A matemática política da opressão carcerária

A opressão no ambiente carcerário como fator necessário para o sucesso de uma política de segurança pública.


Nem esquenta, nem ele e nem nenhum outro carcereiro tem importância para mim.


O carcereiro, a facção PCC 1533, o Estado e a sociedade

Digo a minha garota que ela merece o que está se passando com ela, afinal, foi uma de suas mãos que marcou um “X” no quadrinho de “opção de função” quando ela se inscreveu no concurso público, o mesmo ocorrido talvez se dê no caso de Diorgeres, ou talvez não.

Você se lembra do carcereiro Diorgeres, não?

Nem esquenta, nem ele e nenhum outro carcereiro tem alguma importância para mim, para você ou para aquelas duas acadêmicas, mas, mesmo assim, vou lhe contar algo sobre ele.

(Não devia citar as duas acadêmicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul [UFRGS], pois o presidente Jair Bolsonaro alertou que não se deve dar palanque a acadêmicos doutrinados em Gramsci, mas com a permissão do Capitão prefiro dar nome aos bois.)

O que você fazia em fevereiro de 2001?

Caso você não se lembre ou caso não vincule a pessoa ao fato, Diorgeres de Assis Victorio era o carcereiro que foi levado como refém ao telhado do Carandiru com uma faca ao pescoço na apresentação pública do Primeiro Comando da Capital:

“Então um dos detentos que parecia um líder disse que precisava de dois reféns para ir com ele até a muralha do pátio. Era ali, na frente de todo mundo, que eles costumavam matar os reféns. Como na época do Exército eu havia tido aulas de prisioneiro de guerra, com porrada, tapa na cara etc., concluí que poderia estar mais preparado do que os outros para ir, então eu acenei com a cabeça para um colega que achei que tinha mais frieza e nós dois dissemos que iríamos.”

Arte sobre foto de um repórter e do governador Wilson Witzel em um presídio sob a frase "Quanto pior melhor, ganhando visibilidade midiática".
Governador Wilson Witzel na prisão

Quanto pior for a prisão, melhor será

Assim como a minha garota escolheu marcar um “X” no quadrinho de “opção de função” quando ela se inscreveu no concurso público, Diorgeres escolheu viver nos traiçoeiros corredores do sistema prisional e ser um refém do PCC. Foi escolha dele — ou talvez não.

Desde que eu o conheço, ele não concorda com o zurro popular que exige penas mais longas e condições mais duras e cruéis de encarceramento; assim como ele, o fazem as pesquisadoras da UFRGS: Oriana Hadler e Neuza Maria de Fátima Guareschi.

Contrariando nosso presidente, cito-as, pois foram elas que me explicaram a lógica matemática que leva o Estado a triturar Diorgeres e outros agentes de segurança carcerária (ASPens), sob os aplausos ou indiferença da sociedade, de mim e de você:

“Os cálculos estatais relacionados ao sistema prisional brasileiro têm se constituído tanto pelos investimentos financeiros no encarceramento, corpos físicos de policiais e mais aprisionamentos […] Questionar como organizam-se as relações pautadas na lógica de segurança é provocar estranhamento em relação a um estado naturalizado de violências […]”

As pesquisadoras Oirana e Neusa Maria, ao contrário de mim, de você e do capitão Jair, não acreditam que aqueles trabalhadores e apenados padecem por conta de suas escolhas, mas pelo resultado de uma desumana equação política.

Arte sobre foto de agentes penitenciários tendo ao fundo gladiadores em um coliseu sob a frase "O espetáculo não pode parar, ave Caesar, morituri te salutant".
Ave caesarm moritum te salutam

Dos holofotes da mídia ao breu cotidiano

Gilson César Augusto da Silva no artigo “Reality Show das Prisões Brasileiras” faz um breve histórico da evolução do Sistema Carcerário da antiguidade até chegar aos dias de hoje, e compara com a realidade transmitida pelo Big Brother Brasil:

“… os chamados “reality shows” … semanalmente um participante é eliminado … embora de discutível gosto, os programas mostram o quão difícil é a convivência humana. As casa onde se realizam esses “reality shows são verdadeiras mansões … há, ainda, boa comida, psicólogos, psiquiatras comportamentais, médicos, entre outras regalias. Além do competidor poder deixar o programa quando quiser … o que se vê em poucos dias de convivência? Pessoas extremamente estressadas, depressivas, agressivas, com reclamações de toda ordem, brigas, choros, ofensas recíprocas. É difícil a referida convivência? Sem dúvida. Mas se é difícil para os referidos participantes, com todas essas benesses, imaginem para os presos [e para aqueles que lá trabalham].”

Como fica então aqueles que arriscam sua saúde trabalhando nas galerias do Sistema Prisional, confinados em um ambiente insalubre e claustrofóbico em companhia de pessoas que tiveram problemas de adaptação às normas sociais?

A Segurança Pública e seus agentes são utilizados como peças publicitárias pela mídia e pelos políticos, mas quando os holofotes se apagam são abandonados para sofrerem o desgaste cotidiano, seja nos corredores dos cárceres ou os meandros burocráticos:

“O Departamento de Perícias Médicas do Estado, vendo o meu quadro clínico grave, entendeu por bem me readaptar e determinou que eu fosse afastado do contato com presos. Mas o Estado, vendo o conhecimento que eu tinha sobre o cárcere, ao invés de me afastar do contato de presos, determinou que eu fosse à Autoridade Apuradora da Unidade Prisional …”

A depressão carcerária dos corredores para as mentes

Sangue novo como combustível para o espetáculo

Nós não nos importamos com as condições de saúde daqueles que passam suas vidas dentro das muralhas, sejam eles prisioneiros condenados ou aqueles que por lá trabalham – a imprensa e os políticos sabem disso e entregam à nós o que queremos: um espetáculo.

O cruel abandono dos profissionais

Por vezes tratados como refugo, com falsa benevolência, são postos de lado, havendo uma política de isolar estes das novas “equipes especializadas”, formadas por jovens recém-engajados – prontos para começarem o seu próprio desgaste.

O ambiente insalubre do Sistema Prisional afetará diretamente a saúde mental desses garotos, assim como o fez com aqueles profissionais que os antecederam, no entanto a Administração Penitenciária vende a ideia de que agora será diferente…

… e sempre haverá garotos para assumirem as posições daqueles que já se desgastaram perambulando pelo claustros e que agora não mais aceitam alimentar o espetáculo midiático e político com seu sangue e o de sua família .

Você não acredita? Diorgeres explica com detalhes no artigo “Síndrome do pânico em agentes de segurança penitenciária”, publicado no site Canal Ciências Criminais:

“Muitos agentes não conseguem suportar todo esse descaso do Estado com a sua saúde e assim cometem o suicídio. Espero que eu resista a ponto de ver o Judiciário tomar uma atitude quanto a isso e que assim o Judiciário não caia em descrédito.”

Arte sobre foto de João Dória Júnior em frente a um quadro negro e uma equação matemática.
A matemática política da insegurança

A matemática política da opressão carcerária

Para a administração pública prevalece a lógica matemática do ganho político e midiático:

“ […] Trata-se, portanto, de um cálculo mínimo sobre vidas a serem gerenciadas em um plano de investimento entre baixos custos e a menor repercussão possível, combinada com a ampliação e execução de práticas violentas.”

O espetáculo (Esp) apresentado pela mídia para o público é igual ao grau de opressão (Op) multiplicado pela economia feita no investimento carcerário (Ec).

A matemática é simples: Op x Ec = Esp

Quanto maiores forem os fatores maior será a possibilidade do caos extrapolar as muralhas dos presídios e, consequentemente, gerar o maior espetáculo midiático possível, elevando a sensação de insegurança do cidadão e abrindo espaço para um grupo político específico.

Aplaudem-se as novas levas de prisioneiros e de agentes de segurança, não porque o mundo ficará mais seguro, mas por nos trazer uma maior sensação de segurança, não importando quem é Diorgeres ou quem são os agentes penitenciários que vivem nas galerias das carceragens.

Arte sobre foto do presidente Jair Bolsonaro com uma família assistindo a uma cena de massacre na televisão.
Bolsonaro e o show da isegurança pública

A política de inSegurança Pública e a política

Fora do meio acadêmico, poucos admitem que toda sociedade é afetada pelo resultado de uma iníqua equação matemática produzida por grupos políticos especializados em vender sua imagem de paladinos da lei e da ordem discursando sobre pilhas de cadáveres:

“Nesse cenário, encontramos diversos atores que ocupam o lugar daqueles que matam e, concomitantemente, dos que morrem nesse jogo de cálculos sobre vidas e grades. Pode-se dizer que é estabelecido um jogo onde a provisoriedade se torna eternidade […] Esse jogo morfético se mantém e é produzido junto a campos de saber e narrativas especialistas, que mantêm e instauram a violência do direito.”

