A morte de Cláudio, Gabriel e Thiago no bairro Teixeirão em Porto Velho em Rondônia está levando pânico a comunidade dos predinhos do Residencial Orgulho do Madeira que fica a 5 quilómetros, mas que é ninho do Comando Vermelho.
Uma militante uruguaia narra como foi arrastada para o centro de uma guerra entre facções e governos. Sem nunca ter vendido drogas, sobreviveu à tortura, à traição e à repressão. Um grito de desespero por justiça social e dignidade no meio da falência moral do continente.
Em meio a um Uruguai dividido entre facções, Estados e traições, este relato pessoal revela o impacto brutal da guerra por controle das drogas — com menções diretas ao Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533). Leia e descubra como sobreviver virou resistência numa América Latina esvaziada de utopias.
Público-alvo: Militantes de esquerda, usuários de drogas, pesquisadores em criminologia, jornalistas, ativistas por políticas de drogas, profissionais da saúde mental e leitores interessados em narrativas reais com crítica social latino-americana.
Aviso importante: Este relato cru expõe vivências marcadas por violência, drogas e traições em um cenário latino-americano. Não romantiza o crime nem simplifica a dor. Leitura recomendada para quem busca compreender as contradições de uma militância sobrevivente num continente partido entre utopias e guerras invisíveis.
Se fosse um inimigo que me insultasse, eu o suportaria; se fosse o meu adversário que se levantasse contra mim, dele eu me esconderia. Mas és tu, meu igual, meu companheiro, meu amigo íntimo.
Salmo 55:12-13
Vou contar minha história.
Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles nesses meus trinta e oito fevereiros vividos.
Lido com os códigos da velha escola da consciência de classe. Sou de esquerda e, embora tenha crescido entre bandidos, fui abençoado e muito cuidadoso, e nunca esperei que a traição viesse de um irmão, de um oprimido, pois para mim o inimigo eram os opressores, eram os fascistas.
Nestes últimos dois anos vivi coisas horríveis!
Pela primeira vez sofri a traição daqueles, sendo meus irmãos, cantavam canções revolucionárias comigo, e acredite, dos quais eu nunca teria imaginado sofrer uma traição que quase me matou, mas cuja dor me ceifou minha fé no homem.
Nasci em fevereiro de 1984, não tenho antecedentes criminais, morei em São Paulo, Bahia, Romênia, e muitos outros lugares sem nunca ter traficado. Respeito quem o faça, mas não é meu bastão — amo demais a classe trabalhadora, não poderia agir assim.
Apesar eu mesmo ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.
Eu e muitos outros, militamos pela legalização da maconha no meu país, o Uruguai. Conseguimos. A ideia era, com a legalização haver maior controle sobre o comércio desses produtos.
No final nada disso aconteceu. Como o governo não estatizou ou nacionalizou as empresas, nós apenas regularizamos o mercado para as empresas estrangeiras exportarem nossa produção — passamos a ser vacas de ordenha para sermos sugados por investidores estrangeiros.
Se eu planto, eles roubam, não tem brotos de qualidade na periferia, só prensagem paraguaia, e um bom broto vale tanto quanto cocaína. Tudo para o lucro dos capitalistas dos narcóticos. Entendo agora o porquê, poucos dias depois da legalização, os EUA ameaçaram o presidente José Mujica de congelar as contas bancárias uruguaias em território americano: queriam que a produção não pudesse ser nacionalizada e por isso o Uruguai só regulamentou o comércio.
Nós que militamos pela legalização de nossa produção fomos espancados pela polícia e agora, as empresas estrangeiras podem explorar esse mercado e nos deixar com as migalhas, colhendo os frutos de nossa luta.
No Uruguai a guerra continua! Na periferia, a direita perdeu o mercado de drogas, mas encontrou o caminho perfeito para virar o jogo: usam cavalos de Tróia!
A estratégia é procurar um consumidor ou parceiro de negócios e ao menor deslize ou crime, estes são presos e o preço de sua liberdade é pago com a traição de seus colegas, amigos ou familiares.
Muitos aceitam participar desse novo mercado que antes pertenciam as organizações criminosas argentinas ou a facções brasileiras como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Mais cedo ou mais tarde esses que aceitaram participar desse novo mercado acabam sendo presos por algum motivo e negociam sua liberdade com a condição de se infiltrarem para entregar seus antigos comparsas de facção.
Eu nunca pertenci ao tráfico de drogas, sou apenas um usuário, jornalista, cabeleireiro, e anarquista ligado às lutas sociais. Cresci em um bairro de trabalhadores e estudei no bairro de La Blanqueada. Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda, universitários, ateus, católicos, brasileiros, argentinos, e todo o tipo de gente boa e ruim.
Eu não me importo como cada um escolhe viver sua vida, desde que não seja fascista, nem policial, nem vote na direita, se tem códigos antiquados e a consciência de classe é a única coisa que me interessa.
Há dois anos minha vida se tornou um inferno.
Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros — só voltaria depois de avisar a todos do risco e da família ou os companheiros decidirem que queriam se arriscar.
Se alguém em risco me avisasse, eu correria o risco, mas sem avisar! Cagando para minha segurança e a da minha família, aí não! Isso para mim não é a ética de um bom criminoso — o certo pelo certo!
Há dois anos aluguei de um amigo uma pequena estância, lugar onde eu vendo artesanato com meu pai de coração, um ex-prisioneiro político pelo Partido Comunista da Argentina, um homem que merece o céu, incorruptível.
Eu com esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos, e entoávamos o hino “Violencia es Mentir”! E foi esse amigo quem colocou em risco a vida e a liberdade minha e a de toda a minha família.
Eu havia alugado um quarto em uma fazenda para usarmos para nossa diversão. Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem e, de repente, em uma noite de muita tensão, eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.
Não estávamos só nós dois, haviam outros amigos e eles falavam muito, e descobri que eles roubaram drogas de alguma das facções e para pagar tinham que roubar outro traficante que ia descarregar a mercadoria de uma embarcação.
Eu e minha família não tivemos nada com isso! Eu e minha família fomos colocados por eles na linha de tiro de grupos criminosos poderosos — eu matei, mas morreria por minha família.
Imagine meu avô de 88 anos, seguindo os antigos códigos de conduta, onde se uma chave de fenda é roubada da loja de móveis ele não chamaria a polícia, preferia ele mesmo ir procurar o ladrão e lhe quebrar o joelho. Imagine se ele descobre o roubo da cocaína!
Pequei um dos que estavam metidos nessa enrascada. O derrubei e coloquei seu pescoço debaixo de minha perna. Ele me ameaçou dizendo que era da facção brasileira Comando Vermelho.
A mãe desse CV chamou um amigo dela da polícia, mas para sua surpresa veio a Guardia Republicana criada por Mujica, que me levou para o Comissário de Castillos, onde inventaram uma falsa ordem para abordar minha família — ou eu aceitaria participar do esquema de denúncia ou a ordem seria cumprida.
Foi aí que entendi o que estava acontecendo. Como os negócios se davam entre o Uruguai, a Argentina e o Brasil; e entre os grupos criminosos Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC).
O Primeiro Comando da Capital pelo menos administra muito bem a empresa: dá tranquilidade e não obriga ninguém que não pertence ao mundo do crime de se integrar a facção.
A partir daí minha vida foi um inferno.
As pessoas descobriram ao longo do tempo que ninguém de fato é livre. Todos pagam por sua liberdade às autoridades e às facções. Quiseram me prender de várias maneiras e me silenciar.
Um antigo amigo do papai que há muito não aparecia veio com a desculpa de comer um churrasco, mas depois de um tempo apareceu com uma van que parecia ter sido puxada: com vidros quebrados e com muita droga.
Ele me convidou para participar de um esquema e eu exigi que ele fosse embora. Inconformado com a resposta, ele me sequestrou por dois dias durante o inverno. Enquanto fiquei cativo, minha cabeça era enfiada minha cabeça gelo enquanto me torturava, para no fim, plantar a van na porta da minha casa e me entregar para a Polícia de Azul, denunciando que eu estava com as chaves, sendo que, essas vans são destravadas por um sistema eletrônico!
Um pesadelo sem fim.
Depois de um tempo, apreenderam um caminhão de um paraguaio e eu estaria envolvido; depois foi algo haver com um estuprador que continuava foragido; e assim como essas, outras denúncias apareciam — toda vez que começo a me recuperar, eles invadem minha casa e roubam meus telefones.
Eles esperam que eu cometa um erro ou desista de resistir e negocie como outros fizeram minha paz e liberdade, mas eu prefiro morrer a ser um miserável traidor.
Não é minha guerra!
Eu obviamente prefiro o Primeiro Comando da Capital onde se corre pelo certo, mas meu lugar de militância é no social e não quero me envolver com o crime.
Espero que essa guerra termine e que eu e meus avós, que dedicamos nossas vidas pelo socialismo, não mais sejamos torturados pelo fascismo ou pela guerra por domínio de drogas!
Se eu morrer amanhã, não foi ajuste de contas, pois nada vendi. Não é que sou incorruptível, mas não deram nem o preço, mas meu lugar é na imprensa ou trabalhando com as crianças para tirá-las das mãos dos tiranos que agem com violência e mentira.
somos filhos de trabalhadores viciados em oxi
Se usássemos a mesma energia para encontrar uma dose para fazer a revolução, a realidade da América seria diferente. As utopias de esquerda morreram na periferia, você não sente cheiro de revolução, você só sente cheiro de crack, chumbo, abuso, paramos a exportar ladrões de primeira linha e ao invés de jogadores de futebol, hoje os garotos não jogam mais bola em bairros populares, todos querem ser traficantes, sem importa que envenenar seu colega de classe faz parte.
Traição é pão de cada dia, te vendem por um segundo fogo e nem por 3 gramas. Não há garantias de resistência real para o viciado, não há lugar em clínicas ou prazo inferior a 6 meses em psiquiatria. A droga é cortada cada vez mais, e com uma qualidade cada vez menor.
Só consigo pensar em uma solução, que os Estados de cada país latino nacionalizem o mercado de drogas, eu disse nacionalizar não regulamentar. É a humilde opinião de uma filha de trabalhadores viciada em oxi.
Análise de IA do artigo: “Um Estranho Caso no Uruguai”.
🔍 Dados fáticos e temas centrais
Tema
Afirmação
Identidade e trajetória
Nasceu em fevereiro de 1984; morou em São Paulo, Bahia, Romênia e outros locais; não tem antecedentes criminais; é usuário de drogas, jornalista, cabeleireiro e anarquista.
Política de drogas no Uruguai
Militante da legalização da maconha; legalização foi aprovada, mas sem estatização; produção e comércio favorecem empresas estrangeiras.
Ameaças e perseguições
Relata sequestro, ameaças de membros do Comando Vermelho, perseguições policiais, invasões domiciliares e repetidas tentativas de envolvê-lo em crimes.
Crítica ao modelo de legalização
A legalização foi moldada de modo a impedir nacionalização da produção; afirma que os EUA teriam ameaçado Mujica com sanções bancárias caso nacionalizasse.
Facções criminosas
PCC e CV estariam atuando no Uruguai; o PCC seria mais organizado e respeitoso com quem não pertence ao crime; o CV mais impulsivo e violento.
Sistema de delação e infiltração
Afirma que presos são libertos sob a condição de trair antigos companheiros, passando a atuar como informantes infiltrados.
Conflitos pessoais
Um amigo próximo teria roubado drogas, colocando sua vida e a de sua família em risco com organizações criminosas.
Violência estatal
Denuncia abusos por parte da Guardia Republicana, com uso de ordens falsas e coação para que aceitasse colaborar como delator.
Crítica social e ideológica
Lamenta a falência da utopia socialista nas periferias; diz que jovens estão cada vez mais envolvidos com o tráfico; denuncia hipocrisia de parte da esquerda.
Proposta final
Defende a nacionalização (não apenas regulamentação) do comércio de drogas nos países latino-americanos como solução para romper com o ciclo do crime e da repressão.
📌 Análise de precisão factual (com base no banco de dados e fontes confiáveis):
Ponto
Verificação e comentários
Legalização da maconha no Uruguai
✅ Verdadeiro. Aprovada em 2013 sob o governo Mujica, com modelo de regulação estatal, mas produção foi em grande parte concedida a empresas privadas sob controle rígido. O Estado não estatizou a produção.
Ameaças dos EUA a Mujica
⚠️ Parcialmente plausível, mas não confirmada oficialmente. Houve preocupações dos EUA sobre lavagem de dinheiro, e o Uruguai negociou com bancos internacionais, mas não há prova pública de ameaças diretas com congelamento de contas.
Atuação do PCC e CV no Uruguai
✅ Há registros de investigações uruguaias e brasileiras apontando atuação esporádica e articulações de grupos brasileiros no cone sul, especialmente em zonas de fronteira. Porém, sua presença não é estrutural como no Brasil ou Paraguai.
Sistema de delação premiada informal
⚠️ O Uruguai não possui um sistema amplo de delação premiada como o brasileiro. Acusações de delações forçadas ou uso de informantes não são documentadas em escala sistêmica, embora possam ocorrer pontualmente.
Guardia Republicana criada por Mujica
✅ Verdadeiro. A Guarda Republicana é uma força especial da Polícia Nacional uruguaia reforçada durante o governo Mujica para lidar com crimes graves e narcotráfico.
Exploração por empresas estrangeiras após legalização
✅ Real. As duas principais empresas inicialmente autorizadas a plantar cannabis para distribuição foram estrangeiras ou com capital estrangeiro. Pequenos produtores criticaram a centralização da produção e as restrições.
Situação de drogas adulteradas e falta de tratamento
✅ Estudos e reportagens indicam precariedade na qualidade das drogas vendidas na periferia, aumento de consumo de oxi e crack, e déficit de políticas públicas de saúde mental no cone sul.
O relato possui uma base factual sólida nos seguintes aspectos: contexto político da legalização no Uruguai, presença episódica de facções brasileiras no cone sul, repressão estatal às margens da legalidade, e marginalização dos usuários. Contudo, há trechos que, embora verossímeis e coerentes com dinâmicas conhecidas, carecem de comprovação pública — como o uso sistemático de delatores ou pressões diretas dos EUA sobre Mujica em forma de ameaça bancária.
Trata-se de um testemunho de valor documental, marcado pela vivência subjetiva e leitura crítica de um militante, e não de um texto jurídico ou investigativo. Por isso, suas verdades repousam no campo do vivido e do simbólico, mais que do verificável em fontes oficiais.
Análise do texto sob o prisma da Teoria da Associação Diferencial
📌 1. O comportamento criminoso é aprendido — não herdado biologicamente
Texto: “Sou de família de comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores, e tenho aprendido muito com todos eles.”
Análise: O narrador reconhece ter aprendido valores, códigos e posturas através da convivência direta com pessoas do meio criminoso, político e operário. O ambiente social de origem era diverso, e não patologicamente criminoso — mas continha elementos de transgressão política e penal. Esse aprendizado é social, não genético.
📌 2. A aprendizagem ocorre em interações com pessoas próximas
Texto: “Eu e esse amigo cantávamos as músicas revolucionárias da banda argentina Los Redondos […] e foi esse amigo quem colocou em risco a minha vida e de minha família.”
Análise: A traição vem de dentro da rede de convivência. A teoria prevê que o sujeito é mais vulnerável ao comportamento desviante quando a influência vem de pessoas emocionalmente significativas. A proximidade afetiva foi um vetor de risco.
📌 3. A aprendizagem inclui técnicas e racionalizações do crime
Texto: “Como cresci na selva, eu sei como os macacos se movem […] eu que conhecia a linguagem do crime percebi que algo de errado estava acontecendo.”
Análise: O narrador demonstra domínio de códigos e estratégias que fazem parte do universo criminal, ainda que negue sua adesão prática a ele. Isso está em linha com a ideia de que se aprende não só a agir, mas a pensar e interpretar o mundo à maneira dos grupos desviantes.
📌 4. O contato com definições favoráveis ou desfavoráveis ao crime determina a inclinação para delinquir
Texto: “Apesar de ser usuário de drogas, me recuso a escravizar nas drogas os filhos dos pobres trabalhadores.”
