A imprensa e o Primer Comando de la Capital

A facção PCC nos países de língua espanhola é apresentada de quatro maneiras: reportagens especiais, bandeira política, varejo policial e citações ocasionais.

Bordoada seca em mim, que não deveria merecer

Ninguém sente mais pena que eu sinto de você, que padece lendo este artigo. Ninguém sofre mais do que eu sofro ao perceber que, por algum infortúnio, você acabou neste palavreiro tedioso. Por isso peço a você que leia apenas o próximo parágrafo e deixe este site…

É mais ou menos assim que em 1920, Rui Barbosa começa seu discurso de 37 páginas intitulado A imprensa e o dever da verdade, cuja estrutura utilizo por culpa de Valeria e de Márcio, que chamaram minha atenção para o tema: a verdade da imprensa e o PCC.

Perceba, não é de meu gosto dar canseira, escrevendo palavras vãs, quando se poderia chegar diretamente ao ponto, mas só assim posso apresentar como se deve o artigo El grupo más temido de Brasil ya aspira a controlar el narcotráfico de América Latina.

A repórter Valeria Saccone me colocou entre o cutelo e a parede com a publicação desse artigo no periódico espanhol El Confidencial. Senti como se minhas posses fossem-me retiradas de súbito por salteadores. Ela, com poucas palavras, humilhou-me e calou-me.

O que falei neste site sobre a imprensa → ۞

Uma visão clara e abalizada sobre a facção PCC

Valéria contou a história do PCC de forma que alguém que nunca ouviu falar da organização criminosa pudesse entender, e, ao mesmo tempo, fez uma análise profunda sobre sua atual situação e o seu impacto em todo o mundo.

Ela me humilhou e me calou com uma bordoada seca que eu não merecia ao mostrar como se pode fazer uma matéria jornalística de qualidade, levando não apenas a informação ao leitor, mas também lhe proporcionando prazer na leitura.

Foi por conta do artigo de Valéria, que se espalhou como fogo na palha por diversos sites latino-americanos e asiáticos, que parei para reparar nas diferenças entre as notícias transmitidas sobre o Primeiro Comando da Capital nas diversas nações.

Para isso, pedi ajuda aos universitários, e quem me socorreu foi Márcio Barbosa Norberto, com a tese Olhar para a fronteira: o fazer jornalístico em Laz Voz de Cataratas, Gazeta Diário de Foz do Iguaçu, e Vanguardia.

O que falei neste site sobre as fronteiras → ۞

Quem tem telhado de vidro…

Brasileiros viralizaram memes e comentários xenófobos quando se noticiou que refugiados sírios viriam para o país, outros, seguindo a mesma linha, exigiram que a fronteira com a Venezuela fosse fechada para evitar a entrada de integrantes das FARC (isso mesmo, das FARC!).

Márcio nos conta que o periódico paraguaio Vanguardia utilizou 21% de seu espaço falando sobre comércio, arte e cultura, saúde, cidadania, migração, infraestrutura e política, e 79% sobre controle de fronteiras, tráfico de drogas, contrabando, crime e organizações criminosas…

“… criando representações estereotipadas acerca do brasileiro de modo geral. Ao se referir ‘el extrangero’ o portal indica que o suposto membro do PCC não faz parte da nação paraguaia [… e] a imagem que se cria do brasileiro é a de traficante, criminoso, entre outras marcas que carregam este sentido.”

O preconceito alheio é tão bem fundado quanto o nosso, e não se pode culpar a facção por ter atravessado a fronteira, afinal, foi uma decisão nossa esconder o problema até que ele se tornou tão grande que não pôde mais ser oculto sob a peneira.

Onde citei preconceito neste site → ۞

A imprensa esconde o verdadeiro inimigo

Márcio conta que a imprensa paraguaia trata com naturalidade a corrupção e a ação das organizações criminosas — essa representação do discurso jornalístico reforça o imaginário popular e busca ofuscar o real inimigo, ao que Rui Barbosa resumiria mais ou menos assim:

Vede, senhores, vede se não é a clandestinidade, a hipocrisia, a mentira o que eles querem. A culpa do Primeiro Comando da Capital está mais em desnudar uma praga pública, de cuja existência todos sabem, todos se lastimam, todos se aterram, mas na qual poucos ousam pôr a boca.

Quem há de encarar aqueles que dispõe da vida e da morte, dando ou tirando a honra, erigindo ou demolindo reputações, convertendo a santidade em corrupção e a corrupção em santidade? Acusemos os estrangeiros ou acusemos os criminosos de sempre.

A imprensa acompanha o que se passa perto e o que se passa longe, enxerga os que tramam, sonegam e roubam a nação e a sociedade, mas se acautela e aponta dedos acusatórios em outra direção, sem ver o verdadeiro mal se vive, e essa é a condição em que vivemos.

Ninguém sente mais pena que eu sinto de você que, por algum infortúnio, acabou tendo que trabalhar para os grandes meios de comunicação, que são obrigados a fazer coro aos discursos dos governos, das empresas e dos políticos que ditam a linha editorial.

Onde citei o real e o imaginário neste site → ۞

A imprensa paraguaia e o Primer Comando Capital

O Paraguai é a principal base de operações da facção paulista fora do Brasil — milhares de brasileiros e paraguaios trabalham, direta ou indiretamente, para a facção nas mais diversas áreas de mercado — legal e criminoso, formal ou informal — e como agentes públicos.

Toneladas de drogas, armas, cigarros e outros produtos são comercializados, sob os olhos complacentes da administração pública, que mostram seus dentes e ocasionalmente abocanham alguns membros, mas sem matar a galinha dos ovos de ouro.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques explicam que os profissionais da imprensa compram as informações passadas pela polícia sem questioná-las, e essa prática, além de ser mais cômoda, adequa-se aos interesses das editorias e daqueles que querem manter o controle social.

Entendo as razões pelas quais a mídia local age dessa forma, difícil mesmo é entender por que o Paraguai é a única nação de língua espanhola a denominar a facção de “Primer Comando Capital” sem o “de la” — será que foi usado para pagar propina? — foi mal, preconceito meu.

O que falei neste site sobre o Paraguai → ۞

A imprensa hispânica e o Primer Comando de la Capital

Há anos acompanho diariamente as publicações sobre a facção Primeiro Comando da Capital em todo o mundo e, para mim, tornaram-se nítidas as diferenças nas formas narrativas da imprensa hispânica sobre os fatos envolvendo a organização criminosa:

  • Reportagens Especiais: Argentina, Colômbia e Espanha apresentam reportagens elaboradas, através pesquisa e com análise de especialistas, apresentando a organização criminosa como uma estrutura internacional de narcotráfico internacional e controle social nas periferias das cidades e no sistema carcerário.
  • Bandeira política: na Bolívia a facção é demonizada, e o ministro do governo Carlos Romero assume o papel de paladino da Justiça.
  • Varejo criminal: o Paraguai se detém ao noticiário policial diário, com reprodução do que é recebido dos órgãos policiais ou judiciários.
  • Citações ocasionais: as demais nações latino-americanas contentam-se em reproduzir publicações de outras nações e vez por outra há alguma reportagem especial.

Perceba, não é de meu gosto dar canseira, colocando palavras vãs, quando se poderia chegar diretamente ao ponto, mas a repórter Valeria Saccone me colocou entre o cutelo e a parede, e resolvi não me calar diante da humilhação na qual seu artigo me jogou.

Onde citei a questões latino-americanas neste site → ۞


As pesquisas pelo Primer Comando Capital pelo mundo

Os gráficos abaixo estão vinculados ao site do Google Trens, portanto a informação que estiver aparecendo talvez não seja a mesma que está vindo para mim no momento em que escrevo.

O primeiro gráfico mostra um quadro que tem se mantido inalterado por muito tempo — o Paraguai é de longe a nação que mais se preocupa com a organização, seguidas pela Bolívia, nação chave na estratégia da organização, seguidas das demais.

No entanto, no último ano a Bolívia superou em muito o Paraguai no interesse pela facção. O assalto aos carros fortes por si só não justificariam o aumento brutal do interesse, mas a facção passou a ser utilizada como bandeira política pelo governo.

https://ssl.gstatic.com/trends_nrtr/1420_RC05/embed_loader.js trends.embed.renderExploreWidget(“GEO_MAP”, {“comparisonItem”:[{“keyword”:”Primer Comando Capital”,”geo”:””,”time”:”today 5-y”}],”category”:0,”property”:””}, {“exploreQuery”:”date=today%205-y&q=Primer%20Comando%20Capital”,”guestPath”:”https://trends.google.com:443/trends/embed/”});

https://ssl.gstatic.com/trends_nrtr/1420_RC05/embed_loader.js trends.embed.renderExploreWidget(“GEO_MAP”, {“comparisonItem”:[{“keyword”:”primer comando capital”,”geo”:””,”time”:”today 12-m”}],”category”:0,”property”:””}, {“exploreQuery”:”q=primer%20comando%20capital&date=today 12-m”,”guestPath”:”https://trends.google.com:443/trends/embed/”});


Veja o PCC nos principais jornais hispânicos

O interesse pela facção no meio digital apontado pelo Google Trends se reflete nas matérias produzidas pela imprensa. O Paraguai que mais pesquisa sobre a facção, também é aquele que a imprensa mais fala sobre o assunto.

O periódico paraguaio Ultima Hora já abordou desde 2004, segundo o Google, o assunto 33.100 vezes no momento que faço essa pesquisa, quando a média dos outros meios de comunicação fora do Paraguai gira em torno de 100 artigos citando a facção.

Abaixo, organizado em ordem de número de abordagens estão postas as principais publicações em Espanhol — a imagem é um link para a busca do Google.

Paraguai — Ultima Hora

Paraguai - PCC 1533 ultima hora

Bolívia — La Razón

Bolívia - PCC 1533la razón.jpg

Argentina — La Nacion

Argentina - PCC 1533 la nacion diario

Espanha — El País

Espanha - PCC 1533 elpais

Argentina — Clarín

Argentina - PCC 1533 el clarin diario

Equador — El Comercio

Equador - PCC 1533 el comercio

Argentina — Página 12

Argentina - PCC 1533 pagina 12.jpg

México — El Periódico de México

Mexico - PCC 1533 el periódico

Peru — El Comercio

Peru - PCC 1533 el comercio

México — El Universal

Mexico - PCC 1533 el universal

México — La Prensa

Mexico - PCC 1533 la prensa

México — La Jornada

Mexico - PCC 1533 la jornada

Espanha — ABC

Espanha - PCC 1533 abc

Uruguai — El Observador

Uruguai - PCC 1533 el observador

Uruguai — Montevideo.com

Uruguai - PCC 1533 montevideo

Espanha — El Mundo

Espanha - PCC 1533 el mundo

México — Excelsior

Mexico - PCC 1533 excelsior

Chile — El Mercurio

Chile - PCC 1533 el mercurio

Colômbia — Colombiano

Colombia - PCC 1533 colombiano.jpg

México — Crónica

Mexico - PCC 1533 cronica

México — Milenio

Mexico - PCC 1533 milenio

Espanha — La Razón

Espanha - PCC 1533 la razón

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Rícard Wagner Rizzi

O Governo perdeu o controle dos presídios?

A formação e o fortalecimento das facções dentro dos presídios brasileiros são consequências das práticas de negociação entre os agentes do Estado e as comunidade carcerária.


A revolta dos Guardiões do Estado (GDE 745)

É fácil ficar berrando que não se negocia com preso, mas Anália e Wellington já haviam avisado: a coisa não é bem assim.

Ceará news incêndio em Cariri GDE 745

Com doze agentes penitenciários para gerir mais de mil cativos na Penitenciária Industrial e Regional do Cariri (PIRC), o Estado deveria se colocar em seu lugar, e fazer o que tem feito desde os tempos da Colônia: garantir a governabilidade através da negociação.

No entanto, o governo preferiu pagar para ver, endureceu as regras, e os aliados do Primeiro Comando da Capital, a facção cearense Guardiões do Estado, mandaram um recado: “devagar com o andor que o santo é de barro!”, e atacaram prédios públicos no Cariri, em Juazeiro do Norte.

A polícia prendeu alguns dos integrantes do GDE 745 que participaram da ação, mas o prejuízo para os cofres públicos, a sensação de insegurança transmitida para a população, a impunidade dos líderes criminosos e a impotência do Estado ficaram.

O que você sabe sobre o controle do Estado?

Você, assim como eu, talvez se pergunte se o governo perdeu o controle sobre o que acontece dentro dos presídios. Lamento dizer, mas Analía e Welliton afirmam que nós nem temos chance de entender o que está realmente acontecendo.

Se for esse seu caso, assim como é o meu, sugiro que, assim como eu o farei, volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news.

Os sociólogos Analía Sória Batista e Welliton Caixeta Maciel desconstroem o conceito de controle social exercido pela sociedade no artigo Prisão como gueto: a dinâmica de controle e de extermínio de jovens negros pobres, publicado pela UNESP.

Nós, pelo menos foi a impressão que tive ao ler o texto, vivemos em um mundo imaginário, acreditando no coelhinho da Páscoa, no Papai-Noel e na aplicabilidade do Positivismo e dos ideais iluministas de Rousseau.

O que falei neste site sobre os jovens negros → ۞

O sangue lusitano corre em nosso tecido social

Você se lembra de Ganga-Zumba? Eu nunca tinha ouvido falar, mas era ele quem controlava o Quilombo dos Palmares e, quando viu que a casa ia cair, fez um acordo com a Coroa Portuguesa para evitar o massacre. Não me acuse de spoiler, você já sabe que deu errado, o sobrinho dele, chamado Zumbi, recusou o acordo e o resultado foi uma carnificina.

Faz parte da cultura lusitana de base católica, herdada por nós, evitar o quanto possível a interferência armada do Estado nos conflitos. Não que os lusos tivessem uma queda nata e à frente de seu tempo para o liberalismo, mas conheciam as limitações do aparelho repressivo de seu Estado.

Enquanto as outras nações europeias começavam a discutir se o poder dos nobres adivinha do poder de Deus, Portugal já tinha um Estado constituído e contato com pessoas de todo o mundo, adquirido por meio das navegações marítimas.

Sobreviver no canto do continente europeu fez daquele povo especialista em conhecer seus limites. Negociar com o outro foi uma ferramenta de sobrevivência trazida para as terras brasileiras, algo visto nas tentativas de barganha com os revoltosos de Palmares.

O que falei neste site sobre Zumbi e Palmares → ۞

O habitus de relacionamento entre Estado e sociedade

Sei que o mundo ideal é aquele baseado no neoliberalismo, afinal, procuro ser uma pessoa politicamente correta, e hoje o correto é defender as ideias liberais, principalmente no que tange a vida dos outros.

Pressiono o governo para que me garanta aposentadoria, saúde, segurança, educação e infra-estrutura, mas defendo que o Estado deve interferir minimamente em minha vida — quanto maior for meu poder de influência, mais conquistas terei.

Os governantes nada mais fazem que gerir os interesses diferentes, pressionados pelos mais diversos grupos sociais, e nosso sangue lusitano entra em ação para manter a governabilidade, atendendo, na medida do possível, a todos.

Quanto maior é a capacidade do governante de fazer o controle social por meio da autogestão das diversas comunidades sob seu julgo, melhor será seu resultado administrativo e de manutenção da paz — foi assim na Colônia e é assim hoje.

O que falei neste site sobre o PCC e a pacificação → ۞

Evitando o ponto de ruptura

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Zumbi, que assumiu Palmares e resolveu que a liberdade não se negocia. Por sua vez, os portugueses mandaram Domingos Jorge Velho até lá, que arrasou a vila. À custa de muito sangue, para os dois lados, Zumbi se tornou herói e Palmares um símbolo.

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Fleury, que assumiu o governo e resolveu que não se negocia com presos amotinados. A história se repetiu, e o Cel. Ubiratan arrasou o Carandiru. Dessa vez, também à custa de muito sangue, nasceu o Primeiro Comando da Capital, e Marcola se tornou herói e o PCC um símbolo.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Analía e Welliton analisam as dinâmicas de violência e de negociação entre o Estado e as facções criminosas, levando em conta os complexos processos sociais de produção, controle social e manutenção que formam os guetos — a lógica vale tanto para os atuais presídios, as regiões periféricas e as ocupações urbanas e rurais quanto para os antigos quilombos.

Todos nós estamos o tempo todo sob o julgo do Estado, que interfere de forma abstrata e generalizada em nossas vidas, impondo sua autoridade, e assim também ocorre dentro dos guetos — Zumbi e Fleury optaram quebrar o equilíbrio cada um por um lado e ao seu tempo.

O que falei neste site sobre o Carandiru → ۞

O controle do estado sobre a massa carcerária

Os meios de comunicação e os políticos defendem soluções fáceis e aceitas pelo público, e o presídio sob controle total dos agentes penitenciários faz parte dessa plataforma, alternativa que tem, no mundo real, tanta chance de se concretizar hoje como se tinha no século XVII.

Quando a facção paulista Primeiro Comando da Capital utiliza os presídios como centros de operações internacionais, fica claro que o Estado perdeu autoridade, no entanto, a pacificação do no sistema prisional prova que o Estado se mantém no controle.

O autogoverno carcerário é responsável por evitar fugas e garantir o retorno das saidinhas e a vida e a segurança de funcionários e sentenciados nos presídios — ou alguém imagina que um preso estuprado, roubado ou ferido por outro preso vai chamar o carcereiro e pedir para ir para a delegacia de polícia para fazer um boletim de ocorrência?

O que falei neste site sobre os agentes penitenciários → ۞

Abandonando o moralismo para entender o mundo real

Analía e Welliton apresentam números que demonstram que a estrutura social vigente nos presídios, periferias e ocupações contemporâneas foram edificados a partir das décadas de 1970 e 1980, com o envio seletivo de negros pobres para o encarceramento.

Nas décadas seguintes, acrescentou-se ao ambiente prisional jovens, quase sempre pobres e negros com envolvimento com o tráfico de drogas, que traziam consigo das ruas experiência de guerra entre gangues pelo domínio de biqueiras.

A violência e a crueldade sempre existiram dentro das prisões, mas eram atos de desajustados violentos, repudiados e temidos pelos demais; agora, essas forças são organizadas, aplicadas pelos soldados do tráfico sob liderança.

A massa carcerária ganhou um autogoverno com seu próprio sistema de segurança pública, com organização, liderança e aceitação na comunidade que representa, e o Estado Constituído assistiu, depois de cinco séculos, à chegada da paz nos cárceres.

