Liderança do PCC deve garantir o dinheiro da caixinha da facção

Com a prisão dos líderes da organização criminosa Primeiro Comando da Capital estaria caindo a qualidade se seus líderes.

Você já recebeu uma mensagem de voz no Whatsapp que fizesse você parar e pensar? Eu recebi uma assim, há umas três semanas. Parei o que estava fazendo e repeti a gravação, vinda de dentro de um dos presídios paulistas, na voz alguém que se identificou, mas o nome e a posição dele dentro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) eu não me lembro.

Ele começou mais ou menos assim:

“Sabe qual o problema do Primeiro Comando da Capital hoje? Não tem mais liderança! Ninguém mais é líder, acabou…” – ao fundo, aquele vuco-vuco dos áudios que vem de dentro do sistema.

Logo imaginei o Marcola e o Gegê ouvindo isso, e o cara não parou de falar por mais de dez minutos. O cara realmente é bom, a organização criminosa Primeiro Comando da Capital tem um líder mais preparado do que a maioria das empresas, órgãos governamentais e centros acadêmicos que eu conheço.

Depois do impacto inicial, o cara virou o jogo, sempre transmitindo forte emoção na voz que arrepiaria qualquer irmão 121 ou “157 mil graus”:

“Aqui só tem chefe e ninguém precisa de chefe, o Primeiro Comando não precisa de chefes, nós estamos presentes em vinte e três estados e seis países e o que precisamos são de líderes. Se você quer ser chefe está no lugar errado, precisamos de líderes aqui!”

E assim foi. No último meio século de minha vida, não ouvi um discurso motivacional tão forte quanto o desse cara, que é o cara. Bem, mas não é por causa desse áudio que escrevo esse texto; vim para falar de Liliane, uma irmã do PCC, alguém sabe o vulgo dela?

“Em 2004, Liliane foi presa por roubo, ficando até 2006, época em que conseguiu fugir, pulando o alambrado da cadeia com mais 10 companheiras. Ficou foragida durante 7 anos e, no início, recebia proteção financeira do PCC, que pagava seu aluguel e dava uma ajuda para viver.”

Quem me contou isso foi Leda Fleury Monastero, e esse trecho está em seu trabalho de doutorado apresentado à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP): Mães em Situação de Encarceramento e a Relação com seus Familiares: um estudo em unidades prisionais na cidade de São Paulo.

Citei aqui o áudio d’o cara, porque ele foi feito para fortalecer o engajamento de sua equipe para aumentar a arrecadação do dinheiro da caixinha, da rifa e do pagamento das mensalidades, por meio de um trabalho integrado de todos dos setores – Sintonia, Disciplina, e Financeiro –, além de diminuir a inadimplência e o não engajamento dos irmãos.

Foi essa grana que ajudou Liliane e ainda ajuda outros na mesma situação. Termino com outro trecho d’o cara que era mais ou menos assim:

“Tem muitos aí que reclamam de pagar e contribuir, mas isso não faz parte da ética do crime. Não tem ninguém aqui em cima precisando ou vivendo desse dinheiro, duvido que tenha algum irmão que não tenha sido ajudado ou tenha conhecido alguém que tenha recebido ajuda quando precisou.

Quantas cunhadas e mães não conseguem visitar os filhos e maridos indo com as vans e os ônibus, e de onde vem o dinheiro? Quantos filhos e quantas famílias estariam passando fome e necessidade se não fosse esse dinheiro?

E tem muito irmão que está em liberdade e não quer colaborar, dizendo que está passando dificuldade, mas depois fica gastando dinheiro com as primas e ostentando. Isso não é atitude de bandido que segue a lei do certo, isso é atitude de moleque.

Cadê a liderança para chegar junto? Cadê o Disciplina do PCC? Tá aí só pelo status, é bom cantar de irmão Disciplina do PCC, tem moral em qualquer quebrada mas e aí? Tem medo de cobrar, então sai fora, porque aqui é o Primeiro Comando da Capital.”

A guerra não chegou a São Paulo, mas as armas sim

Tem muita gente que é a favor de que as “pessoas de bem” se armem para se defenderem, afinal não se pode mais confiar na polícia para sua proteção.

Eu só não entendo quando um policial defende essa tese, é como assinar um atestado que não tem condições de fazer seu trabalho e quer que cada um cuide de seu próprio traseiro – além de ser um tiro no pé para quem faz bico (bravo).