Se é compreensível que um cidadão caia no conto do político salvador da pátria, é difícil explicar a posição de profissionais que sofrem na pele as consequências dessa política repressiva e ainda assim continuam as apoiando.

Alguns como Diorgeres questionam há muito políticas que tornam esses ambientes pútridos que impregnam os corpos, as mentes e as almas de todos aqueles que por lá vivem e trabalham. Mas esses são exceções, mas…

… ele, assim como outros ASPens, ao assinalarem com um “X” o quadrinho de “opção de função” quando eles se inscreveram no concurso público não pretendiam carregar os estigmas de dentro do cárcere para suas vidas, suas famílias e seus descendentes.

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

ASPEN – agente penitenciário é polícia?

O Primeiro Comando da Capital e a Polícia Militar: a metodologia e o imaginário dos Agentes de Segurança Penitenciária (ASPENs).


As muralhas que separam esses dois grupos são tão altas quanto as dos presídios.


PCCs e PMs vs. ASPENs

Os facciosos da organização criminosa Primeiro Comando da Capital e os integrantes da Polícia Militar sabem quem são e para onde vão. Agora, será que você, eu e os ASPENs temos tanta certeza de quem somos e de qual é nosso objetivo?

Essa não é uma pergunta meramente filosófica, mas prática, afinal se você não sabe quem você é, não tem como saber qual o melhor caminho para alcançar ao seu objetivo.

Iguais porém diferentes, por dentro e por fora.

Todos que trabalham nos presídios são iguais – pelo menos é assim que parece para quem apenas vê os agentes penitenciários pela telinha do celular ou da tv quando estes são feitos reféns por amotinados ou entram em greve; nada poderia ser mais enganoso.

Se você é uma dessas pessoas, Victor Neiva e Oliveira pode lhe contar com detalhes como se dividem os profissionais prisionais: os agentes de linha de frente, os GIRs, os GITs, os SOEs, os COPEs…

… mas, principalmente, como essas pessoas se veem – apesar de trabalharem lado a lado, cada um desses grupos tem objetivos e métodos de trabalho antagônicos.

Antípodas

As muralhas que separam esses grupos são tão elevadas quanto as dos presídios nos quais trabalham. Essas diferenças não são apenas profissionais e se aprofundaram em suas almas.

E foi esse universo que Victor me levou a conhecer, em sua tese apresentada à Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.

“O dilema identitário dos agentes de segurança penitenciária: guardiões ou policiais?”

Os facciosos do Primeiro Comando da Capital e os soldados da Polícia Militar é que são felizes, eles sabem exatamente quem são e para onde vão, e seguem firmes para seu destino – ao contrário dos agentes penitenciários, de mim e de você.

Seu João, um dinossauro na carceragem

A primeira vez que vi Seu João eu estava na carceragem do Fórum…

Havia um desentendimento entre presos de dois bondes: um do CDP de Sorocaba e outro do Cadeião (CDP de Pinheiros). Os escoltas gritavam para que parassem a briga e ameaçavam represálias, mas os presos ignoravam as advertências e continuavam o confronto.

Seu João, carcereiro do DELPOL, chegou puxando mais um preso pela algema. Um dos PMs entrou na frente do velho carcereiro para lhe barrar a passagem. Seu João, um negro grande e pesado, fez que nem viu o PM, continuou em frente e entrou na cela.

Os que estavam brigando pararam.

Ninguém esperava que alguém entrasse na cela no meio da muvuca, muito menos um senhor de camisa aberta até quase o umbigo.

Seu João ficou de costas para os briguentos, tirou a algema do garoto que tinha levado para a cela e lhe deu alguns conselhos, quem não os conhecesse acharia que eram pai e filho. O carcereiros agiam como se não tivessem percebido o clima pesado.

Antes de sair da cela, Seu João comprimentou um a um os oito presos que lá estavam. Quando deu a mão para os que estavam tretando, ficou uns segundos a mais segurando suas mãos antes de soltar, olhos nos olhos, semblante plácido e sem ameaças.

Saiu da cela.

Os presos não mais se encararam, ficaram todos com as cabeças baixas: alguns se sentaram, outros não, uns passaram a conversar em tom baixo, enquanto outros ficaram em silêncio – foi assim até que os bondes voltassem para suas unidades com seus custodiados.

Você talvez tenha ouvido falar do que acontecia nos cárceres durante o Regime Militar – seu João era carcereiro naquele tempo. Algo sempre me intrigou: sempre tive a impressão que os PMs e os ASPENs olhavam com desprezo e superioridade para aquele dinossauro…

… e seu João ria muito daqueles garotos quando não estavam por perto – eles pensam que são durões”, e ria, ria muito.

Seu João era único, só que não.

Víctor conta que ele era o típico carcereiro da década de oitenta – um dinossauro andando entre nós:

“[…] habilidoso da ‘malícia’. Conseguia o respeito e a obediência dos prisioneiros sem recorrer ao uso da força o que conferia a ele um status diferenciado na ‘turma dos guardas’. Os detentores dessa habilidade individual gozavam de uma posição de prestígio nas penitenciárias e, por isso, possuíam um profundo orgulho profissional.”

Eram outros tempos. Seu João não dava a mínima para os treinamentos, e hoje, com a profissionalização dos presídios, esse tipo de atitude isolada passou a ser vista com desprezo pela maioria da categoria.

Os policiais militares e os ASPENs, que olhavam com desprezo e superioridade o seu João, eram apenas algumas nuvens pesadas que prenunciavam a tempestade que iria levar quase à extinção os dinossauros.

“Permanecer operando nos pavilhões como há quatro décadas ou não buscar participar dos treinamentos ministrados pelo COPE pode relegar o agente a uma posição de inferioridade ou demérito nas penitenciárias.”

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

O crime se profissionalizou, assim como as forças policiais e carcerárias, e creio que é quase impossível saber se esse movimento foi simultâneo ou algum dos lados conduziu o processo.

O Primeiro Comando da Capital e as outras organizações criminosas estruturadas, assim como os PMs e os ASPENs, não aceitam mais condutas como as de seu João – se algum preso aceitasse o contato com o velho dinossauro, o vacilão seria chamado para o debate.

Os presos como empoderadores de seus algozes

Muitas vezes ouvi os gritos: “A GIR! A GIR!”. A reação é a mesma que nas ruas quando se grita “Rota!” – o clima muda: os criminosos se preparam para um confronto pesado ou assumem que a casa caiu, se possível viram pó, e, se não, baixam a bola.

“Esse ‘temor’ por parte da população prisional elevou os integrantes dos grupamentos táticos especializados a uma posição de superioridade antes ocupada pelo guarda de presídio portador do conhecimento sobre o uso habilidosos da ‘malícia’ e com ampla capacidade discricionária.”

Os GIRs, os GITs, os SOEs, os COPEs…, são os caras! Só que não:

“[Eles] se sentem extremamente ressentidos, indignados e menosprezados por não serem reconhecidos legalmente como policiais. A aspiração máxima da categoria no país hoje é se tornar uma polícia de direito […]. O reconhecimento como policiais penais significaria também uma via de legitimidade social pela qual poderiam positivar sua imagem perante a sociedade […].”

Agora, me responda, quem nasceu primeiro: as equipes táticas de uso da força no ambiente prisional ou o Primeiro Comando da Capital? Seja como for, o mundo não mais foi o mesmo após essa onda de profissionalização, tanto dos ASPENs quanto dos criminosos.

Somos todos irmãos de sangue, não somos?

Nem todos os agentes prisionais gostariam de ser policiais carcerários – exceto pelas vantagens econômicas e trabalhistas que essa mudança traria, é claro.

Parte dos profissionais prefere trabalhar no dia a dia da prisão, sem se misturar com os “puliças” das equipes especializadas de intervenção, que alguns consideram como covardes enrustidos e arrogantes:

“Será que aqueles caras que chegam, invadem em bando, jogando bombas, batendo e gritando, por trás de seus equipamentos de proteção e com o rosto encoberto, teriam coragem de ficar desarmados circulando entre os presos diariamente só com a proteção de Deus?”

Parte dos profissionais prefere trabalhar nas equipes especializadas, sem se misturar com os “porteiros”, os agentes de linha de frente, que alguns consideram como covardes e displicentes:

“Se eles fizessem direito seu serviço não teríamos que entrar para acertar seus erros. Quando a coisa complica, eles fogem e ficam de fora, sobrando para as equipes especializadas entrarem para resolver tudo.”

Cada grupo sabe da importância do outro para o perfeito funcionamento do sistema prisional e juram que tem o sangue da mesma cor, só que, por dentro, os integrantes de um grupo acreditam serem melhores que os integrantes do outro grupo.

