Mulheres: PCC oferece oportunidade de trabalho

A facção paulista Primeiro Comando da Capital e a situação da mulher que trabalha para o tráfico nas cidades amazônicas fronteiriças com a Colômbia.

As garotas do tráfico internacional amazônico

O Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) oferece vagas de trabalho na região da fronteira com a Colômbia. Têm preferência moradoras das cidades brasileiras de Vila Bittencourt, Ipiranga e Tabatinga ― caso tenha interesse, procure Júlia.

Júlia mudou meu conceito de quem são e como vivem as garotas que trabalham para as organizações criminosas e guerrilheiras na fronteira amazônica ― e a situação dessas mulheres, confesso, muito me entristeceu.

Hoje já não troco mais mensagens com nenhuma arlequina que vive no norte, mas quando o fazia, de longe podia sentir o calor, a vida e a alegria daquelas garotas ― de uma morena em especial, cujo nome não direi.

Eu convidei algumas vezes a morena para que viesse a São Paulo, mas, sempre por conta das responsas, estava impedida, contudo, se tivesse ouvido antes Júlia, eu teria me esforçado mais para trazer a arlequina para terras paulistas.

A mulher do tráfico no amazonas e a família do norte

A morena rasgou a camisa do 3 (e eu nem vi)!

A situação, naquela região, descrita por Júlia, com palavras de uma graduanda em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, seria algo que Granuja talvez descrevesse mais ou menos assim:

“La frontera de las chicas poderosas y hombres malos, y ladrones, y bandidos, y ladillas, y de perras de rodillas Casquillo de las balas y de grillas Los dos igual de peligrosos por si no lo pillás No sabes, no opinés.”

Após a morte de Jorge Rafaat Toumani e o massacre de Compaj, a equipe da qual a morena fazia parte migrou para o inimigo Comando Vermelho e, depois do racha CV FDN, passou a atuar como braço da facção inimiga Família do Norte.

Nem sei por que comentei essa história do passado com você, pois o que realmente me chamou a atenção no trabalho de Júlia foi algo que ela descreve como sendo a feminização da pobreza das mulheres que entram para o tráfico.

a feminização da pobreza Júlia Henriques Souza

A feminista, o cidadão de bem e a morena

Essa história de feminização ou o escurecimento da pobreza talvez seja um discurso desenhado por minorias de mulheres e negros indolentes ― a Constituição Cidadã (CF-88) e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já garantem o tratamento igualitário à todos.

Um candidato a presidente da república em debate deixou clara essa posição hipócrita de feministas e de grupos raciais que lutam pela paridade dos salários e do acesso aos cargos de chefia ― se mulheres ou negros querem ganhar mais, que trabalhem mais e melhor!

Júlia Henriques Souza, ariana e pertencente à elite cultural, discorda desse ponto de vista em seu artigo para a Revista Fronteira de Iniciação Científica e Relações Internacionais: “O narcotráfico nas fronteiras brasileiras e a feminização da pobreza: um ciclo vicioso”.

E ainda, de quebra, acabou por destruir minha ideia de quem era a morena amazônica que morou por tanto tempo em minha mente e em meu coração.

companheiras do primeiro comando da capital diferenças regionais

A mulher dentro do PCC

Mesmo que você ache que nunca encontrou algum membro da facção paulista, com certeza já ouviu falar de alguns deles, no mínimo de Marcola e Gegê do Mangue, mas duvido que possa mencionar uma mulher.

Em um esforço de memória, lembrei de algumas companheiras e aliadas, como Marcela Chagas no Rio de Janeiro e Jasiane Silva Teixeira, a da Dama de Copas que liderava (ou lidera) a facção aliada Bonde do Neguinho (BDN).

Aqui em São Paulo, as companheiras são muito ativas, e em geral têm algum relacionamento, seja de parentesco, seja amoroso, com um irmão ou um companheiro, e assim entram no mundo do crime.

Algumas acabam por ganhar autonomia nos corres, e raramente lideram equipes, mas sempre têm o maior respeito dos homens da facção.

A cúpula do PCC apregoa o respeito pela mulher do crime em todos os cantos nos quais mantém o domínio, no entanto Júlia nos mostra que na prática, por lá, pouco ou nada mudou.

a mulher do tráfico da farc na fronteira no brasil

A mulher do tráfico na fronteira colombiana

Júlia utiliza os estudos de Diana Parce para demonstrar que o ciclo de pobreza no qual as mulheres amazonenses estão inseridas as leva cada vez mais a buscar, nos grupos criminosos, uma forma de driblar as barreiras de ascensão social.

Se você conhece a vida em Vila Bittencourt, Ipiranga e Tabatinga pode dizer que Júlia está errada, mas, se não, bem, é melhor seguir o conselho de Granuja: No sabes, no opinés”.

As oportunidades de emprego são mínimas, e são oferecidas preferencialmente para os homens. As mulheres devem se limitar a algumas atividades de menor reconhecimento social e de baixa remuneração ― mercado formal é um luxo para poucas.

Não há como se falar naquela região sem mencionar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o tráfico de cocaína em um ambiente em que “muitas mulheres são forçadas a se prostituir e/ou trabalhar tanto para as FARC quanto para grupos paramilitares”.

Aquele ambiente é uma selva, e não estou usando uma metáfora: a fronteira é coberta por densa floresta e igarapés, e as cidades daquele lado da fronteira têm sempre uma cidade irmã do outro lado ― a aproximação cultural é regra, para o bem ou para o mal.

Júlia conta, inclusive, que, ao contrário do que se pensa no restante do país, a fronteira não é assim tão precisa. Os povos indígenas Tikuna circulam livremente e “a fronteira geográfica formal praticamente não tem significância, gerando problemas de nacionalidade emigração”.

o tráfico de drogas como opção ao mercado de trabalho

Drogas como a melhor opção de trabalho

Famílias deixam suas regiões de origem na Colômbia e buscam abrigo em outras regiões, sem um homem jovem ou adulto, pois esses foram recrutados à força pelas FARC ou pela milícias ― isso quando não morreram. Restaram apenas velhos, mulheres e crianças.

Algumas chegarão a La Pedrera/Vila Bitencour, Tarapacá/Ipiranga e Letícia/Tabatinga, e integrarão a azeitada indústria do tráfico da região.

Hoje há um maior controle ambiental do lado brasileiro à indústria extrativista, o que empobreceu e dificultou ainda mais a possibilidade de emprego deste lado, principalmente para as mulheres.

Enquanto você leu esse artigo, as facções criminosas transferiram de um país para outro cerca de 200 reais. Infelizmente para as garotas e para os policiais que gostavam de apresentá-las no plantão, elas já não são mais importante no processo.

Explorada pelas facções e milícias e esculachadas pelos agentes públicos, as mulheres do tráfico perderam espaço novamente para os homens que pilotam os aviões e os barcos com grandes quantidades de drogas ― algumas coisas não são tão ruins que não possam piorar.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David
ascenção social das meninas do mundo do crime pcc1533

A mulher do tráfico na fronteira colombiana

Reitero o convite. Caso tenha interesse sobre o emprego de mulheres pelas facções criminosas na região da fronteira com a Colômbia, procure o artigo de Júlia, acessível neste link.

Júlia mudou meu conceito de quem são e de como vivem as garotas que trabalham para as facções na fronteira amazônica ― e a situação dessas mulheres, confesso, muito me entristeceu. A vida no mundo do crime não é fácil como muitos pensam, mas eu não esperava que fosse tão obscura.

Por maior que seja o empenho das lideranças paulistas para tentar uma isonomia ao tratamento dado às companheiras dos vários estados, Júlia demonstrou que razões culturais vão se impor na região, impedindo a ascensão das meninas amazonenses.

O mundo nunca foi justo, mas também não precisava ser uma selva tão hostil como é na fronteira do Amazonas com a Colômbia ― e nem falei dos piuns (mosquitos incômodos)!

8 de dezembro de 2022

Foto do líder indígena Yanomami Dário Kopenawa e o símbolo do Greenpeace

Yanomami na luta contra o PCC e os garimpeiros ilegais

Dário Vitório Xiriana Kopenawa dirige a organização “Hutukara Associação Yanomami”. Por meio de seu trabalho, ele quer fazer valer as demandas dos Yanomami, entre outras coisas, no nível político. Seu trabalho se concentra em particular nos ataques de garimpeiros ilegais de ouro e crime organizado, confirmando o envolvimento da facção paulista nas ações criminosas no território indígena.

Já na década de 1980, cerca de 40 mil garimpeiros ilegais invadiram nossa terra Yanomami. O mesmo se repete hoje. Os Yanomami são mortos. Os invasores continuam aumentando. Grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que cometem crimes organizados contra os indígenas, também são uma ameaça. — Dário Kopenawa

Ele também se dirige diretamente aos líderes mundiais:

O que queremos hoje na região Yanomami é a ajuda dos países internacionais. Queremos apoio para pressionar o governo brasileiro. Os “garimpeiros” devem partir imediatamente, antes que mais parentes nossos, crianças e mulheres morram e mais violência aconteça.

O governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro tolerou as maquinações ilegais nos últimos anos de sua gestão, até mesmo encorajando-as com sua retórica agressiva. Ainda não se sabe como as coisas continuarão para a população indígena no Brasil sob o novo governo recém-eleito de Lula da Silva – mas há uma grande esperança de mais respeito pelos direitos humanos.

Trecho do artigo “wert? – Goldrausch in Brasilien zerstört Biodiversität” na página do Grampeasse

Cocaína barata da Bolívia é com o irmão da facção PCC 1533

Existem oportunidades de mercado para a compra de cocaína da Bolívia e do Paraguai por um preço quase um terço abaixo das rotas atacadistas do Primeiro Comando da Capital.

Uma lembrança de quando eu era garoto

O assunto deste artigo é o Primeiro Comando da Capital, a compra de cocaínatribu pura no atacado, a trairagem dentro da facção e o Regime Disciplinar ou Dicionário do PCC, mas nada disso de fato para mim importa, como pretendo demonstrar aqui.

Ernesto Sabato está certo ao afirmar que “viver consiste em construir futuras lembranças, [e eu, assim como ele, sabia que estava] preparando lembranças minuciosas que algum dia [haveriam] de me trazer melancolia e desesperança”.

E a pedido do próprio Ernesto, eu não vou me alongar no assunto, mesmo porque é tudo bastante simples, como você mesmo verá, e por isso não farei que você perca tempo lendo “palavras ao vento” ― hoje será papo-reto, resumo.

Só vou contar para você como eu fiquei sabendo de tudo, para que você não precise me chamar de novo na delegacia para dar explicações, assim, já fica tudo dito e pronto ― ah! antes que me esqueça, neste texto há trechos do livro do Ernesto: O Túnel.

Esfiha como te quero

A minha tão sonhada esfiha do Habib’s

Eu era office-boy em São Paulo, trabalhava no prédio da Jovem Pan na Avenida Paulista, e na esquina da Alameda Joaquim Eugênio de Lima com a Alameda Santos havia um Habib’s ― isso foi no começo da década de 1990.

Na empresa em que eu trabalhava, o pessoal do Departamento de Arte mandava que eu fosse comprar esfihas no Habib’s todos os dias. Era caro demais para meu bolso, então fiquei por meses só sentindo o cheiro e vendo os caras comendo.

É verdade me que ofereciam, mas eu dava uma desculpa e ia comer minha marmita de arroz, arroz, arroz, feijão e uma mistura (uma mistura era como minha mãe chamava o ovo).

Foi assim por meses, até que em um dia de pagamento, depois de acertar todas as minhas contas, fui ao Habib’s e me sentei sozinho para experimentar com gosto a tal da tão cheirosa e tentadora esfiha.

Só contei isso para que você entendesse o porquê de, naquela noite do ano passado, eu estar sozinho no Habib’s, degustando esfihas e lembranças minuciosas que sempre me fazem sentir melancólico e desesperançado ― eu curto esses momentos de solidão e deprê.

Basta de efusões. Eu disse que relataria esta história de forma enxuta, e assim o farei.

Dando um tempo no Habib's

Uma operação policial próxima ao Habib’s

Eu estava sentado junto à janela, e uma barreira policial havia sido montada no final do quarteirão, então, quem entrava na rua, obrigatoriamente teria que passar pelos policiais ― só que não.

Para minha surpresa, entram no restaurante dois conhecidos meus, que, ao verem as viaturas policiais fechando a via, entraram no estacionamento do Habib’s e resolveram esperar lá dentro pelo fim da operação policial.

Vieram para minha mesa ― pronto, acabou meu sossego, lá se foi minha paz e minha degustação deprê.

Pediram de cara duas pizzas, uma de calabresa e outra portuguesa ― ai, meu Deus, só falta pedirem que eu rache a conta e eu nem gosto dessas pizzas!

A barreira não se encerrava, o assunto fluía. Os garotos estavam indo buscar dois quilos de cocaína pura, puríssima, vindos diretamente da Bolívia por meio de um contato em Santa Cruz de La Sierra ― pense em dois garotos empolgados.

O interesse do PCC na Bolívia começou em 2007 com o objetivo de estabelecer relações com narcotraficantes bolivianos e foi implementada inicialmente por aproximadamentes 100 integrantes da facção.

jornalista Allan de Abreu
cinco mil na mesa do Habib's

Cocaína da Bolívia e o negócio da China

Iam faturar uma boa grana sem o risco de pegar dois mil quilômetros de estradas e fazer negócio em um país estrangeiro com um contato que não conheciam pessoalmente.

Garotos espertos, não marcaram a entrega na cidade deles, e sim em Campinas ― cidade grande, com muito fluxo de veículos e muitas entradas e saídas.

Colocaram sobre a mesa os pacotinhos de dinheiro totalizando cinco mil Reais.

Empolgados, me contaram que já haviam, no ato da encomenda, depositado em uma conta da Caixa quatro mil. Quinze dias depois de pegarem a mercadoria, depositariam outra parcela de cinco mil.

Para falar a verdade eu estava mais preocupado com a conta do Habib’s, mas algo me incomodou na conta dos garotos: 5+4+5=14, tudo bem, é um bom preço, afinal o preço da cocaína em São Paulo gira em torno de 18 mil, só que, sempre tem o “só que…”

O preço de mercado da cocaína pura, gira em torno de 18 mil DÓLARES o quilo, à vista, e eles estavam comprando por 14 mil REAIS dois quilos, parcelado! ― pense em dois garotos empolgados e um tiozinho olhando com cara de “Oh! Coitados!”.

acompanhando a entrega da droga via google maps

Os garotos do corre e a garota do transporte

Bem, eu prometi que seria breve, que não iria me alongar, mas é importante que você saiba de tudo para entender que eu não tive nada a ver com isso, e só fiquei sabendo dos nomes, da história e dos locais por puro acaso.

Tocou o celular de um deles, era a garota que transportava a mercadoria, e como não tinha nenhuma mesa por perto ocupada, eles colocaram no viva-voz.

Ela falava com bastante naturalidade, e os garotos tentaram fazer com que que ela levasse a mercadoria para o estacionamento do Habib’s, ali mesmo, mas ela insistia em outro ponto.

Nunca tinha imaginado que o transporte funcionava assim. Eles haviam acompanhado o trajeto pelos Google Maps, legal essa tecnologia, só que, sempre tem o “só que…”

Reparei que não estava sincronizado on-line, que ela atualizava manualmente a localização ― estranhei isso.

Ela insistia em que eles fizessem o depósito da segunda parcela antes que a mercadoria fosse entregue ― estranhei isso também.

Só eu parecia achar que era muita coisa estranha para um negócio, mas cada um com seus problemas, a minha preocupação era que eles saíssem do Habib’s sem pagar as pizzas que por sinal, só eles estavam comendo.

Eu devia estar demonstrando nervosismo porque os garotos me intimaram a dar explicação para minha agitação.

Conferência de Cara Crachá no Sistema PCC

Buscando cara crachá dentro do Sistema

Não ia dizer para eles que estava preocupado que não pagassem a conta do Habib’s, então disfarcei, e disse que o preço da droga estava incompatível, a atualização do localizador estava sendo feito manualmente e não senti firmeza na voz e no método da garota.

Vieram com aquela enxurrada de afirmações que tudo estava certo, que não tinham dúvidas, que era um irmão conhecido da facção, para depois de alguns momentos de silêncio, ficarem tensos e olhando um para o outro.

Pensei até que não tinham acreditado na minha história, e haviam percebido minha preocupação sobre quem iria pagar as pizzas, mas aí os dois foram para os celulares e esqueceram da minha presença ― eu deveria ter saído sem pagar naquele momento.

