O que significa o 1533 da organização criminosa PCC e como sugiu essa sigla é uma das questões mais levantadas na internet e é simples.
O significado do 1533 do PCC é mais que números; é um código que conta uma história. Ao ler este texto, você vai entender melhor como o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) usa isso para se comunicar. Se você quer saber mais sobre o PCC, esta leitura é para você.
O significado do 1533 do PCC é explorado aqui não só factualmente, mas também por uma análise crítica feita por Inteligência Artificial abrangendo diversos aspectos. Ao fim da leitura, sinta-se convidado a comentar, curtir e se inscrever no nosso grupo de leitores. Compartilhe nas suas redes sociais e ajude a ampliar essa discussão.
Público-Alvo Este texto foi adaptado para um público que já tem algum interesse no crime organizado, mas busca uma leitura mais envolvente. Ideal para estudantes, pesquisadores e profissionais de segurança pública que querem informações factuais com uma abordagem mais coloquial.
Advertência: É importante ressaltar que o conteúdo abordado se refere a organização criminosa Primeiro Comando da Capital e aos seus métodos de comunicação e identificação. A informação é fornecida para fins educacionais e de pesquisa, e não deve ser usada para facilitar atividades ilegais. A compreensão desses aspectos pode ser sensível para alguns leitores. Abordar o tema com a devida cautela é crucial.
A Origem do Código 1533 ou 15.3.3
Você já parou para pensar no poder dos números e das letras? Pegue o número 1533, por exemplo. Pode parecer apenas uma sequência numérica aleatória, mas na verdade, é um código que esconde todo um universo. Estamos falando do Primeiro Comando da Capital, mais conhecido como PCC.
Ah, o código 1533. Sua história é tão curiosa quanto o próprio grupo que ele representa. Surgiu como um meio de driblar a vigilância das autoridades, enquanto servia como um sinal secreto entre os membros do PCC. E você sabia que essa combinação numérica veio do “Alfabeto Congo”? Isso mesmo, uma herança do Comando Vermelho do Rio, lá das décadas de 1970 e 1980.
A numeração representa as letras P, C e C, seguindo o alfabeto brasileiro na década de 1990, antes da inclusão das letras K, W e Y:
15 – P de Primeiro
3 – C de Comando
3 – C de Capital
Na tranca ninguém deu a mínima para esse detalhe. Alguém cantou o abecedário de cabeça e contou nos dedos, deu 15 e “já era“
Aparecimento do Código 1533 nos Documentos do PCC
Talvez você se pergunte: “E daí? Por que isso importa?” Bem, essa sequência de números deixou de ser só um código para virar um símbolo de identidade. Isso mesmo, algo para se orgulhar, a ponto de os integrantes fazerem o símbolo do 3 com os dedos ou dizerem frases como “tudo 3” e “tá 3, tá lindo”. Você acredita nisso?
E, por mais que você vasculhe, não vai encontrar essa numerologia no estatuto do PCC de 1987 ou na edição de 2007. O 1533 só deu as caras pela primeira vez em 2007, na Cartilha de Conscientização da Família, que era uma espécie de manual de orientação interna do PCC. Nela, o grupo se refere a si mesmo como a “Família 15.3.3” e chama para a luta com frases de efeito como “Ousar, Lutar e Vencer”.
Essa é a evolução para uma geração consciente, aperfeiçoando nossas deficiências, suprindo a carência do conhecimento, nos apoiando maciçamente na família 15.3.3 e na nossa família de sangue.
Assim superamos nossas dificuldades e conquistamos o que é nosso por direito.
OUSAR, LUTAR E VENCER. Conscientização, união e família UNIDOS VENCEREMOS — população carcerária do país PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL – PCC 15.3.3
Uso do Código 1533 pelos Integrantes do PCC
Então, o que começou como um código virou uma marca, um rito de passagem, uma linguagem própria que une seus membros. É quase como se esse número encapsulasse a alma do grupo, reafirmando sua identidade e propósito.
E por que isso é relevante? Porque esses detalhes, aparentemente insignificantes, lançam luz sobre como o crime organizado opera e evolui. É um vislumbre de como a cultura, a linguagem e os símbolos podem ser usados, para o bem ou para o mal.
Em uma antiga foto de Evelson de Freitas do motim em um presídio na década de 90 ainda não consta os números, ao contrário de outra imagem captada por ele em 2001.
Bem, é isso que significa o 1533 e esse é um breve histórico da evolução do termo.
Mais do que a reflexão a respeito das diversas questões que certamente decorrerão dos tópicos apresentados, a pretensão de apresentar a realidade extramuros dessa que, em termos territoriais e humanos, é a maior organização criminosa do Brasil, objetivando fomentar a discussão…
Teses defendida nesse artigo e seus contra-argumentos:
Teses:
As teses principais apresentadas pelo autor:
Origem do Código 1533: O código teve sua origem no “Alfabeto Congo”, utilizado pelo Comando Vermelho nas décadas de 1970 e 1980. O autor destaca que o código foi gerado a partir da posição das letras “P”, “C” e “C” no alfabeto brasileiro da década de 1990, que são respectivamente 15, 3 e 3.
Propósito Inicial do Código: O código foi criado para dificultar a compreensão das atividades e comunicações do grupo pelas autoridades carcerárias, ao mesmo tempo em que facilitava a identificação entre os membros da organização.
Evolução Documental do Código: O autor observa que o código 1533 não aparece nos primeiros documentos relativos ao PCC, mas faz sua primeira aparição na Cartilha de Conscientização da Família de 2007.
Significado Simbólico e Identitário: O código 1533 se tornou um símbolo de identidade para os membros do PCC. O autor comenta sobre como os membros da organização passaram a se orgulhar de pertencer à “Família 1533” e incorporaram o número em suas falas, escritas e gestos.
Evolução do Uso do Código: Originalmente, o código deveria ser grafado como “15.3.3”, mas atualmente é mais comumente usado na forma “1533”. A pronúncia pode variar entre “quinze, três três” e “um cinco três três”.
Linha do Tempo Histórica: O autor destaca que a presença do código nas imagens do PCC é uma característica mais recente, mencionando fotos de motins prisionais captadas em diferentes épocas como evidência desta evolução.
Em resumo, o texto oferece um panorama histórico e analítico do código “1533”, explorando sua origem, propósito, evolução e significado dentro do Primeiro Comando da Capital. O autor conclui que o código é mais do que uma simples série de números: ele representa a identidade e união dos membros da organização criminosa.
Contra-argumentos:
Em um exercício de pensamento crítico, podemos levantar algumas contrateses relacionadas ao texto sobre o código “1533” e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Aqui estão algumas possíveis linhas de argumentação que poderiam ser exploradas:
Simplicidade x Complexidade da Codificação: Enquanto o texto sugere que o código foi eficaz em ocultar as atividades do grupo das autoridades, uma contratese poderia argumentar que um código tão simples, baseado apenas na posição alfabética das letras, poderia ser facilmente decifrado por autoridades bem treinadas em linguística ou criptografia.
Eficiência na Comunicação Interna: O texto argumenta que o código facilitou a comunicação entre os membros da organização. Uma contratese poderia questionar quão eficaz seria tal método de codificação em termos de comunicação clara e eficiente dentro de um grupo complexo e multifacetado.
Universalidade do Código: Se o código foi originalmente desenvolvido com base no alfabeto brasileiro da década de 1990, uma contratese poderia discutir se o código seria compreendido ou utilizado por membros da organização que não estão familiarizados com esse contexto específico.
Evolução Documental Contínua: O texto indica que o código apareceu pela primeira vez em documentos oficiais em 2007. Uma contratese poderia explorar se há evidências de uso anterior do código em outros contextos ou por outras organizações, lançando dúvidas sobre sua originalidade ou exclusividade ao PCC.
Simbolismo x Pragmatismo: O texto atribui um alto grau de significado simbólico e identitário ao código. No entanto, uma contratese poderia argumentar que tal simbolismo poderia ser supervalorizado, destacando que a eficácia prática do código (por exemplo, em atividades criminosas ou evasão de autoridades) é mais importante para a organização do que seu valor simbólico.
Autenticidade de Fontes: O texto parece confiar muito em documentos oficiais e registros fotográficos para traçar a evolução do código. Uma contratese poderia questionar a autenticidade e a veracidade dessas fontes.
Monolitismo Organizacional: O texto sugere uma unidade quase monolítica na forma como o código é usado e entendido dentro da organização. Uma contratese poderia explorar as possíveis variações no entendimento ou uso do código entre diferentes “facções” ou subgrupos dentro do PCC.
Essas contrateses não têm como objetivo desacreditar o texto original, mas oferecer diferentes perspectivas que podem enriquecer o entendimento do assunto.
Crítica e Análises sobre o texto: O que significa o 1533 do PCC (PCC 15.3.3)
Histórico
O texto faz um bom trabalho ao fornecer uma perspectiva histórica da evolução do código “1533”. No entanto, ele não se aprofunda na história mais ampla do Primeiro Comando da Capital, como ele se insere no contexto histórico do crime organizado no Brasil, ou como as mudanças sociais e políticas podem ter influenciado o uso desse código.
Sociológico
O texto toca em aspectos sociológicos ao abordar como o código facilita a comunicação dentro do grupo e cria uma sensação de pertencimento. Contudo, não explora o impacto desse fenômeno sobre a sociedade em geral. Fica a questão: Como o uso do código afeta as relações sociais não apenas dentro, mas também fora do PCC?
Antropológico
O texto poderia ter se beneficiado de uma análise antropológica ao examinar como o código serve como um rito ou um símbolo que confere identidade cultural ao grupo. Em que medida esse código é similar ou diferente de outros códigos ou símbolos utilizados em outras culturas ou subculturas?
Filosófico
O texto não aborda as questões filosóficas subjacentes ao uso do código. Poderia ter explorado, por exemplo, o significado da linguagem e simbolismo na construção da realidade para os membros do PCC, ou ainda a ética por trás do uso de códigos em atividades que são, por sua natureza, marginais ou ilegais.
Ético
A ausência de um ponto de vista ético é notável. O texto descreve o código e seu uso sem questionar as implicações éticas deste. Poderia ser relevante discutir as ramificações éticas de usar um código para facilitar atividades que são prejudiciais para a sociedade.
Psicológico
O texto também omite uma discussão sobre os aspectos psicológicos do uso do código. Seria interessante examinar como o uso desse código pode afetar o estado psicológico dos membros, talvez fortalecendo sua identidade grupal ou oferecendo um senso de segurança e pertencimento.
Segurança Pública
O texto oferece uma visão detalhada sobre o surgimento e a evolução do código “1533”, o que pode ser útil para as autoridades de segurança pública que buscam entender a estrutura e os métodos de comunicação do PCC. No entanto, o texto parece carecer de discussão sobre as implicações diretas desse código para a segurança pública. Ele se concentra muito no ‘como’ e ‘por que’ do código, mas não aborda de forma significativa como esse código afeta os esforços para controlar ou mitigar atividades criminosas.
Jurídico
O texto explora a origem e o uso do código, o que pode ser útil para a compreensão jurídica do caso. Porém, ele não explora as potenciais ramificações legais do uso desse tipo de código. Faltam discussões sobre como o código pode ser usado como evidência em casos criminais ou se a codificação é suficiente para justificar acusações mais graves, como a formação de quadrilha.
Criminológico
Embora o texto ofereça um entendimento sobre como o código é uma parte vital da identidade e da operação do PCC, ele faz isso sem um quadro criminológico claro. Ou seja, ele não relaciona esse fenômeno específico com teorias ou conceitos criminológicos mais amplos, como a formação de subculturas criminosas ou o papel da linguagem e símbolos na coesão de grupos criminosos.
Estratégico
O texto destaca a importância estratégica do código “1533” para o PCC, mas não entra em detalhes sobre como isso se traduz em ações ou operações concretas. Como esse código é utilizado nas atividades do dia a dia do grupo? Existe alguma estratégia maior para a disseminação ou proteção desse código? Estas são perguntas estratégicas que o texto não aborda.
Análise baseada no seminário promovido pelo site InSight Crime sobre expansão do Primeiro Comando da Capital e o mercado transnacional de drogas.
Este estudo aprofundado explora suas táticas de expansão e impacto social. Uma análise valiosa do cenário criminoso no Cone Sul, despertará seu interesse e questionamentos.
Embalado na violência e na diplomacia, o PCC estabeleceu seu domínio, moldando a realidade social em várias regiões. Observe como a facção, antes coadjuvante, se tornou a orquestradora do mundo do crime. A história se desenrola, desafiando preconcepções e oferecendo insights que requerem uma reflexão aprofundada.
Comentários são bem-vindos e incentivados – seja no site, em nosso grupo de leitores, ou diretamente para mim. Vamos aprender juntos e desafiar nossas perspectivas sobre o papel desta organização transnacional no crime e na sociedade.
Entendendo o crime transnacional a partir da facção PCC 1533
Pesquisadores do InSight Crime analisaram a mecânica do crime organizado transnacional no Cone Sul através do processo de expansão da facção criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital.
Com mais de 10 mil integrantes só no estado de São Paulo e quase três décadas de história, a facção paulista gere a vida dentro das muralhas, assim como, a partir de suas biqueiras, as comunidades periféricas ou marginalizadas.
Somando negociação e violência extrema, a organização paulatinamente chegou a todos os recantos do país, com maior ou menor presença, de acordo com a realidade local e de seus interesses estratégicos.
Assim, o Primeiro Comando da Capital, passou de coadjuvante a coordenador do mundo do crime: criando regras, harmonizando desafetos, aplicando a justiça, e construindo um imaginário na população encarcerada e periférica.
Facção PCC 1533: como componente da equação
É fato que a violência dispara quando a facção disputa um território, no entanto, também é fato que os índices de homicídio desabam quando ela consolida sua presença:
São Paulo: com a hegemonia da organização criminosa, o número de homicídios caiu paulatinamente 76,66% a partir de 1999, sendo hoje o estado mais seguro do Brasil para se viver;
Ceará: o governo estadual atribuiu a queda dos homicídios dos anos de 2015 e 2016 à sua política de Segurança Pública, no entanto foi o resultado da pacificação conquistada pela facção que fechou parceria com grupos rivais e harmonizou as gangues locais.
Ceará: Em 2017, com o fim dos acordos de paz entre a facção paulista com a Família do Norte (FDN) e o Comando Vermelho (CV), o estado viu o número de assassinatos dispararem 48,73%, comprovando que a pacificação não havia sido uma conquista das forças de segurança pública.
Com o fim dos acordos de paz entre o Primeiro Comando da Capital com o Comando Vermelho, e deste com a Família do Norte, rios de sangue correram de norte a sul do Brasil: dentro das trancas, nas ruas, e quebradas.
gráfico com a taxa de mortalidade: Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro
Facção PCC 1533: a estratégica política de cooptação
O interesse por um território pode ser local, para garantir o fluxo em uma única biqueira, mas também pode ser estratégico, para dominar ou fortalecer sua presença nas regiões produtoras de drogas e nas rotas de distribuição.
A política de cooptação que tenderia a fragmentar a facção, então, segundo Camila Nunes Dias, a facção montou “uma estrutura horizontal flexível e muito forte, conseguindo cadastrar e vincular seus integrantes”.
Os novos aliados cooptados incorporam ao leque do Primeiro Comando da Capital: produtos, serviços, estratégias, contatos e conhecimentos específicos do submundo local.
Não faziam parte do leque original de produtos e serviços do PCC: contrabando de cigarros, prostituição, adulteração de combustíveis, participação em empresas e licitações públicas, entre outros — o contrabando de cigarro hoje é um dos braços mais rentáveis da facção.
E assim, as creches da prefeitura de São Paulo, a maior cidade da América Latina, acabam sendo usadas para lavar o dinheiro da organização criminosa.
A cooptação é usada tanto para o domínio de uma biqueira em uma vila amazônica, quanto para a criação de rotas transoceânicas — como nos casos de: Fuminho (Gilberto Aparecido dos Santos) e Gegê do Mangue (Rogério Jeremias de Simone).
Facção PCC 1533: Fuminho e Gegê do Mangue
Fuminho que já havia atuado na Bolívia junto aos produtores de coca, e na melhoria das linhas de escoamento para o Brasil, acabou preso em Moçambique quando tecia parceria entre o PCC com grupos criminosos do sudeste africano.
Moçambique não foi escolhido apenas pelo idioma, mas por sua posição estratégica — uma semente bem plantada naquele solo fértil, se devidamente regada, permitiria ao Primeiro Comando da Capital colher bons frutos:
As organizações criminosas moçambicanas atuam no tráfico regional de heroína e de armas, fazendo a ligação com as organizações asiáticas que atuam nos 47 países que integram a zona de influência do Oceano Índico.
O eixo africano permitiria ao Primeiro Comando da Capital entregar diretamente para clientes europeus, evitando os portos da Bélgica, Holanda e Itália, onde é necessário pagar o agenciamento cobrado pelos cartéis locais que gira em torno de 40% do valor da mercadoria.
Não se pode afirmar com certeza quando o Primeiro Comando da Capital iniciou suas operações por lá, mas se acredita que tenha montado bases tanto em Moçambique quanto na África do Sul, e que mantenha laços comerciais desde 2012, e o Hezbollah tem uma presença importante naquelas bandas:
Estudando esse caso, Camila Nunes Dias chamou minha atenção para a dificuldade de se entender a estrutura da facção: Fuminho, liderança inconteste do grupo criminoso, sequer é um membro batizado da organização criminosa.
Teoricamente:
podendo fazer negócios particulares com grupos inimigos;
ficando nebulosa sua colaboração para o caixa da organização;
Gegê do Mangue, batizado na facção, organizou rotas de distribuição da Bolívia para o Brasil, e foi morto no Ceará onde negociava com grupos locais a estruturação e segurança dos entrepostos e portos para o despacho de drogas para as organizações criminosas européias.
Facção PCC 1533: estruturando a Rota Caipira
O Brasil se tornou o segundo maior mercado do mundo depois dos Estados Unidos, com dois milhões e oitocentos mil consumidores, obrigando o Primeiro Comando da Capital a desenvolver uma cadeia logística que garantisse o fluxo constante, seguro e em grande escala do produto.
Para isso, lideranças da organização criminosa seguiram para Bolívia, Colômbia e Paraguai, para estruturar um sistema de parcerias interligando: plantadores de coca, refinadores, distribuidores autônomos, varejistas, e exportadores.
Quando a liderança da facção PCC 1533 seguiu para a região, já haviam células atuando em toda a extensão da Rota Caipira: Bolívia, Paraguai, Mato Grosso do Sul e Paraná — tendo lá chegado a partir dos presídios.
Por anos, PCCs foram aprisionados ou transferidos para essas regiões, difundindo a “filosofia do partido” nos presídios, e suas sementes ao serem libertadas, se espalhavam para as comunidades do entorno formando essas células por toda a extensão da Rota.
Facção PCC 1533: encontrando seu limite
O Primeiro Comando da Capital distribui 60% da cannabis produzida em solo paraguaio em uma área estimada entre 7 e 20 mil hectares (1.340 municípios brasileiros tem uma área de até 20 ha.), produzindo entre 15 e 30 mil toneladas por ano, ocupando duas dezenas de milhares de trabalhadores rurais: da pequena agricultura familiar aos latifúndios do agronegócio.
A organização criminosa atravessa com facilidade os ilícitos através dos 800 quilómetros da fronteira do Brasil com o Paraguai, utilizando-se para o transporte de empreendedores individuais ou coletivos autônomos — entre 2014 e 2021 foram apreendidos 48,42 toneladas de maconha, portanto, vazou um mínimo estimado de 90 mil toneladas.
A facção optou por não possuir uma estrutura logística própria, terceirizando como empreendimentos individuais ou coletivos autônomos: de mochileiros à caminhões e aviões (que em época de Covid tem ganhado competitividade).
Vinícius Madureira salienta que foi a partir dos presídios que o PCCdominou este que é o maior corredor de escoamento de drogas e ilícitos do Cone Sul — o Rio Grande do Sul e o Uruguai não estão integrados na rota principal por serem regiões onde o Primeiro Comando da Capital ainda enfrenta resistência.
O PCC não venceu a resistência dos diversos e consolidados grupos que atuam nos presídios gaúchos, e assim, não obteve o controle das comunidades e rotas, se mantendo, segundo Vinícius Madureira, apenas “como fornecedor de drogas e facilitador do desenrolar da mecânica criminal na região”.
Essa miríade de facções, grupos e bondes, somados à facilidade de acesso por qualquer criminoso independente aos fornecedores da Tríplice Fronteira, levaram a facção paulista a optar pela cooptação dos grupos locais para concorrer do mercadogaúcho e não a ação das forças de Segurança Pública do estado.
No Uruguai a presença paulista, segundo Vinícius Madureira, é tênue também devido aos grupos locais, mas essa informação destoa de um conteúdo do próprio site InSight Crime:
Vinícius Madureira argumenta que tanto para driblar o cerco policial, quanto por questões estratégicas, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, buscam ampliar um corredor alternativo: a Rota do Solimões.
O PCC para obter o controle da Rota do Solimõesestruturou núcleos próprios na região Norte e Nordeste integrados a grupos criminosos locais como piratas ribeirinhos, facções e bondes.
A facção conta com aliados poderosos como o Bonde dos 13, mas tem dificuldade de dominar os quase 4 milhões de quilômetros quadrados, área equivalente aos territórios da Índia e do Paquistão somados, com baixa densidade demográfica e precária infraestrutura de transportes e comunicação.
A principal estratégia adotada pelos paulistas é estrangular as fontes de insumos da Família do Norte e do Comando Vermelho, descapitalizando-os, e assim, criando disputas internas que facilitam a tomada de suas quebradas pelas suas células ou aliados locais.
Atualmente, o PCC busca os narcóticos diretamente dos produtores rurais ou seus distribuidores no Peru, na Colômbia e na Bolívia, e entrega o produto acabado para despacho nos portos com destino à Europa e à África, alimentando no caminho o mercado interno do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Essa disputa de mercado é a razão dos massacres ocorridos nos presídios do Norte e Nordeste do país: COMPAJ do Amazonas, Monte Cristo de Roraima, Alcaçuz do Rio Grande do Norte, Urso Branco em Rondônia, Altamira no Pará, além de mortes nas cadeias, nos centro sócio-educativos e nas quebradas.
A oposição de direita que afirma que o presidente Luis Arce deveria soicitar o apoio da Drug Control Administration (DEA), no entanto o vice-ministro de Substâncias Controladas, Jaime Mamani Espíndola, acredita que seja apenas uma jogada política de grupos políticos visando levar terror para vender uma solução. Dados do Google Trends demonstram que a população não tem levado em conta essa narrativa.