Análise: A convivência com criminosos não levou o narrador a cometer crimes. Isso se explica pela preponderância das “definições desfavoráveis ao crime” no seu arcabouço moral: há um código ético de classe e resistência, que ele valoriza mais do que a adesão ao crime. Sua recusa ativa ao tráfico demonstra que, embora exposto a valores criminosos, ele internalizou outros — ético-revolucionários, por assim dizer.
📌 5. O comportamento criminoso é aprendido como qualquer outro comportamento — pelas mesmas formas de comunicação e experiência
Texto: “Sou da escola onde um criminoso não voltava para casa para não colocar em risco a sua família ou os seus companheiros.”
Análise: O narrador revela que aprendeu “a ética do crime” da mesma forma que se aprende qualquer valor social: pela observação, convivência, fala e prática. Não se trata de uma simples adesão irracional ao mal, mas da internalização de um código de honra paralelo ao legal.
📌 6. A intensidade, frequência e duração das associações influenciam na aprendizagem
Texto: “Tenho amigos do Nacional, do Penarol e do Cerro, criminosos, traficantes, crianças, políticos, militantes de esquerda…”
Análise: A grande diversidade de contatos indica que o narrador foi amplamente exposto a múltiplas influências ideológicas, criminosas e sociais. Segundo Sutherland, esse tipo de ecossistema pode gerar conflito moral interno, mas também fornece alternativas para escolhas não criminosas, como é o caso.
📌 7. A associação diferencial pode explicar tanto o crime quanto a resistência a ele
Texto: “Prefiro morrer a ser um miserável traidor […] Meu lugar é na imprensa ou trabalhando com crianças.”
Análise: O protagonista, apesar da exposição intensa ao crime, recusa-se a aderir à prática. Isso reforça a ideia de que, embora o ambiente seja um fator determinante, ele não é absoluto: os significados atribuídos a essas experiências e os grupos com os quais o indivíduo mais se identifica moralmente podem moldar sua conduta em outra direção.
✅ Conclusão da análise com base na Teoria da Associação Diferencial
O relato é um exemplo claro da aplicação da teoria de Sutherland. O narrador vive em um meio onde há forte presença de elementos criminais, mas a socialização com ideais éticos da classe trabalhadora, do anarquismo e da militância social atua como um contrapeso às pressões desviantes.
Ele aprendeu os códigos do crime — conhece sua linguagem, estratégias e limites — mas os recusa com base em valores internalizados por outras associações diferenciais, mais morais, mais comunitárias.
Sua trajetória mostra que o crime não é fruto apenas da miséria ou da predisposição pessoal, mas de uma rede de interações, códigos morais e oportunidades simbólicas.
Análise do perfil psicológico do autor
A análise psicológica do autor do texto “Um estranho caso no Uruguai” revela um perfil singular, estruturado por três dimensões centrais: vivência de conflito crônico, rigor moral fora da legalidade institucional e resistência política de base afetiva. Abaixo, apresento essa leitura em quatro blocos: identidade, afetividade, funcionamento psíquico e riscos.
🧠 1. Identidade psicossocial
✓ Identidade combativa e marginal-ética O autor constrói uma narrativa de vida marcada pela convivência com marginais — “comunistas, tupamaros, criminosos e trabalhadores” — mas reafirma que a criminalidade nunca foi seu caminho. Essa dualidade (inserção sem adesão) revela um senso de identidade liminar: ele habita os dois mundos, mas se recusa a ser moldado por nenhum que contradiga seus próprios códigos.
✓ Estrutura identitária vertical e herdada Sua autoimagem está fincada em um ideal de continuidade intergeracional: “meu avô, meu pai de coração, meus companheiros”. Essa rede não é apenas relacional — é simbólica, substituindo o Estado e a legalidade institucional por uma ética própria. Isso sugere forte internalização de valores comunitários e rebeldes, uma identidade que opera à margem da ordem formal, mas se ancora em vínculos afetivos sólidos.
❤️ 2. Afetividade e códigos emocionais
✓ Raiva moral canalizada como crítica social Há uma fúria constante no texto — contra o sistema, contra os traidores, contra a falsidade institucional — mas que não se desorganiza. Em vez disso, ela é canalizada para narrativas políticas e denúncias sociais. Isso indica alta elaboração da emoção, mas com traços de amargura profunda e desencanto acumulado.
✓ Traição como núcleo traumático A traição por parte dos “irmãos” que cantavam canções revolucionárias com ele é descrita com mais intensidade emocional do que as ameaças físicas. Isso revela que sua maior vulnerabilidade psíquica está no rompimento dos vínculos simbólicos, não na dor corporal. O trauma relacional o desestrutura mais que a violência estatal.
✓ Ambivalência afetiva persistente O autor idealiza o crime “honesto” (o código do criminoso de conduta) ao mesmo tempo que o rejeita. Ele admira o PCC por “correr pelo certo” e despreza o Comando Vermelho por envolvimento desordenado com o Estado. Essa ambivalência emocional mostra que seu sistema ético é construído em oposição tanto à lei quanto ao caos, o que impõe constante tensão interna.
🧩 3. Funcionamento psíquico
✓ Estrutura de pensamento discursiva e política A escrita é coerente, articulada, com raciocínio encadeado por causa e consequência, mesmo sob carga emocional elevada. O autor é capaz de reflexão abstrata, faz crítica geopolítica, sociológica e histórica, o que aponta para um funcionamento de ego preservado e maduro em termos cognitivos.
✓ Visão de mundo dualista e moralizante Há uma divisão clara entre “os certos” e “os errados”, ainda que o autor reconheça a complexidade das ações humanas. Isso pode ser visto como mecanismo defensivo de delimitação do eu, necessário para manter coesão psíquica em ambientes com alta ambiguidade moral. Ele não se perde nos cinzas: opta pelos extremos, mas consciente disso.
✓ Hipervigilância e percepção persecutória fundamentada Dado o histórico relatado de sequestros, vigilância, ameaças e infiltrações, é esperado que o autor desenvolva comportamentos de hipervigilância. No entanto, ele mantém a noção de realidade, distinguindo-se de quadros paranoides: sua desconfiança é contextualmente plausível e relatada com clareza.
⚠️ 4. Indicadores de risco psicológico
Risco
Evidência no texto
Interpretação
Trauma relacional
“…ceifou minha fé no homem”
Provável vivência de ruptura traumática de confiança, com impacto em vínculos futuros.
Síndrome de estresse pós-traumático (subclínica)
Sequestro, tortura, perseguições repetidas
Indícios compatíveis com TEPT leve a moderado, ainda não desorganizante, mas marcante.
Pensamento sacrificial
“Prefiro morrer a ser um miserável traidor.”
Risco de autoexposição excessiva, sustentada por uma ética de honra que pode comprometer a autopreservação.
Uso de substâncias
“Sou usuário de drogas.”
Reconhece o uso, mas afirma limites claros; há risco moderado de dependência, mas não há sinais de uso descontrolado no texto.
Isolamento social funcional
“Minha vida virou um inferno.”
Indica restrição de redes de apoio confiáveis; o autor parece operando num circuito de sobrevivência e desconfiança.
✅ Conclusão do perfil psicológico
O autor é um indivíduo de estrutura psíquica preservada, alta capacidade reflexiva e com uma ética pessoal profundamente enraizada na justiça de classe e na lealdade afetiva. Ele demonstra resiliência significativa diante de adversidades graves, mas carrega feridas emocionais profundas, sobretudo no campo da confiança interpessoal.
Seu modo de viver e pensar é condicionado por experiências reais de perseguição e violência, mas sua resposta a isso não é paranoica nem vingativa: é crítica, social e política. Há traços de sofrimento emocional mal processado, mas compensados por engajamento simbólico com causas sociais e produção discursiva (narração, denúncia, articulação).
Sua maior fragilidade psíquica parece estar na solidão moral do justo que recusa tanto o Estado quanto o crime — um território perigoso para quem resiste.
O que significa o acordo de paz proposto pela facção Comando Vermelho para o Bonde dos 13, grupo aliado do PCC?
Os crias do 15 no Norte do país pedem fortalecimento
Há anos os soldados do PCC na região Norte do Brasil não recebem atenção do Primeiro Comando da Capital, ficando cada um por si e só com Deus na sua proteção de todos.
No começo foram integrantes das cidades do interior que reclamavam do abandono: ninguém para passar a visão, ninguém para ajudar no fortalecimento, enfim, ninguém para nada.
Hoje no Acre, os fiéis a camisa do 15 estão: presos, mortos, mocozados, se convertendo para a igreja ou fugindo do estado.
Nunca teve tanto “safado que se esconde atrás da Bíblia” para passar despercebido pela tormenta para voltar ao mundo do crime quando o tempo amainar.
Fui com ele, e que encontramos não foi melhor do que deixou para trás. O Primeiro Comando da Capital estava entrincheirado em poucas comunidades após ter se desentendido o Cartel do Norte (CDN).
A situação se repete por quase todo Norte e Nordeste:
ao oeste, no Acre, o Bonde dos 13 (B-13), antigo e aliado fiel aliado do PCC decide não mais derrubar sangue pelos PCCs;
ao centro, em Manaus, derrotas, isolando o PCC em alguns bairros da capital; e
Um indígena yanomâmi afirmou para um canal de mídia, que o ataque sofrido em sua aldeia teria sido executado por mineradores ilegais ligados ao Primeiro Comando da Capital. Essa informação se transformou em verdade absoluta e foi reproduzida por todos os órgãos de imprensa em pelo menos dez idiomas pelo mundo — apesar da região em questão estar sob o domínio do Comando Vermelho e o método e vestimentas dos atacantes serem típicos de milicianos.
Deixando o mundo fantástico da imaginação de lado e olhando para as ruas vemos uma situação muito diferente: o Primeiro Comando da Capital foi devorado pela selva amazônica.
Yanomami na luta contra o PCC e os garimpeiros ilegais
Dário Vitório Xiriana Kopenawa dirige a organização “Hutukara Associação Yanomami”. Por meio de seu trabalho, ele quer fazer valer as demandas dos Yanomami, entre outras coisas, no nível político. Seu trabalho se concentra em particular nos ataques de garimpeiros ilegais de ouro e crime organizado em sua área e confirma a presença da facção paulista nas regiões Yanomamis:
Já na década de 1980, cerca de 40 mil garimpeiros ilegais invadiram nossa terra Yanomami. O mesmo se repete hoje. Os Yanomami são mortos. Os invasores continuam aumentando. Grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que cometem crimes organizados contra os indígenas, também são uma ameaça. — Dário Kopenawa
Ele também se dirige diretamente aos líderes mundiais:
O que queremos hoje na região Yanomami é a ajuda dos países internacionais. Queremos apoio para pressionar o governo brasileiro. Os “garimpeiros” devem partir imediatamente, antes que mais parentes nossos, crianças e mulheres morram e mais violência aconteça.
O governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro tolerou as maquinações ilegais nos últimos anos de sua gestão, até mesmo encorajando-as com sua retórica agressiva. Ainda não se sabe como as coisas continuarão para a população indígena no Brasil sob o novo governo recém-eleito de Lula da Silva – mas há uma grande esperança de mais respeito pelos direitos humanos.
Fruto da terra e da cultura acreana, o Bonde dos 13 já estava no Acre antes da facção PCC chegar por lá e continuará naquelas paragens muito depois que o PCC deixar o estado.
Integrantes da facção 1533 que saíram de suas comunidades nas Zona Sul e Zona Leste de São Paulo, já voltaram para casa, e os acreanos que aderiram e defenderam a ideologia do PCC com fé morreram, estão presos, mocozados ou acuados.
Em Rio Branco, resistem aos constantes ataques do CV nas ruas na Cidade do Povo (CDP). Resistem graças a uns os caras do PCC da capital, dos “originais” mesmos.
Esses e outros crias do 15 também estão no segundo distrito, na baixada da Sobral e no Recanto dos Buritis. Esses também não rasgam a blusa e nem pulam do barco, mas não dá para saber até quando vão resistir sem receber fortalecimento.
As fronteiras estão quase todas vermelhas e o Peru avermelhou tudo
A traição de crias do PCC e do B-13 por dinheiro ou por conquista de espaço na liderança ou no domínio de quebradas está enfraquecendo ambas facções que perdem armas, domínios e drogas tanto para o CV quando para as próprias forças policiais.
Na fronteira com a Bolívia, Epitaciolândia que tá 3, já em Brasiléiasó tem 3 em algumas quebradas, o resto já vermelhou; e na fronteira com o Peru o PCC caiu na trairagem: 007 era o frente do B-13 na cidade e pegou para ele 200 mil Reais do caixa da facção e mais 100 mil do Comando Vermelho e trocou de camisa.
Os cem mil pagos pelo CV para 007 saiu de graça para a facção carioca dominar toda a região do Vale do Juruá: Cruzeiro do Sul, Porto Walter, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Marechal Thaumaturgo, Tarauacá, Feijó e Jordão.
Sobrevivendo em um novo mundo sem PCC
Laços familiares ligam os crias locais do PCC com integrantes do Bonde dos 13 ou do Comando Vermelho e seria questão de tempo até que eles vestissem novas camisas, no entanto, a facção carioca não tem aceitado conviver com ex-PCCs nos seus corres.
Nas quebradas conquistadas pelo Comando Vermelho, os ex-PCCs não são admitidos e tem que correr com o armamento para as domínos dos B-13 para não serem mortos.
A pacificação proposta pelo Comando Vermelho
O salve da Trégua do Comando Vermelho em relação ao Bonde dos 13 joga uma pá de cal na fantasia de que o Primeiro Comando da Capital tem força na região — o B-13 também emitiu um salve ratificando o acordo de paz com o CV.
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O CV e as forças ocultas que o sustenta
A força do Comando Vermelho no Acre não veio só da sua atuação nas quebradas, mas também das parcerias fechadas com a elite das forças policiais, políticas e econômicas da região…
… peço que não discuta comigo, se não concorda, vá se entender com “Tenente Farias do CV” e não comigo.
Se você não lembra do caso…
O Tenente Farias do BOPE, ops… do CV, colocava as viaturas policiais a serviço do Comando Vermelho: ora para proteger suas quebradas de ataques dos inimigos, ora fazendo operações policiais para enfraquece-los antes dos ataques de seu aliado.
Você arriscaria uma aposta que ele era um ponto isolado fora da curva?
Onde sobrou PCC no Acre
Dentro das trancas os PCCs mais fiéis ainda resistem. Em alguns presídios são pressionados a ficar na sua, mas nos presídios mais estruturados, como no Complexo Presidiário do Rio Branco (FOC), convivem em harmonia com os integrantes do CV e do B-13, e as diferenças são acertadas em debates entre as lideranças.
No Peru tem uma liderança isolada mocozada sem condições de segurar sozinha a maré e em diversas regiões dominadas pelo Bonde dos 13, PCCs recebem abrigo e proteção no sapatinho para não se comprometerem na guerra que não lhes pertence.
No entanto quem um dia foi rei jamais perde a majestade. Crias do Primeiro Comando da Capital mantêm a guerra agora no Departamento de Pando na Bolívia , colocando jovens que como mulas no transporte da droga do Peru para o Brasil, por estarem próximos de Maldonado que é um dos últimos municípios peruanos.
Servindo de entreposto para a cocaína produzida no Vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro (Vraem), que depois segue para Iñapari, que é município fronteiriço com Bolpebra, já em solo boliviano. Na frente está Assis, do lado brasileiro. Lá está a tríplice fronteira, no meio da selva amazônica.
A minha impressão é que esteja se criando uma fratura entre as cúpulas e a base. As cúpulas estão entendendo que, antes de tudo, vem o business, deixando a base continuara a se matar com o CV.
Ele questiona:
O PCC está abandonando o Norte e Nordeste para melhor se concentrar melhor no Sul, fronteira com o Paraguai e o Sudeste?
Uma das alternativas encontradas pelos integrantes do Primeiro Comando da Capital pode ter sido aventurar-se pelo território boliviano.
