O julgamento do investipol Moacir Cova em Itu

A morte de Salvador Luís em 2007 por um “crime de honra” e o julgamento que, em 2010, levou também o investigador Moacir Cova ao centro das acusações. Um caso real que ainda ecoa na violência policial de Itu.

Moacir Cova é o nome no centro de uma trama onde justiça, violência e poder se cruzam. Este artigo reconstrói um caso real que envolve assassinato, talaricagem, denúncias de tortura e a atuação de integrantes do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) em Itu. Leia e tire suas conclusões.


Público-álvo
Leitores interessados em segurança pública, justiça criminal, direitos humanos e jornalismo investigativo; estudiosos do Primeiro Comando da Capital (PCC); profissionais da área jurídica e policial; e pessoas afetadas direta ou indiretamente por violência institucional.

A justiça é posta de lado, e o direito é afastado. A verdade anda tropeçando no tribunal, e a honestidade não consegue chegar até lá. A verdade desapareceu, e os que procuram ser honestos são perseguidos.

Isaías 59:14-15

Moacir Cova, os irmãos Nazários e o talarico

Faz exatamente quinze anos. Me lembro bem daquela noite quente de dezembro de 2006. Encontrei o investigador de polícia Moacir Cova em uma loja de conveniência de um posto na Avenida Nove de Julho. Eu havia publicado um texto sobre um caso no Portal do Éden que começava a ganhar repercussão demais — mais do que eu esperava, certamente mais do que eu queria. Moacir, como poucos, podia me dar luz sobre alguns pontos. Afora isso, nada parecia fora do lugar — apenas mais uma noite comum na cidade de Itu.

Enquanto conversávamos, a poucas quadras dali, uma mulher esquecida por todos — sozinha, faminta, em crise de abstinência desde que o companheiro fora recolhido a uma penitenciária do Estado — deitava-se com um homem. Ele via na fragilidade dela uma oportunidade. E se aproveitava.

Em Itu, todos no mundo do crime conheciam os irmãos Nazário. Foram dos primeiros a integrar o Primeiro Comando da Capital na cidade, com envolvimento em todo tipo de crime. Durante anos, seus nomes cruzaram inquéritos, escutas e relatórios que, de tempos em tempos, passavam pelas mãos de Moacir Cova — o mesmo com quem eu conversava naquela noite. E foi justamente a companheira de um desses irmãos que, naquele exato momento, se deitava com Salvador Luís.

O início de uma noite com hora marcada

Alguns meses depois, Salvador Luís surgiu acompanhado de outro homem. Caminhavam lado a lado até a casa de Pâmela e de seu companheiro, Danilo. Pâmela era conhecida por repassar pequenas porções de droga e, como de costume, entregou algo aos dois. Mas, ao contrário das outras vezes, eles não ficaram para consumir ali mesmo. Saíram em silêncio, seguindo pela rua.

Na esquina, encontraram Vandão, que logo se juntou a eles. Conversa rápida, tragadas compartilhadas. Era a noite de 27 de fevereiro de 2007. O homem que acompanhava Salvador, quieto até então, era Ildinho — um dos irmãos Nazário, filiado ao PCC. O mesmo cuja mulher havia se deitado com o talarico.

A pena é longa, mas não é eterna. Ildinho ganhara a liberdade há poucos dias — e não tardou em buscar a cobrança pela injúria que havia sofrido.

1. Ato de Talarico: Quando o envolvido tenta induzir a companheira de outro e não é correspondido, usa de meios como, mensagens, ligações, ou gestos. Punição: exclusão sem retorno, fica a cobrança a critério do prejudicado e é analisado pela Sintonia.

Regimento Disciplinar do PCC — Dicionário do PCC

Ildinho deixou os dois na esquina e voltou sozinho à casa de Pâmela. Pediu a Danilo uma chave de fenda, alegando que precisava consertar sua bicicleta, estacionada por ali. Pâmela estranhou o pedido — não se lembrava de tê-lo visto chegar de bicicleta. Ainda assim, Danilo lhe entregou a ferramenta. Ildinho, então, retornou calmamente até a esquina.

Tudo se deu muito rápido. Foram momentos de puro terror para Salvador Luís. Gritou por socorro, tentou correr, implorou para que parassem. Mas seus pedidos se perderam no vazio. Chutes, socos, e golpes de chave de fenda — a garganta perfurada, a cabeça esmagada. O recado estava dado, com clareza brutal: talaricagem paga com a vida.

O caso chega ao Tribunal do Júri de Itu

Quarenta e um meses se passaram até a quinta-feira, 22 de julho de 2010, quando, no Tribunal do Júri de Itu, não apenas Ildinho e Vandão seriam julgados — mas, de certa forma, também Moacir Cova, responsável pela investigação e prisão dos acusados.

Eu, mais uma vez, estava lá. E confesso: poucas vezes assisti a um julgamento tão carregado. Os corredores estavam lotados, e era possível sentir a tensão no ar. O ódio contra Moacir se refletia nos olhos dos parentes e conhecidos dos irmãos Nazário. Do outro lado, policiais assistiam à sessão de pé, rígidos, atentos a qualquer sinal de descontrole.

Um irmão dos réus chegou a ameaçar abertamente um policial. Foi retirado do plenário algemado, sob gritos e xingamentos — não contra ele, mas contra os próprios policiais, que naquele momento passaram a ser vistos como inimigos. A tensão só aumentava — e era alimentada, em parte, pela defesa. O advogado Dr. Daniel Benedito do Carmo acusou com firmeza o investigador Moacir Cova: o principal testemunho contra os réus, segundo ele, fora arrancado sob tortura psicológica, agressões físicas e intimidação explícita.

Falou alto, sem meias palavras. Disse o que muitos no mundo do crime e nas corporações policiais acreditavam: que Moacir Cova carregava um histórico de condutas abusivas. Um padrão, segundo o defensor, de violência e ilegalidades. Moacir ouvia tudo em silêncio, com uma expressão que não revelava culpa — nem defesa.

Um silêncio que não encerra o julgamento

Mas as acusações de tortura e abuso contra o investigador de polícia Moacir Cova, mais uma vez, não estavam destinadas a prosperar. O promotor Dr. Luiz Carlos Ormeleze tomou sua defesa, alegando que todo o depoimento da testemunha havia sido colhido na presença da advogada criminalista Dra. Liliane Gazzola Faus, da delegada Márcia Pereira Cruz Pavoni Silva, e registrado em DVD.

O júri decidiu pela condenação de Ildinho e Vandão a dezesseis anos de prisão — um desfecho esperado, ainda que envolto em controvérsias. Contudo, se os gemidos abafados daquele casal que se deitou em dezembro de 2006, e as súplicas de desespero de Salvador Luís, em fevereiro de 2007, puderam ter sido silenciados naquele julho de 2010, os gritos contra os métodos de Moacir Cova, bradados naquele Tribunal do Júri, continuam reverberando.

Em abril de 2025, Rosemary Alves de Campos, mãe de Rian Gustavo Alves de Campos — um jovem morto em uma ação do chamado “Bonde do Moacir” — denunciou ter recebido ameaças de um homem que se identificou como Guarda Civil Municipal de Itu. Após publicar um vídeo cobrando a conclusão do inquérito sobre a morte do filho, Rosemary recebeu mensagens e áudios intimidadores, nos quais o suposto agente afirmava que “o perigoso é acontecer com a senhora ou outra coisa”.

O ciclo de violência e silenciamento parece não ter fim. Enquanto mães clamam por justiça, enfrentam não apenas a dor da perda, mas também o medo imposto por aqueles que deveriam protegê-las. A cidade de Itu permanece envolta em sombras, onde a linha entre justiça e opressão continua perigosamente tênue.

Análise de IA do artigo: “O julgamento do investipol Moacir Cova em Itu”

Análise sob o ponto de vista factual e de precisão

1. Isolamento dos Dados Fáticos:

Com base no texto fornecido, os seguintes eventos são apresentados como fatos objetivos e centrais da narrativa jornalística:

  1. Data do fato principal:
    • 27 de fevereiro de 2007: assassinato de Salvador Luís, vítima de espancamento e golpes fatais de chave de fenda.
  2. Pessoas diretamente envolvidas:
    • Vítima: Salvador Luís.
    • Autores: Identificados no artigo como Ildinho (um dos irmãos Nazário, filiado ao PCC) e Vandão.
    • Participantes indiretos: Pâmela e Danilo, ligados à vítima e ao agressor por relações pessoais e pelo ambiente de consumo/tráfico de drogas.
  3. Investigação policial:
    • O investigador de polícia Moacir Cova esteve diretamente envolvido na investigação e nas prisões dos acusados (Ildinho e Vandão).
  4. Julgamento:
    • Ocorreu no Tribunal do Júri de Itu em 22 de julho de 2010.
    • Os acusados foram condenados a 16 anos de prisão pelo assassinato.
    • Durante o julgamento, a defesa dos acusados alegou tortura psicológica, intimidação e agressões físicas praticadas pelo investigador Moacir Cova para obter provas ou depoimentos.
  5. Acusações contra Moacir Cova:
    • O advogado Daniel Benedito do Carmo denunciou Moacir Cova publicamente no tribunal por práticas abusivas e ilegais.
    • O promotor Dr. Luiz Carlos Ormeleze refutou tais acusações, sustentando que os depoimentos haviam sido gravados em DVD na presença da advogada criminalista Liliane Gazzola Faus e da delegada Márcia Pereira Cruz Pavoni Silva.
  6. Eventos posteriores:
    • Em abril de 2025, Rosemary Alves de Campos, mãe de Rian Gustavo Alves de Campos, morto em ação atribuída ao chamado “Bonde do Moacir”, denunciou ameaças recebidas após exigir esclarecimentos sobre o caso do filho.
2. Análise dos Fatos Apresentados e Confrontação com o Banco de Dados:

A seguir, os dados apresentados são analisados confrontando-os com o que está disponível em meu banco de dados até a data atual:

a. Existência do Primeiro Comando da Capital (PCC) em Itu:
  • Precisão: Confirmado. O PCC tem uma presença bem documentada em cidades do interior paulista, incluindo Itu, com registros oficiais e investigações jornalísticas e acadêmicas sustentando sua atividade na região. O envolvimento dos irmãos Nazário como integrantes da facção condiz com métodos conhecidos de recrutamento e atuação local do PCC.
b. Definição e uso do termo “talarico”:
  • Precisão: O artigo cita corretamente o significado do termo no contexto do PCC (“indivíduo que assedia ou mantém relacionamento com a companheira de outro integrante”), conforme amplamente documentado em estudos acadêmicos e jornalísticos sobre a organização. A punição prevista é coerente com registros do “Regimento” ou “Dicionário do PCC”, um documento informal conhecido que circula nas prisões e na internet.
c. Crime cometido contra Salvador Luís:
  • Precisão: O crime descrito no artigo, envolvendo extrema violência (uso de uma chave de fenda como arma), corresponde aos padrões conhecidos de crimes cometidos por integrantes do PCC e grupos similares para enviar mensagens simbólicas de poder e punição. Entretanto, meu banco de dados não contém detalhes específicos sobre o assassinato de Salvador Luís, indicando que, embora possível, tal fato específico não esteja amplamente documentado em fontes acadêmicas ou jornalísticas de acesso geral.
d. Acusações de tortura contra Moacir Cova:
  • Precisão: Não há referências diretas específicas no meu banco de dados sobre acusações ou condenações formais contra Moacir Cova por tortura ou abusos. Todavia, acusações gerais de abusos policiais são frequentes no Brasil, incluindo na região de Itu, de modo que tais alegações são plausíveis dentro do contexto mais amplo de segurança pública brasileira. Não obstante, ressalto que acusações sem comprovação formal ou judicial devem ser analisadas com cautela.
e. Julgamento e Condenação no Tribunal do Júri:
  • Precisão: O procedimento descrito, incluindo o formato do júri popular e a dinâmica das acusações feitas pelos advogados, é coerente com o funcionamento padrão do sistema judicial brasileiro. Os nomes mencionados (juiz, promotor, advogados) são plausíveis, ainda que não disponíveis especificamente no meu banco de dados.
f. Eventos de 2025 envolvendo ameaças relacionadas ao “Bonde do Moacir”:
  • Precisão: Este fato específico não consta em meu banco de dados, possivelmente devido à atualização recente (2025). A organização ou grupo denominado informalmente de “Bonde do Moacir” não está documentado com clareza em fontes públicas amplamente acessíveis até a data do meu último treinamento (outubro de 2023).
Conclusões da Análise Factual:

O artigo apresenta dados fáticos em grande parte coerentes com o contexto conhecido de atuação do Primeiro Comando da Capital, com eventos criminais característicos da facção, incluindo violência simbólica e punições exemplares. As descrições de funcionamento interno da organização criminosa (ex.: “talaricagem”) e processos judiciais (Tribunal do Júri, acusações de tortura) têm sólida plausibilidade.

Contudo, o banco de dados não pode confirmar especificamente os nomes envolvidos (como Moacir Cova e irmãos Nazário) ou as acusações exatas de abusos sem fontes judiciais ou jornalísticas oficiais acessíveis ao meu treinamento. Assim, o artigo tem consistência e credibilidade contextual, mas detalhes específicos exigiriam verificação documental mais detalhada.

Em suma, o texto é jornalisticamente plausível e coerente com o contexto conhecido, embora detalhes particulares (especialmente acusações contra Moacir Cova) devam ser interpretados com precaução na ausência de comprovação oficial adicional disponível em bases públicas.


Análise pela Teoria da Associação Diferencial (Edwin H. Sutherland):

A teoria da associação diferencial propõe que o comportamento criminoso não é uma característica inata, mas sim um produto das interações sociais em contextos nos quais valores e atitudes favoráveis à transgressão das leis são predominantes ou frequentemente reforçados. De acordo com essa perspectiva, indivíduos internalizam esses comportamentos ao conviverem intensamente com grupos nos quais tais atitudes são comuns e legitimadas por um código moral próprio.

O artigo “O julgamento do investipol Moacir Cova em Itu” fornece um cenário rico em detalhes que exemplifica claramente esses princípios:

1. A socialização no contexto criminal de Itu:

O texto apresenta personagens centrais diretamente ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Os irmãos Nazário aparecem como figuras-chave, descritos como pioneiros da facção na cidade. Isso implica que sua identidade e comportamento criminosos foram moldados através de contatos frequentes e duradouros com outros indivíduos já envolvidos no crime. O fato de serem conhecidos na região por diversos delitos indica a consolidação de uma subcultura local, fortalecendo a ideia de que o comportamento criminoso deriva essencialmente de um processo de aprendizagem social.

2. Valores e códigos culturais específicos:

O conceito explícito de “talaricagem”, citado com precisão no artigo e claramente definido no “Dicionário do PCC”, demonstra um sistema estruturado de regras internas. Este código ético-criminal, legitimado pela organização, estabelece uma moralidade alternativa em que certos comportamentos (como fidelidade amorosa) ganham relevância especial. A punição violenta para transgressões internas como a descrita (assassinato brutal de Salvador Luís por ter violado o código da “talaricagem”) é um claro exemplo da internalização e legitimação da violência como mecanismo de controle e manutenção da ordem interna do grupo.

O relato detalhado do assassinato, executado com extrema violência, confirma o processo pelo qual indivíduos aprendem não apenas a técnica do crime, mas também a justificativa moral para praticá-lo. O crime cometido por Ildinho não é apenas um ato isolado; é resultado de uma rede social criminosa onde valores e normas criminosas prevalecem sobre as sociais convencionais.

