Hoje é o dia do 24º aniversário do Primeiro Comando da Capital, vulgo PCC 1533. Havia me decidido a não postar nada hoje, mas, sempre tem um mas, Luis Fernando Veríssimo acabou de postar no Estadão uma crönica que me fez mudar de ideia.
O texto do mestre tem um trecho que é mais ou menos assim:
Bem, aí ele faz o contraponto com um personagem de Voltaire que vê com encantamento tudo a sua volta, por pior que seja a situação.
E é exatamente assim que a sociedade se comporta em relação a organização criminosa PCC: uns veem o colapso do Universo e outros acham que está tudo muito bem.
Marcola como detonador do Apocalipse
Nem Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, nem eu, nem qualquer pessoa em sã consciência pode achar que a existência de um facção criminosa possa ser algo positivo, mas tem gente que passa sua vida achando que pelo fato do PCC existir chegou o dia do Apocalipse – se bem que um dia ele poderá chegar, mas não é hoje.
Em muitos estados, é verdade, ainda não se chegou a um equilíbrio, a pacificação, mas no geral a vida segue com todos buscando o progresso e o que todo mundo quer em um aniversário, comemorar em paz e ser feliz.
Uma mensagem que trombei por aí reflete como está o clima dentro da facção:
“Bom dia a todos sem exceção, olha a nossa disciplina que temos que seguir. Para todos verem como que a família cresceu, e está evoluída! Nossa luta não para!
Antes de dormir colocar a cabeça no travesseiro e falar: hj eu fiz tantas coisas, amanhã vou fazer um pouco mais. Aí, todos fazendo sua parte dentro do seu setor a engrenagem não para e sempre vai evoluir.
Eu tenho orgulho de fazer parte do 1533! 👋Várias noites e vários dias sem dormir, tudo por meu esforço e dedicação ao Primeiro da Capital, amo minhas irmãs, meus irmãos, meus companheiros, que fecham em responsa do p.c.c, que se dedicam.
As companheiras que nos ajudam e acreditam na nossa luta. Com todo meu carinho e respeito, bom dia a todos Irmão… 1533 p.c.c até o fim! Olha nosso aniversário em família, todos fechadão na mesma batida”
É isso, azar da imprensa e dos datenas que terão que procurar sangue para vender audiência em outro lugar.
Ah! Tem um áudio feito especialmente para essa ocasião, e o mais importante, uma mensagem oficial:
O Resumo Disciplinar vem através deste deixar um forte abraço a todos, e também a agradecer a todos os nossos irmãos e irmãs, os companheiros e companheiras, que se mantém forte na luta ao nosso lado apesar de todas dificuldades – sempre vendo uma forma para seguir em frente. A todos aqueles que se foram fica nossa gratidão e agradecimentos por tudo que fizeram enquanto tiveram com nós. Foi onde nos ensinaram que a semente nunca morrerá, pois é uma corrente. Nesse aniversário da nossa Família PCC nos lembraremos de todos com lagrimas nos olhos, pelas perdas que jamais voltarão. Vocês também nos dão forças para continuar, e para que todo esse sacrifício não seja em vão, e vejam como que essa semente plantada no concreto, regada com muito sangue, se tornou uma árvore de muita esperança. Nosso agradecimento a todos os nossos queridos que se foram, a todos que se encontram nas trancas federais ou estaduais, que deixaram muitas vezes de viver sua vida para mover essa família. Deixamos claro que essa semente plantada não morrerá por eles, por nós, e por vocês que nos deram bons exemplos, que essa data sirva para comemorar mas também sirva para refletir o que perdemos em prol a essa luta justa. Que cada um de nós se faça essas perguntas:
Quem acredita na mudança?
O que somos?
Qual são os nossos objetivos?
Quais são nossas metas?
E que podemos honrar essa Família que vai comemorar mais um ano, mas que também está sentindo falta de todos que se foram. Deixamos um forte abraço a todos em nome da Família PCC e que juntos e unidos venceremos: onde o crime fortalece o crime.
Com a prisão dos líderes da organização criminosa Primeiro Comando da Capital estaria caindo a qualidade se seus líderes.
Você já recebeu uma mensagem de voz no Whatsapp que fizesse você parar e pensar? Eu recebi uma assim, há umas três semanas. Parei o que estava fazendo e repeti a gravação, vinda de dentro de um dos presídios paulistas, na voz alguém que se identificou, mas o nome e a posição dele dentro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) eu não me lembro.
Ele começou mais ou menos assim:
“Sabe qual o problema do Primeiro Comando da Capital hoje? Não tem mais liderança! Ninguém mais é líder, acabou…” – ao fundo, aquele vuco-vuco dos áudios que vem de dentro do sistema.