Começaram a ligar para o contato que estava intermediando o negócio, era um irmão de outro estado, mas que estava respondendo só em texto e, quando soltava a voz, dava para perceber que era gravação antiga ― só os garotos na empolgação não tinham manjado.

Dei o toque e, então, eles começaram a correr em busca de informações dentro do Sistema Carcerário ― um liga para um Sintonia, outro para um Cadastro, e começou o debate e a agitação dentro das trancas para conseguir informação do tal irmão.

Ameaçando mandar para o Tribunal do Crime do PCC

A confirmação vem do Cadastro do MS

Veja, não estou tentando alongar o assunto, pelo contrário, estou resumindo ao máximo, pois assim eu havia dito a você que o faria, no entanto é importante que você entenda todos os detalhes para ver que fui apenas um mero observador nessa história.

O cadastro do Mato Grosso do Sul passou o Cara Crachá do tal irmão. De fato ele existia e não era excluído, porém, alguém estaria usando o nome dele para aplicar golpes, e eles estavam sendo vítimas de uma armação.

Imagine a cara dos dois quando receberam essa resposta das trancas. Planos maléficos foram feitos na hora, e pelo celular armaram rapidamente uma equipe para pegarem a garota, com ou sem drogas.

Engrossaram a voz quando ela ligou novamente, ameaçaram usar o Tribunal do Crime do PCC para pegar tanto ela quanto os outros envolvidos ― ela desligou. A barreira policial a essa altura já havia ido embora, e eu pensei em pedir um café.

2. Ato de Esperteza:
Quando usa de má fé ou abusa da confiança depositada, se parece com ratinagem, muda que o prejudicado confia e acaba sendo lesado.
Punição: exclusão sem retorno, cobrança a ser analisada.

Eu sei onde você mora, vou mandar a polícia aí

Eu sei quem você é e onde você mora

Desisti do café. Se eles não pagassem a pizza, ia sobrar para mim, e teria que rezar para que o saldo no cartão desse para pagar a conta ― eu só tinha 10 reais em dinheiro. Será que daria para tirar os 10% do garçom? Às vezes por causa de cinco reais o cartão não passa.

Toca o celular, uma mensagem escrita, dizendo que eles deviam deixar quieto o bagulho e engolirem o prejuízo em paz, que eles sabiam quem os garotos eram. Mandaram até as fotos das casas dos dois rapazes, dizendo que fariam uma denúncia para a polícia caso insistissem.

Vi que a foto era do Google Street View, mas ficava evidente que o golpista tinha informações sobre os garotos e poderia causar problemas se quisesse.

Para acusarem o irmão no Tribunal do PCC, eles precisariam de provas 100% confiáveis, e eles só tinham textos e gravações de voz do WhatsApp, que eram trechos gravados e repetidos ― o processo viraria contra eles.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

Construindo uma nova lembrança para o futuro

Um golpe esperado, uma proposta inesperada

O tal do irmão ainda propôs um negócio para os garotos: ele pagaria 50% do lucro em outros golpes se eles indicassem possíveis compradores e dessem dados para ele poder chegar nos caras, assim como alguém tinha feito com eles.

Esse encontro no Habib’s aconteceu há um ano, e só agora me lembrei de contar essa história, pois fiquei sabendo que o mesmo golpe, utilizando o nome do mesmo irmão continua sendo aplicado, com alguma variação.

Fui àquela noite reviver uma lembrança do passado, mas acabei construindo mais uma futura lembrança, minuciosa, que hoje já me traz certa melancolia e desesperança.

Mas o importante é que consegui cumprir o que prometi: não me alonguei no assunto mais que o estritamente necessário ― como acaba de me lembrar Ernesto.

O grupo criminoso Primeiro Comando da Capitalassim como as bruxas e o comunismo, é utilizado para que grupos políticos, que estão no poder ou desejam chegar a ele, criem um ambiente de terror com alguma finalidade específica.

Aparentemente é o que voltou a acontecer agora na Bolívia, onde parte do governo do presidente Luis Arce deseja facilitar a ação no país da  Drug Control Administration (DEA), apesar de há muito a facção PCC 1533 ter caído no esquecimento pela população boliviana.

Os números do Google Trends não deixam dúvidas de que o fantasma está sendo alimentado artificialmente para então poder ser combatido.

Facção PCC: os dois lados da questão

Quem se opõe a essa narrativa para justificar uma intervenção americana no país, que no geral não acaba bem, é o vice-ministro de Substâncias Controladas, Jaime Mamani Espíndola, que afirma que se fosse significativa a presença da facção paulista no país as autoridades não poderiam circular livremente como o fazem.

Quem apoia e alimenta essa narrativa e pede a presença do DEA, que no geral acaba trazendo dólares para o país e holofotes para políticos e agentes do Estado através de políticas de “intercâmbio”, é a oposição de direita que há poucos anos tentou tomar o país a força e a Comunidad Ciudadana (CC), uma coligação política de centro liderada pelo ex-presidente Carlos Mesa.

Em San Matías, capital da Província boliviana de Ángel Sandóval no departamento de Santa Cruz, situado na fronteira com o Brasil, é comum a prisão de estrangeiros com ligação com as facções brasileiras, mas segundo o ministro de Governo, Carlos Eduardo Del Castillo Del Carpio, nada que a polícia boliviana já não esteja preparada para atuar.

Já seus opositores, mesmo contrariando os dados estatísticos, apresentam exceções como regra, como a execução de duas pessoas naquela cidade em um confronto entre criminosos e, a morte de um sargento durante uma operação da Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (Felcn) em San Ignacio de Velasco, Santa Cruz. e um colombiano ex-combatente das FARC no Parque Noel Kempff.

O PCC segundo a Rádio Globo

Rícard Wagner Rizzi

É TD3 passa nada, afirma o Estadão.

Márcio Sérgio Christino conta que o PCC sabe que existe uma lacuna de organizações criminosas na América latina, e que se aproveitará das crises em países vizinhos, como a Venezuela e Bolívia, para preencher este espaço.

Integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) passaram a cooptar venezuelanos que entraram no Brasil em busca de uma vida melhor, mas que foram presos por crimes comuns, como roubo de celulares. A situação é verificada na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc), a maior do Estado de Roraima. O procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino, que estuda a atuação do PCC, diz que o objetivo do grupo é se tornar o primeiro cartel brasileiro internacional, e para isso, precisa estender suas raízes na América do Sul. No entanto, o membro do Ministério Público de São Paulo lembra que uma vez dentro da organização, os venezuelanos não poderão mais sair.

Onde citei neste site o Ministério Público de São Paulo MP-SP → ۞

Rícard Wagner Rizzi

A imprensa e o Primer Comando de la Capital

A facção PCC nos países de língua espanhola é apresentada de quatro maneiras: reportagens especiais, bandeira política, varejo policial e citações ocasionais.

Bordoada seca em mim, que não deveria merecer

Ninguém sente mais pena que eu sinto de você, que padece lendo este artigo. Ninguém sofre mais do que eu sofro ao perceber que, por algum infortúnio, você acabou neste palavreiro tedioso. Por isso peço a você que leia apenas o próximo parágrafo e deixe este site…

É mais ou menos assim que em 1920, Rui Barbosa começa seu discurso de 37 páginas intitulado A imprensa e o dever da verdade, cuja estrutura utilizo por culpa de Valeria e de Márcio, que chamaram minha atenção para o tema: a verdade da imprensa e o PCC.

Perceba, não é de meu gosto dar canseira, escrevendo palavras vãs, quando se poderia chegar diretamente ao ponto, mas só assim posso apresentar como se deve o artigo El grupo más temido de Brasil ya aspira a controlar el narcotráfico de América Latina.

A repórter Valeria Saccone me colocou entre o cutelo e a parede com a publicação desse artigo no periódico espanhol El Confidencial. Senti como se minhas posses fossem-me retiradas de súbito por salteadores. Ela, com poucas palavras, humilhou-me e calou-me.

O que falei neste site sobre a imprensa → ۞

Uma visão clara e abalizada sobre a facção PCC

Valéria contou a história do PCC de forma que alguém que nunca ouviu falar da organização criminosa pudesse entender, e, ao mesmo tempo, fez uma análise profunda sobre sua atual situação e o seu impacto em todo o mundo.

Ela me humilhou e me calou com uma bordoada seca que eu não merecia ao mostrar como se pode fazer uma matéria jornalística de qualidade, levando não apenas a informação ao leitor, mas também lhe proporcionando prazer na leitura.

Foi por conta do artigo de Valéria, que se espalhou como fogo na palha por diversos sites latino-americanos e asiáticos, que parei para reparar nas diferenças entre as notícias transmitidas sobre o Primeiro Comando da Capital nas diversas nações.

Para isso, pedi ajuda aos universitários, e quem me socorreu foi Márcio Barbosa Norberto, com a tese Olhar para a fronteira: o fazer jornalístico em Laz Voz de Cataratas, Gazeta Diário de Foz do Iguaçu, e Vanguardia.

O que falei neste site sobre as fronteiras → ۞

Quem tem telhado de vidro…

Brasileiros viralizaram memes e comentários xenófobos quando se noticiou que refugiados sírios viriam para o país, outros, seguindo a mesma linha, exigiram que a fronteira com a Venezuela fosse fechada para evitar a entrada de integrantes das FARC (isso mesmo, das FARC!).

Márcio nos conta que o periódico paraguaio Vanguardia utilizou 21% de seu espaço falando sobre comércio, arte e cultura, saúde, cidadania, migração, infraestrutura e política, e 79% sobre controle de fronteiras, tráfico de drogas, contrabando, crime e organizações criminosas…

“… criando representações estereotipadas acerca do brasileiro de modo geral. Ao se referir ‘el extrangero’ o portal indica que o suposto membro do PCC não faz parte da nação paraguaia [… e] a imagem que se cria do brasileiro é a de traficante, criminoso, entre outras marcas que carregam este sentido.”

O preconceito alheio é tão bem fundado quanto o nosso, e não se pode culpar a facção por ter atravessado a fronteira, afinal, foi uma decisão nossa esconder o problema até que ele se tornou tão grande que não pôde mais ser oculto sob a peneira.

Onde citei preconceito neste site → ۞

A imprensa esconde o verdadeiro inimigo

Márcio conta que a imprensa paraguaia trata com naturalidade a corrupção e a ação das organizações criminosas — essa representação do discurso jornalístico reforça o imaginário popular e busca ofuscar o real inimigo, ao que Rui Barbosa resumiria mais ou menos assim:

Vede, senhores, vede se não é a clandestinidade, a hipocrisia, a mentira o que eles querem. A culpa do Primeiro Comando da Capital está mais em desnudar uma praga pública, de cuja existência todos sabem, todos se lastimam, todos se aterram, mas na qual poucos ousam pôr a boca.

Quem há de encarar aqueles que dispõe da vida e da morte, dando ou tirando a honra, erigindo ou demolindo reputações, convertendo a santidade em corrupção e a corrupção em santidade? Acusemos os estrangeiros ou acusemos os criminosos de sempre.

A imprensa acompanha o que se passa perto e o que se passa longe, enxerga os que tramam, sonegam e roubam a nação e a sociedade, mas se acautela e aponta dedos acusatórios em outra direção, sem ver o verdadeiro mal se vive, e essa é a condição em que vivemos.

Ninguém sente mais pena que eu sinto de você que, por algum infortúnio, acabou tendo que trabalhar para os grandes meios de comunicação, que são obrigados a fazer coro aos discursos dos governos, das empresas e dos políticos que ditam a linha editorial.

Onde citei o real e o imaginário neste site → ۞

A imprensa paraguaia e o Primer Comando Capital

O Paraguai é a principal base de operações da facção paulista fora do Brasil — milhares de brasileiros e paraguaios trabalham, direta ou indiretamente, para a facção nas mais diversas áreas de mercado — legal e criminoso, formal ou informal — e como agentes públicos.

Toneladas de drogas, armas, cigarros e outros produtos são comercializados, sob os olhos complacentes da administração pública, que mostram seus dentes e ocasionalmente abocanham alguns membros, mas sem matar a galinha dos ovos de ouro.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques explicam que os profissionais da imprensa compram as informações passadas pela polícia sem questioná-las, e essa prática, além de ser mais cômoda, adequa-se aos interesses das editorias e daqueles que querem manter o controle social.

Entendo as razões pelas quais a mídia local age dessa forma, difícil mesmo é entender por que o Paraguai é a única nação de língua espanhola a denominar a facção de “Primer Comando Capital” sem o “de la” — será que foi usado para pagar propina? — foi mal, preconceito meu.

O que falei neste site sobre o Paraguai → ۞

A imprensa hispânica e o Primer Comando de la Capital

Há anos acompanho diariamente as publicações sobre a facção Primeiro Comando da Capital em todo o mundo e, para mim, tornaram-se nítidas as diferenças nas formas narrativas da imprensa hispânica sobre os fatos envolvendo a organização criminosa:

  • Reportagens Especiais: Argentina, Colômbia e Espanha apresentam reportagens elaboradas, através pesquisa e com análise de especialistas, apresentando a organização criminosa como uma estrutura internacional de narcotráfico internacional e controle social nas periferias das cidades e no sistema carcerário.
  • Bandeira política: na Bolívia a facção é demonizada, e o ministro do governo Carlos Romero assume o papel de paladino da Justiça.
  • Varejo criminal: o Paraguai se detém ao noticiário policial diário, com reprodução do que é recebido dos órgãos policiais ou judiciários.
  • Citações ocasionais: as demais nações latino-americanas contentam-se em reproduzir publicações de outras nações e vez por outra há alguma reportagem especial.

Perceba, não é de meu gosto dar canseira, colocando palavras vãs, quando se poderia chegar diretamente ao ponto, mas a repórter Valeria Saccone me colocou entre o cutelo e a parede, e resolvi não me calar diante da humilhação na qual seu artigo me jogou.

Onde citei a questões latino-americanas neste site → ۞


As pesquisas pelo Primer Comando Capital pelo mundo

Os gráficos abaixo estão vinculados ao site do Google Trens, portanto a informação que estiver aparecendo talvez não seja a mesma que está vindo para mim no momento em que escrevo.

O primeiro gráfico mostra um quadro que tem se mantido inalterado por muito tempo — o Paraguai é de longe a nação que mais se preocupa com a organização, seguidas pela Bolívia, nação chave na estratégia da organização, seguidas das demais.

No entanto, no último ano a Bolívia superou em muito o Paraguai no interesse pela facção. O assalto aos carros fortes por si só não justificariam o aumento brutal do interesse, mas a facção passou a ser utilizada como bandeira política pelo governo.

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Veja o PCC nos principais jornais hispânicos

O interesse pela facção no meio digital apontado pelo Google Trends se reflete nas matérias produzidas pela imprensa. O Paraguai que mais pesquisa sobre a facção, também é aquele que a imprensa mais fala sobre o assunto.

O periódico paraguaio Ultima Hora já abordou desde 2004, segundo o Google, o assunto 33.100 vezes no momento que faço essa pesquisa, quando a média dos outros meios de comunicação fora do Paraguai gira em torno de 100 artigos citando a facção.

Abaixo, organizado em ordem de número de abordagens estão postas as principais publicações em Espanhol — a imagem é um link para a busca do Google.

Paraguai — Ultima Hora

Paraguai - PCC 1533 ultima hora

Bolívia — La Razón

Bolívia - PCC 1533la razón.jpg

Argentina — La Nacion

Argentina - PCC 1533 la nacion diario

Espanha — El País

Espanha - PCC 1533 elpais

Argentina — Clarín

Argentina - PCC 1533 el clarin diario

Equador — El Comercio

Equador - PCC 1533 el comercio

Argentina — Página 12

Argentina - PCC 1533 pagina 12.jpg

México — El Periódico de México

Mexico - PCC 1533 el periódico

Peru — El Comercio

Peru - PCC 1533 el comercio

México — El Universal

Mexico - PCC 1533 el universal

México — La Prensa

Mexico - PCC 1533 la prensa

México — La Jornada

Mexico - PCC 1533 la jornada

Espanha — ABC

Espanha - PCC 1533 abc

Uruguai — El Observador

Uruguai - PCC 1533 el observador

Uruguai — Montevideo.com

Uruguai - PCC 1533 montevideo

Espanha — El Mundo

Espanha - PCC 1533 el mundo

México — Excelsior

Mexico - PCC 1533 excelsior

Chile — El Mercurio

Chile - PCC 1533 el mercurio

Colômbia — Colombiano

Colombia - PCC 1533 colombiano.jpg

México — Crónica

Mexico - PCC 1533 cronica

México — Milenio

Mexico - PCC 1533 milenio

Espanha — La Razón

Espanha - PCC 1533 la razón

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Rícard Wagner Rizzi

PCC tiene presencia en países latinoamericanos

Surgido en el desbordado sistema penitenciario de San Pablo en 1992, el Primer Comando de la Capital (PCC) tiene presencia permanente en todo el territorio y en varios países latinoamericanos. Sólo en drogas factura unos 50 millones de dólares al año.