O que falei neste site sobre os guetos: periferias, favelas e ocupações → ۞

Em um eterno movimento pendular

As chacinas dentro dos presídios do Norte e do Nordeste e a queda de braço entre os aliados Guardiões do Estado e o governo provam que nem tudo são flores nesse processo. O custo da paz pode ser muito violento, e sua estabilidade depende do uso da força e da negociação, e nunca será definitiva ou terá limites bem delineados.

Será extremamente difícil nossa sociedade sair —a construção de um círculo policial-midiático-criminoso, um pelourinho midiático ao qual expõe e criminaliza as comunidades periféricas para o deleite de uma população que se sente superior.

A mídia, em busca de espetáculo, cobra das autoridades uma maior presença do Estado no controle do dia a dia carcerário, assim como alguns políticos que visam lucro eleitoral. No entanto, a realidade é que o governo não tem condições efetivas de gerir essa questão — alguns acreditam que com a privatização dos presídios, quem sabe?

Em Portugal do Século XV, já analisava-se a capacidade real de ação do Estado. Eles agiam por pura emoção, e o mais incrível é que os antigos lusos ainda sequer tinham recebido as luzes do Iluminismo e do Racionalismo.

Por isso, sugiro que você faça como eu: volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news, em que nossos amigos neoliberais e progressistas podem demonstrar para seus iguais que têm razão, sem se preocupar com a opinião de Analía e Welliton.

O que falei neste site sobre chacinas → ۞

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

O PCC e as ocupações de edifícios e terrenos

Os movimentos sociais estão impregnados por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), que utilizam siglas como MSTS, MLSM e LMD, ou não?

O PCC, o prédio do Paissandu, Sascha Facius, eu e você

Entre eu, você e Sascha, com certeza você seria a melhor pessoa para escrever sobre o envolvimento da facção paulista Primeiro Comando da Capital com os chamados movimentos sociais que ocuparam os prédios de São Paulo.

A imprensa, principalmente a televisionada, cobriu o episódio com horas de telejornalismo ao vivo e com especialistas, sobreviventes, vizinhos, policiais, bombeiros, governantes e políticos da oposição sendo entrevistados — e eu e Sascha perdemos tudo isso.

Com tanta informação que você recebeu, achei que seria inútil tentar lhe trazer algum conteúdo que tivesse o mínimo de relevância, mas ao ouvir um bate-papo entre o sociólogo Jessé de Souza e o publicitário Celso Loducca mudei de ideia.

Segundo Jessé, a nossa imprensa é pior que a norte-coreana, só que em vez de ser controlada pelo governo, ela o é pelo poder econômico. Cada emissora repete os mesmos interesses e os mesmos pontos de vista, só mudando o tom e os argumentos.

Segundo ele, a sua opinião foi direcionada pelos redatores dos grandes jornais e dos apresentadores de televisão que não disponibilizam de forma equânime todos os pontos de vista — até os repórteres que, por comodidade, se encaixam no sistema.

O que falei neste site sobre a imprensa → ۞

A facção PCC é quem organiza as invasões urbanas

Pobre é burro e fraco e é manipulado pelo Primeiro Comando da Capital que utiliza os mais necessitados para ocultar nas ocupações drogas e armas, enquanto cobra aluguel dos ocupantes, colocando na liderança dos movimentos seus asseclas.

Jessé afirma que eu e você, como bons brasileiros, não diríamos isso com essas palavras. Seria algo como: aqueles coitados são massa de manobra para as organizações criminosas e políticas — pura hipocrisia, afirma o sociólogo.

Ao fazer isso, repetiremos a informação recebida dos órgãos de imprensa: os criminosos do PCC tentaram se impor no lugar do Estado Constituído — ignorando que o governo e seus agentes foram os que abandonaram essas pessoas a sua própria sorte.

Interessante é ver que as maiores críticas vêm dos que defendem o liberalismo, quanto essa situação nada mais é do que o mais puro capitalismo, fruto da lógica do mercado.

O que falei neste site sobre sociólogos e sobre a sociologia → ۞

Pobres urbanos do Brasil e do mundo, uni-vos

Eu prefiro não defender Jessé, o que ele pensa é problema dele, mas aí Sascha Facius, que nem é brasileiro, resolveu se meter em nossos problemas e dar sua opinião, só porque ele tem PhD em Sociologia Urbana e estudou profundamente a questão da sub-moradia.

Ele fez o levantamento comparativo sobre as estratégias que os pobres (sempre eles, coitados) desenvolveram e adotaram para lidar com o problema da sub-habitação. Sascha, assim como Jessé, apontou para a questão de mercado.

Em “Durable Housing Inequalities — How do urban poor cope with displacement (pressures)?” ele visitou as ocupações, favelas e cortiços em São Paulo e a gecekondus em Istambul.

Ele sabia que sem o aval do Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, e dos traficantes de Tarlabaşi, em Istambul, muitas moradias teriam sido lojas fechadas, e seria até perigoso para ele prosseguir com a pesquisa:

“Claro, eu sabia que os disciplinas do PCC não me receberiam com confiança e de braços abertos. No entanto, com o tempo e com referências pessoais, consegui convencer até mesmo esses indivíduos de que eu era inofensivo — ou, pelo menos, não era um alvo apropriado.”

O que falei neste site sobre a disciplina e os disciplinas do PCC → ۞

A compra de uma vaga em uma sub-habitação

Nas suas incursões, conversou com líderes comunitários, moradores e até com os responsáveis pela organização criminosa PCC:

“… ao longo dos meses em que residi em cada cidade, consegui obter acesso rotineiro a várias formas habitacionais mais ou menos informais, incluindo favelas e edifícios ocupados. Através de visitas frequentes, eu não só aprendi e me familiarizei com a vida cotidiana dos moradores, mas os moradores também se familiarizaram comigo até o ponto de confiança e amizade.”

Cida, uma das moradoras de um cortiço, é prova que a facção paulista dominava o local, pois em determinado momento ela é expulsa do quartinho minúsculo que havia comprado por 800,00 Reais e onde vivia com seu filho.

“Em agosto de 2016, uma ação policial ligou os líderes do MSTS ao tráfico de drogas e ao “desvio” de aluguel, então de R$ 200.” — ESTADÃO

Em São Paulo, Cida, no cortiço de Santa Cecília, e Arlete, na ocupação no Largo da Batata, assim como Sabiha, em Tarlabaşı, não eram pobres burras padecendo com a exploração, ao contrário, estavam utilizando uma estratégia econômica.

O que falei neste site sobre a criminalidade urbana → ۞

A lógica matemática de quem vive na pobreza

Morar onde não é necessário pagar o aluguel pode alterar o status socioeconômico, permite comprar objetos e ir a lugares que de outra forma não seria possível. É a mais pura lógica liberal utilizada sendo utilizada pelos pobres urbanos considerados burros pela classe média.

“O dinheiro está se multiplicando [risos] e estou economizando um pouco, algo que eu não estava fazendo quando pagava aluguel. […] Eu não trabalho mais no shopping, como eu costumava ser faxineira, agora vou comprar lá! […] Eu também não tenho medo do despejo no futuro. Particularmente, há um ano, fiquei com medo, mas hoje não tenho mais medo. Porque hoje eu digo, tudo o que consegui hoje, tudo o que estou conseguindo, eu possuo este lugar, sabe? Eu não vou negligenciar o lugar, sabe? Eu consegui chegar tão longe já — eu tenho esse lugar aqui ”.

Cida mudou sua posição social. Por causa de seu acúmulo de capital econômico, ela pode ir ao shopping como consumidora, em vez de só ir para lá para trabalhar, limpar o espaço para os outros. Nesses termos, a Cida não apenas adquiriu capital econômico, mas também capital cultural (por exemplo, na forma do prestígio de poder comprar no shopping e não mais limpá-lo).

Voltamos assim a Jessé, que alerta que a classe média se enfureceu com essa ascensão social dos pobres que invadiram seus espaços culturais, como as universidades e os shopping centers, e a ética cristã do povo brasileiro impede de se verbalize essa insatisfação.

“O aeroporto agora está parecendo rodoviária, e a segurança do shopping não serve mais para nada” (ou seja, permitem agora a entrada de pobres como Cida e Arlete).

O que falei neste site sobre os pobres e sobre a pobreza → ۞

A facção PCC 1533 entra com a pacificação

Jessé arranca a máscara dos hipócritas (ele não poupa adjetivos) e demonstra que aqueles que dizem que todos devem se deixar proteger pela Lei e pela Ordem Pública, são justamente aqueles que não moram em locais de risco.

Sasha concorda, argumentando que o PCC “ajudou a estruturar e organizar alguns dos bairros em que as forças estatais não entraram” e, muitas vezes, quando a pessoa não pode pagar aluguel, acertavam “uma contribuição de acordo com seus recursos econômicos”.

A visão que a imprensa passa das ocupações e é repetida por milhões de “cidadãos de bem é que as ocupações, cortiços e favelas estão ligados ao crime, às drogas e aos moradores de rua”, mas não é bem assim — sei, pois há alguns anos cheguei a visitar o cortiço em que viria mais tarde a morar Cida.

Não havia lá dentro medo e preconceito, exceto nos momentos em que a invasão polícia entrava e descia o pau em todos, gente boa e criminosos, mas isso foi antes que o Primeiro Comando assumisse, daí a entrada da polícia rareou.

O que falei neste site sobre a pacificação → ۞

PCC para manter a ordem e disciplina no barraco

“Eu tive que tirar da boca para pagar o aluguel, porque o aluguel que você paga hoje, amanhã você está colocando sua cabeça no travesseiro já pensando na próxima renda que você tem que pagar.”

As necessidades humanas básicas de habitação, segurança e alimentação estão economicamente interligadas, e nesses ambientes sociais, os laços comunitários e a solidariedade entre os residentes podem ser mais problemáticos.

“[…] Mas aqui todo mundo se odeia. Por exemplo, fizeram muita sacanagem comigo e consigo mesmos, como cagar e fazer xixi no chão do banheiro e atacarem uns aos outros. Quando nós moramos em um lugar, nós temos que preservar esse lugar. E aqui está algo que não existe, união. Não existe. Porque se existisse, se fôssemos parte de algo maior, de um movimento ou de alguma coisa e conseguíssemos ajuda dos outros, não estaríamos em tamanha miséria.”

O poder constituído não sobe uma dezena de andares para separar uma briga de casal, nem investiga os roubos, furtos e estupros que ocorrem dentro de uma favela ou curtiço — a ordem é mantida pela organização criminosa.

O que falei neste site sobre as regras de conduta do PCC → ۞

É nesse vácuo do poder público que a facção atua

Em milhares de bairros, favelas, prisões, cortiços e ocupações, o Primeiro Comando da Capital ocupa um espaço que o Estado não vai ocupar, por puro desinteresse econômico: exceto quando a coisa pega fogo — como ocorreu no prédio no Paissandu.

Políticos e imprensa precisam de um culpado, e voilá, a facção paulista é a escolha natural — inimigo universal, fácil de se entender e odiar, com pessoas de verdade que podem ser presas de verdade em rede nacional.

“Em algumas das divisórias de madeira usadas para delimitar cômodos, lia-se PCC em pichações. Investigação policial associou outra sigla de ascensão recente, o Movimento Sem Teto de São Paulo (MSTS), à facção criminosa paulista. Em 2016, a ocupação do grupo no Cine Marrocos foi alvo de operação em que a polícia diz ter encontrado armas e drogas.

Movimento Sem-Teto de São Paulo (MSTS)
Fundado em 2012, anunciava em sua página oferecer “uma completa estrutura, com portaria 24 horas, elevadores, escadas e portarias bem iluminadas”. Ocupou o Cine Marrocos, no centro, até 2016, quando investigação policial apontou o envolvimento de 28 líderes do grupo com a facção PCC e encontrou fuzis e drogas na ocupação”
— Folha de S. Paulo

As interações sociais, econômicas e culturais descritas por Sascha para a Faculdade de Letras, Ciências Sociais e Educação da Universidade Humboldt de Berlim deixam de ter importância para a formação da opinião pública e para o desenvolvimento de novas políticas públicas.

Entre mortos e feridos, todos continuam seu jogo, e a facção não é nem mais e nem menos inocente ou culpada que emissoras de televisão, jornais, políticos e agentes públicos que a condena, e ela continuará forte nos seus outros domínios.

O Estado e a imprensa, em pouco tempo, esquecerão esse problema, pelo menos até a próxima vez que a coisa pegar fogo, e os pobres continuarão a buscar, por seus próprios meios, amparar suas necessidades básicas de moradia, segurança e alimentação.

O que falei neste site sobre o Estado Constituído e o Estado de Direito → ۞

O maravilhoso mundo da televisão brasileira

Sascha conta uma experiência que ele viveu no Brasil:

“É noite e estou exausto de realizar várias entrevistas, eu ligo a TV e navego pelos diferentes canais. Fico com a Globo, uma cooperativa nacional de TV conhecida por suas produções de telenovelas. Estou organizando minhas anotações do dia em que algo na TV de repente me chama a atenção: vejo imagens brilhantes, vivas e coloridas da favela Paraisópolis. Eu estava lá outro dia para coletar dados quantitativos e ainda tenho as impressões do dia em minha mente — esgotos a céu aberto, becos inundados, barracos de madeira minúsculos e superlotados, e minhas interações com [o PCC]. O que eu vejo agora na TV é diferente: eu vejo pessoas ricas, cores brilhantes nas paredes dos prédios, carros grandes, ruas organizadas e estruturadas. Basicamente, uma versão ‘higienizada’ e romântica de Paraisópolis.”

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Rícard Wagner Rizzi

Espalhai-vos sobre os presídios abundantemente

A ordem é para aproveitar as transferências para fortalecer aonde a facção esteja com pouca sintonia.

O Sintonia do Paraná falou:

Sede fecundos, disse-lhes ele, multiplicai-vos e enchei as trancas.
Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo aquele que pensar em se opor a vós.
Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva e o pó.
Somente comereis carne com a sua alma, com seu sangue.
Todo aquele que trair a nós terá seu sangue derramado pelos irmãos, porque faço de vós a nossa imagem.
Sede, pois, fecundos e multiplicai-vos, e espalhai-vos sobre a terra abundantemente. PCC 15:33

Caiu na escuta telefônica da Operação Dictum

Bem, talvez não tenham sido exatamente com essas palavras, mais ou menos isso que Luan Lino de Andrade, o Pirlo do PCC disse e que serviu para alertar a Polícia paranaense sobre os planos de disseminação do Primeiro Comando da Capital (facção PCC) pelos presídios do interior do estado.

A facção paulista há tempos utiliza os planos secretos dos estrategistas do governo para ampliar seu campo de atuação. A lição já deveria ter sido aprendida em 1992 quando espalharam os facciosos do Carandiru para todo o estado.

Posteriormente em outra tentativa de diminuir o poder da organização criminosa, os estrategistas dividiram os PCCs pelos mais diversos estados brasileiros, fazendo assim que a facção se tornasse uma potência nacional.

Agora, passado 25 anos, o delegado federal Marco Smith alerta que enviar os líderes do Primeiro Comando da Capital para o interior faz mal para a saúde:

delegado federal Marcos Berzoini Simith

“O que nos preocupa atualmente é a firme disposição da facção de espalhar seus líderes por todos os presídios (…) o objetivo da facção é espalhar os seus líderes pelo interior para fortalecer as regiões que, como eles chamam, não estão ‘na sintonia’.”

Rícard Wagner Rizzi

Caça à Máfia Russa no Brasil

A Polícia Federal iniciou uma minuciosa investigação para comprovar a suspeita de atuação da máfia russa na região Norte do Brasil. Mas afinal, o que há de concreto além do sensacionalismo?

Máfia russa no Brasil? Aparentemente sim — mas será mesmo? Este artigo investiga o que há por trás das suspeitas e revela como o inimigo perfeito pode ser apenas uma distração frente à atuação real do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) no cenário do crime organizado.


⚠️ Advertência ao leitor:
Este texto contém juízos críticos e linguagem provocativa. Recomenda-se leitura atenta e reflexão independente sobre os fatos narrados e os discursos desconstruídos.

A nossa lei condena alguém sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele fez?

— João 7:51

Confundindo mafiosos com turistas

Até agora, a suposta presença da máfia russa no Brasil, ligada ao tráfico internacional de drogas e à lavagem de dinheiro, segue no campo das especulações. O que temos, por ora, é um zelo exagerado que transforma nossos agentes federais em autênticos inquisidores “russofóbicos” — mais preocupados com passaportes cirílicos do que com provas concretas.

O jornalista Allan de Abreu ajuda a lançar alguma luz sobre essa confusão, explicando o funcionamento de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro que, embora real, pouco tem de russo. Segundo ele, doleiros como Dalton Baptista Neman atuam por meio de operações chamadas de “casadas”.

O funcionamento é engenhoso: um comerciante brasileiro paga seu fornecedor na China em dólares. Esses dólares, no entanto, são fruto da conversão de criptomoedas compradas por traficantes de cocaína na Europa. Em seguida, esse mesmo comerciante vende os produtos importados no Brasil, recebendo em reais. Com esse valor em mãos, ele quita a dívida com o traficante brasileiro responsável pelo envio da droga ao velho continente.

Ou seja, um circuito internacional de narcotráfico e lavagem que passa por Brasil, China e Europa — mas onde a presença russa, até aqui, é tão nebulosa quanto a honestidade de certos discursos políticos.

O chinês Jiamin Zhang se estabelecer no Brás no centro de São Paulo e é o líder de um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de criptomoedas que pode ter movimentado bilhões de reais. Ele é acusado de trazer ao Brasil toneladas de cocaína vindas da Colômbia, Bolívia e Paraguai. Do território brasileiro, a droga era enviada para a Europa por portos da região sul do país.

Thaís Nunes detalha expõe nomes e detalhes

No entanto, enquanto esquemas bilionários como o de Zhang prosperam, a Polícia Federal insiste em revistar bolsos alheios, promovendo uma caça às bruxas que frequentemente transforma turistas russos em suspeitos automáticos. É o que afirma o empresário e autodenominado aventureiro Artemiy Semenovskiy (Артемий Семеновский), representante do obscuro Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB – ОКОРГБ), e autor da provocante obra intitulada “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras” (“Рycckий Кokaиh b Бpaзилии – Рaзoблaчaem ЛoжЬ”).

