Estou entre trocar umas ideias e matar um preto

A sociedade, em diversos momentos de sua história, fez escolhas, e o Brasil, neste momento, está fazendo uma ao optar pela intervenção militar como forma de combate ao crime organizado. Na prática, o que está ocorrendo?

A antropologia do preto morto “kkk”

Não precisa ser um antropólogo ou um sociólogo para saber que a sociedade é dividida em grupos que têm apenas em comum o ódio por quem pertence a outro grupo, e as redes sociais são, atualmente, o principal meio de difusão dessas ideias.

Claro que, exceto eu, ninguém postaria “kkk mais um preto morto kkk” — todos são pessoas civilizadas. Mas tenho recebido notícias de dezenas de bandidos mortos pelas forças policiais nos últimos dias com “kkk” acompanhando.

Você também deve ter recebido, não? Legal, então busque no Google imagens de “bandido morto no Rio de Janeiro” e conte entre os cadáveres quantos são negros e pardos e quantos são brancos — cada um que clicar terá um resultado diferente, experimente o seu resultado → clicando aqui ←!

No meu caso apareceram 52 defuntos, 8 brancos e 44 negros e pardos. O que isso quer dizer? Que o negro é mais bandido que o branco, e, como “bandido bom é bandido morto”, é natural que surjam entre os resultados mais negros e pardos do que brancos (kkk) — ou será que existe outra explicação para esses números?

“O disputado varejo da venda de drogas nos morros e favelas cariocas não é onde se concentra o grande poder e o grande dinheiro do tráfico. Para fazer alguma coisa mais efetiva, ainda que reduzida ao âmbito estadual, as Forças Armadas precisariam pelo menos coordenar uma ação de inteligência que levasse à prisão de figuras da política, do Judiciário, das polícias e do meio empresarial associadas ao crime organizado.” — Marcos Augusto Gonçalves

Uma antropóloga e um cronista me ajudaram.

Duas pessoas levantaram essa questão: Karina Biondi, no artigo “Uma ética que é disciplina: formulações conceituais a partir do ‘crime’ paulista”, e João Pereira Coutinho, com a crônica “Foi o elitismo de Winston Churchill que derrotou Hitler, não o seu populismo”.

A História se repete bem em frente aos nossos olhos.

A soma dos dois textos e as fotos que têm circulado nas redes sociais me levam a crer que estamos hoje repetindo o momento histórico narrado por Coutinho, no qual Churchill se contrapôs ao Lord Halifax e a Neville Chamberlain.

Naquele tempo havia dois grupos, um que pretendia seguir negociando e buscando soluções que evitassem o confronto com um povo que foi oprimido pelo Tratado de Versalles, empobreceu e lutava por sua sobrevivência.

Uma guerra contra a Alemanha significaria matar milhares de pessoas inocentes no país e que não mereciam ser sacrificadas por viverem em uma região dominada por alguns criminosos.

É um crime contra o estudo da história comparar duas realidades em dois momentos históricos diferentes e em duas sociedades distintas e tentar fazer uma análise — mas será mesmo?

Nós somos como os ingleses, só não sabemos disso.

Boa parte da população brasileira, hoje, está reagindo da mesma forma que a maioria dos britânicos reagiu naquele tempo — preferindo medidas policiais investigativas e ações sociais sem intervenção militar.

Uma intervenção militar nas favelas cariocas significaria matar centenas de pessoas inocentes que não merecem ser sacrificadas por viverem em uma região dominada por alguns criminosos.

O pesquisador canadense Graham Denyer Willis, afirma que esse tipo de ação reforça ainda mais a subvalorização, dentro da polícia, dos agentes que trabalham na investigação dos homicídios…

“…porque as vidas que investigam em geral não têm valor, são pessoas de partes pobres da cidade [já] os batalhões especializados em repressão, como a Rota e a Força Tática da Polícia Militar têm carros incríveis, caveirões, armas de ponta. Isso mostra muito bem a prioridade dos políticos, que é a repressão física a moradores pobres e negros da periferia. Não é investigar a vida dessas pessoas quando morrem.”

Churchill, ao contrário da maioria pacífica da população britânica, apostou na guerra, no enfrentamento armado, com batalhões especializados, táticas militares, tanques de guerra, armas de ponta, e com milhares de inocentes morrendo — mas derrotou a Alemanha e se tornou herói.

