Facção PCC 1533 como “corpo político”

De que adianta matar um corpo se a alma continua viva? – a ineficácia das políticas de Segurança Pública baseadas em ações policiais de combate à facção PCC 1533.

Dar perdido em PM é diversão de cria do 15

Bardos cantavam histórias fantásticas que assombravam aqueles que as ouviam em volta das fogueiras nos bosques, nas aldeias ou nas mal iluminadas tabernas, e os heróis de suas narrativas eram jovens que se insurgiam, desafiando os soldados dos poderosos.

MCs cantam histórias fantásticas que assombram aqueles que as ouvem em seus celulares, nas avenidas e nos bailes funks, e os heróis de suas narrativas são os jovens que se insurgem, desafiando os policiais que entram nas comunidades a mando dos poderosos.

”Já que tu quer adrenalina, já que tu quer um lazer
É nós que mostra o dedo pros radar, pras viatura
Pra sentir o prazer, adrenalina de dar fuga.”

MC Kevin

E aquela noite eu não tinha dúvidas que estava olhando para um desses garotos cujas histórias seriam contadas pelas quebradas muito tempo depois que ele as tivesse deixado.

Os pequenos feitos daquele moleque seriam engrandecidos cada vez que alguém recontasse uma de suas aventuras, sempre aumentando um ponto ao conto, e, quem sabe, um dia não acabaria sendo letra de algum Proibidão?

Na noite de quinta-feira tive que entregar alguns pacotes no Planalto, e valeu a pena: a caminhada foi boa e conheci esse garoto.

Fotomontagem com homem fazendo  desaparecer um objeto na frente de policiais. Acima a frase "Revista Policial, desaparecendo com as drogas".
A arte de ocultar provas da polícia

Show de magia na quebrada do Planalto

Uma viatura da Polícia Militar deixava o Planalto no momento em que eu entrava no bairro.

Próximo ao local onde devia fazer a entrega havia um grupo de jovens, e logo que estacionei fui falar com eles para saber como estava o clima por lá – uma das garotas eu já conhecia.

Três moleques, duas meninas e dois Gols rebaixados, sendo um com placa de Campinas e outro de Indaiatuba; eles riam muito e quando a garota me viu, veio empolgada me apresentar aos demais – o clima não podia estar melhor.

Ela me contou que eles acabaram de ser abordados pela viatura que vi deixando o bairro, e enquanto a garota falava um dos garotos mostrou para mim com orgulho um saquinho com uns 100 gramas de cocaína. Todos voltaram a rir – o moleque havia feito mais uma das suas.

Eles me contaram a história…

Assim que a viatura entrou na rua, o garoto mostrou aos amigos o pacote; só deu tempo de levantarem os olhos: os policiais já os estavam abordando.

Procedimento padrão: revista pessoal e nos veículos. Como nada encontraram, os policiais foram embora, mas assim que a viatura virou a esquina o garoto abriu a mão e mostrou para os outros que continuava com o saquinho de cocaína.

Não era a primeira e nem a última vez que ele fazia uma jogada arriscada e se saía bem.

Nunca saberemos como ele fez para sumir com a droga tão rápido, na frente dos amigos e dos policiais e passar pela revista, afinal um mágico não revela seu truque – daí o fascínio pelo ilusionismo.

Fotomontagem onde uma mulher solta pela boca fumaça ocultando parcialmente um carro. Acima a frase "Cortina de Fumaça, garotos garantindo a segurança".
Jovens chamando atenção de policiais

Moleques como isca e cortina de fumaça

Fiquei pelo menos meia hora com eles, cada um contando uma façanha diferente protagonizada pelo moleque de Indaiatuba, enquanto ele mesmo apenas sorria.

Imagino que todos estavam ali para chamar a atenção para si caso aparecesse uma viatura policial, garantindo que a entrega ocorresse sem problemas – eles eram a isca e, se necessário, serviriam de cortina de fumaça.

Ouvi com prazer cada história que contaram e teria ficado ainda mais se não houvesse chegado o irmão que ia ficar com a mercadoria – a outra garota que estava com os moleques era sua companheira.

Imagino que se naquela noite os PMs não tivessem abordado os moleques, talvez ainda estivessem por lá quando eu chegasse ao Planalto.

Quando o irmão chegou, cumprimentou os garotos, me pegou pelo braço e me levou para trás dos carros onde me entregou o dinheiro.

Fomos até o meu carro, entreguei os pacotes a ele e saí dali me despedindo apenas com um aceno para os garotos.

Fotomontagem com o rosto do pesquisador Eduardo Yuji Yamamoto   abaixo da frase "Corpo Social, diferenciando o corpo da alma".
Pesquisador Eduardo Yuji Yamamoto

O Primeiro Comando da Capital como corpo social

No caminho de volta tentei entender o que ocorreu e o que estava acontecendo em nossa sociedade – não era nada daquilo que era mostrado pela televisão e pelas redes sociais.

Seriam esses os traficantes que precisavam ser abatidos com um tiro na cabecinha como prega a atual onda sócio-política ocidental?

Enquanto dirigia me lembrei do artigo “Corpo político, implicação, representação” do doutor em Comunicação Eduardo Yuji Yamamoto, publicado na INTERCOM – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação.

O pesquisador falava sobre os black-blocs, mas para mim o estudo se encaixava como uma luva naquilo que eu acabara de vivenciar, e descrevia com perfeição as pessoas que eu tão bem conhecia.

O fato de o Primeiro Comando da Capital haver se transformado em um “corpo político” é uma consequência da crise pela qual passa a democracia ocidental desse início de século:

“A instauração política aparece assim como a constituição de um corpo dotado de unidade, de vontade consciente, de eu comum […] As metáforas do corpo político não descrevem apenas uma procura de coesão social orgânica.”

Vladimir Safatle

Aqueles moleques e aquelas meninas nada mais são células que compõe um complexo “corpo político”, e aquele gesto do garoto de desafio velado ao Estado é apenas um entre milhares de “insurgências” que pipocam madrugada a dentro nas ruas das periferias.

Ilustração do corpo estilizado de uma criança metade razão e metade emoção sob a frase "Corpo e Espírito, fortalecendo o "Espírito de Corpo".
Nossas emoções residem em nossa alma

Atacando o corpo do Primeiro Comando da Capital

Ouvindo os diversos discursos messiânicos de combate ao Primeiro Comando da Capital: Sérgio Moro com o seu “Projeto anticrime”, Wilson Witzel com seus drones e snipers com licença para matar, e João Dória prometendo “Guerra sem tréguas ao PCC”, me lembro dos passos que demos para chegarmos a situação que vivemos hoje:

  • Quando a República foi proclamada, os governantes resolveram acabar com a farra que era o uso de drogas no Brasil nos tempos do Império e incluíram no Código Penal de 1890 a criminalização das “substâncias venenosas”, e com isso esse mal seria extirpado…
  • após cinquenta anos ficou claro que o sonho não havia se tornado realidade, e as drogas haviam se tornado um problema ainda maior, então foi inserido no Código Penal de 1940 previsão para a prisão de usuários e traficantes, e com essas regras mais rígidas, específicas e abrangentes o mal seria eliminado…
  • após trinta e seis anos ficou claro que o sonho não havia se tornado realidade, mas vivíamos um Regime Militar, e agora, com as forças armadas e sob a vigência dos Atos Institucionais nenhum traficante sobreviveria, só faltava para isso uma lei que colocasse os criminosos em seu devido lugar. Os militares fazem ser aprovada a Lei de Tóxicos de 1976, e dessa vez, as drogas seriam eliminadas de uma vez por todas….
  • após trinta anos ficou claro que o sonha não havia se tornado realidade, então é aprovada Lei Antidrogas de 2006, pois a anterior não era suficientemente dura, e agora todos comemoraram, afinal, com o endurecimento das penas as facções seriam desmanteladas…
  • após sete anos ficou claro que o sonho não havia se tornado realidade, e a facção PCC 1533 se internacionalizava – mas com a Lei de Combate ao Crime do Organizado de 2013 as facções seriam desmanteladas…
  • após cinco anos ficou claro que o sonho não havia se tornado realidade, e as facções se fortaleceram – mas com o novo governo em 2019 que promete o justiçamento dos criminosos, a permissão para que o “cidadão de bem” tenha arma em casa, e a implantação de um pacote de leis com o endurecimento das penas, as facções serão desmanteladas…

O exército e as forças policiais já estão fazendo sua parte executando negros nas periferias como nunca antes, e sem economizar munição: “Um dia antes de ação com 80 tiros, Exército matou jovem pelas costas”.

Recorte do Jornal Extra com a manchete "Escalada da Violência".
Jornal Extra e a escalada da violência

O espírito se fortalece quando o corpo padece.

Se os policiais tivessem encontrado o saquinho com a cocaína que aquele moleque do Planalto havia ocultado, ele seria preso, mas a facção não teria se enfraquecido.

Marcola e Gegê do Mangue, dois dos principais líderes da facção, há muito foram retirados das ruas, e a facção também não se enfraqueceu, ao contrário do que foi apregoado na época por policiais e membros do Ministério Público de São Paulo (MP-SP).

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

O Estado e seus justiceiros continuam a caçar as células da facção PCC 1533, e por não acreditarem em espíritos se negam a enxergá-los; e enquanto se concentram em combater o corpo, o espírito da organização criminosa continua a se fortalecer.

Fotomontagem onde a ilustração de  um garoto fica ao centro e de um lado dois garotos em azul e do outo um casal em vermelho.
Entre a comodidade e a adrenalina

Primeiro Comando da Capital afetando a alma

Encarcerar e matar criminosos não é eficaz, no entanto, essa é a “estratégia” utilizada pelo Estado. Não há um “Plano B”, uma política de controle e segurança eficiente, pois aqueles que habitam os gabinetes e os coturnos não entendem as razões que aqueles garotos têm para entrar no mundo do crime.

Moleques e meninas do corre possuem um espírito contraventor que não é movido por razões materiais.

As ruas estão vivas e se alimentam dos sentimentos comuns difundidos nas conversas, nas rodinhas, nas escolas e nas redes sociais. Cada um que é preso ou morto alimenta ainda mais o imaginário que afeta e fortalece o espírito do grupo.

É interessante como a palavra “afeta” pode transmitir mal seu significado.

Os sentimentos que afetam os jovens insurgentes em sua rodas de conversas ou daquilo que veem nas ruas e nas mídias, alimentam um espírito de corpo ilógico, baseado nas emoções do grupo. Essa miscelânea de emoções e informações levará essa garotada a passar parte de sua a vida buscando saciar desejos racionalmente insaciáveis.

“Falamos de desejo, e não de reivindicações, justamente porque reivindicações podem ser satisfeitas, mas o desejo obedece à outra lógica – ele tende à expansão, ele se espraia, contagia, prolifera, se multiplica e se reinventa à medida que se conecta com outros.” – Peter Pál Pelbart

A soma de todas essas emoções são compartilhadas, e mesmo quando uma de suas células é morta ou retirada das ruas esse afeto continua no coletivo daquela comunidade, reforçando-o ainda mais.

Jovens Insurgentes enfrentando as autoridades

O Primeiro Comando da Capital alimentando o medo

Aqueles garotos, assim como milhões de outros, buscam grupos de insurgentes para se unir e ajudar na construção de uma sociedade mais justa, se preciso enfrentando as autoridades do Estado e da família…

mas na real, eles estão mesmo fugindo da angústia e do tédio e procurando usufruir de momentos de emoção, seja de cólera ou de alegria, tanto faz.

A crise do sistema democrático ocidental leva esses garotos a lutarem por suas demandas sociais fora de um sistema político que não apresenta uma alternativa na qual eles possam se apegar.

Sem opções reais de perspectiva social, seguem a esmo, se juntando a grupos que mantenham vivas as suas esperanças.

Sigmund Freud descreve essa busca constante e inalcançável como pulsão, mas eu diria que essa garotada se alimenta de emoção e não vive sem ela.

O Estado, no entanto, precisa de um inimigo para manter vivo o medo, então dirá que esses garotos são criminosos que os “cidadãos de bem” precisam temer e promete que seus agentes os eliminarão.

“[…] nossos governos sabem bem, o crime não é uma patologia social, mas um dispositivo fundamental para o fortalecimento da coesão. Por isso, nunca houve e nunca haverá sociedade sem crime. […] Ela precisa do crime. Na governabilidade atual, o crime não é algo que se combate, ele é algo que se gerencia.”

Vladimir Safatle

Para a manutenção do Estado, alguns precisam ocupar hoje o lugar que já foi ocupado por outros insurgentes, como os Farroupilhas ou os Quilombolas, que, se hoje são considerados movimentos sociais, na época eram descritos como criminosos.

Para se manter o status quo, o ódio da população e dos agentes policiais devem ser direcionados sobre os garotos do tráfico de drogas.

Fotomontagem com pessoas andando à esmo abaixo da frase "Predestinação Divina, insurgentes contra o tédio e o destino".
Caminhando sem destino e sem futuro

Primeiro Comando da Capital como predestinação

Todos nós, eu, você e aquela garotada, somos afetados por alguma emoção. Acreditamos que somos senhores de nossos destinos, mas o fato é que não tivemos domínio sobre o que nos afetou durante nossa vida e nos fez ser quem somos hoje.

Alguns de nós nascemos para ser “vasos de ira”, enquanto outros nasceram para ser “vasos de misericórdia” e não adianta reclamar:

“Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?”

Paulo de Tarso

Nossa predestinação pode ser divina ou construída pelos afetos que se somam ao longo de nossas vidas, mas é inegável:

O apedrejado em praça pública é fruto de vivências diferentes daquele cidadão de bem que lhe atirou a primeira pedra enquanto clamava a Deus dizendo “Senhor, Senhor!”.

As experiências e sentimentos vividos tanto pelo algoz quanto pela vítima se distinguem e independeram de suas vontades, mas os políticos e as mídias utilizarão a mesma régua para medir a ambos.

Talvez por isso cada vez menos pessoas se sentem representadas pelo sistema político, e o número de insurgentes se prolifera por todo o ocidente, seja enfrentando a polícia na Champs Elysee ou no bairro Planalto.

Primeiro Comando da Capital como fator de coesão

O Estado para muitos é a bota do policial que só aparece na periferia para intimidar e extorquir, e se esse quadro é real ou foi construído pelo imaginário coletivo não vem ao caso, o fato é que ele alimenta o discurso de ódio e medo de grupos sociais.

Alguns desses garotos se calam e buscam se proteger evitando contato, submetendo-se a misericórdia dos dominantes, mas outros se “mobilizam pelo desejo e não pelo medo”, abandonando a segurança pessoal e aceitando o risco em defesa de um coletivo.

O Primeiro Comando da Capital é um coletivo, formado por insurgentes: indivíduos que não acreditam que possam ser representados e defendidos pelo sistema político e social vigente.

A facção PCC 1533 aparece como uma alternativa que permite que eles atinjam seus objetivos de vida, e, não sendo uma organização estratificada, aceitam ser afetados por ela da mesma forma que sabem que a estarão afetando.

As ações de combate à organização estão fadadas ao fracasso ao se focarem na criminalização dos indivíduos membros da facção, ignorando os afetos que acalentaram seus novos membros e que formam um sólido e ao mesmo tempo etérico “corpo político”.

“[…] a política moderna inventou a representação. Ela nos fez acreditar que só haveria sujeitos políticos onde houvesse representação, […] Fora da representação só haveria o caos, e é necessário organizar as vozes de maneira tal que se possa controlar seu tempo de fala, seu lugar de fala, sua perspectiva, suas ‘instâncias decisórias’.”

Os membros da facção Primeiro Comando da Capital se sentem representados e representantes, e acreditam que por lá todos têm a mesma voz e os mesmos direitos, sejam irmãos, companheiros, ou aliados, e por isso valeria a pena lutar “até a última gota de sangue”.

Esse é no fundo o conceito de nação, o “corpo social” do qual todos gostaríamos de fazer parte, mas que a cada dia cada um de nós nos sentimos mais distanciados.

E assim, dia a dia ouvimos cada vez menos que “um filho teu não foge à luta e nem teme, quem te adora, a própria morte” e cada vez maisaté a última gota de sangue”.

Facção PCC: “onde os membros devotam suas vidas em troca do interesse maior da organização”.

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)


A matemática política da opressão carcerária

A opressão no ambiente carcerário como fator necessário para o sucesso de uma política de segurança pública.


Nem esquenta, nem ele e nem nenhum outro carcereiro tem importância para mim.


O carcereiro, a facção PCC 1533, o Estado e a sociedade

Digo a minha garota que ela merece o que está se passando com ela, afinal, foi uma de suas mãos que marcou um “X” no quadrinho de “opção de função” quando ela se inscreveu no concurso público, o mesmo ocorrido talvez se dê no caso de Diorgeres, ou talvez não.

Você se lembra do carcereiro Diorgeres, não?

Nem esquenta, nem ele e nenhum outro carcereiro tem alguma importância para mim, para você ou para aquelas duas acadêmicas, mas, mesmo assim, vou lhe contar algo sobre ele.

(Não devia citar as duas acadêmicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], pois o presidente Jair Bolsonaro alertou que não se deve dar palanque a acadêmicos doutrinados em Gramsci, mas com a permissão do Capitão prefiro dar nome aos bois.)

O que você fazia em fevereiro de 2001?

Caso você não se lembre ou caso não vincule a pessoa ao fato, Diorgeres de Assis Victorio era o carcereiro que foi levado como refém ao telhado do Carandiru com uma faca ao pescoço na apresentação pública do Primeiro Comando da Capital:

“Então um dos detentos que parecia um líder disse que precisava de dois reféns para ir com ele até a muralha do pátio. Era ali, na frente de todo mundo, que eles costumavam matar os reféns. Como na época do Exército eu havia tido aulas de prisioneiro de guerra, com porrada, tapa na cara etc., concluí que poderia estar mais preparado do que os outros para ir, então eu acenei com a cabeça para um colega que achei que tinha mais frieza e nós dois dissemos que iríamos.”