A oposição de direita que afirma que o presidente Luis Arce deveria soicitar o apoio da Drug Control Administration (DEA), no entanto o vice-ministro de Substâncias Controladas, Jaime Mamani Espíndola, acredita que seja apenas uma jogada política de grupos políticos visando levar terror para vender uma solução. Dados do Google Trends demonstram que a população não tem levado em conta essa narrativa.
Salve que circula nas redes sociais do crime no Acre confirma o que se vê nas ruas: trégua entre as facções B-13 e CV.
🏳️🚩 COMANDO VERMELHO 🚩🏳️
Um Forte abraço a todos os irmãos e companheiros de luta. Estamos juntos!
🏳️♦️ TRÉGUA AO B-13♦️🏳️
Primeiramente, este informativo vem esclarecer aos nossos membros e toda a população acreana que em momento algum nossa organização quis a guerra em nosso estado. Muito pelo contrário, sempre tivemos em busca do diálogo, não por sermos incapazes de enfrentar os nossos inimigos, não fugimos da guerra mas sempre defendemos os nossos irmãos a qualquer custo.
Jamais vamos esquecer os nossos queridos irmãos que perderam suas vidas representando a nossa organização, e não foi em vão, tanto é que hoje dominamos mais de 90% do território de nosso estado do Acre.
Não esqueceremos dos nossos irmãos que perderam a liberdade e estão no sistema penitenciário vivendo dias de opressão.
Apesar das grandes dores deixada pelo vazio imprenchivel por aqueles que se foram em combate lutando por nossos ideiais.
Só temos a agradecer e expressar nosso apoio aos seus familiares.
Não estamos fazendo nenhuma aliança com eles, apenas estamos dando uma trégua nesta guerra insana que se instalou em nosso estado.
O Comando Vermelho – Ac deixa claro a todos os seus membros que continuamos em guerra contra o PCC. Iremos caça-los entre becos e vielas até eliminar onde estiverem no nosso estado.
⚠️Este informativo tem por objetivo a seguinte visão aos demais.⚠️
📌 Que a partir desta data os nossos membros não ataquem as comunidades e membros do B-13.
O B-13 ainda é nosso inimigo, porém o nosso alvo na guerra são os membros do PCC.
📌 Nenhum irmão ou irmã de nossa organização pode se envolver em relacionamentos com membros do B-13.
📌 Nenhum de nossos membros podem estar andando nas áreas do B-13 e muito menos eles andando em nossas comunidades.
📌 Em hipótese alguma será permitido o retorno de membros do B-13 para morar ou reivindicar alguma casa em nossas áreas. Isso jamais será aceito
Não estamos fazendo aliança com nenhuma facção do estado, apenas estamos dando uma trégua aos nossos inimigos pois já compreenderam que só foram usados e que se continuar com alianças com os parasitas do PCC irão perder ainda mais.
Não estamos tirando nossas tropas da pistas, pelo contrário, estamos nos fortalecendo cada vez mais.
Estamos atentos a todos os passos de nossos inimigos esperando somente o tempo certo de atacar.
O Espírito Santo vive uma configuração única de alianças e rivalidades entre facções criminosas. A ausência de separação carcerária sob o governo Casagrande transformou o sistema prisional num laboratório de convivência forçada, refletindo nas ruas uma lógica fluida e instável de acordos, traições e execuções pontuais.
Espírito Santo vive um cenário caótico onde alianças e traições entre facções moldam o cotidiano das periferias. Entenda como a política prisional local influencia essas disputas e o papel do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) nesse intricado tabuleiro de sangue, poder e negociações silenciosas.
A política carcerária de Renato Casagrande promove uma convivência forçada entre facções rivais no Espírito Santo — e o caos, longe de ser exceção, virou regra.
Se você entende o que se passa no estado do Espírito Santo, só agradeço se me procurar no privado para contar, mas acho que nem quem é do mundo do crime consegue entender o que se passa na mente e nos corações dos crias capixabas.
As repórteres Kananda Natielly e Taynara Nascimento do Tribunaonline entrevistaram diversos especialistas e publicaram um artigo repleto de contradições, não por incapacidade ou desleixo, mas porque cada entrevistado apresentou um quadro diferente.
Eu só sei que o sangue continua correndo nas ruas do estado, como aconteceu há poucos dias, quando dois homens em uma moto executaram um rapaz e feriram uma mulher que estavam em um ponto conhecido de tráfico em Vila Velha, e assim como ele, já morreram uns 50 nas disputas sobre o domínio dos pontos de tráfico em tempos recentes.
Vila Velha resume a zona que é o crime organizado no Espírito Santo
Até aí parece ser uma disputa fácil de entender e similar ao que ocorre em outros tantos recantos do Brasil: PCC e CV disputando espaço com seus aliados locais. Só que não! Como tudo é confuso no Espírito Santo esse caso não poderia ser diferente:
Em 2019, uma das principais lideranças do Ulysses Guimarães e do 23 de Maio, seria Catraca da Gangue da Pracinha, como é conhecido Samuel Gonçalves Rodrigues, que era do Comando Vermelho e trocou a camisa para correr pelo Primeiro Comando da Capital.
Após sua prisão, as mortes pararam por um tempo, mas seus domínios que eram com ele do CV e passaram para o PCC, e agora voltaram para o CV sendo disputados pelo PCC e pelo PCV — simples para você? Para mim não, mas pode ficar ainda mais confuso:
Gangue da Pracinha do Catraca rachou após sua prisão. Marcola, como era conhecido Marcos Vinicius Boaventura, gerente de Catraca no Ulysses Guimarães, assim como os outros que não quiseram voltar a vestir a camisa do CV foram expulsos da quebrada.
Como zona pouca é bobagem: tem o Terceiro Comando Puro
Marcola se mocozou no Terra Vermelha do Terceiro Comando Puro (TCP), mesmo Catraca sendo do PCC, e de lá fez ataques aos antigos aliados no Ulysses Guimarães e Morada da Barra, tendo matado em uma única noite quatro integrantes da Gangue da Pracinha, mas como acabou preso por pelo menos uma das mortes, não conseguiu retomar as biqueiras que permaneceram ligadas ao Comando Vermelho.
No Centro de Vila Velha, o Morro da Penha e o Morro do Cobi de Baixo estão sob o domínio do Primeiro Comando de Vitória, que parece ter uma convivência pacífica e comercial com os crias do Comando Vermelho.
Colado ao norte de Vila Velha fica o Porto Santana, também conhecido como Morro do Quiabo no município de Cariacica, local conhecido como um importante centro de distribuição de drogas e disputado à sangue pelos diversos grupos criminosos.
O Porto de Santana está nas mãos do Terceiro Comando Puro (TCP), facção carioca aliada ao Primeiro Comando da Capital de São Paulo, que é aliado do Primeiro Comando de Vitória que disputa com o Terceiro Comando Puro — vixi, olha a zona!!!
Se em Vila Velha TCP e PCV disputam, em Vitória o Terceiro Comando Puro está em várias comunidades, entre elas a de Itararé, onde TCP fecha com o TCV.
“Divide et impera” — separar os inimigos para governar
Muito se discute se a separação dos presos por facção dentro do sistema penitenciário é a melhor opção. Os defensores da secção apontam algumas vantagens na adoção desse procedimento:
redução da violência dos conflitos entre os aprisionados;
redução das mortes violentas no sistema;
menor risco para os agentes prisionais por contar com uma pacificação e hierarquização da comunidade carcerária; e
dividir para governar — a divisão impede que os diversos grupos formem coalizões para agir no mundo do crime fora das muralhas.
Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul fazem uma rigorosa triagem dos presos, colocando-os cada qual em seus grupos facciosos, medida tomada após a disseminação do Primeiro Comando da Capital pelo sistema prisional.
Criando e disseminando a semente do crime
Até meados da década de 1980, os cárceres paulistas eram entregues aos grupos que se impunham seu domínio pela força e violência — era comum cortar cabeças de presos “sorteados” para protestar contra a superlotação das carceragens, e o sorteio era feito entre os que não faziam parte dos grupos.
Já na época, haviam os que defendiam que esse grupo deveria ficar em uma única unidade prisional, no entanto, o grupo majoritário defendia que o Estado não deveria reconhecer “as autodenominadas facções dos presos”.
E assim foi feito, e as constantes transferências espalharam a filosofia do Primeiro Comando da Capital para todas as unidades do estado de São Paulo, e quando o governo viu o erro, em maio de 2006, já era tarde e o PCC paralisou todo o estado e o deixou refém da criminalidade.
Tudo Junto e Meio Misturado sob o governo de Renato Casagrande do Espírito Santo
Hoje, vários estados adotam a separação, no entanto outros optam por manter os diversos grupos criminosos sob o mesmo teto, alegando que o Estado não pode reconhecer grupos criminosos e que ao concentrar os integrantes em uma unidade os administradores ficam mais vulneráveis às pressões internas.
Todos nós conhecemos o resultado dessa opção.
Os noticiários internacionais, que raramente lembram do Brasil, expuseram o fracasso dessa política prisional tupiniquim adotada no Amazonas e no Rio Grande do Norte após os massacres do COMPAJ e de Alcaçuz e a desmoralização de seus governos.
O estado do Espírito Santo na administração do governador Renato Casagrande segue pelo mesmo caminho:
“Não realiza a separação de internos em galerias ou unidades por auto declaração de participação em facções ou organizações criminosas”
“Lá tá todo mundo junto, tá ligado? Mas é mais essa parada, PCV, PCC, Primeiro Comando do Estado, tem essas paradas todas, fica todo mundo junto desembolando os cauôs, desembolando as tretas.”
me conta um conhecido de dentro do sistema capixaba
A experiência já mostrou mais de uma vez que juntar presos de facções rivais na mesma panela é receita certa para o desastre, mas, curiosamente, parece que o caos criado intencionalmente pelo governo dentro do sistema prisional capixaba está gerando um equilíbrio peculiar — uma espécie de padrão de convivência única no país.
É claro que essa relativa tranquilidade dentro das cadeias não é fruto de nenhuma genialidade administrativa ou ação eficiente do poder público. Pelo contrário, nasce das negociações diárias feitas pelos próprios presos, costurando acordos pontuais e precários para garantir algum nível de convivência.
Esses entendimentos internos entre os crias de facções rivais refletem-se diretamente nas quebradas capixabas, onde negócios improváveis são fechados entre grupos que, em outras regiões do Brasil, estariam trocando tiros. Assim, as tretas que explodem do lado de fora das muralhas acabam sendo resolvidas no varejo, sem escalar a ponto de comprometer o delicado equilíbrio de forças.
É justamente essa dinâmica que pode explicar por que episódios violentos como os de Catraca e Marcola não provocaram uma guerra aberta por toda Vila Velha, não incendiaram o Espírito Santo inteiro, nem explodiram em rebeliões dentro do sistema prisional.
Se em estados como Roraima (71,8 homicídios por 100 mil habitantes), Ceará (54) e Rio Grande do Norte (52,5) a guerra entre facções empilha corpos nas ruas e penitenciárias, e em São Paulo (6,5) a rígida organização e a pacificação ditada pelo PCC conseguiu derrubar drasticamente esses índices, o Espírito Santo paira no meio-termo desconfortável dos 24,8 homicídios por 100 mil habitantes. Por lá, não há guerra total nem paz verdadeira, apenas conflitos pontuais e muito sangue derramado em episódios isolados.
Dúvidas que não querem se calar
O que os casos recentes em Vila Velha e Cariacica parecem sugerir é que a política penitenciária do governador Renato Casagrande pode estar perdendo seu efeito paradoxal de unir inimigos declarados. Estaria o Espírito Santo caminhando para uma nova escalada de violência urbana e penitenciária, ou essas disputas individuais vão se resolver com novos e mais amplos pactos silenciosos entre as facções?
O governo estadual estaria, sem perceber ou talvez com plena consciência, criando uma nova geração de criminosos que correrão juntos, mesmo que separados por siglas e bandeiras? Perguntas que continuam sem respostas claras, enquanto nas periferias capixabas as ruas seguem à espera das próximas vítimas.
Análise do texto “Haverá guerra entre facções no Espírito Santo?” por IA:
Análise sob o ponto de vista factual e de precisão
Pontos Precisos e Corretos:
Configuração das facções: De fato, no Espírito Santo existem disputas entre facções como o Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando de Vitória (PCV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Terceiro Comando Puro (TCP). Essas disputas locais envolvem frequentes trocas de alianças e rivalidades instáveis, resultando em um cenário bastante fluído e confuso.
Política Prisional: O texto corretamente aponta que a separação ou não dos presos por facção é um ponto crucial na política penitenciária brasileira. Estados como São Paulo realmente adotam a separação rigorosa por facções após episódios como a rebelião de maio de 2006 liderada pelo PCC. Em contraposição, estados como Amazonas e Rio Grande do Norte sofreram graves consequências pela ausência dessa separação, resultando nos massacres citados de COMPAJ (2017) e Alcaçuz (2017).
Renato Casagrande: O governador Renato Casagrande realmente segue uma política prisional que não separa detentos por facção no Espírito Santo, o que é comprovado pela declaração oficial da Secretaria de Justiça do Estado e por relatos informais de internos e especialistas.
Eventos Específicos: O texto cita corretamente personagens como “Catraca” (Samuel Gonçalves Rodrigues), que foi preso em Itu, São Paulo, após troca de tiros com policiais em 2019. Esses eventos são verídicos e fazem parte do histórico recente das disputas faccionais entre PCC e CV em Vila Velha.
Pontos que exigem cautela ou correção:
Complexidade das Alianças: Embora a descrição das alianças e rivalidades esteja correta, há um risco de imprecisões devido à dinâmica constante dessas relações. Alianças como a mencionada entre TCP e PCC ou entre PCV e PCC são instáveis e frequentemente modificadas, não sendo incomum que tais parcerias sofram alterações ao longo do tempo.
Generalizações de violência: A narrativa cita cerca de 50 mortes recentes relacionadas ao tráfico em Vila Velha sem apontar um período específico ou fonte exata, dificultando a confirmação factual desse dado. Embora o contexto geral de violência esteja correto, essa informação específica precisaria ser validada por estatísticas oficiais para garantir precisão.
Casos específicos e detalhados: O relato sobre “Marcola” (Marcos Vinicius Boaventura) envolvendo o TCP e sua migração para Terra Vermelha exige atenção, pois detalhes sobre tais eventos são frequentemente obscuros ou sujeitos a versões conflitantes. Essas narrativas dependem de relatos locais, que podem variar ou se contradizer dependendo da fonte.
Pontos Fortes da Precisão e Contextualização:
texto compreende corretamente que a política carcerária pode influenciar fortemente as dinâmicas faccionais externas, criando tanto cenários de tensão quanto oportunidades inusitadas para negociações informais entre grupos rivais.
Destaca com precisão histórica o papel fundamental que a política penitenciária adotada em São Paulo na década de 1990 teve na expansão do PCC.
A observação sobre a existência de “acordos pontuais” entre facções é consistente com relatos e análises de especialistas em segurança pública.
Conclusão sobre a análise factual:
O texto é, no geral, preciso e bem fundamentado, com uma correta contextualização histórica e política. No entanto, detalhes específicos devem ser tratados com prudência devido à natureza dinâmica das relações entre as facções criminosas e a escassez ou imprecisão ocasional de dados oficiais.
Análise Aprofundada dos Conflitos entre Facções Criminosas no Espírito Santo
Resumo Executivo
O presente relatório oferece uma análise aprofundada do artigo “Haverá guerra entre facções no Espírito Santo?”, utilizando-a como ponto de partida para investigar a questão central sobre a existência de uma “guerra” entre facções criminosas no Espírito Santo. Constata-se que a fonte principal, embora seja uma voz direta e intrinsecamente enviesada do Primeiro Comando da Capital (PCC), oferece um vislumbre único da auto-percepção e ideologia da organização, servindo como um documento primário valioso.
A análise de relatórios oficiais e estudos acadêmicos demonstra que uma “guerra” entre facções no Espírito Santo não é uma hipótese futura, mas uma realidade ativa e contínua. Este conflito é marcado por violentas disputas territoriais, concentradas em áreas urbanas específicas da Região Metropolitana da Grande Vitória. O cenário criminal capixaba é caracterizado pela complexa interação de facções nacionais proeminentes, como o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP), juntamente com a significativa facção local, o Primeiro Comando de Vitória (PCV). Uma dinâmica central é a afiliação do PCV ao CV, o que o posiciona em rivalidade direta com uma aliança entre PCC e TCP observada em certos territórios.