No entanto, não bastaram para mim as explicações de Victor para que eu entendesse as razões dessa disputa interna – tive que pedir ajuda à Ronie Silveira.

A partir desse ponto até o fim, as citações foram intertextualizadas e contextualizadas: para acessar o original clique nos links.

Brasileiros agem como brasileiros

Ao ouvir Ronie Alexsandro Teles da Silveira não pude deixar de notar a semelhança do comportamento dos agentes penitenciários com nós outros, e não poderia ser diferente. Eu e você fomos criados no mesmo caldo que qualquer agente de linha de frente ou de equipe especializada.

Fala sério! Alguém acredita que a cultura que vige dentro das muralhas não é a mesma que impera para todos os outros a brasileiros?

Vou contar para você alguns trechos intertextualizados e contextualizados do que eu ouvi do Ronie no episódio “Filosofia como parte da cultura”, do podcast Filosofia Pop:

“Isso seria um absurdo, isso seria dar muito poder [ao mundo carcerário], um poder que certamente não tem, que é o poder de isolar sua cultura”.

Os agentes penitenciários querem ser policiais, pois, inconscientemente, o universo prisional lhes parece pequeno, inferior, e a Polícia Militar é o modelo de corporação a ser seguido.

O padrão operacional prisional americano também é admirado e copiado – mesmo que este não apresente melhor resultado do que os dos cárceres europeus na pacificação dos presídios e na recuperação dos custodiados.

“Percebemos que muitas das características da cultura [laboral prisional] espelha a cultura brasileira. […] Que é feita com os olhos voltados para os países que nos colonizaram culturalmente, desvalorizando o conhecimento adquirido diretamente no mundo efetivo onde nós vivemos.”

Espelhando nossos ídolos

Ao ouvir Ronie, percebi que o seu João, o velho carcereiro, procurava espelhar o comportamento dos antigos policiais civis. Hoje a nova geração deixou de ter como seus malvados favoritos delegados e investigadores,e passou a seguir os PMs do Choque.

NON DVCOR DVCO (não sou conduzido, conduzo) poderia ser o lema dos homens da Polícia Militar e do Primeiro Comando da Capital, mas hoje não parece constar das flâmulas dos agentes de linha de frente, dos GIRs, dos GITs, dos SOEs, dos COPEs…

… assim como os minions, aqueles que tentam se espelhar são considerados como inferiores por seus modelos, e não podia ser diferente, pois o próprio agente penitenciário se colocou nessa posição, que não é só dele, mas faz parte de nossa cultura nacional:

“Nós olhamos nosso [sistema prisional] basicamente pelo olhar europeu e americano, e por essa perspectiva temos uma tentativa fracassada de [encarceramento] no qual não conseguimos realizar plenamente os valores da [ressocialização e do controle interno]. Ficamos a meio caminho, mais ou menos, em uma hipótese muito favorável para nós.”

Os facciosos do Primeiro Comando da Capital e os soldados da Polícia Militar é que são felizes, eles sabem exatamente quem são e para onde vão e seguem firmes para seu destino – ao contrário dos agentes penitenciários, de mim e de você, só que:

“[Mas não podemos viver em] mundo aparentemente sem critérios, ou seja os seus critérios são aqueles vigentes no seu próprio meio. É uma extrema dificuldade você fazer uma leitura moderna de olho nas experiências externas ao mesmo tempo que busca adequar as conquistas de sua própria história.”

PMs e PCCs são felizes porque vivem em seu próprio mundo, sob suas próprias regras (Efeito Dobradiça), se opondo ao controle externo de seu padrão operacional e ético. Ambos sabem exatamente o que fazer pelo bem da comunidade, só que não.

Talvez, eu, você e os agentes penitenciários, que ainda estamos construindo nossas identidades, possamos conviver em paz com o restante da sociedade, em que PCCs e PMs enfrentam a repulsa de parte dessa mesma comunidade, que eles acreditam estar protegendo.

“Diante do reconhecimento dessa lógica peculiar que é ser brasileiro, onde há uma lógica diferente dos valores ocidentais, modernos e contemporâneos, o que nos cabe fazer é reconhecer que há uma lógica alternativa, vigente no Brasil e que permite que soluções sejam formuladas de maneira contextual.”

A pergunta que resta é:

Faz diferença se os agentes da segurança prisional são policiais? Ou isso seria apenas uma questão de ego alimentada pela cultura norte-americana? – exceto pelas vantagens econômicas e trabalhistas que essa mudança traria, é claro.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Deus e o Estado Vs. Primeiro Comando PCC

O Primeiro Comando da Capital ameaça o Estado Constituído, assim como outros grupos no passado já o fizeram – veja como a Bíblia nos orienta a agir.

Nem direita e nem esquerda, só Deus na causa!

O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o caos na Segurança Pública são consequências do governo:

  • de Direita: por meio do Regime Militar e da política da Rota na Rua, que criaram um ambiente favorável à intelectualização do crime, sem a qual o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho (CV) não existiriam;
  • de Centro: por meio dos governos do PSDB de Mário Covas e Geraldo Alckmin, que possibilitaram a hegemonia do PCC em São Paulo e o fortalecimento dos negócios da facção dentro e fora dos presídios; e
  • de Esquerda: por meio dos governos do Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma, que permitiram a proliferação da facção paulista por todos os estados da nação, levando-os a ampliar seus negócios para fora do país.

Para o sociólogo Gabriel Feltran, que estuda o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que comanda a maioria dos presídios do estado, o voto é abertamente antitucano. Segundo ele, “não é uma questão de ser de esquerda ou de direita”. O fato de São Paulo ter escolhido apenas governadores tucanos desde 1995 significa que o partido tem determinado a política penitenciária estadual desde então. O sociólogo Rafael Godoi observa que o sistema carcerário paulista “tem o DNA” do PSDB. “A gente tinha 40 mil presos no começo dessa política carcerária, décadas atrás, e agora são 250 mil”, explica Feltran. “Isso sem contar a população de mais de 1,3 milhão ex-presidiários no estado.”

Pedro Siemsen (Revista Piauí)

E essa história começa assim:

“Uma carta saiu de um presídio. Quem a recebeu odiava profundamente as forças opressoras do governo. Ele já havia sido preso e estava pronto para lutar contra o jugo do opressor agora teria irmãos para ajudá-lo, já não correria mais sozinho.”

Quem permitiu que esse preso se comunicasse?

O seu malvado favorito, assim como o meu, talvez tenha permitido que essa mensagem saísse do presídio:

  • Regime Militar
    • Como forma de punir com maior rigidez os presos políticos, eles foram colocados juntos aos presos comuns de alta periculosidade na Ilha Grande e no Carandiru. Em cima dessa união de métodos é que se solidificou as bases ideológicas do PCC e do CV. Essa carta pode ser uma daquelas tantas que divulgaram essa boa-nova;
  • Governo Geraldo Alckmin
    • Período de pacificação, em que supostamente houve uma trégua entre o Estado e as facções criminosas. Essa carta pode ter sido uma daquelas tantas que se aproveitaram desse ambiente propício, que permitia até a entrada de celulares nos presídios; ou
  • Governos do Partido dos Trabalhadores
    • Período áureo de expansão do PCC 1533 nacional, que se aproveitava das transferências de presos para outros estados e de uma política preocupada com o respeito aos Direitos Humanos. Essa carta pode ser uma das tantas outras que circulavam por todo o Brasil.

Só Deus na causa.

O importante é que você, assim como eu, não caia no conto de Benjamin, que critica o sistema, duvidando da capacidade do Estado em nos proteger do mau – ele veio para trazer dúvidas às nossas certezas, mas isso já era previsto.

A única certeza que posso ter é que “os homens jogam os dados sagrados para tirar a sorte, mas quem resolve mesmo é Deus, o Senhor.” – e Benjamin não é o Senhor.

O roubo de armas do exército e da marinha

Uma carta saiu de um presídio. Quem a recebeu odiava profundamente as forças opressoras do governo. Ele já havia sido preso e estava pronto para lutar contra o jugo do opressor – agora teria irmãos para ajudá-lo, já não correria mais sozinho.

De posse daquela carta de corso, foi juntar-se aos seus novos irmãos que estavam concentrados em um outro estado mais ao sul.

Inicialmente fez alguns saques e pequenos ataques, mas era apenas uma preparação para uma mega-operação que envolveria muito dinheiro, armas e homens.

Não, não estou falando do mega-assalto do PCC ao Prosegur no Paraguai ou de tantos outros que você possa estar cogitando – foi algo maior.

As armas pesadas que precisavam foram tomadas dos paióis do exército e da marinha de Laguna, e por mais incrível que possa parecer para você, que, assim como eu, acredita na lei e na ordem, a população comemorou quando eles derrotaram os soldados:

A noite se iluminou, os festejos não acabavam mais, aqueles que oprimiam levaram uma surra daqueles homens que atacaram as forças do governo. Foram saudados como irmãos e libertadores, pois a comunidade “era simpática” aos seus ideais.