Arte sobre foto de um repórter e do governador Wilson Witzel em um presídio sob a frase "Quanto pior melhor, ganhando visibilidade midiática".
Governador Wilson Witzel na prisão

Quanto pior for a prisão, melhor será

Assim como a minha garota escolheu marcar um “X” no quadrinho de “opção de função” quando ela se inscreveu no concurso público, Diorgeres escolheu viver nos traiçoeiros corredores do sistema prisional e ser um refém do PCC. Foi escolha dele — ou talvez não.

Desde que eu o conheço, ele não concorda com o zurro popular que exige penas mais longas e condições mais duras e cruéis de encarceramento; assim como ele, o fazem as pesquisadoras da UFRGS: Oriana Hadler e Neuza Maria de Fátima Guareschi.

Contrariando nosso presidente, cito-as, pois foram elas que me explicaram a lógica matemática que leva o Estado a triturar Diorgeres e outros agentes de segurança carcerária (ASPens), sob os aplausos ou indiferença da sociedade, de mim e de você:

“Os cálculos estatais relacionados ao sistema prisional brasileiro têm se constituído tanto pelos investimentos financeiros no encarceramento, corpos físicos de policiais e mais aprisionamentos […] Questionar como organizam-se as relações pautadas na lógica de segurança é provocar estranhamento em relação a um estado naturalizado de violências […]”

As pesquisadoras Oirana e Neusa Maria, ao contrário de mim, de você e do capitão Jair, não acreditam que aqueles trabalhadores e apenados padecem por conta de suas escolhas, mas pelo resultado de uma desumana equação política.

Arte sobre foto de agentes penitenciários tendo ao fundo gladiadores em um coliseu sob a frase "O espetáculo não pode parar, ave Caesar, morituri te salutant".
Ave caesarm moritum te salutam

Dos holofotes da mídia ao breu cotidiano

Gilson César Augusto da Silva no artigo “Reality Show das Prisões Brasileiras” faz um breve histórico da evolução do Sistema Carcerário da antiguidade até chegar aos dias de hoje, e compara com a realidade transmitida pelo Big Brother Brasil:

“… os chamados “reality shows” … semanalmente um participante é eliminado … embora de discutível gosto, os programas mostram o quão difícil é a convivência humana. As casa onde se realizam esses “reality shows são verdadeiras mansões … há, ainda, boa comida, psicólogos, psiquiatras comportamentais, médicos, entre outras regalias. Além do competidor poder deixar o programa quando quiser … o que se vê em poucos dias de convivência? Pessoas extremamente estressadas, depressivas, agressivas, com reclamações de toda ordem, brigas, choros, ofensas recíprocas. É difícil a referida convivência? Sem dúvida. Mas se é difícil para os referidos participantes, com todas essas benesses, imaginem para os presos [e para aqueles que lá trabalham].”

Como fica então aqueles que arriscam sua saúde trabalhando nas galerias do Sistema Prisional, confinados em um ambiente insalubre e claustrofóbico em companhia de pessoas que tiveram problemas de adaptação às normas sociais?

A Segurança Pública e seus agentes são utilizados como peças publicitárias pela mídia e pelos políticos, mas quando os holofotes se apagam são abandonados para sofrerem o desgaste cotidiano, seja nos corredores dos cárceres ou os meandros burocráticos:

“O Departamento de Perícias Médicas do Estado, vendo o meu quadro clínico grave, entendeu por bem me readaptar e determinou que eu fosse afastado do contato com presos. Mas o Estado, vendo o conhecimento que eu tinha sobre o cárcere, ao invés de me afastar do contato de presos, determinou que eu fosse à Autoridade Apuradora da Unidade Prisional …”

A depressão carcerária dos corredores para as mentes

Sangue novo como combustível para o espetáculo

Nós não nos importamos com as condições de saúde daqueles que passam suas vidas dentro das muralhas, sejam eles prisioneiros condenados ou aqueles que por lá trabalham – a imprensa e os políticos sabem disso e entregam à nós o que queremos: um espetáculo.

O cruel abandono dos profissionais

Por vezes tratados como refugo, com falsa benevolência, são postos de lado, havendo uma política de isolar estes das novas “equipes especializadas”, formadas por jovens recém-engajados – prontos para começarem o seu próprio desgaste.

O ambiente insalubre do Sistema Prisional afetará diretamente a saúde mental desses garotos, assim como o fez com aqueles profissionais que os antecederam, no entanto a Administração Penitenciária vende a ideia de que agora será diferente…

… e sempre haverá garotos para assumirem as posições daqueles que já se desgastaram perambulando pelo claustros e que agora não mais aceitam alimentar o espetáculo midiático e político com seu sangue e o de sua família .

Você não acredita? Diorgeres explica com detalhes no artigo “Síndrome do pânico em agentes de segurança penitenciária”, publicado no site Canal Ciências Criminais:

“Muitos agentes não conseguem suportar todo esse descaso do Estado com a sua saúde e assim cometem o suicídio. Espero que eu resista a ponto de ver o Judiciário tomar uma atitude quanto a isso e que assim o Judiciário não caia em descrédito.”

Arte sobre foto de João Dória Júnior em frente a um quadro negro e uma equação matemática.
A matemática política da insegurança

A matemática política da opressão carcerária

Para a administração pública prevalece a lógica matemática do ganho político e midiático:

“ […] Trata-se, portanto, de um cálculo mínimo sobre vidas a serem gerenciadas em um plano de investimento entre baixos custos e a menor repercussão possível, combinada com a ampliação e execução de práticas violentas.”

O espetáculo (Esp) apresentado pela mídia para o público é igual ao grau de opressão (Op) multiplicado pela economia feita no investimento carcerário (Ec).

A matemática é simples: Op x Ec = Esp

Quanto maiores forem os fatores maior será a possibilidade do caos extrapolar as muralhas dos presídios e, consequentemente, gerar o maior espetáculo midiático possível, elevando a sensação de insegurança do cidadão e abrindo espaço para um grupo político específico.

Aplaudem-se as novas levas de prisioneiros e de agentes de segurança, não porque o mundo ficará mais seguro, mas por nos trazer uma maior sensação de segurança, não importando quem é Diorgeres ou quem são os agentes penitenciários que vivem nas galerias das carceragens.

Arte sobre foto do presidente Jair Bolsonaro com uma família assistindo a uma cena de massacre na televisão.
Bolsonaro e o show da isegurança pública

A política de inSegurança Pública e a política

Fora do meio acadêmico, poucos admitem que toda sociedade é afetada pelo resultado de uma iníqua equação matemática produzida por grupos políticos especializados em vender sua imagem de paladinos da lei e da ordem discursando sobre pilhas de cadáveres:

“Nesse cenário, encontramos diversos atores que ocupam o lugar daqueles que matam e, concomitantemente, dos que morrem nesse jogo de cálculos sobre vidas e grades. Pode-se dizer que é estabelecido um jogo onde a provisoriedade se torna eternidade […] Esse jogo morfético se mantém e é produzido junto a campos de saber e narrativas especialistas, que mantêm e instauram a violência do direito.”

Se é compreensível que um cidadão caia no conto do político salvador da pátria, é difícil explicar a posição de profissionais que sofrem na pele as consequências dessa política repressiva e ainda assim continuam as apoiando.

Alguns como Diorgeres questionam há muito políticas que tornam esses ambientes pútridos que impregnam os corpos, as mentes e as almas de todos aqueles que por lá vivem e trabalham. Mas esses são exceções, mas…

… ele, assim como outros ASPens, ao assinalarem com um “X” o quadrinho de “opção de função” quando eles se inscreveram no concurso público não pretendiam carregar os estigmas de dentro do cárcere para suas vidas, suas famílias e seus descendentes.

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Transferência de Marcola: o Apocalipse chegou?

A transferência de Marcola para uma prisão federal e a análise comparativa sobre o PCC e sua evolução em relação às principais organizações criminosas latino-americanas.

Marcos Willians Herbas Camacho transferido

Facção PCC 1533: estará ativo o salve geral do apocalipse?

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola do PCC, foi transferido para um presídio federal. E agora? O que se pode esperar como resultado disso? Haverá represálias por parte de integrantes da facção?

Há alguns anos, o Apocalipse foi previsto. Não pelos profetas de Israel ou pelos apóstolos cristãos, mas pelos líderes da Família 1533, prisioneiros da P2 de Presidente Venceslau – e já se vão mais de cinco anos…

O fim do mundo planejado pelos chefes do Primeiro Comando da Capital se daria no exato momento em que Marcola, o líder maior da facção, fosse impedido de sair do encarceramento após cumprir o seu tempo normal de prisão.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Aconteceu com Gegê do Mangue e teria que acontecer com Marcola

Rogério Jeremias Simone, o Gegê do Mangue, acabou saindo pela porta da frente do presídio, dentro das normas legais, e assim também se esperava que acontecesse com Marcola. Contudo, temia-se que a Justiça encontrasse subterfúgios para mantê-lo preso.

A prorrogação do período de prisão de Marcola seria o gatilho do Apocalipse: ataques à ordem pública e às forças de segurança, que, diferentemente de 2006, em que estiveram à frente dos ataques os crias do 15, esses seriam orquestrados pelos profissionais da facção.

O tempo passou, e cada vez menos se ouvia falar dentro da facção sobre o Apocalipse, afinal outras condenações estavam a caminho de Marcola, que não mais contava com a saída a curto prazo. Assim, um novo gatilho foi criado: a transferência de Marcola para a federal.

Princípio básico da ação policial: uso progressivo da força

Até hoje, os governos paulistas utilizaram a técnica de endurecimento paulatino para a retomada do controle do sistema carcerário, algo assim como quando se coloca uma rã na água e esta é colocada em fogo brando, e ela assim, vai se deixando ficar até morrer.

Hoje, a revista das visitas nos presídios é feita através de sistemas eletrônicos, e o serviço de inteligência das Secretarias de Segurança e da Administração Penitenciária (SASP), assim como a Promotoria Pública de São Paulo (MP-SP), têm conseguido interceptar e bloquear as comunicações dos presos.

O governo do Ceará, logo no começo da mais recente administração, optou por quebrar a ideologia de paulatinidade no endurecimento do tratamento dado aos prisioneiro — deu no que deu, e foi necessário o envio de forças federais para o estado.

Ao escolher agir de forma abrupta e não seguir com um processo gradual, o governo João Dória abandonou o bom senso e escolheu o caminho mais perigoso e ao alertar a rã a colocou em movimento.

O recado no entanto foi mandado.

Transferir Marcola para um presídio federal é um fato histórico e uma aposta do governador João Dória que tem poucas chances de não lhe ser vantajosa politicamente:

  • se houver reação por parte dos facciosos, ele ganhará com o aumento do medo da população que reforçará sua estratégia de combate rígido às organizações criminosas.
  • se não houver uma reação dos criminosos, ele terá demonstrado que venceu a facção criminosa ao enfrentá-la de frente, o que os seus antecessores não tiveram coragem ou falta de senso de fazer.

Dentro da facção, não se acreditava que João Dória, assim como seus antecessores, resolveria arriscar o embate, pois o número de mortos entre os agentes públicos e as ações de terror desgastariam o governo.

O erro de cálculo dos faccionados se deu ao acreditar que o governador estaria preocupado com a vida dos policiais e seus familiares, que ao contrário do salve de 2006, também seriam alvo no Apocalipse, no entanto…

Um novo tempo, um novo Primeiro Comando da Capital

Já se vão mais de cinco anos desde que o Apocalipse foi planejado. O mundo e a facção não são mais os mesmos, contudo, a imagem que a população tem do que é uma facção criminosa pode não ter acompanhado essa evolução.

Se aproveitando da ingenuidade da maioria, políticos e parte da imprensa vendem soluções se coadunam com o imaginário popular, como a política de aprisionamento e a transferência das lideranças criminosas para os presídios federais.

No entanto, hoje, o Primeiro Comando da Capital é uma organização mais horizontal e formada por subgrupos que não terão sua vida alterada pelo envio de Marcola e outros líderes para fora do estado e sua colocação no regime disciplinar diferenciado.

A estrutura da organização criminosa dentro e fora dos presídios continua existindo e me parece natural que haverá uma disputa interna para ocupar o lugar dessas lideranças que conseguimos isolar nos presídios federais. Não tenho nenhuma esperança que o PCC acabou

Lincoln Gakiya para a Revista Isto É

Nesse novo horizonte, o Apocalipse passou a ser apenas uma opção. Se será colocada em marcha ou não, será uma decisão tomada levando em conta os interesses políticos, econômicos e sociais da maioria dos integrantes da facção.

Será que justamente no momento em que se está sendo colocado em pauta uma nova legislação penal seria interessante para o mundo do crime uma onda de atentados?

A mim parece claro. A facção Primeiro Comando da Capital retaliará apesar de não ser a melhor solução técnica, pois assim como João Dória, sabe que deve agir pensando em sua platéia mesmo que seus homens sejam mortos.

A questão não é se, mas sim quando e se estamos preparados para contar os mortos e o prejuízo, mas o importante é que o governador cumpriu sua promessa de campanha.

Todo cuidado é pouco quando se mexe com a Família 15

Esperando uma possível onda de ataques o governo do estado de São Paulo colocou em prontidão 100 mil policiais militares e o governo federal autorizou a utilização da Força Nacional para guardar os presídios federais de: Brasília, Porto Velho (RO) e Mossoró (RN).

Apesar de Marcola e os demais líderes transferidos terem deixado de ser uma peças fundamentais para o bom funcionamento da facção os faccionados podem optar pela retaliação para impedir que outras medidas venham a ser implementadas.

Esperando uma possível onda de ataques o governo de São Paulo colocou em prontidão 100 mil policiais militares e fez operações em 3.300 pontos em todo o estado.

O governo federal autorizou a utilização da Força Nacional para guardar os presídio federal de Brasília e efetivos das forças armadas para guardarem o entorno dos presídios federais de Porto Velho (RO) e Mossoró (RN).

Leia mais detalhes sobre a transferência dos presos e as ações preparatórias das forças públicas no G1.

Lista com o nome dos 22 integrantes do PCC transferidos

  1. Lourinaldo Gomes Flor (‘Lori’)
  2. Marcos Williams Camacho (‘Marcola’)
  3. Pedro Luís da Silva (‘Chacal’)
  4. Alessandro Garcia de Jesus Rosa (‘Pulft’)
  5. Fernando Gonçalves dos Santos (‘Colorido’)
  6. Patric Velinton Salomão (‘Forjado’)
  7. Lucival de Jesus Feitosa (‘Val do Bristol’)
  8. Cláudio Barbará da Silva (‘Barbará’)
  9. Reginaldo do Nascimento (‘Jatobá’)
  10. Almir Rodrigues Ferreira (‘Nenê de Simone’)
  11. Rogério Araújo Taschini (‘Taschini’/’Rogerinho’)
  12. Daniel Vincius Canônico (‘Cego’)
  13. Márcio Luciano Neves Soares (‘Pezão’)
  14. Alexandre Cardoso da Silva (‘Bradok’)
  15. Julio Cesar Guedes de Moraes (‘Julinho Carambola’)
  16. Luis Eduardo Marcondes Machado de Barros (‘Du da Bela Vista’)
  17. Celio Marcelo da Silva (‘Bin Laden’)
  18. Cristinao Dias Gangi (‘Crisão’)
  19. José de Arimatéia Pereira Faria de Carvalho (‘Pequeno’)
  20. Alejandro Juvenal Herbas Camacho Marcola Júnior (‘Marcolinha’)
  21. Reinaldo Teixeira dos Santos (‘Funchal’)
  22. Antonio José Muller Junior (‘Granada’)

Leia mais detalhes sobre os principais líderes transferidos no G1.

Entre as facções que mais se destacaram em 2018, o Primeiro Comando da Capital foi a vencedora.
Facção PCC 1533 Criminal Winner 2018

PCC o “vencedor” do crime na América Latina (GameChangers 2018)

Os especialistas em crimes transnacionais do site InSight Crime, Jeremy McDermott, Mimi Yagoub, Victoria Dittmar e Mike LaSusa, analisaram as principais organizações criminosas que se fortaleceram em 2018 e ranquearam, após investigarem as estratégias e a virulência de sua expansão territorial e econômica durante o ano, sua capacidade de resistir às investidas das forças públicas e sua capacidade de domínio fora de suas fronteiras.

O Primeiro Comando da Capital, segundo esses especialistas é a que melhor resultado teve, ficando à frente do Exército de Libertação Nacional (ELN)da Colômbia e do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) do México. Essa resiliência se deve à adaptação às novas realidades e ao uso racional da força, por isso não houve nenhuma reação imediata à transferência de sua lideranças.

A seguir passo as principais conclusões desses especialistas, publicado aqui de acordo com as exigências do “Creative Commons” (clique neste link para acessar o texto original):

Embora a tendência geral durante a última década na América Latina tenha sido a fragmentação de estruturas criminosas, três grupos quebraram esse paradigma e ganharam grande visibilidade, crescendo em número e influência territorial dentro e fora das fronteiras de seus países.

Enquanto muitos criminosos buscavam agir nas sombras, atuando em operações cada vez mais longes dos olhos do público, esses grupos foram para as ruas e apresentaram-se abertamente como organizações criminosas.

A exposição pública de sua força e marca são o segredo de seu sucesso? Ou será que a atenção que as facções estão atraindo com suas ações resultará na fúria e no poder de repressão das autoridades nacionais e internacionais, motivando sua fragmentação e desaparecimento definitivo?

Breve histórico da facção Primeiro Comando da Capital e de Marcola seu líder.

Primeiro Comando da Capital (Primeiro Comando da Capital – PCC)

A gangue prisional mais poderosa do Brasil em 2018, se aproveitou a total falta de vontade política para enfrentá-la:um governo fraco, paralisado e aparentemente corrupto do presidente Michel Temer gastou seu limitado capital político simplesmente agarrando-se ao poder. Foi nesse ambiente que o então candidato Jair Bolsonaro, um extremista em questões de segurança, concorreu e ganhou as eleições para presidente da República de 2018.

O PCC passou vários anos em expansão, mas em 2018 houve uma aceleração de seu crescimento, e sua estrutura estava muito mais coesa do que as estimativas levavam a crer: com operações agressivas no Paraguai e na Bolívia, e tentáculos que alcançam Colômbia, Argentina, Uruguai e Venezuela. A participação da quadrilha no comércio internacional de cocaína também revela uma capacidade de obter maiores lucros e se expandir para fora da América do Sul.