Facção PCC 1533: expansão estratégica
Sem grupos capazes de lhe fazer frente, o PCC cooptou ou eliminou os reticentes, tornando-se hegemônico no tráfico de grandes quantidades de drogas e outros ilícitos — dominando com certa tranquilidade as rotas transnacionais do norte ao sul do país.
Estima-se que apenas a cannabis que circula no Cone Sul, se legalizada, geraria 10 bilhões de dólares anuais — daí o interesse dos grupos criminosos pelo domínio das rotas e de sua não legalização.
Apesar de sua força e influência, a organização paulista sofre oposição do Comando Vermelho e de grupos locais nos estados e países fronteiriços, como o Clan Rotela no Paraguai — havendo uma relação de rivais.
O avanço da facção PCC nos últimos anos foi impulsionado pela criação dessa rede para o atendimento do mercado interno ao mesmo tempo em que o mercado europeu de cocaína se expandia.
Para suprir o aumento do consumo na Europa, a ‘Ndrangheta e outras organizações criminosas europeias buscaram parceiros comerciais estruturados e capazes de garantir o suprimento dessa demanda.
“Os corretores da máfia são tão poderosos que lidam diretamente com o PCC. Traficando da Colômbia, da Bolívia e do Peru, passando pelo Paraguai como rota de trânsito.” — Zully Rolón, ministro da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai
A parceria entre as duas organizações criminosas possibilitou que a ‘Ndrangheta passasse a hegemonia do tráfico de drogas da América para a Europa com o dominando 80% do fluxo.
Um dos esquemas, tinha como base as esteiras do Terminal do Aeroporto de Guarulhos: as bolsas seguiam pelas esteiras rolantes até a área restrita, onde funcionários aliciados pelo Primeiro Comando da Capital recebiam dos comparsas as fotos com as imagens das malas recheadas com drogas, e as embarcavam para Portugal, França e Holanda, na Europa, e também para Johannesburgo, na África do Sul.
O aquecimento do mercado interno aqui e na Europa deslocou o eixo do tráfico do hemisfério norte para o sul, onde a capacidade investigativa policial e o custo de transporte e produção, que já era menor, se amortizam.
Representantes do Primeiro Comando da Capital na Europa fizeram o “meio do campo” com as organizações criminosas europeias, optando por não atuar diretamente na distribuição para aquele mercado.
Fuminho, segundo Vinícius Madureira, seria um desses corretores autônomos (brokers) que agem em pequenos grupos com grande especialidade e capacidade de fechar grandes negócios.
Facção PCC 1533: o aliciamento das forças públicas
A relação entre as autoridades policiais e o Primeiro Comando da Capital pode se dar através da corrupção ordinária em uma biqueira ou delegacia, durante um flagrante ou de forma contínua com o pagamento do “arrego”.
Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2020 nos países com maior influência da facção Primeiro Comando da Capital:
No entanto, também pode ser coletivo, como nos lembra Steven Dudley lembrando o caso de 2017 onde dezenas de policiais civis do Vale do Paraíba gerenciavam indiretamente através da facção PCC os negócios ilícitos em São José dos Campos.
Dois anos depois desse caso, provou-se que 53 policiais militares da Força Tática do 22º Batalhão de São Paulo estavam a soldo da facção PCC para manter a paz entre as biqueiras e garantir a segurança do comércio na região.
Em todas as regiões é usual a cooptação de policiais para a tomada ou compra de pontos de drogas de concorrentes com a prisão dos donos ou gerentes das biqueiras ou sufocando o acesso dos usuários à elas.
Facção PCC 1533: a mão de obra especializada
A participação de militares, policiais e agentes prisionais na facção é conhecida, mas é pouco explorado o trabalho de dezenas de milhares de outros profissionais de diversas nacionalidades.
Além dos agentes públicos, a logística inclui de norte a sul: transportadoras, aviões e helicópteros próprios ou terceirizados, assim como uma malha de contatos em empresas de transportes ferroviários, aeroportuários, marítimos e fluviais e em aduanas, distribuidoras e entrepostos.
… ou quem sabe coloque até drogas para ser transportado em avião presidencial.
A organização gere US $150 milhões por ano, utilizando-se para lavar o dinheiro: postos de combustíveis, redes de alimentos industriais ou de tratamento dentário, buffets para festas infantis, clubes de futebol, entre outros pequenos negócios.
Grandes valores seguem para as mãos de profissionais como o fazendeiro sul-mato-grossense Antonio Joaquim da Mota que tinha negócios com Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, o PCC Minotauro da região da Tríplice Aliança.
Já o repórter Allan de Abreu conta que doleiros como Dalton Baptista Neman faziam uma operação casada para lavar o dinheiro da facção: um comerciante paga um fornecedor na China em Dólar convertido de criptomoeda disponibilizada por um comprador de cocaína na Europa, daí, esse comerciante recebe pela venda da mercadoria vinda da China no Brasil em Reais e então paga o traficante brasileiro que vendeu a droga na Europa.
O chinês Jiamin Zhang se estabelecer no Brás no centro de São Paulo e é o líder de um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de criptomoedas que pode ter movimentado bilhões de reais. Ele é acusado de trazer ao Brasil toneladas de cocaína vindas da Colômbia, Bolívia e Paraguai. Do território brasileiro, a droga era enviada para a Europa por portos da região sul do país.
No entanto, as criptomoedas também são utilizadas para lavagem do dinheiro doméstico, como se comprovou com a Operação Mamma Mia da Polícia Federal e da Receita Federal ao investigar uma pizzaria comandada pelos integrantes do Primeiro Comando da Capital que além de massas e queijo para pizzas, comprava criptomoedas e ouro para lavar dinheiro e financiar atividades da facção. — Lucas Caram para o Cointelegraph
Facção PCC 1533: e a escravização sexual nos presídios
O crescimento e a consolidação da facção paulista são consequências visíveis do colapso do sistema prisional brasileiro, que em nove anos quadruplicou a população carcerária.
Em seus pátios, corredores e celas, a ética do mundo do crime foi forjada e implantada pela facção 1533, permitindo o cumprimento da pena com certa dignidade, o que nunca antes fora garantido pelo Estado brasileiro:
Um garoto universitário branco com boa aparência, que entrasse em um presídio até 1996, antes do PCC, era negociado pelo carcereiro ou outro preso e todo mundo sabia a quem ele pertenceria no xadrez.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
O Primeiro Comando da Capital impôs a regra de correr pelo lado certo do lado errado da vida, conquistando o respeito do mundo do crime, abrindo caminho para doutrinar cada um dos ingressos no sistema prisional.
A avalanche de aprisionamentos tornou-se uma avalanche de convertidos e replicantes do discurso e da filosofia da facção.
Ninguém é obrigado a se submeter à facção, a servidão é voluntária, e, como descrito por Etienne de La Boétie: ao se colocarem voluntariamente em condição subserviente, fortalecem seus dominadores, que dominarão então mais, realimentando e fortalecendo o processo.
Como Sísifo, condenado a empurrar uma pedra até ao cimo de um monte, e ao chegar vê-la novamente cair montanha abaixo e repetindo esse trabalho por toda a eternidade, o PCC criou e foi criado por um círculo vicioso:
ao oferecer ao encarcerado segurança real e imediata na tranca, gera a perspectiva de que quando livre, ele trabalhará no rendoso mundo do crime para a organização; e
ao oferecer ao criminoso trabalho real e imediato na rua, gera a perspectiva de que quando preso, ele será respeitado dentro das muralhas pelo mundo do crime por pertencer a organização.
O PCC é poderoso por que impõe as regras, ou o PCC impõe as regras por que é poderoso?
Stefen Dudley ressalta que o Primeiro Comando da Capital é uma exceção nas Américas, pois apesar de haverem outros grupos criminosos que atuam dentro dos presídios e nas ruas, nenhum tem a sua magnitude, e cita como exemplo:
MS-13: presente em 6 países, atua com uma estrutura horizontal em células relativamente independentes agregadas torno de regras conhecidas e uma marca forte, mas não tem atuação transnacional; e
Barrio Azteca: nascida no sistema prisional norte-americano, tem uma atuação forte na região fronteiriça com o México em parceria com o Cartel de Juarez, mas tem uma atuação pífia no interior do país.
Facção PCC 1533: criando um atalho para os EUA
O Primeiro Comando da Capital estaria expandindo suas atividades não só para países vizinhos, existiriam tentativas de se associar ao MS-13 de El Salvador, para conseguir uma porta de entrada para o mercado americano via América Central, hoje, a droga brasileira vai primeiro para a África para depois seguir para os Estados Unidos.
O que é mais assustador é que, pela primeira vez, o PCC e o MS13, de El Salvador, particularmente nos últimos meses, estão desenvolvendo relações sérias, especialmente em Puerto Cortés, em Honduras. Pela primeira vez na história, o MS13 está fazendo tráfico de cocaína. Eles nunca lidaram com drogas.
A marca “Primeiro Comando da Capital ou facção PCC 1533” tem força no mercado e respeito entre os integrantes do mundo do crime (seus clientes em potencial).
Ao aderirem a marca, os novos integrantes, sejam individuais ou coletivos como gangues, bondes, e facções locais ou regionais, se comprometem a seguir determinadas regras de conduta:
o criminoso batizado ou companheiro responde pelo Regimento Interno (Dicionário PCC), deve seguir seu Estatuto, acompanhar os salves, e estar em dia com o pagamento da contribuição; e
os coletivos, podem aderir totalmente ao PCC assumindo sua marca e compromissos, ou se aliarem, usufruindo de parte dos benefícios, mas não tendo obrigatoriamente que seguir suas regras de comportamento.
O vínculo do indivíduo só poderá ser quebrado se ele abandonar o mundo do crime, seja: para seguir a vida como trabalhador,por ter se batizado em uma igreja, ou por outro motivo aceito em debate pelas lideranças locais.
Os coletivos podem sair da aliança, mas cada caso é avaliado de acordo com o grau de envolvimento e interesse:
o Comando Vermelho (CV) esteve ao lado do PCC por mais de duas décadas, desde sua fundação até o assassinato de Jorge Rafaat Toumani em 2016, quando houve uma separação tensa e nada amigável — homens que lutaram ombro a ombro passaram a se matar por todo Cone Sul.
Estatuto do PCC de 1997
Facção PCC 1533: Paraguai sucesso ou fracasso?
Camila Nunes Dias atesta que Jorge Rafaat Toumani com seu domínio da Tríplice Fronteira mantinha “uma certa ordem social na região fazendo uma regulação” entre os grupos criminosos e comerciais brasileiros e paraguaios.
Já Vinícius Madureira lembra que o controle de Toumani era intenso, chegando a armar emboscadas e matar integrantes do Primeiro Comando da Capital quando entravam em sua área de influência sem sua autorização.
As lideranças do PCC acreditaram que com a morte de Toumani, os fornecedores independentes de drogas e armas seriam sufocados e dominados, dificultando assim o acesso do Comando Vermelho à Rota Caipira.
No entanto, os planos das lideranças do PCC que executaram Toumani em 2017, foram frustrados pela complexa estrutura sócio econômica do Paraguai, baseada em sua vocação de polo de livre circulação de pessoas, serviços e mercadorias.
Desde o século XIX nação agrega povos e conhecimento, e em uma emaranhada rede internacional de relacionamentos e contatos — essa secular, arraigada e maleável estrutura socioeconômica não se dissolveu com o assassinato de Toumani.
Ao contrário, o vácuo de poder deu lugar a diversos fornecedores independentes a possibilidade dividir e absorver a demanda das facções inimigas do Primeiro Comando da Capital, deixando o quadro ainda mais intrincado.
Fahd Jamil George, o Fuad, outro megatraficante da região da Tríplice Fronteira, conseguiu manter-se independente, mesmo após a morte de Toumani, no entanto, escolheu se entregar às autoridades por medo de ser morto pelos integrantes da facção paulista.
O conflito entre os PCCs da região e os órfãos de Fuad; e a análise das contas de Maria Alciris Cabral, esposa de Minotauro, e dos traficantes Pavão e Galã demonstram o quão ininteligível se tornou a relação entre os diversos grupos criminosos na região.
Para o promotor de Justiça Lincoln Gakiya do MP-SP, com a prisão de Fuad, o PCC Paraguai passou de fase e tendo dominado o mundo do crime começará a atacar as autoridades policiais, políticas e judiciárias.
O pesquisador Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias lembram que a facção carioca já havia tentado a mesma estratégia quinze anos antes, eliminando a família Morel, que até então dominavam a fronteira, mas também sem conseguir consolidar o domínio.
Facção PCC 1533: PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL®
Steven Dudley vê certa similaridade entre a forma com que a facção PCC permite e controla aqueles que agem em nome da facção e o mercado de franquias.
A tensão é da natureza do franchising: o investidor busca maximizar seu capital, aproveitando-se das vantagens oferecidas pelo franqueador, da mesma forma que esse na obtenção de lucro e vantagens do franqueado.
A mesma lógica pode ser empregada no mundo do crime, apesar da facção PCC não ser efetivamente uma franquia — ao se vincular ao nome do Primeiro Comando da Capital, o criminoso ou coletivo passam a usufruir de algumas vantagens:
logística local e internacional: ligando-o às rotas do Paraguai à Colômbia, que atendam a sua região;
credibilidade do produto ou do profissional: não há controle de qualidade por parte do PCC, mas, os ilícitos vendidos ou os serviços prestados são menos questionados;
acesso à trabalhos lucrativos: a facção tem condições de aproveitar os indivíduos ou coletivos em negócios altamente rentáveis;
marca consolidada no mercado: o benefício de ter uma organização forte por trás desestimula concorrentes de disputar o mercado;
treinamento, suporte, financiamento e acesso a equipamentos: disponibilizados de acordo com a demanda do empreendedor, quase sempre terceirizado por outros integrantes do grupo.
Os benefícios desse último item, não fazem parte de um pacote, mas ao aderir à marca, o indivíduo ou coletivo tem o acesso facilitado aos irmãos que os prestam.
A organização criminosa pode ignorar totalmente esses negócios paralelos, ou intermediá-los, se responsabilizando ou não pelo pagamento, ou até, de acordo com o interesse ou necessidade, bancando parcialmente o investimento:
Durante a consolidação do Terceiro Comando Puro (TCP) no Rio de Janeiro, o PCC enviou reforço de homens e armas para garantir suas posições na guerra contra o Comando Vermelho e as milícias.
Assim como um vírus utiliza um agente externo ou uma ação do hospedeiro para passar de um indivíduo para outro, a facção utilizou-se das transferências de presos para passar de unidade prisional para outra.
Esse método de expansão, orgânico, eficaz e aleatório, tornou-se a alma da organização no qual os interesses pessoais dos integrantes e da organização se adequam e se aproveitam com naturalidade aos fatores extrínsecos.
Todo irmão, companheiro ou aliado é autônomo em seus negócios e seus procedimentos, desde que seguindo a ética do crime, sem chefes que determinem: funções, obrigações ou cobrando resultados.
Desta forma, as habilidades individuais são desenvolvidas independente da facção, mas são aproveitadas integralmente por ela.
Quando as forças policiais e a imprensa noticiam a derrubada de um ponto de distribuição ou a apreensão de veículos ou aeronaves da organização, muito provavelmente esses bens são investimentos de um integrante e não da facção.
Cada fração do trabalho é investimento individual ou coletivo: desde as fazendas produtoras e os armazéns distribuidores no Paraguai e na Bolívia, passando pelas rotas de distribuição e exportação no território brasileiro, chegando até as biqueiras que atendem ao consumidor final.
O Primeiro Comando da Capital não possui estrutura própria, e mesmo as atividades administrativas são atividades autônomas remuneradas, como as centrais de comunicação e tráfico de drogas para dentro do presídio — havendo exceções.
A organização possui bens e capital, mas estes são juntados para uma ação ou um fim específico, diferentemente da lógica de acumulação do capital empresarial, podendo ser distribuído após alcançado cada objetivo.
A mesma lógica é aplicada na ações executadas por interesse da organização: irmãos, companheiros e aliados, são convidados a se voluntariar de forma remunerada ou não — podem recusar, mas após a aceitação não podem abandonar a empreitada ou agir de maneira displicente em sua execução:
Dicionário do PCC (Regimento Disciplinar) — artigo 6º
Como qualquer integrante, os cargos dentro da facção, sintonias e disciplinas, tem autonomia em seus negócios particulares, mas quando agem em nome da facção não podem fugir ao procedimento correto ou tomar atitude isolada que possa denegrir a imagem da organização:
Dicionário do PCC (Regulamento Disciplinar) — artigo 4º
O mega assalto da transportadora de valores Prosegur, em Ciudad del Este em 2017, onde uma equipe composta de 40 homens saquearam US $12 milhões, é usado por Vinícius Madureira como exemplo da autonomia dos grupos dentro do Primeiro Comando da Capital.
Ironicamente, o mega assalto se deu no décimo aniversário da declaração dada pelo Ministério Público de São Paulo MP-SP no qual afirmava que “a transferência de 40 líderes da quadrilha para o presídio de Catanduvas, de isolamento total, marca o começo do fim do PCC”.
A facção paulista foi a liga que uniu para o mega assalto profissionais autônomos de diversas regiões dos dois países através de sua rede de relacionamentos e contatos — os empreendedores da operação utilizaram recursos próprios e dessa forma dispensaram o aval da hierarquia para a ação.
O caso do Prosegur deixa claro que a rede de contatos é mais dinâmica, autônoma, e complexa do que as autoridades imaginavam: indo do aviãozinho da biqueira até as principais lideranças das tranças aos residentes no exterior.
Dez anos depois que as lideranças do Primeiro Comando da Capital foram isoladas, e após um grande esforço para barrar a entrada dos celulares nos presídios paulistas, a facção provou que reinventou sua rede de network.
Facção PCC 1533: o caixa da organização criminosa
Os integrantes pagam uma parcela dos seus lucros para a organização e o responsável pela cobrança é o irmão da cebola, que também vende números da loteria interna do Primeiro Comando da Capital.
Os fundadores da facçãoimplantaram o conceito da função social do tributo ao PCC. A organização passou a ser vista como o ente em condições de gerir adequadamente os recursos arrecadados pelo bem comum da comunidade do mundo do crime.
Os valores aferidos financiam lotes de drogas e armas, e outras atividades para o crescimento e manutenção da facção, como o pagamento de advogados e funcionários públicos ou privados essenciais para o funcionamento da estrutura.
Diferentemente dos negócios privados ou de outros grupos criminosos, o lucro das operações não fica com os líderes ou investidores, devendo ser aplicados em benefício das demandas e dos mais necessitados do mundo do crime:
operações de resgate de presos,
domínio e pacificação de regiões de influência;
apoio de transporte as famílias que visitam os presos; e
indenização aos familiares de criminosos que foram mortos em ações de interesse da organização.
O desvio de finalidade do capital pago pelos integrantes é severamente punido. Gegê do Mangue e Cabelo Duro (Wagner Ferreira da Silva), foram alguns líderes que teriam morrido por usarem em benefício próprio dinheiro da facção.
Cabelo Duro chegava a lucrar 450 milhões de Reais todo o ano, mas mesmo com toda essa grana e poder, depois das mortes de Gegê e de Paca, ele percebeu que o próximo a ser morto pela facção.
Não deu outra. Integrantes sequestraram Nado que era de toda confiança de Cabelo Duro, desbloquearam o celular dele e usaram para chama-lo para o flat do Tatuapé, onde armaram uma casinha: Cabelo Duro foi metralhado e fala-se que nesse mesmo dia Nado foi decapitado e enterrado em região de favela.
O mundo dá voltas, Gegê e Paca foram mortos por Cabelo Duro, Cabelo Duro foi morto por Galo, Galo foi fuzilado na Zona Leste de São Paulo… — Luís Adorno para o R7
Facção PCC 1533: sobrevivendo onde outros pereceram
A rápida expansão do Primeiro Comando da Capital se deu graças a essa estrutura horizontal, permeável e multifacetada, que permitiu sua integração a outros grupos criminosos locais ou regionais: gangues, bondes, e facções.
Grupos criminosos tentam copiar o modelo, mas ao se expandirem e formarem alianças, perdem a coesão, se dividem, e partem para o fratricídio, colapsando por terem se organizado em torno de seus líderes ou grupos, e não sobre ideais e regras claras.
O Comando Vermelho, a mais antiga facção brasileira, falhou em se consolidar como força nacional, pois ao contrário da facção paulista que se estruturou em torno de pessoas e não de um ideal, baseando o seu crescimento na conquista física de territórios e não nas mentes e nos corações de seus integrantes.
Steven Dudley também vê similitude entre grupos terroristas e o PCC, já que ambos “fazem muitos recrutamentos dentro do sistema prisional” e possuem “uma ideologia que tem que ver com as diferenças de classes e a injustiça que existe no mundo”.
Todos concordam também que terroristas e PCCs utilizam-se de métodos e modus operandi semelhantes e utilizam o medo como ferramenta estratégica para a captação ou para circulação de recursos ilegais, assim como, utilizam-se de “métodos criminais para adquirir o financiamento necessário [para alcançar seus objetivos ideológicos]”.
Mas diferem na fonte de seus recursos e sua aplicação:
Enquanto grupos terroristas buscam financiamento e recrutamento através de simpatizantes, a organização criminosa obtém recursos através de ações criminosas autônomas nas quais seus filiados visam seu ganho pessoal.
Também diferentemente dos grupos terroristas, não fica com o butim das ações criminosas para realimentar-se: os criminosos ficam com o lucro das ações cedendo uma parcela, como um imposto sobre o lucro obtido, que deve ser aplicado pela facção em benefício das demandas e dos mais necessitados.
A fronteira entre um e outro grupo, como tudo no Mundo Líquido de Zygmunt Bauman, está se dissolvendo, se já não se dissolveu e apenas não nos demos conta disso.
Michael Fredholm enumera e discorre a respeito de uma dezena pontos nebulosos que separam os dois grupos, explicando que não há uma resposta simples para a pergunta:
“O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é uma organização terrorista ou uma facção criminosa?”
Vera Lúcia Monteiro da Mota Melo alerta para o risco de ao confundirmos um grupo terrorista com um grupo criminoso abrirmos campo para o desrespeito dos direitos:
Facção PCC 1533 do futuro aos brasileiros pertencerá?
Pesquisadores do InSight Crime analisaram a mecânica do crime organizado transnacional através do processo de expansão da facção criminosa brasileira Primeiro Comando da Capital.
Às informações passadas por Steven Dudley, Vinícius Madureira, e Camila Nunes Dias somadas a outras me deixam a dúvida se a facção paulista, tal qual a conhecemos, não está prestes a acabar.
