar a exploração ilegal de madeira e minerais na região amazônica chamavam a atenção para a perigosa presença entre os índios yanomâmis do rei da Noruega Harold V ou dos integrantes da facção paulista Primeiro Comando da Capital.

Nem mesmo quando a Polícia Federal apreendeu com 77 Kg de ouro dos garimpos ilegais em terras indígenas o tenente-coronel Marcelo Tasso, o sargento Gildsmar Canuto (ambos da Casa Militar), e alguns soldados da Polícia Militar de São Paulo, poucos meses depois do presidente Jair Bolsonaro haver entregue aos militares paulistas o controle sobre as terras yanomâmis, a imprensa e das redes sociais parecem ter acordado do transe.

Não foram poucas as vezes ao longo da última década que acompanhei os altos e baixos da facção PCC 1533 nos estados do Norte do país, mas a facção nunca chegou a assumir o poder que lhe atribuíram sendo que no artigo “Abandonados, crias do 15 entram em extinção no Acre” faço um apanhado da precária situação dos paulistas por aquelas bandas.

A plataforma de ciência ambiental e conservação Mongabay, em 2021, elaborou um mapa delimitando as áreas de atuação de cada grupo criminoso. No entanto, o projeto de pesquisa denominado “Cartografia da Violência na Amazônia” foi elaborado com dados obtidos nos anos anteriores e refletem a derrocada e o racha da facção Família do Norte (FDN).

Após esse período, parte da facção FDN se consolidou como o Cartel do Norte, que inicialmente se aliou ao PCC e posteriormente tornou-se seu inimigo. O dinamismo das guerras entre as gangues no Norte transformaram o belíssimo trabalho de compilação de dados do projeto Mongabay em um registro de um passado.

No entanto, mesmo esse quadro publicado no artigo Organized crime drives violence and deforestation in the Amazon, study shows captou o efêmero momento no qual Primeiro Comando da Capital esteve em seu ápice, mas mesmo nele podemos notar a insignificância do PCC nessa geleia geral que é a divisão das pelo menos duas dezenas de grupos criminosos nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Rondônia, Roraima, e Tocantins.

Se em tese a Ilusão Hipnótica é a capacidade de usar fortes ilusões para alterar e controlar os comportamentos e ideias dos seus alvos, na prática é apontar para o poder do rei da Noruega ou da facção paulista para desviar a atenção dos grupos paramilitares e militares envolvidos com madeireiros e garimpeiros em terras indígenas.

O narcomercado africano e a facção PCC

A importância do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) no tráfico de drogas do continente africano?

Artigo original de Alessandro Ford para o site InSight Crime: Cocaine Trade Grows in East and Southern Africalivre tradução

Comércio de cocaína cresce na África Oriental e Meridional

De acordo com pesquisas recentes, à medida que os mercados globais de cocaína se expandem, remessas de drogas muito maiores estão chegando aos países da África Oriental e Meridional do que se acreditava anteriormente.

A Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC) aponta que investigações de mercados de drogas em 16 países encontraram níveis consideráveis ​​de consumo local, além de fluxos crescentes de tráfico para a Europa e a Austrália.

As cargas viajam principalmente em contêineres marítimos saindo do porto de Santos no Brasil, embora também haja um fluxo constante de pessoas levando consigo quantidades menores através do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. A maior parte dessas cargas desembarca em países costeiros como África do Sul, Moçambique, Quênia e Tanzânia, para serem posteriormente traficadas para outros continentes, ou mesmo para o interior da África.

Como resultado de tudo isso, tem havido um próspero comércio de drogas cuja verdadeira magnitude é desconhecida devido à fraca capacidade de interceptação. Os corredores de tráfico mais famosos do continente estão no oeste e no Norte da África, mas como eles têm maior capacidade de monitoramento – por exemplo, os porta-aviões navais franceses que patrulham o Golfo da Guiné – é difícil fazer comparações com base apenas nos dados de apreensão.

Abaixo, o InSight Crime apresenta três fatos importantes sobre o progresso da cocaína na África Oriental e Meridional.

Preços de varejo da cocaína em toda a região. Cortesia de Jason Eligh e do GI-TOC

Corredores de tráfico de grande escala

Os traficantes de cocaína enviam regularmente grandes remessas para vários países da região. Isso ocorre de três formas: em contêineres, em embarcações marítimas, como barcos de pesca, e por meio de esquemas de narcotráfico da América Latina.

A investigação identificou vários portos receptores principais, como Durban na África do Sul, Pemba e Nacala em Moçambique, Dar es Salaam e Zanzibar na Tanzânia, Mombaça no Quênia e Walvis Bay na Namíbia.

Por outro lado, observa o relatório, os navios desembarcaram ou deixam drogas “ao longo das costas leste e oeste da África do Sul, na costa norte de Moçambique entre Angoche e Pemba, nas águas costeiras de Zanzibar e Madagascar, na costa queniana de Kilifi a Lamu e as águas costeiras da área marítima da Somália-Quênia“.

Os esquemas de microtráfico são os mais diversos, tanto em termos de método de contrabando como de destino. Essas cargas, geralmente com menos de 5 quilos, podem viajar por correio, ser transportadas por mensageiros humanos em voos comerciais ou em bagagens abandonadas que são recolhidas por funcionários cúmplices nos aeroportos.

As taxas de interceptação são muito baixas e os mensageiros humanos viajam facilmente pela região. Abundantes conexões significam que o Aeroporto de Bole em Adis Abeba, Etiópia, e o Aeroporto Internacional Oliver Tambo em Joanesburgo, África do Sul, são os principais pontos de conexão para a Europa, Oriente Médio e Ásia.

Os traficantes de drogas da Nigéria há muito dominam os fluxos marítimos e aéreos desde que estabeleceram postos avançados de navegação em São Paulo, Brasil, no final dos anos 2000. Em 2013, eles já organizaram até 30% das exportações de cocaína por navio ou contêineres do porto de Santos , segundo relatório publicado naquele ano pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

o porto de Santos, Brasil

Mais recentemente, em dezembro deste ano, a polícia prendeu um suposto traficante de cocaína nigeriano em São Paulo. Ele era acusado de embarcar cinco toneladas de cocaína, em outubro de 2021, do porto do Rio de Janeiro para a Europa via Moçambique. Além deste caso, no entanto, acredita-se que os atores nigerianos tenham perdido terreno, diz Jason Eligh, autor do relatório e especialista ligado ao GI-TOC.

Eles desempenham um certo papel, particularmente em termos de distribuição regional de cocaína no Leste e Sul da África. O que não se sabe é o tamanho desse papel hoje, em comparação com uma década atrás, por exemplo.

disse Eligh ao InSight Crime

A chegada do PCC, a organização criminosa brasileira

A ascensão meteórica de outro grupo pode ter sido a causa do deslocamento dos nigerianos: o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), a maior quadrilha carcerária do Brasil. Desde meados da década de 2010, o PCC com sede em São Paulo dominou o tráfico de drogas do Brasil para a Europa, transformando o porto de Santos em um centro global de comércio de cocaína.

Além disso, o grupo começou a enviar volumes crescentes de drogas para a costa atlântica da África nos últimos anos, a fim de diversificar o trânsito para a Europa e estabelecer novos mercados na África e na Ásia. As ligações linguísticas, históricas e de transporte fizeram de Moçambique uma rota importante, especialmente devido à sua proximidade com a África do Sul, o principal centro de distribuição de cocaína da região.

O país se tornou um nó de trânsito regional para os carregamentos de cocaína da quadrilha do porto de Santos tanto para o mercado regional, principalmente a África do Sul, quanto para a Europa e outras áreas.

afirma o relatório da UNODC
a costa de Moçambique

Uma mistura de vários fatores, como a presença de funcionários locais flexíveis, pouco desenvolvimento de infraestrutura, conexões multimodais de transporte para mercados europeus, uma língua comum e o hábito de fechar os olhos para o movimento de mercadorias ilícitas, como heroína, fez de Moçambique a escolha natural como caminho viável para sua rota de distribuição de cocaína.

conclui o documento da UNODC

Em 2020, o narcotraficante brasileiro Gilberto Aparecido dos Santos, vulgo “Fuminho”, que permanecia foragido das autoridades internacionais, foi preso junto com dois comparsas nigerianos na capital moçambicana, Maputo, onde estaria organizando tráfico de drogas para o Primeiro Comando da Capital. A imprensa brasileira destacou então que ele já havia feito negócios em vários países vizinhos.

Depois disso, não houve mais prisões de integrantes do PCC na região. No entanto, é provável que o grupo continue a rumar para a África Meridional no futuro. A única dúvida é se vai enviar membros da facção “batizados”, como Fuminho, para organizar os embarques, como alegadamente está a fazer em Portugal, ou se vai recorrer a intermediários externos.

Consumo surpreendentemente alto

Uma das principais conclusões do relatório é que os mercados de cocaína na África Oriental e Meridional estão muito mais desenvolvidos do que o esperado. Tanto a droga em pó quanto o crack estão amplamente disponíveis em toda a região, e estima-se que o uso seja surpreendentemente alto em vários países.

Por exemplo, de acordo com uma estimativa, os 60 milhões de habitantes da África do Sul podem consumir até 19 toneladas de cocaína por ano. Em uma base per capita, isso é comparável à Austrália, um dos maiores consumidores de cocaína do mundo, cujos 25 milhões de pessoas consumiram cerca de 5,6 toneladas de cocaína entre 2019 e 2020, de acordo com o último Relatório de Dados sobre Drogas Ilícitas do país.