Um dos fatores que teriam influenciado o crescimento acelerado da facção seria a quebra, em 2016, da aliança que havia firmado com o Comando Vermelho (CV). Seu fortalecimento permitiu que a organização carioca fosse enfrentada, e esse enfrentamento não só não a enfraqueceu como levou o PCC ao domínio tanto de fontes primárias quanto de rotas.

Arquivos apreendidos pelas autoridades em 2018 elucidam fontes de renda, táticas de lavagem de dinheiro e aumento de recrutas do PCC. Os documentos indicaram que a receita anual do grupo pode chegar a US $ 200 milhões. De acordo com os arquvios, os membros do PCC pagam uma taxa de afiliação de até R$ 950,00 por mês, que é usada principalmente para manter os membros do grupo que estão na prisão.

A expansão do PCC no exterior tem sido mais evidente no Paraguai. O crescimento nesse país e a vontade do grupo para agir em desafio aberto a qualquer resposta paraguaia ficaram claros após o assalto cinematográfico na sede da Prosegur, uma empresa de carros blindados em Ciudad del Este. Com precisão militar, 60 homens armados explodiram as portas da sede da empresa e pacificamente levaram US$ 11,7 milhões, passaram em carreata atirando para em direção à fronteira e terminaram a fuga em barcos pelo rio Paraná em direção ao Brasil.

Desde então, as raízes do PCC no Paraguai, principal produtor de maconha na América do Sul e paraíso dos contrabandistas, se tornaram arraigadas e disseminadas. Acredita-se que o PCC agora domine a cidade fronteiriça paraguaia de Pedro Juan Caballero, onde exerce o controle total dos negócios de maconha e cocaína que passam por lá.

Todas as organizações criminosas brasileiras querem acesso à farta produção de cocaína colombiana e peruana, tanto para abastecer o mercado interno quanto para baratear o preço de venda e para conseguirem se inserir no comércio internacional de drogas — o que só é possível com o controle de custo, pegando a mercadoria direto do fornecedor externo.

A presença do PCC na zona trilateral, entre o Brasil, a Colômbia e o Peru, outro país produtor de cocaína, intensificou-se nos últimos anos, muitas vezes acompanhada de massacres e extrema violência. A Bolívia não foi isenta de uma dinâmica semelhante, embora em 2018 fosse o Comando Vermelho, mais do que o PCC, que tinha uma presença mais óbvia naquele país .

A Venezuela, com corrupção generalizada e fracasso econômico, tornou-se uma fonte de armas para grupos criminosos, e o PCC procurou estocar armas pesadas para lá.

Embora alguns dos principais líderes do PCC tenham morrido, o grupo conseguiu manter sua direção e controle graças a sua estrutura de atuação, que mais se parece como uma franquia com um conselho de administração do que com uma estrutura verticalmente integrada. Esse conselho de diretores é conhecido como “Sintonia Geral Final”, e é formado por cerca de oito a dez membros, e seriam eles quem tomariam as decisões mais importantes sobre estratégia e diretrizes gerais para as atividades dos membros do PCC.

Ironicamente, a eleição de Bolsonaro pode ser um estímulo para o PCC, sem dúvida, em termos de recrutas, porque estão previstos mais confrontos e prisões de membros, segundo a retórica de campanha do presidente.

Especificamente, o motor de crescimento do PCC são as prisões. As prisões são os lugares onde o PCC ancora sua base e cria sua força e suas bases sociais. Quanto mais a política de aprisionamento for promovida como uma resposta à violência, mais o PCC será fortalecido e expandido. Paradoxalmente, o estado acaba atuando para fornecer mais membros ao PCC.

Camila Nunes Dias

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 700 mil presos, e segue de perto os Estados Unidos e a China, ambos com populações totais muito maiores. E esse número parece destinado a crescer durante o ano de 2019.

É opinião do InSight Crime que o PCC em breve se tornará uma das estruturas criminais mais importantes do continente americano, juntando-se aos colombianos e aos mexicanos. A expansão futura, especialmente no nível transnacional, dependerá de quanto o PCC está envolvido no negócio da cocaína, aproveitando a posição do Brasil como uma das principais pontes de tráfico da droga para a Europa e além.

“O PCC está no Brasil, Bolívia, Paraguai e está entrando no Uruguai e na Argentina. Eles vão nessa direção. Existe um vácuo e eles vão se expandir e expandir. E dominar “.

Márcio Sérgio Christino

Para ler a análise do InSight Crime sobre as outras duas organizações criminosas que se destacaram em 2018, Exército de Libertação Nacional (ELN da Colômbia) e o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), acesse este link.

ASPEN – agente penitenciário é polícia?

O Primeiro Comando da Capital e a Polícia Militar: a metodologia e o imaginário dos Agentes de Segurança Penitenciária (ASPENs).


As muralhas que separam esses dois grupos são tão altas quanto as dos presídios.


PCCs e PMs vs. ASPENs

Os facciosos da organização criminosa Primeiro Comando da Capital e os integrantes da Polícia Militar sabem quem são e para onde vão. Agora, será que você, eu e os ASPENs temos tanta certeza de quem somos e de qual é nosso objetivo?

Essa não é uma pergunta meramente filosófica, mas prática, afinal se você não sabe quem você é, não tem como saber qual o melhor caminho para alcançar ao seu objetivo.

Iguais porém diferentes, por dentro e por fora.

Todos que trabalham nos presídios são iguais – pelo menos é assim que parece para quem apenas vê os agentes penitenciários pela telinha do celular ou da tv quando estes são feitos reféns por amotinados ou entram em greve; nada poderia ser mais enganoso.

Se você é uma dessas pessoas, Victor Neiva e Oliveira pode lhe contar com detalhes como se dividem os profissionais prisionais: os agentes de linha de frente, os GIRs, os GITs, os SOEs, os COPEs…

… mas, principalmente, como essas pessoas se veem – apesar de trabalharem lado a lado, cada um desses grupos tem objetivos e métodos de trabalho antagônicos.

Antípodas

As muralhas que separam esses grupos são tão elevadas quanto as dos presídios nos quais trabalham. Essas diferenças não são apenas profissionais e se aprofundaram em suas almas.

E foi esse universo que Victor me levou a conhecer, em sua tese apresentada à Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.

“O dilema identitário dos agentes de segurança penitenciária: guardiões ou policiais?”

Os facciosos do Primeiro Comando da Capital e os soldados da Polícia Militar é que são felizes, eles sabem exatamente quem são e para onde vão, e seguem firmes para seu destino – ao contrário dos agentes penitenciários, de mim e de você.

Seu João, um dinossauro na carceragem

A primeira vez que vi Seu João eu estava na carceragem do Fórum…

Havia um desentendimento entre presos de dois bondes: um do CDP de Sorocaba e outro do Cadeião (CDP de Pinheiros). Os escoltas gritavam para que parassem a briga e ameaçavam represálias, mas os presos ignoravam as advertências e continuavam o confronto.

Seu João, carcereiro do DELPOL, chegou puxando mais um preso pela algema. Um dos PMs entrou na frente do velho carcereiro para lhe barrar a passagem. Seu João, um negro grande e pesado, fez que nem viu o PM, continuou em frente e entrou na cela.

Os que estavam brigando pararam.

Ninguém esperava que alguém entrasse na cela no meio da muvuca, muito menos um senhor de camisa aberta até quase o umbigo.

Seu João ficou de costas para os briguentos, tirou a algema do garoto que tinha levado para a cela e lhe deu alguns conselhos, quem não os conhecesse acharia que eram pai e filho. O carcereiros agiam como se não tivessem percebido o clima pesado.

Antes de sair da cela, Seu João comprimentou um a um os oito presos que lá estavam. Quando deu a mão para os que estavam tretando, ficou uns segundos a mais segurando suas mãos antes de soltar, olhos nos olhos, semblante plácido e sem ameaças.

Saiu da cela.

Os presos não mais se encararam, ficaram todos com as cabeças baixas: alguns se sentaram, outros não, uns passaram a conversar em tom baixo, enquanto outros ficaram em silêncio – foi assim até que os bondes voltassem para suas unidades com seus custodiados.

Você talvez tenha ouvido falar do que acontecia nos cárceres durante o Regime Militar – seu João era carcereiro naquele tempo. Algo sempre me intrigou: sempre tive a impressão que os PMs e os ASPENs olhavam com desprezo e superioridade para aquele dinossauro…

… e seu João ria muito daqueles garotos quando não estavam por perto – eles pensam que são durões”, e ria, ria muito.

Seu João era único, só que não.

Víctor conta que ele era o típico carcereiro da década de oitenta – um dinossauro andando entre nós:

“[…] habilidoso da ‘malícia’. Conseguia o respeito e a obediência dos prisioneiros sem recorrer ao uso da força o que conferia a ele um status diferenciado na ‘turma dos guardas’. Os detentores dessa habilidade individual gozavam de uma posição de prestígio nas penitenciárias e, por isso, possuíam um profundo orgulho profissional.”

Eram outros tempos. Seu João não dava a mínima para os treinamentos, e hoje, com a profissionalização dos presídios, esse tipo de atitude isolada passou a ser vista com desprezo pela maioria da categoria.

Os policiais militares e os ASPENs, que olhavam com desprezo e superioridade o seu João, eram apenas algumas nuvens pesadas que prenunciavam a tempestade que iria levar quase à extinção os dinossauros.

“Permanecer operando nos pavilhões como há quatro décadas ou não buscar participar dos treinamentos ministrados pelo COPE pode relegar o agente a uma posição de inferioridade ou demérito nas penitenciárias.”

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

O crime se profissionalizou, assim como as forças policiais e carcerárias, e creio que é quase impossível saber se esse movimento foi simultâneo ou algum dos lados conduziu o processo.

O Primeiro Comando da Capital e as outras organizações criminosas estruturadas, assim como os PMs e os ASPENs, não aceitam mais condutas como as de seu João – se algum preso aceitasse o contato com o velho dinossauro, o vacilão seria chamado para o debate.

Os presos como empoderadores de seus algozes

Muitas vezes ouvi os gritos: “A GIR! A GIR!”. A reação é a mesma que nas ruas quando se grita “Rota!” – o clima muda: os criminosos se preparam para um confronto pesado ou assumem que a casa caiu, se possível viram pó, e, se não, baixam a bola.

“Esse ‘temor’ por parte da população prisional elevou os integrantes dos grupamentos táticos especializados a uma posição de superioridade antes ocupada pelo guarda de presídio portador do conhecimento sobre o uso habilidosos da ‘malícia’ e com ampla capacidade discricionária.”

Os GIRs, os GITs, os SOEs, os COPEs…, são os caras! Só que não:

“[Eles] se sentem extremamente ressentidos, indignados e menosprezados por não serem reconhecidos legalmente como policiais. A aspiração máxima da categoria no país hoje é se tornar uma polícia de direito […]. O reconhecimento como policiais penais significaria também uma via de legitimidade social pela qual poderiam positivar sua imagem perante a sociedade […].”

Agora, me responda, quem nasceu primeiro: as equipes táticas de uso da força no ambiente prisional ou o Primeiro Comando da Capital? Seja como for, o mundo não mais foi o mesmo após essa onda de profissionalização, tanto dos ASPENs quanto dos criminosos.

Somos todos irmãos de sangue, não somos?

Nem todos os agentes prisionais gostariam de ser policiais carcerários – exceto pelas vantagens econômicas e trabalhistas que essa mudança traria, é claro.

Parte dos profissionais prefere trabalhar no dia a dia da prisão, sem se misturar com os “puliças” das equipes especializadas de intervenção, que alguns consideram como covardes enrustidos e arrogantes:

“Será que aqueles caras que chegam, invadem em bando, jogando bombas, batendo e gritando, por trás de seus equipamentos de proteção e com o rosto encoberto, teriam coragem de ficar desarmados circulando entre os presos diariamente só com a proteção de Deus?”

Parte dos profissionais prefere trabalhar nas equipes especializadas, sem se misturar com os “porteiros”, os agentes de linha de frente, que alguns consideram como covardes e displicentes:

“Se eles fizessem direito seu serviço não teríamos que entrar para acertar seus erros. Quando a coisa complica, eles fogem e ficam de fora, sobrando para as equipes especializadas entrarem para resolver tudo.”

Cada grupo sabe da importância do outro para o perfeito funcionamento do sistema prisional e juram que tem o sangue da mesma cor, só que, por dentro, os integrantes de um grupo acreditam serem melhores que os integrantes do outro grupo.

No entanto, não bastaram para mim as explicações de Victor para que eu entendesse as razões dessa disputa interna – tive que pedir ajuda à Ronie Silveira.

A partir desse ponto até o fim, as citações foram intertextualizadas e contextualizadas: para acessar o original clique nos links.

Brasileiros agem como brasileiros

Ao ouvir Ronie Alexsandro Teles da Silveira não pude deixar de notar a semelhança do comportamento dos agentes penitenciários com nós outros, e não poderia ser diferente. Eu e você fomos criados no mesmo caldo que qualquer agente de linha de frente ou de equipe especializada.

Fala sério! Alguém acredita que a cultura que vige dentro das muralhas não é a mesma que impera para todos os outros a brasileiros?

Vou contar para você alguns trechos intertextualizados e contextualizados do que eu ouvi do Ronie no episódio “Filosofia como parte da cultura”, do podcast Filosofia Pop:

“Isso seria um absurdo, isso seria dar muito poder [ao mundo carcerário], um poder que certamente não tem, que é o poder de isolar sua cultura”.

Os agentes penitenciários querem ser policiais, pois, inconscientemente, o universo prisional lhes parece pequeno, inferior, e a Polícia Militar é o modelo de corporação a ser seguido.

O padrão operacional prisional americano também é admirado e copiado – mesmo que este não apresente melhor resultado do que os dos cárceres europeus na pacificação dos presídios e na recuperação dos custodiados.

“Percebemos que muitas das características da cultura [laboral prisional] espelha a cultura brasileira. […] Que é feita com os olhos voltados para os países que nos colonizaram culturalmente, desvalorizando o conhecimento adquirido diretamente no mundo efetivo onde nós vivemos.”

Espelhando nossos ídolos

Ao ouvir Ronie, percebi que o seu João, o velho carcereiro, procurava espelhar o comportamento dos antigos policiais civis. Hoje a nova geração deixou de ter como seus malvados favoritos delegados e investigadores,e passou a seguir os PMs do Choque.

NON DVCOR DVCO (não sou conduzido, conduzo) poderia ser o lema dos homens da Polícia Militar e do Primeiro Comando da Capital, mas hoje não parece constar das flâmulas dos agentes de linha de frente, dos GIRs, dos GITs, dos SOEs, dos COPEs…

… assim como os minions, aqueles que tentam se espelhar são considerados como inferiores por seus modelos, e não podia ser diferente, pois o próprio agente penitenciário se colocou nessa posição, que não é só dele, mas faz parte de nossa cultura nacional:

“Nós olhamos nosso [sistema prisional] basicamente pelo olhar europeu e americano, e por essa perspectiva temos uma tentativa fracassada de [encarceramento] no qual não conseguimos realizar plenamente os valores da [ressocialização e do controle interno]. Ficamos a meio caminho, mais ou menos, em uma hipótese muito favorável para nós.”

Os facciosos do Primeiro Comando da Capital e os soldados da Polícia Militar é que são felizes, eles sabem exatamente quem são e para onde vão e seguem firmes para seu destino – ao contrário dos agentes penitenciários, de mim e de você, só que:

“[Mas não podemos viver em] mundo aparentemente sem critérios, ou seja os seus critérios são aqueles vigentes no seu próprio meio. É uma extrema dificuldade você fazer uma leitura moderna de olho nas experiências externas ao mesmo tempo que busca adequar as conquistas de sua própria história.”

PMs e PCCs são felizes porque vivem em seu próprio mundo, sob suas próprias regras (Efeito Dobradiça), se opondo ao controle externo de seu padrão operacional e ético. Ambos sabem exatamente o que fazer pelo bem da comunidade, só que não.

Talvez, eu, você e os agentes penitenciários, que ainda estamos construindo nossas identidades, possamos conviver em paz com o restante da sociedade, em que PCCs e PMs enfrentam a repulsa de parte dessa mesma comunidade, que eles acreditam estar protegendo.

“Diante do reconhecimento dessa lógica peculiar que é ser brasileiro, onde há uma lógica diferente dos valores ocidentais, modernos e contemporâneos, o que nos cabe fazer é reconhecer que há uma lógica alternativa, vigente no Brasil e que permite que soluções sejam formuladas de maneira contextual.”

A pergunta que resta é:

Faz diferença se os agentes da segurança prisional são policiais? Ou isso seria apenas uma questão de ego alimentada pela cultura norte-americana? – exceto pelas vantagens econômicas e trabalhistas que essa mudança traria, é claro.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Deus e o Estado Vs. Primeiro Comando PCC

O Primeiro Comando da Capital ameaça o Estado Constituído, assim como outros grupos no passado já o fizeram – veja como a Bíblia nos orienta a agir.

Nem direita e nem esquerda, só Deus na causa!

O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o caos na Segurança Pública são consequências do governo:

  • de Direita: por meio do Regime Militar e da política da Rota na Rua, que criaram um ambiente favorável à intelectualização do crime, sem a qual o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho (CV) não existiriam;
  • de Centro: por meio dos governos do PSDB de Mário Covas e Geraldo Alckmin, que possibilitaram a hegemonia do PCC em São Paulo e o fortalecimento dos negócios da facção dentro e fora dos presídios; e
  • de Esquerda: por meio dos governos do Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma, que permitiram a proliferação da facção paulista por todos os estados da nação, levando-os a ampliar seus negócios para fora do país.

Para o sociólogo Gabriel Feltran, que estuda o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que comanda a maioria dos presídios do estado, o voto é abertamente antitucano. Segundo ele, “não é uma questão de ser de esquerda ou de direita”. O fato de São Paulo ter escolhido apenas governadores tucanos desde 1995 significa que o partido tem determinado a política penitenciária estadual desde então. O sociólogo Rafael Godoi observa que o sistema carcerário paulista “tem o DNA” do PSDB. “A gente tinha 40 mil presos no começo dessa política carcerária, décadas atrás, e agora são 250 mil”, explica Feltran. “Isso sem contar a população de mais de 1,3 milhão ex-presidiários no estado.”