Desde suas mais remotas origens até poucos anos atrás, a cúpula do Primeiro Comando da Capital era formada por uma massa disforme de presos oriundos das periferias das grandes cidades.
Por puro preconceito, os operadores da polícia, da mídia, da Justiça, e a população em geral, desacreditaram que uma empresa com todo esse poder pudesse ser gerenciada por essas pessoas simples de dentro dos presídios.
No entanto, mesmo antes, mas principalmente após a pandemia da Covid-19, esse controle estava se alterando, passando cada vez mais a grupos especializados que manipulam a massa carcerária e dos criminosos nas ruas.
Não é possível que os negócios internacionais sigam sob um domínio que não o mesmo do abastecimento interno, e este por sua vez se interliga a todo o mundo do crime: do furto e assaltos ao tráfico de armas e pessoas.
Quando Camila Nunes Dias e Vinícius Madureira chamaram a atenção para o fato de que cada vez mais as decisões estratégicas e operacionais estão deixando os presídios para se concentrar nas mãos de empresários e da nova elite do PCC, colocaram uma pulga atrás de minha orelha.
Para Vinícius a questão é simples: haverão integrantes da facção capazes de ultrapassar essa nova fase da transnacionalização, a qual exige expertise em comércio e logística internacional — com domínio de línguas estrangeiras?
Mas, para mim, acendeu um sinal de alerta: qual a consequência para a política, a Segurança Pública, e para as comunidades se a facção deixar de atuar como defensora dos interesses difusos e dos negócios de seus integrantes e dos encarcerados, para ser uma facção com poder concentrado nas mãos de empresários, políticos e poucos líderes, que podem negociar o controle da organização criminosa para grupos estrangeiros, que, mesmo indiretamente passassem a ter sob suas ordens dezenas de milhares de integrantes armados?
Se houvesse mais armas nas ruas, ele colocaria outra no lugar, “tomaria um salve para aprender”, e seguiria sua vida — como vi isso algumas vezes.
Sinto saudades daquele lugar, da pequena ponte sobre o córrego, onde os garotos aguardavam de sinaleiros, e dos cavalos que pastavam sossegados no meio do capim gordura — talvez fosse vê-los o que me acalmava.
Dificilmente alguém me trás boas lembranças, mas ao ler o trabalho de André,revivi aquele dia e me senti de volta naquele lugar. Devo isso a ele.
E por falar em armas legalizadas, olha só como o PCC consegue comprar armas legalizadas e com descontos! pic.twitter.com/oY8MDNFSFK
Houve um tempo onde as armas sobravam nas mãos de policiais, civis, e criminosos.
Viaturas policiais com armas frias, tanto para o uso ilícito dos próprios policiais como para entrouxar em algum desafeto.
Traficantes com armas frias, tanto para sua segurança pessoal e de seu negócio como ferramenta de convencimento nas cobranças.
Hoje, no entanto, é raro a polícia paulista andar com arma fria mocosada na viatura, assim como são raríssimas as abordagens que encontram indivíduos armados, principalmente em biqueiras, e são milhares de abordagens diárias.
As armas curtas foram controladas tanto pela aprovação do Estatuto do Desarmamento de 2003 durante o governo Lula quanto por ordem do Primeiro Comando da Capital (PCC).
O Estado retirou as armas das ruas para diminuir a taxa de homicídio, e o PCC para acabar com as guerras entre as biqueiras dentro das comunidades.
Assim como o governo, as lideranças da facção PCC 1533 perceberam que esse genocídio é ruim para a sociedade e para a economia, exceto para os fabricantes de armas e seus defensores.
PCC e Bolsonaro no lucrativo mercado de armas
Assim como um vírus, a organização criminosa Primeiro Comando da Capital evolui exponencialmente e já se prepara para atuar em um mercado de armas com menor custo e maior oferta e demanda.
André, citando Evan Ellis e Daniel Sansó-Rubert, explica essa mudança na dinâmica nos negócios de armas curtas ilícitas:
Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2020 nos países com maior influência da facção Primeiro Comando da Capital:
Sei que não existe corrupção no governo, principalmente por parte de Bolsonaro e seus filhos, e que com certeza eles nada recebem do mercado internacional de armas, que movimenta anualmente 80 bilhões de dólares.
Se estivessem, seria o que se chama de “corrupção sistêmica”, aquela na qual o agente público de alto escalão cria situações que facilitam em larga escala a atuação das organizações criminosas.
Bolsonaro aplica na política de armas a mesma lógica que aplica na gestão da Saúde: apostar no que acredita e no que agrada suas bases eleitorais independentemente dos resultados.
Existe um consenso internacional de que a diminuição do número de armas nas mãos da população tem influência direta no número de vidas poupadas, e no Brasil essa tendência se confirma.
A flexibilização da lei de armas do governo Bolsonaro fragiliza ferramentas que funcionam e estão sendo aperfeiçoadas há 25 anos: o “Sistema Nacional de Armas” (SINARM) e o”Sistema de Gerenciamento Militar de Armas” (SIGMA).
O governo federal, ao turbinar o mercado legal de armas e de segurança privada, impactará o mercado ilegal:
O Primeiro Comando da Capital e a flexibilização da lei de armas
As grandes organizações de tráfico internacional de armas, interessadas em investir nesse mercado, ampliarão as parcerias já existentes com o Primeiro Comando da Capital, que domina uma sofisticada estrutura de distribuição, com rotas estabelecidas com coparticipação de agentes públicos.
Para a facção PCC 1533, o custo operacional para o contrabando internacional de armas ainda é alto, precisando manter agentes nos órgãos policiais e de fiscalização para garantir o fluxo com menor índice de perdas.
Diversas rotas trazem as armas oriundas de diversos países fronteiriços, principalmente do Paraguai, ao sul, e da Venezuela, ao norte, mas também dos Estados Unidos, tanto pelos portos e aeroportos quanto pela Bolívia.
Além do apoio dos agentes públicos, as rotas geridas pelo Primeiro Comando da Capital incluem transportadoras, aviões e helicópteros próprios ou terceirizados, assim como uma malha de contatos em empresas de transportes ferroviários, aeroportuários, marítimos e fluviais e em aduanas e entrepostos.
Essa pesada estrutura não supre totalmente uma organização criminosa de estrutura gramínea, como a facção PCC 1533, e seus integrantes individualmente procuram soluções para seu próprio abastecimento:
militares e policiais desviam dos paióis;
empresas de segurança privada (de fachada ou por furto e roubo nas armarias);
contrabando, tanto o de poucas unidades em larga escala quanto em lotes maiores mas de forma independente;
furto e roubo de particulares em residência e comércio — em menor escala após a Lei do Desarmamento, mas com a flexibilização retomará seu volume e importância.
Em um país sem controle sobre os políticos
Interesses políticos impedem que haja um controle sobre o fluxo de dinheiro: da mesma forma que a família Bolsonaro consegue comprar dezenas de imóveis com dinheiro vivo, dinheiro legal, é claro, e a facção paulista também o faz.
Regras que acompanhassem, com eficiência, o dinheiro impediriam que tanto um deputado brasileiro quanto o sobrinho de Pablo Escobar em Barueri tivessem o trabalho de ter que ventilar seu apartamento para não embolorar as notas.
A infraestrutura de distribuição do Primeiro Comando da Capital se soma aos interesses políticos em um menor controle na circulação de armas e dinheiro vivo (agora com notas de 200 Reais) e a criação de entraves para o funcionamento dos mecanismos federais de controle de atividades financeiras.
O garoto de Sorocaba pegou a arma do mocó em um momento em que não se encontram armas com facilidade para substituir, se bem que o preço no mercado ilegal é mais baixo do que no legal.
A mão invisível de Adam Smith sumiu com as armas das ruas, mas seu valor de venda não subiu, pois o risco de tê-las e as altas penas impostas para quem for pego com elas desestimularam a busca pelo produto, confirmando a eficácia da teoria smithiana de mercado.
No imaginário popular, os integrantes do PCC estão montados em armas, mas não é bem assim: elas estão pulverizadas ou sob o controle dos responsáveis pelos paióis — certa vez conheci um deles, mas foi outra história.
Há muito não vou para Sorocaba, menos ainda para o Jardim Marli. Devo a André o recordar de boas lembranças — juro que enquanto escrevo, sinto a brisa, o cheiro e paz daquela quebrada.
Diálogo entre integrantes do Primeiro Comando da Capital são um registro histórico de como se deu a expansão da facção paulista.
Há exatos quatorze anos, o repórter Fábio Serapião do jornal O Estado de São Paulo, trouxe a público escutas telefônicas envolvendo presos do Primeiro Comando da Capital.
Inimigos tiveram tempo para fugir, trocar a camisa ou se converter
Um dos diálogos ocorre entre Sumô e Taylor e mostra que antes de atacar os inimigos dentro do Presídio de Monte Cristo em Roraima, foi dado um prazo de 40 dias para que os inimigos decidissem deixar o presídio — e 145 aproveitaram para fugir.
PCC Sumô (Ozélio de Oliveira) o “geral do estado de Roraima” que estava preso na Casa de Custódia de Piraquara no Paraná, e o PCC Taylor (Diego Mendes de Andrade) que tinha a missão de “pregar a filosofia da família 1533” e arregimentar novos integrantes dentro da Penitenciária Federal de Mato Grosso do Sul, e uma outra com o PCC
Sumô: Quando nós banimos ali o Estado (das prisões de Roraima) a gente pregou a nossa ideologia, que é a paz, justiça, liberdade, igualdade e união, muitos ali tiveram o direito de pular o muro, o outro saiu até aqui no Fantástico irmão, pularam. Quantos que pularam no total ali em 40 dias ali, oh Taylor?
Taylor: 145 irmãos, 145 meu padrinho.
Sumô: 145 só pros irmão ter uma ideia como o barato foi louco. Hoje é … uns quartel do lado porque o barato ficou louco mermo.
Em outra conversa no fim do mês de março daquele ano, Sumô fala com Wax Nunes de Lima, um “salveiro” do PCC, responsável pela transcrição, transmissão e salvaguarda dos “salves” emitidos pelo comando da facção. Os dois falam sobre como conseguir celulares nas prisões. Sumô comenta a facilidade para se conseguir telefone nos presídios de Roraima e diz que onde está preso, no Paraná, são “somente” dois celulares por galeria.
“Eu morro de inveja de vocês aí que todo mundo tem um, isso aqui custa 5 mil real (sic) um aqui dentro moleque”, explica Sumô. “Caro que só né! Padrinho, aqui 5 mil é que nós paga pro cara comprar pra nós aparelho”, responde Wax.
Outra conversa de maio, de um integrante da facção criminosa apontado como “Vandrinho”, revelou a negociação de armas de dentro da cadeia. Segundo a PF, o traficante usa os termos “abacaxi” e “canetas” para se referir a granada e pistolas, respectivamente.
Na mesma interceptação, Vandrinho afirma que a facção criminosa precisa medir forças com a polícia. “Porque parceiro nós tem de somar contra a opressão, contra esses bota preta aí parceiro (sic)”, afirma o traficante.
Detalhes do funcionamento da parceria PCC TPC, apareceram com a indicação de um integrante da facção paulista para a posição de sintonia em um presídio carioca.
O Habeas Corpus de Lucas Daniel Dinelly da Silva, o Barone, escolhido para ser o sintonia da tranca do Complexo de Gericinó no Rio de Janeiro lança luz em peculiaridades de como se dá a expansão da organização paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) em parceria com a facção aliada carioca Terceiro Comando Puro (TCP).
a descentralização, pois a princípio “Barone” não responderia ao “sintonia do estado do Rio de Janeiro” ou ao “sintonia geral das trancas do Rio de Janeiro”, apesar de se esperar que aja de acordo com os princípios gerais desses e dentro de um conjunto de regras e cadeias hierarquias; e
a ele é atribuída a maioria das ações que devem ser tomadas dentro de sua área de influência, sendo que ele sequer era oriundo do núcleo central do PCC, o estado de São Paulo, e nem do Rio de Janeiro onde chegou para atuar, morava em Belém do Pará e foi indicado pelo sintonia de Pernambuco! A esse emaranhado de relacionamentos e divisão de poderes e funções, Steven Dudley dá o nome de “desorganização”; já eu chamo de “metodologia do caos”.
Trechos do Habeas Corpus de Barone:
“… estabelecer no Estado do Rio de Janeiro uma extensão da organização criminosa acima referida, através de estruturas secundárias denominadas ‘sintonias’ “;
“o Rio de Janeiro já tá pronto” e “fecha em Minas Gerais, Rio de Janeiro,Espírito Santo, Brasília, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul” — afirmou um dos envolvidos segundo uma escuta telefônica.
“… tráfico de armas e munições e tráfico de entorpecentes, concentrando as atividades ilícitas no Complexo de Gericinó, em especial nas unidades prisionais Esmeraldino Bandeira; Edgard Costa; Benjamim de Moraes e Bangu IV.”
“ [ele] integraria a “Sintonia Pernambuco” e [foi apresentado pelo] responsável pela “Geral do Estado da Externa de Pernambuco”.
“Primeiro Comando da Capital conta com ‘normas estatutárias e disciplinares, estabelecendo funções específicas para cada um dos integrantes ou grupo de integrantes’ ”.
A desordem da estrutura do Primeiro Comando da Capital (facção PCC) é seu maior mérito, gerando altas taxas de mutação e evolução rápida e eficaz — mesmo que à custa de muitas perdas.
Você já parou para pensar na complexidade das organizações criminosas? Steven Dudley, escrevendo para o site InSight Crime, nos deixa um quebra-cabeça instigante: o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) não é um modelo de organização, ao contrário do que muitos pensam.
Vamos falar da Família 1533. Imagine um jovem começando a se destacar no cenário do crime. Ele não precisa ser um “irmão batizado“, como são chamados os membros iniciados, para subir na hierarquia. Muitas vezes, ele só oficializa sua entrada após conseguir um posto de liderança. Sim, é um caminho bem diferente das organizações que estamos acostumados a ver.
Esse novo líder traz um toque pessoal ao negócio, influenciado por suas experiências passadas e atuais, dentro e fora do mundo do crime. Tem também seus contatos dentro da comunidade, do crime e até da polícia — que pode ser ouro puro. Essa mistura é uma dor de cabeça para quem quer entender o funcionamento dessa engrenagem e, obviamente, para o Ministério Público de São Paulo (MP-SP).
Já pensou em como um vírus funciona? Uma única espécie pode ter milhares de variações. Quando você pensa que eliminou um, outros aparecem, resistentes e ainda mais espertos. O PCC age de maneira similar, confundindo até mesmo os mais experientes no assunto.
Aliás, falando do MP-SP, é inegável que eles têm suas vitórias. No entanto, esses triunfos podem, de forma paradoxal, reforçar o Primeiro Comando da Capital. O fato de a organização não seguir uma estrutura única faz dela algo resiliente. É como um gramado: mesmo que algumas partes sejam cortadas ou danificadas, o sistema como um todo permanece robusto e cresce novamente.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) costuma ser considerado a facção criminosa mais poderosa do Brasil, mas um recente processo judicial contra integrantes da facção traça uma imagem que desmente a reputação do grupo como uma organização criminosa transnacional estrita e hierárquica.
No caso, que foi apresentado em 2018 por procuradores do Estado de Mato Grosso do Sul, localizado na região centro-oeste do Brasil, 30 pessoas são acusadas de serem integrantes do Primeiro Comando da Capital.
Os réus foram acusados de tráfico de armas, venda de entorpecentes, lavagem de dinheiro e uso de menores para cometer atos criminosos. O grupo operava uma série de pequenas redes, que os promotores repetidamente chamavam de “núcleos” do PCC. Na realidade, um núcleo pode ser formado por membros do PCC ou uma mistura de membros, sócios e parentes.
* Esta história faz parte de uma investigação de dois anos do Centro de Estudos Latino-Americanos e Latinos (CLALS) e do InSight Crime no PCC. A série completa será publicada entre 11 e 18 de dezembro. Leia o relatório completo aqui ou baixe-o da Social Science Research Network.
Um dos crimes mais citados durante o caso foi a venda de drogas.
A polícia e os promotores apresentaram inúmeras gravações telefônicas no tribunal, nas quais vários réus falam sobre vendas de drogas. Em uma das gravações, Dagner Saul Aguilar Gil, vulgo “Pacho”, integrante do PCC preso em Mato Grosso do Sul, organiza a venda de meio quilo de “óleo” (TK) e 100 gramas de “pó” (pó ou cocaína) de uma pessoa identificada como Marcos Ferreira da Silva, vulgo “Praia”. Os dois já haviam feito negócios e, durante o telefonema, Ferreira insiste com Aguilar que é o mensageiro, e não ele, quem deve carregar a droga: “Mande a droga assim [por meio de um mensageiro]”, diz Ferreira, “porque é assim Eles estão seguros, então não se perdem, entendeu?”
A polícia ouviu a conversa e o mensageiro foi pego.
Algo que aparece no caso como uma característica distintiva do PCC é que Aguilar também administrou veículos roubados e manteve contato com uma presidiária, Odete, que, junto com Ferreira, obteve armas para o grupo. Enquanto, por outro lado, a filha de Odete abriu contas bancárias para a organização.
Na verdade, parece que cada um dos núcleos do grupo opera vários empreendimentos criminosos. Ao contrário de muitos grupos criminosos transnacionais, que estão envolvidos em um pequeno número de negócios ou confiam tarefas a vários especialistas, a facção paulista parece estar disperso em muitas tarefas diferentes.
O primeiro núcleo citado no caso contava com um mototaxista que levava drogas para seu filho, integrante do PCC na prisão. Parte desse núcleo foi presa em um apartamento onde o grupo guardava armas de alto calibre.
O dono daquele apartamento, dizem os promotores, era um preso que, além de administrar o depósito de armas, era a “sintonía geral do estado e do país”, o que significa que era responsável pela catalogação dos integrantes da organização criminosa.
Embora seja uma gangue carcerária, o PCC talvez seja a organização criminosa mais burocrática da região. Ele mantém registros de seus membros, suas famílias, seus patrocinadores e a jornada dos membros dentro do grupo.
Práticas contábeis rígidas e referências à hierarquia PCC geralmente as denunciam. Os promotores do caso Mato Grosso do Sul, por exemplo, conseguiram mostrar que vários réus eram integrantes da organização — o que é crime no Brasil — por se referirem a um “padrinho”, como é conhecido o patrocinador [aquele que apresenta e se responsabiliza por um convidado a ingressar na facção — nota do tradutor], ou a um “general”, líder ou “gerente” do grupo.
Por exemplo, um integrante do primeiro núcleo citado no caso diz ao pai, o mototaxista, que ele é o “gerente da região Norte”, o que para o Ministério Público significa que ele é o responsável por todas as operações do tráfico de armas e drogas na região norte do estado.
Os policiais afirmam que outro dos acusados é o “gestor do estado de Rondônia”, o que segundo eles confirma que o homem controla o “batismo” dos novos membros no estado vizinho, bem como a estratégia expansiva do PCC e seus enfrentamentos com rivais em Rondônia, um corredor estratégico para receitas de drogas e mineração ilegal da Bolívia e Venezuela.
Além disso, o caso faz inúmeras referências à “disciplina”, como são conhecidos os responsáveis pela aplicação das regras na organização, principalmente no que se refere à cobrança de “dívidas” de associados que traficam drogas. E as ameaças não são em vão.
“Aproveitei o fato de ter me encontrado [com a pessoa] e assediado [ele]”, conta um réu a outro em conversa interceptada, referindo-se às ações iminentes de uma “disciplina” do PCC contra um devedor.
Mas embora haja indícios de estruturas de poder verticais que exercem controle estrito sobre os membros da facção, o que é mais percebido no caso é uma organização pouco coesa que tende a usar redes amplas para fazer negócios nos quais eles são inexperientes, o que tem custos para eles.
Sem dúvida o melhor exemplo deste último é o caso de Tânia Cristina Lima de Moura. Considerado o “braço direito” de um dos integrantes do PCC 1533 na prisão, Lima de Moura abre contas bancárias em nome da filha e do neto do integrante da gangue, que, segundo os promotores, tinha na época cerca de 10 anos. e movimenta mais de 50.000 reais (cerca de US $ 9.000) nessas contas. Ela também troca caminhões roubados por drogas, prática comum no PCC, e organiza a transferência de drogas de Mato Grosso do Sul para Campinas, uma das principais cidades do estado de São Paulo. Lima de Moura foi capturada em junho de 2018.
Em outro exemplo, o PCC usa um menor para transportar maconha de ônibus. O menor é detido no caminho e preso com drogas e um celular LG que a facção paulistalhe deu para se comunicar. Em outro caso, em uma gravação telefônica, um líder da organização é ouvido na prisão, furioso porque outro menor foi preso por não esconder adequadamente as drogas que estavam coladas em seu corpo.
“Olha [o que acabou de acontecer], paguei 4,5 mil reais o quilo da vagabunda, e o menino acabou sendo um fiasco”, diz o líder da gravação.
Mesmo os profissionais que o PCC usa cometem erros bobos. Um guarda que a quadrilha emprega para extrair informações está envolvido no caso contra o grupo porque não escondeu que utilizou o sistema interno de informática da polícia – Sistema de Gestão Operacional Integrado (SIGO) – para conhecer os processos contra integrantes do Primeiro Comando da Capital.
Em seu veredicto, a juíza reconhece diferenças entre os integrantes da facção criminosa, como “operadora”, “lacaio“, e o que poderia ser chamado de “nenhuma das anteriores“. Dos 30 membros acusados, 23 foram condenados.
* Esta história faz parte de uma investigação de dois anos do Centro de Estudos Latino-Americanos e Latinos (CLALS) e do InSight Crime no PCC. A série completa será publicada entre 11 e 18 de dezembro. Leia o relatório completo aqui ou baixe-o da Social Science Research Network.
Pesquisador afirma que as organizações criminosas no momento desenvolvem um trabalho social, mantêm seus negócios fluindo e sairão altamente capitalizadas dessa pandemia.
A facção PCC financiando a reconstrução pós-pandemia
O mundo pós-pandêmico poderá ter sua economia controlada por esses grupos, caso os Estados não recapitalizem as empresas, deixando-as à mercê das regras de mercado, em um momento em que os grupos criminosos detêm o capital.
Enquanto as populações mais carentes são assistidas pelos criminosos, as rotas do tráfico de drogas e armas continuam ativas, e milhares de operações ilícitas ou fraudulentas ocorrem em decorrência da própria pandemia.