Além disso, a pureza também é relativamente alta. O número mais recente do UNODC, em 2017, coloca a pureza média de um grama de cocaína em pó na África do Sul em 55%, em comparação com 60% no Reino Unido no mesmo ano, o maior consumidor de cocaína da Europa.

Divisão de três gramas de cocaína em pó em uma cidade costeira do Quênia. Cortesia de Jason Eligh

E a renda é abundante. Em dezembro de 2022, um quilo de cocaína em pó estava sendo vendido no atacado na África do Sul por algo entre US$ 26.000 e US$ 29.000, diz Jason Eligh. Isso é um pouco menos do valor comercializado em algumas áreas da Europa Ocidental. Da mesma forma, o relatório estima que o preço médio de varejo por grama foi de US$ 38 na África do Sul em 2021, o que, embora baixo para a Europa, ainda é muito bom.

O mercado também não se limita à África do Sul. Seus vizinhos, Essuatíni (antiga Suazilândia) e Lesoto, consomem uma quantidade impressionante per capita; de sua parte, Malawi supostamente tem oito vezes mais usuários de cocaína do que usuários de heroína. O crack é amplamente usado na Zâmbia, e o comércio de cocaína no Quênia é lucrativo o suficiente para causar uma competição violenta entre os traficantes.

Em resumo, a pesquisa indica que a região não deve mais ser considerada periférica em relação ao comércio global de cocaína. (…) É um importante ponto de destino para o mercado.”

diz Jason Eligh

Um estranho caso no Uruguai

Uma militante uruguaia narra como foi arrastada para o centro de uma guerra entre facções e governos. Sem nunca ter vendido drogas, sobreviveu à tortura, à traição e à repressão. Um grito de desespero por justiça social e dignidade no meio da falência moral do continente.

Em meio a um Uruguai dividido entre facções, Estados e traições, este relato pessoal revela o impacto brutal da guerra por controle das drogas — com menções diretas ao Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Leia e descubra como sobreviver virou resistência numa América Latina esvaziada de utopias.


Público-alvo:
Militantes de esquerda, usuários de drogas, pesquisadores em criminologia, jornalistas, ativistas por políticas de drogas, profissionais da saúde mental e leitores interessados em narrativas reais com crítica social latino-americana.

Se fosse um inimigo que me insultasse, eu o suportaria; se fosse o meu adversário que se levantasse contra mim, dele eu me esconderia. Mas és tu, meu igual, meu companheiro, meu amigo íntimo.

Salmo 55:12-13

Vou contar minha história.

Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles nesses meus trinta e oito fevereiros vividos.

Lido com os códigos da velha escola da consciência de classe. Sou de esquerda e, embora tenha crescido entre bandidos, fui abençoado e muito cuidadoso, e nunca esperei que a traição viesse de um irmão, de um oprimido, pois para mim o inimigo eram os opressores, eram os fascistas.

Nestes últimos dois anos vivi coisas horríveis!

Pela primeira vez sofri a traição daqueles, sendo meus irmãos, cantavam canções revolucionárias comigo, e acredite, dos quais eu nunca teria imaginado sofrer uma traição que quase me matou, mas cuja dor me ceifou minha fé no homem.

Nasci em fevereiro de 1984, não tenho antecedentes criminais, morei em São Paulo, Bahia, Romênia, e muitos outros lugares sem nunca ter traficado. Respeito quem o faça, mas não é meu bastão — amo demais a classe trabalhadora, não poderia agir assim.

Apesar eu mesmo ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.

Eu e muitos outros, militamos pela legalização da maconha no meu país, o Uruguai. Conseguimos. A ideia era, com a legalização haver maior controle sobre o comércio desses produtos.

No final nada disso aconteceu. Como o governo não estatizou ou nacionalizou as empresas, nós apenas regularizamos o mercado para as empresas estrangeiras exportarem nossa produção — passamos a ser vacas de ordenha para sermos sugados por investidores estrangeiros.

Se eu planto, eles roubam, não tem brotos de qualidade na periferia, só prensagem paraguaia, e um bom broto vale tanto quanto cocaína. Tudo para o lucro dos capitalistas dos narcóticos. Entendo agora o porquê, poucos dias depois da legalização, os EUA ameaçaram o presidente José Mujica de congelar as contas bancárias uruguaias em território americano: queriam que a produção não pudesse ser nacionalizada e por isso o Uruguai só regulamentou o comércio.

Nós que militamos pela legalização de nossa produção fomos espancados pela polícia e agora, as empresas estrangeiras podem explorar esse mercado e nos deixar com as migalhas, colhendo os frutos de nossa luta.

No Uruguai a guerra continua! Na periferia, a direita perdeu o mercado de drogas, mas encontrou o caminho perfeito para virar o jogo: usam cavalos de Tróia!

A estratégia é procurar um consumidor ou parceiro de negócios e ao menor deslize ou crime, estes são presos e o preço de sua liberdade é pago com a traição de seus colegas, amigos ou familiares.

Muitos aceitam participar desse novo mercado que antes pertenciam as organizações criminosas argentinas ou a facções brasileiras como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Mais cedo ou mais tarde esses que aceitaram participar desse novo mercado acabam sendo presos por algum motivo e negociam sua liberdade com a condição de se infiltrarem para entregar seus antigos comparsas de facção.

Eu nunca pertenci ao tráfico de drogas, sou apenas um usuário, jornalista, cabeleireiro, e anarquista ligado às lutas sociais. Cresci em um bairro de trabalhadores e estudei no bairro de La Blanqueada. Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda, universitários, ateus, católicos, brasileiros, argentinos, e todo o tipo de gente boa e ruim.

Eu não me importo como cada um escolhe viver sua vida, desde que não seja fascista, nem policial, nem vote na direita, se tem códigos antiquados e a consciência de classe é a única coisa que me interessa.

Há dois anos minha vida se tornou um inferno.

Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros — só voltaria depois de avisar a todos do risco e da família ou os companheiros decidirem que queriam se arriscar.

Se alguém em risco me avisasse, eu correria o risco, mas sem avisar! Cagando para minha segurança e a da minha família, aí não! Isso para mim não é a ética de um bom criminoso — o certo pelo certo!

Há dois anos aluguei de um amigo uma pequena estância, lugar onde eu vendo artesanato com meu pai de coração, um ex-prisioneiro político pelo Partido Comunista da Argentina, um homem que merece o céu, incorruptível.

Eu com esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos, e entoávamos o hino “Violencia es Mentir”! E foi esse amigo quem colocou em risco a vida e a liberdade minha e a de toda a minha família.

Eu havia alugado um quarto em uma fazenda para usarmos para nossa diversão. Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem e, de repente, em uma noite de muita tensão, eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.

Não estávamos só nós dois, haviam outros amigos e eles falavam muito, e descobri que eles roubaram drogas de alguma das facções e para pagar tinham que roubar outro traficante que ia descarregar a mercadoria de uma embarcação.

Eu e minha família não tivemos nada com isso! Eu e minha família fomos colocados por eles na linha de tiro de grupos criminosos poderosos — eu matei, mas morreria por minha família.

Imagine meu avô de 88 anos, seguindo os antigos códigos de conduta, onde se uma chave de fenda é roubada da loja de móveis ele não chamaria a polícia, preferia ele mesmo ir procurar o ladrão e lhe quebrar o joelho. Imagine se ele descobre o roubo da cocaína!

Pequei um dos que estavam metidos nessa enrascada. O derrubei e coloquei seu pescoço debaixo de minha perna. Ele me ameaçou dizendo que era da facção brasileira Comando Vermelho.

A mãe desse CV chamou um amigo dela da polícia, mas para sua surpresa veio a Guardia Republicana criada por Mujica, que me levou para o Comissário de Castillos, onde inventaram uma falsa ordem para abordar minha família — ou eu aceitaria participar do esquema de denúncia ou a ordem seria cumprida.

Foi aí que entendi o que estava acontecendo. Como os negócios se davam entre o Uruguai, a Argentina e o Brasil; e entre os grupos criminosos Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC).

O Primeiro Comando da Capital pelo menos administra muito bem a empresa: dá tranquilidade e não obriga ninguém que não pertence ao mundo do crime de se integrar a facção.

A partir daí minha vida foi um inferno.

As pessoas descobriram ao longo do tempo que ninguém de fato é livre. Todos pagam por sua liberdade às autoridades e às facções. Quiseram me prender de várias maneiras e me silenciar.

Um antigo amigo do papai que há muito não aparecia veio com a desculpa de comer um churrasco, mas depois de um tempo apareceu com uma van que parecia ter sido puxada: com vidros quebrados e com muita droga.

Ele me convidou para participar de um esquema e eu exigi que ele fosse embora. Inconformado com a resposta, ele me sequestrou por dois dias durante o inverno. Enquanto fiquei cativo, minha cabeça era enfiada minha cabeça gelo enquanto me torturava, para no fim, plantar a van na porta da minha casa e me entregar para a Polícia de Azul, denunciando que eu estava com as chaves, sendo que, essas vans são destravadas por um sistema eletrônico!

Um pesadelo sem fim.

Depois de um tempo, apreenderam um caminhão de um paraguaio e eu estaria envolvido; depois foi algo haver com um estuprador que continuava foragido; e assim como essas, outras denúncias apareciam — toda vez que começo a me recuperar, eles invadem minha casa e roubam meus telefones.

Eles esperam que eu cometa um erro ou desista de resistir e negocie como outros fizeram minha paz e liberdade, mas eu prefiro morrer a ser um miserável traidor.

Não é minha guerra!

Eu obviamente prefiro o Primeiro Comando da Capital onde se corre pelo certo, mas meu lugar de militância é no social e não quero me envolver com o crime.