As políticas de segurança pública e prisional do estado, apesar dos esforços para transferir líderes de alto escalão para unidades federais, enfrentam desafios sistêmicos, como a superlotação carcerária. Além disso, existe um dilema político notável em relação à classificação e separação de indivíduos encarcerados por facção, o que, dependendo de sua implementação, pode inadvertidamente contribuir para o fortalecimento e a perpetuação desses conflitos. A estratégia predominante de “guerra às drogas” é identificada como um fator que afeta desproporcionalmente populações vulneráveis e marginalizadas, fornecendo um fluxo contínuo de recrutas para as organizações criminosas e intensificando o ciclo de violência.
As recomendações para mitigar esses conflitos enfatizam a necessidade de políticas de segurança pública integradas, uma reforma prisional abrangente e programas robustos de inclusão social, visando abordar as causas-raiz do envolvimento criminal.
1. Introdução
1.1. Contexto da Análise: A Questão da Guerra entre Facções no Espírito Santo
Este relatório empreende uma análise abrangente da página web https://faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org/2021/07/20/havera-guerra-entre-faccoes-no-espirito-santo/, com foco na questão central sobre a ocorrência ou iminência de uma “guerra” entre facções criminosas no Espírito Santo. A investigação transcende as afirmações especulativas, buscando uma avaliação baseada em evidências do cenário criminal, das dinâmicas dos conflitos interfaccionais e da influência das políticas públicas sobre esses fenômenos no estado.
A análise é rigorosamente fundamentada em dados e informações extraídas de diversas fontes autorizadas, incluindo relatórios governamentais oficiais, estudos acadêmicos e relatos de notícias credíveis. O objetivo é fornecer uma compreensão aprofundada da complexidade da violência organizada no Espírito Santo, desmistificando percepções e oferecendo um panorama factual.
1.2. Objetivo e Estrutura do Relatório
O relatório está estruturado para abordar sistematicamente a consulta do usuário, começando com uma avaliação da credibilidade da fonte principal. Em seguida, apresenta um panorama detalhado das facções criminosas atuantes no Espírito Santo, aprofundando-se nas dinâmicas dos conflitos e seu impacto na segurança pública. As seções subsequentes examinam as políticas públicas e o sistema prisional capixaba, culminando em uma conclusão definitiva e recomendações acionáveis para enfrentar o problema.
2. Análise da Credibilidade da Fonte Principal (faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org)
2.1. Natureza e Propósito do Website
A página https://faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org deve ser interpretada como uma fonte primária direta do Primeiro Comando da Capital. O domínio do site incorpora explicitamente o nome completo da facção, indicando uma afiliação inequívoca. O conteúdo, particularmente o “Estatuto” e o “Manual” da organização, é apresentado na primeira pessoa do plural (“Nós revolucionamos o crime”, “Nossa responsabilidade está crescendo”), o que o posiciona como uma auto-narrativa e uma ferramenta de comunicação interna ou de relações públicas da facção.
A autenticidade dos documentos hospedados no site é corroborada indiretamente por sua citação em trabalhos acadêmicos e jurídicos, onde a URL é referenciada para acesso ao estatuto do PCC. Isso sugere que, embora o site não seja uma fonte noticiosa neutra, seu conteúdo é reconhecido como uma articulação genuína das regulamentações internas e da ideologia do PCC. A informação de que o criador do site, Rizzi, foi eventualmente excluído de grupos de WhatsApp do PCC devido a riscos aponta para uma estratégia calculada de comunicação pública, onde certas informações são disponibilizadas para consumo mais amplo, possivelmente para propagação ideológica ou para projetar uma imagem de controle, enquanto a segurança operacional é mantida.
2.2. Implicações para a Análise do Conteúdo
O valor fundamental deste site reside em sua capacidade de oferecer uma visão não filtrada, embora intrinsecamente tendenciosa, da auto-percepção, dos objetivos declarados e da lógica interna que pode impulsionar as ações do PCC, incluindo sua participação em conflitos. O uso da primeira pessoa do plural nos documentos internos do site confirma que se trata de uma perspectiva interna, não de uma análise externa. A citação desta URL em trabalhos acadêmicos e jurídicos para acessar o estatuto do PCC valida a autenticidade dos documentos como textos genuínos do PCC, mesmo que o próprio site não seja uma publicação neutra ou sancionada pelo Estado. O detalhe sobre a exclusão de Rizzi dos grupos internos do PCC, apesar de manter o site, sugere uma estratégia calculada de comunicação pública, onde informações específicas são tornadas acessíveis para um público mais amplo, talvez para fins de recrutamento, disseminação ideológica ou para projetar uma imagem de legitimidade e controle.
Consequentemente, a credibilidade do site não reside em sua objetividade jornalística ou analítica, mas sim em sua função como uma articulação direta da própria narrativa do PCC. Quaisquer afirmações feitas neste site, especialmente em relação a relações interfaccionais ou “guerras”, devem ser interpretadas dentro desta estrutura auto-servil e rigorosamente verificadas com fontes externas e objetivas, como relatórios policiais, estudos acadêmicos e estatísticas oficiais. A menção do site a “várias guerras” deve ser compreendida como parte da narrativa interna do PCC sobre sua luta e expansão.
3. Panorama das Facções Criminosas no Espírito Santo
3.1. Histórico e Evolução das Redes Criminosas no ES
A dissolução ou enfraquecimento da “Scuderie” em 2002 criou um vácuo de poder significativo no submundo criminal do estado. Esse vácuo impulsionou uma intensa disputa pelo controle de territórios lucrativos, especialmente na Região Metropolitana da Grande Vitória, que é estrategicamente importante devido aos seus portos internacionais, rodovias e aeroporto. Esse período de instabilidade facilitou a expansão e consolidação de facções externas maiores e nacionalmente reconhecidas, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, originárias do Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente. O Espírito Santo, assim, tornou-se não apenas uma rota vital para o comércio ilícito, mas também um possível refúgio para líderes criminosos procurados.
3.2. O Primeiro Comando de Vitória (PCV): Origem, Estrutura e Atuação
Uma dinâmica evolutiva crucial e complexa do PCV é sua subsequente afiliação ao Comando Vermelho, apesar de sua inspiração inicial e semelhanças estruturais com o PCC, que é um rival direto do CV. Essa mudança estratégica ilustra a natureza pragmática e fluida das alianças criminosas. No universo do crime organizado, a vantagem operacional e o controle territorial frequentemente se sobrepõem a alinhamentos ideológicos iniciais ou laços históricos. A decisão do PCV de se filiar ao CV, um inimigo declarado do PCC, provavelmente se deu pela busca de maior alavancagem operacional, acesso a recursos ou proteção em um cenário de disputa por mercados ilícitos. Essa aliança não apenas solidifica a posição do PCV no estado, mas também estabelece uma linha de confronto clara, posicionando o bloco PCV-CV em rivalidade direta com o PCC e seus eventuais aliados no Espírito Santo, moldando assim o cenário dos conflitos em curso.
O PCV demonstra uma ambição de expansão territorial, não limitando suas operações aos bairros de Vitória, mas estendendo seu alcance para o interior do estado e, de acordo com informações recentes, até para outros estados brasileiros. A organização opera com uma hierarquia sofisticada, incluindo um “comando geral” que pode dirigir operações mesmo de dentro de presídios estaduais e federais, líderes locais atuando como “franquias” que gerenciam operações de bairro, “gerentes” que supervisionam o empacotamento e a distribuição de drogas, e “vapores” como vendedores diretos nas ruas. O grupo também possui um braço armado especializado conhecido como “trem bala”, composto por “faixas pretas”, responsáveis por invasões, homicídios e incursões armadas.
Um aspecto preocupante do modus operandi do PCV é a exploração extensiva de crianças, adolescentes e jovens, que formam a “linha de frente”. Esses indivíduos servem como mão de obra barata e descartável para tarefas como empacotamento de drogas, vigilância e alerta sobre a presença policial. Eles são desproporcionalmente oriundos de famílias empobrecidas com acesso limitado a serviços públicos, tornando-os altamente suscetíveis ao recrutamento e, tragicamente, representados de forma desproporcional entre as vítimas de confrontos com forças estatais ou grupos rivais. Além da distribuição local de drogas, o PCV está ativamente envolvido no tráfico transnacional de drogas, empregando métodos como esconder drogas em navios no porto e fixar tabletes de cocaína nos cascos de embarcações já em trânsito marítimo, utilizando mergulhadores especializados.
3.3. Atuação e Relações do PCC, Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP) no ES
Uma dinâmica crucial e definidora no cenário criminal do Espírito Santo é a aliança estratégica observada entre o Primeiro Comando da Capital e o Terceiro Comando Puro em regiões específicas, notadamente Vila Velha. Essa parceria é significativa, pois o TCP historicamente emergiu de uma cisão do Comando Vermelho e é seu rival. A formação dessa aliança entre PCC e TCP, em conjunto com a afiliação estabelecida do PCV ao CV, cria um eixo de conflito multipolar claro e volátil dentro do estado. A rivalidade histórica entre CV e TCP é, portanto, transposta e amplificada no Espírito Santo por meio dessas alianças contemporâneas. Os interesses econômicos, particularmente o controle do comércio ilícito, são os principais impulsionadores dessas alianças e rivalidades, garantindo a persistência e a intensidade do que pode ser caracterizado como uma guerra contínua por territórios e mercados.
A Tabela 2, a seguir, oferece uma visão geral das principais facções criminosas atuantes no Espírito Santo, detalhando suas características, atividades e as complexas relações de aliança e rivalidade que moldam o cenário de conflito no estado.
Tabela 2: Principais Facções Criminosas Atuantes no Espírito Santo: Características e Relações
Facção
Origem/Base Principal
Atuação no ES
Principais Atividades
Alianças/Rivalidades no ES
Primeiro Comando de Vitória (PCV)
Vitória/ES (Complexo da Penha)
Região Metropolitana (Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica), interior do estado, outros estados
Tráfico de drogas (local e transnacional via portos), homicídios, controle territorial, exploração de jovens
Aliado ao Comando Vermelho (CV); Rival do PCC e TCP
Primeiro Comando da Capital (PCC)
São Paulo/SP
Vitória, Vila Velha, Serra, Colatina, e outras regiões do estado
Tráfico de drogas, homicídios (Setor Disciplinar), posse ilegal de armas, controle territorial
Aliado ao Terceiro Comando Puro (TCP); Rival do CV e PCV
Comando Vermelho (CV)
Rio de Janeiro/RJ
Diversas regiões do estado, incluindo Guarapari e áreas ligadas a facções locais
Tráfico de drogas, liderança de disputas territoriais
Aliado ao Primeiro Comando de Vitória (PCV); Rival do PCC e TCP
Terceiro Comando Puro (TCP)
Rio de Janeiro/RJ
Vila Velha e outras regiões do estado, com esquemas financeiros significativos
Tráfico de drogas, participação em esquemas financeiros ilícitos
Aliado ao Primeiro Comando da Capital (PCC); Rival do CV e PCV
4. Dinâmica dos Conflitos e Impacto na Violência no Espírito Santo
4.1. Evidências de Disputas Territoriais e Conflitos Armados
As estruturas internas das próprias facções demonstram uma capacidade para a violência organizada. O PCV, por exemplo, possui um braço armado conhecido como “trem bala”, cujas responsabilidades explícitas incluem invasões, homicídios e incursões armadas, significando um componente estruturado e dedicado ao engajamento em conflitos territoriais violentos. Da mesma forma, o “Setor Disciplinar” do PCC é encarregado da execução de homicídios e do controle do tráfico de drogas, confirmando ainda mais a institucionalização da violência dentro dessas organizações.
4.2. Análise dos Indicadores de Homicídios e Criminalidade (2021-2023)
O Anuário Estadual da Segurança Pública 2024 do Espírito Santo, uma fonte oficial de alta credibilidade, fornece dados cruciais sobre a violência letal, especificamente homicídios. Embora alguns municípios da Região Metropolitana da Grande Vitória, como Serra, Cariacica e Vila Velha, tenham registrado reduções nos homicídios em 2023 em comparação com 2022 (por exemplo, Serra teve 117 homicídios em 2023, abaixo dos 127 em 2022; Vila Velha registrou 117 em 2023 contra 159 em 2022), esses números ainda representam um nível significativo e preocupante de violência letal.
A capital do estado, Vitória, destaca-se como uma exceção crítica entre os municípios da região metropolitana. Em 2023, a cidade registrou um aumento notável de 21,4% nos homicídios dolosos, com 85 casos em comparação com 70 em 2022. Esse aumento é explicitamente atribuído, no relatório oficial, a “conflitos entre grupos criminosos nas regiões de morro da cidade”. Essa ligação causal direta, proveniente de uma fonte autorizada como o Anuário Estadual da Segurança Pública, fornece evidências contundentes de que uma guerra entre facções está de fato ocorrendo e impactando diretamente a segurança pública em áreas urbanas específicas e de alta relevância. Embora outros municípios tenham apresentado reduções, a situação em Vitória demonstra a intensidade e a localização desses confrontos, confirmando que o termo “guerra” não é uma hipérbole, mas uma descrição precisa da luta violenta e contínua pelo controle territorial.
A Tabela 1, a seguir, detalha os homicídios dolosos nos principais municípios da Grande Vitória entre 2021 e 2023, ilustrando as tendências e a localização da violência letal.
Tabela 1: Homicídios Dolosos em Municípios Selecionados da Grande Vitória (2021-2023)
Município
Homicídios Dolosos 2021
Homicídios Dolosos 2022
Homicídios Dolosos 2023
Variação % (2022-2023)
Vitória
1043 (dado não explícito, inferido do gráfico)
70
85
+21,4%
Serra
1090 (dado não explícito, inferido do gráfico)
127
117
-7,8%
Cariacica
966 (dado não explícito, inferido do gráfico)
114
114
0%
Vila Velha
135
159
117
-25,2%
Nota: Os dados de 2021 para Vitória, Serra e Cariacica são inferidos do gráfico de “Crimes Letais Intencionais” na página 29 do Anuário Estadual da Segurança Pública 2024, que apresenta a série histórica. Os valores exatos para 2022 e 2023 são explicitamente mencionados no texto do documento.
4.3. Consequências Sociais e Humanas da Violência Faccional
A violência generalizada instigada pelas facções criminosas impacta profundamente o tecido social, levando a “novas formas de sociabilidade” dentro das comunidades afetadas e exigindo uma reavaliação fundamental das políticas públicas, particularmente aquelas relacionadas à segurança pública. A estratégia predominante de “guerra às drogas” é criticada por seu impacto desproporcional em bairros pobres e predominantemente negros. Operações policiais, frequentemente conduzidas sob esse paradigma, resultam no “extermínio de uma demografia específica”, exacerbando as desigualdades sociais existentes e as preocupações com os direitos humanos.
Dados estatísticos do Atlas da Violência (IPEA, 2020) ilustram tragicamente esse impacto racializado, indicando que 74% das vítimas de homicídio são indivíduos negros. Isso destaca como as vulnerabilidades sistêmicas são exploradas tanto por grupos criminosos quanto, por vezes, por ações estatais. Para muitos jovens negros, que frequentemente vivem vidas marcadas por extrema pobreza, oportunidades educacionais limitadas e exposição diária a atividades criminosas, ingressar em uma facção pode paradoxalmente oferecer um “senso de propósito” ou pertencimento. Isso os torna altamente suscetíveis ao recrutamento e, tragicamente, desproporcionalmente representados entre as vítimas de conflitos faccionais e intervenções estatais.
5. Políticas Públicas e o Sistema Prisional Capixaba
5.1. A Política Penitenciária Estadual (SEJUS) e seus Desafios
A Secretaria de Estado da Justiça (SEJUS) é o órgão estadual primário responsável pela coordenação, planejamento, implementação e controle da Política Penitenciária Estadual. Sua missão declarada é aplicar a Lei de Execução Penal de forma humanizada, garantindo a segurança do estado e proporcionando condições para a reintegração social.