Temer e aqueles que optaram por apoiar as ações militares seguem essa mesma linha de raciocínio e, se forem vitoriosos, serão lembrados pela história como tendo sido aqueles que ousaram enfrentar o Crime Organizado de frente.

As redes sociais e a rede social da facção PCC 1533

Imagino que se na Segunda Grande Guerra houvesse redes sociais, os americanos estariam postando foto dos garotos alemães e japoneses mortos durante as batalhas acompanhados dos três potássios: kkk, assim como os alemães dos judeus no campo de concentração com a frase “um lixo a menos kkk“, mais ou menos como acontece hoje.

Mas que alternativa tiveram aqueles que morriam — não importa kkk!

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro

Karina Biondi, por outro lado, mostra como a situação é muito diferente nos domínios do Primeiro Comando da Capital.

Até o final do ano passado era proibido o uso de armas nas biqueiras paulistas, e ostentar arma na comunidade era o mesmo que assinar uma sentença de morte.

Todos os problemas são resolvidos dentro de uma estratégia de negociação, a chamada “troca de ideia”, e mesmo o que corre pelo errado tem chance de se explicar e se adequar para ficar dentro da ética da comunidade.

Ética do Crime — por favor, se não concorda com o termo leiam os trabalhos de Biondi e mandem as críticas para ela, aqui eu apenas apresento a todos, que podem concordar ou não com o seu uso.

A forma de agir da facção paulista é algo que qualquer cidadão branco, intelectual e iluminista diria que é como o Estado de Direito deve agir para manter a paz social, se contrapondo à política de invasão militar.

No artigo “A ocorrência de homicídios no município de São Paulo: mutações e tensões a partir das narrativas de moradores e profissionais” afirma que a partir dos anos 2000 com o estabelecimento do Primeiro Comando da Capital nos bairros periféricos paulistas:

“… a redução[da taxa de homicídios] ocorreu de forma generalizada, ou seja, em todos os grupos etários, de cor e sexo, bem como em todas as áreas do município de São Paulo, classificadas conforme diferentes graus de exclusão social. Contudo, foi ainda mais acentuada entre a população masculina, entre jovens (de 15 a 24 anos) e moradores de áreas de exclusão social extrema.”

A história mostra que não existe certo ou errado, apenas pontos de vista opostos, que serão louvados ou condenados pela história, enquanto a nós cabe apenas aplaudir a morte dos pretos e pardos ou nos contrapor ao genocídio seletivo, deixando para o futuro o julgamento de nossos atos baseados na lógica do vencedor.

Número de negros mortos pela polícia em São Paulo

A Terceira Geração do Primeiro Comando da Capital

A evolução para o campo político da facção PCC 1533 está sendo chamada pelos especialistas de A Terceira Geração do Primeiro Comando da Capital. O que existe de real e de imaginário nessa teoria?

O que representa essa morte para futuro político da facção?

Não há quem acredite em outra hipótese para a morte de Gegê do Mangue que não a de uma disputa dentro da estrutura do Primeiro Comando da Capital, a facção PCC 1533. Há divergência quanto as razões, mas não quanto aos possíveis mandantes.

O texto a seguir já estava pronto antes do assassinato, trata em resumo da tendência do Primeiro Comando de se infiltrar discretamente e utilizando contatos pessoais na estrutura política, administrativa e social — com a retirada de Gegê do tabuleiro, essa tendência da facção paulista ficaria fortalecida, se contrapondo as ações de guerrilha.

Artemiy Semenovskiy, Luis Carlos Valois, Geraldo Alckmin e eu temos ligações com o PCC — pelo menos é o que aqueles policiais comentavam nos grupos de WhatsApp e Facebook; no entanto a diferença entre nós e eles é que nós continuamos em liberdade, e eles, agora, estão presos.

O que falei neste site sobre o Alckmin → ۞

Essa é a chamada Terceira Geração do PCC

Diorgeres de Assis Victorio foi a primeira pessoa que tenho conhecimento de ter dado destaque ao termo Terceira Geração do PCC, em 24 de janeiro de 2018, no artigo PCC: Terceira Geração, no site Ciências Criminais. No dia seguinte, no site Small Wars Journal, os pesquisadores John P. Sullivan, José de Arimatéia da Cruz e Robert Bunker publicaram a matéria Third Generation Gangs Strategic Note No. 9.