Espero que essa guerra termine e que eu e meus avós, que dedicamos nossas vidas pelo socialismo, não mais sejamos torturados pelo fascismo ou pela guerra por domínio de drogas!

Se eu morrer amanhã, não foi ajuste de contas, pois nada vendi. Não é que sou incorruptível, mas não deram nem o preço, mas meu lugar é na imprensa ou trabalhando com as crianças para tirá-las das mãos dos tiranos que agem com violência e mentira.

somos filhos de trabalhadores viciados em oxi

Se usássemos a mesma energia para encontrar uma dose para fazer a revolução, a realidade da América seria diferente. As utopias de esquerda morreram na periferia, você não sente cheiro de revolução, você só sente cheiro de crack, chumbo, abuso, paramos a exportar ladrões de primeira linha e ao invés de jogadores de futebol, hoje os garotos não jogam mais bola em bairros populares, todos querem ser traficantes, sem importa que envenenar seu colega de classe faz parte.

Traição é pão de cada dia, te vendem por um segundo fogo e nem por 3 gramas. Não há garantias de resistência real para o viciado, não há lugar em clínicas ou prazo inferior a 6 meses em psiquiatria. A droga é cortada cada vez mais, e com uma qualidade cada vez menor.

Só consigo pensar em uma solução, que os Estados de cada país latino nacionalizem o mercado de drogas, eu disse nacionalizar não regulamentar. É a humilde opinião de uma filha de trabalhadores viciada em oxi.


Análise de IA do artigo: “Um Estranho Caso no Uruguai”.

🔍 Dados fáticos e temas centrais

TemaAfirmação
Identidade e trajetóriaNasceu em fevereiro de 1984; morou em São Paulo, Bahia, Romênia e outros locais; não tem antecedentes criminais; é usuário de drogas, jornalista, cabeleireiro e anarquista.
Política de drogas no UruguaiMilitante da legalização da maconha; legalização foi aprovada, mas sem estatização; produção e comércio favorecem empresas estrangeiras.
Ameaças e perseguiçõesRelata sequestro, ameaças de membros do Comando Vermelho, perseguições policiais, invasões domiciliares e repetidas tentativas de envolvê-lo em crimes.
Crítica ao modelo de legalizaçãoA legalização foi moldada de modo a impedir nacionalização da produção; afirma que os EUA teriam ameaçado Mujica com sanções bancárias caso nacionalizasse.
Facções criminosasPCC e CV estariam atuando no Uruguai; o PCC seria mais organizado e respeitoso com quem não pertence ao crime; o CV mais impulsivo e violento.
Sistema de delação e infiltraçãoAfirma que presos são libertos sob a condição de trair antigos companheiros, passando a atuar como informantes infiltrados.
Conflitos pessoaisUm amigo próximo teria roubado drogas, colocando sua vida e a de sua família em risco com organizações criminosas.
Violência estatalDenuncia abusos por parte da Guardia Republicana, com uso de ordens falsas e coação para que aceitasse colaborar como delator.
Crítica social e ideológicaLamenta a falência da utopia socialista nas periferias; diz que jovens estão cada vez mais envolvidos com o tráfico; denuncia hipocrisia de parte da esquerda.
Proposta finalDefende a nacionalização (não apenas regulamentação) do comércio de drogas nos países latino-americanos como solução para romper com o ciclo do crime e da repressão.
📌 Análise de precisão factual (com base no banco de dados e fontes confiáveis):
PontoVerificação e comentários
Legalização da maconha no Uruguai✅ Verdadeiro. Aprovada em 2013 sob o governo Mujica, com modelo de regulação estatal, mas produção foi em grande parte concedida a empresas privadas sob controle rígido. O Estado não estatizou a produção.
Ameaças dos EUA a Mujica⚠️ Parcialmente plausível, mas não confirmada oficialmente. Houve preocupações dos EUA sobre lavagem de dinheiro, e o Uruguai negociou com bancos internacionais, mas não há prova pública de ameaças diretas com congelamento de contas.
Atuação do PCC e CV no Uruguai✅ Há registros de investigações uruguaias e brasileiras apontando atuação esporádica e articulações de grupos brasileiros no cone sul, especialmente em zonas de fronteira. Porém, sua presença não é estrutural como no Brasil ou Paraguai.
Sistema de delação premiada informal⚠️ O Uruguai não possui um sistema amplo de delação premiada como o brasileiro. Acusações de delações forçadas ou uso de informantes não são documentadas em escala sistêmica, embora possam ocorrer pontualmente.
Guardia Republicana criada por Mujica✅ Verdadeiro. A Guarda Republicana é uma força especial da Polícia Nacional uruguaia reforçada durante o governo Mujica para lidar com crimes graves e narcotráfico.
Exploração por empresas estrangeiras após legalização✅ Real. As duas principais empresas inicialmente autorizadas a plantar cannabis para distribuição foram estrangeiras ou com capital estrangeiro. Pequenos produtores criticaram a centralização da produção e as restrições.
Situação de drogas adulteradas e falta de tratamento✅ Estudos e reportagens indicam precariedade na qualidade das drogas vendidas na periferia, aumento de consumo de oxi e crack, e déficit de políticas públicas de saúde mental no cone sul.

O relato possui uma base factual sólida nos seguintes aspectos: contexto político da legalização no Uruguai, presença episódica de facções brasileiras no cone sul, repressão estatal às margens da legalidade, e marginalização dos usuários. Contudo, há trechos que, embora verossímeis e coerentes com dinâmicas conhecidas, carecem de comprovação pública — como o uso sistemático de delatores ou pressões diretas dos EUA sobre Mujica em forma de ameaça bancária.

Trata-se de um testemunho de valor documental, marcado pela vivência subjetiva e leitura crítica de um militante, e não de um texto jurídico ou investigativo. Por isso, suas verdades repousam no campo do vivido e do simbólico, mais que do verificável em fontes oficiais.


Análise do texto sob o prisma da Teoria da Associação Diferencial

📌 1. O comportamento criminoso é aprendido — não herdado biologicamente

Texto: “Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles.”

Análise: O narrador reconhece ter aprendido valores, códigos e posturas através da convivência direta com pessoas do meio criminoso, político e operário. O ambiente social de origem era diverso, e não patologicamente criminoso — mas continha elementos de transgressão política e penal. Esse aprendizado é social, não genético.

📌 2. A aprendizagem ocorre em interações com pessoas próximas

Texto: “Eu e esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos […] e foi esse amigo quem colocou em risco a minha vida e de minha família.”

Análise: A traição vem de dentro da rede de convivência. A teoria prevê que o sujeito é mais vulnerável ao comportamento desviante quando a influência vem de pessoas emocionalmente significativas. A proximidade afetiva foi um vetor de risco.

📌 3. A aprendizagem inclui técnicas e racionalizações do crime

Texto: “Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem […] eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.”

Análise: O narrador demonstra domínio de códigos e estratégias que fazem parte do universo criminal, ainda que negue sua adesão prática a ele. Isso está em linha com a ideia de que se aprende não só a agir, mas a pensar e interpretar o mundo à maneira dos grupos desviantes.

📌 4. O contato com definições favoráveis ou desfavoráveis ao crime determina a inclinação para delinquir

Texto: “Apesar de ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.”

Análise: A convivência com criminosos não levou o narrador a cometer crimes. Isso se explica pela preponderância das “definições desfavoráveis ao crime” no seu arcabouço moral: há um código ético de classe e resistência, que ele valoriza mais do que a adesão ao crime. Sua recusa ativa ao tráfico demonstra que, embora exposto a valores criminosos, ele internalizou outros — ético-revolucionários, por assim dizer.

📌 5. O comportamento criminoso é aprendido como qualquer outro comportamento — pelas mesmas formas de comunicação e experiência

Texto: “Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros.”

Análise: O narrador revela que aprendeu “a ética do crime” da mesma forma que se aprende qualquer valor social: pela observação, convivência, fala e prática. Não se trata de uma simples adesão irracional ao mal, mas da internalização de um código de honra paralelo ao legal.

📌 6. A intensidade, frequência e duração das associações influenciam na aprendizagem

Texto: “Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda…”

Análise: A grande diversidade de contatos indica que o narrador foi amplamente exposto a múltiplas influências ideológicas, criminosas e sociais. Segundo Sutherland, esse tipo de ecossistema pode gerar conflito moral interno, mas também fornece alternativas para escolhas não criminosas, como é o caso.


📌 7. A associação diferencial pode explicar tanto o crime quanto a resistência a ele

Texto: “Prefiro morrer a ser um miserável traidor […] Meu lugar é na imprensa ou trabalhando com crianças.”

Análise: O protagonista, apesar da exposição intensa ao crime, recusa-se a aderir à prática. Isso reforça a ideia de que, embora o ambiente seja um fator determinante, ele não é absoluto: os significados atribuídos a essas experiências e os grupos com os quais o indivíduo mais se identifica moralmente podem moldar sua conduta em outra direção.

Conclusão da análise com base na Teoria da Associação Diferencial

O relato é um exemplo claro da aplicação da teoria de Sutherland. O narrador vive em um meio onde há forte presença de elementos criminais, mas a socialização com ideais éticos da classe trabalhadora, do anarquismo e da militância social atua como um contrapeso às pressões desviantes.

Ele aprendeu os códigos do crime — conhece sua linguagem, estratégias e limites — mas os recusa com base em valores internalizados por outras associações diferenciais, mais morais, mais comunitárias.

Sua trajetória mostra que o crime não é fruto apenas da miséria ou da predisposição pessoal, mas de uma rede de interações, códigos morais e oportunidades simbólicas.