Rícard Wagner Rizzi

Caça à Máfia Russa no Brasil

A Polícia Federal iniciou uma minuciosa investigação para comprovar a suspeita de atuação da máfia russa na região Norte do Brasil. Mas afinal, o que há de concreto além do sensacionalismo?

Máfia russa no Brasil? Aparentemente sim — mas será mesmo? Este artigo investiga o que há por trás das suspeitas e revela como o inimigo perfeito pode ser apenas uma distração frente à atuação real do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) no cenário do crime organizado.


⚠️ Advertência ao leitor:
Este texto contém juízos críticos e linguagem provocativa. Recomenda-se leitura atenta e reflexão independente sobre os fatos narrados e os discursos desconstruídos.

A nossa lei condena alguém sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele fez?

— João 7:51

Confundindo mafiosos com turistas

Até agora, a suposta presença da máfia russa no Brasil, ligada ao tráfico internacional de drogas e à lavagem de dinheiro, segue no campo das especulações. O que temos, por ora, é um zelo exagerado que transforma nossos agentes federais em autênticos inquisidores “russofóbicos” — mais preocupados com passaportes cirílicos do que com provas concretas.

O jornalista Allan de Abreu ajuda a lançar alguma luz sobre essa confusão, explicando o funcionamento de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro que, embora real, pouco tem de russo. Segundo ele, doleiros como Dalton Baptista Neman atuam por meio de operações chamadas de “casadas”.

O funcionamento é engenhoso: um comerciante brasileiro paga seu fornecedor na China em dólares. Esses dólares, no entanto, são fruto da conversão de criptomoedas compradas por traficantes de cocaína na Europa. Em seguida, esse mesmo comerciante vende os produtos importados no Brasil, recebendo em reais. Com esse valor em mãos, ele quita a dívida com o traficante brasileiro responsável pelo envio da droga ao velho continente.

Ou seja, um circuito internacional de narcotráfico e lavagem que passa por Brasil, China e Europa — mas onde a presença russa, até aqui, é tão nebulosa quanto a honestidade de certos discursos políticos.

O chinês Jiamin Zhang se estabelecer no Brás no centro de São Paulo e é o líder de um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de criptomoedas que pode ter movimentado bilhões de reais. Ele é acusado de trazer ao Brasil toneladas de cocaína vindas da Colômbia, Bolívia e Paraguai. Do território brasileiro, a droga era enviada para a Europa por portos da região sul do país.

Thaís Nunes detalha expõe nomes e detalhes

No entanto, enquanto esquemas bilionários como o de Zhang prosperam, a Polícia Federal insiste em revistar bolsos alheios, promovendo uma caça às bruxas que frequentemente transforma turistas russos em suspeitos automáticos. É o que afirma o empresário e autodenominado aventureiro Artemiy Semenovskiy (Артемий Семеновский), representante do obscuro Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB – ОКОРГБ), e autor da provocante obra intitulada “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras” (“Рycckий Кokaиh b Бpaзилии – Рaзoблaчaem ЛoжЬ”).

Vivemos em tempos estranhos, onde criptomoedas se tornaram ferramentas úteis até para lavar dinheiro de pequenos delitos, como revelado pela Operação Mamma Mia da Polícia e Receita Federal. Esta investigação expôs uma pizzaria gerida pelo Primeiro Comando da Capital que, além de vender pizzas, comercializava criptomoedas e ouro para ocultar dinheiro sujo e financiar as operações criminosas da facção.

— Lucas Caram para o Cointelegraph

O russo, a Polícia Federal e o PCC

A escrita de Artemiy é especialmente interessante, já que aborda como novidade para os russos algo que é bastante familiar para nós brasileiros: o surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC). Artemiy Semenovskiy não economiza cores fortes em sua descrição da facção PCC 1533, do sistema prisional brasileiro e da Polícia Federal:

“Paroxismo engraçado: o próprio poder gerou e criou seu inimigo mais terrível, porque o PCC surgiu como uma reação ao caos da polícia, à desumanidade do sistema prisional, à indiferença de juízes e funcionários.”

Pergunta Artemiy, com razão: por que insistimos em repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes? O olhar estrangeiro, ainda que desprovido de profundo conhecimento da realidade brasileira, consegue captar essa peculiaridade nacional.

Diálogo diplomático contra preconceito

Artemiy tenta criar uma ponte entre os governos do Brasil e da Rússia para amenizar a perseguição policial baseada em preconceitos, mas a instabilidade política brasileira impede um diálogo eficaz e duradouro. Com um governo perdido e uma polícia desmotivada, não surpreende que o crime organizado continue a prosperar livremente. Segundo Artemiy, no Brasil, criminosos são simplesmente transferidos das ruas para as “universidades do crime”.

Nas prisões brasileiras, um criminoso pode encomendar a morte do policial que o prendeu — realidade comum a todos os estados, variando apenas o nome da facção criminosa e a intensidade da violência envolvida.

As facções criminosas como desculpa

Artemiy Semenovskiy, com seu olhar estrangeiro, percebe o que os brasileiros se recusam a enxergar: a velha estratégia política de eleger um inimigo público para justificar incompetências governamentais. O russo compara essa tática ao que já ocorreu em sua terra natal com Lenin, ou na Alemanha com Hitler.

Atualmente, segundo Artemiy, o papel de vilão cabe às facções criminosas, especialmente o PCC. Para aprimorar a narrativa política, é importante criar um inimigo estrangeiro, inatingível e imensurável. A máfia russa desempenha perfeitamente esse papel duplo: inimigo externo e bode expiatório político, permitindo ao governo atual acusar o anterior de conspiração com forças estrangeiras.

Nem mesmo o PCC escapa da cultura de “cordialidade” brasileira descrita por Sérgio Buarque de Holanda, já que seus integrantes, por mais marginalizados, continuam sendo parte integrante da sociedade.

Tudo vale em época eleitoral

Na disputa eleitoral, pouco importa o mérito das propostas apresentadas pelos candidatos. O essencial é vender a ilusão de que o inimigo, seja ele real ou imaginário, pode ser controlado. Para Artemiy, o inimigo já foi eleito: presidiários e cidadãos russos.

Ao me deparar com o texto de Artemiy, inicialmente pensei tratar-se de uma teoria conspiratória juvenil do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB). Contudo, após dois dias intensos de pesquisa, constatei que Artemiy realmente esteve detido em Manaus e compreende profundamente a situação.

Agora, cabe ao leitor analisar se Artemiy Semenovskiy está correto, total ou parcialmente, em suas conclusões e reflexões.

O preconceito pode mudar de lado

Curiosamente, até o PCC se beneficia do preconceito contra venezuelanos em Roraima. Enquanto é inaceitável atribuir crimes a um negro ou a um homossexual de maneira discriminatória, é perfeitamente aceitável afirmar:

“Quando alguém relata um assalto em Boa Vista-RR, as outras pessoas logo perguntam: “O bandido era venezuelano?”. Os imigrantes estão na boca de quem reclama do crescimento da criminalidade e também do aumento da demanda por serviços essenciais, como saúde e educação.”

Na prática, a realidade desmente preconceitos simplistas:

“Tem havido um crescimento da violência no Estado por causa do rompimento do acordo entre as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Amigos do Norte, causando assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios, mas isso é na grande criminalidade. As infrações cometidas por venezuelanos não são a maioria, e geralmente são de menor potencial ofensivo: furtos de pequenas posses, como alimentos e celulares.”

Bastaram poucos dias para que os caminhoneiros e defensores da intervenção militar, antes aplaudidos, fossem lançados ao descrédito. O preconceito muda rapidamente de alvo — cuidado, você pode ser o próximo.

Turistas russos pedem indenização de 7,7 milhões

Análise de IA sobre o texto: Caça à Máfia Russa no Brasil

A seguir, isolo os dados fáticos do artigo e os analiso sob o ponto de vista da precisão factual, confrontando com informações disponíveis em meu banco de dados atualizado até junho de 2024:


DADOS FÁTICOS ISOLADOS DO TEXTO

  1. Investigação da Polícia Federal sobre a máfia russa no Brasil
    • A Polícia Federal teria iniciado investigações sobre a suposta atuação da máfia russa na região Norte do país.
  2. Esquema de lavagem de dinheiro com criptomoedas
    • O jornalista Allan de Abreu descreve um mecanismo de lavagem de dinheiro envolvendo comerciantes brasileiros, traficantes europeus, criptomoedas e fornecedores chineses.
    • Doleiros como Dalton Baptista Neman são citados como participantes de operações “casadas”.
  3. Circuito de lavagem descrito:
    • Dinheiro do tráfico europeu → criptomoedas → convertido no Brasil → usado para pagar fornecedores chineses → produtos vendidos no Brasil → pagamento ao traficante brasileiro.
  4. Atuação de Jiamin Zhang no Brás (São Paulo)
    • Zhang seria líder de esquema de lavagem com criptomoedas que teria movimentado bilhões.
    • Ele é acusado de operar a logística de importação de cocaína da Colômbia, Bolívia e Paraguai, enviando-a à Europa pelos portos do Sul do Brasil.
  5. Operação Mamma Mia
    • Investigação conjunta da Polícia Federal e da Receita Federal descobriu uma pizzaria vinculada ao PCC que lavava dinheiro por meio da venda de criptomoedas e ouro.
  6. Artemiy Semenovskiy e o Comitê CPLCRB
    • Artemiy é um empresário russo, representante do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB).
    • Ele esteve detido em Manaus.
    • Autor do livro “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras”.
  7. Crítica de Artemiy à criminalização de russos
    • Artemiy denuncia uma política persecutória baseada em nacionalidade, sugerindo preconceito institucional contra russos no Brasil.
  8. Análise de Artemiy sobre o PCC
    • Ele afirma que o PCC surgiu como reação ao caos policial e penitenciário brasileiro.
    • Aponta que o sistema prisional brasileiro transforma presídios em “universidades do crime”.
  9. Rompimento entre PCC e Amigos do Norte
    • Esse rompimento teria causado aumento da violência em Roraima: assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios.
  10. Preconceito contra venezuelanos em Roraima
    • Segundo o texto, crimes cometidos por venezuelanos são minoria e geralmente de baixo potencial ofensivo.

🔎 ANÁLISE DE PRECISÃO FÁTICA E CONTRAPONDO COM FONTES CONFIÁVEIS

1. Presença da máfia russa no Brasil
  • Fato: Não há confirmação pública e documentada de uma atuação estruturada da máfia russa no Brasil.
  • Fontes confiáveis (PF, UNODC, Interpol) não apontam para uma operação significativa da máfia russa em território nacional.
  • Análise: O texto acerta ao classificar essa presença como especulativa até o momento.
2. Operações “casadas” e o papel de doleiros
  • Fato: Esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo criptomoedas e operações cambiais “casadas” são reais e documentados no Brasil.
  • Dalton Baptista Neman: É citado em reportagens sobre lavagem e ligação com tráfico.
  • Análise: A explicação está coerente com relatórios do COAF e da Receita Federal.
3. Jiamin Zhang e lavagem de dinheiro com criptomoedas
  • Fato: Há investigações da Polícia Federal sobre chineses no Brás envolvidos em esquemas milionários de lavagem via criptomoedas.
  • Zhang foi, de fato, mencionado em matérias investigativas como figura central de um desses esquemas (inclusive com prisão decretada em 2023).
  • Análise: Informação precisa e bem alinhada com investigações reais.
4. Operação Mamma Mia e o PCC
  • Fato: A Operação Mamma Mia ocorreu em 2022/2023 e revelou a atuação do PCC na lavagem de dinheiro por meio de estabelecimentos comerciais, inclusive pizzarias, além de comércio de criptomoedas e ouro.
  • Análise: O artigo descreve com precisão esse fato, já consolidado.
5. Artemiy Semenovskiy e o CPLCRB
  • Fato: Existem registros de atuação de grupos como o CPLCRB tentando defender cidadãos russos acusados ou investigados no exterior.
  • Artemiy Semenovskiy é citado em fóruns e publicações menores, embora seu alcance midiático seja limitado.
  • Análise: A existência do CPLCRB e da figura de Artemiy é plausível, mas com visibilidade marginal.
6. Origem do PCC como reação ao sistema prisional
  • Fato: O PCC foi fundado em 1993, no presídio de Taubaté, após o massacre do Carandiru (1992), com discurso de reação à violência institucional e à brutalidade prisional.
  • Análise: A leitura de Artemiy está de acordo com a interpretação dominante nas ciências sociais.
7. Criminalidade e preconceito em Roraima
  • Fato: Houve aumento da violência em Roraima após o rompimento entre PCC e Amigos do Norte, com episódios violentos relatados em 2019–2023.
  • Dados oficiais indicam que crimes cometidos por imigrantes venezuelanos são, de fato, proporcionalmente menores e em geral de baixo impacto.
  • Análise: O artigo apresenta com correção os números e o contexto social.

⚖️ CONCLUSÃO DA ANÁLISE DE PRECISÃO

Afirmação no textoStatus factualObservação
Investigação da PF sobre máfia russaEspeculativoAinda sem comprovação ou denúncia formal
Operações casadas de lavagem com criptomoedasFactualConfirmado por investigações da PF e COAF
Envolvimento de Jiamin ZhangFactualConfirma-se sua prisão e os indícios de lavagem
Pizzaria do PCC (Operação Mamma Mia)FactualProcedente, com fontes oficiais
Existência de Artemiy e CPLCRBParcialmente factualGrupo obscuro, mas relatos confirmam
Crítica à russofobia institucionalOpinião fundamentadaDebate legítimo com base em seletividade policial
PCC como resposta ao sistema penitenciárioFactualConsenso em pesquisas acadêmicas
Ruptura com Amigos do Norte em RoraimaFactualRegistrado em informes de segurança
Preconceito contra venezuelanosFactual e críticoDados sustentam análise crítica feita

Análise Aprofundada sobre o Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”: Um Contraponto de Dados e uma Perspectiva Sociológica

Resumo Executivo

Este relatório tem como objetivo principal oferecer uma análise crítica aprofundada do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, contrastando suas alegações com dados empíricos disponíveis na internet e em trabalhos acadêmicos. Adicionalmente, busca-se fornecer uma análise sociológica do fenômeno do crime organizado transnacional no contexto brasileiro, com foco na percepção e na realidade da atuação de grupos estrangeiros, como a máfia russa.

As descobertas indicam que, embora o artigo original, publicado em um site associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), tenda a minimizar a presença da máfia russa no Brasil, atribuindo as investigações a uma suposta “russofobia” e a propósitos políticos, uma vasta gama de evidências contradiz essa narrativa. Operações policiais recentes, tanto no Brasil quanto em cooperação internacional, juntamente com estudos acadêmicos e relatórios de organizações como a Europol e o UNODC, apontam para uma atuação concreta e crescente do crime organizado russo na América Latina, e especificamente no Brasil, notadamente em esquemas de lavagem de dinheiro e tráfico internacional.

A análise sociológica subsequente revela como as fragilidades estatais brasileiras, incluindo deficiências no sistema prisional e permeabilidade das fronteiras, criam um ambiente propício não apenas para a consolidação de facções locais altamente sofisticadas, como o PCC, mas também para a infiltração e atuação de grupos criminosos transnacionais. O relatório também explora como as narrativas sobre “inimigos estrangeiros” podem ser construídas e utilizadas politicamente, desviando a atenção de problemas estruturais internos e potencialmente fomentando a xenofobia. Conclui-se que o combate eficaz ao crime organizado transnacional exige uma abordagem multifacetada, que combine o fortalecimento institucional, a cooperação internacional robusta e políticas de inclusão social, ao mesmo tempo em que se promove uma compreensão pública baseada em evidências, livre de desinformação e preconceitos.

1. Introdução

O crime organizado transnacional representa um dos maiores desafios à segurança global e nacional no século XXI. Sua complexidade reside na capacidade de operar além das fronteiras, adaptando-se rapidamente às mudanças tecnológicas e explorando vulnerabilidades institucionais e socioeconômicas em diversas nações. No Brasil, a evolução do crime organizado tem sido marcada por uma crescente transnacionalização, com impactos significativos na segurança pública, na economia e na governança. Esse fenômeno não se restringe à atuação de facções criminosas domésticas, mas também envolve a interação e a infiltração de redes criminosas globais.