Pedro Siemsen (Revista Piauí)

E essa história começa assim:

“Uma carta saiu de um presídio. Quem a recebeu odiava profundamente as forças opressoras do governo. Ele já havia sido preso e estava pronto para lutar contra o jugo do opressor agora teria irmãos para ajudá-lo, já não correria mais sozinho.”

Quem permitiu que esse preso se comunicasse?

O seu malvado favorito, assim como o meu, talvez tenha permitido que essa mensagem saísse do presídio:

  • Regime Militar
    • Como forma de punir com maior rigidez os presos políticos, eles foram colocados juntos aos presos comuns de alta periculosidade na Ilha Grande e no Carandiru. Em cima dessa união de métodos é que se solidificou as bases ideológicas do PCC e do CV. Essa carta pode ser uma daquelas tantas que divulgaram essa boa-nova;
  • Governo Geraldo Alckmin
    • Período de pacificação, em que supostamente houve uma trégua entre o Estado e as facções criminosas. Essa carta pode ter sido uma daquelas tantas que se aproveitaram desse ambiente propício, que permitia até a entrada de celulares nos presídios; ou
  • Governos do Partido dos Trabalhadores
    • Período áureo de expansão do PCC 1533 nacional, que se aproveitava das transferências de presos para outros estados e de uma política preocupada com o respeito aos Direitos Humanos. Essa carta pode ser uma das tantas outras que circulavam por todo o Brasil.

Só Deus na causa.

O importante é que você, assim como eu, não caia no conto de Benjamin, que critica o sistema, duvidando da capacidade do Estado em nos proteger do mau – ele veio para trazer dúvidas às nossas certezas, mas isso já era previsto.

A única certeza que posso ter é que “os homens jogam os dados sagrados para tirar a sorte, mas quem resolve mesmo é Deus, o Senhor.” – e Benjamin não é o Senhor.

O roubo de armas do exército e da marinha

Uma carta saiu de um presídio. Quem a recebeu odiava profundamente as forças opressoras do governo. Ele já havia sido preso e estava pronto para lutar contra o jugo do opressor – agora teria irmãos para ajudá-lo, já não correria mais sozinho.

De posse daquela carta de corso, foi juntar-se aos seus novos irmãos que estavam concentrados em um outro estado mais ao sul.

Inicialmente fez alguns saques e pequenos ataques, mas era apenas uma preparação para uma mega-operação que envolveria muito dinheiro, armas e homens.

Não, não estou falando do mega-assalto do PCC ao Prosegur no Paraguai ou de tantos outros que você possa estar cogitando – foi algo maior.

As armas pesadas que precisavam foram tomadas dos paióis do exército e da marinha de Laguna, e por mais incrível que possa parecer para você, que, assim como eu, acredita na lei e na ordem, a população comemorou quando eles derrotaram os soldados:

A noite se iluminou, os festejos não acabavam mais, aqueles que oprimiam levaram uma surra daqueles homens que atacaram as forças do governo. Foram saudados como irmãos e libertadores, pois a comunidade “era simpática” aos seus ideais.

Giuseppe Garibaldi conseguiu apreender escunas imperiais, pequenos veleiros, canhões, 463 carabinas e 30.620 cartuchos…

… e tudo começou com a carta passada por Bento Gonçalves à Giuseppe Garibaldi de dentro de uma prisão imperial (ou como diríamos hoje: de um presídio de segurança máxima federal).

Livrando-se desta peste – bandido bom é bandido morto

O cientista político Benjamin Lessing pergunta, ao mesmo tempo que responde, à repórter Fernanda Mena da Ilustríssima da folha de S. Paulo:

“O PCC se enfraqueceu ou se fortaleceu ao longo dos anos 1990 e 2000, quando a população prisional do Estado quadruplicou e o número de prisões explodiu? O PCC cresceu junto com o sistema.”

O cárcere e as comunidades carentes são os ambiente nos quais as organizações criminosas recrutam seus homens e articulam seus planos de ataques, isso é tão verdade agora como foi há duzentos anos, quando Garibaldi se irmanou à facção dos Farrapos.

Você e eu sabemos que a questão carcerária é muito mais complexa do que aqueles que apontam a direita, a esquerda ou o centro fazem parecer. É claro que nem eu e nem você acreditamos que foi o Regime Militar, Alckmin ou o PT que causaram tudo isso.

Dúvida? Pergunte ao Bento Gonçalves quem foi que facilitou para ele passar de dentro da prisão aquela carta de corso para Garibaldi. Duvido que ele lhe diga que foram um desses que tanto acusam hoje em dia.

O que parece acontecer é que, entra século, sai século, insistimos em manter as masmorras intocáveis, entulhando-as com todos aqueles que não aceitam seguir as normas impostas por nós, cidadãos de bem, por meio de nossos governantes.

Encarceramento em massa ou morte!

Só que a política de encarceramento em massa daqueles que não se ajustam ao sistema não funciona – pelo menos é o que afirma Benjamin:

“Não conheço nenhum lugar do mundo que tenha diminuído o poder de facções do crime organizado aumentando a população prisional.”

Há dois séculos nós, “cidadãos de bem”, gritamos que o governo deveria “se livrar de uma vez destas pestes”, que eram os farroupilhas. Hoje, continuamos bradando para que os bandidos das facções criminosas sejam caçados e mortos.

As forças militares imperiais não conseguiram tirar dos gaúchos os farroupilhas, assim como as polícias militares republicanas não conseguiram tirar os jovens sem oportunidade das comunidades periféricas da “Família 1533 TD3 passa nada”.

Um sistema que oprime e não protege

Os membros do Primeiro Comando da Capital de Marcola, assim como aconteceu com os farroupilhas de Bento Gonçalves, acreditam que lutam por um ideal: o fim de um sistema opressor que envia seus soldados para as regiões mais pobres apenas para oprimir e não para proteger.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

E um ideal não pode ser encarcerado ou morto, como provou o estado de São Paulo:

“São Paulo é o estado com mais dinheiro, mais policiais bem treinados, com mais universidades” […] “dizia que era uma organização falida. Há falas de 2002 e 2003 de que o PCC havia sido desmantelado.” […] “E, em 2006, com os ataques, a organização mostrou seu poder. e não só não conseguiu eliminar o PCC como tem hoje a facção mais poderosa do Brasil.”

“O PCC é uma tecnologia de organização que envolve normas de ajuda mútua, sistemas de cadastramento, rituais de ingresso e comunicação entre prisões e entre as prisões e a rua. É uma ideia, como define o PCC. E as ideias são difíceis de conter.”

O governo mandou de soldados do exército imperial à ROTA para combater “ideias”; no entanto, o Estado não buscou eliminar o abandono e a opressão dentro no sistema prisional, nas favelas e nos cortiços:

Há um princípio em medicina que diz: sublata causa, tollitur effectus (“suprima a causa que o efeito cessa”, em latim)

Deus, os governos e seus agentes

Eu, você e até mesmo o ateu mais positivista fomos criados dentro de uma cultura judaico-cristã, e foi nesse ambiente que formamos nosso conceito do que é certo ou errado e de como devemos agir em relação ao Estado e seus representantes:

“Por causa do Senhor, sejam obedientes a toda autoridade humana: ao Imperador , que é a mais alta autoridade; e aos governadores, que são escolhidos por ele para castigar os criminosos e elogiar os que fazem o bem. Vivam como pessoas livres. Respeitem todas as pessoas, temam a Deus e respeitem o Imperador.”

Segundo Bíblia Sagrada os governantes e os policiais agem em nome de Deus, e eu e você, assim como todos os homens corretos e justos, devemos-lhes obediência e respeito.

“Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.”

No entanto, Garibaldi e seus farroupilhas, assim como acontece hoje com Marcola e seus faccionários, não acreditaram nessa ladainha e optaram por se opor ao Estado Constituído e seus representantes.

Esses dissidentes recebem hoje, assim como receberam no passado, apoio nas comunidades mais pobres, que não se sentem protegidas pelas “forças de ocupação” do governo – os soldados há século raramente sobem o morro para proteger morador.

“Quem não está no crime, mas é jovem, pobre e negro, portanto, com maior chance de ser preso, sabe que vai precisar da proteção da facção. O Estado, inadvertidamente, é a corrente transmissora do poder do PCC nas quebradas.”

Homens de pouca fé questionam as autoridades

Eu e você, assim como todos os homens cheios de fé, sabemos que não podemos arredar o pé da Verdade:

“As pessoas honestas se desviam do caminho do mal; quem tem cuidado com a sua maneira de agir salva a sua vida. O homem violento engana os seus amigos e os leva para o mau caminho.

No entanto, alguns homens, como Garibaldi e seus farroupilhas, assim como Marcola e seus faccionários, não são como nós. Sendo homens de pouca fé, uniram-se, em suas respectivas épocas, para lutar contra aquilo considerado por eles como um sistema injusto.

Eu e você, assim como todos as pessoas de bem, sabemos como agir. Devemos ficar ao lado de nossos governantes quando estes atacam o mal em nome do bem. Devemos, mais uma vez ouvir a Verdade:

“Os maus provocam discussões, e quem fala mal dos outros separa os maiores amigos.”

Por isso, eu e você, assim como todos os justos devemos ignorar a advertência que Benjamin Lessing fez à Fernanda Mena:

“Sobre a disponibilidade de armas e a abertura de uma espécie de temporada de caça aos bandidos, não posso predizer o que vai ocorrer, mas o mais provável é que cause mais homicídios e mais confusão. O PCC é muitas coisas ao mesmo tempo: [e continuará] se expandindo e mudando ao longo do tempo, e de um lugar para outro.”

Sei que você ficará ao meu lado.

Não caia no discurso fácil de Benjamin “que sorri e pisca maliciosamente; pois sabemos que ele está com más intenções”. Não deixe que ele lhe convença que o uso da força não é o melhor caminho para vencer as facções criminosas.

Há duzentos anos nossos governantes apostam no aprisionamento em massa e na repressão, sem conseguirem vencer o crime organizado, sempre com o meu e o seu apoio, mas devemos manter a perseverança.

Tenho certeza que você não vai parar de insistir nesse caminho e não dará ouvido aà Benjamin e demaisoutros que apontam em outrao direçãocaminho, pois seitenho certeza que você sabe que a melhor solução para a segurança pública é a prisão ou a morte dos criminosos.

Eu, por via das dúvidas acho que prefiro me abster de dar meu palpite nessa nova rodada.

“Os homens jogam os dados sagrados para tirar a sorte, mas quem resolve mesmo é Deus, o Senhor.”

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Os PMs, o PCC 1533 e o comunismo

A dominação cultural das esquerdas fortalece a criminalidade ao fomentar através dos meios de comunicação idéias como os direitos humanos e a violência policial.

PCC 1533 e PM: jamais mornos

Existe algo em comum entre os integrantes do Primeiro Comando da Capital e da Polícia? Sei que você, assim como eu, sabe a resposta.

Gilberto e Dequex me apresentaram ao Antonio, que me respondeu algo mais ou menos assim:

Odeio os indiferentes. “Viver significa tomar partido”. Indiferença é parasitismo e covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o fosso que circunda a cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas e o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama aqueles que bravamente pretendem lutar.

Odeio os indiferentes também porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Qualquer coisa que aconteça não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim ao sacrifício daqueles que lutam.

Os indiferentes os são mornos: nem quentes e nem frios.

Os indiferentes são aqueles que ficam à janela a olhar enquanto um pequeno grupo de guerreiros imola-se no sacrifício. Os indiferentes pretendem usufruir dos benefícios conquistados pelos intrépidos, mas, se estes falharem, os condenarão.

Parte significante da classe política, da intelectualidade, dos cléricos católicos e da mídia são assim: mornos. Quem dera fossem frios ou quentes, como são os homens da Polícia Militar, a exemplo dos oficiais Gilberto e Dequex, ou dos PCCs.

Onde cito neste site a Polícia Militar → ۞

A teoria Gramsciana e a fragilização do Estado

Os especialistas em Segurança Pública, o major Dequex Araújo Silva Júnior e o Tenente-Coronel Gilberto Protásio dos Reis, honram a farda que vestem – são frios como devem ser os homens da polícia militar e não temeram escrever o que pensam.

Não sendo mornos, disseram sem meias palavras que “parte de significativa parcela da intelectualidade nacional [aderiu] ao sistema de ideais” que impede a justa aplicação da lei e da ordem por parte dos agentes do Estado.

“… os programas políticos para a redução da insegurança pública, […] (originárias dos ditos ‘especialistas’ em segurança pública, quase todos oriundos das ciências sociais), e o que é reproduzido pelos diversos meios de comunicação, não são eficazes, […] desinformam mais do que informam.”

“… as leis criadas pelo legislativo favorecem àqueles que cometem crimes, penalizam os cidadãos que se defendem de um atentado criminoso e ainda tolhem cada vez mais as ações das polícias no combate à criminalidade.”

Esses oficiais da Polícia Militar afirmam, assim como Ricardo Garcia no podcast “Dissecando a Hidra Vermelha: Antonio Gramsci”, que a cartilha Gramsciana está sendo usada pelos comunistas para dominar o Estado por meio da cultura de massa.

  • Se você for frio: concordará plenamente com eles;
  • se você for quente: afirmará que, ao substituir os nomes e os grupos à esquerda citados por eles por outros à direita, ficará claro que a busca da conquista e da manutenção do poder por meio do uso da hegemonia cultural se dá também em direção oposta; e
  • se você for morno, como eu, lamento: além de inocente útil da causa comunista, ainda será vomitado por Deus no Apocalipse.

Tão certos estão Ricardo, os frios e os quentes ao defenderem suas posições quanto Dequex e Gilberto ao afirmarem que a criminalidade aumenta junto com a influência dos intelectuais, dos acadêmicos e dos defensores dos Direitos Humanos.

Onde cito neste site Direitos Humanos → ۞

Marxistas e capitalistas: os dois lados do espelho

Do início ao fim do podcast é possível inverter papéis, bastando substituir os referenciais “marxistas” por “capitalistas” – o discurso serve tanto para aqueles que gostam do frio para quanto aqueles que preferem o calor:

“A tomada do poder pela dominação cultural se dá através da hegemonia nos meios formadores de opinião. Tendo formado uma opinião pública favorável a ideologia, o domínio do Estado se dá pelo caminho das eleições.”

Estaria Ricardo Garcia se referindo à extrema direita contemporânea que chega ao poder após conseguir a hegemonia das mídias sociais ou da esquerda após os avanços sobre os meios de comunicação de massa, escolas e centros acadêmicos?

Policiais e facciosos do PCC 1533, assim como todos os frios e os quentes,não teriam dúvidas: que o trecho se refere à dominação da extrema direita (afirmarão os primeiros), e que o trecho se refere a dominação comunista (afirmarão os outros).

Ao contrário de Ricardo Garcia, Dequex e Gilberto fazem uma detalhada análise histórica do Marxismo e do Gramscismo, descrevendo como essas ideologias estão sendo implantadas no Brasil sob a influência da igreja Católica e dos intelectuais no artigo:

“A ‘Crise Orgânica’ estimulada na Segurança Pública Brasileira”, publicado pela Revista do Instituto Brasileiro de Segurança Pública (RIBSP).

Não deixando margem para dúvidas.

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A intelectualidade preparando a tomada do poder

Segundo esses oficiais da Polícia Militar, as organizações criminosas e de Segurança Pública seriam peças-chaves para a tomada do poder pelos comunistas no Brasil – daí a importância do fortalecimento do PCC e do enfraquecimento da Polícia Militar.

“[…] os falsos filósofos, os pseudoespecialistas em segurança pública de viés marxista transformam as consequências em causas, insistindo na infundada concepção de que a causa da violência e da criminalidade está na exploração do sistema capitalista, na desigualdade social, nas injustiças sociais […].”

Se você é um dos mornos, é possível que esteja trabalhando para a tomada do poder pelos comunistas, seja a soldo, seja por militância ou até mesmo sem saber (inocente útil) – dentro da a estratégia marxista gramsciana de tomada do poder:

“É uma questão de tempo para a gente (PT) tomar o poder”, afirmou José Dirceu.

Dequex e Gilberto explicam que os pilares que mantêm em pé e em ordem todo o modo ocidental de viver são: o patriotismo, a moralidade e a espiritualidade. E os comunistas focam seu ataque nessas bases, levantando dúvidas e relativizando o bem e o mau:

“O certo pelo certo, e o errado será cobrado” – essa frase faz parte do código de ética dos militares ou dos criminosos? Plantada a dúvida?

Chegam induzir o cidadão que não há uma diferença entre o modo de pensar e agir de policiais e dos facciosos do PCC: “[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas …”

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Religiosos católicos preparando a tomada do poder

Além dos intelectuais, os religiosos católicos também fazem parte desse movimento. Segundo os oficiais da Polícia Militar Dequex e Gilberto, dois papas, um arcebispo e vários bispos, que teriam instrumentalizado da Igreja Católica para ser ferramenta comunista:

“[…] a inédita aproximação com a cúpula comunista por parte de dois sucessivos Papas e a implantação pelo segundo, de um rito que coincide com os objetivos de agentes infiltrados na mesma organização vários anos antes, destinado a modificar silenciosamente a própria religiosidade dos sacerdotes e dos fiéis […]”

“[Dom Paulo Evaristo Arns], quando promovido a Cardeal em 1973, […] deu impulso logístico às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), […] que na prática foram um ambiente propício à propagação da Teologia da Libertação (de linhagem assumidamente gramsciana).

“Em 1968, a KGB conseguiu manobrar um grupo de bispos esquerdistas latino-americanos, fazendo-os sediar uma conferência em Medellín, na Colômbia apedido da KGB […]”

Além da ação direta da igreja e de seus pastores, a própria estrutura criada após o Concílio Vaticano II dificulta o controle social tradicionalmente exercido pela Igreja Católica no Brasil, valorizando o indivíduo ao contrário da comunidade, da pátria e de Deus:

“Na ‘Missa Nova’ de Paulo VI, […] o jeito de fazer orações mudou e com ele as crenças a ele associadas. Pode parecer desprezível a sutileza, mas a troca da posição do sacerdote, antes de frente, perante o Altar, e de costas em relação ao povo, significa ênfase teocêntrica, enquanto a posição predominante do sacerdote, de costas para o Altar e de frente para o povo, indica uma ênfase antropocêntrica.”