Giuseppe Garibaldi conseguiu apreender escunas imperiais, pequenos veleiros, canhões, 463 carabinas e 30.620 cartuchos…

… e tudo começou com a carta passada por Bento Gonçalves à Giuseppe Garibaldi de dentro de uma prisão imperial (ou como diríamos hoje: de um presídio de segurança máxima federal).

Livrando-se desta peste – bandido bom é bandido morto

O cientista político Benjamin Lessing pergunta, ao mesmo tempo que responde, à repórter Fernanda Mena da Ilustríssima da folha de S. Paulo:

“O PCC se enfraqueceu ou se fortaleceu ao longo dos anos 1990 e 2000, quando a população prisional do Estado quadruplicou e o número de prisões explodiu? O PCC cresceu junto com o sistema.”

O cárcere e as comunidades carentes são os ambiente nos quais as organizações criminosas recrutam seus homens e articulam seus planos de ataques, isso é tão verdade agora como foi há duzentos anos, quando Garibaldi se irmanou à facção dos Farrapos.

Você e eu sabemos que a questão carcerária é muito mais complexa do que aqueles que apontam a direita, a esquerda ou o centro fazem parecer. É claro que nem eu e nem você acreditamos que foi o Regime Militar, Alckmin ou o PT que causaram tudo isso.

Dúvida? Pergunte ao Bento Gonçalves quem foi que facilitou para ele passar de dentro da prisão aquela carta de corso para Garibaldi. Duvido que ele lhe diga que foram um desses que tanto acusam hoje em dia.

O que parece acontecer é que, entra século, sai século, insistimos em manter as masmorras intocáveis, entulhando-as com todos aqueles que não aceitam seguir as normas impostas por nós, cidadãos de bem, por meio de nossos governantes.

Encarceramento em massa ou morte!

Só que a política de encarceramento em massa daqueles que não se ajustam ao sistema não funciona – pelo menos é o que afirma Benjamin:

“Não conheço nenhum lugar do mundo que tenha diminuído o poder de facções do crime organizado aumentando a população prisional.”

Há dois séculos nós, “cidadãos de bem”, gritamos que o governo deveria “se livrar de uma vez destas pestes”, que eram os farroupilhas. Hoje, continuamos bradando para que os bandidos das facções criminosas sejam caçados e mortos.

As forças militares imperiais não conseguiram tirar dos gaúchos os farroupilhas, assim como as polícias militares republicanas não conseguiram tirar os jovens sem oportunidade das comunidades periféricas da “Família 1533 TD3 passa nada”.

Um sistema que oprime e não protege

Os membros do Primeiro Comando da Capital de Marcola, assim como aconteceu com os farroupilhas de Bento Gonçalves, acreditam que lutam por um ideal: o fim de um sistema opressor que envia seus soldados para as regiões mais pobres apenas para oprimir e não para proteger.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

E um ideal não pode ser encarcerado ou morto, como provou o estado de São Paulo:

“São Paulo é o estado com mais dinheiro, mais policiais bem treinados, com mais universidades” […] “dizia que era uma organização falida. Há falas de 2002 e 2003 de que o PCC havia sido desmantelado.” […] “E, em 2006, com os ataques, a organização mostrou seu poder. e não só não conseguiu eliminar o PCC como tem hoje a facção mais poderosa do Brasil.”

“O PCC é uma tecnologia de organização que envolve normas de ajuda mútua, sistemas de cadastramento, rituais de ingresso e comunicação entre prisões e entre as prisões e a rua. É uma ideia, como define o PCC. E as ideias são difíceis de conter.”

O governo mandou de soldados do exército imperial à ROTA para combater “ideias”; no entanto, o Estado não buscou eliminar o abandono e a opressão dentro no sistema prisional, nas favelas e nos cortiços:

Há um princípio em medicina que diz: sublata causa, tollitur effectus (“suprima a causa que o efeito cessa”, em latim)

Deus, os governos e seus agentes

Eu, você e até mesmo o ateu mais positivista fomos criados dentro de uma cultura judaico-cristã, e foi nesse ambiente que formamos nosso conceito do que é certo ou errado e de como devemos agir em relação ao Estado e seus representantes:

“Por causa do Senhor, sejam obedientes a toda autoridade humana: ao Imperador , que é a mais alta autoridade; e aos governadores, que são escolhidos por ele para castigar os criminosos e elogiar os que fazem o bem. Vivam como pessoas livres. Respeitem todas as pessoas, temam a Deus e respeitem o Imperador.”

Segundo Bíblia Sagrada os governantes e os policiais agem em nome de Deus, e eu e você, assim como todos os homens corretos e justos, devemos-lhes obediência e respeito.

“Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.”

No entanto, Garibaldi e seus farroupilhas, assim como acontece hoje com Marcola e seus faccionários, não acreditaram nessa ladainha e optaram por se opor ao Estado Constituído e seus representantes.

Esses dissidentes recebem hoje, assim como receberam no passado, apoio nas comunidades mais pobres, que não se sentem protegidas pelas “forças de ocupação” do governo – os soldados há século raramente sobem o morro para proteger morador.

“Quem não está no crime, mas é jovem, pobre e negro, portanto, com maior chance de ser preso, sabe que vai precisar da proteção da facção. O Estado, inadvertidamente, é a corrente transmissora do poder do PCC nas quebradas.”

Homens de pouca fé questionam as autoridades

Eu e você, assim como todos os homens cheios de fé, sabemos que não podemos arredar o pé da Verdade:

“As pessoas honestas se desviam do caminho do mal; quem tem cuidado com a sua maneira de agir salva a sua vida. O homem violento engana os seus amigos e os leva para o mau caminho.

No entanto, alguns homens, como Garibaldi e seus farroupilhas, assim como Marcola e seus faccionários, não são como nós. Sendo homens de pouca fé, uniram-se, em suas respectivas épocas, para lutar contra aquilo considerado por eles como um sistema injusto.

Eu e você, assim como todos as pessoas de bem, sabemos como agir. Devemos ficar ao lado de nossos governantes quando estes atacam o mal em nome do bem. Devemos, mais uma vez ouvir a Verdade:

“Os maus provocam discussões, e quem fala mal dos outros separa os maiores amigos.”

Por isso, eu e você, assim como todos os justos devemos ignorar a advertência que Benjamin Lessing fez à Fernanda Mena:

“Sobre a disponibilidade de armas e a abertura de uma espécie de temporada de caça aos bandidos, não posso predizer o que vai ocorrer, mas o mais provável é que cause mais homicídios e mais confusão. O PCC é muitas coisas ao mesmo tempo: [e continuará] se expandindo e mudando ao longo do tempo, e de um lugar para outro.”

Sei que você ficará ao meu lado.

Não caia no discurso fácil de Benjamin “que sorri e pisca maliciosamente; pois sabemos que ele está com más intenções”. Não deixe que ele lhe convença que o uso da força não é o melhor caminho para vencer as facções criminosas.

Há duzentos anos nossos governantes apostam no aprisionamento em massa e na repressão, sem conseguirem vencer o crime organizado, sempre com o meu e o seu apoio, mas devemos manter a perseverança.

Tenho certeza que você não vai parar de insistir nesse caminho e não dará ouvido aà Benjamin e demaisoutros que apontam em outrao direçãocaminho, pois seitenho certeza que você sabe que a melhor solução para a segurança pública é a prisão ou a morte dos criminosos.

Eu, por via das dúvidas acho que prefiro me abster de dar meu palpite nessa nova rodada.

“Os homens jogam os dados sagrados para tirar a sorte, mas quem resolve mesmo é Deus, o Senhor.”

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

O PCC, Marighella e a Teoria da Dependência

O Minimalismo Penal afirma que poderia ter sido evitada a criação do Primeiro Comando da Capital, afinal a organização criminosa é apenas um fruto da luta de classes.



O Primeiro Comando da Capital e Carlos Marighella

Eu gostaria de fazer uma dupla dedicatória:

Primeiro: em memória dos heróicos combatentes e guerrilheiros urbanos que caíram nas mãos dos assassinos da polícia militar, instrumentos odiados do repressor sistema de injustiça que existe em nosso país.

Temos que permanecer unidos e organizados para evitarmos que ocorra novamente um massacre, semelhante ou pior ao ocorrido na Casa de Detenção em 2 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre este que jamais será apagado dos nossos corações e da consciência da sociedade brasileira.

Segundo: aos bravos homens e mulheres aprisionados em calabouços medievais do governo brasileiro e sujeitos a torturas que se igualam ou superam os horrendos crimes cometidos pelos nazistas.