“Precisamos ajudar essas pessoas pobres!” — o homem que diz essas palavras não é um voluntário da Cruz Vermelha, mas um membro do cartel de Sinaloa , uma das máfias mais poderosas do mundo. Do noroeste do México, ele nos explica por telefone, que o cartel está substituindo as autoridades, distribuindo máscaras e sacos de comida a milhares de pessoas deixadas sem recursos, no meio de uma economia parada.
As mesmas cenas no Brasil, onde o Primeiro Comando da Capital (CCP), principal organização criminosa do país, compra cestas embaladas em supermercados e as distribui nas centenas de favelas que controla.
No Japão, Yamaguchi-gumi é o estado,Yakuza , tentou oferecer sua ajuda para desinfetar um navio que transportava passageiros de cruzeiros carregando o coronavírus.
O Primeiro Comando da Capital está financiando a importação de proteção pessoal e equipamentos médicos, que estão sendo disponibilizados no mercado legal e paralelo, além de fraudar governos e negócios com empresas fantasmas.
O lucro será posteriormente aplicado, e você talvez venha a trabalhar, mesmo sem saber, em uma empresa financiada pela facção PCC.
Facção PCC: a vitoriosa estratégia proposta por Marcola
Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder da facção Primeiro Comando da Capital, elaborou a estratégia de alianças baseadas em interesses econômicos e de sobrevivência que vige até os dias de hoje.
A grama é uma espécie vitoriosa: suas raízes se entrelaçam formando uma resistente couraça capaz de resistir à enxurrada e à enxadada, e mesmo que venham a ser arrancadas ou revolvidas, voltam a brotar sem que alguém as tenha cultivado, não se importando com as condições ruins do solo.
Assim é a facção criminosa paulista. Cada unidade dessa estrutura gramínea é autônoma, mas suas raízes se emaranham por todo o jardim — por menor que seja a unidade, ela ainda é parte importante no fortalecimento do todo.
É por essa razão que, nas última décadas, políticos, policiais e promotores de justiça declararam a derrota do PCC, mas, assim como a grama arrancada do solo, ele sempre ressurgiu, por maior que tenha sido o golpe.
Facção PCC: influenciando e sendo influenciada pelos aliados
Essa estrutura emaranhada de raízes trouxe consigo o intercâmbio de conhecimento e a absorção de características locais pelo todo.
A estratégia de Marcola previa a absorção ou parceria de gangues, facções, quadrilhas ou lideranças locais, que manteriam suas regras e costumes próprios, com um maior ou menor grau de autonomia do núcleo central.
O PCC de São Paulo, assim como seus aliados mais fiéis, como o Bonde dos 13 (B13) do Acre, Guardiões do Estado (GDE) do Ceará e o Terceiro Comando Puro (TCP) do Rio de Janeiro, tratam de forma diferente seus inimigos, seus integrantes e suas comunidades.
Apesar de todas as diferenças, o que prevalece é “certo pelo certo” e “é tudo 3” em qualquer biqueira ou quadrilha armada de qualquer uma dessas facções irmanadas — a cultura prevalecente é a do Primeiro Comando da Capital.
A facção paulista influencia profundamente as demais, no entanto, também sofre influência e é impactada pela aceitação ou não de cada uma de suas orientações, que nunca são impositivas, mas…
Facção PCC: los hermanos del Ejército del Pueblo Paraguayo (EPP)
As análises dos especialistas se limitam ao estudo da produção agrícola e industrial da Cannabis e de outras drogas, lícitas ou não. Pouco se fala sobre o intercâmbio de ideais entre os integrantes dessas duas organizações.
Lá pelos anos 2000, Marcola já circulava pelo Paraguai, e apesar de não estar muito claro quando o PCC se uniu ao Exército do Povo Paraguaio, acredita-se que eles já se comunicavam antes da saída de seus integrantes do Movimento Pátria Livre(MPL),do qual faziam parte até 2008 como braço armado.
As facções e as milhares de gangues brasileiras visam o lucro em suas ações e seu fortalecimento no mundo do crime, além de, só por vezes, melhorias no sistema prisional. Já o Exército do Povo Paraguaio se traveste de razões políticas.
O EPP, o Sendero Luminoso, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) utilizam o narcotráfico para financiar a luta marxista, leninista e guevarista desses grupos extremistas que nasceram durante a Guerra Fria.
O grupo armado paraguaio, assim como as facções brasileiras, patrocina sequestros e assassinatos de fazendeiros, políticos, empresários e policiais, além de ataques com bombas — e até aí nenhuma novidade para os brazucas.
No entanto, integrantes do PCC tem atuado em conjunto com os EPPs em diversas ações em solo paraguaio, inclusivenos ataques aos sojicultores brasileiros, e esses ataques não visam apenas o lucro:
Já no uso de força para o domínio das áreas de plantio de cannabis o lucro é a única razão.
Hoje, o Primeiro Comando da Capital distribui 60% da cannabis produzida em solo paraguaio em uma área estimada entre 7 e 20 mil hectares (1.340 municípios brasileiros tem uma área de até 20 ha.) que produzem entre 15 e 30 mil toneladas por ano, ocupando duas dezenas de milhares de trabalhadores rurais: da pequena agricultura familiar aos latifúndios com o que há de mais avançado no agronegócio.
Esse ingrediente social e político no qual o EPP inseriu o PCC poderá influencia-lo significativamente, assim como os prisioneiros políticos na Ilha Grande o fizeram no final do Regime Militar?
Pode-se argumentar que as poucas centenas de integrantes do Exército do Povo Paraguaio nada representam em relação às dezenas de milhares de PCCs e seus aliados. Contudo, bastou apenas um homem, Maurício Hernàndez Norambuena, o Comandante Ramiro, um chileno que chefiou a Frente Patriótica Manuel Rodrigues, cair na mesma cela que Marcola para mudar todo o conceito de crime organizado no Brasil deste século ao ensinar o companheiro a plantar grama.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
O Primeiro Comando da Capital impôs o conceito “paz entre ladrões”, mudando a violenta realidade do mundo do crime, do sistema prisional e das periferias das grandes cidades.
Júlio Verne e como a facção PCC impôs a “paz entre ladrões”
1999 — Chega ao fim o século 20
Estávamos para colocar os pés num futuro utópico no qual a humanidade chegaria em seu ápice moral e tecnológico… não… espera!
Durante séculos, a humanidade sonhou que esse futuro brilhante e longínquo se daria no século 20, e não no 21 — entre tantos, Jules Gabriel Verne.
Júlio Verne já ouvira falar da Província de São Paulo, que, com suas plantações de café, clima agradável e vilas pequenas com casas arejadas e esparsas, poderia ser uma alternativa tupiniquim para sua idealizada cidade de France-Ville, descrita em “Os quinhentos milhões da Begum”.
2001 — Início da Era Caórdica
Para os astrônomos começa a Era de Aquário, que para os filósofos e sonhadores, como Verne, seria a Era do conhecimento, e para os intelectuais seria a Era Caórdica (um sistema que combina características de caos e ordem).
Muito desse resultado se deu pelo controle hegemônico do Primeiro Comando da Capital sobre a antes caótica e fragmentada periferia, com suas diversas cadeias de assassinatos, que giravam ao redor de conflitos interpessoais, retaliações e vinganças.
Chega o século 21 — Paz, Justiça, Liberdade, Igualdade e União (PJLIU)
O fortalecimento da organização criminosa PCC permitiu que ela assumisse nessas regiões conflituosas um papel de instância reguladora dos conflitos internos no mundo do crime — nada poderia ilustrar melhor essa Era Caórdica.
Com o controle do PCC nas periferias, o mote passou a ser o da paz entre os ladrões, com o fim dos conflitos violentos e retaliações entre atores do mundo do crime, e o inimigo comum passou a ser o Estado, principalmente as forças policiais e o sistema prisional.
1879 — France-Ville utópica de Verne; 2001 — São Paulo distópica do PCC
Em France-Ville, a paz seria garantida por um líder sábio e um conselho de notáveis. Já na São Paulo do século 21, a paz chegou graças a atuação de um grupo criminoso, que focou a criminalidade no lucro, no trabalho em equipe e na luta contra um Estado opressor.
“O decreto da paz entre os ladrões é acompanhado, em alguma medida, de uma definição de um inimigo em comum, um terceiro mais forte cujas práticas consideradas opressoras, demandam a união e solidariedade entre os atores do mundo do crime.” — Rafael Lacerda Silveira Rocha
Tribunal do Crime do PCC como mediador aceito
O Tribunal do Crime é a face mais conhecida do Primeiro Comando da Capital, mas a organização criminosa só conseguiu aceitação no mundo do crime por um rígido código de ética escrito, a disciplina e a busca da justiça em sua execução:
No PCC as decisões e os julgamentos têm que passar obrigatoriamente pelo “debate”, no qual um grupo, seguindo as regras da facção e consultando a hierarquia, chegam a um consenso sobre um tema ou sobre uma pena a ser aplicada, de modo a garantir a justeza da decisão.
1899 — Júlio Verne entra no sonhado Século de Ouro
Durante séculos, a humanidade sonhou que esse futuro brilhante e longínquo se daria no século 20, entre tantos, Jules Gabriel Verne, que conseguiu entrar no século tão esperado.
O sonhador ficcionista, no entanto, ao entrar no novo século se desilude, torna-se melancólico, acusando a humanidade de fazer o uso errôneo da tecnologia e de desrespeitar o meio-ambiente.
Em 1902 é atingido por uma catarata, deixa de trabalhar e perde o interesse pela vida. Morre em 1905, enterrando com ele o sonho de milhões que esperaram ver no século 20 o ápice moral e tecnológico da humanidade.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
No paiol do PCC: lançadores de granadas e foguetes
Artefatos explosivos são amplamente utilizados pelo PCC 1533: desde uma granada atirada contra uma viatura durante uma fuga, passando por assaltos à caixas eletrônicos em supermercados, até as megaoperações contra empresas de transportes de valores e em resgate de presos em penitenciárias de segurança máxima no Brasil e no exterior.
“O Primeiro Comando da Capital (PCC) foi assinalado pelo Departamento de Polícia Federal (DPF) por possuir granadas, lançadores de granadas, petardos (tipo de explosivo), foguetes, lançadores de foguetes, metralhadoras, pistolas e artefatos explosivos improvisados.
A apreensão desses artefatos foi feita pelo DPF em Pradópolis/SP, a 320 km da capital do estado, e chamou a atenção da mídia e autoridades de segurança pública quanto ao alto poder de fogo e destruição dos explosivos.”
É o que nos conta os pesquisadores Tiago Mesquita Feitoza e José Alves Júnior, especialistas em segurança pública, sendo um civil e outro militar, em um trecho de um artigo sobre o uso de explosivos por criminosos.
O responsável pelo pânico generalizado: ataques contra as forças policiais, incêndios a carros e ônibus realizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Esta obra apresenta o caminho que levou o PCC a atingir tamanho grau de influência no sistema carcerário e nos bairros periféricos, culminando na paralisação de São Paulo…
O Primeiro Comando da Capital não executa grandes atentados terroristas, ao estilo das organizações criminosas de seu porte no restante do mundo, para não chamar atenção sobre si, atrapalhando os negócios — o fluxo segue suave.
Em sua origem, o grupo criminosos buscou e conseguiu notoriedade com os violentos ataques contra as forças de segurança pública em 2006, quando pararam São Paulo, no entanto, suas empreitadas terroristas com bombas foram um fiasco.
Talvez você não se lembre, mas o Primeiro Comando da Capital organizou dois grandes atentados, em 2002, na capital paulista, que teriam entrado para a história do terrorismo mundial se tivessem funcionado: BOVESPA e Fórum da Barra Funda.
explicam Marcio Sérgio Christino e Claudio Tognolli.
Deu xabú
Petrolina estava sob grampo e a polícia conseguiu prendê-la antes que o atentado ocorresse.
Seus comparsas não foram localizados, mas abortaram o plano e abandonaram o veículo com os explosivos para ser encontrado pela polícia.
Radiografia do Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho: a modelagem conceitual por ela realizada dessas duas organizações clarifica aspectos fundamentais do crime organizado no país, fornecendo os fundamentos de investigações futuras, às quais a autora já se dedica em sua pesquisa…
Atentado no Fórum da Barra funda
A Polícia Militar do Estado de São Paulo oferecia liberdade a presos para se infiltrarem na organização e conduzirem os comparsas para serem mortos.
Foi o caso da “Chacina da Castelinho”, na qual o infiltrado passou a falsa informação para os criminosos de que uma grande quantidade de dinheiro estaria chegando em um aeroporto, mas era apenas um plano da polícia para executar os bandidos.
A facção Primeiro Comando da Capital, descontente com a estratégia dos agentes do Estado, enviou uma mensagem que não aceitaria mais esse tipo de covardia: um carro repleto de explosivos no estacionamento do Fórum da Barra Funda na capital do estado.
Deu xabú. Possivelmente por uma falha no sistema do detonador, o automóvel não explodiu, permanecendo estacionado por dois dias até que a polícia fosse chamada para verificar o veículo. Só então perceberam se tratar de um carro bomba.
A explosão ocorreria no dia do julgamento dos sequestradores do publicitário Washington Olivetto, vinculados às organizações terroristas chilenas Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) e a Frente Patriótica Manuel Rodriguez (FPMR).
O PCC enviaria sua mensagem ao mesmo tempo que ficaria fora holofote, o que em parte ocorreu: foi dissolvida a equipe policial que realizava as operações com presos infiltrados para o extermínio de criminosos.
Só Jair Bolsonaro e seus mentecaptos seguidores acreditaram que o Primeiro Comando da Capital teria recrutado Adélio Bispo para matá-lo, como o próprio presidente chegou a anunciar.
Fernandinho Beira-Mar foi o responsável pelo planejamento:
A facção paulista utilizaria tecnologia das FARCs: explodindo simultaneamente 5 carros bombas em estados diferentes, enquanto haveriam sequestros de autoridades e rebeliões em presídios em todos os estados do país.
A megaoperação foi abortada: a facção afirma que abandonou o plano para se manter nas sombras e não atrapalhar os negócios. Já as autoridades afirmam que foi graças ao setor de inteligência que descobriram o plano e impediram a ação dos criminosos antes que ele acontecesse.
Ambas as hipóteses merecem crédito…
… mas a hipótese que organização criminosa PCC recrutou Adélio Bispo com uma faca só recebeu crédito de Bolsonaro e de seu séquito de mentecaptos, que depois passaram a afirmar com certeza que ele foi contratado pelo PT, PSOL, PSDB, China, Venezuela, CV…
A obra preocupa-se em apresentar os problemas e as carências do Estado brasileiro para a proteção das fronteiras, para articular seu serviço de inteligência…
O uso de explosivos pela facção PCC 1533
Fora alguns casos esporádicos, nos quais isoladamente, integrantes utilizam explosivos caseiros para pequenos atentados locais, a organização criminosa passou a administrar de maneira profissional o uso desses artefatos, ficando um irmão responsável pelo paiol.
A estocagem e distribuição de armamentos pesados e explosivos do paiol de cada região ficou sob a responsabilidade de um irmão ou companheiro, que avalia o risco e o retorno de cada empreendimento nos quais os equipamentos devem ser usados.
Tiago Mesquita Feitoza e José Alves Júnior descrevem em seu artigo a evolução histórica do uso dos explosivos por organizações criminosas, desde a década de 1960 até o ano 2000, quando houve a banalização do uso desses materiais pelos criminosos.
Se por um lado eles contam que a utilização de explosivos para roubo de caixas eletrônicos começou no sul do país, chegando posteriormente a São Paulo, por outro lado eles não contam que o PCC envia criminosos treinados no uso de explosivos para repassar o conhecimento em troca de parte dos lucros nos assaltos ou por um valor fixo — e se eles não vão contar esse fato, muito menos eu o farei.
Um novo integrante da facção PCC 1533 segue para o nordeste do Paraguai para reforçar a organização criminosa Primer Comando Capital e o Ejército del Pueblo Paraguayo (EPP).
O prefeito de Pedro Juan Caballero, no departamento de Amambay, Noroeste do na região Nordeste do Paraguai chamou a imprensa.
O prefeito Ronald Acevedo firmou que os integrantes do Primeiro Comando da Capital há muito aterrorizam a região de Amambay.
Segundo ele, os líderes quadrilha paulista estavam mudando da região, devido à guerra entre os grupos criminosos.
No entanto há muito mais do que apenas as mortes causadas pela disputa pelo poder entre os grupos brasileiros Primeiro Comando da Capital e o grupos paraguaios Comando Clã Insfrán, Clã Rotela, Clã Acevedo, Clã Colón e o Clã Orellanae.
As constantes e cada vez mais caras extorsões e ameaças que os criminosos sofrem por parte de autoridades é sempre um fator importante na equação.
O prefeito declarou que a polícia paraguaia não está preparada para enfrentar esses elementos no país, e que os cidadãos pedrojuaninos e de todo nordeste paraguaio convivem com esses criminosos.
Os facciosos vivem em condomínios e apartamentos de luxo ao lado de todo o tipo de “cidadão de bem” paraguaio, conheço esse discurso, e que são constantementes oprimidos e ameaçados pelos criminosos.
No entanto, a Senadora Desirée Masi questionou publicamente a razão pela qual o caso de Ryguasu e de outros líderes da organização criminosa eram constantemente ocultos do conhecimento público e não avançavam.
O prefeito Acevedo confessou que foi a pedido dele que as autoridades ocultaram dados, para não assustar a população e porque ele e sua família estavam sendo ameaçados.
Essa confissão levantou em mim suspeitas sobre a conduta do prefeito, e se ele não estaria tentando se apresentar como vítima.
O prefeito ainda pediu o afastamento pediu a destituição do comandante da Polícia Nacional, Gilberto Fleitas, e do diretor de Investigação de Atos Puníveis César Silguero.
Entendo a posição daqueles que acreditam no prefeito pedrojuanino, mas já tendo eu, admirado políticos e depois, trabalhado próximo a eles no governo…
… não posso deixar de pensar que há uma trama ainda maior por trás de tudo que está acontecendo e que não há inocentes nessa história.
LIVRO GRÁTIS NO KINDLE! Um livro para ler com medo. É esse o recado que o jornalista Carlos Amorim manda aos leitores de Assalto ao poder, fecho de sua trilogia sobre o crime organizado no Brasil. Depois de dissecar…
Liderança cada vez mais distante
A morte de Ryguasu, apresentou ao público essa nova fase do Primeiro Comando da Capital longe das fronteiras e lonje de suas bases.
Não é de hoje que as lideranças estão se afastando de suas bases no modo de pensar e agir, e agora também se afastam geográficamente.
Antes, em São Paulo, em Porto Velho ou em Pedro Juan Caballero, os crias e os líderes respiravam o mesmo ar e dormiam sob as mesmas estrelas, mas esse tempo pelo que estamos assistindo acabou.
Abaixo eu faço o relato como o fiz em abril de 2020 sobre o histórico da imigração do Primeiro Comando da Capital para o Paraguai.
Estamos sozinhos: eu e ele.
Da porta do meu quarto o vejo em minha cama, deitado, com a roupa suja de sangue. Seu cheiro se espalha pela casa: uma mistura de suor, sangue, goró e crack. Será que esse é o verdadeiro cheiro do demônio, e não o enxofre?
Mesmo dormindo, seu rosto é puro ódio. As luzes estão apagadas, e com essa quarentena por causa do covid-19 a penumbra e o silêncio são ainda mais profundos.
Ele vira o rosto na minha direção, de olhos abertos. Eu gelo! Porra de susto! Ele está é dormindo com olhar noiado e respiração rápida e profunda – coisa do demônio!
Volto pelo corredor, esperando não vê-lo até a hora de ele ir embora.
Me ligaram avisando que alguém iria se mocozá aqui até amanhã.
Ninguém é obrigado a fazer nada na Família 1533, no entanto, a recusa é notada. Por outro lado, sempre rola um dinheirinho que ajuda pagar as contas.
Antes de amanhecer, ele seguirá para o departamento de San Pedro, no Paraguai, onde se juntará aos PCCs na escolta de um carregamento a ser entregue pelo Exército Popular do Paraguai (EPP), e depois reforçará a segurança dos galpões e fazendas da facção.
O corredor do quarto para a sala é pequeno, apenas alguns metros, mas essa noite o escuro, o silêncio e aquele visitante fazem-no parecer muito longo. Ando em direção à sala, que parece nunca chegar – não me lembro de ter bebido nada.
Posso sentir o medo nos olhos dos “Cús Vermelhos”, como são chamados pelos PCCs os inimigos, integrantes da facção carioca Comando Vermelho (CV), quando estiverem na ponta da faca desse cara em Concepción, Amambay e Canindeyú.
Enfim chego na sala, e a luz da tela de descanso do note me acalma.
Ele seguirá para a fronteira nordeste do Paraguai em algumas horas – horas que não passam.
Quando eu ia para o Paraguai, era só contrabando inocente, videocassetes e câmeras. Isso mudou em 2008, quando o EPP começou a atuar entre o norte de San Pedro e o sul de Concepción, e os primeiros PCCs se instalaram na província Alto Paraguay.
Hoje, o Primeiro Comando da Capital distribui 60% da cannabis produzida em solo paraguaio em uma área estimada entre 7 e 20 mil hectares (1.340 municípios brasileiros tem uma área de até 20 ha.) que produzem entre 15 e 30 mil toneladas por ano, ocupando duas dezenas de milhares de trabalhadores rurais: da pequena agricultura familiar aos latifúndios com o que há de mais avançado no agronegócio.
O Exército do Povo Paraguaio, para exigir uma mudança social, passou a agir com violência, atacando propriedades rurais e comerciais, queimando plantações, destruindo o que viam, envenenando o gado e sequestrando fazendeiros, políticos e comerciantes.
Eu nunca conversei com um soldado do EPP para poder afirmar se isso é verdade ou se alguém pintou o diabo mais feio do que ele realmente é – o povo fala demais, como naquela história do cheiro de enxofre.
Sinto que alguém me observa. Olho para o corredor escuro, mas não vejo ninguém. Uma correnteza de vento traz aquele “cheiro dos demônios” – a noite será longa.
No início, os PCCs que iam para o Paraguai fugindo das autoridades brasileiras chegavam aos poucos, apenas para se esconder, mas hoje é diferente: quem chega já tem trabalho garantido:
“El Primer Comando Capital” é o maior grupo armado atuando naquele país, e possui infraestrutura, armas, muita grana, plantações de maconha, distribuidoras de cigarros, está presente em todas as prisões do país, e influência na política.
Vou até a cozinha, preparo um café e olho para o relógio que não anda. O tempo parou? O frio é intenso, mais forte que o normal. Tremo. Estou com febre?