No mundo do crime não é diferente, durante muito tempo os moleques e gerentes das biqueiras confiaram sua segurança a proteção da facção e de seus disciplinas, depois da ameaça de ataque (e alguns sofreram na pele) dentro do estado de São Paulo, o clima de insegurança chegou até as quebradas.

A guerra entre as facções fez com que até as biqueiras se armassem em São Paulo”, afirmou o delegado Ruy Ferraz Fontes

A molecada que antes trabalhava desarmada começou a andar trepada. Agora a polícia paulista começa a sentir o efeito. Sempre que chegava em uma biqueira não encontrava resistência, agora já não é bem assim, pelo menos é o que conta Marcelo Godoy na reportagem:

Até pequenos traficantes já buscam armamentos

Lembrando, que ao contrário dos polícias que defendem que a população ande armada, a facção não retirou o salve para , moleque ficar mostrando arma para a população, e se tiver morte não autorizada…

Em São Paulo, … há um oligopólio oferecendo proteção às biqueiras: o PCC.” Michel Misse professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista em Segurança Pública.

Só para lembrar a fita de como era antes do PCC resolver o caso das armas em São Paulo…

Naquele tempo a situação era outra, não tinha disciplina. Era tudo na faca, na bala. Cobravam água, luz, tudo dos moradores. E ai de quem reclamar! Não tinha respeito. Qualquer fita já chegavam intimidando, dando tapa na cara, mostrando arma. Hoje ninguém mais anda armado, a não ser quando precisa, mas é raro. Porque tudo hoje se resolve na ideia. E o morador fica mais tranquilo também, porque ele sabe que nóis tem uma ética e não vai expulsar ele do barraco sem mais nem menos. Porque nóis age pelo certo.  (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Como se faz para sair do PCC?

Se tá de sacanagem né, você acha que o Primeiro Comando da Capital é putaria? Entra quando quer, sai a hora que quer, de boa? Não é bem assim não, se virou crente e quer tirar a camisa, ou tem alguma coisa com tua família…

Vou falar pra você, essas são as perguntas que mais aparecem por aqui, e eu falo para procurar o sintonia e trocar ideia, é assim que se faz.

Mas por que não escrevi sobre isso antes? Por que eu fico na minha, só que agora fui cobrado, alguém leu no site do Terra que é putaria e acharam que fui eu:

Quando sair, tem que rasgar a camisa e ficar de boa”, diz um homem por telefone, após ser retrucado por uma mulher investigada: “Não tem que rasgar a camisa, não; tem que arrancar a cabeça dele”

Meu, quem falou essa idiotice foi o site Terra que começa mais ou menos assim:

“Pela primeira vez desde que surgiu nas prisões paulistas, no início da década de 1990, a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) permite que seus integrantes deixem a facção sem sofrer retaliações. A informação consta em um salve – carta endereçada a seus participantes -, apreendida em uma penitenciária no interior do Estado.”

A reportagem é boa, fala muita coisa certa e outras que já não valem mais, diz por exemplo que a facção “decretou perseguição aos homossexuais“, pare, é verdade que a facção não aceita gay como irmão, mas não tem perseguição não.

O cara que quiser seguir esse caminho e viver a sua vida, desde que: tenha respeito dentro do sistema sem ficar se insinuando ou praticando o que não deve, ou faltando com respeito na hora das visitas, ou nas ruas denegrindo o nome da facção.

Então não tem isso que falou na reportagem não.

O que é verdade é só que tem que chegar no sintonia, aí ele vai consultar quem tem que consultar e vai te dizer se pode ou não seguir sua caminhada tranquila, e também é verdade que se ele deixar sair não tem volta não. Já era, no PCC e no mundo do crime.

Se pensa em sair da facção e continuar nos corres, esquece, vai ser chamado para conversar, primeiro de boa, depois nem tanto. É assim que funciona, e se triscar do lado errado da vida errada, a conversa é de alto nível, é assim que funciona.

Mas pensa bem antes de procurar o sintonia, por que ele não vai esquecer que você foi falar com ele, e se depois você resolver sair pela porta dos fundos, a pilantragem vai ser cobrada.

Tem alguns irmãos que resolveram sair pela porta dos fundos, vou te explicar como se faz isso, mas cada um sabe o que pode acontecer se der errado.