“A Teologia da Libertação tem sido, nesse contexto, o meio de promover o diálogo à moda hegeliana, benéfico aos objetivos comunistas, e de garantir o ataque ao patriotismo, à moralidade e à espiritualidade. Tendo sido idealizada pela agência de inteligência russa, no governo de Nikita Krushchev…”

“[…] da rigorosa cultura que obrigava a todos a ficar atentos aos pecados mais banais e mantinha na rotina religiosa do crente a sensação de dever comparecer espontaneamente […] a um ouvinte sacerdote, [onde] muitas ideias que tendiam a pavimentar carreiras criminosas puderam encontrar alertas de advertência para serem voluntariamente conduzidas a um silencioso fim.”

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Os comunistas e a Segurança Pública

Os oficiais da Polícia Militar afirmam sem meias palavras, com coragem típica daqueles que não são mornos, que a Segurança Pública deve ser deixada nas mãos fortes dos agentes públicos responsáveis, e não se deve dar ouvido à aventureiros com interesses escusos.

Não adianta a polícia agir nas comunidades e nos morros na caça aos traficantes enquanto as universidades, a igreja Católica e os meios de comunicação fortalecem a crise orgânica da Segurança Pública no asfalto, minando as ações dos policiais militares.

Além desses agentes externos à Segurança Pública (quase todos oriundos das ciências sociais) não compartilharem informações corretamente, ainda desinformam, ao mostrar a violência policial, ao vitimizar o criminoso, ao demonstrar a ineficácia do Sistema Penal e das condições carcerárias.

São essas forças que levam a classe política a criarem leis cada vez mais perniciosas, engessando os braços daqueles que estão na linha de frente do combate à criminalidade, favorecendo o criminosos, ignorando que “bandido bom é bandido morto”.

Segundo os oficiais da Polícia Militar Gilberto e Dequex, o caminho da paz social só será alcançada quando esses grupos formadores de opinião, responsáveis por essa nefasta “revolução cultural”, passarem a ser monitorados preventivamente pelas forças policiais.

Onde cito neste site a violência policial → ۞

Militares fortaleceram o comunismo e o crime organizado

Os estudiosos militares, Gilberto e Dequex, apontam que as organizações criminosas:

“[…] aprenderam muitas técnicas de guerrilha (luta armada), aprenderam também a ideologia da esquerda revolucionária marxista […] Os presos políticos que doutrinaram os presos comuns da Ilha Grande (mas não só lá, pois o Carandiru também passou pelo mesmo processo no mesmo período) e que alguns estão hoje em cargos políticos.”

O que os militares não disseram foi que a ideia de colocar presos políticos junto aos presos comuns de alta periculosidade foi ideia dos militares. Na época os intelectuais e os clérigos, inclusive Dom Paulo Evaristo Arns, foram contra essa medida.

Enquanto os policiais militares pensavam que estavam punindo os políticos, na verdade, estavam criando as bases para a chegada dos marxistas ao poder e colocando para cozinhar em fogo brando aquela que viria a ser a maior organização criminosa da América-Latina.

Acalentaram, assim, o medo e a situação que agora afirmam saber como resolver, e, assim como Pilatos, lavam as mãos como se não tivessem sido eles os causadores do problema.

Para os nossos: proteção contra os criminosos

“O direito da força supera a força do direito”; e, “os interesses particulares predominam sobre os gerais, a vontade popular é anulada e subordina-se à da krateria [poder]”.

Quem está no poder dita quando a lei deve ser aplicada ou não, nos lembra os oficiais. Creio que eles estão se referindo ao caso da suástica riscada na barriga de uma garota:

“A imagem de uma mulher com um desenho riscado em sua pele foi compartilhada à exaustão em grupos de WhatsApp, no Facebook e no Twitter nesta quarta-feira. Trata-se de uma moradora de Porto Alegre que disse ter sido abordada e agredida por três homens por causa de uma camiseta com a frase “Ele não” que ela usava – a referência é ao movimento de mulheres contra o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL).”

Quem está no poder pode decidir se a lei deve ou não ser aplicada, de acordo com sua convicção política ou a de seus mestres, como fez o delegado Paulo César Jardim ao ironizar o sofrimento da vítima para seu prazer sexual:

“Eu fui olhar o desenho que fizeram na barriga dela. É um símbolo budista, de harmonia, de amor, de paz e de fraternidade. Se tu fores pesquisar no Google, tu vai ver que existe um símbolo budista ali. Essa é a informação”

A sociedade brasileira não adotou as medidas para controlar a intelectualidade, os clérigos e as mídias sociais, conforme a proposta apresentada pelos oficiais da Polícia Militar Gilberto e Dequex…

… por isso, o delegado responsável pelo caso, que já havia arquivado o processo, foi substituído após enfrentar a ira dos ativistas dos Direitos Humanos, dos acadêmicos e dos clérigos que o acusaram de estar atuando em nome de seu mentor político.

Se existe algo em comum entre os integrantes do Primeiro Comando da Capital e da Polícia? Sei que você, assim como eu, sabe a resposta: a busca da justiça – apesar de ambos terem um entendimento totalmente distinto sobre o sentido dessa palavra.

  • Se você for frio: acreditará que a busca pela justiça é monopólio da “lei e da ordem”, assim como o delegado Paulo César Jardim ou os oficiais da PM Gilberto e Dequex;
  • se você for quente: acreditará que a busca pela justiça é “correr pelo certo e cobrar o errado”, como fazem os PCCs, os acadêmicos, os clérigos e os ativistas nas mídias sociais; e
  • se você for morno, como eu, lamento: além de inocente útil da causa comunista, ainda será vomitado por Deus no Apocalipse.

Será extremamente difícil nossa sociedade sair —a construção de um círculo policial-midiático-criminoso, um pelourinho midiático ao qual expõe e criminaliza as comunidades periféricas para o deleite de uma população que se sente superior.

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O PCC, Marighella e a Teoria da Dependência

O Minimalismo Penal afirma que poderia ter sido evitada a criação do Primeiro Comando da Capital, afinal a organização criminosa é apenas um fruto da luta de classes.



O Primeiro Comando da Capital e Carlos Marighella

Eu gostaria de fazer uma dupla dedicatória:

Primeiro: em memória dos heróicos combatentes e guerrilheiros urbanos que caíram nas mãos dos assassinos da polícia militar, instrumentos odiados do repressor sistema de injustiça que existe em nosso país.

Temos que permanecer unidos e organizados para evitarmos que ocorra novamente um massacre, semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção em 2 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre este que jamais será apagado dos nossos corações e da consciência da sociedade brasileira.

Segundo: aos bravos homens e mulheres aprisionados em calabouços medievais do governo brasileiro e sujeitos a torturas que se igualam ou superam os horrendos crimes cometidos pelos nazistas.

A cada camarada que se oponha a esse sistema criminal e que deseje resistir fazendo alguma coisa, mesmo que seja uma pequena tarefa, eu desejo que seja firme em sua decisão. Não podemos permanecer inativos; sigam as instruções e juntem-se à luta agora.

A obrigação de todo revolucionário é fazer a revolução.

É importante não somente ler o Estatuto do Primeiro Comando da Capital, o Dicionário e a Cartilha, mas difundir seu conteúdo. Todos aqueles que concordam com esses ideais copiem à mão, mimeografem, tirem xerox e divulguem pelas mídias sociais.

Vamos maciçamente nos expressar à sociedade, mostrar esse lado esquecido, em um cenário de tanta injustiça e violência e, se for preciso, em último caso, a própria luta armada será necessária.

A Teoria da Dependência: “A Vida é um Desafio”

Claudia Wasserman do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS foi quem amarrou para mim o artigo Crime Organizado no Brasil”, de Amanda Regina Dantas dos Santos e seus colegas, à Teoria da Ondas, de Alvin Tofler .

Até entendo que não tem cabimento utilizar os conceitos macroeconômicos como metáfora para analisar o comportamento de um grupo social, mas será mesmo que não posso fazê-lo? O que Alvin ou os Racionais MC’s diriam sobre isso?

“Desde cedo a mãe da gente fala assim:

‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.’

Aí passado alguns anos eu pensei:

Como fazer duas vezes melhor se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão e pela história? Duas vezes melhor como?

Quem inventou isso aí?

Quem foi o pilantra que inventou isso aí?”

Minha avó materna, que Deus a tenha, dizia que “nós somos pobres, mas honestos”. Racionais MC’s, Carlos Mariguella, e os garotos do PCC discordariam desse conformismo, assim como André e alguns outros defensores da Teoria da Dependência.

A professora da Federal Claudia me conta que existiu duas vertentes desse pensamento econômico:

  • Fernando Henrique Cardoso (FHC) e os catedráticos da USP, que apostavam que no final todos seríamos felizes para sempre, até mesmo “os pobres, mas honestos” – assim como pensamos eu, você, minha avó e a maioria das pessoas; e
  • André Gunder Frank e os catedráticos da Escola de Brasília, que apostavam que no final nós não seremos felizes por estarmos “pelo menos cem vezes atrasados pela escravidão e pela história” – assim como pensam os Racionais MC’s, Marighella e os garotos do PCC.

A catedrática da UFRGS já me adiantou que você, assim como eu e minha avó, iria apoiar o lado de FHC, por ser essa “uma tese extremamente palatável, extremamente otimista, com base em estudos e demonstrações científicas e sociológicas”.

Da luta de classes ao PHD do crime

Existem os ricos, os pobres e também os remediados, que se autodenominam de “classe média”, você bem sabe disso, mas ao contrário do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley todos querem conquistar melhores condições ou ascender de classe.

FHC explica que isso acontecerá naturalmente: os ricos continuarão a se desenvolver, mas os remediados e os pobres progredirão paralelamente pelo efeito demonstração, galgando lentamente novas conquistas e posições, até o momento que ascenderão à classe seguinte.

André explica que não. O sistema vende esse sonho e apenas ocasionalmente alguns ascendem de classe – alimentando a ilusão de milhões –, e mesmos esses só ascenderão para ocupar as vagas que as classes superiores já não querem mais para si.

Esse é “o desenvolvimento do subdesenvolvimento, e não propriamente o desenvolvimento em si”, e esse é o resultado esperado pelo sistema dessa relação de dependência que as classes inferiores mantêm em torno das classes superiores.

As melhorias conquistadas pelas classes inferiores, tanto dos pobres quanto dos remediados, não as aproximaram das classes mais ricas, pois ”o desenvolvimento se dá de modo igual e combinado”.

Racionais MC’s, Carlos Marighella e os garotos do PCC cansaram de jogar dentro dessas regras impostas nessa relação de dependência, em que geração após geração de “pobres, mas honestos” aguardam anos para dar mais um passo – quando dão.

Eles foram à luta, cometendo pequenos delitos pelos quais foram presos e enviados ao cárcere onde muito aprenderam. Racionais MC’s, Carlos Marighella e os garotos do PCC acabaram sendo forjados no fogo do inferno, e deu no que deu, e chegaram aonde chegaram.

E aonde eu e você, pobres remediados, chegamos? O que deixamos registrado na história?

O combate às injustiças do sistema prisional

Comecei esse texto transcrevendo com algumas alterações e enxertos a introdução do “Manual do Guerrilheiro Urbano” de Carlos Marighella, o “Inimigo Número Um” – que objetivava preparar fisicamente e psicologicamente aqueles que iriam combater o governo.

Confesso que nunca havia sequer ouvido falar dessa obra até cruzar com o artigo “O Crime Organizado no Brasil” dos acadêmicos da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR, publicada na Revista Liberdades da IBCCRIM.

Foram Amanda Regina Dantas dos Santos, Ítalo José Marinho de Oliveira, Pâmela Nunes Sanchez, Priscila Farias de Carvalho e Thais Ferreira de Souza que, além de me apresentarem a obra, contaram-me sobre a teoria do Minimalismo Penal.

Ao contemporizar o “Manual do Guerrilheiro Urbano” e miscigena-lo ao Estatuto do Primeiro Comando da Capital, evidenciei o ponto de vista desses acadêmicos: as injustiças do cárcere são as ferramenta que viabilizam a militarização dos conflitos sociais.

O PCC 1533 é formado por pessoas que sabem que não vão conseguir ascender de classe por meio do mercado de trabalho e abandonaram a crença que “sendo pobre, mas honesto” conquistarão seu lugar ao sol – a princípio um simples problema de luta de classes.

Contudo esse grupo de marginalizados, ao verem frustradas suas reivindicações pelos caminhos democráticos, optaram por usar a força com o objetivo de manter sua própria subsistência e evoluir socialmente, aproveitando-se dos conhecimentos obtidos nos pátios dos presídios.

Cada um deles, do preso mais desconhecido ao Marcola, dos Racionais MC’s ao capitão Carlos Marighella, começou timidamente, e se eles não tivessem sido jogados nas masmorras, não teriam feito o que fizeram – o sistema acaba por fortalecer suas vítimas, e basicamente é isso que prega o Minimalismo Penal. 

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David



Seriam os facciosos idealistas? – perguntaria von Däniken

Quando comecei a ler “A Terceira Onda”, e isso já faz algumas décadas, achei que Alvin Toffler era uma espécie de Erich von Däniken: alguém que produz uma obra crível e ao mesmo tempo absurda, mesmo baseando-a em fatos supostamente reais.

Ledo engano meu. Ao terminar a leitura da “A Terceira Onda”, tornei-me um adepto de sua teoria, pelo menos por alguns anos. Não adianta chorar: nós nascemos, vivemos e morremos em função do momento econômico.

Você já se questionou sobre se Deus existe ou não e chegou a uma conclusão, mas, ao contrário do que pensa, não foi uma conclusão sua: você apenas seguiu a determinação de uma necessidade econômica da sociedade – pelo menos é o que me afirmou Alvin.

Da mesma forma, os Racionais MC’s e a facção paulista PCC são frutos das necessidades de um ambiente econômico – Alvin e Adam Smith veriam aí a Mão Invisível em ação: esses grupos estariam tão somente atendendo a uma demanda do mercado.

É infrutífero buscar remédios para os sintomas sem conhecer a causa da patologia, assim como é inútil vitimizar ou idealizar esses grupos criminosos, ou combater seus adeptos nas ruas e nos presídios sem atuar na causa do problema – mas qual seria esse problema?

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Hanfeizi combatendo o PCC no reino de Qin

O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) passa pela destruição de uma cultura depravada construída por acadêmicos, jornalistas e artistas.


As polícias devem declarar uma guerra sem quartel contra o crime organizado?


O combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) passa pela destruição de uma cultura depravada construída por acadêmicos, jornalistas e artistas.

A sabedoria chinesa e o combate ao PCC 1533

Há dois mil anos, na China, havia um estudioso chamado Hanfeizi, que devotou sua vida pelo estabelecimento de um Estado forte que pudesse garantir a paz e a segurança.

Hanfeizi ofereceu seus serviços ao imperador Zheng do reino de Qin por acreditar, assim como eu e você, que o legalismo é fundamental para a construção de uma nação segura e um Estado consolidado.

O pensador viveu na China no final da Dinastia Zhou, em um “Estado nacional” enfraquecido e diversos reinos autônomos fortes, cada qual cuidando de sua segurança enquanto sofriam ataques de bárbaros e saqueadores.

Eu e você vivemos no Brasil recentemente democratizado com um Estado nacional enfraquecido e diversos estados autônomos fortes, cada um cuidando da segurança enquanto sofrem ataques de facções criminosas.

Quem me guiou por essa trilha pela qual levo você agora foi André Bueno, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em seu artigo “Abolir o passado, reinventar a história: a escrita histórica de Hanfeizi na China do século III a.C.”.

Controlar a liberdade de opinião para vencer o PCC

A imprensa e os intelectuais vitimizam criminosos sob uma leniente política de Direitos Humanos enquanto demonizam as forças policiais e os cidadãos de bem que defendem as normas jurídicas do Estado de Direito.

Políticos, imprensa e artistas falam abertamente sobre as vantagens da implantação de sistemas tolerantes de convivência com o crime organizado, pregando uma “repressão condicional”.

É o caso do artigo “Can Governments Deter Violence Committed by Crime Groups?”, do jornalista Mike LaSusa, que compara sob um tênue manto de imparcialidade três políticas de combate ao crime organizado: a “repressão condicional” no Rio de Janeiro, a “condicionalidade atrelada à submissão” na Colômbia e a “militarização” no México.

Hanfeizi teria aconselhado o imperador Zheng de Qin a deletar essa postagem e a enterrar seu autor como forma de abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

Guerra sem quartel ao PCC 1533

Mike, assim como quase todos aqueles que estudam a facção Primeiro Comando da Capital e boa parte dos analistas em Segurança Pública dos grandes meios de comunicação, aponta as vantagens do sistema de pacificação condicionada.

O jornalista do site InSight Crime explica que o México, desta forma, manteve sob controle as taxas de homicídio por quase um século graças a acordos informais e pontuais entre políticos, policiais, militares, agentes públicos e traficantes de drogas.

A paz foi mantida até o dia em que o presidente Felipe Calderón colocou a ”Rota na Rua” ao decretar a “guerra sem quartel” aos grupos criminosos.

Desde então, a taxa de homicídios não parou mais de subir, e hoje chega a 21,3 mortos ao ano para cada 100 mil habitantes – só para comparar, em São Paulo, que mantém a pacificação condicionada, o índice está em 7,8.

As autoridades mexicanas estimam que 40 por cento do país está sujeito à insegurança crônica e alguns estados estão paralisados ​​devido extrema violência organizada – já são mais de 200 mil mortos, muitos dos quais enterrados em valas comuns.

Controlar a criação artística para vencer o PCC

Hanfeizi ofereceu seus serviços ao imperador Zheng de Qin por acreditar, assim como eu e você, que o legalismo é fundamental para a construção de uma nação segura e um Estado consolidado.

Dessa forma, as polícias devem decretar uma “guerra sem quartel” às facções criminosas, como o México fez. Quem sabe por aqui, agindo da mesma forma que os mexicanos agiram por lá, não cheguemos a resultados diferentes, menos desastrosos?