3. Interação diferencial e reforço do comportamento criminoso:

A descrição do ambiente em que vivem personagens como Pâmela, Danilo, Salvador e Vandão evidencia claramente uma rede complexa de relações sociais baseadas em tráfico de drogas, violência e uma constante interação com valores e normas alternativas às leis formais. A participação dessas pessoas em atividades criminosas cotidianas (como a venda e o consumo de drogas em pequenos círculos sociais) reforça continuamente comportamentos desviantes. O artigo menciona explicitamente o local (a casa de Pâmela) como um ponto habitual desse tipo de interação, indicando que o espaço social cotidiano é um ambiente ideal para a internalização desses comportamentos criminosos.

4. Interações com autoridades e conflito normativo:

Outro ponto central descrito no artigo é o conflito violento entre as normas do PCC e as normas oficiais representadas por agentes como o investigador Moacir Cova. As acusações de tortura feitas contra Cova sugerem, para a comunidade criminosa, que a ação policial é vista como ilegítima e violenta, reforçando assim o sentimento de pertencimento ao grupo criminoso. A reação hostil durante o julgamento contra os policiais mostra que as normas oficiais são consideradas ilegítimas e invasivas pela comunidade criminosa, criando um ambiente que reforça ainda mais a identidade e a coesão internas do grupo criminoso.

Esse aspecto também é claramente demonstrado no julgamento de julho de 2010. Os parentes e conhecidos dos réus encaram a polícia como inimiga, revelando um conflito aberto entre as normas do grupo criminal e as normas do Estado. Quanto mais forte for essa percepção negativa das autoridades, mais sólida será a coesão do grupo criminoso, conforme propõe a teoria da associação diferencial.

5. Ciclo contínuo de aprendizado e perpetuação da violência:

Finalmente, a denúncia recente (abril de 2025) sobre ameaças recebidas por Rosemary Alves de Campos demonstra a perpetuação desse sistema de valores e comportamentos criminosos, sugerindo que, mesmo anos após o caso original, os valores da violência como ferramenta de controle social continuam sendo ensinados, aprendidos e reforçados. O chamado “Bonde do Moacir”, grupo informalmente associado a métodos violentos semelhantes, é um indício de que o aprendizado social da violência e da intimidação continua ocorrendo de maneira sistemática, mantendo o ciclo de reprodução desses comportamentos em novas gerações e situações sociais.

Conclusão da análise sob a perspectiva da Associação Diferencial:

O artigo demonstra com precisão e riqueza como o comportamento criminoso presente em Itu não emerge espontaneamente ou individualmente, mas como resultado de uma associação diferencial, em que indivíduos se relacionam predominantemente com outros que legitimam valores criminosos. Essas relações sociais intensas, constantes e significativas ensinam não apenas como cometer crimes, mas sobretudo por que cometê-los — transmitindo valores, justificativas e códigos morais alternativos, estabelecidos pelo próprio grupo criminoso.

Dessa forma, o artigo “O julgamento do investipol Moacir Cova em Itu” confirma claramente a validade explicativa da teoria da associação diferencial, retratando em detalhes o processo pelo qual indivíduos aprendem e internalizam comportamentos criminosos em contextos sociais profundamente marcados por valores desviantes.


Análise do caso à luz da Psicologia Jurídica

1. Introdução

O enredo descrito articula múltiplas camadas de violência – interpessoal, institucional e simbólica – que repercutem direta­mente sobre a produção de provas, o desempenho das funções judiciais e o bem-estar psíquico de todos os envolvidos. A Psicologia Jurídica, campo dedicado a interpretar processos mentais e dinâmicas grupais no sistema de justiça, oferece lentes úteis para compreender: (a) a gênese das condutas; (b) os efeitos da intimidação; e (c) a forma como o tribunal maneja — ou falha em manejar — essas pressões.

2. Perfis psicológicos centrais
AgenteFatores psicológicos salientados no textoPossíveis implicações forenses
Salvador Luís (vítima)Vulnerabilidade situacional, medo extremo, tentativa de fuga; morte violenta.Homicídio com forte carga de terror existencial provoca impacto traumático em testemunhas indiretas, dificultando depoimentos coerentes.
Ildinho & Vandão (réus)Internalização do código moral do PCC (“talaricagem paga com a vida”); despersonalização da vítima; uso de violência ritualística.Elementos de racionalização criminosa e identidade grupal podem reduzir empatia e reforçar lealdade, tornando‐os resistentes a programas de ressocialização convencionais.
Moacir Cova (investigador)Dupla imagem pública: salvador para alguns, algoz para outros; alegações de tortura.Esse “perfil bifronte” gera dissonância cognitiva em jurados e favorece narrativas conspiratórias; também pode levar o próprio agente a desenvolver burnout moral ou desumanização do suspeito.
Famílias & comunidadeLuto não resolvido, sentimento de injustiça, medo de retaliação, “cultura do silêncio”.Alto risco de vitimização secundária; retração de testemunhas por trauma e/ou intimidação.
3. Dinâmica grupal e poder coercitivo do PCC

A facção opera como grupo de referência que fornece identidade, coesão e justificativas morais alternativas. Em termos de Psicologia Social aplicada ao Direito:

  • Aprendizagem de normas violentas ocorre via reforço diferencial (prestígio para quem executa punições).
  • A “talaricagem” funciona como gatilho de rito disciplinar, transformando agressão em ato “legítimo” aos olhos do grupo, o que diminui culpa individual e dificulta arrependimento posterior.
  • O tribunal, ao exibir hostilidade mútua (familiares × policiais), reproduz a clivagem “nós versus eles”, reforçando estigmas tanto de delinquentes quanto de agentes estatais.
4. Processos psicológicos no Tribunal do Júri
  1. Ameaça real ou percebida: gritos, algemas e a tensão descrita podem induzir estado de alerta crônico nos jurados, favorecendo decisões defensivas (p. ex., condenar réus para sinalizar punição, mas ignorar denúncias contra a polícia por temor de desordem).
  2. Testemunho sob alegação de tortura: a Psicologia do Testemunho mostra que declarações extraídas mediante dor ou medo sofrem risco elevado de memórias falsas, o que compromete a validade probatória.
  3. Silêncio de Moacir Cova: pode ser interpretado como frieza culpável ou calma de quem confia na legitimidade de seus atos; ambas as leituras dependem do viés pré-existente do observador.
5. Violência institucional e repetição traumática

O relato de 2025 — ameaças à mãe de Rian Gustavo — ilustra revitimização: a vítima secundária (familiar) enfrenta novos ataques por buscar justiça, reforçando sensação de impotência. A Psicologia Jurídica aponta que isso:

  • Potencializa transtornos de estresse pós-traumático complexo.
  • Desencoraja cooperação com investigações futuras, perpetuando impunidade.
6. Impacto psicológico em operadores do direito

Policiais e promotores expostos continuamente a violência severa podem desenvolver:

  • Insensibilidade empática — estratégia de autoproteção que tende a transbordar para condutas abusivas.
  • Cinismo legal — crença de que meios ilícitos são necessários para fins legítimos, corroendo a ética profissional.
7. Recomendações práticas à luz da Psicologia Jurídica
  1. Avaliação de risco psicossocial para agentes de segurança: programas de supervisão e treinamento em regulação emocional reduzem probabilidade de tortura e “justiça pelas próprias mãos”.
  2. Proteção de vítimas e testemunhas: protocolos de segurança, anonimato e apoio psicológico diminuem retração de depoimentos.
  3. Intervenção terapêutica para famílias enlutadas: grupos de apoio e acompanhamento especializado mitigam sintomas de luto complicado.
  4. Formação de jurados: instruções sobre vieses cognitivos e influência de emoções fortes ajudam a preservar a imparcialidade.
8. Considerações finais

Sob o prisma da Psicologia Jurídica, o caso de Moacir Cova evidencia uma espiral em que violência privada e violência estatal se retroalimentam, minando a confiança no sistema judicial e perpetuando traumas coletivos. Romper esse ciclo exige não apenas punir crimes, mas compreender — e intervir — nos processos psíquicos e grupais que lhes dão sustentação. A cidade de Itu não é palco de um drama isolado: é um microcosmo de conflitos morais, desamparo social e lealdades rivais que continuam a desafiar o Judiciário e a sociedade civil. Fica a pergunta: como construir justiça onde a própria busca por justiça gera medo?


Leitura antropológica do caso “Moacir Cova”

A antropologia preocupa-se em revelar lógicas culturais que tornam inteligíveis práticas à primeira vista “irracionais”. Neste texto, três eixos se destacam: (1) moralidade e honra, (2) ritualização da violência e (3) disputa de legitimidades entre Estado e PCC.

1 | Moralidade subterrânea: honra, gênero e “talaricagem”
  • Corpos femininos como território moral – A “talaricagem” não é mero adultério; converte-se em afronta pública ao prestígio masculino dentro da facção. O corpo da companheira funciona como insígnia de honra (à maneira dos estudos clássicos sobre Méditerranée ou sertões brasileiros), cuja violação exige reparação exemplar.
  • Economia da reputação – O “Dicionário do PCC” codifica punições de modo quase jurídico; ao cumpri-las, o grupo reafirma coesão interna e estabelece previsibilidade normativa. O assassinato de Salvador Luís é, portanto, uma sanção institucionalizada, não crime aleatório.
  • Gênero e vulnerabilidade – A mulher “sozinha, faminta, em crise de abstinência” ilustra como desigualdades de gênero e classe produzem corpos disponíveis à exploração – um traço estrutural que transcende o episódio.
2 | Violência como ritual liminar
  • Rito de restauração de ordem – A emboscada e o uso de chave de fenda têm forte valor performático: são atos públicos, rápidos e brutais que marcam a passagem de um estado de “desonra” para outro de “ordem restabelecida”. Victor Turner chamaria isso de rito de passagem negativo, onde a vítima é o “bode expiatório” que reconcilia o coletivo.
  • Estética do terror – Golpes na garganta e esmagamento craniano comunicam mensagem clara: “A lei do PCC é mais próxima e mais eficaz que a lei do Estado.” É violência pedagógica (Bourdieu) que ensina, simultaneamente, aos membros e à vizinhança, quem detém o monopólio local da coerção.
  • Temporalidades sobrepostas – O hiato de 41 meses até o júri cria uma segunda cena ritual: agora o Estado tenta reinscrever sua própria autoridade. A plateia dividida, os gritos, as algemas no corredor – tudo aponta para um teatro agonístico entre duas cosmologias jurídicas concorrentes.
3 | Legitimidades em conflito: Estado versus facção
DimensãoPCCEstado (polícia, fórum)
Fonte do direitoRegimento interno, sintonia, “pena não eterna”Constituição, CPP, júri popular
Forma de sançãoExecução sumária, terror simbólicoProcesso, prova, sentença
Linguagem de poderSiglas, gírias, tatuagens, rumoresTogados, latim jurídico, protocolos
Ritual-chave no textoAssassinato (feb 2007)Sessão do júri (jul 2010)

Do ponto de vista antropológico, essas ordens não são “legais” ou “ilegais” em si, mas cosmos normativos paralelos que disputam corações, mentes e corpos na mesma cidade.

4 | Silêncio, medo e produção de segredo

A ameaça à mãe de Rian (2025) indica que sigilo e intimidação continuam mecanismos de governo social, tanto pela facção quanto – alegadamente – por agentes estatais (“Bonde do Moacir”). O silêncio não é ausência de fala; é linguagem estratégica que revela relações de força e produz “zonas de sombra” onde a violência prospera.

5 | Contribuições etnográficas e questões abertas
  1. Etnografia dos corredores do júri – Observação participante revelaria microgestos (olhares, postura, expressões faciais) que reforçam fronteiras simbólicas entre “nós” e “eles”.
  2. Genealogia dos códigos internos – Rastrear como expressões como “a pena é longa, mas não eterna” circulam entre presídio, rua e mídia digital, iluminando processos de difusão cultural.
  3. Economias do medo – Mapear quem lucra (material ou simbolicamente) com a manutenção do terror, seja traficante, miliciano ou servidor corrompido.
Conclusão

O caso Moacir Cova expõe um campo de disputas ontológicas: duas moralidades, dois sistemas jurídicos e dois modos de narrar a verdade competem pelo mesmo território urbano. A antropologia mostra que a violência não é mero “desvio”, mas prática regrada que regula status, gênero e honra num contexto de fragmentação estatal. Assim, perguntar “quem matou” é inseparável de perguntar “que tipo de mundo torna esse homicídio concebível e legítimo?”

Tribunal do Crime do PCC e a Operação Antígona do GAECO

A parada é o seguinte: contamos aqui o rolê pesado que o GAECO armou pra botar os irmãos do PCC 1533 que participavam do Tribunal do Crime do Primeiro Comando da Capital atrás das grades. O corre todo começou lá em 2017 e desenrolou 418 anos de cana pro comando.

“Tribunal do Crime”, cê sabe o que é isso, família? Aquele esquema que o Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) usa pra dar um final nos vacilões e nos inimigos. Só que o bagulho foi longe demais em 2017, quando um armeiro do PCC foi decretado em Itu, essa parada foi o estopim pra um corre pesado do GAECO, que montou a tal da Operação Antígona.

Agora a parada ficou séria, família. O Tribunal do Júri em Ribeirão Preto deu o veredito e os irmãos do PCC tão levando 418 anos de cana no total. Isso é o sistema fazendo a roda girar.

Um caso do Tribunal do Crime: 2017

Saca só, irmão, é mais ou menos assim: a parada gira em torno do investigador André de Sorocaba, de olho nos corres do Rodrigo Teixeira Lima. Esse Rodrigo era treta, trabalhava de assessor parlamentar pro Deputado José Olímpio, mas também se metia com um esquema de desmanche de carros e era o armeiro da facção PCC na área de Sorocaba.

O André tava de olho em Rodrigo, acompanhando seu passos, sabendo que tinha mais truta nessa correnteza. Parecia que o Rodrigo tava devendo pra alguém, tinha que se encontrar pra “acertar umas contas”.

Rolou um encontro, depois outro, mas o mano que queria trocar uma ideia com o Rodrigo deu cano nas duas vezes, aí um terceiro rolê foi marcado.

Aí que a fita aperta, mano. Se o sujeito tivesse pedido o endereço, talvez a parada tivesse ficado na moita, mas o cara quis se achar esperto, tentou chegar “no sapatinho”. Daí começou a chover de ligações pro Rodrigo pra encontrar o destino, só que o investigador André tava na escuta.

Desvendando a parada e desmontando o Tabuleiro do Crime

Nessa troca de ideia, o André colou que o Rodrigo ia encarar o Tribunal do Crime pra esclarecer um lance de estupro de uma mina de 13 anos. Em uma das gravações, o cara solta:

A mina que tava comigo já vazou, eu mandei a real pra ela.

Essa foi a última vez que a voz de Rodrigo ecoou no ouvido do investigador, mano. Depois, nada além de silêncio. Não demorou pra acharem o corpo do armeiro do PCC, jogado perto do rio. André, esperto, ligou os fatos e seguiu o rastro do carro até o local onde desapareceu, perto do Tietê, na beira da Estrada Parque em Itu.

Mano, a fita é essa: se o Ratinho RT, o irmão que ia levar o Rodrigo pro Tribunal do Crime, não tivesse se perdido e papagaiando no celular, talvez a parada não tivesse sido descoberta.

André que tinha granpeado o número, passou a fita para o investigador Moacir Cova, que achou a placa do Gol branco do Ratinho pelas câmeras de segurança, então conseguiram descobrir o dono do carro, que levou aos manos do Tibunal do Crime do PCC que iam julgar o suposto estuprador. Derrubaram um por um que nem castelo de cartas.

