A prisão de Rovilho Alekis Barboza e o fim do PCC

A prisão de Rovilho Alekis Barboza, figura-chave do PCC, expõe rachaduras internas da facção. A repressão no Paraguai e os erros de liderança indicam o possível declínio da organização, mas o perigo de sua transformação em algo mais sofisticado não pode ser ignorado.


Primeiro Comando da Capital: a metamorfose de um organismo

Nenhuma instituição humana é eterna. Todas, sem exceção, ruíram. Algumas ruíram sob o próprio peso, outras se dividiram até a fragmentação final, e houve ainda as que sucumbiram aos erros crassos de seus líderes — homens que acreditaram ser deuses e acabaram soterrados sob as ruínas de seus próprios impérios.

O Primeiro Comando da Capital PCC 1533 é a maior organização criminosa da América Latina, superando em número de homens e abrangência territorial a tradicional máfia colombiana que ainda hoje detém grande poder no Narcosul, mas e agora?

O ser humano é um bicho emotivo. Um bicho que se empacota em grupos, manadas ou bandos, como lobos. Sempre atrás de um líder, um “alfa”. Não gosta do termo? Tudo bem, chamemos então de presidentes, imperadores, primeiros-ministros, papas, chefes de escoteiros ou, para não ferir susceptibilidades, simplesmente “líderes”. Seja no Palácio do Planalto ou numa cela de presídio, a lógica é a mesma: o rebanho se guia por aquele que promete segurança, sobrevivência ou vingança.

Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler não souberam a hora de parar e deixaram para trás os cadáveres de suas matilhas levadas a um ponto sem retorno. No frio ártico o erro dos alfas não poupou as vidas francesas ou alemãs.

O PCC controla a maior parte da massa carcerária brasileira. Comanda boa parte do mercado ilegal de drogas e armas no país, mas a ambição da organização de Marcola a levou a cruzar as fronteiras sul-americanas antes mesmo de consolidar sua soberania plena no próprio quintal — sem ter garantido a pacificação da fronteira setentrional, nem estabilizado os próprios tentáculos internos.

A reação a tentativa frustrada de assassinato

O Estado paraguaio está aproveitando o momento para intensificar a repressão ao braço paraguaio do PCC, o Primer Comando Capital PCC, que começou após a tentativa frustrada de assassinato do presidente Horacio Manuel Cartes Jara, pelos líderes do Primeiro Comando: Carlos Antonio Caballero e Jarvis Chimenes Pavão.

Com isso, pedidos de repatriação começaram a pipocar. Entre os alvos: Rovilho Alekis Barboza, o temido “Bilao”, preso há poucos dias, cercado por armas, drogas, dinheiro em espécie e um rastro de corrupção que envolvia não só a polícia local como também agentes da própria Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), órgão ligado à Presidência da República. Após o atentado frustrado do PCC, a extradição foi concedida assim que foi pedida.

Não é para menos, o juiz brasileiro Naor Ribeiro de Macedo Neto declarou que Bilao tem “um papel de destaque na intrincada organização criminosa de acordo com as investigações realizada pelo GAECO … (e sua) prisão … mostra-se necessária a fim de que seja desmantelada a organização criminosa.”

Uma estrutura que resiste ao colapso

Os homens são guiados pelas emoções e se reúnem em torno de líderes que sabem manipular com maestria sonhos, esperanças, pesadelos e medos — e Marcola domina essa arte como poucos.

Muitos líderes conduziram suas matilhas até o abismo. Estariam os seguidores de Marcola destinados ao mesmo desfecho?

Não. E é exatamente isso que assusta. Não estamos vendo um líder conduzindo seus adeptos à um ponto sem retorno, mas a mutação de um modelo. A um novo tipo de gerenciamento, mais adaptável, mais flexível, mais imune à repressão clássica.

A sociedade, em sua arrogância, acredita que pode empurrar o problema para além das fronteiras com políticas de extradição, escondê-lo em presídios de segurança máxima e sustentar uma política de segurança pública baseada no encarceramento e na repressão. Mas, inevitavelmente, chegará o dia em que será forçada a encarar a questão de frente. E, então, talvez descubra que, em sua soberba, não conteve o mal — apenas o fortaleceu, transformando uma organização criminosa em um organismo vivo.

Um organismo que aprendeu a sobreviver sem um único alfa.

Análise do artigo “A prisão de Rovilho Alekis Barboza e o fim do PCC” por IA

Resumo Executivo

A prisão e extradição de Rovilho Alekis Barboza, conhecido como “Bilão”, figura proeminente do Primeiro Comando da Capital (PCC), levantaram questionamentos sobre a estabilidade e o futuro da facção criminosa. Esta análise aprofundada demonstra que, embora a repressão no Paraguai e as tensões internas representem desafios significativos, o PCC não está em declínio. Pelo contrário, a organização tem demonstrado uma notável capacidade de adaptação e sofisticação, transformando-se em uma entidade criminosa transnacional mais resiliente e complexa. As purgas internas servem como mecanismos brutais de governança, enquanto a liderança encarcerada impulsiona a descentralização e a adoção de tecnologias avançadas. A atuação do Paraguai, embora mais assertiva, pode resultar no “efeito balão”, deslocando ou transformando as operações do PCC. A facção emerge como um ator global no narcotráfico, com parcerias estratégicas e uma estrutura flexível que a torna imune a táticas de repressão clássicas, exigindo uma reorientação das estratégias de segurança pública para combater sua arquitetura financeira e suas redes de corrupção.

1. Introdução: O Cenário do Crime Organizado e a Prisão de Rovilho Alekis Barboza

O Primeiro Comando da Capital (PCC) consolidou-se como a maior e mais influente organização criminosa do Brasil, estendendo sua atuação para além das fronteiras nacionais e exercendo um papel central no tráfico internacional de drogas e armas. Sua origem nos presídios de São Paulo e sua evolução para uma potência criminosa global são objeto de constante estudo e preocupação para as autoridades de segurança pública em toda a América Latina e Europa.

Nesse contexto, a prisão de Rovilho Alekis Barboza, vulgo “Bilão”, em março de 2017, no Paraguai, representou um marco significativo. Bilão era uma figura-chave, identificado pelas autoridades paraguaias como um dos líderes do PCC. Sua captura ocorreu em Ciudad del Este, onde foi encontrado com documentos falsos, armas, mais de US$ 60 mil em dinheiro e dois veículos. Investigações posteriores sugeriram que o montante em dinheiro seria destinado ao pagamento de propinas a policiais locais, evidenciando a profundidade de sua rede de influência.

A importância de Bilão para a facção é sublinhada pelo fato de ele ser considerado o “principal responsável pelo fornecimento de cocaína no sul do Brasil”. No Brasil, ele havia sido condenado a 40 anos de prisão por narcotráfico, embora outra fonte mencione uma sentença de 24 anos por tráfico e lavagem de dinheiro proferida pela Justiça Criminal de Maringá, no Paraná. Mesmo após sua prisão inicial no Paraguai, ele continuou a comandar o tráfico de drogas de dentro da Penitenciária Nacional de Tacumbú, em Assunção. Além disso, Bilão era suspeito de envolvimento no assalto milionário à empresa Prosegur em Ciudad del Este, ocorrido em abril de 2017.

A extradição de Bilão para o Brasil, em 22 de novembro de 2018, foi uma decisão direta da Presidência do Paraguai. Essa medida foi tomada apenas três dias após a extradição de Marcelo Pinheiro, conhecido como “Marcelo Piloto”, outro líder de alto perfil do PCC. A celeridade e a natureza da decisão presidencial para as extradições de Rovilho Alekis Barboza e Marcelo Piloto sinalizam uma mudança crucial na política de segurança do Paraguai. Essa ação transcende os processos judiciais rotineiros, revelando uma vontade política deliberada e agressiva de desmantelar os refúgios operacionais utilizados pelo crime organizado brasileiro em seu território. A intensificação da cooperação bilateral e uma postura mais assertiva contra a presença do PCC impactam diretamente a capacidade da facção de operar impunemente a partir do Paraguai.

A posição de Bilão como “líder” e “principal responsável pelo fornecimento de cocaína no Sul do Brasil” destaca a dependência do PCC em indivíduos especializados para operações logísticas e financeiras críticas. Sua captura representa mais do que a perda de um membro; é uma interrupção significativa em um nó vital da cadeia de suprimentos do tráfico internacional de drogas do PCC, afetando particularmente o lucrativo corredor do Sul do Brasil (Rota Caipira). A remoção de um ativo de tão alto valor, com conhecimento e contatos específicos, impõe à organização a necessidade de encontrar um substituto, o que pode expor vulnerabilidades durante a transição ou exigir a reconfiguração de rotas de suprimento, gerando custos e riscos adicionais.

2. Dinâmicas Internas do PCC: Rachaduras e Desafios de Liderança

O PCC, apesar de sua estrutura robusta, não está imune a conflitos internos e disputas de poder, que são frequentemente descritos como uma “guerra interna” ou “racha” dentro da facção. Um dos episódios mais marcantes que catalisaram essa divisão foi a execução de dois membros de alto escalão, Rogério Jeremias de Simone, “Gegê do Mangue”, e Fabiano Alves de Souza, “Paca”, em fevereiro de 2018. A motivação alegada para suas mortes foi o desvio de dinheiro do PCC e a ostentação de uma vida luxuosa.

Gilberto Aparecido dos Santos, “Fuminho”, um aliado próximo e apontado como “02” de Marcola, foi acusado de orquestrar esses assassinatos. A subsequente decisão de Marcola de perdoar alguns dos envolvidos nas mortes de Gegê e Paca gerou ainda mais dissidência interna, resultando na remoção de figuras como Daniel Vinícius Canônico, “Cego”, da “sintonia final geral” por se opor ao perdão. Mais recentemente, em fevereiro de 2024, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) investigou uma nova cisão interna, com mensagens interceptadas indicando a “exclusão” e “decretação” (sentença de morte) de três membros de alto escalão: Roberto Soriano (“Tiriça”), Abel Pacheco de Andrade (“Vida Loka”) e Wanderson Nilton de Paula Lima (“Andinho”). A razão citada foi “calúnia e traição”, ligada à divulgação de áudios de Marcola. Essa tensão interna tem gerado um clima de ansiedade nos presídios paulistas, levando detentos a solicitar transferências para unidades consideradas “neutras”.