A cada camarada que se oponha a esse sistema criminal e que deseje resistir fazendo alguma coisa, mesmo que seja uma pequena tarefa, eu desejo que seja firme em sua decisão. Não podemos permanecer inativos; sigam as instruções e juntem-se à luta agora.

A obrigação de todo revolucionário é fazer a revolução.

É importante não somente ler o Estatuto do Primeiro Comando da Capital, o Dicionário e a Cartilha, mas difundir seu conteúdo. Todos aqueles que concordam com esses ideais copiem à mão, mimeografem, tirem xerox e divulguem pelas mídias sociais.

Vamos maciçamente nos expressar à sociedade, mostrar esse lado esquecido, em um cenário de tanta injustiça e violência e, se for preciso, em último caso, a própria luta armada será necessária.

A Teoria da Dependência: “A Vida é um Desafio”

Claudia Wasserman do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS foi quem amarrou para mim o artigo Crime Organizado no Brasil”, de Amanda Regina Dantas dos Santos e seus colegas, à Teoria da Ondas, de Alvin Tofler .

Até entendo que não tem cabimento utilizar os conceitos macroeconômicos como metáfora para analisar o comportamento de um grupo social, mas será mesmo que não posso fazê-lo? O que Alvin ou os Racionais MC’s diriam sobre isso?

“Desde cedo a mãe da gente fala assim:

‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.’

Aí passado alguns anos eu pensei:

Como fazer duas vezes melhor se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão e pela história? Duas vezes melhor como?

Quem inventou isso aí?

Quem foi o pilantra que inventou isso aí?”

Minha avó materna, que Deus a tenha, dizia que “nós somos pobres, mas honestos”. Racionais MC’s, Carlos Mariguella, e os garotos do PCC discordariam desse conformismo, assim como André e alguns outros defensores da Teoria da Dependência.

A professora da Federal Claudia me conta que existiu duas vertentes desse pensamento econômico:

  • Fernando Henrique Cardoso (FHC) e os catedráticos da USP, que apostavam que no final todos seríamos felizes para sempre, até mesmo “os pobres, mas honestos” – assim como pensamos eu, você, minha avó e a maioria das pessoas; e
  • André Gunder Frank e os catedráticos da Escola de Brasília, que apostavam que no final nós não seremos felizes por estarmos “pelo menos cem vezes atrasados pela escravidão e pela história” – assim como pensam os Racionais MC’s, Marighella e os garotos do PCC.

A catedrática da UFRGS já me adiantou que você, assim como eu e minha avó, iria apoiar o lado de FHC, por ser essa “uma tese extremamente palatável, extremamente otimista, com base em estudos e demonstrações científicas e sociológicas”.

Da luta de classes ao PHD do crime

Existem os ricos, os pobres e também os remediados, que se autodenominam de “classe média”, você bem sabe disso, mas ao contrário do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley todos querem conquistar melhores condições ou ascender de classe.

FHC explica que isso acontecerá naturalmente: os ricos continuarão a se desenvolver, mas os remediados e os pobres progredirão paralelamente pelo efeito demonstração, galgando lentamente novas conquistas e posições, até o momento que ascenderão à classe seguinte.

André explica que não. O sistema vende esse sonho e apenas ocasionalmente alguns ascendem de classe – alimentando a ilusão de milhões –, e mesmos esses só ascenderão para ocupar as vagas que as classes superiores já não querem mais para si.

Esse é “o desenvolvimento do subdesenvolvimento, e não propriamente o desenvolvimento em si”, e esse é o resultado esperado pelo sistema dessa relação de dependência que as classes inferiores mantêm em torno das classes superiores.

As melhorias conquistadas pelas classes inferiores, tanto dos pobres quanto dos remediados, não as aproximaram das classes mais ricas, pois ”o desenvolvimento se dá de modo igual e combinado”.

Racionais MC’s, Carlos Marighella e os garotos do PCC cansaram de jogar dentro dessas regras impostas nessa relação de dependência, em que geração após geração de “pobres, mas honestos” aguardam anos para dar mais um passo – quando dão.

Eles foram à luta, cometendo pequenos delitos pelos quais foram presos e enviados ao cárcere onde muito aprenderam. Racionais MC’s, Carlos Marighella e os garotos do PCC acabaram sendo forjados no fogo do inferno, e deu no que deu, e chegaram aonde chegaram.

E aonde eu e você, pobres remediados, chegamos? O que deixamos registrado na história?

O combate às injustiças do sistema prisional

Comecei esse texto transcrevendo com algumas alterações e enxertos a introdução do “Manual do Guerrilheiro Urbano” de Carlos Marighella, o “Inimigo Número Um” – que objetivava preparar fisicamente e psicologicamente aqueles que iriam combater o governo.

Confesso que nunca havia sequer ouvido falar dessa obra até cruzar com o artigo “O Crime Organizado no Brasil” dos acadêmicos da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR, publicada na Revista Liberdades da IBCCRIM.

Foram Amanda Regina Dantas dos Santos, Ítalo José Marinho de Oliveira, Pâmela Nunes Sanchez, Priscila Farias de Carvalho e Thais Ferreira de Souza que, além de me apresentarem a obra, contaram-me sobre a teoria do Minimalismo Penal.

Ao contemporizar o “Manual do Guerrilheiro Urbano” e miscigena-lo ao Estatuto do Primeiro Comando da Capital, evidenciei o ponto de vista desses acadêmicos: as injustiças do cárcere são as ferramenta que viabilizam a militarização dos conflitos sociais.

O PCC 1533 é formado por pessoas que sabem que não vão conseguir ascender de classe por meio do mercado de trabalho e abandonaram a crença que “sendo pobre, mas honesto” conquistarão seu lugar ao sol – a princípio um simples problema de luta de classes.

Contudo esse grupo de marginalizados, ao verem frustradas suas reivindicações pelos caminhos democráticos, optaram por usar a força com o objetivo de manter sua própria subsistência e evoluir socialmente, aproveitando-se dos conhecimentos obtidos nos pátios dos presídios.

Cada um deles, do preso mais desconhecido ao Marcola, dos Racionais MC’s ao capitão Carlos Marighella, começou timidamente, e se eles não tivessem sido jogados nas masmorras, não teriam feito o que fizeram – o sistema acaba por fortalecer suas vítimas, e basicamente é isso que prega o Minimalismo Penal. 

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David



Seriam os facciosos idealistas? – perguntaria von Däniken

Quando comecei a ler “A Terceira Onda”, e isso já faz algumas décadas, achei que Alvin Toffler era uma espécie de Erich von Däniken: alguém que produz uma obra crível e ao mesmo tempo absurda, mesmo baseando-a em fatos supostamente reais.

Ledo engano meu. Ao terminar a leitura da “A Terceira Onda”, tornei-me um adepto de sua teoria, pelo menos por alguns anos. Não adianta chorar: nós nascemos, vivemos e morremos em função do momento econômico.

Você já se questionou sobre se Deus existe ou não e chegou a uma conclusão, mas, ao contrário do que pensa, não foi uma conclusão sua: você apenas seguiu a determinação de uma necessidade econômica da sociedade – pelo menos é o que me afirmou Alvin.

Da mesma forma, os Racionais MC’s e a facção paulista PCC são frutos das necessidades de um ambiente econômico – Alvin e Adam Smith veriam aí a Mão Invisível em ação: esses grupos estariam tão somente atendendo a uma demanda do mercado.

É infrutífero buscar remédios para os sintomas sem conhecer a causa da patologia, assim como é inútil vitimizar ou idealizar esses grupos criminosos, ou combater seus adeptos nas ruas e nos presídios sem atuar na causa do problema – mas qual seria esse problema?

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

PCC um filho indesejado da PM-SP

Os policiais militares negam a paternidade do Primeiro Comando da Capital, mas três acadêmicos afirmam que eles são os pais da criança.

O PCC como fruto de uma intensa emoção

O Primeiro Comando da Capital é um filho nascido de um estupro coletivo praticado por policiais militares do estado de São Paulo.

Podia ver nos olhos daqueles policiais que estavam prestes a entrar no Carandiru as pupilas dilatadas por uma mistura de medo, excitação e ódio.

Podia sentir naqueles militares os tonéis de adrenalina sendo derramados no sangue que jorrava como cascata pelas veias – um prazer quase sexual:

Foi algo tão forte e tão excitante que por alguns segundos dessa forte emoção aqueles homens trocaram suas carreiras, a vida de 111 homens e a segurança de toda uma sociedade.