Coloco um filme no note e deito no sofá da sala. Não vou até o quarto pegar um outro cobertor. Prefiro passar frio do que ver de novo aquele rosto, mesmo sabendo que o frio não me deixará pegar no sono.
Será fácil para ele atravessar a fronteira longa e porosa. Quase não há controle, e os que existem não passam de bases mal equipadas com dois ou três agentes, que só estão vivos porque não incomodam, ou melhor, só incomodam turistas e muambeiros.
Daqui do interior de São Paulo até Canindeyú, de lancha pelo rio Paraná, demora uma hora; de avião, 45 minutos; de carro, umas 10 horas. A viagem só será ao amanhecer, e o relógio não está colaborando.
Todos temos que ganhar nosso pão.
Gosto de mocozar companheiros que precisam de ajuda, ouvir suas histórias, aventuras, sonhos e amores – e geralmente rola umas moedinhas para meu lado.
Volto ao sofá. O filme já acabou e a tela entrou em descanso. Deixa assim mesmo.
Ainda não se conseguiu estabelecer uma definição sobre terrorismo internacional por convenção nas Nações Unidas. Conceito elástico, em que caberia até o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, é pugnado pelos EUA. Caso vingasse, qualquer movimento separatista armado seria dado como terrorista.
Só posso estar sonhando…
Estou ao lado do Richard Rojas, “el paraguayo más antiguo del PCC”, conversando com um oficial da polícia em Assunção, pegando informações e acertando o transporte de uma carga que será despachada por avião para São Paulo.
Acordo ainda entorpecido, sem saber quanto tempo dormi. Estou consciente, mas não consigo me levantar. Aquele cara do inferno está passando pelo corredor olhando para mim e seguindo para a cozinha – ou foi minha imaginação?
Tem um barulho vindo de fora, talvez seja a polícia em busca do cara. Eu tenho que levantar para avisá-lo. Semiacordado, vou em direção ao corredor escuro, que agora parece tão distante. Não consigo acordar de vez – que diabo!
Chego ao corredor.
A luz da cozinha está acesa, e por ela vejo aquele homem infernal olhando para mim. Lux in tenebris: aponta a mão na minha direção, retira algo da mochila, deixa sobre a mesa e sai pela porta dos fundos.
Estou novamente sozinho e sobre a mesa ficou uma boa paga.
Ainda não se conseguiu estabelecer uma definição sobre terrorismo internacional por convenção nas Nações Unidas. Conceito elástico, em que caberia até o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho, é pugnado pelos EUA. Caso vingasse, qualquer movimento separatista armado seria dado como terrorista.
O Primeiro Comando da Capital sofreu várias baixas importantes pelo mundo, e autoridades chegaram a afirmar que a facção PCC 1533 entra agora em declínio – será?
I – O DIÁLOGO
Ainda está escuro.
Marcel senta ao meu lado no beiral da escada, me entrega um copo com café que Sônia acabou de fazer. Mal dá para ver o marido dela ali perto cuidando dos animais, a escuridão da noite só não é mais profunda que o silêncio – ouve-se ao longe apenas um galo.
Não conversamos desde que entramos no carro em São Paulo, e nem o casal falou conosco quando chegamos noite passada naquele sítio em Marialva – o marido de Sônia apenas mostrou a cozinha e onde deveríamos dormir e se recolheu.
Desligamos nossos celulares antes de pegar a estrada, e ainda continuam desligados, o que aumenta o peso do silêncio. Marcel me diz, com olhar distante:
— “Vou seguir. Para lá não volto”.
— “A gente continua cuidando da sua família”, respondo.
— “Só agradece”.
— “Você sabe que te deixo aqui”.
Ele não responde. Me levanto e me despeço do casal com um aceno, mas eles também não respondem.
Entro no carro e sigo pela estradinha de terra vermelha uns dois quilômetros até a vicinal, e de lá uns cinco até a BR-369 – Marcel terá que caminhar muito, a menos que consiga uma carona.
II – POR TRÁS DO DIÁLOGO:
— “Vou seguir. Para lá não volto”.
“Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule…”
Encarcerados do grupo de risco e daqueles que não tenham sido julgados e que não estejam respondendo por crimes violentos devem ser soltos e aguardar o julgamento…
Ele sabe que se ficasse em São Paulo não demoraria a ser preso novamente, por isso aceitou o convite para se juntar no Paraguai aoRichard, “el soldado más antiguo del PCC”, mas pouco antes de pegarmos a estrada ficamos sabendo de sua prisão em San Lorenzo.
Com a prisão de Richard, Marcel desistiu de ir para o Paraguai, e assim seguiria de Marialva no Paraná, para o noroeste (Bolívia, via Dourados). Há anos conversamos sobre essa alternativa quando caíram diversos PCCs aqui na região.
— “A gente continua cuidando da sua família”.
Marcel sabe que a família de um irmão ou companheiro não é deixada de lado pela Família 1533 – desde sua prisão, sua mulher recebe parte do rendimento de uma biqueira, e assim continuará enquanto ele não se estabelecer.
Richard René Martínez Rojas recrutava novos PCCs entre aqueles que saíam do sistema prisional paraguaio, e as células criadas por ele planejavam e executavam meticulosamente grandes assaltos, assassinatos, sequestros e resgates de presos, assim raramente algum criminoso acabava preso ou morto, e os ganhos eram elevados.
Já no Mato Grosso do Sul e na Bolívia a conversa era outra, e por isso tentei assegurar a Marcel que ele poderia seguir sem medo, e que sua família estaria sendo cuidada.
— “Só agradece”.
Marcel sabia que não tinha o que agradecer, ele deu o maior apoio a um chegado meu, além disso ele não estava fugindo ou abandonando o PCC 1533, pelo contrário, eu o estava colocando a caminho do olho do furacão:
Houve um debate onde se decidiu que eu deveria lhe oferecer ajuda, convencê-lo e levá-lo em segurança até aquele sítio –ele acha que eu fui procurá-lo apenas para ajudá-lo.
Há alguns dias Fuminhofoi preso em Moçambique, mas era da Bolívia que comandava a distribuição das drogas no Brasil e as rotas do tráfico transcontinental, desde os produtores latino-americanos, passando pelos distribuidores brasileiros aos portos africanos, para chegar aos atacadistas europeus, americanos e australianos.
O eixo africano permitiria ao Primeiro Comando da Capital entregar diretamente para clientes europeus, evitando os portos da Bélgica, Holanda e Itália, onde é necessário pagar o agenciamento cobrado pelos cartéis locais que gira em torno de 40% do valor da mercadoria.
A prisão de Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, derruba parte dessa estrutura, e se Marcel conseguisse aproveitar essa oportunidade, encaixando-se nas lacunas ganharia mais dinheiro do que poderia gastar, mas, caso não conquistasse a confiança da liderança, morreria.
— “Sabe que te deixo aqui”.
O acertado era levá-lo até aquele sítio, onde passaríamos a noite, e eu voltaria logo cedo. Após o almoço ele deveria esperar na BR-369, onde uma companheira passaria para pegá-lo e seguiria com ele como se fosse sua garota, para não chamar muita atenção.
Para atravessarem a fronteira com segurança, eles devem parar em Dourados para acertarem os contatos e rotas – mas sei o que o espera por lá, e não creio que ele chegará na Bolívia.
A minha parte da missão foi cumprida, e a garota, que é “cria do 15”, com aquele jeito que só elas têm, deverá convencer Marcel a entrar na guerra que o PCC trava no Mato Grosso do Sul para eliminar os inimigos do Comando Vermelho (CV).
Tudo ainda é incerto, mas Marcel talvez troque o seu sonho boliviano de riqueza, e decida assumir algumas missões de Walter Dantas Cabreira, conhecido como Xeque-mate, o assassino do PCC do MS que foi capturado essa semana quando planejava matar um agente público.
Seja no Paraguai, na Bolívia, no Mato Grosso do Sul ou na biqueira de qualquer bairro: uma peça cai, e outra entra em seu lugar e o jogo continua. Não é uma substituição, é um Roque, e todos nós somos apenas peças nesse tabuleiro: eu, a companheira, o casal e ele.
Na organização criminosa Primeiro Comando da Capital, a queda de um líder ou um membro não significa que outro o substituirá, mas seu espaço será ocupado de forma orgânica e imprevisível através das disputas internas e de acordo com os interesses e as escolhas de cada integrante.
Essa incerteza obriga que as forças que combatem a facção PCC 1533 recomecem suas investigações para entender o novo cenário criado e suas ramificações para, só então, tempos depois, lançar outro ataque – Roque!
Roque: no xadrez é a jogada que envolve a movimentação de duas peças em um único lance, usada para desarticular um ataque inimigo, obrigando-o a reorganizar outro ataque.
O texto “Disciplina da facção” mergulha na complexa realidade das escolas em áreas sob a influência da facção Primeiro Comando da Capital. Através de relatos e análises, busca-se entender a presença e atuação da facção no ambiente escolar.
Disciplina da facção permeia a trama deste relato, que lança luz sobre a vida em territórios dominados pelo Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). A crônica ressoará tanto com aqueles imersos na realidade descrita, quanto com os que a abordam de um ponto de vista mais acadêmico. Convido você a mergulhar neste universo complexo e a compartilhá-lo em suas redes sociais.
Este texto vai além da simples narração, atuando quase como um documento jornalístico que investiga a moralidade e a ética no contexto das facções criminosas. Escolas e serviços de segurança pública são colocados sob o microscópio, revelando as complexas escolhas e compromissos feitos para manter um semblante de ordem. Não deixe de se inscrever no nosso grupo de WhatsApp para estar sempre atualizado com nossas publicações.
Ao final da leitura, gostaríamos muito de ouvir a sua opinião: curta, comente e participe do debate em nossas plataformas. E como é costume em nosso site, após o carrossel de artigos, você encontrará uma análise deste texto feita por inteligência artificial, adicionando ainda mais profundidade à discussão. Este é um conteúdo que, sem dúvida, merece ser amplamente compartilhado e discutido.
Público-alvo Acadêmicos e Pesquisadores: Especialmente aqueles que estudam criminologia, educação e sociologia urbana. O texto oferece um estudo de caso real que pode ser útil para pesquisas empíricas. Educadores e Administradores Escolares: Profissionais que trabalham em escolas situadas em áreas sob influência de organizações criminosas podem encontrar no texto insights sobre os desafios e adaptações necessárias para manter o ambiente educacional. Jornalistas e Comunicadores: Os que cobrem assuntos relacionados a educação, crime e políticas públicas podem se beneficiar de um relato que revela as complexidades do tema. Políticos e Formuladores de Políticas: O texto pode oferecer um ponto de vista pouco explorado que pode influenciar a formulação de políticas mais eficazes para a educação em áreas de risco. Comunidade em Geral: Particularmente aqueles que vivem em regiões afetadas pela criminalidade e estão interessados em entender os efeitos da influência do crime organizado nas instituições locais, incluindo escolas. Leitores Interessados em Estudos de Caso Sociais: O texto também poderia atrair leitores que têm um interesse geral em histórias humanas e estudos de caso sobre como as pessoas se adaptam a circunstâncias excepcionais. Ativistas Sociais: Aqueles que estão buscando entender melhor as dinâmicas do crime organizado para formular estratégias de intervenção ou conscientização. Dada a complexidade e a seriedade dos temas tratados, o texto pode não ser apropriado para leitores mais jovens ou para aqueles que procuram uma leitura mais leve e de entretenimento
Aviso Importante O conteúdo a seguir aborda temas sensíveis relacionados ao submundo criminal e à organização Primeiro Comando da Capital. A leitura é recomendada para fins educacionais e de pesquisa. Prossiga com discernimento. As situações e personagens aqui apresentados são fruto da imaginação do autor e qualquer semelhança com eventos ou indivíduos reais é mera coincidência. Verificação de Fontes: Recomenda-se que os leitores verifiquem independentemente as informações apresentadas para formar suas próprias opiniões e conclusões.
Disciplina da Facção 1533: Rato Dita as Regras no Palco Escolar
Cheguei e Rato já tava botando o pé na cabeça do moleque. O cara tava todo se achando. E ó, não ia ser eu quem ia estragar essa onda dele. Rato, que também já teve a cara enfiada na terra igual ao garoto, agora comanda a roda, e tá todo inflado. Quem sou eu pra falar alguma coisa?
O moleque no chão tinha mandado umas ideias atravessadas pra professora. Um dos camaradas de classe chamou o Disciplina pra “chamar para o debate” e “dar um esculacho” no menino. E o Disciplina, meu, era o próprio Rato. Coisa triste, sacou?
Disciplina da Facção 1533: Rato, o Moleque Zica
Conheço o Rato de outros carnavais, mano. Desde pivete, o mlk já era osso duro. Vi ele chegar em casa mais de uma vez zoado, olho inchado, mas nunca abaixou a cabeça, sempre na pilha de vingança.
Teve uma vez, ele com uns dez anos, saiu pra escola de taco de golfe na mão. Sei lá o que rolou, mas ele voltou inteirão, sem uma gota de sangue na roupa.
Ele e o moleque do chão estudaram na mesma escola lá no Central Parque. O Rato também já deu seus pegas com professor, até surrou um uma vez.
Mano, antes de se meter com a bandidagem, ele já causava na escola. E agora ele se acha o “pacificador” do rolê escolar. Vai vendo como a vida dá voltas, né não?
Liberando o Garoto do Disciplina da Facção
Nos meus tempos de moleque, não tinha essa de facção, era gangue mesmo. No Central Parque, quem mandava era a galera da “Rifaina“, os únicos que chegavam com um baseado pra acender.
Nada disso se compara com essa organização toda que o Primeiro Comando da Capital botou na quebrada, incluindo na escola onde o moleque debaixo do pé do Rato estuda.
Nunca tinha parado pra pensar em como os diretores das escolas, os professores e tal, tavam se virando nessa nova realidade. Mas também, aquele momento não era pra filosofar, era pra tirar o garoto daquela roubada.
Chamei o Rato de canto. O cara tava elétrico, falava sem parar. Deixei ele falar, fiz aquela cara de “tô entendendo”, e concordei com tudo. Depois joguei que tinha uma missão pra ele, mas que ele precisava liberar o garoto. Tempo é grana, não dava pra perder mais. Foi a única coisa que veio na cabeça pra salvar o moleque que tava ali, sofrendo no meio da roda, já tava esculachado mesmo.
O Sistema Escolar no Jogo da Vida Marginal: Verdades que Ninguém Quer Ouvir
Ellís Regina Neves Pereira não conhece o chão do Central Parque, mas foi ela que me deu o papo reto sobre como o Primeiro Comando da Capital tá mexendo com a vida dos professores e da galera que trabalha na escola.
Ela não tá nem aí pra fazer média e fala na cara que tem uma “cultura marginal de gestão escolar” que, por um lado, acaba com qualquer sonho de escola ideal e, por outro, faz a escola funcionar nas quebradas em guerra – coisa que ninguém quer admitir.
Não tem um “acordo” definido entre os chefes da escola e o pessoal do PCC pra manter a ordem, sacou? É mais uma adaptação mesmo, pra “manter a escola de pé”.
Ellís Regina falou e tal, e ela tá certa na visão, sacou? Não é só na escola que a coisa tá desse jeito. Se liga nos políticos, nos milicos, na polícia. Não tem presidente, governador ou prefeito batendo de frente com eles, todo mundo tá fazendo o que pode, como pode. O jogo é esse, mano. É adaptação pra não cair, mesmo que o terreno seja minado, evitar debate, evitar conflito, procurar a paz do jeito que dá. A doutora só confirmou o que a gente já vê no dia a dia, na rua, na escola, na vida.
A luta pela sobrevivência: comendo pelas beiradas
Minha velha, que comandava uma escola na quebrada de Sampa, já me dizia que o bagulho era tenso mesmo antes do Primeiro Comando da Capital dar as caras.
Ela, como a diretora que era, tinha que bater um papo reto com as lideranças da área e os políticos – a polícia marcava presença nas festas, mas só depois de alinhar tudo com a comunidade pra chegar de boa.
A polícia aparecer dá uma sensação de que tá tudo sob controle, mas é coisa que ela vem e vai rapidinho. O estrago que fica, porém, pode durar um tempão e ninguém sabe medir:
Tenho um bom relacionamento com esse pessoal. Outro dia, eles invadiram a quadra […] e não dava para ir lá e conversar. Também não pude chamar a ronda escolar. Se faço isso, vão vir para cima da gente depois. Fiz isso um dia e me arrependi.
Amaury, diretor de escola pública
Nesses lugares onde a paz até rola, os diretores e professores não encaram isso como algo normal ou parte do jogo, mas como uma necessidade pra sobreviver. Tanto na quebrada quanto no sistema, como o diretor soltou:
Escola boa é onde não aparecem problemas [e varrendo pra baixo do tapete e entrando nesse jogo, a escola pode] ganhar umas moral e uns pontinhos com o governo pelo ‘serviço bem feito’. Mas no fim, fica aquele gosto amargo de estar servindo pra isso!
continua Amaury
Da Rua pro Poder: A Lei que Cobra, a Juventude que Paga
Olha, a escola e a comunidade são como um caldeirão fervente, misturando tudo: fé, política, educação e a criminalidade. Rato tá aí, o cara mexe em todas as panelas, entendeu? Não é santo, longe disso, mas tá sempre querendo dar uma de líder comunitário, resolvendo desde o poste queimado até treta de vizinho.
Eu sempre falei pra ele não meter o bedelho em tudo, mas o muleke não escuta. Com o pessoal mais velho da facção trancado, ele e outros moleques, mais verdes, tomaram conta do pedaço. E tudo isso foi só piorando com as leis que vieram se somando com o tempo:
A Lei do Crime Organizado, a Lei Antidrogas e aquela que trouxe o Regime Disciplinar Diferenciado, essas leis mudaram o jogo, e todas elas foram durante o governo do Partido dos Trabalhadores (PT).
Rato é como muitos jovens: impulsivo e ainda mais quando tá chapado. Então, quando vi ele botando o pé na cabeça do guri que desafiou a professora, eu me liguei que a coisa tava saindo do controle. Gosto do Rato, mas preciso ser sincero, ele ainda não tá pronto pra segurar essa onda toda de poder.
Os Conclusão dos leitores do site sobre o texto “O Disciplina da facção PCC 1533 na escola”
O debate no grupo de WhatsApp dos leitores do site, trouxe à tona uma questão complexa sobre a atuação do Primeiro Comando da Capital no ambiente escolar. Com base nas observações feitas, a conclusão geral é de que a narrativa criada sobre o envolvimento do PCC nas escolas não condiz com a realidade conhecida da facção.
A primeira incoerência identificada é a noção de que o PCC teria qualquer envolvimento direto nas escolas, a não ser em situações muito específicas, isso não é real. Uma dessas situações, como mencionado, seria no caso de um aluno agredir um professor, e algum familiar deste professor buscar retribuição junto à facção. Neste cenário, é importante destacar que o aluno em questão precisa ter mais de 15 anos para ser “cobrado” pelo grupo. E, mesmo assim, a “cobrança” não ocorreria no ambiente escolar, mas em um local separado, longe de testemunhas, onde seria aplicado o chamado “corretivo”.
Neste contexto, o indivíduo referido como Rato se mostra um elemento desviante. Se os relatos forem verdadeiros, sua atitude de confrontar o aluno na frente de outros estudantes demonstra uma quebra nas práticas estabelecidas. Primeiramente, se o aluno apenas desrespeitasse um professor, a primeira ação seria apenas levá-lo para um diálogo, não uma agressão direta. A situação só justificaria uma abordagem mais dura caso houvesse agressão física contra o docente.
Adicionalmente, a maneira como Rato agiu não apenas quebrou o protocolo interno, mas também expôs alunos e professores a um risco desnecessário. Em um ambiente educacional, é crucial considerar a segurança e o bem-estar de todos os presentes. Algumas pessoas, têm condições médicas que as tornam particularmente vulneráveis a situações de estresse e confronto, podendo enfrentar riscos graves de saúde ao serem expostas a tais circunstâncias.
A organização criminosa Primeiro Comando da Capital se preocupa em evitar confrontos físicos no ambiente escolar, é ruim para todos, até para os negócios das lojinhas próximas. Agredir alguém, especialmente um menor de idade, implica em cobranças. Portanto, qualquer atitude isolada, ainda mais em um ambiente escolar, teria que passar por critérios que, aparentemente não foram seguidos por Rato.
Em suma, a atitude de Rato, conforme relatada, não só contradiz a forma conhecida de atuação do PCC, mas também destoa das expectativas e normas sociais e legais vigentes. É uma situação que precisa ser analisada com cautela, considerando todos os fatores envolvidos.
Análises por Inteligência Artificial do Artigo: O Disciplina da facção PCC 1533 na escola
Teses defendidas pelo autor do texto e suas contrateses
Disciplina da Facção 1533: Rato Dita as Regras no Palco Escolar
Tese: O Rato, como figura de autoridade dentro da facção, exerce influência na ordem da escola, chegando a punir fisicamente um estudante por desacato a um professor.
Contra-tese: Embora Rato se imponha como autoridade, seu papel poderia ser questionado por sua falta de preparo e maturidade, bem como pelo uso de violência como meio de resolver conflitos.
Disciplina da Facção 1533: Rato, o Moleque Zica
Tese: O Rato já tinha um histórico de desafio e conflito desde a infância, não só contra as autoridades da escola, mas também contra figuras adultas.
Contra-tese: A tendência de Rato ao desafio e à violência, adquirida em sua juventude, questiona a eficácia e a legitimidade de sua atual posição como “Disciplina” da facção na escola.
Liberando o Garoto do Disciplina da Facção
Tese: A presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) nas escolas mudou a dinâmica de autoridade, levando à necessidade de estratégias de negociação entre estudantes e Disciplinas da facção.
Contra-tese: As estratégias de negociação podem ser vistas como uma forma de sobrevivência, mas elas também abrem espaço para abusos de poder e injustiças dentro da comunidade escolar.
O Sistema Escolar no Jogo da Vida Marginal: Verdades que Ninguém Quer Ouvir
Tese: A pesquisa acadêmica sugere que as escolas em áreas conflagradas têm uma “cultura marginal de gestão escolar”, que é uma adaptação necessária para manter a escola funcionando.
Contra-tese: A adaptação para manter a escola funcionando pode ter consequências negativas, como a perpetuação de um ciclo de violência e a marginalização de estudantes que não estão envolvidos em atividades criminosas.
A luta pela sobrevivência: comendo pelas beiradas
Tese: Diretores e professores veem a colaboração com facções e políticos locais como uma necessidade para manter a paz e a ordem na escola.