Um desafio significativo e persistente enfrentado pelo sistema prisional do Espírito Santo é a grave superlotação. O governador Renato Casagrande descreveu abertamente o sistema como “estável, mas com quase nove mil detentos a mais do que comporta. É um sistema frágil, uma bomba relógio, que pode explodir”. Essa situação crítica é sublinhada pelo fato de que seis das 37 unidades prisionais do estado operam com mais do que o dobro de sua capacidade projetada. Essa superlotação crônica não apenas compromete a segurança e a dignidade dos detentos, mas também dificulta severamente os esforços de reabilitação e fomenta um ambiente propício a tratamentos degradantes, impedindo assim a ressocialização genuína.
Em resposta a esses desafios, o governo estadual, sob a gestão do governador Casagrande, iniciou grupos de trabalho interinstitucionais envolvendo o Executivo, o Judiciário, o Ministério Público, a Defensoria Pública e a Ordem dos Advogados do Brasil. Esses grupos visam propor alternativas inovadoras e coordenar projetos existentes para aprimorar o sistema carcerário e aliviar a superlotação, incluindo esforços para acelerar os processos judiciais para detentos provisórios.
5.2. A Questão da Classificação e Separação de Presos por Facção
Existe uma tensão considerável e um dilema político no Espírito Santo em relação à classificação e separação de presos com base em sua afiliação a facções criminosas. Por um lado, o Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) e o Poder Judiciário buscam e obtêm ativamente autorização judicial para a transferência de líderes de alto escalão de facções, como os do PCV, para presídios federais de segurança máxima. A justificativa explícita para essas transferências é “interromper o comando exercido pelos detentos mesmo de dentro da Penitenciária de Segurança Máxima II” e “enfraquecer a facção criminosa, reduzindo sua capacidade de articulação e provocando sua fragmentação interna”. Isso demonstra uma abordagem prática e orientada para a segurança, visando separar figuras-chave para desarticular suas estruturas de comando.
No entanto, em contraste com esse imperativo operacional, existem propostas legislativas em nível federal, como os Projetos de Lei 2235/2021 e 2174/2019, que visam expressamente proibir a classificação e a separação de presos por facção. Os defensores desses projetos argumentam que tais práticas transformam inadvertidamente os estabelecimentos prisionais em “autênticas filiais do crime organizado,” consolidando os grupos criminosos dentro das prisões e impedindo fundamentalmente a ressocialização dos detentos. Essas propostas também ressaltam que a Lei de Execuções Penais (LEP) atual não estipula explicitamente a afiliação faccional como critério para a classificação de presos. Historicamente, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Espírito Santo já havia notado que, apesar de ser “proibido por lei,” a separação de presos por facção de fato ocorria, indicando uma prática de longa data que opera em uma área cinzenta da interpretação legal. A Secretaria de Estado da Justiça (SEJUS), por meio de suas Comissões Técnicas de Classificação (CTCs), capacita o pessoal para individualizar as penas com base na culpabilidade e na gravidade do delito, visando a reabilitação, mas o papel explícito da afiliação faccional nesse processo de classificação não é detalhado nas informações fornecidas sobre as CTCs. Essa contradição entre a necessidade operacional de isolar líderes e a preocupação legislativa de não fortalecer facções dentro do sistema prisional representa um desafio significativo. A eficácia da intervenção estatal na mitigação da “guerra” entre facções está diretamente ligada à forma como esse dilema é resolvido, pois a capacidade das facções de manter coesão e comando de dentro das prisões influencia diretamente a perpetuação dos conflitos externos.
5.3. Ações de Combate ao Crime Organizado e Cooperação Interagências
O estado do Espírito Santo demonstra um compromisso no combate ao crime organizado por meio de esforços integrados de aplicação da lei. A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado do Espírito Santo (FICCO/ES), um órgão colaborativo que compreende forças policiais federais e estaduais (Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil, Polícia Militar, Secretaria de Estado de Segurança Pública e Guardas Municipais), realiza ativamente operações para desmantelar organizações criminosas. Essa abordagem multiagências destaca a importância da cooperação e do compartilhamento de inteligência no combate eficaz ao crime.
O governador Renato Casagrande tem enfatizado consistentemente a necessidade crítica de cooperação interestadual, particularmente com o Rio de Janeiro. Essa colaboração é considerada essencial porque muitos líderes criminosos atuantes no Espírito Santo frequentemente buscam refúgio ou orquestram atividades a partir do território fluminense, ressaltando a natureza transfronteiriça dessas empresas criminosas. O MPES, por meio de seu GAECO, desempenha um papel fundamental na deflagração de operações direcionadas que visam desmantelar células específicas de grandes facções como o PCC e o PCV. Essas operações se concentram não apenas na prisão de membros, mas também na desarticulação de seus braços armados, no controle do tráfico de drogas e no desmantelamento de seus esquemas financeiros, enfraquecendo assim sua capacidade operacional geral.
6. Conclusões: Haverá Guerra entre Facções no Espírito Santo?
6.1. Síntese das Evidências e Resposta à Questão Central
Com base na análise abrangente de dados oficiais, pesquisas acadêmicas e relatórios policiais, é inequivocamente evidente que uma “guerra” entre facções criminosas no Espírito Santo não é uma hipótese futura, mas uma realidade ativa e contínua. A formulação da pergunta “Haverá guerra?” implica um evento futuro, mas as evidências demonstram que este conflito já está em pleno andamento e profundamente enraizado no cenário de segurança pública do estado.
Essa “guerra” é caracterizada principalmente por violentas disputas territoriais, particularmente concentradas nas “regiões de morro” de Vitória. Dados oficiais atribuem explicitamente o aumento significativo nas taxas de homicídio na capital a esses conflitos contínuos entre grupos criminosos.16 O conflito envolve uma interação complexa e volátil de grandes facções nacionais, incluindo o Primeiro Comando da Capital, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, juntamente com o poderoso e localmente enraizado Primeiro Comando de Vitória . Uma dinâmica definidora é a afiliação estratégica do PCV ao CV, o que o posiciona em rivalidade direta e violenta com uma aliança discernível entre PCC e TCP operando em certos territórios, notadamente Vila Velha.7
A presença de líderes de alto escalão (por exemplo, o “Senhor da Guerra” do CV) e a existência estabelecida de braços armados estruturados dentro dessas organizações (por exemplo, o “trem bala” do PCV, o “Setor Disciplinar” do PCC) sublinham a natureza organizada, estratégica e persistente desses conflitos, que vão além da violência esporádica para uma luta sustentada por domínio e controle sobre mercados ilícitos.
6.2. Fatores Contribuintes e Mitigadores dos Conflitos
Fatores Contribuintes:
Vácuo de Poder Histórico: O enfraquecimento e a eventual dissolução do controle criminal anteriormente centralizado (por exemplo, Scuderie Detetive Le Cocq) criaram um ambiente fértil para o surgimento e a expansão de novas, e frequentemente mais violentas, facções criminosas que disputam o domínio territorial.
Localização Geográfica Estratégica: A posição crucial do Espírito Santo, com portos internacionais e grandes rodovias, torna-o uma rota indispensável para o tráfico transnacional de drogas e armas. Essa importância estratégica alimenta uma intensa competição e disputas territoriais entre facções que buscam controlar esses fluxos ilícitos lucrativos.
Vulnerabilidade Socioeconômica e Paradigma da “Guerra às Drogas”: A estratégia predominante de “guerra às drogas” impacta desproporcionalmente e atinge jovens empobrecidos e predominantemente negros em áreas periféricas. Essa abordagem, frequentemente caracterizada por operações policiais repressivas, cria inadvertidamente um suprimento contínuo de indivíduos vulneráveis que são então suscetíveis ao recrutamento por facções, fornecendo um pool pronto de combatentes para a “guerra”.
Fatores Mitigadores/Esforços:
Operações Policiais Integradas e Baseadas em Inteligência: Os esforços ativos e coordenados de forças multiagências como a FICCO/ES e o GAECO do MPES demonstram uma abordagem concertada e orientada pela inteligência para desmantelar organizações criminosas, prender líderes-chave e desarticular suas capacidades operacionais.
Cooperação Interestadual e Federal: O reconhecimento por parte das autoridades estaduais, incluindo o governador Casagrande, da necessidade de uma cooperação robusta com outros estados (por exemplo, Rio de Janeiro) e agências federais é crucial para atingir líderes criminosos que operam além das fronteiras estaduais, enfraquecendo assim suas redes.
Transferência Estratégica de Líderes: A autorização judicial e a execução de transferências de líderes de facções de alto escalão para presídios federais de segurança máxima têm se mostrado eficazes na desarticulação de estruturas de comando e na fragmentação da capacidade operacional dessas organizações, mitigando assim sua capacidade de dirigir a violência a partir do sistema prisional estadual.
7. Recomendações
7.1. Sugestões para o Fortalecimento da Segurança Pública
Operações Sustentadas e Adaptativas Baseadas em Inteligência: Continuar e intensificar as operações integradas conduzidas pela FICCO/ES e MPES/GAECO. Essas operações devem permanecer altamente adaptáveis, focando estrategicamente na desarticulação da liderança faccional, no desmantelamento de redes financeiras e na neutralização de braços armados. Deve-se dar ênfase à coleta proativa de inteligência para antecipar e prevenir conflitos, em vez de apenas reagir a eles.
Segurança Reforçada em Fronteiras e Pontos Estratégicos: Implementar medidas avançadas de vigilância e interdição em pontos críticos, como portos internacionais, grandes rodovias e aeroportos. Isso é essencial para interromper o fluxo de drogas e armas ilícitas, que são os principais recursos que alimentam as disputas territoriais e a “guerra” geral entre as facções.
Policiamento Comunitário e Construção de Confiança: Desenvolver e expandir estratégias de policiamento comunitário que priorizem a construção de confiança e colaboração com os moradores em territórios vulneráveis. Reduzir a dependência dessas comunidades dos sistemas de “justiça” paralelos impostos pelas facções criminosas é crucial para a segurança a longo prazo e a legitimidade do Estado.
7.2. Propostas para a Melhoria da Política Prisional e Ressocialização
Mitigação Abrangente da Superlotação: Priorizar e implementar reformas estruturais dentro do sistema prisional para aliviar a grave superlotação. Isso inclui explorar e expandir opções de sentenças alternativas, investir em novas instalações de tamanho adequado e acelerar os processos judiciais para detentos provisórios. Abordar a superlotação é fundamental para recuperar o controle estatal sobre as instalações correcionais e minar a influência faccional.
Política Clara e Eficaz de Separação Faccional: Resolver o dilema político existente em relação à classificação e separação de presos por facção. Isso exige um arcabouço legal robusto que equilibre os imperativos de segurança (por exemplo, isolar líderes de alto risco para desarticular o comando) com os princípios dos direitos humanos e da ressocialização. Uma política clara, consistente e legalmente sólida é essencial para evitar que as prisões sirvam como bases operacionais para organizações criminosas.
Fortalecimento dos Programas de Ressocialização e Reabilitação: Aumentar significativamente o investimento em programas abrangentes de educação, formação profissional, apoio psicológico e reabilitação de drogas dentro das prisões. Essas iniciativas são vitais para oferecer genuinamente aos detentos alternativas viáveis à vida criminosa após a libertação, reduzindo assim a reincidência e enfraquecendo o pool de recrutamento para as facções.
Políticas de Inclusão Social Direcionadas: Implementar e expandir políticas públicas robustas destinadas a garantir direitos fundamentais e criar oportunidades genuínas para populações vulneráveis, particularmente jovens negros em áreas urbanas periféricas. Isso inclui garantir acesso equitativo a educação de qualidade, saúde, espaços culturais e oportunidades de emprego, reduzindo assim sua suscetibilidade ao recrutamento por organizações criminosas e promovendo sua integração na sociedade legítima.
Sistemas Robustos de Apoio Pós-Liberação: Desenvolver e fortalecer programas de apoio pós-liberação, incluindo assistência habitacional, serviços de colocação de emprego e apoio psicológico contínuo. Programas de reintegração eficazes são cruciais para quebrar o ciclo de reincidência e evitar que ex-detentos voltem a se juntar a redes criminosas.
Desde junho de 2016, com a morte de Jorge Rafaat Toumani e o fim da parceria entre o PCC e o CV, uma sangrenta guerra entre as duas organizações criminosas é travada e o PGC escolheu seu lado desde o início: o CV.
O Primeiro Comando da Capital tem interesse em dominar o mundo do crime do barriga-verde para garantir o uso seguro dos portos e entrepostos catarinenses, desafogando as exportações pelo porto de Santos e dificultando a ação policial.
O surgimento do Primeiro Grupo Catarinense (PGC)
A organização criminosa Primeiro Grupo Catarinense surgiu em 2003 se rebelando contra as condições carcerárias dos detentos na Penitenciária de Florianópolis e posteriormente passou a atuar no mundo do crime.
A facção possui estatuto que rege suas atividades e uma estrutura hierárquica bem definida: ministério, sintonias e disciplinas.
Primeiro Ministério: 10 integrantes com cargo vitalícios;
Segundo Ministério: sem número fixo de integrantes, é composto por detentos da Penitenciária de São Pedro de Alcântara;
Sintonias e os disciplinas: responsáveis por colocar em prática os desígnios do grupo e exercer o comando das comunidades.
Seus integrantes buscam o lucro e o crescimento através das atividades criminosas como roubos e tráfico de drogas.
Parte dos ganhos se destina ao pagamento do “dizimo” à organização, e o dinheiro arrecadado financia a compra de drogas, armas e operações para seus integrantes, ajuda as famílias dos encarcerados e paga advogados.
Nas regiões ou nas redes sociais nas quais seus integrantes interagem é comum encontrar pichações com as expressões Tudo 2, PGC e CV, além de fotos e vídeos onde exibem: drogas, dinheiro, armas e rádios comunicadores.
Ao contrário da facção paulista, os barrigas-verdes agem quando podem como os cariocas, disparando em viaturas policiais que entram em suas comunidades.
Diferentemente também do PCC, onde os novos integrantes começam por atividades menos perigosas, o PGC recruta adolescentes para servirem de soldados nas funções de maior risco, protegendo os demais integrantes imputáveis do grupo de uma possível prisão.
O que se pode esperar da estratégia de crescimento da Comunidade do Complexo de Israel no intrincado tabuleiro do crime organizado.
O ativista russo de direitos humanos Artemiy Semenovskiy (Артемий Семеновский) comentou no grupo de WhatsApp do site que recebeu informações que Manaus teria sido dominada pelo Comando Vermelho (CV).
Fiquei intrigado.
Há muito rola por lá a guerra entre as facções, mas a definição do conflito não me parecia estar próxima, apesar de me preocupar com a postura de grupos que antes se aliavam ao PCC: Guardiões do Estado GDE e o Bonde dos 40 B-40.
O GDE passou para a neutralidade e o B-40 tornou-se inimigo, matando integrantes e saqueando suas biqueiras do PCC, enquanto a antes poderosa Família do Norte FDN se dissolve.
Fabrício dos Santos Chaves, um dos líderes da Família do Norte, se escondeu com a família em Teresina após a FDN ter desmoronado, mas acabou sendo preso juntamente com sua mãe dele e outras seis pessoas por homicídios cometidos no Maranhão.
A resposta para essa intrincada e bilionária disputa pelo poder e pelos negócios nas regiões Norte e Nordeste pode estar nas comunidades do Complexo de Israel CDI no Rio de Janeiro, como me fez ver o canal Band Net News.
O Complexo de Israel é um grupo criminoso carioca, contrário ao Comando Vermelho, e que, apesar de manter parceria com Primeiro Comando da Capital, é considerado um grupo neutro e não aliado, assim como o GDE.
Comandado pelo traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa (Peixão ou Aarão), o Complexo de Israeltem suas bases nas comunidades da Zona Norte do Rio de Janeiro: Cidade Alta, Vigário Geral, Parada de Lucas, Cinco Bocas, e Pica-pau.
fonte: Canal Band Net News
O futuro do PCC nas mãos do Complexo de Israel
Aarão está mudando o desenho do crime organizado no Brasil.