Análise do perfil psicológico do autor

A análise psicológica do autor do texto “Um estranho caso no Uruguai” revela um perfil singular, estruturado por três dimensões centrais: vivência de conflito crônico, rigor moral fora da legalidade institucional e resistência política de base afetiva. Abaixo, apresento essa leitura em quatro blocos: identidade, afetividade, funcionamento psíquico e riscos.

🧠 1. Identidade psicossocial

✓ Identidade combativa e marginal-ética
O autor constrói uma narrativa de vida marcada pela convivência com marginais — “comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores” — mas reafirma que a criminalidade nunca foi seu caminho. Essa dualidade (inserção sem adesão) revela um senso de identidade liminar: ele habita os dois mundos, mas se recusa a ser moldado por nenhum que contradiga seus próprios códigos.

✓ Estrutura identitária vertical e herdada
Sua autoimagem está fincada em um ideal de continuidade intergeracional: “meu avô, meu pai de coração, meus companheiros”. Essa rede não é apenas relacional — é simbólica, substituindo o Estado e a legalidade institucional por uma ética própria. Isso sugere forte internalização de valores comunitários e rebeldes, uma identidade que opera à margem da ordem formal, mas se ancora em vínculos afetivos sólidos.

❤️ 2. Afetividade e códigos emocionais

✓ Raiva moral canalizada como crítica social
Há uma fúria constante no texto — contra o sistema, contra os traidores, contra a falsidade institucional — mas que não se desorganiza. Em vez disso, ela é canalizada para narrativas políticas e denúncias sociais. Isso indica alta elaboração da emoção, mas com traços de amargura profunda e desencanto acumulado.

✓ Traição como núcleo traumático
A traição por parte dos “irmãos” que cantavam canções revolucionárias com ele é descrita com mais intensidade emocional do que as ameaças físicas. Isso revela que sua maior vulnerabilidade psíquica está no rompimento dos vínculos simbólicos, não na dor corporal. O trauma relacional o desestrutura mais que a violência estatal.

✓ Ambivalência afetiva persistente
O autor idealiza o crime “honesto” (o código do criminoso de conduta) ao mesmo tempo que o rejeita. Ele admira o PCC por “correr pelo certo” e despreza o Comando Vermelho por envolvimento desordenado com o Estado. Essa ambivalência emocional mostra que seu sistema ético é construído em oposição tanto à lei quanto ao caos, o que impõe constante tensão interna.

🧩 3. Funcionamento psíquico

✓ Estrutura de pensamento discursiva e política
A escrita é coerente, articulada, com raciocínio encadeado por causa e consequência, mesmo sob carga emocional elevada. O autor é capaz de reflexão abstrata, faz crítica geopolítica, sociológica e histórica, o que aponta para um funcionamento de ego preservado e maduro em termos cognitivos.

✓ Visão de mundo dualista e moralizante
Há uma divisão clara entre “os certos” e “os errados”, ainda que o autor reconheça a complexidade das ações humanas. Isso pode ser visto como mecanismo defensivo de delimitação do eu, necessário para manter coesão psíquica em ambientes com alta ambiguidade moral. Ele não se perde nos cinzas: opta pelos extremos, mas consciente disso.

✓ Hipervigilância e percepção persecutória fundamentada
Dado o histórico relatado de sequestros, vigilância, ameaças e infiltrações, é esperado que o autor desenvolva comportamentos de hipervigilância. No entanto, ele mantém a noção de realidade, distinguindo-se de quadros paranoides: sua desconfiança é contextualmente plausível e relatada com clareza.

⚠️ 4. Indicadores de risco psicológico

RiscoEvidência no textoInterpretação
Trauma relacional“…ceifou minha fé no homem”Provável vivência de ruptura traumática de confiança, com impacto em vínculos futuros.
Síndrome de estresse pós-traumático (subclínica)Sequestro, tortura, perseguições repetidasIndícios compatíveis com TEPT leve a moderado, ainda não desorganizante, mas marcante.
Pensamento sacrificial“Prefiro morrer a ser um miserável traidor.”Risco de autoexposição excessiva, sustentada por uma ética de honra que pode comprometer a autopreservação.
Uso de substâncias“Sou usuário de drogas.”Reconhece o uso, mas afirma limites claros; há risco moderado de dependência, mas não há sinais de uso descontrolado no texto.
Isolamento social funcional“Minha vida virou um inferno.”Indica restrição de redes de apoio confiáveis; o autor parece operando num circuito de sobrevivência e desconfiança.

✅ Conclusão do perfil psicológico

O autor é um indivíduo de estrutura psíquica preservada, alta capacidade reflexiva e com uma ética pessoal profundamente enraizada na justiça de classe e na lealdade afetiva. Ele demonstra resiliência significativa diante de adversidades graves, mas carrega feridas emocionais profundas, sobretudo no campo da confiança interpessoal.

Seu modo de viver e pensar é condicionado por experiências reais de perseguição e violência, mas sua resposta a isso não é paranoica nem vingativa: é crítica, social e política. Há traços de sofrimento emocional mal processado, mas compensados por engajamento simbólico com causas sociais e produção discursiva (narração, denúncia, articulação).

Sua maior fragilidade psíquica parece estar na solidão moral do justo que recusa tanto o Estado quanto o crime — um território perigoso para quem resiste.

PCC usa caminhão de bombeiros na Argentina

Na Argentina, um cão policial da aduana terminou a verificação da carga em navio no porto bonaerense de Zárate. Ele e o agente que o conduzia já se retiravam quando o cão, passando por um caminhão de bombeiros, parou e insistiu na revista. Assim  o Primeiro Comando da Capital (facção PCC) perdeu 56 Kg de cocaína que estariam seguindo para os portos de Santos ou Paranaguá e de lá para a Europa, onde a carga valeria 3,92 milhões de dólares.

O Rei Arthur e o combate à facção PCC 1533

O assassinato do embrião jurídico e operacional internacional que germinava na UNASUL dificulta o combate à facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

Da corte do Rei Artur ao fortalecimento do PCC 1533

Lúcia Helena Galvão Maya parou para me contar uma história do Rei Artur: O casamento de Sir Gawain e Lady Ragnell.

Eu, assim como você ou qualquer outra pessoa pessoa de bom senso, cheguei às minhas próprias conclusões antes mesmo que Lúcia Helena, que estudou profundamente o assunto, concluísse seu pensamento.

Eu e você sabemos que não faz a menor diferença qual foi a conclusão a que ela chegou, afinal nós sabemos que a moral da história foi: “nós não sabemos o que de fato queremos” – fique claro que quando digo “nós”, não me refiro a mim ou a você.

Caso você não se lembre da história de Lady Ragnell, te refresco a memória:

Um cavaleiro enorme desafia o Rei Artur a descobrir qual seria o maior desejo de uma mulher, e, para cumprir essa missão, o monarca e seu sobrinho Sir Gawain saem pelo império fazendo essa pergunta a todas as mulheres que encontram.

Se você se lembrou da história, beleza, mas caso não, pergunte como ela termina para a professora Lúcia Helena e ela lhe contará.

Esse conto me ajudou a entender o artigo “El Crimen Organizado Transnacional (COT) en América del Sur – Respuestas regionales” dos pesquisadores Jorge Riquelme Rivera, Sergio Salinas Cañas e Pablo Franco Severino.

Arte com o mapa da região da Tríplice Aliança tendo na linha de fronteira um símbolo do Primeiro Comando da Capital.
Estados Divididos fronteiras invisíveis

Um sistema unificado de combate ao crime organizado

No artigo publicado pelo Instituto de Estudios Internacionales, da Universidade do Chile, os pesquisadores concluem que as organizações criminosas transnacionais só seriam contidas se houvesse legislação que desse amparo ao combate internacional.

Eles apontam debates e iniciativas tomadas dentro da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL UNASUR) nesse sentido, como o que propunha a formação de um Tribunal Criminal Sul-americano e o “Conselho Sul-Americano sobre Segurança Civil, Justiça e Coordenação de Ações Contra a Criminalidade Organizada Transnacional”.

Essas entidades seriam moldadas para combater especificamente às organizações criminosas latino-americanas, o que possibilitaria a implementação de medidas legais e operacionais feitas sob medida para uma realidade emaranhada típica do subcontinente:

Na Bolívia, atuam dois grupos colombianos, os urabeños e os rastrojos, em paralelo, quando não em parceria com as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), e além desses as autoridades detectaram a influência dos cartéis mexicanos para o fortalecimento de grupos criminosos locais para se contraporem às facções estrangeiras.

Apenas a criação de uma legislação que possibilitasse a investigação, a prisão e a condenação de criminosos em qualquer nação sul-americana teria chance de vencer a permeabilidade dos grupos criminosos transnacionais.

Arte com um helicóptero sobrevoando a região da Tríplice Aliança sob a frase "pirotecnia midiática"
Pirotecnia Midiática PCC 1533 e polícia

Nosso mais profundo e sinistro desejo

Há mais de uma década ironizo a cobertura midiática das ações promovidas pela “Operação Ágata” e cada novo passos na implementação do SISFRON (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras) por servirem apenas como pirotecnia:

As cenas impressionantes de policiais e militares fechando estradas e cumprindo mandados com helicópteros dando rasantes – apesar de produzirem imagens para a imprensa há quase dez anos, nenhuma biqueira da região sudeste deixou de receber suas drogas ou os criminosos suas armas encomendadas.

A “Operação Ágata” e o SISFRON são ferramentas de combate aos crimes desenvolvidos e operados por profissionais altamente preparados e dentro de um planejamento estratégico para atender aos mais profundos e secretos anseios da população.