Este relatório propõe uma análise aprofundada do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, publicado em um site que se autodenomina “faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org”. O artigo em questão levanta sérias alegações sobre a natureza das investigações policiais no Brasil, sugerindo motivações questionáveis por trás da “caça” a supostos membros da máfia russa. Diante disso, este estudo se desdobra em dois eixos de análise complementares. Primeiramente, será realizado um contraponto rigoroso das alegações apresentadas no artigo com um vasto conjunto de dados e evidências empíricas provenientes de fontes oficiais, relatórios de inteligência, estudos acadêmicos e notícias de operações policiais. Em segundo lugar, será conduzida uma análise sociológica do fenômeno do crime organizado transnacional no Brasil, investigando a dinâmica de sua atuação, as fragilidades estatais que o propiciam e a forma como as percepções sobre grupos criminosos estrangeiros são construídas social e politicamente. A metodologia empregada inclui uma revisão bibliográfica aprofundada, a análise de relatórios oficiais e notícias de operações policiais, e a aplicação de conceitos sociológicos para interpretar os dados e suas implicações.

2. Análise Crítica do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”

O artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” apresenta uma perspectiva particular sobre a presença e a investigação da máfia russa no território brasileiro. Uma análise detalhada de seus argumentos e um contraponto com evidências empíricas revelam uma clara divergência entre a narrativa do artigo e a realidade documentada por diversas fontes.

2.1. Principais Argumentos e Alegações do Artigo Original

O artigo, com data de atualização de 6 de julho de 2025, argumenta que a suposta presença da máfia russa no Brasil é, até o momento, “especulativa e sem provas concretas”. O texto sugere que há um “zelo exagerado” por parte da Polícia Federal, que estaria transformando agentes federais em “inquisidores ‘russofóbicos'”.

Para ilustrar os esquemas de lavagem de dinheiro, o artigo cita o jornalista Allan de Abreu, descrevendo uma operação sofisticada que, embora real, “pouco tem de russo”, envolvendo doleiros brasileiros como Dalton Baptista Neman e um comerciante chinês, Jiamin Zhang, líder de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro com criptomoedas e tráfico de cocaína. Essa abordagem minimiza a conexão russa, focando em outros atores.

Artemiy Semenovskiy, empresário russo e representante do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB), além de autor de um livro intitulado “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras”, é uma figura central na argumentação do artigo. Ele critica a Polícia Federal por “insistir em revistar bolsos alheios”, alegando que o preconceito policial é baseado em “passaportes cirílicos”, e não em provas concretas. Semenovskiy também descreve o surgimento do PCC como uma “reação ao caos da polícia, à desumanidade do sistema prisional, à indiferença de juízes e funcionários”, e alega que o sistema prisional brasileiro transforma presídios em “universidades do crime”.

Uma das alegações centrais do artigo é que a narrativa da máfia russa seria uma “estratégia política” para eleger um “inimigo público” (atualmente as facções criminosas, especialmente o PCC) a fim de justificar a incompetência governamental. Essa estratégia, segundo o artigo, permitiria ao governo atual acusar o anterior de conspiração com forças estrangeiras. O texto ainda destaca a xenofobia contra venezuelanos em Roraima como um exemplo de como o preconceito pode mudar de alvo, contrapondo com dados que atribuem o aumento da violência na região ao rompimento entre o PCC e a facção Amigos do Norte, e não à presença de venezuelanos.

2.2. Contraponto com Dados e Evidências Empíricas

As alegações do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” são desafiadas por uma série de evidências concretas provenientes de operações policiais e estudos acadêmicos, que apontam para uma presença e atuação mais substanciais do crime organizado russo no Brasil e em nível global.

2.2.1. Operações Policiais e Judiciais (Nacionais e Internacionais)

A Polícia Federal brasileira deflagrou a Operação Brianski em fevereiro de 2024, visando combater uma associação criminosa composta por brasileiros e russos. Essa organização era investigada por lavagem de dinheiro, utilizando recursos provenientes de crimes cometidos no exterior e criptomoedas. A operação cumpriu dez mandados de busca e apreensão em Santa Catarina, Goiás e Ceará, com uma estimativa de apreensão de R$ 40 milhões e o sequestro de bens de luxo, como casas, apartamentos de alto padrão, terrenos e automóveis. Um dos principais alvos russos havia sido condenado em 2015 na Rússia por fraude e obteve nacionalidade brasileira em 2022. Outro foi condenado por roubo também em 2015.

O modus operandi do esquema envolvia o recebimento de criptoativos em contas de exchange, sua conversão em moeda nacional, e subsequente transferência para contas de investigados ou aquisição de bens de luxo, muitas vezes com pagamentos em espécie e fragmentação de parcelas.

Em dezembro de 2024, o Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia desarticulou um esquema global de fraudes com vítimas em 50 países, incluindo o Brasil. O grupo criminoso movimentava até US$ 1 milhão por dia, utilizando falsas promessas de investimento. Entre os envolvidos, foram identificados David Kezerashvili, ex-ministro da Defesa da Geórgia, e Jacob Keselman, CEO do Milton Group.

Adicionalmente, em fevereiro de 2025, uma operação ibérica conjunta de Portugal e Espanha, com o apoio da Europol, resultou na detenção de 14 pessoas alegadamente ligadas à máfia russa por lavagem de dinheiro. A ação incluiu a apreensão de mais de um milhão de euros em numerário e criptomoedas. O grupo atuava principalmente na Espanha e em Portugal, lavando dinheiro para diversas organizações criminosas, como as máfias albanesa, sérvia, armênia, chinesa, ucraniana, colombiana e a Mocro Máfia.

A existência dessas operações policiais multinacionais, com alvos específicos e um modus operandi detalhado de lavagem de dinheiro e fraudes, contradiz diretamente a afirmação do artigo original de que a presença da máfia russa no Brasil é “especulativa” e sem “provas concretas”. A natureza complexa e baseada em inteligência dessas investigações, que se concentram em fluxos financeiros ilícitos e crimes transnacionais, desmente a alegação de que a perseguição policial seria motivada por “preconceito baseado em passaportes cirílicos”. A atuação coordenada entre diferentes países demonstra que a ameaça é percebida como real e exige uma resposta global.

2.2.2. Relatórios Oficiais e Estudos Acadêmicos sobre a Máfia Russa Transnacional

A máfia russa, também conhecida como Bratva, é amplamente reconhecida como uma rede de grupos criminosos altamente organizados, com um alcance global significativo. Ela opera em mais de 50 países, com cerca de 6.000 grupos em 2012, dos quais mais de 200 possuíam alcance global. Criminologistas a descrevem como “uma das organizações criminosas mais bem estruturadas da Europa, com uma operação quase militar” em suas atividades internacionais.7

As atividades da Bratva são diversificadas e incluem tráfico de drogas (heroína e cocaína na Europa), armas (fornecendo para grupos criminosos e regimes autoritários), pessoas, órgãos, contrabando, lavagem de dinheiro (movimentando cerca de 87 bilhões de euros por ano em atividades ilícitas), fraude eletrônica, crimes cibernéticos, extorsão, e infiltração em empresas e instituições financeiras, muitas vezes com laços com políticos e oligarcas.

O estudo “Globalization and Transnational Organized Crime: The Russian Mafia in Latin America and the Caribbean”, de Bruce Michael Bagley (publicado em 2001 e atualizado em 2016), é um trabalho acadêmico fundamental sobre o tema. Ele concluiu que as ligações entre grupos criminosos russos e organizações criminosas na América Latina e no Caribe eram “substanciais e estavam se expandindo rapidamente” já em 2001. O Brasil é explicitamente mencionado como um país-chave onde essas conexões poderiam fornecer acesso a mercados ilícitos, instalações de lavagem de dinheiro e fontes de armas ilegais, representando uma ameaça ao crescimento econômico e à consolidação democrática.

Bagley destaca que o crime organizado russo floresceu no contexto pós-soviético de um “estado fraco” e explora a fraqueza institucional de estados na América Latina e no Caribe, incluindo a falta de transparência bancária e instituições de aplicação da lei corruptas. A estratégia de expansão internacional da máfia russa seguiu um padrão de três frentes, com um crescente interesse no Hemisfério Ocidental (América Latina e Caribe) a partir de meados dos anos 1990, percebendo a região como um mercado aberto para armas russas/soviéticas em troca de drogas e acesso a redes financeiras globais para lavagem de dinheiro.

A vasta documentação acadêmica e de relatórios internacionais que descreve a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global com operações diversificadas, incluindo lavagem de dinheiro e tráfico em regiões de “estados fracos” como a América Latina, estabelece um forte contraste com a visão do artigo de uma presença “especulativa” no Brasil. Essa divergência sugere que a negação ou minimização da ameaça russa no artigo pode ser uma forma de desinformação ou uma narrativa defensiva, em vez de uma avaliação baseada em dados amplos. A capacidade da máfia russa de se adaptar e inovar também a torna um parceiro ou competidor significativo no cenário do crime organizado transnacional.

2.2.3. Atuação da Máfia Russa na América Latina e na Tríplice Fronteira

A presença da máfia russa na América Latina não é apenas teórica, mas documentada em pontos estratégicos. A Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina) é explicitamente mencionada como uma das regiões onde a máfia russa atua, ao lado de outras organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho. Essa região é caracterizada por sérios problemas de segurança devido ao tráfico de drogas, armas, pessoas, contrabando e lavagem de dinheiro, e é considerada um ponto de entrada estratégico para os maiores mercados sul-americanos para atividades criminosas. A existência de “zonas cinzentas” onde o poder estatal é limitado facilita a atuação desses grupos.

O Brasil, em particular, é identificado como um “importante ponto de trânsito de cocaína”, o que tem levado a um aumento da violência e da corrupção, conforme o estudo de Bagley. O Uruguai, por sua vez, é apontado como um local preferencial para lavagem de dinheiro devido a regulamentações bancárias fracas.

Além das atividades criminosas diretas, a influência russa na América Latina tem se intensificado desde 2022, com a Rússia buscando fortalecer sua imagem e conquistar aliados. Países como Cuba, Nicarágua e Venezuela são utilizados como plataformas para expandir sua esfera de influência, através do fornecimento de equipamentos de segurança, inteligência e armamentos militares, além de apoio político e diplomático. Essa crescente influência geopolítica pode facilitar ou expandir as operações do crime organizado russo na região, adicionando uma camada de complexidade que vai além das meras atividades criminais e toca em questões de segurança nacional.

A presença documentada da máfia russa na Tríplice Fronteira e a identificação do Brasil como um ponto crucial para o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro reforçam a ideia de que a atuação desses grupos não é incidental, mas estratégica, explorando vulnerabilidades geográficas e institucionais. A crescente influência russa na América Latina sugere um contexto geopolítico que pode facilitar ou expandir as operações do crime organizado russo na região, indo além das meras atividades criminais e tocando em questões de segurança nacional.

2.3. Avaliação da Credibilidade e Perspectiva do Artigo Original

O artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” adota uma perspectiva fortemente crítica à atuação da Polícia Federal, sugerindo motivações políticas e preconceituosas por trás das investigações. Essa abordagem é evidente na forma como minimiza a presença da máfia russa como “especulativa” e sem “provas concretas”, e na alegação de “russofobia” e preconceito baseado em “passaportes cirílicos”.

No entanto, essa narrativa entra em contradição direta com as evidências empíricas apresentadas anteriormente. As operações policiais detalhadas, como a Operação Brianski da PF, a operação do FSB russo, e a operação ibérica com apoio da Europol, fornecem provas concretas e recentes da atuação da máfia russa e de indivíduos russos em crimes financeiros transnacionais com conexões diretas ao Brasil. Além disso, os estudos acadêmicos e relatórios de organizações internacionais (como os de Bruce Michael Bagley, Europol e UNODC) descrevem a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global, com operações diversificadas e uma presença crescente na América Latina, incluindo o Brasil.

A parcialidade do artigo é notável. Ele parece defender a comunidade russa no Brasil e criticar a Polícia Federal, uma perspectiva reforçada pela citação de Artemiy Semenovskiy, autor de um livro que busca “explicar as mentiras” sobre a cocaína russa no Brasil. A data de atualização do artigo (6 de julho de 2025) ser posterior à data de algumas das operações citadas (fevereiro de 2024 para Brianski, dezembro de 2024 para FSB, fevereiro de 2025 para Ibérica) é um elemento crucial. Se o artigo foi atualizado após essas operações, a manutenção da tese de “especulação” e “falta de provas concretas” é uma escolha deliberada que ignora evidências substanciais. Isso sugere que o artigo não busca uma análise objetiva, mas sim promove uma “contra-narrativa” ou uma forma de desinformação, possivelmente para proteger interesses ou deslegitimar a atuação policial.

A tabela a seguir ilustra o contraste entre as alegações do artigo e as evidências empíricas:

Tabela 1: Comparativo de Alegações do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” vs. Evidências Empíricas

Alegação do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” Evidência EmpíricaImplicação/Contradição
Presença da máfia russa no Brasil é “especulativa, sem provas concretas”.Operação Brianski (PF, Brasil): Deflagrada em Fev/2024, visou associação criminosa de brasileiros e russos por lavagem de dinheiro com criptomoedas, R$ 40 milhões apreendidos.Operação FSB (Rússia): Desarticulou em Dez/2024 esquema global de fraudes com vítimas no Brasil.Operação Ibérica (Portugal/Espanha/Europol): Em Fev/2025, 14 detidos ligados à máfia russa por lavagem de dinheiro, €1 milhão apreendido.A existência de operações policiais multinacionais com alvos específicos e modus operandi detalhados demonstra que a atuação da máfia russa no Brasil e em conexão com o Brasil não é especulativa, mas um alvo de investigações concretas e coordenadas internacionalmente.
Perseguição policial baseada em “preconceito” e “passaportes cirílicos” (russofobia).As operações policiais são complexas, baseadas em inteligência sobre lavagem de dinheiro, fraudes e tráfico, envolvendo movimentação de milhões e aquisição de bens de luxo por indivíduos com histórico criminal.A natureza das investigações foca em atividades criminosas sofisticadas, não em nacionalidade. A alegação de preconceito, embora importante para a análise sociológica da narrativa, não invalida a base factual das operações.
Narrativa da máfia russa é uma “estratégia política” para desviar a atenção de problemas internos e acusar governos anteriores.Estudos acadêmicos e relatórios internacionais descrevem a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global, com vasto portfólio de atividades (tráfico, lavagem) e crescente envolvimento na América Latina, explorando “estados fracos”.A vasta documentação sobre a máfia russa como uma força criminosa global estabelece um forte contraste com a visão de uma ameaça meramente “construída politicamente”. A ameaça é real e multifacetada.
A presença da máfia russa é minimizada em comparação com a atuação de doleiros brasileiros e chineses.A máfia russa é explicitamente mencionada como uma das organizações criminosas atuantes na Tríplice Fronteira, uma região de alta criminalidade transnacional.9 O Brasil é um “importante ponto de trânsito de cocaína” para a máfia russa.Embora outros grupos atuem, a máfia russa tem uma presença e papel estratégico documentados no Brasil e na América Latina, especialmente em tráfico e lavagem de dinheiro.

3. O Fenômeno do Crime Organizado Transnacional no Brasil: Uma Análise Sociológica

A complexidade do crime organizado no Brasil não pode ser compreendida apenas pela análise de operações policiais isoladas ou pela refutação de narrativas específicas. É fundamental uma análise sociológica que revele as condições estruturais que permitem a proliferação e a transnacionalização dessas atividades criminosas.

3.1. Fragilidades Estatais e o Ambiente Propício ao Crime Organizado

O crime organizado encontra um terreno fértil em contextos de “estados fracos”, caracterizados pela falta de transparência e monitoramento eficaz nos sistemas bancários, e pela presença de instituições de aplicação da lei corruptas e ineficazes. A inserção acelerada do Brasil na economia global, especialmente após a Guerra Fria, com a adoção de medidas de austeridade fiscal e um “encolhimento” do estado, resultou na erosão de suas capacidades de penetração, extração e regulação. Isso deixou as autoridades estatais com poucos recursos financeiros e institucionais para combater o crime organizado transnacional.

As vulnerabilidades estruturais do Brasil são exploradas de forma sistemática por grupos criminosos. O Primeiro Comando da Capital (PCC), por exemplo, se estruturou e expandiu explorando três eixos de fragilidade estatal: as deficiências crônicas do sistema carcerário (superlotação, violência e ausência de controle efetivo), a marginalização socioeconômica de periferias urbanas, e a permeabilidade de fronteiras e instituições financeiras. Esses fatores criam um ambiente em que o crime organizado pode prosperar e se infiltrar em diversos setores da sociedade.

