O PCC, Marighella e a Teoria da Dependência

O Minimalismo Penal afirma que poderia ter sido evitada a criação do Primeiro Comando da Capital, afinal a organização criminosa é apenas um fruto da luta de classes.



O Primeiro Comando da Capital e Carlos Marighella

Eu gostaria de fazer uma dupla dedicatória:

Primeiro: em memória dos heróicos combatentes e guerrilheiros urbanos que caíram nas mãos dos assassinos da polícia militar, instrumentos odiados do repressor sistema de injustiça que existe em nosso país.

Temos que permanecer unidos e organizados para evitarmos que ocorra novamente um massacre, semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção em 2 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre este que jamais será apagado dos nossos corações e da consciência da sociedade brasileira.

Segundo: aos bravos homens e mulheres aprisionados em calabouços medievais do governo brasileiro e sujeitos a torturas que se igualam ou superam os horrendos crimes cometidos pelos nazistas.

A cada camarada que se oponha a esse sistema criminal e que deseje resistir fazendo alguma coisa, mesmo que seja uma pequena tarefa, eu desejo que seja firme em sua decisão. Não podemos permanecer inativos; sigam as instruções e juntem-se à luta agora.

A obrigação de todo revolucionário é fazer a revolução.

É importante não somente ler o Estatuto do Primeiro Comando da Capital, o Dicionário e a Cartilha, mas difundir seu conteúdo. Todos aqueles que concordam com esses ideais copiem à mão, mimeografem, tirem xerox e divulguem pelas mídias sociais.

Vamos maciçamente nos expressar à sociedade, mostrar esse lado esquecido, em um cenário de tanta injustiça e violência e, se for preciso, em último caso, a própria luta armada será necessária.

A Teoria da Dependência: “A Vida é um Desafio”

Claudia Wasserman do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS foi quem amarrou para mim o artigo Crime Organizado no Brasil”, de Amanda Regina Dantas dos Santos e seus colegas, à Teoria da Ondas, de Alvin Tofler .

Até entendo que não tem cabimento utilizar os conceitos macroeconômicos como metáfora para analisar o comportamento de um grupo social, mas será mesmo que não posso fazê-lo? O que Alvin ou os Racionais MC’s diriam sobre isso?

“Desde cedo a mãe da gente fala assim:

‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.’

Aí passado alguns anos eu pensei:

Como fazer duas vezes melhor se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão e pela história? Duas vezes melhor como?

Quem inventou isso aí?

Quem foi o pilantra que inventou isso aí?”

Minha avó materna, que Deus a tenha, dizia que “nós somos pobres, mas honestos”. Racionais MC’s, Carlos Mariguella, e os garotos do PCC discordariam desse conformismo, assim como André e alguns outros defensores da Teoria da Dependência.

A professora da Federal Claudia me conta que existiu duas vertentes desse pensamento econômico:

  • Fernando Henrique Cardoso (FHC) e os catedráticos da USP, que apostavam que no final todos seríamos felizes para sempre, até mesmo “os pobres, mas honestos” – assim como pensamos eu, você, minha avó e a maioria das pessoas; e
  • André Gunder Frank e os catedráticos da Escola de Brasília, que apostavam que no final nós não seremos felizes por estarmos “pelo menos cem vezes atrasados pela escravidão e pela história” – assim como pensam os Racionais MC’s, Marighella e os garotos do PCC.

A catedrática da UFRGS já me adiantou que você, assim como eu e minha avó, iria apoiar o lado de FHC, por ser essa “uma tese extremamente palatável, extremamente otimista, com base em estudos e demonstrações científicas e sociológicas”.

Da luta de classes ao PHD do crime

Existem os ricos, os pobres e também os remediados, que se autodenominam de “classe média”, você bem sabe disso, mas ao contrário do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley todos querem conquistar melhores condições ou ascender de classe.

FHC explica que isso acontecerá naturalmente: os ricos continuarão a se desenvolver, mas os remediados e os pobres progredirão paralelamente pelo efeito demonstração, galgando lentamente novas conquistas e posições, até o momento que ascenderão à classe seguinte.

André explica que não. O sistema vende esse sonho e apenas ocasionalmente alguns ascendem de classe – alimentando a ilusão de milhões –, e mesmos esses só ascenderão para ocupar as vagas que as classes superiores já não querem mais para si.

Esse é “o desenvolvimento do subdesenvolvimento, e não propriamente o desenvolvimento em si”, e esse é o resultado esperado pelo sistema dessa relação de dependência que as classes inferiores mantêm em torno das classes superiores.

As melhorias conquistadas pelas classes inferiores, tanto dos pobres quanto dos remediados, não as aproximaram das classes mais ricas, pois ”o desenvolvimento se dá de modo igual e combinado”.

Racionais MC’s, Carlos Marighella e os garotos do PCC cansaram de jogar dentro dessas regras impostas nessa relação de dependência, em que geração após geração de “pobres, mas honestos” aguardam anos para dar mais um passo – quando dão.

Eles foram à luta, cometendo pequenos delitos pelos quais foram presos e enviados ao cárcere onde muito aprenderam. Racionais MC’s, Carlos Marighella e os garotos do PCC acabaram sendo forjados no fogo do inferno, e deu no que deu, e chegaram aonde chegaram.

E aonde eu e você, pobres remediados, chegamos? O que deixamos registrado na história?

O combate às injustiças do sistema prisional

Comecei esse texto transcrevendo com algumas alterações e enxertos a introdução do “Manual do Guerrilheiro Urbano” de Carlos Marighella, o “Inimigo Número Um” – que objetivava preparar fisicamente e psicologicamente aqueles que iriam combater o governo.

Confesso que nunca havia sequer ouvido falar dessa obra até cruzar com o artigo “O Crime Organizado no Brasil” dos acadêmicos da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR, publicada na Revista Liberdades da IBCCRIM.

Foram Amanda Regina Dantas dos Santos, Ítalo José Marinho de Oliveira, Pâmela Nunes Sanchez, Priscila Farias de Carvalho e Thais Ferreira de Souza que, além de me apresentarem a obra, contaram-me sobre a teoria do Minimalismo Penal.

Ao contemporizar o “Manual do Guerrilheiro Urbano” e miscigena-lo ao Estatuto do Primeiro Comando da Capital, evidenciei o ponto de vista desses acadêmicos: as injustiças do cárcere são as ferramenta que viabilizam a militarização dos conflitos sociais.

O PCC 1533 é formado por pessoas que sabem que não vão conseguir ascender de classe por meio do mercado de trabalho e abandonaram a crença que “sendo pobre, mas honesto” conquistarão seu lugar ao sol – a princípio um simples problema de luta de classes.

Contudo esse grupo de marginalizados, ao verem frustradas suas reivindicações pelos caminhos democráticos, optaram por usar a força com o objetivo de manter sua própria subsistência e evoluir socialmente, aproveitando-se dos conhecimentos obtidos nos pátios dos presídios.

Cada um deles, do preso mais desconhecido ao Marcola, dos Racionais MC’s ao capitão Carlos Marighella, começou timidamente, e se eles não tivessem sido jogados nas masmorras, não teriam feito o que fizeram – o sistema acaba por fortalecer suas vítimas, e basicamente é isso que prega o Minimalismo Penal. 

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David



Seriam os facciosos idealistas? – perguntaria von Däniken

Quando comecei a ler “A Terceira Onda”, e isso já faz algumas décadas, achei que Alvin Toffler era uma espécie de Erich von Däniken: alguém que produz uma obra crível e ao mesmo tempo absurda, mesmo baseando-a em fatos supostamente reais.

Ledo engano meu. Ao terminar a leitura da “A Terceira Onda”, tornei-me um adepto de sua teoria, pelo menos por alguns anos. Não adianta chorar: nós nascemos, vivemos e morremos em função do momento econômico.

Você já se questionou sobre se Deus existe ou não e chegou a uma conclusão, mas, ao contrário do que pensa, não foi uma conclusão sua: você apenas seguiu a determinação de uma necessidade econômica da sociedade – pelo menos é o que me afirmou Alvin.

Da mesma forma, os Racionais MC’s e a facção paulista PCC são frutos das necessidades de um ambiente econômico – Alvin e Adam Smith veriam aí a Mão Invisível em ação: esses grupos estariam tão somente atendendo a uma demanda do mercado.

É infrutífero buscar remédios para os sintomas sem conhecer a causa da patologia, assim como é inútil vitimizar ou idealizar esses grupos criminosos, ou combater seus adeptos nas ruas e nos presídios sem atuar na causa do problema – mas qual seria esse problema?

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

PCC um filho indesejado da PM-SP

Os policiais militares negam a paternidade do Primeiro Comando da Capital, mas três acadêmicos afirmam que eles são os pais da criança.

O PCC como fruto de uma intensa emoção

O Primeiro Comando da Capital é um filho nascido de um estupro coletivo praticado por policiais militares do estado de São Paulo.

Podia ver nos olhos daqueles policiais que estavam prestes a entrar no Carandiru as pupilas dilatadas por uma mistura de medo, excitação e ódio.

Podia sentir naqueles militares os tonéis de adrenalina sendo derramados no sangue que jorrava como cascata pelas veias – um prazer quase sexual:

Foi algo tão forte e tão excitante que por alguns segundos dessa forte emoção aqueles homens trocaram suas carreiras, a vida de 111 homens e a segurança de toda uma sociedade.

Onde citei neste site Polícia Militar → ۞

Penetrando com violência – um estupro coletivo

Aqueles policiais agiram como quaisquer outros homens teriam agido na mesma situação – todos participaram, e nunca saberemos com certeza quem é o pai da criança:

“[…] o diretor tentou convencer a Polícia Militar para que ele pudesse tentar negociar com os rebelados e chegou até a porta que dava acesso ao pátio externo setor nove, mas, a polícia utilizou do momento para disparar portão adentro […]”

O nascimento do PCC seria evitável até o momento no qual o diretor do presídio foi empurrado para o lado e os homens se enfiaram com violência para dentro da instituição.

A Casa de Custódia do Carandiru estava sendo invadida sob os olhares sedentos de prazer dos telespectadores que, de suas poltronas, acompanhavam o evento e repetiam com o Datena: “bandido bom é bandido morto”:

“Estupraram?? Sequestraram?? Assaltaram?? E daí? Essa polícia é mesmo danada! Prendam a Polícia!!! Soltem os santinhos!!!”, bradavam muitos, entre eles: eu, você e Marcia Guimarães de Almeida, de Franca (São Paulo).

Onde citei neste site o Massacre do Carandiru → ۞

Pesquisando o momento da concepção do PCC

A ereção e as emoções sentidas por aqueles homens que se enfiaram naquele emaranhado de corredores escuros e sujos baixou após algumas horas.

No entanto, os policiais, sem se darem conta, plantaram a semente do mal e regaram-na com o sangue de centenas de detentos e as lágrimas de milhares de seus amigos, mulheres e familiares.

Dez meses depois, há 134 km dali, na Casa de Custódia do Taubaté, o fruto daquele sêmen introduzido gerou o Primeiro Comando da Capital.

Os policiais militares negam que um deles seja o pai da criança, mas os pesquisadores de Ciências Sociais e Direitos Humanos Cezar Bueno de Lima, Danilo Augusto Gonçalves Carneiro e Deiler Raphael Souza de Lima afirmam que podem comprovar a paternidade.

Esse é o foco do artigo “O mundo é diferente da ponte para cá: uma análise da violação dos Direitos Humanos” publicado nos anais do II Simpósio Internacional Interdisciplinar em Ciências Sociais Aplicadas pelos pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Onde citei neste site sociólogos e trabalhos de Ciências Sociais → ۞

União em torno da ética do crime

Os pesquisadores lembram que na certidão de nascimento do PCC, registrada em 1997 no Diário Oficial do Estado de São Paulo, consta:

“13. [] em 02 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre que jamais será esquecido [] por que nós do Comando vamos sacudir o Sistema e fazer essas autoridades mudar a prática carcerária, desumana, cheia de injustiça, opressão, torturas, massacres nas prisões.

Até então existiam milhares de grupos de detentos agindo isoladamente em presídios, cadeias, abrigo de menores e clínicas de internação por todo o país, mas o Massacre do Carandiru teve o poder de integrar as diversas gangues.

Foi possível, então, implantar uma ética do crime dentro do sistema carcerário, algo que freasse os abusos sexuais, a violência física e a extorsão sofrida por outros encarcerados e por agentes públicos.

“[…] assim como a necessidade de união e solidariedade entre a população carcerária para enfrentar esse inimigo comum, representado na figura dos agentes prisionais e, principalmente, da polícia.”

O mundo do crime se auto impunha a obrigação de seguir regras dos Direitos Humanos, reforçando ”o caráter de partido, não no sentido da representação democrática burguesa, mas no sentido da indústria de controle do crime”.

Onde citei neste site o lema “Paz, Justiça e Liberdade” (PJL) → ۞

Nossa desumanidade cria uma nova sociedade

Ao receber a notícia do Massacre do Carandiru:

  • o pensamento de cada um dentro do governo era sobre como capitalizar os votos e diminuir o impacto negativo na imagem;
  • o pensamento de cada um da imprensa era sobre agradar seu público e conseguir mais audiência sem comprometer sua imagem; e
  • o pensamento de cada um das forças policiais que não estiveram presentes no evento, assim como boa parte do público, era de felicidade.

Liev Tolstói, em 1886, descreveu a morte de Ivan Ilitch, mais ou menos assim:

“[…] ao receber a notícia da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos presentes foi para as alterações e promoções que essa morte poderia provocar para eles ou seus conhecidos.”

Um século e meio se passou, e eu e você somos expectadores de um mundo que banaliza a vida e a morte. Somos parte integrante da desumanidade de uma sociedade frívola e cruel, construída por valores insensíveis.

Onde citei neste site a imprensa → ۞

A criança cresce e se torna um mito

O estupro era evitável até o momento em que o diretor foi empurrado para o lado e os corredores escuros eram transformados em rios de sangue.

Nós, eu e você, assistimos ávidos de um prazer quase sexul a morte dos detentos do Carandiru, mas aquele estupro coletivo gerou um filho que agora nos cobra vingança.