Contra-tese: Essa colaboração, apesar de pragmaticamente necessária, é eticamente questionável e pode ter consequências negativas a longo prazo para a comunidade escolar.
Da Rua pro Poder: A Lei que Cobra, a Juventude que Paga
Tese: A juventude, principalmente a vinculada ao mundo do crime, é diretamente impactada pelas leis e políticas que foram instituídas, especialmente durante governos específicos.
Contra-tese: A implicação de que as leis são as culpadas pelo estado atual pode ser vista como uma simplificação ou até mesmo uma desculpa para as escolhas individuais e a falta de responsabilidade pessoal.
Análise sobre a Ótica da Teoria do Comportamento Criminoso
O texto aborda várias facetas do comportamento criminoso em um ambiente específico: a escola.
Anomia e Estrutura de Oportunidade O conceito de anomia, originalmente proposto pelo sociólogo Émile Durkheim e posteriormente desenvolvido por Robert K. Merton, sugere que o desvio ou comportamento criminoso ocorre quando há um desequilíbrio entre as metas culturais e os meios institucionais para alcançá-las. No contexto do texto, “Rato” parece seguir um caminho desviante (como membro do PCC) para alcançar algum tipo de status ou respeito, algo que talvez ele sinta não ser alcançável através dos canais tradicionais, como a educação formal ou empregos legítimos.
Teoria da Associação Diferencial Essa teoria, proposta por Edwin H. Sutherland, argumenta que o comportamento criminoso é aprendido através da interação com outros. No caso de “Rato”, ele é produto do ambiente que o rodeia, e aprendeu suas ações através da associação com outros membros da facção. Sua influência sobre a escola mostra como essas normas criminosas podem ser disseminadas em outros contextos sociais.
Controle Social e Desinibição Moral Os comentários da pesquisadora Ellís Regina Neves Pereira apontam para a ausência de eficazes mecanismos de controle social nas escolas afetadas pela presença da facção. Em vez de as escolas servirem como instituições que reforçam normas sociais positivas, elas se tornam arenas onde regras alternativas — aquelas estabelecidas pelas facções — prevalecem. Isso pode resultar em uma forma de desinibição moral, onde ações que seriam normalmente vistas como inaceitáveis se tornam normativas.
O Efeito Espiral e Adaptação A escola, sob influência do PCC, entra num tipo de “efeito espiral”, onde a normalização da violência e do controle da facção leva a ainda mais desordem e aceitação do comportamento criminoso. Este é um reflexo adaptativo às circunstâncias, e é evidenciado pelos comentários sobre como professores e diretores estão “fazendo o que podem” para manter algum nível de ordem, mesmo que isso signifique ceder a certas demandas ou influências da facção.
Conclusão: O texto captura a complexidade e o dilema moral enfrentados por aqueles que vivem e trabalham em ambientes afetados pelo crime organizado. Ele revela como as instituições tradicionais, como as escolas, podem ser subvertidas e como os indivíduos são forçados a adaptar-se ou resistir, com diferentes graus de sucesso e custo moral. Este é o cenário complicado do comportamento criminoso entrelaçado com a vida comunitária, onde a distinção entre certo e errado se torna cada vez mais turva.
Análise sob o pontode de vista da Teoria da Carreira Criminal
A Teoria da Carreira Criminal, também conhecida como “teoria da trajetória criminal”, sugere que o envolvimento em atividades criminosas não é um fenômeno isolado, mas sim parte de uma série de eventos que ocorrem ao longo da vida de um indivíduo. A teoria visa entender como determinados fatores sociais, econômicos e psicológicos contribuem para a continuidade ou cessação da carreira criminal de uma pessoa.
Analisando o texto fornecido sob o prisma desta teoria, podemos identificar vários elementos que ilustram a complexidade e a continuidade das atividades criminosas no contexto das escolas e na vida de “Rato”.
Início da Carreira Criminal e “Gatilhos” O texto sugere que Rato sempre foi uma criança problemática (“Desde pivete, o mlk já era osso duro”). Este é frequentemente o ponto de partida para uma carreira criminal, onde comportamentos disruptivos na infância ou adolescência podem servir como um “gatilho” para atividades mais sérias no futuro.
Continuidade e Escalada O caso de Rato também é um exemplo de como uma carreira criminal pode escalar. De um jovem problemático, ele se torna o “Disciplina” da facção Primeiro Comando da Capital dentro do ambiente escolar. Essa escalada muitas vezes acontece de forma gradual e é moldada por várias influências externas, incluindo o ambiente social e o acesso a oportunidades ilícitas.
A Influência do Ambiente O ambiente escolar, que deveria ser um espaço de formação e educação, torna-se, sob a influência de facções criminosas como o PCC, um microcosmo da ordem social criminalizada. Isso afeta não apenas os alunos mas também os professores e os diretores, que têm que adaptar suas práticas de gestão para sobreviver a essa nova realidade (“Não tem um ‘acordo’ definido entre os chefes da escola e o pessoal do PCC pra manter a ordem, sacou? É mais uma adaptação mesmo, pra ‘manter a escola de pé'”).
Socialização Criminal O papel de Rato como “Disciplina” ilustra um fenômeno bem documentado na teoria criminológica: a socialização criminal, onde indivíduos são não apenas recrutados, mas também treinados e socializados em uma “carreira” dentro de organizações criminosas.
A Complexidade das Trajetórias Criminais O texto também faz um bom trabalho ao demonstrar a complexidade das trajetórias criminais. Rato não é apenas um criminoso, mas também alguém que está engajado em várias outras atividades dentro da comunidade (“Rato tá aí, o cara mexe em todas as panelas, entendeu?”). Isso mostra que as carreiras criminais podem ser multifacetadas e não podem ser facilmente reduzidas a uma única narrativa.
Análise do ponto de vista jurídico
Uma visão crítica acerca dos elementos jurídicos que permeiam a narrativa.
Abuso de Autoridade e Intimidação Rato, o personagem que age como “Disciplina” da facção dentro da escola, representa uma violação do ambiente educacional. Ele exerce um poder que não apenas desafia, mas também suplanta a autoridade oficial da escola e, por extensão, do Estado. Isso pode ser qualificado como abuso de autoridade e intimidação, podendo ser enquadrado no Artigo 147 do Código Penal Brasileiro, que trata de “ameaça”.
Violação dos Direitos da Criança e do Adolescente O tratamento dispensado ao “moleque” que desrespeitou a professora demonstra uma clara violação dos direitos fundamentais da criança e do adolescente. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), crianças e adolescentes têm o direito à dignidade e ao respeito.
Omissão de Autoridades Escolares A aparente tolerância ou incapacidade das autoridades escolares de intervir em situações de domínio da facção dentro da escola pode ser considerada uma omissão de dever e uma falha na garantia do direito à educação e à segurança dos alunos. Isso poderia ser enquadrado no Artigo 208 do ECA, que responsabiliza quem “descumprir dolosa ou culposamente os deveres inerentes ao poder familiar ou decorrentes de tutela ou guarda”.
Atividades Criminosas e Responsabilidade A atuação de Rato e seu impacto na escola poderia ser enquadrada em vários crimes, inclusive formação de quadrilha ou bando (Artigo 288 do Código Penal), e mesmo tráfico de influência (Artigo 332). Se ele for menor de 18 anos, o ECA também seria aplicável.
Cultura de Impunidade e Conivência O texto sugere que há uma certa “adaptação” entre as autoridades escolares e a facção criminosa para “manter a escola de pé”. Isso pode ser interpretado como conivência ou, no mínimo, uma forma de negligência. Leis como a Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/92) poderiam ser aplicáveis aqui para funcionários públicos envolvidos.
Aspecto Político-Jurídico O texto faz referência às leis que afetam a dinâmica das organizações criminosas, como a Lei do Crime Organizado e a Lei Antidrogas. Estas legislações têm implicações diretas na forma como o crime organizado opera e, consequentemente, em como ele influencia a vida em áreas vulneráveis, incluindo escolas.
Relação com a Polícia e os Políticos A presença da polícia é mencionada como algo efêmero e potencialmente problemático, o que sugere falhas na estrutura de segurança pública que deveria proteger a escola e seus alunos.
O texto revela uma série de desafios éticos, sociais e legais que se entrelaçam de maneira complexa. Estes desafios não apenas afetam a vida dos indivíduos na comunidade, mas também levantam questões profundas sobre a eficácia e a justiça do sistema legal brasileiro na proteção dos mais vulneráveis.
Análise sob o ponto de vista da Criminologia
Hierarquia e Disciplina Criminal no Ambiente Escolar O personagem “Rato” funciona como o “Disciplina” da facção dentro da escola, um cargo que implica em autoridade e poder dentro da organização. Ele é chamado para “dar um esculacho” em um estudante que desafiou uma professora. Isso sugere uma hierarquia criminal que vai além das prisões e se infiltra em outros setores da sociedade, como escolas. A figura do “Disciplina” serve como uma espécie de policiamento informal, que pode contribuir para uma falsa sensação de ordem ou disciplina, mas na realidade, perpetua o ciclo de violência e medo.
A Adaptação do Sistema Escolar A pesquisa de Ellís Regina Neves Pereira citada no texto aborda uma “cultura marginal de gestão escolar” que, embora não ideal, permite que a escola continue a funcionar em “territórios conflagrados”. Isso reflete uma adaptação pragmática e muitas vezes involuntária do sistema educacional às realidades locais. Essa adaptação, no entanto, tem custos humanos e sociais, incluindo a exposição de estudantes e professores à violência e a perpetuação de um ciclo vicioso de criminalidade.
O Papel dos Diretores e Professores Os diretores e professores são colocados em uma posição precária, tendo que navegar entre os imperativos educacionais, a segurança dos estudantes e a presença opressiva de elementos criminosos. A escolha entre chamar ou não a polícia, por exemplo, é carregada de implicações imediatas e a longo prazo.
Legislação e Impacto Social O texto também toca na Lei do Crime Organizado, na Lei Antidrogas e no Regime Disciplinar Diferenciado. O impacto dessas leis no tecido social e na dinâmica de poder entre facções criminosas e autoridades é complexo e muitas vezes inintencionado. As leis podem acabar deslocando o poder dentro das facções para membros mais jovens e potencialmente mais impulsivos, como “Rato”, exacerbando o problema que elas pretendem resolver.
Análise sob o ponto de vista estratégico
Estratégia de Infiltração A facção criminosa efetivamente infiltrou-se no ambiente escolar para exercer controle. Isto não é apenas um mecanismo de poder, mas também uma estratégia para recrutar e influenciar a próxima geração.
Adaptação e Resiliência Tanto a escola quanto a facção mostram uma capacidade de adaptação às circunstâncias. O sistema escolar, por sua vez, adaptou-se à presença da facção, optando por uma espécie de “paz armada” ao invés de confronto direto.
Poder e Controle Descentralizado Com os membros mais antigos da facção presos ou afastados, jovens como Rato assumem posições de poder. Isso pode ser uma estratégia da organização para se manter resiliente e adaptável, mas também é um risco, pois membros mais jovens e impulsivos podem não ser tão estratégicos ou cautelosos.
Ambiguidade Estratégica A falta de um “acordo” claro entre as autoridades escolares e a facção mantém uma ambiguidade que pode ser estrategicamente útil para ambas as partes. Isso permite uma certa flexibilidade e evita que qualquer parte fique muito comprometida, mantendo o status quo.
Análise sob o ponto de vista da pedagogia
O texto oferece uma visão perturbadora, mas realista, sobre a intersecção entre a vida escolar e a influência do Primeiro Comando da Capital (PCC) em certas áreas. É uma crônica fictícia que incorpora elementos reais e levanta questões profundas sobre educação, ordem social e a complicada teia de poder que se estende desde as ruas até o sistema escolar e além. Vou tentar abordar isso sob um ponto de vista pedagógico, enfocando em alguns dos temas levantados no texto.
A função da escola no contexto social Em teoria, as escolas deveriam ser espaços de aprendizado seguro, onde os alunos podem se desenvolver tanto acadêmica quanto socialmente. No entanto, quando essas instituições estão inseridas em um contexto mais amplo de criminalidade organizada e violência, a sua função social e pedagógica se torna distorcida. O texto mostra que, de fato, a escola não é isolada da comunidade em que se situa. Assim, a violência e as normas da facção têm o potencial de infiltrar-se na cultura escolar.
A desmoralização da autoridade pedagógica Quando figuras como o ‘Rato’ tornam-se disciplinadores dentro do ambiente escolar, uma clara desmoralização da autoridade pedagógica ocorre. Isso não apenas interrompe o processo de aprendizagem formal, mas também envia mensagens conflitantes aos alunos sobre poder, autoridade e justiça. O “Disciplina da Facção” acaba suplantando a autoridade dos professores e da administração da escola, criando uma atmosfera onde a educação formal é secundária à lei das ruas.
A adaptação como mecanismo de sobrevivência O estudo citado por Ellís Regina Neves Pereira aponta para uma “cultura marginal de gestão escolar”, na qual a escola tem que se adaptar à realidade que a cerca para continuar funcionando. Não se trata de um “acordo” formal, mas sim de uma adaptação prática para “manter a escola de pé”. Do ponto de vista pedagógico, essa é uma solução de curto prazo que pode trazer consequências duradouras, incluindo a perpetuação do ciclo de violência e criminalidade.
Consequências para o desenvolvimento dos alunos A exposição a figuras como ‘Rato’ e ao ambiente de poder e violência que ele representa pode ter um impacto duradouro no desenvolvimento social e emocional dos alunos. A escola, que deveria ser um espaço para o desenvolvimento de competências sociais e intelectuais, torna-se mais um ambiente onde as habilidades de sobrevivência são as mais valorizadas.
Desafios pedagógicos e políticas públicas O sistema educacional está entrelaçado com políticas públicas mais amplas relacionadas à segurança, justiça social e desenvolvimento comunitário. Resolver os problemas apresentados exigiria uma abordagem interdisciplinar que vá além da educação formal e envolva esforços coordenados em vários setores do governo e da comunidade.
Análise do ponto de vista sociológico
Estruturas de Poder e Autoridade O primeiro aspecto notável é a sobreposição de estruturas de poder e autoridade na escola. O “Disciplina”, neste caso Rato, atua como uma espécie de autoridade informal, mas fortemente respeitada, que se coloca ao lado, ou até acima, da autoridade formal da instituição escolar. Isso reflete um fenômeno mais amplo de quebra ou enfraquecimento das instituições formais do Estado, como a polícia e o sistema educacional, em favor de sistemas informais de governança.
Socialização e Papel da Educação Outro ponto a considerar é o papel da educação na socialização das crianças e jovens. O ambiente escolar, que idealmente deve ser um espaço seguro para o aprendizado e o desenvolvimento pessoal, torna-se uma extensão das dinâmicas violentas e hierárquicas que caracterizam a vida fora da escola. Isso põe em questão a função socializadora da escola e sua capacidade de fornecer uma alternativa à vida nas ruas.
Adaptação e Sobrevivência A pesquisa de Ellís Regina Neves Pereira aponta para uma “cultura marginal de gestão escolar” que, apesar de contrariar ideais pedagógicos, torna possível o funcionamento das escolas em “territórios conflagrados”. Essa adaptação é uma forma de resistência e sobrevivência frente às circunstâncias adversas e ilustra bem como as instituições sociais são maleáveis e podem se transformar em resposta a contextos específicos.
Efeitos no Desenvolvimento Juvenil O texto também sugere questões sobre o desenvolvimento juvenil em contextos marcados pelo crime organizado. A formação da personalidade, as aspirações e os modelos de comportamento são fortemente influenciados pelo ambiente social. No caso do Rato, a autoridade e o poder que ele exerce podem servir para compensar outras áreas em que ele pode se sentir impotente ou desvalorizado.
Legislação e Política Por último, é relevante notar que a dinâmica descrita não é apenas resultado de fatores locais, mas também de decisões políticas e legislativas em escalas mais amplas. Leis como “A Lei do Crime Organizado” e “a Lei Antidrogas” são mencionadas como fatores que alteraram as regras do jogo, evidenciando que o fenômeno é também resultado de políticas públicas e decisões tomadas em esferas muito além da comunidade local.
Em resumo, o texto retrata uma realidade complexa em que as linhas entre o formal e o informal, o legal e o ilegal, estão constantemente sendo redefinidas. Ele apresenta um desafio aos modelos sociológicos convencionais de compreensão da educação e da socialização, exigindo uma abordagem mais nuanciada que leve em consideração as múltiplas forças e fatores que atuam sobre a vida das pessoas em contextos de vulnerabilidade.
Análise sob o ponto de vista da Antropologia
O texto traça um panorama dos desafios que professores, diretores e alunos enfrentam em um contexto onde o poder da facção se estende ao ambiente escolar, criando uma zona cinzenta de autoridade e controle.
Hierarquias e Identidades Primeiramente, o texto ilustra a complexa estrutura hierárquica dentro do ambiente escolar que é moldada tanto pelo sistema formal de educação quanto pela presença da facção. “Rato”, que já foi um estudante como qualquer outro, agora assume uma posição de “Disciplina” dentro dessa hierarquia híbrida. A nomeação informal de papéis como o de “Disciplina” indica uma forma de ordem social e controle que está em paralelo, se não em oposição, à estrutura oficial da escola.
Adaptação Cultural e Sobrevivência O segundo ponto relevante é a adaptabilidade das instituições e indivíduos às circunstâncias. Não existe um “acordo” formal entre a facção e os funcionários da escola, mas sim uma espécie de adaptação pragmática. Isso levanta questões sobre como as culturas locais se adaptam para sobreviver em ambientes hostis. A diretora do texto, por exemplo, tem que fazer concessões com a comunidade para manter a paz, mesmo que temporária. Aqui, a sobrevivência e a funcionalidade da escola são priorizadas em detrimento de uma ética educacional idealizada.
Simbiose entre Sistemas de Poder Outra camada complexa que o texto apresenta é o relacionamento simbiótico, ainda que tênue, entre várias instituições de poder: o sistema educacional, a polícia, e a facção. Todos parecem coexistir em um equilíbrio delicado, frequentemente evitando confronto direto. Esta forma de coexistência reflete uma realpolitik que está profundamente enraizada na cultura local, uma adaptação talvez lamentável, mas necessária para a manutenção de algum grau de ordem e estabilidade.
Influência Legislativa e Mudanças Sociais Por fim, o texto menciona brevemente como leis como a “Lei do Crime Organizado” e a “Lei Antidrogas” influenciam o cenário. Isso sugere que políticas públicas podem ter impactos não intencionais nas dinâmicas locais, muitas vezes agravando as situações que procuram resolver. A presença de jovens como Rato no controle local é uma ilustração de como essas leis podem inadvertidamente empurrar os jovens para posições de poder que eles não estão preparados para manusear de forma responsável.
Conclusão: O texto é um riquíssimo material para entender como sistemas de poder, cultura, e identidade interagem em um contexto específico. Ao mesmo tempo, ele destaca a resiliência e adaptabilidade das comunidades frente às condições adversas, mas também levanta questões éticas e morais sobre a sustentabilidade dessa forma de vida.
Alálise sob o ponto de vista psicológico
Rato e o Sentimento de Poder Rato, o personagem central da narrativa, parece encontrar um senso de autoridade e poder em suas ações, algo que pode ter raízes em suas próprias experiências de vida. Ter a “cara enfiada na terra” e voltar para casa com “olho inchado” pode ter incutido nele uma necessidade de afirmar seu domínio de forma explícita. A psicologia sugere que muitos que sofreram humilhações ou abusos quando mais jovens podem desenvolver comportamentos autoritários ou manipulativos como uma forma de reagir a essa experiência passada. Portanto, o ato de Rato “botar o pé na cabeça do moleque” pode ser visto como uma manifestação dessas necessidades psicológicas não resolvidas.
O Professores e a “Cultura Marginal de Gestão Escolar” Os professores, que idealmente deveriam ser as autoridades no ambiente escolar, aqui são apresentados como quase impotentes perante a nova ordem imposta pela facção. Isso pode criar um sentimento de desesperança ou desamparo, que a psicologia reconhece como prejudicial ao bem-estar psicológico. A pesquisa citada por Ellís Regina Neves Pereira destaca uma realidade brutal: de que o sistema educacional em áreas conflagradas opera em uma “cultura marginal de gestão escolar”. Essa situação ambígua cria um terreno fértil para o desenvolvimento de estresse e ansiedade entre os educadores.
A Juventude e a Invisibilidade Social O jovem que desafiou a autoridade da professora pode ser visto como um exemplo da juventude que se sente ignorada ou oprimida pelas estruturas existentes, a ponto de desafiar as autoridades tradicionais. A psicologia dos adolescentes aponta que esse período da vida é marcado pela busca de identidade e pertencimento. Nesse contexto, a facção pode oferecer um senso de pertencimento que lhes falta em outros aspectos da vida.
Conclusão: Os indivíduos no texto são, em grande medida, produtos de um ambiente que foi alterado pela presença e influência do PCC. O senso de ordem e autoridade na escola e na comunidade foi distorcido, criando um sistema em que o poder é obtido e mantido por meio da força e intimidação, e não pelo respeito ou competência. Do ponto de vista psicológico, isso cria um ambiente de extrema tensão, onde os princípios básicos da autoridade, educação e socialização são continuamente minados.
Análise do texto pelo prisma da Psicología Jurídica
Influência da Criminalidade na Formação Psicossocial dos Jovens O personagem “Rato” é um exemplo clássico de como o envolvimento com o crime pode moldar o desenvolvimento psicológico e comportamental de um indivíduo desde a infância. Seu comportamento agressivo, impulsivo e dominante, especialmente em um ambiente escolar, indica a internalização de valores e normas do mundo do crime.
Ambiente Escolar como Espelho da Sociedade A escola reflete as dinâmicas sociais mais amplas. A presença do PCC no ambiente escolar demonstra como as estruturas criminosas podem infiltrar-se nas instituições, alterando a cultura e o comportamento. Os professores e diretores, por exemplo, precisam adaptar-se a essa realidade, muitas vezes adotando uma “cultura marginal de gestão escolar”.
Conflitos de Papel e Adaptação Os profissionais de educação enfrentam um dilema entre manter a ordem e a segurança na escola e não antagonizar a facção criminosa. Eles precisam adotar uma postura de adaptação, muitas vezes subjugando os ideais educacionais em prol da sobrevivência. Amaury, o diretor de escola citado, exemplifica essa realidade ao descrever sua relutância em chamar a polícia.
Pressão Social e Juventude Rato, sendo jovem, está sob influência direta dos aspectos sociais e legais. A menção às leis, como a “Lei do Crime Organizado” e a “Lei Antidrogas”, indica as mudanças legislativas que afetaram o modus operandi de organizações criminosas e, por extensão, a vida de jovens como Rato. Sua impulsividade, exacerbada pelo uso de substâncias, põe em risco não apenas ele, mas também aqueles ao seu redor.