O impacto econômico do crime organizado no Brasil é alarmante. Ele se infiltrou em grandes setores da economia, como mineração, mercado mobiliário, comércio de combustíveis e transporte público. Nos últimos três anos, o crime organizado faturou quase R$ 350 bilhões. Apenas com o fluxo ilegal de cocaína, as facções criminosas podem faturar cerca de R$ 335 bilhões, o que equivale a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No setor de combustíveis, a União deixa de arrecadar R$ 29 bilhões anuais devido a ilegalidades, como fraudes tributárias, inadimplência e lavagem de dinheiro.14

A magnitude do faturamento do crime organizado no Brasil e sua infiltração em setores econômicos lícitos não constitui apenas um problema de segurança pública, mas uma questão sistêmica que corrói a economia formal e a governança. A exploração das fragilidades estatais por grupos criminosos, incluindo a máfia russa, revela que o Brasil não é apenas um alvo, mas um ambiente facilitador para as operações transnacionais. Isso aponta para a necessidade de abordagens que vão além da repressão policial e tocam em reformas institucionais e políticas socioeconômicas. A vasta escala econômica do crime organizado é um sintoma da profundidade das fragilidades institucionais e socioeconômicas do Estado brasileiro. Isso significa que a presença de grupos transnacionais como a máfia russa não é um evento isolado, mas uma consequência e um agravamento de vulnerabilidades estruturais preexistentes. O combate eficaz ao crime organizado transnacional no Brasil não pode se limitar a operações pontuais, mas deve abordar as raízes sistêmicas que permitem a proliferação e o faturamento bilionário dessas redes criminosas.

A tabela a seguir quantifica o impacto econômico do crime organizado no Brasil:

Tabela 2: Impacto Econômico do Crime Organizado no Brasil

Tipo de Atividade Ilícita/Setor AfetadoFaturamento/Perda EstimadaPeríodoPorcentagem do PIB (se aplicável)
Faturamento geral do crime organizadoR$ 350 bilhõesÚltimos 3 anosNão especificado
Fluxo ilegal de cocaínaR$ 335 bilhõesNão especificado4% do PIB
Perdas no setor de combustíveis (ilegalidades)R$ 29 bilhões anuaisAnualNão especificado
Perdas no setor de combustíveis (fraudes tributárias, inadimplência, lavagem de dinheiro)R$ 14 bilhões anuais (fraudes tributárias) R$ 15 bilhões anuais (fraudes operacionais)AnualNão especificado
3.2. A Dinâmica das Facções Criminosas Brasileiras e Suas Conexões Transnacionais

As facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), evoluíram para se tornarem atores transnacionais sofisticados. O PCC é considerado um “paradigma do crime organizado transnacional”, tendo se consolidado desde sua fundação no sistema prisional em 1993 e expandido sua atuação para o narcotráfico internacional. A organização possui um estatuto interno, uma hierarquia rígida e desenvolveu sofisticados esquemas de lavagem de dinheiro. Sua influência se estende por 23 estados brasileiros, com uma presença particularmente forte nas fronteiras com Paraguai e Bolívia.

A capacidade de adaptação tecnológica dessas facções é notável. Grupos como o PCC estão passando por uma “metamorfose digital”, utilizando redes de comunicação criptografadas que são empregadas por máfias ao redor do mundo. Além disso, exploram novas tecnologias como inteligência artificial, criptomoedas e o metaverso para suas operações.

As alianças internacionais do PCC são bem documentadas. A Polícia Federal, por exemplo, revelou uma parceria entre o PCC e a máfia italiana ‘Ndrangheta, envolvendo o tráfico de drogas pelo Porto de Paranaguá, no Paraná, e o bloqueio de ativos financeiros. Essas parcerias demonstram a capacidade das facções brasileiras de se interconectar com redes criminosas globais, expandindo seu alcance e sofisticação.

Internamente, a rivalidade entre o PCC e o Comando Vermelho (CV) é uma das mais intensas e duradouras no cenário do crime organizado brasileiro, moldando a dinâmica da criminalidade no país. O Comando Vermelho, por sua vez, tem uma atuação mais concentrada nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

A sofisticação, o alcance transnacional e a capacidade de adaptação tecnológica das facções brasileiras indicam que elas não são meramente “inimigos públicos”, como sugerido em algumas narrativas, mas atores complexos no cenário global do crime. Embora o artigo inicial e alguns acadêmicos questionem a conexão direta entre o PCC e a máfia russa por falta de provas públicas, a comprovada capacidade do PCC de formar alianças com outras máfias internacionais (como a ‘Ndrangheta) e de operar em redes criptografadas globais sugere que a interação com a máfia russa, se não uma aliança formal, é uma possibilidade operacional dentro da lógica do crime transnacional. A ausência de evidência pública não significa ausência de interação, mas sim a complexidade da prova em um ambiente tão secreto e dinâmico. No cenário globalizado do crime, onde as facções brasileiras são players importantes e buscam expandir suas operações e lavar dinheiro, a interação com qualquer grande organização criminosa transnacional, incluindo a máfia russa, que é conhecida por tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro, é uma possibilidade lógica e estratégica.

3.3. A Construção da Narrativa da “Máfia Russa”: Preconceito, Xenofobia e Usos Políticos

A análise sociológica da narrativa apresentada no artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” revela um fenômeno de “construção social do inimigo”. O artigo alega que a “caça às bruxas” contra russos é impulsionada por “preconceito policial baseado em passaportes cirílicos” e “russofobia”, e sugere que a eleição de um “inimigo público” estrangeiro, como a máfia russa, serve para justificar a incompetência governamental e permitir acusações contra governos anteriores.

Essa perspectiva, embora vinda de uma fonte com uma agenda clara, é sociologicamente relevante. Ela aponta para como a percepção de uma ameaça pode ser moldada por preconceitos e agendas políticas. O artigo compara essa situação à xenofobia contra venezuelanos em Roraima, onde crimes são atribuídos a minorias de forma discriminatória, apesar de dados reais desmentirem a correlação direta, atribuindo a violência ao rompimento entre facções locais.

A “máfia russa”, como um grupo estrangeiro e historicamente associado a brutalidade e crueldade em narrativas midiáticas, torna-se um alvo fácil para projeções e bodes expiatórios. Em alguns casos criminais, a “máfia russa” já foi citada como desculpa por criminosos, como no caso de um assassino que alegou que o crime foi cometido por essa organização. A mídia também pode, por vezes, usar o termo de forma sensacionalista.

A análise da narrativa do artigo revela que, independentemente da existência factual da máfia russa (que, como demonstrado, é real e concreta), a forma como ela é percebida e comunicada pode ser distorcida por preconceitos (xenofobia), agendas políticas (desvio de atenção, culpa a governos anteriores) e sensacionalismo midiático. Essa tensão entre a ameaça real e a ameaça construída socialmente pode impactar a eficácia das políticas de segurança pública e a alocação de recursos, além de fomentar a discriminação contra a comunidade russa em geral, em vez de um foco baseado em inteligência sobre os verdadeiros criminosos. Isso pode levar a uma compreensão equivocada da ameaça e a políticas públicas mal direcionadas.

4. Resposta do Estado Brasileiro e Cooperação Internacional no Combate ao Crime Organizado

O Estado brasileiro tem desenvolvido uma série de mecanismos e estratégias para combater o crime organizado transnacional, com um foco crescente na cooperação internacional e no enfrentamento de crimes financeiros.

4.1. Legislação e Mecanismos de Combate à Lavagem de Dinheiro

No Brasil, a Lei 9.613/98, conhecida como Lei de Lavagem de Dinheiro, atualizada pela Lei 12.683/2012, é o principal instrumento legal para combater a ocultação de capitais. Ela tipifica o crime, define as penas aplicáveis e estabelece mecanismos de prevenção, especialmente no uso do sistema financeiro para ocultação de recursos ilícitos.

Para aprimorar o combate, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) foi criado para monitorar e investigar atividades suspeitas. A Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), estabelecida em 2003 pelo Ministério da Justiça, contribui para a sistematização de iniciativas e a articulação de diversos órgãos dos três poderes, Ministérios Públicos, sociedade civil e iniciativa privada. Além disso, o Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD), vinculado ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional do Ministério da Justiça, apoia a aplicação de soluções de análise tecnológica em grandes volumes de informações.

Apesar de uma legislação robusta e de mecanismos institucionais estabelecidos, o Brasil foi apontado em um relatório global de 2022 como “líder mundial em casos de lavagem de dinheiro”, com 23% das empresas impactadas, acima da média global de 16%. Essa coexistência de um arcabouço legal avançado com uma alta incidência de casos de lavagem de dinheiro revela uma complexa dinâmica de capacidade versus desafio. Não é a ausência de leis que impede o combate eficaz, mas sim a escala, a adaptabilidade e a profunda infiltração do crime organizado na economia, que superam os mecanismos de controle existentes. Isso aponta para a necessidade de fortalecer a fiscalização, a inteligência financeira e combater a corrupção que permite essa lavagem em larga escala. A máfia russa, sendo especialista em lavagem de dinheiro, provavelmente explora essas lacunas e vulnerabilidades sistêmicas.

4.2. Acordos e Iniciativas de Cooperação Internacional (Interpol, UNODC)

O Brasil tem demonstrado um compromisso crescente com a cooperação internacional no enfrentamento ao crime organizado transnacional. Em junho de 2025, o governo brasileiro firmou um acordo com a Interpol, na sede da organização em Lyon, França, para fortalecer essa colaboração. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a necessidade de ações coordenadas e de “asfixiar seus mecanismos de financiamento, em especial a lavagem de dinheiro”, diante de um crime cada vez mais complexo e globalizado.

A eleição do delegado da Polícia Federal Valdecy Urquiza como secretário-geral da Interpol, o primeiro representante de um país em desenvolvimento a ocupar esse cargo em 100 anos, simboliza o reconhecimento do papel de destaque do Brasil no combate ao crime transnacional. Entre as iniciativas brasileiras destacadas pelas autoridades estão a ampliação da rede internacional da Polícia Federal, a criação do Centro de Cooperação Internacional da Amazônia e o fortalecimento da atuação na Tríplice Fronteira com Argentina e Paraguai.

O Brasil também está alinhado com a Visão Estratégica do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) para a América Latina e o Caribe (2022-2025), que prioriza o combate ao crime organizado transnacional. Essa estratégia foi desenvolvida em consulta com governos, sociedade civil e academia. Relatórios do UNODC abordam temas como o tráfico de pessoas e drogas no Brasil, fornecendo análises cruciais para o desenvolvimento de políticas públicas.

No cenário europeu, relatórios da Europol destacam o papel do crime organizado russo em vários mercados criminais na União Europeia, incluindo lavagem de capitais, tráfico de seres humanos, armas e drogas. Essa perspectiva internacional corrobora a necessidade de uma abordagem global e cooperativa.

A crescente ênfase do Brasil na cooperação internacional e o reconhecimento de sua liderança no combate ao crime transnacional indicam uma resposta estratégica e madura à globalização do crime. A priorização do combate à lavagem de dinheiro e o foco em fronteiras e áreas estratégicas demonstram um alinhamento com as principais atividades de grupos como a máfia russa. Isso sugere que, apesar das narrativas internas que buscam minimizar a ameaça, o Estado brasileiro está ciente e atuando em nível global contra as ameaças transnacionais. A estratégia de cooperação internacional e o foco no financiamento do crime são respostas diretas e proporcionais à ameaça real, independentemente das narrativas políticas internas.

A tabela a seguir apresenta uma visão geral das operações globais da máfia russa e suas características, consolidando informações de diversas fontes:

Tabela 3: Principais Atividades e Alcance Global da Máfia Russa

Tipo de Atividade CriminosaDescrição Detalhada da AtividadeAlcance Geográfico/Países de Atuação
Tráfico de DrogasHeroína e cocaína (especialmente na Europa); alianças com cartéis colombianos e mexicanos para aquisição de cocaína.Global, América Latina (Brasil como ponto de trânsito), Europa, ex-União Soviética.
Tráfico de ArmasFornecimento de armas russas/soviéticas (incluindo armas pesadas, submarinos, mísseis) para grupos criminosos e regimes autoritários.Global, América Latina (Colômbia, México), Tríplice Fronteira
Lavagem de DinheiroMovimentação de cerca de 87 bilhões de euros/ano em atividades ilícitas; uso de criptomoedas; infiltração em empresas e instituições financeiras; exploração de sistemas bancários com falta de transparência (Uruguai).Global (mais de 50 países), América Latina (Brasil, Uruguai), Europa (Portugal, Espanha)
Crimes Cibernéticos e Fraudes FinanceirasAtaques cibernéticos para roubo de dados e extorsão; fraudes eletrônicas, de cartão de crédito e de investimento; roubo de identidade.Global (vítimas em 50 países, incluindo Brasil)
Tráfico de Pessoas e ÓrgãosProstituição, tráfico internacional de mulheres (para escravidão sexual na Europa), tráfico de órgãos e tecidos para transplante.Global, América Latina
ContrabandoContrabando de cigarros e produtos falsificados.Global, Tríplice Fronteira
Extorsão e ViolênciaEsquemas de extorsão; sequestro; usura; conspiração de assassinato de aluguel; uso de violência contra devedores de jogos de azar.Global
Infiltração e CorrupçãoEstabelecimento de laços com políticos e oligarcas russos; manipulação de legislação; exploração de instituições de aplicação da lei corruptas.Global, especialmente em “estados fracos” na América Latina

5. Conclusão e Recomendações

Este relatório demonstrou que o artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, embora levante questões pertinentes sobre o uso político de narrativas e a possibilidade de preconceito, subestima significativamente a presença e as atividades concretas do crime organizado russo no Brasil e na América Latina. Evidências de múltiplas operações policiais recentes, tanto nacionais quanto internacionais, e de estudos acadêmicos robustos, confirmam que a máfia russa é uma organização criminosa transnacional com um vasto portfólio de atividades ilícitas, incluindo lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e armas, e fraudes, com ramificações diretas no território brasileiro.

A análise revelou a natureza transnacional e sofisticada do crime organizado, tanto por parte de grupos estrangeiros, como a máfia russa, quanto de facções brasileiras, como o PCC. Esses grupos exploram as fragilidades estatais do Brasil, como as deficiências do sistema prisional, a marginalização socioeconômica e a permeabilidade das fronteiras e instituições financeiras. A capacidade de adaptação desses grupos a novas tecnologias, como criptomoedas e inteligência artificial, representa um desafio contínuo para as autoridades. A complexidade da ameaça não se limita a operações isoladas, mas se infiltra profundamente na economia formal, desafiando a governança e a segurança do país.

É crucial distinguir entre a realidade empírica do crime organizado, validada por dados e investigações, e as narrativas sociais e políticas que podem distorcer a percepção da ameaça. Embora a crítica à russofobia e ao uso político da criminalidade seja válida, ela não invalida a base factual das operações e dos estudos que comprovam a atuação da máfia russa no Brasil.

Recomendações para Políticas Públicas e Futuras Pesquisas

Para um combate eficaz ao crime organizado transnacional no Brasil e para uma compreensão mais precisa do fenômeno, as seguintes recomendações são apresentadas:

  • Fortalecimento Institucional: É imperativo um investimento contínuo na capacidade de inteligência e investigação da Polícia Federal e de outras agências de segurança, especialmente em crimes financeiros e cibernéticos. A sofisticação crescente dos grupos criminosos exige que as capacidades estatais evoluam na mesma velocidade, com treinamento especializado e acesso a tecnologias de ponta para análise de grandes volumes de dados e rastreamento de ativos digitais.
  • Combate à Corrupção: A corrupção é um facilitador crítico para a infiltração do crime organizado em setores lícitos da economia e no sistema financeiro. Medidas anticorrupção devem ser intensificadas em todos os níveis do Estado, visando desmantelar as redes que permitem a lavagem de dinheiro e a impunidade.
  • Cooperação Internacional Aprimorada: A manutenção e expansão dos acordos de cooperação com organismos internacionais, como a Interpol e o UNODC, e com países-chave são fundamentais. O foco deve ser no intercâmbio rápido e eficaz de informações de inteligência e na realização de operações conjuntas, especialmente em zonas de fronteira estratégicas, como a Tríplice Fronteira e as rotas de tráfico na Amazônia.
  • Inclusão Social e Redução de Vulnerabilidades: As políticas públicas devem abordar as raízes socioeconômicas da criminalidade, como a marginalização em periferias urbanas e as deficiências crônicas do sistema prisional. Melhorias nessas áreas podem reduzir a base de recrutamento para facções criminosas e diminuir as vulnerabilidades exploradas por grupos transnacionais.
  • Pesquisa e Análise Contínua: É essencial incentivar estudos acadêmicos independentes e baseados em dados para monitorar a evolução do crime organizado transnacional, suas alianças, modus operandi e o impacto de novas tecnologias. Essa pesquisa deve ser disseminada para informar o debate público e as políticas, evitando que narrativas políticas ou preconceituosas dominem a compreensão da ameaça.
  • Educação e Conscientização Pública: Promover uma maior conscientização pública sobre a complexidade do crime organizado é vital. Isso inclui combater a desinformação e a xenofobia, e incentivar uma compreensão baseada em evidências, que distinga entre indivíduos e grupos criminosos específicos, e comunidades ou nacionalidades em geral.