Logo imaginei o Marcola e o Gegê ouvindo isso, e o cara não parou de falar por mais de dez minutos. O cara realmente é bom, a organização criminosa Primeiro Comando da Capital tem um líder mais preparado do que a maioria das empresas, órgãos governamentais e centros acadêmicos que eu conheço.
Depois do impacto inicial, o cara virou o jogo, sempre transmitindo forte emoção na voz que arrepiaria qualquer irmão 121 ou “157 mil graus”:
“Aqui só tem chefe e ninguém precisa de chefe, o Primeiro Comando não precisa de chefes, nós estamos presentes em vinte e três estados e seis países e o que precisamos são de líderes. Se você quer ser chefe está no lugar errado, precisamos de líderes aqui!”
E assim foi. No último meio século de minha vida, não ouvi um discurso motivacional tão forte quanto o desse cara, que é o cara. Bem, mas não é por causa desse áudio que escrevo esse texto; vim para falar de Liliane, uma irmã do PCC, alguém sabe o vulgo dela?
“Em 2004, Liliane foi presa por roubo, ficando até 2006, época em que conseguiu fugir, pulando o alambrado da cadeia com mais 10 companheiras. Ficou foragida durante 7 anos e, no início, recebia proteção financeira do PCC, que pagava seu aluguel e dava uma ajuda para viver.”
Citei aqui o áudio d’o cara, porque ele foi feito para fortalecer o engajamento de sua equipe para aumentar a arrecadação do dinheiro da caixinha, da rifa e do pagamento das mensalidades, por meio de um trabalho integrado de todos dos setores – Sintonia, Disciplina, e Financeiro –, além de diminuir a inadimplência e o não engajamento dos irmãos.
Foi essa grana que ajudou Liliane e ainda ajuda outros na mesma situação. Termino com outro trecho d’o cara que era mais ou menos assim:
“Tem muitos aí que reclamam de pagar e contribuir, mas isso não faz parte da ética do crime. Não tem ninguém aqui em cima precisando ou vivendo desse dinheiro, duvido que tenha algum irmão que não tenha sido ajudado ou tenha conhecido alguém que tenha recebido ajuda quando precisou. Quantas cunhadas e mães não conseguem visitar os filhos e maridos indo com as vans e os ônibus, e de onde vem o dinheiro? Quantos filhos e quantas famílias estariam passando fome e necessidade se não fosse esse dinheiro? E tem muito irmão que está em liberdade e não quer colaborar, dizendo que está passando dificuldade, mas depois fica gastando dinheiro com as primas e ostentando. Isso não é atitude de bandido que segue a lei do certo, isso é atitude de moleque. Cadê a liderança para chegar junto? Cadê o Disciplina do PCC? Tá aí só pelo status, é bom cantar de irmão Disciplina do PCC, tem moral em qualquer quebrada mas e aí? Tem medo de cobrar, então sai fora, porque aqui é o Primeiro Comando da Capital.”
É verdade que houve um acordo entre as facções rivais: PCC e CV?
Através das redes sociais, o Primeiro Comando da Capital (facção PCC) divulga nota desmentindo o relatório da Polícia Federal, divulgada pela UOL, que alertava para a formação de uma aliança entre as organizações criminosas PCC e Comando Vermelho (CV) para atacar autoridades públicas.
☯ PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL🇧🇷 ☯
NOTA ESCLARECEDORA
Nós do PCC, viemos deixar claro que não temos e nunca teremos nenhum tipo de aliança com Comando Vermelho, não existe a mínima chance de uma coisa dessas acontecer.
Seria fora da ética PCC fechar aliança com o Comando Vermelho, esquecendo quanta mães de famílias, crianças, irmãos de sangue, e cidadãos eles assassinaram, e também nossos eternos irmãos, heróis que lutaram na guerra e acabaram caindo em prol de melhorias para todo o crime.
Sabemos que o Comando Vermelho tem aliança com a Polícia Militar, Civil, e Federal, e também com os governos e diretores de penitenciárias.
Eles usam dessas alianças para tentar prejudicar nossa Família PCC 1533, sem saber que a nossa luta e a nossa ideologia são exatamente contra essa raça opressora, que cada gota de suor e de sangue que estamos derramando é para que tenhamos um crime com éticaem cima do justo, certo, e correto.
A Família PCC completou 24 anos de luta em todo Brasil e outros países. Somos a facção mais perseguida dentro do Sistemaporque batemos de frene com qualquer tipo de opressão que nossos integrantes ou nossos familiares possam sofrer.
Mais uma vez o Comando Vermelho fechou acordo com diretores dos presídiosfederais e estaduais para terem visitas enquanto todos os outros criminosos do Brasil que estão sofrendo nesses presídios não tivessem visitas. É muita coincidência o PCC ser acusado de matar agentes federais e sofrer opressão nos presídios enquanto o CV tem privilégios nesses presídios federais se diferenciando dos demais criminosos tendo suas visitas asseguradas pelo governo.