A Necessidade de Intervenção A descrição dos eventos e comportamentos no texto indica a necessidade urgente de intervenções, tanto no nível individual (como o caso de Rato) quanto no nível institucional (como o sistema escolar). A psicologia jurídica pode oferecer insights e ferramentas para ajudar a abordar e resolver esses problemas, trabalhando em colaboração com outros profissionais, como educadores e juristas.
Conclusão: O texto apresenta um panorama sombrio da interação entre criminalidade e educação em regiões sob influência do PCC. Para Wagner, seria essencial uma abordagem multidisciplinar que envolva psicólogos jurídicos, educadores, profissionais da justiça e especialistas em políticas públicas. Somente por meio de esforços colaborativos, a sociedade pode esperar abordar e mitigar esses desafios.
Análise do perfil psicológico e Social do narrador do texto
Perfil Psicológico
Conhecimento Pragmático: O narrador tem uma compreensão clara e prática da dinâmica da facção e da escola em que a história se desenrola. Ele entende a complexidade das relações de poder envolvidas.
Empatia Seletiva: Ele demonstra empatia, sobretudo ao falar da dificuldade da situação em que o “moleque” se encontra. No entanto, sua empatia é limitada pelas regras não ditas do ambiente em que está inserido.
Espectador Consciente: Ele não é um agente ativo nos eventos narrados, mas sim um observador. Mesmo assim, ele entende que sua ação ou inação tem consequências.
Ceticismo e Realismo: Há um tom cético e realista na forma como ele descreve as instituições, sejam elas escolas, polícia ou mesmo facções criminosas.
Perfil Social
Origem Comum: O narrador parece ter origens semelhantes às dos personagens que descreve, implicando um conhecimento profundo e experiencial das complexidades da vida em regiões sob influência do PCC.
Intermediário Cultural: Ele serve como uma ponte entre a academia, representada por Ellís Regina Neves Pereira, e o mundo que ela estuda. Ele valoriza a pesquisa acadêmica, mas a contextualiza na realidade que conhece.
Aversão ao Confronto: Embora crítico, o narrador evita confrontações diretas, seja com Rato ou com as instituições. Isso pode ser um mecanismo de sobrevivência em um ambiente onde conflitos podem ter consequências graves.
Consciência Política: Ele é ciente das dinâmicas políticas mais amplas que influenciam sua realidade local, como as políticas de segurança pública e leis promovidas durante o governo do PT.
Análise do ponto de vista da Filosofia
Poder e Submissão O texto apresenta uma complexa teia de relações de poder que se manifestam em diversos níveis: entre estudantes, entre estudantes e professores, e entre a escola e a organização criminosa. Essas relações de poder refletem conceitos como os de Michel Foucault sobre a “microfísica do poder”, onde o poder não é detido apenas por uma única entidade (como o Estado), mas se manifesta em relações inter-pessoais e sociais. Rato, ao assumir o papel de “Disciplina”, exerce uma forma de poder que é ao mesmo tempo subversiva e reforça a estrutura existente, demonstrando que o poder é um conceito fluido e multifacetado.
Realidade e Adaptação O texto também aborda a forma como indivíduos e instituições se adaptam às circunstâncias. Isso ressoa com filosofias existencialistas, como as de Jean-Paul Sartre, onde a liberdade individual é condicionada pelo contexto em que se vive. As escolas, os professores e os estudantes não têm outra escolha a não ser adaptar-se a uma realidade imposta por forças além de seu controle. A pesquisa de Ellís Regina Neves Pereira fala dessa adaptação como algo que é quase uma necessidade existencial.
Individualidade e Estrutura Social Há também uma questão filosófica interessante sobre como a individualidade se manifesta dentro das estruturas sociais, algo que pode ser visto nas ideias de Georg Wilhelm Friedrich Hegel sobre o Espírito (Geist) e a dialética do Senhor e do Escravo. Rato é um indivíduo que, dentro da estrutura da facção e da escola, consegue manifestar sua individualidade ao exercer o poder. No entanto, esta manifestação está sempre limitada e condicionada pelas mesmas estruturas que a tornam possível.
Em resumo, o texto é rico em camadas de complexidade que oferecem um terreno fértil para análise filosófica, abordando temas como poder, adaptação à realidade e a manifestação da individualidade dentro de estruturas sociais.
O texto apresenta uma complexa interseção de questões sociais, educacionais e criminais, particularmente no contexto brasileiro e, mais especificamente, em regiões controladas ou influenciadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Este é um tema delicado e controverso que envolve aspectos éticos e morais em vários níveis. Vou tentar destrinchar alguns desses aspectos:
Análise do ponto de vista da Ética e Moral no Contexto Educacional
O texto começa com uma descrição das escolas sob a influência do PCC, onde a figura do “Disciplina” — neste caso, Rato — aplica a “lei” dentro do ambiente escolar. De forma geral, a educação é vista como um espaço de aprendizado e desenvolvimento, tanto intelectual quanto moral. A presença de uma facção criminosa interferindo na disciplina escolar distorce essa função de forma preocupante. Não apenas o comportamento violento é normalizado, mas o poder da autoridade legítima (professores, diretores) é minado.
A Difícil Posição dos Educadores Um aspecto moralmente ambíguo é a posição dos educadores e diretores que, conforme apresentado pelo relato de Ellís Regina Neves Pereira, acabam por se adaptar a uma “cultura marginal de gestão escolar”. Este é um dilema ético complexo: por um lado, o comprometimento com a educação e, por outro, a necessidade de sobrevivência e manutenção da ordem mínima em territórios conflagrados.
A Lei e a Moralidade A relação da polícia com a escola e a comunidade também é mostrada como problemática. Há um senso de que a presença policial é, em muitos casos, mais um paliativo que pode gerar mais problemas do que resoluções a longo prazo. Essa situação também levanta questões éticas: quando as instituições que deveriam prover segurança e justiça são vistas com desconfiança ou até mesmo como parte do problema, onde fica a moralidade do sistema como um todo?
Juventude e Criminalidade O personagem de Rato é particularmente complexo do ponto de vista ético. Ele é ao mesmo tempo um produto e um agente ativo dentro de um sistema que mistura criminalidade, falta de oportunidades e falhas em diversas instituições sociais. Sua juventude e impulsividade não diminuem sua responsabilidade moral, mas colocam em questão o tipo de sistema que permite, ou até mesmo incentiva, tal trajetória.
Conclusão: O texto revela uma paisagem moral complicada, onde decisões éticas são frequentemente obscurecidas por necessidades práticas e imediatas. O que fica evidente é que o papel da criminalidade organizada em ambientes educacionais não apenas compromete a integridade física e moral dos indivíduos envolvidos, mas também aponta para falhas mais amplas em sistemas educacionais, sociais e de justiça que deveriam, idealmente, promover o bem-estar e o desenvolvimento integral de todos.
Análise sob o ponto de vista do Racionalismo
O Racionalismo é uma corrente filosófica que se baseia na razão como principal fonte de conhecimento. Diferencia-se do empirismo, que advoga que a experiência sensorial é a principal fonte de conhecimento. No Racionalismo, acredita-se que existem ideias inatas e que a razão é capaz de reconhecer verdades universais independentemente da experiência.
Ao observarmos o texto “O Disciplina da facção PCC 1533 na escola”, podemos identificar os seguintes pontos:
Realidade vs. Percepção da Realidade O relato apresenta o cotidiano de escolas em áreas dominadas por facções criminosas. A realidade descrita é violenta e complexa. No entanto, do ponto de vista racionalista, é necessário questionar o quanto dessa narrativa é uma representação verdadeira da realidade e o quanto é uma construção baseada em percepções e experiências individuais. A razão poderia servir como uma ferramenta para discernir e questionar a validade das observações feitas.
Causa e Efeito O racionalismo busca relações lógicas e causais para os fenômenos. No caso do texto, podemos nos perguntar: Quais são as causas reais que levam a essa realidade nas escolas? A menção à legislação (como a “Lei do Crime Organizado” e a “Lei Antidrogas”) sugere que mudanças legais tiveram um impacto no cenário apresentado. A análise racionalista buscaria entender e questionar o nexo causal entre tais leis e o aumento da violência e influência das facções nas escolas.
Questionamento da Autoridade O texto menciona a pesquisa de Ellís Regina Neves Pereira e sua visão sobre a “cultura marginal de gestão escolar”. Uma perspectiva racionalista poderia questionar as bases e métodos utilizados por Ellís para chegar a tais conclusões, em vez de simplesmente aceitar sua autoridade acadêmica.
Universalidade vs. Particularidade Enquanto o relato é muito particular e baseado em experiências individuais, o racionalismo busca verdades universais. Por isso, uma análise racionalista poderia buscar identificar padrões ou princípios que se aplicam não apenas a essa situação específica, mas a outras semelhantes.
Natureza Humana O racionalismo, em sua busca por verdades universais, também se interessa pela natureza humana. O comportamento dos personagens, como Rato e o jovem que foi repreendido, pode ser analisado à luz de conceitos racionalistas sobre ação e motivação humanas. Por que Rato age da forma que age? Há alguma lógica ou razão inerente em seu comportamento?
Em conclusão, enquanto o relato oferece uma visão visceral e imersiva da realidade das escolas em áreas de influência da facção PCC, uma análise sob a perspectiva do racionalismo buscaria ir além da superfície e questionar as causas, a lógica e as verdades universais subjacentes à situação apresentada.
Análise sob o ponto de vista factual e de precisão
Personagens e Contexto O texto apresenta personagens como Rato, que aparenta ser um membro da facção, e um estudante que sofre consequências por desafiar as normas da escola. Também menciona Ellís Regina Neves Pereira, uma pesquisadora, e sua contribuição acadêmica. É difícil afirmar a factualidade desses personagens sem informações adicionais.
Dinâmica dentro da Escola O texto ressalta o papel do PCC na disciplina dentro de escolas em territórios onde a facção tem influência. Isso ecoa relatos e pesquisas que sugerem que organizações criminosas, em alguns casos, assumem papéis de autoridade nos locais onde o Estado é menos presente. Contudo, cada situação é única, e uma descrição mais factual necessitaria de dados e evidências que corroborem os eventos descritos.
Leis e Política O texto aborda as mudanças na dinâmica das facções em relação às políticas públicas, particularmente leis promulgadas durante governos anteriores. Esse é um aspecto que poderia ser corroborado ou refutado com base em dados e evidências legislativas.
Comportamento das Autoridades Escolares O texto também discute como diretores e professores lidam com a presença da facção, muitas vezes adotando uma postura de adaptação em vez de confronto. Esse é um ponto que, embora plausível em muitos contextos onde o Estado tem presença limitada, seria melhor avaliado em sua precisão e factualidade por meio de estudos de campo ou entrevistas com pessoas envolvidas.
Em resumo, é essencial distinguir entre narrativa e realidade, especialmente em um tema tão carregado e com tantas implicações sérias para a sociedade.
Análise sob o ponto de vista da Segurança Pública
Dominância de facções na vida escolar É evidente que a facção tem uma presença arraigada em certas regiões, a ponto de influenciar a disciplina escolar e a interação entre alunos. No relato, “Rato” é retratado como uma figura que assumiu o papel de “Disciplina” na escola. Esse nível de envolvimento direto de membros de facções nas atividades diárias da escola é um sinal de que a linha entre a criminalidade organizada e a administração escolar foi borrada.
Adaptação forçada da administração escolar A pesquisa mencionada de Ellís Regina Neves Pereira aponta para uma “cultura marginal de gestão escolar”, sugerindo que os diretores e professores são forçados a adaptar suas práticas para coexistir com a influência do crime organizado. Isso pode incluir ignorar determinados comportamentos ou buscar maneiras de manter a paz sem entrar em conflito direto com membros da facção.
A ausência de intervenção eficaz Os relatos do texto mostram uma relutância ou incapacidade das autoridades, como a polícia, de intervir efetivamente em situações de domínio do crime organizado. Há indicações de que a polícia é percebida mais como uma força temporária do que como um mecanismo de proteção consistente.
O impacto das leis O texto menciona leis específicas, como a Lei do Crime Organizado e a Lei Antidrogas, insinuando que elas podem ter tido o efeito involuntário de fortalecer facções ao segmentar e isolar seus líderes mais velhos. Isso pode ter levado a um vácuo de poder, permitindo que membros mais jovens e possivelmente mais impulsivos, como Rato, ganhassem proeminência.
A necessidade de uma abordagem multifacetada A segurança pública não é apenas uma questão de policiamento. É uma interação complexa entre educação, comunidade, política e legislação. O texto destaca a necessidade de uma estratégia holística que não apenas combata a presença do crime, mas também aborde suas causas subjacentes, como a falta de oportunidades e a exclusão social.
Conclusão: o cenário descrito no texto é um reflexo da profunda interconexão entre crime organizado e vida comunitária em certas regiões. Para enfrentar esses desafios, é fundamental uma abordagem abrangente que vá além do policiamento e se debruce sobre reformas educacionais, oportunidades de emprego, engajamento comunitário e revisão legislativa. A realidade descrita é complexa e exige soluções igualmente complexas.
Análise sob o ponto de vista das consequências políticas
O texto oferece um vislumbre íntimo e preocupante da dinâmica complexa e volátil entre criminalidade organizada e a instituição educacional em regiões sob influência de facções criminosas. É um assunto com implicações políticas profundas, que vão desde a governança local até políticas de segurança pública e educação.
Controle Territorial e Político A narrativa sugere que o PCC exerce um controle quase governamental sobre a comunidade, incluindo as escolas. Isso sublinha uma falha na governança do estado e levanta questões sobre a soberania do Estado Brasileiro nessas áreas. Em um contexto político, essa dinâmica poderia ser aproveitada por atores políticos para justificar tanto abordagens punitivas quanto sociais para combater o crime organizado.
Impacto na Educação O texto sugere que o envolvimento de facções em escolas afeta a qualidade da educação e coloca em risco o bem-estar dos alunos e professores. Isso poderia ser um ponto de partida para discussões políticas sobre investimentos em educação e segurança escolar, áreas muitas vezes negligenciadas nas políticas públicas.
Legislação e Políticas de Segurança O narrador observa que novas leis como “A Lei do Crime Organizado, a Lei Antidrogas e aquela que trouxe o Regime Disciplinar Diferenciado” mudaram o jogo. Isso poderia sugerir que tais leis podem não ter sido totalmente eficazes ou podem ter efeitos não intencionais, como empurrar os jovens para o crime organizado devido à ausência de outras opções. Isso levanta questões sobre a eficácia das políticas atuais e pode abrir espaço para revisão e debate.
Desafios Éticos para Profissionais de Educação O dilema moral enfrentado pelos educadores, que são forçados a “adaptar-se” à presença do crime organizado para “manter a escola de pé”, é um ponto que deveria chamar a atenção dos formuladores de políticas. As escolas estão em uma posição precária, forçadas a equilibrar a segurança dos alunos e a integridade da instituição.
A Voz da Juventude O personagem do Rato representa uma juventude que está crescendo em um ambiente de violência e incerteza, mas que também anseia por algum senso de ordem e poder. Este é um aspecto que os políticos podem abordar: como engajar essa juventude de uma forma construtiva, que os afaste da criminalidade.
Em resumo, o texto mostra uma realidade multifacetada e perturbadora que exige uma abordagem política complexa e cuidadosamente ponderada. Ele também demonstra como a organização criminosa se entrelaça com as estruturas de poder locais, influenciando a vida cotidiana em uma forma quase institucionalizada. Este é um fenômeno que não pode ser ignorado e deve ser tratado como uma questão política de alta prioridade.
Análise sob o ponto de vista organizacional
Estrutura e Hierarquia O texto mostra a complexa hierarquia existente mesmo em instituições aparentemente convencionais, como as escolas. A presença de um “Disciplina” (no caso, o personagem Rato) sugere uma estrutura de poder alternativa que corre paralela à administrativa, desafiando a autoridade dos professores e diretores. Esta organização interna revela como a influência do PCC se estende a todas as esferas da vida comunitária, criando uma “ordem” própria.
Gestão Escolar Um ponto destacado no texto é a adaptação da gestão escolar à presença e influência da facção criminosa. É uma adaptação forçada e, como apontado pela pesquisadora Ellís Regina Neves Pereira, gera uma “cultura marginal de gestão escolar”. Não há acordos formais, mas uma série de adaptações que mantêm a “escola de pé”.
Relações Interorganizacionais É notável a menção ao envolvimento e à adaptação de outras organizações e grupos sociais, como a polícia e políticos. Todos, de alguma forma, são influenciados pela presença dominante do PCC, resultando em decisões que, embora possam parecer eficientes no curto prazo, têm implicações éticas e sociais profundas no longo prazo.
Conclusão: organizacionalmente falando, o texto faz um retrato perturbador, mas esclarecedor, do impacto da atividade criminosa na estrutura e operação das escolas. Ele destaca a necessidade urgente de abordagens mais eficazes para lidar com a infiltração de facções criminosas em instituições educacionais, sem as quais a educação e, por extensão, o tecido social continuará a ser prejudicado.
Análise sob o ponto de vista da linguagem
O texto faz isso de forma narrativa, misturando observações pessoais com referências acadêmicas e depoimentos diretos. Vou abordar alguns pontos-chave sobre o uso da linguagem e do estilo do texto:
Coloquialismo, Gírias e Dialetos A linguagem é predominantemente coloquial, usando gírias e expressões populares. Isso ajuda a localizar a narrativa dentro de um contexto específico e também serve para conferir autenticidade à voz do narrador. No entanto, essa escolha pode limitar a compreensão do texto para pessoas não familiarizadas com esse tipo de linguagem. O autor faz um uso habilidoso do dialeto e gírias locais (“botando o pé na cabeça do moleque”, “Rato, o Moleque Zica”, “muleke”, etc.). Essa escolha linguística serve para ancorar o texto em um contexto muito específico e autêntico, dando credibilidade e urgência à narrativa.
Subtítulos O texto é dividido em subtítulos, o que ajuda a guiar o leitor através dos vários aspectos do problema: a influência da facção criminosa na escola, a transição de Rato de um jovem problemático para uma figura de autoridade, as dificuldades enfrentadas pelos profissionais da educação e assim por diante. Essa estrutura fragmentada permite que o autor explore diferentes ângulos sem perder a coesão.
Inserção de Vozes e Referências Acadêmicas O texto incorpora outros tipos de discurso, como citações acadêmicas e depoimentos, para validar ou contrastar com a perspectiva do narrador. Isso acrescenta uma camada de complexidade e autenticidade à narrativa.
Ambiguidade Moral O narrador não toma uma posição moral clara sobre os eventos descritos. Isso pode ser uma estratégia para fazer o leitor pensar criticamente sobre a situação, mas também pode gerar ambiguidade moral, que pode ser problemática, considerando a gravidade do tema.
Narrativa em Primeira Pessoa O uso da primeira pessoa cria uma sensação de imediatismo e envolvimento direto com os eventos. Isso pode fazer com que o leitor se sinta mais conectado ao narrador e ao mundo que ele descreve. O autor adota um tom pessoal e íntimo, referindo-se diretamente ao leitor com frases como “Quem sou eu para debater com a tal da Ellís Regina” ou “O jogo é esse, mano”. Essa escolha cria uma sensação de proximidade e de conversa franca, quase como se o leitor estivesse ouvindo uma história de alguém que viveu ou testemunhou os eventos descritos.
Transição entre Formal e Informal O texto transita entre uma linguagem mais formal, especialmente quando se refere ao trabalho acadêmico de Ellís Regina Neves Pereira, e uma linguagem informal, usada para narrar os eventos e ações dos personagens. Essa transição ajuda a manter o leitor engajado, mas também pode criar uma certa dissonância estilística.
Estrutura e Estilo O texto adota um estilo de narração em primeira pessoa, que confere autenticidade e imersão. Os subtítulos ajudam a organizar as ideias e fornecem ao leitor um guia para a progressão dos argumentos e narrativas. A linguagem, repleta de gírias e expressões do dialeto local, confere uma vivacidade que aproxima o leitor da realidade descrita, embora possa dificultar a compreensão para aqueles não familiarizados com o contexto.
Personagens e Contexto A personagem “Rato” funciona como um emblema da juventude envolvida com a criminalidade, ilustrando como as circunstâncias podem levar alguém a se tornar tanto vítima quanto algoz no cenário educacional. A complexidade do personagem serve para evitar reducionismos, ilustrando como as pessoas envolvidas nesse contexto têm múltiplas faces e motivações.
Tópicos Abordados O texto vai além do mero relato e inclui informações acadêmicas, citando a pesquisa de Ellís Regina Neves Pereira, o que dá um lastro de credibilidade e profundidade à discussão. Ao fazer isso, ele aproxima a realidade crua da rua com o rigor do discurso acadêmico sem necessariamente adotar jargões ou abstrações, o que é bastante eficaz.
Implicações Sociais e Políticas O texto também possui uma camada de comentário social e político. Ao mencionar leis específicas e o governo, o autor expande o foco para além da comunidade imediata, abordando o sistema mais amplo que contribui para a situação descrita. Isso enriquece a narrativa e a contextualiza dentro de debates mais amplos sobre crime organizado, educação e políticas públicas.
Considerações Finais: Embora o texto faça um excelente trabalho ao iluminar a vida nas escolas sob o jugo do PCC, seria ainda mais enriquecedor se abordasse possíveis soluções ou formas de intervenção, mesmo que em nível teórico ou como sugestões. O texto também poderia beneficiar-se de uma análise mais aprofundada do sistema educacional e suas falhas. Embora ele mencione a “gestão escolar em territórios conflagrados”, falta um exame mais meticuloso de como essa gestão falha em fornecer um ambiente de aprendizagem seguro e eficaz.
Análise sob o ponto de vista do rítmo literário ou jornalistico
A análise de ritmo em um texto literário ou jornalístico não se resume apenas à contagem de sílabas ou à identificação de esquemas rítmicos como em um poema. Ela envolve a consideração de outros elementos que contribuem para a “musicalidade” ou “pulso” do texto. Estes elementos incluem a estrutura das frases, a escolha do vocabulário, a pontuação e o uso de dispositivos retóricos, como a aliteração e a assonância.
Estrutura e Pacing O texto que você forneceu adota um ritmo variável, com segmentos mais curtos e diretos que alternam com parágrafos mais reflexivos e expositivos. Isso mantém o leitor engajado e reflete o equilíbrio entre ação e análise. A divisão em subtítulos também oferece pausas estratégicas que funcionam como momentos de “respiração”, permitindo que o leitor absorva as informações fornecidas.