Como o PCC chegou a outros países sul-americanos

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e sua estratégia de expansão e domínio do mercado transnacional de ilícitos (MTI) na América Latina baseiam-se no uso de mão de obra do sistema prisional.


Sem estresse, os negócios vão bem, obrigado.

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continua crescendo, com seus executivos desenvolvendo estratégias e conquistando novos mercados e seus funcionários seguindo motivados em todas as filiais em todos os estados e países.

Quem nos garante isso são os pesquisadores Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing no trabalho “Legitimacy in Criminal Governance: Managing a Drug Empire from Behind Bars”, o qual deverei apresentar aqui em breve.

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Crimes transnacionais nos dias de hoje

Hoje, estou aqui para apresentar o livro Subsistemas fronteiriços do Brasil: mercados ilegais e violência (FLACSO), da pesquisadora Letícia Nuñez Almeida e colegas.

Não há como se estudar os crimes transnacionais do Cone Sul sem entender a facção paulista Primeiro Comando da Capital, e Letícia não se faz de rogada, analisando profundamente a origem e a história da gangue nascida em São Paulo.

As origens do PCC definiram seu presente

Fomos você e eu quem definimos a forma como as drogas e armas seriam hoje transportadas do exterior para dentro de nosso território, você se lembra?

Letícia deixa que Camila Caldeira Nunes Dias conte como a semente foi plantada no final de 1993, quando na Casa de Custódia de Taubaté (o Piranhão) os presos se reuniram para protestar contra a crueldade exercida pelos agentes penitenciários.

Talvez você, assim como eu, se lembre que nós entendíamos que preso tinha mesmo é que sofrer, e prisão deveria ter as piores condições de vida; mas, pensando assim, colocávamos no governo pessoas que também professavam as mesmas convicções.

A queda de braço entre governo e presos foi sangrenta, e forjou o espírito dos homens que tomariam em suas mãos, no futuro, o controle do tráfico internacional de drogas e armas — o embrião do PCC foram aqueles prisioneiros.

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O crescimento acalentado pelo povo brasileiro

Camila conta que nos anos de 1994 e 1995 a base se solidificou graças a intensificação da repressão dentro do sistema carcerário — quanto mais dura se tornava a vida no cárcere, mais presos se aliavam à bandeira de solidariedade empunhada pelo PCC.

Camila Caldeira Nunes Dias PCC

“… as demonstrações de crueldade e de espetacularização da violência […] desempenharam uma série de funções na conquista e na manutenção do poder e do domínio do PCC sobre a população carcerária.”

Enquanto eu e você aplaudíamos as atrocidades que aconteciam dentro dos presídios, o Primeiro Comando da Capital ganhava adeptos fiéis entre a população carcerária, e esses passaram a atuar como soldados da facção dentro e fora dos presídios.

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O Primeiro Comando da Capital ganha moral e ruas

Entre 2002 e 2004, conquistaram a pacificação dentro dos presídios e começaram a disseminar a cultura de que os presos deveriam eleger um grupo mediador, capaz de estabelecer acordos e manter a paz dentro das muralhas.

Quando os presos deixaram de se enfrentar, ganharam força e organização para exigir do Estado melhores condições de vida dentro dos presídios.

A pena é longa, mas não é eterna, e, paulatinamente, os prisioneiros vão ganhando as ruas e levando consigo as técnicas de negociação, união e pacificação desenvolvidas pela facção dentro das muralhas — graças às escolhas que eu e você fizemos.

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O confronto fortalece o Primeiro Comando nas ruas

As novas lideranças são treinadas dentro das trancas e saem prontas para o gerenciamento do pessoal fora dos presídios. Os escritórios são as celas onde se discutem estratégias, mas a organização ainda tem dificuldade em conseguir adeptos nas ruas.

Nós, eu e você, não satisfeitos por termos criado uma organização estruturada dentro dos presídios, buscamos fortalecer a facção fora. A violência policial e os grupos de extermínio tinham amplo apoio, e jovens eram mortos às pencas.

Se faltava apenas uma razão para a facção justificar para seus membros uma ação contra o “Estado opressor e sua polícia”, nós a entregamos de bandeja, e a liderança do Primeiro Comando da Capital não perdeu a oportunidade e mandou seus soldados atacarem.

Os ataques do PCC de 2006 no estado de São Paulo ficaram registrados na história, mas não era esse não era o principal objetido da liderança, como conta Guaracy Mingardi:

Guaracy Mingardi

“Para todos no sistema, o recado é que o Estado não tinha forças para enfrentar o PCC. Isso aumentou o prestígio do grupo, principalmente, nos presídios e entre os jovens rebeldes da periferia.”

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Ordem e Progresso — o céu é o limite

Como filhos, nós os trouxemos ao mundo e lhes mostramos o caminho a seguir, e se eles fizeram as escolhas que fizeram, não podemos nos eximir de nossas parcelas de culpa. O fato é que, crescidos, eles ganharam as ruas do Brasil.

Letícia explicou que o PCC cuidou de conseguir apoio dentro do sistema presidiário dos estados fronteiriços antes de cruzar as fronteiras, mas para isso precisaram de ajuda — e claro que eu e você não íamos deixar o pessoal do PCC na mão.

Lembra quando falaram em mandar para bem longe os prisioneiros que lideravam as revoltas? Nós aplaudimos e dissemos “amém”, e quanto mais longe fossem, melhor seria, não é mesmo?

Marcelo Batista Nery conta para Letícia que a consequência de nossa grande ideia foi o fortalecimento da posição do PCC dentro das trancas do Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia, nas fronteiras do Paraguai, da Bolívia, da Venezuela e da Guiana.

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Do Brasil para o mundo

O processo foi o mesmo: das trancas para as ruas, e de lá para o domínio das rotas de importação de drogas e armas.

Essa semana, o ministro do governo da Bolívia Carlos Romero está levando seu país a trilhar o mesmo caminho que nós já percorremos — apoiando a invasão do Centro de Rehabilitacion Santa Cruz “Palmasola”, que deixou mortos e dezenas de feridos.

Na Bolívia e no Paraguai, o mesmo padrão que nós levamos o PCC a desenvolver está servindo para a implantação da facção: aproveitar a opressão dentro do sistema carcerário para conquistar seguidores que, posteriormente, representarão o PCC fora dos presídios.

Marcelo ressalta que hoje a facção paulista tem se mostrado forte o bastante para controlar o comércio de drogas e armas e até gerir atividades econômicas legais, abrindo empresas e usando-as para lavagem de dinheiro.

o repórter Allan de Abreu nos conta que doleiros como Dalton Baptista Neman lavam o dinheiro da facção em uma operação casada: um comerciante paga um fornecedor na China em Dólar convertido de criptomoeda disponibilizada por um comprador de cocaína na Europa, daí, esse comerciante recebe pela venda da mercadoria vinda da China no Brasil em Reais e então paga o traficante brasileiro que vendeu a droga na Europa.

O chinês Jiamin Zhang se estabelecer no Brás no centro de São Paulo e é o líder de um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de criptomoedas que pode ter movimentado bilhões de reais. Ele é acusado de trazer ao Brasil toneladas de cocaína vindas da Colômbia, Bolívia e Paraguai. Do território brasileiro, a droga era enviada para a Europa por portos da região sul do país.

Thaís Nunes detalha e dá nome aos bois

No entanto, as criptomoedas também são utilizadas para lavagem do dinheiro doméstico, como se comprovou com a Operação Mamma Mia da Polícia Federal e da Receita Federal ao investigar uma pizzaria comandada pelos integrantes do Primeiro Comando da Capital que além de massas e queijo para pizzas, comprava criptomoedas e ouro para lavar dinheiro e financiar atividades da facção. — Lucas Caram para o Cointelegraph

O Comando Vermelho (CV), de aliado fiel para inimigo mortal

Em um primeiro momento, o Comando Vermelho foi peça fundamental na estratégia de crescimento internacional do Primeiro Comando da Capital, mas a facção carioca via o Paraguai como fornecedor, enquanto a facção paulista criava raízes.

O PCC implantou a cultura da facção dentro dos presídios paraguaios e começou a doutrinar seguidores — por lá, ninguém imaginava que um grupo de presos poderia financiar os estudos de seus filhos, providenciar tratamento médico e alimentos para suas famílias.

Nas ruas, montaram suas próprias bases de distribuição, inicialmente por meio de parcerias locais, adquirindo aos poucos conhecimento e abrindo os próprios caminhos.

A estratégia do PCC de negociação e ingresso em novos mercados e comunidades se mostrou perfeita para o ambiente de fronteira, onde os marcos divisórios fincados entre os países e entre os diversos setores econômicos e sociais são mais fluídos e pouco claros.

Quando a estrutura estava sólida, a parceria com a facção carioca CV passou a ser um peso que precisou ser eliminado, e a guerra pelo monopólio foi iniciada com uma ação cinematográfica típica da facção 1533: o assassinato de Jorge Rafaat Toumani Letícia resume a história:

Letícia Nuñez Almeida.jpg

“É dessa maneira que o PCC adquiriu a liberdade necessária para fortificar as relações com os nós fronteiriços e as suas conjecturas, transformando, portanto, os sistemas carcerários em pontos intrínsecos às suas redes do mercado ilegal nacional e internacional.”

O que falei neste site sobre o Comando Vermelho → ۞

Sem estresse: com ordem e progresso

Os escritórios do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continuam atuando, os executivos dos mais diversos níveis continuam com o desenvolvimento de novas estratégias e os funcionários continuam motivados em todas as filiais.

Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing explicam que dentro dos presídios e no meio de milhares de soldados prontos para serem doutrinados na filosofia e nas estratégias da organização fica fácil para as chefias da facção ficarem protegidas de seus inimigos e se dedicarem ao gerenciamento dos negócios da facção.

Se bem que eles não teriam chegado aonde chegaram se não fosse por mim, você e nossas grandes ideias e escolhas de política social, carcerária e de segurança pública.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo
Arte sobre foto de Evo Moraes tendo ao fundo a bandeira da Bolívia e uma parede pichada pela facção PCC.

Carlos Romero, ex-Ministro de Evo Morales, questiona qual seria o verdadeiro papel em território boliviano de organizações criminosas estrangeiras como o Primeiro Comando da Capital (Facção PCC 1533). Segundo ele, estes grupos não disputam espaço dentro do país, mas integram-se às estruturas já existentes: familiares, de agricultores ou gangues.

Ele atribui o incremento dessa participação ao desmonte das políticas de combate, de treinamento e intercâmbio com organismos internacionais, facilitando a . A falta sofisticação e diversificação da influência dos grupos criminosos:

É por isso que existem subjugações de terras com homens encapuzados e armados como Las Londra, no narcotráfico e na agricultura, mas ao mesmo tempo que estão ligados a exploração ilegal de minérios, madeira e terras.

Reportagem completa em Pagna Siete:

Exministro Romero: El narcotráfico se fortalece y lava dinero hasta en conciertos

A segurança das fronteiras nas mãos do PCC 1533


Enquanto quem não conseguia enxergar o que estava acontecendo batia palmas e postava seus kkks nas redes sociais após a morte de Gegê do Mangue e Paca, o Promotor de Justiça Lincoln Gakiya colocava suas barbas de molho e alertava que nuvens escuras estavam despontando no horizonte.

Às  nuvens que Gakiya já havia notado somaram-se outras, se somaram a outras, ainda mais pesadas. Coube ao ministro Hugo Vera, chefe da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (SENAD), teve que contrariar os garotos que batiam palmas e postavam seus kkks nas redes sociais após a prisão de Galã.

A história da morte de Gegê começou a ser mal contada com o estranho surgimento do bilhete que auxiliou as autoridades a desvendarem todo o caso, o que leva à questão; desde quando as autoridades já estavam cientes do plano de eliminar os líderes do Primeiro Comando da Capital e quais serão as consequências dessas mortes?

A proteção militar!
Para aqueles que imaginam que os militares no Rio de Janeiro vão resolver o problema do tráfico de drogas e armas, é preciso lembrar que as fronteiras nacionais são garantidas há anos pelo sistema ENAFRON/SISFRON das forças armadas em ação conjunta às forças policiais dos países fronteiriços.
As belas fotos dos soldados atuando no Rio já são velhas conhecidas nossas da Operação Ágata.

É ela que impede que nossas fronteiras sejam invadidas por traficantes de armas e drogas, com direito a belas fotos com militares nas estradas e helicópteros sobrevoando as matas e os rios — show.

Só valem pelo show. Gakiya e Vera sabem disso, e por isso se preocupam com as nuvens no horizonte.
A rota das armas e drogas, apesar dos militares, tem funcionado de maneira cada vez mais estável depois que o Primeiro Comando da Capital (PCC) assumiu a logística após a eliminação de Jorge Rafaat Toumani.

O PCC e a política de fronteiras!

Gegê do Mangue teria criado um sistema que sufocaria as facções Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN), sem a necessidade de enfrentamento direto entre as facções, deixando os garotos da base se matando, mas segurando as ações contra a polícia e o Estado.

Além de manter e solidificar a tradicional linha de fornecimento do Paraguai, a equipe de estrategistas da organização criminosa desenvolveu uma estratégia para contaminar a tradicional rota norte, via rio Solimões, forçando a Família do Norte e o Comando Vermelho a buscar meios alternativos.

A exportação das drogas também deixou de ser centralizada e passou a ser operada através de diversos portos — tudo sob o olhar de Gegê do Mangue. Elton Rumich da Silva, o Galã, é uma figura ainda nebulosa dentro desse estratagema, todavia era personagem chave nesse jogo estratégico.

As possibilidades:

  1. apesar de ter assumido o controle da distribuição da rota paraguaia com o apoio da facção paulista, Galã vendia com sobrepreço para a facção carioca Comando Vermelho, com o aval de Gegê, como forma de evitar uma guerra direta, ao mesmo tempo que fragilizava seu caixa, e conseguia informações estratégicas do inimigo;
  2. que ele só comercializava com o PCC e seus aliados; e
  3. ele comerciante autônomo, agindo sem se reportar ao Primeiro Comando, mas garantindo paz na fronteira e rota livre para seus insumos.
O terror nas ruas!

Enquanto a atual política de não enfrentamento do narcotráfico contra o Estado constituído e suas forças policiais persistirem, como tem sido a orientação do Primeiro Comando da Capital, há possibilidade de enfrentamento sem levar terror às ruas e à população através da polícia investigativa e ostensiva.

Para quem imagina que o ideal seria outro, é só ver como as coisas estão no Rio de Janeiro, onde o Comando Vermelho está no poder.

O mal maior!

A possibilidade de que Gegê do Mangue e Paca estivessem negociando com os inimigos do CV e FDN um acordo ou a mudança de camisa seria um tsunami para a segurança institucional latino-americano.

Se o maremoto foi evitado, as nuvens não foram dissipadas. A Família do Norte e o Comando Vermelho poderão tentar retomar a rota do Paraguai e restabelecer a hegemonia no Solimões, e, se isso acontecer, muito sangue poderá correr, tanto de membros das facções, quanto de policiais.

A hora é agora!

O momento não poderia ser mais propício para mudança dentro da estratégia paulista.

Com ajuda do Governo Federal, que com a intervenção militar no Rio de Janeiro criou dificuldades organizacionais para a organização carioca, o PCC poderá solidificar seus negócios com a Venezuela.

Hoje, devido às dificuldades econômicas da Venezuela, armas pesadas podem ser compradas por um preço bem abaixo do mercado.

Quando vamos ter outra oportunidade de comprar AR-15 e AK-47 por até US$ 5.000???

Militares e guerrilheiros estão vendendo as armas de suas organizações e aceitando oportunidades de serviço dentro e fora do país, e apesar da Família do Norte ter um vínculo mais antigo com os venezuelanos, a organização paulista tem condições econômicas e estratégicas para dominar a fronteira norte.

A rota boliviana como alternativa

Os paulistas conhecem desde o tempo dos bandeirantes a rota boliviana, que por algum tempo quase foi esquecida, e transportar via Mato Grosso do Sul maconha, cocaína e armamento era coisa para quem queria fugir do grande fluxo.

Há quem diga que o próprio Marcola havia proibido a utilização desse caminho — mas eu nunca vi esse salve. Seja como for, a estrada foi reaberta e está em funcionamento, como rota alternativa. Quem teria capacidade de gerenciar tal logística internacional?

infografico-AGATA-7

Sob nova direção!