As “rachaduras internas” e a “guerra interna” observadas no PCC, incluindo a “decretação” de membros de alto escalão, não indicam necessariamente um enfraquecimento sistêmico da organização. Pelo contrário, essas purgas internas violentas funcionam como um mecanismo brutal, mas eficaz, de governança e disciplina interna. Ao eliminar aqueles percebidos como traidores ou violadores das regras internas, como desvio de fundos ou traição, o PCC reforça sua autoridade, mantém a coesão e se adapta aos desafios internos. Essa dinâmica é semelhante à forma como máfias estabelecidas, como a Cosa Nostra, mantêm a ordem e impõem seu código, onde a lealdade e a punição por traição são pilares fundamentais. Tais atos não são aleatórios, mas medidas calculadas para impor as regras e dissuadir futuras transgressões, consolidando o poder e assegurando a adesão aos princípios da facção, mesmo que isso signifique eliminar figuras de destaque.

Marcos Willians Herbas Camacho, “Marcola”, permanece uma figura central, apesar de cumprir penas que somam mais de 300 anos em presídios federais desde 2019. Alega-se que ele continua a emitir ordens, incluindo planos de assassinato, mesmo de dentro das grades. A transferência de Marcola para presídios federais e seu prolongado isolamento são tentativas das autoridades de conter sua influência. No entanto, sua capacidade de comunicação e de influenciar os assuntos da facção, mesmo por meio de mensagens codificadas, demonstra o desafio de conter a liderança criminal de alto nível. Embora em alguns bancos de dados apontem “erros de liderança”, o mais provável é que esses registros retratem disputas internas e ações disciplinares, e não falhas estratégicas capazes de enfraquecer a organização como um todo. Os áudios vazados revelam uma vulnerabilidade na comunicação, mas não caracterizam, por si só, um erro estrutural na condução do PCC.

A continuidade da liderança de Marcola a partir de prisões federais 16 e os desafios de comunicação daí decorrentes, como os áudios vazados que levaram a “decretações”, provavelmente serviram como um ímpeto crucial para o PCC refinar ainda mais sua estrutura organizacional. A evolução de um modelo piramidal para um modelo mais celular e descentralizado é uma resposta adaptativa direta para mitigar as vulnerabilidades associadas a uma liderança encarcerada, garantindo a continuidade operacional e a resiliência contra estratégias de “decapitação”. Essa adaptação estrutural torna o PCC significativamente mais difícil de desmantelar por meio de métodos de aplicação da lei tradicionais que se concentram na captura de líderes-chave. A capacidade do PCC de evoluir seu próprio mecanismo de comando e controle é um forte indicador de sua sofisticação e da ameaça que representa a longo prazo.

3. A Repressão no Paraguai e suas Consequências para o PCC

O Paraguai tem intensificado seus esforços contra as facções criminosas brasileiras, em particular o PCC, resultando em diversas extradições de membros de alto escalão. Além de Rovilho Alekis Barboza e Marcelo Piloto, outros líderes como Jarvis Chimenes Pavão e Carlos Antonio Caballero (“Capillo”) também foram extraditados. Essas ações demonstram um esforço coordenado do governo paraguaio para “remover criminosos do território paraguaio”.

Operações conjuntas entre a Polícia Federal brasileira e a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) do Paraguai têm sido cruciais, envolvendo o intercâmbio de inteligência e prisões coordenadas. O PCC estabeleceu uma forte presença no Paraguai, especialmente na região de Pedro Juan Caballero e na Tríplice Fronteira, utilizando-a como um centro estratégico para o tráfico de drogas e armas. A influência do PCC é tão profunda que seus membros operam e recrutam inclusive de dentro das prisões paraguaias.

A intensificação da repressão, particularmente após eventos como o assassinato do traficante rival Jorge Rafaat Toumani pelo PCC em 2016, foi “traumática para o país” e impulsionou uma resposta mais agressiva das autoridades paraguaias. O assassinato do promotor paraguaio Marcelo Pecci em maio de 2022, com fortes indícios de envolvimento do PCC, é um exemplo da disposição da facção em usar violência extrema para proteger seus interesses e operações no país. Este evento conferiu uma “dimensão internacional” à situação no Paraguai.

O Paraguai ocupa o quarto lugar no Índice Global de Crime Organizado, o que ressalta sua vulnerabilidade e o profundo enraizamento do crime organizado, criando um ambiente fértil para grupos como o PCC. A expansão do PCC no Paraguai, iniciada por volta de 2010, foi impulsionada por seu foco no tráfico de drogas, aproveitando um ambiente menos repressivo em comparação ao Brasil.

O assassinato do promotor Marcelo Pecci por suspeita de envolvimento do PCC é uma escalada crítica no conflito entre o Estado e o crime organizado no Paraguai. Esse ato demonstra que a resposta do PCC à repressão intensificada não é a retirada, mas sim a disposição de se engajar em violência de alto nível e direcionada contra agentes estatais para proteger suas operações lucrativas e manter sua influência. Isso contribui diretamente para a posição do Paraguai como um “centro da criminalidade mundial” e sinaliza um perigoso ciclo de feedback, onde a pressão estatal é recebida com violência criminosa extrema, desestabilizando ainda mais o Estado de Direito.

Embora a repressão e as extradições no Paraguai visem desarticular o PCC, o profundo enraizamento da facção nas prisões paraguaias, sua “postura de confronto” e os “mecanismos de resiliência pobres” do Paraguai sugerem que essas medidas, por si só, podem não ser suficientes para um impacto a longo prazo. Em vez de levar ao declínio, essa pressão provavelmente força o PCC a se tornar mais clandestino, intensificar a corrupção de autoridades locais e explorar as fraquezas sistêmicas, exemplificando o “efeito balão”, onde a repressão em uma área meramente desloca ou transforma o problema.

Tabela 1: Principais Extradições de Líderes do PCC do Paraguai (2017-2018)
Nome/ApelidoData da ExtradiçãoPapel no PCCCrimes/Condenação no BrasilReferências
Rovilho Alekis Barboza (“Bilão”)22/11/2018Líder, principal responsável pelo fornecimento de cocaína no sul do Brasil40 anos por narcotráfico; 24 anos por tráfico e lavagem de dinheiro1
Marcelo Pinheiro (“Marcelo Piloto”)19/11/2018 (3 dias antes de Bilão)Um dos líderes, denunciado por homicídios, tráfico internacional de drogas e armas, falsidade ideológicaHomicídios, tráfico internacional de drogas e armas, falsidade ideológica1

A tabela acima ilustra a intensificação das ações do Paraguai contra o PCC, com a extradição de figuras de alto valor estratégico para a facção. A rapidez e a decisão presidencial por trás dessas extradições destacam uma mudança na política paraguaia, visando a remoção ativa de criminosos de seu território.

4. Declínio ou Adaptação? A Resiliência e Transformação do PCC

A questão central sobre o PCC não é se ele está em declínio, mas sim como ele se adapta e se transforma frente aos desafios impostos pela repressão e pelas dinâmicas internas. Apesar dos conflitos internos e da pressão externa, a estrutura do PCC é considerada “relativamente bem consolidada” por especialistas. A facção demonstrou uma notável capacidade de expansão, com presença em 28 países e mais de 2.000 membros, com destaque para o Paraguai, Venezuela, Bolívia e Uruguai. O PCC consolidou sua posição no mercado internacional de drogas, controlando importantes rotas de tráfico de cocaína da América do Sul para a Europa. Seu modelo de negócios prioriza a “expansão silenciosa dos mercados em detrimento de guerras territoriais violentas e caras e confrontos com o Estado”, o que reduz a “atenção indesejada” e permite um crescimento mais sustentável. A organização também soube aproveitar o rápido crescimento da população carcerária brasileira para expandir seu recrutamento e influência.

A evolução estratégica do PCC de uma hierarquia rígida e piramidal para uma estrutura mais flexível, celular e “franquiada” é uma resposta adaptativa sofisticada à repressão estatal contínua, especialmente ao encarceramento e isolamento de líderes de ponta como Marcola. Essa descentralização aumenta significativamente a resiliência da organização contra ataques de “decapitação”, permitindo a continuidade operacional e a tomada de decisões distribuída mesmo quando figuras-chave são removidas ou confinadas. Essa transformação implica que as estratégias tradicionais de aplicação da lei, focadas em atingir líderes individuais, terão retornos decrescentes. A adaptabilidade do PCC significa que simplesmente remover uma cabeça não mata o corpo; em vez disso, o corpo aprendeu a funcionar com múltiplos “cérebros” distribuídos, exigindo uma mudança nas estratégias de combate ao crime para desmantelar redes financeiras e cadeias logísticas mais amplas, em vez de se concentrar apenas na liderança.

O PCC, em parceria com a máfia italiana ‘Ndrangheta, demonstra grande habilidade no uso de tecnologia digital para atividades criminosas, incluindo fraudes em sistemas portuários, uso de criptomoedas e fintechs para lavagem de dinheiro, e golpes virtuais. A organização tem recrutado ativamente hackers e profissionais de tecnologia da informação. Parcerias estratégicas com poderosos cartéis mexicanos, como Sinaloa e Jalisco Nueva Generación (CJNG), foram estabelecidas para o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, com “Fuminho” atuando como um elo crucial. O PCC também infiltra ativamente setores econômicos legítimos, como construção, restaurantes, aviação e imóveis, para lavar seus lucros ilícitos.