O Primeiro Comando da Capital é puro e verdadeiro e mesmo aqueles que nos acusam, reconhecem nossa luta contra a opressão e o governo que é clara e objetiva dentro de todos os estados e sem nunca se esconder.
Agradecemos a todos os criminosos do estado do Ceará por juntar as forças, lutando nas ruas contra o Comando Vermelho. Sabemos quão é grande o mal que sofremos com eles aqui no estado e vamos todos juntos acabar com todos eles.
Comando Vermelho, vocês e seus aliadados, policiais, diretores de presídios, e governo, não fiquem inventando mentiras, porque nascemos para combater vocês e estamos lutando contra todos.
☯ PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL – 24 ANOS DE LUTA CONTRA OPRESSÃO E OPRESSORES – PCC 1533 ☯
Estaremos firmes e fortes a cada dia até derrubar o último de vocês, pois somos o Primeiro Comando da Capital – 1533.
Ciências Sociais estudando o fenômeno Primeiro Comando da Capital facção PCC 15.3.3
PCC 15.3.3 pesquisada pelo mundo
Vou propor um tema para ser estudado pelos acadêmicos: como o fenômeno Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) atrai pesquisadores dos diversos segmentos da ciência de maneira diversa em cada país?
Eu leio em torno de vinte trabalhos acadêmicos por mês, publicados nos mais diversos países e línguas que tratam ou citam o Primeiro Comando da Capital. Chama a atenção o fato de que, no Brasil, esses estudos são produzidos por sociólogos, psicólogos, antropólogos, pedagogos e até por teólogos.
Sendo o PCC 15.3.3 uma organização criminosa transnacional, não seria natural que quem estudasse esse assunto estivesse ligado às ciências criminais, como o direito ou a segurança pública? Li alguns trabalhos feitos no Brasil por profissionais dessas áreas, mas são poucos perto da enxurrada daqueles oriundos de outras ciências sociais.
Fora do Brasil isso não acontece: os trabalhos elaborados que citam o Primeiro Comando da Capital são ligados ao direito penal e carcerário, e no geral são brilhantes. Hoje apresento a tese de doutorado do colombiano Augusto Castañeda Díaz:
“La Universidad Santo Tomás no tiene la intención de dar cualquier aprobación o desaprobación de las opiniones expresadas en esta tesis. Estas opiniones deben ser consideradas como propias de su autor.”
Se ela não endossa o cara, não serei eu a fazê-lo. O que posso dizer é que ele fala pouco, quase nada, sobre o Primeiro Comando da Capital, algo que em suma é isso:
“O PCC é uma organização criminosa focada em suas atividades econômicas e no controle territorial, e para isso utiliza-se de intimidação social, e criação e fortalecimento das conexões políticas. Possui aproximadamente 6.000 membros e tem como base as favelas de São Paulo, controlando de forma brutal a vida carcerária, ditando as lei nos cárceres e, se algum preso se opuser, pode perder a cabeça, literalmente. As ações incluem sequestros, incendiar ônibus, bancos e edifícios públicos, atacar a polícia e criar o caos por onde passa.” (tradução minha)
Díaz explicou que a razão pela qual falou tão pouco sobre o PCC foi que ele concentrou-se na criação de “estratégias gerais de como prever dentro das normas jurídicas” os crimes praticados pelos diversos tipos de grupos criminosos (gangues de rua, facções criminosas, ou grupo paramilitares), focando-se nas raízes metodológicas da investigação jurídica e do processo penal.
O autor afirma que não se preocupou em exemplificar crimes específicos, nem se preocupou em explicar e detalhar a lógica das atividades das organizações criminosas, mas apenas citar a natureza dos comportamentos, objetivos, e métodos, para permitir que o leitor de seu trabalho seguisse com ele o caminho pelo qual chegou às suas conclusões.
A Universidade não pôs a mão no fogo por ele, eu também não o farei, mas são 422 páginas de conteúdo jurídico de qualidade, nas quais o autor não fica por metade do trabalho repetindo velhos conteúdos e citações, se perdendo em contar histórias do dia a dia, mas, sim, foca-se em propor soluções práticas, embasadas em conhecimento jurídico.
Agora se sabe, a chacina do Boqueirão das Araras em Caucaia no Ceará no qual cinco homens foram mortos e duas mulheres ficaram feridas foi um ataque tomar o controle de pontos de drogas.
Domingos Costa Miranda, líder de uma facção, teria planejou e executou o ataque com outros cinco criminosos para assumir o controle do grupo criminoso após a prisão do antigo líder, dos quais os mortos seriam seus aliados fiéis.