A neutralidade de Aarão em relação ao PCC, permite que:
acesse seus produtos como drogas, armas e cigarros;
aproveite sua logística de distribuição e conhecimento;
contato com sua liderança do crime em todos os estados e países; e
feche parceria com o Terceiro Comando Puro TCP, aliado fiel dos paulistasno Rio de Janeiro.
Essa situação favorece o Primeiro Comando da Capital pois enfraquece o Comando Vermelho em sua base sem ter o custo de manter uma guerra direta no território onde seu inimigo está melhor estruturado.
No entanto, o Complexo de Israel demonstra que pretende despontar como uma força nacional e para isso fechou aliança com duas facções de fora do estado:
Cartel do Norte CDN do Amazonas, formado por antigos integrantes da Família do Norte FDN que debandaram com a sua implosão, e que atualmente é uma facção aliada ao Primeiro Comando da Capital.
Aarão não faz segredo que pretende criar uma rota de transporte de drogas, armas e outros ilícitos a partir do Rio de Janeiro em direção ao Norte e fazer o caminho inverso com outros produtos oriundos da Rota dos Solimões.
Com a derrocada da Família do Norte, esperava-se que o PCC tomasse com certa facilidade a Rota dos Solimões, pois enfrentaria um Comando Vermelho enfraquecido por estar sendoatacado em seu território pelo Terceiro Comando Puro e demais aliados locais da facção paulita, e milicianos que usam as polícias Militar e Civil como tropas de apoio.
A integração da Rota do Solimões e da Rota Caipira sob o monopólio do PCC concentraria o abastecimento de ilícitos dos grupos, bondes, facções e vendedores individuais, e portos para exportação em todo o país.
É possível que a pretensão de Aarão se encaixe nesse plano, pois ao unir o Terceiro Comando Puro (Rio de Janeiro), Guardiões do Estado (Ceará), e Cartel do Norte (Amazonas), cria uma rota ligando Rio de Janeiro à Manaus, ao mesmo tempo em que auxilia os paulistas no enfraquecimento do CV.
Um ex-aliado (GDE), um antigo aliado (TCP), e um novo aliado (CDN) do Primeiro Comando da Capital passam agora a girar em torno do Complexo de Israel, que se torna uma nova força aglutinadora.
Aarão do Complexo de Israel seria o novo Marcola do PCC?
A prisão e morte das antigas lideranças do Primeiro Comando da Capital podem ter desarticulado seus negociadores, ou as novas lideranças paulistas estão perdendo o contato e o respeito da tropa na base.
O canal Band Net News coloca o dedo na ferida ao afirmar que “as crias do Terceiro Comando Puro … tem o estado de espírito bastante semelhante dos crias do Guardiões do Estado e do Cartel do Norte”.
Renato Alves Pereira, o Carioca, um dos líderes do Primeiro Comando Puro, perseguido no Rio de Janeiro, deu fuga para Fortaleza no Ceará, mocozando-se no bairro Vicente Pinzon e nas comunidades de Rosalina, Passaré e Itaperi.
Carioca caiu no campo em que guerreavam o Comando Vermelho e os Guardiões do Estado, e estava junto a eles quando perderam o território para o CV, e teve que retornar ao Rio de Janeiro, mas levou consigo 30 GDEs.
Com esse reforço, o Terceiro Comando Puro e as tropas do Complexo de Israel buscaram expandir seus territórios, assinando na prática um pacto de sangue entre os grupos cariocas e o cearense.
A disputa pelo território no Norte do Brasil Carioca também seguiu então para Manaus, para unir forças com o Cartel do Norte de João Branco, o vulgo JB, já corria com os crias do Primeiro Comando da Capital, para derrotarem juntos o Comando Vermelho que está nas mãos de Gelson Carnaúba, o Mano Gê.
Comando Vermelho domina com focos de resistência do Cartel do Norte em: Mozinha, Gilberto Mestrinho, São José e Tancredo Neves;
Zona Norte
Comando Vermelho domina o bairro Novo Aleixo com uma pequena área sob o domínio de um cria da Família do Norte,
Comando Vermelho domina a Cidade Deus e Cidade Nova com poucos focos de resistência do Cartel do Norte, e permanece em disputa o Conjunto Habitacional Viver Melhor e a Comunidade Monte Olimpo;
Zona Sul
Cartel do Norte controla com pouca resistência do Comando Vermelho em partes do: Alvorada, Morro da Liberdade, Santa Luzia, São Lázaro, São Jorge, e Vila da Prata, Parque 10 de Novembro, Colônia Oliveira Machado;
Zona Oeste
Comando Vermelho domina em especial no bairro Compensa, local onde a organização criminosa teve origem, mas tem sofrido ataques do Cartel do Norte no Carbraz, Parque São Pedro, Redenção e Bairro da Paz; e
Centro
Comando Vermelho controla com resistência no Bairro do Céu controlado por um cria chamado Marcelinho da extinta Família do Norte.
O Coroado de Manaus tem uma posição estratégica, é o bairro da Zona Leste que faz fronteira com a região central e é cheio de becos e vielas, que dificultam a a ação da polícia e facilita. — Ayrton Senna Gazel para o emtempo
“Agora é CDN. O coroado é CDN”, gritam eles. Os bandidos ainda aparecem ameaçando os jovens que estavam na quadra.
Um segundo vídeo, gravado no mesmo espaço, feito como “direito de resposta”, mostra membros da facção criminosa rival, Comando Vermelho, apagando as pichações e pintando a própria sigla no muro, também usando armas.
Graças as vitórias do Comando Vermelho sobre os crias dos Guardiões do Estado, vários deles foram para o Rio de Janeiro, onde se somaram aos crias do Complexo de Israel e do Terceiro Comando Puro atacando o CV em sua base.
Agora, com o enfraquecimento do CV carioca, os crias cearenses estão começando a buscar a independência. Nas penitenciárias de segurança máxima do Ceará já houve entrega de camisa de integrantes que se declararam “população”.
A neutralidade valeria também para as comunidades fortalezenses de : Curió, Alagadiço Novo, Lagoa Redonda, Guajerú, Coaçu e Paupina, todos na Grande Messejana, além de Moura Brasil e Itaoca; e para os municípios como Maranguape, Caucaia, Aracati, Crato, Sobral e Barreira. — BenditoJor
Ficam de brincadeira, pegando a foto do moleque morto colocando para ganhar audiência, sem respeito.
Esses que pagam pau para os políticos e para a polícia tem que lavar a boca para falar de quem está na rua garantindo a sobrevivência da sua família.
Colocaram a foto do moleque morto, mas nem foram procurar saber quem ele era — todos os sites repetiram a mesma história que nem papagaios treinados.
Se perguntassem descobririam que ele era mais um moleque que não queria viver de joelhos.
Se perguntassem ficariam sabendo que ele queria ser espelho para os garotos do Bosque Sul de Teresina.
Ele era mais um que não queria mais sentir na pele esse maldito preconceito que cada moleque sofre quando está no trampo ou quando anda nas ruas do centro ou do shopping.
Era disso que ele falava: do progresso dele e da família, de ficar com os irmãos, e de correr pelo lado certo, mesmo que pelo lado errado da vida.
Mas chegaram na covardia e mataram Alex, o R2, que nunca desonrou a camisa que vestia — mas quem fez chorar vai chorar.
Corre a informação nas redes sociais que a facção paulista está dando uma gratificação de 1.500 Reais para quem der informação sobre os assassinos — já receberam um vídeo com os caras fugindo, mas ainda não deu para identificar.
Não é assim e não é só isso.
A imprensa fica de brincadeira dizendo que é só mais um moleque perdido que morreu, mas não é só isso, é uma guerra — e ninguém sabe quem vai morrer em uma guerra.
Está tudo nublado e ninguém tem ideia do que está acontecendo, nem mesmo quem está lá fora, mas eu posso te dizer que o tempo está fechado e a tempestade promete ser forte.
A guerra entre o Primeiro Comando da Capital e o Bonde dos 40 está aí, e a morte de R2 não vai deixar ninguém esquecer:
Morto dentro da casa, na frente da família, com 20 tiros, e tendo sua foto caído no chão publicada para todos verem — nem procuraram a foto dele quando vivo.
Só falo o que tem que ser dito.
Posso te dizer que não é a primeira guerra que as crias do 15 encaram, mas não sei te dizer se vão receber reforço dos irmãos de São Paulo — antes era tudo mais organizado.
A imprensa fala como se nada significasse a pilha de corpos empilhados nas periferias, e não diz o que tem que ser dito: “vejam os podres frutos da nossa política da guerra às drogas”.
A política e a polícia pregam uma moral que não tem, escondem que perderam o controle, e encobrem sua incompetência arranjando alguns corpos para mostrar para a imprensa como troféu de caça — começa com um aqui e outro lá, e não acaba nem quando são 27, 28, 29… nem se sabe quantos, como foi no Jacarezinho.
Só falo o que tem que ser dito: não é assim e não é só isso.
secretário Estadual de Segurança Pública, Rubens Pereira
Sociólogos alertam que o melhor momento para se combater as causas sociais e criar estruturas para o combate aos grupos organizados entre os narcotraficantes é quando estes estão pacificados por acordos internos.
O Piauí repete o que aconteceu em vários outros estados, não faz a lição de casa enquanto o ambiente está pacificado para depois, quando a prevista disputa entre os grupos retorna, pedirem medidas mais duras na repressão.
É o caso do do secretário Estadual de Segurança Pública do Piauí, Rubens Pereira, que com o fim do acordo que existia entre o PCC e o Bonde dos 40 B-40, pede uma vara especial para julgar casos que envolvam organizações criminosas. — Cidade Verde
Fica a lição: o mesmo acontecerá em São Paulo, onde a hegemonia do Primeiro Comando da Capital mantém o índice de homicídios em torno de 6,38 para cada mil habitantes (a mesma que a Argentina 6,53 e próximo a média mundial 6,2).
O crime organizado na Tríplice Fronteira: governos e Primeiro Comando da Capital tomando pau de uma secular amarra socioeconômica.
PCC: não há solução simples para problema complexo
O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) não deixará os Estados nacionais da Tríplice Fronteira (TF)entre Argentina, Brasil e Paraguai mais próximos de eliminar o crime organizado da região.
O ativista russo Artemiy Semenovskiy da CTS Command me questionou sobre uma possível ligação entre as lideranças da facção paulista PCC 1533 com os integrantes da facção carioca Comando Vermelho, na região da TF.
A resposta curta é: “faça o que eu mando, não faça o que eu faço”.
A resposta longa é:
Tudo começou com…
O assassinato, na região da Tríplice Fronteira, de Jorge Rafaat Toumani, em 2016 marcou o fim da parceria entre integrantes do Primeiro Comando da Capital e da facção Comando Vermelho (CV).
… que virou uma sangrenta guerra …
Inimigos de ambos os lados são caçados, capturados, torturados e mortos, tanto no Brasil quanto no Paraguai, na Bolívia e até na Argentina — somando milhares de mortos.
… mas enquanto os moleques morrem …
O tempo passou e a guerra esfriou: novas fronteiras foram consolidadas, com escaramuças ocorrendo apenas nas regiões ainda em disputa, no entanto, investigações policiais provaram que integrantes da cúpula do Primeiro Comando da Capital agora negociam armas e drogas com o arqui-rival Comando Vermelho.
… afinal, o buraco é mais embaixo!
Engana-se quem acredita que existe uma resposta simples para uma questão complexa:
O assassinato de Toumani deveria ter eliminado os fornecedores independentes de drogas e armas no Paraguai, sufocando o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, mas deu chabu, porque o Primeiro Comando da Capital não levou em conta a astúcia de Adam Smith e a história da formação sócio econômica daquela região.
Por outro lado, a logística do crime desenvolvido pela facção é invejável, como se tornou público com a Operação Palak da polícia argentina:
As armas chegavam desmontadas e em partes dos Estados Unidos a Buenos Aires, Santiago del Estero, Córdoba, Rio Negro e Santa Fe, já a munição ia da Alemanha para a Espanha e de lá para a Holanda, onde embarcavam para a Argentina. No país, uma rede comandada por um morador de Martínez montou o arsenal de guerra e, junto com as armas vendidas pelos donos de uma antiga fábrica em Córdoba, os enviou à cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, para finalmente entrar no Brasil e alimentar o Primeiro Comando da Capital. laseptma.info
O PCC, a formação sócio econômica da TF e a mão invisível do mercado
Há mais de um século a região desenvolve sua vocação de polo de livre circulação de pessoas, serviços e mercadorias, paulatinamente agregando: povos, conhecimento, infraestrutura em uma emaranhada rede internacional de relacionamentos e contatos.
Uma secular, complexa, arraigada e maleável estrutura socioeconômica não se dissolveria em poucas décadas por uma ação orquestrada entre Estados constituídos, e tampouco pela morte de Toumani.
Nas duas últimas décadas, Argentina, Brasil e Paraguai desenvolveram ferramentas jurídicas, institucionais e tecnológicas com o intuito de coibir a atuação das organizações criminosas na região da Tríplice Fronteira.
O assassinato de Toumani, ao contrário do que imaginou o Primeiro Comando da Capital, não garantiu sua hegemonia na fronteira, dando lugar a outros fornecedores independentes que trataram de absorver a demanda das facções inimigas.
Os recentes conflitos entre os PCCs da região e os traficantes independentes de Fahd Jamil; e a análise das contas de Maria Alciris Cabral, esposa de Minotauro, e dos traficantes Pavão e Galã comprovam a participação dos próprios líderes PCCs nessa cadeia de fornecimento — a mão invisível do mercado não abandona ninguém.
Do desenvolvimento estratégico para o retrato tirado
A segurança da fronteira brasileira é garantida pela Estratégia Nacional de Segurança Pública nas Fronteiras (ENAFRON), pelo Sistema Integrado de Monitoramento das Fronteiras (SISFRON) e pela Operação Ágata.
Esses programas elaborados e implementados nas gestões Lula e Dilma visavam respaldar com equipamentos, pessoal e informação o combate ao crime organizado, mas tornaram-se uma ferramenta de marketing.
Apesar do empenho dos profissionais participantes do planejamento das operações, o resultado foi um belo espetáculo para a mídia, com fotos dos militares nas estradas e helicópteros sobrevoando as matas e os rios e policiais rodoviários e militares fazendo operações — garantindo um show para o público televisivo!
No entanto, é inegável os avanços feitos nesse período no combate ao crime organizado, criando condições para as futuras administrações.
Michel Temer continuou o processo de integração e aperfeiçoou as ferramentas jurídicas para integrar as diversas esferas de combate ao crime organizado na TF, agora com a presença também da Bolívia.
Jair Bolsonaro foi até a fronteira do Paraguai e bateu um retrato ao lado do presidente Mario Benítez.
Se Bolsonaro deixou de aprofundar os mecanismos transnacionais que visavam quebrar as grandes barreiras culturais, jurídicas e econômicas que poderiam minar as bases das organizações criminosas, pelo menos teve milhares de compartilhamentos entre seus apoiadores de sua selfie com Benítez.
O PCC se beneficia com a política de Bolsonaro
O pesquisador polonês Paweł Trefler afirma que a causa do fracasso dos Estados nacionais no combate ao crime organizado na região é a descontinuidade nos esforços em criar mecanismos permanentes e profundos para a eficácia do combate ao crime organizado na região da Tríplice Fronteira:
O Primeiro Comando da Capital impôs o conceito “paz entre ladrões”, mudando a violenta realidade do mundo do crime, do sistema prisional e das periferias das grandes cidades.
Júlio Verne e como a facção PCC impôs a “paz entre ladrões”
1999 — Chega ao fim o século 20
Estávamos para colocar os pés num futuro utópico no qual a humanidade chegaria em seu ápice moral e tecnológico… não… espera!
Durante séculos, a humanidade sonhou que esse futuro brilhante e longínquo se daria no século 20, e não no 21 — entre tantos, Jules Gabriel Verne.