A adoção agressiva e rápida de tecnologias digitais avançadas pelo PCC, incluindo o uso de criptomoedas para lavagem de dinheiro e o recrutamento ativo de profissionais de TI, juntamente com o aprofundamento de suas parcerias estratégicas com cartéis internacionais altamente sofisticados (como os cartéis mexicanos de Sinaloa e CJNG, e a ‘Ndrangheta italiana), representa um salto profundo em sua sofisticação operacional. Essa evolução posiciona o PCC para além de uma gangue criminosa de rua tradicional, transformando-o em uma empresa criminosa verdadeiramente transnacional, digitalmente capacitada e financeiramente complexa. Essa sofisticação crescente apresenta um desafio significativamente mais complexo para a aplicação da lei nacional e internacional. Exige uma abordagem multidisciplinar que envolva especialistas em crimes cibernéticos, unidades de inteligência financeira e cooperação internacional aprimorada, mudando o foco de prisões puramente físicas para o desmantelamento de infraestruturas digitais e financeiras complexas.

Tabela 2: Indicadores de Força e Expansão do PCC (2017-2025)
IndicadorValor/DescriçãoPeríodo de ReferênciaReferências
Número de Países com Presença28 paísesAté 202544
Membros EstimadosMais de 2.000 integrantesAté 202544
Rotas de Tráfico InternacionalAmérica do Sul para Europa, controle de grandes fluxos de cocaína2017-202545
Adaptações Tecnológicas ChaveUso de Criptomoedas, recrutamento de hackers, fraudes em sistemas portuáriosAté 202550
Principais Parcerias InternacionaisCartéis Mexicanos (Sinaloa, CJNG), Máfia ‘Ndrangheta (Itália)Desde 201848
Infiltração em Setores LegítimosConstrução, restaurantes, aviação, imóveis para lavagem de dinheiroNão especificado, mas uma prática contínua46

A tabela acima consolida as evidências que refutam a ideia de um declínio do PCC, mostrando, em vez disso, uma organização em plena expansão e com crescente sofisticação operacional. Os dados indicam uma capacidade adaptativa que permite ao grupo não apenas resistir à repressão, mas também se fortalecer e diversificar suas atividades criminosas em escala global.

5. O PCC no Contexto Global: Comparativos com Outras Organizações Criminosas

A análise da trajetória do PCC revela características que o aproximam e o diferenciam de outras grandes organizações criminosas globais, como os cartéis colombianos e mexicanos, e a máfia italiana.

O PCC estabeleceu “parcerias de conveniência” com dois dos mais violentos cartéis mexicanos, Sinaloa e Jalisco Nueva Generación (CJNG), desde pelo menos 2018. Essas conexões, facilitadas por figuras como “Fuminho”, visam abrir caminho para futuras transações comerciais, novas rotas de drogas e alianças para lavagem de dinheiro. Uma colaboração profunda também existe com a máfia italiana ‘Ndrangheta, reconhecida por sua adaptabilidade tecnológica. Essa parceria fortalece as rotas transatlânticas de cocaína e envolve crimes digitais sofisticados, incluindo fraudes em sistemas portuários e uso de criptomoedas. O PCC “aprende com as máfias locais” e busca eliminar intermediários para operar diretamente na distribuição de drogas na Europa.

Ao contrário do Cartel de Medellín, cujo colapso esteve intrinsecamente ligado à morte de seu líder carismático e centralizado, Pablo Escobar, em 1993, a estrutura descentralizada, celular e “franquiada” adotada pelo PCC oferece um modelo fundamentalmente diferente e superior de resiliência contra estratégias de “decapitação”. Os conflitos internos dentro do PCC, embora brutais, assemelham-se mais às purgas internas e ações disciplinares observadas em máfias duradouras como a Cosa Nostra para manter a ordem interna e impor a lealdade, em vez de ameaças existenciais que levam ao colapso sistêmico. Essa comparação destaca que simplesmente visar líderes individuais, embora importante, é insuficiente para desmantelar o PCC. Sua natureza institucionalizada e estrutura adaptativa significam que ele pode absorver a perda de pessoal-chave e continuar a operar, tornando-o uma ameaça mais duradoura e complexa do que os cartéis históricos.

O PCC é considerado por especialistas como tendo atingido o “status de máfia”, o que indica um nível de institucionalização e resiliência que vai além das gangues típicas. A organização demonstra uma “imunidade à repressão clássica” devido à sua capacidade de corromper e intimidar funcionários públicos, neutralizando eficazmente os esforços estatais. O “efeito balão” descreve como a repressão em uma área meramente desloca o problema para outras, um fenômeno que o PCC explora. Seu modelo de negócios prioriza a “expansão silenciosa” em vez do confronto direto e violento com o Estado, o que reduz a “atenção indesejada” e permite um crescimento mais sustentável.49

A demonstrada “imunidade à repressão clássica” do PCC, manifestada através de sua corrupção generalizada de agentes estatais, sua evitação estratégica de confronto direto com o Estado e sua exploração do “efeito balão” ao deslocar operações, desafia fundamentalmente as táticas tradicionais de aplicação da lei. Isso exige uma mudança radical nas estratégias de combate ao crime, passando de medidas puramente punitivas e focadas na interdição para uma abordagem mais holística e orientada pela inteligência. Essa nova abordagem deve priorizar a desarticulação dos fluxos financeiros, o desmantelamento das redes de corrupção e o fomento de uma robusta cooperação judicial e de inteligência internacional, espelhando os esforços bem-sucedidos, embora prolongados, contra a máfia italiana.

6. Perspectivas Futuras e Implicações Estratégicas

A contínua expansão e transnacionalização do PCC amplificam significativamente a violência e as atividades ilícitas em toda a América do Sul, levando a um aumento da desconfiança mútua entre os estados devido à corrupção de funcionários públicos. O crime organizado transnacional, com o PCC como principal exemplo, é identificado como o principal fator de risco comum para a segurança nos países sul-americanos, exigindo uma resposta regional conjunta e coordenada. O “modelo-facção” pioneiro do PCC e do Comando Vermelho (CV) se espalhou pelo Brasil e países vizinhos, resultando em periferias urbanas divididas e controladas por várias organizações criminosas. A influência do PCC se estende além do tráfico de drogas tradicional para diversos mercados ilegais, incluindo mineração ilegal, exploração madeireira, serviços de proteção armada, imóveis e fluxos financeiros globais. O aumento do consumo de cocaína no Cone Sul está diretamente ligado ao aumento da produção na região.

Pesquisadores como Bruno Paes Manso têm estudado extensivamente a ascensão do PCC e seu complexo impacto nas dinâmicas criminais, incluindo seu papel na potencial redução de homicídios pela imposição de uma “ordem”. A própria narrativa do PCC e seu “poder secreto” são cada vez mais objeto de análise acadêmica e documental. Estudos acadêmicos consistentemente destacam a evolução e internacionalização do PCC como uma área-chave de preocupação. Autoridades e relatórios de inteligência reconhecem a força formidável do PCC, seu alcance global e sua capacidade de corromper agentes estatais.

A evolução contínua do PCC para um “ator global” com capacidade de operar em diversas moedas, infiltrar setores econômicos legítimos e empregar células especializadas para atacar autoridades estatais indica uma trajetória clara em direção a uma entidade criminosa altamente sofisticada e quase-estatal. Essa transformação representa um risco sistêmico que vai além dos desafios tradicionais de aplicação da lei, minando fundamentalmente a governança, o Estado de Direito e a estabilidade interestatal em toda a América do Sul. A existência de uma célula “restrita” especializada dentro do PCC, treinada por grupos como a guerrilha do Exército do Povo Paraguaio (EPP), aponta para um foco estratégico em operações de alto risco, incluindo o direcionamento de autoridades. O PCC busca estabelecer parcerias para lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e aquisição de armamento pesado, aumentando ainda mais suas capacidades operacionais e o nível de ameaça.

Embora a questão inicial levante a possibilidade de um “declínio” do PCC devido a “rachaduras internas” e “erros de liderança”, a vasta evidência apresentada neste relatório aponta para a profunda resiliência e a contínua transformação da facção. As fissuras internas e os desafios de liderança parecem ser mais bem compreendidos como lutas internas por poder ou ações disciplinares dentro de uma organização robusta e adaptável, em vez de indicadores de colapso sistêmico. Paradoxalmente, essas dinâmicas internas podem até contribuir para sua força adaptativa, ao purgar elos percebidos como fracos ou ao impor uma adesão mais rigorosa ao seu código operacional e estatutos. O PCC é uma organização altamente adaptável e resiliente, onde o atrito interno e os desafios de liderança são gerenciados por meio de mecanismos internos brutais, contribuindo, em última instância, para sua sobrevivência a longo prazo e sua evolução para uma entidade mais sofisticada e perigosa.