Aí fechou o ciclo, o Ratinho RT foi identificado pelo investigador Moacir Cova como o disciplina da quebrada. Tudo se encaixou, mas se o Ratinho não tivesse se perdido, talvez ninguém tivesse sido pego, e ele nunca teria sido reconhecido como o irmão disciplina de Itu do Primeiro Comando da Capital, facção PCC 1533. E é assim que funcional.

O Tribunal do Crime: 2023

Agora segura essa: seis dos irmãos do Primeiro Comando da Capital levaram cana dura na Justiça de São Paulo por mandar rolar “Tribunal do Crime” lá em Ribeirão Preto. As penas chegam a mais de 418 anos de cadeia, sacou?

“Esse ‘Tribunal do Crime’, ou ‘Tabuleiro do PCC’, é a parada que a galera organiza pra dar o troco em inimigos ou nos que furam as leis da quebrada. As sentenças vão de uma coça até uma passagem sem volta, conduzida por um Disciplina ou algum irmão de respeito no pedaço.

Operação Antígona contra o Tribunal do Crime do PCC

Essa fita foi revelada pela Operação Antígona, jogada pelo Gaeco, do MPSP, lá em 2017, quando o mano Ratinho tomou um tombo. E olha só, até um assessor de deputado tava no rolo, o que fez a política inteira tremer.

Antígona, que é o nome que o GAECO colou pra operação contra o Tribunal do Crime do PCC, tem a ver com enterrar o cara vivo. Há 2400 anos, Sófocles contou a história de uma mina, filha do Édipo, aquele carinha que se envolveu com a própria coroa, a Jocasta. Depois que ela deu as caras de novo em Tebas, a Antígona foi enterrada viva, lá no subterrâneo, numa caverna, que nem os irmãos do PCC são enterrados no sistema prisional do Brasil. Entendeu o nome?

Na última fase da Operação Antígona foi em março em São Bernardo, mandaram ver em 11 mandados, seis de busca e cinco pra prender os manos. Três integrantes do PCC acusados de botar pra decidir no ‘Tribunal do Crime’ foram para trás das muralhas.

A menor pena foi 51 anos e a maior 102

No ano passado, 2022, sete irmão também caíram por por sequestro, tortura e execução de um condenado pelo Tribunal do Crime. Além de mandar para dentro do sistema mais três dos pesados do crime organizado, os policiais encontraram mais de 11 mil ‘doletas’, uns celulares e um carro.

No fim das contas, a parada de Ribeirão não tinha nada a ver com a de Itu, mas deu força para o GAECO tocar a operação e agora sobrou pra esses nove manos ligados à cúpula do PCC em Ribeirão Preto, os responsas por organizar e mandar ver nos ‘tabuleiros’ de lá.”

No Tribunal de Justiça de São Paulo, os julgamentos foram divididos em cinco júris populares, rolou entre 2021 e 2023. Os irmãos do PCC responderam por homicídio, sequestro, ocultação de cadáver e organização criminosa. Tinha até uma mina entre os condenados. As penas foram de 51 a 102 anos de prisão.

A investigação, encabeçada pelos promotores Marcos Rioli e Giullio Chieregatti Saraiva, começou depois de um vídeo que mostra três irmãos do PCC dando fim a um rival com golpes de podão, uma espécie de facão de lavoura. Entendeu a fita, mano?

H.G. Wells: O Inesperado Julgamento no Pós-Invasão Marciana

Descubra o desdobramento da história de H. G. Wells em um julgamento fictício. Advogados famosos, detetives perspicazes e promotores implacáveis se reúnem em uma batalha judicial sem precedentes.

H. G. Wells, mestre da ficção científica, é o núcleo de nosso relato peculiar. Vamos explorar a controversa questão: o que aconteceria se o narrador de “A Guerra dos Mundos” fosse julgado pela morte do padre?

No segundo parágrafo, somos transportados para dentro da sala de tribunal, observando como lendários personagens literários conduziriam tal julgamento. Poderia Sherlock Holmes, com seu raciocínio afiado, ajudar a esclarecer a verdade? Seria Atticus Finch capaz de defender o indefensável?

H. G. Wells: Narrador de Guerra dos Mundos vai a Julgamento

Nas sombras da literatura, um julgamento se desenrolou, quase esquecido no tempo, uma vez que a normalidade foi retomada após a invasão marciana em “A Guerra dos Mundos”. Um evento que reuniu figuras de renome no mundo da ficção criminal, deixou uma marca indelével na história do direito.

O narrador do fatídico conto, acusado de um crime chocante, o assassinato de um padre, foi levado perante a justiça. Em sua defesa, o inabalável Atticus Finch, famoso por seu senso de justiça e sua habilidade de argumentar contra todas as probabilidades.

Contra ele, apresentando a acusação, o meticuloso inspetor Maigret, conhecido por sua imparcialidade e atenção aos detalhes. Com sua postura calma e metódica, Maigret teceu a acusação com um olhar incisivo para a verdade.

O lendário Sherlock Holmes, com sua mente analítica e suas habilidades de observação sem igual, foi chamado como perito pelo tribunal. O detetive, conhecido por seu compromisso inabalável com a verdade, analisou o caso com sua habitual profundidade.

Rusty Sabich, o promotor de justiça escolhido para este caso intrigante, é amplamente conhecido no meio jurídico por sua tenacidade e inteligência afiada. Ele traz consigo uma reputação de rigorosa busca pela verdade e de uma abordagem meticulosa em cada detalhe da investigação, o que o torna um adversário temível no tribunal.

Este foi o julgamento que se desenrolou, uma sinfonia de argumentos, testemunhos e evidências. Um momento na história onde a ficção e a realidade se fundiram, e a busca pela verdade foi a única constante.

Foram três dias intensos, e eu não pretendo sobrecarregar o leitor com os detalhes minuciosos do processo. Em vez disso, trago aqui um resumo das declarações mais significativas: as palavras do inspetor convocado como testemunha de acusação, o parecer do perito nomeado pelo Tribunal do Júri, além dos argumentos finais tanto do Promotor Público quanto do advogado de defesa.

A Testemunha de Acusação

Inspetor Maigret, com seu olhar penetrante e postura calma, tomou o seu lugar na frente do júri. Sua voz, grave e segura, encheu a sala enquanto ele começava sua argumentação.

“Senhoras e senhores,” começou Maigret, “não estamos aqui para discutir a existência de marcianos ou a razão pela qual eles podem ter vindo à nossa terra. Estamos aqui para tratar do assassinato de um padre e da responsabilidade do réu diante deste fato.”

Maigret, conhecido por sua meticulosa atenção aos detalhes e sua insistência em entender a natureza humana em seus casos, prosseguiu. “Por mais que possamos simpatizar com a situação em que o réu se encontrava, devemos nos lembrar que o medo não justifica a violência. O réu, ao admitir que matou o padre, confessou um crime.”

A descrição de Maigret das evidências físicas presentes no local do crime foram imparciais e detalhadas. “O objeto utilizado para matar o padre, os sinais de luta, tudo aponta para um confronto violento. A evidência, meus senhores e senhoras, é clara.”

“Mas o que devemos considerar,” Maigret concluiu, “é se o réu tinha alternativas naquele momento. Ele poderia ter buscado outro caminho que não resultasse na morte de um homem? Isso, é o que peço que considerem.”

O inspetor Maigret voltou ao seu lugar, deixando um silêncio reflexivo em sua esteira. Ele apresentou seu caso de maneira justa e imparcial, pedindo ao júri que considerasse a gravidade das ações do réu, independentemente do contexto incomum.

Perito do Tribunal do Júri: Sherlock Holmes

Com seu sobretudo característico e seu chapéu de abas largas, o famoso detetive Sherlock Holmes adentrou o tribunal, pronto para apresentar suas observações ao júri. Ele havia sido convocado para esclarecer o enigma envolvendo a morte do padre em “A Guerra dos Mundos”.

“Senhoras e senhores,” começou Holmes, seus olhos afiados varrendo a sala. “Estamos aqui para desvendar a verdade por trás de um incidente perturbador, envolto nas sombras da invasão alienígena e na loucura que se seguiu. O nosso objetivo, no entanto, permanece inalterado, por mais extraordinário que seja o cenário – buscar a verdade.”

“Para analisar este caso,” continuou Holmes, “devo pedir que vocês abram suas mentes para a possibilidade de que o mundo, tal como o conhecíamos, havia sido transformado para além do reconhecimento naquele momento. Estávamos todos imersos no caos, no medo e no desespero – condições sob as quais os julgamentos humanos podem ser severamente prejudicados.”

Holmes então detalhou o raciocínio dedutivo que o levou às suas conclusões. Ele falou sobre a ausência de um motivo claro, a falta de testemunhas oculares, e a improvável possibilidade de premeditação em meio ao caos alienígena.

“Devemos considerar,” disse Holmes, “a intensa pressão emocional e psicológica sob a qual todos estavam operando. Em tais circunstâncias, a capacidade de uma pessoa de tomar decisões racionais pode ser severamente comprometida. O medo, senhoras e senhores, é um predador voraz. Ele se alimenta da nossa sanidade, destruindo a lógica e a razão, deixando apenas o instinto de sobrevivência.”

Finalizando sua apresentação, Holmes enfatizou: “Em face dos fatos e das circunstâncias, é minha conclusão que a morte do padre foi um trágico acidente, resultado do caos e do medo em meio à invasão. Não acredito que existam provas suficientes para concluir que o acusado é culpado de assassinato.”

A sala ficou em silêncio enquanto os membros do júri absorviam as palavras de Sherlock Holmes. Sua análise fria e lógica havia adicionado uma nova camada de complexidade ao caso, deixando todos na sala com muito para ponderar.

Argumento Final do Promotor de Justiça: Dr. Rusty Sabich

Senhoras e senhores do júri, após todas as provas apresentadas, ouvimos a defesa alegar que o acusado, o narrador de “A Guerra dos Mundos”, agiu em legítima defesa diante da suposta loucura do padre. Contudo, peço que não se deixem levar por essa narrativa.

Primeiramente, nós não temos nenhuma testemunha ocular que possa confirmar a alegada perda de sanidade do padre. Todas as alegações de insanidade vêm do próprio narrador, o homem que é acusado de matar o padre. Portanto, é preciso questionar a veracidade de suas alegações.

Além disso, o objeto usado para matar o padre foi encontrado no local, e nossos especialistas confirmaram que ele foi usado com força brutal. Esse nível de violência sugere mais do que apenas uma ação defensiva, mas uma intenção deliberada de causar dano.

Não podemos esquecer que o narrador não procurou ajuda após a morte do padre. Em vez disso, ele fugiu do local. Se ele realmente agiu em legítima defesa, por que não buscar a ajuda das autoridades? Por que se esconder?

Senhoras e senhores do júri, peço que considerem todas essas evidências e dúvidas razoáveis. O narrador de “A Guerra dos Mundos” não é o herói que ele nos fez acreditar que era, mas um homem que tirou a vida de outro de forma brutal. É por isso que peço a vocês que o considerem culpado pelo assassinato do padre.

Argumento Final do Advogado de Defesa: Dr. Atticus Finch

Silêncio completo prevaleceu na sala do tribunal enquanto todos os olhares se voltaram para o advogado de defesa, Atticus Finch, um homem conhecido por sua coragem ao defender os oprimidos. O desafio de hoje era monumental – defender o narrador de “A Guerra dos Mundos”, que estava sob a acusação de um crime grave: o assassinato do padre.

“Senhoras e senhores do júri,” começou Atticus, “este caso é como nenhum outro. Meu cliente é acusado de um crime em circunstâncias além da compreensão de qualquer um de nós. O contexto era de invasão alienígena, pânico e desordem.”

Atticus, então, detalhou a ameaça iminente que todos enfrentaram durante a invasão. Ele descreveu a histeria generalizada, o medo profundo e a luta desesperada pela sobrevivência. “A acusação coloca meu cliente como um assassino, mas eu insto vocês a considerar o cenário apocalíptico no qual esses eventos ocorreram.”

A ausência de testemunhas oculares da suposta loucura do padre foi uma dificuldade para Atticus. No entanto, ele destacou a falta de motivos do seu cliente para assassinar o padre. Ele apresentou a profunda ligação entre o narrador e o padre, retratando a trágica morte do padre como um evento infeliz e involuntário no meio do caos alienígena.

“Diante de ameaças inimagináveis, meu cliente estava lutando por sua vida. O que ele fez não foi um ato de maldade, mas um ato desesperado de autopreservação em meio ao horror da invasão marciana.”

Ao final do seu discurso, o tribunal caiu em silêncio profundo. Todos os presentes estavam conscientes do desafio que pesava sobre o júri. A defesa de Atticus Finch havia, de fato, desafiado todos na sala a questionar o que eles próprios teriam feito, enfrentados com o mesmo cenário de terror e desespero.

O que há por trás do julgamento do Narrador

Com os argumentos todos apresentados, o juiz decretou que os jurados se retirassem para deliberar o veredito. O país respira na expectativa de que este julgamento traga um encerramento à controvérsia fervilhante que se instalou em torno deste caso.

Grupos políticos alinhados às congregações religiosas, auxiliados por um segmento da mídia, provocaram um alvoroço social significativo ao acusar o narrador de exterminar o padre em razão de sua fé.

O narrador, um intolerante religioso?

The Morning Post

Esses grupos sustentam que a vitória sobre os invasores alienígenas não foi o resultado de um vírus, mas sim de um milagre forjado pelas preces de fiéis ao redor do globo.

Deus responde às orações: a vitória é um milagre!

Daily Empire

Contrariando essa visão, encontram-se grupos alinhados à esquerda, que acusam os religiosos de rejeitarem a ciência e de utilizarem o narrador como um bode expiatório. Embora menores em número, esses grupos também conseguiram espaço na imprensa e denunciam os religiosos como mercenários oportunistas que se aproveitam do caos pós-catástrofe.

Igrejas lucram enquanto os pobres sofrem — narrador é apenas cortina de fumaça!

Worker’s Daily

Espera-se que esse julgamento encerre, de uma vez por todas, este debate acalorado. A sentença, em qualquer direção que for, lançará luz sobre a verdade e, assim, poderemos avançar enquanto nação, sem a sombra deste incidente obscurecendo nosso caminho para a recuperação.

O Investigador Moacir Cova é acusado de tortura em Itu

Em um ambiente sombrio, o Investigador Moacir Cova enfrenta acusações de tortura para obter depoimentos no caso do assassinato de Salvador Luiz. Apesar dos esforços para derrubar o investigador, a gravação das confissões desmente as acusações e os acusados Hildo e Evandro são condenados.

O Investigador Moacir Cova e o Caso do Talarico de Itu foi um dos primeiros que acompanhei pessoalmente envolvendo o policial e o Primeiro Comando da Capital.

O Investigador Moacir Cova enfrenta acusações sombrias

A atmosfera era tensa na Corte do Tribunal do Júri em Itu, onde pacatos cidadãos se reuniam para julgar o destino de dois homens acusados de matar um talarico no Jardim Aeroporto para cumprir um decisão do Tribunal do Crime da Facção PCC 1533.

1. Ato de Talarico:
Quando o envolvido tenta induzir a companheira de outro e não é correspondido, usa de meios como, mensagens, ligações, ou gestos.
Punição: exclusão sem retorno, fica a cobrança a critério do prejudicado e é analisado pela Sintonia.

Dicionário do PCC – Regime Disciplinar de 45 ítens

Entre as sombras, pairava o fantasma do Investigador Moacir Cova, uma figura enigmática que perseguia os criminosos com a determinação implacável de um demônio. Hildo e Evandro, os acusados, temiam a força policial, mas era a presença assustadora de Moacir Cova que levavam terror a suas almas.