Onde citei neste site Polícia Militar → ۞

Penetrando com violência – um estupro coletivo

Aqueles policiais agiram como quaisquer outros homens teriam agido na mesma situação – todos participaram, e nunca saberemos com certeza quem é o pai da criança:

“[…] o diretor tentou convencer a Polícia Militar para que ele pudesse tentar negociar com os rebelados e chegou até a porta que dava acesso ao pátio externo setor nove, mas, a polícia utilizou do momento para disparar portão adentro […]”

O nascimento do PCC seria evitável até o momento no qual o diretor do presídio foi empurrado para o lado e os homens se enfiaram com violência para dentro da instituição.

A Casa de Custódia do Carandiru estava sendo invadida sob os olhares sedentos de prazer dos telespectadores que, de suas poltronas, acompanhavam o evento e repetiam com o Datena: “bandido bom é bandido morto”:

“Estupraram?? Sequestraram?? Assaltaram?? E daí? Essa polícia é mesmo danada! Prendam a Polícia!!! Soltem os santinhos!!!”, bradavam muitos, entre eles: eu, você e Marcia Guimarães de Almeida, de Franca (São Paulo).

Onde citei neste site o Massacre do Carandiru → ۞

Pesquisando o momento da concepção do PCC

A ereção e as emoções sentidas por aqueles homens que se enfiaram naquele emaranhado de corredores escuros e sujos baixou após algumas horas.

No entanto, os policiais, sem se darem conta, plantaram a semente do mal e regaram-na com o sangue de centenas de detentos e as lágrimas de milhares de seus amigos, mulheres e familiares.

Dez meses depois, há 134 km dali, na Casa de Custódia do Taubaté, o fruto daquele sêmen introduzido gerou o Primeiro Comando da Capital.

Os policiais militares negam que um deles seja o pai da criança, mas os pesquisadores de Ciências Sociais e Direitos Humanos Cezar Bueno de Lima, Danilo Augusto Gonçalves Carneiro e Deiler Raphael Souza de Lima afirmam que podem comprovar a paternidade.

Esse é o foco do artigo “O mundo é diferente da ponte para cá: uma análise da violação dos Direitos Humanos” publicado nos anais do II Simpósio Internacional Interdisciplinar em Ciências Sociais Aplicadas pelos pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Onde citei neste site sociólogos e trabalhos de Ciências Sociais → ۞

União em torno da ética do crime

Os pesquisadores lembram que na certidão de nascimento do PCC, registrada em 1997 no Diário Oficial do Estado de São Paulo, consta:

“13. [] em 02 de outubro de 1992, onde 111 presos foram covardemente assassinados, massacre que jamais será esquecido [] por que nós do Comando vamos sacudir o Sistema e fazer essas autoridades mudar a prática carcerária, desumana, cheia de injustiça, opressão, torturas, massacres nas prisões.

Até então existiam milhares de grupos de detentos agindo isoladamente em presídios, cadeias, abrigo de menores e clínicas de internação por todo o país, mas o Massacre do Carandiru teve o poder de integrar as diversas gangues.

Foi possível, então, implantar uma ética do crime dentro do sistema carcerário, algo que freasse os abusos sexuais, a violência física e a extorsão sofrida por outros encarcerados e por agentes públicos.

“[…] assim como a necessidade de união e solidariedade entre a população carcerária para enfrentar esse inimigo comum, representado na figura dos agentes prisionais e, principalmente, da polícia.”

O mundo do crime se auto impunha a obrigação de seguir regras dos Direitos Humanos, reforçando ”o caráter de partido, não no sentido da representação democrática burguesa, mas no sentido da indústria de controle do crime”.

Onde citei neste site o lema “Paz, Justiça e Liberdade” (PJL) → ۞

Nossa desumanidade cria uma nova sociedade

Ao receber a notícia do Massacre do Carandiru:

  • o pensamento de cada um dentro do governo era sobre como capitalizar os votos e diminuir o impacto negativo na imagem;
  • o pensamento de cada um da imprensa era sobre agradar seu público e conseguir mais audiência sem comprometer sua imagem; e
  • o pensamento de cada um das forças policiais que não estiveram presentes no evento, assim como boa parte do público, era de felicidade.

Liev Tolstói, em 1886, descreveu a morte de Ivan Ilitch, mais ou menos assim:

“[…] ao receber a notícia da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos presentes foi para as alterações e promoções que essa morte poderia provocar para eles ou seus conhecidos.”

Um século e meio se passou, e eu e você somos expectadores de um mundo que banaliza a vida e a morte. Somos parte integrante da desumanidade de uma sociedade frívola e cruel, construída por valores insensíveis.

Onde citei neste site a imprensa → ۞

A criança cresce e se torna um mito

O estupro era evitável até o momento em que o diretor foi empurrado para o lado e os corredores escuros eram transformados em rios de sangue.

Nós, eu e você, assistimos ávidos de um prazer quase sexul a morte dos detentos do Carandiru, mas aquele estupro coletivo gerou um filho que agora nos cobra vingança.

Lamento ser eu a vir lhe dizer, mas o garoto não pode ser morto. Ele nasceu de um estupro e foi batizado em um rio de sangue.

O garoto cresceu, tornou-se uma ideia, um mito, e hoje vive na mente e no coração de milhões de brasileiros e de milhares de outros latino-americanos.

Os pais não assumiram a criança quando ela nasceu, e agora não podem controlá-la apesar de, uma vez por ano, desde 2002, alegarem que acabaram com sua cria maldita.

Onde citei neste site o Sistema Carcerário → ۞

O PCC e Moisés e a solução do problema carcerário

A cultura judaico-cristã e o fenômeno da prisionização: stress, tortura e assassinato em um sistema carcerário insalubre.

Mil à esquerda e dez mil à direita ― ou quase

Muitas coisas os integrantes do Primeiro Comando da Capital e os homens da polícia e os agentes penitenciários (ASPens ou ASPs) têm em comum, e uma delas é a citação constante em suas redes sociais do Salmo 91:7:

“Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.”

Não podia ser diferente, ambos os grupos são ou se consideram guerreiros e foram doutrinados em uma sociedade judaico-cristã ― assim como você e eu.

Há poucos dias duas dezenas de integrantes ligados ao PCC caíram logo aqui ao sul (Sorocaba), e três dezenas de policiais envolvidos com o PCC caíram logo ali ao norte (Campinas) ― por isso resolvi dar um tempo nas postagens.

No entanto, caíram no meu colo dois artigos, um do Ponte Jornalismo, ”Pastoral Carcerária Nacional denuncia tortura em presídio de Anápolis (GO)”, e outro do Canal Ciências Criminais, “Os efeitos da prisionização nos agentes penitenciários” ― não resisti, voltei.

Fenômeno da Prisionização Pedro Magalhães Ganem

Prisioneiros Vs Carcereiros

Moisés matou um carcereiro que torturava um preso, e assim começou o Êxodo do povo de Israel, que culminou na construção de nossa base cultural e religiosa ― faz tempo, mas o caso ficou muito conhecido:

Ele foi ter com os seus irmãos e começou a dar­-se conta das terríveis condições em que viviam, certa vez viu mesmo um dos guardas a bater num dos seus irmãos! Não se conteve. Olhou dum lado e doutro para se certificar de que ninguém mais o via, matou-o…

O Ponte Jornalismo levantou a questão da tortura nos presídios, mas foi o pesquisador Pedro Magalhães Ganem quem me chamou a atenção para o fato de que os carcereiros também são tão vítimas desse processo tanto quanto os encarcerados.

Creio que você, ao ouvir a história de Moisés, possivelmente o apoiou, mas posso estar errado ― tente se lembrar o que você pensou na época que ficou sabendo do caso.

De fato ninguém, nem eu, nem você, derramamos lágrimas para o agente morto por Moisés. Repare: você que já ouviu falar da história com certeza não se lembra e nunca se indagou qual era o nome do carcereiro assassinado no Egito.

Diorgeres de Assis Victorio prisioneiro do PCC 1533

Ninguém está nem aí para com os carcereiros

“Então um dos detentos que parecia um líder disse que precisava de dois reféns para ir com ele até a muralha do pátio. Era ali, na frente de todo mundo, que eles costumavam matar os reféns. Como na época do Exército eu havia tido aulas de prisioneiro de guerra, com porrada, tapa na cara etc., concluí que poderia estar mais preparado do que os outros para ir, então eu acenei com a cabeça para um colega que achei que tinha mais frieza e nós dois dissemos que iríamos.”

Não, provavelmente você não se lembra de Diorgeres de Assis Victorio, assim como não se lembra do nome do carcereiro egípcio que foi morto, mas se lembra de ter ouvido falar de Moisés, assim como ouviu falar de Marcola, Gegê do Mangue, entre tantos outros.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Não se culpe se você nunca ouviu falar sobre Marcola e seus comparaças, afinal não faz nenhuma diferença o nome daqueles que vão morrer, “Ave, Imperator, morituri te salutant”. A democracia e a tecnologia, no entanto, tiraram os cristãos de dentro das sangrentas arenas dos circos romanos para os sofás em frente das TVs.