7. Recomendações Estratégicas

Diante da análise apresentada, que aponta para a resiliência e a crescente sofisticação do PCC, as estratégias de segurança pública e combate ao crime organizado devem ser reavaliadas e aprimoradas. As seguintes recomendações são propostas:

  • Fortalecimento da Cooperação Internacional e Regional: É imperativo aprofundar a colaboração entre Brasil, Paraguai e outros países da América Latina e Europa. Essa cooperação deve focar na troca de inteligência em tempo real, na realização de operações conjuntas transfronteiriças e na harmonização legislativa para combater a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas e drogas.
  • Combate à Lavagem de Dinheiro e Infiltração Financeira: A prioridade deve ser dada a investigações financeiras complexas para descapitalizar o PCC. Isso inclui o rastreamento de criptomoedas, a identificação e desarticulação de empresas de fachada em setores econômicos legítimos (como construção, restaurantes, aviação e imobiliário), e a imposição de sanções financeiras rigorosas.
  • Aprimoramento da Segurança Prisional e Combate à Corrupção: Medidas eficazes são necessárias para impedir a comunicação e o comando de líderes presos, como Marcola. Isso envolve o uso de tecnologia para bloquear sinais de celular e a implementação de programas robustos de combate à corrupção dentro dos sistemas penitenciários e das forças de segurança, visando eliminar a “imunidade” da facção.
  • Investimento em Inteligência e Análise de Dados: É crucial desenvolver capacidades avançadas de inteligência e análise de dados para monitorar e prever as adaptações tecnológicas e estruturais do PCC. Isso inclui a análise de grandes volumes de dados (big data), o monitoramento de redes sociais e a compreensão de novas tendências no crime organizado digital.
  • Estratégias de Desmobilização e Prevenção: Além da repressão, são necessários programas sociais e econômicos abrangentes em áreas vulneráveis para reduzir o recrutamento de novos membros pelo PCC. Paralelamente, devem ser desenvolvidas estratégias de desmobilização para membros de baixo e médio escalão, oferecendo alternativas e caminhos para a reintegração social.
  • Revisão de Estratégias de Combate ao Narcotráfico: As políticas atuais de combate ao narcotráfico devem ser reavaliadas, considerando o “efeito balão” que desloca o problema para outras regiões. É fundamental adotar abordagens mais abrangentes que incluam a redução da demanda por drogas, o controle de precursores químicos e o desmantelamento de toda a cadeia de valor do tráfico, não apenas as rotas e os transportadores.
  • Reconhecimento da Natureza Evolutiva do PCC: As autoridades devem adotar uma perspectiva de longo prazo que entenda o PCC como um organismo adaptável e resiliente. Isso exige flexibilidade e inovação contínuas nas respostas estatais, abandonando a expectativa de um colapso iminente e focando na contenção de sua influência e na mitigação de seus impactos sistêmicos.

Volta Roberto Tenório Bezerra ̶ Robertinho do PCC.

Toda religião tem seu líder e seus ídolos, e Robertinho não faz parte desse seleto grupo por composto por Marcola, Gegê do Mangue, Pavão e a Dona de Copas.

O Reino da Salvação prometido pelo Primeiro Comando da Capital para seus seguidores só será alcançado graças aos espetáculos midiáticos promovidos por esses líderes que agregam seguidores, criam a imagem pública de Robin Hood, e manobram a sociedade através do discurso de defesa dos oprimidos pela sociedade.

Nem só de pão vive o homem, mas a fé nesses líderes se dissolveria a primeira brisa se não tivessem cavado um alicerce fundo e Roberto Tenório Bezerra é parte dessa base sólida, que sustenta o PCC como organização internacional de drogas.

Robertinho atua há mais de vinte anos na Tríplice Fronteira entre o Brasil, o Paraguai, e a Argentina. Ele já foi preso nesses três países e está condenado a 30 anos de prisão no Brasil, e agora está voltando deportado para cumprir sua pena.

Ele ficou preso por algum tempo no Presídio de Alta Segurança de Charqueados mas não deixou de gerenciar seus negócios de dentro do sistema prisional, quanto a esse fato o Ministro Ricardo Lewandowski analisando um Habeas Corpus pedido por Robertinho disse:

Cabe destacar … duas remessas contaram com a relevante coordenação de Roberto Tenório Bezerra, … apontado como um dos maiores fornecedores de drogas do Paraguai para o Brasil em atividade na região da tríplice fronteira.


Embora recolhido … comanda com total desenvoltura, via celulares, os trabalhos do traficante situado no Paraguai de codinome William ou Beija-Flor, junto ao qual Robson vem adquirindo as cargas…

O Robson citado por Lewandowski é ninguém menos que Robson Carlos de Andrade Maciel, o “Robinho do Dendê”, chefe da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP), que tem negócios com o PCC através de Robertinho, mas são inimigos de sangue dos Amigos dos Amigos (ADA) que são aliados do Primeiro Comando da Capital.

O Ministro Lewandowski deu sua opinião a respeito das negociações que aconteceram entre os dois de dentro dos presídios:

“Com base no monitoramento telefônico e diligências de campo, … “Robinho do Dendê”… Exercendo o comando intelectual das negociações, … é a expressão acabada da falência do sistema penitenciário brasileiro … não o privou do acesso fácil e indiscriminado a diversos aparelhos celulares…”

Bem, nem toda alegria dura para sempre e nem todo sofrimento é eterno. O segurança do presídio de alta segurança não foi alta o suficiente para manter Robinho preso e ele fugiu e passou a comandar seus negócios do Paraguai, mas deixou o país após um cerco da polícia paraguaia em 2013.
Foi recapturado em  mas acabou sendo capturado em janeiro de 2014 em um hotel em Puerto Iguazú na província argentina de Missiones. Novamente ganhou as ruas por meios tortos e acabou sendo novamente capturado no último dia 3 no centro da Ciudad del Este no Paraguai.

O governo paraguaio continua em sua política de extraditar o mais rápido possível os membros da cúpula da facção para o Brasil e agora Robertinho está de volta, não trouxe consigo o Reino da Salvação prometido pelo Primeiro Comando da Capital para seus seguidores, mas quem sabe está mais perto de ser um líder midiático e não mais apenas como uma das rochas sólidas da fundação.

No Chaco, o roubo de dois pequenos aviões sugere a entrada do Primeiro Comando da Capital, o grupo de drogas mais poderoso do Atlântico sul-americano.

deputado provincial e Ex-Secretário de Gestão Federal do Ministério da Segurança Nacional Enrique Thomas.

Primeiro Comando PCC para americanos e ingleses.

Estamos cheios de pessoas com razão quando o assunto é o Primeiro Comando da Capital que é visto por uns como uma organização satânica e por outros como justos representantes contra os opressores, e isso não é bom.

Karina conseguiu manter seu estudo longe dessas certezas.

A mídia e alguns grupos políticos se comportam como membros de algumas seitas religiosas que insistem em pleno século XXI em exigir as cabeças dos membros das outras seitas religiosas.

A grande massa assiste boquiaberta aos calorosos debates, ora acreditando que a extrema direita deve assumir o poder para queimar os ímpios, ora acreditando que os ímpios são puros e maus são seus opressores de extrema direita.

O professor Jonathan Haidt do departamento de psicologia da University of Virginia aponta em seu trabalho de pesquisa sobre as bases da moralidade nas diversas culturas justamente o crescente do desaparecimento do poder do acadêmico se manter fora dessa disputa e fazer uma análise prudente das questões sociais.

Karina conseguiu manter seu estudo dentro dessa prudência.

Ela demonstra que o PCC não é um grupo de “irmãos batizados” que estão lá unidos com uma finalidade criminosa, são milhares de pessoas criminosas ou não formando uma complexa cadeia que “desafia nossa imaginação sociológica” cujo arranjo da vida social entre os detentos e em relação ao Estado criou algo novo, algo híbrido.
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O PCC ao contrário do que a maioria de seus membros acredita não existiria fora do Estado e do Sistema que não apenas o sustenta mas também o fortalece. Também se opondo a visão da maioria dos estudiosos, Karina afirma que a facção não está dentro dos presídio para substituir ou complementar suas falhas, ele é parte integrante do sistema.

Todos nós temos dentro de nós um  “preconceito inconsciente” e quem aos batem no peito dizendo que não é seu caso sugiro que nas próximas férias visitem o Templo de Apolo em Delfos, e assim como Sócrates aprendam por lá dois dos mais importantes lemas do templo: “conhece-te a ti próprio” e “nada em excesso”.

Karina manteve em seu estudo dentro essas máximas.

Assim ela descreve seu trabalho para CartaCapital:

“Minha pesquisa não oferece uma verdade absoluta. É um ponto de vista entre os inúmeros possíveis. Minha visão sobre o PCC não é nem mais, nem menos verdadeira do que a visão dos juristas, políticos, promotores, policiais. E cada um desses pontos de vista remetem a realidades distintas, todas elas absolutas em suas perspectivas.”

Bem, fica então aqui a sugestão de presente para aquele amigo ou amiga querida que ama a língua inglesa e já superou a fase de Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle, e Agatha Christie. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Gegê do Mangue condenado a 47 anos e 3 meses

A partir da condenação de Gegê do Mangue, o texto investiga a encenação da Justiça como espetáculo cultural e o modo como o sistema penal se mantém funcional à custa de corpos e narrativas falsas de ordem.

A condenação de Gegê do Mangue revelou mais do que um julgamento: escancarou os bastidores de um sistema que simula justiça enquanto alimenta sua própria engrenagem. Este artigo convida à reflexão crítica sobre o papel do Estado diante do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Leitura incômoda, mas necessária.


🎯 Público-alvo (até 30 palavras):
Estudiosos de criminologia, operadores do direito, jornalistas investigativos, militantes anticarcerários, críticos culturais e leitores interessados nas relações entre justiça, poder, espetáculo e crime organizado.

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundície.

Matheus 23: 27

A condenação de um homem. O alívio de um sistema. O silêncio de uma facção.

 1. O Espetáculo da Justiça

A condenação imposta a Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, não comoveu ninguém além da folha de papel onde foi impressa. A imprensa, como sempre diligente na arte de desviar os olhos, preferiu explorar o escândalo do ator global José Mayer — uma cortina de veludo para encobrir os escombros da Justiça.

Vivemos entre fachadas. A condenação de Gegê não representou justiça, apenas encenou seu cadáver. Foi mais um número no palco de marionetes onde toga, microfone e algema se confundem nos dedos de um Estado que precisa parecer justo para continuar sendo útil. No subterrâneo do Primeiro Comando da Capital, nenhuma engrenagem rangeu, nenhum protocolo foi revisto. A vida seguiu.

E nós? Seguimos como crianças em uma casa em chamas: gritamos, batemos os pés, acreditamos que alguém nos ouve — mas ninguém escuta. Nossas razões, tão legítimas quanto ignoradas, evaporam no calor de um sistema que não está preocupado com nossas esperanças. O PCC tampouco se importa. Gegê tampouco se importou.

Enquanto nas redes sociais celebravam a sentença com emojis de palmas, Gegê dormia — talvez em lençóis de linho, talvez em um leito de fuzis. E havia quem sorrisse diante da condenação televisionada, como se a encenação bastasse para desmontar a arquitetura invisível do poder carcerário.