Por mais incrível que possa parecer, o futuro da estabilidade da América-Latina repousa nos braços de Fuminho, o Gilberto Aparecido dos Santos, que assumiu a gestão e a logística internacionais em nome da Família 1533.
Há quem consiga dormir tranquilo, sabendo que nossas fronteiras estão seguras pelo ENAFRAN/SISFRON e sua Operação Ágata, da mesma forma que o Rio de Janeiro agora dorme em paz com os militares no combate ao tráfico de drogas.
Boa sorte para todos nós, e agora sim é hora de bater palmas e postar kkks.

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As fronteiras nas mãos do PCC 1533

Fuminho, esse é o cara do qual depende a estabilidade institucional latino-americana; é ele quem determinará as rotas e as políticas de importação e exportação de drogas e armas do Cone Sul. Duvida? Ria, mas tem quem não duvidará.

Enquanto quem não conseguia enxergar o que estava acontecendo batia palmas e postava seus kkks nas redes sociais após a morte de Gegê do Mangue e Paca, o Promotor de Justiça Lincoln Gakiya colocava suas barbas de molho e alertava que nuvens escuras estavam despontando no horizonte.

Às nuvens que Gakiya já havia notado somaram-se outras, se somaram a outras, ainda mais pesadas, Coube ao ministro Hugo Vera, chefe da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (SENAD), contrariar os garotos que batiam palmas e postavam seus kkks nas redes sociais após a prisão de Galã.

A história da morte de Gegê começou a ser mal contada com o estranho surgimento do bilhete que auxiliou as autoridades a desvendarem todo o caso, o que leva à questão; desde quando as autoridades já estavam cientes do plano de eliminar os líderes do Primeiro Comando da Capital e quais serão as consequências dessas mortes?

A proteção militar!

Para aqueles que imaginam que os militares no Rio de Janeiro vão resolver o problema do tráfico de drogas e armas, é preciso lembrar que as fronteiras nacionais são garantidas há anos pelo sistema ENAFRON/SISFRON das forças armadas em ação conjunta às forças policiais dos países fronteiriços.

Operação Ágata

As belas fotos dos soldados atuando no Rio já são velhas conhecidas nossas da Operação Ágata.

É ela que impede que nossas fronteiras sejam invadidas por traficantes de armas e drogas, com direito a belas fotos com militares nas estradas e helicópteros sobrevoando as matas e os rios — show.

Só valem pelo show. Gakiya e Vera sabem disso, e por isso se preocupam com as nuvens no horizonte.

A rota das armas e drogas, apesar dos militares, tem funcionado de maneira cada vez mais estável depois que o Primeiro Comando da Capital (PCC) assumiu a logística após a eliminação de Jorge Rafaat Toumani.

O PCC e a política de fronteiras!

Gegê do Mangue criou um sistema que ésuaua sufocando as facções Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN), sem a necessidade de enfrentamento direto entre as facções, deixando os garotos da base se matando, mas segurando as ações contra a polícia e o Estado.

Além de manter e solidificar a tradicional linha de fornecimento do Paraguai, a equipe para estrategistas da organização criminosa desenvolveu uma estratégia de contaminar a tradicional rota norte, via rio Solimões, forçando a Família do Norte e o Comando Vermelho a buscar meios alternativos.

A exportação das drogas também deixou de ser centralizada e passou a ser operada através de diversos portos — tudo sob o olhar de Gegê do Mangue. Elton Rumich da Silva, o Galã, é uma figura ainda nebulosa dentro desse estratagema, todavia era personagem chave nesse jogo estratégico.

As possibilidades:

  1. apesar de ter assumido o controle da distribuição da rota paraguaia com o apoio da facção paulista, Galã vendia com sobrepreço para a facção carioca Comando Vermelho com o aval de Gegê, como forma de evitar uma guerra direta, ao mesmo tempo que fragilizava seu caixa e conseguia informações estratégicas do inimigo;
  2. ele só comercializava com o PCC e seus aliados; e
  3. ele era um comerciante autônomo, agindo sem se reportar ao Primeiro Comando, mas garantindo paz na fronteira e rota livre para seus insumos.

O terror nas ruas!

Enquanto a atual política de não enfrentamento do narcotráfico contra o Estado constituído e suas forças policiais persistirem, como tem sido a orientação do Primeiro Comando da Capital, há possibilidade de enfrentamento sem levar terror às ruas e à população através da polícia investigativa e ostensiva.

Para quem imagina que o ideal seria outro, é só ver como as coisas estão no Rio de Janeiro, onde o Comando Vermelho está no poder, em contra partida o que ocorre na fronteira com o Paraguai, onde o secretário de segurança do Mato Grosso do Sul, Antônio Videira, não hesita em cravar: O PCC comanda a fronteira, e o conflito entre policiais e traficantes é insignificante.

O mal maior!

A possibilidade de que Gegê do Mangue e Paca estivessem negociando com os inimigos do CV e FDN um acordo ou a mudança de camisa seria um tsunami para a segurança institucional latino-americano.

Se o maremoto foi evitado, as nuvens não foram dissipadas. A Família do Norte e o Comando Vermelho poderão tentar retomar a rota do Paraguai e restabelecer a hegemonia no Solimões, e, se isso acontecer, muito sangue poderá correr, tanto de membros das facções, quanto de policiais.

A hora é agora!

Com ajuda do Governo Federal, que com a intervenção militar no Rio de Janeiro criou dificuldades organizacionais para a organização carioca, o PCC poderá solidificar seus negócios com a Venezuela.

Hoje, devido às dificuldades econômicas da Venezuela, armas pesadas podem ser compradas por um preço bem abaixo do mercado.

Quando vamos ter outra oportunidade de comprar AR-15 e AK-47 por até US$ 5.000?

Militares e guerrilheiros estão vendendo as armas de suas organizações e aceitando oportunidades de serviço dentro e fora do país, e apesar da Família do Norte ter um vínculo mais antigo com os venezuelanos, a organização paulista tem condições econômicas e estratégicas para dominar a fronteira norte.

A rota boliviana como alternativa

Os paulistas conhecem desde o tempo dos bandeirantes a rota boliviana, que por algum tempo quase foi esquecida, e transportar via Mato Grosso do Sul maconha, cocaína e armamento era coisa para quem queria fugir do grande fluxo.

Há quem diga que o próprio Marcola havia proibido a utilização desse caminho — mas eu nunca vi esse salve. Seja como for, a estrada foi reaberta e está em funcionamento, como rota alternativa. Quem teria capacidade de gerenciar tal logística internacional?

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Sob nova direção!

infografico-AGATA-7

Por mais incrível que possa parecer, o futuro da estabilidade da América-Latina repousa nos braços de Fuminho, o Gilberto Aparecido dos Santos, que assumiu a gestão e a logística internacionais em nome da Família 1533.

Há quem consiga dormir tranquilo, sabendo que nossas fronteiras estão seguras pelo ENAFRAN/SISFRON e sua Operação Ágata, da mesma forma que o Rio de Janeiro agora dorme em paz com os militares no combate ao tráfico de drogas.

Só lembrando, que o buraco é muito mais embaixo:

O Ministério Público de São Paulo revelou que Marcos Roberto, conhecido como Tuto, é adido no Consulado de Moçambique no Belo Horizonte, Minas Gerais. O quê? Isso mesmo! Por essa via, não espanta que tivesse passaporte diplomático moçambicano! Vejam…até onde tráfico brasileiro penetrou em Moçambique: até o tutano do Governo, traficante recebendo honrarias de diplomata.

Marcelo Mosse

Boa sorte para todos nós, e agora sim é hora de bater palmas e postar kkks.

Fuga de Fuminho da polícia federal brasileira

ROTA teria deixado escapar Fuminho em 2013
Arthur Stabile e Josmar Jozino → Ponte Jornalismo
São Paulo — Combate à facção

Há vinte anos a Polícia Federal quase conseguiu capturar aquele que viria a ser o mais importante líder do Primeiro Comando da Capital na sua divisão internacional. Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, só escapou por conta de uma ação da ROTA — é o que afirmam os repórteres da Ponte Jornalismo.

O Primeiro Comando da Capital está divido?

A morte de Gegê do Mangue e Paca não foi o fim, mas o começo de um movimento dentro do Primeiro Comando da Capital. O assassinato de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, confirma essa teoria.

A história não é dividida, ela uma constante.

A Queda da Bastilha, a Proclamação da Independência, o fim do Regime Militar, o massacre do Carandiru e o assassinato de Jorge Rafaat Toumani, foram apenas momentos onde a tensão atingiu seu ponto de ruptura, marcando o ponto onde uma força, que aos poucos crescia passou assumiu uma posição.

Com a facção Primeiro Comando da Capital não poderia ser diferente, e para quem estuda a história da facção o momento é de muita atenção, se não tensão.

Enquanto pessoas que não tem a mínima condições de entender o que está acontecendo postam “kkk um a menos”, a história está tomando um outro rumo, e ninguém pode com certeza para qual direção seguirá.

Pessoas morrerão nos próximos anos por que Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue e Fabiano Alves de Souza, o Paca, morram, por outro lado, outras que morreriam vão ser poupadas.

Não fique certo que você ou alguém que você conheça talvez não viva ou morra por isso, pois todos nós estamos no mundo sob a influência do que aconteceu durante a Queda da Bastilha, da Proclamação da Independência, do fim do Regime Militar, do Massacre do Carandiru e do assassinato de Jorge Raffat Roumani.

Alguns apenas não tem consciência disso, mas esses fatos históricos ditam querendo ou não o dia a dia de todos os brasileiros e influência parte das decisões política e de segurança pública de vários países latino-americanos.

Apenas mudanças de logística e comando.

A morte de Gegê do Mangue, a princípio trouxe a todos a certeza que havia sido uma decisão dentro da organização criminosa, apenas mais um acerto de lideranças entre os lobos, mas que a alcateia seguiria o mesmo caminho.

Mas “um coisa” talvez tenha mostrado que há algo mais.

Coisa” é o nome dado a quem não tem moral dentro da organização. São os excluídos, os pederastas, talaricos, policiais presos, enfim, tudo que não presta. Nos presídios, os “coisas” não ficam junto com os presos, é assim em todo o sistema paulista, inclusive em Venceslau, e em geral são eles quem fazem a faxina.

“O bilhete, apreendido no domingo (18), está sob análise do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), órgão do MP (Ministério Público). Ele foi encontrado na subportaria da Penitenciária 2 de Presidente Vencenceslau, a 600 km da capital paulista, na hora da limpeza.”

Quanto podemos confiar que no que diz o bilhete?

Não se perdem bilhetes como esse, ele foi entregue por alguém por alguma razão, ou pelo menos deixou para que fosse encontrado pelo “coisa“.

Claro que isso é apenas especulação que entre quem não tem o que fazer enquanto espera os dias passarem, e que em Venceslau, hoje sejam funcionários públicos concursados que peguem no cabo da vassoura e varram o chão sob uma câmara de vigilância, mas… eu acho que não.

O bilhete segue as normas da facção, o que dá credibilidade:

“Amigos aqui é o Resumo do Pé Quebrado e mais uns irmãos. Ontem fomos chamados em umas ideias, aonde nosso irmão Cabelo Duro deixou a nós ciente que o Fuminho mandou matar os GG e e o Paca. Inclusive o irmão Cabelo Duro e mais alguns irmãos são prova que os irmão estavam roubando.”

O irmão Cabelo Duro é Wagner Ferreira da Silva, liderança do PCC no litoral paulista, e foi morto poucos dias depois da divulgação do bilhete em frente ao Hotel Blue Tree Towers em São Paulo.

A polícia trabalha com a hipótese de que Cabelo Duro tenha sido morto por aliados de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e de Fabiano Alves de Souza, o Paca.

Se confirmada essa hipótese, talvez estejamos assistindo um daqueles momentos da história onde a tensão atingi seu ponto de ruptura, marcando o ponto onde uma força, que aos poucos crescia passou assumiu uma posição.

Se de fato a morte de Cabelo Duro foi armada contra a vontade da liderança que se consolidou no comando do Primeiro Comando da Capital, mesmo após a morte de Gegê e Paca, existe a possibilidade de que parte da facção esteja disposta ao confronto ou a troca de camisa.

Algo assim pode chegar as ruas trazendo violência e mortes nas biqueiras, entre a população das comunidades, e policiais. Até o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Mágino Barbosa, veio a público para falar sobre essa possibilidade.

O que falei neste site sobre Geraldo Alckimin → ۞

O bilhete, o esgoto e a Operação Echelon

Ninguém engoliu a história que o tal bilhete foi encontrado por uma pessoa fazendo a faxina na portaria do presídio, apesar de toda a imprensa reproduzir sem questionar a versão das autoridades.

O caso só veio a ser esclarecido com  o termino Operação Echelon. A polícia admitiu que  realizava uma “pescaria” nos dutos de esgoto das raias da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau — bidu, agora a história fez sentido.

Em março do ano passado, o setor de inteligência da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) simulou um problema em um dos dutos de esgoto da cadeia, que mantém presos os líderes da organização criminosa.

Era um problema falso. “No lugar de reparar o esgoto, instalamos telas nos dutos”, explicou o secretário da SAP, Lourival Gomes.

O que falei neste site sobre mensagens da facção → ۞

Os especialistas e a luta pelo poder no PCC

Mágino Barbosa tem acertado todas quando fala sobre a facção, e afirma que…

“… é evidente que há um desentendimento. Mas não acreditamos que haverá a guerra, uma guerrilha, no estado. Os reflexos são mais ligados aos próprios integrantes da facção”.

Essa declaração reforça a hipótese de que Cabelo Duro tenha sido morto a mando da liderança por ter vazado a informação de que ele próprio a mando do seu padrinho Marcola teriam executado o Gegê e Paca.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

O repórter Luiz Adorno jura que não vai contar qual foi o promotor de justiça que lhe garantiu que:

“Cabelo Duro estava dentro do helicóptero. Isso já foi identificado, assim como as outras pessoas que estavam na aeronave. O que é investigado agora é se a morte de Cabelo Duro foi uma queima de arquivo determinada pela cúpula do PCC ou se foi uma retaliação de criminosos ligados a Gegê.”

Karina Biondi, talvez um dia escreva algumas linhas em uma nova edição de seu livro, ou talvez abra um novo capítulo, descrevendo que a morte de Gegê transformou a facção em algo totalmente diferente da que conhecemos hoje…

… assim como aconteceu no passado, com a morte de Jorge Raffat Roumani e a transformação, do dia para a noite do Comando Vermelho (CV) de fiel aliado para inimigo mortal.

Enquanto esperamos para saber o que será, acompanhamos a investigação sobre o caso Gegê, que parece ser prioridade para as secretarias de segurança pública, já tendo sido decretada a prisão preventiva de cinco suspeitos do assassinato: Francisco Cavalcante Cidro Filho, José Cavalcante Cidro, Samara Pinheiro de Carvalho, Magna Ene de Freitas e Felipe Ramos Morais.

O piloto do helicóptero recebia 400 Reais por quilograma de pasta base de cocaína transportada e 3% do dinheiro, chegava a ganhar 200 mil Reais em um único voo.

Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, chefiava o esquema todo. Chegava a lucrar 450 milhões de Reais todo o ano, mas mesmo com toda essa grana e poder, depois das mortes de Gegê e de Paca, ele percebeu que o próximo a ser morto pela facção.

Não deu outra. Integrantes sequestraram Nado que era de toda confiança de Cabelo Duro, desbloquearam o celular dele e usaram para chama-lo para o flat do Tatuapé, onde armaram uma casinha: Cabelo Duro foi metralhado e fala-se que nesse mesmo dia Nado foi decapitado e enterrado em região de favela.

O mundo dá voltas, Gegê e Paca foram mortos por Cabelo Duro, Cabelo Duro foi morto por Galo, Galo foi fuzilado na Zona Leste de São Paulo… — Luís Adorno para o R7

Fuga de Fuminho da polícia federal brasileira

ROTA teria deixado escapar Fuminho em 2013
Arthur Stabile e Josmar Jozino → Ponte Jornalismo
São Paulo — Combate à facção

Há vinte anos a Polícia Federal quase conseguiu capturar aquele que viria a ser o mais importante líder do Primeiro Comando da Capital na sua divisão internacional. Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, só escapou por conta de uma ação da ROTA — é o que afirmam os repórteres da Ponte Jornalismo.

Gegê do Mangue — um grande golpe para o PCC 1533

A logística de distribuição de drogas evoluiu sob a batuta de Gegê do Mangue. O Primeiro Comando da Capital deixou de depender exclusivamente das armas e das drogas vindas do Paraguai e da Bolívia, criando uma rota alternativa ao norte.