Após a prisão, Miranda afirmou que os mortos seriam, na verdade, ex-integrantes da facção que ele lidera e mudaram de camisa, passando a ameaçar a vida de seus crias.
Miranda já estava sendo investigado por estar disputando as biqueiras de São Miguel I, São Miguel II e Beco do Fumaça, na periferia de Caucaia. — fonte: Luciano Cesário para O Povo
Você deve saber de onde nós viemos e o que já superamos, para só então decidir o que você vai fazer. E se você ou o Lincoln e seus colegas quiserem pegar meu lugar, boa sorte, vai firme e vamos ver se vão aguentar.
Não adianta se esconder ou tapar os ouvidos, pois os espíritos das trevas não se calarão até que eu, agora, ou alguém, algum dia, lhe conte essa história. E se já for tarde, e se eu já tiver me juntado a eles nas trevas, só lamento por você e por Lincoln e seus colegas.
Você acha que sabe o que é sofrer, mas poucos viveram nas quebradas trabalhando, de sol a sol, para chegar ao dia do pagamento e virem todo seu suor roubado, ao entrar na favela ou no bairro, pelo moleque da rua de baixo, para pagar o arrego para o policial do tático…
O site eb.mil.br replica uma reportagem de Aline Ribeiro para O Globo e me obriga a vir até você para lhe levar a esse passado, para que você, por si mesmo, possa vislumbrar o futuro que, assim como eu, Aline e Lincoln e seus colegas já estamos vislumbrando.
Os pais de Lincoln e de seus colegas do MP-SP deveriam ter dado o mesmo conselho a eles, pois agora que estão perto de realizar o sonho impossível de acabar com o PCC 15.3.3, parece que começam a ver que talvez tivesse sido melhor ter tido outro desejo. Agora é tarde:
Aline, eu, Lincoln e seus colegas nos lembramos de como eram as trevas antes que Marcos Willians Herbas Camacho e sua equipe assumissem o patriarcado da Família 1533. Se você não se lembra, vou pedir para Deiziane lhe contar um pouco de como era…
E no princípio eram trevas, no início do início, antes que a paz chegasse à comunidade do Serviluz em Fortaleza com os acordos firmados entre as gangues de jovens locais, como ela narra após dezenas de entrevistas com moradores e pessoas que atuam na região.
Se você realmente quer a paz, deve saber de onde nós viemos e o que nós já superamos, para só então decidir o caminho que deve tomar, e não fazer como o Governo cearense, que creditou a baixa da taxa de homicídios a suas políticas de segurança pública.
Você pode concordar ou não com a realidade, mas ela continuará prevalecendo sobre sua opinião, e Deiziane a analisou e previu o fim desse equilíbrio e da pacificação. muito antes que os governantes cearenses, Aline, eu e Lincoln e seus colegas o fizéssemos.
Poucos garotos que vivem naquela comunidade ouviram falar em Zygmunt Bauman, mas Deiziane afirma que o sociólogo e filósofo polonês descreveu com perfeição o que se passa pela mente dos meninos do mundo do crime:
Há poucas semanas, fui à Indaiatuba gravar uma entrevista. A cidade tem uma taxa de homicídios de 0,86 para cada cem mil habitantes – muito diferente do Ceará, com seus 52 para cada cem mil – e, se não bastasse isso, está entre as 80 com maior IDH do país.
Há alguns anos, em um dos meus primeiros estudos a respeito da facção, conheci o bairro Jardim Morada do Sol, hoje com 70 mil habitantes, e que, na época, vivia em clima de incertezas: assaltos, furtos em residências, estupros e guerra de gangues.
Haviam três biqueiras principais que disputavam entre si os limites de atuação, e os garotos, para se garantir, andavam armados em plena luz do dia. Lembre-se que não estou falando do Serviluz no Ceará, e sim do bairro da hoje pacata e progressista cidade paulista.
A ordem para a paz e os limites de cada grupo foram definidos por acordos fechados dentro das muralhas da Penitenciária de Hortolândia, que determinou, inclusive, pena para os crimes cometidos contra a população próxima às biqueiras. Mas quem traça esses limites, determina a pacificação e decreta a guerra?
E no princípio eram trevas, no início do início, antes que a paz chegasse às diversas cidades e estados sob a hegemonia do Primeiro Comando da Capital, que sob o controle dos moderados mantém a pacificação e o controle da base.
“Eles estão mais seguros lá dentro que na rua. Se sair morre.”
A admiração dos garotos do Primeiro Comando, em especial pelo Marcola, não foi sequer arranhada pela revelação do colega de Lincoln, o Marcio Sergio Christino, que acusou Marcola de ter sido um informante da polícia e ter entregue seus aliados.