Este site apresenta o Terceiro Estatuto do PCC com o nome Estatuto de 2017 → ۞

O texto do Ciências Criminais apresenta a mudança que se deu com a elaboração do chamado Terceiro Estatuto do PCC para uma nova realidade, menos confrontante e mais voltada ao lucro, à estruturação organizacional e às relações com a comunidade.

Já o texto do Small Wars Journal atenta para a estratégia de infiltração na política e na estrutura social adotada pela facção paulista.

A ligação entre os dois trabalhos é a Cartilha do PCC — documento chave da organização, que instiga seus membros e suas famílias a estudar e buscar apoio da sociedade para as justas reivindicações da facção:

Aposte e acredite no aperfeiçoamento e na conscientização para diminuir as perdas nas lutas, para vencer procurem estudar, procurem conhecimento e principalmente procurem aprender essa nova mudança, essa nova era.

Os políticos que promovem candidaturas baseando seu discurso no combate ao crime e só constroem presídios como depósitos de homens, mentindo para a sociedade, dizendo que estão acabando com a criminalidade e resolvendo o problema de superlotação. Mentem descaradamente: os governos dos estados, as secretarias de segurança pública, as administrações penitenciárias, os serviços de inteligência da polícia e da promotoria pública, o Denarc e o GAECO.

Acompanhem as trocas dos cargos políticos: quem são são essas autoridades, governos, secretários de segurança, administração penitenciário. Fiquem sempre atentos a política deles pois são essas pessoas as diretamente responsáveis pelo sistema penitenciário. Exponham nossas dificuldades e com isso conquistaremos nossos direitos como presos usando as mesmas armas que eles usam contra nós.

A propaganda, a divulgação, a mídia vamos maciçamente nos expressar à sociedade, mostrar esse lado esquecido, em cenário de tantas injustiças e violência.

Texto integral da Cartilha do PCC → ۞

Eram falsas as acusações?

Artemiy Semenovskiy, um russo que certa vez esteve preso em COMPAJ, ninho do Comando Vermelho (CV), lembrou-me que o juiz Dr. Luis Carlos Valois, que negociou com o FDN e CV o fim das matanças nos presídios de Manaus e hoje é ameaçado de morte pelo PCC, o governador Geraldo Alckmin, que bateu todos os recordes de prisão de PCCs, mas que a oposição lhe atribui um acordo com a facção, e eu estamos no mesmo barco…

… nós temos ligações com o Primeiro Comando da Capital.

Já alguns daqueles policiais que comentavam nos grupos de WhatsApp e Facebook sobre nós estão presos por corrupção e envolvimento com a facção criminosa. Como isso se deu?

Nós e nossas verdades vivemos em um mundo imaginário.

Para entender o mundo todos nós analisamos os fatos que nos chegam utilizando nosso raciocínio, mas ele não consegue dar significado às conclusões; para isso utilizamos uma outra ferramenta que temos: a imaginação — não vou me alongar nesse ponto, em caso de dúvidas procure Gilbert Durand.

A vida é diferente do que nos mostra o cinema.

A leitura do artigo do Small Wars Journal reflete a realidade do envolvimento do crime organizado na política como é apresentado em todas as culturas: filmes como o brasileiro Tropa de Elite II, os indianos Raees e Kabali, o francês Marseille, o russo Ladrões na Lei [Воры в законе (фильм)], e séries de TV como a Brigada (Бригада).

No entanto, aqueles policiais que foram presos enquanto nós outros ficamos em liberdade não se conformam, afinal, eles não tinham envolvimento com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital, e, sim, nós — pelo menos dentro do imaginário que nossa sociedade criou através de suas produções cinematográficas.

Em verdade, a facção Primeiro Comando da Capital não organiza ações políticas como são mostradas no cinema e no artigo citado. Não existe um poder controlador supremo que articula as candidaturas: pela própria natureza e estrutura da organização o envolvimento com a política se dá de outra forma, muito mais celular, muito mais pessoal…

… o jornalista Renato Oliveira do site Verbo Online que o diga!

Os policiais foram presos por aceitarem uns trocos de conhecidos para passarem informações ou pegarem dinheiro de garotos ou de gerentes de biqueira. Eles jamais imaginariam (pois não faz parte do imaginário popular sobre o envolvimento com uma organização criminosa) que seus nomes seriam lançados na contabilidade da facção — o mesmo se dá com alguns políticos, mas isso rende outro artigo.