Lamento ser eu a vir lhe dizer, mas o garoto não pode ser morto. Ele nasceu de um estupro e foi batizado em um rio de sangue.

O garoto cresceu, tornou-se uma ideia, um mito, e hoje vive na mente e no coração de milhões de brasileiros e de milhares de outros latino-americanos.

Os pais não assumiram a criança quando ela nasceu, e agora não podem controlá-la apesar de, uma vez por ano, desde 2002, alegarem que acabaram com sua cria maldita.

Onde citei neste site o Sistema Carcerário → ۞

A pacificação do PCC em São Paulo

Cenas da pacificação trazida pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) – a realidade brasileira superando a ficção dos americanos da DC Comics.


A facção paulista, o delegado e o investipol

Juro que vi uma discussão entre um delegado de polícia e um investigador:

— Há alguns anos esse estado estava se afundando em homicídios, em 1999 foram quase 19.400 pessoas mortas no estado de São Paulo, em 2017 esse número baixou para 4.300. Deixaram de morrer 15.100 pessoas só no ano passado! E isso aconteceu porque o PCC assumiu o controle do crime no estado! – afirma, irritado, o delegado.

— Eu não vou entregar a cidade para o crime organizado, não importa o que os números digam! – retruca o investipol.

— E seus colegas? Quantos deles foram alvejados no ano passado? Nos ataques de 2005 o PCC matou 45 policiais em apenas alguns dias Em 1999, só em serviço foram 44 policiais mortos. No ano passado, já com a pacificação, apenas 11 colegas foram mortos. Em um único ano foram 33 policiais que deixaram de morrer nas mãos dos criminosos, voltaram para casa e continuaram com suas vidas e com suas famílias!

— Eu sei das estatísticas.

— Um dia eu prometo que nós vamos acabar com o Primeiro Comando da Capital. Esse país tem que ficar em pé outra vez, mas por enquanto vai devagar, por favor. – pede, em tom conciliador, o delegado.

— Mas a cada dia em que os cidadãos vão até um traficante, para pedir proteção ou justiça, mais difícil será para reconquistá-los. – insiste, inconformado e com a cabeça baixa, o investigador.

— Quer que as pessoas respeitem mais os policiais? Tem maneiras mais inteligentes que cuspir na cara do PCC: basta seguir as normas e os regulamentos. Se o cidadão estiver errado, prenda; se não tiver provas, não forje um flagrante ou abuse da força para conseguir informações. – finaliza o delegado.

Reporter americano e o líder da facção pcc 1533

A pacificação do PCC, o repórter e o faccioso

Juro que vi um repórter entrevistando um líder da facção:

— Há rumores que a facção está controlando as comunidades, criando regulamentos e dizendo aos criminosos quais os crimes que podem ser executados e determinando os locais. Por exemplo, não seria permitido assaltar próximo às biqueiras. Essa informação procede?

— Me diga, Qual é a taxa de homicídios em São Paulo? – questiona o faccioso.

— Estamos em uma queda histórica. – responde de pronto o repórter.

Queda histórica. – começa a responder em tom de ironia o líder criminoso –. Sabe? Augusto Cesar reinou no período de mais longa paz e prosperidade que o mundo já conheceu. Ficou conhecida como a Pax Romana, e talvez um dia a pacificação que temos hoje no estado de São Paulo seja chamada de Pacificação do Primeiro Comando da Capital, quem sabe?

Cidadão questiona líder do PCC sobre a pacificação

A pacificação do PCC, o jovem cidadão e o faccioso

Juro que vi um cidadão questionando um líder da facção sobre a pacificação em São Paulo:

— Eu quero agradecer por tudo que tem feito por essa comunidade. É verdade que o PCC proíbe mortes desnecessárias e controla na periferia o crime? Todo mundo está falando disso, eu só quero saber como funciona. – começa o rapaz.

— Primeiro, uma pergunta: você concordaria com a ideia de que uma organização criminosa impusesse as regras para os demais criminosos? – retruca o líder da facção.

— Se, há três anos, quando meus pais foram mortos, esse controle já existisse, eles talvez ainda estivessem vivos.

— Exatamente, mas a facção não controla diretamente o crime nas ruas, a facção dá as diretrizes e os disciplinas de cada cidade, de cada quebrada, são quem avaliam cada caso e, se acharem que alguém está furando as regras, chamam para o debate, e, se não resolver, manda para o Tribunal do Crime. – conclui o faccioso.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

A arte imita a vida pcc 1533

A pacificação no mundo real e no cinema

Juro que vi esses diálogos no primeiro episódio da quarta temporada da série “Gotam – Pax Pinguina” – com algumas modificações no texto para adequá-lo à nossa realidade:

Acresci os números referentes ao estado de São Paulo, substituí os termos “Pax Pinguina” pelo “Pacificação do Primeiro Comando” e “gangue do Pinguim” por “Primeiro Comando”, e as palavras “comissário” por “delegado”,e “Pinguim”por “um chefe da organização criminosa”.

Encaixou-se em nossa realidade como uma luva.

Os roteiristas de Gotam alegam que a quarta temporada foi baseada no enredo de três antigas revistas da coleção, mas o controle que Pinguim exerce sobre a criminalidade se assemelha à forma de agir do PCC, e não às descritas nas revistas da DC Comics.

O fato de uma produção estrangeira descrever de maneira tão precisa uma realidade nossa me leva a duas conclusões:

  • esse fenômeno não é local e está acontecendo em outras culturas ou
  • os autores se basearam em nossa experiência social.

O mundo real supera a imaginação do cinema

Entre as características quase universais e atemporais do mundo do crime estão as guerras entre grupos rivais (facções) – a hegemonia de organização criminosa com regras escritas e ficha de ingresso de membros é uma raridade tanto na ficção quanto na realidade.

O Primeiro Comando da Capital tem o mais sofisticado sistema burocrático entre todas as organizações criminosas.

Misael Aparecido da Silva foi quem elaborou o Estatuto do Primeiro Comando da Capital conforme as diretrizes traçadas por José Márcio Felício, o Geleião, entre o final de 1993 e 1995. O documento veio a público por meio do deputado estadual Afanásio Jazadji em 20 de Maio de 1997.

No PCC não há punição sem lei anterior que a regulamente:

O Estatuto do PCC foi a base sobre a qual a facção se consolidou. Funciona para a organização criminosa como a Constituição funciona para a legislação de um país.

Quando age em desacordo com a ética do crime:

O Dicionário da Facção é um conjunto de normas que determinam e regulamentam o que é passível de punição e qual a penalidade. O Dicionário regulamenta o Estatuto, assim como o Código Penal e o Código de Processo Penal regulamentam a Constituição.

Para que tenham consciência e apoiem a luta:

Os membros da facção, seus familiares e simpatizantes devem se relacionar com a sociedade segundo as diretrizes da Cartilha do Primeiro Comando da Capital, que detalha a forma como a facção e seu Estatuto devem ser apresentados ao público externo.

Quem somos e em que condições estamos vivendo:

Existe uma Ficha de Cadastro no Sistema para os membros da facção, com detalhamentos que impressionam qualquer departamento de recursos humanos – lembrando que esses dados são coletados, distribuídos e guardados fora do alcance das autoridades.

Batman e Gordon versos SUSP

Vencendo o crime organizado

A realidade superou em muito a ficção criada pelos quadrinistas da DC Comics: enquanto o PCC criou um sistema complexo, o assecla do Pinguim, responsável pelo gerenciamento do RH, possui apenas o registro dos criminosos e os locais onde podem atuar.

Até o momento em que escrevo, eu ainda não assisti a toda a temporada, mas posso adiantar que o pequeno Batman e o Detetive Gordon irão demolir a organização montada pelo Pinguim – dúvida?

No mundo real, os mecanismos de divisão do poder e o Código de Processo Penal são uma máquina de moer carne que sustenta milhares de advogados por todo o país enquanto divide nossa sociedade em castas.

Talvez apareça um Batman e um Gordon ou um salvador da pátria para nos proteger, ou talvez o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica…

PCC ― Facções aliadas, inimigas e neutras

Listagem atualizadas das facções em guerra e em paz com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

Levantamento dos grupos, facções e bondes — inimigos, neutros e aliados

Revisado e atualizado em junho de 2020
alterações em junho de 2021

Por ocasião do ingresso da facção PCP Primeiro Comando Panda, como facção com laços de amizade com o PCC Primeiro Comando da Capital, trago a nova lista atualizada.

Levantamento dos grupos, bondes e facções inimigas

Grupos Inimigos:

  • Alagoas
    BDL — Bonde dos Malucos
  • Amapá
    UCA — União Criminosa do Amapá
  • Bahia
    PCE — Primeiro Comando de Enápolis
    PCI — Primeiro Comando de Itabuna
    TG — Paulo TG
  • Paraná
    Máfia Paranaense

Bondes Inimigos: 4

  • Alagoas
    • Bonde do Pajé
    • Bonde do Tudo 5
  • Bahia
    • Bonde da Goméia BDG
  • Maranhão — PI e PA
    • Bonde dos 40
  • Santa Catarina
    • Bonde do Chelsea

Facções Inimigas: 11

  • ADA — Amigo dos Amigos
    • Roraima
  • APS — Amigos para Sempre
    Amapá
  • Bala na Cara
    Rio Grande do Sul
  • Clã Rotela
    Paraguai
  • Choleros
    Bolívia, AC e RO
  • CP — Comando da Paz
    Bahia
  • CV — Comando Vermelho
    Rio de Janeiro, DF, RO, GO, PB, AM, RN, AP, PA, MA, TO, MG, AL, MT, AC, PI, RR, MS, RS, e CE
  • CVM — Comando Vermelho do Maranhão
    • antigo Primeiro Comando do Maranhão PCM
  • FDN — Família do Norte
    Amazonas, RN, PÁ, PB, RO, PI, MS, e RR
  • MVL — Matar, Vingar e Libertar
    Goiás
  • Nova Okaida
    Paraíba
  • Okaida RD
    Paraíba, RN
  • PGC — Primeiro Grupo Catarinense
    Santa Catarina, RS
  • PGN — Primeira Guerrilha do Norte
    Pará
  • SDC — Sindicato do Crime RN
    Rio Grande do Norte, PB

Levantamento dos grupos, bondes e facções neutras

Grupos Neutros: 12

  • Alagoas
    Comissão
    PCA — Primeiro Comando de Alagoas
  • Distrito Federal
    Bala que Voa
    Comboio do Cão
  • Goiás
    Família Monstra
  • Mato Grosso
    Comando Terrorista do MG
  • Rio de Janeiro
    Complexo de Israel
  • Rio Grande do Sul
    Grupo MR — Mata Rindo
    PCI — Primeiro Comando do Interior
    Taurus de Pelotas
  • Santa Catarina
    12 Apóstolos
    Grupo Comando Leal

Bondes Neutros: 5

  • Bahia
    Bonde da Goméia
    Bonde do Antonio (FAL)
    Bonde do RR
    Bonde do Zé Bedeu
    Bonde Ordem e Progresso — B.O.P

Facções Neutras: 5

  • Cartel do Norte (CDN)
    Amazonas
  • GDE — Guardiões do Estado
    Ceará
    • RN, MS, PB
    • em Roraima continua aliado
  • Inimigo é de Graça*
    Rio Grande do Sul
  • Katiara
    Bahia
  • Os Caveira
    Bahia

Levantamento dos grupos, bondes e fações amigas

Grupos Amigos: 18

  • Minas Gerais
    Coréia
  • Paraíba
    USA — Estados Unidos
  • Pernambuco
    CSP
    Os Kalango
  • Rio Grande do Sul
    Anti Bala
    Comando pelo Certo
    Família Mathias Velho — FMV
    Família 33
    Grupo CK2
    Grupo Cebola
    Grupo os Milhão
    Grupo os Quiquim
    Grupo os Trezentos
    Grupo Zoreia
    Inimigo é de Graça*
    Os Abertos
    Os Alemão
    Os Reforçados
  • Venezuela
    Tren de Aragua

Levantamento dos Bondes Amigos: 11

  • Bahia
    Bonde 8 de Ouro
    Bonde Alto
    Bonde Dona Maria
    Bonde do Ajeita
    Bonde do Juninho
    Bonde do Terceiro
    Bonde Feira de Santana
  • Espírito Santo
    Trem Bala*
  • Goiás
    Bonde do Ozama
  • Pernambuco
    Bonde do Cangaço
    Bonde dos Cachorros
  • Rio Grande do Sul
    Bonde do Tuca

*Segundo artigo no tribunaonline, o Trem Bala é o braço armado da facção Primeiro Comando de Vitória PCV

Facções Amigas

  • ADA — Amigo dos Amigos
    • Rio de Janeiro
  • ADE —Amigos do Estado
    • Goiás e TO
  • B-13 — Bonde dos 13
    • Acre e TO, PA, MS, PR, e RO
  • BDM — Bonde do Maluco
    • Bahia e TO
  • Cartel La Luz
    • Peru
  • CCA — Comando Classe A
    • Pará e TO
  • INFARA
    • Acre
    • Los Paisas
    • Colômbia
  • Os Manos
    • Rio Grande do Sul
  • PCP — Primeiro Comando Panda
    • Rondônia
  • PCRC — Primeiro Comando Revolucionário Catarinense
    • Santa Catarina
    • PCU — Primer Comando Uruguayo
    • Uruguai
  • PVC — Primeiro Comando de Vitória
    • Espírito Santo e RO
      • (o PVC do estado do ES já não seria uma facção amiga do PCC. Era até em 2010 agora é aliada do CV — essa mudança não constava quando na listagem distribuída dela hierarquia quando foi publicada no site)
  • Taurus
    • Rio Grande do Sul
  • Terror
    • Amapá e MS
  • TCP — Terceiro Comando Puro
    • Rio de Janeiro
  • Tríplice AFT
    • Peru, Colômbia e Brasil
  • V7
    • Rio Grande do Sul

* verificar com a Sintonia: Inimigo é de Graça está na listagem como “facção neutra” e como “grupo amigo”