No entanto, as rígidas regras impostas pelo grupo liderado por Marcola justificam a indignação, principalmente nos níveis intermediários da organização, que se sente tolhida ao não poder armar as biqueiras para reagir às ações policiais, entre outras limitações.
A vitória de Lincoln e seus colegas e o fim dos moderados
A disputa para ampliação de limites territoriais, influência ou poder acontece em todos os grupos sociais, seja entre as crianças nas creches ou nas ruas, ou entre os adultos nas igrejas, nos locais de trabalho, nas biqueiras, e até mesmo dentro da viatura policial.
Entre os membros de facções que disputam o mesmo território e dentro das organizações criminosas por aqueles que disputam o poder interno isso não poderia ser diferente, essa é uma característica humana.
Há quem prefira não se arriscar e deixar a luta para outros: esses são os cordeiros, que servem de alimento na cadeia alimentar e mantêm nossa estrutura social funcionando com certa estabilidade, como nos ensinou Étienne de La Boétie.
Mas entre os faccionados não existem cordeiros. O mais pacífico é um alfa que tem seu domínio territorial garantido por sua força — não há amigos dentre os aliados, companheiros e irmãos, há o respeito pelo mais forte e pelo grupo.
Lincoln e seus colegas estão agora a um passo da vitória. As ações do MP-SP e do GAECO enfraqueceram o grupo dos Catorze alfas que lideram a facção, e é por essa razão que Lincoln acredita que o PCC se desintegrará nas guerras internas.
PCC fica sem liderança após transferência de líderes
E no final serão as trevas, no fim do fim
A liderança enfraquecida terá que disputar o poder dentro das muralhas de Presidente Prudente, e de lá essa guerra vai se espalhar para o restante do estado.
Enquanto isso, centenas de pequenas facções sem estrutura aterrorizarão os bairros periféricos de vários estados, que hoje já estão pacificados, e muitos deles seguirão o destino dos morros cariocas, com grupos de milicianos disputando o tráfico.
As periferias das cidades paulistas, os cortiços, as ocupações e as biqueiras próximas aos centros das cidades, sem garantias e ordem, vão se armar para garantir suas bases comerciais de tráfico de drogas.
As viaturas policiais, que hoje abordam os cidadãos com certa tranquilidade, pois quase todas as biqueiras paulistas atuam desarmadas, voltarão a enfrentar grupos armados, e a cabeça dos policiais mais ativos ou corruptos voltarão a ser disputadas.
Entregaremos para aqueles que nasceram após a década de 1990 uma São Paulo e um Brasil como eles nunca viram, livre da hegemonia da facção Primeiro Comando da Capital!
Só não entendo por que não senti a empolgação que esse momento merecia por parte da repórter Aline Ribeiro e do promotor de Justiça Lincoln e seus colegas, afinal, vencemos – Uh, uh?
O que diria Michael Fredholm sobre o terrorismo e a facção Primeiro Comando da Capital.
A facção paulista é ou não um grupo terrorista?
Você e eu já sabemos a resposta à pergunta: “O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é uma organização terrorista ou uma facção criminosa?” — a resposta está na ponta da língua: eles são criminosos. É incrível, mas tem gente que não entende isso, como é o caso do sueco Michael Fredholm.
Fredholm acha que entende das coisas só porque é um analista militar e historiador, especialista em estratégias de defesa, política de segurança internacional, tendo feito estudos profundos sobre a geopolítica da Eurásia, o extremismo islâmico, as causas e as estratégias de defesa para combater o terrorismo, isso tudo e muito mais.
Ele conta que entre os especialistas “atualmente, poucos, se houver algum, argumentam que o crime organizado e o terrorismo são organizações significativamente diferentes […] ambas utilizam os mesmo meios e métodos criminais para adquirir o financiamento necessário [para alcançar seus objetivos ideológicos]” (tradução minha).
Ambos utilizam-se de métodos e modus operandi semelhantes: a criação do medo como ferramenta estratégica para a captação ou a circulação de recursos ilegais. Essa é a essência do terrorismo, mas também é utilizada pelas facções criminosas. Algo que deveria diferenciar um grupo de outro seria a origem do financiamento da organização, mas não é bem assim.
Os terroristas, para assim serem denominados, deveriam ser sustentados por estados ou grupos de simpatizantes, enquanto o crime organizado seria alimentado pelas ações criminosas, mas na prática, por vezes essa lógica não prevalece.
Um exemplo da inversão na prática desse conceito teórico é que o Primeiro Comando da Capital, que tem como uma importante fonte de recursos as doações feitas por todos os irmãos batizados, que pagam um valor mensal, se contrapondo a organização islâmica Al-Qaeda que tem utilizado como fonte de recursos o contrabando de armas, drogas, e seres humanos na região no Cone Sul.