Conheça também outro artigo de Diógenes: PCC: Terceira Geração (parte 2)

Tribunal do Crime do PCC — Reconhecimento Social

Nas periferias, o Estado de Direito é ditado pelo crime organizado, mas, ao tentar assumir esse papel, o facção PCC 1533 passou a se curvar com o peso da responsabilidade de manter um Sistema de Justiça com direito à defesa.

O que acontecerá se os Tribunais do Crime da facção PCC 1533 deixarem de atuar nas periferias e dentro do Sistema Carcerário? Tudo de bom, né? Talvez, mas não é o que nos aponta César Barreira, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB).

Parte da população só conhece a Justiça através do coturno do policial, que aborda seus filhos nas periferias das grandes cidades, ou dos Tribunais do Crime do Primeiro Comando da Capital, que prendem, torturam, julgam e executam.

O que falamos neste site sobre o Tribunal do Crime → ۞

E onde está o Estado de Direito ou o Estado Constituído?

Termos falados com boca cheia por quem mora longe das áreas de risco é para a maioria da população uma utopia feita para poucos.

A eficácia do Tribunal do Crime do Primeiro Comando da Capital está em declínio há algum tempo, mas não aparecia oportunidade para eu escrever sobre o tema — isso até Juliana Diógenes publicar o artigo GDE é facção criminosa nova, atrai adolescentes e tem crueldade como marca, no qual o sociólogo César Barreira diz que a facção PCC 1533, assim como as outras instituições que sobreviveram ao tempo, envelheceu e tomou juízo.

Devido a esse fenômeno, parte da população passou a reconhecer os Tribunais do Crime da facção paulista como um instrumento de Justiça — essa que antes só era conhecida através do coturno do policial ou pela televisão, quando surgiam pessoas falando com boca cheia sobre o Estado de Direito e do Estado Constituído.

O julgamento do Tribunal do Crime do PCC, antes sumário, hoje passa por um processo com direito à defesa e contraditório — com o aperfeiçoamento do mecanismo de apuração houve aumento do tempo do cativeiro dos réus, possibilitando à polícia resgatar mais cativos que estavam sendo julgados e prender os disciplinas do PCC e seus garotos da contenção.

A entrevista do sociólogo César Barreira, dada à repórter Juliana Diógenes, veio justamente para me trazer luz sobre as razões pelas quais essa transformação está se dando com o PCC: ele cresceu, sobreviveu, venceu, envelheceu e, para manter o poder conquistado, sua liderança passou a colocar em risco outros membros da facção, como os disciplinas e os garotos da contenção.

Podem criticar a facção paulista por seus Tribunais do Crime, mas nem percam tempo: eles tendem a se extinguir — e creio que nenhum brasileiro tem a ilusão de que o Estado de Direito ou o Estado Constituído irão tomar o seu lugar e levar Justiça às periferias.

César Barreira avisa que a molecada das outras facções vão assumir essa posição…

… eu disse: “vão”? Desculpe, os garotos das facções aliadas, Guardiões do Estado (GDE 745) no Ceará e Bonde dos 13 (B13) no Acre, já estão atuando com seus Tribunais do Crime, e, pior, as facções já nasceram para correr pelo lado errado, também.

O que falamos neste site sobre a facção Guardiões do Estado → ۞

O que falamos neste site sobre a facção Bonde dos 13 → ۞

“Seja intencional ou não, crime desempenha um papel social enorme nas favelas. A polícia tem sido simplesmente uma força de ocupação. Tudo que o crime tem oferecido estas comunidades, o Estado terá de substituir. … Todos os tipos de apoio. Crime preenche um vácuo deixado pelo Estado “. — Marcinho VP (Comando Vermelho CV)

A periferia “passou a ser classificado como uma democracia de baixa intensidade, ou uma semidemocracia. Pois, apesar de existirem os dispositivos institucionais, eleitorais e até alguns traços cívicos, elencados anteriormente, não é capaz de gerar um estado de direito democrático que assegure os direitos civis e políticos de parte considerável de sua população.” Antônio Sérgio Araújo Fernandes, é professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e José Maria Pereira da Nóbrega Júnior, é professor da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

O PCC nasceu porque o sistema político deixou muitas pessoas em estado de abandono, então elas tiveram que criar alguma solução, e hoje é uma organização tão grande que, se você tentar eliminá-lo, você criará uma enorme quantidade de violência.”  — Graham Denyer Willis — University Lecturer in Development and Latin American Studies in the Department of Politics and International Studies

A polícia e a chacina de jovens negros e pobres

Direitos Humanos X Direitos dos Manos — enquanto brancos discutem nas redes sociais e nas universidades, garotos negros da periferia e policiais morrem.