COMUNICADO GERAL SISTEMA E RUA ESTADOS E PAÍSES
16/03/2020

PRIMEIRAMENTE UM SINCERO LEAL ABRAÇO A TODOS(a) IRMÃOS(a) COMPANHEIROS E AMIGOS SEM EXCEÇÃO, VIEMOS ATRAVÉS DESTE DEIXAR UMA CIÊNCIA QUE NA DATA 11/03/2020 NÓS DO PCC (PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL) FIZEMOS UM LAÇO DE AMIZADE COM A FACÇÃO PCP (PRIMEIRO COMANDO PANDA) ORIUNDA DO ESTADO DE RONDÔNIA ONDE OS AMIGOS DESFEZ O LAÇO QUE TINHAM COM NOSSOS INIMIGOS FDN E APS E ESTÃO COM NÓS EM TODOS OS SENTIDOS SENDO ASSIM ONDE TIVER UM INTEGRANTE DO PCP É PRA RECEBER DE BRAÇOS ABERTOS E PRESTAR TODO APOIO NECESSÁRIO TANTO NA RUA QUANTO NO SISTEMA POIS ESTAMOS LUTANDO PELOS MESMOS IDEAIS SENDO ASSIM A PARTIR DA DATA QUE FOI NARRADA PCP DO ESTADO DE RONDÔNIA SÃO NOSSOS AMIGOS.
DEIXAMOS UM GRANDE ABRAÇO A TODOS(a) SEM EXCEÇÃO.
ASS: PCC 1533


Listagem anterior publicada nesse site em agosto de 2018:

Facções criminosas aliadas da Família 1533 (28)

Acre: Bonde dos 13 (B13) e INFARA

Amapá: Terror

Bahia: AGEITA Q É NÓIS, Bonde do Maluco (BDM), CaveiraKatiara

Ceará: Guardiões do Estado (GDE)

Espírito Santo: Primeiro Comando de Vitória (PCV) e Trem Bala

Goiás: ADE, Bonde dos Cria, Bonde do Osama e Família Monstro

Maranhão: Bonde dos 40 (B40)

Pará: Comando Classe A (CCA)

Pernambuco: Cachorros, Coringa e USA (GRUPO)

Rio de Janeiro: Amigo dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP)

Rio Grande do Sul: Conceição, Os Abertos, Os Mano, Tauros e V7

Roraima: Primeiro Comando do Panda (PCP-RO)

Santa Catarina: Comando Leal (CL) e Primeiro Comando Revolucionário Catarinense (PCRC)

  1. Fora da lista original – acrescentada em maio de 2020
    1. Rondônia: Primeiro Comando do Pandinha (PCP) — Família do Gueto

Facções criminosas inimigas da Família 1533 (18)

Alagoas: BDL e COMICAO

Amapá: UCA-(OBS) e APS

Amazonas: Família do Norte (FDN)

Bahia: Primeiro Comando de Esperantina (PCE) e Primeiro Comando do Interior (PCI)

Brasília (Distrito Federal): Comboio do Cão

Goiás: Matar, Vingar e Libertar (MVL)

Mato Grosso do Sul: OPOSIÇÃO

Pará: Equipe REX

Paraná: Máfia Paranaense

Pernambuco: Okaida (OKD)

Rio de Janeiro: Comando Vermelho (CV)

Rio Grande do Norte: Sindicato do Crime RN (SC-RN)

Rio Grande do Sul: Bala na Cara

Santa Catarina: Primeiro Grupo Catarinense (PGC) e Bonde do Chelse

Facções criminosas neutras em relação à Família 1533 (10)

Alagoas: PCA

Bahia: Bonde do Neguinho (BDN) , Comissão da Paz (CP) e 8 de Ouro

Minas Gerais: CTGM

Rio de Janeiro: Povo de Israel (PVI)

Rio Grande do Norte: Primeira Guerrilha do Norte (PGN)

Rio Grande do Sul: Cova Rasa e Os Brasa

Santa Catarina: 12 Apóstolos

Total de facções criminosas listadas pela Família 1533 (56)

Facções criminosas em SINTONIA com a Família 1533

Acre: B13 liderança Dragão

Amapá: Terror liderança Espeta e Xico

Bahia: BDN liderança Coroinha , Doido , Fofão e Bonitão

Ceará: GDE liderança Juara , Siliciano, Moisés, Hendall e Célebro

Espírito Santo: PCV liderança Juliano

Maranhão: B40 liderança Gladiador, Dragão e Pivete

Pará: CCA liderança Goiano, Fúria e Ciclone

Rio de Janeiro: TCP liderança 90 e TH; A.D.A Liderança
FM A.D.A

Rio Grande do Sul: V7 liderança Negro

Mulheres: PCC oferece oportunidade de trabalho

A facção paulista Primeiro Comando da Capital e a situação da mulher que trabalha para o tráfico nas cidades amazônicas fronteiriças com a Colômbia.

As garotas do tráfico internacional amazônico

O Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) oferece vagas de trabalho na região da fronteira com a Colômbia. Têm preferência moradoras das cidades brasileiras de Vila Bittencourt, Ipiranga e Tabatinga ― caso tenha interesse, procure Júlia.

Júlia mudou meu conceito de quem são e como vivem as garotas que trabalham para as organizações criminosas e guerrilheiras na fronteira amazônica ― e a situação dessas mulheres, confesso, muito me entristeceu.

Hoje já não troco mais mensagens com nenhuma arlequina que vive no norte, mas quando o fazia, de longe podia sentir o calor, a vida e a alegria daquelas garotas ― de uma morena em especial, cujo nome não direi.

Eu convidei algumas vezes a morena para que viesse a São Paulo, mas, sempre por conta das responsas, estava impedida, contudo, se tivesse ouvido antes Júlia, eu teria me esforçado mais para trazer a arlequina para terras paulistas.

A mulher do tráfico no amazonas e a família do norte

A morena rasgou a camisa do 3 (e eu nem vi)!

A situação, naquela região, descrita por Júlia, com palavras de uma graduanda em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, seria algo que Granuja talvez descrevesse mais ou menos assim:

“La frontera de las chicas poderosas y hombres malos, y ladrones, y bandidos, y ladillas, y de perras de rodillas Casquillo de las balas y de grillas Los dos igual de peligrosos por si no lo pillás No sabes, no opinés.”

Após a morte de Jorge Rafaat Toumani e o massacre de Compaj, a equipe da qual a morena fazia parte migrou para o inimigo Comando Vermelho e, depois do racha CV FDN, passou a atuar como braço da facção inimiga Família do Norte.

Nem sei por que comentei essa história do passado com você, pois o que realmente me chamou a atenção no trabalho de Júlia foi algo que ela descreve como sendo a feminização da pobreza das mulheres que entram para o tráfico.

a feminização da pobreza Júlia Henriques Souza

A feminista, o cidadão de bem e a morena

Essa história de feminização ou o escurecimento da pobreza talvez seja um discurso desenhado por minorias de mulheres e negros indolentes ― a Constituição Cidadã (CF-88) e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já garantem o tratamento igualitário à todos.

Um candidato a presidente da república em debate deixou clara essa posição hipócrita de feministas e de grupos raciais que lutam pela paridade dos salários e do acesso aos cargos de chefia ― se mulheres ou negros querem ganhar mais, que trabalhem mais e melhor!

Júlia Henriques Souza, ariana e pertencente à elite cultural, discorda desse ponto de vista em seu artigo para a Revista Fronteira de Iniciação Científica e Relações Internacionais: “O narcotráfico nas fronteiras brasileiras e a feminização da pobreza: um ciclo vicioso”.

E ainda, de quebra, acabou por destruir minha ideia de quem era a morena amazônica que morou por tanto tempo em minha mente e em meu coração.

companheiras do primeiro comando da capital diferenças regionais

A mulher dentro do PCC

Mesmo que você ache que nunca encontrou algum membro da facção paulista, com certeza já ouviu falar de alguns deles, no mínimo de Marcola e Gegê do Mangue, mas duvido que possa mencionar uma mulher.

Em um esforço de memória, lembrei de algumas companheiras e aliadas, como Marcela Chagas no Rio de Janeiro e Jasiane Silva Teixeira, a da Dama de Copas que liderava (ou lidera) a facção aliada Bonde do Neguinho (BDN).

Aqui em São Paulo, as companheiras são muito ativas, e em geral têm algum relacionamento, seja de parentesco, seja amoroso, com um irmão ou um companheiro, e assim entram no mundo do crime.

Algumas acabam por ganhar autonomia nos corres, e raramente lideram equipes, mas sempre têm o maior respeito dos homens da facção.

A cúpula do PCC apregoa o respeito pela mulher do crime em todos os cantos nos quais mantém o domínio, no entanto Júlia nos mostra que na prática, por lá, pouco ou nada mudou.

a mulher do tráfico da farc na fronteira no brasil

A mulher do tráfico na fronteira colombiana

Júlia utiliza os estudos de Diana Parce para demonstrar que o ciclo de pobreza no qual as mulheres amazonenses estão inseridas as leva cada vez mais a buscar, nos grupos criminosos, uma forma de driblar as barreiras de ascensão social.

Se você conhece a vida em Vila Bittencourt, Ipiranga e Tabatinga pode dizer que Júlia está errada, mas, se não, bem, é melhor seguir o conselho de Granuja: No sabes, no opinés”.

As oportunidades de emprego são mínimas, e são oferecidas preferencialmente para os homens. As mulheres devem se limitar a algumas atividades de menor reconhecimento social e de baixa remuneração ― mercado formal é um luxo para poucas.

Não há como se falar naquela região sem mencionar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o tráfico de cocaína em um ambiente em que “muitas mulheres são forçadas a se prostituir e/ou trabalhar tanto para as FARC quanto para grupos paramilitares”.

Aquele ambiente é uma selva, e não estou usando uma metáfora: a fronteira é coberta por densa floresta e igarapés, e as cidades daquele lado da fronteira têm sempre uma cidade irmã do outro lado ― a aproximação cultural é regra, para o bem ou para o mal.

Júlia conta, inclusive, que, ao contrário do que se pensa no restante do país, a fronteira não é assim tão precisa. Os povos indígenas Tikuna circulam livremente e “a fronteira geográfica formal praticamente não tem significância, gerando problemas de nacionalidade emigração”.

o tráfico de drogas como opção ao mercado de trabalho

Drogas como a melhor opção de trabalho

Famílias deixam suas regiões de origem na Colômbia e buscam abrigo em outras regiões, sem um homem jovem ou adulto, pois esses foram recrutados à força pelas FARC ou pela milícias ― isso quando não morreram. Restaram apenas velhos, mulheres e crianças.

Algumas chegarão a La Pedrera/Vila Bitencour, Tarapacá/Ipiranga e Letícia/Tabatinga, e integrarão a azeitada indústria do tráfico da região.

Hoje há um maior controle ambiental do lado brasileiro à indústria extrativista, o que empobreceu e dificultou ainda mais a possibilidade de emprego deste lado, principalmente para as mulheres.

Enquanto você leu esse artigo, as facções criminosas transferiram de um país para outro cerca de 200 reais. Infelizmente para as garotas e para os policiais que gostavam de apresentá-las no plantão, elas já não são mais importante no processo.

Explorada pelas facções e milícias e esculachadas pelos agentes públicos, as mulheres do tráfico perderam espaço novamente para os homens que pilotam os aviões e os barcos com grandes quantidades de drogas ― algumas coisas não são tão ruins que não possam piorar.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David
ascenção social das meninas do mundo do crime pcc1533

A mulher do tráfico na fronteira colombiana

Reitero o convite. Caso tenha interesse sobre o emprego de mulheres pelas facções criminosas na região da fronteira com a Colômbia, procure o artigo de Júlia, acessível neste link.

Júlia mudou meu conceito de quem são e de como vivem as garotas que trabalham para as facções na fronteira amazônica ― e a situação dessas mulheres, confesso, muito me entristeceu. A vida no mundo do crime não é fácil como muitos pensam, mas eu não esperava que fosse tão obscura.

Por maior que seja o empenho das lideranças paulistas para tentar uma isonomia ao tratamento dado às companheiras dos vários estados, Júlia demonstrou que razões culturais vão se impor na região, impedindo a ascensão das meninas amazonenses.

O mundo nunca foi justo, mas também não precisava ser uma selva tão hostil como é na fronteira do Amazonas com a Colômbia ― e nem falei dos piuns (mosquitos incômodos)!

8 de dezembro de 2022

Foto do líder indígena Yanomami Dário Kopenawa e o símbolo do Greenpeace

Yanomami na luta contra o PCC e os garimpeiros ilegais

Dário Vitório Xiriana Kopenawa dirige a organização “Hutukara Associação Yanomami”. Por meio de seu trabalho, ele quer fazer valer as demandas dos Yanomami, entre outras coisas, no nível político. Seu trabalho se concentra em particular nos ataques de garimpeiros ilegais de ouro e crime organizado, confirmando o envolvimento da facção paulista nas ações criminosas no território indígena.

Já na década de 1980, cerca de 40 mil garimpeiros ilegais invadiram nossa terra Yanomami. O mesmo se repete hoje. Os Yanomami são mortos. Os invasores continuam aumentando. Grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que cometem crimes organizados contra os indígenas, também são uma ameaça. — Dário Kopenawa

Ele também se dirige diretamente aos líderes mundiais:

O que queremos hoje na região Yanomami é a ajuda dos países internacionais. Queremos apoio para pressionar o governo brasileiro. Os “garimpeiros” devem partir imediatamente, antes que mais parentes nossos, crianças e mulheres morram e mais violência aconteça.

O governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro tolerou as maquinações ilegais nos últimos anos de sua gestão, até mesmo encorajando-as com sua retórica agressiva. Ainda não se sabe como as coisas continuarão para a população indígena no Brasil sob o novo governo recém-eleito de Lula da Silva – mas há uma grande esperança de mais respeito pelos direitos humanos.

Trecho do artigo “wert? – Goldrausch in Brasilien zerstört Biodiversität” na página do Grampeasse

PCC e a morte de crianças e adolescentes

Facção paulista PCC 1533 se manifesta sobre recentes mortes de crianças, jovens e adolescentes.

Comunicado Geral Externo
― 20 de agosto de 2018 ―

Deixamos todos criminosos cientes que vem ocorrendo situações extremamente revoltantes e toda a família PCC está ficando indignada com tal frequência.