Você talvez tenha visto Diorgeres de Assis Victorio pela televisão, tenha ficado torcendo por seu fim ou por sua salvação, mas, independente do resultado, seu nome seria esquecido, assim como foi o do agente penitenciário morto por Moisés.

penitenciárias deterioradas inseguras e insalubres.jpg

Em briga de lobos, ovelha não palpita, ou palpita?

Assim como no passado, hoje, o tratamento dado aos presos é violento, qualquer um que passou pelo Sistema Prisional pode te dizer isso, no entanto é impossível se provar as barbaridades que acontecem do lado de dentro das muralhas.

“Os presos e os membros da Carcerária têm medo de represália [mas] temos relatos em Goiás [de] tortura, ausência de direitos e outras violências, […] os apenados estão sendo submetidos a tratamentos humilhantes de forma consciente, os presos são machucados e possuem dedos quebrados.”

As poucas vezes que inquéritos foram abertos e chegaram à conclusão com a punição dos agentes foram aquelas que os próprios envolvidos filmaram o ocorrido, assim como acontece com os integrantes do Primeiro Comando da Capital que caem após filmarem suas execuções.

Os defensores dos manos, como são chamados pelos “cidadãos de bem”, cristãos, que defendem o cumprimento da lei e da ordem, acreditam que a violência cometida pelos agentes policiais e carcerários é justificada, mas será mesmo?

O sistema prisional brasileiro, assim como a segurança pública, não pode prescindir da tortura e do uso ilegal da força, que a máquina de Justiça tolera, pois foi criada para fazer com que esses abusos não suportem um processo formal.

As ovelhas podem balar, mas os ASPens que caminham desarmados entre os lobos querem sobreviver, e não o conseguirão seguindo regras desenvolvidas em gabinetes para serem aplicadas em penitenciárias deterioradas, inseguras e insalubres.

Quem defende vagabundo é vagabundo também

Melhoria das condições do cárcere já!

Não, não sou eu, um PCC ou um defensor dos Direitos Humanos que faz ecoar esse brado, é ninguém mais e ninguém menos que Pedro, o pesquisador do site Canal Ciências Criminais:

“Diante desse prisma fica ainda mais evidente que é essencial buscar melhorias em todos os aspectos, garantindo direitos e assegurando o cumprimento do que estabelecido na lei.

Infelizmente, quando surge esse assunto, as pessoas logo tratam de associá-lo à busca pela garantia dos direitos apenas de quem está detido, naquilo que elas erroneamente denominam “defesa de bandido”.

Pare pra pensar: se o lugar é insalubre, mal iluminado, pouco ventilado, inóspito, […] não é somente para quem está preso, mas também para quem trabalha o dia inteiro lá.

Já parou para pensar como deve ser difícil trabalhar lá dentro? Como deve ser complicado compartilhar dessas precárias estruturas com as pessoas que estão presas?

Vivenciar todas as violações de direitos (deles próprios e dos detentos) é uma das causas desses trabalhadores serem acometidos das mais variadas doenças psíquicas.”

prisões o que não mata nos fortalece

O fenômeno da prisionização ― a vida como ela é

Pedro nos lembra que dentro do sistema carcerário existem vários tipos de presos, os apenados, os funcionários e todos aqueles que por um motivo ou por outro têm que ingressar nesse sistema que mata e tortura ― a todos, indistintamente, e aos poucos.

Você de certo se lembra que o povo hebreu enviado para o cativeiro voltava fortalecido e dominando novas tecnologias e ideologias. Foi assim que se desenvolveu o monoteísmo, o idioma, os sistemas de governo, justiça e administração militar.

Você de certo também se lembra que aqui no Brasil os criminosos comuns foram colocados juntos com os prisioneiros políticos e distribuídos por todo o país. Foi assim que desenvolveram sua cultura, o Estatuto do PCC, os Tribunais do Crime e a sua base nacional.

“Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.”

Há poucos dias duas dezenas de integrantes ligados ao PCCs caíram logo aqui ao sul, e três dezenas de policiais envolvidos com o PCC caíram logo ali ao norte ― muitos deles ficarão nos cárceres, e que novas tecnologias e estratégias desenvolverão?

problema complexo requer solução simples

Qual é a solução para nosso problema carcerário?

Os carneiros balem às vezes pedindo a privatização do sistema prisional e a maior liberdade para os presos, também pela estatização e pelo enrijecimento no tratamentos dos detentos ― soluções fáceis para um problema complexo.

Moisés não colocou os pés na Terra Prometida, e não seremos eu ou você que chegaremos lá, mas podemos, sim, balir e opinar como os agentes públicos e os presos devem se comportar.

Crucifiquemos ora os ASPens, ora os presos, mas deixemos para lá a estrutura social e econômica criada em torno do cárcere, pois ela não deve ser tocada, afinal daria um trabalho danado ― deixemos como está para ver como é que fica.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Os ataques do PCC: os dois lados da moeda

Preso afirma que as manifestações do PCC foram contra a opressão do sistema carcerário, o jornal O Estado de São Paulo diz que não.


Errar é humano persistir no erro é burrice.


Houve ou não uma justa razão para os ataques do PCC?

Eu não vou entrar nessa discussão, você que ouça de um lado a colunista do jornal O Estado de S. Paulo, diretamente de Brasília, e do outro lado, um ladrão — tire suas próprias conclusões de quem está certo ou errado.

“Errar é humano, mas persistir no erro é burrice.”

Os faccionados dessa vez optaram por não utilizar uma tática que não deu certo no passado — há coisa de um ano, as mulheres dos presos tentaram fazer uma manifestação na Avenida Paulista em São Paulo, para denunciar as atrocidades que ocorriam nas prisões, mas a polícia abriu investigação e mandou interrogar à todas antes das manifestações que acabou não ocorrendo, então dessa vez…

“O plano inicial era fazer uma manifestação pacífica em Natal contra o que os bandidos chamam de opressão no complexo prisional de Alcaçuz [em Nísia Floresta, na Grande Natal]”, afirmou um dos responsáveis pelas investigações…”

O ponto de vista de quem corre pelo certo pelo lado certo da vida

Eliane Cantanhêde afirma:

“Depois dos caminhoneiros […] o Brasil está tentando respirar, e agora, esses ataques do PCC, e isso é muito grave por que não tem reivindicação nenhuma por trás, eles inventam que é por causa das condições dos presídios, mas não é né? É uma demonstração de força, né?

E é muito preocupante, num país que está aí machucado por uma série de coisas. Foram 24 ônibus queimados em 24 horas em Minas Gerais por ordem do principal e mais perigoso e aterrorizante grupo criminoso do país, que é o PCC. Os estados estão de cabelo em pé preocupados, porque é ordem do PCC.”

O ponto de vista de quem corre pelo certo pelo lado errado da vida

“Quem veio zoar nóis foi a polícia, isso foi falta de comunicação da polícia. Onde aqui tem o procedimento, qualquer um que chega na cadeia eles aplicam o procedimento em nós por isso, nós parou, nós resolvemos não enfrentar o terror.

Eles vieram com ameaças, dizendo que iam dar a resposta às cinco horas da tarde. Aguardamos a resposta da direção, onde eles vieram e disseram quem não tinham nada para nós, que era para retornarmos para as celas.

Nós sentamos no final do pátio, todo mundo desarmado, onde eles vieram e dispararam vários tiros contra nós, sem reação alguma. Nós somos do crime, nós lenvantamos, sim, e se precisar, nós vamos levantar de novo.

A polícia não vai oprimir, nós, porque lutamos contra a opressão, estamos todos aí, capacitados, jamais tomando atitudes isoladas, isso nunca. Sabemos as consequências de cada ato, tudo tem uma reunião antes.

Tem qualquer parada, a decisão é de todos, em cima de irmão, de companheiro, e todo mundo está na mesma batida, para não ter consequência para um e outro, para ninguém vir dizer que foi fulano ou sicrano.

Tá todo mundo unido nessa situação, a gente não quer nada mais que uma atenção para nós em cima dessa injustiça dessa máquina opressora.”

Os ASPENs também discordam da colunista do Estadão

O presidente da Associação Mineira dos Agentes e Sistema Prisional rechaça a tese defendida pelo governador que são as duras regras impostas aos encarcerados no estado que esteja causando revolta no Primeiro Comando da Capital.

Ele diz que a reivindicação dos faccionários se deve à falta de condições nos presídios — coisas que a colunista do jornal, O Estado de São Paulo, não pode ver de dentro da segurança de seu lar, mas que ele de trás das muralhas pode perceber.

ASPENs se manifestam no caso dos ônibus queimados

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

O Primeiro Comando da Capital aceita gays? LGBTPCC

A organização criminosa paulista Primeiro Comando da Capital PCC não aceitava o comportamento homossexual em suas fileiras, isso mudou, mas só um pouco.