Para sair só tem dois jeitos, ou o sintonia libera ou se é expulso.

Tem ladrão que entra no PCC para usar a máquina, os contatos, aí ganha dinheiro e quer sair, como sabe que o sintonia não vai liberar, o irmão passa a contrair dívidas com aliados e companheiros, daí não paga, foge da responsabilidade, deixa de atender os chamados dos outros irmãos, ou dar explicação para o disciplina.

O prejudicado, mesmo não sendo irmão, pede para o disciplina ou para o sintonia providência, e como o cara não responde os contatos é excluído. Tem outras formas de ser excluído sem que haja uma cobrança muito rígida em cima do irmão, e é esse caminho que muitos tem feito.

Virei crente e quero sair da camisa.

Não é bem por aí, a facção aceita que alguém que virou evangélico deixe de boa depois de acertar suas contas, mas sabe que nunca mais vai poder entrar na vida do crime, de nem um jeito, se Deus vai cuidar da alma do cara, o PCC vai cuidar que ele não se desvie ou poderá seguir mais cedo para o seio de Abraão.

Meu filho nasceu e quero sair da facção.

Aqui é Crime Organizado, é o respeito no mundo do crime, se vestiu a camisa tem que honrar, a família de quem entra na Família 1533 é a família 1533, tua família de sangue tem todo o respeito, mas quem sustenta ela é o crime, então pensa bem antes de sair, pois quem vai sustentar ela se você morrer ou ficar sem emprego?

Tudo passa pelo sintonia

Eu nem ia escrever aqui sobre isso, mas como a matéria do Terra está dando ideia errada eu vim esclarecer, essa não é a voz da facção, se quer ouvir o que ela diz vai perguntar para o Marcola, eu só falo o que está aí e todo mundo sabe.

Tem muito moleque que quer entrar no crime, sai fora, o crime é um lixo, todo ladrão sonha em sair do crime mesmo quando está em liberdade, sonha em ter uma vida normal, chegando em casa e vendo seus filhos crescerem, e quando estão dentro das muralhas é só sofrimento.

Nem entra, pois o mundo do crime não tem volta, taí disse, agora vou deixar para outro cara terminar, alguém que você deve conhecer e tem que respeitar, por que ele sabe do que fala e só fala a verdade:

Tô cansado dessa porra
de toda essa bobagem
Alcoolismo,vingança treta malandragem
Mãe angustiada filho problemático
Famílias destruídas
fins de semana trágicos
O sistema quer isso
a molecada tem que aprender
Fim de semana no Parque

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Geral da cidade aconselhando um companheiro.

Há muitos anos atrás, o gerente de uma biqueira em frente ao Oliver Lanches próximo a Anzu Club foi chamado para conversar com geral do Primeiro Comando da Capital –  PCC 1533 em Itu.

Conversa vai, conversa vem, e o geral que hoje nem mais irmão é pergunta ao rapaz se ele ainda estava usando drogas e lhe dá alguns conselhos:

Gerente: Só que, eu parei.

(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Geral: Então, tem que parar meu, vai ganhar dinheiro! Se um tênis está apertando seu pé, tira o tênis! Se a tose tá te prejudicando, toma um xarope! Lógico, procurar melhorar né, meu! Pô, você é um cara bom, e vai deixar a droga.

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Gerente: Tendeu.

Geral: Ela vai acabar com você. Então, acaba com ela enquanto você tá dominando ela, pela ordem, depois que ela começou a dominar você, ah!, opa!, péra aí!… É igual quando eu bebia, o que acontecia? Enquanto eu tava bom eu subia a escada sozinho, eu tava perfeito, depois que nêgo carregou eu prá subir a escada, eu falei: “Não bebo mais! Tá loco meu, tô dando trabalho prá outro. Prá mim não. Beleza.”

Gerente: Isso mesmo!

Geral: Aí eu parei. E a gente… Ah, vâmo internar prá… eu falei, não a gente tem pulso. Eu falei que parei de beber e parei de beber! Hoje em dia eu vou a um monte de festa por aí cara, nossa, cachaça é o que mais oferece, não bebo. Compro cachaça, tenho na geladeira, cerveja, esses baguios, porque tem visitantes, eu não bebo. Bebo guaraná, você entendeu? Bébe prá dar trabalho pros outros!?! Entendeu?
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