A análise que aqui faço é a de um descontrole coletivo, quando veio à tona um sentimento de justiçamento frente ao expurgo social por parte daqueles envolvidos no mundo do crime, como se se aproveitassem da possibilidade de matar indiscriminadamente qualquer um que trabalhasse para as forças policiais — desculpe, errei, Tarsila Flores escreveu assim:

A análise que aqui faço é a de um descontrole coletivo, quando veio à tona um sentimento de justiçamento frente ao expurgo social por parte dos policiais envolvidos, como se se aproveitassem da possibilidade de matar indiscriminadamente.

Acredito que Tarsila, autora da dissertação Cenas de um Genocídio: Homicídios de Jovens Negros no Brasil e a Ação de Representantes do Estado, concorde comigo e deixe eu inverter algumas palavras, sem comprometer a ideia, afinal ela mesma escreve em outro trecho sobre policiais e bandidos:

[São] como a imagem de uma dobradiça: duas partes de um mesmo conjunto, contrários no que se percebe quando a porta está fechada; mas, quando se abre, a dobradiça coloca as duas partes em pé de igualdade. Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala…

Garotos pobres e policiais morrem em matilha…
… acadêmicos discutem sobre isso como manada

Marcos Beccari e Ivan Mizanzuk se questionam sobre as razões pelas quais o conhecimento acadêmico não consegue fazer com que a luz do conhecimento produzido chegue ao mundo real, e Ivan chega a conclusão que as Ciências Sociais estão em crise e a Filosofia de fato morreu, assim como morrem os garotos e os policiais.

Garotos e policiais não perdem tempo como Marcos Beccari, Ivan Mizanzuk, Tarsila Flores, eu e você discutindo como as coisas devem ser, nos colocando como defensores dos fracos e oprimidos, ou da lei e da ordem — com nossas certezas, repetindo nossas verdades para aqueles que conosco concordam e vendo nos outros o inimigo.

A onda de matança que atinge os corpos consideráveis “matáveis, pessoas que não vão falar muito por eles, normalmente em bairros mais pobres”, como afirma a tenente-coronel da reserva da PM paraense, Cristiane do Socorro Loureiro

Mas os inimigos somos nós, e essa é nossa sina.

O segredo da sobrevivência do Homo sapiens é a sua capacidade de se fechar instintivamente em grupos. No passado isso garantiu a sobrevivência da espécie e ainda hoje nos unimos em manadas para defender nossas ideias nas academias e redes sociais, ou em matilhas para defender nossas vidas nas periferias.

O que falei sobre a guerra entre facções neste site → ۞

Enquanto alguns discutem cheios de razão, outros morrem sem nenhuma razão, como nos conta Yan Boechat:

A chacina “… segue um padrão macabro: como boa parte dos homicídios no país, ocorreu em uma área pobre da cidade, vitimando em sua maioria jovens e, provavelmente, negros e pardos. Passava da meia noite quando o grupo de homens armados com coletes táticos, fuzis, pistolas e balaclavas apareceu no bairro (…) uma área pobre da periferia (…) chegaram atirando em qualquer pessoa que estivesse pela rua (…)”

Desta vez, os assassinos também eram negros e pobres da periferia.

O sociólogo Sérgio Barreira de Faria Tavolaro, da mesma Universidade de Brasília para qual Tarsila apresentou sua tese, enfim, fez passar uma fresta de luz para fora das muralhas da acadêmica: o problema não é o racismo ou a opressão do Estado, a zica está na testosterona e no comportamento de grupo — seja do jovem marginalizado ou policial.

Os garotos da facção Guardiões do Estado (GDE 745), aliados do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533), atacaram um reduto do Comando Vermelho (CV) por ousadia e adrenalina, algo que apenas uma matilha jovem e forte possui — os garotos nada mais são que humanos, assim como os policiais paulistas que em 2006 se uniram para sobreviver.

O que falei sobre a facção Guardiões do Estado neste site → ۞

Retornamos então a questão inicial proposta por Tarsila e que ela mesmo responde:

Quem mata os jovens negros e pobres das periferias? 