Hanfeizi teria apontado o erro de Calderón: ele não atacou o âmago do problema – acadêmicos, jornalistas e artistas que incentivam uma cultura depravada e que se opõe ao estabelecimento de um Estado Forte, incentivando a rebeldia popular.

É o caso da música Racistas Otários, do grupo Racionais MC’s, que faz uma crítica social sob um tênue manto de imparcialidade, mas, de fato, insufla a revolta contra a opressão exercida pelo Estado Constitucional, como querem os cidadãos de bem:

“A lei que é implacável com os oprimidos

Tornam bandidos os que eram pessoas de bem.

Eles são os certos e o culpado é você

Se existe ou não a culpa

Ninguém se preocupa

Pois em todo caso haverá sempre uma desculpa”

Hanfeizi teria aconselhado o imperador Zheng de Qin a proibir essa música e a enterrar seus autores como forma de abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

Controlar as lideranças políticas para vencer o PCC

Políticos adotam hoje abertamente a defesa de ideologias que francamente colocam em dúvida a efetividade das ações de governo, suas forças policiais e os cidadãos de bem que defendem as normas jurídicas do Estado de Direito.

É o caso de Guilherme Boulos, do PSOL, que afirma publicamente:

“Existe uma lógica que foi vendida para parte de que botar mais gente na cadeia ou nas prisões resolve os problemas.

Quem pensa com essa lógica precisa nos explicar por que nos últimos 10 anos a população carcerária do Brasil dobrou, se tornando o terceiro país em população carcerária do mundo, e a sociedade não está mais segura por isso.

Opa! Vamos parar para pensar, pois esse pode não ser o caminho. Entulhar gente em masmorras que se dizem de recuperação. Recuperação coisa nenhuma, às vezes a pessoa entrou lá por um crime leve e saí de lá PHD no crime.

Isso não quer dizer defender a impunidade, não! Se alguém mata, rouba ou estupra, tem que ser punido! O que não pode é achar que vai entulhar as cadeias, fazer cadeias em todos os cantos e a sociedade vai ficar mais segura.

Desculpe, não está ficando mais segura. Estão fazendo isso há um tempão, e não está ficando mais segura.

Nos últimos 30 anos nós estamos fazendo a política de segurança baseada na chamada Guerra às Drogas exportada pelos Estados Unidos, onde você pega forças militares do Estado e faz o suposto ‘combate ao narcotráfico’.

Essa Guerra às Drogas, isso virou uma maneira de militarizar as favelas, as periferias, os morros e de matar a juventude pobre e negra!

A atual política de combate às drogas que nós temos não só é ineficiente como amplia essa situação que estamos vivendo. Quando se pega um moleque com uma trouxa de maconha, uma pedra de crack, sem armas, sem ter cometido crimes violentos, que não é reincidente, e o joga dentro de unidade prisional controlada pelo PCC, Comando Vermelho, simplesmente se cancelando a possibilidade de se resgatar esses jovens. Ao mesmo tempo, dentro do sistema prisional, cerca de 80% não tem atividades educacionais ou laborais. Então não se prepara esse jovem para a ressocialização, para que ele volte à vida social e para o mercado. Essa é uma política que não resolve.

Raul Jungmann em entrevista para o ConJur

Vamos pensar duas coisas:

  • primeiro – vocês acham mesmo que combater o narcotráfico é pegar o cara que está na laje da favela, que a cabeça do narcotráfico está no barraco de uma favela? A cabeça do narcotráfico está ligada ao poder, aliás, em helicóptero cheio de cocaína de senador da República que está livre leve e solto até hoje, não é? É aí que está e ninguém mexe; e
  • segundo – o fato de ser proibido faz com que alguém não use drogas? Quem quer usar sabe onde comprar, vai lá, compra e usa, e o narcotráfico não diminuiu em nada nos últimos 30 anos, ao contrário, as facções só cresceram. Essa política está errada, totalmente errada”

Para manter o Estado de Direito e atendendo aos anseios dos cidadãos de bem, mais uma vez, um conselheiro devoto como Hanfeizi não teria hesitado em orientar o imperador a proibir a divulgação de ideias como essa:

“Aqueles que querem vencer terão antes que queimar os livros e enterrar vivos 400 eruditos.”

A pacificação através da leniência

Eu e você sabemos que Hanfeizi tinha inteira razão, que não basta a Rota na Rua para vencer o inimigo quando ele está enfronhado no nosso emaranhado cultural.

Assim, sabemos que teríamos que abolir o passado, reinventar a História e criar um ambiente propício para o restabelecimento de um Estado de Direito forte e seguro colocando sob controle a informação e, se for preciso, sacrificando acadêmicos, jornalistas e artistas que incentivem uma cultura depravada, afinal, quem defende bandido é bandido também, e bandido bom é bandido morto.

Quando alguém como Mike demonstra o insucesso das operações militares no Rio de Janeiro por sua inexequibilidade em grandes extensões, ele está acusando o Estado e as forças policiais de incompetência e hipocrisia.

Mike demonstra em sua reportagem que o melhor resultado a longo prazo é o governo deixar claro os limites em que vai atuar, dando oportunidade para a marginalidade sair da comunidade ou mudar de vida e, só depois disso, agir, tomando o perímetro.

Não adianta Mike provar que os números demonstraram o sucesso da pacificação condicionada no conturbado Rio de Janeiro, na Colômbia ou em São Paulo – são apenas números, e eu e você sabemos que o que funciona é a Rota na Rua.

Eu e você e o destino de Hanfeizi no reino de Qin

O imperador Zheng do reino de Qin venceu as hordas bárbaras e os governos provinciais fortes e pôde nos mostrar o caminho para derrotar o Primeiro Comando da Capital e as outras organizações criminosas.

Eu e você podemos lutar para emplacar um governo forte, que combata a pacificação condicionada, os acadêmicos, os jornalistas, os artistas e os influenciadores que incentivam uma cultura depravada e a rebeldia popular Só que – sempre tem o “só que…”

Alguém duvida que essa onda de ódio que estaremos alimentando não vai novamente acabar bem?

O pesquisador André da Silva Bueno que me perdoe pelo spoiler, mas como o fim dessa história já é conhecida há dois mil anos, todo mundo já sabe:

A Dinastia Qin do imperador Zheng foi um fracasso, durou míseros 15 anos, queimou milhares de escritos antigos e matou milhares de pensadores – só para comparar, a Dinastia Zhou que a antecedeu durou 790 anos e a Dinastia Han que a sucedeu durou 426 anos.

Hanfeizi cobrou de seu rei tratamento cruel contra aqueles que se opunham a implantação da nova ideologia e acabou sendo condenado à morte pelo próprio imperador Zheng, sem conseguir ver o reino de Qin vencer seus inimigos.

Um dos 400 eruditos mortos tinha em um dos livros que foi queimado um ensinamento de Confúcio que era mais ou menos assim:

“Quando alguém atacar alguém por sua ideologia, prepare duas covas”.

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

PCC um filho indesejado da PM-SP

Os policiais militares negam a paternidade do Primeiro Comando da Capital, mas três acadêmicos afirmam que eles são os pais da criança.

O PCC como fruto de uma intensa emoção

O Primeiro Comando da Capital é um filho nascido de um estupro coletivo praticado por policiais militares do estado de São Paulo.

Podia ver nos olhos daqueles policiais que estavam prestes a entrar no Carandiru as pupilas dilatadas por uma mistura de medo, excitação e ódio.

Podia sentir naqueles militares os tonéis de adrenalina sendo derramados no sangue que jorrava como cascata pelas veias – um prazer quase sexual:

Foi algo tão forte e tão excitante que por alguns segundos dessa forte emoção aqueles homens trocaram suas carreiras, a vida de 111 homens e a segurança de toda uma sociedade.

Onde citei neste site Polícia Militar → ۞

Penetrando com violência – um estupro coletivo

Aqueles policiais agiram como quaisquer outros homens teriam agido na mesma situação – todos participaram, e nunca saberemos com certeza quem é o pai da criança:

“[…] o diretor tentou convencer a Polícia Militar para que ele pudesse tentar negociar com os rebelados e chegou até a porta que dava acesso ao pátio externo setor nove, mas, a polícia utilizou do momento para disparar portão adentro […]”

O nascimento do PCC seria evitável até o momento no qual o diretor do presídio foi empurrado para o lado e os homens se enfiaram com violência para dentro da instituição.

A Casa de Custódia do Carandiru estava sendo invadida sob os olhares sedentos de prazer dos telespectadores que, de suas poltronas, acompanhavam o evento e repetiam com o Datena: “bandido bom é bandido morto”:

“Estupraram?? Sequestraram?? Assaltaram?? E daí? Essa polícia é mesmo danada! Prendam a Polícia!!! Soltem os santinhos!!!”, bradavam muitos, entre eles: eu, você e Marcia Guimarães de Almeida, de Franca (São Paulo).

Onde citei neste site o Massacre do Carandiru → ۞

Pesquisando o momento da concepção do PCC

A ereção e as emoções sentidas por aqueles homens que se enfiaram naquele emaranhado de corredores escuros e sujos baixou após algumas horas.

No entanto, os policiais, sem se darem conta, plantaram a semente do mal e regaram-na com o sangue de centenas de detentos e as lágrimas de milhares de seus amigos, mulheres e familiares.

Dez meses depois, há 134 km dali, na Casa de Custódia do Taubaté, o fruto daquele sêmen introduzido gerou o Primeiro Comando da Capital.

Os policiais militares negam que um deles seja o pai da criança, mas os pesquisadores de Ciências Sociais e Direitos Humanos Cezar Bueno de Lima, Danilo Augusto Gonçalves Carneiro e Deiler Raphael Souza de Lima afirmam que podem comprovar a paternidade.

Esse é o foco do artigo “O mundo é diferente da ponte para cá: uma análise da violação dos Direitos Humanos” publicado nos anais do II Simpósio Internacional Interdisciplinar em Ciências Sociais Aplicadas pelos pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Onde citei neste site sociólogos e trabalhos de Ciências Sociais → ۞

União em torno da ética do crime

Os pesquisadores lembram que na certidão de nascimento do PCC, registrada em 1997 no Diário Oficial do Estado de São Paulo, consta:

“13. [] em 02 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre que jamais será esquecido [] por que nós do Comando vamos sacudir o Sistema e fazer essas autoridades mudar a prática carcerária, desumana, cheia de injustiça, opressão, torturas, massacres nas prisões.

Até então existiam milhares de grupos de detentos agindo isoladamente em presídios, cadeias, abrigo de menores e clínicas de internação por todo o país, mas o Massacre do Carandiru teve o poder de integrar as diversas gangues.

Foi possível, então, implantar uma ética do crime dentro do sistema carcerário, algo que freasse os abusos sexuais, a violência física e a extorsão sofrida por outros encarcerados e por agentes públicos.

“[…] assim como a necessidade de união e solidariedade entre a população carcerária para enfrentar esse inimigo comum, representado na figura dos agentes prisionais e, principalmente, da polícia.”

O mundo do crime se auto impunha a obrigação de seguir regras dos Direitos Humanos, reforçando ”o caráter de partido, não no sentido da representação democrática burguesa, mas no sentido da indústria de controle do crime”.

Onde citei neste site o lema “Paz, Justiça e Liberdade” (PJL) → ۞

Nossa desumanidade cria uma nova sociedade

Ao receber a notícia do Massacre do Carandiru:

  • o pensamento de cada um dentro do governo era sobre como capitalizar os votos e diminuir o impacto negativo na imagem;
  • o pensamento de cada um da imprensa era sobre agradar seu público e conseguir mais audiência sem comprometer sua imagem; e
  • o pensamento de cada um das forças policiais que não estiveram presentes no evento, assim como boa parte do público, era de felicidade.

Liev Tolstói, em 1886, descreveu a morte de Ivan Ilitch, mais ou menos assim:

“[…] ao receber a notícia da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos presentes foi para as alterações e promoções que essa morte poderia provocar para eles ou seus conhecidos.”

Um século e meio se passou, e eu e você somos expectadores de um mundo que banaliza a vida e a morte. Somos parte integrante da desumanidade de uma sociedade frívola e cruel, construída por valores insensíveis.

Onde citei neste site a imprensa → ۞

A criança cresce e se torna um mito

O estupro era evitável até o momento em que o diretor foi empurrado para o lado e os corredores escuros eram transformados em rios de sangue.

Nós, eu e você, assistimos ávidos de um prazer quase sexul a morte dos detentos do Carandiru, mas aquele estupro coletivo gerou um filho que agora nos cobra vingança.

Lamento ser eu a vir lhe dizer, mas o garoto não pode ser morto. Ele nasceu de um estupro e foi batizado em um rio de sangue.

O garoto cresceu, tornou-se uma ideia, um mito, e hoje vive na mente e no coração de milhões de brasileiros e de milhares de outros latino-americanos.

Os pais não assumiram a criança quando ela nasceu, e agora não podem controlá-la apesar de, uma vez por ano, desde 2002, alegarem que acabaram com sua cria maldita.

Onde citei neste site o Sistema Carcerário → ۞

A pacificação do PCC em São Paulo

Cenas da pacificação trazida pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) – a realidade brasileira superando a ficção dos americanos da DC Comics.


A facção paulista, o delegado e o investipol

Juro que vi uma discussão entre um delegado de polícia e um investigador:

— Há alguns anos esse estado estava se afundando em homicídios, em 1999 foram quase 19.400 pessoas mortas no estado de São Paulo, em 2017 esse número baixou para 4.300. Deixaram de morrer 15.100 pessoas só no ano passado! E isso aconteceu porque o PCC assumiu o controle do crime no estado! – afirma, irritado, o delegado.

— Eu não vou entregar a cidade para o crime organizado, não importa o que os números digam! – retruca o investipol.

— E seus colegas? Quantos deles foram alvejados no ano passado? Nos ataques de 2005 o PCC matou 45 policiais em apenas alguns dias Em 1999, só em serviço foram 44 policiais mortos. No ano passado, já com a pacificação, apenas 11 colegas foram mortos. Em um único ano foram 33 policiais que deixaram de morrer nas mãos dos criminosos, voltaram para casa e continuaram com suas vidas e com suas famílias!

— Eu sei das estatísticas.

— Um dia eu prometo que nós vamos acabar com o Primeiro Comando da Capital. Esse país tem que ficar em pé outra vez, mas por enquanto vai devagar, por favor. – pede, em tom conciliador, o delegado.

— Mas a cada dia em que os cidadãos vão até um traficante, para pedir proteção ou justiça, mais difícil será para reconquistá-los. – insiste, inconformado e com a cabeça baixa, o investigador.

— Quer que as pessoas respeitem mais os policiais? Tem maneiras mais inteligentes que cuspir na cara do PCC: basta seguir as normas e os regulamentos. Se o cidadão estiver errado, prenda; se não tiver provas, não forje um flagrante ou abuse da força para conseguir informações. – finaliza o delegado.

Reporter americano e o líder da facção pcc 1533

A pacificação do PCC, o repórter e o faccioso

Juro que vi um repórter entrevistando um líder da facção:

— Há rumores que a facção está controlando as comunidades, criando regulamentos e dizendo aos criminosos quais os crimes que podem ser executados e determinando os locais. Por exemplo, não seria permitido assaltar próximo às biqueiras. Essa informação procede?

— Me diga, Qual é a taxa de homicídios em São Paulo? – questiona o faccioso.

— Estamos em uma queda histórica. – responde de pronto o repórter.

Queda histórica. – começa a responder em tom de ironia o líder criminoso –. Sabe? Augusto Cesar reinou no período de mais longa paz e prosperidade que o mundo já conheceu. Ficou conhecida como a Pax Romana, e talvez um dia a pacificação que temos hoje no estado de São Paulo seja chamada de Pacificação do Primeiro Comando da Capital, quem sabe?

Cidadão questiona líder do PCC sobre a pacificação

A pacificação do PCC, o jovem cidadão e o faccioso

Juro que vi um cidadão questionando um líder da facção sobre a pacificação em São Paulo:

— Eu quero agradecer por tudo que tem feito por essa comunidade. É verdade que o PCC proíbe mortes desnecessárias e controla na periferia o crime? Todo mundo está falando disso, eu só quero saber como funciona. – começa o rapaz.

— Primeiro, uma pergunta: você concordaria com a ideia de que uma organização criminosa impusesse as regras para os demais criminosos? – retruca o líder da facção.

— Se, há três anos, quando meus pais foram mortos, esse controle já existisse, eles talvez ainda estivessem vivos.

— Exatamente, mas a facção não controla diretamente o crime nas ruas, a facção dá as diretrizes e os disciplinas de cada cidade, de cada quebrada, são quem avaliam cada caso e, se acharem que alguém está furando as regras, chamam para o debate, e, se não resolver, manda para o Tribunal do Crime. – conclui o faccioso.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

A arte imita a vida pcc 1533

A pacificação no mundo real e no cinema

Juro que vi esses diálogos no primeiro episódio da quarta temporada da série “Gotam – Pax Pinguina” – com algumas modificações no texto para adequá-lo à nossa realidade:

Acresci os números referentes ao estado de São Paulo, substituí os termos “Pax Pinguina” pelo “Pacificação do Primeiro Comando” e “gangue do Pinguim” por “Primeiro Comando”, e as palavras “comissário” por “delegado”,e “Pinguim”por “um chefe da organização criminosa”.

Encaixou-se em nossa realidade como uma luva.

Os roteiristas de Gotam alegam que a quarta temporada foi baseada no enredo de três antigas revistas da coleção, mas o controle que Pinguim exerce sobre a criminalidade se assemelha à forma de agir do PCC, e não às descritas nas revistas da DC Comics.

O fato de uma produção estrangeira descrever de maneira tão precisa uma realidade nossa me leva a duas conclusões:

  • esse fenômeno não é local e está acontecendo em outras culturas ou
  • os autores se basearam em nossa experiência social.

O mundo real supera a imaginação do cinema

Entre as características quase universais e atemporais do mundo do crime estão as guerras entre grupos rivais (facções) – a hegemonia de organização criminosa com regras escritas e ficha de ingresso de membros é uma raridade tanto na ficção quanto na realidade.

O Primeiro Comando da Capital tem o mais sofisticado sistema burocrático entre todas as organizações criminosas.