Temos visto e acompanhado que pessoas despreparadas e covardes tem cometido ações de violência inexplicáveis ao tirar a vida de crianças, jovens e adolescentes, na intenção de roubar celulares e objetos de pequenos valores ― apenas por maldade.

Esclarecemos a todos que não compactuamos com essas atitudes e que não aceitamos que nossas crianças, adolescentes e jovens sejam exterminados covardemente por motivos tão banais.

Pedimos que sejam trocadas umas ideias nas comunidades em todas as quebradas e orientando a rapaziada que age dentro deste perfil para evitar a violência nesta proporção, pois sabemos que o com ajuda muitos criminosos mas a vida de nossas crianças estão sendo tiradas por nada, e não vamos ser passivos com quem tirou a vida de crianças e adolescentes por covardia ou maldade.

Não estamos impedindo nenhum criminoso de fazer seus corres, mas se acontecer uma covardia aonde estivermos seremos justos e cobraremos altura.

Um forte abraço a toda criminalidade!!
S.F

Marcola do PCC e o mito de Frankenstein

A elevação de Marcola como figura heroica para determinados grupos sociais é uma criação do Estado e da imprensa, que apenas buscavam os holofotes.

Afinal quem seria o monstro? A criatura ou seu criador?

Em 15 de agosto de 2011, escrevi meu primeiro artigo sobre o Primeiro Comando da Capital, mas só há pouco tempo, em resposta ao uso dos termos “crime organizado” ou “organização criminosa”, pararam de chegar mensagens como esta:

“Presos semialfabetizados montando uma organização criminosa kkk”

Em uma das vezes que fui prestar depoimento na delegacia, até o inquiridor batia na tecla que um grupo de semi-alfabetos era incapaz de gerir uma facção ― então tá! Se eles diziam isso, quem seria eu para contrariar?

Agora que imprensa, delegados, promotores de Justiça e juízes tratam o PCC como crime organizado, creio que me deixarão em paz, parei de receber os “kkks”, então o próximo passo é falar sobre o Mito de Frankenstein.

Na história de Mary Shelley, o doutor Victor Frankenstein coloca-se no lugar de Deus e decide criar um ser, formado essencialmente de partes de cadáveres. O resultado da empreitada é uma criatura de aparência horrível.

Ao deparar-se com sua criação, o doutor a abandona à própria sorte. Rejeitada, a criatura adentra, então, em um curso de caos e destruição. Essa história, que completa duzentos anos este ano.

Na nossa história, o Estado Constituído e a imprensa criaram e mantêm viva a imagem de um demônio folclórico chamado Primeiro Comando da Capital, só que esse ser ganhou vida e seus criadores tem agora que conviver com sua criatura, senão submeter-se a ela.

Onde citei neste site os kkks → ۞

Charles Darwin o pcc e as prisões brasileiras

O darwinismo e a seleção natural das espécies

O sistema carcerário, da maneira como foi montado, possibilita aos presos tempo e ambiente propícios para a seleção natural dos mais fortes ― se você faltou à aula sobre Charles Darwin e Alfred Wallace, não tem problema, deixo aqui o link:

Nietzsche, a Seleção Natural Proposta por Charles Darwin e a Eugenia Antonio Baptista Gonçalves 127

Demorou para que a imprensa mudasse seu discurso, e só o fez após as autoridades mudarem o delas também: inicialmente negavam a existência da facção, depois a reconheciam como um grupo sem importância e hoje a apresentam como uma organização internacional.

A questão puramente semântica, é sobre se o Primeiro Comando da Capital é um grupo formado por bandidos semi-alfabetizados, ou uma facção criminosa, ou uma organização que age dentro e fora dos presídios, ou um cartel internacional, ou nada disso.

O que vale para a imprensa é a venda dos artigos, já para os representantes do Estado é mostrar cabeças rolando na guilhotina ― e se for a cabeça de um rei do tráfico, o sucesso da execução pública será maior que a de um bandido semi-analfabeto.

Onde citei neste site o Sistema Prisional → ۞

pastor Lyman Beecher álcool e drogas

O PCC e pastor Lyman Beecher de Connecticut

Eurico fez um comentário em um artigo deste site no Grupo do Facebook “Discutindo Segurança Pública” que me levou a pesquisar sobre as razões que levaram Lincoln Gakiya e seus colegas do MP-SP entre outras autoridades a demonizar o PCC:

“Conversa do Emê Pê, pura autopropaganda […] querem se mostrar para o próximo governo, para permanecer na elite dos poderes. Muito fácil, requisitar, por as mãos na massa, somente diante dos holofotes. Já não enganam mais ninguém…”

Trecho de diálogo Facebook

Michael Woodiwiss, em seu artigo Organized Evil and the Atlantic Alliance: Moral Panics and the Rhetoric of Organized Crime Policing in America and Britain, publicado na The British Journal of Criminology, explica-nos a criação do que ele intitula de demônios folclóricos.

E foi lendo seu trabalho que tive o prazer de conhecer o reverendo Lyman Beecher:

As pessoas estão mudando, estamos nos tornando um outro povo. As pessoas que antes não roubavam por vergonha, agora não estão nem aí, ostentavam seu desprezo pela lei. Se não agirmos rapidamente, a sociedade sucumbiria aos traficantes de drogas.

Lyman disse algo assim em 1812. Bastou substituir “vendedores de rum” por “traficantes de drogas” para que parecesse que isso foi escrito hoje ― os discursos dos caçadores dos demônios folclóricos não mudaram em dois séculos de história.

Onde citei neste site questões religiosas → ۞

Conflitos urbanos regime militar e constituição cidadã

A causa da criminalidade urbana

Podemos apontar como causa do aumento da criminalidade tanto o Regime Militar de 1964 quanto a Constituição Cidadã de 1988 ― a criminalidade explodiu durante os governos militares, mas a sensação de insegurança só aumentou após a redemocratização.

Ambas as afirmações seriam falaciosas: a criminalidade aumentou com o inchaço das cidades devido ao êxodo rural, e a insegurança veio com o acesso às notícias antes manipuladas.

Assim como, no passado, fez o pastor Lyman, as autoridades e a imprensa apresentaram as hordas de pobres urbanos e vendedores de bebidas como causadores da criminalidade, papel atribuído hoje à facção PCC e aos traficantes de drogas.

Onde citei neste site o Sistema Prisional → ۞

O demônio que vive entre nós

O demônio não é a causa, e, sim, o sintoma da doença

Lyman começou em 1812 a caça aos misteriosos ruff-scruffs, seres demoníacos que ameaçavam a sociedade, inimigos estranhos e nebulosos, “demônios folclóricos” que podiam atacar e destruir toda a sociedade.

Precisávamos criar por aqui algo parecido, os nossos ruff-scruffs, mas a sociedade brasileira não se assustava mais com os homens-do-saco ou com as loiras-do-banheiro.

Mostrava-se necessária a existência de alguém ou algo que pudesse ser demonizado e que tivesse se atrevido a exercer funções do Estado:

“O sistema político deixou muitas pessoas em estado de abandono, então elas tiveram que criar alguma solução. A regulação do PCC é o principal fator sobre a vida e a morte em São Paulo. O PCC é produto, produtor e regulador da violência”

A destruição da facção, sem que em paralelo se combatam as causas sociais que permitiram sua ascensão, terá tanta possibilidade de êxito quanto as ações de Lyman contra a venda de bebidas alcoólicas e a prostituição, há dois séculos.

O PCC é uma organização tão grande que, se você tentar eliminá-lo, você criará uma enorme quantidade de violência.

O crime desorganizado causa mais mortes nas periferias e entre policiais do que o crime organizado ― mas isso não é problema nosso, pobre tem de monte para morrer, e se um policial for morto é só contratar outro no lugar.

Onde citei neste site o Tribunal do Crime → ۞

Intervenção militar 2018 Rio de Janeiro

Papai resolve tudo, federalizar para ser feliz

Michael, em seu trabalho, conta-nos que uma das características da demonização é o clamor para que o Governo Federal assuma as rédeas do controle social, seja por meio da formulação de leis nacionais ou do controle direto das ações.

O pesquisador cita dezenas de exemplos na América e na Europa, no entanto, aqui mesmo no Brasil, vemos esse fenômeno se repetir.

Você já deve ter ouvido críticas ao fato de o Governo do Estado de São Paulo não entregar os condenados às prisões federais. Nome bonito, “PRISÃO DE SEGURANÇA MÁXIMA FEDERAL”, mas sempre tem o mas…

Foi dentro de uma máxima federal que se articulou a ação do Primeiro Comando da Capital, na Rocinha, no Rio de Janeiro, e…

Foi graças à federalização dos presos paulistas que a facção 1533 se espalhou com êxito por todo o país, e ninguém vai me convencer que o Governo Federal tem alguém que entende tão bem o PCC quanto Lincoln e seus colegas do MP-SP.

Aqueles que têm carência da autoridade paterna, assim como Lyman tinha, clamaram pela intervenção federal na Segurança Pública e pelo envio da Força Nacional para o estado do Ceará. Pois bem, seus sonhos foram realizados ― só que não.

Onde citei neste site a Intervenção Federal → ۞

A história como repetição cíclica

Eu e você sabemos que o mundo segue uma linha contínua: passado, presente e futuro, mas talvez isso seja apenas uma mentira construída por nossa formação judaico-cristã. Aqueles que foram criados sob a cultura hindú crêem que tudo no universo é cíclico.

Michael me lembrou essa diferença quando contou a história do Comitê Kefauver, e não há possibilidade de não associar a descrição do que aconteceu em 1950 com o que acontece hoje. Se há um ciclo histórico a ser repetido, estamos passando por ele.

Leia a descrição que Michael faz do caso do comitê americano e verá que cada linha pode ser utilizada para descrever com perfeição a caça aos PCCs, orquestrada na nossa contemporaneidade:

O governo federal estaria cada vez mais comprometido com o policiamento de mercados ilegais uma tarefa que estava provando estar além da capacidade das administrações locais.

Marcola, Frank Costello e o Mito de Frankenstein

Frank Costello foi elevado pelas autoridades como sendo o o líder mais influente do submundo. Ele declarou:não operava em lugar algum, não era convidado, e mesmo negando liderar a organização criminosa, passou a ser visto como seu líder.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, foi elevado pelas autoridades como sendo o “líder máximo do PCC”. Ele declara que nem pertence à facção, e mesmo negando liderar a organização criminosa, passou a ser visto como seu líder.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

A facção Primeiro Comando da Capital surgiu para suprir demandas de grupos sociais abandonados pelo Estado à sua própria sorte. No entanto, foi demonizada para suprir o Estado de grupos sociais que pudessem ser culpabilizados pela falência da Segurança Pública.

Um líder assumiu o Primeiro Comando da Capital, e o Estado, para conquistar a atenção dos holofotes para sua guilhotina, o demonizou ― só lamento, agora o criador deve conviver com sua criatura, senão submeter-se a ela.

3 de agosto de 2018

PCC a facção que não para de crescer
Se eu colocasse essa manchete estava preso
Isto É  → Vicente Vilardaga e Fernando Lavieri
→ São Paulo
→ Organização Criminosa
No dia seguinte que eu postasse um artigo com essa chamada seria levado para prestar depoimento e responder por apologia ao crime, então é melhor lerem a reportagem na fonte (desculpe se me rio: kkkk).

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Cocaína barata da Bolívia é com o irmão da facção PCC 1533

Existem oportunidades de mercado para a compra de cocaína da Bolívia e do Paraguai por um preço quase um terço abaixo das rotas atacadistas do Primeiro Comando da Capital.

Uma lembrança de quando eu era garoto

O assunto deste artigo é o Primeiro Comando da Capital, a compra de cocaínatribu pura no atacado, a trairagem dentro da facção e o Regime Disciplinar ou Dicionário do PCC, mas nada disso de fato para mim importa, como pretendo demonstrar aqui.

Ernesto Sabato está certo ao afirmar que “viver consiste em construir futuras lembranças, [e eu, assim como ele, sabia que estava] preparando lembranças minuciosas que algum dia [haveriam] de me trazer melancolia e desesperança”.

E a pedido do próprio Ernesto, eu não vou me alongar no assunto, mesmo porque é tudo bastante simples, como você mesmo verá, e por isso não farei que você perca tempo lendo “palavras ao vento” ― hoje será papo-reto, resumo.

Só vou contar para você como eu fiquei sabendo de tudo, para que você não precise me chamar de novo na delegacia para dar explicações, assim, já fica tudo dito e pronto ― ah! antes que me esqueça, neste texto há trechos do livro do Ernesto: O Túnel.

Esfiha como te quero

A minha tão sonhada esfiha do Habib’s

Eu era office-boy em São Paulo, trabalhava no prédio da Jovem Pan na Avenida Paulista, e na esquina da Alameda Joaquim Eugênio de Lima com a Alameda Santos havia um Habib’s ― isso foi no começo da década de 1990.

Na empresa em que eu trabalhava, o pessoal do Departamento de Arte mandava que eu fosse comprar esfihas no Habib’s todos os dias. Era caro demais para meu bolso, então fiquei por meses só sentindo o cheiro e vendo os caras comendo.

É verdade me que ofereciam, mas eu dava uma desculpa e ia comer minha marmita de arroz, arroz, arroz, feijão e uma mistura (uma mistura era como minha mãe chamava o ovo).

Foi assim por meses, até que em um dia de pagamento, depois de acertar todas as minhas contas, fui ao Habib’s e me sentei sozinho para experimentar com gosto a tal da tão cheirosa e tentadora esfiha.

Só contei isso para que você entendesse o porquê de, naquela noite do ano passado, eu estar sozinho no Habib’s, degustando esfihas e lembranças minuciosas que sempre me fazem sentir melancólico e desesperançado ― eu curto esses momentos de solidão e deprê.

Basta de efusões. Eu disse que relataria esta história de forma enxuta, e assim o farei.

Dando um tempo no Habib's

Uma operação policial próxima ao Habib’s

Eu estava sentado junto à janela, e uma barreira policial havia sido montada no final do quarteirão, então, quem entrava na rua, obrigatoriamente teria que passar pelos policiais ― só que não.

Para minha surpresa, entram no restaurante dois conhecidos meus, que, ao verem as viaturas policiais fechando a via, entraram no estacionamento do Habib’s e resolveram esperar lá dentro pelo fim da operação policial.