Sim, o crime foi brutal. Mas a encenação judicial é igualmente cruel. O veredito serviu, acima de tudo, como lenitivo moral para quem ainda acredita que sentenças são capazes de conter o monstro que alimentamos entre as grades.

2. O Sistema Que Alimenta a Si Mesmo

Ninguém tem dúvidas — ou ao menos ninguém que conheça os bastidores: Gegê ordenou, sim, a execução de dois homens na favela do Sapé, no Rio Pequeno. Mandou matar de dentro da prisão, como manda quem conhece bem as rotas do poder. Foi eficiente, limpo, silencioso. Como a própria Justiça gostaria de ser.

Mas o que esse episódio revelou não foi a força do Estado. Revelou sua farsa.

O Código Penal e o Código de Processo Penal, que deveriam proteger o povo, foram gestados por homens que conheciam os atalhos do poder. Criaram dificuldades para vender facilidades. E o mercado floresceu: mais de um milhão de profissionais sustentam esse ciclo — entre as linhas do processo e os bastidores do foro íntimo.

A condenação de Gegê foi útil. Para o Estado, claro. Uma peça de propaganda institucional. Uma pausa coreografada no espetáculo de ineficiência. Uma maquiagem rápida antes do próximo cadáver.

Enquanto isso, os líderes da facção agradecem — talvez em silêncio, talvez com um brinde. Não pedem regalias. Pedem regras. Pedem respeito. E com isso, paradoxalmente, ganham algo mais valioso que qualquer privilégio: legitimidade interna.

A maioria da população, pacífica e esquecida, quer apenas viver — mas é essa mesma população que sustenta, com seu medo e sua esperança, o mito de uma Justiça que age em seu nome, mas que há muito trabalha por si mesma.

O julgamento de Gegê do Mangue não enfraqueceu o PCC. Fortaleceu sua narrativa. De um lado, o Estado posando de justiceiro. Do outro, os criminosos vestindo o manto dos oprimidos.

Gegê está morto — sim. Mas enquanto viveu, morreu rindo do veredito. E a sociedade, sedenta de sangue, ainda clama por novas condenações, como se isso bastasse. Quer ver os mesmos de sempre criando novas dificuldades — e vendendo soluções num ciclo que, em vez de justiça, entrega cadáveres.

Análise de IA do artigo: Gegê do Mangue condenado a 47 anos e 3 meses

Análise sob o ponto de vista factual e de precisão

Segue uma análise objetiva, separando os dados fáticos do artigo e avaliando-os criticamente com base em informações do meu banco de dados (atualizado até junho de 2024) e fontes jornalísticas confiáveis.

🔎 I. DADOS FÁTICOS PRESENTES NO TEXTO
1. Identidade e condenação
  • Nome completo: Rogério Jeremias de Simone
  • Alcunha: Gegê do Mangue
  • Organização: Primeiro Comando da Capital (PCC)
  • Condenação: Duplo homicídio triplamente qualificado e formação de quadrilha
  • Pena mencionada no título: 47 anos e 3 meses de prisão

📌 Verificação:

  • Gegê do Mangue foi de fato condenado por homicídio e envolvimento com organização criminosa, sendo uma das figuras centrais do PCC. Ele possuía diversas condenações criminais, inclusive por execuções ordenadas de dentro do presídio, como ocorre no caso citado.
  • Contudo, não há registro público confiável de que ele tenha sido formalmente condenado a exatamente 47 anos e 3 meses de prisão. A pena citada parece combinar múltiplas condenações, mas não consta nos sistemas oficiais como uma sentença única ou final pública nesse total exato.
2. Execução na favela do Sapé
  • Local: Favela do Sapé, bairro do Rio Pequeno, Zona Oeste de São Paulo
  • Crime: Execução de dois criminosos, supostamente ordenada por Gegê de dentro do presídio

📌 Verificação:

  • O bairro e local citados são verdadeiros e associados a atividades do PCC.
  • Gegê do Mangue, enquanto preso, foi acusado e investigado por ordenar execuções. No entanto, não há comprovação pública específica sobre sua condenação formal por execuções no Sapé, embora a prática de comando remoto seja frequente e documentada no modus operandi do PCC.
3. Imprensa destacou escândalo com José Mayer em vez da condenação de Gegê

📌 Verificação:

  • José Mayer enfrentou denúncias de assédio sexual em 2017, que repercutiram nacionalmente.
  • É plausível que parte da imprensa tenha dado mais destaque ao escândalo com Mayer do que a uma condenação criminal de Gegê, mas isso é uma avaliação editorial subjetiva, não um dado factual mensurável. A imprensa tradicional cobre frequentemente ambos os temas, embora com enfoque variável.
4. Gegê “seguiu livre”, sem alterar sua rotina após condenação

📌 Verificação:

  • Este ponto é incorreto ou cronologicamente inconsistente.
    Gegê do Mangue foi assassinado em fevereiro de 2018, junto a Fabiano Alves de Souza (Paca), em uma emboscada em Aquiraz, no Ceará.
  • Ambos estavam foragidos, vivendo com alto luxo, após abandonarem o sistema prisional de forma suspeita.
  • Portanto, dizer que “seguiu livre” após a condenação é tecnicamente verdadeiro por um período, mas ele acabou sendo executado por racha interno ou vingança entre lideranças do PCC.
5. Referências aos eventos de São Paulo (2006) e Espírito Santo (2017)

📌 Verificação:

  • São Paulo, 2006: confirma-se o ataque coordenado pelo PCC contra o Estado, resultando em mortes de policiais, agentes penitenciários e civis. Um marco na atuação paramilitar da organização.
  • Espírito Santo, 2017: refere-se ao colapso do sistema de segurança pública durante a greve da PM, com centenas de mortes e domínio de grupos armados nas ruas. Embora não diretamente ligado ao PCC, foi uma demonstração de caos sistêmico que o texto utiliza como analogia.
🧠 II. ANÁLISE CRÍTICA E CONTRAPONTO FACTUAL
Trecho do artigoAnálise factual
“Gegê do Mangue foi condenado por duplo homicídio triplamente qualificado e formação de quadrilha.”Parcialmente correto. Ele teve várias condenações, mas não se localiza com clareza um processo com essa tipificação única e isolada.
“A imprensa preferiu destacar o escândalo com José Mayer.”Subjetivo. Há indícios de desequilíbrio editorial, mas não há como medir objetivamente.
“Gegê seguiu incólume, sem alterar a rotina.”Falso. Ele fugiu do sistema prisional, viveu foragido no Ceará e foi assassinado em 2018.
“Execuções na favela do Sapé ordenadas por Gegê.”Possível, mas não comprovado judicialmente nos registros públicos como parte de uma condenação específica.
“Sistema jurídico opressor se alimenta de si mesmo.”Opinião/teoria política, não um dado. O número de advogados no Brasil ultrapassa de fato 1 milhão, mas não significa que todos estejam comprometidos com práticas descritas.
“Os ‘oprimidos’ saem vitoriosos com o descrédito do Estado.”Narrativa interpretativa, não mensurável. Pode ser usada como análise, mas não é verificável factualmente.
“O ciclo nos leva à ruptura, como visto em 2006 e 2017.”Comparações factíveis e plausíveis, embora distorcidas em parte, pois 2017 no ES não envolveu PCC diretamente.
📌 Conclusão

O artigo mistura fatos reais com interpretações subjetivas e analogias dramáticas. Isso faz parte do estilo proposto — com tons de denúncia e crítica social carregada. No entanto, alguns pontos importantes merecem correção ou contextualização, especialmente:

  • Gegê não estava mais em cárcere quando morreu. O texto passa a ideia de que ele permaneceu intocado pelo sistema, o que não é preciso.
  • A pena exata citada (47 anos e 3 meses) não aparece de forma inequívoca nos documentos públicos.
  • A suposta execução de criminosos no Sapé é plausível, mas falta referência específica à condenação correspondente.

Apesar dessas imprecisões, o artigo levanta questões legítimas sobre a teatralização da Justiça penal, a ineficácia da punição como resposta estrutural e o aproveitamento político-midiático das condenações. Do ponto de vista narrativo, cumpre o papel de provocar reflexão. Do ponto de vista factual, exige alguns ajustes e esclarecimentos para não cair no campo da desinformação.


Análise sob o ponto de vista da Psicologia Jurídica

Analisando o texto sob o ponto de vista da psicologia jurídica, o que se observa é uma articulação profunda entre representações sociais da Justiça, dinâmicas coletivas de crença no sistema penal e os efeitos subjetivos da punição enquanto espetáculo. Abaixo, segue uma leitura organizada por eixos analíticos:

⚖️ 1. A Justiça como Encenação: alienação e catarse coletiva

O texto denuncia o que a psicologia jurídica reconhece como um modelo teatralizado da justiça penal, onde a punição cumpre uma função simbólica, não necessariamente reparadora. Essa ideia encontra respaldo nas teorias de Michel Foucault, mas também nas leituras de autores como Eugenio Raúl Zaffaroni, que abordam a “teatralidade do processo penal”.

“A condenação de Gegê não representou justiça, apenas encenou seu cadáver.”

🔍 Análise:

  • A sociedade demanda punição como forma de alívio psíquico coletivo, independentemente da eficácia concreta da sentença.
  • A figura do condenado vira um bode expiatório moderno. A condenação é celebrada publicamente como um ritual de purificação social, mesmo que não tenha efeito real sobre a estrutura criminosa.
  • O espetáculo judicial atende à função catártica, liberando angústias difusas da população diante da insegurança cotidiana. Isso reforça o “mito da justiça punitiva”, estudado por Zaffaroni e Nilo Batista.

🧠 2. Despersonalização do réu e fetichismo da sentença

“Enquanto nas redes sociais celebravam a sentença com emojis de palmas, Gegê dormia…”

🔍 Análise:

  • A psicologia jurídica aponta o risco da despersonalização do sujeito condenado, que deixa de ser um indivíduo concreto (com história, contexto, motivações e grau de periculosidade) e passa a ser apenas um símbolo: o “bandido que precisa pagar”.
  • Essa fetichização da sentença estimula o que a criminologia crítica chama de função narcotizante do Direito Penal: oferece uma sensação ilusória de segurança e resolução, enquanto os problemas sociais estruturais permanecem intactos.
  • O uso da figura de Gegê como símbolo de uma justiça funcional (quando não é) também serve para legitimar o próprio sistema penal, mesmo que este fracasse em sua função ressocializadora.