As organizações terroristas que dependiam dos estados nacionais e simpatizantes para se sustentarem, sofrendo cada vez mais com o controle internacional sobre seus recursos (ONU Resolução 54/109 — International Convention for the Suppression of the Financing of Terrorism), passaram a atuar muitas vezes como as organizações criminosas tradicionais, executando assaltos a bancos ou traficando drogas e armas.
Michael Fredholm utiliza a América Latina para demonstrar quão difícil é saber o limite entre um grupo e outro. Você e eu sabemos que Dilma Rousseff lutou contra a Ditadura Militar, e naquele tempo todos acreditávamos que era a URSS quem sustentava o movimento, mas, na realidade, o caixa vinha dos assaltos a bancos e sequestros.
Ignore seu pensamento político (direita ou esquerda) e responda, pelos critérios técnicos ela seria uma: terrorista ou ladra? Afinal, lutava por uma ideologia, estaria sendo sustentada por um governo que partilharia de seus ideais, recebia recursos de lá, mas reforçava o caixa com ações criminosas.
A fronteira entre um e outro grupo, como tudo no Mundo Líquido de Zygmunt Bauman, está se dissolvendo, se já não se dissolveu e apenas não nos demos conta disso. Só citei até agora um único ponto nebuloso que separa os dois grupos, terroristas e criminosos, Fredholm enumera e discorre a respeito de quase uma dezena.
Outro é a ideologia. Agora sim. Um ponto forte que separa os terroristas dos criminosos é que o primeiro luta por uma causa, e o segundo apenas por lucro. O Primeiro Comando da Capital, desde que foi criado, busca acabar com a opressão dentro do sistema prisional, as desigualdades sociais e a ausência do Estado nas periferias das cidades, então…
O PCC é uma organização terrorista, não uma organização criminosa, pois utiliza-se de “métodos criminais para adquirir o financiamento necessário [para alcançar seus objetivos ideológicos]”.
Fredholm escreveu um livro todo explicando que hoje não existe uma linha clara que separa um grupo de outro, mas você e eu sabemos a resposta à pergunta: “O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é uma organização terrorista ou uma facção criminosa?” — a resposta está na ponta da língua, e o sueco que fique com suas dúvidas.
Máfia russa no Brasil, depoimento de um preso no Amazonas
As operações de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro da Máfia Russa no Brasil, até o momento, não passam de uma suposição, que transformou nossos policiais federais em agentes “russofóbicos”, e a vida dos turistas russos um inferno. Pelo menos é o que afirma o empresário e aventureiro Moris Wind ou Artemiy Semenovskiy (Артемий Семеновский).
Encontrei uma pérola sem preço: Рycckий Кokaиh b Бpaзилии – Рaзoблaчaem ЛoжЬ (Cocaína russa no Brasil – Explicando as mentiras), cujo autor se auto denomina representante do CPLCRB (ОКОРГБ). Sei que você sabe que o CPLCRB é o Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil, então nem preciso te dizer.
A maneira como ele escreve me agrada, é como se estivesse contando um caso. O que deve ser novidade para os russos, para nós é uma velha história: como nasceu, e onde chegou o Primeiro Comando da Capital. Artemiy Semenovskiy não economiza tintas de cores fortes para descrever o PCC, o sistema carcerário brasileiro, e a Polícia Federal:
“Paroxismo engraçado: o próprio poder gerou e criou seu inimigo mais terrível, porque o PCC surgiu como uma reação ao caos da polícia, à desumanidade do sistema prisional, à indiferença de juízes e funcionários.” — até o russo já percebeu isso, mas nós queremos insistir mais no mesmo caminho para ver se chegaremos a um destino diferente.
Artemiy se interessa pela política brasileira, mas não parece ter uma ideia clara do que acontece por aqui, apesar de estar mais bem informado que eu — enquanto eu o entrevistava, ele comentou que a Dilma estava em St. Petersburgo. Eu fui conferir, e:“Dilma, na Rússia, ressuscita slides e se irrita com tradução de sua palestra”.
Governos desmoronando e uma polícia perdida e desmotivada, sem ter como controlar a criminalidade, pois prender um indivíduo significa colocá-lo dentro de uma organização criminosa na qual ele poderá determinar a morte do próprio policial que o prendeu. É assim em todos os estados, só muda a sigla da facção, e a virulência da gangue. — é a avaliação de Artemiy.