Vieram para minha mesa ― pronto, acabou meu sossego, lá se foi minha paz e minha degustação deprê.

Pediram de cara duas pizzas, uma de calabresa e outra portuguesa ― ai, meu Deus, só falta pedirem que eu rache a conta e eu nem gosto dessas pizzas!

A barreira não se encerrava, o assunto fluía. Os garotos estavam indo buscar dois quilos de cocaína pura, puríssima, vindos diretamente da Bolívia por meio de um contato em Santa Cruz de La Sierra ― pense em dois garotos empolgados.

O interesse do PCC na Bolívia começou em 2007 com o objetivo de estabelecer relações com narcotraficantes bolivianos e foi implementada inicialmente por aproximadamentes 100 integrantes da facção.

jornalista Allan de Abreu
cinco mil na mesa do Habib's

Cocaína da Bolívia e o negócio da China

Iam faturar uma boa grana sem o risco de pegar dois mil quilômetros de estradas e fazer negócio em um país estrangeiro com um contato que não conheciam pessoalmente.

Garotos espertos, não marcaram a entrega na cidade deles, e sim em Campinas ― cidade grande, com muito fluxo de veículos e muitas entradas e saídas.

Colocaram sobre a mesa os pacotinhos de dinheiro totalizando cinco mil Reais.

Empolgados, me contaram que já haviam, no ato da encomenda, depositado em uma conta da Caixa quatro mil. Quinze dias depois de pegarem a mercadoria, depositariam outra parcela de cinco mil.

Para falar a verdade eu estava mais preocupado com a conta do Habib’s, mas algo me incomodou na conta dos garotos: 5+4+5=14, tudo bem, é um bom preço, afinal o preço da cocaína em São Paulo gira em torno de 18 mil, só que, sempre tem o “só que…”

O preço de mercado da cocaína pura, gira em torno de 18 mil DÓLARES o quilo, à vista, e eles estavam comprando por 14 mil REAIS dois quilos, parcelado! ― pense em dois garotos empolgados e um tiozinho olhando com cara de “Oh! Coitados!”.

acompanhando a entrega da droga via google maps

Os garotos do corre e a garota do transporte

Bem, eu prometi que seria breve, que não iria me alongar, mas é importante que você saiba de tudo para entender que eu não tive nada a ver com isso, e só fiquei sabendo dos nomes, da história e dos locais por puro acaso.

Tocou o celular de um deles, era a garota que transportava a mercadoria, e como não tinha nenhuma mesa por perto ocupada, eles colocaram no viva-voz.

Ela falava com bastante naturalidade, e os garotos tentaram fazer com que que ela levasse a mercadoria para o estacionamento do Habib’s, ali mesmo, mas ela insistia em outro ponto.

Nunca tinha imaginado que o transporte funcionava assim. Eles haviam acompanhado o trajeto pelos Google Maps, legal essa tecnologia, só que, sempre tem o “só que…”

Reparei que não estava sincronizado on-line, que ela atualizava manualmente a localização ― estranhei isso.

Ela insistia em que eles fizessem o depósito da segunda parcela antes que a mercadoria fosse entregue ― estranhei isso também.

Só eu parecia achar que era muita coisa estranha para um negócio, mas cada um com seus problemas, a minha preocupação era que eles saíssem do Habib’s sem pagar as pizzas que por sinal, só eles estavam comendo.

Eu devia estar demonstrando nervosismo porque os garotos me intimaram a dar explicação para minha agitação.

Conferência de Cara Crachá no Sistema PCC

Buscando cara crachá dentro do Sistema

Não ia dizer para eles que estava preocupado que não pagassem a conta do Habib’s, então disfarcei, e disse que o preço da droga estava incompatível, a atualização do localizador estava sendo feito manualmente e não senti firmeza na voz e no método da garota.

Vieram com aquela enxurrada de afirmações que tudo estava certo, que não tinham dúvidas, que era um irmão conhecido da facção, para depois de alguns momentos de silêncio, ficarem tensos e olhando um para o outro.

Pensei até que não tinham acreditado na minha história, e haviam percebido minha preocupação sobre quem iria pagar as pizzas, mas aí os dois foram para os celulares e esqueceram da minha presença ― eu deveria ter saído sem pagar naquele momento.

Começaram a ligar para o contato que estava intermediando o negócio, era um irmão de outro estado, mas que estava respondendo só em texto e, quando soltava a voz, dava para perceber que era gravação antiga ― só os garotos na empolgação não tinham manjado.

Dei o toque e, então, eles começaram a correr em busca de informações dentro do Sistema Carcerário ― um liga para um Sintonia, outro para um Cadastro, e começou o debate e a agitação dentro das trancas para conseguir informação do tal irmão.

Ameaçando mandar para o Tribunal do Crime do PCC

A confirmação vem do Cadastro do MS

Veja, não estou tentando alongar o assunto, pelo contrário, estou resumindo ao máximo, pois assim eu havia dito a você que o faria, no entanto é importante que você entenda todos os detalhes para ver que fui apenas um mero observador nessa história.

O cadastro do Mato Grosso do Sul passou o Cara Crachá do tal irmão. De fato ele existia e não era excluído, porém, alguém estaria usando o nome dele para aplicar golpes, e eles estavam sendo vítimas de uma armação.

Imagine a cara dos dois quando receberam essa resposta das trancas. Planos maléficos foram feitos na hora, e pelo celular armaram rapidamente uma equipe para pegarem a garota, com ou sem drogas.

Engrossaram a voz quando ela ligou novamente, ameaçaram usar o Tribunal do Crime do PCC para pegar tanto ela quanto os outros envolvidos ― ela desligou. A barreira policial a essa altura já havia ido embora, e eu pensei em pedir um café.

2. Ato de Esperteza:
Quando usa de má fé ou abusa da confiança depositada, se parece com ratinagem, muda que o prejudicado confia e acaba sendo lesado.
Punição: exclusão sem retorno, cobrança a ser analisada.

Eu sei onde você mora, vou mandar a polícia aí

Eu sei quem você é e onde você mora

Desisti do café. Se eles não pagassem a pizza, ia sobrar para mim, e teria que rezar para que o saldo no cartão desse para pagar a conta ― eu só tinha 10 reais em dinheiro. Será que daria para tirar os 10% do garçom? Às vezes por causa de cinco reais o cartão não passa.

Toca o celular, uma mensagem escrita, dizendo que eles deviam deixar quieto o bagulho e engolirem o prejuízo em paz, que eles sabiam quem os garotos eram. Mandaram até as fotos das casas dos dois rapazes, dizendo que fariam uma denúncia para a polícia caso insistissem.

Vi que a foto era do Google Street View, mas ficava evidente que o golpista tinha informações sobre os garotos e poderia causar problemas se quisesse.

Para acusarem o irmão no Tribunal do PCC, eles precisariam de provas 100% confiáveis, e eles só tinham textos e gravações de voz do WhatsApp, que eram trechos gravados e repetidos ― o processo viraria contra eles.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

Construindo uma nova lembrança para o futuro

Um golpe esperado, uma proposta inesperada

O tal do irmão ainda propôs um negócio para os garotos: ele pagaria 50% do lucro em outros golpes se eles indicassem possíveis compradores e dessem dados para ele poder chegar nos caras, assim como alguém tinha feito com eles.

Esse encontro no Habib’s aconteceu há um ano, e só agora me lembrei de contar essa história, pois fiquei sabendo que o mesmo golpe, utilizando o nome do mesmo irmão continua sendo aplicado, com alguma variação.

Fui àquela noite reviver uma lembrança do passado, mas acabei construindo mais uma futura lembrança, minuciosa, que hoje já me traz certa melancolia e desesperança.

Mas o importante é que consegui cumprir o que prometi: não me alonguei no assunto mais que o estritamente necessário ― como acaba de me lembrar Ernesto.

O grupo criminoso Primeiro Comando da Capitalassim como as bruxas e o comunismo, é utilizado para que grupos políticos, que estão no poder ou desejam chegar a ele, criem um ambiente de terror com alguma finalidade específica.

Aparentemente é o que voltou a acontecer agora na Bolívia, onde parte do governo do presidente Luis Arce deseja facilitar a ação no país da  Drug Control Administration (DEA), apesar de há muito a facção PCC 1533 ter caído no esquecimento pela população boliviana.

Os números do Google Trends não deixam dúvidas de que o fantasma está sendo alimentado artificialmente para então poder ser combatido.

Facção PCC: os dois lados da questão

Quem se opõe a essa narrativa para justificar uma intervenção americana no país, que no geral não acaba bem, é o vice-ministro de Substâncias Controladas, Jaime Mamani Espíndola, que afirma que se fosse significativa a presença da facção paulista no país as autoridades não poderiam circular livremente como o fazem.

Quem apoia e alimenta essa narrativa e pede a presença do DEA, que no geral acaba trazendo dólares para o país e holofotes para políticos e agentes do Estado através de políticas de “intercâmbio”, é a oposição de direita que há poucos anos tentou tomar o país a força e a Comunidad Ciudadana (CC), uma coligação política de centro liderada pelo ex-presidente Carlos Mesa.

Em San Matías, capital da Província boliviana de Ángel Sandóval no departamento de Santa Cruz, situado na fronteira com o Brasil, é comum a prisão de estrangeiros com ligação com as facções brasileiras, mas segundo o ministro de Governo, Carlos Eduardo Del Castillo Del Carpio, nada que a polícia boliviana já não esteja preparada para atuar.

Já seus opositores, mesmo contrariando os dados estatísticos, apresentam exceções como regra, como a execução de duas pessoas naquela cidade em um confronto entre criminosos e, a morte de um sargento durante uma operação da Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (Felcn) em San Ignacio de Velasco, Santa Cruz. e um colombiano ex-combatente das FARC no Parque Noel Kempff.

Os líderes comunitários, o PCC e a polícia

A formação de uma liderança comunitária apoiada pelo Primeiro Comando da Capital e sua relação com a facção e as forças policiais.

PCC elegendo uma liderança para o bairro

Dona Celina só foi escolhida como líder da comunidade por ser evangélica e por ter sido indicada pela liderança do PCC. Ela nem imagina que foi assim, mas eu estava lá quando houve o debate da formação e de quem deveria liderar a comunidade.

Tinha acabado o jogo entre Vila Nova e Vila Progresso, e nós estávamos em frente ao bar Gordo, que fica ao lado do campinho, quando do nada surgiu a conversa, que virou um debate, e a aprovação e o fechamento foi na hora:

A estratégia seria montar uma associação de moradores na comunidade para lutar por melhorias na educação e na estrutura de escolas e creches, na pavimentação das ruas, no abastecimento de água , e também para servir como mediadora na pacificação das ruas.

Mas quem assumiria a liderança da associação?

Alguém falou no nome da Dona Celina e pronto. Ninguém ali duvidava que ela era a pessoa perfeita para o cargo. Ela devia estar em sua casa naquele momento preparando o almoço e nunca iria imaginar que seria formada uma associação e que ela viria a liderar.

Eu até posso contar a você como e por que ela foi escolhida, mas Rafael Lacerda Silveira Rocha é quem pode explicar como a igreja evangélica entra nessa história e como esse tipo de arranjo social funciona na prática, pois foi ele quem estudou a fundo essa questão.

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Dona Celina chegou ao bairro quando as ruas eram de terra.

Todos conhecem a bondade e as lutas daquela mulher, que vive dando conselho para os garotos do corre e até para o patrão da biqueira, sempre se prontificando a ajudar quem quer sair daquela vida.

Ela é querida por todos e conquistou o respeito da da liderança local do  dono das biqueiras do bairro e representante do Primeiro Comando da Capital na comunidade.

Dona Celina é ministra de uma congregação evangélica que lhe empresta autoridade moral e cria empatia em muitos no bairro que percebem nela um pouco daquilo que veem em suas famílias, ou, pelo menos, gostariam de ver.

Ela é uma “pessoa de bem”, e é essa a face que a comunidade quer apresentar para a imprensa e para os representantes do governo. Ela é a luz que deverá iluminar o caminho da comunidade.

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É preciso força para se impor

Até mesmo Deus tem uma legião de anjos para garantir seu governo celestial (Isaías 40), e se fomos feitos à sua imagem, nós também temos que nos garantir.

Rafael conta em seu trabalho o caso de um pastor, líder em sua comunidade, que tentou manter a pacificação baseando-se apenas em sua força moral e em seu poder de negociação.

Apesar dos esforços do pastor, um jovem morreu, e o religioso, ao questionar os assassinos sobre o acontecido, escreve:

“A resposta destes – ‘não pega nada não’ –, é por si só uma declaração de que, não apenas a trégua era considerada sem importância, mas que os próprios mediadores que atuavam como terceiros entre os dois grupos não tinham tanta consideração e legitimidade assim dentre eles.”

Não é soltando pombos brancos ou fazendo um abraço simbólico em torno do Cristo Redentor que se conseguirá a paz, mas também é verdade que não se chegará a ela ligando para o 190, nem tampouco confiando no Tribunal do Crime do PCC.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

A polícia e a liderança do PCC como garantia

As relações de poder dentro de uma comunidade carente são complexas e necessárias para a equação de diversas forças, pacifistas, religiosas, de trabalhadores, policiais, criminosos e desocupados.

Sem a força do Primeiro Comando da Capital, Dona Celina não conseguiria o respeito e a tranquilidade para organizar a população. Nos primeiros meses foi o disciplina do PCC que passou a trocar umas ideias com os inadimplentes com o caixa da associação.

Sem a força policial, Dona Celina ficaria refém apenas da vontade do dono da biqueira e não conseguiria a tranquilidade para organizar as demandas da comunidade.

Rafael conta um caso em que o líder da comunidade organizou um jogo entre dois grupos opostos com o apoio da polícia. Ele colocou o Estado como força mediadora do conflito e ainda fortaleceu sua liderança:

Uns queriam a paz, outros queriam manter a guerra, se juntasse tudo em um único lugar poderia ter um banho de sangue, então o jogo foi marcado em um campo neutro:

“Aí o dia chegou, o galerão, aquele muvucão, aí o cara da protaria achou que era só aquela galera ali, aí depois chegou outra muvucona zoanado ea as mulheres dos caras também. Aí foi umas 15 mulheres, as mulheres dos caras, amigas, e o cara da portaria não queria deixar entrar, aí o tenente foi e ligou lá: ‘pode deixar entrar’. Aí foi aquela festa [risos].”