🔄 3. O ciclo da punição e a retroalimentação do sistema penal

“O julgamento de Gegê do Mangue não enfraqueceu o PCC. Fortaleceu sua narrativa.”

🔍 Análise:

  • A crítica aqui toca diretamente em um ponto sensível da psicologia jurídica: a dialética entre punição e resistência.
  • Quanto mais repressivo o sistema, mais ele alimenta discursos de vitimização e resistência interna entre os sujeitos encarcerados, favorecendo o fortalecimento identitário de facções.
  • A punição, quando não acompanhada de legitimidade e clareza, passa a ser percebida como instrumento de opressão e não de justiça, gerando solidariedade defensiva dentro do cárcere — um fenômeno amplamente descrito por psicólogos forenses e sociólogos penitenciários.

👥 4. Dimensão psicossocial: sentimento de impotência coletiva e projeção de culpa

“Seguimos como crianças em uma casa em chamas…”

🔍 Análise:

  • A metáfora não é meramente literária: ela evoca um estado psíquico coletivo de impotência aprendida, conceito desenvolvido por Martin Seligman, que mostra como a exposição prolongada a situações de injustiça sem saída leva à apatia ou à revolta irracional.
  • A sociedade se sente impotente diante do crescimento do crime organizado e, para compensar, projeta sua frustração em rituais de punição exemplar.
  • Isso reforça o que a psicologia social chama de processo de desresponsabilização estrutural: “eu não mudo o sistema, mas aplaudo quem é punido em meu nome”.

🧩 5. Legitimidade, respeito e coerência: os valores que sustentam ou destroem o sistema

“Não pedem regalias. Pedem regras. Pedem respeito.”

🔍 Análise:

  • A psicologia jurídica tem destacado que a percepção de justiça é mais importante que a própria severidade da pena. Isso se alinha à ideia de “justiça procedimental” (Tyler, 1990).
  • Quando o condenado — ou o coletivo ao qual ele pertence — percebe que o tratamento recebido é arbitrário, contraditório ou humilhante, o sistema perde sua autoridade simbólica.
  • Nesse vácuo de legitimidade, facções como o PCC se apresentam como ordenadores morais alternativos dentro das prisões — oferecendo um “código” onde o Estado falha.

🔚 6. Conclusão: o ciclo traumático da justiça simbólica

Seu texto é, sob a lente da psicologia jurídica, um retrato agudo de uma sociedade aprisionada em um ciclo de encenação, punição e frustração. O sistema penal brasileiro, como você denuncia, opera menos como agente de pacificação social e mais como instrumento de alívio simbólico para a classe média ansiosa e para o próprio Estado — ambos reféns de suas inseguranças e conveniências.

A encenação da condenação de Gegê serve para acalmar consciências, preservar estruturas e manter o ciclo punitivo rodando, mas não oferece nem justiça real, nem segurança concreta.


Justiça em Cena: A Cultura Punitiva como Espetáculo no Brasil

por ChatGPT (OpenAI)

O texto de Wagner, ao narrar a condenação de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, propõe mais que uma denúncia jurídica: escancara as fissuras de uma cultura nacional que transformou a Justiça em ritual, e o sistema penal em dramaturgia institucional.

No Brasil, o veredito muitas vezes importa menos que sua encenação. A toga, o microfone e a câmera convergem num palco onde o Estado, fragilizado por sua própria ineficiência, tenta reafirmar sua autoridade através da punição visível, embora vazia. Essa cultura do espetáculo punitivo não busca resolução — busca aparência. A condenação de Gegê, nesse contexto, não desarticula a organização criminosa à qual pertencia. Serve, antes, como gesto simbólico: uma oferenda pública à sede moral de uma sociedade acuada.

A crítica torna-se ainda mais ácida ao expor o modo como a imprensa — e, por extensão, a cultura midiática — desvia o olhar para escândalos mais vendáveis, como o de um ator famoso, abandonando o debate estrutural que envolve o crime, o cárcere e a Justiça. Aqui, não se trata de omissão, mas de uma escolha cultural deliberada: o Brasil, habituado à teatralização do caos, consome violência como espetáculo e justiça como novela.

O texto ainda insinua um paradoxo incômodo: em meio à inconstância moral do Estado, é a facção que emerge com discurso coerente. Não pede favores, mas regras. Não exige impunidade, mas previsibilidade. Essa inversão simbólica, ao mesmo tempo que revela a falência do aparato estatal, aponta para uma cultura carcerária que se organiza, impõe códigos e, paradoxalmente, oferece uma narrativa mais sólida do que a do próprio Direito.

Por fim, ao evocar episódios como São Paulo em 2006 e o Espírito Santo em 2017, o texto aponta para um traço trágico da cultura política brasileira: a repetição. A justiça não corrige, apenas reinicia. O sistema não aprende, apenas ensaia. A morte não é exceção — é engrenagem.

Diante disso, o artigo de Wagner não é só um comentário sobre o crime. É um diagnóstico cultural de uma sociedade que aprendeu a conviver com a barbárie como se fosse parte do cenário. Um teatro que já não precisa de roteiristas, pois o script se autoescreve — com sangue, silêncio e sentença.

O discurso do PCC 1533 sob o prisma foucaultiano.

O Primeiro Comando da Capital não é um grupo de marginais que se uniram para executar uma ação criminosa, há uma sólida base social que o sustenta.

Luan Orsini se debruçou sobre essa questão e publicou os resultados de seu trabalho: “Der Diskurs der ‘Primeiro Comando da Capital’ und seine potentiellen Machteffekte in São Paulo”.

Orsini demonstra como a facção criminosa brasileira utilizou o que Michel Foucault denominou de contra discurso para legitimar tanto a existência da organização como os atos por ela praticados dentro e fora das prisões, deixando para trás o papel de vilões para serem vistos por seu público alvo como líderes legítimos da resistência a um sistema opressor que impede a inserção dos mais pobres.

Foucault publicou a “Vigiar e Punir” em 1975, e nessa obra descreveu o discurso e a justificação do Primeiro Comando da Capital no tempo em que seu líder mais conhecido, o Marcola, ainda tinha sete anos de idade e jogava bola no campinho perto em Osasco.

A opressão do sistema penal é culpa dos advogados.

Eu vejo gente morta ─ quem assistiu o filme “O Sexto Sentido” não tem como não se lembrar do momento em que o garoto fala essa frase para Bruce Willis. Como no filme os fantasmas muitas vezes não são quem pensamos.

Pergunta: quem criou e exige que se mantenha esse Código de Processo Penal tão horrendo que apenas o capeta em pessoa pode entender?
Resposta: O próprio capeta.

Rafael Godoi do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo foi voluntário em uma Pastoral Carcerária Católica em penitenciárias do estado de São Paulo e publicou um artigo etnográfico pensando a população presidiária:

“Experiência da pena e gestão de populações nas penitenciárias de São Paulo, Brasil”

O que impressiona na leitura é como ele descreve o desespero do detento que se sente amarrado, perdido, e injustiçado por não saber tempo que irá cumprir de verdade. Por incrível que pareça por vezes nem sabe se foi realmente condenado:

“… somos abordados por vários presos e suas questões: “O que precisa para pedir o extrato? Número de matrícula serve?” Quando nos aproximamos, uma longa fila já está formada. Fátima procura em sua pesada sacola o maço de extratos correspondente ao “raio” em que estamos e o entrega nas mãos do “setor”, que repassa a outro que o leva para a sala da “judiciária”, a fim de organizar a distribuição – um volume grande de presos se dirige para lá…”

A descrição da visita pastoral mais parece a mesa de um escritório de despacho de um advogado público, são dezenas de dúvidas, recontagens de tempo, e apelações. Fica evidente o clima de desespero de homens que não tem ideia de quanto tempo vão cumprir e aonde.

Pergunta: Afinal a quem interessa essa realidade?
Resposta: Ao próprio capeta.
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A cada dia se criam novas regras para abrandar o “injusto” sistema penal, criando mecanismos e mais mecanismos que permitem a defesa do preso, progressões, e benefícios.

O advogado então pode apelar…
O advogado então pode pedir o habeas corpus…
O advogado pode pedir o cálculo da pena…
O advogado para montar o semiaberto…
O advogado pode montar o BI…
O advogado…

Eu ouço gente morta. ─ Como no filme os fantasmas muitas vezes não são quem pensamos, e assim acontece com o sistema penal e carcerário brasileiro: são os advogados que impedem a mudança dessa realidade?

O Primeiro Comando da Capital PCC 1533 luta contra a opressão do sistema carcerário, mas de fato será que sabe quem é o fantasma que está assombrando a comunidade carcerária? Lutam contra o governo, contra as condições do cárcere, contra os policiais e agentes, mas será que de fato esses são os problemas que os afligem?

Quantos familiares e presos não foram iludidos por promessas e mais promessas, resultados possíveis e impossíveis por parte de advogados. Afinal, os advogados não são culpados da lei ser como ela é, ou são? Por quem de fato eles advogam? (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Oficiais e soldados das FARC vieram para o PCC?

Foi no dia 1º de dezembro de 2016. O mundo mudou, o futuro de todos nós talvez estivesse sendo reescrito naquele momento em que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia estavam depondo as armas depois de 52 anos de luta. Poucos de nós percebemos o que isso significaria para nossa segurança.

A guerrilha das FARC exercia-se com arrepiante brutalidade e esses homens não aceitariam com facilidade se curvar perante a opressão das autoridades, não aceitando as palavras doces e as gaiolas douradas. Isso pareceu para alguns claro, para outros nem tanto, mas a maioria dos brasileiros sequer pensou sobre esses problema.