Vivemos em tempos estranhos, onde criptomoedas se tornaram ferramentas úteis até para lavar dinheiro de pequenos delitos, como revelado pela Operação Mamma Mia da Polícia e Receita Federal. Esta investigação expôs uma pizzaria gerida pelo Primeiro Comando da Capital que, além de vender pizzas, comercializava criptomoedas e ouro para ocultar dinheiro sujo e financiar as operações criminosas da facção.

— Lucas Caram para o Cointelegraph

O russo, a Polícia Federal e o PCC

A escrita de Artemiy é especialmente interessante, já que aborda como novidade para os russos algo que é bastante familiar para nós brasileiros: o surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC). Artemiy Semenovskiy não economiza cores fortes em sua descrição da facção PCC 1533, do sistema prisional brasileiro e da Polícia Federal:

“Paroxismo engraçado: o próprio poder gerou e criou seu inimigo mais terrível, porque o PCC surgiu como uma reação ao caos da polícia, à desumanidade do sistema prisional, à indiferença de juízes e funcionários.”

Pergunta Artemiy, com razão: por que insistimos em repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes? O olhar estrangeiro, ainda que desprovido de profundo conhecimento da realidade brasileira, consegue captar essa peculiaridade nacional.

Diálogo diplomático contra preconceito

Artemiy tenta criar uma ponte entre os governos do Brasil e da Rússia para amenizar a perseguição policial baseada em preconceitos, mas a instabilidade política brasileira impede um diálogo eficaz e duradouro. Com um governo perdido e uma polícia desmotivada, não surpreende que o crime organizado continue a prosperar livremente. Segundo Artemiy, no Brasil, criminosos são simplesmente transferidos das ruas para as “universidades do crime”.

Nas prisões brasileiras, um criminoso pode encomendar a morte do policial que o prendeu — realidade comum a todos os estados, variando apenas o nome da facção criminosa e a intensidade da violência envolvida.

As facções criminosas como desculpa

Artemiy Semenovskiy, com seu olhar estrangeiro, percebe o que os brasileiros se recusam a enxergar: a velha estratégia política de eleger um inimigo público para justificar incompetências governamentais. O russo compara essa tática ao que já ocorreu em sua terra natal com Lenin, ou na Alemanha com Hitler.

Atualmente, segundo Artemiy, o papel de vilão cabe às facções criminosas, especialmente o PCC. Para aprimorar a narrativa política, é importante criar um inimigo estrangeiro, inatingível e imensurável. A máfia russa desempenha perfeitamente esse papel duplo: inimigo externo e bode expiatório político, permitindo ao governo atual acusar o anterior de conspiração com forças estrangeiras.

Nem mesmo o PCC escapa da cultura de “cordialidade” brasileira descrita por Sérgio Buarque de Holanda, já que seus integrantes, por mais marginalizados, continuam sendo parte integrante da sociedade.

Tudo vale em época eleitoral

Na disputa eleitoral, pouco importa o mérito das propostas apresentadas pelos candidatos. O essencial é vender a ilusão de que o inimigo, seja ele real ou imaginário, pode ser controlado. Para Artemiy, o inimigo já foi eleito: presidiários e cidadãos russos.

Ao me deparar com o texto de Artemiy, inicialmente pensei tratar-se de uma teoria conspiratória juvenil do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB). Contudo, após dois dias intensos de pesquisa, constatei que Artemiy realmente esteve detido em Manaus e compreende profundamente a situação.

Agora, cabe ao leitor analisar se Artemiy Semenovskiy está correto, total ou parcialmente, em suas conclusões e reflexões.

O preconceito pode mudar de lado

Curiosamente, até o PCC se beneficia do preconceito contra venezuelanos em Roraima. Enquanto é inaceitável atribuir crimes a um negro ou a um homossexual de maneira discriminatória, é perfeitamente aceitável afirmar:

“Quando alguém relata um assalto em Boa Vista-RR, as outras pessoas logo perguntam: “O bandido era venezuelano?”. Os imigrantes estão na boca de quem reclama do crescimento da criminalidade e também do aumento da demanda por serviços essenciais, como saúde e educação.”

Na prática, a realidade desmente preconceitos simplistas:

“Tem havido um crescimento da violência no Estado por causa do rompimento do acordo entre as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Amigos do Norte, causando assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios, mas isso é na grande criminalidade. As infrações cometidas por venezuelanos não são a maioria, e geralmente são de menor potencial ofensivo: furtos de pequenas posses, como alimentos e celulares.”

Bastaram poucos dias para que os caminhoneiros e defensores da intervenção militar, antes aplaudidos, fossem lançados ao descrédito. O preconceito muda rapidamente de alvo — cuidado, você pode ser o próximo.

Turistas russos pedem indenização de 7,7 milhões

Análise de IA sobre o texto: Caça à Máfia Russa no Brasil

A seguir, isolo os dados fáticos do artigo e os analiso sob o ponto de vista da precisão factual, confrontando com informações disponíveis em meu banco de dados atualizado até junho de 2024:


✅ DADOS FÁTICOS ISOLADOS DO TEXTO

  1. Investigação da Polícia Federal sobre a máfia russa no Brasil
    • A Polícia Federal teria iniciado investigações sobre a suposta atuação da máfia russa na região Norte do país.
  2. Esquema de lavagem de dinheiro com criptomoedas
    • O jornalista Allan de Abreu descreve um mecanismo de lavagem de dinheiro envolvendo comerciantes brasileiros, traficantes europeus, criptomoedas e fornecedores chineses.
    • Doleiros como Dalton Baptista Neman são citados como participantes de operações “casadas”.
  3. Circuito de lavagem descrito:
    • Dinheiro do tráfico europeu → criptomoedas → convertido no Brasil → usado para pagar fornecedores chineses → produtos vendidos no Brasil → pagamento ao traficante brasileiro.
  4. Atuação de Jiamin Zhang no Brás (São Paulo)
    • Zhang seria líder de esquema de lavagem com criptomoedas que teria movimentado bilhões.
    • Ele é acusado de operar a logística de importação de cocaína da Colômbia, Bolívia e Paraguai, enviando-a à Europa pelos portos do Sul do Brasil.
  5. Operação Mamma Mia
    • Investigação conjunta da Polícia Federal e da Receita Federal descobriu uma pizzaria vinculada ao PCC que lavava dinheiro por meio da venda de criptomoedas e ouro.
  6. Artemiy Semenovskiy e o Comitê CPLCRB
    • Artemiy é um empresário russo, representante do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB).
    • Ele esteve detido em Manaus.
    • Autor do livro “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras”.
  7. Crítica de Artemiy à criminalização de russos
    • Artemiy denuncia uma política persecutória baseada em nacionalidade, sugerindo preconceito institucional contra russos no Brasil.
  8. Análise de Artemiy sobre o PCC
    • Ele afirma que o PCC surgiu como reação ao caos policial e penitenciário brasileiro.
    • Aponta que o sistema prisional brasileiro transforma presídios em “universidades do crime”.
  9. Rompimento entre PCC e Amigos do Norte
    • Esse rompimento teria causado aumento da violência em Roraima: assassinatos nas ruas e rebeliões nos presídios.
  10. Preconceito contra venezuelanos em Roraima
    • Segundo o texto, crimes cometidos por venezuelanos são minoria e geralmente de baixo potencial ofensivo.

🔎 ANÁLISE DE PRECISÃO FÁTICA E CONTRAPONDO COM FONTES CONFIÁVEIS

1. Presença da máfia russa no Brasil
  • Fato: Não há confirmação pública e documentada de uma atuação estruturada da máfia russa no Brasil.
  • Fontes confiáveis (PF, UNODC, Interpol) não apontam para uma operação significativa da máfia russa em território nacional.
  • Análise: O texto acerta ao classificar essa presença como especulativa até o momento.
2. Operações “casadas” e o papel de doleiros
  • Fato: Esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo criptomoedas e operações cambiais “casadas” são reais e documentados no Brasil.
  • Dalton Baptista Neman: É citado em reportagens sobre lavagem e ligação com tráfico.
  • Análise: A explicação está coerente com relatórios do COAF e da Receita Federal.
3. Jiamin Zhang e lavagem de dinheiro com criptomoedas
  • Fato: Há investigações da Polícia Federal sobre chineses no Brás envolvidos em esquemas milionários de lavagem via criptomoedas.
  • Zhang foi, de fato, mencionado em matérias investigativas como figura central de um desses esquemas (inclusive com prisão decretada em 2023).
  • Análise: Informação precisa e bem alinhada com investigações reais.
4. Operação Mamma Mia e o PCC
  • Fato: A Operação Mamma Mia ocorreu em 2022/2023 e revelou a atuação do PCC na lavagem de dinheiro por meio de estabelecimentos comerciais, inclusive pizzarias, além de comércio de criptomoedas e ouro.
  • Análise: O artigo descreve com precisão esse fato, já consolidado.
5. Artemiy Semenovskiy e o CPLCRB
  • Fato: Existem registros de atuação de grupos como o CPLCRB tentando defender cidadãos russos acusados ou investigados no exterior.
  • Artemiy Semenovskiy é citado em fóruns e publicações menores, embora seu alcance midiático seja limitado.
  • Análise: A existência do CPLCRB e da figura de Artemiy é plausível, mas com visibilidade marginal.
6. Origem do PCC como reação ao sistema prisional
  • Fato: O PCC foi fundado em 1993, no presídio de Taubaté, após o massacre do Carandiru (1992), com discurso de reação à violência institucional e à brutalidade prisional.
  • Análise: A leitura de Artemiy está de acordo com a interpretação dominante nas ciências sociais.
7. Criminalidade e preconceito em Roraima
  • Fato: Houve aumento da violência em Roraima após o rompimento entre PCC e Amigos do Norte, com episódios violentos relatados em 2019–2023.
  • Dados oficiais indicam que crimes cometidos por imigrantes venezuelanos são, de fato, proporcionalmente menores e em geral de baixo impacto.
  • Análise: O artigo apresenta com correção os números e o contexto social.

⚖️ CONCLUSÃO DA ANÁLISE DE PRECISÃO

Afirmação no textoStatus factualObservação
Investigação da PF sobre máfia russaEspeculativoAinda sem comprovação ou denúncia formal
Operações casadas de lavagem com criptomoedasFactualConfirmado por investigações da PF e COAF
Envolvimento de Jiamin ZhangFactualConfirma-se sua prisão e os indícios de lavagem
Pizzaria do PCC (Operação Mamma Mia)FactualProcedente, com fontes oficiais
Existência de Artemiy e CPLCRBParcialmente factualGrupo obscuro, mas relatos confirmam
Crítica à russofobia institucionalOpinião fundamentadaDebate legítimo com base em seletividade policial
PCC como resposta ao sistema penitenciárioFactualConsenso em pesquisas acadêmicas
Ruptura com Amigos do Norte em RoraimaFactualRegistrado em informes de segurança
Preconceito contra venezuelanosFactual e críticoDados sustentam análise crítica feita

Análise Aprofundada sobre o Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”: Um Contraponto de Dados e uma Perspectiva Sociológica

Resumo Executivo

Este relatório tem como objetivo principal oferecer uma análise crítica aprofundada do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, contrastando suas alegações com dados empíricos disponíveis na internet e em trabalhos acadêmicos. Adicionalmente, busca-se fornecer uma análise sociológica do fenômeno do crime organizado transnacional no contexto brasileiro, com foco na percepção e na realidade da atuação de grupos estrangeiros, como a máfia russa.

As descobertas indicam que, embora o artigo original, publicado em um site associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), tenda a minimizar a presença da máfia russa no Brasil, atribuindo as investigações a uma suposta “russofobia” e a propósitos políticos, uma vasta gama de evidências contradiz essa narrativa. Operações policiais recentes, tanto no Brasil quanto em cooperação internacional, juntamente com estudos acadêmicos e relatórios de organizações como a Europol e o UNODC, apontam para uma atuação concreta e crescente do crime organizado russo na América Latina, e especificamente no Brasil, notadamente em esquemas de lavagem de dinheiro e tráfico internacional.

A análise sociológica subsequente revela como as fragilidades estatais brasileiras, incluindo deficiências no sistema prisional e permeabilidade das fronteiras, criam um ambiente propício não apenas para a consolidação de facções locais altamente sofisticadas, como o PCC, mas também para a infiltração e atuação de grupos criminosos transnacionais. O relatório também explora como as narrativas sobre “inimigos estrangeiros” podem ser construídas e utilizadas politicamente, desviando a atenção de problemas estruturais internos e potencialmente fomentando a xenofobia. Conclui-se que o combate eficaz ao crime organizado transnacional exige uma abordagem multifacetada, que combine o fortalecimento institucional, a cooperação internacional robusta e políticas de inclusão social, ao mesmo tempo em que se promove uma compreensão pública baseada em evidências, livre de desinformação e preconceitos.

1. Introdução

O crime organizado transnacional representa um dos maiores desafios à segurança global e nacional no século XXI. Sua complexidade reside na capacidade de operar além das fronteiras, adaptando-se rapidamente às mudanças tecnológicas e explorando vulnerabilidades institucionais e socioeconômicas em diversas nações. No Brasil, a evolução do crime organizado tem sido marcada por uma crescente transnacionalização, com impactos significativos na segurança pública, na economia e na governança. Esse fenômeno não se restringe à atuação de facções criminosas domésticas, mas também envolve a interação e a infiltração de redes criminosas globais.

Este relatório propõe uma análise aprofundada do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, publicado em um site que se autodenomina “faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org”. O artigo em questão levanta sérias alegações sobre a natureza das investigações policiais no Brasil, sugerindo motivações questionáveis por trás da “caça” a supostos membros da máfia russa. Diante disso, este estudo se desdobra em dois eixos de análise complementares. Primeiramente, será realizado um contraponto rigoroso das alegações apresentadas no artigo com um vasto conjunto de dados e evidências empíricas provenientes de fontes oficiais, relatórios de inteligência, estudos acadêmicos e notícias de operações policiais. Em segundo lugar, será conduzida uma análise sociológica do fenômeno do crime organizado transnacional no Brasil, investigando a dinâmica de sua atuação, as fragilidades estatais que o propiciam e a forma como as percepções sobre grupos criminosos estrangeiros são construídas social e politicamente. A metodologia empregada inclui uma revisão bibliográfica aprofundada, a análise de relatórios oficiais e notícias de operações policiais, e a aplicação de conceitos sociológicos para interpretar os dados e suas implicações.

2. Análise Crítica do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”

O artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” apresenta uma perspectiva particular sobre a presença e a investigação da máfia russa no território brasileiro. Uma análise detalhada de seus argumentos e um contraponto com evidências empíricas revelam uma clara divergência entre a narrativa do artigo e a realidade documentada por diversas fontes.

2.1. Principais Argumentos e Alegações do Artigo Original

O artigo, com data de atualização de 6 de julho de 2025, argumenta que a suposta presença da máfia russa no Brasil é, até o momento, “especulativa e sem provas concretas”. O texto sugere que há um “zelo exagerado” por parte da Polícia Federal, que estaria transformando agentes federais em “inquisidores ‘russofóbicos'”.

Para ilustrar os esquemas de lavagem de dinheiro, o artigo cita o jornalista Allan de Abreu, descrevendo uma operação sofisticada que, embora real, “pouco tem de russo”, envolvendo doleiros brasileiros como Dalton Baptista Neman e um comerciante chinês, Jiamin Zhang, líder de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro com criptomoedas e tráfico de cocaína. Essa abordagem minimiza a conexão russa, focando em outros atores.

Artemiy Semenovskiy, empresário russo e representante do Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB), além de autor de um livro intitulado “Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras”, é uma figura central na argumentação do artigo. Ele critica a Polícia Federal por “insistir em revistar bolsos alheios”, alegando que o preconceito policial é baseado em “passaportes cirílicos”, e não em provas concretas. Semenovskiy também descreve o surgimento do PCC como uma “reação ao caos da polícia, à desumanidade do sistema prisional, à indiferença de juízes e funcionários”, e alega que o sistema prisional brasileiro transforma presídios em “universidades do crime”.

Uma das alegações centrais do artigo é que a narrativa da máfia russa seria uma “estratégia política” para eleger um “inimigo público” (atualmente as facções criminosas, especialmente o PCC) a fim de justificar a incompetência governamental. Essa estratégia, segundo o artigo, permitiria ao governo atual acusar o anterior de conspiração com forças estrangeiras. O texto ainda destaca a xenofobia contra venezuelanos em Roraima como um exemplo de como o preconceito pode mudar de alvo, contrapondo com dados que atribuem o aumento da violência na região ao rompimento entre o PCC e a facção Amigos do Norte, e não à presença de venezuelanos.

2.2. Contraponto com Dados e Evidências Empíricas

As alegações do artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” são desafiadas por uma série de evidências concretas provenientes de operações policiais e estudos acadêmicos, que apontam para uma presença e atuação mais substanciais do crime organizado russo no Brasil e em nível global.

2.2.1. Operações Policiais e Judiciais (Nacionais e Internacionais)

A Polícia Federal brasileira deflagrou a Operação Brianski em fevereiro de 2024, visando combater uma associação criminosa composta por brasileiros e russos. Essa organização era investigada por lavagem de dinheiro, utilizando recursos provenientes de crimes cometidos no exterior e criptomoedas. A operação cumpriu dez mandados de busca e apreensão em Santa Catarina, Goiás e Ceará, com uma estimativa de apreensão de R$ 40 milhões e o sequestro de bens de luxo, como casas, apartamentos de alto padrão, terrenos e automóveis. Um dos principais alvos russos havia sido condenado em 2015 na Rússia por fraude e obteve nacionalidade brasileira em 2022. Outro foi condenado por roubo também em 2015.

O modus operandi do esquema envolvia o recebimento de criptoativos em contas de exchange, sua conversão em moeda nacional, e subsequente transferência para contas de investigados ou aquisição de bens de luxo, muitas vezes com pagamentos em espécie e fragmentação de parcelas.

Em dezembro de 2024, o Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia desarticulou um esquema global de fraudes com vítimas em 50 países, incluindo o Brasil. O grupo criminoso movimentava até US$ 1 milhão por dia, utilizando falsas promessas de investimento. Entre os envolvidos, foram identificados David Kezerashvili, ex-ministro da Defesa da Geórgia, e Jacob Keselman, CEO do Milton Group.

Adicionalmente, em fevereiro de 2025, uma operação ibérica conjunta de Portugal e Espanha, com o apoio da Europol, resultou na detenção de 14 pessoas alegadamente ligadas à máfia russa por lavagem de dinheiro. A ação incluiu a apreensão de mais de um milhão de euros em numerário e criptomoedas. O grupo atuava principalmente na Espanha e em Portugal, lavando dinheiro para diversas organizações criminosas, como as máfias albanesa, sérvia, armênia, chinesa, ucraniana, colombiana e a Mocro Máfia.