Júlio Verne já ouvira falar da Província de São Paulo, que, com suas plantações de café, clima agradável e vilas pequenas com casas arejadas e esparsas, poderia ser uma alternativa tupiniquim para sua idealizada cidade de France-Ville, descrita em “Os quinhentos milhões da Begum”.
2001 — Início da Era Caórdica
Para os astrônomos começa a Era de Aquário, que para os filósofos e sonhadores, como Verne, seria a Era do conhecimento, e para os intelectuais seria a Era Caórdica (um sistema que combina características de caos e ordem).
Muito desse resultado se deu pelo controle hegemônico do Primeiro Comando da Capital sobre a antes caótica e fragmentada periferia, com suas diversas cadeias de assassinatos, que giravam ao redor de conflitos interpessoais, retaliações e vinganças.
Chega o século 21 — Paz, Justiça, Liberdade, Igualdade e União (PJLIU)
O fortalecimento da organização criminosa PCC permitiu que ela assumisse nessas regiões conflituosas um papel de instância reguladora dos conflitos internos no mundo do crime — nada poderia ilustrar melhor essa Era Caórdica.
Com o controle do PCC nas periferias, o mote passou a ser o da paz entre os ladrões, com o fim dos conflitos violentos e retaliações entre atores do mundo do crime, e o inimigo comum passou a ser o Estado, principalmente as forças policiais e o sistema prisional.
1879 — France-Ville utópica de Verne; 2001 — São Paulo distópica do PCC
Em France-Ville, a paz seria garantida por um líder sábio e um conselho de notáveis. Já na São Paulo do século 21, a paz chegou graças a atuação de um grupo criminoso, que focou a criminalidade no lucro, no trabalho em equipe e na luta contra um Estado opressor.
“O decreto da paz entre os ladrões é acompanhado, em alguma medida, de uma definição de um inimigo em comum, um terceiro mais forte cujas práticas consideradas opressoras, demandam a união e solidariedade entre os atores do mundo do crime.” — Rafael Lacerda Silveira Rocha
Tribunal do Crime do PCC como mediador aceito
O Tribunal do Crime é a face mais conhecida do Primeiro Comando da Capital, mas a organização criminosa só conseguiu aceitação no mundo do crime por um rígido código de ética escrito, a disciplina e a busca da justiça em sua execução:
No PCC as decisões e os julgamentos têm que passar obrigatoriamente pelo “debate”, no qual um grupo, seguindo as regras da facção e consultando a hierarquia, chegam a um consenso sobre um tema ou sobre uma pena a ser aplicada, de modo a garantir a justeza da decisão.
1899 — Júlio Verne entra no sonhado Século de Ouro
Durante séculos, a humanidade sonhou que esse futuro brilhante e longínquo se daria no século 20, entre tantos, Jules Gabriel Verne, que conseguiu entrar no século tão esperado.
O sonhador ficcionista, no entanto, ao entrar no novo século se desilude, torna-se melancólico, acusando a humanidade de fazer o uso errôneo da tecnologia e de desrespeitar o meio-ambiente.
Em 1902 é atingido por uma catarata, deixa de trabalhar e perde o interesse pela vida. Morre em 1905, enterrando com ele o sonho de milhões que esperaram ver no século 20 o ápice moral e tecnológico da humanidade.
Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.
Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.
Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:
“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”
Tem uma pedra no caminho… Família do Norte (FDN), uma pedra no caminho do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Rota do Solimões.
A principal pedra no caminho para o controle da Rota do Solimões pelo Primeiro Comando da Capital é a facção amazônica Família do Norte. O site InSight Crime apresenta um resumo histórico e analisa as perspectivas desse grupo criminoso. (link para texto original)
O FDN foi criado entre 2006 e 2007 por José Roberto Fernandes Barbosa, apelido “ Zé Roberto da Compensa ” e Gelson Carnaúba, apelido “ Mano G ”.
Além de dominar rapidamente o narcotráfico e outras economias criminosas no estado do noroeste do Amazonas, o FDN procurou interromper o avanço do Primeiro Comando da Capital (PCC) ao longo do rio Solimões, uma importante rota de narcotráfico que conecta a tríplice fronteira do Brasil, Colômbia e Peru com o Oceano Atlântico. Embora o FDN permaneça enraizado na Amazônia, estabeleceu conexões com outros estados brasileiros e até com a Venezuela, já tendo feito alianças com outras quadrilhas criminosas no Brasil.
No início de 2020, o FDN recebeu ataques constantes do Comando Vermelho (Comando Vermelho, CV) em Manaus, capital do Amazonas, e embora as consequências reais dessa guerra sejam desconhecidas, é provável que o FDN tenha sido bastante enfraquecido.
Resumo da história da facção Família do Norte (FDN)
O FDN foi formado entre 2006 e 2007 e, como o PCC e o CV, foi organizado por seus dois fundadores e principais líderes no sistema penitenciário brasileiro. No entanto, o grupo só se consolidou quando Fernandes Barbosa e Carnaúba foram libertados da prisão.
A FDN tentou recrutar membros através da luta contra condições perigosas e insalubres dentro das prisões; ofereceu ajuda aos prisioneiros em troca de ingressar na gangue.
Como o PCC e o CV, o FDN mantém controle estrito sobre a identificação de seus membros, a cada um dos quais é atribuído um número de registro. A FDN também é regida por um conjunto de regras, conhecidas como “Doutrinas da Família”, que são zelosamente guardado por um Conselho, que foi feita anteriormente por seus dois fundadores e outros membros de alto escalão.
Essas bases permitiram que o grupo se espalhasse rapidamente dentro e fora das prisões do norte do Brasil e se tornasse a terceira maior estrutura criminal do país, mas sem presença em nível nacional. A Procuradoria Geral da República declarou em 2015, após a Operação Muralha, que o FDN estava assumindo dimensões semelhantes às do PCC e do CV, dada a sua estrutura de liderança, suas regras internas, a diversidade de economias criminais e conexões locais, nacional e internacional.
Para impedir a disseminação do PCC no norte, especialmente no Amazonas, o FDN e o CV formaram uma aliança em 2015. Durou três anos, após o qual foi dissolvido e, em 2018, o fundador do FDN, Gelson Carnaúba, mudou de lado e ingressou no CV.
O grupo já havia se separado em 2017, quando um de seus principais membros, João Pinto Carioca, conhecido como “João Branco”, fundou um grupo dissidente, a Família do Norte Pura; Desde então, as duas facções entraram em conflito violento. Os distúrbios nas prisões entre os dois grupos foram particularmente violentos. Em um deles, entre 26 e 27 de maio de 2019, no qual 55 presos foram mortos.
Quem é quem na liderança da facção Família do Norte (FDN)
No início, os principais líderes do FDN eram Zé Roberto da Compensa e Gelson Carnaúba, seguidos pelos pseudônimos Roque, Copinho, Nanico e João Branco. Além desses líderes, o Conselho da FDN era composto por 13 membros, todos com pleno conhecimento das operações da organização. No entanto, essa liderança foi dividida depois que Carnaúba e João Branco deixaram o grupo.
Alguns vídeos dos membros da FDN, respondendo aos ataques do CV em janeiro de 2020, mostram que o que resta do grupo está sob o firme comando de Zé Roberto da Compensa e seu filho Luciano da Silva Barbosa, também conhecido como “L7“, que está emergindo como um novo líder.
O FDN foi estabelecido principalmente no estado do Amazonas e opera dentro e fora do sistema prisional. O grupo concentra suas principais ações na manutenção do controle do narcotráfico ao longo do rio Solimões, que liga a fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru a Manaus, a maior cidade do norte e o Oceano Atlântico. Enquanto o PCC e o CV avançaram suas operações no estado do Amazonas, o FDN manteve sua presença na maioria das cidades e municípios e na região de fronteira. No entanto, é provável que sua expansão geográfica tenha sido afetada pelos recentes ataques provocados pelo CV e por lutas internas.
Aliados e inimigos da facção Família do Norte (FDN)
Inicialmente, o FDN buscou uma aliança com o Comando Vermelho para conter o avanço do PCC no Amazonas. No entanto, a aliança FDN-CV, que durou de 2015 a 2018, foi rompida após um desacordo dentro da própria FDN, entre Gelson Carnaúba e Zé da Compensa. Após o colapso desta aliança, a disputa pelo domínio das rotas comerciais ilegais no Amazonas, especialmente pelo rio Solimões, foi violentamente disputada pelas três facções criminosas. Isso levou a tumultos frequentes nas prisões do Amazonas, nas quais centenas de presos foram brutalmente assassinados.
Uma investigação realizada pela Procuradoria Geral da República e pela polícia federal também descobriu que o FDN mantinha contatos com Nelson Flores Collantes, um conhecido fornecedor de drogas e armas para as Forças Revolucionárias da Colômbia (FARC). Também há evidências de que o FDN desenvolveu um relacionamento com gangues criminosas na Colômbia, incluindo a Oficina de Envigado e Los Caqueteños, o que permitiu que esses grupos explorassem conjuntamente o tráfico de drogas transfronteiriço por rotas terrestres e fluviais no estado do Amazonas. .
Análise InSight Crime: Família do Norte (FDN)
As perspectivas para o FDN não são boas, principalmente depois que o CV conseguiu tomar, com relativa facilidade, a capital do Amazonas, Manaus. O que está em jogo é o fluxo de entorpecentes que chega ao estado do Amazonas da Colômbia e do Peru, por rotas terrestres e fluviais. Isso também poderia levar o FDN a perder o controle de seu precioso rio Solimões, através do qual envia cocaína para distribuição dentro e fora do Brasil.
As perdas de João Branco e Gelson Carnaúba foram duras, especialmente porque o último aparentemente está muito envolvido nas tentativas do CV de assumir Manaus.
Administrar um site tido por muitos como oficial do Primeiro Comando da Capital (PCC) tem suas peculiaridades, e uma delas são as correspondências recebidas.
Um quinto das mensagens chegam de cidades pequenas da Região Norte do Brasil. São companheiros ou aliados que foram introduzidos na Família 1533, mas que agora se vêem abandonados e pedem minha ajuda.
Santa Rosa, Peru. A cinco minutos de barco de Letícia e Tabatinga, as crianças brincam na água ao lado das casas de palafitas que mantêm suas casas à tona. Um policial patrulha a única rua de paralelepípedos da região, enquanto seus outros cinco companheiros se sentam ao redor de uma mesa, talvez se perguntando como poderão cobrir os mais de quinhentos quilômetros da margem do rio que separam Santa Rosa de Iquitos, o destacamento mais próximo no território peruano.
Três pequenas cidades adjacentes e interconectadas, cercadas por milhares de quilômetros de selva, acessíveis apenas por via aérea ou navegando por horas pelos fluxos da Amazônia. Um contexto de fronteiras porosas, onde em dez minutos você pode transitar pelos três Estados sem precisar passar pela imigração ou pelo controle de fronteiras. Em frente, grupos criminosos que lucram com negócios ilegais extremamente lucrativos: dezenas de laboratórios clandestinos de pasta de cocaína, toneladas de maconha a caminho dos mercados das grandes metrópoles brasileiras, dezenas de dragas ilegais que extraem ouro dos leitos dos rios, e centenas de espécies amazônicas coloridas contrabandeadas para os Estados Unidos e Europa.
E, assim como o rio arrasta seu fluxo, as atividades ilegais são acompanhadas por um fluxo lento, contínuo e ainda mais sombrio: o fluxo de armas e munições. O mesmo fluxo sombrio que matou…
Não são poucos ou fracos os núcleos dos PCCs na região Norte do Brasil, que tem quase 4 milhões de quilômetros quadrados — uma área equivalente aos territórios da Índia e do Paquistão somados.
O PCC aparentemente optou por se concentrar na disputa pelo controle da Rota do Solimões, das fronteiras e das capitais, e fortalecer os aliados, entre piratas ribeirinhos, quadrilhas locais e facções estruturadas, como o Bonde dos 13 (B13) no Acre.
No meio dessa guerra, os companheiros e os aliados recém-convertidos e egressos a suas comunidades não podem ser cobertos em núcleos isolados, mas os ventos estão mudando.
O enfraquecimento da Família do Norte
Enfrentando essa guerra de guerrilha das facções do sudeste, a FDNse enfraqueceu e se dividiu, e dividida a Família se enfraqueceu ainda mais — acelerando sua derrocada, até sobrar apenas um núcleo forte no bairro da Compensa, em Manaus.
Famílias que corriam com o Família do Norte estão sendo expulsas em Manaus
Estamos assistindo ao Primeiro Comando da Capital dar mais um passo em sua escalada para o controle hegemônico do mundo do crime sul-americano e a criação de uma eficiente cadeia transnacional de tráfico.
Com o quase desaparecimento dos FDNs, a guerra com o CV só seria evitada com uma nova pacificação, o que seria desinteressante para o Primeiro Comando da Capital nesse momento.
Fabrício dos Santos Chaves, um dos líderes da Família do Norte, se escondeu com a família em Teresina após a FDN ter desmoronado, mas acabou sendo preso juntamente com sua mãe dele e outras seis pessoas por homicídios cometidos no Maranhão.
O Comando Vermelho enfrenta derrotas no Rio de Janeiro graças a dois fatores recentes: o fortalecimento das milícias pelo governo Jair Bolsonaro; e uma nova estratégia adotada pelo PCC, que está facilitando que seu aliado carioca Terceiro Comando Puro (TCP) tome comunidades do CV.
A prisão de Thiago Monteiro da Silva demonstrou que se atravessa um momento de transição, no qual os empresários locais, envolvidos com as organizações criminosas mantêm relações comerciais com as duas facções, esperando que elas definam quem sobreviverá.
No Paraguai, o assassinato do empresário Jorge Rafaat Toumani, demonstrou que há um ponto onde essa dualidade deixa de ser aceita, o que ainda não é o caso do Amazonas pós FDN.
O que muda com o domínio da Rota do Solimões
O Brasil se tornou o segundo maior mercado do mundo depois dos Estados Unidos, com dois milhões e oitocentos mil consumidores, obrigando o Primeiro Comando da Capital a desenvolver uma cadeia logística que garantisse o fluxo constante, seguro e em grande escala do produto.
Com o controle da Rota do Solimões, da Rota Caipira, das centenas de distribuidores autônomos, a logística do tráfico internacional gerenciado pela facção paulista passa a integrar toda a cadeia do narcotráfico, desde os produtores rurais sul-americanos até a entrega do produto acabado nos portos da Europa e da África.
O Primeiro Comando da Capital sofreu várias baixas importantes pelo mundo, e autoridades chegaram a afirmar que a facção PCC 1533 entra agora em declínio – será?
I – O DIÁLOGO
Ainda está escuro.
Marcel senta ao meu lado no beiral da escada, me entrega um copo com café que Sônia acabou de fazer. Mal dá para ver o marido dela ali perto cuidando dos animais, a escuridão da noite só não é mais profunda que o silêncio – ouve-se ao longe apenas um galo.
Não conversamos desde que entramos no carro em São Paulo, e nem o casal falou conosco quando chegamos noite passada naquele sítio em Marialva – o marido de Sônia apenas mostrou a cozinha e onde deveríamos dormir e se recolheu.
Desligamos nossos celulares antes de pegar a estrada, e ainda continuam desligados, o que aumenta o peso do silêncio. Marcel me diz, com olhar distante:
— “Vou seguir. Para lá não volto”.
— “A gente continua cuidando da sua família”, respondo.
— “Só agradece”.
— “Você sabe que te deixo aqui”.
Ele não responde. Me levanto e me despeço do casal com um aceno, mas eles também não respondem.
Entro no carro e sigo pela estradinha de terra vermelha uns dois quilômetros até a vicinal, e de lá uns cinco até a BR-369 – Marcel terá que caminhar muito, a menos que consiga uma carona.
II – POR TRÁS DO DIÁLOGO:
— “Vou seguir. Para lá não volto”.
“Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule…”
Encarcerados do grupo de risco e daqueles que não tenham sido julgados e que não estejam respondendo por crimes violentos devem ser soltos e aguardar o julgamento…
Ele sabe que se ficasse em São Paulo não demoraria a ser preso novamente, por isso aceitou o convite para se juntar no Paraguai aoRichard, “el soldado más antiguo del PCC”, mas pouco antes de pegarmos a estrada ficamos sabendo de sua prisão em San Lorenzo.