Agora ele bate às nossas portas, mas o gigante adormecido ainda não percebeu.

A primeira fumaça veio dos massacres ocorridos no norte do país. Foram mais de cem almas que seguiram seu destino nos cárceres do Amazonas, Roraima, e Rio Grande do Norte. Várias foram as causas, mas o estopim foi o fim das FARC que mantinham o equilíbrio de forças entre as facções brasileiras na fronteira norte do Brasil.

No dia 3 de janeiro publicamos aqui uma matéria “O futuro do PCC a FARC pertence” onde trabalhamos um artigo de Román D. Ortiz publicada na Revista Ensayos Militares e que trazia alguma luz sobre esse vínculo pouco explorado pela imprensa brasileira.

No início desta semana Kevin Knodell publicou um artigo intitulado “Former FARC Fighters Make For Hot New Hires” em um site americano especializado em assuntos militares. Começa fazendo um histórico do Primeiro Comando da Capital do seu berço no Carandiru até a atualidade onde disputa fora das fronteiras brasileiras o domínio do crime organizado.

Não consegui verificar por outras fontes algumas informações passadas por Knodell em seu artigo, mas reproduzo aqui para ser avaliado pelo leitor.
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O artigo afirma que o governo colombiano declarou que há em torno de 150 à 300 revolucionários que não aceitaram o pacto e optaram pela clandestinidade, e esses estão sendo disputados por diversas organizações criminosas brasileiras entre elas o PCC e a Família do Norte FDN, além da facção colombiana Los Urabeños.

O grupo Urabeños está pagando algo em torno de US$ 600,00 por mês para os guerrilheiros que estão migrando para seu lado e trabalharem dentro das fronteiras da colômbia, isso é algo em torno de R$ 1.900,00. Não se sabe quanto as facções brasileiras estão oferecendo para que venham para cá.

O preocupante para nós brasileiros e principalmente para os militares é que os soldados das FARC não são especializados em tráfico de drogas e assalto como são os soldados das facções brasileiras, os colombianos foram treinados para confronto direto com as forças policiais e militares.

Knodell cita dois nomes que poderiam vir para o Brasil se juntar ao Primeiro Comando da Capital: Gentil Duarte e Francisco Javier Builes (John 40). Os dois foram expulsos no final do ano passado das FARC, Duarte por discordar do processo de paz, e John 40 que era o responsável pelas finanças da organização por desviar dinheiro para gastos pessoais.

A guerrilha das FARC que combateu com arrepiante brutalidade com a polícia e o exército colombiano por quase um século contra a “opressão das autoridades”, está se dissolvendo e alguns dos seus não estão aceitando as palavras doces e gaiolas douradas. Isso pareceu para alguns claro, para outros nem tanto, mas a maioria dos brasileiros sequer pensou sobre esses problema.

Talvez seja a hora do gigante acordar e começar a pensar. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Líder do PCC promete se vingar dos policiais.

Ontem ao publicar a matéria sobre as ações das forças policiais paraguaias na tentativa de barrar o crescimento do Primeiro Comando da Capital PCC 1533 naquele país, não poderia prever que Alfredo Barreto Guillén estaria sendo capturado naquele mesmo momento e que isso poderia ameaçar tantas vidas.

Uma megaoperação foi montada para sua captura. Três casas em em Hernandarias foram invadidas pelas forças públicas e sua mulher Rebeca Zaracho Giménez foi presa, assim como dois de seus aliados: Denis Morales e Lorenzo Pérez Acosta.
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Como homem chave do esquema da facção eu já imaginava que estivesse longe naquele momento, possivelmente atravessando a fronteira, mas os agentes foram informados que estaria bebendo na frente de uma de suas casas.

Quando a polícia chegou Alfredo tentou fazer uma fuga cinematográfica correndo para dentro do imóvel, passando por telhados, e pulando os muros das casas, atirando contra os policiais, mas acabou sendo baleado na perna no Bairro Las Mercedes.

Podemos ver a prisão de Alfredo e sua gangue de duas formas:

  • acreditar que é apenas uma prisão como as que acontecem diariamente, mais uma no dia a dia da eterna luta entre o bem e o mal, e assim perdermos as esperanças de que qualquer um dos lados vença; ou
  • olhar com otimismo se não com um triste realismo esse fato. O lado bom é que entre mortos e feridos se salvaram todos, e tem sido assim em quase todos os confrontos entre a célula paraguaia Primer Comando Capital PCC e as forças policiais.

Há nos dois casos um ponto de equilíbrio ao contrário de 2006 quando houve temporariamente a quebra desse pacto social implícito entre o mundo do crime, o da segurança pública, e o estado. E muitas pessoas morreram: agentes de segurança, cidadãos, e criminosos. Os mortos eram contados às dezenas na onda de ataque do Primeiro Comando da Capital.

Ontem ao publicar a matéria sobre as ações das forças policiais paraguaias não passou pela minha cabeça que um único homem poderia destruir todo o equilíbrio na qual a nossa sociedade se estruturou depois de 2006, mas Alfredo Barreto Guillén prometeu que mudará isso ao anunciar que a facção irá se vingar de sua prisão atacando os policiais paraguaios.

Oxalá não o permita, mas se permitir que Deus e o Inimigo estejam preparados para receber em seus braços mais uma dezenas de soldados dos dois lados dessa guerra. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Retorna ao Brasil o líder do PCC Carlos Caballero.

Ao contrário de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, que sempre negou ter ligação com a facção Primeiro Comando da Capital PCC 1533, Carlos Antonio Caballero, o Capillo, em vídeo assume ser um dos líderes da facção tanto no Paraguai quanto no Brasil.

Ele e Pavão, Jarvis Chimenes Pavão, foram presos juntos em 2009 e juntos também teriam arquitetado um plano para assassinar Horacio Manuel Cartes Jara, o presidente do Paraguai, que após o assassinato de Jorge Rafaat Toumani retirou os privilégios que eles tinham dentro do sistema prisional paraguaio:

“O pavilhão vip de Pavão era equipado com três suítes, camas de casal e televisores, além de contar com uma biblioteca, uma cozinha e um escritório onde ele despachava com seus comandados.” (Revista Veja)
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Após a queda da Ministra da Justiça do Paraguai, Carla Bacigalupo o Primeiro Comando da Capital teria oferecido uma recompensa de cinco milhões de dólares pela morte de Horacio Jara. A intenção seria suavizar a situação carcerária dos PCCs presos e impedir as extradições para o Brasil.

A extradição de Capillo demonstra que a facção não obteve êxito em pressionar o governo paraguaio. Durante o período que Capillo atuou pelo PCC nos países da fronteira sul do Brasil ele diminuiu o preço pago pelas drogas no exterior diminuindo as margens dos atravessadores paraguaios criando uma linha de fornecimento concorrente direta da Bolívia.

Nesse novo ambiente criado por Capillo a facção paulista pode se contrapor ao Comando Vermelho e seus aliados no Sul, já que os paraguaios negociavam com ambas as facções e poderiam a qualquer momento cortar ou diminuir o fornecimento de uma das gangues. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

O Primeiro Comando da Capital PCC 1533 na Bolívia.

A FELCN, grupo especializado no combate ao tráfico de drogas da Bolívia, nega a presença do PCC e do CV em presídios bolivianos. O Ministro do Governo da Bolívia, Carlos Gustavo Romero Bonifaz, afirma que a Bolívia é apenas uma rota de passagem para drogas, com cocaína vindo do Peru e maconha do Paraguai. A Bolívia faz parte da “Rota do Solimões”, controlada por sucessores de Nelson Flores Collantes e possivelmente ligada à facção amazonense Família do Norte. Algumas fontes brasileiras mencionam a possível presença de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, na Bolívia, mas as autoridades locais citam outros negociadores do PCC no país.

A Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico FELCN, grupo especializado no combate ao tráfico de drogas da polícia boliviana, descarta a possibilidade o Primeiro Comando da Capital PCC 1533 e do Comando Vermelho CV de estarem implantado dentro da Bolívia um sistema de domínio dentro e fora dos presídios como acontece hoje no Brasil.

Essa informação foi passada pelo Ministro do Governo da Bolívia Carlos Gustavo Romero Bonifaz, explicando que não existe interesse por parte das organizações criminosas brasileiras em se estabelecer no país por ser aquela nação apenas uma rota para a passagem das drogas para outros países.

Em entrevista para o noticioso El Deber, Carlos Romero informou que as facções brasileiras possivelmente mantenham em seu território representantes com a missão de gerenciar os interesses das gangues.

últimas notícias do Primer Comando de la Capital na Bolívia

Romero ainda explica que a cocaína comercializada na Bolívia é de origem peruana e é levada para o Brasil, a Europa, e Ásia; já a maconha vem do Paraguai e segue para o Chile e a Argentina. Cita como exemplo da lucratividade desse negócio a compra e o transporte para o México, onde há aproximadamente 380% de sobrepreço no destino.

A Bolívia faz parte da “Rota do Solimões” que segundo o Ministério Público Federal do Brasil é um dos principais caminhos de entrada das drogas no país pelo Norte e é controlado pelo sucessor de Nelson Flores Collantes agindo conjuntamente com o grupo Frente Primero, uma dissidência das Farc, e possivelmente com ligações com a facção amazonense Família do Norte FDN.

O narcotráfico está ganhando esta batalha contra o Estado, demonstrando supremacia no controle do território (…) Esses cartéis de drogas são organizados no exterior por grupos como Los Chapitos (um grupo de narcotraficantes do México), o PCC (Primeiro Comando da Capital), grupos combinados com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e, claro, eles têm equipamentos e armas de melhor qualidade do que as forças de ordem.

coronel do Exército da Bolívia Jorge Santistevan

Parte da mídia brasileira informa que hoje pode estar no país para comandar as ações da organização Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, mas as autoridades bolivianas afirmam que os últimos negociadores do “Primer Comando de la Capital” foram Maximiliano Dorado Munhoz Filho e Ozzie Dorado Lozadas.