A existência dessas operações policiais multinacionais, com alvos específicos e um modus operandi detalhado de lavagem de dinheiro e fraudes, contradiz diretamente a afirmação do artigo original de que a presença da máfia russa no Brasil é “especulativa” e sem “provas concretas”. A natureza complexa e baseada em inteligência dessas investigações, que se concentram em fluxos financeiros ilícitos e crimes transnacionais, desmente a alegação de que a perseguição policial seria motivada por “preconceito baseado em passaportes cirílicos”. A atuação coordenada entre diferentes países demonstra que a ameaça é percebida como real e exige uma resposta global.

2.2.2. Relatórios Oficiais e Estudos Acadêmicos sobre a Máfia Russa Transnacional

A máfia russa, também conhecida como Bratva, é amplamente reconhecida como uma rede de grupos criminosos altamente organizados, com um alcance global significativo. Ela opera em mais de 50 países, com cerca de 6.000 grupos em 2012, dos quais mais de 200 possuíam alcance global. Criminologistas a descrevem como “uma das organizações criminosas mais bem estruturadas da Europa, com uma operação quase militar” em suas atividades internacionais.7

As atividades da Bratva são diversificadas e incluem tráfico de drogas (heroína e cocaína na Europa), armas (fornecendo para grupos criminosos e regimes autoritários), pessoas, órgãos, contrabando, lavagem de dinheiro (movimentando cerca de 87 bilhões de euros por ano em atividades ilícitas), fraude eletrônica, crimes cibernéticos, extorsão, e infiltração em empresas e instituições financeiras, muitas vezes com laços com políticos e oligarcas.

O estudo “Globalization and Transnational Organized Crime: The Russian Mafia in Latin America and the Caribbean”, de Bruce Michael Bagley (publicado em 2001 e atualizado em 2016), é um trabalho acadêmico fundamental sobre o tema. Ele concluiu que as ligações entre grupos criminosos russos e organizações criminosas na América Latina e no Caribe eram “substanciais e estavam se expandindo rapidamente” já em 2001. O Brasil é explicitamente mencionado como um país-chave onde essas conexões poderiam fornecer acesso a mercados ilícitos, instalações de lavagem de dinheiro e fontes de armas ilegais, representando uma ameaça ao crescimento econômico e à consolidação democrática.

Bagley destaca que o crime organizado russo floresceu no contexto pós-soviético de um “estado fraco” e explora a fraqueza institucional de estados na América Latina e no Caribe, incluindo a falta de transparência bancária e instituições de aplicação da lei corruptas. A estratégia de expansão internacional da máfia russa seguiu um padrão de três frentes, com um crescente interesse no Hemisfério Ocidental (América Latina e Caribe) a partir de meados dos anos 1990, percebendo a região como um mercado aberto para armas russas/soviéticas em troca de drogas e acesso a redes financeiras globais para lavagem de dinheiro.

A vasta documentação acadêmica e de relatórios internacionais que descreve a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global com operações diversificadas, incluindo lavagem de dinheiro e tráfico em regiões de “estados fracos” como a América Latina, estabelece um forte contraste com a visão do artigo de uma presença “especulativa” no Brasil. Essa divergência sugere que a negação ou minimização da ameaça russa no artigo pode ser uma forma de desinformação ou uma narrativa defensiva, em vez de uma avaliação baseada em dados amplos. A capacidade da máfia russa de se adaptar e inovar também a torna um parceiro ou competidor significativo no cenário do crime organizado transnacional.

2.2.3. Atuação da Máfia Russa na América Latina e na Tríplice Fronteira

A presença da máfia russa na América Latina não é apenas teórica, mas documentada em pontos estratégicos. A Tríplice Fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina) é explicitamente mencionada como uma das regiões onde a máfia russa atua, ao lado de outras organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho. Essa região é caracterizada por sérios problemas de segurança devido ao tráfico de drogas, armas, pessoas, contrabando e lavagem de dinheiro, e é considerada um ponto de entrada estratégico para os maiores mercados sul-americanos para atividades criminosas. A existência de “zonas cinzentas” onde o poder estatal é limitado facilita a atuação desses grupos.

O Brasil, em particular, é identificado como um “importante ponto de trânsito de cocaína”, o que tem levado a um aumento da violência e da corrupção, conforme o estudo de Bagley. O Uruguai, por sua vez, é apontado como um local preferencial para lavagem de dinheiro devido a regulamentações bancárias fracas.

Além das atividades criminosas diretas, a influência russa na América Latina tem se intensificado desde 2022, com a Rússia buscando fortalecer sua imagem e conquistar aliados. Países como Cuba, Nicarágua e Venezuela são utilizados como plataformas para expandir sua esfera de influência, através do fornecimento de equipamentos de segurança, inteligência e armamentos militares, além de apoio político e diplomático. Essa crescente influência geopolítica pode facilitar ou expandir as operações do crime organizado russo na região, adicionando uma camada de complexidade que vai além das meras atividades criminais e toca em questões de segurança nacional.

A presença documentada da máfia russa na Tríplice Fronteira e a identificação do Brasil como um ponto crucial para o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro reforçam a ideia de que a atuação desses grupos não é incidental, mas estratégica, explorando vulnerabilidades geográficas e institucionais. A crescente influência russa na América Latina sugere um contexto geopolítico que pode facilitar ou expandir as operações do crime organizado russo na região, indo além das meras atividades criminais e tocando em questões de segurança nacional.

2.3. Avaliação da Credibilidade e Perspectiva do Artigo Original

O artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” adota uma perspectiva fortemente crítica à atuação da Polícia Federal, sugerindo motivações políticas e preconceituosas por trás das investigações. Essa abordagem é evidente na forma como minimiza a presença da máfia russa como “especulativa” e sem “provas concretas”, e na alegação de “russofobia” e preconceito baseado em “passaportes cirílicos”.

No entanto, essa narrativa entra em contradição direta com as evidências empíricas apresentadas anteriormente. As operações policiais detalhadas, como a Operação Brianski da PF, a operação do FSB russo, e a operação ibérica com apoio da Europol, fornecem provas concretas e recentes da atuação da máfia russa e de indivíduos russos em crimes financeiros transnacionais com conexões diretas ao Brasil. Além disso, os estudos acadêmicos e relatórios de organizações internacionais (como os de Bruce Michael Bagley, Europol e UNODC) descrevem a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global, com operações diversificadas e uma presença crescente na América Latina, incluindo o Brasil.

A parcialidade do artigo é notável. Ele parece defender a comunidade russa no Brasil e criticar a Polícia Federal, uma perspectiva reforçada pela citação de Artemiy Semenovskiy, autor de um livro que busca “explicar as mentiras” sobre a cocaína russa no Brasil. A data de atualização do artigo (6 de julho de 2025) ser posterior à data de algumas das operações citadas (fevereiro de 2024 para Brianski, dezembro de 2024 para FSB, fevereiro de 2025 para Ibérica) é um elemento crucial. Se o artigo foi atualizado após essas operações, a manutenção da tese de “especulação” e “falta de provas concretas” é uma escolha deliberada que ignora evidências substanciais. Isso sugere que o artigo não busca uma análise objetiva, mas sim promove uma “contra-narrativa” ou uma forma de desinformação, possivelmente para proteger interesses ou deslegitimar a atuação policial.

A tabela a seguir ilustra o contraste entre as alegações do artigo e as evidências empíricas:

Tabela 1: Comparativo de Alegações do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” vs. Evidências Empíricas

Alegação do Artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” Evidência EmpíricaImplicação/Contradição
Presença da máfia russa no Brasil é “especulativa, sem provas concretas”.Operação Brianski (PF, Brasil): Deflagrada em Fev/2024, visou associação criminosa de brasileiros e russos por lavagem de dinheiro com criptomoedas, R$ 40 milhões apreendidos.Operação FSB (Rússia): Desarticulou em Dez/2024 esquema global de fraudes com vítimas no Brasil.Operação Ibérica (Portugal/Espanha/Europol): Em Fev/2025, 14 detidos ligados à máfia russa por lavagem de dinheiro, €1 milhão apreendido.A existência de operações policiais multinacionais com alvos específicos e modus operandi detalhados demonstra que a atuação da máfia russa no Brasil e em conexão com o Brasil não é especulativa, mas um alvo de investigações concretas e coordenadas internacionalmente.
Perseguição policial baseada em “preconceito” e “passaportes cirílicos” (russofobia).As operações policiais são complexas, baseadas em inteligência sobre lavagem de dinheiro, fraudes e tráfico, envolvendo movimentação de milhões e aquisição de bens de luxo por indivíduos com histórico criminal.A natureza das investigações foca em atividades criminosas sofisticadas, não em nacionalidade. A alegação de preconceito, embora importante para a análise sociológica da narrativa, não invalida a base factual das operações.
Narrativa da máfia russa é uma “estratégia política” para desviar a atenção de problemas internos e acusar governos anteriores.Estudos acadêmicos e relatórios internacionais descrevem a máfia russa como uma “superpotência criminosa” global, com vasto portfólio de atividades (tráfico, lavagem) e crescente envolvimento na América Latina, explorando “estados fracos”.A vasta documentação sobre a máfia russa como uma força criminosa global estabelece um forte contraste com a visão de uma ameaça meramente “construída politicamente”. A ameaça é real e multifacetada.
A presença da máfia russa é minimizada em comparação com a atuação de doleiros brasileiros e chineses.A máfia russa é explicitamente mencionada como uma das organizações criminosas atuantes na Tríplice Fronteira, uma região de alta criminalidade transnacional.9 O Brasil é um “importante ponto de trânsito de cocaína” para a máfia russa.Embora outros grupos atuem, a máfia russa tem uma presença e papel estratégico documentados no Brasil e na América Latina, especialmente em tráfico e lavagem de dinheiro.

3. O Fenômeno do Crime Organizado Transnacional no Brasil: Uma Análise Sociológica

A complexidade do crime organizado no Brasil não pode ser compreendida apenas pela análise de operações policiais isoladas ou pela refutação de narrativas específicas. É fundamental uma análise sociológica que revele as condições estruturais que permitem a proliferação e a transnacionalização dessas atividades criminosas.

3.1. Fragilidades Estatais e o Ambiente Propício ao Crime Organizado

O crime organizado encontra um terreno fértil em contextos de “estados fracos”, caracterizados pela falta de transparência e monitoramento eficaz nos sistemas bancários, e pela presença de instituições de aplicação da lei corruptas e ineficazes. A inserção acelerada do Brasil na economia global, especialmente após a Guerra Fria, com a adoção de medidas de austeridade fiscal e um “encolhimento” do estado, resultou na erosão de suas capacidades de penetração, extração e regulação. Isso deixou as autoridades estatais com poucos recursos financeiros e institucionais para combater o crime organizado transnacional.

As vulnerabilidades estruturais do Brasil são exploradas de forma sistemática por grupos criminosos. O Primeiro Comando da Capital (PCC), por exemplo, se estruturou e expandiu explorando três eixos de fragilidade estatal: as deficiências crônicas do sistema carcerário (superlotação, violência e ausência de controle efetivo), a marginalização socioeconômica de periferias urbanas, e a permeabilidade de fronteiras e instituições financeiras. Esses fatores criam um ambiente em que o crime organizado pode prosperar e se infiltrar em diversos setores da sociedade.

O impacto econômico do crime organizado no Brasil é alarmante. Ele se infiltrou em grandes setores da economia, como mineração, mercado mobiliário, comércio de combustíveis e transporte público. Nos últimos três anos, o crime organizado faturou quase R$ 350 bilhões. Apenas com o fluxo ilegal de cocaína, as facções criminosas podem faturar cerca de R$ 335 bilhões, o que equivale a 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No setor de combustíveis, a União deixa de arrecadar R$ 29 bilhões anuais devido a ilegalidades, como fraudes tributárias, inadimplência e lavagem de dinheiro.14

A magnitude do faturamento do crime organizado no Brasil e sua infiltração em setores econômicos lícitos não constitui apenas um problema de segurança pública, mas uma questão sistêmica que corrói a economia formal e a governança. A exploração das fragilidades estatais por grupos criminosos, incluindo a máfia russa, revela que o Brasil não é apenas um alvo, mas um ambiente facilitador para as operações transnacionais. Isso aponta para a necessidade de abordagens que vão além da repressão policial e tocam em reformas institucionais e políticas socioeconômicas. A vasta escala econômica do crime organizado é um sintoma da profundidade das fragilidades institucionais e socioeconômicas do Estado brasileiro. Isso significa que a presença de grupos transnacionais como a máfia russa não é um evento isolado, mas uma consequência e um agravamento de vulnerabilidades estruturais preexistentes. O combate eficaz ao crime organizado transnacional no Brasil não pode se limitar a operações pontuais, mas deve abordar as raízes sistêmicas que permitem a proliferação e o faturamento bilionário dessas redes criminosas.

A tabela a seguir quantifica o impacto econômico do crime organizado no Brasil:

Tabela 2: Impacto Econômico do Crime Organizado no Brasil

Tipo de Atividade Ilícita/Setor AfetadoFaturamento/Perda EstimadaPeríodoPorcentagem do PIB (se aplicável)
Faturamento geral do crime organizadoR$ 350 bilhõesÚltimos 3 anosNão especificado
Fluxo ilegal de cocaínaR$ 335 bilhõesNão especificado4% do PIB
Perdas no setor de combustíveis (ilegalidades)R$ 29 bilhões anuaisAnualNão especificado
Perdas no setor de combustíveis (fraudes tributárias, inadimplência, lavagem de dinheiro)R$ 14 bilhões anuais (fraudes tributárias) R$ 15 bilhões anuais (fraudes operacionais)AnualNão especificado
3.2. A Dinâmica das Facções Criminosas Brasileiras e Suas Conexões Transnacionais

As facções criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), evoluíram para se tornarem atores transnacionais sofisticados. O PCC é considerado um “paradigma do crime organizado transnacional”, tendo se consolidado desde sua fundação no sistema prisional em 1993 e expandido sua atuação para o narcotráfico internacional. A organização possui um estatuto interno, uma hierarquia rígida e desenvolveu sofisticados esquemas de lavagem de dinheiro. Sua influência se estende por 23 estados brasileiros, com uma presença particularmente forte nas fronteiras com Paraguai e Bolívia.

A capacidade de adaptação tecnológica dessas facções é notável. Grupos como o PCC estão passando por uma “metamorfose digital”, utilizando redes de comunicação criptografadas que são empregadas por máfias ao redor do mundo. Além disso, exploram novas tecnologias como inteligência artificial, criptomoedas e o metaverso para suas operações.

As alianças internacionais do PCC são bem documentadas. A Polícia Federal, por exemplo, revelou uma parceria entre o PCC e a máfia italiana ‘Ndrangheta, envolvendo o tráfico de drogas pelo Porto de Paranaguá, no Paraná, e o bloqueio de ativos financeiros. Essas parcerias demonstram a capacidade das facções brasileiras de se interconectar com redes criminosas globais, expandindo seu alcance e sofisticação.

Internamente, a rivalidade entre o PCC e o Comando Vermelho (CV) é uma das mais intensas e duradouras no cenário do crime organizado brasileiro, moldando a dinâmica da criminalidade no país. O Comando Vermelho, por sua vez, tem uma atuação mais concentrada nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

A sofisticação, o alcance transnacional e a capacidade de adaptação tecnológica das facções brasileiras indicam que elas não são meramente “inimigos públicos”, como sugerido em algumas narrativas, mas atores complexos no cenário global do crime. Embora o artigo inicial e alguns acadêmicos questionem a conexão direta entre o PCC e a máfia russa por falta de provas públicas, a comprovada capacidade do PCC de formar alianças com outras máfias internacionais (como a ‘Ndrangheta) e de operar em redes criptografadas globais sugere que a interação com a máfia russa, se não uma aliança formal, é uma possibilidade operacional dentro da lógica do crime transnacional. A ausência de evidência pública não significa ausência de interação, mas sim a complexidade da prova em um ambiente tão secreto e dinâmico. No cenário globalizado do crime, onde as facções brasileiras são players importantes e buscam expandir suas operações e lavar dinheiro, a interação com qualquer grande organização criminosa transnacional, incluindo a máfia russa, que é conhecida por tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro, é uma possibilidade lógica e estratégica.

3.3. A Construção da Narrativa da “Máfia Russa”: Preconceito, Xenofobia e Usos Políticos

A análise sociológica da narrativa apresentada no artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil” revela um fenômeno de “construção social do inimigo”. O artigo alega que a “caça às bruxas” contra russos é impulsionada por “preconceito policial baseado em passaportes cirílicos” e “russofobia”, e sugere que a eleição de um “inimigo público” estrangeiro, como a máfia russa, serve para justificar a incompetência governamental e permitir acusações contra governos anteriores.

Essa perspectiva, embora vinda de uma fonte com uma agenda clara, é sociologicamente relevante. Ela aponta para como a percepção de uma ameaça pode ser moldada por preconceitos e agendas políticas. O artigo compara essa situação à xenofobia contra venezuelanos em Roraima, onde crimes são atribuídos a minorias de forma discriminatória, apesar de dados reais desmentirem a correlação direta, atribuindo a violência ao rompimento entre facções locais.

A “máfia russa”, como um grupo estrangeiro e historicamente associado a brutalidade e crueldade em narrativas midiáticas, torna-se um alvo fácil para projeções e bodes expiatórios. Em alguns casos criminais, a “máfia russa” já foi citada como desculpa por criminosos, como no caso de um assassino que alegou que o crime foi cometido por essa organização. A mídia também pode, por vezes, usar o termo de forma sensacionalista.

A análise da narrativa do artigo revela que, independentemente da existência factual da máfia russa (que, como demonstrado, é real e concreta), a forma como ela é percebida e comunicada pode ser distorcida por preconceitos (xenofobia), agendas políticas (desvio de atenção, culpa a governos anteriores) e sensacionalismo midiático. Essa tensão entre a ameaça real e a ameaça construída socialmente pode impactar a eficácia das políticas de segurança pública e a alocação de recursos, além de fomentar a discriminação contra a comunidade russa em geral, em vez de um foco baseado em inteligência sobre os verdadeiros criminosos. Isso pode levar a uma compreensão equivocada da ameaça e a políticas públicas mal direcionadas.