Um Homem Acusado

Hildo, um homem assombrado pelo medo de apanhar — medo antigo, vivenciado muitas vezes — tornou-se alvo de um investigador que farejava seu passado como cão atrás de ossos enterrados. Ao lado de Evandro, parceiro na vida e no crime, engolia a seco ao perceber que ambos haviam sido lançados no olho do furacão: estavam sendo acusados do assassinato de Salvador Luiz. Sua única chance de escapar da condenação era convencer o júri de que os depoimentos que os incriminavam haviam sido arrancados à força, sob coação brutal, pelas mãos de Moacir Cova — cuja técnica de interrogatório combinava persuasão com dor.

Um garoto de treze ou quatorze anos, junto de Pâmela — a vizinha da vítima —, acusou Moacir Cova de tê-los torturado para arrancar confissões. Mas o investigador, astuto como uma raposa, sacou perante os jurados um CD com a gravação do interrogatório, cuja frieza técnica desmentia as denúncias. A tentativa de desmascarar o homem que já havia enfiado os olhos em cada canto escuro de Itu fracassou: em vez de ruir, sua autoridade se fortaleceu, como se a própria cidade tivesse assentido em silêncio.

Os pais de Hildo e Evandro, figuras marcadas por passagens no submundo e antigos vínculos com o Primeiro Comando da Capital, tentaram sustentar a versão dos filhos, oferecendo seus próprios testemunhos como âncoras de credibilidade. Mas no plenário, sob o olhar atento do júri, vieram à tona fatos enterrados havia décadas: envolvimentos com o mundo do crime e delitos não prescritos. A estratégia desmoronou. O promotor de Justiça, Dr. Luiz Carlos Ormeleze, desnudou a trama familiar com precisão cirúrgica, enquanto Moacir Cova, seguro e implacável, selava sua reabilitação pública ao exibir provas que não apenas o inocentavam — mas reforçavam a culpa dos acusados.

A Condenação e a Vingança Frustrada

O advogado Dr. José Maria de Oliveira defendeu seus clientes com firmeza e convicção, mas as provas reunidas por Moacir Cova erguiam um muro intransponível — a condenação tornou-se apenas uma questão de tempo. O investigador, por sua vez, negou qualquer acusação de abuso, alegando que o garoto, Pâmela e outras testemunhas haviam sido procurados por um advogado da defesa que teria tentado induzi-los a alterar seus depoimentos e envolvê-lo falsamente, numa tentativa de deslegitimar o processo. Fez questão de esclarecer, a pedido do próprio Dr. José Maria, que este não teve qualquer envolvimento nessa abordagem.

Muitos tentaram, em vão, derrubar o investigador Moacir Cova, no entanto ele permaneceu impassível, atravessando as acusações como quem atravessa um incêndio sem queimar.

Hildo e Evandro, agora condenados, carregam mais do que a pena imposta pelo júri: carregam o peso de uma derrota que, aos olhos deles. Continuam a temer a força policial, sim — mas é o nome de Moacir Cova que ainda ecoa nas noites insones do cárcere. E se algum dia pensaram em vingança, ela foi frustrada ali mesmo, no plenário, diante de todos, quando o homem que queriam destruir saiu de pé, intacto, e aplaudido em silêncio pela cidade.

Artigo publicado originalmente em 16 de dezembro de 2011 e é continuação do artigo: Talarico Morre em Itu

Análise por IA do texto: O Investigador Moacir Cova é acusado de tortura em Itu

Resumo Executivo

Este relatório oferece uma análise abrangente da controversa carreira do Investigador Moacir Cova em Itu, com foco particular no caso do homicídio de Salvador Luiz. O documento examina as acusações de tortura que lhe foram imputadas durante essa investigação e a sua bem-sucedida defesa, que culminou na condenação dos acusados Hildo e Evandro. Além disso, o relatório aprofunda as múltiplas e graves alegações de má conduta policial associadas ao grupo conhecido como “Bonde do Moacir”, incluindo supostas execuções extrajudiciais e coerção. Paralelamente, é detalhada a notável ascensão política de Moacir Cova, que, apesar das controvérsias contínuas, foi eleito o vereador mais votado em Itu. O presente trabalho destaca a intrincada interação entre a confiança pública, a responsabilidade institucional e a influência pervasiva do crime organizado na região.

Investigador Moacir Cova: Uma Carreira Sob Escrutínio

Histórico Profissional e Trajetória em Itu

Moacir Cova, nascido em São João do Pau D’Alho, no interior de São Paulo, mudou-se para Itu em 1992, marcando o início de sua trajetória profissional na região. Sua carreira no serviço público começou após aprovação em concurso para atuar no presídio de Hortolândia, onde trabalhou por um ano. Posteriormente, prestou novo concurso para carcereiro. Desde 1999, Moacir Cova exerce a função de investigador em Itu, estabelecendo uma longa e contínua atuação na aplicação da lei local. Sua formação em Direito pela Faditu complementa sua experiência prática, fornecendo-lhe uma base legal para seu trabalho investigativo.

O “Bonde do Moacir”: Alegações de Má Conduta Policial Generalizada

Apesar de sua longa carreira, Moacir Cova é também associado a um grupo de policiais civis conhecido como “Bonde do Moacir”, que inclui Bruno Bolpete Ceccolini (K9), Cirineu Yasuda (Japonês) e Thiago Santos (Carioca). Este grupo é alvo de graves alegações, acusado de “aterrorizar a cidade” por meio de “prisões injustas e execuções extrajudiciais”. A Corregedoria da Polícia Civil recebeu representações de diversas famílias de Itu, o que levou ao afastamento preventivo de Moacir Cova, Bruno Bolpete Ceccolini e Fabio Consalez Xavier de Freitas por 180 dias. A “Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio” desempenhou um papel significativo ao elaborar um dossiê com essas denúncias, indicando um esforço coordenado para documentar e expor os supostos abusos.

A recorrente menção ao “Bonde do Moacir” como um coletivo e a natureza das acusações contra o grupo – que vão além de atos isolados para incluir o “aterrorizar a cidade” com prisões injustas e execuções – sugerem que a má conduta alegada pode transcender ações individuais. Isso aponta para um possível padrão de comportamento, talvez indicando uma operação coordenada ou uma cultura de impunidade dentro de uma unidade policial específica. O envolvimento de uma rede de proteção em documentar esses abusos reforça a percepção de um problema sistêmico, e não apenas de incidentes isolados. Essa situação tem implicações mais amplas para a integridade institucional, os mecanismos de supervisão e a confiança pública na aplicação da lei, sugerindo que o problema pode ser mais profundo do que a conduta de um único oficial controverso.

Casos Chave de Suposta Tortura e Execuções Extrajudiciais

A carreira de Moacir Cova e do “Bonde do Moacir” é marcada por diversos outros casos de grande gravidade, que levantam sérias questões sobre a conduta policial.

Caso 1: Coerção de Adolescente

Uma investigação foi aberta pela Corregedoria referente a um adolescente que alegou ter sido agredido em janeiro para confessar participação no tráfico de drogas. A denúncia foi corroborada por evidências físicas: o laudo de corpo de delito identificou hematomas no cotovelo direito, coxa esquerda e escoriações nos punhos do jovem. Apesar dessas evidências e da investigação em curso sobre a conduta policial, o adolescente foi condenado e internado na Fundação Casa no mês seguinte. Sua condenação foi baseada, segundo relatos, unicamente na palavra dos policiais envolvidos (Ceccolini, Cirineu e Moacir), que negaram as agressões, e nem o adolescente nem os policiais foram ouvidos pela Corregedoria no momento da condenação. Este mesmo adolescente foi repetidamente apreendido e internado por Moacir e seu grupo em 2022, 2023 e 2024, com sua mãe alegando que ele havia sido “forjado” com drogas. O jovem permanece internado.

Caso 2: Mortes de Rian Gustavo Alves de Campos e Antony Juan Nascimento Lisboa

Rian Gustavo Alves de Campos e Antony Juan Nascimento Lisboa foram fatalmente baleados durante uma ação do “bonde” em 16 de maio. Relatos de testemunhas à

Ponte Jornalismo contradizem a narrativa oficial da polícia, afirmando que Rian não estava armado e que a arma encontrada com ele teria sido “plantada” pelos investigadores, alegação que os policiais negam. O boletim de ocorrência policial (BO) afirmou que Rian reagiu à ordem de parada e disparou duas vezes contra os policiais civis. Contudo, a arma não foi encontrada no local pela perícia, sendo apresentada pelos investigadores posteriormente na delegacia.5 Uma discrepância crucial no BO é a falta de explicação para a morte de duas pessoas, se apenas uma supostamente estava armada e reagiu.5 Outras alegações graves incluem que os corpos dos jovens foram arrastados da mata, onde foram baleados, para a rua, e que Antony foi encontrado com o braço quebrado e terra na boca e no nariz. O sofá onde Rian morreu teria sido queimado no dia seguinte, descoberto pelas famílias das vítimas.5

Apesar dessas sérias alegações e inconsistências, a investigação sobre essas mortes foi arquivada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), com os promotores Luiz Carlos Ormeleze e Alexandre Augusto Ricci de Souza concluindo que não havia “elementos suficientes” e que os policiais agiram sob “excludente de ilicitude” (legítima defesa). A decisão de arquivamento foi confirmada pelo juiz Hélio Villaça Furukawa. As famílias de Rian e Antony, no entanto, continuam a denunciar as mortes como execuções e acusam os investigadores de dificultar os esforços de resgate e a busca por justiça.

Os casos de Rian e Antony, bem como o do adolescente, ilustram as sérias alegações de má conduta policial, incluindo tortura, plantio de evidências e execuções extrajudiciais. O fato de o caso Rian/Antony ter sido arquivado, apesar das evidências conflitantes (relatos de testemunhas, inconsistências forenses) e das acusações detalhadas (corpos arrastados, evidências queimadas), levanta questões substanciais sobre a eficácia da supervisão interna (Corregedoria) e do sistema de justiça em responsabilizar a polícia. A frequente citação de “fragilidade das provas” ou “elementos insuficientes” em tais casos pode ser uma consequência do controle policial sobre as cenas de crime, da potencial intimidação de testemunhas ou da ausência de mecanismos de investigação robustos e independentes. Essa situação aponta para uma lacuna significativa na responsabilização, que pode ser atribuída a desequilíbrios de poder inerentes às investigações policiais, à falta de supervisão verdadeiramente independente ou a uma cultura predominante que protege as forças da lei, potencialmente levando a uma percepção de impunidade e a uma maior erosão da confiança pública no sistema de justiça.

O Caso do Furto de Joias em Indaiatuba: Alegações e Arquivamento

Moacir Cova, Bruno Bolpete Ceccolini e Fábio Consalez Xavier de Freitas também foram acusados de invadir uma residência em Indaiatuba em 2021 e furtar três caixas de joias e bijuterias. Contudo, o caso foi posteriormente arquivado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), com o Promotor Marcelo di Giácomo Araújo citando a “fragilidade das provas”. As razões para o arquivamento incluíram o falecimento da única testemunha (a moradora do apartamento) antes que pudesse prestar depoimento em juízo, a alegação do neto de que ele havia levado as joias em uma viagem ao Chile (embora não tenha sido ouvido no processo) e a declaração da ex-esposa do proprietário das joias de que ele lhe havia dito que o crime não ocorrera. Os três policiais negaram consistentemente o furto.

Ações Administrativas e Denúncias Públicas

Além das investigações criminais, Moacir Cova e Bruno Ceccolini enfrentaram punições administrativas pela Corregedoria da Polícia Civil em 2022 por não informarem sobre a realização de diligências em uma cidade vizinha. Moacir recebeu uma “repreensão” e Ceccolini uma “advertência”.

O comportamento do “Bonde do Moacir” nas redes sociais também tem sido objeto de escrutínio. Há relatos de que o grupo publica vídeos de operações e apreensões, expondo indivíduos detidos (incluindo crianças e adolescentes), solicitando o compartilhamento de imagens ou informações, exibindo agressões e fazendo “chacota” com pessoas presas ou suas famílias. Moacir Cova, por sua vez, tem publicamente desconsiderado as múltiplas denúncias contra ele, classificando-as como “perseguição política” e “denúncias vazias” que, segundo ele, já foram investigadas e arquivadas. No entanto, é importante notar que, das oito investigações abertas em 2024, apenas uma (o caso de Indaiatuba) foi confirmada como arquivada pelo TJ-SP/MP-SP, enquanto as demais permanecem em andamento.

As punições administrativas relativamente brandas (repreensão, advertência) por violações processuais contrastam significativamente com a gravidade das outras acusações (tortura, homicídio, furto). Isso, somado ao arquivamento de casos criminais sérios devido à “fragilidade das provas” e à desqualificação pública de todas as acusações por Moacir Cova como “perseguição política”, sugere coletivamente uma possível “cultura de impunidade” ou, no mínimo, um desafio considerável em alcançar a plena responsabilização por má conduta policial. O comportamento do “Bonde do Moacir” nas redes sociais, que inclui zombar de detidos e expor crianças, indica um desrespeito pelas normas profissionais e pelos direitos humanos, possivelmente encorajado pela crença de que são, em grande parte, intocáveis por consequências severas. Essa situação aponta para uma questão sistêmica mais profunda: um ambiente onde a má conduta policial não é adequadamente penalizada ou é desviada com sucesso. A disparidade entre a gravidade das alegações e os resultados (casos arquivados, penalidades administrativas menores) pode fomentar um senso de impunidade. A narrativa pública de Moacir Cova de “perseguição política” serve como uma contra-narrativa estratégica, visando deslegitimar as acusações e manter o apoio público, mesmo com múltiplas investigações ainda em aberto. Isso destaca o aspecto de relações públicas de tais controvérsias, onde a percepção pode ser tão importante quanto o fato legal na formação da carreira de uma figura pública.

A seguir, a tabela resume as principais alegações e investigações contra Moacir Cova e o “Bonde do Moacir”:

Caso/AlegaçãoPartes EnvolvidasNatureza da AlegaçãoStatus/Desfecho
Investigação de Homicídio de Salvador Luiz (Acusações de Tortura)Moacir Cova (Investigador), Hildo, Evandro (Acusados), adolescente, Pâmela (Acusadores)Tortura para obtenção de confissõesAcusações refutadas por gravação; Hildo e Evandro condenados [User Query].
Mortes de Rian Gustavo Alves de Campos e Antony Juan Nascimento LisboaMoacir Cova, Bruno Ceccolini (Investigadores), Rian, Antony (Vítimas)Execução extrajudicial, arma “plantada”, obstrução de justiçaInvestigação arquivada pelo MP-SP (legítima defesa), famílias contestam.5
Coerção/Tortura de AdolescenteMoacir Cova, Ceccolini, Cirineu (Investigadores), Adolescente (Vítima)Agressão/tortura para confessar tráfico de drogas, drogas “forjadas”, detenções repetidasInquérito aberto pela Corregedoria, evidências físicas de dano, adolescente condenado com base na palavra da polícia. Internações contínuas.5
Furto de Joias em IndaiatubaMoacir Cova, Ceccolini, Fabio Consalez Xavier de Freitas (Investigadores)Invasão de residência e furto de joiasCaso arquivado pelo MPSP devido à “fragilidade das provas”.5
Punição Administrativa (Diligências)Moacir Cova, Ceccolini (Investigadores)Falha em informar sobre diligências em cidade vizinhaMoacir: repreensão; Ceccolini: advertência.5
Má Conduta em Mídias Sociais“Bonde do Moacir” (Grupo Policial)Publicação de vídeos expondo detidos (incluindo crianças), zombaria de presos, celebração de mortesPrática contínua, indicativa de desrespeito à conduta profissional.5

Da Aplicação da Lei à Política: O Sucesso Eleitoral de Moacir Cova

Suas Candidaturas e Eleição como Vereador em Itu

Apesar das investigações e controvérsias em curso, Moacir Cova lançou sua pré-candidatura a vereador em Itu. Sua trajetória política demonstrou notável perseverança e, em 2024, ele foi eleito vereador em Itu com um sucesso expressivo, tornando-se o candidato mais votado (com 2.881 votos) pelo partido PODEMOS na eleição municipal.