Nós brasileiros não aprendemos com o passado, mas Artemiy Semenovskiy, que é russo, vê aqui o que já aconteceu em sua terra com Lênin, ou na Alemanha com Hitler: a necessidade de um bode-expiatório. Para Artemiy a bola da vez são as facções criminosas, de preferência o PCC, mas para que o plano seja perfeito é preciso que o inimigo seja externo:
A Máfia Russa — cumpre duas funções: o inimigo externo, que não pode ser tocado e nem mensurado. E o atual governo ainda pode acusar o anterior de conspirar com a Rússia, pois os governos Lula e Dilma tentaram aproximação com o país. O inimigo perfeito, pois até os PCCs, por fazerem parte da sociedade brasileira, têm seus defensores.
Em uma campanha eleitoral o mérito das propostas dos candidatos não fará diferença, mas sim o poder de vender a ilusão que o inimigo imaginário possa ser contido, e para isso qualquer governo pode atacar um grupo minoritário. Para Artemiy a escolha já foi feita: desta vez serão as pessoas presas no sistema penal, e os russos.
Quando me deparei com o texto desse russo, achei que era um garoto que estava criando uma teoria da conspiração com o seu Comitê Público para a Libertação dos Cidadãos Russos no Brasil (CPLCRB), mas depois de dois dias de intensa pesquisa vi que realmente o cara ficou preso em Manaus e tem conhecimento de causa.
Agora, cabe a você analisar com o seu conhecimento, somado aos dados passados por Artemiy, e concluir se ele realmente tem razão, total ou parcial, nas conclusões as quais chegou. Quanto a mim, outro dia volto aqui para contar as aventuras e desventuras passadas por ele nesse caso, assim como de outros russos que estão presos no Brasil.
Concordo com você, não tem como comparar uma coisa com a outra: nem o sistema prisional escandinavo, nem o americano podem ser usados como modelo para o latino-americano.
As condições econômicas e a forma de organização social são diferentes e impedem que utilizemos aqui essas experiências que foram aplicadas com sucesso lá.
Ana María Munizaga e Guillermo Sanhueza, no entanto, acreditam que é possível o modelamento escandinavo.
Talvez seja difícil trazer para nossa realidade a experiência escandinava, mas a chilena, nem tanto.
[…] as deploráveis condições de vida nos estabelecimentos penitenciários do país, aliadas à falta de uma política carcerária, não permite a reinserção social dos internos; […] celas abarrotadas, sem higiene, ventilação, e luz; […] os tratos cruéis e as situações indignas a que são submetidos os reclusos […] — (tradução minha).
Essa descrição feita pela fiscal da Suprema Corte chilena, Mónica Maldonado, poderia ser utilizada para qualquer instituição carcerária brasileira, então, realmente, não somos tão diferentes de nossos irmãos andinos.
Os articulistas ressaltam que a busca pela adaptação ao modelo externo tem como finalidade não apenas o aumento do índice de ressocialização e das condições dos internos, mas também elevar a segurança e melhorar as condições de trabalho dos agentes penitenciários, além de beneficiar toda a sociedade. Pode ser que estejam sonhando de mais, pode ser que não.
O ministro da Defesa, Raul Jungmann, no entanto, acredita que é possível o modelamento segundo o sistema americano, por meio de sua proposta de introdução, aqui, da visita monitorada: o preso fala com seu advogado, parente, ou visita autorizada, separados por um vidro, através de um telefone, com a conversa gravada.
Se você acredita que não é possível adaptar a nossa cultura àquilo que foi utilizado com sucesso pelos nórdicos, deve pensar também que não é possível adaptar a nossa cultura àquilo que foi utilizado com sucesso pelos americanos.
“Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.”
Sérgio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, ressaltou nossa característica cultural de agirmos com emoção.
Emoção essa que faz com que eu e você nos decidamos se devemos ou não aceitar como possível a utilização, em nosso país, de uma experiência estrangeira deixando de lado uma análise racional, afinal, somos culturalmente emotivos.
A proposta escandinava, se bem aplicada e fiscalizada, economizaria rios de dinheiro para os cofres públicos ao colocar em liberdade uma massa de presos, que é o sonho do PCC 1533, sua proposta de vida, mas também é o seu maior pesadelo, pois ele se fortalece e se reproduz dentro das prisões superlotadas — quanto mais duro o sistema, mais forte ele fica.
A proposta americana, por sua vez, se bem aplicada e fiscalizada, economizaria rios de dinheiro para os cofres públicos ao evitar os crimes que ocorrem fora dos presídios, e também tornaria mais dignas as visitas, que não teriam que passar pelas vexaminosas revistas íntimas, que é outro sonho do PCC 1533 — mas que, assim, deixaria a facção sem as drogas e os celulares trazidos pelos visitantes.
Somos brasileiros e não agiremos com a razão, e sim com a emoção.