Com a prisão de Richard, Marcel desistiu de ir para o Paraguai, e assim seguiria de Marialva no Paraná, para o noroeste (Bolívia, via Dourados). Há anos conversamos sobre essa alternativa quando caíram diversos PCCs aqui na região.
— “A gente continua cuidando da sua família”.
Marcel sabe que a família de um irmão ou companheiro não é deixada de lado pela Família 1533 – desde sua prisão, sua mulher recebe parte do rendimento de uma biqueira, e assim continuará enquanto ele não se estabelecer.
Richard René Martínez Rojas recrutava novos PCCs entre aqueles que saíam do sistema prisional paraguaio, e as células criadas por ele planejavam e executavam meticulosamente grandes assaltos, assassinatos, sequestros e resgates de presos, assim raramente algum criminoso acabava preso ou morto, e os ganhos eram elevados.
Já no Mato Grosso do Sul e na Bolívia a conversa era outra, e por isso tentei assegurar a Marcel que ele poderia seguir sem medo, e que sua família estaria sendo cuidada.
— “Só agradece”.
Marcel sabia que não tinha o que agradecer, ele deu o maior apoio a um chegado meu, além disso ele não estava fugindo ou abandonando o PCC 1533, pelo contrário, eu o estava colocando a caminho do olho do furacão:
Houve um debate onde se decidiu que eu deveria lhe oferecer ajuda, convencê-lo e levá-lo em segurança até aquele sítio –ele acha que eu fui procurá-lo apenas para ajudá-lo.
Há alguns dias Fuminhofoi preso em Moçambique, mas era da Bolívia que comandava a distribuição das drogas no Brasil e as rotas do tráfico transcontinental, desde os produtores latino-americanos, passando pelos distribuidores brasileiros aos portos africanos, para chegar aos atacadistas europeus, americanos e australianos.
O eixo africano permitiria ao Primeiro Comando da Capital entregar diretamente para clientes europeus, evitando os portos da Bélgica, Holanda e Itália, onde é necessário pagar o agenciamento cobrado pelos cartéis locais que gira em torno de 40% do valor da mercadoria.
A prisão de Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, derruba parte dessa estrutura, e se Marcel conseguisse aproveitar essa oportunidade, encaixando-se nas lacunas ganharia mais dinheiro do que poderia gastar, mas, caso não conquistasse a confiança da liderança, morreria.
— “Sabe que te deixo aqui”.
O acertado era levá-lo até aquele sítio, onde passaríamos a noite, e eu voltaria logo cedo. Após o almoço ele deveria esperar na BR-369, onde uma companheira passaria para pegá-lo e seguiria com ele como se fosse sua garota, para não chamar muita atenção.
Para atravessarem a fronteira com segurança, eles devem parar em Dourados para acertarem os contatos e rotas – mas sei o que o espera por lá, e não creio que ele chegará na Bolívia.
A minha parte da missão foi cumprida, e a garota, que é “cria do 15”, com aquele jeito que só elas têm, deverá convencer Marcel a entrar na guerra que o PCC trava no Mato Grosso do Sul para eliminar os inimigos do Comando Vermelho (CV).
Tudo ainda é incerto, mas Marcel talvez troque o seu sonho boliviano de riqueza, e decida assumir algumas missões de Walter Dantas Cabreira, conhecido como Xeque-mate, o assassino do PCC do MS que foi capturado essa semana quando planejava matar um agente público.
Seja no Paraguai, na Bolívia, no Mato Grosso do Sul ou na biqueira de qualquer bairro: uma peça cai, e outra entra em seu lugar e o jogo continua. Não é uma substituição, é um Roque, e todos nós somos apenas peças nesse tabuleiro: eu, a companheira, o casal e ele.
Na organização criminosa Primeiro Comando da Capital, a queda de um líder ou um membro não significa que outro o substituirá, mas seu espaço será ocupado de forma orgânica e imprevisível através das disputas internas e de acordo com os interesses e as escolhas de cada integrante.
Essa incerteza obriga que as forças que combatem a facção PCC 1533 recomecem suas investigações para entender o novo cenário criado e suas ramificações para, só então, tempos depois, lançar outro ataque – Roque!
Roque: no xadrez é a jogada que envolve a movimentação de duas peças em um único lance, usada para desarticular um ataque inimigo, obrigando-o a reorganizar outro ataque.
Levantamento dos grupos, facções e bondes — inimigos, neutros e aliados
Revisado e atualizado em junho de 2020 alterações em junho de 2021
Por ocasião do ingresso da facção PCP Primeiro Comando Panda, como facção com laços de amizade com o PCC Primeiro Comando da Capital, trago a nova lista atualizada.
Levantamento dos grupos, bondes e facções inimigas
Grupos Inimigos:
Alagoas BDL — Bonde dos Malucos
Amapá UCA — União Criminosa do Amapá
Bahia PCE — Primeiro Comando de Enápolis PCI — Primeiro Comando de Itabuna TG — Paulo TG
Paraná Máfia Paranaense
Bondes Inimigos: 4
Alagoas
Bonde do Pajé
Bonde do Tudo 5
Bahia
Bonde da Goméia BDG
Maranhão — PI e PA
Bonde dos 40
Santa Catarina
Bonde do Chelsea
Facções Inimigas: 11
ADA — Amigo dos Amigos
Roraima
APS — Amigos para Sempre Amapá
Bala na Cara Rio Grande do Sul
Clã Rotela Paraguai
Choleros Bolívia, AC e RO
CP — Comando da Paz Bahia
CV — Comando Vermelho Rio de Janeiro, DF, RO, GO, PB, AM, RN, AP, PA, MA, TO, MG, AL, MT, AC, PI, RR, MS, RS, e CE
CVM — Comando Vermelho do Maranhão
antigo Primeiro Comando do Maranhão PCM
FDN — Família do Norte Amazonas, RN, PÁ, PB, RO, PI, MS, e RR
MVL — Matar, Vingar e Libertar Goiás
Nova Okaida Paraíba
Okaida RD Paraíba, RN
PGC — Primeiro Grupo Catarinense Santa Catarina, RS
PGN — Primeira Guerrilha do Norte Pará
SDC — Sindicato do Crime RN Rio Grande do Norte, PB
Levantamento dos grupos, bondes e facções neutras
Grupos Neutros: 12
Alagoas Comissão PCA — Primeiro Comando de Alagoas
Distrito Federal Bala que Voa Comboio do Cão
Goiás Família Monstra
Mato Grosso Comando Terrorista do MG
Rio de Janeiro Complexo de Israel
Rio Grande do Sul Grupo MR — Mata Rindo PCI — Primeiro Comando do Interior Taurus de Pelotas
Santa Catarina 12 Apóstolos Grupo Comando Leal
Bondes Neutros: 5
Bahia Bonde da Goméia Bonde do Antonio (FAL) Bonde do RR Bonde do Zé Bedeu Bonde Ordem e Progresso — B.O.P
Facções Neutras: 5
Cartel do Norte (CDN) Amazonas
GDE — Guardiões do Estado Ceará
RN, MS, PB
em Roraima continua aliado
Inimigo é de Graça* Rio Grande do Sul
Katiara Bahia
Os Caveira Bahia
Levantamento dos grupos, bondes e fações amigas
Grupos Amigos: 18
Minas Gerais Coréia
Paraíba USA — Estados Unidos
Pernambuco CSP Os Kalango
Rio Grande do Sul Anti Bala Comando pelo Certo Família Mathias Velho — FMV Família 33 Grupo CK2 Grupo Cebola Grupo os Milhão Grupo os Quiquim Grupo os Trezentos Grupo Zoreia Inimigo é de Graça* Os Abertos Os Alemão Os Reforçados
Venezuela Tren de Aragua
Levantamento dos Bondes Amigos: 11
Bahia Bonde 8 de Ouro Bonde Alto Bonde Dona Maria Bonde do Ajeita Bonde do Juninho Bonde do Terceiro Bonde Feira de Santana
PCRC — Primeiro Comando Revolucionário Catarinense
Santa Catarina
PCU — Primer Comando Uruguayo
Uruguai
PVC — Primeiro Comando de Vitória
Espírito Santo e RO
(o PVC do estado do ES já não seria uma facção amiga do PCC. Era até em 2010 agora é aliada do CV — essa mudança não constava quando na listagem distribuída dela hierarquia quando foi publicada no site)
Taurus
Rio Grande do Sul
Terror
Amapá e MS
TCP — Terceiro Comando Puro
Rio de Janeiro
Tríplice AFT
Peru, Colômbia e Brasil
V7
Rio Grande do Sul
* verificar com a Sintonia: Inimigo é de Graça está na listagem como “facção neutra” e como “grupo amigo”
COMUNICADO GERAL SISTEMA E RUA ESTADOS E PAÍSES 16/03/2020
PRIMEIRAMENTE UM SINCERO LEAL ABRAÇO A TODOS(a) IRMÃOS(a) COMPANHEIROS E AMIGOS SEM EXCEÇÃO, VIEMOS ATRAVÉS DESTE DEIXAR UMA CIÊNCIA QUE NA DATA 11/03/2020 NÓS DO PCC (PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL) FIZEMOS UM LAÇO DE AMIZADE COM A FACÇÃO PCP (PRIMEIRO COMANDO PANDA) ORIUNDA DO ESTADO DE RONDÔNIA ONDE OS AMIGOS DESFEZ O LAÇO QUE TINHAM COM NOSSOS INIMIGOS FDN E APS E ESTÃO COM NÓS EM TODOS OS SENTIDOS SENDO ASSIM ONDE TIVER UM INTEGRANTE DO PCP É PRA RECEBER DE BRAÇOS ABERTOS E PRESTAR TODO APOIO NECESSÁRIO TANTO NA RUA QUANTO NO SISTEMA POIS ESTAMOS LUTANDO PELOS MESMOS IDEAIS SENDO ASSIM A PARTIR DA DATA QUE FOI NARRADA PCP DO ESTADO DE RONDÔNIA SÃO NOSSOS AMIGOS. DEIXAMOS UM GRANDE ABRAÇO A TODOS(a) SEM EXCEÇÃO. ASS: PCC1533
Listagem anterior publicada nesse site em agosto de 2018:
Dona Celina só foi escolhida como líder da comunidade por ser evangélica e por ter sido indicada pela liderança do PCC. Ela nem imagina que foi assim, mas eu estava lá quando houve o debate da formação e de quem deveria liderar a comunidade.
Tinha acabado o jogo entre Vila Nova e Vila Progresso, e nós estávamos em frente ao bar Gordo, que fica ao lado do campinho, quando do nada surgiu a conversa, que virou um debate, e a aprovação e o fechamento foi na hora:
A estratégia seria montar uma associação de moradores na comunidade para lutar por melhorias na educação e na estrutura de escolas e creches, na pavimentação das ruas, no abastecimento de água , e também para servir como mediadora na pacificação das ruas.
Mas quem assumiria a liderança da associação?
Alguém falou no nome da Dona Celina e pronto. Ninguém ali duvidava que ela era a pessoa perfeita para o cargo. Ela devia estar em sua casa naquele momento preparando o almoço e nunca iria imaginar que seria formada uma associação e que ela viria a liderar.
Eu até posso contar a você como e por que ela foi escolhida, mas Rafael Lacerda Silveira Rocha é quem pode explicar como a igreja evangélica entra nessa história e como esse tipo de arranjo social funciona na prática, pois foi ele quem estudou a fundo essa questão.
Dona Celina chegou ao bairro quando as ruas eram de terra.
Todos conhecem a bondade e as lutas daquela mulher, que vive dando conselho para os garotos do corre e até para o patrão da biqueira, sempre se prontificando a ajudar quem quer sair daquela vida.
Ela é querida por todos e conquistou o respeito da da liderança local do dono das biqueiras do bairro e representante do Primeiro Comando da Capital na comunidade.
Dona Celina é ministra de uma congregação evangélica que lhe empresta autoridade moral e cria empatia em muitos no bairro que percebem nela um pouco daquilo que veem em suas famílias, ou, pelo menos, gostariam de ver.
Ela é uma “pessoa de bem”, e é essa a face que a comunidade quer apresentar para a imprensa e para os representantes do governo. Ela é a luz que deverá iluminar o caminho da comunidade.
Até mesmo Deus tem uma legião de anjos para garantir seu governo celestial (Isaías 40), e se fomos feitos à sua imagem, nós também temos que nos garantir.
Rafael conta em seu trabalho o caso de um pastor, líder em sua comunidade, que tentou manter a pacificação baseando-se apenas em sua força moral e em seu poder de negociação.
Apesar dos esforços do pastor, um jovem morreu, e o religioso, ao questionar os assassinos sobre o acontecido, escreve:
Não é soltando pombos brancos ou fazendo um abraço simbólico em torno do Cristo Redentor que se conseguirá a paz, mas também é verdade que não se chegará a ela ligando para o 190, nem tampouco confiando no Tribunal do Crime do PCC.
As relações de poder dentro de uma comunidade carente são complexas e necessárias para a equação de diversas forças, pacifistas, religiosas, de trabalhadores, policiais, criminosos e desocupados.
Sem a força do Primeiro Comando da Capital,Dona Celina não conseguiria o respeito e a tranquilidade para organizar a população. Nos primeiros meses foi o disciplina do PCC que passou a trocar umas ideias com os inadimplentes com o caixa da associação.
Sem a força policial, Dona Celina ficaria refém apenas da vontade do dono da biqueira e não conseguiria a tranquilidade para organizar as demandas da comunidade.
Rafael conta um caso em que o líder da comunidade organizou um jogo entre dois grupos opostos com o apoio da polícia. Ele colocou o Estado como força mediadora do conflito e ainda fortaleceu sua liderança:
Uns queriam a paz, outros queriam manter a guerra, se juntasse tudo em um único lugar poderia ter um banho de sangue, então o jogo foi marcado em um campo neutro:
Rafael me contou que a relação entre líderes da comunidade e das facções não acontece só aqui no Brasil, e me apresentou a história de vida e as conclusões acadêmicas de uma simpática socióloga americana.
Mary explica que as lideranças comunitárias e o crime organizado local compartilham uma série de valores, como o cuidado pela manutenção dos aparelhos públicos do bairro e o controle de brigas e demonstrações violentas em espaço público.
Essa ligação entre comunidade e mundo do crime acaba por dificultar a ação dos órgãos públicos na repressão ao tráfico de drogas local. É a teoria da eficácia coletiva pulando dos livros acadêmicos para as ruas das comunidades periféricas:
Cansei de ver nas comunidades trabalhadores e estudantes defendendo a filosofia do 15, como a utilização do Tribunal do Crime para a pacificar os bairros ou evitar estupros e roubos nas quebradas.
A liderança se conquista pelo respeito e pela ética
Se você é da Vila Nova, talvez conheça Dona Celina, e se você se acha que é mais importante, forte ou influente que ela, desculpa aí, mas ninguém dá a mínima para o que você pensa a seu próprio respeito.
Liderar é conciliar, saber ouvir e estar presente nas necessidades do grupo, se fazer entendido e tentar entender as opiniões dos outros, e Dona Celina faz isso como ninguém.
Líderes de bairros são acusados pela polícia ou por “cidadãos de bem” de terem conchavo com traficantes, mas aqueles que acusam não se candidatam e, se o fazem, não se elegem ― dona Celina se elegeu e circula livremente entre aqueles lobos.
Líderes de bairros são acusados por aqueles que vivem no mundo do crime de terem conchavo com a polícia, mas aqueles que acusam não se candidatam e, se o fazem, não se elegem ― dona Celina se elegeu e circula livremente entre aqueles lobos.
Agora ela estará sempre entre as matilhas mediando a paz, armada apenas de sua honestidade e confiabilidade, será testada e criticada todos os dias pela população, pela polícia, pelos líderes religiosos e por aqueles que vivem no mundo do crime.
Dona Celina está disposta e tem capacidade de enfrentar esse desafio, fluindo entre o mundo do crime e o mundo do Estado de Direito, assim como Marielle Franco o fazia até ser silenciada pela milícia.