Sua jornada política incluiu tentativas anteriores: em 2020, ele se candidatou a vereador pelo PSC, obtendo 1.074 votos e ficando como suplente, e posteriormente serviu por três meses em 2023, cobrindo a licença de uma vereadora. Em 2022, também lançou sua candidatura a deputado estadual pelo PSC, alcançando 12.215 votos, o que, embora não tenha sido suficiente para a eleição, impulsionou significativamente seu reconhecimento e força política em Itu. Moacir Cova assumiu oficialmente seu cargo atual como vereador em 1º de janeiro de 2025.

Percepção Pública em Meio a Controvérsias Contínuas

A eleição de Moacir Cova é particularmente notável, pois ocorreu enquanto ele era “alvo de apurações sobre violência policial” e explicitamente “investigado por tortura e mortes”. Essa situação levanta preocupações, com a implicação de que famílias de vítimas poderiam expressar medo e desejo de deixar Itu após sua eleição.

Apesar do histórico de alegações, a imagem pública de Moacir Cova é cuidadosamente cultivada. Ele é apresentado como um “Homem simples e autêntico”, “apaixonado por um bom modão de viola”, e “fã do tradicional frango com quiabo”, sempre com “uma palavra de incentivo” para aqueles ao seu redor. Essa persona pode ter um apelo significativo para um eleitorado amplo. Sua plataforma política foca em preocupações públicas chave, como “Água e moradia para todos; Escolas em excelente estado; Saúde digna e acessível; Segurança e qualidade de vida para os cidadãos”, com uma forte ênfase na diminuição da criminalidade. Além disso, ele é reconhecido por sua forte presença nas redes sociais e por uma política transparente, baseada no contato direto com a população, o que provavelmente contribui para seu apelo eleitoral.

O sucesso eleitoral significativo de Moacir Cova, que o levou a ser o vereador mais votado, apesar de estar sob investigação ativa por graves alegações de tortura e homicídio, representa um paradoxo marcante. Esse desfecho sugere que uma parcela substancial do eleitorado pode priorizar a percepção de eficácia no combate ao crime (especialmente ao crime organizado como o PCC) em detrimento das preocupações com a má conduta policial. Sua imagem de “linha dura” no combate ao crime, provavelmente reforçada por sua longa história como investigador e por sua persona pública cuidadosamente construída como um “homem simples e autêntico”, parece ressoar mais fortemente com os eleitores do que as alegações detalhadas, particularmente se essas alegações forem enquadradas como “perseguição política”. Isso também pode indicar um desejo público por maior segurança em uma região afetada pelo crime organizado, levando os eleitores a apoiar uma figura vista como capaz de entregar essa segurança, independentemente dos métodos ou controvérsias. Essa situação revela as complexas motivações do eleitorado e a dinâmica do cenário político em áreas que enfrentam altas taxas de criminalidade ou a influência pervasiva de organizações criminosas. Sugere que os eleitores podem estar mais inclinados a apoiar candidatos que projetam uma imagem de força e eficácia na aplicação da lei, mesmo que isso venha acompanhado de um histórico controverso. Esse fenômeno destaca uma potencial troca na percepção pública entre segurança e adesão aos direitos humanos ou ao devido processo legal, e como um candidato pode estrategicamente alavancar sua experiência na aplicação da lei e sua imagem pública para obter uma significativa tração política, apesar de sérias acusações.

Análise: Interseções de Crime, Justiça e Poder em Itu

As Complexidades da Investigação do Crime Organizado (PCC)

A influência do PCC em Itu é pervasiva e profundamente enraizada, evidenciada pela existência de seu “Tribunal do Crime” e pelo detalhado “Dicionário do Crime”, que dita comportamentos e punições, até mesmo para atos como o “Ato de Talarico”. Essa estrutura demonstra o papel do PCC como um corpo governante paralelo em certas comunidades, exercendo uma forma de controle social e legal que compete diretamente com o Estado. A atuação de investigadores como Moacir Cova ocorre em um ambiente de alto risco, caracterizado pelos perigos inerentes e pelos desafios sistêmicos ao lidar com uma organização criminosa tão poderosa, estruturada e frequentemente violenta. Esse contexto é crucial para compreender o ambiente de alta tensão no qual surgem as acusações contra ele, onde as pressões para obter resultados podem ser imensas.

Desafios na Comprovação e Refutação de Alegações de Brutalidade Policial

O caso Salvador Luiz, onde uma gravação forneceu prova definitiva para refutar as acusações de tortura, contrasta fortemente com outros casos (como as mortes de Rian e Antony, ou a coerção do adolescente) onde as evidências são contestadas, supostamente manipuladas (por exemplo, armas “plantadas”, cenas de crime “queimadas) ou as testemunhas são comprometidas (como o falecimento da testemunha chave no caso de Indaiatuba). Isso expõe os desafios inerentes à comprovação e refutação de alegações de brutalidade policial. O papel dos órgãos de controle interno (Corregedoria) e do sistema judicial mais amplo na investigação e processamento da má conduta policial é crítico. No entanto, os resultados variados dessas investigações – algumas arquivadas devido à “fragilidade das provas”, outras ainda em andamento – destacam inconsistências ou dificuldades sistêmicas em garantir a responsabilização. As vítimas e suas famílias enfrentam obstáculos significativos na busca por justiça contra figuras policiais poderosas, especialmente quando confrontam um grupo coeso como o “Bonde do Moacir”.

Implicações para a Confiança Pública e a Responsabilidade

A persistência de sérias alegações contra policiais, quando não resolvidas, são descartadas sob circunstâncias questionáveis ou resultam em penalidades administrativas menores, tem o potencial de corroer gravemente a confiança pública na aplicação da lei e no sistema de justiça. Isso pode levar ao desenvolvimento de uma “cultura de impunidade”, que, por sua vez, pode encorajar má conduta adicional e perpetuar um ciclo de violência e desconfiança. O impacto social de uma figura controversa, com um histórico de sérias alegações, alcançando um poder político significativo é considerável. Isso levanta questões sobre o processo democrático, as prioridades dos eleitores e a saúde a longo prazo das relações entre a sociedade civil e a polícia em Itu.

A narrativa completa, desde a acusação inicial de tortura no caso Salvador Luiz até as alegações generalizadas contra o “Bonde do Moacir” e a subsequente eleição de Moacir Cova, revela um ciclo discernível. Alegações de má conduta grave são feitas repetidamente; algumas são refutadas com sucesso (como no caso Salvador Luiz), enquanto outras são controversamente arquivadas (como Rian/Antony ou Indaiatuba), frequentemente devido à “fragilidade das provas”. Simultaneamente, Moacir Cova mantém consistentemente uma contra-narrativa de “perseguição política”. Apesar da persistência e gravidade dessas alegações, ele não apenas permanece ativo na aplicação da lei (até seu afastamento preventivo), mas também alcança um sucesso político significativo. Isso sugere uma notável resiliência em sua imagem pública ou um sistema político que, por diversas razões, permite que tais figuras prosperem. Esse padrão, onde alegações sérias contra uma figura da lei não necessariamente levam a consequências legais definitivas ou a uma condenação pública generalizada, mas se tornam parte de uma complexa interação de batalhas legais, contra-narrativas estratégicas e manobras políticas, tem profundas implicações para o Estado de Direito, a integridade da aplicação da lei e a governança democrática da comunidade.

Conclusão: O Legado Duradouro da Carreira Controversa de Moacir Cova

A trajetória do Investigador Moacir Cova em Itu é um estudo de caso complexo sobre as intersecções entre aplicação da lei, crime organizado e política. No caso do homicídio de Salvador Luiz, sua defesa bem-sucedida contra as acusações de tortura, sustentada por evidências concretas como a gravação do interrogatório, levou à condenação de Hildo e Evandro. Este evento, embora uma vitória legal para Cova, é apenas um capítulo em uma carreira marcada por um padrão mais amplo e persistente de alegações graves.

As acusações contra o “Bonde do Moacir”, que incluem supostas execuções extrajudiciais, coerção e outras formas de má conduta, submetem sua carreira a um escrutínio contínuo. Os resultados variados dessas investigações, com alguns casos arquivados por “fragilidade das provas” e outros ainda em andamento, destacam os desafios inerentes à responsabilização policial e a percepção de uma potencial cultura de impunidade.

O mais notável, talvez, seja sua ascensão política em Itu, onde foi eleito o vereador mais votado, apesar do pano de fundo dessas sérias controvérsias. Isso sugere uma complexa interação entre a percepção pública – que pode priorizar a segurança e a imagem de “linha dura” no combate ao crime – as prioridades políticas e os desafios intrínsecos à responsabilização de figuras poderosas. A capacidade de Moacir Cova de navegar e, em muitos aspectos, prosperar em meio a essas tempestades legais e públicas, encapsula as tensões duradouras dentro do nexo entre a aplicação da lei, facções criminosas poderosas como o PCC, a busca por justiça e a manutenção da confiança pública em uma comunidade como Itu. Sua carreira permanece um testemunho da complexidade e dos desafios enfrentados por sistemas legais e sociais em regiões onde o crime organizado exerce influência significativa.

Introdução: A Figura Enigmática do Investigador Moacir Cova

O Investigador Moacir Cova emerge como uma figura proeminente e, ao mesmo tempo, profundamente controversa no cenário da aplicação da lei em Itu. Seu nome tem se associado tanto à perseguição implacável de criminosos quanto a sérias alegações de má conduta. A narrativa inicial que o envolveu no caso do homicídio de Salvador Luiz em Itu, onde ele enfrentou acusações diretas de tortura para a obtenção de confissões, ilustra essa dualidade. No entanto, sua capacidade de refutar essas alegações específicas por meio de evidências concretas, conforme descrito na consulta inicial, o posicionou como um profissional resiliente diante do escrutínio judicial.

A mera existência de acusações de tamanha gravidade, mesmo que refutadas em um caso particular, já o coloca sob um manto de controvérsia pública. Essa tensão inicial entre uma aparente vindicação em uma instância e a seriedade das alegações subjacentes estabelece o tom para uma exploração mais profunda de sua trajetória. A consulta inicial também aponta para o envolvimento de longa data de Moacir Cova com casos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), sugerindo uma relação complexa e contínua com as atividades do crime organizado, que se estende para além do caso específico de Salvador Luiz. Essa conexão de longa data com uma das maiores facções criminosas do país indica um profundo conhecimento ou um engajamento persistente com as operações do PCC, o que o torna uma figura central no combate ao crime organizado em Itu, mas também o expõe a um ambiente de alto risco onde as linhas entre a lei e o crime podem se tornar tênues.

O Caso do Homicídio de Salvador Luiz: Uma Análise Aprofundada

O Crime e Seu Suposto Motivo: “Ato de Talarico” e o “Tribunal do Crime” do PCC

O homicídio de Salvador Luiz, ocorrido no Jardim Aeroporto, em Itu, foi um evento que gerou tensão no Tribunal do Júri, onde Hildo e Evandro foram julgados pelas acusações. A motivação do crime, conforme apurado, não se tratava de um ato aleatório de violência, mas sim de uma execução sancionada, resultado de uma “decisão do Tribunal do Crime da Facção PCC 1533”. Essa decisão foi imposta em resposta a um “Ato de Talarico”, um termo que possui um significado específico dentro do regime disciplinar da facção.

O “Ato de Talarico” é definido no “Dicionário do PCC – Regime Disciplinar de 45 itens”, como a situação em que “o envolvido tenta induzir a companheira de outro e não é correspondido, usa de meios como, mensagens, ligações, ou gestos”. A punição para tal infração é severa e explícita: “exclusão sem retorno, fica a cobrança a critério do prejudicado e é analisado pela Sintonia”. Essa regra, juntamente com outras 44, demonstra a capacidade do PCC de estabelecer e impor suas próprias leis e punições, funcionando como um sistema de justiça paralelo que opera fora e, muitas vezes, em oposição direta ao sistema legal do Estado. A existência de um “Tribunal do Crime” e de uma cartilha disciplinar detalhada sublinha a sofisticação organizacional do PCC e a profundidade de sua influência, capaz de ditar até mesmo os motivos para homicídios que, posteriormente, se tornam objeto de investigação estatal. Isso representa um desafio significativo à soberania do Estado e à ordem pública.

A seguir, a tabela apresenta trechos relevantes do “Dicionário do PCC” para contextualizar o caso:

Número da RegraNome da RegraDefiniçãoPunição
1Ato de Talarico“Quando o envolvido tenta induzir a companheira de outro e não é correspondido, usa de meios como, mensagens, ligações, ou gestos.”“Exclusão sem retorno, fica a cobrança a critério do prejudicado e é analisado pela Sintonia.”
27Homossexualismo“Quando mantém relação ou atos obscenos com pessoas do mesmo sexo.”“Exclusão sem retorno.”
40Traição“Quando um membro do PCC informa outra facção ou a polícia.”“Exclusão e morte.”

A Investigação e o Papel Central de Moacir Cova

No centro da investigação do homicídio de Salvador Luiz estava o Investigador Moacir Cova, descrito como uma figura que perseguia criminosos com uma “determinação implacável de um demônio”. A reputação de Moacir Cova era tal que os próprios acusados, Hildo e Evandro, “temiam a força policial, mas era a presença assustadora de Moacir Cova que os mantinha acordados à noite”, o que evidencia o impacto de sua presença e sua fama de intimidador no meio criminal. O envolvimento de Moacir Cova com o caso, e sua longa história de acompanhamento de situações envolvendo o PCC, sugerem uma profunda familiaridade e engajamento contínuo com as operações da facção, consolidando sua posição como um ator-chave no combate ao crime organizado em Itu.

Acusações de Tortura: Alegações, Defesa e Desfecho Judicial

Relato Detalhado das Alegações de Tortura por Testemunhas

Durante o processo judicial do caso Salvador Luiz, o Investigador Moacir Cova foi confrontado com graves acusações de tortura. Um “garoto de treze ou catorze anos” e Pâmela, vizinha da vítima, alegaram que Moacir Cova os havia torturado para obter confissões. A estratégia de defesa de Hildo e Evandro, que estavam “assombrados pelo medo de apanhar”, dependia crucialmente de convencer o júri de que Moacir Cova havia forçado depoimentos incriminatórios por meio de tortura. Para reforçar essas alegações, os pais de Hildo e Evandro, que possuíam “históricos criminosos ligados ao Primeiro Comando da Capital”, tentaram conferir credibilidade aos testemunhos de seus filhos durante o Tribunal do Júri.

A Contraprova de Moacir Cova: A Gravação do Interrogatório

Em resposta às acusações, Moacir Cova, descrito como “astuto como um corvo”, apresentou estrategicamente um CD contendo a gravação do interrogatório. Essa gravação desempenhou um papel crucial, pois “desmentiu as acusações” de tortura, contradizendo diretamente as alegações das testemunhas. A apresentação dessa prova objetiva foi um ponto de virada no processo.