Todos acreditavam que Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, cuidariam de zerar Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, quando ele deixasse a tranca — era mais seguro para ele na segurança do sistema do que na rua.

Agora Gegê e Paca já eram, as lideranças das trancas voltaram a dominar, e sem rivais à altura na rua. Acabou essa da facção criar uma raiz fora do sistema prisional.

O que falei neste site sobre o Gê do Mangue → ۞

Uma das características da facção paulista, como em qualquer matilha, é o rígido sistema hierárquico cuja liderança é disputada à custa de sangue pelos diversos alfas — e essa é a melhor hipótese para a morte de Gegê e Pacas segundo a imprensa, os especialistas, os policiais e até entre os PCCs.

O Procurador de Justiça Marcio Sergio Christino lembra que a disputa pela liderança já aconteceu no passado com sangue. Se duvidarem, é só perguntar para Dionísio César Leite, o Cesinha, Jonas Mateus e Wander Eduardo Ferreira, o Cara Gorda.

Existe outra possibilidade.

A morte de alguns líderes, dentro e fora do sistema, teria sido engendrada por Gegê, e as execuções foram feitas sem seguir o procedimento da facção, com respeito às regras de hierarquia e defesa — e agora o errado foi cobrado.

No mundo das fofocas, correm boatos, também, de que eles estariam desviando dinheiro da facção, e outros falam até que Gegê estaria indo para o Ceará para tentar fechar um acordo com o Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN) sem aval da cúpula — e o medo era que ele resolvesse trocar de camisa…

O que falei neste site sobre o Comando Vermelho → ۞

O que falei neste site sobre a Família do Norte → ۞

… um indício de que o assassinato teria sido uma ordem vinda de dentro é o fato de, ao contrário do que sempre acontece, não ter ocorrido a tradicional homenagem aos mortos feita pelos PCCs nos pátios dos presídios, como nos conta Josmar Jozino:

“Os prisioneiros fazem uma roda no centro da quadra, baixam a cabeça em sinal de respeito ao morto, rezam o Pai Nosso e depois entoam o tradicional grito de guerra da organização: PCC, 1533, PCC, 1533, um por todos, todos por um. Um por todos, todos por um.”

O que ninguém leva a sério é que isso tenha sido uma ação do governo ou dos inimigos. Foi como uma cena de Hollywood, de filme americano, com helicóptero atirando nos chefes do tráfico no solo em uma reserva indígena, coisa, assim, que só o Primeiro Comando da Capital poderia produzir.

As consequências disso são impossíveis de serem imaginadas, e quem o fizer vai estar apenas “chutando”.

Como ficará a questão sobre as ligações feitas por Gê no mercado internacional de armas e drogas, e quanto o Primeiro terá que rever contratos e rotas?

Os que fechavam com Gê vão continuar fiéis à facção ou vai ter algum deles rasgando a camisa e pulando para os inimigos?

Eu , se tivesse que chutar, diria que a estrutura ficou ainda mais forte e coesa, mas, ao eliminar um líder forte e articulado, a facção vai perder capacidade de gestão e logística. Quem assumirá o gerenciamento e controle nas ruas dos sintonias dos países?

O que falei neste site sobre “sintonia” → ۞

A logística de distribuição de drogas evoluiu sob a batuta de Gegê do Mangue. O Primeiro Comando da Capital deixou de depender exclusivamente das armas e das drogas vindas do Paraguai e da Bolívia, criando uma rota alternativa ao norte (Venezuela-Colômbia-Ceará).

Para isso a cabeça de ponte é garantida nas ruas pelos aliados dos Guardiões do Estado GDE 745, fundamentais para quebrar a barreira dos inimigos. O ministro da Segurança Pública, Torquato Jardim, confirma que”quem conquistar o Ceará, conquistará o Nordeste.

Com essa mudança de estratégia de importação, Gegê estaria conseguindo minar os vínculos de confiança entre os FDN CV e SD RN com os seus fornecedores estrangeiros. Até quem combatia o bandido sabia de seu valor. O Promotor de Justiça Lincoln Gakiya comentou a respeito da morte de Gegê:

“É um grande golpe para o PCC. Eles ajudaram muito a aumentar a arrecadação e o poder de crescimento do tráfico, principalmente, porque tinham autonomia, capacidade de gestão e gozavam da confiança da cúpula”.

O que falei neste site sobre os Guardiões do Estado → ۞

Além do tráfico de armas e drogas, Gegê também participaria da organização das mega-operações de assalto, como foi o caso da sede do PROSEGUR, na Ciudad del Este no Paraguai, e diversas outras ações dentro e fora do Brasil. Todos, inclusive eu, afirmavam que Gegê estava na Bolívia ou talvez no Paraguai, mas…

… para surpresa geral da galera “especialista”, o garoto parece que estava há mais de um ano morando com Paca, pertinho de onde foi morto. A dupla morava em um condomínio de alto padrão, o Alphaville do Porto das Dunas, em Aquiraz — pelo menos é o que afirma a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco).

Então, além de estar com um cordão de ouro e um pingente em forma de cifrão avaliados em 400 mil reais e um relógio de 40 mil reais, Gegê ainda estava morando em uma mansão de dois milhões de reais — falta de humildade também mata, principalmente quando seus colegas te olham do outro lado da muralha.

Algo muito estranho é que, antes mesmo dos corpos serem identificados formalmente, alguma boa alma pagou para a funerária 100 mil reais pelo embalsamento dos corpos — como tem gente boa nesse mundo!

Para quem quer conhecer mais quem era o Gegê do Mangue, sugiro duas reportagens:

Kleber Tomaz do G1 SP conta entre outras coisas que o garoto além de empinar pipas foi coroinha da igreja e office-boy no centro de São Paulo…

Fabíola Perez do R7 SP também buscou informações de sua juventude e trás um depoimento inconformado de um mecânico que diz que o traficante “sempre pagava pelo atendimento, ao contrário dos policiais que não pagavam o reparos em viaturas”. A repórter ainda conta que vários estabelecimentos comerciais do bairro lavavam o dinheiro da facção.

Legalizar as drogas: sim ou não?

Policiais e bandidos concordam pelo menos em uma coisa: as vendas de drogas devem ser proibidas e combatidas, mas há presidentes americanos que discordam — qual a posição da facção paulista Primeiro Comando da Capital?

O que os traficantes pensam sobre a legalização das drogas?

Policiais e bandidos são contra a legalização da venda de drogas, mas há presidentes americanos que discordam, mas qual seria a posição do Primeiro Comando da Capital sobre o tema?

Para infelicidade daqueles que trabalham com jornalismo, todas as fontes tem que ser conferidas para não cair em descrédito, mas, para minha felicidade, no mundo das crônicas é diferente.

Na semana que passou, trombei com uma publicação sobre segurança internacional da Conferência do Forte de Copacabana, organizada em conjunto pela Fundação Konrad Adenauer (KAS) e pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), com apoio da Delegação da União Europeia no Brasil:

A Visão Sul-Americana para uma melhor. Colaboração entre a. América do Sul e a Europa contra o Tráfico de Drogas

Thiago Rodrigues e Carol Viviana Porto foram os autores do artigo que, pelo menos para mim, suscitou uma dúvida: Como os traficantes e os líderes do crime organizado analisam a questão da liberação do uso das drogas?

Drogas — uma questão de ideologia

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Posso não ter certeza do que Marcola pensa sobre esse tema, mas três presidentes americanos se manifestaram sobre a política de repressão às drogas:

  • Nixon, que considerou que a guerra contra as drogas era um grande fracasso;
  • Obama, que a considerou inútil; e
  • Carter que disse que a punição excessiva destruiu a vida de milhões de famílias.

No Brasil, jogamos no campo da ideologia questões técnicas, e abandonar a atual política de repressão e encarceramento na questão das drogas é um desses exemplos: coisa de comunista e de moleques nóias.

E no Brasil — Lula, Dilma e Bolsonaro?

Ambos são assumidamente pessoas ligadas a “esquerda”, e no período de governo dos dois houve uma aceleração dos encarceramentos e do combate as drogas.

Se levarmos em conta apenas os fatos aqui citados, veremos então que à “direita” representada pelo ponto de vista dos presidentes americanos é a favor do abrandamento, e a “esquerda” prefere prender os envolvidos.

Foi assim até Trump e Bolsonaro chegarem ao poder e provarem que Nixon, Carter e Obama eram comunistas enrustidos e que o encarceramento não seria a solução, e sim a execução sumária nos morros e nas fronteiras — mesmo a primeira dama brasileira Michelle Bolsonaro e sua avó já foram condenadas por tráfico de drogas e vários de seus parentes ter ligação com milícias criminosas.

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Mas isso é puro sofisma!

Sabemos então o que pensam cinco presidentes, mas e Marcola, os traficantes e os líderes do crime organizado? Os garotos dos corres, a ponta mais conhecida do tráfico, dão de ombros, não pensam sobre isso, os gerentes de biqueira não esquentam, sempre se viraram e sempre se virarão, e a cúpula?

É fácil supor ao ler o artigo de Thiago e Carol:

O atual sistema de repressão ao tráfico de entorpecentes nos Estados Unidos não diminuiu o consumo naquela nação, mas impediu que se produzissem as drogas, permitindo rápida expansão das áreas cultivadas e da industrialização dos produtos para suprir o mercado americano — PCC, CV, FDN, GDE, SCRN e ADA agradecem.

Sistema integrado transnacional

O tempo para o amadorismo passou e o sistema de repressão ao tráfico de entorpecentes obrigou a criação de organizações criminosas com uma intrincada estrutura dentro do território brasileiro e com ramificações internacionais:

  • produção das folhas — Peru e na Bolívia;
  • produção da pasta e distribuição internacional — Colômbia;
  • entrepostos — Caribe, Canárias, Madeira, Guiné-Bissau, Guiné e Costa do Marfim;
  • portos — Galícia, Marselha e Nápoles; e
  • sistema financeiro — China, Uruguai e Caribe.

Enquanto a polícia posta foto de trinta tubetes formando a sigla PCC acompanhada da frase “dando prejuízo ao tráfico”.

O mundo gira, a imprensa tem matéria para postar, um outro garoto vai substituir na biqueira aquele que foi levado pela polícia para fazer a doutrinação nas regras da facção dentro do sistema prisional, e o cidadão se sente mais seguro.

Só que a estrutura se fortalece e se profissionaliza ainda mais

Para infelicidade daqueles que trabalham com jornalismo, todas as fontes tem que ser conferidas para não cair em descrédito, mas, para minha felicidade, no mundo das crônicas é diferente.

Eu posso afirmar que Marcola, os traficantes e os líderes do crime organizado analisam a questão da liberação do uso das drogas como sendo prejudicial aos seus negócios — sem ter que perguntar a eles e quem pode nos explica a razão é um ex-ministro da defesa e da segurança pública:

A atual política de combate às drogas que nós temos não só é ineficiente como amplia essa situação que estamos vivendo. Quando se pega um moleque com uma trouxa de maconha, uma pedra de crack, sem armas, sem ter cometido crimes violentos, que não é reincidente, e o joga dentro de unidade prisional controlada pelo PCC, Comando Vermelho, simplesmente se cancelando a possibilidade de se resgatar esses jovens. Ao mesmo tempo, dentro do sistema prisional, cerca de 80% não tem atividades educacionais ou laborais. Então não se prepara esse jovem para a ressocialização, para que ele volte à vida social e para o mercado. Essa é uma política que não resolve.

Raul Jungmann em entrevista para o ConJur

Thiago e Carol, em seu trabalho, fazem uma análise do fluxo internacional da cocaína e das metanfetaminas e da política de drogas na América do Sul.

A consequência desse movimento pode ser notado pela análise do número de homicídios em um quadro comparativo por país, além de uma análise da tendência de combate às drogas em países da União Européia e no Uruguai.

Os dois pesquisadores, o Uruguai e a Europa, estão buscando outras formas de resolver a questão das drogas, sem se preocuparem com o que o policial, você, eu ou Marcola pensamos a esse respeito — é um absurdo!

O combate, se houver terá que ser integrado

María del Rosario Rodríguez Cuitiño no artigo La lucha contra el crimen
organizado y el terrorismo en Uruguay: Un desafío a enfrentar, publicado pela Revista de Estudios en Seguridad Internacional, explica:

Dada a natureza transnacional das ameaças, para prevenir, punir e erradicar o crime organizado, os planos e as respostas devem basear-se na coordenação interinstitucional e nos acordos de cooperação internacional. Neste contexto, apresenta-se como uma questão central e um desafio, acompanhar com atenção as atividades expansivas nos países vizinhos, o maior grupo criminoso do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC), sendo essencial a cooperação com esse país para desmantelar futuras operações fronteiriças com o Uruguai.

Como Ramalho (2017) afirma, as receitas do PCC são estimadas em cerca de US $ 38 milhões por ano, A luta contra o crime organizado, dos quais 80% desse montante está ligado ao negócio de dogas. Em suas palavras, este grupo criminoso tem cerca de 11.000 membros que pagam parcelas mensais de beneficiar de serviços de proteção nas prisões (o grupo controla prisões em 22 dos 27 estados da federação), que impõe ordem e disciplina, gestão, incluindo a tipo de droga vendida internamente. (Ramalho 2017: 130).

Bolívia quer combater o PCC, mas não o narconegócio

O recém formado Primer Gabinete Binacional de Seguridad Bolivia-Brasil, questionando as intenções dos governos envolvidos. O autor menciona o caso de um juiz suspenso na Bolívia por beneficiar um membro do PCC.

Peço a todos que me perdoem, mas não consigo sentir firmeza no recém formado Primer Gabinete Binacional de Seguridad Bolivia-Brasil. Talvez seja a forte luz vinda dos holofotes que estão iluminando o palco, ou as sombras que estão por detrás dele, mas algo está me impedindo de ver com clareza aonde esse Gabinete Binacional vai nos levar.

O narcotráfico está ganhando esta batalha contra o Estado, demonstrando supremacia no controle do território (…) Esses cartéis de drogas são organizados no exterior por grupos como Los Chapitos (um grupo de narcotraficantes do México), o PCC (Primeiro Comando da Capital), grupos combinados com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e, claro, eles têm equipamentos e armas de melhor qualidade do que as forças de ordem.

coronel do Exército da Bolívia Jorge Santistevan

O inferno está repleto de boas intenções, e tenho acompanhado pelas últimas décadas a formação de inúmeras comissões, reuniões, sistemas, planos – se bem que com nome de gabinete é o primeiro. Será que realmente há uma boa intenção por parte dos governos?

Quem coloca essa dúvida não sou eu, é Robert Evan Ellis no artigo La stratégie des États-Unis pour l’Amérique latine et les Caraïbes, no qual apresenta o governo boliviano como um ávido combatente dos interesses norte-americanos e aliado militar e comercial da China e da Rússia. Conjuntamente com esse último país, segundo Ellis, o governo da Bolívia estaria montando um reator nuclear experimental, perto de El Alto.

O pesquisador faz crer que a recusa boliviana em aceitar apoio do governo americano na luta contra o narcotráfico foi uma forma discreta de manter o país como um dos principais produtores mundiais de coca. A agência noticiosa Vise publicou a declaração de um camponês produtor da folha, que demonstra a ação do Estado:

Agora é diferente. A polícia é nossa amiga. Antigamente, nós desviávamos os olhos quando eles passavam. Agora paramos sempre para dizer um ‘olá’.

afirma o agricultor

Quando incentivou uma economia baseada no narconegócio, Evo Morales não contava com o ingresso do Primeiro Comando da Capital no país: a facção paulista está conseguindo desconstruir os acordos feitos pelo governo com as diversas etnias e grupos sociais, o que está colocando em risco o mandato do presidente da Bolívia.

O interesse do PCC na Bolívia começou em 2007 com o objetivo de estabelecer relações com narcotraficantes bolivianos e foi implementada inicialmente por aproximadamente 100 integrantes da facção.

jornalista Allan de Abreu

Peço a todos que me perdoem, mas se for para ter minha vista ofuscada pela forte luz vinda dos holofotes, que seja aquela que está iluminando Luana, a belíssima modelo brasileira que é a mensageira do Primeiro Comando da Capital – e nem vou me preocupar com as sombras que estão por detrás dela.

Já o juiz suspenso de San Pedro de La Paz, que beneficiou com a prisão domiciliar um possível brasileiro integrante do Primeiro Comando da Capital, não conseguiu provar que sua vista estava ofuscada pelo brilho do processo, e o Ministério Público da Bolívia solicitou formalmente sua prisão preventiva. Pelo menos é o que nos conta o noticioso El Deber.