Esse relacionamento pode parecer estranho para você que mora em um condomínio ou um bairro bem estruturado, mas é comum nas periferias.

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Ladrão e trabalhador falando a mesma língua

Rafael me contou que a relação entre líderes da comunidade e das facções não acontece só aqui no Brasil, e me apresentou a história de vida e as conclusões acadêmicas de uma simpática socióloga americana.

Mary Pattillo descreveu como as redes de relações desse bairro incluem tanto operadores e lideranças tradicionais, quanto atores fortemente identificados com práticas ilegais na comunidade.

Mary explica que as lideranças comunitárias e o crime organizado local compartilham uma série de valores, como o cuidado pela manutenção dos aparelhos públicos do bairro e o controle de brigas e demonstrações violentas em espaço público.

Essa ligação entre comunidade e mundo do crime acaba por dificultar a ação dos órgãos públicos na repressão ao tráfico de drogas local. É a teoria da eficácia coletiva pulando dos livros acadêmicos para as ruas das comunidades periféricas:

“[É importante] olhar para a participação de atores e grupos relacionados a práticas criminosas nas relações entre vizinhos e para como aqueles afetam as expectativas coletivas, valores e normas dessas comunidades.

Cansei de ver nas comunidades trabalhadores e estudantes defendendo a filosofia do 15, como a utilização do Tribunal do Crime para a pacificar os bairros ou evitar estupros e roubos nas quebradas.

“[…] a atuação de criminosos em determinadas comunidades pode ser mais do que puramente negativa – como instituições que promovem a ‘erosão da eficácia coletiva’ –, mas que não só podem compartilhar regras, valores e expectativas coletivas com o restante dos moradores, como também difundir normas e práticas originárias da gramática moral do ‘mundo do crime’ ao restante da comunidade.

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A liderança se conquista pelo respeito e pela ética

Se você é da Vila Nova, talvez conheça Dona Celina, e se você se acha que é mais importante, forte ou influente que ela, desculpa aí, mas ninguém dá a mínima para o que você pensa a seu próprio respeito.

Liderar é conciliar, saber ouvir e estar presente nas necessidades do grupo, se fazer entendido e tentar entender as opiniões dos outros, e Dona Celina faz isso como ninguém.

Líderes de bairros são acusados pela polícia ou por “cidadãos de bem” de terem conchavo com traficantes, mas aqueles que acusam não se candidatam e, se o fazem, não se elegem ― dona Celina se elegeu e circula livremente entre aqueles lobos.

Líderes de bairros são acusados por aqueles que vivem no mundo do crime de terem conchavo com a polícia, mas aqueles que acusam não se candidatam e, se o fazem, não se elegem ― dona Celina se elegeu e circula livremente entre aqueles lobos.

Agora ela estará sempre entre as matilhas mediando a paz, armada apenas de sua honestidade e confiabilidade, será testada e criticada todos os dias pela população, pela polícia, pelos líderes religiosos e por aqueles que vivem no mundo do crime.

Dona Celina está disposta e tem capacidade de enfrentar esse desafio, fluindo entre o mundo do crime e o mundo do Estado de Direito, assim como Marielle Franco o fazia até ser silenciada pela milícia.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David

Há um PCC pertinho de você! Ligue 190!

Diariamente vemos na imprensa escrita e televisionada integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital. Então, saberíamos reconhecê-los entre nós?

É importante demonizar a facção PCC

Se você conhece os integrantes da facção Primeiro Comando da Capital pela televisão, não poderia, de fato, saber o que pensam e como agem.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para esse fato no artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Os pesquisadores demonstram que os órgãos de imprensa repetem e reforçam o ponto de vista das autoridades policiais, auxiliando a demonizar aqueles que fazem qualquer tipo de oposição à lei ou aos costumes estabelecidos.

Sejam criminosos que roubem ou matem trabalhadores, sejam oficiais islamitas matando cristãos, sejam policiais de regiões nas quais exista distinção oficial de etnias ou raças reprimindo manifestações igualitárias: a imprensa local reportará a versão do status quo.

Por enquanto, no Brasil, são os integrantes da organização criminosa PCC 1533, mas se não fossem eles, seriam outros os demônios que estariam sendo caçados e apresentados.

Onde citei neste site sobre a imprensa → ۞

O dia perfeito para um policial

Assisti a uma palestra ministrada para um grupo de jovens policiais. O palestrante perguntou aos novatos qual seria o melhor resultado possível a ser apresentado ao final de um plantão.

As respostas variaram: troca de tiros que resultasse na morte de criminosos, resgate de uma vítima de sequestro ou interceptação de uma grande carga de drogas.

Eram respostas esperada dos novatos, mas estranhas para os veteranos, que prefeririam chegar ao final do turno e apontar em seu talão de ocorrências: “plantão sem alterações” ― confessou o instrutor.

Afinal, se os policiais tiveram que utilizar a força, significaria que todo o trabalho de prevenção e inteligência falhou, colocando em risco a vida dos agentes e de terceiros.

Onde citei neste site sobre a polícia → ۞

O dia perfeito para um criminoso do PCC

A analogia é válida para as crias do Primeiro Comando da Capital.

As crias do 15 sonham com uma reação bem sucedida a uma abordagem policial e a ações criminosas, com fugas espetaculares que os permitam levar para suas comunidades dinheiro e histórias para ostentar diante das garotas, dos colegas e da família.

É o que se espera dos novatos, o que não reflete os anseios dos veteranos do mundo do crime, que prefeririam chegar ao final da noite garantindo estabilidade e segurança para si e suas famílias.

“Um lugar gramado e limpo, assim verde como o mar, com cercas brancas, e uma seringueira com balança, para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

Onde citei neste site sobre a Família 1533 → ۞

O tempo passou e muitos chegaram lá

Quando você pensa na facção Primeiro Comando da Capital, talvez pense nos garotos que vendem drogas e estouram caixas eletrônicos, ou talvez, no máximo, você se lembre do prefeito de Embu das Artes, mas será que…


As centenas de convidados para o casamento da filha do subtenente da Polícia Militar, ou as centenas de funcionários das dezenas de empresas pertencentes a ele diriam que aquele simpático policial seria líder do PCC?

Possivelmente não. Ele e sua família não correspondem à imagem que o Datena, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde e outros formadores de opinião nos mostram: moradores de barracos mal acabados, com suas famílias desestruturadas e criminosas.

Ao contrário do que se imagina, a classe média do PCC é tão presente quanto os garotos dos corres. Quem sabe você ou um de seus familiares não trabalhe em um setor público ou uma empresa privada onde alguma liderança seja do PCC ― e você nem desconfia.

Onde citei neste site sobre o imaginário construído entorno do PCC → ۞

Fugindo com medo do perigo das grandes cidades

Alexandre Almeida Barbalho e Amanda Nogueira de Oliveira me surpreenderam com o artigo “Juventude, comunicação, sociabilidade e cidadania: A atuação da ‘família Os poderosos e as Poderosas’”, publicado pela E-Compós.

Há muito acompanho a revoada de membros da organização criminosa PCC para os condomínios e bairros de luxo, afinal, segundo eles mesmos, é o melhor lugar para se livrar de abordagens policiais ― a polícia age de maneira violenta apenas nos bairros pobres.

Facciosos ironizam que os policiais que fazem “bico” nos condomínios cuidam de sua segurança e os cumprimentam quando passam nas portarias e de dentro das viaturas.

Foi no artigo Alexandre e Amanda que li pela primeira vez que os PCCs estavam buscando o nordeste para fugir da violência de São Paulo:

[…] diversas famílias […] explicaram que o Primeiro Comando da Capital teria vindo para Fortaleza. Isso teria acontecido depois que uma boa parte de seus componentes se sentiu coagida em São Paulo e precisou se estabelecer em outros locais do Brasil, dentre eles algumas cidades do Nordeste.”

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Vizinhos pacatos que buscam manter a paz

A imprensa relatou diversos casos de PCCs que foram capturados em suas mansões, condomínios e empresas ― invariavelmente os vizinhos e funcionários os descreveram como sendo pessoas pacatas e que se dedicam à família.

Os Racionais MCs não estavam errados quando disseram que o sonho dos criminosos, ao contrário do que mostra a TV, era conseguir “um lugar gramado e limpo […] para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

A busca da pacificação nas quebradas por parte da liderança da facção paulista segue nesse sentido, pois além de garantir o fluxo de drogas sem interrupções, a segurança de membros das equipes de base, suas lideranças e suas famílias também é defendida.

Em regiões não pacificadas, com guerra entre gangues de jovens, mesmo nas partes nobres da cidade, a vida pode ser perigosa, como conta Alexandre e Amanda:

O bairro da Sapiranga em Fortaleza, onde vive a maioria dos poderosos, não foge desse contexto de disputas e homicídios que tem os jovens como agentes e vítimas. […] Não é de hoje que o medo de ser a próxima vítima faz parte de seu dia a dia […] seja devido ao tráfico de drogas, seja devido a ações policiais no bairro.

Onde citei neste site sobre a pacificação → ۞

Estamos prontos para reconhecer o inimigo

Alexandre e Amanda afirmam que é relativamente fácil reconhecer os integrantes dos grupos sociais, e sobre isso eu e você precisamos concordar ― quem é que não reconheceria um criminoso da Família 1533?

“… observa-se a existência de grupamentos de jovens que se autointitulam família […] nos bairros populares da cidade. Reunindo dezenas de integrantes, tais grupos se reúnem em espaços públicos, geralmente praças, e privados e mantêm troca de mensagens por meio de dispositivos e plataformas digitais tais como WhatsApp e Facebook.

Recorrem ainda a elementos de delimitação identitária, como camisas personalizadas e músicas autorais, de modo a demarcarem sua presença no espaço urbano.”

Antônio Mateus Soares, Matheus Reis de França e Claudemir Santana descreveram com minúcias as características dos PCCs e dos CPs no estudo “A economia do ilegalismo: tráficos de drogas e esvaziamento dos direitos humanos em Porto Seguro, BA”.

MERCADO DO POVO ATITUDE MPA — Bairro Baianão.

Ligação: PCC-SP — Símbolo: Caveira e Cruz (1533 MPA) — Grupo coeso e hierárquico. Produto de consumo da marca Cyclone (bonés, camisas e bermudas).

COMANDO DA PAZ CP — Área do Campinho.

Ligação: CP-Salvador — Símbolo: Escorpião (315 CP) — Grupo pulverizado com ritos de execução, mas primam pela discrição no seu cotidiano. Produto de consumo da marca Nike (bonés, camisas e bermudas).

Onde citei neste site os aliados e os inimigos do PCC → ۞

Hora de começarmos a caça

Se você conseguir deixar de lado a visão distorcida de como localizar um membro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital terá condições de localizar aí, em seu meio, pessoas que pertençam ou sejam parentes ou amigos de facciosos.

Alexandre e Amanda terminam colocando algumas dicas de como você pode reconhecer o membro de uma família:

“A família, ainda que sendo uma ‘pequena entidade local’ não deixa de atuar no seu entorno social, para além de sua ambiência comunitária e sua comunidade […]

O engajamento cívico no esforço coletivo pela paz no bairro onde habitam revela que o grupamento também é uma espécie de esfera civil ao fomentar a capacidade crítica e a integração democrática.

Enfim, ainda que autointitulada ‘família’, os poderosos não se limitam à esfera do privado, como se poderia esperar, até por conta de seu forte gregarismo, mas interagem com o espaço público…

Como sintetiza a mensagem retirada de um print do grupo de WhatsApp da família:

‘Chegou o grande dia, convocamos todas as equipes para o evento mais importante do nosso bairro, o grandioso 8 meses sem ter nenhuma violência na nossa comunidade’.”

Então, se você receber uma mensagem assim, ou tiver um vizinho pacato ligado à família, ou um garoto que vista bonés, camisas e bermudas da Cyclone, ou ouça Racionais MCs, fique esperto e ligue 190 para auxiliar a manter a paz e a ordem social.

Onde citei neste site os Racionais MCs → ۞

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Facção PCC — realidade ou estereótipo

É possível vencer uma lenda? Qual a origem da nossa ideia do que é a organização criminosa Primeiro Comando da Capital e como são e como agem seus membros.

Quem falou para você quem é ou como são os PCCs?

Você não precisa me contar quem foi o cagueta que falou para você sobre a facção ou seus membros, quero, apenas, que diga quem forjou em sua mente aquilo que você acredita que seja o Primeiro Comando da Capital.

Você não nasceu sabendo, tampouco seus pais eram irmãos batizados do 15, companheiros ou aliados da organização criminosa. Então, de onde foi que você tirou a ideia do que é ou de como vivem, agem e pensam os garotos da facção?

Você se lembra? Acho que não.

Essa imagem foi criada ao longo do tempo, paulatinamente recebendo informações por meio de terceiros, seja de fontes primárias nas ruas, biqueiras ou nos presídios, ou secundárias, através da mídia ou de comentários de terceiros.

Será extremamente difícil nossa sociedade sair —a construção de um círculo policial-midiático-criminoso, um pelourinho midiático ao qual expõe e criminaliza as comunidades periféricas para o deleite de uma população que se sente superior.

Leio quase todos os artigos publicados sobre o Primeiro Comando da Capital nos últimos anos, e são poucos os geradores de notícias fora do eixo: Folha de S.Paulo, Estadão, UOL, Globo, Campo Grande News e Diário do Nordeste.

Onde citei neste site sobre a imprensa → ۞

O PCC 1533 na TV é o mesmo que na mídia digital

A mídia televisiva é um show que não acrescenta informação, mas produz espetáculo. Talvez ainda seja a principal formadora da opinião sobre o que são os facciosos.

As pautas, que ilustram e repercutem o conteúdo já produzidos pelas fontes-eixo — até quando o helicóptero do Datena acompanha uma operação ao vivo do GAECO —, são opiniões e informações reproduzidas da base geral.

Você, o irmão batizado do 15, os companheiros e os aliados da organização criminosa, estiveram expostos e construíram sua imagem ou autoimagem sofrendo influência dessas mesmas fontes, ao mesmo tempo que as influenciavam.