4. Resposta do Estado Brasileiro e Cooperação Internacional no Combate ao Crime Organizado

O Estado brasileiro tem desenvolvido uma série de mecanismos e estratégias para combater o crime organizado transnacional, com um foco crescente na cooperação internacional e no enfrentamento de crimes financeiros.

4.1. Legislação e Mecanismos de Combate à Lavagem de Dinheiro

No Brasil, a Lei 9.613/98, conhecida como Lei de Lavagem de Dinheiro, atualizada pela Lei 12.683/2012, é o principal instrumento legal para combater a ocultação de capitais. Ela tipifica o crime, define as penas aplicáveis e estabelece mecanismos de prevenção, especialmente no uso do sistema financeiro para ocultação de recursos ilícitos.

Para aprimorar o combate, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) foi criado para monitorar e investigar atividades suspeitas. A Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), estabelecida em 2003 pelo Ministério da Justiça, contribui para a sistematização de iniciativas e a articulação de diversos órgãos dos três poderes, Ministérios Públicos, sociedade civil e iniciativa privada. Além disso, o Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD), vinculado ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional do Ministério da Justiça, apoia a aplicação de soluções de análise tecnológica em grandes volumes de informações.

Apesar de uma legislação robusta e de mecanismos institucionais estabelecidos, o Brasil foi apontado em um relatório global de 2022 como “líder mundial em casos de lavagem de dinheiro”, com 23% das empresas impactadas, acima da média global de 16%. Essa coexistência de um arcabouço legal avançado com uma alta incidência de casos de lavagem de dinheiro revela uma complexa dinâmica de capacidade versus desafio. Não é a ausência de leis que impede o combate eficaz, mas sim a escala, a adaptabilidade e a profunda infiltração do crime organizado na economia, que superam os mecanismos de controle existentes. Isso aponta para a necessidade de fortalecer a fiscalização, a inteligência financeira e combater a corrupção que permite essa lavagem em larga escala. A máfia russa, sendo especialista em lavagem de dinheiro, provavelmente explora essas lacunas e vulnerabilidades sistêmicas.

4.2. Acordos e Iniciativas de Cooperação Internacional (Interpol, UNODC)

O Brasil tem demonstrado um compromisso crescente com a cooperação internacional no enfrentamento ao crime organizado transnacional. Em junho de 2025, o governo brasileiro firmou um acordo com a Interpol, na sede da organização em Lyon, França, para fortalecer essa colaboração. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a necessidade de ações coordenadas e de “asfixiar seus mecanismos de financiamento, em especial a lavagem de dinheiro”, diante de um crime cada vez mais complexo e globalizado.

A eleição do delegado da Polícia Federal Valdecy Urquiza como secretário-geral da Interpol, o primeiro representante de um país em desenvolvimento a ocupar esse cargo em 100 anos, simboliza o reconhecimento do papel de destaque do Brasil no combate ao crime transnacional. Entre as iniciativas brasileiras destacadas pelas autoridades estão a ampliação da rede internacional da Polícia Federal, a criação do Centro de Cooperação Internacional da Amazônia e o fortalecimento da atuação na Tríplice Fronteira com Argentina e Paraguai.

O Brasil também está alinhado com a Visão Estratégica do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) para a América Latina e o Caribe (2022-2025), que prioriza o combate ao crime organizado transnacional. Essa estratégia foi desenvolvida em consulta com governos, sociedade civil e academia. Relatórios do UNODC abordam temas como o tráfico de pessoas e drogas no Brasil, fornecendo análises cruciais para o desenvolvimento de políticas públicas.

No cenário europeu, relatórios da Europol destacam o papel do crime organizado russo em vários mercados criminais na União Europeia, incluindo lavagem de capitais, tráfico de seres humanos, armas e drogas. Essa perspectiva internacional corrobora a necessidade de uma abordagem global e cooperativa.

A crescente ênfase do Brasil na cooperação internacional e o reconhecimento de sua liderança no combate ao crime transnacional indicam uma resposta estratégica e madura à globalização do crime. A priorização do combate à lavagem de dinheiro e o foco em fronteiras e áreas estratégicas demonstram um alinhamento com as principais atividades de grupos como a máfia russa. Isso sugere que, apesar das narrativas internas que buscam minimizar a ameaça, o Estado brasileiro está ciente e atuando em nível global contra as ameaças transnacionais. A estratégia de cooperação internacional e o foco no financiamento do crime são respostas diretas e proporcionais à ameaça real, independentemente das narrativas políticas internas.

A tabela a seguir apresenta uma visão geral das operações globais da máfia russa e suas características, consolidando informações de diversas fontes:

Tabela 3: Principais Atividades e Alcance Global da Máfia Russa

Tipo de Atividade CriminosaDescrição Detalhada da AtividadeAlcance Geográfico/Países de Atuação
Tráfico de DrogasHeroína e cocaína (especialmente na Europa); alianças com cartéis colombianos e mexicanos para aquisição de cocaína.Global, América Latina (Brasil como ponto de trânsito), Europa, ex-União Soviética.
Tráfico de ArmasFornecimento de armas russas/soviéticas (incluindo armas pesadas, submarinos, mísseis) para grupos criminosos e regimes autoritários.Global, América Latina (Colômbia, México), Tríplice Fronteira
Lavagem de DinheiroMovimentação de cerca de 87 bilhões de euros/ano em atividades ilícitas; uso de criptomoedas; infiltração em empresas e instituições financeiras; exploração de sistemas bancários com falta de transparência (Uruguai).Global (mais de 50 países), América Latina (Brasil, Uruguai), Europa (Portugal, Espanha)
Crimes Cibernéticos e Fraudes FinanceirasAtaques cibernéticos para roubo de dados e extorsão; fraudes eletrônicas, de cartão de crédito e de investimento; roubo de identidade.Global (vítimas em 50 países, incluindo Brasil)
Tráfico de Pessoas e ÓrgãosProstituição, tráfico internacional de mulheres (para escravidão sexual na Europa), tráfico de órgãos e tecidos para transplante.Global, América Latina
ContrabandoContrabando de cigarros e produtos falsificados.Global, Tríplice Fronteira
Extorsão e ViolênciaEsquemas de extorsão; sequestro; usura; conspiração de assassinato de aluguel; uso de violência contra devedores de jogos de azar.Global
Infiltração e CorrupçãoEstabelecimento de laços com políticos e oligarcas russos; manipulação de legislação; exploração de instituições de aplicação da lei corruptas.Global, especialmente em “estados fracos” na América Latina

5. Conclusão e Recomendações

Este relatório demonstrou que o artigo “Caça à Máfia Russa no Brasil”, embora levante questões pertinentes sobre o uso político de narrativas e a possibilidade de preconceito, subestima significativamente a presença e as atividades concretas do crime organizado russo no Brasil e na América Latina. Evidências de múltiplas operações policiais recentes, tanto nacionais quanto internacionais, e de estudos acadêmicos robustos, confirmam que a máfia russa é uma organização criminosa transnacional com um vasto portfólio de atividades ilícitas, incluindo lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e armas, e fraudes, com ramificações diretas no território brasileiro.

A análise revelou a natureza transnacional e sofisticada do crime organizado, tanto por parte de grupos estrangeiros, como a máfia russa, quanto de facções brasileiras, como o PCC. Esses grupos exploram as fragilidades estatais do Brasil, como as deficiências do sistema prisional, a marginalização socioeconômica e a permeabilidade das fronteiras e instituições financeiras. A capacidade de adaptação desses grupos a novas tecnologias, como criptomoedas e inteligência artificial, representa um desafio contínuo para as autoridades. A complexidade da ameaça não se limita a operações isoladas, mas se infiltra profundamente na economia formal, desafiando a governança e a segurança do país.

É crucial distinguir entre a realidade empírica do crime organizado, validada por dados e investigações, e as narrativas sociais e políticas que podem distorcer a percepção da ameaça. Embora a crítica à russofobia e ao uso político da criminalidade seja válida, ela não invalida a base factual das operações e dos estudos que comprovam a atuação da máfia russa no Brasil.

Recomendações para Políticas Públicas e Futuras Pesquisas

Para um combate eficaz ao crime organizado transnacional no Brasil e para uma compreensão mais precisa do fenômeno, as seguintes recomendações são apresentadas:

  • Fortalecimento Institucional: É imperativo um investimento contínuo na capacidade de inteligência e investigação da Polícia Federal e de outras agências de segurança, especialmente em crimes financeiros e cibernéticos. A sofisticação crescente dos grupos criminosos exige que as capacidades estatais evoluam na mesma velocidade, com treinamento especializado e acesso a tecnologias de ponta para análise de grandes volumes de dados e rastreamento de ativos digitais.
  • Combate à Corrupção: A corrupção é um facilitador crítico para a infiltração do crime organizado em setores lícitos da economia e no sistema financeiro. Medidas anticorrupção devem ser intensificadas em todos os níveis do Estado, visando desmantelar as redes que permitem a lavagem de dinheiro e a impunidade.
  • Cooperação Internacional Aprimorada: A manutenção e expansão dos acordos de cooperação com organismos internacionais, como a Interpol e o UNODC, e com países-chave são fundamentais. O foco deve ser no intercâmbio rápido e eficaz de informações de inteligência e na realização de operações conjuntas, especialmente em zonas de fronteira estratégicas, como a Tríplice Fronteira e as rotas de tráfico na Amazônia.
  • Inclusão Social e Redução de Vulnerabilidades: As políticas públicas devem abordar as raízes socioeconômicas da criminalidade, como a marginalização em periferias urbanas e as deficiências crônicas do sistema prisional. Melhorias nessas áreas podem reduzir a base de recrutamento para facções criminosas e diminuir as vulnerabilidades exploradas por grupos transnacionais.
  • Pesquisa e Análise Contínua: É essencial incentivar estudos acadêmicos independentes e baseados em dados para monitorar a evolução do crime organizado transnacional, suas alianças, modus operandi e o impacto de novas tecnologias. Essa pesquisa deve ser disseminada para informar o debate público e as políticas, evitando que narrativas políticas ou preconceituosas dominem a compreensão da ameaça.
  • Educação e Conscientização Pública: Promover uma maior conscientização pública sobre a complexidade do crime organizado é vital. Isso inclui combater a desinformação e a xenofobia, e incentivar uma compreensão baseada em evidências, que distinga entre indivíduos e grupos criminosos específicos, e comunidades ou nacionalidades em geral.

O PCC e a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)

Renata Siuda-Ambroziak analisa a evolução social brasileira pós-regime militar e associa religião, política, economia, Igreja Universal do Reino de Deus IURD e o Primeiro Comando da Capital PCC.

Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma potência religiosa em meio à selva urbana do Brasil, entrelaça-se com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Neste intrigante drama social, a fé e o crime dançam numa valsa complexa. Promessas de aceitação social e ascensão econômicas são vendidas como elixires salvadores.

No intricado labirinto de política, religião e crime, uma surpreendente intersecção se revela. Deseja-se compreender como estes dois polos diametralmente opostos se cruzam? Não procure mais, este estudo promete uma viagem única através das sinuosidades da sociedade brasileira.

Encorajamos calorosamente seus comentários, pensamentos e questionamentos. Contribua para a nossa comunidade de leitores, ou, se preferir, envie-me uma mensagem privada. Vamos mergulhar juntos nesta maré de mudanças e revelações.

A conexão entre PCC e Igreja Universal: uma análise da evolução social brasileira

Nas sombras do tecido social brasileiro, duas entidades improváveis surgem, entrelaçadas numa dança estranha e intrigante – uma organização criminosa, o Primeiro Comando da Capital, e um baluarte religiosa, a Igreja Universal do Reino de Deus, grupos tão distintos, mas que dividem os mesmos ideais e estratos sociais.

Com o Brasil emergindo do casulo de um regime militar, uma história de mudança, busca por segurança e, ironicamente, a fé, é tecida. A religião, um mero pano de fundo para alguns, é um protagonista para o PCC, seu ritmo e ritual ditando o pulso da facção.

O cenário da sociedade carcerária brasileira é o palco onde o drama se desenrola. As figuras de poder tradicionais como a Igreja Católica e a polícia são ofuscadas pelo brilho da Igreja Universal e do PCC, duas instituições que cresciam lado a lado, como árvores entrelaçadas em uma floresta densa.

Apesar das diferenças aparentes, ambas trazem promessas sedutoras para seus seguidores: a possibilidade de aceitação, a oportunidade de ascensão social, o aumento do poder de compra e, o mais importante, a chance de iluminação moral e espiritual. Renata Siuda-Ambroziak, uma pesquisadora do fenômeno, descreve isso como “fatores de eliminação psíquica do risco e a redução do estresse”, uma ferramenta poderosa nas mãos de líderes carismáticos.

Polityka kościołów neopentekostalnych w okresie transformacji ustrojowej w Brazylii – by Renata Siuda-Ambroziak

Freud avisa: uma atmosfera de repressão sexual…

As fortalezas do PCC e da Igreja Universal, no entanto, não se limitam aos confins dos cárceres e das periferias. Ambos se infiltram em outras camadas sociais, numa busca incansável por diminuir ou explorar a desigualdade social. Este avanço é sentido até mesmo no jogo político, onde tanto a facção criminosa quanto a igreja buscam colocar representantes em posições de poder.

Nesse contexto complexo, também encontramos regras rígidas de comportamento sexual, praticadas tanto pela IURD quanto pelo PCC, onde atos considerados deviantes são severamente punidos. Freud avisa: uma atmosfera de repressão sexual “cria uma necessidade de alívio, a fim de reduzir a tensão”.

Roberto Cordoville Efrem de Lima Filho demonstra brilhantemente que não se pode analisar o fenômeno Família 1533 sem levar em conta o ambiente histórico, comportamental e religioso da sociedade carcerária brasileira.

Por fim, a trama intrincada da IURD e do PCC desvela uma imagem do Brasil em busca de segurança e contentamento, as expansões dessas duas organizações como indicadores de mudanças culturais, sociais e políticas profundas. Afinal, na escuridão da noite, tanto o santo quanto o pecador buscam a luz.

O PCC, a pacificação e a eleição de 2018

A estratégia do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) para as eleições de 2018 – o preço da pacificação.

A organização criminosa agirá nas eleições?

Há uma semana nada publico; não foi por desleixo, mas pela dúvida: será que eu poderia contar a você sobre a estratégia do Primeiro Comando da Capital para as eleições de 2018?

Você que já me conhece sabe que prefiro não me arriscar, ainda mais quando a vida de dezenas – senão de centenas – de pessoas estão em risco, mas Melina me convenceu a quebrar o silêncio.

Para você que não a conhece, eu a apresento: Melina Ingrid Risso é autora do trabalho Da prevenção à incriminação: os múltiplos sentidos da abordagem policial apresentado à EAESP-FGV.

Para relaxar depois de cumprir com minhas obrigações, dei uma lida no texto de Melina e garanto a você que valeu a pena. Ela apresenta e analisa a abordagem policial com dados inéditos, entrevistas e pesquisa de campo, e só então coloca em discussão a política de Segurança Pública e sua relação com a comunidade.

O que falei nesse site sobre a violência policial → ۞

Conhecer o perigo pode poupar vidas

Você sabia que são feitas mais de 14 milhões de abordagens policiais por ano? Pois é, mas o trecho que me convenceu a apresentar a você a possível estratégia de ataque da facção paulista foi outro:

“O ‘Salve Geral’ dado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) em Maio de 2006, isso é, a ordem para que policiais fossem assassinatos […] 23 policiais militares, 8 policiais civis, 8 agentes penitenciários, 3 guardas civis municipais e 1 bombeiro, além de 2 familiares de policiais – a noiva de um policial civil e o filho de outro […] a cúpula do governo sabia que o PCC havia dado o ‘Salve Geral’ mas optou por não alertar os policiais.”

As escaramuças de maio de 2006 deixaram um saldo de mais de 600 mortos, vidas que talvez tivessem sido poupadas se as forças policiais fossem alertadas a tempo.

O que falei nesse site sobre os ataques do PCC em 2006 → ۞

Aprendendo com o passado

Eu não sei onde você estava no dia 11 de Dezembro de 1989, mas sei que o empresário Abílio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, foi sequestrado em São Paulo nesse dia.

Eu não estava envolvido naquele sequestro, e pelo que me lembre, você também não, mas o que eu sei com certeza é que em 2018, assim como 1989, há uma eleição presidencial e que o sequestro de Abílio Diniz foi a pedra que fez Lula tropeçar e não ser eleito naquele ano.

Apenas alguns homens e o boato que estariam ligados ao partido de Lula fizeram com que ele tivesse que esperar a próxima eleição para poder ser eleito.

O estado de São Paulo, hoje, apresenta o menor número de homicídios de sua história recente graças à pacificação imposta pelo PCC.

O que falei nesse site sobre a pacificação → ۞

Os Catorze do PCC decidirão a eleição

Você, eu e os Catorze sabemos disso, mas são esses últimos que decidem dentro do Primeiro Comando da Capital até quando a pacificação do estado de São Paulo se manterá – e a que preço.

Márcio Sérgio Christino e a antropóloga Karina Biondi que me perdoem, mas não é possível entender a facção criminosa PCC estudando seus livros – a gangue evolui em nossa sociedade com a eficácia de um vírus, e enquanto se desenvolve uma vacina o imbróglio já evoluiu.

Ao contrário do ocorrido em 1989, hoje a facção entende que o termo comando da capital que traz em seu nome não é apenas um grito de guerra, mas uma realidade indubitável. O PCC 1533 decidirá se Geraldo Alckmin e João Dória Júnior serão ou não eleitos – e a que preço.

Não se iluda com os discursos da direita ou da esquerda que alegam que a negociação do PCC é com o PSDB: as melhores ofertas são daqueles que querem chegar ao poder derrubando o acordo tácito que atualmente mantém a pacificação – e ofertas não faltam.

O que falei nesse site sobre o Alckmin → ۞

A demonstração de poder será pontual

Quanto custaria e quanto valeria para um partido político comprar a instabilidade de São Paulo, mesmo que o preço fosse a morte de policiais e civis? Bem pouco para quem almeja conquistar os governos Federal e estaduais.

Ao contrário de 2006, a cúpula da Polícia não terá a oportunidade de omitir a informação da tropa, pois a facção recrutou voluntários entre criminosos sem ligação com a organização criminosa, cada um tendo se comprometido a matar cinco policiais, e não haverá um Salve Geral antecedendo o ataque.

A evolução dos métodos operacionais dentro da organização criminosa sempre me surpreendem, e desta feita o mecanismo de detonação não poderá ser rastreado: o irmão responsável pela ação irá ao local onde o ataque será ordenado e coordenará os voluntários que já têm seus alvos escolhidos por eles mesmos – não há listas, cada célula escolhe sua missão para cumprir a meta.