Misael Aparecido da Silva foi quem elaborou o Estatuto do Primeiro Comando da Capital conforme as diretrizes traçadas por José Márcio Felício, o Geleião, entre o final de 1993 e 1995. O documento veio a público por meio do deputado estadual Afanásio Jazadji em 20 de Maio de 1997.

No PCC não há punição sem lei anterior que a regulamente:

O Estatuto do PCC foi a base sobre a qual a facção se consolidou. Funciona para a organização criminosa como a Constituição funciona para a legislação de um país.

Quando age em desacordo com a ética do crime:

O Dicionário da Facção é um conjunto de normas que determinam e regulamentam o que é passível de punição e qual a penalidade. O Dicionário regulamenta o Estatuto, assim como o Código Penal e o Código de Processo Penal regulamentam a Constituição.

Para que tenham consciência e apoiem a luta:

Os membros da facção, seus familiares e simpatizantes devem se relacionar com a sociedade segundo as diretrizes da Cartilha do Primeiro Comando da Capital, que detalha a forma como a facção e seu Estatuto devem ser apresentados ao público externo.

Quem somos e em que condições estamos vivendo:

Existe uma Ficha de Cadastro no Sistema para os membros da facção, com detalhamentos que impressionam qualquer departamento de recursos humanos – lembrando que esses dados são coletados, distribuídos e guardados fora do alcance das autoridades.

Batman e Gordon versos SUSP

Vencendo o crime organizado

A realidade superou em muito a ficção criada pelos quadrinistas da DC Comics: enquanto o PCC criou um sistema complexo, o assecla do Pinguim, responsável pelo gerenciamento do RH, possui apenas o registro dos criminosos e os locais onde podem atuar.

Até o momento em que escrevo, eu ainda não assisti a toda a temporada, mas posso adiantar que o pequeno Batman e o Detetive Gordon irão demolir a organização montada pelo Pinguim – dúvida?

No mundo real, os mecanismos de divisão do poder e o Código de Processo Penal são uma máquina de moer carne que sustenta milhares de advogados por todo o país enquanto divide nossa sociedade em castas.

Talvez apareça um Batman e um Gordon ou um salvador da pátria para nos proteger, ou talvez o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) dê mais um passo em seu lento deslocamento em direção ao aperfeiçoamento, ou talvez deixemos como está para ver como é que fica…

Marcola do PCC e o mito de Frankenstein

A elevação de Marcola como figura heroica para determinados grupos sociais é uma criação do Estado e da imprensa, que apenas buscavam os holofotes.

Afinal quem seria o monstro? A criatura ou seu criador?

Em 15 de agosto de 2011, escrevi meu primeiro artigo sobre o Primeiro Comando da Capital, mas só há pouco tempo, em resposta ao uso dos termos “crime organizado” ou “organização criminosa”, pararam de chegar mensagens como esta:

“Presos semialfabetizados montando uma organização criminosa kkk”

Em uma das vezes que fui prestar depoimento na delegacia, até o inquiridor batia na tecla que um grupo de semi-alfabetos era incapaz de gerir uma facção ― então tá! Se eles diziam isso, quem seria eu para contrariar?

Agora que imprensa, delegados, promotores de Justiça e juízes tratam o PCC como crime organizado, creio que me deixarão em paz, parei de receber os “kkks”, então o próximo passo é falar sobre o Mito de Frankenstein.

Na história de Mary Shelley, o doutor Victor Frankenstein coloca-se no lugar de Deus e decide criar um ser, formado essencialmente de partes de cadáveres. O resultado da empreitada é uma criatura de aparência horrível.

Ao deparar-se com sua criação, o doutor a abandona à própria sorte. Rejeitada, a criatura adentra, então, em um curso de caos e destruição. Essa história, que completa duzentos anos este ano.

Na nossa história, o Estado Constituído e a imprensa criaram e mantêm viva a imagem de um demônio folclórico chamado Primeiro Comando da Capital, só que esse ser ganhou vida e seus criadores tem agora que conviver com sua criatura, senão submeter-se a ela.

Onde citei neste site os kkks → ۞

Charles Darwin o pcc e as prisões brasileiras

O darwinismo e a seleção natural das espécies

O sistema carcerário, da maneira como foi montado, possibilita aos presos tempo e ambiente propícios para a seleção natural dos mais fortes ― se você faltou à aula sobre Charles Darwin e Alfred Wallace, não tem problema, deixo aqui o link:

Nietzsche, a Seleção Natural Proposta por Charles Darwin e a Eugenia Antonio Baptista Gonçalves 127

Demorou para que a imprensa mudasse seu discurso, e só o fez após as autoridades mudarem o delas também: inicialmente negavam a existência da facção, depois a reconheciam como um grupo sem importância e hoje a apresentam como uma organização internacional.

A questão puramente semântica, é sobre se o Primeiro Comando da Capital é um grupo formado por bandidos semi-alfabetizados, ou uma facção criminosa, ou uma organização que age dentro e fora dos presídios, ou um cartel internacional, ou nada disso.

O que vale para a imprensa é a venda dos artigos, já para os representantes do Estado é mostrar cabeças rolando na guilhotina ― e se for a cabeça de um rei do tráfico, o sucesso da execução pública será maior que a de um bandido semi-analfabeto.

Onde citei neste site o Sistema Prisional → ۞

pastor Lyman Beecher álcool e drogas

O PCC e pastor Lyman Beecher de Connecticut

Eurico fez um comentário em um artigo deste site no Grupo do Facebook “Discutindo Segurança Pública” que me levou a pesquisar sobre as razões que levaram Lincoln Gakiya e seus colegas do MP-SP entre outras autoridades a demonizar o PCC:

“Conversa do Emê Pê, pura autopropaganda […] querem se mostrar para o próximo governo, para permanecer na elite dos poderes. Muito fácil, requisitar, por as mãos na massa, somente diante dos holofotes. Já não enganam mais ninguém…”

Trecho de diálogo Facebook

Michael Woodiwiss, em seu artigo Organized Evil and the Atlantic Alliance: Moral Panics and the Rhetoric of Organized Crime Policing in America and Britain, publicado na The British Journal of Criminology, explica-nos a criação do que ele intitula de demônios folclóricos.

E foi lendo seu trabalho que tive o prazer de conhecer o reverendo Lyman Beecher:

As pessoas estão mudando, estamos nos tornando um outro povo. As pessoas que antes não roubavam por vergonha, agora não estão nem aí, ostentavam seu desprezo pela lei. Se não agirmos rapidamente, a sociedade sucumbiria aos traficantes de drogas.

Lyman disse algo assim em 1812. Bastou substituir “vendedores de rum” por “traficantes de drogas” para que parecesse que isso foi escrito hoje ― os discursos dos caçadores dos demônios folclóricos não mudaram em dois séculos de história.

Onde citei neste site questões religiosas → ۞

Conflitos urbanos regime militar e constituição cidadã

A causa da criminalidade urbana

Podemos apontar como causa do aumento da criminalidade tanto o Regime Militar de 1964 quanto a Constituição Cidadã de 1988 ― a criminalidade explodiu durante os governos militares, mas a sensação de insegurança só aumentou após a redemocratização.

Ambas as afirmações seriam falaciosas: a criminalidade aumentou com o inchaço das cidades devido ao êxodo rural, e a insegurança veio com o acesso às notícias antes manipuladas.

Assim como, no passado, fez o pastor Lyman, as autoridades e a imprensa apresentaram as hordas de pobres urbanos e vendedores de bebidas como causadores da criminalidade, papel atribuído hoje à facção PCC e aos traficantes de drogas.

Onde citei neste site o Sistema Prisional → ۞

O demônio que vive entre nós

O demônio não é a causa, e, sim, o sintoma da doença

Lyman começou em 1812 a caça aos misteriosos ruff-scruffs, seres demoníacos que ameaçavam a sociedade, inimigos estranhos e nebulosos, “demônios folclóricos” que podiam atacar e destruir toda a sociedade.

Precisávamos criar por aqui algo parecido, os nossos ruff-scruffs, mas a sociedade brasileira não se assustava mais com os homens-do-saco ou com as loiras-do-banheiro.

Mostrava-se necessária a existência de alguém ou algo que pudesse ser demonizado e que tivesse se atrevido a exercer funções do Estado:

“O sistema político deixou muitas pessoas em estado de abandono, então elas tiveram que criar alguma solução. A regulação do PCC é o principal fator sobre a vida e a morte em São Paulo. O PCC é produto, produtor e regulador da violência”

A destruição da facção, sem que em paralelo se combatam as causas sociais que permitiram sua ascensão, terá tanta possibilidade de êxito quanto as ações de Lyman contra a venda de bebidas alcoólicas e a prostituição, há dois séculos.

O PCC é uma organização tão grande que, se você tentar eliminá-lo, você criará uma enorme quantidade de violência.

O crime desorganizado causa mais mortes nas periferias e entre policiais do que o crime organizado ― mas isso não é problema nosso, pobre tem de monte para morrer, e se um policial for morto é só contratar outro no lugar.

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Intervenção militar 2018 Rio de Janeiro

Papai resolve tudo, federalizar para ser feliz

Michael, em seu trabalho, conta-nos que uma das características da demonização é o clamor para que o Governo Federal assuma as rédeas do controle social, seja por meio da formulação de leis nacionais ou do controle direto das ações.

O pesquisador cita dezenas de exemplos na América e na Europa, no entanto, aqui mesmo no Brasil, vemos esse fenômeno se repetir.

Você já deve ter ouvido críticas ao fato de o Governo do Estado de São Paulo não entregar os condenados às prisões federais. Nome bonito, “PRISÃO DE SEGURANÇA MÁXIMA FEDERAL”, mas sempre tem o mas…

Foi dentro de uma máxima federal que se articulou a ação do Primeiro Comando da Capital, na Rocinha, no Rio de Janeiro, e…

Foi graças à federalização dos presos paulistas que a facção 1533 se espalhou com êxito por todo o país, e ninguém vai me convencer que o Governo Federal tem alguém que entende tão bem o PCC quanto Lincoln e seus colegas do MP-SP.

Aqueles que têm carência da autoridade paterna, assim como Lyman tinha, clamaram pela intervenção federal na Segurança Pública e pelo envio da Força Nacional para o estado do Ceará. Pois bem, seus sonhos foram realizados ― só que não.

Onde citei neste site a Intervenção Federal → ۞

A história como repetição cíclica

Eu e você sabemos que o mundo segue uma linha contínua: passado, presente e futuro, mas talvez isso seja apenas uma mentira construída por nossa formação judaico-cristã. Aqueles que foram criados sob a cultura hindú crêem que tudo no universo é cíclico.

Michael me lembrou essa diferença quando contou a história do Comitê Kefauver, e não há possibilidade de não associar a descrição do que aconteceu em 1950 com o que acontece hoje. Se há um ciclo histórico a ser repetido, estamos passando por ele.

Leia a descrição que Michael faz do caso do comitê americano e verá que cada linha pode ser utilizada para descrever com perfeição a caça aos PCCs, orquestrada na nossa contemporaneidade:

O governo federal estaria cada vez mais comprometido com o policiamento de mercados ilegais uma tarefa que estava provando estar além da capacidade das administrações locais.

Marcola, Frank Costello e o Mito de Frankenstein

Frank Costello foi elevado pelas autoridades como sendo o o líder mais influente do submundo. Ele declarou:não operava em lugar algum, não era convidado, e mesmo negando liderar a organização criminosa, passou a ser visto como seu líder.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, foi elevado pelas autoridades como sendo o “líder máximo do PCC”. Ele declara que nem pertence à facção, e mesmo negando liderar a organização criminosa, passou a ser visto como seu líder.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

A facção Primeiro Comando da Capital surgiu para suprir demandas de grupos sociais abandonados pelo Estado à sua própria sorte. No entanto, foi demonizada para suprir o Estado de grupos sociais que pudessem ser culpabilizados pela falência da Segurança Pública.

Um líder assumiu o Primeiro Comando da Capital, e o Estado, para conquistar a atenção dos holofotes para sua guilhotina, o demonizou ― só lamento, agora o criador deve conviver com sua criatura, senão submeter-se a ela.

3 de agosto de 2018

PCC a facção que não para de crescer
Se eu colocasse essa manchete estava preso
Isto É  → Vicente Vilardaga e Fernando Lavieri
→ São Paulo
→ Organização Criminosa
No dia seguinte que eu postasse um artigo com essa chamada seria levado para prestar depoimento e responder por apologia ao crime, então é melhor lerem a reportagem na fonte (desculpe se me rio: kkkk).

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Os líderes comunitários, o PCC e a polícia

A formação de uma liderança comunitária apoiada pelo Primeiro Comando da Capital e sua relação com a facção e as forças policiais.

PCC elegendo uma liderança para o bairro

Dona Celina só foi escolhida como líder da comunidade por ser evangélica e por ter sido indicada pela liderança do PCC. Ela nem imagina que foi assim, mas eu estava lá quando houve o debate da formação e de quem deveria liderar a comunidade.

Tinha acabado o jogo entre Vila Nova e Vila Progresso, e nós estávamos em frente ao bar Gordo, que fica ao lado do campinho, quando do nada surgiu a conversa, que virou um debate, e a aprovação e o fechamento foi na hora:

A estratégia seria montar uma associação de moradores na comunidade para lutar por melhorias na educação e na estrutura de escolas e creches, na pavimentação das ruas, no abastecimento de água , e também para servir como mediadora na pacificação das ruas.

Mas quem assumiria a liderança da associação?

Alguém falou no nome da Dona Celina e pronto. Ninguém ali duvidava que ela era a pessoa perfeita para o cargo. Ela devia estar em sua casa naquele momento preparando o almoço e nunca iria imaginar que seria formada uma associação e que ela viria a liderar.

Eu até posso contar a você como e por que ela foi escolhida, mas Rafael Lacerda Silveira Rocha é quem pode explicar como a igreja evangélica entra nessa história e como esse tipo de arranjo social funciona na prática, pois foi ele quem estudou a fundo essa questão.

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Dona Celina chegou ao bairro quando as ruas eram de terra.

Todos conhecem a bondade e as lutas daquela mulher, que vive dando conselho para os garotos do corre e até para o patrão da biqueira, sempre se prontificando a ajudar quem quer sair daquela vida.

Ela é querida por todos e conquistou o respeito da da liderança local do  dono das biqueiras do bairro e representante do Primeiro Comando da Capital na comunidade.

Dona Celina é ministra de uma congregação evangélica que lhe empresta autoridade moral e cria empatia em muitos no bairro que percebem nela um pouco daquilo que veem em suas famílias, ou, pelo menos, gostariam de ver.

Ela é uma “pessoa de bem”, e é essa a face que a comunidade quer apresentar para a imprensa e para os representantes do governo. Ela é a luz que deverá iluminar o caminho da comunidade.

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É preciso força para se impor

Até mesmo Deus tem uma legião de anjos para garantir seu governo celestial (Isaías 40), e se fomos feitos à sua imagem, nós também temos que nos garantir.

Rafael conta em seu trabalho o caso de um pastor, líder em sua comunidade, que tentou manter a pacificação baseando-se apenas em sua força moral e em seu poder de negociação.

Apesar dos esforços do pastor, um jovem morreu, e o religioso, ao questionar os assassinos sobre o acontecido, escreve:

“A resposta destes – ‘não pega nada não’ –, é por si só uma declaração de que, não apenas a trégua era considerada sem importância, mas que os próprios mediadores que atuavam como terceiros entre os dois grupos não tinham tanta consideração e legitimidade assim dentre eles.”

Não é soltando pombos brancos ou fazendo um abraço simbólico em torno do Cristo Redentor que se conseguirá a paz, mas também é verdade que não se chegará a ela ligando para o 190, nem tampouco confiando no Tribunal do Crime do PCC.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

A polícia e a liderança do PCC como garantia

As relações de poder dentro de uma comunidade carente são complexas e necessárias para a equação de diversas forças, pacifistas, religiosas, de trabalhadores, policiais, criminosos e desocupados.

Sem a força do Primeiro Comando da Capital, Dona Celina não conseguiria o respeito e a tranquilidade para organizar a população. Nos primeiros meses foi o disciplina do PCC que passou a trocar umas ideias com os inadimplentes com o caixa da associação.

Sem a força policial, Dona Celina ficaria refém apenas da vontade do dono da biqueira e não conseguiria a tranquilidade para organizar as demandas da comunidade.

Rafael conta um caso em que o líder da comunidade organizou um jogo entre dois grupos opostos com o apoio da polícia. Ele colocou o Estado como força mediadora do conflito e ainda fortaleceu sua liderança:

Uns queriam a paz, outros queriam manter a guerra, se juntasse tudo em um único lugar poderia ter um banho de sangue, então o jogo foi marcado em um campo neutro:

“Aí o dia chegou, o galerão, aquele muvucão, aí o cara da protaria achou que era só aquela galera ali, aí depois chegou outra muvucona zoanado ea as mulheres dos caras também. Aí foi umas 15 mulheres, as mulheres dos caras, amigas, e o cara da portaria não queria deixar entrar, aí o tenente foi e ligou lá: ‘pode deixar entrar’. Aí foi aquela festa [risos].”

Esse relacionamento pode parecer estranho para você que mora em um condomínio ou um bairro bem estruturado, mas é comum nas periferias.

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Ladrão e trabalhador falando a mesma língua

Rafael me contou que a relação entre líderes da comunidade e das facções não acontece só aqui no Brasil, e me apresentou a história de vida e as conclusões acadêmicas de uma simpática socióloga americana.

Mary Pattillo descreveu como as redes de relações desse bairro incluem tanto operadores e lideranças tradicionais, quanto atores fortemente identificados com práticas ilegais na comunidade.

Mary explica que as lideranças comunitárias e o crime organizado local compartilham uma série de valores, como o cuidado pela manutenção dos aparelhos públicos do bairro e o controle de brigas e demonstrações violentas em espaço público.

Essa ligação entre comunidade e mundo do crime acaba por dificultar a ação dos órgãos públicos na repressão ao tráfico de drogas local. É a teoria da eficácia coletiva pulando dos livros acadêmicos para as ruas das comunidades periféricas:

“[É importante] olhar para a participação de atores e grupos relacionados a práticas criminosas nas relações entre vizinhos e para como aqueles afetam as expectativas coletivas, valores e normas dessas comunidades.