“O que é o grupo criminoso e como agem e são seus membros” são ideias produzidas, e não fatos consumados. A imagem está sendo constantemente reescrita, influenciando e sendo influenciada pela mídia, que a reconstrói em parceria com toda a sociedade.

“… a imagem faz mais do que nos estender a mão. Ela segura a nossa e depois nos puxa – aspira-nos, devora-nos – inteiros no movimento ‘mágico’ e ‘misterioso’ da atração empática e da incorporação”.Georges Didi-Huberman.

A ideia que poderíamos saber definitivamente algo sobre qualquer organização humana foi pensamento predominante em um mundo que já não existe, ruiu com as muralhas da Bastilha em 1789, se bem que algumas pessoas demoraram um pouco a perceber.

Onde discuti neste site o imaginário e o real→ ۞

Herói — iguais, porém diferentes?

A representação do que seriam as figuras do vilão e do herói muda de pessoa para pessoa, e o que é considerado “herói” para um grupo de indivíduos e classe social não é obrigatoriamente o mesmo para outros grupos e classes.

No entanto, é preciso entender que essas imagens, tanto do vilão quanto do herói, são construídas por meio da mídia (e essa construção afeta, também, a autoimagem das pessoas).

O Efeito Dobradiça de Tarcília Flores

Um policial pode se ver e ser visto como herói, aquele que “protege a sociedade”, assim como um membro da facção criminosa pode se ver e ser visto como “correndo pelo lado certo da vida errada”, levando paz e segurança à sua quebrada.

“… policiais, que muitas vezes a própria sociedade não reconhece, com justiça, os esforços desses homens e mulheres para a manutenção da paz… que juraram servir e proteger, ainda que seja necessário dar suas vidas no cumprimento dessa promessa” — verso.

“Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila. […] Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas do PCC.” — reverso.

Onde citei neste site a questão do herói → ۞

Vilão — iguais, porém diferentes?

Um policial pode ser visto e descrito como vilão, como alguém que abusa da autoridade, oprime as comunidades pobres e é corrupto, assim como um membro da facção criminosa pode ser visto e descrito como aquele que mata, rouba e toma a comunidade em que vive.

“Agentes penitenciários teriam sufocado detentos do presídio de Avaré 1 (distante 239 km de São Paulo) em sacos pretos com fezes e urina durante uma inspeção de rotina ocorrida nos dias 4 e 5 de dezembro do ano passado.” — verso.

“De acordo com uma testemunha, que alega ter sido obrigada a assistir a execução, o crime foi praticado por quatro homens que se intitularam membros de uma facção criminosa de São Paulo (PCC).” — reverso.

Tanto o policial como o faccioso estarão no seu dia a dia alimentando o mito, a construção da imagem, mas, ao mesmo tempo, estarão sendo influenciados pela mídia, que estará sofrendo pressão inconsciente de seus consumidores.

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Você sabe o que é o PCC ou vê um estereótipo?

Outro dia, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde demonstrou como a elite intelectual não conhece o Primeiro Comando da Capital, mas tem uma forte imagem estereotipada da facção — é o exemplo do medo dissecado por Reginaldo em seu trabalho.

Reginaldo Osnildo Barbosa, em sua tese “Análise do fortalecimento da imagem do vilão mediante o medo expresso nas tecnologias do imaginário” (UNISUL), busca compreender a construção pela mídia das figuras distorcidas do herói e do vilão no imaginário social.

Eduardo Portanova Barros explica porque eu, você, a colunista do Estadão e os faccionários, mesmo recebendo as mesmas informações, teremos opiniões e sentimentos tão díspares sobre esse mesmo assunto:

“… o imaginário não é uma coleção de imagens somadas, mas uma rede onde o sentido se encontra na relação.”

O Primeiro Comando da Capital é imbatível, invencível e intocável, independentemente das afirmações de Lincoln e seus colegas, das operações de nomes exóticos do Ministério Público, da Polícia Federal, da Força Nacional ou até mesmo da sua opinião sobre isso.

A facção estará tão viva e fortalecida quanto o imaginário pintado nas mentes e nas almas daqueles que vivem nas prisões e nas periferias, seja com uma liderança una e forte ou descentralizada.

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Se combatermos o mal, poderemos vencê-lo

Um estereótipo, uma imagem construída, não pode ser vencido pela força das armas — isso é fato, o resto é especulação. Como disse o filósofo alagoano Mário Jorge Lobo Zagallo: “É para vocês. Vocês sabem quem são. Não preciso dizer mais nada. Vocês vão ter de me engolir”

Juan Carlos Garzón Vergara afirma que é possível vencer facções, como o Primeiro Comando da Capital, basta eliminar sua causa: o Estado sem capacidade de executar e garantir o respeito por seus próprios regulamentos.

Você não precisa me contar quem foi o cagueta que falou para você sobre a facção ou seus membros, mas quero que reflita sobre como você vê o PCC 1533 hoje e, principalmente, sobre quais partes dessa imagem da facção fazem parte da realidade e quais são construções fantasiosas.

Existirão irmãos e companheiros da organização criminosa, independentemente das ações de Lincoln e seus colegas — a menos que mudemos a forma como nós, os membros das diversas classes de nossa sociedade, se relacionam entre si e em relação ao Estado.

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Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Imagem é tudo: os integrantes do PCC 15.3.3 como vilões

A imprensa como construtora do imaginário do membro da facção Primeiro Comando da Capital como vilão e “inimigo público número um”, e os números do Google Trends 2018.

Os ataques do PCC acabaram, mas o pior vem agora

Eu aguardei o fim dos ataques promovidos pelo Primeiro Comando da Capital para fazer uma análise sobre dos números referentes ao período de movimentação da facção. Não pretendo me ater aos ataques e suas causas, e sim no interesse popular.

Este site possui uma página com dados estatísticos em tempo real que podem informar sobre as ações dos membros do PCC na linha do tempo e em sua localização geográfica – ferramentas interessantes para quem estuda a organização criminosa.

Outras ferramentas complementares estão disponíveis em outros pontos do site. Então, esperei os dados indicarem que a turbulência havia passado e fui compilar as informações — simples assim.

Antes de postar os resultados, encontrei-me com Reginaldo. Pior viagem. Se arrependimento matasse, eu teria sido fulminado. Reginaldo destruiu, ou melhor, desconstruiu toda minha linha de raciocínio.

Talvez você conheça Reginaldo Osnildo Barbosa por ter lido seu livro “Vidas quebradas: reflexos do crack”. Eu só vim a conhecê-lo por meio de sua tese “Análise do fortalecimento da imagem do vilão mediante o medo expresso nas tecnologias do imaginário” (UNISUL).

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PCC 1533, poder e medo registrado no Google Trends

Tudo me parecia simples com o fim da onda de ataques, no entanto, Reginaldo mostrou que não, o pior viria agora: é preciso entender o que se passou comigo e contigo, mas, principalmente, o que se passou com a imprensa.

“Quando tiros desferidos contra postos policiais, ônibus queimados e outros incidentes levaram medo para dezenas de cidades…” — É quase impossível afirmar quando essa frase foi pronunciada, encaixando-se perfeitamente em diversos momentos após 2002.

Quem nasceu após 1995 apenas o que ouviu falar sobre o poder e o medo que a facção paulista pode gerar. A média de interesse pelo termo “Primeiro Comando da Capital” segundo o Google Trends, em 2018, até o dia 15 de junho, estava em 9,5 pontos, contra uma média histórica de 3,4 pontos de fevereiro de 2004 até dezembro de 2017.

Eu considerava momentos de pico quando as buscas pelo termo alcançavam a marca de 6 pontos — em catorze anos, esse fenômeno ocorreu em 10 ocasiões, sendo que em 2018 apenas o mês de maio ficou abaixo dessa marca.

Onde citei neste site os dados do Google Trends → ۞

Picos históricos de busca para o termo “Primeiro Comando da Capital”

  1. 2006, de maio, 100 pontos — Mega ataque em São Paulo;
  2. 2006, agosto, 29 pontos — Sequestro de repórter da Globo para divulgação do estatuto;
  3. 2018, junho, 14 pontos — queima de ônibus em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte contra tortura e falta de condições nos presídios, ações de inteligência contra a facção;
  4. 2018, de fevereiro a abril, pico de 14 pontos — Assassinato de Gegê do Mangue;
  5. 2004, junho, 10 pontos — (Deus sabe o porquê);
  6. 2012, outubro e novembro, pico de 10 pontos — 20 anos de Carandiru — eleições municipais;
  7. 2005, dezembro, 8 pontos — balanço geral do ano do Mega ataque;
  8. 2017, janeiro, 7 pontos — Massacre no Presídio de Compaj — Guerra contra a coligação FDN–CV no norte do país;
  9. 2017, de dezembro à janeiro de 2018, 7 pontos — Guerra entre PCC e as facções FDN–CV; e
  10. 2006, dezembro, 6 pontos — PCC e as escolas de samba.

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Eu, você, a imprensa, o PCC e a colunista do Estadão

A colunista do jornal O Estado de S. Paulo, Eliane Cantanhêde, chamou-me a atenção para a forma como a imprensa repercute o ponto de vista do Estado e de suas forças policiais sem se preocupar de fato com a verdade:

“Depois dos caminhoneiros […] o Brasil está tentando respirar, e agora, esses ataques do PCC, e isso é muito grave porque não tem reivindicação nenhuma por trás, eles inventam que é por causa das condições dos presídios, mas não é, né? É uma demonstração de força, né?

E é muito preocupante, num país que está aí machucado por uma série de coisas. Foram 24 ônibus queimados em 24 horas em Minas Gerais por ordem do principal e mais perigoso e aterrorizante grupo criminoso do país, que é o PCC. Os estados estão de cabelo em pé preocupados, porque é ordem do PCC.”

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para a situação no seu artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Onde citei neste site a imprensa → ۞

A imprensa e os ataques do PCC de junho de 2018

A imprensa oficial demoniza as facções criminosas e a crise carcerária, utilizando-as como espetáculo de circo televisivo, como já havia nos contado Gilson César Augusto da Silva, no trabalho “Reality Show das Prisões Brasileiras”.

Por outro lado, há a mídia alternativa fortalecendo a imagem do fora da lei Robin Hood, e dessa forma chegam histórias contadas por pessoas como José Carlos Gregório, mas nos ataques em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte ouviu-se apenas uma voz.

O absurdo comentário de Cantanhêde, de que não havia exigência ou consistência nos ataques do PCC, se explica nesse contexto. A autora estava trabalhando, conscientemente ou não, para a construção de um mito, para o reforço de uma imagem do crime organizado (vilão).

À exceção do trabalho da repórter Carolina Linhares, da Folha de S. Paulo, que destacou tanto a causa do conflito quanto a posição do governo e a ação das forças públicas, em mais de uma centena de reportagens só as consequências e a ação das forças públicas foram noticiadas.

Até mesmo o UOL, em uma reportagem assinada por Carlos Eduardo Cherem, replica o discurso oficial e termina informando que: “A PM ainda informou que uma árvore foi queimada no local.” — mas não citou a demanda dos manifestantes.

“As matérias noticiosas são carregadas de imaginários, que por sua vez geram identificação com a imagem que é fortalecida, angústia diante dos acontecimentos, alegria perante as conquistas coletivas; mas também disseminam o medo já existente, levando a uma interpretação comum entre os consumidores.

Enquanto instituição, o jornal faz circular na sociedade sentidos naturalizados a partir da imagem (validada) que projeta na sociedade, como se estivesse propenso a exercer a função de informar, relatar a verdade”

A falta de espaço para apresentação democrática de um pleito leva às manifestações violentas. A história demonstra que o controle da imprensa somado à ação policial apenas protelam e intensificam as ações seguintes, que tendem a ter cada vez mais força.

Onde citei neste site a queima dos ônibus → ۞

Eu e você na construção da imagem do integrante do PCC

Reginaldo demonstra que todos nós somos responsáveis pela construção da imagem do integrante da facção Primeiro Comando da Capital e, ao mesmo tempo que consumimos a ideia, ajudamos a reforçá-la.

Procuramos as notícias sobre a facção que nos agradam, e os meios de comunicação vão produzir para nosso consumo o produto que nós buscamos; assim, a construção e o reforço da imagem é autoalimentada, e se distancia cada vez mais da realidade.

A qual estereótipo você se alinha? Ou talvez você não esteja entre os dois extremos, e sim perdido na bruma existente entre a luz e as trevas:

  • O membro do PCC é aquele que mantém a ordem, a lei e a disciplina nas periferias e nas prisões, e sem sua presença voltamos ao caos?
  • O membro do PCC é o mais perigoso dos bandidos, capaz dos crimes mais brutais e um câncer a ser extirpado mais rapidamente do seio da sociedade?

Os números do Google Trends demonstram que, independente de seu ponto de vista, a presença do membro da organização criminosa paulista, seja como vilão ou como herói, nunca esteve presente de maneira tão intensa e por tanto tempo ininterrupto.

O que isso pode significar? Bem, eu não sei, mas se você quiser pode perguntar para o Lincoln ou Cantanhêde, ele provavelmente vai lhe dizer que estamos assistindo o colapso do PCC, e o início de uma nova era, ou, talvez – apenas talvez – prefira ter a opinião da repórter Carolina Linhares, da Folha de S. Paulo.

Onde citei neste site o promotor de Justiça Lincoln Gakiya → ۞

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

PCC 1533 — aqui homem é homem

Dois psicólogos questionam as razões pelas quais os traficantes são homofóbicos e prezam por sua masculinidade — mas os traficantes não estão nem aí para os dois.

A questão da masculinidade e da homofobia no PCC

Saída obrigatória para feministas e gays

Às feministas e aos homens que buscam se libertar das amarras estigmatizantes impostas culturalmente sobre sua sexualidade, indico o podcast “Masculinidade e Sentimentos” do programa Mamilos. Se esse não é seu caso, continue a leitura…

Camila, André e Wiliam, cada um sob sua perspectiva profissional, já haviam puxado esse assunto, mas foi o pastor Anderson Silva da Igreja “Vivo por Ti”, afinal, quem me convenceu a preparar este artigo, quando declarou que…

“… sem homem a vida não funciona, não funciona nada, não funciona a igreja, não funciona a família, não funciona a sociedade, pois o homem é a engrenagem central.”