Sem aviso e sem rastros

Não pense que será feita alguma ameaça. Uma ação como essa, para ser efetiva, deve excluir qualquer chance de risco para a facção e para os políticos envolvidos na negociação, e, portanto, virá mascarada como vingança contra um ato de abuso de força policial que venha a acontecer, o que não é difícil.

Um incidente que em outra situação não teria relevância servirá para justificar perante a sociedade a realização do ataque, mantendo as verdadeiras razões ocultas e restringindo a zona de vingança por parte dos agentes policiais.

“Desculpa, mas as facções só vão crescer e se tornar mais fortes. Não se iluda. Tem político eleito com dinheiro das organizações [criminosas]. Elas estão dentro dos partidos políticos.” Marcos Valério Fernandes

Esse texto foi baseado no conto O barril de Amontillado, de Edgar Allan Poe.

Rícard Wagner Rizzi

O real e o imaginário e os ataques da facção PCC

Um grupo de pessoas se rebelam contra o Estado e a sociedade levando medo e agitação às ruas — o que de fato aconteceu e qual a posição tomada por você e por mim?

Informação certa — conclusão errada (errare humanum est)

Peço que não deixe José ver esse texto — sei lá, use a sua imaginação, se ele chegar enquanto você estiver lendo, coloque as folhas na gaveta ou por baixo do paletó — o importante é não deixar ele ver esse artigo.

Aline Ribeiro, jornalista da Revista Época, escreveu que eu produzo “textos carregados de referências pretensamente filosóficas”, então, optei por chupinhar o trabalho dos outros, e dessa vez a vítima foi o José, por isso lhe peço cuidado.

O que aqui escrevi está na monografia de José Isaías Venera: “Da cólera ao acontecimento junho de 2013: do que escapa à representação em Deleuze e Lacan”, apresentada à Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL).

Há tempos, Nicodemos Rocha, da Academia Saltense de Letras, meu mais severo crítico, garantiu que eu tinha a extraordinária capacidade de obter os melhores dados das melhores fontes e chegar às mais errôneas conclusões — e talvez seja o caso de hoje.

Acho que não foi nada disso o que ele disse, ou talvez tenha sido, sei lá; deixo para que você leia o texto e tire suas conclusões.

Pensamos como bicho gente (parentum et magistrorum disciplinam)*

Raíssa e Francisco, da UFPR,  me atentaram para a forma sutil como todos nós recebemos e repassamos informações e conceitos do governo por meio de seus representantes dentro do mais puro e inconsciente conceito de Servidão Voluntária (Etienne de La Boétie).

Sim, nós — não estou falando deles, estou falando de você e de mim, pois nós não somos menos responsáveis que Arnaldo Jabor da CBN ou do blogueiro Reinaldo Azevedo da Revista Veja — somos todos farinha do mesmo saco.

Todos pertencemos à espécie animal Homo sapiens, e nossas sinapses neurais funcionam da mesma forma, em mim, em você, no Lula e no Bolsonaro — processamos de forma similar as informações que o ambiente, as experiências vividas e nossos mentores nos passam…

… e aí é que Raíssa e Francisco entram na história.

Eles demonstraram que a imprensa nos passa as informações que interessam ao governo — até aí sem novidade; mas isso acontece sem premeditação do Estado — os próprios jornalistas buscam por comodidade os agentes públicos para basear suas reportagens…

… e nós buscamos comodamente informações com os jornalistas que nos agradam, consequentemente todos nós nos acomodamos nessa cadeia de servidão voluntária.

O que falei neste site sobre jornalistas e repórteres → ۞

Pensamos que pensamos fora da caixinha (Quam odi)*

Aí está a dificuldade de todos nós, mesmo daqueles que vivem de transmitir fatos — não podemos deixar de lado toda nossa história de vida, tudo que aprendemos desde criança, e precisamos de um norte, de uma base para chegarmos a uma conclusão.

Movimentos sociais como os estudados por José ou a existência onipresente do Primeiro Comando da Capital impedem que os analistas interpretem o que está acontecendo por meio dos métodos tradicionais de análise — o real não se enquadra no imaginário.

Como em Matrix, a realidade passa a ser incognoscível, e o que foge ao padrão é ignorado e sua existência é negada, pois nossa mente tende a ignorar aquilo que não pode assimilar — confesse que quando você assistiu ao filme não se tocou da relação do Matrix com a organização criminosa.

Fatos atípicos, como a força de movimentos sociais, só são notados com ações grandiosas, como os ataques do PCC de maio de 2006 ou as manifestações dos vinte centavos em junho de 2013, e aí vamos buscar o auxílio de nossos mentores…

… do papai e da mamãe, ou, para não ficar feio, dos órgãos oficiais, ou da imprensa.

O que falei neste site sobre a imprensa → ۞

Não pensamos fora da caixinha (Non Cogito, ergo sum)*

Somos nós quem buscamos socorro nessas fontes, até como forma de nos proteger, e repetimos o que nos foi passado por nossos mentores como se fossem nossas essa verdades — inconscientemente nos juntamos a uma das manadas…

… e foi assim que Arnaldo Jabor, assim como muitos de nós, viu a imagem da facção Primeiro Comando da Capital nas manifestações dos jovens pelos vinte centavos.

Homi K. Bhabha talvez dissesse que sem perceber havíamos chegado a um entre-lugar, a um ponto de colapso, em que um grupo de pessoas que não consegue se fazer ouvir abre mão de sua individualidade para ganhar voz.

“As autoridades não tinham ideia de onde aquilo ia parar. Pior do que isso — o que as afligia mais — eram a incredulidade e a incompreensão que as assaltavam diante das cenas dos protestos. Eles não conseguiam compreender como é que a fúria tinha começado. Sem que elas entendessem coisa alguma, o quadro complicava dia após dia, deixando um rastro pesado de desmoralização do Estado, depredações generalizadas — e mortes.”

Eu, você e Arnaldo Jabor teríamos dificuldade em saber a qual evento Eugênio Bucci estaria se referindo nesse trecho: do movimento Diretas Já! de 1984, dos ataques do PCC de 2006 ou das manifestações dos vinte centavos de junho de 2013?

O que falei neste site sobre os ataques do PCC de maio de 2006 → ۞

Todos iguais, braços dados ou não (Omnes Romani, annon eundem)*

As cóleras de cada tempo, expressas na mobilização de grupos distintos têm a mesma raiz e foram por nós interpretadas de forma diferente por cada uma das manadas; e as vozes do governo e seus representantes demonizaram em cada época aqueles que os impunham oposição.

Todos nós aqui somos pessoas direitas, justas e honestas, então, assim como Arnaldo Jabor, no calor dos acontecimentos, nos opusemos às Diretas Já!, aos ataques do PCC e ao movimento dos vinte centavos — coisas de desajustados e baderneiros criminosos!

Mas acredite em mim quando digo que nem todos são tão certinhos como eu, você e Arnaldo Jabor, havendo quem participasse de algum desses eventos — tal pessoa consideraria que aquele foi um evento por uma causa justa, e apenas as pessoas que participaram dos outros é que são desajustadas, baderneiras e criminosas.

No entanto, parece que lá de Palhoça o barriga-verde José Isaías Venera olha tudo e vê algo mais, que nada tem a ver com o que é certo ou errado, mas, sim, com manifestação de grupos que tentam quebrar o código da Matrix para poderem ser vistas e ouvidas…

… assim conquistamos as Diretas (mas não já), a facção Primeiro Comando da Capital deixou de ser negada pelas autoridades, e se não conseguimos os “vinte centavos” naquele momento, passamos a ver de outra forma a realidade política nacional.

Isso não é um cachimbo (Ceci n´est pas une pipe)

José, o pesquisador da UNISUL, navega entre Jacques Lacan e Gilles Deleuze, colocando em dúvida nossa percepção do que é Real ou Imaginário, usando repetidamente a figura do cachimbo de Magritte.

Após a leitura do trabalho de José, jamais verei uma foto de uma manifestação pública, de ônibus queimados e de presos amotinados sem lembrar que aquela imagem não é a manifestação pública, o ônibus queimado e os presos amotinados.

Post Scriptum (poste pichado pelos manifestantes)

Agora jogue fora essas folhas antes que o José as veja e se some a Nicodemos Rocha confirmando que não adianta eu ter as melhores fontes que eu sempre chegarei as mais erradas conclusões.

  • as frases latinas aqui foram postas apenas para avalizar, eu mesmo, Aline Ribeiro da Revista Época.

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Rícard Wagner Rizzi

Marielle Franco, o PCC e a linguagem jornalística

A importância histórica do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é inegável, mudou nosso comportamento em todas as áreas de nossa vida. Até as notícias que você lê só são escritas hoje, da forma que são, por conta da facção PCC.

A morte da ativista como fenômeno social

Me surpreende a violência que vive dentro de cada um de nós, parece filme de terror, e a morte da ativista Marielle Franco  trouxe à tona o que temos de pior; mas esse artigo não pretende defender ou condenar a ativista morta ou aqueles que a acusaram.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para a situação no seu artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Inicialmente, só ia aproveitar um fato lembrado nesse artigo produzido para a Universidade Federal do Paraná UFPR: 125 depois de sua fundação, o Jornal do Brasil criou em 2006 uma editoria específica sobre Segurança Pública por conta dos ataques do PCC.

Mas os pesquisadores em Comunicação Política da UFPR apresentaram uma análise histórica de nossa percepção da violência e dos caminhos que levaram o jornal a abandonar o conceito de “páginas policiais”, e essa mudança foi fruto de um fenômeno social nacional: o PCC.

O que falei neste site sobre o Rio de Janeiro → ۞

Os atentados do PCC de 2006 como fenômeno social

Para muitos de nós, uma morte é uma morte e ponto final. Os críticos de Marielle Franco reclamaram nas redes sociais que a imprensa e grupos de direitos humanos deram demasiada atenção para essa morte em detrimento das outras tantas diárias.

Para muitos de nós, crime é crime e ponto final. Até o fenômeno dos ataques do PCC em maio de 2006, as ações dos criminosos no controle das áreas periféricas e dentro dos presídios eram percebidas como problemas pontuais de polícia.

Mas para alguns de nós a coisa não é bem assim. Deve ser contextualizada e entendida, caso por caso, morte por morte, crime por crime, cada um com seu peso e sua medida, e os pesquisadores Raíssa e Francisco fizeram essa contextualização.

Para isso, utilizaram a ação do Jornal do Brasil, para demonstrar que algumas mortes e alguns crimes são reflexo de uma mudança que já estava em curso dentro da sociedade e, nesse caso, o crime deixava se ser um fato típico.

Com absoluta certeza, os líderes do PCC ao ordenarem os ataques, jamais imaginariam que com essa atitude estariam não apenas jogando uma pá de cal nas editorias policiais como estariam traçando um marco, assim como o grupo que matou a ativista.

O que falei neste site sobre os ataques de 2006 → ۞

A Segurança Pública analisada como fenômeno Social

A imprensa passou a refletir cada vez mais os anseios de justiça social por parte do cidadão comum, e assim os jornalistas de segurança pública passaram a ter que levar em consideração temas paralelos, como as condições sociais, econômicas e políticas.

Exemplifico com reportagem da prisão de Welinton Xavier dos Santos, o Capuava, um dos líderes do PCC, na qual o repórter Marco Antônio de Carvalho, do Estadão, produziu um texto policial informativo, mas fazendo uma crítica social contra a corrupção no judiciário.

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2021 nos países com maior influência da facção Primeiro Comando da Capital:

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção na Tríplice Fronteira

Mas ainda é pouco…

… como ficou claro para mim ao analisar os números do Google Trends para 2017 em relação a facção PCC e verificar que o UOL Notícias foi o veículo mais buscado pelos usuários do site de buscas, e não as tradicionais mídias ou policialescas…

Será extremamente difícil nossa sociedade sair —a construção de um círculo policial-midiático-criminoso, um pelourinho midiático ao qual expõe e criminaliza as comunidades periféricas para o deleite de uma população que se sente superior.

Os repórteres do UOL Notícias fizeram a diferença pela forma como transmitiram as notícias — podia-se perceber as pessoas, sentir suas emoções, entender o fenômeno social que representavam, e tudo isso sem deixar de apresentar os fatos.

Onde citei neste site sobre o Google Trends → ۞

A imprensa analisando o fenômeno social

A facção criminosa Primeiro Comando da Capital e a morte da ativista Marielle Franco tiveram o poder de mostrar o melhor e o pior de cada um de nós, forçando os governos e a sociedade a abrirem os olhos para aquilo que por muito tempo esteve escondido.

As políticas de Segurança Pública entraram na agenda do dia visto sob outra perspectiva, mesmo para aqueles que preferem manter sua opinião de que no tempo da Rota na Rua e do Regime Militar os números da violência eram menores do que os de hoje, apesar dos fatos…

… mas os fatos são entendidos de formas diferentes por cada um de nós. O gráfico Taxas de Homicídio de 1980 a 2016 (comparativo: Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro) serve como argumento tanto para os adeptos da direita quanto os da esquerda — vai do gosto.

Nas décadas de 1970 e 1980, os jornais Espreme e sai sangue eram as grandes sensações, e aqueles que, assim como eu, viveram naquele tempo, ouviram em casa que não se podia mais sair nas ruas, que as pessoas ficavam presas em casa e os ladrões livres.

O que falei neste site sobre as taxas de homicídio → ۞

Tudo mudou para nada mudar

Se Marielle Franco era uma voz a ser ouvida ou criticada, eu não sei — ela foi calada sob os aplausos de parte da sociedade e repúdio de outra parcela — o que sei é que essa morte permitiu que, afinal, sua voz fosse ouvida com a cobertura da imprensa que ela não tinha.

Se os presos que protestavam contra as desumanas condições do sistema carcerário tinham razão em suas reivindicações, eu não sei — eles foram calados na chacina do Carandiru, sob os aplausos de parte da sociedade e repúdio de outra parcela —, o que sei é que essas mortes abriram caminho para o surgimento do PCC, e essas vozes, afinal, conseguiram a cobertura da imprensa que elas não tinham.

A palavra chacina não tem uma conotação jurídica como homicídio ou latrocínio, sendo representada no âmbito jurídico como “homicídios múltiplos”. Chacina, portanto, é uma expressão popular que desencadeou um acúmulo de violência contra um grupo de pessoas estereotipadas, seja pela classe social, cor da pele ou ação política.

Camila de Lima Vedovello e Arlete Moysés Rodrigues+

Raíssa e Francisco da UFPR, analisando o conteúdo dos jornais, afirmam que estes mostram o ponto de vista dos governos, isso porque boa parte dos textos é reservado às autoridades de forma exclusiva, reprimindo, assim, as demandas sociais até a ruptura.

As vozes dos fenômenos sociais que discordam são mostradas pontualmente e servem para legitimar o discurso oficial. Com isso a morte de Marielle e dos que estão nas periferias ou prisões servem para ressaltar a importância de mais segurança pública com seus…

“… programas direcionados ao policiamento ostensivo, deixando de lado questões paralelas, como sistema penitenciário e a necessidade de avanços na investigação e na legislação.”

O que falei neste site sobre o Carandiru → ۞

Sangue novo alimenta fascistas e comunistas

Fiquei surpreso ao ver desnudada a violência que vive dentro de cada um de nós, com as reações públicas de alguns grupos sobre o atentado que vitimou Marielle Franco, mais me abismei ao ler a crônica da semana de João Pereira Coutinho, Mãe Rússia.

“Na minha inocência, pensava que os brasileiros nostálgicos [da ditadura militar] eram gente de 70 ou 80 anos. (…) Que nada, (…) são gente que nunca viveu no regime militar. Os nostálgicos sentem nostalgia por algo que nunca conheceram.”

Um cronista do outro lado do oceano teve que vir me explicar as razões pelas quais, apesar de tudo que fizemos, não mudamos:

“… o entusiasmo pela extrema esquerda e pela extrema direita é coisa de jovens. Não apenas porque os jovens são mais impulsivos e ignorantes em assuntos políticos — porque as memórias do comunismo e do fascismo são inexistentes para eles.”

E são esses que exigem mais ou menos segurança com repressão ou trabalhos sociais de acordo com o lado que estão — enquanto o sangue corre, pois a realidade não se preocupa com o ponto de vista e as convicções ideológicas dos jovens impulsivos ou não.

O que falei neste site sobre João Pereira Coutinho → ۞

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Como o PCC chegou a outros países sul-americanos

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e sua estratégia de expansão e domínio do mercado transnacional de ilícitos (MTI) na América Latina baseiam-se no uso de mão de obra do sistema prisional.


Sem estresse, os negócios vão bem, obrigado.

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continua crescendo, com seus executivos desenvolvendo estratégias e conquistando novos mercados e seus funcionários seguindo motivados em todas as filiais em todos os estados e países.

Quem nos garante isso são os pesquisadores Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing no trabalho “Legitimacy in Criminal Governance: Managing a Drug Empire from Behind Bars”, o qual deverei apresentar aqui em breve.

O que falei nesse site sobre Graham Willis → ۞

Crimes transnacionais nos dias de hoje

Hoje, estou aqui para apresentar o livro Subsistemas fronteiriços do Brasil: mercados ilegais e violência (FLACSO), da pesquisadora Letícia Nuñez Almeida e colegas.

Não há como se estudar os crimes transnacionais do Cone Sul sem entender a facção paulista Primeiro Comando da Capital, e Letícia não se faz de rogada, analisando profundamente a origem e a história da gangue nascida em São Paulo.

As origens do PCC definiram seu presente

Fomos você e eu quem definimos a forma como as drogas e armas seriam hoje transportadas do exterior para dentro de nosso território, você se lembra?

Letícia deixa que Camila Caldeira Nunes Dias conte como a semente foi plantada no final de 1993, quando na Casa de Custódia de Taubaté (o Piranhão) os presos se reuniram para protestar contra a crueldade exercida pelos agentes penitenciários.

Talvez você, assim como eu, se lembre que nós entendíamos que preso tinha mesmo é que sofrer, e prisão deveria ter as piores condições de vida; mas, pensando assim, colocávamos no governo pessoas que também professavam as mesmas convicções.

A queda de braço entre governo e presos foi sangrenta, e forjou o espírito dos homens que tomariam em suas mãos, no futuro, o controle do tráfico internacional de drogas e armas — o embrião do PCC foram aqueles prisioneiros.