Dr. Ormeleze condena réu por tatuagem de palhaço.

Cada palhaço no meu braço é um polícia que matei.

Já vi muito ladrão ficar com os olhos vermelhos e chorar na hora da sentença. Ratinho RT, Bruno Augusto Ramos, julgado por homicídio duplamente qualificado não foi exceção, afinal foi condenado a dezoito anos em regime fechado quando já estava quase caindo para o semiaberto no tráfico que cumpria.

O que chamou a atenção nesse caso foi que o Promotor de Justiça o Dr. Luiz Carlos Ormeleze arrancou lágrimas do réu no meio da audiência, e foi nesse momento que garantiu sua condenação pela morte de Rodrigo Teixeira Lima, ex-assessor parlamentar do Deputado Missionário José Olímpio.

Nenhuma sentença é garantida antes do fim da audiência, principalmente nesse caso onde a defesa poderia ter explorado a fragilidade da acusação que dependia de dois depoimentos na delegacia que foram mudados perante o juiz: do próprio Ratinho, e de Leandro que era pessoa que estaria dirigindo o carro que levou a vítima até o local de sua morte.

Ratinho RT tinha tudo a seu favor para conseguir provar que foi forçado a confessar o crime pelo investigador Moacir Cova e pela delegada Drª. Márcia Pereira Cruz: a mulher dele e o sogro dele foram levados na delegacia por suposto tráfico de drogas e foram liberados depois que Ratinho RT assumiu o BO e abraçou o homicídio.

Toda acusação então ficou na dependência do depoimento de Leandro que mudou suas declarações no judiciário, só sobrando de verdade os indícios técnicos, que podiam ser contestados com certa facilidade pela defesa.

Ela tentou explorar esse campo de forma técnica, mas todos sabem que o que vale no Tribunal do Júri é a emoção e o sentimento transferidos pelas partes para os jurados, e o Dr. Ormeleze sabe isso melhor que ninguém.
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A ESTRATÉGIA DO PROMOTOR

No início da audiência ele perguntou para o réu se ele tinha alguma tatuagem e antes mesmo de Ratinho RT responder ele afirmou que o garoto tinha um palhaço e carpa. E perguntou então o porque do palhaço, ao que o réu respondeu que era porque gostava de palhaço quando era garoto e por isso fez o desenho.

O Promotor de Justiça ironizou, tirou sarro, e disse que na realidade os dois símbolos ligavam a ele a facção criminosa Primeiro Comando da Capital PCC 1533, mas ficou por isso mesmo…

… bem é o que todos acharam…

… na última intervenção do Dr. Ormeleze ele colocou o vídeo que anexamos nesta matéria, onde um garoto canta alegre que cada polícia que ele matou é um palhaço tatuado. O Promotor de Justiça parou várias vezes o vídeo e se voltava para os policiais presentes dizendo que eles eram heróis, que os “vermes” citados na música eram eles, mas que ele Promotor de Justiça prestava homenagem aos homens que arriscam suas vidas para proteger a vida e aos bens de todos, de cada um dos presentes fossem eles os jurados ou até mesmo o matador de polícia.

A emoção tomou conta do plenário. Nesse momento o advogado de defesa olhava para baixo e fazia “não” com a cabeça, o Ratinho RT ficou com olhos vermelhos e um princípio de lágrima começou a sair, mas só veio de fato a cair na hora da condenação. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

TV Globo diz que em Goiás só fica preso quem quer.

Fica preso quem quer . Essa é a conclusão do repórter do Bom Dia Brasil

“Essa imagem revela o que todo mundo já sabe, só cumpre pena neste presídio quem quer. (…) Em vinte segundos trinta e dois presos já estavam nas ruas.”

E quem conhece o sistema diria mais, no Brasil a maioria das unidades do Sistema só não caem por decisão do Comando, pois se a facção resolvesse soltasse um Salve Geral ninguém seguraria.

Se isso não foi feito ainda é porque não interessa a ninguém: população trabalhadora, governo, e partido. Nos últimos meses o Primeiro Comando da Capital PCC 1533 está provando isso.

Depois da chacina do Amazonas ele só se fortaleceu e a última prova foi dada em Goiás.

A Colônia Agroindustrial do Regime Semiaberto do Complexo Penitenciário de Aparecida de Goiânia foi palco de uma fuga em massa: 32 presos fugiram em 20 segundos.

O estado de Goiás teve em apenas um mês seis rebeliões: Aparecida, Catalão, Jataí, Rio Verde, e Anapolis. Pelo menos quatro presos morreram e 35 ficaram feridos, mas o sistema não deu ainda o número de presos que fugiram no total das rebeliões.
(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); As revoltas começaram segundo o SEAP por que o governo resolveu colocar bloqueadores de celular nos presídios e transferiu centenas de presos.

Trezentos presos que foram transferidos de Aparecida para Anápolis sequer estavam na ala onde a fuga dos presos tinha se dado.

O governo de Goiás só vem com conversa nebulosa. Falta funcionários e o sindicato dos agentes disse que 900 aprovados no último concurso não foram chamados, agora o governador autorizou abrir concurso para mais 400.

Os que gerenciam essa fábrica de corrupção que são os concursos públicos é quem deviam estar presos, mas continuam a tentar enganar a população:

“Trata-se de uma intimidação inaceitável em face das medidas severas adotadas; e em hipótese alguma serão flexibilizadas.”

Então tá, vão vendo. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

A pena de morte aplicada pelo PCC e pela polícia.

Enquanto se discute no Brasil a possibilidade de aprovação da pena de morte, Graham Denyer Willis publica uma obra intitulada “The Killing Consensus: Police, Organized Crime, and the Regulation of Life and Death in Urban Brazil” desnudando a realidade brasileira.

Segundo o autor a pena de morte já existe e é plenamente aceita por diversos grupos sociais. Ele nos convida a abandonar nossas ilusões e enfrentar o fato que policiais e facções criminosas mantém a normalidade dentro de suas áreas utilizando esse mecanismo de justiça.

O Primeiro Comando da Capital PCC 1533 tem regras claras, escritas ou não, do que é ético no mundo do crime. A aplicação dessas normas acontece dentro das comunidades carentes e no mundo do crime. O resultado da ação da facção foi a diminuição dos homicídios e a normatização da segurança e do convívio dentro dos presídios e das regiões mais pobres sob seu domínio. Todos sabem que não cumprir a pena para quem não cumprir as regras é muitas vezes a morte, e isso é aceito consensualmente por parte da sociedade.
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O mesmo se dá com as forças policiais, que apesar de todas as regras de controle por vezes não matam apenas em nome da segurança pública ou em sua autodefesa, mas para fazerem justiça com suas próprias mãos. Outros personagens do sistema de social e de justiça relevam e encobrem essas ações ilegais protegendo os agentes públicos.

Willis tenta encontrar um padrão que explique a alternância dos períodos de paz e guerra entre os policiais e os criminosos e mesmo entre os próprios delinquentes entre eles mesmos, mas aparentemente não há um padrão. Quando há uma quebra por qualquer um dos lados desse acordo informal e tácito o “pacto do consenso” é temporariamente suspenso até que volte a imperar o que Willis chama de “soberania do consenso”.

Thomas Hobbes há quinhentos anos já explicava esse fenômeno quando afirmava que o homem quando defrontado com sua própria sobrevivência e sem poder contar com a proteção e controle das normas sociais de um estado passa a aceitar e defender o controle social por uma relação mútua de consenso com os outros membros de seu grupo. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

O Primeiro Comando administrará as penitenciárias.

O professor de Criminologia da Universidade de Westminster, o Dr. Sacha Darke, no artigo “When inmates make the rules (and enforce them): democracy in self-governing prisons” mostra que o sistema implantado nas prisões brasileiras pelo Primeiro Comando da Capital PCC 1533 nada mais é que um modelo de autogestão para viabilizar a administração do sistema penitenciário.

A autogestão das unidades carcerárias por parte dos presos é viável e já acontece na administração de meios, e no controle disciplinar e operacional, e não é apenas no Brasil que isso já acontece.

O artigo publicado no democraticaudit.com cita como exemplo a Prisão de San Pedro na Bolívia, que é uma verdadeira cidade, onde a administração é eleita pelos presos dentre os presidiários. Alguns deles vivem lá com suas famílias e tem empresas e empregos dentro dos muros da prisão.

De fato a comunidade está longe de ser um paraíso como é pintado pelos amantes dos Direitos Humanos: as lideranças dominam sob uma grande massa carcerária oprimida, agora não mais por agentes públicos mas pelos seus próprios pares, no entanto a experiência não pode ser desprezada.
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O sistema legal que escolhemos impede que cheguemos aos modelos nórdicos onde quase não existem prisioneiros, e nem mesmo na média da Europa, pois temos aqui mais de meio milhão de cativos, são 316 para cada grupo de 100.000 habitantes, mais que o triplo da média européia.

Nenhum país civilizado no mundo está à nossa frente. É insustentável. Dessa forma o governo deixa de ter condições de governar dentro dos presídios pois não tem condições de manter os serviços básicos, e é aí que entram as facções para suprir a impotência do estado.

No Brasil o PCC não é o único e nem foi o primeiro a atuar nesse campo, mas foi quem criou um sistema integrado nacional que utiliza milhares de profissionais das mais diversas áreas para dar um mínimo de dignidade e condições de vida para os presos.

O preconceito social que o Primeiro Comando da Capital carrega impede que haja a possibilidade de pleitear alterações legais para que assuma oficialmente a direção dos presídios, no entanto é possível que isso venha a acontecer utilizando empresas ou associações ligadas indiretamente ao grupo.

Hoje já existe um certo acordo entre as autoridades públicas e as lideranças das facções de modo a manter o sistema pelo menos em pé, mas esse arremedo está chegando a um ponto de ruptura.

A terceirização das prisões foi um passo dado mas a legislação aprovada não permitiu viabilidade para que o grupo assumisse a direção, ainda. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});