Nós não queremos que Lúcia Helena venha a nos esclarecer de qual seria a moral por trás da história do casamento de Sir Gawain e Lady Ragnell simplesmente porque nós sabemos o que queremos ouvir, e talvez não seja exatamente o que ela viesse a nos dizer.

Da mesma maneira policiais e militares que atuam nas operações contra as drogas não querem ouvir que estão atuando apenas em um picadeiro montado para que grupos políticos mantenham entretidos os cidadãos, alimentando-se do medo como os Amanojakus.

As armas e as drogas continuam sendo entregues apesar da eficácia do sistema que não visa de fato a eliminação do tráfico e sim a espetacularização do combate ao crime.

Fotomontagem sobre um mapa antigo da logomarca da UNASUR e do Rei Artur da Távola Redonda. Acima da imagem a frase "Reia Artur, UNASUR e PCC, Segurança Pública é nosso real desejo?"
Rei Artur UNASUL e facção PCC 1533

Manter vivo o inimigo para garantir sua própria existência

Eu, assim como você ou qualquer outra pessoa pessoa de bom senso, sei que o ex-presidente Jair Bolsonaro esteve certo em abandonar a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) por esta ser, segundo ele, um organismo de viés ideológico gramsciano que se baseia em estudos empíricos.

Artur e Gawain não descobriram a resposta para a questão do gigante por terem justamente utilizado uma técnica empírica: perguntar às mulheres sobre seus desejos.

Assim como as mulheres arturianas, nós não sabemos realmente o que queremos e do que precisamos, e daí vem a beleza da política: entender nossos desejos mais profundos e secretos.

Certa vez Fernando Haddad afirmou ao AntiCast que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva possuía esse dom:

Muitas vezes, alguém chegava para pedir algo a ele, mas Lula, com toda a sua sensibilidade às vezes percebia que o que aquela pessoa realmente queria era um pouco de atenção, às vezes um abraço.

O que almejamos, eu, você e qualquer outra pessoa, é que um bom vendedor nos ofereça esperanças e nos mantenha como se estivéssemos assistindo a um filme de suspense na telinha, nos enchendo de medo e expectativa a cada instante.

“Aprendi que as polícias e as políticas de segurança pública são ferramentas políticas muito potentes, e que os governantes dispõem daquelas ferramentas para manter o poder. Eles utilizam o medo do crime ou do terrorismo para manter o apoio de uma grande parcela da população, a qual termina autorizando e até exigindo que as entidades de segurança pública reprimam populações vulneráveis da sociedade por causa daquele medo.”

Yanilda Maria González

Crê que eu esteja errado em minhas conclusões? Bem, tenho 57.797.847 razões para discordar.

O governo brasileiro abandonou a UNASUL porque sua política de combate ao crime organizado difere daquelas propostas pela entidade:

  • Fortalecer a segurança cidadã, a justiça e a coordenação de ações para enfrentar o Crime Organizado Transnacional.
  • Propor estratégias, planos de ação e mecanismos de coordenação, cooperação e assistência técnica entre os Estados membros para influenciar as áreas mencionadas.
  • Promover a articulação de posições de consenso sobre temas da agenda internacional relacionados à segurança cidadã, à justiça e à ação do Crime Organizado Transnacional, favorecendo a participação cidadã e atores sociais e cidadãos no desenvolvimento de planos e políticas nos referidos itens
  • Viabilizar o intercâmbio de experiências e boas práticas, fomentar a cooperação judiciária, as agências policiais e de inteligência e formular diretrizes sobre prevenção, reabilitação e reintegração social.

Enquanto isso o Primeiro Comando da Capital e o ex-presidente Jair Bolsonaro parabenizam a todos aqueles que apoiaram o fim da integração internacional proposta pela UNISUL, assim o espetáculo pode continuar com policiais, militares e helicópteros em voos rasantes.

Governo Bolsonaro termina com poucos resultados

Bolsonaro, então candidato à presidência da República em 2018, afirmou que a prova que o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) fracassou no combate ao tráfico transnacional era os constantes recordes de apreensões de drogas pela polícia, algo que segundo ele, só aconteceria se houvesse um aumento do fluxo. Bolsonaro foi eleito e no final de seu governo a polícia apresentou um recorde no número e na quantidade de drogas apreendidas.

Apesar do Brasil durante o seu governo ter abandonado diversas práticas multinacionais de combate às facções criminosas, em especial ao Primeiro Comando da Capital, o país promulgou em 2020 Acordo Quadro de Cooperação entre os Estados Partes do Mercosul e Estados Associados para a Criação de Equipes Conjuntas de Investigação (Decreto 10.452/2020).

O acordo é um marco no ordenamento jurídico brasileiro, pois complementa o quadro de acordos internacionais sobre assistência jurídica em matéria penal – tanto bilaterais como multilaterais – já ratificados e em vigor no Brasil. No entanto, a criação de Equipes Conjuntas de Investigação -ECI vinha esbarrando na lacuna de instrumentos legais que viabilizavam, por completo, essa forma de cooperação.

Essa ferramenta jurídica complementou outra negociada durante o governo da presidente Dilma Rousseff e assinada por seu sucessor Michel Temer em 2016 (Decreto 13.344/2016) que preparava terreno para a criação de Equipes Conjuntas de Investigação -ECI entre os países membros do Mercosul dentro das normas da Convenção contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas (Convenção de Viena), da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional (Convenção de Palermo) e da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (Convenção de Mérida).

No entanto, apesar de ter avançado, os governos latino-americanos nos últimos anos deixaram a desejar, optando por ações pirotécnicas, inflamando o discurso em detrimento à ações investigativas efetivas e os recentes ações do Novo Cangaço e que a ampliação das áreas de atuação do Primeiro Comando da Capital em Canindeyú e no Norte da Argentina.

Matéria assinada por Rosendo Duarte no prestigiado site ABC Color garante que o crime organizado espera incrementar suas ações em Canindeyú após a posse do presidente brasileiro Luiz Inácio da Silva que se deu em 1º de janeiro de 2022:

E as perspectivas de negócios na fronteira são crescentes porque acreditam que o presidente Lula será mais dócil que seu antecessor.

Tendo a discordar. A troca de Bolsonaro por Lula me parece como trocarmos um espantalho por uma equipe de segurança — enquanto um aparenta eficácia, o outro apresenta resultados.

O cangaço de Lampião e Marcola do PCC

Muitos dizem que o cangaço e as facções criminosas são, antes de mais nada, um fenômeno social. Seria o Primeiro Comando da Capital de hoje o cangaço do passado?

O Novo Cangaço — um grupo ou uma modalidade criminosa?

No Brasil, o Novo Cangaço é uma modalidade criminosa que descreve a ação na qual grupos do crime organizado dominam apenas pelo tempo de duração de um ataque planejado em uma região delimitada — um tipo secular de crime, no entanto, o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) profissionalizou os procedimentos.

Autoridades do Paraguai e da Argentina discutem estratégias para se contrapor aos ataques do Novo Cangaço e vejo tanto a imprensa e quanto autoridades utilizando o termo “Novo Cangaço” para designar uma facção criminosa como se fosse um nome próprio:

O grupo Novo Cangaço se junta ao Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho, Bala na Cara e outros que desembarcaram na fronteira e fincaram raízes em nosso território.

Prensa Mercosur

Não descarto que possa haver algum grupo que tenha se apropriado do nome, no entanto, o importante é estudar o fenômeno em si, como demonstra a morte de diversos membros das forças de segurança e a prisão de um número cada vez maior de profissionais do crime que se especializaram nessa modalidade criminosa.

O Primeiro Comando da Capital já possui em território paraguaio 700 integrantes conhecidos pelas autoridades e suas ações tem se concentrado nas províncias paraguaia e argentina próximas à fronteira com o Brasil.

O criminologista Juan Martens ressalta para o Prensa Mercosur que “Infelizmente, os policiais continuarão morrendo nas mãos de criminosos, enquanto não houver um sistema institucional que os proteja”.

Devido ao planejamento, a sofisticação na execução, aos contatos dentro das forças de segurança pública e privada, e o alto investimento envolvido é impossível os agentes de rua reagirem com eficácia aos ataques, e sua coerção só é possível através de um sofisticado processo de investigação com respaldo em legislação específica — o que pode contrariar interesses políticos.

Quando chegavam, eles chegavam em uma comunidade, aqueles jovens, aqueles adolescentes, sem nenhuma perspectiva de vida, que muitas vezes não tinham nem o que comer, viam aquele bando de homens com armas e roupas imponentes.

Aquela visão impressionava, e muitos desses garotos passavam a desejar para si aquela vida para poder ter esse mesmo tipo de acesso a coisas que eles jamais teriam.

Esse trecho do “Temacast Lampião” poderia estar se referindo tanto ao bando de Lampião quanto a um grupo de criminosos de hoje nas favelas e comunidades carentes brasileiras e agora ultrapassam a fronteira em direção ao Paraguai e a Argentina:

O Temacast, o cangaço e a facção PCC 1533

O Primeiro Comando da Capital é fruto de nosso tempo, mas não tem como não notar as semelhanças entre esse fenômeno criminal e a era de ouro do cangaço ao ouvir o podcast “Lampião”, do canal Temacast.

Lampião (…) cria um próprio poder paralelo, por isso que comparam a ele com os traficantes atuais, por que não existe ausência de poder (…) onde o governo não chega, alguém vai ocupar aquela lacuna, é a chamada ausência do poder legal. O crime exerce o poder por que o Estado não fez antes dele.