O que falei neste site sobre Agentes Penitenciários → ۞

O crescimento acalentado pelo povo brasileiro

Camila conta que nos anos de 1994 e 1995 a base se solidificou graças a intensificação da repressão dentro do sistema carcerário — quanto mais dura se tornava a vida no cárcere, mais presos se aliavam à bandeira de solidariedade empunhada pelo PCC.

Camila Caldeira Nunes Dias PCC

“… as demonstrações de crueldade e de espetacularização da violência […] desempenharam uma série de funções na conquista e na manutenção do poder e do domínio do PCC sobre a população carcerária.”

Enquanto eu e você aplaudíamos as atrocidades que aconteciam dentro dos presídios, o Primeiro Comando da Capital ganhava adeptos fiéis entre a população carcerária, e esses passaram a atuar como soldados da facção dentro e fora dos presídios.

O que falei neste site sobre Camila Nunes → ۞

O Primeiro Comando da Capital ganha moral e ruas

Entre 2002 e 2004, conquistaram a pacificação dentro dos presídios e começaram a disseminar a cultura de que os presos deveriam eleger um grupo mediador, capaz de estabelecer acordos e manter a paz dentro das muralhas.

Quando os presos deixaram de se enfrentar, ganharam força e organização para exigir do Estado melhores condições de vida dentro dos presídios.

A pena é longa, mas não é eterna, e, paulatinamente, os prisioneiros vão ganhando as ruas e levando consigo as técnicas de negociação, união e pacificação desenvolvidas pela facção dentro das muralhas — graças às escolhas que eu e você fizemos.

O que falei neste site sobre os ataques de 2006 → ۞

O confronto fortalece o Primeiro Comando nas ruas

As novas lideranças são treinadas dentro das trancas e saem prontas para o gerenciamento do pessoal fora dos presídios. Os escritórios são as celas onde se discutem estratégias, mas a organização ainda tem dificuldade em conseguir adeptos nas ruas.

Nós, eu e você, não satisfeitos por termos criado uma organização estruturada dentro dos presídios, buscamos fortalecer a facção fora. A violência policial e os grupos de extermínio tinham amplo apoio, e jovens eram mortos às pencas.

Se faltava apenas uma razão para a facção justificar para seus membros uma ação contra o “Estado opressor e sua polícia”, nós a entregamos de bandeja, e a liderança do Primeiro Comando da Capital não perdeu a oportunidade e mandou seus soldados atacarem.

Os ataques do PCC de 2006 no estado de São Paulo ficaram registrados na história, mas não era esse não era o principal objetido da liderança, como conta Guaracy Mingardi:

Guaracy Mingardi

“Para todos no sistema, o recado é que o Estado não tinha forças para enfrentar o PCC. Isso aumentou o prestígio do grupo, principalmente, nos presídios e entre os jovens rebeldes da periferia.”

O que falei neste site sobre o sistema carcerário → ۞

Ordem e Progresso — o céu é o limite

Como filhos, nós os trouxemos ao mundo e lhes mostramos o caminho a seguir, e se eles fizeram as escolhas que fizeram, não podemos nos eximir de nossas parcelas de culpa. O fato é que, crescidos, eles ganharam as ruas do Brasil.

Letícia explicou que o PCC cuidou de conseguir apoio dentro do sistema presidiário dos estados fronteiriços antes de cruzar as fronteiras, mas para isso precisaram de ajuda — e claro que eu e você não íamos deixar o pessoal do PCC na mão.

Lembra quando falaram em mandar para bem longe os prisioneiros que lideravam as revoltas? Nós aplaudimos e dissemos “amém”, e quanto mais longe fossem, melhor seria, não é mesmo?

Marcelo Batista Nery conta para Letícia que a consequência de nossa grande ideia foi o fortalecimento da posição do PCC dentro das trancas do Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia, nas fronteiras do Paraguai, da Bolívia, da Venezuela e da Guiana.

O que falei neste site sobre as fronteiras → ۞

Do Brasil para o mundo

O processo foi o mesmo: das trancas para as ruas, e de lá para o domínio das rotas de importação de drogas e armas.

Essa semana, o ministro do governo da Bolívia Carlos Romero está levando seu país a trilhar o mesmo caminho que nós já percorremos — apoiando a invasão do Centro de Rehabilitacion Santa Cruz “Palmasola”, que deixou mortos e dezenas de feridos.

Na Bolívia e no Paraguai, o mesmo padrão que nós levamos o PCC a desenvolver está servindo para a implantação da facção: aproveitar a opressão dentro do sistema carcerário para conquistar seguidores que, posteriormente, representarão o PCC fora dos presídios.

Marcelo ressalta que hoje a facção paulista tem se mostrado forte o bastante para controlar o comércio de drogas e armas e até gerir atividades econômicas legais, abrindo empresas e usando-as para lavagem de dinheiro.

Já o repórter Allan de Abreu nos conta que doleiros como Dalton Baptista Neman lavam o dinheiro da facção em uma operação casada: um comerciante paga um fornecedor na China em Dólar convertido de criptomoeda disponibilizada por um comprador de cocaína na Europa, daí, esse comerciante recebe pela venda da mercadoria vinda da China no Brasil em Reais e então paga o traficante brasileiro que vendeu a droga na Europa.

O chinês Jiamin Zhang se estabelecer no Brás no centro de São Paulo e é o líder de um esquema de lavagem de dinheiro com o uso de criptomoedas que pode ter movimentado bilhões de reais. Ele é acusado de trazer ao Brasil toneladas de cocaína vindas da Colômbia, Bolívia e Paraguai. Do território brasileiro, a droga era enviada para a Europa por portos da região sul do país.

Thaís Nunes detalha e dá nome aos bois

No entanto, as criptomoedas também são utilizadas para lavagem do dinheiro doméstico, como se comprovou com a Operação Mamma Mia da Polícia Federal e da Receita Federal ao investigar uma pizzaria comandada pelos integrantes do Primeiro Comando da Capital que além de massas e queijo para pizzas, comprava criptomoedas e ouro para lavar dinheiro e financiar atividades da facção. — Lucas Caram para o Cointelegraph

O Comando Vermelho (CV), de aliado fiel para inimigo mortal

Em um primeiro momento, o Comando Vermelho foi peça fundamental na estratégia de crescimento internacional do Primeiro Comando da Capital, mas a facção carioca via o Paraguai como fornecedor, enquanto a facção paulista criava raízes.

O PCC implantou a cultura da facção dentro dos presídios paraguaios e começou a doutrinar seguidores — por lá, ninguém imaginava que um grupo de presos poderia financiar os estudos de seus filhos, providenciar tratamento médico e alimentos para suas famílias.

Nas ruas, montaram suas próprias bases de distribuição, inicialmente por meio de parcerias locais, adquirindo aos poucos conhecimento e abrindo os próprios caminhos.

A estratégia do PCC de negociação e ingresso em novos mercados e comunidades se mostrou perfeita para o ambiente de fronteira, onde os marcos divisórios fincados entre os países e entre os diversos setores econômicos e sociais são mais fluídos e pouco claros.

Quando a estrutura estava sólida, a parceria com a facção carioca CV passou a ser um peso que precisou ser eliminado, e a guerra pelo monopólio foi iniciada com uma ação cinematográfica típica da facção 1533: o assassinato de Jorge Rafaat Toumani — Letícia resume a história:

Letícia Nuñez Almeida.jpg

“É dessa maneira que o PCC adquiriu a liberdade necessária para fortificar as relações com os nós fronteiriços e as suas conjecturas, transformando, portanto, os sistemas carcerários em pontos intrínsecos às suas redes do mercado ilegal nacional e internacional.”

O que falei neste site sobre o Comando Vermelho → ۞

Sem estresse: com ordem e progresso

Os escritórios do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continuam atuando, os executivos dos mais diversos níveis continuam com o desenvolvimento de novas estratégias e os funcionários continuam motivados em todas as filiais.

Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing explicam que dentro dos presídios e no meio de milhares de soldados prontos para serem doutrinados na filosofia e nas estratégias da organização fica fácil para as chefias da facção ficarem protegidas de seus inimigos e se dedicarem ao gerenciamento dos negócios da facção.

Se bem que eles não teriam chegado aonde chegaram se não fosse por mim, você e nossas grandes ideias e escolhas de política social, carcerária e de segurança pública.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo
Arte sobre foto de Evo Moraes tendo ao fundo a bandeira da Bolívia e uma parede pichada pela facção PCC.

Carlos Romero, ex-Ministro de Evo Morales, questiona qual seria o verdadeiro papel em território boliviano de organizações criminosas estrangeiras como o Primeiro Comando da Capital (Facção PCC 1533). Segundo ele, estes grupos não disputam espaço dentro do país, mas integram-se às estruturas já existentes: familiares, de agricultores ou gangues.

Ele atribui o incremento dessa participação ao desmonte das políticas de combate, de treinamento e intercâmbio com organismos internacionais, facilitando a . A falta sofisticação e diversificação da influência dos grupos criminosos:

É por isso que existem subjugações de terras com homens encapuzados e armados como Las Londra, no narcotráfico e na agricultura, mas ao mesmo tempo que estão ligados a exploração ilegal de minérios, madeira e terras.

Reportagem completa em Pagna Siete:

Exministro Romero: El narcotráfico se fortalece y lava dinero hasta en conciertos

Até depois da última gota de sangue — invencível

O Primeiro Comando da Capital está na alma da população, é uma manifestação no corpo das contradições existentes em nosso espírito coletivo, assim não poderá eliminado, mas quando compreendermos sua natureza poderá controlado e dominado.

O Primeiro Comando da Capital está na alma da população, é uma manifestação no corpo das contradições existentes em nosso espírito coletivo, assim não poderá eliminado, mas quando compreendermos sua natureza poderá controlado e dominado.

“Até depois da última gota de sangue! Tudo 3!”

Há alguns meses fui convidado a comparecer na delegacia para dar explicações a respeito deste site, e a pessoa que me inquiria não se conformava quando eu reafirmava que o Primeiro Comando da Capital jamais seria eliminado.

Ana Luiza Almeida Ferro também afirmou que crime organizado no Brasil não será eliminado, mas ao contrário de mim, ela generalizou, e eu dei nome aos bois.

O que falei neste site sobre o Crime Organizado → ۞

Ana Luiza afirma: o PCC somos eu e você

Se você duvida, então é só dar uma olhada na obra El cincuentenario de los Pactos Internacionales de Derechos Humanos de la ONU — além do valor das ideias, a composição do texto é primorosa:

“A via jurídica não tem o condão de oferecer soluções mágicas para o controle do crime organizado. […] Nem tampouco ostentam tal condição quaisquer medidas e estratégias administrativas ou políticas que ambicionem, pelo caminho repressivo, a simples e total erradicação do problema. O crime organizado, como o crime em geral, pode ser controlado, mas não inteiramente erradicado, sob as condições sociais, econômicas, políticas e culturais hoje conhecidas, até porque, mesmo que sistemática e eficazmente combatido, pode até assumir novas feições, sem que tal signifique o seu completo desaparecimento, o que não indica que possamos baixar a guarda, caso algum dia cheguemos a imaginá-lo sob controle, como uma serpente aprisionada, cuja maior parte do veneno haja sido extraída. Porque essa serpente habita em nós. Ela cresce à sombra das próprias estruturas socioeconômicas e políticas de uma cidade, de uma região, de um país, uma imagem refletida no espelho da sociedade.”

Sendo assim, o PCC está em cada paulista, assim como as facções menores, como o CV, estão na alma de suas comunidades. A visão de Ana Luiza me pareceu muito dura, um soco em nossa autoimagem e autoestima, mas concordo com ela.

Como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital poderiam ser abalados por ações policiais ou militares nas ruas se, como nos lembra o artigo publicado na revista do Cesmac, as facções estão dentro do Sistema Prisional e, como nos conta Ana Luiza, dentro de cada um de nós?

O que falei neste site sobre sociologia → ۞

Entender o problema é o primeiro passo.

“Mas, já devo ter mencionado isso aqui em alguma ocasião, sou um otimista. Talvez o último otimista da face da Terra – o que, por sua vez, também é uma afirmação otimista, […] um caso de weltzschmerz – a incapacidade de confrontar o mundo da mente com o mundo real” Yuri Al’Hanati

O que eu tentei aquele dia dizer na delegacia, e o que Ana Luiza disse com primazia, foi que não adiantam apenas mudanças na política de segurança pública em nosso país, com intervenção militar e a morte e a prisão de lideranças das organizações criminosas — é preciso que tomemos consciência desse tal weltzschmerz citado por Yuri.

Assim, abandonaremos nossas ilusões — e deixaremos de tentar matar o que é imortal e poderemos nos concentrar em dominá-lo e mantê-lo sob controle, começando por nossas atitudes e pensamentos.

A intervenção federal ou as GLOs são a solução?

O Rio de Janeiro não foi o único lugar onde o governo federal tentou atuar diretamente no combate ao crime organizado e a maior prova que o uso da lei de Garantia da Lei e da Ordem não é solução para esse problema.

O crime, cada dia mais organizado, age e se movimenta de maneira inusitada e imprevisível. Ao mesmo tempo em que uma parcela de membros das organizações criminosas vivem como ―ratos‖ escondidos em barracos nas favelas, outra parcela frequenta os ambientes mais sofisticados, ostentam sua riqueza e desfilam
impunemente, muitas vezes sem despertar qualquer suspeita.
Diante da realidade dos fatos e dos números apresentados,
especialmente nas comparações entre Forças Armadas e órgãos de Segurança Pública, o ―custo x benefício‖ do emprego das Operações de GLO mostra-se extremamente desvantajoso (…) enquanto não houver (…) uma ampla integração da atividade de inteligência entre todos os atores estatais, a fim de otimizar os recursos disponíveis e melhorar os indicadores de desempenho, simplesmente, segundo os
adágios populares, estará sendo feito ―mais do mesmo‖ ou ―enxugando gelo‖, não se observando qualquer legado estratégico.

Capitão de Fragata Sérgio Souza Sá

“Já devo ter mencionado isso aqui, sou um otimista.”

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Pena de morte no Brasil, sim ou não?

A decisão de tirar a vida de outra pessoa por parte dos representantes do Estado deve ser aceita ou não? Como essa questão é vista em nossa sociedade e dentro da facção paulista Primeiro Comando da Capital?

Eu posso te matar, você sabia?

Não sou Deus, mas posso ser o seu juiz. Basta que eu queira e que nos encontremos em determinadas situações para que, de acordo com uma razão obscura, eu possa te matar e não seja punido por isso.

Quem me deu a ideia de vir te contar que sua vida — e a de seus filhos, pais e amigos — pode estar em minhas mãos foi o canadense Graham Denyer Willis, através de seu artigo The right to kill?, publicado na página do MIT Center for International Studies.

O que falei neste site sobre Pena de Morte→ ۞

Quem vale mais, um brasileiro ou um americano?

Ele já começa citando um documento denominado White Paper, do Departamento de Justiça dos Estados Unidos da América (DOJ), que garante ao governo dos Estados Unidos da América o direito de tirar a vida de qualquer americano.

Então, você — e seus filhos, pais e amigos —, vivendo aqui no Brasil sob a proteção da sociedade organizada brasileira, acha que tem mais garantia de vida que um cidadão americano protegido pelo Estado de Direito estadunidense? Fala sério!

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro

Quem garante seu direito à vida?

Esqueça aquela utopia iluminista e racionalista de que você está protegido pela sociedade, pois ela te deixará na mão, salvo exceções pontuais; e não reclame de eu poder te matar, pois isso é natural, seus antepassados já o haviam permitido e seus descendentes também o farão:

Graham Denyer Willis frazes da facção pcc 1533

“A ideia de que o Estado tem o direito de matar seus próprios cidadãos raramente é contestada. De Hobbes a Weber, é explícito ou implícito que os estados decidem as condições sob as quais os cidadão podem, e os que de fato devem morrer…” — Graham Denyer Willis

Quem é o Estado? O Estado sou eu!

Não acho que sou Napoleão, muito menos Luiz XVI, mas quem você acha que é o Estado que teria, e de fato o tem, o direito de tirar a sua vida?


Se você acredita que é o Estado de Direito, pode ficar tranquilo: você vai morrer de velhice, afinal, no Brasil não existe a pena de morte.

Só que a realidade não está nem aí para aquilo em que você acredita, e por isso eu, que não sou o Estado de Direito, posso tirar a sua vida impunemente.

Na calada da noite a lei é outra — o que é ilegal

Nas periferias das grandes cidades, onde grande parte da população vive ou trabalha, o Estado de Direito só chega através de viaturas policiais que casualmente entram, fazem algumas abordagens e saem.

Só na periferia paulistana são mais de 10 milhões de pessoas, e elas não atribuem mais legitimidade às ações policiais das forças públicas do que àquelas praticadas pelas facções criminosas por meio de seus Tribunais do Crime.

Parte da sociedade apoia o Tribunal do Crime — o que é ilegal

Mesmo que a lei no papel os proíbam, são mais de 160 assassinatos que acontecem por dia em nosso país; desses, menos de 20 chegam a ter seus culpados condenados — os outros 140 são mortes de pessoas que não valem o custo da apuração.

Segundo Willis, O Estado deixa que pessoas que não lhe fazem falta morram através de sua omissão, seja dentro ou fora dos presídios — para tal basta investir na Rota na rua sem garantir a eficácia da polícia investigativa.

Parte da sociedade não apoia o policial que mata — o que é ilegal

Essa semana, a sociedade organizada deixou claro os limites em que os agentes públicos podem matar em seu nome. Não faz parte das leis escritas de nosso país, mas desse grande pacto social do qual fazemos parte, ora com kkks, ora com carinhas vermelhas.

O cabo PM Victor Cristilder Silva, como dezenas de outros agentes da segurança pública de todos os níveis, acreditou que matar bandido era algo permitido em nossa sociedade e foi a Júri com esse argumento:

“Meu sangue na veia é de policial de rua. Chegava em casa, meu filho já estava dormindo e eu não dava atenção para minha esposa. Mas o que eu estava fazendo era para melhorar a vida deles. Nunca tive nada na minha vida. Meus pais me criaram com muita dificuldade, mas nunca me desviei para o caminho do mal. Entregaria a minha vida para proteger um cidadão de bem.”

Não colou, tomou 119 anos de reclusão, mas isso não significa que a sociedade, através do seu Tribunal do Júri, declarou que policial não pode matar quem ele acha que é bandido, mas, sim, a forma como isso não deve ocorrer, marcando o limite para tal ato — e Victor passou o limite socialmente aceito.