Aqueles que acreditavam antes de ler esse texto que o melhor é endurecer as penas e isolar os presos, acreditará que a solução americana será a melhor e deverá ser aplicada em nosso país — mesmo que os pesquisadores chilenos e a experiência escandinava provem o contrário.
Aqueles que acreditavam antes de ler esse texto que o melhor é humanizar as penas e socializar os presos, acreditará que a solução escandinava será a melhor e deverá ser aplicada em nosso país — mesmo que o atual governo e a experiência americana provem o contrário.
Grande vitória! Dezenas de ações que estão correndo contra a cúpula do Primeiro Comando da Capital e seus principais operadores em todo o país terão que ser trancadas e até arquivadas, dependendo do caso.
O senador Flávio Bolsonaro conseguiu barrar na Justiça as ações que tiveram como base relatórios do COAF sobre movimentações financeiras:
É importante que as defesas de cada um dos irmãos ou aliados que estejam respondendo processos que se encaixem nessa modalidade que procurem a defesa pois o efeito não é automático.
Todos se lembram dos ataques do Primeiro Comando da Capital em maio de 2006, mas poucos se lembram do estopim que detonou aquela ação que deixou algo em torno de 600 mortos e paralisou o maior estado da nação.
O Policial Civil Augusto Peña e seus comparsas da delegacia sequestraram e usaram a prisão da delegacia para guardar Rodrigo Olivatto de Morais, o sobrinho de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola do PCC.
Peña mudou a história de nosso país, o Primeiro Comando da Capital e o Brasil não seriam o que são hoje se não fosse aquele sequestro.
Essa prática, no entanto, persiste até hoje. Quem é do mundo do crime já sentiu na pele ou ouviu histórias de pessoas próximas que foram extorquidas, sequestradas ou mortas de maneira covarde por criminosos com distintivos.
A prisão dos policiais civis que usaram como mocó para uma vítima de sequestro a sede do DEIC no Carandiru, apenas expõe para o público o que acontece todos os dias em quase todas as quebradas do estado.
Com os policiais que sequestraram e extorquiram Bruno Fernando de Lima Flor, o PCC Armani, foi encontrado grande quantidade de dinheiro vivo, algo comum entre criminosos que tem que esconder a origem de ganhos ilícitos, e também da família Bolsonaro.
O sequestro foi em junho de 2020, mas só foi revelado agora no final da investigação do Ministério Público de São Paulo.
Os policiais utilizaram para o sequestro do PCC Armani um veículo roubado no Rio de Janeiro. Após rendê-lo em um posto de gasolina, levaram-no até sua residência de onde subtraíram 15 mil reais e exigiram um resgate de 300 mil Reais, mas acabaram negociando e deixando por 75 mil. — mpsp.mp.br
A Operação Quebec Sierra Julietidentificou seis pessoas envolvidas: os dois policiais civis presos, quatro outros agentes investigados, além de dois advogados que intermediaram as negociações. — G1
Nuvens escuras pairam sobre o Primeiro Comando da Capital em Ribeirão Preto onde o Comando Vermelho implantou uma célula que está levando a morte para suas quebradas.
Nessa semana, dois ataques mataram dois PCCs, um na zona Norte no bairro Orestes Lopes e outro na zona Oeste no Jardim Progresso. Até agora já morreram 14 integrantes das duas facções, segundo o Portal Thathi.
A polícia ainda não esclareceu as mortes, no entanto deu mais um golpe no PCC ribeirão-pretano com a Operação Rumo que desbaratou o esquema que enviava para a Chapada Diamantina na Bahia parte da droga recebida na cidade. — ACidadeON
Já se passaram dois anos e quatro meses da transferência de Marcola e de outros líderes do Primeiro Comando da Capital para os presídios federais, tirando o risco de desgaste e um ataque do PCC no estado e o custo da manutenção desses presos.
Bolsonaro conseguiu holofote na mídia na hora da transferência, mas sem resultado esperado — a facção continua tão atuante quanto antes devido a sua organização celular.
Além custo da manutenção em presídios federais, o governo central tem que manter efetivos militares de “Garantia da Lei e da Ordem” para reforçar a segurança e mesmo assim corre riscos.
A prisão em Brasília de Lucirne Silva Conceição é prova disso. Ele, que é um dos responsáveis pela chacina dos CVs no Amazonas, estaria planejando o resgate das lideranças do PCC, mas acabou sendo preso durante a Operação Coalizão do Bem. — Mirelle Pinheiro para o Metrópoles
A inteligência da PM estava acompanhando um membro do Primeiro Comando da Capital. Já próximo a sua casa, na zona rural de Colombo, na grande Curitiba, foi alcançado pela viatura do BOPE e que partiram para a abordagem. O integrante do PCC, trocando tiros, correu para o matagal, mas levou a pior. — Daniela Borsuk para o ricmais