Leia este texto, que é uma transcrição de parágrafos inteiros (como o acima), Em alguns deles, substituo a palavra “cangaço” pelo termo “facção criminosa”, e a descrição do passado se encaixa como uma luva para os dias de hoje, mas, se preferir, ouça você mesmo o bate-papo entre os acadêmicos Francisco Seixas, Larissa Abreu, Igor Alcantara e Fabrício Soares: Temacast

O cangaço, as milícias e o PCC 1533

Facções criminosas: milicianas e criminosas

Hoje não há uma clara diferença entre os facciosos oriundos do mundo do crime e aqueles que vieram das milícias, no entanto os milicianos se originaram da mesma forma que os antigos cangaceiros do nordeste.

Os primeiros milicianos tiveram sua origem como meros “prestadores de serviço”, aí o termo prestadores de serviço tem que ficar entre aspas, porque eles prestavam serviços de jagunços para os chefes políticos locais e pequenos empresários das comunidades.

Na década de 1970 e início da de 1980 outros grupos de extermínio agiam por todo o país. Os “mãos brancas” eram grupos de justiceiros compostos por policiais civis e militares que mataram, durante duas décadas, milhares de pessoas.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David
faces controle social tráfico cangaço pol[icia

A finalidade social das facções criminosas

Por outro lado, as grandes organizações criminosas brasileiras cuja origem se deu no mundo do crime, como o Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital e Família do Norte, tiveram sua célula mater na antiga Falange Vermelha (FV), do Rio de Janeiro.

Os primeiros grupos facciosos de que se tem relato eram, na verdade, meros grupos de presos que visavam apenas se autoproteger dentro das muralhas do sistema carcerário, mas que passaram a atuar fora das celas, inicialmente em suas próprias comunidades.

Conta-se que já em 1840, em Feira de Santana, na Bahia, havia um cangaceiro chamado Lucas da Feira, que tinha uma maneira de agir muito parecida com a de Robin Hood: ele fazia os saques e distribuía parte do butim para a comunidade carente.

José Carlos Gregório, o Gordo da Falange Vermelha, afirma que repartir parte dos roubos e do tráfico também era uma das bases da ética criminosa da FV e que isso acabou sendo incorporado por outras facções, como o PCC e o CV.

Assim como o cangaceiro Lucas da Feira, os facciosos faziam uso de extrema violência e crueldade para garantir o sucesso de suas ações, contudo eram aceitos com certa naturalidade e até com boa vontade dentro de suas bases territoriais.

Marcola do PCC Marcos Willians Herbas Camacho

O Lampião de ontem, o Marcola de hoje, e o antagonista de amanhã

Da forma com que a imprensa e a história apresentam Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tem-se a impressão que ambos foram fundadores dos movimentos que representam: facções criminosas e cangaço.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

No entanto, foram apenas frutos de um processo que os antecederam em décadas.

Creio que você, assim como eu, não possui uma bola de cristal que possa lhe dizer como o futuro há de julgar Marcola do PCC, mas, se me basear no passado, em Lampião, posso afirmar que o antagonismo se manterá vivo por muito tempo:

  • odiado, pois sob o ponto de vista da lei, Marcola é, assim  como Virgulino foi, um bandido, um criminoso sanguinário que matava e fazia negociatas sujas com políticos; e
  • amado, pois sob o ponto de vista político, Marcola é, assim como Virgulino foi, uma dessas pessoas que não aceitava o modelo oligárquico, no qual uma minoria privilegiada tem acesso aos bens de consumo e a ampla maioria da população vive disputando um espaço de sol na miséria.
o mito do cangaceiro revolucionários

Jesuíno Brilhante, Lampião e Marcola

A socióloga Camila Nunes Dias afirma que o “O PCC não é revolucionário, é uma organização conservadora e que tem valores como o machismo e o repúdio aos homossexuais”, assim como era o comportamento dos cangaceiros de Lampião.

… meninos entram para o tráfico e meninas pegam uma barriga deles. Quanto mais poderoso e rico é o menino, mas elas disputam entre si pra ver quem vai engravidar dele primeiro. Estamos falando de meninos e meninas de 16 a 20 anos.

Luiz Felipe Pondé

Jesuíno Alves de Melo Calado, o cangaceiro Jesuíno Brilhante, buscava contestar o sistema da forma como ele estava montado, ao contrário de Lampião e Marcola, que se integraram, cada um de seu jeito, ao sistema, se aliando a políticos conservadores.

“Essa visão de mocinho e bandido só existe em história infantil”

Esses ícones do Estado paralelo tiveram suas vidas esmiuçadas por dezenas de estudiosos em milhares de trabalhos acadêmicos e audiovisuais. No entanto não há consenso, alguns refletiram a visão daqueles que combateram o cangaço ou que tiveram seus antepassados mortos ou saqueados por eles; já outros, se basearam nos depoimentos do povo que convivia com eles.

Talvez nunca saberemos, afinal, se era um deus ou um diabo que reinava na terra do sol, assim como não sabemos, hoje, como serão vistos, no futuro, aqueles que reinam nas periferias, nos morros ou dentro do Sistema Prisional.

Qualquer grande líder político, militar ou religioso desperta essa reação de amor e ódio, e, se fizermos uma análise profunda, encontraremos grandes razões para amá-los e odiá-los ― não foi diferente com Lampião e Jesuíno Brilhante, e não será diferente com Marcola.

brincando de segurança pública pcc 1533

O Estado como controlador da violência

Lampião comandou seu homens com pouca resistência no período que sucedeu a Proclamação da República, em 1888, e Marcola viu o fortalecimento de sua organização após a derrubada do Regime Militar e com a Promulgação da Constituição Cidadã de 1988.

Espécies nocivas que frequentam o ambiente se proliferam com rapidez pela falta de predadores naturais, e assim o cangaço e as facções criminosas se fortaleceram na ausência do Estado nos presídios, nas periferias e no sertão nordestino.

Assim como no passado, o medo impera naqueles que comandam os diversos níveis de poder mas não temem a criminalidade tanto quanto temem a eles mesmos:

Os fazendeiros e políticos locais do século XIX e o governo federal temiam a política dos governadores. Um século e meio após, se um candidato à presidência propor a federalização ou a municipalização da segurança pública ― os governadores pirariam!

Dentro dessa realidade, o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) não consegue ser implementado deixando uma via aberta e bem pavimentada para as organizações criminosas enquanto os diversos entes federativos lutam pelo poder.

Getúlio Vargas subindo o morro

Getúlio Vargas para acabar com o PCC?

Até hoje, não há dados confiáveis sobre as questões de Segurança Pública. Cada estado é responsável pelo cadastramento de seus cidadãos e dos criminosos, através da emissão de documentos, e estes não estão disponíveis em tempo real.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não aposta em um novo salvador da pátria e explica suas razões:

Os estados sempre quiseram cuidar das forças de segurança, até a Constituição de Cidadã de 1988 as polícias militares respondiam diretamente às Forças Armadas, mas nós, democratas, lutamos para retirar dos militares esse poder.

A Segurança Pública deve ser gerida pelos estados, os estados nunca aceitaram intervenção porque a polícia é um espaço de poder. O exército não está preparado para enfrentar inimigos urbanos, ele é feito para defender o Brasil de possíveis inimigos externos.

Contra inimigos externos você não conversa, você atira e não é isso que vai acontecer em uma favela. O exército ficou na Favela da Maré um ano e não deu nada, subia tanque do exército na favela e a sociedade ficava acreditando.

No passado também foi assim, pelo menos até que chegou o cara, o salvador da pátria! Getúlio Vargas derruba o poder dos governadores e dos senhores locais e encerra a era de ouro do cangaço.

Talvez apareça um novo messias para nos salvar, talvez o Sistema Único de Segurança Pública dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

A complexa rota do tráfico da facção PCC 1533

A Rota Caipira do PCC e o roubo de aviões nos países fronteiriços.

Avião roubado na Argentina chega à Bolívia

Nem sempre o caminho mais curto é o melhor.

O Paraguai é hoje o principal produtor de maconha da região e o maior corredor de cocaína da Bolívia para a Europa. A coca boliviana é misturada no Paraguai com precursores químicos ilegais que chegam de outros países.

Em seguida, é escondido em caminhões e contêineres para ser transportado para a África e a Europa. Cabo Verde e Roterdã são os principais portos de destino, segundo a Secretaria Antidrogas do Paraguai (Senad).

Catalina Oquendo – El País

A organização criminosa Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) tem como uma das principais portas de entrada do tráfico de drogas e armas a cidade brasileira de Corumbá no Mato Grosso do Sul.

O tráfico internacional de drogas no Cone Sul não é para amadores e o caso do roubo da aeronave Cessna 206 Stationair LV-KEY pode servir como exemplo:

A cidade sul-mato-grossense é de fácil acesso tanto por terra quanto por ar, no entanto, é altamente vigiada pelas autoridades brasileiras. Uma das opções dos traficantes é levar a droga do Paraguai para o Norte da Argentina, onde roubaram o Aeroclub Chaco, o Cessna, sobrevoaram o Paraguai até o Leste da Bolívia quase na fronteira com o Brasil e de lá enviaram por terra para Corumbá, de onde foi jogado na Rota Caipira com destino aos principais mercados consumidores no Sudeste ou para algum porto para exportação.

 O artigo do Diário Norte cita o site InSight Crime que aponta, por fim, que o estado do Mato Grosso do Sul, onde fica Corumbá, “é vital” para o empreendimento criminoso transnacional com suas redes fluviais e suas densas florestas, “que oferecem a cobertura ideal para a circulação de pessoas, animais , armas e drogas”, destacando que a principal quadrilha que atua na área é o temível Primeiro Comando da Capital (PCC).