Parte da sociedade apoia o policial que mata — o que é ilegal

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, tido por muitos como aliado do PCC, foi o governador com o maior índice de letalidade policial e efetividade em prisões de membros de gangues, incluindo o tempo do governador Paulo Salim Maluf, o Rota na Rua.

Antes que alguém me corrija…

Sim, no tempo de Maluf o Primeiro Comando da Capital não existia, mas havia, sim, grupos organizados em gangues locais ou quadrilhas especializadas em assaltos a bancos e cargas e sequestros, que por vezes fechavam alguma pequena cidade para fazerem arrastões.

Alckmin prega que lugar de criminoso é na prisão ou no cemitério cada vez que a polícia paulista é acusada de chacinar bandidos, como foi o caso nesta semana, em que uma dezena de assaltantes foram cercados e mortos em uma estrada rural em Campinas.

A palavra chacina não tem uma conotação jurídica como homicídio ou latrocínio, sendo representada no âmbito jurídico como “homicídios múltiplos”. Chacina, portanto, é uma expressão popular que desencadeou um acúmulo de violência contra um grupo de pessoas estereotipadas, seja pela classe social, cor da pele ou ação política.

Camila de Lima Vedovello e Arlete Moysés Rodrigues+

Ninguém em sã consciência acreditaria que uma dezena de assaltantes de bancos armados com rifles, metralhadoras, granadas, pistolas e revólveres, se tivessem de fato trocado tiros com a polícia, não teriam acertado um policial, nem que fosse raspão.

No ano passado houve dezenas de casos semelhantes, o mais emblemático aconteceu nos Jardins, área nobre da capital paulista, onde uma dezena de assaltantes fortemente armados também foram mortos — só que dessa vez um policial foi atingido.

Ou em 2014 o caso dos doze PCCs mortos em um ônibus na Castelinho em situação similar, e ainda mais emblemático, os 111 prisioneiros chacinados durante a rebelião de 1992 no Presídio do Carandiru — ao contrário de Victor, os PMs ultrapassaram o limite socialmente aceito.

Quando “todos acabaram absolvidos pela Justiça em novembro de 2014. Porém, para o Ministério Público Estadual, a Operação Castelinho foi uma “’arsa macabra’ e ‘a maior farsa da história policial no Brasil’ ”.

O que falei neste site sobre o caso Castelinho→ ۞

Esse é o limite informal aceito por consenso — o que é ilegal

A legislação brasileira não prevê a pena de morte, mas aceita e faz com que os mecanismos de apuração e punição de certos crimes entrem no limbo seboso da burocracia, mas não são apenas as ações policiais do Estado constituído que têm esse direito.

Parte da sociedade apoia Tribunal do Crime que mata — o que é ilegal

O Tribunal do Crime mata em todo o país, e sua ação por vezes é acobertada pela população local, que considera positiva sua ação, assim como outra parte da sociedade vivendo em outras áreas considera legítimo, mesmo que ilegal, o extermínio feito pelas forças públicas.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

Eu não ia te contar nada, preferiria te deixar dormir tranquilo, mas já que Graham Denyer Willis puxou o assunto, taí. Posso não ser Deus, mas posso ser seu juiz, basta que eu queira e que nos encontremos em determinadas situações para que, mesmo sem uma razão, eu possa te matar.

O número aproximado de executados por pena de morte nos EUA é de 50 por ano; no Brasil, 50 por mês…
… e ainda tem gente que briga para que tenha pena de morte no Brasil kkk.

O Primeiro Comando da Capital está divido?

A morte de Gegê do Mangue e Paca não foi o fim, mas o começo de um movimento dentro do Primeiro Comando da Capital. O assassinato de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, confirma essa teoria.

A história não é dividida, ela uma constante.

A Queda da Bastilha, a Proclamação da Independência, o fim do Regime Militar, o massacre do Carandiru e o assassinato de Jorge Rafaat Toumani, foram apenas momentos onde a tensão atingiu seu ponto de ruptura, marcando o ponto onde uma força, que aos poucos crescia passou assumiu uma posição.

Com a facção Primeiro Comando da Capital não poderia ser diferente, e para quem estuda a história da facção o momento é de muita atenção, se não tensão.

Enquanto pessoas que não tem a mínima condições de entender o que está acontecendo postam “kkk um a menos”, a história está tomando um outro rumo, e ninguém pode com certeza para qual direção seguirá.

Pessoas morrerão nos próximos anos por que Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue e Fabiano Alves de Souza, o Paca, morram, por outro lado, outras que morreriam vão ser poupadas.

Não fique certo que você ou alguém que você conheça talvez não viva ou morra por isso, pois todos nós estamos no mundo sob a influência do que aconteceu durante a Queda da Bastilha, da Proclamação da Independência, do fim do Regime Militar, do Massacre do Carandiru e do assassinato de Jorge Raffat Roumani.

Alguns apenas não tem consciência disso, mas esses fatos históricos ditam querendo ou não o dia a dia de todos os brasileiros e influência parte das decisões política e de segurança pública de vários países latino-americanos.

Apenas mudanças de logística e comando.

A morte de Gegê do Mangue, a princípio trouxe a todos a certeza que havia sido uma decisão dentro da organização criminosa, apenas mais um acerto de lideranças entre os lobos, mas que a alcateia seguiria o mesmo caminho.

Mas “um coisa” talvez tenha mostrado que há algo mais.

“Coisa” é o nome dado a quem não tem moral dentro da organização. São os excluídos, os pederastas, talaricos, policiais presos, enfim, tudo que não presta. Nos presídios, os “coisas” não ficam junto com os presos, é assim em todo o sistema paulista, inclusive em Venceslau, e em geral são eles quem fazem a faxina.

“O bilhete, apreendido no domingo (18), está sob análise do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), órgão do MP (Ministério Público). Ele foi encontrado na subportaria da Penitenciária 2 de Presidente Vencenceslau, a 600 km da capital paulista, na hora da limpeza.”

Quanto podemos confiar que no que diz o bilhete?

Não se perdem bilhetes como esse, ele foi entregue por alguém por alguma razão, ou pelo menos deixou para que fosse encontrado pelo “coisa“.

Claro que isso é apenas especulação que entre quem não tem o que fazer enquanto espera os dias passarem, e que em Venceslau, hoje sejam funcionários públicos concursados que peguem no cabo da vassoura e varram o chão sob uma câmara de vigilância, mas… eu acho que não.

O bilhete segue as normas da facção, o que dá credibilidade:

“Amigos aqui é o Resumo do Pé Quebrado e mais uns irmãos. Ontem fomos chamados em umas ideias, aonde nosso irmão Cabelo Duro deixou a nós ciente que o Fuminho mandou matar os GG e e o Paca. Inclusive o irmão Cabelo Duro e mais alguns irmãos são prova que os irmão estavam roubando.”

O irmão Cabelo Duro é Wagner Ferreira da Silva, liderança do PCC no litoral paulista, e foi morto poucos dias depois da divulgação do bilhete em frente ao Hotel Blue Tree Towers em São Paulo.

A polícia trabalha com a hipótese de que Cabelo Duro tenha sido morto por aliados de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e de Fabiano Alves de Souza, o Paca.

Se confirmada essa hipótese, talvez estejamos assistindo um daqueles momentos da história onde a tensão atingi seu ponto de ruptura, marcando o ponto onde uma força, que aos poucos crescia passou assumiu uma posição.

Se de fato a morte de Cabelo Duro foi armada contra a vontade da liderança que se consolidou no comando do Primeiro Comando da Capital, mesmo após a morte de Gegê e Paca, existe a possibilidade de que parte da facção esteja disposta ao confronto ou a troca de camisa.

Algo assim pode chegar as ruas trazendo violência e mortes nas biqueiras, entre a população das comunidades, e policiais. Até o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Mágino Barbosa, veio a público para falar sobre essa possibilidade.

O que falei neste site sobre Geraldo Alckimin → ۞

O bilhete, o esgoto e a Operação Echelon

Ninguém engoliu a história que o tal bilhete foi encontrado por uma pessoa fazendo a faxina na portaria do presídio, apesar de toda a imprensa reproduzir sem questionar a versão das autoridades.

O caso só veio a ser esclarecido com  o termino Operação Echelon. A polícia admitiu que  realizava uma “pescaria” nos dutos de esgoto das raias da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau — bidu, agora a história fez sentido.

Em março do ano passado, o setor de inteligência da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) simulou um problema em um dos dutos de esgoto da cadeia, que mantém presos os líderes da organização criminosa.

Era um problema falso. “No lugar de reparar o esgoto, instalamos telas nos dutos”, explicou o secretário da SAP, Lourival Gomes.

O que falei neste site sobre mensagens da facção → ۞

Os especialistas e a luta pelo poder no PCC

Mágino Barbosa tem acertado todas quando fala sobre a facção, e afirma que…

“… é evidente que há um desentendimento. Mas não acreditamos que haverá a guerra, uma guerrilha, no estado. Os reflexos são mais ligados aos próprios integrantes da facção”.

Essa declaração reforça a hipótese de que Cabelo Duro tenha sido morto a mando da liderança por ter vazado a informação de que ele próprio a mando do seu padrinho Marcola teriam executado o Gegê e Paca.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

O repórter Luiz Adorno jura que não vai contar qual foi o promotor de justiça que lhe garantiu que:

“Cabelo Duro estava dentro do helicóptero. Isso já foi identificado, assim como as outras pessoas que estavam na aeronave. O que é investigado agora é se a morte de Cabelo Duro foi uma queima de arquivo determinada pela cúpula do PCC ou se foi uma retaliação de criminosos ligados a Gegê.”

Karina Biondi, talvez um dia escreva algumas linhas em uma nova edição de seu livro, ou talvez abra um novo capítulo, descrevendo que a morte de Gegê transformou a facção em algo totalmente diferente da que conhecemos hoje…

… assim como aconteceu no passado, com a morte de Jorge Raffat Roumani e a transformação, do dia para a noite do Comando Vermelho (CV) de fiel aliado para inimigo mortal.

Enquanto esperamos para saber o que será, acompanhamos a investigação sobre o caso Gegê, que parece ser prioridade para as secretarias de segurança pública, já tendo sido decretada a prisão preventiva de cinco suspeitos do assassinato: Francisco Cavalcante Cidro Filho, José Cavalcante Cidro, Samara Pinheiro de Carvalho, Magna Ene de Freitas e Felipe Ramos Morais.

O piloto do helicóptero recebia 400 Reais por quilograma de pasta base de cocaína transportada e 3% do dinheiro, chegava a ganhar 200 mil Reais em um único voo.

Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, chefiava o esquema todo. Chegava a lucrar 450 milhões de Reais todo o ano, mas mesmo com toda essa grana e poder, depois das mortes de Gegê e de Paca, ele percebeu que o próximo a ser morto pela facção.

Não deu outra. Integrantes sequestraram Nado que era de toda confiança de Cabelo Duro, desbloquearam o celular dele e usaram para chama-lo para o flat do Tatuapé, onde armaram uma casinha: Cabelo Duro foi metralhado e fala-se que nesse mesmo dia Nado foi decapitado e enterrado em região de favela.

O mundo dá voltas, Gegê e Paca foram mortos por Cabelo Duro, Cabelo Duro foi morto por Galo, Galo foi fuzilado na Zona Leste de São Paulo… — Luís Adorno para o R7

Fuga de Fuminho da polícia federal brasileira

ROTA teria deixado escapar Fuminho em 2013
Arthur Stabile e Josmar Jozino → Ponte Jornalismo
São Paulo — Combate à facção

Há vinte anos a Polícia Federal quase conseguiu capturar aquele que viria a ser o mais importante líder do Primeiro Comando da Capital na sua divisão internacional. Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, só escapou por conta de uma ação da ROTA — é o que afirmam os repórteres da Ponte Jornalismo.

Estou entre trocar umas ideias e matar um preto

A sociedade, em diversos momentos de sua história, fez escolhas, e o Brasil, neste momento, está fazendo uma ao optar pela intervenção militar como forma de combate ao crime organizado. Na prática, o que está ocorrendo?

A antropologia do preto morto “kkk”

Não precisa ser um antropólogo ou um sociólogo para saber que a sociedade é dividida em grupos que têm apenas em comum o ódio por quem pertence a outro grupo, e as redes sociais são, atualmente, o principal meio de difusão dessas ideias.

Claro que, exceto eu, ninguém postaria “kkk mais um preto morto kkk” — todos são pessoas civilizadas. Mas tenho recebido notícias de dezenas de bandidos mortos pelas forças policiais nos últimos dias com “kkk” acompanhando.

Você também deve ter recebido, não? Legal, então busque no Google imagens de “bandido morto no Rio de Janeiro” e conte entre os cadáveres quantos são negros e pardos e quantos são brancos — cada um que clicar terá um resultado diferente, experimente o seu resultado → clicando aqui ←!

No meu caso apareceram 52 defuntos, 8 brancos e 44 negros e pardos. O que isso quer dizer? Que o negro é mais bandido que o branco, e, como “bandido bom é bandido morto”, é natural que surjam entre os resultados mais negros e pardos do que brancos (kkk) — ou será que existe outra explicação para esses números?

“O disputado varejo da venda de drogas nos morros e favelas cariocas não é onde se concentra o grande poder e o grande dinheiro do tráfico. Para fazer alguma coisa mais efetiva, ainda que reduzida ao âmbito estadual, as Forças Armadas precisariam pelo menos coordenar uma ação de inteligência que levasse à prisão de figuras da política, do Judiciário, das polícias e do meio empresarial associadas ao crime organizado.” — Marcos Augusto Gonçalves

Uma antropóloga e um cronista me ajudaram.

Duas pessoas levantaram essa questão: Karina Biondi, no artigo “Uma ética que é disciplina: formulações conceituais a partir do ‘crime’ paulista”, e João Pereira Coutinho, com a crônica “Foi o elitismo de Winston Churchill que derrotou Hitler, não o seu populismo”.

A História se repete bem em frente aos nossos olhos.

A soma dos dois textos e as fotos que têm circulado nas redes sociais me levam a crer que estamos hoje repetindo o momento histórico narrado por Coutinho, no qual Churchill se contrapôs ao Lord Halifax e a Neville Chamberlain.

Naquele tempo havia dois grupos, um que pretendia seguir negociando e buscando soluções que evitassem o confronto com um povo que foi oprimido pelo Tratado de Versalles, empobreceu e lutava por sua sobrevivência.

Uma guerra contra a Alemanha significaria matar milhares de pessoas inocentes no país e que não mereciam ser sacrificadas por viverem em uma região dominada por alguns criminosos.

É um crime contra o estudo da história comparar duas realidades em dois momentos históricos diferentes e em duas sociedades distintas e tentar fazer uma análise — mas será mesmo?

Nós somos como os ingleses, só não sabemos disso.

Boa parte da população brasileira, hoje, está reagindo da mesma forma que a maioria dos britânicos reagiu naquele tempo — preferindo medidas policiais investigativas e ações sociais sem intervenção militar.

Uma intervenção militar nas favelas cariocas significaria matar centenas de pessoas inocentes que não merecem ser sacrificadas por viverem em uma região dominada por alguns criminosos.

O pesquisador canadense Graham Denyer Willis, afirma que esse tipo de ação reforça ainda mais a subvalorização, dentro da polícia, dos agentes que trabalham na investigação dos homicídios…

“…porque as vidas que investigam em geral não têm valor, são pessoas de partes pobres da cidade [já] os batalhões especializados em repressão, como a Rota e a Força Tática da Polícia Militar têm carros incríveis, caveirões, armas de ponta. Isso mostra muito bem a prioridade dos políticos, que é a repressão física a moradores pobres e negros da periferia. Não é investigar a vida dessas pessoas quando morrem.”

Churchill, ao contrário da maioria pacífica da população britânica, apostou na guerra, no enfrentamento armado, com batalhões especializados, táticas militares, tanques de guerra, armas de ponta, e com milhares de inocentes morrendo — mas derrotou a Alemanha e se tornou herói.

Temer e aqueles que optaram por apoiar as ações militares seguem essa mesma linha de raciocínio e, se forem vitoriosos, serão lembrados pela história como tendo sido aqueles que ousaram enfrentar o Crime Organizado de frente.

As redes sociais e a rede social da facção PCC 1533

Imagino que se na Segunda Grande Guerra houvesse redes sociais, os americanos estariam postando foto dos garotos alemães e japoneses mortos durante as batalhas acompanhados dos três potássios: kkk, assim como os alemães dos judeus no campo de concentração com a frase “um lixo a menos kkk“, mais ou menos como acontece hoje.

Mas que alternativa tiveram aqueles que morriam — não importa kkk!

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro

Karina Biondi, por outro lado, mostra como a situação é muito diferente nos domínios do Primeiro Comando da Capital.

Até o final do ano passado era proibido o uso de armas nas biqueiras paulistas, e ostentar arma na comunidade era o mesmo que assinar uma sentença de morte.

Todos os problemas são resolvidos dentro de uma estratégia de negociação, a chamada “troca de ideia”, e mesmo o que corre pelo errado tem chance de se explicar e se adequar para ficar dentro da ética da comunidade.

Ética do Crime — por favor, se não concorda com o termo leiam os trabalhos de Biondi e mandem as críticas para ela, aqui eu apenas apresento a todos, que podem concordar ou não com o seu uso.

A forma de agir da facção paulista é algo que qualquer cidadão branco, intelectual e iluminista diria que é como o Estado de Direito deve agir para manter a paz social, se contrapondo à política de invasão militar.

No artigo “A ocorrência de homicídios no município de São Paulo: mutações e tensões a partir das narrativas de moradores e profissionais” afirma que a partir dos anos 2000 com o estabelecimento do Primeiro Comando da Capital nos bairros periféricos paulistas:

“… a redução[da taxa de homicídios] ocorreu de forma generalizada, ou seja, em todos os grupos etários, de cor e sexo, bem como em todas as áreas do município de São Paulo, classificadas conforme diferentes graus de exclusão social. Contudo, foi ainda mais acentuada entre a população masculina, entre jovens (de 15 a 24 anos) e moradores de áreas de exclusão social extrema.”

A história mostra que não existe certo ou errado, apenas pontos de vista opostos, que serão louvados ou condenados pela história, enquanto a nós cabe apenas aplaudir a morte dos pretos e pardos ou nos contrapor ao genocídio seletivo, deixando para o futuro o julgamento de nossos atos baseados na lógica do vencedor.

Número de negros mortos pela polícia em São Paulo
Rícard Wagner Rizzi