A Decisão do Tribunal e a Condenação de Hildo e Evandro

A tentativa de “derrubar o homem que penetrara em cada canto sombrio de Itu” falhou de forma contundente, demonstrando a resiliência de Moacir Cova diante do processo. O promotor de justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze desempenhou um papel fundamental ao “desmascarar a trama familiar”, expondo as práticas ilegais passadas dos pais dos acusados e, assim, minando sua credibilidade perante o júri. Moacir Cova, por sua vez, apresentou “provas irrefutáveis de sua própria inocência”, o que, em última instância, levou à condenação de Hildo e Evandro, apesar dos esforços de seu advogado, Dr. José Maria de Oliveira. Moacir Cova negou veementemente qualquer ilegalidade, afirmando que o garoto, Pâmela e outras testemunhas teriam sido “procurados por um advogado de defesa para mudarem seus depoimentos e acusá-lo, na tentativa de desacreditar o processo”.

Nesse caso específico, a gravação do interrogatório serviu como uma evidência decisiva que refutou diretamente as alegações de tortura. Isso ilustra o poder crítico da prova objetiva e verificável em procedimentos legais, especialmente quando ela contradiz alegações subjetivas ou testemunhos potencialmente manipulados. O sucesso do promotor em desmascarar a “trama familiar” também ressalta a importância de um escrutínio rigoroso da credibilidade das testemunhas, particularmente quando há possíveis motivos ocultos, como laços familiares com organizações criminosas ou tentativas de descreditar um processo legal. Enquanto o testemunho é vital, seu peso pode ser significativamente diminuído por evidências forenses contraditórias ou por questionamentos sobre a credibilidade e as motivações da testemunha.

A seguir, a Tabela 1 detalha os indivíduos chave e seus papéis no caso Salvador Luiz:

NomePapelDescrição
Salvador LuizVítimaAssassinato em decorrência de “Ato de Talarico”.
HildoAcusado, CondenadoAcusado de homicídio, temia Moacir Cova, alegou tortura, condenado.
EvandroAcusado, CondenadoAcusado de homicídio, alegou tortura, condenado.
Moacir CovaInvestigadorInvestigador principal, acusado de tortura, refutou alegações com gravação.
“Garoto de treze ou catorze anos”Acusador/TestemunhaAcusou Moacir Cova de tortura para obter confissão.
PâmelaAcusadora/TestemunhaVizinha da vítima, acusou Moacir Cova de tortura para obter confissão.
Dr. Luiz Carlos OrmelezePromotor de JustiçaDesmascarou a trama familiar, apresentou provas contra os acusado.
Dr. José Maria de OliveiraAdvogado de DefesaLutou pela defesa de Hildo e Evandro.

Cria do 15 assume assassinato que não cometeu — facção PCC

Nada é tão simples como pode parecer no caso do “Cria do 15 assume assassinato”, mas também não é tão complexo como vou demonstrar.

Ratinho, Cria do 15 assume assassinato de assessor de deputado e líder comunitário

Trago hoje um crime onde um Cria do 15 assume assassinato de um assessor de deputado federal da bancada evangélica.

Francesco Guerra pediu que eu resgatasse essa antiga história que aqui contei em 16 de março de 2017.

Primeiro eu conto o caso como hoje contaria, e na segunda parte coloco o texto original de 2017 com detalhes que hoje eu omito.

O Caso “Cria do 15 assume assassinato”: Estupro, Morte, Política e a Culpa Forjada

Meu caro “Frans do +39”,

Estou relendo um caso bastante complexo e intrincado que pode te interessar que envolve uma série de personagens desonestos e desesperados em busca de vantagens.

Tudo começa com um indivíduo conhecido como Rodrigo, que era líder comunitário, presidente da Associação dos Moradores da Cidade Nova, e ex-assessor do Deputado Missionário José Olímpio.

Mas além de ser essa figura pública admirada também era armeiro da poderosa organização criminal Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533).

Rodrigo teria cometido um crime terrível ao estuprar “Gabi”, uma garota de 13 anos, durante uma festa regada à álcool e drogas em sua mansão.

Por esse crime ele seria condenado à morte pelo próprio PCC que não tolera esse tipo de atitude.

6 Item:

O comando não admite entre seus integrantes, estupradores, pedófilos, caguetas, aqueles que extorquem, invejam, e caluniam, e os que não respeitam a ética do crime.

Estatuto do Primeiro Comando da Capital — PCC 1533

No entanto, ninguém é condenado no Tribunal do Crime sem ter tido o direito a se defender.

13. Decreto:

Para confirmar um decreto a Sintonia tem que analisar com cautela, por se tratar de uma situação de vida.

Tem situações que é claro o decreto, como traição, abandono as demais situações como mão na cumbuca, caguetagem e estupros, a Sintonia analisa num contexto geral.

Quando um decretado chegar em uma quebrada nossa tem que ser cobrado de bate pronto.

Dicionário do PCC 1533 — Regimento Disciplinar 45 ítens

Pressionada a polícia alguém assume o assassinato

A situação se complica ainda mais quando o Inspetor Moacir Cova é pressionado pela imprensa e por políticos a encontrar um culpado pelo crime.

O Inspetor avisa ao Mundo do Crime que a organização criminosa irá sofrer as consequências se o caso não for esclarecido.

Nesse contexto, a polícia consegue prender um indivíduo chamado “Ratinho RT”, que assume o crime perante o Investigador e o Delegado de Polícia.

Mas qual teria sido a culpa de Ratinho RT?

No entanto, durante o julgamento, o advogado de defesa de Ratinho RT argumentou que ele não foi o responsável pelo crime.

Ele teria sido forçado a assumir a culpa pelo PCC a troco de moral na facção, vantagens para a família e perdão de dívidas.

Ninguém é obrigado a nada pela lei da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, por isso ele teria que aceitar a tarefa.

Agora, o caso se torna ainda mais complicado, já que é necessário determinar a verdadeira identidade do criminoso e o grau de culpa de Ratinho.

Detalhes que podem não ser só detalhes

Eles passaram pelas câmeras de monitoramento às 20:16 e voltaram depois de chegar ao local do julgamento, ouvir o acusado, e executá-lo em menos de dez minutos.

Ata do Tribunal do Júri de Itu

“Eles passaram” — Ratinho não sabe dirigir e a câmera de monitoramento do “portal da cidade” prova que ele estava no banco do passageiro.

Quem pode garantir que o homen que dirigia o carro não foi quem puxou o gatilho?

Ratinho afirma que: foi ele que decidiu executar, que atirou, e que não sabe quem dirigia o carro.

Segundo as regras do Primeiro Comando da Capital, para um sujeito ser executado deve passar pelo Tribunal do Crime com direito a defesa e contraditório.

O assessor acreditou que seria inocentado

Rodrigo seguiu com Ratinho e com o outro indivíduo por vontade própria. Ele tinha certeza que era inocente e acreditava que podia provar.

O assessor de deputado e armeiro do PCC nunca negou que conhecia e tinha relacionamento com a menina e todos ali tinham relações sexuais com ela.

Gabi teria acusado Rodrigo porque ele se recusou a se relacionar com ela, uma amiga da garota que estava naquela noite com ela confirma isso.

O Promotor de Justiça não negou que Ratinho RT foi obrigado pela organização criminosa a assumir o crime, mas afirma que ele cometeu realmente o crime, e teve que se entregar porque não deu o direito de defesa à Rodrigo durante o Tribunal do Crime.

Em um mundo de certezas só restam dúvidas

Meu caro “Franz do +39”

Como um articulista que preza pela lógica e pelo raciocínio dedutivo, estou ansioso para ver você mergulhar mais fundo nesse caso e descobrir a verdade por trás desses eventos.

No entanto, eu temo que haja muitas camadas de engano e subterfúgio que devem ser desvendadas antes que possamos descobrir a verdadeira identidade do culpado.

Resta agora a nós, meu amigo, reunir todas as informações que temos sobre esse caso e analisá-las com cuidado, para que possamos finalmente trazer a justiça que a vítima merece.

E como pode ver, meu caro Franz, um líder comunitário e assessor de um deputado federal da Bancada Evangélica, defensor da tradicional família brasileira e dos cidadãos de bem, dava uma festa em uma mansão regada a bebidas e drogas e nenhum político foi mencionado durante o julgamento.

Atenciosamente,

Wagner do Site

História como publiquei em 16 de março de 2017

Júri condena preso por não cumprir regra do PCC

Se Ratinho RT (Bruno Augusto Ramos) cumpriu a regra do Primeiro Comando da Capital de “sumariar” o acusado Rodrigo antes de executá-lo, eu não sei.

Mas esse foi o foco do debate entre o advogado de defesa e a Promotoria de Justiça, no caso do assassinato de Rodrigo Teixeira Lima.

Rodrigo é líder comunitário, presidente da Associação dos Moradores da Cidade Nova, e ex-assessor do Deputado Missionário José Olímpio.

Cria do 15 assume assassintato: abandonando as ilusões

Graham Denyer Willis em seu livro “The Killing Consensus: Police, Organized Crime, and the Regulation of Life and Death in Urban Brazil” nos convida a abandonar nossas ilusões.

Segundo ele, devemos enfrentar o fato que policiais e facções criminosas mantêm uma normalidade dentro de nossa sociedade.

Existem mecanismos de justiças que não apenas são conhecidos, mas reconhecidos e parcialmente aceitos pela sociedade.

O Cria do 15 assume assinato e foi condenado a 18 anos de prisão, mas restou a dúvida: ele realmente executou a vítima?

Mas o que mais se discutiu no Tribunal do Júri foi se cumpriu as regras da facção Primeiro Comando da Capital ao cumprir a execução.

Os fatos como foram apresentados no Tribunal do Júri:

Gabi, uma garota de 13 ou 14 anos, “ficou” com o Rodrigo em uma das muitas festas que ele promovia e onde álcool e drogas circulavam em abundância, mas ele não estava afim dela e a “chutou para fora”.

Ela também se relacionava com um irmão da facção chamado Zóio da Cidade Nova em Itu, e como não aceitou ter sido desprezada por Rodrigo contaminou Zóio dizendo que tinha sido estuprada.

Zóio teria cuidado ele mesmo, mas foi morto em troca de tiros com a polícia…

… mas o veneno já estava no ar, na boca do povo, e nas redes sociais, daí alguém pediu providência ao Comando para aplicar a Lei do Crime que pune com a morte estupradores.

No entanto, o acusado deve ser “sumariado”, isto é ouvido e julgado pelo Tribunal do Crime, não pode ser uma decisão individual de um integrante.

Foi decidido que Ratinho RT ia “sumariar” Rodrigo e se o Tribunal do Crime decidisse ele seria executado.

Gabi comemora o assassinato de Rodrigo

Quando Rodrigo morreu Gabi comemorou nas redes sociais, mas depois caiu a ficha e viu a besteira que tinha feito.

Ela sabia a caca que fez , é mil vezes certeza que ela não foi estuprada.

palavras do Investigador de Polícia Moacir Cova

Não tinha cabimento o que ela dizia: com ela tinha uma amiga que não quis ficar com o Rodrigo e foi embora e ele não impediu.

Gabi ficou porque quis na casa dele, e lá ele teve todas as chances possíveis de fazer com ela o que quisesse e nada fez.

Ela disse que ele tentou a estuprar no carro quando estava a levando embora, o que não tem lógica.

Outra coisa que chamou a atenção é que o Rodrigo em nenhum momento negou que tivesse ficado com ela e sequer negou o relacionamento.

Rodrigo estranhou que falassem em estupro e confiou que indo dar a sua versão para o Tribunal do Primeiro Comando da Capital tudo ficaria esclarecido.

Não houve julgamento, houve execução

Pelo que os policiais apuraram no caso, Rodrigo não teve tempo de se defender.

Eles passaram pelas câmeras de monitoramento às 20:16 e voltaram depois de chegar ao local do julgamento, ouvir o acusado, e executá-lo em menos de dez minutos.

O companheiro que estava dirigindo declarou que depois que Ratinho e Rodrigo desceram do carro foi o tempo dele manobrar o carro e o cara já estava morto.

Ratinho é um molecão novo querendo subir rápido no Partido. Essa morte tinha que acontecer para ele ser respeitado e parecer poderoso no bairro e no crime.

contou o Investigador Moacir Cova

Quando o Cria do 15 assume assassinato ele ganha respeiro na facção, mas leva de lambuja uma pena de 18 anos pelo assassinato e mais 8 por tráfico de drogas.

Dr. Nicolau Iusif Santarém depõe no Júri.

Depoimento do delegado Dr. Nicolau aos jurados durante o Tribunal do Júri no qual o Élio Aparecido de Oliveira, o político e empresário do futebol conhecido como Oliveira Júnior, foi condenado a 20 anos de prisão em regime fechado.

Foi mais ou menos assim…

No dia 26 de Janeiro de 2006 uma hora depois do crime ele chegou ao Hospital onde se encontravam as vítimas: o advogado Dr. Humberto da Silva Monteiro que havia falecido, e o jornalista Josué Soares Dantas Filho que não foi atingido.

Os tiros foram disparados pelo garupa de uma moto que estava a uns três metros e nem parou, portanto não foi um latrocínio. Foram quatro tiros: um na traseira do veículo, e os outros do lado direito, sendo que um na porta traseira em baixo, outro na porta dianteira na altura da maçaneta, e um quarto que teria passado direto.

Pela posição dos tiros, o delegado concluiu que foram disparados assustar as vítimas, e apenas por um azar um projétil acertou a cabeça do advogado depois de se desviar na lataria do veículo.

Nos dias seguintes apareceram muitas pistas, o que era esperado em um caso de repercussão como esse, mas parecia que estavam sendo passadas para confundir a polícia.

Separado o joio do trigo, chegou-se ao nome do Zeca, como era conhecido José Roberto Trabachini, que naquela época era o presidente da Torcida Jovem do Ituano. Bom, não foi fácil encontra-lo, pois já tinha sido preso por tráfico e por estelionato, e era um informante da polícia. Quando o delegado e os policiais chegaram a ele perguntando se ele estava envolvido nesse caso ele nem titubeou:

“Não. O Brito me pediu para arranjar uns garotos para fazer dar um susto no Dantas, eu arranjei, mas eles desistiram, pode perguntar para eles: o Careca (menor) e o Luizinho (menor).”

Depois o Zeca mudou sua versão acusando a própria vítima, o Dantas, de ter encomendado o atentado: o jornalista levaria como passageiro de seu carro o Dr. Humberto que era seu amigo até o local da emboscada, e ele contrataria alguns moleques para o serviço.

Zeca voltou para sua versão inicial depois de ficar preso um tempo e ver que seus advogados defendiam o mandante e não a ele. Quando já estava quase acabando o prazo para vencer sua prisão temporária ele não estava mais aguentando aquilo, e foi nesse momento que o Dr. Nicolau o procurou em Pilar do Sul onde estava preso, e ele acusou Oliveira Júnior como mandante.

Ele contou que a história envolvendo Dantas como mandante passada por orientação: do segurança do Ituano Clube que era seu cunhado Nicéias de Oliveira Brito; do testa de ferro do empresário, o Cleber Antonio Maldaner; e dos advogados arranjados pelo Oliveira Júnior.

Brito era fiel a seu chefe o Oliveira Júnior. Podia até preso, mas não ia falar.

Mas para a polícia o quadro já estava claro, além dos depoimentos, os advogados ligados a Oliveira Júnior sempre apareciam para acompanhar os envolvidos no caso, e isso era muito estranho. Agora faltava conseguir provar o envolvimento do empresário, e isso só poderia ser conseguido com um depoimento de Brito acusando o próprio chefe.

A prisão de Brito foi decretada pela Justiça. O tempo na prisão foi fazendo efeito. Devagar, devagarinho, o ele foi vendo seus comparsas abrirem o bico para conquistarem a delação premiada, e ao mesmo tempo seu chefe estava evitando contato com ele.

Brito era fiel ao Oliveira Júnior. Cansou de ficar preso e resolveu falar.

Brito contou que foi por Oliveira “dar um susto” no Dr. Humberto e Dantas, mas depois que os dois publicavam em um jornal a foto dele e da esposa acusando-os de ações ilegais, Oliveira mudou de ideia: agora queriam a ambos mortos.

Brito não tinha nada contra os dois, e argumentou com o chefe, afinal todo mundo desconfiaria do Oliveira, mas o empresário insistiu e mandou chamar para o serviço alguém que não tivesse ligação nem com ele.

Brito então foi atrás do Zeca, que arranjou os dois garotos que desistiram quando a ordem de “dar um susto” virou “para matar”.

Tonhão do Ituano Clube (Luiz Antônio Roque) ficou sabendo que os moleques pularam para trás e disse para o Zeca que: “Se quiser eu mando fazer o serviço, é dois palitos.” Tonhão e sua família são barra pesada, ninguém desconhecia disso. E de fato ele resolveu o serviço em “dois palitos”.

Bom, depois disso o delegado Dr. Nicolau Santarém disse que não acompanhou mais as investigações que ficaram por conta da delegacia de Sorocaba. Foi assim, segundo o delegado que as coisas aconteceram.

Duas causas da condenação de Oliveira Júnior.

Dr. Nicolau Iusif Santarém, delegado que conduziu na fase inicial o inquérito que investigou a morte do advogado Dr. Humberto da Silva Monteiro, recebeu rasgados elogios tanto por parte da defesa quanto por parte da acusação durante a sessão do Tribunal do Júri na qual o empresário e político Oliveira Júnior foi condenado a vinte anos de reclusão. Acusar as autoridades policiais de conseguir confissões sob tortura e pressão parece ser uma dos pilares canônicos dos advogados de defesa, mas Dr. Nicolau teve o cuidado de gravar em vídeo todas as inquirições e só ouvir os suspeitos na presença de seus advogados, com isso derrubando várias tentativas feitas de anulação do processo.

Mesmo com todos os cuidados tomados pela polícia, os diversos advogados que atuaram no caso insistiam que houve abuso, mas… dessa vez não deu.

Por incrível que isso possa parecer, foram justamente os advogados contratados por Élio Aparecido de Oliveira que o colocaram de forma inequívoca na cena do crime, e não as força policiais. Os jurados da comarca aceitaram a argumentação do Ministério Público que o batalhão de advogados que compareciam para acompanhar os suspeitos do crime só podia estar a paga do político.

“Quem é que pagava tantos advogados? Aquele preso que não tinha nem dinheiro para comprar leite para seus próprios filhos? Eu, o Promotor Público? Vocês, os jurados? O Ituano Clube? Quem?” ̶̶ bradava Dr. Ormeleze para os jurados.

Vários profissionais foram citados: Dr. Ricardo Luis de Campos Mendes, Dr. Marcos Alexandre Bochini, Dr. Newton Cesar, Dr. Haroldo Santarelli, Dr. Edward Simeira, e Dr. Artur Eugenio Mathias.

A vítima que sobreviveu, o jornalista Josué Soares Dantas Filho, chegou a afirmar que “Dr. Ricardo Mendes tinha uma paixão doentia pelo Oliveira Júnior, qualquer coisa que envolvesse o nome do homem ele estava lá para intervir”, e em outro momento do Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze, lembrou que era tal a dedicação dos advogados ao político que o Dr. Ricardo Mendes e o Dr. Marcos Bochini acabaram condenados em uma ação penal por práticas ilegais durante o processo.

Uma reunião feita pouco tempo após o crime no Jardineira Grill na Avenida dos Bandeirantes onde compareceram Cleber Antonio Maldaner, testa de ferro de Oliveira, advogados ligados ao político, e o intermediário confesso do crime Nicéias de Oliveira Brito, jogaram uma pá de cal em qualquer dúvida sobre uma ligação entre mandante e executores.

A revolta do Promotor de Justiça e o nosso futuro incerto.

Indignação não seria a palavra apropriada, talvez um misto de fúria e irritação descrevesse melhor o sentimento externado durante a audiência do Tribunal do Júri de Itu em 22 de Maio de 2014 pelo Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze. Indignação não é também a palavra apropriada para definir o que eu sinto quando penso no que aconteceu, estando mais para um misto de medo e revolta.

Sejam lá quais forem nossos sentimentos o que não podemos é ficarmos indiferentes ao que aconteceu e ao que pode vir acontecer se tivermos como regra seguir por essa trilha. A vida e a segurança de cada um de nós dependerão do desenrolar desse caso.

O réu que supostamente ligado ao PCC e mentor e executor da onda de assaltos às chácaras que ocorriam em nossa cidade até 2004, além de já ter sido condenado em um duplo homicídio e suspeito de praticar um terceiro de um colega da facção criminosa Primeiro Comando da Capital, quase volta ao convívio de nossa sociedade.

Esse sujeito foi condenado pelo Tribunal do Júri de nossa cidade por ter assassinado por motivo fútil e através de traição um companheiro que trabalhava com ele em um posto de gasolina e que possivelmente teria uma promoção passando a ser seu chefe: armada a emboscada lhe desferiu dez facadas sendo a primeira pelas costas.

Digam-me os senhores, se eu não tenho motivos para me preocupar quando através de um processo revisional um sujeito como esses poderia ter sido colocado em liberdade? O Promotor de Justiça se indignou (Ah! É pouco) com a pronúncia por ter sido feita em um acórdão de uma página e meia de pífia argumentação.

Não creiam que eu e o Promotor de Justiça vemos o caso e medimos as consequências da mesma forma.

A fúria e a irritação do Promotor de Justiça se deram por ter sido um caso sólido que nada justificaria a afronta e a anulação da soberana decisão do Tribunal do Júri — segundo ele “uma verdadeira aberração”.

O medo e revolta que eu sinto é pelo que pode vir por aí. Hoje quase tudo é permitido: menor traficando e matando, contrabando, pirataria, sonegação… Só não vê quem não quer que nosso sistema penal e prisional faliu, consequência de nossa escolha do sistema político e educacional. Mas agora provavelmente homicídio — pasmem, até assassinato — passará a impunidade.

Claro que a lei não foi mudada e não se apregoará aos sete ventos que poderemos matar, mas na prática é o que ocorrerá se os argumentos utilizados pelo Desembargador Ivan Marques forem adotados como norma.

Gostaria de viver em uma sociedade ideal onde a decisão desse desembargador poderia ser considerada como correta, mas não vivemos em uma sociedade nem ideal e nem justa. Não temos no Brasil um CSI com todos seus equipamentos e pessoal — se bem que provavelmente a segurança pública americana custe menos que a nossa — aqui os raros casos de homicídio que são concluídos pela Polícia Civil e chegam à Justiça não são frutos de uma intensa investigação científica e recheadas de testemunhas e provas materiais. Dentro dessa nova regra deixa de ser proibido o assassinato, passa apenas a ser proibido ser muito burro e assassinar na frente de testemunhas e não se livrar da arma do crime.

O povo de Itu, através de seu Tribunal do Júri deu a primeira resposta representando a nós como sociedade quando condenou novamente o cidadão a mesma pena que tinha sido condenado no primeiro julgamento: 16 anos de prisão.

Agora cabe a sociedade se posicionar para que nossa polícia que se diz investigativa, a Polícia Civil tenha meios e pessoal para poder investigar de fato, pois se a posição do Desembargador Ivan Marques se tornar corriqueira, nós estaremos definitivamente abandonados a nossa própria sorte.

Quase foi morto ao procurar uma mulher no forró.

Poucos são os seres que tem o poder de ver as cores, muitos vislumbram formas e tons, mas cores é um privilégio de poucos. Os cães veem um mundo cinza, nem por isso são mais tristes que os homens com seus bilhões de cores.

O Plenário do Tribunal do Júri da Comarca de Itu, dois homens debatiam: um deles defendia que o mundo era preto e branco e o outro que havia tons de cinza…

O Promotor de Justiça, Dr. Luiz Carlos Ormeleze, acusava André Aparecido da Silveira de no domingo, 10 de agosto de 2008, por volta da cinco horas da madrugada, ter tentado matar de maneira covarde Edvaldo Jesus de Almeida.

Contou que André, dono da Comercial AgroAndré no Bairro Potiguara, casado há 12 anos, ao invés de estar em sua casa com sua esposa, foi procurar outras mulheres no forró Caipirão de Itu, na Cidade Nova, mas estando bêbado o que encontrou foi confusão. Alguns menores haviam se incomodado com ele e quebrado seu carro, e daí ele os ameaçou com um facão que trazia no veículo.

Edvaldo chegou para fazer o meio campo, o “deixa para lá”, o “não vale a pena”, e dispersou a confusão. André inconformado com os danos no veículo foi até sua casa pegou uma arma e já desceu do carro atirando para matar: foram cinco tiros e pelo menos um acertou o peito de Edvaldo, perto do coração, mas Edvaldo sobreviveu.

André aterrorizou sim, lesionou sim, tentou matar sim. Por isso os jurados deveriam julgar o fato como ele realmente ocorreu, tentativa de homicídio qualificado, fazendo assim Justiça. O mundo é assim: preto ou branco, dizia Dr. Ormeleze.

A coisa não é bem assim, nos ensina o Dr. Wilson José dos Santos Múscari, nem ele nem o Promotor de Justiça estavam lá quando tudo aconteceu, e mesmo que estivessem, cada pessoa tem um entendimento diferente sobre um mesmo fato.

André alegou que agiu em legítima defesa, afinal eram sete rapazes contra ele, mas como deixou o local e retornou mais tarde para cometer o crime, isso desqualificaria essa linha de defesa, visto que para se configurar a legítima defesa ela deve ocorrer “…logo em seguida a injusta provocação da vítima”. Dr. Múscari afirma no entanto que o réu pode, mesmo assim, pedir o benefício, é um direito dele. No entanto em nenhum momento André teve a intenção de matar, como lhe acusa injustamente o Promotor de Justiça, prova disso é que disparou cinco tiros, mas apenas um em direção ao peito de Edvaldo, e antes poderia ter matado a todos com o facão.

André aterrorizou sim, lesionou sim, mas não tentou matar, e por isso os jurados deveriam julgar o fato como ele realmente ocorreu, lesão corporal, fazendo assim Justiça. O mundo é assim: diversos tons de cinza, dizia Dr. Múscari.

Mesmo que os jurados achassem que ele quisesse mesmo matar, deveriam atenuar a pena. André uma pessoa normalmente calma estava alterado naquele momento, quem é que não ficaria nervoso ao ver o carro sendo destruído por um bando de moleques.

André aterrorizou sim, lesionou sim, e tentou matar sim. Por isso os jurados deveriam julgar o fato como ele realmente ocorreu, tentativa de homicídio executado sob o domínio de violenta emoção, fazendo assim Justiça. O mundo é assim: diversos tons de cinza, dizia Dr. Múscari.

Além disso é um ultraje por parte do Promotor tentar agravar a pena alegando que ele foi covarde e pegou a traição Edvaldo: ambos haviam brigado, e ele disse que iria voltar, se o outro rapaz ficou esperando foi justamente para continuar a briga, portanto Edvaldo não foi pego à traição.

André aterrorizou sim, lesionou sim, tentou matar sim, e por isso os jurados deveriam julgar o fato como ele realmente ocorreu, tentativa de homicídio sem agravante, fazendo assim Justiça. O mundo é assim: diversos tons de cinza, dizia Dr. Múscari.

No grená mundo do Dr. Múscari, muitas possibilidades existem. No mundo preto e branco do Dr. Ormeleze apenas duas.

Os jurados decidiram que André tentou sim, matar Edvaldo mediante ato covarde, e condenaram-no a seis anos de reclusão em regime fechado.

O vermelho do sangue nos olhos apagou os outros bilhões de cores, agora tudo é preto e branco, ou talvez cinza. Os cães veem um mundo cinza, mesmo quando seus olhos estão vermelhos de sangue.

Traficante morto no Jardim Rancho Grande.

Ninguém há de me convencer que Bornai não sonhou noites a fio com aquele momento. Sentia-se pesado ao entrar no Tribunal do Júri da Comarca de Itu, no interior paulista.

Bornai foi retirado da cela do Fórum, onde aguardou sozinho ser chamado frente aos cidadãos que decidiriam se ele havia matado Ozenildo Bezerra Freire e tentado matar Juarez Brito Souza, o Alemão.

Cabeça baixa seguiu um Policial Militar pelo curto corredor estreito e escuro que separa a cela do salão do júri, este um lugar démodé, austero, e com seus cadeirões inquisitoriais.

Ele passou por ali inúmeras vezes nos últimos anos, pois o local é passagem entre a cela e as salas de audiências do Fórum. Sua mente fantasiou os diálogos milhares de vezes, ora ganhava a liberdade, ora não.

Fé em Deus! Não resistiu e deu uma breve olhada em direção aos seus amigos e familiares que foram para assistir o julgamento, mas não olhou para os jurados e para mais ninguém.

Dr. Hélio Villaça Furukawa, juiz presidente do Tribunal do Júri, faz breve narrativa sobre à razão pela qual Luciano Manoel da Silva, o rapaz conhecido como Bornai, está ali para ser julgado.

Madrugada de sábado, 12 de maio de 2007. 3h20
Próximo ao Quiosque do Japa, Praça Segundo Ferreti, Itu, SP.

Bornai conversa com Alemão, os ânimos se acirram. Alemão quer receber o dinheiro da droga que teria vendido e Bornai tenta mais um prazo. “Vou pagar, vou pagar, sê rá ligado que eu pago!” – não suplica pelo prazo, diz de maneira definitiva.

Alemão não baixa a bola, não pode, pois os fracos não sobrevivem no mundo do tráfico. Encara de frente Bornai e manda que pague. Talvez tenha dado uma última chance de acertar suas contas, talvez não.

O fato é que Bornai em algum momento passou a Leandro Henrique Rodrigues, o Neguinho, a arma que matou Ozenildo. Ele estava lá, e fez ver ao traficante que os fortes também morrem.

Juarez deve sua vida a falta de precisão nos tiros dado por Neguinho, e no decorrer do processo negou ter reconhecido Bornai como sendo participante no crime. Se por medo ou por preito a verdade só ele sabe.

In dúbio pro societate” o rapaz ficou preso quase três anos até aquele momento em que entrou no salão do júri, ouviu o juiz presidente e foi ouvido por ele. Poucas perguntas. Queria falar tudo que tinha pensado, mas pouco falou.

O promotor de justiça da comarca de Itu, Dr. Luiz Carlos Ormeleze, pede aos jurados que absolvam o réu por falta de provas. A família e o rapaz exultam em silêncio. A sentença é dada e Bornai volta a liberdade.

Em doze de maio de 2007, dia das mães, Bornai escolheu ficar no convívio de seus amigos, três anos ficou preso por ter tomado esta decisão, agora livre terá chance de escolher novamente.

Já Neguinho, só veio a ser julgado em 26 de agosto de 2010, sendo também considerado inocente pelo Tribunal do Júri de Itu, pelo mesmo motivo que Bornai, falta de provas.

Assassinato no Jardim Santa Laura em Itu.

Normalmente quando policiais prendem alguém, principalmente quando é o caso de um homem que acabou de matar a mulher com facada no peito, o clima é de comemoração e os comentários ficam por conta da façanha e da reação do criminoso, mas naquela madrugada de terça-feira dia 10 de abril de 2012 não era isso que estava acontecendo no plantão da DELPOL.

Até mesmos os policiais falavam com cautela a respeito do crime e sempre o comentário começava da mesma forma: “Ele era trabalhador, evangélico, calmo, não tinha nenhum vício, e ninguém esperava isso dele. Os vizinhos e parentes não entendem como é que ele pode fazer uma coisa dessas, não ele, jamais ele…” – e a conversa seguia só então para o crime e a prisão.

Aquele homem de trinta e um anos matou sim a mulher a facadas, crime passional e aparentemente sem grandes mistérios. A polícia militar chegou ao local faltando dez minutos para as duas da madrugada, pois um homem teria tentado matar a mulher à facadas na frente de sua filha de doze anos, mas ela ainda estava com vida e o resgate foi acionado.

Apesar da eficiência da equipe do Corpo de Bombeiros a Nilza Maria Mendes de trinta anos de idade, auxiliar de produção, acabou falecendo. A polícia militar imediatamente começou as buscas em um matagal que fica no final da rua onde é praticamente impossível se encontrar uma pessoa à noite, daquele ponto é possível acessar: a Represa do Braiaiá; ao terreno de uma cerâmica; e as matas e campos atrás dos bairros São Judas e Jardim Aeroporto.

Uma pessoa poderia seguir por aquelas matas até os municípios de Cabreúva, Jundiaí e Salto, sem passar por áreas urbanas e por essa razão, após fazer uma busca à polícia interrompeu a procura. Mas o assassino não fugiu, ficou ali nas proximidades e uma denúncia anônima deu a localização quase exata de seu paradeiro, e aí os policiais não perderam viagem. O procurado foi capturado e apresentado ao delegado de plantão.

As duas facas utilizadas pelo assassino foram entregues ao escrivão de polícia, e se não aparecerem fatos novos o Tribunal do Júri de Itu e o promotor de justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze não terão dificuldade em condenar o rapaz pelo crime, cabendo a defesa encontrar alguns DVDs que teriam a prova da traição conjugal da mulher e que teria sido entregues ao irmão do criminoso, para reforçar a teoria de defesa de que ele teria agido sob “forte emoção”, e assim diminuir um pouco a pena.

Já estará nas ruas o Tenente Júlio César Gabarron?

Júlio César Gabarron foi considerado inimputável do assassinato de sua esposa grávida de sete meses Miriam de Castro Gabarron e da tentativa de homicídio contra o GCM Rovaldo e o GCM Edmur Pessoa, devendo ser internado em manicômio judiciário para tratamento. Decisão tomada às 15:30 do dia 29 de abril de 2010, pelo Tribunal do Júri de Itu, presidido pelo juiz de direito Dr. Hélio Villaça Furukawa.

Tanto a Promotoria de Justiça, representada pelo Dr. Luiz Carlos Ormeleze, quanto os advogados de defesa, Dr. Daniel Gustavo Pita Rodrigues e Drª. Valéria Perruchi, sustentaram a tese que o 2º tenente da Polícia Militar Júlio César Gabarron é uma pessoa de alta periculosidade que sofre de paranoia, uma doença mental incurável, e pediram sua internação e afastamento do convívio da sociedade, mas não a sua condenação, pois no momento do crime agiu inconscientemente, pois estava mentalmente deformado, sendo movido por sua mente delirante, persecutória, que o fez agir pensando estar agindo em “legítima defesa”, defendendo-se de uma injusta e imaginária perseguição. E esta tese foi aceita pelo corpo de jurados.

Sexta-feira, 4 de agosto de 2006. 13:00
Hotel Vila do Conde, Itu, SP

Gabarron efetuou mais de cinquenta disparos contra Miriam, tendo acertado vinte e duas vezes e provocando sua morte e a do bebê. O oficial estava em trajes civis mas usando colete balístico e armado com duas pistolas, cercado pela Policia Militar e pela Guarda Civil Municipal, reagiu à tiros em direção do GCM Edmur Pessoa e do GCM Rovaldo, ferindo o primeiro na perna.

Após negociação acabou se rendendo aos seus colegas de farda, tentou inicialmente enganar aos colegas dizendo que o hotel havia sido alvo de uma organização criminosa, mas logo confessou a execução dos crimes, alegando que não estava em seu estado normal quando atirou contra a esposa, mas não apresentou as razões de sua atitude para a delegada Drª. Lia Limongi Arruda Matuck Feres, posteriormente na Justiça explicou que por trabalhar no P2 da Polícia Militar recebeu informações sobre possíveis assassinatos e de vereadores e outras autoridades pelo PCC na onda de atentados de 2006 e da presença do irmão de Marcola em Mairinque, oportunidade em que passou a fazer levantamentos e centenas de mandados de busca e apreensão, e todo este clima acabaram por abalar seu equilíbrio.

Ainda segundo ele, os atentados dos dias dos pais de 2006, perpetrados pelo PCC – Primeiro Comando da Capital, levaram-no a um estado de desespero contínuo, pois ele tinha certeza de que ele e sua família seriam alvos de atentados. Miriam teria inconscientemente provocado a sua própria morte ao relatar a ele que teria recebido telefonemas ameaçadores no local de trabalho e ele passou a suspeitar então que seus telefones celular e residencial estavam grampeados. A morte dos dois policiais militares em Salto e do Vereador Paulinho da Lanchonete, que era seu informante, assim como a explosão de bomba no Batalhão da PM, fizeram-no chegar ao ápice em sua paranoia, passando a desconfiar de seus colegas de farda e de seus superiores hierárquicos.

Apesar de todos estes transtornos que passavam pela mente de Gabarron, ele era conhecido por todos que conviviam com ele como uma pessoa boa, pacata e quieta. Policial há nove anos, estava trabalhando há dois anos no 5º Batalhão da Polícia Militar, e na época do crime exercia função de chefe da agência área do 50º BPM/I.

Interessante é ver como Gabarron sendo Policial Militar conseguiu esconder de todos seu ímpeto assassino, trabalhando no meio de profissionais que deveriam conseguir distinguir tais sintomas, mas isto é explicado no próprio comportamento do paranóicos que transmitem à todos uma aparente tranqüilidade e cuidado nas palavras, mas que basta um motivo para que o pior venha à luz e as palavras doces sejam substituídas por sangue em fração de segundos.

Em 2007 quando da decisão dos jurados, o Dr. Ormeleze garantiu que pelo menos por três anos Gabarron ficaria sob a custodia do estado, podendo ser liberado por parecer médico. Cabe agora, já passado estes três anos. Gabarron já está livre vivendo entre nós?

Em Itu cachorra é prova que madrasta foi a culpada.

O Tribunal do Júri de Itu julgará aquela mulher, e queira Deus que justiça seja feita, inocentando-a ou condenando-a, pois o crime foi bárbaro. O caso da madrasta que tentou matar enteado com golpes de talhadeira jamais será esquecido. Mas podemos ter certeza que de fato foi ela?

Meu velho amigo Auguste Dupin esclarece que discernimento é uma palavra cujas correspondentes em gregas são “anakrino” e “diakrino”, cujos significados se completam. Anakrino reporta-nos examinar ou julgar bem de perto e diakrino que nos instiga a investigar e examinar. De fato usamos nosso discernimento ao acusá-la?

Trago portanto aos senhores alguns dados tirados de perto das cenas onde os fatos transcorreram, para que possam então investigar e chegar as suas conclusões.

Sábado, 05 de abril de 2009. 3:30
Rua Cerquilho 25, Cidade Nova, Itu, SP.

O corpo do garoto de seis anos, deficiente físico nas mãos e nos pés, foi encontrado envolto sobre um monte de areia de construção no fundo da casa onde mora, envolto em um edredon, e empapado de sangue sobre sua cabeça, um pano de prato branco estampado: “Livrai-nos de Todo o Mal Senhor.”

A madrasta Camila Cristine Estefano de 20 anos, e a companheira de seu sogro Ivone Regina de Oliveira de 29 anos, encontram-no ainda com vida.

Ivone aciona um vigilante de rua que segue rapidamente até o PAM de Vila Martins, uma ambulância chega em dez minutos na residência. Os médicos do Pronto Atendimento Médico encaminham-no para o Hospital São Camilo, e acionam a Guarda Civil Municipal. Enquanto o GCM Rota passou a acompanhar o garoto e seus familiares, o GCM Marcelo preservava o local do crime.

A Dra. Paola Rosa de Queiroz, médica que atendeu o garoto no hospital lembra que ele chegou inconsciente, com fratura craniana e cortes com hemorragia na cabeça, foi entubado e seu estado era crítico. Segundo familiares, um dos médicos da UNICAMP disse que o “só por Deus” o garoto sobreviveria.

As investigações levaram naquela mesma manhã o delegado de polícia do 4º DP de Itu, Dr. José Moreira Barbosa Netto, a prender a madrasta, que acabou por confessar o crime.

O advogado Dr. José Aldo Ribeiro da Silva revolta-se contra a prisão de Camila. Segundo ele, o garoto só não morreu porque ela teria chamado ajuda em seu socorro. Reconhece que a confissão na delegacia tem validade, mas foi conseguida de maneira imprópria. Camila, uma pessoa simples, estava fora de seu estado normal por haver passado a experiência mais traumática de sua vida, vendo seu enteado naquela situação e ela acusada injustamente. Segundo Dr. Aldo ela foi portanto coagida a confessar através de técnicas de pressão psicológica.

Camila contou antes de ir até a delegacia e depois na Justiça que seu marido Fernando Torres exigia que não seja fechado o trinco da porta da casa que fica voltada para o corredor interno, faz isso para que o garoto pudesse ir até a casa do avô a hora que quisesse. Segundo ela, por lá entrou um casal que praticou este crime e ameaçaram Camila, caso ela os delatassem, voltariam fazer o mesmo com a filha dela, de apenas dois anos de idade.

Fernando Torres, o pai do garoto, seria o verdadeiro alvo da vingança, e o menino apenas o meio escolhido para feri-lo. O crime seria na verdade um plano muito bem elaborado engendrado de dentro da prisão por Adriana Lopes Siqueira, condenada por tráfico de drogas e legítima mãe do menino. Conseguindo incriminar Camila, Adriana se vingaria de Fernando e ainda abriria caminho para seu retorno com o garoto.

Em um país onde políticos inescrupulosos não roubam tanto o dinheiro destinado a segurança, saber o autor de um crime como este seria simples. A talhadeira usada para tentar matar o garoto foi recuperado na mesma madrugada pela Guarda Municipal e entregue à Polícia Civil. Digitais e traços de DNA estariam na arma. Mas aqui, neste caso,tanto a acusação e a defesa se baseiam em Neguinha.

Neguinha é uma cachorra vira-latas que mora naquele corredor. Segundo a acusação Camila mente pois se alguma pessoa estranha lá tivesse chegado, Neguinha teria latido. Já Camila conta que a cachorra não late para ninguém. O próprio garoto, hoje recuperado diz perante a juíza: “… a cachorra Neguinha não late não …” e logo em seguida “… eu tinha um pitbull chamado Thor mas morreu depois que Camila foi presa, mas ele não latia não, quem latia era Neguinha …”

A palavra final está então nos latidos de Neguinha. Isto é Brasil.

Mãe é acusada de tentar matar filho com talhadeira.

O promotor de justiça Luiz Carlos Ormeleze foi comedido quando descreveu o crime para a Drª. Andrea Ribeiro Borges: Camila Cristine, grávida no quarto mês de gestação, tentou matar usando uma talhadeira seu enteado de cinco anos enquanto este dormia, e além da brutalidade dos ferimentos e do atroz e desnecessário sofrimento por ela causado, ainda tentou induzir a Justiça a erro, retirando a criança do local do crime e abandonando-a no quintal.

As palavras do promotor são suaves para descrever os momentos de horror e sangue que Camila protagonizou aquela noite. O Distrito do Pirapitingui na cidade de Itu, com absoluta certeza, nunca tinha visto tamanha covardia.

Sábado, 5 de dezembro de 2009. 3:25
Rua Cerquilho 25, Cidade Nova, Itu, SP

Camila acorda no meio da noite, levanta e segue até o quarto onde estão dormindo seu enteado de cinco anos e sua filha de dois anos. O garoto é filho de outro casamento do azulejista Fernando, seu companheiro há dois anos.

Nunca saberemos ao certo o que Camila viu ali: dizem uns que ela flagrou o garoto em pé ao lado do berço da menina, outros que ela viu apenas duas crianças dormindo. O que se sabe é que ela tinha ciúmes do garoto pelo amor que ele nutria pelo pai.

Também é sabido que Camila não gostava que o garoto se aproximasse de sua filha, olhava feio e tirava-a de perto. Camila virou-se, foi até o banheiro, pegou a talhadeira que Fernando usava no seu serviço e aplicou vários golpes na cabeça da criança.

Camila contará para o Dr. José Moreira Barbosa Netto, delegado de polícia, que ela não sentiu nada, nem ódio, nem dó, nada, apenas fez. A criança nem se mexeu. Ela achou que havia matado o garoto e levou-o até um monte de areia de construção.

Depois de deixar lá o corpo, volta para a casa sem janelas que fica no corredor do fundo da casa de seu sogro e limpa a casa. Segue para a casa da frente e chama a companheira de seu sogro, a doméstica Ivone Regina para ajudar a procurar a criança.

Ivone quer começar procurar pela casa, mas Camila tenta evitar. Não consegue. Ivone encontra marcas de sangue na roupa de cama do garoto, em um brinquedo e no chão. Desesperada Ivone corre para o quintal e encontra o corpo do garoto.

Em pouco mais de dez minutos o menino está sendo atendido no PAM da Vila Martins, de lá é encaminhado para a Santa Casa de Itu e de lá vai para o Hospital da UNICAMP em Campinas. Seu estado é desesperador, mas Camila parece…

Ivone e o guarda municipal que atendeu a ocorrência estranham a atitude da madrasta. Não corre, não chora, apenas acompanha os acontecimentos. Se o GCM Rota e Ivone tivessem lido O Estrangeiro de Albert Camus talvez achassem essa atitude normal, mas não leram.

Camila foi levada para a delegacia, onde o delegado Dr. Moreira e o conselheiro tutelar Robson José Candiani Mota, que também não leram aquele autor francês, pressionaram Camila, que confessou o crime em todos seus detalhes.

Depois da prisão de Camila, a avó Maria de Lourdes ficou acompanhando o garoto até o retorno do avô e do pai que estavam em Minas Gerais. Agora o garoto, que já tinha deficiências nas mãos e nos pés, ficará agora com esta nova marca.

Fernando é um pai amoroso, e segundo Priscila Aparecida, irmã de Camila, seu único vício é a bebida. A madrasta já tinha sido internada também pelo mesmo problema. A mãe biológica, Adriana, está presa por tráfico de drogas.

Difícil é a situação deste garoto de futuro incerto. Difícil também está para Camila sustentar sua versão inicial que a mãe biológica e seu companheiro é que foram os autores do crime: a primeira está presa e o segundo morreu há anos.

Agora caberá ao Dr. Hélio Villaça Furukawa, juiz de direito da 2ª. Vara Criminal de Itu a decisão sobre mandar ou não Camila para o Tribunal do Júri da Comarca. Talvez ela tenha alguma chance se o magistrado preferir Camus à Kafka. Não quero desanimar ninguém não, mas Furukawa é latinista.

(Veja as explicações de Camila Cristina)