Quando a porta se abre, a situação entre a legalidade e a ilegalidade se iguala… Tarsila Flores

Número de negros mortos pela polícia em São Paulo

A produção universitária não acompanha a realidade

Pós-escrito: Demorei algumas semanas entre o começo e a conclusão desse texto, e a estrutura do crime organizado que existia quando comecei desmoronou e outra a substituiu, e quem eu dizia estar desatualizado passou a estar atualizadíssimo, e eu estou agora totalmente perdido.

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Se navegar é preciso, que naveguemos em águas tranquilas. Se a busca pelo conhecimento é fundamental para desenvolvermos uma sociedade segura, com justiça e desenvolvimento social, que busquemos isso em um site que nos dê prazer durante a navegação, e Carlos Coutinho conseguiu isso ao desenvolver esse ambiente para o site do Instituto Igarapé.

O canadense Dr. Robert Muggah é o diretor de pesquisa e coordenador do Programa de Segurança Cidadã do Instituto, e autor do artigo A state of insecurity: the case of Rio de Janeiro publicado na Revista de Ciências Sociais da UNESP Araraquara — cujo texto me chamou a atenção menos por seu conteúdo do que pelo envelhecimento de seu conteúdo.

Se você busca um conhecimento básico sobre o que se passa na segurança pública do Rio de Janeiro, em um texto em inglês, vale a pena a visita, mas se sua intenção for ter uma base sólida ou conhecimento atualizado, neste caso sugiro que procure outras fontes, que estão disponíveis aos montes, em português.

Dr. Robert Muggah não é culpado de ter sido comido pelo tempo, essa é uma característica de quase todos os artigos acadêmicos que se arriscam a analisar a segurança pública carioca contemporânea. Robert cita fontes e dados coletados na segunda metade de 2016 para um artigo publicado na primeira metade de 2017, mas está ultrapassado.

Seu campo de pesquisa é o Rio de Janeiro, e cita no artigo que atuou dentro da máquina de segurança pública carioca, através do Instituto Igarapé, sendo assim, não consigo entender como ele não deixou claro a aliança feita pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) como a facção Amigos dos Amigos (ADA) e o Terceiro Comando dos Amigos (TCA).

O que falamos aqui sobre o Rio de Janeiro → ۞

Ressalto que o problema não está no autor do artigo ou no centro acadêmico que o publicou, mas no processo que é utilizado para a produção e publicação de conhecimento nas universidades que, exigindo comprovação científica, tornam tão lento quanto seguro o processo de coleta, compilação e análise de dados.

O resultado desse processo permite devolver metodologias que contribuam para oferecer alternativas às políticas públicas, que depois de discutidas com a sociedade, poderão ser paulatinamente implementadas, mas isso é só na teoria, pois quando o assunto são as facções criminosas, quando o processo chega a termo, a realidade já é outra.

Há quatro semanas, quando li o artigo de Robert, para escrever este texto, achei que ele estava desatualizado. O PCC era há tempos aliado do ADA, e estava mandando soldados e equipamentos para ajudar na consolidação da facção carioca na Rocinha — com o TCA e o TCP (Terceiro Comando Puro) correndo juntos. Robert claramente estava desatualizado!

Há duas semanas, quando reli o artigo, achei que talvez o pesquisador não havia citado a parceria do PCC com o ADA e o TCA por não estar muito claro o resultado dessa aliança. A situação na Rocinha se tornava incerta, e as milícias que não haviam entrado no conflito colocaram suas peças na mesa. Robert claramente havia preferido não se arriscar!

Hoje, ao reler o artigo de Robert, vejo que ele está correto. O PCC teve no passado um aliado forte no Rio de Janeiro chamado ADA, e chegou em determinado momento a formar junto como o TCP uma tríplice aliança chamada TCA, que terminou devido ao arraigado preconceito carioca contra os paulistas e a derrota do ADA na Guerra da Rocinha.

Robert claramente não citou a união ADA – PCC – TCA pois ela foi coisa do passado, ele está corretíssimo!

Nem posso imaginar como estará a situação no Rio quando você estiver lendo esse texto.

O que falamos aqui sobre o ADA → ۞

Radicais afirmam que devemos ignorar as características individuais das facções criminosas quando desenvolvemos ações para seu combate. Isso já foi experimentado no passado sem sucesso, agravando o problema, mas talvez não tenhamos outra solução: ou colocamos mais agilidade nos remos ou teremos que navegar sem leme, ao léu dos ventos e das correntes, torcendo para chegarmos, com sorte, a um porto seguro.