Tentei imaginar um mundo onde a polícia e os criminosos não fossem homens, mas não consegui — tente você, quem sabe se sai melhor que eu (cuidado para não produzir em sua mente um enredo de pornochanchada brasileira da década de setenta).

A socióloga Camila Nunes Dias foi a primeira a me chamar a atenção para o machismo e a homofobia dentro da estrutura criminosa, quando, em dezembro de 2016, em entrevista para o repórter Guilherme Azevedo da UOL, ressaltou os costumes conservadores da organização:

… a principal atividade do PCC é ganhar dinheiro com meios ilícitos. Mas só o aspecto econômico não define o grupo. O PCC não é revolucionário, é uma organização conservadora e que tem valores como o machismo e o repúdio aos homossexuais.”

Confesso que ao ler o título da matéria, já, de cara, discordei de Camila, afinal, considerar uma facção criminosa como uma “organização conservadora” me pareceu um absurdo, assim como dizer que polícia e bandido são iguais, como fez Tarsila e Anderson Silva.

Onde citei neste site Camila Nunes Dias → ۞

Mulher quer homem de verdade (macho alfa)

A doutora em Direitos Humanos Tarsila Flores me irritou quando veio com essa história de “efeito dobradiça”:

[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…

Tarsila afirma que a violência e o preconceito são características tanto dos criminosos quanto dos policiais. As duas partes, que se achavam antagônicas, na realidade se espelham, e o pastor Anderson Silva expande esse conceito para a sexualidade:

“Inconscientemente, mulher gosta de bandido. Inconscientemente, mulher gosta de policial. Inconscientemente, mulher gosta de um heroísmo. Porque o bandido é o chefe do bairro, e isso sugere o que? Proteção. O policial militar é símbolo de força, farda significa poder. Olha só o recado que é enviado, é subjetivo.”

No entanto, não foi nem Tarsila, nem Camila, e muito menos Anderson Silva, quem me esclareceu sobre a questão da sexualidade dentro da facção PCC. Foram os psicólogos André Masao Peres Tokuda e Wiliam Siqueira Peres.

Onde citei neste site o “efeito dobradiça” → ۞

Lobos em busca de suas alcateias

O artigo “As relações de gênero e os sujeitos que atuavam, atuam, no comércio de drogas ilícitas”, escrito por eles e publicado na Revista INTERthesis da UFSC, aborda a necessidade de os integrantes desses grupos sociais provarem que são “homens de verdade”.

Ao escolher essas profissões, o indivíduo busca participar de um grupo social, cujo estereótipo melhor se adequa a sua personalidade, e dessa forma acaba alimentando ainda mais o que seria a “realidade das ruas” no imaginário cultural:

Quando não se sente na pele, a mídia se encarrega de fortalecer o sentimento de medo que está em todas as classes sociais, seja temendo o bandido, o traficante, seja, principalmente na classe pobre e com pessoas negras, a violência da polícia.

Os pesquisadores avisam que focaram seu estudo nos traficantes de drogas, e afirmam que a questão da sexualidade é apenas uma das dezenas que influenciaram a escolha daqueles que optaram por esse caminho, mas é um fator que não pode ser ignorado.

Quase todos os que são presos por tráfico são oriundos de regiões conhecidas por serem “berços da criminalidade”; mas quais fatores biológicos, como aqueles genéticos, neurológicos, bioquímicos e psicofisiológicos, somam-se às conhecidas causas sociais e psicológicas na construção desses indivíduos?

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Garotos sem pais descarregando suas frustrações

Quando eu era garoto, apenas nas periferias se viam casos de famílias desestruturadas, sem a tradicional formação de pai, mãe e filhos, todos vivendo sob o mesmo teto até que os filhos se casassem e fossem viver a própria vida.

Todo problema do ser humano é um problema de paternidade, pode observar, os mais alucinados da sociedade tem um problema básico de orfandade, eu tenho, eu estou aqui todo tatuado por uma questão de orfandade, parece uma escolha, mas não é uma escolha…”

André e Wiliam demonstram que o Estado reforçou a ideia de que o aumento da violência estava vinculada às famílias desestruturadas, que viviam fora da concepção de “família nuclear”. Mas e agora que a classe média também abandonou esse modelo?

A mídia e o Estado já estão adequando seu discurso para refletir esses novos valores aceitos pela sociedade, mas, ao abandonarmos o discurso antigo, verificamos que a causa do problema pode estar na procura da afirmação e da satisfação da libido.

A afirmação de masculinidade, que tanto orgulho traz aos membros da facção PCC 1533 e das corporações policiais, nada mais seria que respostas irracionais, que objetivam resolver seus conflitos pessoais, descarregando, assim, suas tensões e frustrações.

Onde citei neste site a Família 1533 → ۞

Você acha que todo preso é infame?

Os pesquisadores quase caíram na arapuca que tanta dor de cabeça deu à Sérgio Buarque de Holanda: chamar os presos de infames ― mas o velho mestre lhes mandou alguém para demovê-los desse intento.

Infames, pela ótica foucaultiana, são as pessoas que tornam-se invisíveis para a população ― como é o caso das pessoas que estão presas. Tudo bem, mas o brasileiro age de forma cordial, na ótica de Sérgio Buarque, e dessa forma desceriam o pau nos pesquisadores antes que eles tivessem tempo de se explicar.

Vale o que parece ser, e não o que realmente é. Até hoje, os estudos sobre a relação entre a masculinidade e os crimes se restringem às questões de gênero e violência doméstica ou contra a mulher ― vemos apenas o que nos interessa ver.

“Todavia, a partir de nosso referencial teórico e das entrevistas realizadas com os sentenciados, acreditamos que as definições do que é ser homem em nossa sociedade tem grande importância quando se pensa nos motivos da entrada para o ‘mundo do crime’.”

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Qual é o seu tipo de macho predileto?

“Muhammad Ali dava entrevista assim, ó! Era um nego folgado, brother! Ele dava entrevista, ó, era forte, brother! Ele insultava outros negros, ele confrontava outros boxeadores que não se posicionavam em relação às questões raciais da época. Então imagina isso na alma feminina? Negão assediado, heroísmo desperta libido!”

Não tem a menor importância qual o tipo de homem que você considera macho, pois Georges Daniel Janja Bloc Boris afirma que cada um de nós terá um conceito diferente sobre a masculinidade ― mas é interessante saber a imagem idealizada nas periferias.

Se aquele ambiente estiver vinculando a imagem do “homem viril” ao profissional do crime, os garotos tentarão se integrar aos grupos criminosos. Por essa razão, André e Wiliam buscam alertar para esse ponto da construção do imaginário.

Nas periferias, o macho procurado pelas arlequinas e pelas novinhas não é “o homem branco, de classe média, heterossexual, viril, procriador, cristão e impenetrável”, como nos fez crer “Robert Connell”; é o ladrão, é o Muhammad Ali tupiniquim.

… meninos entram para o tráfico e meninas pegam uma barriga deles. Quanto mais poderoso e rico é o menino, mas elas disputam entre si pra ver quem vai engravidar dele primeiro. Estamos falando de meninos e meninas de 16 a 20 anos.

Luiz Felipe Pondé

Onde citei neste site teorias sociológicas → ۞

Aprendido em casa e nas ruas, e reforçado atrás das muralhas

Simone de Beauvoir afirma que o conceito do que é ser homem e do que é ser mulher é um padrão comportamental construído através da cultura, e temos um ambiente extremamente machista dentro das muralhas.

Nas prisões, cada momento do dia é um “exercício de rivalidades e confrontos de forças entre machos, sobre machos, que garantiam a sobrevivência e o privilégio de deter o poder, dentro do presídio, sobre os outros presidiários; dupla penalidade: do estado sobre seu corpo enquanto criminoso, do líder da prisão sobre seu corpo enquanto inferioridade e submissão.”

A hegemonia do Primeiro Comando da Capital suavizou as relações. Antes do domínio da facção paulista, o homem que não conseguia se garantir, através da força ou do dinheiro, virava “mulherzinha” ou escravo sexual ou laboral atrás das grades.

No entanto, ainda hoje, o interno, seja um menor em uma fundação socioeducativa ou em uma prisão de segurança máxima, seja um primário que acaba de chegar ou o líder da organização criminosa paulista, todos têm que garantir seu lugar dia a dia.

Para os ambientes dominados pelo PCC onde a masturbação e a ereção sob a calça são severamente punidas, vale a advertência de Freud: um ambiente que reprime o libido “produz uma necessidade de descarga, a fim de reduzir a tensão”.

Onde citei neste site a opressão carcerária→ ۞

É assim que funciona — é mais não é

Os pesquisadores concluem, então, que os homens envolvidos no tráfico de drogas são pessoas que têm propensão a atitudes machistas; no entanto, os estudiosos lembram que não é essa a razão de haver crimes ou tráfico de drogas.

Dentro das organizações, não se questionam as razões do ambiente ser homofóbico, machista e conservador. Pode-se dizer que discussão se restringe sociedade extramuros, mas nem os pesquisadores conseguiram achar uma literatura consistente a esse respeito.

Uma visão utilitarista pode argumentar que os facciosos se protegem ao criar mecanismos contra o abuso sexual dentro dos presídios, muito comum antes da hegemonia da facção Primeiro Comando da Capital nas penitenciárias.

Dicionário do PCC 1533 — Regimento interno da facção

36. Pederastia:
Se caracteriza quando se pratica sexo com pessoas do mesmo sexo, difere do homossexualismo porque o praticante é ativo somente e não passivo.
Punição: Exclusão e é cabível cobrança com análise da sintonia.

Para conhecer melhor os argumentos dos pesquisadores, só acessando o trabalho. Destaco, no entanto, um trecho de suas conclusões:

“Desmistifica-se a ideia de que todos trabalhadores do comércio de drogas ilícitas (do dono da boca até o vendedor) são os “terroristas brasileiros”, um olhar alimentado pela “mass media” e que sempre se atualiza no imaginário social. Propomos a ampliação desses olhares para as histórias de vidas destes sujeitos, não os colocando como coitados ou coitadas, mas que a desigual realidade social brasileira fique clara, assim como as normatizações de classes, gêneros, raças e cores que se tem em nossa sociedade e que participam da construção de desejos que inserem esses sujeitos aos contextos demarcados pelo comércio e outras atividades ilegais.”

Onde citei neste site o Tribunal do Crime → ۞

Os ataques do PCC: os dois lados da moeda

Preso afirma que as manifestações do PCC foram contra a opressão do sistema carcerário, o jornal O Estado de São Paulo diz que não.


Errar é humano persistir no erro é burrice.


Houve ou não uma justa razão para os ataques do PCC?

Eu não vou entrar nessa discussão, você que ouça de um lado a colunista do jornal O Estado de S. Paulo, diretamente de Brasília, e do outro lado, um ladrão — tire suas próprias conclusões de quem está certo ou errado.

“Errar é humano, mas persistir no erro é burrice.”

Os faccionados dessa vez optaram por não utilizar uma tática que não deu certo no passado — há coisa de um ano, as mulheres dos presos tentaram fazer uma manifestação na Avenida Paulista em São Paulo, para denunciar as atrocidades que ocorriam nas prisões, mas a polícia abriu investigação e mandou interrogar à todas antes das manifestações que acabou não ocorrendo, então dessa vez…

“O plano inicial era fazer uma manifestação pacífica em Natal contra o que os bandidos chamam de opressão no complexo prisional de Alcaçuz [em Nísia Floresta, na Grande Natal]”, afirmou um dos responsáveis pelas investigações…”

O ponto de vista de quem corre pelo certo pelo lado certo da vida

Eliane Cantanhêde afirma:

“Depois dos caminhoneiros […] o Brasil está tentando respirar, e agora, esses ataques do PCC, e isso é muito grave por que não tem reivindicação nenhuma por trás, eles inventam que é por causa das condições dos presídios, mas não é né? É uma demonstração de força, né?

E é muito preocupante, num país que está aí machucado por uma série de coisas. Foram 24 ônibus queimados em 24 horas em Minas Gerais por ordem do principal e mais perigoso e aterrorizante grupo criminoso do país, que é o PCC. Os estados estão de cabelo em pé preocupados, porque é ordem do PCC.”

O ponto de vista de quem corre pelo certo pelo lado errado da vida

“Quem veio zoar nóis foi a polícia, isso foi falta de comunicação da polícia. Onde aqui tem o procedimento, qualquer um que chega na cadeia eles aplicam o procedimento em nós por isso, nós parou, nós resolvemos não enfrentar o terror.

Eles vieram com ameaças, dizendo que iam dar a resposta às cinco horas da tarde. Aguardamos a resposta da direção, onde eles vieram e disseram quem não tinham nada para nós, que era para retornarmos para as celas.

Nós sentamos no final do pátio, todo mundo desarmado, onde eles vieram e dispararam vários tiros contra nós, sem reação alguma. Nós somos do crime, nós lenvantamos, sim, e se precisar, nós vamos levantar de novo.

A polícia não vai oprimir, nós, porque lutamos contra a opressão, estamos todos aí, capacitados, jamais tomando atitudes isoladas, isso nunca. Sabemos as consequências de cada ato, tudo tem uma reunião antes.

Tem qualquer parada, a decisão é de todos, em cima de irmão, de companheiro, e todo mundo está na mesma batida, para não ter consequência para um e outro, para ninguém vir dizer que foi fulano ou sicrano.

Tá todo mundo unido nessa situação, a gente não quer nada mais que uma atenção para nós em cima dessa injustiça dessa máquina opressora.”

Os ASPENs também discordam da colunista do Estadão

O presidente da Associação Mineira dos Agentes e Sistema Prisional rechaça a tese defendida pelo governador que são as duras regras impostas aos encarcerados no estado que esteja causando revolta no Primeiro Comando da Capital.

Ele diz que a reivindicação dos faccionários se deve à falta de condições nos presídios — coisas que a colunista do jornal, O Estado de São Paulo, não pode ver de dentro da segurança de seu lar, mas que ele de trás das muralhas pode perceber.

ASPENs se manifestam no caso dos ônibus queimados

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo