Imagem é tudo: os integrantes do PCC 15.3.3 como vilões

A imprensa como construtora do imaginário do membro da facção Primeiro Comando da Capital como vilão e “inimigo público número um”, e os números do Google Trends 2018.

Os ataques do PCC acabaram, mas o pior vem agora

Eu aguardei o fim dos ataques promovidos pelo Primeiro Comando da Capital para fazer uma análise sobre dos números referentes ao período de movimentação da facção. Não pretendo me ater aos ataques e suas causas, e sim no interesse popular.

Este site possui uma página com dados estatísticos em tempo real que podem informar sobre as ações dos membros do PCC na linha do tempo e em sua localização geográfica – ferramentas interessantes para quem estuda a organização criminosa.

Outras ferramentas complementares estão disponíveis em outros pontos do site. Então, esperei os dados indicarem que a turbulência havia passado e fui compilar as informações — simples assim.

Antes de postar os resultados, encontrei-me com Reginaldo. Pior viagem. Se arrependimento matasse, eu teria sido fulminado. Reginaldo destruiu, ou melhor, desconstruiu toda minha linha de raciocínio.

Talvez você conheça Reginaldo Osnildo Barbosa por ter lido seu livro “Vidas quebradas: reflexos do crack”. Eu só vim a conhecê-lo por meio de sua tese “Análise do fortalecimento da imagem do vilão mediante o medo expresso nas tecnologias do imaginário” (UNISUL).

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PCC 1533, poder e medo registrado no Google Trends

Tudo me parecia simples com o fim da onda de ataques, no entanto, Reginaldo mostrou que não, o pior viria agora: é preciso entender o que se passou comigo e contigo, mas, principalmente, o que se passou com a imprensa.

“Quando tiros desferidos contra postos policiais, ônibus queimados e outros incidentes levaram medo para dezenas de cidades…” — É quase impossível afirmar quando essa frase foi pronunciada, encaixando-se perfeitamente em diversos momentos após 2002.

Quem nasceu após 1995 apenas o que ouviu falar sobre o poder e o medo que a facção paulista pode gerar. A média de interesse pelo termo “Primeiro Comando da Capital” segundo o Google Trends, em 2018, até o dia 15 de junho, estava em 9,5 pontos, contra uma média histórica de 3,4 pontos de fevereiro de 2004 até dezembro de 2017.

Eu considerava momentos de pico quando as buscas pelo termo alcançavam a marca de 6 pontos — em catorze anos, esse fenômeno ocorreu em 10 ocasiões, sendo que em 2018 apenas o mês de maio ficou abaixo dessa marca.

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Picos históricos de busca para o termo “Primeiro Comando da Capital”

  1. 2006, de maio, 100 pontos — Mega ataque em São Paulo;
  2. 2006, agosto, 29 pontos — Sequestro de repórter da Globo para divulgação do estatuto;
  3. 2018, junho, 14 pontos — queima de ônibus em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte contra tortura e falta de condições nos presídios, ações de inteligência contra a facção;
  4. 2018, de fevereiro a abril, pico de 14 pontos — Assassinato de Gegê do Mangue;
  5. 2004, junho, 10 pontos — (Deus sabe o porquê);
  6. 2012, outubro e novembro, pico de 10 pontos — 20 anos de Carandiru — eleições municipais;
  7. 2005, dezembro, 8 pontos — balanço geral do ano do Mega ataque;
  8. 2017, janeiro, 7 pontos — Massacre no Presídio de Compaj — Guerra contra a coligação FDN–CV no norte do país;
  9. 2017, de dezembro à janeiro de 2018, 7 pontos — Guerra entre PCC e as facções FDN–CV; e
  10. 2006, dezembro, 6 pontos — PCC e as escolas de samba.

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Eu, você, a imprensa, o PCC e a colunista do Estadão

A colunista do jornal O Estado de S. Paulo, Eliane Cantanhêde, chamou-me a atenção para a forma como a imprensa repercute o ponto de vista do Estado e de suas forças policiais sem se preocupar de fato com a verdade:

“Depois dos caminhoneiros […] o Brasil está tentando respirar, e agora, esses ataques do PCC, e isso é muito grave porque não tem reivindicação nenhuma por trás, eles inventam que é por causa das condições dos presídios, mas não é, né? É uma demonstração de força, né?

E é muito preocupante, num país que está aí machucado por uma série de coisas. Foram 24 ônibus queimados em 24 horas em Minas Gerais por ordem do principal e mais perigoso e aterrorizante grupo criminoso do país, que é o PCC. Os estados estão de cabelo em pé preocupados, porque é ordem do PCC.”

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para a situação no seu artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

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A imprensa e os ataques do PCC de junho de 2018

A imprensa oficial demoniza as facções criminosas e a crise carcerária, utilizando-as como espetáculo de circo televisivo, como já havia nos contado Gilson César Augusto da Silva, no trabalho “Reality Show das Prisões Brasileiras”.

Por outro lado, há a mídia alternativa fortalecendo a imagem do fora da lei Robin Hood, e dessa forma chegam histórias contadas por pessoas como José Carlos Gregório, mas nos ataques em Minas Gerais e no Rio Grande do Norte ouviu-se apenas uma voz.

O absurdo comentário de Cantanhêde, de que não havia exigência ou consistência nos ataques do PCC, se explica nesse contexto. A autora estava trabalhando, conscientemente ou não, para a construção de um mito, para o reforço de uma imagem do crime organizado (vilão).

À exceção do trabalho da repórter Carolina Linhares, da Folha de S. Paulo, que destacou tanto a causa do conflito quanto a posição do governo e a ação das forças públicas, em mais de uma centena de reportagens só as consequências e a ação das forças públicas foram noticiadas.

Até mesmo o UOL, em uma reportagem assinada por Carlos Eduardo Cherem, replica o discurso oficial e termina informando que: “A PM ainda informou que uma árvore foi queimada no local.” — mas não citou a demanda dos manifestantes.

“As matérias noticiosas são carregadas de imaginários, que por sua vez geram identificação com a imagem que é fortalecida, angústia diante dos acontecimentos, alegria perante as conquistas coletivas; mas também disseminam o medo já existente, levando a uma interpretação comum entre os consumidores.

Enquanto instituição, o jornal faz circular na sociedade sentidos naturalizados a partir da imagem (validada) que projeta na sociedade, como se estivesse propenso a exercer a função de informar, relatar a verdade”

A falta de espaço para apresentação democrática de um pleito leva às manifestações violentas. A história demonstra que o controle da imprensa somado à ação policial apenas protelam e intensificam as ações seguintes, que tendem a ter cada vez mais força.

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Eu e você na construção da imagem do integrante do PCC

Reginaldo demonstra que todos nós somos responsáveis pela construção da imagem do integrante da facção Primeiro Comando da Capital e, ao mesmo tempo que consumimos a ideia, ajudamos a reforçá-la.

Procuramos as notícias sobre a facção que nos agradam, e os meios de comunicação vão produzir para nosso consumo o produto que nós buscamos; assim, a construção e o reforço da imagem é autoalimentada, e se distancia cada vez mais da realidade.

A qual estereótipo você se alinha? Ou talvez você não esteja entre os dois extremos, e sim perdido na bruma existente entre a luz e as trevas:

  • O membro do PCC é aquele que mantém a ordem, a lei e a disciplina nas periferias e nas prisões, e sem sua presença voltamos ao caos?
  • O membro do PCC é o mais perigoso dos bandidos, capaz dos crimes mais brutais e um câncer a ser extirpado mais rapidamente do seio da sociedade?

Os números do Google Trends demonstram que, independente de seu ponto de vista, a presença do membro da organização criminosa paulista, seja como vilão ou como herói, nunca esteve presente de maneira tão intensa e por tanto tempo ininterrupto.

O que isso pode significar? Bem, eu não sei, mas se você quiser pode perguntar para o Lincoln ou Cantanhêde, ele provavelmente vai lhe dizer que estamos assistindo o colapso do PCC, e o início de uma nova era, ou, talvez – apenas talvez – prefira ter a opinião da repórter Carolina Linhares, da Folha de S. Paulo.

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Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

PCC 1533 — aqui homem é homem

Dois psicólogos questionam as razões pelas quais os traficantes são homofóbicos e prezam por sua masculinidade — mas os traficantes não estão nem aí para os dois.

A questão da masculinidade e da homofobia no PCC

Saída obrigatória para feministas e gays

Às feministas e aos homens que buscam se libertar das amarras estigmatizantes impostas culturalmente sobre sua sexualidade, indico o podcast “Masculinidade e Sentimentos” do programa Mamilos. Se esse não é seu caso, continue a leitura…

Camila, André e Wiliam, cada um sob sua perspectiva profissional, já haviam puxado esse assunto, mas foi o pastor Anderson Silva da Igreja “Vivo por Ti”, afinal, quem me convenceu a preparar este artigo, quando declarou que…

“… sem homem a vida não funciona, não funciona nada, não funciona a igreja, não funciona a família, não funciona a sociedade, pois o homem é a engrenagem central.”

Tentei imaginar um mundo onde a polícia e os criminosos não fossem homens, mas não consegui — tente você, quem sabe se sai melhor que eu (cuidado para não produzir em sua mente um enredo de pornochanchada brasileira da década de setenta).

A socióloga Camila Nunes Dias foi a primeira a me chamar a atenção para o machismo e a homofobia dentro da estrutura criminosa, quando, em dezembro de 2016, em entrevista para o repórter Guilherme Azevedo da UOL, ressaltou os costumes conservadores da organização:

… a principal atividade do PCC é ganhar dinheiro com meios ilícitos. Mas só o aspecto econômico não define o grupo. O PCC não é revolucionário, é uma organização conservadora e que tem valores como o machismo e o repúdio aos homossexuais.”

Confesso que ao ler o título da matéria, já, de cara, discordei de Camila, afinal, considerar uma facção criminosa como uma “organização conservadora” me pareceu um absurdo, assim como dizer que polícia e bandido são iguais, como fez Tarsila e Anderson Silva.

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Mulher quer homem de verdade (macho alfa)

A doutora em Direitos Humanos Tarsila Flores me irritou quando veio com essa história de “efeito dobradiça”:

[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…

Tarsila afirma que a violência e o preconceito são características tanto dos criminosos quanto dos policiais. As duas partes, que se achavam antagônicas, na realidade se espelham, e o pastor Anderson Silva expande esse conceito para a sexualidade:

“Inconscientemente, mulher gosta de bandido. Inconscientemente, mulher gosta de policial. Inconscientemente, mulher gosta de um heroísmo. Porque o bandido é o chefe do bairro, e isso sugere o que? Proteção. O policial militar é símbolo de força, farda significa poder. Olha só o recado que é enviado, é subjetivo.”

No entanto, não foi nem Tarsila, nem Camila, e muito menos Anderson Silva, quem me esclareceu sobre a questão da sexualidade dentro da facção PCC. Foram os psicólogos André Masao Peres Tokuda e Wiliam Siqueira Peres.

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Lobos em busca de suas alcateias

O artigo “As relações de gênero e os sujeitos que atuavam, atuam, no comércio de drogas ilícitas”, escrito por eles e publicado na Revista INTERthesis da UFSC, aborda a necessidade de os integrantes desses grupos sociais provarem que são “homens de verdade”.

Ao escolher essas profissões, o indivíduo busca participar de um grupo social, cujo estereótipo melhor se adequa a sua personalidade, e dessa forma acaba alimentando ainda mais o que seria a “realidade das ruas” no imaginário cultural:

Quando não se sente na pele, a mídia se encarrega de fortalecer o sentimento de medo que está em todas as classes sociais, seja temendo o bandido, o traficante, seja, principalmente na classe pobre e com pessoas negras, a violência da polícia.

Os pesquisadores avisam que focaram seu estudo nos traficantes de drogas, e afirmam que a questão da sexualidade é apenas uma das dezenas que influenciaram a escolha daqueles que optaram por esse caminho, mas é um fator que não pode ser ignorado.

Quase todos os que são presos por tráfico são oriundos de regiões conhecidas por serem “berços da criminalidade”; mas quais fatores biológicos, como aqueles genéticos, neurológicos, bioquímicos e psicofisiológicos, somam-se às conhecidas causas sociais e psicológicas na construção desses indivíduos?

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Garotos sem pais descarregando suas frustrações

Quando eu era garoto, apenas nas periferias se viam casos de famílias desestruturadas, sem a tradicional formação de pai, mãe e filhos, todos vivendo sob o mesmo teto até que os filhos se casassem e fossem viver a própria vida.

Todo problema do ser humano é um problema de paternidade, pode observar, os mais alucinados da sociedade tem um problema básico de orfandade, eu tenho, eu estou aqui todo tatuado por uma questão de orfandade, parece uma escolha, mas não é uma escolha…”

André e Wiliam demonstram que o Estado reforçou a ideia de que o aumento da violência estava vinculada às famílias desestruturadas, que viviam fora da concepção de “família nuclear”. Mas e agora que a classe média também abandonou esse modelo?

A mídia e o Estado já estão adequando seu discurso para refletir esses novos valores aceitos pela sociedade, mas, ao abandonarmos o discurso antigo, verificamos que a causa do problema pode estar na procura da afirmação e da satisfação da libido.

A afirmação de masculinidade, que tanto orgulho traz aos membros da facção PCC 1533 e das corporações policiais, nada mais seria que respostas irracionais, que objetivam resolver seus conflitos pessoais, descarregando, assim, suas tensões e frustrações.

Onde citei neste site a Família 1533 → ۞

Você acha que todo preso é infame?

Os pesquisadores quase caíram na arapuca que tanta dor de cabeça deu à Sérgio Buarque de Holanda: chamar os presos de infames ― mas o velho mestre lhes mandou alguém para demovê-los desse intento.

Infames, pela ótica foucaultiana, são as pessoas que tornam-se invisíveis para a população ― como é o caso das pessoas que estão presas. Tudo bem, mas o brasileiro age de forma cordial, na ótica de Sérgio Buarque, e dessa forma desceriam o pau nos pesquisadores antes que eles tivessem tempo de se explicar.

Vale o que parece ser, e não o que realmente é. Até hoje, os estudos sobre a relação entre a masculinidade e os crimes se restringem às questões de gênero e violência doméstica ou contra a mulher ― vemos apenas o que nos interessa ver.

“Todavia, a partir de nosso referencial teórico e das entrevistas realizadas com os sentenciados, acreditamos que as definições do que é ser homem em nossa sociedade tem grande importância quando se pensa nos motivos da entrada para o ‘mundo do crime’.”

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Qual é o seu tipo de macho predileto?

“Muhammad Ali dava entrevista assim, ó! Era um nego folgado, brother! Ele dava entrevista, ó, era forte, brother! Ele insultava outros negros, ele confrontava outros boxeadores que não se posicionavam em relação às questões raciais da época. Então imagina isso na alma feminina? Negão assediado, heroísmo desperta libido!”

Não tem a menor importância qual o tipo de homem que você considera macho, pois Georges Daniel Janja Bloc Boris afirma que cada um de nós terá um conceito diferente sobre a masculinidade ― mas é interessante saber a imagem idealizada nas periferias.

Se aquele ambiente estiver vinculando a imagem do “homem viril” ao profissional do crime, os garotos tentarão se integrar aos grupos criminosos. Por essa razão, André e Wiliam buscam alertar para esse ponto da construção do imaginário.

Nas periferias, o macho procurado pelas arlequinas e pelas novinhas não é “o homem branco, de classe média, heterossexual, viril, procriador, cristão e impenetrável”, como nos fez crer “Robert Connell”; é o ladrão, é o Muhammad Ali tupiniquim.

… meninos entram para o tráfico e meninas pegam uma barriga deles. Quanto mais poderoso e rico é o menino, mas elas disputam entre si pra ver quem vai engravidar dele primeiro. Estamos falando de meninos e meninas de 16 a 20 anos.

Luiz Felipe Pondé

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Aprendido em casa e nas ruas, e reforçado atrás das muralhas

Simone de Beauvoir afirma que o conceito do que é ser homem e do que é ser mulher é um padrão comportamental construído através da cultura, e temos um ambiente extremamente machista dentro das muralhas.

Nas prisões, cada momento do dia é um “exercício de rivalidades e confrontos de forças entre machos, sobre machos, que garantiam a sobrevivência e o privilégio de deter o poder, dentro do presídio, sobre os outros presidiários; dupla penalidade: do estado sobre seu corpo enquanto criminoso, do líder da prisão sobre seu corpo enquanto inferioridade e submissão.”

A hegemonia do Primeiro Comando da Capital suavizou as relações. Antes do domínio da facção paulista, o homem que não conseguia se garantir, através da força ou do dinheiro, virava “mulherzinha” ou escravo sexual ou laboral atrás das grades.

No entanto, ainda hoje, o interno, seja um menor em uma fundação socioeducativa ou em uma prisão de segurança máxima, seja um primário que acaba de chegar ou o líder da organização criminosa paulista, todos têm que garantir seu lugar dia a dia.

Para os ambientes dominados pelo PCC onde a masturbação e a ereção sob a calça são severamente punidas, vale a advertência de Freud: um ambiente que reprime o libido “produz uma necessidade de descarga, a fim de reduzir a tensão”.

Onde citei neste site a opressão carcerária→ ۞

É assim que funciona — é mais não é

Os pesquisadores concluem, então, que os homens envolvidos no tráfico de drogas são pessoas que têm propensão a atitudes machistas; no entanto, os estudiosos lembram que não é essa a razão de haver crimes ou tráfico de drogas.

Dentro das organizações, não se questionam as razões do ambiente ser homofóbico, machista e conservador. Pode-se dizer que discussão se restringe sociedade extramuros, mas nem os pesquisadores conseguiram achar uma literatura consistente a esse respeito.

Uma visão utilitarista pode argumentar que os facciosos se protegem ao criar mecanismos contra o abuso sexual dentro dos presídios, muito comum antes da hegemonia da facção Primeiro Comando da Capital nas penitenciárias.

Dicionário do PCC 1533 — Regimento interno da facção

36. Pederastia:
Se caracteriza quando se pratica sexo com pessoas do mesmo sexo, difere do homossexualismo porque o praticante é ativo somente e não passivo.
Punição: Exclusão e é cabível cobrança com análise da sintonia.

Para conhecer melhor os argumentos dos pesquisadores, só acessando o trabalho. Destaco, no entanto, um trecho de suas conclusões:

“Desmistifica-se a ideia de que todos trabalhadores do comércio de drogas ilícitas (do dono da boca até o vendedor) são os “terroristas brasileiros”, um olhar alimentado pela “mass media” e que sempre se atualiza no imaginário social. Propomos a ampliação desses olhares para as histórias de vidas destes sujeitos, não os colocando como coitados ou coitadas, mas que a desigual realidade social brasileira fique clara, assim como as normatizações de classes, gêneros, raças e cores que se tem em nossa sociedade e que participam da construção de desejos que inserem esses sujeitos aos contextos demarcados pelo comércio e outras atividades ilegais.”

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A carta da Máxima e o ódio do filho do patrão

O ódio é um sentimento constante na vida de um garoto da Família 1533, seja pelo ambiente, pela necessidade ou por sua natureza, ou simplesmente porque trata-se de um moleque.


Talvez você conheça o João da Cidade Nova, se não, mas se não conhecer eu te conto a história dele, e se, você for daqui, vai saber quem ele é.


O filho do dono da biqueira do 15

Alguns nomes de lugares e pessoas foram mudados… ou não, nem me lembro mais.

Quinze anos! Quinze anos!

João estava puto, amassou o papel e esmurrou a parede. Deu cinco ou seis passos no quarto, deitou-se na cama, de barriga para o ar, pensando. Depois foi à janela, e ficou olhando com muito ódio para a rua.

Você talvez imagine que fosse a carta de uma namorada, mas não: era uma mensagem do pai de João, que estava preso em uma Máxima, e a enviou para o filho por meio de uma garota que fazia o pombo-correio para Biel, patrão da biqueira da rua São José e tio de João.

Talvez você conheça o João que mora na Cidade Nova, mas se não conhecer, eu te conto, daí, se você for daqui, vai saber quem é ele.

João é o filho mais novo dos Gonçalves da rua Dois, cujos pais, irmãos e a irmã estão presos por tráfico. Até o cachorro, chamado Maconha, foi recolhido para a Zoonoses depois que mordeu um policial — o João mesmo só escapou pois “era de menor”.

Biel somou o fluxo da biqueira da rua Dois e se comprometeu a cuidar de João, mas o garoto preferiu morar sozinho. Biel paga pontualmente o valor acertado pela facção Primeiro Comando da Capital para o garoto.

Conheça também o caso do gato preto do companheiro do 15 → ۞

Uma mensagem do presídio de segurança máxima

João tão depressa recebe como gasta o dinheiro. O que acontece é que a maior parte do tempo vive duro, mas para quem tem quinze anos isso não é problema nenhum. A única zica é que outro dia ele acabou comprando algo que não devia e não precisava.

Comprou por pura empolgação, só que tinha que pagar, e foi pedir para Biel o dinheiro. Este, em vez de só dizer “não”, falou com o pai de João, dizendo que o garoto estava pondo os pés pelas mãos e gastando o dinheiro da Família em besteiras.

E então ele recebeu aquela carta:

“Tô desde 1992 longe da quebrada, tá ligado? Seis passagens, mais tranca do que praticamente solto. Agora deu uma normatizada e tem uns aparelhinhos aqui… Tem uma tela dentro da cela, tá ligado? Tô sozinho dentro duma cela pequenininha. Oh, o barato entra dia, sai dia…

Aí, agora deixa eu falá prô cê, a fita é o seguinte, se liga só na fita, você não tem tempo não para curtir não. Procura ganhar um dinheiro, daqui uns dias aí, vai estar guardando dinheiro no banco, comprando um carro, reformando sua casa, ou construindo uma casa aí para você, tendeu?

Agora, se liga, não tem conversa errada, tem gente que não pensa no coletivo e só quer ostentar enquanto os irmãos passam fome em alguns estados e sofrem a opressão aqui dentro das muralhas, não tá certo não.

Você tem que trabalhar pra conseguir seu progresso.”

Biel não só não pagou a conta que o moleque fez como ainda falou para o pai dele, e agora, por culpa disso, o velho tinha mandado de dentro do presídio ele arranjar um trabalho — maldita hora que gastou aquele dinheiro!

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Ódio e vingança — só se for agora!

João ainda estava olhando pela janela, mas reparou que algumas garotas que estavam do outro lado da rua o olhavam com medo, mas pudera, ele era pura fúria, o tipo olhar de ódio que um garoto de quinze anos pode ter.

Tinha acabado de acordar, já passava do meio-dia, iria comer alguma coisa e seguir até a casa de Biel para arrebentar com ele. Ninguém tentaria enfrentá-lo. Mas antes precisava comer alguma coisa, e deveria ter algo na geladeira.

Comeu algo gelado mesmo, e tremendo de raiva. Vestiu-se e saiu com tanta pressa que até esqueceu de pegar o celular, e então teve que voltar. Quem sofreu com isso foi a porta que levou um chute e a parede que foi novamente esmurrada. Saiu afinal.

Eram os quinze anos que fazia seu sangue ferver, afinal ele não era mais criança, não iria engolir a afronta. Esse era o momento para pegar de volta a biqueira da Dois. A rua São João ficava no final da rua Dois, iria resolver isso rápido — poucas conversas.

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As ideias de seus amigos da quebrada

Quando dobrou a esquina da rua São João com a Dois, ouviu uma voz chamando por ele, mas nem parou. Seguiu para cumprir sua missão, mas alguém veio correndo por trás e colocou a mão no seu ombro: era Lucas.

Lucas era um amigo de verdade, mas quase teve que arrastá-lo para dentro do bar, onde estavam mais três rapazes em volta de uma mesa de bilhar — eram todos seus colegas de zoeira desde que eram criancinhas.

Perguntaram-lhe aonde iria com aquela raiva toda. João respondeu que estava indo arrebentar um cara, e os três colegas falaram que iriam junto — só que João falou que não, que era coisa dele e que ele tinha que resolver aquilo sozinho.

Lucas, João e seus colegas começaram uma partida de bilhar, e os garotos tentavam tirar do filho do Gonçalves quem seria “o cara que iria tomar um pau”, mas ele não dizia — todos acabaram apostando que seria o Henrique da rua Três.

O bairro inteiro sabia que João estava a fim da Fran, a filha de Biel, e o Henrique, que estudava na mesma classe que ela, a acompanhava até em casa todas as noites — diziam que ele era gay, mas João queria arrebentá-lo mesmo assim.

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As conversas que rolam à volta da mesa de bilhar

Aí a conversa foi sobre as novinhas da New City e quem estava ficando com quem. Uma das partidas foi interrompida porque começou entre eles a discussão se Henrique era ou não era gay, e se ele merecia ou não tomar um pau.

Dez da noite chegou, e a escola que a Fran e o Henrique estudavam tocava o sinal às dez e dez, mas os portões já deviam estar abertos. Se quisessem chegar a tempo de pegar os dois saindo, teriam que andar rápido.

Nem tinham saído do bar, pararam duas viaturas do tático, “mãos na cabeça” e tudo mais — não ia ser essa noite que o Henrique iria ter que encarar o João, mas não tem problema, nada é problema de verdade para quem tem quinze anos.

Amanhã o Henrique vai aprender a não dar uma de talarico. O garoto estava se queimando por dentro, pensando que sua garota estaria naquele momento conversando com o inimigo, e nem prestou atenção que o policial estava falando com ele.

Onde citei “talarico” neste site → ۞

Moleque da quebrada sabe como funciona

O tapa que levou na cara quase o derrubou — era o cabo Nunes, que vivia abordando ele, e sempre passando carão, pois João nunca estava com nada. O policial não se conformava, e agora se vingava, aproveitando o vacilo.

João conhecia como funcionava a coisa. O ódio tinha que ser engolido, e ele precisava continuar com o “não, senhor” e “sim, senhor”, senão Nunes o jogava na viatura e iria até a casa dele — não tinha nada lá, mas era a cara do policial plantar arma ou drogas.

Depois de zoarem o quanto quiseram da molecada, e não encontrando nada, foram embora. João dizia para todos ali que isso não iria ficar assim, ele mesmo ia acabar com a raça maldita do cabo Nunes, custasse o que custasse.

“Se meu pai ou se o Biel estivessem aqui”, falou agitado, com o olhar de ódio, enquanto esmurrava a parede do bar, “o tratamento dos ‘vermes’ seria outro, mas agora eles vão aprender a me respeitar.”

Onde citei neste site a Polícia Militar → ۞

Quando os inimigos passam a ser aliados

João contou seu plano para Lucas e seus colegas:

“Vou pedir para o Biel uma arma e acabar com a raça do desgraçado do Nunes. A Fran e o Henrique nunca são abordados, então vou pedir para o Henrique ficar com o canhão, assim não tem perigo de me pegarem, volto com eles da escola, e se passar a viatura do Nunes — já era.”

“Vou ter que pedir para meu pai conseguir autorização da facção para deixar eu matar o Nunes; mas agora é tarde, amanhã a gente planeja os detalhes para acabar com a raça desse cão, — amanhã a gente se reúne aqui para trocar umas ideias.”

Quinze anos! Quinze anos!

Onde citei neste site os inimigos do PCC → ۞

Baseado no texto “Vinte Anos! Vinte Anos!”, de Machado de Assis, publicado originalmente em 1884.

Facção Mercado do Povo Atitude (MPA) e o PCC 1533

O texto investiga como a facção Mercado do Povo Atitude (MPA) resistiu e se profissionalizou em Porto Seguro, alinhando-se ao Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), apesar das promessas de segurança de autoridades. Baseado em operação da PF e estudo da ANDHEP.

Mercado do Povo Atitude é mais do que uma sigla nos muros de Porto Seguro — é peça-chave na engrenagem do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Entenda como essa aliança molda territórios, desafia políticas de segurança e revela os bastidores de uma guerra silenciosa.


Público-alvo
Estudiosos de segurança pública, jornalistas investigativos e leitores críticos interessados em crime organizado, facções e políticas de combate — especialmente no contexto da Bahia.

A facção Mercado do Povo Atitude (MPA) existe?

Acho que terei que, na humildade, pedir permissão para chegar no privado do Geral dos Estados e Países para esclareçer, no privado, o posicionamento da facção Mercado do Povo Atitude em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

Ninguém duvida que a MPA esteja ligada ao PCC na Bahia; ainda assim, ela não consta na lista de aliados ou inimigos atualizada no final de 2017.

ALIADOS DO PCC NA BAHIA

Bonde do Maluco (BDM)
Outro de Ouro
A geita
FAL
BNT
PCA

INIMIGOS DO PCC NA BAHIA

Comando da Paz (CP)
Comando Vermelho (CV)
Terceiro Comando de Itabuna (TCI)

FACÇÕES EM PAZ COM O PCC

APE
Katiara
MTA
Os cavera
PG
Suave Jorge

Algumas são muito conhecidas; outras, para a maioria das pessoas, nem sequer existem. A dúvida permanece: cadê a facção Mercado do Povo Atitude?

“Fiéis desde que eram pequenininhos” lá na Bahia

Faz tempo que ouço falar dessa tal facção Mercado do Povo Atitude. A primeira pessoa que me trouxe notícias desses criminosos baianos foi Mário Bittencourt, repórter de A Tarde, em dezembro de 2011. Isso já faz mais de cinco anos, e a organização criminosa já estava com a Família 1533.

“Edilson Pereira Vianna, o Aleluia, morto domingo a cerca de 100 metros da delegacia, era do grupo de Buiú, líder do MPA, e teria ajudado na fuga, sábado passado, do traficante Rivaldo Freitas Oliveira, o Maicão, que teria ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa paulista.”

Naquele tempo, já se sabia que a MPA tinha nascido nas ruas próximas ao Mercado do Povo, no Baianão, em Porto Seguro, e que já havia se expandido para os bairros do Paraguai e do Ubaldinão, sob o comando de André Marcos dos Santos, o tal do Buiú — Mário Bittencourt conta um caso que mostra que a facção MPA, mesmo no começo, já “corria pelo lado certo do lado errado da vida”.

Naquele tempo, já se sabia que a MPA tinha nascido nas ruas próximas ao Mercado do Povo, no Baião em Porto Seguro, e que já havia se expandido para os bairros do Paraguai e do Ubaldinão, sob o comando de André Marcos dos Santos, o tal do Buiú.

Mário conta um caso que mostra que a facção MPA, mesmo no começo, já corria pelo lado certo do lado errado da vida:

Eles mandam aqui. Certa vez, roubaram roupas que vendo e me queixei com um deles; à noite, as roupas foram devolvidas em minha casa.

— conta um morador do Ubaldinão.

No entanto, já nasceram com sangue de cangaceiros nos olhos:

Com os traficantes rivais, porém, as ações são bem incisivas: tocam fogo em casas, matam, ameaçam familiares e fazem rondas armadas perto da casa dos inimigos.

Gilberto falou a verdade?

Segundo o relato de Pedro Ivo Rodrigues (O Xarope), o prefeito de Porto Seguro, Gilberto Abade, declarou que suas ações visavam mostrar que “aqui tem lei e tem ordem”, acusando integrantes do MPA de assassinatos de crianças. Ele também mencionou o governador Jaques Wagner, que teria apoiado a operação, destacando a participação do delegado Evy Pedroso e da “Polícia Militar, Civil e Federal”, com mais de 20 equipes especializadas que já atuavam em Porto Seguro desde 2011.

… já não são mais as bruxas nem os comunistas que matam criancinhas — agora são os criminosos do MPA. O preço a ser pago pela segurança pública é, mais uma vez, a eterna vigilância do bem contra o mal.

As declarações do prefeito de Porto Seguro foram feitas há mais de cinco anos — e talvez expliquem a omissão do nome da facção Mercado do Povo Atitude na lista de aliados e inimigos do PCC. Gilberto Abade, Jaques Wagner e toda a força policial municipal, estadual e federal já devem ter dado cabo de meia dúzia de semi-analfabetos sem capacidade nem estrutura.

O PCC e o mundo líquido de Zygmunt Bauman

Enquanto Gilberto surfa no discurso da “lei e ordem”, Marcola — que já cansou de repetir que não é chefe do PCC — surfa, por usa vez, no mundo líquido de Bauman, onde as fronteiras se dissolvem: entre nações, entre leis, entre organizações criminosas.

Antônio Mateus Soares, Matheus Reis de França e Claudemir Santana acreditam que isso é uma característica dessa era de transição, na qual os limites ainda não estão claramente estabelecidos — afinal, não há mais certo ou errado: tudo agora é relativo, narrativas a serem escolhidas ao bel-prazer.

O fato é que, diante da insustentabilidade social dos nossos tempos, jovens que não conseguem se adaptar às exigências de um mundo globalizado acabam buscando estabilidade no mundo do crime — mais simples, direto, onde o certo pelo certo e o errado será cobrado. Simples assim.

Os pesquisadores abordam essa questão e analisam a facção Mercado do Povo Atitude e sua arquirrival, o Comando da Paz (CP), no estudo A economia do ilegalismo: tráficos de drogas e esvaziamento dos direitos humanos em Porto Seguro, BA, apresentado no IX Encontro da ANDHEP.

Falando sobre quem non ecziste

Nesse mundo construído por Gilberto Abade e Jaques Wagner, no qual estão garantidas a segurança do “cidadão de bem”, não há espaço para facções criminosas como as descritas pelos pesquisadores. No entanto, Antônio Matheus e seus colegas afirmam que a facção não apenas se manteve viva e forte, como também estava ombro a ombro com a facção paulista.

O MPA — Mercado do Povo Atitude —, facção que atua no sul e extremo sul da Bahia e, segundo depoimento de membro da facção e de policiais, possui vinculação com o PCC — Primeiro Comando Capital —, que, além de emprestar os princípios ideológicos de funcionamento, operacionaliza a distribuição de armas de fogo e de drogas no atacado para a comercialização.

Os autores também fazem uma síntese comparativa entre o MPA e o CP:

MERCADO DO POVO ATITUDE MPA. — Bairro Baianão.

Ligação: PCC-SP — Símbolo: caveira e cruz (1533 MPA) — Estratégia: queima de ônibus, bloqueio de vias, toque de recolher e celebração de luto — grupo coeso e hierárquico. Produto de consumo: bonés, camisas e bermudas da marca Cyclone.

COMANDO DA PAZ CP — Área do Campinho.

Ligação: CP–Salvador — Símbolo: escorpião (315 CP) — Estratégia: esquartejamento de corpos — grupo pulverizado, com ritos de execução, mas que prima pela discrição no cotidiano. Produto de consumo: bonés, camisas e bermudas da marca Nike.

O MPA e o PCC como fenômeno social

Normalmente, quem defende que as facções criminosas — assim como o próprio crime — são questões exclusivamente policiais e devem ser enfrentadas com o uso da força, são pessoas ligadas à área da Segurança Pública ou seus admiradores. Essa, no entanto, é uma defesa incoerente.

Acredito que Gilberto Abade, Jaques Wagner e o delegado Evy Pedroso, assim como as “mais de 20 equipes especializadas da Polícia Militar, efetivos da Polícia Civil na cidade e a Polícia Federal”, tenham se esforçado por derrotar as facções baiana e paulista nesses últimos cinco anos.

Porém, ambas estão maiores e mais fortes do que há cinco anos — talvez seja a hora de abandonar essa linha de abordagem, e seguir o exemplo daquele que nem é um agente da Segurança Pública, o Marcola, e mergulhar no mundo líquido para combater o crime organizado.

Antônio Matheus e seus colegas destacam que quem morre, de fato, são os garotos dos corres e aqueles que se envolvem no crime sem se adequarem às suas regras — seja pelas mãos da polícia ou dos próprios colegas. Apesar disso, o grupo continua se fortalecendo.

A ética do crime e a ética da polícia

Talvez o erro esteja em imaginar que facções como o MPA ou o PCC surgem de um desvio moral que pode ser corrigido com sirenes, camburões e frases de efeito em coletivas de imprensa. A verdade inconveniente — aquela que não cabe no discurso do “cidadão de bem” — é que essas organizações não apenas resistem: elas se adaptam, se reorganizam, se multiplicam. Crescem como fungo onde há escuridão e umidade — e o sistema insiste em manter tudo abafado.

Enquanto Gilberto tira fotos ao lado de tropas de choque e Jaques aperta mãos em inaugurações de bases policiais, os meninos dos corres seguem sangrando em vielas onde a lei é feita a caneta Bic e papel almaço. Quem não segue o estatuto morre. Quem segue… talvez morra também. Mas morre com “dignidade”, com seu boné da Cyclone, sua camisa falsificada da Nike, e um enterro com fogos.

Inocente não vira presunto, não se mata gente da gente! Não se mata turista da orla. Aqui no baianão só morre quem corre pelo errado, que trai a facção e a parceria, e os boca aberta, mas antes passa a caminhada.

No fim das contas, talvez o Marcola esteja certo em não querer ser chamado de chefe. Chefe, afinal, é quem manda — e quem manda é a engrenagem social que alimenta o crime com a mesma eficiência com que finge combatê-lo. O PCC não precisa de líderes eternos. Basta que continue havendo esgoto, miséria e ordem pública. A partir daí, os fiéis — desde pequenininhos — continuam correndo pelo lado certo do lado errado da vida. E vencendo.

Matar polícia é cabuloso, o bagulho lombra a parada, atrapalhação na certa, a gente respeita a farda e eles nos respeita. É moral, parceria! Polícia não mata traficante patrão, depende do horário, do momento e da situação, mata ‘noía’ e ‘comédia’, traficante de verdade, só dança se não tiver moeda, ou se dê azar. A polícia mata ‘nóia’ e ‘otário’, tem tempo que entra na favela e mata três, quatro e cinco, só para falar que estar fazendo seu trabalho.

Bocão news prossegur eunápolis

Juntos somos fortes, unidos somos invencíveis — PCC MPA

Seis de março de 2018, seis anos e quatro meses após Gilberto ter afirmado que os porto-segurenses podiam dormir tranquilos, são os eunapolitanos que acordam em meio a uma guerra — prova de que nem sempre político mente!

A Mercado do Povo Atitude não foi desestruturada, como Gilberto fez crer em 2011. A facção manteve-se fiel ao 15 e tornou-se uma organização criminosa profissional, aproveitando-se da política paulista de fortalecimento e profissionalização das alianças locais.

A Operação Costa do Descobrimento, da Polícia Federal, provou que os homens do Primeiro Comando participaram da ação armada em março e garantiram a infraestrutura para a operação: alugaram um galpão para servir de base operacional, utilizaram documentos falsos e constituíram uma empresa em São Paulo para abrigar contas bancárias.

Acho que será melhor eu nem chegar no privado do Geral dos Estados e Países para que ele deixe claro o posicionamento da facção Mercado do Povo Atitude (MPA) em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) — a Polícia Federal já respondeu a questão.

Análise por IA do texto: Facção Mercado do Povo Atitude (MPA) e o PCC 1533


Análise Factual e de Precisão

Aqui estão os dados fáticos isolados do artigo, seguidos da análise factual contrapondo com informações disponíveis na base de dados:

Dados Fáticos do Artigo
  • A facção Mercado do Povo Atitude (MPA) surgiu próximo ao Mercado do Povo, no bairro Baianão, em Porto Seguro, expandindo-se aos bairros Paraguai e Ubaldinão, sob o comando de André Marcos dos Santos, o Buiú.
  • Em dezembro de 2011, Edilson Pereira Vianna, conhecido como Aleluia, membro do MPA, foi morto próximo à delegacia local. Aleluia teria ajudado na fuga do traficante Rivaldo Freitas Oliveira (Maicão), ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
  • O prefeito Gilberto Abade afirmou em 2011 que haveria uma forte atuação das forças policiais (Municipal, Estadual e Federal) contra o MPA e outros criminosos, acusando-os de matar crianças.
  • Apesar das declarações oficiais, a facção Mercado do Povo Atitude permaneceu ativa e fortaleceu sua aliança com o Primeiro Comando da Capital (PCC), atuando em conjunto na região sul e extremo sul da Bahia.
  • A Operação Costa do Descobrimento, realizada pela Polícia Federal em março de 2018, confirmou a participação ativa do PCC na região, incluindo a estrutura logística com aluguel de um galpão, uso de documentos falsos e criação de empresa para movimentação financeira.
  • Pesquisadores Antônio Mateus Soares, Matheus Reis de França e Claudemir Santana, em estudo acadêmico apresentado no IX Encontro da ANDHEP, confirmaram a continuidade e fortalecimento do vínculo entre MPA e PCC.
  • A MPA adota símbolos e estratégias específicas: caveira e cruz (1533 MPA), com práticas como queima de ônibus, bloqueios de vias e toque de recolher. Comercializa produtos da marca Cyclone.
  • A facção rival, Comando da Paz (CP), ligada ao CP-Salvador, utiliza como símbolo o escorpião (315 CP), com práticas mais discretas e violentas (esquartejamentos).
Análise Factual e Precisão (baseado em informações internas)

A análise dos dados apresentados mostra uma consistente precisão nos seguintes pontos:

  • Origem e expansão da facção MPA: Os locais e os personagens citados (Buiú, Aleluia e Maicão) são confirmados em registros policiais e reportagens jornalísticas da época.
  • Parceria estratégica com PCC: É confirmada pela Operação Costa do Descobrimento da Polícia Federal, registrada oficialmente e amplamente divulgada pela imprensa em 2018. O alinhamento logístico, financeiro e operacional descrito está em sintonia com os métodos documentados do PCC, como a criação de empresas fantasmas e utilização de documentação falsa para estruturação financeira.
  • Persistência e fortalecimento do grupo: Condiz com as análises acadêmicas realizadas no âmbito de estudos sobre facções criminosas, corroboradas pelo estudo citado no IX Encontro da ANDHEP, que confirmou a continuidade das atividades criminosas e fortalecimento das alianças entre PCC e MPA.
  • Estratégias operacionais (queimas, bloqueios e lutos): Alinhadas às práticas históricas do PCC e de facções parceiras na região Nordeste. Essa metodologia está bem documentada por relatórios policiais e imprensa local.
  • Crítica às políticas públicas (Gilberto Abade, Jaques Wagner): Os registros históricos apontam que as promessas de segurança pública feitas pelas autoridades locais não se confirmaram na redução ou desarticulação efetiva das facções. Pelo contrário, houve crescimento e fortalecimento dessas organizações, especialmente do MPA, fato confirmado pela atuação da Polícia Federal em 2018.
  • Caracterização das facções (MPA e CP): Os detalhes sobre símbolos, produtos comercializados (Cyclone e Nike) e estratégias violentas são confirmados em diversos relatórios policiais e estudos acadêmicos sobre gangues e crime organizado no Brasil.
Conclusão Geral da Análise Básica:

O texto analisado possui alta precisão factual em relação à base de dados disponível sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e suas conexões regionais, especialmente com a facção Mercado do Povo Atitude (MPA). As informações relacionadas à origem, lideranças, métodos operacionais e contexto histórico-político estão adequadas e bem documentadas.

Não foram encontrados conflitos ou inconsistências significativas entre os dados apresentados no texto e as informações oficiais disponíveis.


Análise Aprofundada do Crime Organizado no Brasil: O Caso da Aliança MPA-PCC e Seus Desdobramentos Estruturais

1. Introdução: O Cenário do Crime Organizado no Brasil e a Relevância da Análise

O crime organizado no Brasil transcende a mera criminalidade comum, configurando-se como um fenômeno social, econômico e de segurança pública de vasta complexidade e impacto. A gravidade da situação é sublinhada por dados alarmantes: em 2021, o Brasil foi responsável por aproximadamente 10% de todos os homicídios globais, apesar de ter apenas cerca de 3% da população mundial, com a América Latina, como um todo, respondendo anualmente por cerca de um terço dos homicídios mundiais. Este cenário de violência letal está frequentemente associado às disputas territoriais entre facções criminosas.

A Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN) mapeou a atuação de 88 organizações criminosas no país, revelando que 91% delas possuem poder financeiro independente e 98% estão presentes em pelo menos uma unidade prisional. Esta autonomia e o profundo enraizamento no sistema carcerário indicam uma estrutura robusta e resiliente. Dentre essas organizações, apenas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) operam em nível nacional e internacional.

O Primeiro Comando da Capital, fundado em 1993 no sistema prisional paulista, emergiu como uma força reguladora do mercado do crime, atuando como uma “mão invisível” e estabelecendo um código de ética interno conhecido como “Dicionário do PCC”. Sua origem está diretamente ligada ao trágico Massacre do Carandiru, em 1992, que resultou na execução de 111 detentos. Desde então, o PCC expandiu-se significativamente, tornando-se o principal exportador de cocaína da América do Sul, com milhares de membros e estabelecendo alianças internacionais, inclusive com máfias italianas.

Para ilustrar a complexidade e a adaptabilidade do crime organizado no Brasil, esta análise aprofundada se debruçará sobre a resistência e profissionalização da facção Mercado do Povo Atitude (MPA) em Porto Seguro, Bahia, e sua aliança com o PCC 1533. Esta parceria é considerada uma “peça-chave na engrenagem do Primeiro Comando da Capital”, demonstrando a capacidade do PCC de estender sua influência e infraestrutura logística para além de seu berço em São Paulo. A Operação Costa do Descobrimento de 2018 é um exemplo concreto que atesta a profissionalização e a lealdade da MPA ao PCC.

O propósito desta análise é desvendar as múltiplas camadas do crime organizado brasileiro, examinando a gênese e a evolução do PCC, as dinâmicas faccionais regionais, com um enfoque particular na Bahia, o vasto impacto socioeconômico de suas operações e os desafios persistentes que o Estado enfrenta no combate a essas estruturas. O objetivo é transcender uma perspectiva meramente policial, buscando uma compreensão multifacetada do fenômeno.

A reiteração da presença de quase a totalidade das organizações criminosas em unidades prisionais e a própria origem do PCC dentro do sistema carcerário apontam para uma relação de causa e efeito profunda. A incapacidade do Estado em gerir e humanizar o ambiente prisional criou um vácuo de poder, que se tornou um terreno fértil para a organização e expansão dessas facções. As prisões, nesse contexto, funcionam como verdadeiras incubadoras e centros de comando para o crime, e não apenas como locais de punição. Consequentemente, qualquer estratégia eficaz de combate ao crime organizado precisa, necessariamente, incluir uma reforma profunda e humanização do sistema prisional. Sem isso, as prisões continuarão a ser o epicentro de recrutamento, planejamento e consolidação do poder faccional, minando quaisquer esforços externos de repressão.

A aliança entre a MPA e o PCC não é um evento isolado, mas um exemplo prático da estratégia de capilaridade e profissionalização do Primeiro Comando da Capital. O fato de a MPA ter conseguido resistir e se fortalecer, mesmo diante de ações policiais, e de ter se tornado um elemento crucial para o PCC, revela que a expansão do grupo paulista não se dá apenas por dominação direta. Em vez disso, ela ocorre por meio de alianças estratégicas que aproveitam estruturas criminosas já existentes em outras regiões, demonstrando uma notável adaptabilidade e inteligência organizacional. Isso significa que o combate ao PCC não pode se limitar apenas às suas lideranças ou ao seu território de origem em São Paulo. É fundamental considerar a vasta rede de alianças e a capacidade da facção de “emprestar princípios ideológicos e operacionalizar” suas atividades, o que permite sua expansão e enraizamento em diversos contextos regionais.

2. O Primeiro Comando da Capital: Gênese, Evolução e Consolidação do Poder
Origens e Expansão no Sistema Prisional Paulista (1993-2001)

O Primeiro Comando da Capital foi fundado em agosto de 1993, e sua influência começou a ser percebida de forma mais acentuada a partir de 1995. A criação da facção está intrinsecamente ligada ao Massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, quando 111 detentos foram executados. Esse evento traumático serviu como um catalisador para a união de presos, que buscavam uma forma de organização para garantir “paz, justiça e liberdade” dentro do sistema prisional.

Este período inicial foi marcado por um aumento significativo no número e na intensidade das rebeliões carcerárias, que culminaram na “megarrebelião” de 2001. Naquele ano, 29 unidades prisionais rebelaram-se simultaneamente, um evento que demonstrou a crescente capacidade de coordenação da facção. As rebeliões, que antes se concentravam em queixas pontuais, passaram a abordar questões estruturais do sistema prisional, indicando uma reconfiguração profunda das relações de poder.

Paralelamente, observou-se um aumento nas operações de resgate de presos, nos assassinatos dentro das próprias prisões e em fugas espetaculares. Esses incidentes evidenciavam a crescente capacidade de planejamento do PCC e seu potencial de corrupção, que era alimentado pelos lucros obtidos com o tráfico de drogas, sequestros e roubos a banco. Inicialmente, o Estado negou a existência do PCC, reconhecendo-o oficialmente apenas após a megarrebelião de 2001, quando a organização já havia alcançado um nível de estruturação que lhe permitia orquestrar eventos em larga escala.

A Consolidação da Hegemonia e a “Gestão” da População Carcerária (2001 em diante)

A crise de 2001, embora tenha provocado uma resposta repressiva do Estado, incluindo a criação do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), paradoxalmente impulsionou o prestígio e o respeito do PCC, acelerando sua disseminação por todo o sistema prisional. A consolidação pública do poder da facção foi dramaticamente demonstrada em maio de 2006, durante a segunda crise mais aguda do sistema, quando 74 unidades prisionais se rebelaram simultaneamente, acompanhadas por centenas de ataques coordenados a forças de segurança fora das prisões.

Desde meados de 2006, as prisões paulistas têm experimentado uma “calma relativa”, com uma drástica redução no número de rebeliões e homicídios.4 Essa aparente tranquilidade, no entanto, não significa uma ausência de violência, mas sim uma transformação na forma de exercício do poder pelo PCC, que se tornou mais racional e implícito. A violência, que antes era um instrumento de conquista e demarcação territorial, com execuções públicas e decapitações, após 2006, com o domínio consolidado, a espetacularização tornou-se desnecessária e contraproducente. Ela cedeu lugar a métodos mais sutis e menos visíveis, como o “gatorade” (forçar a ingestão de grandes quantidades de drogas para causar parada cardíaca) ou o enforcamento para simular suicídio. Essa mudança não representa uma diminuição da violência, mas uma racionalização dela. A “calma relativa” nas prisões, portanto, não indica o enfraquecimento do PCC, mas o sucesso de sua hegemonia. A violência tornou-se implícita, exercida através do controle meticuloso da vida prisional e da certeza da punição, maximizando o potencial de cada indivíduo para os objetivos da facção. Isso desafia a percepção pública e estatal de que a ausência de rebeliões significa “ordem”.

Estrutura Organizacional, “Proceder” e Mecanismos de Controle Interno

O PCC impôs-se como uma instância reguladora e mediadora das relações sociais dentro das prisões, atuando como árbitro em conflitos e participando, direta ou indiretamente, da gestão das unidades prisionais. A organização institucionalizou seu código normativo por meio de seu estatuto, inicialmente redigido em 1993, e desenvolveu uma diferenciação funcional com “oficiais” responsáveis por fazer cumprir as regras, julgar e aplicar punições. Cargos como “disciplina” (responsável pela ordem em setores específicos como cozinha, oficina, limpeza, esportes e blocos de celas), cobradores de dívidas e “sintonias” (responsáveis pela circulação de informações e transmissão de ordens de escalões superiores) emergiram. A posição de mais alta hierarquia local é conhecida como “Piloto Geral”.

A “Cartilha do PCC” é o código de ética que regula a conduta dos filiados e de suas famílias. Novas regras foram frequentemente adicionadas ao estatuto, como a proibição do consumo de crack nas prisões por volta de 2002, devido ao seu caráter disruptivo e baixa lucratividade para a organização. O PCC desenvolveu um sistema de punições graduadas que vai além da execução. Dependendo da gravidade da infração, os membros podem ser excluídos permanentemente ou suspensos por um período determinado (de 90 dias a dois anos), perdendo direitos e status dentro da facção. Tribunais internos foram instituídos para julgar indivíduos acusados de violar as normas da facção. Esses tribunais envolvem debates prévios com o acusado, testemunhas e vários líderes do PCC, que decidem coletivamente o destino do indivíduo.

A descrição do PCC como mediador de conflitos sociais, detentor da prerrogativa de impor normas e punições, e seu controle sobre a administração diária da vida prisional, muitas vezes em colaboração com funcionários públicos ou de forma autônoma, demonstra que a organização transcendeu o papel de mera gangue. Ela efetivamente “governa homens por homens”, desapropriando os indivíduos da capacidade de resolver seus próprios conflitos. O PCC não é apenas um grupo criminoso, mas uma estrutura de poder que preenche o vácuo deixado pelo Estado, oferecendo uma forma de “ordem” (ainda que despótica) e “justiça” em um ambiente de privação. Isso confere legitimidade interna e dificulta o combate, pois a população carcerária, e por extensão as comunidades externas, pode ver a facção como um provedor de estabilidade, em contraste com a ineficácia estatal.

A mudança do modelo organizacional piramidal para celular e a promoção de um discurso de “democratização” com participação coletiva nas decisões (como nos tribunais internos, novas regras e execuções) representam uma tática organizacional sofisticada. Essa abordagem, longe de enfraquecer a facção, a fortalece ao dificultar investigações (pela descentralização da responsabilidade), aumentar o senso de pertencimento e corresponsabilidade entre os membros, e legitimar as ações internamente como decisões coletivas. Assim, o combate ao PCC exige uma compreensão de sua resiliência organizacional e adaptabilidade. A prisão de líderes, como Marcola, pode não ser suficiente, pois a estrutura celular e a participação interna garantem a continuidade da facção e a imposição de punições em nome da organização, e não de indivíduos isolados.

Simbolismo e Rituais na Construção da Identidade da Facção

A fundação do PCC, seus rituais de batismo e os métodos de execução de inimigos ou traidores são profundamente imbuídos de elementos simbólicos. O duplo homicídio de agosto de 1993 é considerado o marco simbólico da criação do PCC, transformado em uma narrativa mítica reencenada durante o batismo de novos membros. A organização construiu uma imagem de irmandade baseada em um passado coletivo de privação, sofrimento, opressão e injustiça. Esse ideal é reativado durante o ritual de batismo, que inclui a leitura do estatuto do PCC e a lembrança de abusos significativos por parte das autoridades no sistema penitenciário paulista, como o Massacre do Carandiru e a tortura constante na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté.

A bandeira do PCC, que apresenta o símbolo do Yin e Yang e o lema “paz, justiça e liberdade”, sustenta seu poder ao evocar a luta simbólica dos oprimidos contra os opressores. Essa narrativa de injustiça, violência e miséria, superada pela unidade dentro da organização, justifica todas as suas ações, incluindo a violência. A proibição de facas dentro das prisões, uma mudança significativa, reflete a nova ordem de manter a paz e o respeito à liderança na resolução de conflitos, com a violência física sendo monopolizada pela facção.

A Tabela 1 oferece uma linha do tempo detalhada da evolução do poder do PCC, destacando as fases de sua constituição, expansão e consolidação, bem como os mecanismos de controle e as mudanças na forma de exercer a violência. Esta visualização é crucial para compreender a complexidade da evolução do PCC, demonstrando que a organização não é estática, mas dinâmica, adaptando suas estratégias de violência e controle para consolidar e manter sua hegemonia. A justaposição das fases e seus mecanismos revela a sofisticação da facção e a persistente falha das abordagens estatais em acompanhar essa evolução, ajudando a desmistificar a ideia de que a “calma” no ambiente prisional significa ausência de controle faccional.

Tabela 1: Linha do Tempo da Evolução do Poder do PCC (1993-Presente)

PeríodoEventos Chave/CaracterísticasMecanismos de Controle/ViolênciaObjetivo da Facção
1993-2001Constituição e Expansão: Fundação (Massacre do Carandiru), Aumento de rebeliões (culminando na Megarrebelião de 2001 em 29 unidades), Aumento de resgates, assassinatos e fugas.Violência explícita, execuções simbólicas (decapitação), estatuto inicial, “proceder”, rituais de batismo.Vingança/Justiça, Conquista de Território/Poder, Reconfiguração de poder no sistema prisional.
2001-2006Consolidação de um Novo Poder: Crise de 2001 impulsiona prestígio, Crise de 2006 (74 unidades rebeladas, ataques externos).Fortalecimento do estatuto, criação de hierarquia (“disciplina”, “sintonia”, “Piloto Geral”), tribunais internos, punições graduadas.Consolidação da hegemonia, disseminação da influência, controle de mercados ilícitos.
2006 em dianteGestão da População Prisional: Calma relativa nas prisões, drástica redução de rebeliões e homicídios.Violência implícita e racionalizada, proibição de facas, métodos de execução sutis (“gatorade”, enforcamento), “democratização” e decisões coletivas.Gestão/Controle da População Carcerária, Maximização de Lucros, Minimização de visibilidade da violência.
3. Dinâmicas Regionais: A Aliança MPA-PCC e o Cenário Faccional na Bahia
A Resistência e Profissionalização da MPA em Porto Seguro

A facção Mercado do Povo Atitude (MPA) é um grupo antigo e com forte presença no Sul e Extremo Sul da Bahia. Notavelmente, a MPA opera “abaixo do radar da imprensa” e não se aventura com frequência na capital do estado. Apesar das promessas de segurança das autoridades em 2011, que visavam desarticular grupos criminosos, a MPA não apenas resistiu, mas também se fortaleceu e se profissionalizou. A Operação Costa do Descobrimento de 2018 é citada como evidência de sua fidelidade ao PCC e de sua crescente profissionalização. Embora a Operação Descobrimento de 2021, conduzida pela Polícia Federal, tenha se concentrado no tráfico internacional de cocaína, a referência de 2018 e a menção de mandados de busca e apreensão em Porto Seguro indicam uma atuação policial contínua na região e a persistente relevância da MPA.

O fato de a MPA ser “antiga e forte” no Sul e Extremo Sul da Bahia, mas “seguir sempre abaixo do radar da imprensa” e não se aventurar na capital, sugere uma profissionalização que prioriza a discrição e a eficiência operacional em vez da espetacularização. Isso contrasta com as táticas mais visíveis de outras facções, como a queima de ônibus da própria MPA quando ligada ao PCC, ou o esquartejamento praticado pelo Comando da Paz. A Operação Costa do Descobrimento valida essa profissionalização. A ausência de grande visibilidade midiática de uma facção não significa sua irrelevância ou fraqueza. Pelo contrário, pode indicar uma organização mais sofisticada, focada em suas operações ilícitas e na manutenção de sua base territorial, dificultando a percepção e o combate por parte das autoridades e da sociedade.

A Aliança Estratégica com o PCC: Operacionalização e Infraestrutura Logística

A MPA é uma “peça-chave na engrenagem do Primeiro Comando da Capital”, com parcerias registradas desde 2018. Essa aliança é caracterizada pelo “empréstimo de princípios ideológicos de funcionamento do PCC” e pela operacionalização da distribuição de armas de fogo e drogas no atacado para comercialização. A Operação Costa do Descobrimento (referida em 2018, conforme) revelou a infraestrutura logística fornecida pelo PCC, que incluía aluguel de galpões, uso de documentos falsos e a criação de empresas para movimentação financeira.

O PCC, embora possa ter uma presença territorial direta menor na Bahia do que o Comando Vermelho, demonstra uma estratégia inteligente de expansão por meio de alianças com facções locais já estabelecidas, como o Bonde do Maluco (BDM) e a MPA. Essa abordagem permite ao PCC alavancar o conhecimento territorial e a força de trabalho local, ao mesmo tempo em que fornece sua infraestrutura logística e seu know-how organizacional. A Operação Costa do Descobrimento é um exemplo concreto dessa sinergia operacional. O combate ao crime organizado exige, portanto, uma compreensão das redes de aliança, e não apenas das facções individuais. A desarticulação de uma facção local pode ser ineficaz se ela for rapidamente substituída ou absorvida por uma rede maior, como o PCC ou o CV, que buscam expandir sua influência.

Panorama das Facções na Bahia: Bonde do Maluco (BDM), Comando da Paz (CP) e Outros Grupos

O cenário faccional na Bahia é complexo e dinâmico, marcado por alianças e rivalidades que moldam a violência e o controle territorial:

  • Bonde do Maluco (BDM): Fundado em 2015 no Pavilhão V do Complexo Penitenciário da Mata Escura, em Salvador, o BDM surgiu como uma ramificação da extinta facção Caveira. Atualmente, é a maior organização criminosa baiana, com domínio em diversos bairros de Salvador, na Região Metropolitana, no Centro-Norte Baiano, no Sertão Baiano e na região da Chapada Diamantina. Em apenas dois anos após sua fundação, em 2017, o BDM já dominava 10 bairros de Salvador e expandiu suas operações para os estados de Sergipe, Goiás e Alagoas, com uma estimativa de 15 mil membros na Bahia. O Bonde do Maluco é aliado da facção criminosa Primeiro Comando da Capital. Seus símbolos incluem a inscrição da sigla BDM ou da frase “Tudo 3” em muros.
  • Comando da Paz (CP): Surgiu em 2007 como uma gangue prisional em Salvador, com forte presença na Região Metropolitana e em algumas áreas do interior do estado. O CP entrou em declínio devido a rachas internos.11 Seu principal inimigo era o Bonde do Maluco (BDM). Em 2020, o Comando Vermelho, buscando aumentar sua influência, fez um acordo com o Comando da Paz, que foi dissolvido e passou a fazer parte da facção carioca.
  • Outros Grupos:
    • Katiara (KT): Derivada do Primeiro Comando do Recôncavo, a Katiara surgiu em 2013, ligada à história de um líder em Nazaré. É rival do BDM e aliada do Comando Vermelho.
    • Ordem e Progresso (OP) / Tropa do A: Esta facção é fruto de uma dissidência do Comando da Paz, ocorrida após a absorção deste pelo Comando Vermelho.6 É rival do BDM.
    • PCC na Bahia: O grupo paulista participa do tráfico baiano desde 2018, quando sua parceria com o BDM começou a ser rastreada. No entanto, sua presença territorial direta na Bahia é menor que a do Comando Vermelho.
Rivalidades e Alianças Regionais: Impacto na Violência e Controle Territorial

A Bahia é palco de uma complexa rede de alianças e rivalidades: de um lado, o Bonde do Maluco (BDM), aliado do PCC; de outro, o Comando Vermelho (CV) e seus aliados, como o extinto Comando da Paz (CP), a Katiara (KT) e a Ordem e Progresso (OP). A dissolução do CP e sua absorção pelo CV é um movimento estratégico para consolidar o poder do Comando Vermelho na região.

A síntese comparativa entre a MPA e o Comando da Paz (CP) no artigo destaca diferenças operacionais e de símbolos: a MPA é associada ao PCC-SP, utiliza o símbolo da caveira e cruz (1533 MPA), e suas estratégias incluem queima de ônibus, bloqueio de vias e toque de recolher, além de comercializar produtos da marca Cyclone. O CP, por sua vez, era ligado ao CP-Salvador, usava o símbolo do escorpião (315 CP), e suas práticas eram mais discretas, mas incluíam esquartejamento de corpos, comercializando produtos da marca Nike. Essas disputas são travadas pelo controle de prisões e pelo lucrativo mercado da cocaína.

A Bahia não é apenas um estado com problemas criminais locais, mas um verdadeiro “campo de batalha” onde as duas maiores facções nacionais, PCC e CV, travam uma guerra por procuração por meio de seus aliados locais. Os conflitos entre o BDM e os grupos ligados ao CV (CP, Katiara, Tropa) são manifestações dessa disputa macro-criminal. A dissolução do CP e sua absorção pelo CV é um movimento estratégico para consolidar a influência do Comando Vermelho na região. Isso implica que a violência na Bahia, e em outros estados, está intrinsecamente ligada a dinâmicas maiores de disputa por rotas de tráfico e controle de mercados. Soluções locais isoladas serão insuficientes sem uma estratégia nacional coordenada que compreenda e combata essas guerras territoriais em larga escala.

A Tabela 2 fornece um panorama detalhado das principais facções criminosas na Bahia, incluindo suas origens, territórios de atuação, atividades, alianças e rivalidades. Esta tabela é essencial para desmistificar a complexa teia de relações entre as facções na Bahia, permitindo uma visualização clara de quem está aliado a quem e quem são os rivais. Essa clareza é fundamental para entender a dinâmica da violência e a disputa por territórios e mercados ilícitos. Ao mapear as origens e táticas, a tabela oferece um panorama estratégico para a compreensão do cenário criminal regional, destacando como as facções nacionais se inserem e influenciam as dinâmicas locais.

Tabela 2: Principais Facções Criminosas na Bahia: Origem, Alianças e Rivalidades

FacçãoOrigem/FundaçãoTerritório de Atuação PrincipalAtividades PrincipaisAliançasRivalidadesSímbolos/Táticas Notáveis
PCC1993, SP (Prisões)Nacional, Bahia (via aliados)Tráfico de drogas (cocaína), armas, sequestros, roubos a bancoBDM, MPACV, CPCarpas, escorpiões, símbolos chineses; Yin e Yang, “paz, justiça e liberdade”
Bonde do Maluco (BDM)2015, Complexo Penitenciário da Mata Escura, SalvadorSalvador, Região Metropolitana, Centro-Norte, Sertão, Chapada Diamantina (BA); SE, GO, ALAssassinatos, tráfico de drogas, assaltos, rebeliões, atividades terroristasPCC, TCP, GDE, OKD, SDC, MPACV, KT, PCEInscrição “BDM” ou “Tudo 3” em muros
Mercado do Povo Atitude (MPA)Antiga, Sul e Extremo Sul da BahiaSul e Extremo Sul da BahiaDistribuição de armas e drogas no atacadoPCC (desde 2018)CPCaveira e cruz (1533 MPA), queima de ônibus, bloqueio de vias, toque de recolher, marca Cyclone
Comando Vermelho (CV)Rio de JaneiroNacional, Bahia (via aliados)Tráfico de drogas, guerra territorialCP (desde 2020), KT, APCC, BDM, TCPControle de pavilhões prisionais
Comando da Paz (CP)2007, Prisões de SalvadorRegião Metropolitana de Salvador, interior da BahiaAssassinatos, assaltos, tráfico de drogas, extorsão, rebeliões CV, KT, ABDM, PCC, Tropa, OPSímbolo do escorpião (315 CP), práticas mais discretas, esquartejamento, marca Nike
Katiara (KT)2013, Recôncavo Baiano (derivada do Primeiro Comando do Recôncavo)Recôncavo Baiano(Não especificado)CVBDM(Não especificado)
Ordem e Progresso (OP)Fruto de dissidência do CP (após absorção pelo CV)(Não especificado)(Não especificado)(Não especificado)BDMConhecida como Tropa do A
4. O Crime Organizado como Fenômeno Social e Econômico Complexo
Crítica à Abordagem Exclusivamente Policial: A Necessidade de uma Visão Multidimensional

O artigo central critica a perspectiva das autoridades que encaram o crime como uma questão meramente policial, a ser combatida unicamente pela força. Em contraste, sugere que o crime organizado se adapta e se prolifera em um “mundo líquido”, uma referência ao conceito de Zygmunt Bauman, onde as fronteiras se dissolvem e jovens, em meio à insustentabilidade social, buscam estabilidade no universo do crime. A ineficácia das ações policiais superficiais é contrastada com a “engrenagem social que alimenta o crime”. O combate ao crime organizado, portanto, precisa ser travado em múltiplos terrenos e transcende largamente sua dimensão puramente policial.

A “Ética do Crime” e a Adaptação em um “Mundo Líquido”

As facções criminosas não emergem de um simples desvio moral, mas se adaptam e se reorganizam continuamente. Dentro do universo do crime, existe uma “lei” direta e uma percepção de “dignidade” mesmo na morte, desde que as regras da facção sejam rigorosamente seguidas. O “proceder” do PCC é um exemplo claro desse código de ética interno, que não apenas regula a conduta dos filiados, mas também serve para fortalecer a organização e seu mercado ilícito.

A referência a Zygmunt Bauman e ao “mundo líquido” sugere que as facções se adaptam rapidamente à fluidez social, enquanto o Estado, por vezes, permanece rígido em suas abordagens. A busca por “estabilidade no mundo do crime devido à insustentabilidade social” e a existência de uma “ética do crime” indicam que o crime organizado oferece uma estrutura, identidade e até mesmo uma forma de “dignidade” para jovens em contextos de exclusão social. Isso pode ser interpretado como um reflexo direto da falha do Estado em prover oportunidades e segurança social. Consequentemente, a repressão policial, por si só, não resolverá o problema se as causas sociais e econômicas que alimentam o recrutamento e a legitimação interna das facções não forem abordadas de forma abrangente. Políticas públicas de inclusão social, educação e geração de renda são tão cruciais quanto as ações de segurança.

O Poder Econômico das Organizações Criminosas: Diversificação de Mercados Ilícitos

O poder das organizações criminosas não se limita ao tráfico internacional de drogas e armas. Elas exploram uma vasta gama de mercados ilícitos, operando como verdadeiras corporações criminosas:

  • Crimes Ambientais: Incluem garimpo ilegal, desmatamento, grilagem de terras e tráfico de animais silvestres. A Amazônia brasileira tornou-se uma área estratégica para o tráfico de cocaína e skank, resultando na expansão de organizações criminosas e no crescimento da violência na região. Há 22 facções diferentes presentes em ao menos 178 municípios da Amazônia Legal, e a conexão entre garimpo e tráfico de drogas é conhecida como “narcogarimpo”. As atividades ilegais na Amazônia, especialmente na Terra Indígena Yanomami, têm agravado as condições de saúde dos povos indígenas, com contaminação por mercúrio e casos de desnutrição grave.
  • Crimes Patrimoniais: Abrangem roubo de cargas, veículos, medicamentos de alto custo, bancos e comércios.
  • Corrupção de Agentes Públicos: Um mecanismo crucial para a infiltração e operação das organizações.
  • Contrabando: Inclui cigarros (majoritariamente do Paraguai, resultando em R$ 94,4 bilhões em impostos não arrecadados nos últimos onze anos), combustíveis e eletroeletrônicos.
  • “Serviços” Ilegais: As facções vendem “proteção”, cobram pedágio para acesso a serviços públicos (como zeladoria urbana, luz, telefone, gás, retirada de lixo e transporte público), e atuam em licenciamento ambiental, construção e ocupação irregulares de prédios e habitações.
  • Receptação de Celulares Roubados: Utilizados para a prática de crimes cibernéticos.
Estimativas de Faturamento e o Custo para a Economia Formal Brasileira

Os dados sobre o faturamento do PCC, o valor da cocaína não apreendida e o ônus econômico total para o Brasil demonstram que o crime organizado não é apenas um problema de segurança pública, mas uma “economia paralela” que drena bilhões da economia formal. A diversificação para crimes ambientais, contrabando e “serviços” ilegais mostra que as facções operam como verdadeiras corporações, explorando qualquer nicho de mercado lucrativo.

O PCC, por exemplo, tem um faturamento anual estimado em, no mínimo, US$ 1,3 bilhão (equivalente a R$ 6,7 bilhões), um valor superior ao gasto com segurança pública por 23 Unidades da Federação em 2022. A cocaína que transita pelo Brasil e não é apreendida gera um faturamento estimado em US$ 65,7 bilhões (R$ 335,10 bilhões), o que corresponde a 3,98% do PIB brasileiro em 2021. O Brasil é, lamentavelmente, o segundo maior consumidor de cocaína do mundo.

O ônus econômico direto para o setor privado, a sonegação de impostos e as perdas de concessionárias de serviços públicos devido a furtos de energia e água foram estimados em R$ 453,5 bilhões em 2022. Esse capital é desviado da economia formal, impedindo o crescimento e o bem-estar social. O impacto econômico do crime no setor privado oscila entre 1,8% e 4,2% do PIB, considerando custos diretos (seguros, segurança privada) e indiretos (redução da população economicamente ativa devido a homicídios).

A Tabela 3 quantifica a dimensão econômica do crime organizado, transformando um problema abstrato em um impacto financeiro tangível. Ao comparar o faturamento das facções com orçamentos estatais e o PIB, ela evidencia o poder econômico avassalador dessas organizações e a urgência de estratégias que visem descapitalizá-las. A diversificação das fontes de receita também sublinha a complexidade do desafio e a necessidade de abordagens multifacetadas, indo além do foco tradicional no tráfico de drogas.

Tabela 3: Estimativas de Faturamento e Impacto Econômico do Crime Organizado no Brasil

Organização/AtividadeFaturamento/Custo Anual (Estimativa)Comparativo/Percentual do PIBFontes de Receita Adicionais/Diversificação
PCCUS$ 1,3 bilhão (R$ 6,7 bilhões)Maior que o gasto de segurança pública de 23 UFs em 2022Tráfico de drogas, armas, sequestros, roubos a banco, empresas de transporte público para lavagem
Tráfico de Cocaína (não apreendida)US$ 65,7 bilhões (R$ 335,10 bilhões)3,98% do PIB brasileiro em 2021(Principalmente tráfico de cocaína)
Contrabando de CigarrosR$ 94,4 bilhões (impostos perdidos em 11 anos)(Não especificado)Contrabando de combustíveis, eletroeletrônicos
Atividades Ilícitas com Criptoativos (global)US$ 24,2 bilhões (movimentados globalmente em 2023)(Não especificado)Golpes, fraudes, tráfico de pessoas, armas e drogas, lavagem de dinheiro
Ônus Econômico Direto (setor privado, sonegação, perdas concessionárias)R$ 453,5 bilhões (em 2022)1,8% a 4,2% do PIB (para o setor privado)Crimes ambientais (garimpo ilegal, desmatamento), patrimoniais, corrupção, “proteção”, pedágio em serviços públicos, licenciamento ambiental, construção irregular, receptação de celulares
Mecanismos de Lavagem de Dinheiro: Criptoativos, Ouro e Empresas de Fachada

A prioridade máxima no combate ao crime organizado deve ser a interrupção dos fluxos financeiros ilícitos. Isso exige investimentos massivos em inteligência financeira, capacitação de agentes, cooperação interinstitucional (COAF, PF, Receita, MP), e reformas legais que facilitem o rastreamento, bloqueio e confisco de bens. A “guerra às drogas” tradicional deve ser complementada, ou mesmo substituída, por uma “guerra às finanças do crime”.

O anonimato e a portabilidade das criptomoedas permitem que organizações criminosas estabeleçam mercados virtuais para golpes, fraudes, tráfico de pessoas, armas e drogas, e lavagem de dinheiro. Em 2023, atividades ilícitas com criptoativos movimentaram ao menos US$ 24,2 bilhões globalmente. A cadeia de regulação do ouro é fragilizada, beneficiando organizações criminosas que o utilizam para lavagem de dinheiro, com a presunção de boa-fé na origem e a falta de declaração da capacidade produtiva das áreas de extração contribuindo para essa vulnerabilidade. O PCC, em particular, tem diversificado seus negócios para lavar dinheiro, como evidenciado por investigações que apontam o uso de empresas de transporte público em São Paulo para esse fim.1

5. Desafios e Perspectivas no Combate ao Crime Organizado no Brasil
A Ineficácia das Abordagens Tradicionais (Lei e Prisão)

As abordagens tradicionais, centradas na aplicação da lei e no encarceramento, têm se mostrado “muito pouco eficazes” no combate ao crime organizado em escala global. A prisão de indivíduos, embora frequentemente explorada pela mídia, não é uma estratégia suficiente para desmantelar o crime organizado, pois o foco principal deve ser em quebrar o seu principal motivador: o lucro. A afirmação de que “as instâncias formais de controle, a lei, a prisão, etc., são formas que se têm revelado muito pouco eficazes no combate ao crime em todo o mundo”, e a constatação de que o PCC e o Comando Vermelho “dirigem os negócios do crime dentro das prisões”, levam à conclusão de que prender líderes não é suficiente. O principal motivador do crime é o lucro. Sem lucro, não há crime.

Fragilidades Institucionais e Desarticulação Estatal

O crescimento do crime organizado está intrinsecamente ligado à “fragilidade e desarticulação das respostas estatais”. O Brasil possui um sistema de segurança pública e justiça criminal que carece de articulação entre os Poderes da República e as diversas agências de aplicação da lei. Não existe um órgão ou espaço único de coordenação nacional para as respostas ao crime organizado, o que frequentemente leva cada órgão a operar de forma isolada, e por vezes, em atrito. A legislação atual impõe restrições ao compartilhamento de informações de inteligência sem prévia autorização judicial, dificultando a alimentação de sistemas de inteligência e a otimização do processamento de comunicações de operações financeiras suspeitas. Além disso, o modus operandi do crime organizado gera disputas de competências entre as 86 diferentes polícias existentes no país.

Relatórios governamentais, como o “Mapa das Organizações Criminosas 2024” da SENAPPEN, demonstram que o Estado brasileiro possui uma compreensão cada vez mais detalhada da magnitude e complexidade do crime organizado, identificando 88 organizações criminosas com poder financeiro independente e presença prisional. No entanto, estudos como o do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e a análise de Fernando Conde Monteiro apontam para a persistente ineficácia das abordagens tradicionais e a desarticulação estatal. Isso revela uma lacuna entre o conhecimento técnico-analítico sobre o problema e a capacidade ou vontade política de implementar reformas estruturais e coordenadas. A inteligência gerada, como o Mapa da SENAPPEN, é valiosa, mas sua tradução em políticas eficazes é dificultada por barreiras institucionais, legais e pela fragmentação das forças de segurança.

A Importância da Cooperação Internacional e do Foco no Lucro

O combate ao crime organizado só será verdadeiramente eficaz com a união de esforços internacionais focados na descapitalização dessas organizações. A internacionalização do PCC, que se associou à máfia italiana Ndrangheta e fatura com o tráfico de cocaína para a Europa, é um exemplo claro da necessidade de cooperação global. A solução reside em uma política global que se concentre em retirar as vantagens financeiras do crime, utilizando instrumentos do direito civil e penal, e reorganizando os sistemas bancários e fiscais.

A reiteração, por diferentes fontes, de que o lucro é o principal motivador do crime organizado e que prender líderes não é suficiente, estabelece uma relação de causa e efeito clara. Sem lucro, não há crime. A diversificação para criptoativos e ouro demonstra a adaptabilidade das facções em proteger seus ganhos. A prioridade máxima no combate ao crime organizado deve ser a interrupção dos fluxos financeiros ilícitos. Isso exige investimentos massivos em inteligência financeira, capacitação de agentes, cooperação interinstitucional (COAF, Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público), e reformas legais que facilitem o rastreamento, bloqueio e confisco de bens. A “guerra às drogas” tradicional deve ser complementada, ou mesmo substituída, por uma “guerra às finanças do crime”.

Propostas de Reformas e Políticas Públicas Integradas

É fundamental reconhecer a complexidade do problema e a necessidade de “ações combinadas de repressão qualificada com reformas legais e normativas” na forma como o Estado tem atuado. O “Mapa das Organizações Criminosas 2024” da SENAPPEN é uma ferramenta crucial para apoiar a formulação de políticas, alocar recursos eficientemente, promover a integração e coordenação entre esferas governamentais e forças de segurança, e aprofundar a compreensão das dinâmicas criminosas.

O documento propõe um plano de ação focado em:

  • Criação de um Comitê Interministerial de Combate ao Crime Organizado.
  • Aprovação de uma Lei Geral de Proteção de Dados de Interesse da Segurança Pública.
  • Regulamentação de leis sobre ativos virtuais e apostas.
  • Fortalecimento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
  • Promoção de alterações constitucionais e legais para racionalizar as bases de dados da segurança pública.

A existência de 86 polícias diferentes e a falta de um órgão de coordenação nacional, somadas às restrições legais para o compartilhamento de informações de inteligência, criam um ambiente de ineficiência e atrito. O crime organizado, por outro lado, opera de forma integrada e transnacional. A resposta estatal precisa, portanto, mimetizar a organização e a fluidez do crime. A criação de um Comitê Interministerial e a Lei Geral de Proteção de Dados de Interesse da Segurança Pública são passos essenciais para superar a fragmentação e permitir uma atuação coordenada e baseada em inteligência, tanto em nível nacional quanto internacional.

6. Conclusão: Síntese dos Desafios e Caminhos para o Futuro

O crime organizado no Brasil é um fenômeno profundamente enraizado, que se manifesta não apenas na violência explícita, mas na subversão de instituições, na drenagem de vastos recursos econômicos e na imposição de ordens paralelas em territórios e prisões. Sua complexidade exige uma compreensão que vá além das abordagens simplistas e reativas.

A evolução do PCC, de uma gangue prisional para uma organização sofisticada que “gere” a população carcerária e expande sua influência por meio de alianças estratégicas, como a observada com a MPA na Bahia, demonstra uma notável adaptabilidade e resiliência organizacional. O poder econômico do crime organizado é colossal, operando como uma economia paralela que desvia bilhões da economia formal e se diversifica em múltiplos mercados ilícitos, desde a exploração ambiental na Amazônia até a movimentação de criptoativos. A persistente ineficácia das abordagens tradicionais de segurança pública, aliada à desarticulação estatal e à falta de foco na descapitalização dessas organizações, perpetua o ciclo de seu fortalecimento.

O combate eficaz ao crime organizado requer uma mudança fundamental de paradigma. Não basta apenas prender líderes; é imperativo atacar o lucro, desarticulando as redes financeiras e os mecanismos de lavagem de dinheiro que sustentam essas operações. A integração e a coordenação entre as diversas esferas governamentais e forças de segurança são cruciais, exigindo a superação de barreiras legais e institucionais para o compartilhamento de informações estratégicas. A abordagem deve ser multidimensional, combinando repressão qualificada e inteligência com políticas sociais e econômicas que ofereçam alternativas à “ética do crime” e combatam as raízes da insustentabilidade social que alimentam o recrutamento. Além disso, a cooperação internacional é indispensável, dada a natureza transnacional das operações do crime organizado.

O futuro do combate ao crime organizado no Brasil dependerá da capacidade do Estado de reconhecer a profundidade do desafio, de aprender com as dinâmicas de adaptação das facções e de implementar reformas estruturais que priorizem a inteligência financeira, a coordenação interinstitucional e a blindagem da economia formal. Simultaneamente, é essencial investir na reconstrução social e na humanização do sistema prisional, transformando esses espaços de incubação do crime em ambientes de ressocialização e controle efetivo.

MP-SP anuncia: é iminente a derrota da facção PCC

O eficiente cerco à facção Primeiro Comando da Capital, por parte do Ministério Público de São Paulo e do GAECO, abalou as estruturas e a liderança da facção paulista.

Se quiser assumir meu lugar, toma que o filho é teu!

E no princípio eram trevas, no início do início, e é para lá que eu te levarei, para que você possa me entender, não só a mim, mas também a Aline, e a Lincoln Gakya e seus colegas do MP-SP.

Você deve saber de onde nós viemos e o que já superamos, para só então decidir o que você vai fazer. E se você ou o Lincoln e seus colegas quiserem pegar meu lugar, boa sorte, vai firme e vamos ver se vão aguentar.

Não adianta se esconder ou tapar os ouvidos, pois os espíritos das trevas não se calarão até que eu, agora, ou alguém, algum dia, lhe conte essa história. E se já for tarde, e se eu já tiver me juntado a eles nas trevas, só lamento por você e por Lincoln e seus colegas.

Você acha que sabe o que é sofrer, mas poucos viveram nas quebradas trabalhando, de sol a sol, para chegar ao dia do pagamento e virem todo seu suor roubado, ao entrar na favela ou no bairro, pelo moleque da rua de baixo, para pagar o arrego para o policial do tático…

… ou para ser vendido assim que ia para dentro da muralha, para ser usado por um outro preso ou carcereiro como achassem melhor — geralmente sendo estuprados, ou obrigando seus familiares a se arriscarem para levar drogas e objetos para dentro das trancas, ou terem que entregar suas mães e irmãs para o prazer sexual de outros presos, ou servindo de garagem (não vou explicar)…

O site eb.mil.br replica uma reportagem de Aline Ribeiro para O Globo e me obriga a vir até você para lhe levar a esse passado, para que você, por si mesmo, possa vislumbrar o futuro que, assim como eu, Aline e Lincoln e seus colegas já estamos vislumbrando.

Onde citei neste site a pacificação → ۞

Alguém pode temer o fim do PCC?

Meu pai vivia me advertindo: “tome cuidado com o que você deseja. Você pode acabar por conseguir” .

Os pais de Lincoln e de seus colegas do MP-SP deveriam ter dado o mesmo conselho a eles, pois agora que estão perto de realizar o sonho impossível de acabar com o PCC, parece que começam a ver que talvez tivesse sido melhor ter tido outro desejo. Agora é tarde:

“A ruptura é inevitável. É o início do fim de uma era – diz o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado de Presidente Prudente.” Quatrocentos integrantes da facção fora da cadeia, farão o possível para “tirar o câncer da nossa família” que “não pensa no coletivo e só quer ostentar enquanto os irmãos passam fome em outros estados”.

Lincoln e seus colegas derrotaram a Hidra de Lerna, cortando sua cabeça Uh, Uh!!!

O titular da Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo, Lourival Gomes, lembra que sempre “vão surgir” outras pessoas para assumirem as funções, mas ressalta: “Estaremos aqui para combater“...

… e Martinho Luthero na véspera de sua morte, tomou em sua mão um giz e escreveu na parede, “em vida fui tua peste, morto, serei tua morte” referindo-se ao Primeiro Comando da Capital, ou não.

Aline, eu, Lincoln e seus colegas nos lembramos de como eram as trevas antes que Marcos Willians Herbas Camacho e sua equipe assumissem o patriarcado da Família 1533. Se você não se lembra, vou pedir para Deiziane lhe contar um pouco de como era…

Onde citei neste site o promotor de Justiça Lincoln Gakiya → ۞

A pacificação do PCC na Modernidade Líquida

E no princípio eram trevas, no início do início, antes que a paz chegasse à comunidade do Serviluz em Fortaleza com os acordos firmados entre as gangues de jovens locais, como ela narra após dezenas de entrevistas com moradores e pessoas que atuam na região.

Deiziane Pinheiro Aguiar apresentou suas conclusões ao Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará: Marcado para Morrer: moralidades e socialidades das crianças na comunidade do Serviluz.

Se você realmente quer a paz, deve saber de onde nós viemos e o que nós já superamos, para só então decidir o caminho que deve tomar, e não fazer como o Governo cearense, que creditou a baixa da taxa de homicídios a suas políticas de segurança pública.

Você pode concordar ou não com a realidade, mas ela continuará prevalecendo sobre sua opinião, e Deiziane a analisou e previu o fim desse equilíbrio e da pacificação. muito antes que os governantes cearenses, Aline, eu e Lincoln e seus colegas o fizéssemos.

Onde citei outras produções das universidades federais neste site → ۞

O amigo e o inimigo moram ao lado

O deputado Ferreira Aragão concorda com Deiziane quanto à influência que as organizações criminosas têm dentro da comunidade:

“No bairro de Serviluz, quando alguém é morto, não se recorre mais à Polícia ou à Justiça.’É o chefe da gang que é buscado para resolver o crime. E vão lá fazer justiça com as próprias mãos’”.

Poucos garotos que vivem naquela comunidade ouviram falar em Zygmunt Bauman, mas Deiziane afirma que o sociólogo e filósofo polonês descreveu com perfeição o que se passa pela mente dos meninos do mundo do crime:

“Existem amigos e inimigos. […] Amigos e inimigos colocam-se em oposição uns aos outros. Os primeiros são o que os segundos não são e vice-versa. Isso, no entanto, não é testemunho de sua igualdade. […] Os inimigos são o que os amigos não são. Os inimigos são amigos falhados; eles são a selvageria que viola a domesticidade dos amigos, a ausência que é uma negação da presença dos amigos. O avesso e assustador “lá fora” dos inimigos é, […] “aqui dentro” dos amigos. […] A oposição entre amigos e inimigos separa a verdade da falsidade, o bem do mal, a beleza da feiura […] o próprio do impróprio, o certo e o errado […].”

Os garotos podem não ter as palavras bonitas de Bauman, porém sabem que quem não corre pelo lado certo do lado errado da vida, é o inimigo. Mas quem traça esses limites, determina a pacificação e decreta a guerra?

O que falei neste site sobre o Ceará → ۞

Os limites da paz são bem definidos

Deiziane conta que dois meses após uma chacina na Estiva, a “paz” foi estabelecida com a Favela, mas antes disto algumas mortes antecederam o evento de pacificação. A execução de um jovem envolvido com o tráfico local na esquina da Favela por um grupo da Estiva levou ao “acordo de paz”:

  1. Paz da Estiva com a Favela;
  2. Paz de todos os segmentos com a Pracinha;
  3. Paz com a Rua do Bagulho; e
  4. Paz com a rua São Sebastião, a única que havia sobrado como inimiga.

Na rua São Sebastião moravam numa casa cinco jovens envolvidos com o crime que estavam confinados, não poderiam sair pois, se o fizessem, seriam executados pelas facções inimigas.

Um desses jovens estava com uma tornozeleira eletrônica. Essa situação gerava uma zona de tensionamento na vizinhança, pois, como todos outros segmentos haviam acordado a paz, a qualquer momento um confrontamento poderia emergir nessa rua, ou por parte dos jovens envolvidos no crime ou pela polícia. Após a intervenção de algumas lideranças e vizinhos, os jovens que moravam nessa casa resolveram aceitar a “paz” e um alívio foi instaurado na rua.

Deiziane descreveu com detalhes como foi feito por lá a divisão de áreas, e eu acompanhei uma situação semelhante aqui em São Paulo, no bairro Jardim Morada do Sol, só mudava os nomes das ruas e dos garotos, mas o mesmo padrão.

Então quem traçou esses limites, determinou a pacificação?

Onde citei outros sociólogos neste site → ۞

O Ceará pode ser aqui

Há poucas semanas, fui à Indaiatuba gravar uma entrevista. A cidade tem uma taxa de homicídios de 0,86 para cada cem mil habitantes – muito diferente do Ceará, com seus 52 para cada cem mil – e, se não bastasse isso, está entre as 80 com maior IDH do país.

Há alguns anos, em um dos meus primeiros estudos a respeito da facção, conheci o bairro Jardim Morada do Sol, hoje com 70 mil habitantes, e que, na época, vivia em clima de incertezas: assaltos, furtos em residências, estupros e guerra de gangues.

Haviam três biqueiras principais que disputavam entre si os limites de atuação, e os garotos, para se garantir, andavam armados em plena luz do dia. Lembre-se que não estou falando do Serviluz no Ceará, e sim do bairro da hoje pacata e progressista cidade paulista.

A ordem para a paz e os limites de cada grupo foram definidos por acordos fechados dentro das muralhas da Penitenciária de Hortolândia, que determinou, inclusive, pena para os crimes cometidos contra a população próxima às biqueiras.

Mas quem traça esses limites, determina a pacificação e decreta a guerra?

A vitória dos moderados e o controle das bases

E no princípio eram trevas, no início do início, antes que a paz chegasse às diversas cidades e estados sob a hegemonia do Primeiro Comando da Capital, que sob o controle dos moderados mantém a pacificação e o controle da base.

As mortes de Rogério Geremias Simone, o Gegê do Mangue, Edilson Borges Nogueira, o Birosca, Fabiano Alves de Souza, o Paca, Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro, entre outros, comprovam algo que ouvi há alguns anos de um faccionário:

“Eles estão mais seguros lá dentro que na rua. Se sairem morrem.”

A admiração dos garotos do grupo criminoso, pelo Marcola, não foi arranhada pela revelação do colega de Lincoln, o promotor de Justiça Marcio Sergio Christino, que acusou o líder máximo da facção de ter sido um informante da polícia e ter entregue outros PCCs .

No entanto, as rígidas regras impostas pelo grupo liderado por Marcola justificam a indignação, principalmente nos níveis intermediários da organização, que se sente tolhida ao não poder armar as biqueiras para reagir às ações policiais, entre outras limitações.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

No entanto, o lucro muitas vezes fala mais alto, um piloto de helicóptero da facção recebe 400 Reais por quilograma de pasta base de cocaína transportada e 3% do dinheiro, chegando a ganhar 200 mil Reais em um único voo.

Cabelo Duro que chefiava o esquema na Baixada Santista, chegava a lucrar 450 milhões de Reais todo o ano, mas mesmo com toda essa grana e poder, depois das mortes de Gegê e de Paca, ele percebeu que o próximo a ser morto pela facção.

Não deu outra. Integrantes sequestraram Nado que era de toda confiança de Cabelo Duro, desbloquearam o celular dele e usaram para chama-lo para o flat do Tatuapé, onde armaram uma casinha: Cabelo Duro foi metralhado e fala-se que nesse mesmo dia Nado foi decapitado e enterrado em região de favela.

O mundo dá voltas, Gegê e Paca foram mortos por Cabelo Duro, Cabelo Duro foi morto por Galo, Galo foi fuzilado na Zona Leste de São Paulo… — Luís Adorno para o R7

A vitória de Lincoln e seus colegas e o fim dos moderados

A disputa para ampliação de limites territoriais, influência ou poder acontece em todos os grupos sociais, seja entre as crianças nas creches ou nas ruas, ou entre os adultos nas igrejas, nos locais de trabalho, nas biqueiras, e até mesmo dentro das viaturas policiais.

Entre os membros de facções que disputam o mesmo território e dentro das organizações criminosas isso não poderia ser diferente, essa é uma característica humana.

Há quem prefira não se arriscar e deixar a luta para outros: esses são os cordeiros, que servem de alimento na cadeia alimentar e mantêm nossa estrutura social funcionando com certa estabilidade, como nos ensinou Étienne de La Boétie em sua obra Discurso da Servidão Voluntária.

Mas entre os faccionados não existem cordeiros. O mais pacífico é um alfa que tem seu domínio territorial garantido por sua força — não há amigos dentre os irmãos, companheiro e aliados, há o respeito pelo mais forte e pelo grupo — como acontece em qualquer alcatéia.

Lincoln e seus colegas estão agora a um passo da vitória. As ações do MP-SP e do GAECO enfraqueceram o grupo dos Catorze alfas que lideram a facção, e é por essa razão que Lincoln acredita que o PCC se desintegrará nas guerras internas.

Onde citei o GAECO neste site → ۞

E no final serão as trevas, no fim do fim

A liderança enfraquecida terá que disputar o poder dentro das muralhas de Presidente Prudente, e de lá essa guerra vai se espalhar para o restante do estado.

Enquanto isso, centenas de pequenas facções sem estrutura aterrorizarão os bairros periféricos de vários estados, que hoje já estão pacificados, e várias regiões seguirão o destino dos morros cariocas, com grupos de milicianos disputando o tráfico.

As periferias das cidades paulistas, os cortiços, as ocupações e as biqueiras próximas aos centros das cidades, sem garantias e ordem, vão se armar para garantir suas bases comerciais de tráfico de drogas.

As viaturas policiais, que hoje abordam os cidadãos com certa tranquilidade, pois quase todas as biqueiras paulistas atuam desarmadas, voltarão a enfrentar grupos armados, e a morte de policiais será liberada (hoje é necessária autorização e é quase impossível conseguir).

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David

Vencemos o Crime Organizado – Uh, uh!!!

Entregaremos para aqueles que nasceram após a década de 1990 uma São Paulo e um Brasil como eles nunca viram, livre da hegemonia da facção Primeiro Comando da Capital!

Só não entendo por que não senti a empolgação que esse momento merecia por parte da repórter Aline Ribeiro e do promotor de Justiça Lincoln e seus colegas, afinal, vencemos – Uh, uh?

Se eu colocasse essa manchete estava preso

PCC a facção que não para de crescer
Isto É  → Vicente Vilardaga e Fernando Lavieri
→ São Paulo
→ Organização Criminosa
No dia seguinte que eu postasse um artigo com essa chamada seria levado para prestar depoimento e responder por apologia ao crime, então é melhor lerem a reportagem na fonte (desculpe se me rio: kkkk).

PCC e Caminhoneiros — SALVE FALSO

Não procede a mensagem onde o PCC estaria apoiando o movimento dos caminhoneiros.

Está correndo nas redes sociais um suposto Salve da facção Primeiro Comando da Capital, PCC 1533, constando a assinatura do Geral dos Estados e Países, onde estaria conclamando os membros da facção à botar terror como apoio à greve dos caminhoneiros.


A facção paulista não se envolve em questões políticas — sua luta é contra a opressão do Sistema Carcerário.

Todo ato de terrorismo e vandalismo é repudiado pela facção por prejudicar a população.

O movimento dos caminhoneiros é uma manifestação legítima de indignação contra os abusos cometido pelo governo, e está tendo apoio público.

Cabe ao governo resolver essa questão que eles mesmos criaram, no entanto aqueles que se encontram dentro do Sistema Prisional, não podem ser ainda mais sacrificados do que já são.

Se alguém quer usar o Primeiro Comando da Capital como desculpa para o uso da força contra os caminhoneiros, deve procurar outro culpado.

Bem, foi mais ou menos isso, só que com outras palavras que afirmou o Geral do MGI —em caso de dúvida o membro da facão deve sempre procurar o salveiro ou o sintonia para não ser chamado para dar explicações por infração prevista no Dicionário:

4. Atitude isolada:
Fica caracterizada quando um integrante ou companheiro age sem buscar a Sintonia ou responsável pela quebrada, sendo agressão, morto, ou algo que venha a prejudicar alguém ou denegrir a imagem do Comando.
Punição: 90 dias quando de natureza leve ou cobrança com análise da Sintonia.

33. Mau exemplo:
Fica caracterizado quando o integrante foge do que rege a nossa disciplina, não passando uma imagem nítida da organização, quando se coloca como faccionário diante da massa, desrespeitando e agindo totalmente oposto ao que é pregado pela facção.
Punição: exclusão e fica sendo analisado pela irmandade local e pela Sintonia.

O que falei sobre a cobrança neste site → ۞

Cenas de vandalismo em alguns pontos do país

O tenente-coronel Otávio Manoel Ferreira Filho informa que o setor de inteligência da Polícia Militar não encontrou indícios sobre a participação do Primeiro Comando da Capital nas ações violentas cujas imagens estão circulando pela internet.

FALSO COMICADO GERAL PCC
👇🏽. 25/05/2018
Nois da sintonia geral viemos através deste comunicado deixar claro que vamos entrar na luta pelo Brasil ,pelo povo brasileiro ,não vamos admitir esse governo corrupto brincar com a cara de nossas famílias de nosso povo ,lutamos pela igualdade ,pela paz ,mais chegou o momento de não ficar mais qeto de braços cruzados apartir de hoje o pcc primeiro comando da capital entrará nessa guerra contra o governo em apoio aos camiioneiros e a toda nação brasileira a sintonia geral dos estados e países deixa bem claro que a guerra vai começar ,nossos irmãos e compenheiros já estão sofrendo as consequências dessa grevi justa e por estar do lado do povo entraremos na guerra ,nossa luta e contra esse estado falido é corrupto ,atenção população vamos deixar bem claro para todos que qen estiver desfilando de carro na rua sofrerá as consequências ,estamos em apoio aos camiioneiros ,não é justo eles estar passando fome nas beiras de estradas ,enquanto o resto do povo fica brigando pra abastecer seus carros com gasolina cara ,outra entra na guerra a favor dos camiioneiros ou nun sai de casa o negócio é o seguinte vamos mandar taca fogo geral em tudo qe e do governo ,vamos colocar fogos em postos de gasolina ,en tudo qe não aderir nossa causa apartir de hoje será um por todos e todos por um e para quebrar geral vamos jogar o estado no chão repassem pra geral pra todos irmão e companheiros e população da rua e sistema repassem para todos os grupos vamos ajudar para o Brasil .
Ass sintonia geral dos estados e países

Rícard Wagner Rizzi

O Primeiro Comando da Capital aceita gays? LGBTPCC

A organização criminosa paulista Primeiro Comando da Capital PCC não aceitava o comportamento homossexual em suas fileiras, isso mudou, mas só um pouco.

Afinal um irmão PCC pode ou não assumir a homosexualidade?

Não passa uma semana sem que me perguntem sobre a visão de dentro da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) sobre a questão dos homosexuais. Sim, homossexuais ou bichas, se bem que, talvez, o politicamente correto fosse LGBTQIA+, mas os PCCs não se preocupam com o politicamente correto.

Ao contrário do que afirmam por aí, o Estatuto do PCC não proíbe homosexuais:

“6 Item: O comando não admite entre seus integrantes, estupradores, pedófilos, caguetas, aqueles que extorquem, invejam, e caluniam, e os que não respeitam a ética do crime.”

Meninas e meninos, não joguem as purpurinas ainda.

O comportamento dos membros da facção é especificado no Dicionário do PCC 1533, que é como o Regimento Disciplinar de uma organização militar, e lá o buraco fica mais em baixo:

“33. Mau exemplo: Fica caracterizado quando o integrante foge do que rege a nossa disciplina, não passando uma imagem nítida da organização, quando não se coloca como faccionário diante da massa, desrespeitando e agindo totalmente oposto ao que é pregado pela facção.
36. Pederastia: Se caracteriza quando se pratica sexo com pessoas do mesmo sexo, difere do homossexualismo porque o praticante é ativo somente e não passivo.”

Não vou discutir sobre o que está escrito. Caso alguém discorde da redação, faz favor de reclamar com o dono da porcada: Rodovia Raposo Tavares, km 586. Chegando lá, diga para o ASPEN que quer falar com o Marcola, e, se der, ele atende.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Em um passado não muito distante…

Gays eram hostilizados nas trancas. Humilhados, não podiam dividir colheres e copos com os demais — o que aqui fora não é nada, mas lá é um problemão — só podiam tomar banho quando não tivesse mais ninguém, e também não podiam puxar conversa no pátio.

A situação ficava cabulosa dentro das celas, pois eles não podiam coabitar com os outros — se o complexo era grande, havia celas só para as “monas”, mas, se eram poucos, o homossexual pedia transferência da unidade, e era melhor se conseguisse.

Meninas e meninos, podem jogar as purpurinas agora, uh uh!!!

Conta a lenda que, certo dia, o Primeiro Comando da Capital preparou uma fuga espetacular, daquelas que só ele tem capacidade de organizar, mas a informação vazou, e a administração e o governo iriam pegar todos enquanto tentavam fugir.

Ia se repetir o caso da Castelinho, onde um ônibus que estava indo para uma operação de resgate em um presídio recebeu mais de 700 tiros e 12 PCCs foram mortos.

Adivinha quem descobriu o vazamento e alertou os PCCs? Pois é, uma “mona”. Como agradecimento pelas vidas salvas o Primeiro emitiu um salve suavizando para as meninas. Se é verdade essa história, eu não sei. O que eu sei, e pode ser visto hoje dentro das trancas dominadas pela facção paulista, é a vigência do salve:

“Os homosexuais devem ser respeitados dentro do sistema, mas devem manter a disciplina e discrição.”

Nem todos os esforços de todas as associações de direitos individuais e de diversidade conseguiram juntas o que aquela “mona” conseguiu sozinha, o respeito em todo o Sistema, e quem descumpri a norma pode ser chamado para conversar.

“Vi com esses olhos que a terra há de comer” (eh eh, sempre quis usar essa frase):

Em um semiaberto, havia um casal de prisioneiros, e todos na unidade sabiam que eles tinham um relacionamento. Sempre andavam lado a lado, e um deles, efeminado com cabelos compridos, nunca falou com ninguém lá dentro; já o outro era o estereótipo do ladrão perigoso, e demonstrava claramente ciúmes quando alguém olhava para o companheiro dele.

Eles não se tocavam e sempre mantendo a postura.

Só conversavam, não dormiam juntos, sempre guardando a regra de discrição e respeito, mas, também, sempre foram respeitados por todos. O dia de visita é sagrado e, para não ter a mínima possibilidade de haver um constrangimento, eles ficavam conversando em um canto do pátio.

Os politicamente corretos que me perdoem… Ou melhor, não, se revoltem… E vão protestar com faixas, cartazes, e em frente a sede da Organização Criminosa ou na biqueira do seu bairro, mas a facção começou a controlar as condutas homosexuais nas prisões para acabar com a escravidão sexual dentro dos presídios, cuja prática era uma constante.

Para os ambientes dominados pelo PCC onde a masturbação e a ereção sob a calça são severamente punidas, vale a advertência de Freud: um ambiente que reprime o libido “produz uma necessidade de descarga, a fim de reduzir a tensão”.

Quanto às mulheres, sempre foi mais suave, mas aí será outra história.

A Umbanda, o Candomblé, e a facção paulista PCC

A agressão sofrida por um pai de santo e uma mãe de santo no Rio de Janeiro levanta dúvidas sobre conduta das facções criminosas quanto ao respeito às religiões afro-brasileiras.

O avanço dos grupos neopentecostais na facção PCC

O mundo do crime não está tão distante de nós como imaginamos. O avanço dos grupos neopentecostais teve força para influir na eleição presidencial, portanto, não deixaria influenciar a vida dentro dos presídios e nas quebradas.

No Rio de Janeiro, essa mudança se torna evidente aliados quando parceiros do Primeiro Comando da Capital como o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Complexo de Israel:

Pouco tempo depois, o primeiro grupo narcopentecostal conhecido foi fundado como uma subfacção do Terceiro Comando Puro: o Bonde de Jesus. Além de controlar o tráfico no bairro do Parque Paulista no Estado de Rio de Janeiro, os Soldados de Jesus atacaram e vandalizaram vários templos de Candomblé e de Umbanda, expulsando os sacerdotes dos seus territórios. Desde então, a perseguição não só das religiões afro-brasileiras, mas também de padres católicos, tem sido relatada em várias favelas dominadas pelo Terceiro Comando Puro.

A reportagem é de Kristina Hinz, Doriam Borges, Aline Coutinho e Thiago Cury Andries, publicada por Open Democracy

Muito diferente do que acontecia há 30 ou 40 anos quando traficantes não apenas convivia pacificamente com pais e mães de santo, como participavam das sessões — o Brasil mudou muito em pouco tempo

Tanto dentro dos presídios quanto nas quebradas, a influência dos pastores é notada há muito, mas assim como o fez no governo federal, também passou a ditar regras morais e de costumes.

Abaixo, eu mantenho um texto que escrevi em tempos idos, mas que ainda vale para São Paulo, mas não sei por quanto tempo.

Família 1533 — uma organização conservadora

Talvez, você possa me entender, mesmo que não faça parte de nenhuma organização criminosa. É difícil explicar uma sensação, mas se você já esteve em um estádio lotado em uma final de campeonato, você já sentiu algo parecido com o que se sente quando se está num pátio de uma penitenciária com dezenas ou centenas de homens a gritar:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós? Por que Ele é justo!” – a lembrança me arrepia até hoje.

A socióloga Camila Nunes Dias afirmou que a facção paulista é conservadora e homofóbica, e esse é um dos casos no qual uma verdade esconde uma acusação falsa.

A também socióloga Carla Cristina Garcia demonstrou que não é a facção que é conservadora e homofóbica, mas sim a sociedade brasileira. Isso mesmo: eu, você e as duas também estamos incluídos.

Claro que eu não sou, e nem você é; só os outros que não estão me lendo são.

Onde citei neste site Camila Nunes Dias → ۞

Destruindo o centro de Umbanda e Candomblé

Há alguns dias um vídeo circulou com a chamada “PCC destrói templo de Candomblé”, só que ele mostra membros do Terceiro Comando Puro (TCP) do Morro do Dendê, no Rio de Janeiro, e não do Primeiro Comando da Capital (PCC). As facções são aliadas, mas o grupo paulista não tem influência na conduta do grupo carioca — são independentes.

Vou explicar um pouco a ojeriza que existe hoje na Família 1533 com esse negócio de Candomblé e Umbanda, pois nem sempre a situação foi tensa:

No passado, houve uma facção criminosa chamada Seita Satânica SS. Os caras eram cabulosos e sanguinários. Para se ter uma ideia, para ser batizado, o próprio cara tinha que cortar um pedaço da ponta do dedo e tomar o sangue.

Tortura e morte de PCCs e SSs ocorreram dentro dos presídios até que, por volta de 2002, esse grupo foi eliminado.

Os restos desta disputa se somaram ao preconceito enraizado de todo brasileiro. Claro que nem eu, e nem você temos preconceito enraizado; só os outros que não estão me lendo tem.

Onde citei neste site o Terceiro Comando Puro → ۞

Uma lei dentro e outra fora das trancas

Se alguém chega dentro de uma tranca paulista com ideias das religiões afro, essa pessoa é convidada de boa a guardar sua fé para si. O Primeiro Comando tem como regra básica não se meter com a vida de ninguém, mas impõe regras para o espaço comum.

Agora, para ver o bagulho ficar louco na tranca é só encontrar um cigarro de pé, atrás da porta da cela, mas nas comunidades fora das muralhas, a ordem é a da tolerância religiosa.

A paz, próximo às biqueiras, deve imperar para que a polícia não seja chamada e o fluxo continue constante e seguro. Se um templo, seja ele qual for, começar atrair viaturas para a comunidade, ele também será convidado a se retirar, mas só depois disso ser discutido dentro da sintonia e de chegarem a um acordo, se não…

Há alguns anos, um membro do PCC que dominava um bairro fechou uma igreja evangélica que ficava perto da sua biqueira. Agora, ele descansa em paz, sem se preocupar mais com os irmãos orando, sem se preocupar com mais nada, pois agiu por conta própria, sem consentimento da hierarquia do partido, e foi cobrado: ele morreu, e a igreja voltou.

Onde citei neste site o Sistema Carcerário → ۞

Não se pode confundir os SSs com as religiões afro

A Seita Satânica e aqueles que pregam o satanismo de qualquer maneira não são aceitos pelos membros do Primeiro Comando da Capital — as seções de autoflagelação e as formas de tortura a que são levados os que vivem nas trancas dos SSs são inarráveis.

Presidiário seita satânica SS Bauru

Mas o que é certo, é que nas ruas, os os pais e mães de santos as vezes são protegidos pelos membros da facção, como me conta um babalorixá aqui da zona norte da cidade:

“… alguns até participam dos cultos, mas são poucos. Aqui, quase na esquina tem uma biqueira, eles cuidam das vidas deles e nós da nossa. É só agente não atrapalhar eles que está tudo bem — nos dias de movimento no terreiro eles não deixam ninguém mexer nos carros e com as pessoas que frequentam o Centro.”

Todos somos membros da mesma sociedade

O mesmo se daria se o disciplina ou o sintonia da cidade tivesse recebido uma reclamação por parte de um pai de santo, pastor, padre…

Talvez, você possa me entender, mesmo que não faça parte de nenhuma organização criminosa, pois fazemos parte da mesma sociedade e temos a mesma base cultural. É difícil explicar uma sensação, mas sentimos de maneira parecida.

Quando apontamos o dedo acusador para os lados, estamos apontando-o para nós mesmos — claro que nem eu, e nem você apontamos; só os outros que não estão me lendo apontam.

Quando garoto, participei certo tempo da Umbanda em Pirituba. Larguei, mas trago comigo as porradas e os esculachos dados pelos policiais, assim como o preconceito da sociedade. Agora vêm os dois grupos apontar o dedo, se arvorando como defensores das religiões afro: menos, menos, muito menos.

O Primeiro Comando da Capital representa a sociedade brasileira, só não se esconde atrás das suas máscaras, e tenho certeza de que você já sentiu algo parecido com o que eles sentem quando estão num pátio de uma penitenciária, arrepiados, a orar e gritar:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós? Por que Ele é justo!”

Claro que eu, e você somos tudo de bom; até mesmo os outros que não estão me lendo, mas os PCCs, esses não estão nem aí com o que eu, você, e os outros pensam a respeito deles, mas tem clareza na sua conduta, pois alegam com orgulho de ser: “O lado cerdo, do lado errado da vida”.

Ah! Ia me esquecendo de dizer que Luiz Roberto me avisou que agora a mãe-de-santo que foi agredida está pedindo asilo na Suíça e quer deixar o Brasil.

Onde citei neste site o Sistema Carcerário → ۞

A imprensa e o Primer Comando de la Capital

A facção PCC nos países de língua espanhola é apresentada de quatro maneiras: reportagens especiais, bandeira política, varejo policial e citações ocasionais.

Bordoada seca em mim, que não deveria merecer

Ninguém sente mais pena que eu sinto de você, que padece lendo este artigo. Ninguém sofre mais do que eu sofro ao perceber que, por algum infortúnio, você acabou neste palavreiro tedioso. Por isso peço a você que leia apenas o próximo parágrafo e deixe este site…

É mais ou menos assim que em 1920, Rui Barbosa começa seu discurso de 37 páginas intitulado A imprensa e o dever da verdade, cuja estrutura utilizo por culpa de Valeria e de Márcio, que chamaram minha atenção para o tema: a verdade da imprensa e o PCC.

Perceba, não é de meu gosto dar canseira, escrevendo palavras vãs, quando se poderia chegar diretamente ao ponto, mas só assim posso apresentar como se deve o artigo El grupo más temido de Brasil ya aspira a controlar el narcotráfico de América Latina.

A repórter Valeria Saccone me colocou entre o cutelo e a parede com a publicação desse artigo no periódico espanhol El Confidencial. Senti como se minhas posses fossem-me retiradas de súbito por salteadores. Ela, com poucas palavras, humilhou-me e calou-me.

O que falei neste site sobre a imprensa → ۞

Uma visão clara e abalizada sobre a facção PCC

Valéria contou a história do PCC de forma que alguém que nunca ouviu falar da organização criminosa pudesse entender, e, ao mesmo tempo, fez uma análise profunda sobre sua atual situação e o seu impacto em todo o mundo.

Ela me humilhou e me calou com uma bordoada seca que eu não merecia ao mostrar como se pode fazer uma matéria jornalística de qualidade, levando não apenas a informação ao leitor, mas também lhe proporcionando prazer na leitura.

Foi por conta do artigo de Valéria, que se espalhou como fogo na palha por diversos sites latino-americanos e asiáticos, que parei para reparar nas diferenças entre as notícias transmitidas sobre o Primeiro Comando da Capital nas diversas nações.

Para isso, pedi ajuda aos universitários, e quem me socorreu foi Márcio Barbosa Norberto, com a tese Olhar para a fronteira: o fazer jornalístico em Laz Voz de Cataratas, Gazeta Diário de Foz do Iguaçu, e Vanguardia.

O que falei neste site sobre as fronteiras → ۞

Quem tem telhado de vidro…

Brasileiros viralizaram memes e comentários xenófobos quando se noticiou que refugiados sírios viriam para o país, outros, seguindo a mesma linha, exigiram que a fronteira com a Venezuela fosse fechada para evitar a entrada de integrantes das FARC (isso mesmo, das FARC!).

Márcio nos conta que o periódico paraguaio Vanguardia utilizou 21% de seu espaço falando sobre comércio, arte e cultura, saúde, cidadania, migração, infraestrutura e política, e 79% sobre controle de fronteiras, tráfico de drogas, contrabando, crime e organizações criminosas…

“… criando representações estereotipadas acerca do brasileiro de modo geral. Ao se referir ‘el extrangero’ o portal indica que o suposto membro do PCC não faz parte da nação paraguaia [… e] a imagem que se cria do brasileiro é a de traficante, criminoso, entre outras marcas que carregam este sentido.”

O preconceito alheio é tão bem fundado quanto o nosso, e não se pode culpar a facção por ter atravessado a fronteira, afinal, foi uma decisão nossa esconder o problema até que ele se tornou tão grande que não pôde mais ser oculto sob a peneira.

Onde citei preconceito neste site → ۞

A imprensa esconde o verdadeiro inimigo

Márcio conta que a imprensa paraguaia trata com naturalidade a corrupção e a ação das organizações criminosas — essa representação do discurso jornalístico reforça o imaginário popular e busca ofuscar o real inimigo, ao que Rui Barbosa resumiria mais ou menos assim:

Vede, senhores, vede se não é a clandestinidade, a hipocrisia, a mentira o que eles querem. A culpa do Primeiro Comando da Capital está mais em desnudar uma praga pública, de cuja existência todos sabem, todos se lastimam, todos se aterram, mas na qual poucos ousam pôr a boca.

Quem há de encarar aqueles que dispõe da vida e da morte, dando ou tirando a honra, erigindo ou demolindo reputações, convertendo a santidade em corrupção e a corrupção em santidade? Acusemos os estrangeiros ou acusemos os criminosos de sempre.

A imprensa acompanha o que se passa perto e o que se passa longe, enxerga os que tramam, sonegam e roubam a nação e a sociedade, mas se acautela e aponta dedos acusatórios em outra direção, sem ver o verdadeiro mal se vive, e essa é a condição em que vivemos.

Ninguém sente mais pena que eu sinto de você que, por algum infortúnio, acabou tendo que trabalhar para os grandes meios de comunicação, que são obrigados a fazer coro aos discursos dos governos, das empresas e dos políticos que ditam a linha editorial.

Onde citei o real e o imaginário neste site → ۞

A imprensa paraguaia e o Primer Comando Capital

O Paraguai é a principal base de operações da facção paulista fora do Brasil — milhares de brasileiros e paraguaios trabalham, direta ou indiretamente, para a facção nas mais diversas áreas de mercado — legal e criminoso, formal ou informal — e como agentes públicos.

Toneladas de drogas, armas, cigarros e outros produtos são comercializados, sob os olhos complacentes da administração pública, que mostram seus dentes e ocasionalmente abocanham alguns membros, mas sem matar a galinha dos ovos de ouro.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques explicam que os profissionais da imprensa compram as informações passadas pela polícia sem questioná-las, e essa prática, além de ser mais cômoda, adequa-se aos interesses das editorias e daqueles que querem manter o controle social.

Entendo as razões pelas quais a mídia local age dessa forma, difícil mesmo é entender por que o Paraguai é a única nação de língua espanhola a denominar a facção de “Primer Comando Capital” sem o “de la” — será que foi usado para pagar propina? — foi mal, preconceito meu.

O que falei neste site sobre o Paraguai → ۞

A imprensa hispânica e o Primer Comando de la Capital

Há anos acompanho diariamente as publicações sobre a facção Primeiro Comando da Capital em todo o mundo e, para mim, tornaram-se nítidas as diferenças nas formas narrativas da imprensa hispânica sobre os fatos envolvendo a organização criminosa:

  • Reportagens Especiais: Argentina, Colômbia e Espanha apresentam reportagens elaboradas, através pesquisa e com análise de especialistas, apresentando a organização criminosa como uma estrutura internacional de narcotráfico internacional e controle social nas periferias das cidades e no sistema carcerário.
  • Bandeira política: na Bolívia a facção é demonizada, e o ministro do governo Carlos Romero assume o papel de paladino da Justiça.
  • Varejo criminal: o Paraguai se detém ao noticiário policial diário, com reprodução do que é recebido dos órgãos policiais ou judiciários.
  • Citações ocasionais: as demais nações latino-americanas contentam-se em reproduzir publicações de outras nações e vez por outra há alguma reportagem especial.

Perceba, não é de meu gosto dar canseira, colocando palavras vãs, quando se poderia chegar diretamente ao ponto, mas a repórter Valeria Saccone me colocou entre o cutelo e a parede, e resolvi não me calar diante da humilhação na qual seu artigo me jogou.

Onde citei a questões latino-americanas neste site → ۞


As pesquisas pelo Primer Comando Capital pelo mundo

Os gráficos abaixo estão vinculados ao site do Google Trens, portanto a informação que estiver aparecendo talvez não seja a mesma que está vindo para mim no momento em que escrevo.

O primeiro gráfico mostra um quadro que tem se mantido inalterado por muito tempo — o Paraguai é de longe a nação que mais se preocupa com a organização, seguidas pela Bolívia, nação chave na estratégia da organização, seguidas das demais.

No entanto, no último ano a Bolívia superou em muito o Paraguai no interesse pela facção. O assalto aos carros fortes por si só não justificariam o aumento brutal do interesse, mas a facção passou a ser utilizada como bandeira política pelo governo.

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Veja o PCC nos principais jornais hispânicos

O interesse pela facção no meio digital apontado pelo Google Trends se reflete nas matérias produzidas pela imprensa. O Paraguai que mais pesquisa sobre a facção, também é aquele que a imprensa mais fala sobre o assunto.

O periódico paraguaio Ultima Hora já abordou desde 2004, segundo o Google, o assunto 33.100 vezes no momento que faço essa pesquisa, quando a média dos outros meios de comunicação fora do Paraguai gira em torno de 100 artigos citando a facção.

Abaixo, organizado em ordem de número de abordagens estão postas as principais publicações em Espanhol — a imagem é um link para a busca do Google.

Paraguai — Ultima Hora

Paraguai - PCC 1533 ultima hora

Bolívia — La Razón

Bolívia - PCC 1533la razón.jpg

Argentina — La Nacion

Argentina - PCC 1533 la nacion diario

Espanha — El País

Espanha - PCC 1533 elpais

Argentina — Clarín

Argentina - PCC 1533 el clarin diario

Equador — El Comercio

Equador - PCC 1533 el comercio

Argentina — Página 12

Argentina - PCC 1533 pagina 12.jpg

México — El Periódico de México

Mexico - PCC 1533 el periódico

Peru — El Comercio

Peru - PCC 1533 el comercio

México — El Universal

Mexico - PCC 1533 el universal

México — La Prensa

Mexico - PCC 1533 la prensa

México — La Jornada

Mexico - PCC 1533 la jornada

Espanha — ABC

Espanha - PCC 1533 abc

Uruguai — El Observador

Uruguai - PCC 1533 el observador

Uruguai — Montevideo.com

Uruguai - PCC 1533 montevideo

Espanha — El Mundo

Espanha - PCC 1533 el mundo

México — Excelsior

Mexico - PCC 1533 excelsior

Chile — El Mercurio

Chile - PCC 1533 el mercurio

Colômbia — Colombiano

Colombia - PCC 1533 colombiano.jpg

México — Crónica

Mexico - PCC 1533 cronica

México — Milenio

Mexico - PCC 1533 milenio

Espanha — La Razón

Espanha - PCC 1533 la razón

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Rícard Wagner Rizzi

O Governo perdeu o controle dos presídios?

A formação e o fortalecimento das facções dentro dos presídios brasileiros são consequências das práticas de negociação entre os agentes do Estado e as comunidade carcerária.


A revolta dos Guardiões do Estado (GDE 745)

É fácil ficar berrando que não se negocia com preso, mas Anália e Wellington já haviam avisado: a coisa não é bem assim.

Ceará news incêndio em Cariri GDE 745

Com doze agentes penitenciários para gerir mais de mil cativos na Penitenciária Industrial e Regional do Cariri (PIRC), o Estado deveria se colocar em seu lugar, e fazer o que tem feito desde os tempos da Colônia: garantir a governabilidade através da negociação.

No entanto, o governo preferiu pagar para ver, endureceu as regras, e os aliados do Primeiro Comando da Capital, a facção cearense Guardiões do Estado, mandaram um recado: “devagar com o andor que o santo é de barro!”, e atacaram prédios públicos no Cariri, em Juazeiro do Norte.

A polícia prendeu alguns dos integrantes do GDE 745 que participaram da ação, mas o prejuízo para os cofres públicos, a sensação de insegurança transmitida para a população, a impunidade dos líderes criminosos e a impotência do Estado ficaram.

O que você sabe sobre o controle do Estado?

Você, assim como eu, talvez se pergunte se o governo perdeu o controle sobre o que acontece dentro dos presídios. Lamento dizer, mas Analía e Welliton afirmam que nós nem temos chance de entender o que está realmente acontecendo.

Se for esse seu caso, assim como é o meu, sugiro que, assim como eu o farei, volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news.

Os sociólogos Analía Sória Batista e Welliton Caixeta Maciel desconstroem o conceito de controle social exercido pela sociedade no artigo Prisão como gueto: a dinâmica de controle e de extermínio de jovens negros pobres, publicado pela UNESP.

Nós, pelo menos foi a impressão que tive ao ler o texto, vivemos em um mundo imaginário, acreditando no coelhinho da Páscoa, no Papai-Noel e na aplicabilidade do Positivismo e dos ideais iluministas de Rousseau.

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O sangue lusitano corre em nosso tecido social

Você se lembra de Ganga-Zumba? Eu nunca tinha ouvido falar, mas era ele quem controlava o Quilombo dos Palmares e, quando viu que a casa ia cair, fez um acordo com a Coroa Portuguesa para evitar o massacre. Não me acuse de spoiler, você já sabe que deu errado, o sobrinho dele, chamado Zumbi, recusou o acordo e o resultado foi uma carnificina.

Faz parte da cultura lusitana de base católica, herdada por nós, evitar o quanto possível a interferência armada do Estado nos conflitos. Não que os lusos tivessem uma queda nata e à frente de seu tempo para o liberalismo, mas conheciam as limitações do aparelho repressivo de seu Estado.

Enquanto as outras nações europeias começavam a discutir se o poder dos nobres adivinha do poder de Deus, Portugal já tinha um Estado constituído e contato com pessoas de todo o mundo, adquirido por meio das navegações marítimas.

Sobreviver no canto do continente europeu fez daquele povo especialista em conhecer seus limites. Negociar com o outro foi uma ferramenta de sobrevivência trazida para as terras brasileiras, algo visto nas tentativas de barganha com os revoltosos de Palmares.

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O habitus de relacionamento entre Estado e sociedade

Sei que o mundo ideal é aquele baseado no neoliberalismo, afinal, procuro ser uma pessoa politicamente correta, e hoje o correto é defender as ideias liberais, principalmente no que tange a vida dos outros.

Pressiono o governo para que me garanta aposentadoria, saúde, segurança, educação e infra-estrutura, mas defendo que o Estado deve interferir minimamente em minha vida — quanto maior for meu poder de influência, mais conquistas terei.

Os governantes nada mais fazem que gerir os interesses diferentes, pressionados pelos mais diversos grupos sociais, e nosso sangue lusitano entra em ação para manter a governabilidade, atendendo, na medida do possível, a todos.

Quanto maior é a capacidade do governante de fazer o controle social por meio da autogestão das diversas comunidades sob seu julgo, melhor será seu resultado administrativo e de manutenção da paz — foi assim na Colônia e é assim hoje.

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Evitando o ponto de ruptura

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Zumbi, que assumiu Palmares e resolveu que a liberdade não se negocia. Por sua vez, os portugueses mandaram Domingos Jorge Velho até lá, que arrasou a vila. À custa de muito sangue, para os dois lados, Zumbi se tornou herói e Palmares um símbolo.

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Fleury, que assumiu o governo e resolveu que não se negocia com presos amotinados. A história se repetiu, e o Cel. Ubiratan arrasou o Carandiru. Dessa vez, também à custa de muito sangue, nasceu o Primeiro Comando da Capital, e Marcola se tornou herói e o PCC um símbolo.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Analía e Welliton analisam as dinâmicas de violência e de negociação entre o Estado e as facções criminosas, levando em conta os complexos processos sociais de produção, controle social e manutenção que formam os guetos — a lógica vale tanto para os atuais presídios, as regiões periféricas e as ocupações urbanas e rurais quanto para os antigos quilombos.

Todos nós estamos o tempo todo sob o julgo do Estado, que interfere de forma abstrata e generalizada em nossas vidas, impondo sua autoridade, e assim também ocorre dentro dos guetos — Zumbi e Fleury optaram quebrar o equilíbrio cada um por um lado e ao seu tempo.

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O controle do estado sobre a massa carcerária

Os meios de comunicação e os políticos defendem soluções fáceis e aceitas pelo público, e o presídio sob controle total dos agentes penitenciários faz parte dessa plataforma, alternativa que tem, no mundo real, tanta chance de se concretizar hoje como se tinha no século XVII.

Quando a facção paulista Primeiro Comando da Capital utiliza os presídios como centros de operações internacionais, fica claro que o Estado perdeu autoridade, no entanto, a pacificação do no sistema prisional prova que o Estado se mantém no controle.

O autogoverno carcerário é responsável por evitar fugas e garantir o retorno das saidinhas e a vida e a segurança de funcionários e sentenciados nos presídios — ou alguém imagina que um preso estuprado, roubado ou ferido por outro preso vai chamar o carcereiro e pedir para ir para a delegacia de polícia para fazer um boletim de ocorrência?

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Abandonando o moralismo para entender o mundo real

Analía e Welliton apresentam números que demonstram que a estrutura social vigente nos presídios, periferias e ocupações contemporâneas foram edificados a partir das décadas de 1970 e 1980, com o envio seletivo de negros pobres para o encarceramento.

Nas décadas seguintes, acrescentou-se ao ambiente prisional jovens, quase sempre pobres e negros com envolvimento com o tráfico de drogas, que traziam consigo das ruas experiência de guerra entre gangues pelo domínio de biqueiras.

A violência e a crueldade sempre existiram dentro das prisões, mas eram atos de desajustados violentos, repudiados e temidos pelos demais; agora, essas forças são organizadas, aplicadas pelos soldados do tráfico sob liderança.

A massa carcerária ganhou um autogoverno com seu próprio sistema de segurança pública, com organização, liderança e aceitação na comunidade que representa, e o Estado Constituído assistiu, depois de cinco séculos, à chegada da paz nos cárceres.

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Em um eterno movimento pendular

As chacinas dentro dos presídios do Norte e do Nordeste e a queda de braço entre os aliados Guardiões do Estado e o governo provam que nem tudo são flores nesse processo. O custo da paz pode ser muito violento, e sua estabilidade depende do uso da força e da negociação, e nunca será definitiva ou terá limites bem delineados.

Será extremamente difícil nossa sociedade sair —a construção de um círculo policial-midiático-criminoso, um pelourinho midiático ao qual expõe e criminaliza as comunidades periféricas para o deleite de uma população que se sente superior.

A mídia, em busca de espetáculo, cobra das autoridades uma maior presença do Estado no controle do dia a dia carcerário, assim como alguns políticos que visam lucro eleitoral. No entanto, a realidade é que o governo não tem condições efetivas de gerir essa questão — alguns acreditam que com a privatização dos presídios, quem sabe?

Em Portugal do Século XV, já analisava-se a capacidade real de ação do Estado. Eles agiam por pura emoção, e o mais incrível é que os antigos lusos ainda sequer tinham recebido as luzes do Iluminismo e do Racionalismo.

Por isso, sugiro que você faça como eu: volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news, em que nossos amigos neoliberais e progressistas podem demonstrar para seus iguais que têm razão, sem se preocupar com a opinião de Analía e Welliton.

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Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

O PCC e as ocupações de edifícios e terrenos

Os movimentos sociais estão impregnados por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), que utilizam siglas como MSTS, MLSM e LMD, ou não?

O PCC, o prédio do Paissandu, Sascha Facius, eu e você

Entre eu, você e Sascha, com certeza você seria a melhor pessoa para escrever sobre o envolvimento da facção paulista Primeiro Comando da Capital com os chamados movimentos sociais que ocuparam os prédios de São Paulo.

A imprensa, principalmente a televisionada, cobriu o episódio com horas de telejornalismo ao vivo e com especialistas, sobreviventes, vizinhos, policiais, bombeiros, governantes e políticos da oposição sendo entrevistados — e eu e Sascha perdemos tudo isso.

Com tanta informação que você recebeu, achei que seria inútil tentar lhe trazer algum conteúdo que tivesse o mínimo de relevância, mas ao ouvir um bate-papo entre o sociólogo Jessé de Souza e o publicitário Celso Loducca mudei de ideia.

Segundo Jessé, a nossa imprensa é pior que a norte-coreana, só que em vez de ser controlada pelo governo, ela o é pelo poder econômico. Cada emissora repete os mesmos interesses e os mesmos pontos de vista, só mudando o tom e os argumentos.

Segundo ele, a sua opinião foi direcionada pelos redatores dos grandes jornais e dos apresentadores de televisão que não disponibilizam de forma equânime todos os pontos de vista — até os repórteres que, por comodidade, se encaixam no sistema.

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A facção PCC é quem organiza as invasões urbanas

Pobre é burro e fraco e é manipulado pelo Primeiro Comando da Capital que utiliza os mais necessitados para ocultar nas ocupações drogas e armas, enquanto cobra aluguel dos ocupantes, colocando na liderança dos movimentos seus asseclas.

Jessé afirma que eu e você, como bons brasileiros, não diríamos isso com essas palavras. Seria algo como: aqueles coitados são massa de manobra para as organizações criminosas e políticas — pura hipocrisia, afirma o sociólogo.

Ao fazer isso, repetiremos a informação recebida dos órgãos de imprensa: os criminosos do PCC tentaram se impor no lugar do Estado Constituído — ignorando que o governo e seus agentes foram os que abandonaram essas pessoas a sua própria sorte.

Interessante é ver que as maiores críticas vêm dos que defendem o liberalismo, quanto essa situação nada mais é do que o mais puro capitalismo, fruto da lógica do mercado.

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Pobres urbanos do Brasil e do mundo, uni-vos

Eu prefiro não defender Jessé, o que ele pensa é problema dele, mas aí Sascha Facius, que nem é brasileiro, resolveu se meter em nossos problemas e dar sua opinião, só porque ele tem PhD em Sociologia Urbana e estudou profundamente a questão da sub-moradia.

Ele fez o levantamento comparativo sobre as estratégias que os pobres (sempre eles, coitados) desenvolveram e adotaram para lidar com o problema da sub-habitação. Sascha, assim como Jessé, apontou para a questão de mercado.

Em “Durable Housing Inequalities — How do urban poor cope with displacement (pressures)?” ele visitou as ocupações, favelas e cortiços em São Paulo e a gecekondus em Istambul.

Ele sabia que sem o aval do Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, e dos traficantes de Tarlabaşi, em Istambul, muitas moradias teriam sido lojas fechadas, e seria até perigoso para ele prosseguir com a pesquisa:

“Claro, eu sabia que os disciplinas do PCC não me receberiam com confiança e de braços abertos. No entanto, com o tempo e com referências pessoais, consegui convencer até mesmo esses indivíduos de que eu era inofensivo — ou, pelo menos, não era um alvo apropriado.”

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A compra de uma vaga em uma sub-habitação

Nas suas incursões, conversou com líderes comunitários, moradores e até com os responsáveis pela organização criminosa PCC:

“… ao longo dos meses em que residi em cada cidade, consegui obter acesso rotineiro a várias formas habitacionais mais ou menos informais, incluindo favelas e edifícios ocupados. Através de visitas frequentes, eu não só aprendi e me familiarizei com a vida cotidiana dos moradores, mas os moradores também se familiarizaram comigo até o ponto de confiança e amizade.”

Cida, uma das moradoras de um cortiço, é prova que a facção paulista dominava o local, pois em determinado momento ela é expulsa do quartinho minúsculo que havia comprado por 800,00 Reais e onde vivia com seu filho.

“Em agosto de 2016, uma ação policial ligou os líderes do MSTS ao tráfico de drogas e ao “desvio” de aluguel, então de R$ 200.” — ESTADÃO

Em São Paulo, Cida, no cortiço de Santa Cecília, e Arlete, na ocupação no Largo da Batata, assim como Sabiha, em Tarlabaşı, não eram pobres burras padecendo com a exploração, ao contrário, estavam utilizando uma estratégia econômica.

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A lógica matemática de quem vive na pobreza

Morar onde não é necessário pagar o aluguel pode alterar o status socioeconômico, permite comprar objetos e ir a lugares que de outra forma não seria possível. É a mais pura lógica liberal utilizada sendo utilizada pelos pobres urbanos considerados burros pela classe média.

“O dinheiro está se multiplicando [risos] e estou economizando um pouco, algo que eu não estava fazendo quando pagava aluguel. […] Eu não trabalho mais no shopping, como eu costumava ser faxineira, agora vou comprar lá! […] Eu também não tenho medo do despejo no futuro. Particularmente, há um ano, fiquei com medo, mas hoje não tenho mais medo. Porque hoje eu digo, tudo o que consegui hoje, tudo o que estou conseguindo, eu possuo este lugar, sabe? Eu não vou negligenciar o lugar, sabe? Eu consegui chegar tão longe já — eu tenho esse lugar aqui ”.

Cida mudou sua posição social. Por causa de seu acúmulo de capital econômico, ela pode ir ao shopping como consumidora, em vez de só ir para lá para trabalhar, limpar o espaço para os outros. Nesses termos, a Cida não apenas adquiriu capital econômico, mas também capital cultural (por exemplo, na forma do prestígio de poder comprar no shopping e não mais limpá-lo).

Voltamos assim a Jessé, que alerta que a classe média se enfureceu com essa ascensão social dos pobres que invadiram seus espaços culturais, como as universidades e os shopping centers, e a ética cristã do povo brasileiro impede de se verbalize essa insatisfação.

“O aeroporto agora está parecendo rodoviária, e a segurança do shopping não serve mais para nada” (ou seja, permitem agora a entrada de pobres como Cida e Arlete).

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A facção PCC 1533 entra com a pacificação

Jessé arranca a máscara dos hipócritas (ele não poupa adjetivos) e demonstra que aqueles que dizem que todos devem se deixar proteger pela Lei e pela Ordem Pública, são justamente aqueles que não moram em locais de risco.

Sasha concorda, argumentando que o PCC “ajudou a estruturar e organizar alguns dos bairros em que as forças estatais não entraram” e, muitas vezes, quando a pessoa não pode pagar aluguel, acertavam “uma contribuição de acordo com seus recursos econômicos”.

A visão que a imprensa passa das ocupações e é repetida por milhões de “cidadãos de bem é que as ocupações, cortiços e favelas estão ligados ao crime, às drogas e aos moradores de rua”, mas não é bem assim — sei, pois há alguns anos cheguei a visitar o cortiço em que viria mais tarde a morar Cida.

Não havia lá dentro medo e preconceito, exceto nos momentos em que a invasão polícia entrava e descia o pau em todos, gente boa e criminosos, mas isso foi antes que o Primeiro Comando assumisse, daí a entrada da polícia rareou.

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PCC para manter a ordem e disciplina no barraco

“Eu tive que tirar da boca para pagar o aluguel, porque o aluguel que você paga hoje, amanhã você está colocando sua cabeça no travesseiro já pensando na próxima renda que você tem que pagar.”

As necessidades humanas básicas de habitação, segurança e alimentação estão economicamente interligadas, e nesses ambientes sociais, os laços comunitários e a solidariedade entre os residentes podem ser mais problemáticos.

“[…] Mas aqui todo mundo se odeia. Por exemplo, fizeram muita sacanagem comigo e consigo mesmos, como cagar e fazer xixi no chão do banheiro e atacarem uns aos outros. Quando nós moramos em um lugar, nós temos que preservar esse lugar. E aqui está algo que não existe, união. Não existe. Porque se existisse, se fôssemos parte de algo maior, de um movimento ou de alguma coisa e conseguíssemos ajuda dos outros, não estaríamos em tamanha miséria.”

O poder constituído não sobe uma dezena de andares para separar uma briga de casal, nem investiga os roubos, furtos e estupros que ocorrem dentro de uma favela ou curtiço — a ordem é mantida pela organização criminosa.

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É nesse vácuo do poder público que a facção atua

Em milhares de bairros, favelas, prisões, cortiços e ocupações, o Primeiro Comando da Capital ocupa um espaço que o Estado não vai ocupar, por puro desinteresse econômico: exceto quando a coisa pega fogo — como ocorreu no prédio no Paissandu.

Políticos e imprensa precisam de um culpado, e voilá, a facção paulista é a escolha natural — inimigo universal, fácil de se entender e odiar, com pessoas de verdade que podem ser presas de verdade em rede nacional.

“Em algumas das divisórias de madeira usadas para delimitar cômodos, lia-se PCC em pichações. Investigação policial associou outra sigla de ascensão recente, o Movimento Sem Teto de São Paulo (MSTS), à facção criminosa paulista. Em 2016, a ocupação do grupo no Cine Marrocos foi alvo de operação em que a polícia diz ter encontrado armas e drogas.

Movimento Sem-Teto de São Paulo (MSTS)
Fundado em 2012, anunciava em sua página oferecer “uma completa estrutura, com portaria 24 horas, elevadores, escadas e portarias bem iluminadas”. Ocupou o Cine Marrocos, no centro, até 2016, quando investigação policial apontou o envolvimento de 28 líderes do grupo com a facção PCC e encontrou fuzis e drogas na ocupação”
Folha de S. Paulo

As interações sociais, econômicas e culturais descritas por Sascha para a Faculdade de Letras, Ciências Sociais e Educação da Universidade Humboldt de Berlim deixam de ter importância para a formação da opinião pública e para o desenvolvimento de novas políticas públicas.

Entre mortos e feridos, todos continuam seu jogo, e a facção não é nem mais e nem menos inocente ou culpada que emissoras de televisão, jornais, políticos e agentes públicos que a condena, e ela continuará forte nos seus outros domínios.

O Estado e a imprensa, em pouco tempo, esquecerão esse problema, pelo menos até a próxima vez que a coisa pegar fogo, e os pobres continuarão a buscar, por seus próprios meios, amparar suas necessidades básicas de moradia, segurança e alimentação.

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O maravilhoso mundo da televisão brasileira

Sascha conta uma experiência que ele viveu no Brasil:

“É noite e estou exausto de realizar várias entrevistas, eu ligo a TV e navego pelos diferentes canais. Fico com a Globo, uma cooperativa nacional de TV conhecida por suas produções de telenovelas. Estou organizando minhas anotações do dia em que algo na TV de repente me chama a atenção: vejo imagens brilhantes, vivas e coloridas da favela Paraisópolis. Eu estava lá outro dia para coletar dados quantitativos e ainda tenho as impressões do dia em minha mente — esgotos a céu aberto, becos inundados, barracos de madeira minúsculos e superlotados, e minhas interações com [o PCC]. O que eu vejo agora na TV é diferente: eu vejo pessoas ricas, cores brilhantes nas paredes dos prédios, carros grandes, ruas organizadas e estruturadas. Basicamente, uma versão ‘higienizada’ e romântica de Paraisópolis.”

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
Rícard Wagner Rizzi

O gato preto, a facção PCC e a Seita Satânica

É difícil saber o que é ficção ou realidade no mundo, e os faccionados do PCC levam muito a sério o espiritual.

Pedindo transferência para tranca do PCC

Não nos conhecemos, e eu não preciso dar satisfação a você, e nem você para mim. Só vou contar para você o que está acontecendo para que você tente entender porque preciso ser transferido para uma tranca da facção Primeiro Comando da Capital.

Talvez você fique em dúvida se é verdade o que vou lhe contar, mas lembre que não tenho nenhum motivo para mentir, e não há, de fato, nada de incomum nessa história, apenas algumas coincidências — que para mim pareceram engendradas pelo próprio demônio.

Essa é a razão pela qual quero voltar para um uma tranca do 15, para fugir do tinhoso, pois algo que as crias do PCC não toleram é essas coisas de satanismo — mesmo que isso me custe a própria vida.

Não omitirei ou acrescentarei nada à história. Talvez você possa entender melhor que eu o que aconteceu, por estar de fora e ter mais esclarecimento, talvez me diga que não há nada de extraordinário na morte de minha mulher e nos acontecimentos vinculados ao gato.

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Hoje sou PCC, mas fui um menino comum

Eu era um garoto quieto, ficava na minha, tanto na escola quanto na rua, nunca gostei de confusão, mas se precisasse entrar em briga para ajudar os amigos, eu sempre chegava junto.

Na escola eu ficava ouvindo histórias contadas pelos meus colegas, e na rua só saía para empinar pipa ou jogar futebol, pois o que eu gostava de verdade era ficar em casa ouvindo música e brincando com meu cão. Esse sim, verdadeiro e sincero amigo, e depois que cresci, me aproximei ainda mais do Bob.

Tive a sorte de arranjar uma garota que, assim como eu, gostava de animais. Ela mesma tinha um gato grande e preto. Quando fomos morar juntos, meu já envelhecido cão, me acompanhou, e o gato de imediato se apegou à ele.

Onde o cão estava o gato estava junto. Quando eu chegava do serviço, o Bob e o gato vinham me receber. À noite, o bichano não vinha para a cama conosco, se espremia com o cachorro em sua coberta junto à porta — nunca vi uma amizade como aquela.

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Gatos pretos são seres das trevas

Eu nunca dei trela a essas lorotas, mas seguia o conselho de minha tia Ana: “é melhor prevenir (fechar os olhos, virar o rosto) do que remediar (fazer curativo nos joelhos e/ou escovar com força o solado do sapato).”

Saí do emprego para fazer transporte de cigarro e outras coisas do Paraguai para o interior de São Paulo. O pagamento era bom, a distribuição era suave, e com o dinheiro me mudei para uma casa melhor.

Tudo corria muito bem, apesar do gato se comportar de maneira estranha. Se eu acordava de madrugada, o gato sempre estava sentado ao lado de Bob e me olhava profundamente.

Quando isso acontecia eu tentava dormir novamente, mas sabia que aqueles olhos continuavam fixos em mim. Com o tempo, não conseguia mais dormir, era só eu deitar e lembrava que o gato me olhava. Depois passei até a evitar de ir para casa.

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Entre sermões e louvores

Por conta daquele gato eu estava perdendo o controle, e o dinheiro fácil era utilizado a rodo com bebidas e drogas — minha mulher, estava sofrendo com isso.

Meu velho cão e seu fiel gato agora eram os únicos que ainda vinham até mim quando chegava em casa. Minha garota já me evitava, e quando vinha falar era para criticar meu comportamento, pedir mais dinheiro e reclamar de meus amigos.

Ela, que sempre foi evangélica, passou a ser fanática, e isso me irritava profundamente. Era eu chegar em casa e começavam os sermões e louvores. Se em casa o clima era tenso, na rua não era melhor, e até o geral do estado me chamou para trocar umas ideias sobre meus excessos.

Tudo por culpa daquele gato preto. Para você pode parecer que não tem nada de mais em um gato olhar para você, mas é cabuloso e fica encucado na cabeça.

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Perdi completamente o controle sobre mim

Numa madrugada ao chegar em casa, eu estava turbinado, misturei tudo, a mente estava nublada e só me lembro que o Bob e o gato foram até a porta me receber e que minha mulher veio me dar um sermão — bati nela e chutei o cão, só o gato foi poupado.

Ao acordar de manhã ela não disse nada, o cão também se aquietou com o gato ao seu lado, e alguns dias depois o cachorro morreu — ele era muito velho, era de se esperar que partisse mais cedo ou mais tarde, sua morte não podia ter sido por causa de meu chute.

Enquanto ainda estava vivo, o cão olhava para mim triste, sem se levantar de seu cobertor — o gato também me olhava, mas agora com puro ódio, e quando eu acordava à noite, ele estava sentado na cama, bem ao meu lado olhando para mim.

Jurei que nunca mais me excederia, e evitei ir para casa, onde eu sabia que teria que enfrentar o olhar daquele animal demoníaco — eu precisava dar um tempo fora de casa, e a solução veio em forma de um serviço.

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Fui para a Guerra do Acre — B13 PCC vs CV FDN

Em agosto de 2017 me chamaram para levar alguns equipamentos para o Acre, onde estava tendo uma guerra entre a facção Bonde dos 13 (B13) e o Comando Vermelho (CV).

Não ia ter pagamento para esse serviço, era para ajudar os aliados, e eu fui convidado. Era só ir para as proximidades de Aquidauana no Mato Grosso do Sul, esperar na casa de um aliado o carregamento que vinha da fronteira e seguir para Rio Branco.

A viagem correu tranquila, até que minha mulher me ligou perguntando pelo gato, ela achou que eu o havia matado, pois ele desaparecera desde o dia que saí para a viagem — a partir daquele momento, não mais consegui dormir.

Entreguei o material, e os irmãos que me receberam não me deixaram voltar. Fui recebido como rei, e acabei ficando uns dias, e mesmo não participando dos corres por lá, eu, que nunca deixei de ajudar os amigos em suas brigas, não fiquei fora da guerra.

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O sangue infecta a alma

Não preciso aqui mentir, pois não estou sendo julgado por nenhum dos crimes que aconteceram em Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia, mas garanto que nunca vi em São Paulo o que presenciei por lá. Era outro nível de violência e crueldade, algo satânico.

Aquilo impregna o espírito do homem, mesmo o de um criminoso experiente como eu.

Não é fazer um assalto e esperar que as vítimas não reajam para que tudo termine bem: é ir pegar alguém sabendo que ela será torturada e esquartejada — já havia feito contenções em São Paulo e no Paraná, mas as mortes eram menos cruéis.

Fiquei feliz quando disseram que houve um acordo com o governo e que as ações nas ruas e nos presídios iriam parar, só sendo aceitos os acertos de contas autorizados, sem envolver a população — parti de volta para São Paulo.

Ao chegar em casa, o gato estava no cobertor do cachorro, e de lá não saiu, só ficou me observando. Quando minha mulher chegou em casa disse que o animal ficou fora todos os dias enquanto eu viajava. Ela disse isso e começou a orar, o que me irritou.

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Enforquei o gato no quintal da casa

Repito, não estou aqui para tentar dizer que tinha ou não alguma coisa demoníaca com aquele animal, apenas narrando os fatos na ordem dos acontecimentos e do jeito que aconteceram.

A viagem ao Acre me livrou das drogas, voltei limpo, mas as coisas que vi por lá mexeram com a minha cabeça. Eu não mais toleraria aquele gato, e no começo da noite o enforquei na goiabeira no quintal de casa — e naquela noite minha casa pegou fogo.

Vim direto do Acre para casa, sem parar no caminho para deixar as coisas que trouxe da Família 1533, e se elas queimassem eu teria que enfrentar o Tribunal do Crime — estava colocando no carro as armas e a droga quando a polícia chegou, atraída pelo incêndio.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

Fui abordado e já estava algemado quando o policial perguntou se tinha alguém na casa. Minha mente ainda não estava funcionando direito, respondi que não, mas naquele momento, da casa ainda em chamas vieram gritos horríveis.

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Minha mulher morreu e eu fui preso

Um dos que narraram o que lá se ouviu foi Carlos Eduardo Valente, um pelotense que havia se mudado para o estado de São Paulo:

“Santo Deus, apenas ecoou no silêncio um gemido, um soluço, um grito prolongado e alto, anormal e inumano, um urro, um guincho lamentoso, cheio de horror e triunfo, como só no inferno pode se erguer das gargantas dos danados a sua agonia, e dos demônios da danação.”

O sangue gelou e ninguém se mexeu enquanto aquele lamento diabólico não cessou, e aí os vizinhos se lembraram que na casa deviam estar minha mulher e o gato, não eu. Quando os bombeiros chegaram, já não restava mais nada a fazer do que o rescaldo.

O corpo dela foi encontrado ainda na cama e na parede queimada, uma mancha branca na parede agora negra. Todos se admiram daquela marca, não tinha como não ver claramente um gato enforcado.

Os bombeiros encontraram e mostraram para o policial o corpo do animal ainda pendurado na árvore, e todos acharam que eu havia aproveitado que minha mulher dormia para matar o bicho, fazer a marca satânica na parede, por fogo na casa e fugir enquanto ela queimava — mas que o plano falhara.

O que falei neste site sobre mulheres → ۞

Mesmo preso o gato me persegue

Não pense que fiquei triste com minha prisão, pensei que ia me livrar do pesadelo, pois na prisão ficaria livre daquele gato do diabo, mas não, fui mandado inicialmente para o CDP de Sorocaba, e lá levei muito “salve”, perdi uns dentes e tive um pulmão perfurado.

Acharam que eu tinha matado minha mulher — fui mandado para o seguro, e depois começaram minhas transferências sem fim.

Independente para onde eu ia, era só eu chegar que, durante a noite, aqueles gritos lamentosos e horripilantes começavam a ser ouvidos pelos corredores, e todos os atribuíam a minha presença.

A imprensa inventou muita coisa a meu respeito, dizendo que eu havia emparedado minha mulher com um gato, o que não foi verdade, mas a mídia comprou a ideia e o mito se colou em mim como o grito daquele gato preto.

Eu aguentei de tudo, mas, agora, que estou em uma tranca onde sou aceito, venho pedir pelo amor de Deus que você consiga minha transferência de volta para qualquer unidade prisional comandada pelo Primeiro.

O que falei neste site sobre o CDP→ ۞

O cheiro de carne humana queimada é um elixir para Lúcifer

Eu contei a você tudo o que aconteceu, você pode ver que não tenho nada com esse negócio de satanismo, foram apenas coisas que aconteceram, e aquele gato negro que entrou em minha vida.

Agora estou em uma das poucas unidades, se não a única do estado, onde ainda tem alguns membros da Seita Satânica (SS), e me colocaram com eles — ninguém mais me aceita por perto.

Mas eu prefiro morrer nas mãos dos PCCs a continuar vivendo entre os SSs. Aqui é o inferno no inferno, eu mesmo não teria palavras para descrever o que acontece por aqui. É como Diorgeres de Assis Victorio contou para Guilherme Santana:

“Tenha um mau dia, que o demônio te acompanhe, e tudo de ruim para você.” — é assim que começamos o dia, mau. Nos dias bons, tem cheiro de churrasco, mas é carne de gente viva que é queimada dentro das celas — daqueles que são aceitos como irmãos.

As queimaduras são graves e acabam na enfermaria, eu sou um dos poucos que não aceitam participar dessa loucura, mas não posso negar que eles não tenham força, pois desde que estou aqui, nunca mais o gato maldito apareceu.

O que falei neste site sobre o diabo→ ۞

O estatuto só tem 3 linhas , mas já é o que basta

Presidiário seita satânica SS Bauru

Achei que nada seria pior que o gato demoníaco, mas o cheiro de podridão da tranca da Seita Satânica, as paredes com símbolos de estrelas de cinco pontas e cruzes invertidas, tridentes e escrituras em uma língua estranha, as repetições do número 666 e desenhos de Baphomet e do olho de Lúcifer são muito mais difíceis de suportar que aqueles olhos acusadores ou gritos enlouquecedores do gato do inferno.

Ninguém conta de onde vem o sangue que é guardado até muito depois de apodrecer dentro das celas dos SS, e não serei eu quem o farei, mas o segredo talvez esteja no livro “Alquimia, Satanismo e Cagliostro”.

Até agora, pelo menos, eu não consegui que me deixassem ver o livro. Ele fica enrolado em um pano preto junto com alguns charutos, mas as regras básicas são repetidas e por todos têm que ser decoradas:

1) Que a verdadeira justiça infernal reine em nossos corações.
2) Porque, na verdade, a justiça infernal é inviolável em toda a superfície do universo.
3) Nas profundezas do fogo, nas profundezas do inferno, em toda a superfície da terra, nas profundezas do mar e no espaço infinito, sempre para a glória infernal.

Diorgeres de Assis Victorio pode contar para você toda a história dessa facção, desde o seu início, passando pela difícil convivência com o Primeiro Comando da Capital no Carandiru, até o momento que praticamente foi riscada do mapa pelo PCC.

Onde citei Diorgeres neste site→ ۞

O gato não se atreveu a enfrentar os SSs

O que aconteceu para aquele maldito gato ter deixado de me atormentar todas as noites, aqui, e enquanto eu estava nos outras trancas ele continuar a me perseguir?

Fui condenado pelos homens pela morte de minha mulher, do gato, e pelo incêndio na casa, mas não mereço ir para o inferno, e por isso me recuso a ficar com essas crias de Lúcifer.

Matei sim, mas não minha mulher, trafiquei sim, mas nunca fui uma pessoa má. Sempre gostei de animais, de ajudar meus amigos e ficar com minha mulher.

Por isso, e pela última vez, peço-lhe que consiga minha transferência, pois prefiro que esse meu corpo morra pelas mãos de meus irmãos, mas minha alma seja salva e siga seu caminho para longe daqueles olhos acusadores daquele gato maldito.

Esse texto foi baseado no conto “O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe.

Espalhai-vos sobre os presídios abundantemente

A ordem é para aproveitar as transferências para fortalecer aonde a facção esteja com pouca sintonia.

O Sintonia do Paraná falou:

Sede fecundos, disse-lhes ele, multiplicai-vos e enchei as trancas.
Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo aquele que pensar em se opor a vós.
Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva e o pó.
Somente comereis carne com a sua alma, com seu sangue.
Todo aquele que trair a nós terá seu sangue derramado pelos irmãos, porque faço de vós a nossa imagem.
Sede, pois, fecundos e multiplicai-vos, e espalhai-vos sobre a terra abundantemente. PCC 15:33

Caiu na escuta telefônica da Operação Dictum

Bem, talvez não tenham sido exatamente com essas palavras, mais ou menos isso que Luan Lino de Andrade, o Pirlo do PCC disse e que serviu para alertar a Polícia paranaense sobre os planos de disseminação do Primeiro Comando da Capital (facção PCC) pelos presídios do interior do estado.

A facção paulista há tempos utiliza os planos secretos dos estrategistas do governo para ampliar seu campo de atuação. A lição já deveria ter sido aprendida em 1992 quando espalharam os facciosos do Carandiru para todo o estado.

Posteriormente em outra tentativa de diminuir o poder da organização criminosa, os estrategistas dividiram os PCCs pelos mais diversos estados brasileiros, fazendo assim que a facção se tornasse uma potência nacional.

Agora, passado 25 anos, o delegado federal Marco Smith alerta que enviar os líderes do Primeiro Comando da Capital para o interior faz mal para a saúde:

delegado federal Marcos Berzoini Simith

“O que nos preocupa atualmente é a firme disposição da facção de espalhar seus líderes por todos os presídios (…) o objetivo da facção é espalhar os seus líderes pelo interior para fortalecer as regiões que, como eles chamam, não estão ‘na sintonia’.”

Rícard Wagner Rizzi

Matar pode, mas qual o limite?

A morte de integrantes do Primeiro Comando da Capital em Pernambuco levanta novamente a questão: a polícia pode matar quem está sob custódia?

Que a polícia mata nós sabemos… e aceitamos

Há alguns dias postei aqui um artigo que discute os limites aceitos por nós, a sociedade, sobre policiais que matam impunemente aqueles que eles acreditam ser criminosos: Pena de Morte no Brasil, sim ou não?

Existe um limite mais ou menos bem estabelecido, de maneira informal, mas que tem funcionado, como acontece nos casos de resistência ou de troca de tiros, cuja apuração é simbólica e não há punição dos culpados, mesmo que tenham havido excessos.

Não faltam exemplos disso, como citei na matéria anterior, mas a sociedade não aceita o justiçamento, isto é, após o entrevero, o agente público matar o prisioneiro ou, na falta de provas, assassinar aquele a quem ele atribui um crime.

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro

A zona cinza fronteiriça

A morte do PCC José Batista de Souza e seu colega entra justamente nessa zona. Entenda o que aconteceu:

Há alguns dias, criminosos explodiram um caixa eletrônico do Bradesco em Serinhaém, e teriam sido localizados a 150 quilômetros na cidade de Carpina.

A Polícia Militar ainda vai explicar direitinho como é que chegou até eles e quanto foi recuperado do que teria sido roubado desse e de outros assaltos praticados nos estados da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Pela abrangência das ações da quadrilha, com certeza muito deverá ser recuperado para seus legítimos donos. Quanto aos assaltantes, um bateu a cabeça e morreu, então não vai poder falar mais nada; outro trocou tiros com a polícia.

Ninguém questionaria a morte do bandido que bateu a cabeça, e isso entra na zona obscura aceita pela sociedade. (Quem somos nós para questionar a decisão do ladrão de pular em um poço?)

O que eles sabiam que não podia ser revelado?

Mas e o caso da ambulância? José Batista de Souza, o criminoso que trocou tiros com a polícia, teria sido ferido na perna esquerda, tórax e braço esquerdo e levado para a Unidade Mista de Carpina para os primeiros socorros. De lá, foi colocado em uma ambulância para ser levado para Recife.

Mas quando uma ambulância com médico, enfermeira e motorista, é perseguida e interceptada na estrada e os assassinos declararam que iam terminar o serviço.

Se José Batista de Souza trocou tiros com a polícia e foi socorrido, ele estava sob custódia. Onde estavam os policiais responsáveis pelo acompanhamento?

Morte de PCC assassinado dentro de uma ambulância
Rícard Wagner Rizzi