O periódico La Nacion alerta sobre o perigo das movimentações na fronteira do Primeiro Comando da Capital, a temível e sanguinária quadrilha de narcocriminosos.

No Chaco, o roubo de dois pequenos aviões sugere a entrada do Primeiro Comando da Capital, o grupo de drogas mais poderoso do Atlântico sul-americano.

deputado provincial e Ex-Secretário de Gestão Federal do Ministério da Segurança Nacional Enrique Thomas.

últimas notícias do Primer Comando Capital na Argentina

Capturados no Paraguai PCCs procurados no Brasil

Os três homens atravessaram o rio vindos de Guaíra no Paraná. A cabana em que ficaram à beira do rio em que ficaram quando chegaram fica apenas a alguns quilómetros da zona urbana de Salto del Guairá, sede do Departamento de Canindeyú.

Uma denúncia levou uma equipe da polícia paraguaia ao local onde encontraram com os homens diversas armas longas, uma pistola 9mm e vários objetos que possivelmente seriam utilizados em uma operação criminosa nas redondezas.

Os três criminosos que estavam foragidos da Justiça no Brasil e eram integrantes da facção paulista Primeiro Comando da Capital (facção PCC) foram repatriados assim que capturados.

Reportagem completa com o nome dos envolvidos no La Nación

Preto do Jardim Vitória: Um passeio pelas Biqueiras de Itu

“Preto do Jardim Vitória, um nome que ressoa com sombrias reverberações na trama urbana de Itu. Esta figura, de fato, é um eixo vital na engrenagem do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), desempenhando seu papel na sombria dança do crime organizado. Seu conto, entrelaçado com o do enigmático Lázaro, aguarda ser desvendado em nossa matéria.

Navegue conosco pelas esquinas escuras e ruas sinuosas do submundo do crime, onde o poder se esconde nas sombras. A narrativa a seguir mergulha profundamente na vida destes homens, tecendo uma tapeçaria de destinos influenciados pelas decisões feitas na beira do abismo. Será que eles são simples produtos de um sistema falho, ou há algo mais intrincado em jogo?

Este texto, produzido originalmente em janeiro de 2012, provoca questionamentos e desafia perspectivas. Convidamos você a se juntar à discussão e compartilhar suas impressões conosco. Deixe um comentário no site, participe do nosso grupo de leitores ou envie-me uma mensagem privada. Estamos ansiosos para ouvir suas opiniões e continuar este importante diálogo.”

Preto do Jardim Vitória: O Poder Oculto

Nas profundezas de Itu, cidade do interior de São Paulo, Lázaro, também conhecido como Anselmo, caminha silenciosamente pelas ruas úmidas e estreitas da Rua Zumbi no Jardim Vitória. Sob o brilho difuso das luzes da cidade, refletidas no asfalto molhado, os pensamentos de Lázaro são dominados pela figura de Júlio Cesar, ou “Preto do Jardim Vitória”. Esta personalidade influente, juntamente com Japa, ecoa além das barras de ferro da Penitenciária de Avaré, impondo respeito e poder.

Mesmo que seus corpos estejam aprisionados, seus corações, mentes e ordens permeiam livremente as ruas de Itu, Salto e Indaiatuba. Nada ocorre sem que um deles tenha conhecimento. Em cada esquina e beco dessas cidades, os sussurros de suas ordens são sentidos, uma prova indelével do controle que exercem.

Lázaro: A chegada em Itu

Lázaro entra em Itu pela velha estrada de Salto, na entrada da Favela do Isaac Shapiro. Desvia-se da estrada principal, adentra o bairro e é saudado pela visão de uma “biqueira”, um ponto de venda de drogas brilhando sob a luz lunar e o giroflex de viaturas policiais. A abordagem aos usuários é em vão, pois só encontram pequenas quantidades de drogas.

Recentemente, o Jardim Novo Itu viu uma nova “biqueira” emergir. Esta foi uma conquista do irmão Bola de Fogo, que adquiriu os direitos de exploração do bairro de Júlio César por 10 mil reais. É um lembrete contínuo da expansão do Primeiro Comando da Capital e seu controle sobre o tráfico de drogas na cidade.

Preto do Jardim Vitória: Sob o controle do PCC

A aquisição de biqueiras e o domínio territorial são estratégias de sobrevivência para o PCC. Com o crescimento da facção PCC, a tranquilidade das ruas de Itu é constantemente perturbada. O processo é quase clínico, evitando derramamento de sangue desnecessário e conflitos internos, mantendo a ordem. Lázaro é testemunha disso, observando em silêncio as engrenagens do crime organizado em movimento.

Com a presença policial na Favela do Isaac Shapiro, Lázaro decide seguir em frente para o Jardim Vitória. Estaciona seu carro perto do posto de saúde e prossegue a pé, pronto para cumprir uma responsa. No caminho, seus olhos se desviam para a casa que outrora abrigava Marcelo, um conhecido.

No território do irmão Preto

Marcelo deixou a Rua Zumbi para a Rua Miguel Arcanjo Dutra, carregando mais do que apenas suas posses. Ele carregava a expectativa e o medo de viver sob a sombra do irmão Preto. Nesse momento, Lázaro se vê refletido em Marcelo, ambos moldados e definidos por forças além de seu controle.

Na noite que envolve Itu, Lázaro caminha como um fantasma, observando e compreendendo a realidade sombria da cidade. Ele carrega consigo a realidade de vidas presas na teia complexa da facção PCC, a imagem de uma cidade dominada pelo crime organizado. Cada passo seu é uma homenagem silenciosa àqueles que, como ele, continuam a lutar dentro da complexidade do submundo criminal.

publicado originalmente em 10 de janeiro de 2012 no site aconteceuemitu.org

Abandonados, crias do 15 entram em extinção no Acre

O que significa o acordo de paz proposto pela facção Comando Vermelho para o Bonde dos 13, grupo aliado do PCC?

Os crias do 15 no Norte do país pedem fortalecimento

Há anos os soldados do PCC na região Norte do Brasil não recebem atenção do Primeiro Comando da Capital, ficando cada um por si e só com Deus na sua proteção de todos.

No começo foram integrantes das cidades do interior que reclamavam do abandono: ninguém para passar a visão, ninguém para ajudar no fortalecimento, enfim, ninguém para nada.

Hoje no Acre, os fiéis a camisa do 15 estão: presos, mortos, mocozados, se convertendo para a igreja ou fugindo do estado.

Nunca teve tanto “safado que se esconde atrás da Bíblia” para passar despercebido pela tormenta para voltar ao mundo do crime quando o tempo amainar.

Há algumas semanas, o último PCC de uma cidade do Amazonas, para não morrer, seguiu para Manaus para encontrar fortalecimento para retomar a cidade perdida para o Comando Vermelho. (entenda melhor o tabuleiro manaura)

Fui com ele, e que encontramos não foi melhor do que deixou para trás. O Primeiro Comando da Capital estava entrincheirado em poucas comunidades após ter se desentendido o Cartel do Norte (CDN).

A situação se repete por quase todo Norte e Nordeste:

  • ao oeste, no Acre, o Bonde dos 13 (B-13), antigo e aliado fiel aliado do PCC decide não mais derrubar sangue pelos PCCs;
  • ao centro, em Manaus, derrotas, isolando o PCC em alguns bairros da capital; e
  • ao leste, no litoral, a perda de quase todo o estado do Piauí após o Bonde dos 40 (B-40) se tornarem inimigos, e no Ceará ver o fim da aliança com os Guardiões do Estado (GDE).

A facção PCC na ficção midiática

Se o Primeiro Comando da Capital conseguir manter e ampliar suas parcerias locais no Amazonas e somar suas forças com o colombiano Exército de Libertação Nacional (ELN) e a Segunda Marquetália, grupo formado por dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), terá acesso a corredores estratégicos que ligam as plantações maconha no Peru, aos laboratórios de produção em Baixo Putumayo que estão sob o controle do cartel Jalisco Nueva Generación e do Segundo Marquetalia. — fonte: Karen Vanessa Quintero para o Diario Criterio

perfeito como um jogo de War 2, só que não

Sem noção da realidade

Um indígena yanomâmi afirmou para um canal de mídia, que o ataque sofrido em sua aldeia teria sido executado por mineradores ilegais ligados ao Primeiro Comando da Capital. Essa informação se transformou em verdade absoluta e foi reproduzida por todos os órgãos de imprensa em pelo menos dez idiomas pelo mundo — apesar da região em questão estar sob o domínio do Comando Vermelho e o método e vestimentas dos atacantes serem típicos de milicianos.

Deixando o mundo fantástico da imaginação de lado e olhando para as ruas vemos uma situação muito diferente: o Primeiro Comando da Capital foi devorado pela selva amazônica.

Foto do líder indígena Yanomami Dário Kopenawa e o símbolo do Greenpeace

Yanomami na luta contra o PCC e os garimpeiros ilegais

Dário Vitório Xiriana Kopenawa dirige a organização “Hutukara Associação Yanomami”. Por meio de seu trabalho, ele quer fazer valer as demandas dos Yanomami, entre outras coisas, no nível político. Seu trabalho se concentra em particular nos ataques de garimpeiros ilegais de ouro e crime organizado em sua área e confirma a presença da facção paulista nas regiões Yanomamis:

Já na década de 1980, cerca de 40 mil garimpeiros ilegais invadiram nossa terra Yanomami. O mesmo se repete hoje. Os Yanomami são mortos. Os invasores continuam aumentando. Grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que cometem crimes organizados contra os indígenas, também são uma ameaça. — Dário Kopenawa

Ele também se dirige diretamente aos líderes mundiais:

O que queremos hoje na região Yanomami é a ajuda dos países internacionais. Queremos apoio para pressionar o governo brasileiro. Os “garimpeiros” devem partir imediatamente, antes que mais parentes nossos, crianças e mulheres morram e mais violência aconteça.

O governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro tolerou as maquinações ilegais nos últimos anos de sua gestão, até mesmo encorajando-as com sua retórica agressiva. Ainda não se sabe como as coisas continuarão para a população indígena no Brasil sob o novo governo recém-eleito de Lula da Silva – mas há uma grande esperança de mais respeito pelos direitos humanos.

Trecho do artigo “wert? – Goldrausch in Brasilien zerstört Biodiversität” na página do Grampeasse

Rota dos Solimões: o Acre como estudo de caso 

Fruto da terra e da cultura acreana, o Bonde dos 13 já estava no Acre antes da facção PCC chegar por lá e continuará naquelas paragens muito depois que o PCC deixar o estado.

Integrantes da facção 1533 que saíram de suas comunidades nas Zona Sul e Zona Leste de São Paulo, já voltaram para casa, e os acreanos que aderiram e defenderam a ideologia do PCC com fé morreram, estão presos, mocozados ou acuados.

Em Rio Branco, resistem aos constantes ataques do CV nas ruas na Cidade do Povo (CDP). Resistem graças a uns os caras do PCC da capital, dos “originais” mesmos.

Esses e outros crias do 15 também estão no segundo distrito, na baixada da Sobral e no Recanto dos Buritis. Esses também não rasgam a blusa e nem pulam do barco, mas não dá para saber até quando vão resistir sem receber fortalecimento.

As fronteiras estão quase todas vermelhas e o Peru avermelhou tudo

A traição de crias do PCC e do B-13 por dinheiro ou por conquista de espaço na liderança ou no domínio de quebradas está enfraquecendo ambas facções que perdem armas, domínios e drogas tanto para o CV quando para as próprias forças policiais.

Na fronteira com a BolíviaEpitaciolândia que tá 3, já em Brasiléia só tem 3 em algumas quebradas, o resto já vermelhou; e na fronteira com o Peru o PCC caiu na trairagem007 era o frente do B-13 na cidade e pegou para ele 200 mil Reais do caixa da facção e mais 100 mil do Comando Vermelho e trocou de camisa.

Os cem mil pagos pelo CV para 007 saiu de graça para a facção carioca dominar toda a região do Vale do Juruá: Cruzeiro do Sul, Porto Walter, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Marechal Thaumaturgo, Tarauacá, Feijó e Jordão.

Sobrevivendo em um novo mundo sem PCC

Laços familiares ligam os crias locais do PCC com integrantes do Bonde dos 13 ou do Comando Vermelho e seria questão de tempo até que eles vestissem novas camisas, no entanto, a facção carioca não tem aceitado conviver com ex-PCCs nos seus corres.

Nas quebradas conquistadas pelo Comando Vermelho, os ex-PCCs não são admitidos e tem que correr com o armamento para as domínos dos B-13 para não serem mortos.

A pacificação proposta pelo Comando Vermelho

salve da Trégua do Comando Vermelho em relação ao Bonde dos 13 joga uma pá de cal na fantasia de que o Primeiro Comando da Capital tem força na região — o B-13 também emitiu um salve ratificando o acordo de paz com o CV.

clique na imagem para ler na íntegra

O CV e as forças ocultas que o sustenta

A força do Comando Vermelho no Acre não veio só da sua atuação nas quebradas, mas também das parcerias fechadas com a elite das forças policiais, políticas e econômicas da região…

… peço que não discuta comigo, se não concorda, vá se entender com “Tenente Farias do CV” e não comigo.

Se você não lembra do caso…

O Tenente Farias do BOPE, ops… do CV, colocava as viaturas policiais a serviço do Comando Vermelho: ora para proteger suas quebradas de ataques dos inimigos, ora fazendo operações policiais para enfraquece-los antes dos ataques de seu aliado.

Você arriscaria uma aposta que ele era um ponto isolado fora da curva?

Onde sobrou PCC no Acre

Dentro das trancas os PCCs mais fiéis ainda resistem. Em alguns presídios são pressionados a ficar na sua, mas nos presídios mais estruturados, como no Complexo Presidiário do Rio Branco (FOC), convivem em harmonia com os integrantes do CV e do B-13, e as diferenças são acertadas em debates entre as lideranças.

No Peru tem uma liderança isolada mocozada sem condições de segurar sozinha a maré e em diversas regiões dominadas pelo Bonde dos 13, PCCs recebem abrigo e proteção no sapatinho para não se comprometerem na guerra que não lhes pertence.

No entanto quem um dia foi rei jamais perde a majestade. Crias do Primeiro Comando da Capital mantêm a guerra agora no Departamento de Pando na Bolívia , colocando jovens que como mulas no transporte da droga do Peru para o Brasil, por estarem próximos de Maldonado que é um dos últimos municípios peruanos.

Servindo de entreposto para a cocaína produzida no Vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro (Vraem), que depois segue para Iñapari, que é município fronteiriço com Bolpebra, já em solo boliviano. Na frente está Assis, do lado brasileiro. Lá está a tríplice fronteira, no meio da selva amazônica.

Qual a razão do abandono dos crias no Norte?

O articulista Francesco Guerra do site LatinoAmericando resume bem o que está acontecendo no Acre:

A minha impressão é que esteja se criando uma fratura entre as cúpulas e a base. As cúpulas estão entendendo que, antes de tudo, vem o business, deixando a base continuara a se matar com o CV.

Ele questiona:

O PCC está abandonando o Norte e Nordeste para melhor se concentrar melhor no Sul, fronteira com o Paraguai e o Sudeste?

Uma das alternativas encontradas pelos integrantes do Primeiro Comando da Capital pode ter sido aventurar-se pelo território boliviano.

Em San Matías, capital da Província boliviana de Ángel Sandóval no departamento de Santa Cruz, situado na fronteira com o Brasil, é comum a prisão de estrangeiros com ligação com a facção brasileira, mas segundo o ministro de Governo da Bolívia, Carlos Eduardo Del Castillo Del Carpio, nada que a polícia local não esteja preparada para resolver.

Outros indícios seria em menos de uma semana a execução de um empresário e seu ajudante naquela cidade em um confronto entre criminosos e, a morte de um sargento durante uma operação da Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (Felcn) em San Ignacio de Velasco, Santa Cruz. e um colombiano ex-combatente das FARC no Parque Noel Kempff.

A oposição de direita que afirma que o presidente Luis Arce deveria soicitar o apoio da  Drug Control Administration (DEA), no entanto o vice-ministro de Substâncias Controladas, Jaime Mamani Espíndola, acredita que seja apenas uma jogada política de grupos políticos visando levar terror para vender uma solução. Dados do Google Trends demonstram que a população não tem levado em conta essa narrativa.

Decretada trégua entre o B-13 e o CV no Acre

Salve que circula nas redes sociais do crime no Acre confirma o que se vê nas ruas: trégua entre as facções B-13 e CV.

🏳️🚩 COMANDO VERMELHO 🚩🏳️

Um Forte abraço a todos os irmãos e companheiros de luta. Estamos juntos! 

🏳️♦️ TRÉGUA AO B-13♦️🏳️

Primeiramente, este informativo vem esclarecer aos nossos membros e toda a população acreana que em momento algum nossa organização quis a guerra em nosso estado. Muito pelo contrário, sempre tivemos em busca do diálogo, não por sermos incapazes de enfrentar os nossos inimigos, não fugimos da guerra mas sempre defendemos os nossos irmãos a qualquer custo. 

Jamais vamos esquecer os nossos queridos irmãos que   perderam suas vidas representando a nossa organização, e não foi em vão, tanto é que hoje dominamos mais de 90% do    território de nosso estado do Acre.

Não esqueceremos dos nossos irmãos que perderam a liberdade e estão no sistema penitenciário vivendo dias de opressão.

Apesar das grandes dores deixada pelo vazio imprenchivel por aqueles que se foram em combate lutando por nossos ideiais.

Só temos a agradecer e expressar nosso apoio aos seus familiares.

Não estamos fazendo nenhuma aliança com eles, apenas estamos dando uma trégua nesta guerra insana que se instalou em nosso estado.

O Comando Vermelho – Ac deixa claro a todos os seus membros que continuamos em guerra contra o PCC. Iremos caça-los entre becos e vielas até eliminar onde estiverem no nosso estado.

⚠️Este informativo tem por objetivo a seguinte visão aos demais.⚠️

📌 Que a partir desta data os nossos membros não ataquem as comunidades e membros do B-13.

O B-13 ainda é  nosso inimigo, porém o nosso alvo na guerra são os membros do PCC.

📌 Nenhum irmão ou irmã de nossa organização pode se envolver em relacionamentos com membros do B-13.

📌 Nenhum de nossos membros podem estar andando nas áreas do B-13 e muito menos eles andando em nossas comunidades. 

📌 Em hipótese alguma será permitido o retorno de membros do B-13 para morar ou reivindicar alguma casa em nossas áreas. Isso jamais será aceito

Não estamos fazendo aliança com nenhuma facção do estado, apenas estamos dando uma trégua aos nossos inimigos pois já compreenderam que só foram usados e que se continuar com alianças com  os parasitas do PCC irão perder ainda mais. 

Não estamos tirando nossas  tropas da pistas, pelo contrário, estamos nos fortalecendo cada vez mais. 

Estamos atentos a todos os passos de nossos inimigos esperando somente o tempo certo de atacar. 

Rio Branco, Ac 1°de Julho 2021

🚩 CONSELHO FINAL C.V.R.L – AC 🚩