Cansei de ver nas comunidades trabalhadores e estudantes defendendo a filosofia do 15, como a utilização do Tribunal do Crime para a pacificar os bairros ou evitar estupros e roubos nas quebradas.

“[…] a atuação de criminosos em determinadas comunidades pode ser mais do que puramente negativa – como instituições que promovem a ‘erosão da eficácia coletiva’ –, mas que não só podem compartilhar regras, valores e expectativas coletivas com o restante dos moradores, como também difundir normas e práticas originárias da gramática moral do ‘mundo do crime’ ao restante da comunidade.

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A liderança se conquista pelo respeito e pela ética

Se você é da Vila Nova, talvez conheça Dona Celina, e se você se acha que é mais importante, forte ou influente que ela, desculpa aí, mas ninguém dá a mínima para o que você pensa a seu próprio respeito.

Liderar é conciliar, saber ouvir e estar presente nas necessidades do grupo, se fazer entendido e tentar entender as opiniões dos outros, e Dona Celina faz isso como ninguém.

Líderes de bairros são acusados pela polícia ou por “cidadãos de bem” de terem conchavo com traficantes, mas aqueles que acusam não se candidatam e, se o fazem, não se elegem ― dona Celina se elegeu e circula livremente entre aqueles lobos.

Líderes de bairros são acusados por aqueles que vivem no mundo do crime de terem conchavo com a polícia, mas aqueles que acusam não se candidatam e, se o fazem, não se elegem ― dona Celina se elegeu e circula livremente entre aqueles lobos.

Agora ela estará sempre entre as matilhas mediando a paz, armada apenas de sua honestidade e confiabilidade, será testada e criticada todos os dias pela população, pela polícia, pelos líderes religiosos e por aqueles que vivem no mundo do crime.

Dona Celina está disposta e tem capacidade de enfrentar esse desafio, fluindo entre o mundo do crime e o mundo do Estado de Direito, assim como Marielle Franco o fazia até ser silenciada pela milícia.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David

Há um PCC pertinho de você! Ligue 190!

Diariamente vemos na imprensa escrita e televisionada integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital. Então, saberíamos reconhecê-los entre nós?

É importante demonizar a facção PCC

Se você conhece os integrantes da facção Primeiro Comando da Capital pela televisão, não poderia, de fato, saber o que pensam e como agem.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para esse fato no artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Os pesquisadores demonstram que os órgãos de imprensa repetem e reforçam o ponto de vista das autoridades policiais, auxiliando a demonizar aqueles que fazem qualquer tipo de oposição à lei ou aos costumes estabelecidos.

Sejam criminosos que roubem ou matem trabalhadores, sejam oficiais islamitas matando cristãos, sejam policiais de regiões nas quais exista distinção oficial de etnias ou raças reprimindo manifestações igualitárias: a imprensa local reportará a versão do status quo.

Por enquanto, no Brasil, são os integrantes da organização criminosa PCC 1533, mas se não fossem eles, seriam outros os demônios que estariam sendo caçados e apresentados.

Onde citei neste site sobre a imprensa → ۞

O dia perfeito para um policial

Assisti a uma palestra ministrada para um grupo de jovens policiais. O palestrante perguntou aos novatos qual seria o melhor resultado possível a ser apresentado ao final de um plantão.

As respostas variaram: troca de tiros que resultasse na morte de criminosos, resgate de uma vítima de sequestro ou interceptação de uma grande carga de drogas.

Eram respostas esperada dos novatos, mas estranhas para os veteranos, que prefeririam chegar ao final do turno e apontar em seu talão de ocorrências: “plantão sem alterações” ― confessou o instrutor.

Afinal, se os policiais tiveram que utilizar a força, significaria que todo o trabalho de prevenção e inteligência falhou, colocando em risco a vida dos agentes e de terceiros.

Onde citei neste site sobre a polícia → ۞

O dia perfeito para um criminoso do PCC

A analogia é válida para as crias do Primeiro Comando da Capital.

As crias do 15 sonham com uma reação bem sucedida a uma abordagem policial e a ações criminosas, com fugas espetaculares que os permitam levar para suas comunidades dinheiro e histórias para ostentar diante das garotas, dos colegas e da família.

É o que se espera dos novatos, o que não reflete os anseios dos veteranos do mundo do crime, que prefeririam chegar ao final da noite garantindo estabilidade e segurança para si e suas famílias.

“Um lugar gramado e limpo, assim verde como o mar, com cercas brancas, e uma seringueira com balança, para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

Onde citei neste site sobre a Família 1533 → ۞

O tempo passou e muitos chegaram lá

Quando você pensa na facção Primeiro Comando da Capital, talvez pense nos garotos que vendem drogas e estouram caixas eletrônicos, ou talvez, no máximo, você se lembre do prefeito de Embu das Artes, mas será que…


As centenas de convidados para o casamento da filha do subtenente da Polícia Militar, ou as centenas de funcionários das dezenas de empresas pertencentes a ele diriam que aquele simpático policial seria líder do PCC?

Possivelmente não. Ele e sua família não correspondem à imagem que o Datena, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde e outros formadores de opinião nos mostram: moradores de barracos mal acabados, com suas famílias desestruturadas e criminosas.

Ao contrário do que se imagina, a classe média do PCC é tão presente quanto os garotos dos corres. Quem sabe você ou um de seus familiares não trabalhe em um setor público ou uma empresa privada onde alguma liderança seja do PCC ― e você nem desconfia.

Onde citei neste site sobre o imaginário construído entorno do PCC → ۞

Fugindo com medo do perigo das grandes cidades

Alexandre Almeida Barbalho e Amanda Nogueira de Oliveira me surpreenderam com o artigo “Juventude, comunicação, sociabilidade e cidadania: A atuação da ‘família Os poderosos e as Poderosas’”, publicado pela E-Compós.

Há muito acompanho a revoada de membros da organização criminosa PCC para os condomínios e bairros de luxo, afinal, segundo eles mesmos, é o melhor lugar para se livrar de abordagens policiais ― a polícia age de maneira violenta apenas nos bairros pobres.

Facciosos ironizam que os policiais que fazem “bico” nos condomínios cuidam de sua segurança e os cumprimentam quando passam nas portarias e de dentro das viaturas.

Foi no artigo Alexandre e Amanda que li pela primeira vez que os PCCs estavam buscando o nordeste para fugir da violência de São Paulo:

[…] diversas famílias […] explicaram que o Primeiro Comando da Capital teria vindo para Fortaleza. Isso teria acontecido depois que uma boa parte de seus componentes se sentiu coagida em São Paulo e precisou se estabelecer em outros locais do Brasil, dentre eles algumas cidades do Nordeste.”

Onde citei neste site trabalhos de sociólogos → ۞

Vizinhos pacatos que buscam manter a paz

A imprensa relatou diversos casos de PCCs que foram capturados em suas mansões, condomínios e empresas ― invariavelmente os vizinhos e funcionários os descreveram como sendo pessoas pacatas e que se dedicam à família.

Os Racionais MCs não estavam errados quando disseram que o sonho dos criminosos, ao contrário do que mostra a TV, era conseguir “um lugar gramado e limpo […] para poder ficar empinando pipa cercado por suas crianças.”

A busca da pacificação nas quebradas por parte da liderança da facção paulista segue nesse sentido, pois além de garantir o fluxo de drogas sem interrupções, a segurança de membros das equipes de base, suas lideranças e suas famílias também é defendida.

Em regiões não pacificadas, com guerra entre gangues de jovens, mesmo nas partes nobres da cidade, a vida pode ser perigosa, como conta Alexandre e Amanda:

O bairro da Sapiranga em Fortaleza, onde vive a maioria dos poderosos, não foge desse contexto de disputas e homicídios que tem os jovens como agentes e vítimas. […] Não é de hoje que o medo de ser a próxima vítima faz parte de seu dia a dia […] seja devido ao tráfico de drogas, seja devido a ações policiais no bairro.

Onde citei neste site sobre a pacificação → ۞

Estamos prontos para reconhecer o inimigo

Alexandre e Amanda afirmam que é relativamente fácil reconhecer os integrantes dos grupos sociais, e sobre isso eu e você precisamos concordar ― quem é que não reconheceria um criminoso da Família 1533?

“… observa-se a existência de grupamentos de jovens que se autointitulam família […] nos bairros populares da cidade. Reunindo dezenas de integrantes, tais grupos se reúnem em espaços públicos, geralmente praças, e privados e mantêm troca de mensagens por meio de dispositivos e plataformas digitais tais como WhatsApp e Facebook.

Recorrem ainda a elementos de delimitação identitária, como camisas personalizadas e músicas autorais, de modo a demarcarem sua presença no espaço urbano.”

Antônio Mateus Soares, Matheus Reis de França e Claudemir Santana descreveram com minúcias as características dos PCCs e dos CPs no estudo “A economia do ilegalismo: tráficos de drogas e esvaziamento dos direitos humanos em Porto Seguro, BA”.

MERCADO DO POVO ATITUDE MPA — Bairro Baianão.

Ligação: PCC-SP — Símbolo: Caveira e Cruz (1533 MPA) — Grupo coeso e hierárquico. Produto de consumo da marca Cyclone (bonés, camisas e bermudas).

COMANDO DA PAZ CP — Área do Campinho.

Ligação: CP-Salvador — Símbolo: Escorpião (315 CP) — Grupo pulverizado com ritos de execução, mas primam pela discrição no seu cotidiano. Produto de consumo da marca Nike (bonés, camisas e bermudas).

Onde citei neste site os aliados e os inimigos do PCC → ۞

Hora de começarmos a caça

Se você conseguir deixar de lado a visão distorcida de como localizar um membro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital terá condições de localizar aí, em seu meio, pessoas que pertençam ou sejam parentes ou amigos de facciosos.

Alexandre e Amanda terminam colocando algumas dicas de como você pode reconhecer o membro de uma família:

“A família, ainda que sendo uma ‘pequena entidade local’ não deixa de atuar no seu entorno social, para além de sua ambiência comunitária e sua comunidade […]

O engajamento cívico no esforço coletivo pela paz no bairro onde habitam revela que o grupamento também é uma espécie de esfera civil ao fomentar a capacidade crítica e a integração democrática.

Enfim, ainda que autointitulada ‘família’, os poderosos não se limitam à esfera do privado, como se poderia esperar, até por conta de seu forte gregarismo, mas interagem com o espaço público…

Como sintetiza a mensagem retirada de um print do grupo de WhatsApp da família:

‘Chegou o grande dia, convocamos todas as equipes para o evento mais importante do nosso bairro, o grandioso 8 meses sem ter nenhuma violência na nossa comunidade’.”

Então, se você receber uma mensagem assim, ou tiver um vizinho pacato ligado à família, ou um garoto que vista bonés, camisas e bermudas da Cyclone, ou ouça Racionais MCs, fique esperto e ligue 190 para auxiliar a manter a paz e a ordem social.

Onde citei neste site os Racionais MCs → ۞

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Facção PCC — realidade ou estereótipo

É possível vencer uma lenda? Qual a origem da nossa ideia do que é a organização criminosa Primeiro Comando da Capital e como são e como agem seus membros.

Quem falou para você quem é ou como são os PCCs?

Você não precisa me contar quem foi o cagueta que falou para você sobre a facção ou seus membros, quero, apenas, que diga quem forjou em sua mente aquilo que você acredita que seja o Primeiro Comando da Capital.

Você não nasceu sabendo, tampouco seus pais eram irmãos batizados do 15, companheiros ou aliados da organização criminosa. Então, de onde foi que você tirou a ideia do que é ou de como vivem, agem e pensam os garotos da facção?

Você se lembra? Acho que não.

Essa imagem foi criada ao longo do tempo, paulatinamente recebendo informações por meio de terceiros, seja de fontes primárias nas ruas, biqueiras ou nos presídios, ou secundárias, através da mídia ou de comentários de terceiros.

Será extremamente difícil nossa sociedade sair —a construção de um círculo policial-midiático-criminoso, um pelourinho midiático ao qual expõe e criminaliza as comunidades periféricas para o deleite de uma população que se sente superior.

Leio quase todos os artigos publicados sobre o Primeiro Comando da Capital nos últimos anos, e são poucos os geradores de notícias fora do eixo: Folha de S.Paulo, Estadão, UOL, Globo, Campo Grande News e Diário do Nordeste.

Onde citei neste site sobre a imprensa → ۞

O PCC 1533 na TV é o mesmo que na mídia digital

A mídia televisiva é um show que não acrescenta informação, mas produz espetáculo. Talvez ainda seja a principal formadora da opinião sobre o que são os facciosos.

As pautas, que ilustram e repercutem o conteúdo já produzidos pelas fontes-eixo — até quando o helicóptero do Datena acompanha uma operação ao vivo do GAECO —, são opiniões e informações reproduzidas da base geral.

Você, o irmão batizado do 15, os companheiros e os aliados da organização criminosa, estiveram expostos e construíram sua imagem ou autoimagem sofrendo influência dessas mesmas fontes, ao mesmo tempo que as influenciavam.

“O que é o grupo criminoso e como agem e são seus membros” são ideias produzidas, e não fatos consumados. A imagem está sendo constantemente reescrita, influenciando e sendo influenciada pela mídia, que a reconstrói em parceria com toda a sociedade.

“… a imagem faz mais do que nos estender a mão. Ela segura a nossa e depois nos puxa – aspira-nos, devora-nos – inteiros no movimento ‘mágico’ e ‘misterioso’ da atração empática e da incorporação”.Georges Didi-Huberman.

A ideia que poderíamos saber definitivamente algo sobre qualquer organização humana foi pensamento predominante em um mundo que já não existe, ruiu com as muralhas da Bastilha em 1789, se bem que algumas pessoas demoraram um pouco a perceber.

Onde discuti neste site o imaginário e o real→ ۞

Herói — iguais, porém diferentes?

A representação do que seriam as figuras do vilão e do herói muda de pessoa para pessoa, e o que é considerado “herói” para um grupo de indivíduos e classe social não é obrigatoriamente o mesmo para outros grupos e classes.

No entanto, é preciso entender que essas imagens, tanto do vilão quanto do herói, são construídas por meio da mídia (e essa construção afeta, também, a autoimagem das pessoas).

O Efeito Dobradiça de Tarcília Flores

Um policial pode se ver e ser visto como herói, aquele que “protege a sociedade”, assim como um membro da facção criminosa pode se ver e ser visto como “correndo pelo lado certo da vida errada”, levando paz e segurança à sua quebrada.

“… policiais, que muitas vezes a própria sociedade não reconhece, com justiça, os esforços desses homens e mulheres para a manutenção da paz… que juraram servir e proteger, ainda que seja necessário dar suas vidas no cumprimento dessa promessa” — verso.

“Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila. […] Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas do PCC.” — reverso.

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Vilão — iguais, porém diferentes?

Um policial pode ser visto e descrito como vilão, como alguém que abusa da autoridade, oprime as comunidades pobres e é corrupto, assim como um membro da facção criminosa pode ser visto e descrito como aquele que mata, rouba e toma a comunidade em que vive.

“Agentes penitenciários teriam sufocado detentos do presídio de Avaré 1 (distante 239 km de São Paulo) em sacos pretos com fezes e urina durante uma inspeção de rotina ocorrida nos dias 4 e 5 de dezembro do ano passado.” — verso.

“De acordo com uma testemunha, que alega ter sido obrigada a assistir a execução, o crime foi praticado por quatro homens que se intitularam membros de uma facção criminosa de São Paulo (PCC).” — reverso.

Tanto o policial como o faccioso estarão no seu dia a dia alimentando o mito, a construção da imagem, mas, ao mesmo tempo, estarão sendo influenciados pela mídia, que estará sofrendo pressão inconsciente de seus consumidores.

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Você sabe o que é o PCC ou vê um estereótipo?

Outro dia, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde demonstrou como a elite intelectual não conhece o Primeiro Comando da Capital, mas tem uma forte imagem estereotipada da facção — é o exemplo do medo dissecado por Reginaldo em seu trabalho.

Reginaldo Osnildo Barbosa, em sua tese “Análise do fortalecimento da imagem do vilão mediante o medo expresso nas tecnologias do imaginário” (UNISUL), busca compreender a construção pela mídia das figuras distorcidas do herói e do vilão no imaginário social.

Eduardo Portanova Barros explica porque eu, você, a colunista do Estadão e os faccionários, mesmo recebendo as mesmas informações, teremos opiniões e sentimentos tão díspares sobre esse mesmo assunto:

“… o imaginário não é uma coleção de imagens somadas, mas uma rede onde o sentido se encontra na relação.”

O Primeiro Comando da Capital é imbatível, invencível e intocável, independentemente das afirmações de Lincoln e seus colegas, das operações de nomes exóticos do Ministério Público, da Polícia Federal, da Força Nacional ou até mesmo da sua opinião sobre isso.

A facção estará tão viva e fortalecida quanto o imaginário pintado nas mentes e nas almas daqueles que vivem nas prisões e nas periferias, seja com uma liderança una e forte ou descentralizada.

Onde citei neste site o MP e as operações policiais → ۞

Se combatermos o mal, poderemos vencê-lo

Um estereótipo, uma imagem construída, não pode ser vencido pela força das armas — isso é fato, o resto é especulação. Como disse o filósofo alagoano Mário Jorge Lobo Zagallo: “É para vocês. Vocês sabem quem são. Não preciso dizer mais nada. Vocês vão ter de me engolir”

Juan Carlos Garzón Vergara afirma que é possível vencer facções, como o Primeiro Comando da Capital, basta eliminar sua causa: o Estado sem capacidade de executar e garantir o respeito por seus próprios regulamentos.

Você não precisa me contar quem foi o cagueta que falou para você sobre a facção ou seus membros, mas quero que reflita sobre como você vê o PCC 1533 hoje e, principalmente, sobre quais partes dessa imagem da facção fazem parte da realidade e quais são construções fantasiosas.

Existirão irmãos e companheiros da organização criminosa, independentemente das ações de Lincoln e seus colegas — a menos que mudemos a forma como nós, os membros das diversas classes de nossa sociedade, se relacionam entre si e em relação ao Estado.

Onde citei neste site atentados e ataques do PCC → ۞

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)