Linguagem e Estilo O estilo narrativo, que combina uma linguagem mais coloquial e gírias com uma exposição mais formal de fatos e argumentos, também contribui para o ritmo. A transição entre estes estilos oferece uma quebra rítmica que mantém o texto dinâmico. O uso de frases mais curtas e diretas, especialmente nos diálogos e descrições de ações, cria um ritmo mais acelerado, o que é eficaz para transmitir tensão ou urgência.
Elementos Retóricos O texto também utiliza dispositivos retóricos que contribuem para seu ritmo. Por exemplo, frases como “O Rato também já deu seus pegas com professor, até surrou um uma vez” ou “Tempo é grana, não dava pra perder mais” apresentam uma certa musicalidade, seja pela repetição de sons consonantais, seja pelo emprego de sílabas tônicas, que contribuem para um ritmo mais marcado.
Variação e Contraste Há uma interessante variação de ritmo quando se trata da apresentação de informações mais densas ou reflexões mais profundas. Por exemplo, o parágrafo que cita o trabalho acadêmico de Ellís Regina Neves Pereira assume um ritmo mais lento e ponderado, marcado por frases mais longas e complexas. Isso serve como um contraponto eficaz aos segmentos mais rápidos e ajuda a destacar a seriedade e a importância dessas informações.
Em resumo, o ritmo do texto é cuidadosamente estruturado para servir a múltiplos propósitos: manter o engajamento do leitor, destacar informações importantes e criar tensão ou urgência quando necessário. A alternância entre segmentos de ritmo rápido e lento, bem como entre linguagem coloquial e exposição mais formal, torna o texto tanto envolvente quanto informativo
Análise sob o ponto de vista estilométrico
Analisar um texto sob o ponto de vista da estilométrica é investigar suas características linguísticas e estruturais, identificando elementos que podem ser singulares ao autor ou ao gênero textual. Também pode revelar aspectos do conteúdo e contexto no qual o texto foi escrito.
Tom e Perspectiva O texto é narrado em primeira pessoa, o que facilita a criação de uma intimidade com o leitor. Há uma tentativa de se utilizar uma linguagem mais coloquial e próxima da realidade que está sendo descrita, o que pode indicar um esforço de autenticidade.
Variedade Linguística A utilização de termos e expressões típicos da gíria brasileira, sobretudo de São Paulo, como “mlk”, “moleque”, “mano”, “sacou?”, “tava” e “papo reto” também denota uma tentativa de reproduzir a linguagem do ambiente que está sendo relatado.
Frases Curtas e Diretas Frases curtas e diretas são utilizadas para criar um ritmo mais acelerado, condizente com a tensão e a dinâmica do ambiente retratado.
Subtítulos
A divisão em subtítulos sugere uma organização temática e uma estrutura semelhante à de artigos de jornalismo investigativo ou de uma reportagem. Cada seção traz um aspecto diferente da influência do PCC nas escolas.
Personagens Os personagens, como “Rato” e “o moleque do chão”, são apresentados de forma detalhada, mas sem nomes completos, o que confere um certo anonimato e universalidade a eles. Isso pode ser uma escolha estilística para ilustrar como essas pessoas poderiam ser qualquer um nesse ambiente.
Tópicos Sociais e Políticos O texto aborda tópicos sociais e políticos delicados, como a presença do crime organizado em escolas e o dilema moral enfrentado por educadores e autoridades. Também há menções a leis e políticas públicas, o que insere o relato em um contexto mais amplo.
Narrativa e Dados Acadêmicos O autor alterna entre a narrativa e a introdução de informações acadêmicas, como a pesquisa da Faculdade de Educação da USP, para fundamentar seus pontos e dar credibilidade ao texto.
Focalização na Juventude Há um foco na juventude e nos dilemas éticos e morais que enfrentam, possivelmente como uma maneira de explorar as consequências em longo prazo da presença do crime organizado no sistema educacional.
Opinião Pessoal: o texto é uma mistura eficaz de jornalismo, relato pessoal e crítica social, o que o torna complexo e interessante. Ele não apenas expõe um problema sério da sociedade contemporânea, mas também humaniza aqueles envolvidos, evitando estigmatizá-los completamente. Entretanto, a linguagem coloquial poderia ser um ponto de debate, pois, apesar de trazer autenticidade, pode não ser acessível para todos os leitores.
Comparação com outras produções sobre o tema
O texto usa uma mistura de estilos, combinando elementos de reportagem jornalística, pesquisa acadêmica e crônica pessoal. Isso o diferencia de artigos puramente acadêmicos que abordariam o tema com uma linguagem mais formal e estruturada ou de peças jornalísticas que talvez não incluíssem elementos tão pessoais ou uma linguagem tão coloquial.
Ao comparar com outros textos que falam sobre crime organizado ou problemas sociais, este trabalho apresenta uma perspectiva mais “de dentro” do problema, que apenas um narrador com experiência pessoal e conexões comunitárias poderia fornecer.
Em comparação com outros textos que discutem o impacto de organizações criminosas em instituições sociais, esse trabalho se destaca por focar especificamente no ambiente escolar. Ele consegue capturar a complexidade da situação, desde as relações de poder entre os estudantes até as difíceis decisões tomadas por professores e diretores. Além disso, o uso de personagens como “Rato” e “o moleque do chão” serve para humanizar o problema, tornando a narrativa mais acessível e relatable para o leitor.
A menção a um estudo acadêmico de Ellís Regina Neves Pereira dá ao texto um peso adicional de credibilidade, fornecendo um quadro teórico que respalda as observações feitas. Este aspecto está alinhado com textos acadêmicos e reportagens investigativas que também utilizam dados e estudos para embasar suas conclusões. No entanto, o seu texto mantém uma linguagem mais próxima do leitor comum, evitando o jargão acadêmico que poderia torná-lo menos acessível.
Pontos a Considerar
Diversidade de Fontes Enquanto o texto faz uma menção a um trabalho acadêmico, poderia se beneficiar ainda mais da inclusão de outras fontes, como relatos de professores, diretores ou até mesmo políticos envolvidos na administração educacional. Isso proporcionaria uma visão mais completa do problema.
Aprofundamento Teórico A exploração de conceitos como “cultura marginal de gestão escolar” poderia ser aprofundada. Isso não apenas enriqueceria o texto mas também proporcionaria aos leitores uma melhor compreensão das complexas dinâmicas em jogo.
Implicações Sociais e Políticas O texto toca em vários pontos críticos, mas poderia se estender mais sobre as implicações sociais e políticas do problema. Por exemplo, como isso afeta a educação como um todo? Quais são as possíveis soluções ou estratégias para mitigar o impacto das organizações criminosas nas escolas?
Clareza na Exposição de Opinião O texto flui bem entre a narração e a análise, mas, em algumas passagens, pode ser difícil para o leitor discernir se o que está sendo apresentado é uma opinião ou uma observação. Tornar isso mais claro poderia fortalecer o argumento do texto.
Em resumo, o seu texto é uma contribuição valiosa para o entendimento de um tema complexo e pouco abordado na literatura mainstream. Ele combina elementos de reportagem, análise social e estudo de caso para pintar um retrato vivo e perturbador de como a vida nas escolas é afetada pela presença e influência de organizações criminosas.
Análise psicológica do autor do texto
O autor do texto apresenta uma visão de mundo bastante matizada, revelando diversas camadas da realidade em escolas sob a influência do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele aborda não apenas a dinâmica violenta e autoritária que rege o ambiente escolar, mas também as complexidades das decisões tomadas por aqueles que trabalham na escola e pela própria facção criminosa.
Observador e Reflexivo O autor parece ser um observador atento da realidade à sua volta. Ele não apenas relata os eventos, mas também oferece sua interpretação, demonstrando uma habilidade para pensar de forma crítica e reflexiva.
Empático, mas Realista Enquanto ele mostra empatia por personagens como “Rato” e o garoto sob seu pé, o autor mantém uma postura realista. Ele parece entender que as pessoas em sua narrativa estão fazendo escolhas em contextos extremamente complicados, onde as opções frequentemente estão longe do ideal.
Consciente do Contexto Sociopolítico O autor tem um claro entendimento do cenário sociopolítico em que sua história se desenrola. Ele cita pesquisas acadêmicas e leis específicas, mostrando que sua narrativa não é isolada, mas parte de um fenômeno muito maior.
Contraditório e Complexo O autor não apresenta o ambiente escolar como inteiramente negativo ou positivo. Ele reconhece a presença e a influência de elementos que a maioria consideraria ‘marginais’, mas também nota como esses elementos podem contribuir para uma estabilidade precária.
Linguagem e Estilo O uso da gíria e do linguajar informal aponta para um autor que está profundamente enraizado na cultura que está descrevendo. Isso também pode indicar um desejo de ser acessível ou de falar diretamente a um público que compartilha de experiências semelhantes.
Conclusão: o autor apresenta uma postura multidimensional, capaz de ver além de preconceitos e julgamentos rápidos. Isso permite que ele explore a complexidade dos indivíduos e instituições em um ambiente marcado pela criminalidade, violência e decisões moralmente ambíguas. Seu texto não visa fornecer respostas simples ou soluções prontas, mas sim provocar reflexão sobre uma realidade multifacetada e frequentemente negligenciada.
Os que fomentaram o mal que nos atinge são aqueles que se apresentam como paladinos de nossa proteção: o memoricídio e a facção Primeiro Comando da Capital.
Recebi essa semana seu e-mail, no qual você pediu para que eu escrevesse sobre o tempo em que o sistema prisional ainda não estava sob o controle total da facção Primeiro Comando da Capital:
Mas não farei o que me pede, irmão.
Sem querer, você mexeu com minha sanidade ao desenterrar tristes lembranças, e agora, enquanto o respondo, sou tomado pelo frio, pela tristeza e pelo rancor que eu já havia deixado para trás.
Depois daquela noite em 1982, meus sonhos noturnos me abandonaram, e passei a sonhar durante o dia. Sobre isso, nosso amigo Edgar, quase nunca sóbrio, mas sempre com filosófica sobriedade, me disse que eu é que era um cara de sorte:
Desde que o frio, a tristeza e o rancor se abateram sobre os meus, eu nunca sei se o que vejo ou o que lembro é de fato real ou se é algo criado em minha mente por forças que eu não tenho como dominar.
Peço que desconsidere algum trecho que lhe pareça ter sido fruto de um desses sonhos diurnos forjados pelo caos que se tornou minha mente, ou então que lhe pareça que seja uma memória que jamais deveria ter sido resgatada das masmorras do passado.
O esclarecimento do crime pela Polícia Civil
Os garotos e o assassinato na chácara
Logo que voltei à cidade, por volta de 1980, vivi em uma chácara com uma mulher e seus três filhos. Formávamos um belo casal, e aquelas crianças faziam de nosso lar um lugar sagrado e feliz.
As crianças cresceram, e o mais velho, Lucas, acabara de fazer 18 anos, enquanto seus irmãos, Luciano e Luan, eram apenas um pouco mais novos – maldita hora em que eu brinquei numa noite dizendo que só faltava Lúcifer para completar a família!
Como sempre, às sextas-feiras, Lucas foi com Luciano até uma chácara não muito longe da qual morávamos, mas naquela noite houve por lá um assassinato – nunca saberemos ao certo o que realmente ocorreu, mas o dono da chácara foi morto.
Os garotos voltaram assustados e não conseguiam falar coisa com coisa – estavam em choque.
Assim como é hoje, na década de 1980, a polícia queria mostrar serviço, e no dia seguinte uma viatura veraneio preto e branca foi até a chácara para levar Lucas e Luciano à delegacia para ajudar a esclarecer o crime.
Nunca perguntei o nome daquele policial que levou os meninos, mas deve ter sido aquele que sem querer invoquei na noite anterior – Luciano não mais voltou vivo.
Sistema de (In)Justiça Pública
Polícia, MP-SP e Justiça: parceiros na injustiça
À noite, estranhamos que os garotos não voltavam da delegacia. Não tínhamos como chegar até a cidade, e Luan, o mais novo, seguiu a pé – era uma caminhada de pelo menos duas horas e ele não voltaria antes da meia-noite. Esperamos a noite toda.
No dia seguinte, a mãe dos garotos pegou uma carona com vizinhos. Na delegacia não teve notícias de Luan, informaram que Lucas confessou ter matado o dono da chácara para roubar seus pertences e que Luciano morrera:
Ao sair da chácara no dia anterior, a viatura não foi para a delegacia, e sim “fazer diligências com os garotos em uma fazenda”, e quando os policiais desceram com os garotos para “conversar” , Luan teria tentado pegar a arma do policial e foi morto.
Naquele tempo, o que o policial colocava no papel a Promotoria de Justiça aceitava (mais ou menos como acontece hoje); não havia audiências de custódia (instituídas em 2015), e os presos não eram enviados para os centros de detenção provisória (que nem existiam).
Meu sangue esfriou ao ler sua descrição do horror que eram as antigas “cadeias públicas” espalhadas por todas as cidades do interior e bairros da capital – milhares de homens enjaulados e empilhados, muitos sem julgamento, e outros tantos sem nem mesmo inquéritos (encarcerados provisoriamente pela capricho de algum político, empresário, ou delegado).
Me lembrou todas aquelas noites quando a mãe dos meninos voltava para casa contando os horrores que havia ouvido entre as mães e mulheres de prisioneiros que ficavam no entorno da delegacia – quando não eram enxotadas pelos policiais entre pilhérias como cães sarnentos.
Havia preço para tudo: ver o preso fora do dia da visita; deixar o “faxina” ou o carcereiro entrar com alguma coisa; e até mesmo a liberdade podia cantar, mas aí a conversa tinha que ser bem conversada, e não dava para nós.
Iniquidades sob os olhos vendados da Justiça
Estupro como empreendimento comercial no cárcere
Nesse ponto em que lhe escrevo, o frio, a tristeza e o rancor correm por onde antes fluía meu sangue, tudo porque você desenterrou lembranças de um passado que nunca deveria ter existido, mas que está cada dia mais perto de retornar, se não para mim, para outros.
Fico com ódio só de lembrar da noite em que a mãe dos meninos chegou chorando, pois soube que o garoto estava sendo usado como escravo sexual para que ela não fosse estuprada no dia da visita.
Quando ela relatou o caso para o carcereiro, ele se prontificou a retirá-lo da cela onde estava e colocá-lo em uma mais segura, mas pediu um dinheiro que não tínhamos, então deu de ombros.
Durante muitos anos, a mãe dos meninos ficou todos os dias em frente à delegacia para que dessem notícia de Luan, o mais novo, que havia sumido ao ir procurar os outros, e ficando lá, ela sentia que de certa foram protegia o filho que lá ainda estava preso.
Quando ela não retornava a noite, eu sabia que era por que a “tranca virou”, havia motim e algum preso iria morrer, para alegria da mídia que venderia mais jornais, dos políticos que apareceriam dando soluções mágicas ou do delegado que virava pop star.
Após o julgamento, se condenado, Lucas iria ou para a “Casa de Detenção do Carandiru” ou para a Penitenciária do Estado na capital, ambos depósitos pútridos de gente – havia outras 13 penitenciárias, mas os condenados daqui sempre iam para a capital.
Hoje, olhando para aquele tempo, vejo que o governador tentava humanizar o sistema prisional, mas a cultura do ódio havia degenerado o sistema como um câncer, alimentado por interesses políticos e econômicos enraizados na polícia durante o Regime Militar.
E mudanças culturais não ocorrem da noite para o dia:
O garoto viveu os piores horrores por quatro anos até seu julgamento, no qual foi inocentado – não havia provas, apenas a sua confissão, que foi colhida na delegacia e que apresentava contradições com a forma como o homem foi de fato morto.
Lucas foi torturado e preso por policiais que forjaram a sua confissão, mataram Luciano e sumiram com Luan que nunca fez mal a ninguém… e os responsáveis sequer tiveram que responder por seus crimes e pela tragédia que impuseram à família.
Maldita hora no qual brinquei que só faltava Lúcifer para completar nossa família! Ele não se fez de rogado, veio no dia seguinte em uma viatura veraneio preto e branca para destruir minha família e inundar de frio, tristeza e rancor minhas veias.
O Massacre do Carandiru como berço do PCC 1533
Da opressão do cárcere nasce a facção PCC
Na década de 1990, as revoltas explodiram nas “cadeias públicas” e no restante do sistema prisional brasileiro – a população carcerária não aguentava mais a opressão dentro do sistema prisional paulista, o que faz surgir a facção PCC 1533.
Carapanã: Viracasacas Podcast (em 1h11m11s do episódio 125)
Agentes públicos e gangues que agiam dentro do sistema prisional tiveram que se curvar diante de um grupo hegemônico e coeso, cessando a carnificina e a exploração.
José Roberto de Toledo, da Revista Piauí, nos conta com assombro como é essa nova realidade:
Lucas foi solto antes que a hegemonia do Primeiro Comando da Capital trouxesse para dentro dos cárceres a pacificação, e emparedasse o Estado exigindo melhores condições nos cárceres, como constava no Estatuto do PCC de 1997:
No total, 111 presidiários foram assassinados por 74 policiais, embora os presos feridos que pereceram depois nunca entraram na contagem, o que indica que cada policial teve pelo menos 1,4 cadáver para chamar de seu – apesar da atrocidade, 52 desses PMs foram promovidos.
Com a repercussão internacional do massacre e vendo que os presos não abandonaram a luta, ao contrário, recrudesceram-na, o estado de São Paulo passou a paulatinamente adotar políticas visando a criação de condições mais dignas dentro dos cárceres.
Castigo abstrato e castigo Concreto
Perdoando aquele que mata mas não perdoa
Tantos afirmavam que eu deveria entender a ação dos policiais que mataram Luciano, desapareceram com Luan, fizeram de Lucas um homem que hoje perambula pelas ruas catando latinhas, e enlouqueceram a mãe dos garotos que…
… eu aceitei e enterrei essas lembranças no fundo das masmorras da memória e não mais pretendia resgatá-las, perdoando e esquecendo o mal causado por aqueles assassinos, que por sua vez, não foram capazes de perdoar um garoto empinando pipa com uma paradinha na mão:
“Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também.”
Para uns, o que aqueles policiais militares fizeram no Carandiru ou o que os policiais civis fizeram com os meninos foram crimes cujos responsáveis deveriam ter sido punidos, mas, para outros, não.
Para uns, o que aqueles garotos, que empinam pipas ou conversam nas ruas e praças e vendem drogas para quem os procuram, fazem deveria ter uma punição, mas, para outros, não.
Em algumas nações, esses policiais ficariam presos, isso se não fossem condenados à morte, enquanto em outras nações os garotos poderiam vender legalmente certas drogas em lojas.
O Primeiro Comando da Capital conquistou a hegemonia pela força, assim como as forças policiais mantêm sob controle a criminalidade com demonstrações de poder e crueldade. É o efeito dobradiça descrito pela pesquisadora Tarsila Flores:
A complexidade que envolve a referida situação repugna toda e qualquer tentativa na suposta identificação de um único responsável que dispare o gatilho da geração desse fenômeno.
Enquanto “cidadão de bem” torce para preso morrer, Cristo…
Um longo caminho separa a justiça carcerária
Desde que tudo isso aconteceu com os meninos, a realidade mudou muito à custa de rios de sangue, inclusive de inocentes.
A organização dos cativos em torno da facção Primeiro Comando da Capital, assim como governos que investiram na aplicação de metodologias humanistas na administração carcerária, conseguiu manter a fervura sob controle.
No entanto, ainda hoje há presos cuja totalidade da pena já foi cumprida, porém ainda se encontram nas dependências do cárcere, esperando o BI para cantar a liberdadeque deve ser feito por um advogado, profissional que, por vezes, aproveita mais essa oportunidade de lucrar com as famílias.
A iniquidade aumenta o grau de insatisfação e revolta dos internos no sistema prisional, o que não deve acabar tão cedo, afinal alguém tem que sustentar um milhão e cem mil advogados e mais cem mil formados todos os anos.
A sociedade é complexa e os interesses se opõem, isso é natural, algo da condição humana. Não há bons e nem maus, apenas pessoas que querem viver e lutam pelo seu espaço, e por isso que não vou escrever sobre o que você me pede, pois desenterraria antigas lembranças.
Eu escolhi por minha própria vontade enterrar a lembrança dos crimes cometidos por aqueles policiais, chancelados e protegidos por Promotores de Justiça e Juízes? Será que eu enterrei fundo aquelas lembranças por minha própria opção?
Giselle afirma que não. Eu fui apenas um entre milhares ao longo de nossa história, pois esse memoricídio acontece no Brasil desde a chegada dos portugueses, passando pela escravidão e pelo Regime Militar.
Doutrinando no esquecimento seletivo
Eu, Giselle, aquele policial que estava na viatura preto e branca que foi buscar os garotos e os profissionais da máquina prisional na década de 1980 éramos crias da Ditadura Militar.
“De alguma maneira, essas décadas produziram um esquecimento, sobre o presente de então, que agora é o nosso passado.”
A decisão de perdoar e esquecer tomada por nós que tivemos nossos garotos mortos, torturados, presos ou desaparecidos foi induzida pelo clima da “anistia ampla geral e irrestrita”, que se incorporou à cultura nacional pós abertura política e vige até hoje.
Políticos populistas prometem endurecer o sistema prisional e ampliar o poder dos agentes prisionais e policiais – sob os zurros de aprovação de jovens que nem tem ideia do que isso de fato significa.
Cada um desses garotos que zurram acredita estar protegido por sua bolha imaginária, como se Lúcifer se importasse se de fato eles são trabalhadores, estudantes ou vagabundos – assim como foi no passado, o Promotor e o Juíz acreditarão na versão que o policial apresentar.
Eu desejaria que você não tivesse tirado do fundo da masmorra de minhas memórias essas lembranças que envenenaram novamente meu sangue e minha mente, e, por isso, não vou escrever sobre o que você pede, mesmo por que não poderei escrever por algum tempo.
Hoje, dia dos pais, eu estava a caminho do cemitério para visitar o túmulo de Luciano, quando vejo Lúcifer,de óculos escuros, estacionando sua Hilux preta…
Desde que o frio, a tristeza e o rancor se abateram sobre os meus, eu nunca sei se o que vejo ou o que lembro é de fato real ou se é algo criado em minha mente por forças que eu não tenho como dominar.
Peço que desconsidere algum trecho que lhe pareça ter sido fruto de um desses sonhos diurnos forjados pelo caos que se tornou minha mente, ou então que lhe pareça que seja uma memória que jamais deveria ter sido resgatada das masmorras do passado.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”