Afinal um irmão PCC pode ou não assumir a homosexualidade?

Não passa uma semana sem que me perguntem sobre a visão de dentro da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) sobre a questão dos homosexuais. Sim, homossexuais ou bichas, se bem que, talvez, o politicamente correto fosse LGBTQIA+, mas os PCCs não se preocupam com o politicamente correto.

Ao contrário do que afirmam por aí, o Estatuto do PCC não proíbe homosexuais:

“6 Item: O comando não admite entre seus integrantes, estupradores, pedófilos, caguetas, aqueles que extorquem, invejam, e caluniam, e os que não respeitam a ética do crime.”

Meninas e meninos, não joguem as purpurinas ainda.

O comportamento dos membros da facção é especificado no Dicionário do PCC 1533, que é como o Regimento Disciplinar de uma organização militar, e lá o buraco fica mais em baixo:

“33. Mau exemplo: Fica caracterizado quando o integrante foge do que rege a nossa disciplina, não passando uma imagem nítida da organização, quando não se coloca como faccionário diante da massa, desrespeitando e agindo totalmente oposto ao que é pregado pela facção.
36. Pederastia: Se caracteriza quando se pratica sexo com pessoas do mesmo sexo, difere do homossexualismo porque o praticante é ativo somente e não passivo.”

Não vou discutir sobre o que está escrito. Caso alguém discorde da redação, faz favor de reclamar com o dono da porcada: Rodovia Raposo Tavares, km 586. Chegando lá, diga para o ASPEN que quer falar com o Marcola, e, se der, ele atende.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Em um passado não muito distante…

Gays eram hostilizados nas trancas. Humilhados, não podiam dividir colheres e copos com os demais — o que aqui fora não é nada, mas lá é um problemão — só podiam tomar banho quando não tivesse mais ninguém, e também não podiam puxar conversa no pátio.

A situação ficava cabulosa dentro das celas, pois eles não podiam coabitar com os outros — se o complexo era grande, havia celas só para as “monas”, mas, se eram poucos, o homossexual pedia transferência da unidade, e era melhor se conseguisse.

Meninas e meninos, podem jogar as purpurinas agora, uh uh!!!

Conta a lenda que, certo dia, o Primeiro Comando da Capital preparou uma fuga espetacular, daquelas que só ele tem capacidade de organizar, mas a informação vazou, e a administração e o governo iriam pegar todos enquanto tentavam fugir.

Ia se repetir o caso da Castelinho, onde um ônibus que estava indo para uma operação de resgate em um presídio recebeu mais de 700 tiros e 12 PCCs foram mortos.

Adivinha quem descobriu o vazamento e alertou os PCCs? Pois é, uma “mona”. Como agradecimento pelas vidas salvas o Primeiro emitiu um salve suavizando para as meninas. Se é verdade essa história, eu não sei. O que eu sei, e pode ser visto hoje dentro das trancas dominadas pela facção paulista, é a vigência do salve:

“Os homosexuais devem ser respeitados dentro do sistema, mas devem manter a disciplina e discrição.”

Nem todos os esforços de todas as associações de direitos individuais e de diversidade conseguiram juntas o que aquela “mona” conseguiu sozinha, o respeito em todo o Sistema, e quem descumpri a norma pode ser chamado para conversar.

“Vi com esses olhos que a terra há de comer” (eh eh, sempre quis usar essa frase):

Em um semiaberto, havia um casal de prisioneiros, e todos na unidade sabiam que eles tinham um relacionamento. Sempre andavam lado a lado, e um deles, efeminado com cabelos compridos, nunca falou com ninguém lá dentro; já o outro era o estereótipo do ladrão perigoso, e demonstrava claramente ciúmes quando alguém olhava para o companheiro dele.

Eles não se tocavam e sempre mantendo a postura.

Só conversavam, não dormiam juntos, sempre guardando a regra de discrição e respeito, mas, também, sempre foram respeitados por todos. O dia de visita é sagrado e, para não ter a mínima possibilidade de haver um constrangimento, eles ficavam conversando em um canto do pátio.

Os politicamente corretos que me perdoem… Ou melhor, não, se revoltem… E vão protestar com faixas, cartazes, e em frente a sede da Organização Criminosa ou na biqueira do seu bairro, mas a facção começou a controlar as condutas homosexuais nas prisões para acabar com a escravidão sexual dentro dos presídios, cuja prática era uma constante.

Para os ambientes dominados pelo PCC onde a masturbação e a ereção sob a calça são severamente punidas, vale a advertência de Freud: um ambiente que reprime o libido “produz uma necessidade de descarga, a fim de reduzir a tensão”.

Quanto às mulheres, sempre foi mais suave, mas aí será outra história.

A Umbanda, o Candomblé, e a facção paulista PCC

A agressão sofrida por um pai de santo e uma mãe de santo no Rio de Janeiro levanta dúvidas sobre conduta das facções criminosas quanto ao respeito às religiões afro-brasileiras.

O avanço dos grupos neopentecostais na facção PCC

O mundo do crime não está tão distante de nós como imaginamos. O avanço dos grupos neopentecostais teve força para influir na eleição presidencial, portanto, não deixaria influenciar a vida dentro dos presídios e nas quebradas.

No Rio de Janeiro, essa mudança se torna evidente aliados quando parceiros do Primeiro Comando da Capital como o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Complexo de Israel:

Pouco tempo depois, o primeiro grupo narcopentecostal conhecido foi fundado como uma subfacção do Terceiro Comando Puro: o Bonde de Jesus. Além de controlar o tráfico no bairro do Parque Paulista no Estado de Rio de Janeiro, os Soldados de Jesus atacaram e vandalizaram vários templos de Candomblé e de Umbanda, expulsando os sacerdotes dos seus territórios. Desde então, a perseguição não só das religiões afro-brasileiras, mas também de padres católicos, tem sido relatada em várias favelas dominadas pelo Terceiro Comando Puro.

A reportagem é de Kristina Hinz, Doriam Borges, Aline Coutinho e Thiago Cury Andries, publicada por Open Democracy

Muito diferente do que acontecia há 30 ou 40 anos quando traficantes não apenas convivia pacificamente com pais e mães de santo, como participavam das sessões — o Brasil mudou muito em pouco tempo

Tanto dentro dos presídios quanto nas quebradas, a influência dos pastores é notada há muito, mas assim como o fez no governo federal, também passou a ditar regras morais e de costumes.

Abaixo, eu mantenho um texto que escrevi em tempos idos, mas que ainda vale para São Paulo, mas não sei por quanto tempo.

Família 1533 — uma organização conservadora

Talvez, você possa me entender, mesmo que não faça parte de nenhuma organização criminosa. É difícil explicar uma sensação, mas se você já esteve em um estádio lotado em uma final de campeonato, você já sentiu algo parecido com o que se sente quando se está num pátio de uma penitenciária com dezenas ou centenas de homens a gritar:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós? Por que Ele é justo!” – a lembrança me arrepia até hoje.

A socióloga Camila Nunes Dias afirmou que a facção paulista é conservadora e homofóbica, e esse é um dos casos no qual uma verdade esconde uma acusação falsa.

A também socióloga Carla Cristina Garcia demonstrou que não é a facção que é conservadora e homofóbica, mas sim a sociedade brasileira. Isso mesmo: eu, você e as duas também estamos incluídos.

Claro que eu não sou, e nem você é; só os outros que não estão me lendo são.

Onde citei neste site Camila Nunes Dias → ۞

Destruindo o centro de Umbanda e Candomblé

Há alguns dias um vídeo circulou com a chamada “PCC destrói templo de Candomblé”, só que ele mostra membros do Terceiro Comando Puro (TCP) do Morro do Dendê, no Rio de Janeiro, e não do Primeiro Comando da Capital (PCC). As facções são aliadas, mas o grupo paulista não tem influência na conduta do grupo carioca — são independentes.

Vou explicar um pouco a ojeriza que existe hoje na Família 1533 com esse negócio de Candomblé e Umbanda, pois nem sempre a situação foi tensa:

No passado, houve uma facção criminosa chamada Seita Satânica SS. Os caras eram cabulosos e sanguinários. Para se ter uma ideia, para ser batizado, o próprio cara tinha que cortar um pedaço da ponta do dedo e tomar o sangue.

Tortura e morte de PCCs e SSs ocorreram dentro dos presídios até que, por volta de 2002, esse grupo foi eliminado.

Os restos desta disputa se somaram ao preconceito enraizado de todo brasileiro. Claro que nem eu, e nem você temos preconceito enraizado; só os outros que não estão me lendo tem.

Onde citei neste site o Terceiro Comando Puro → ۞

Uma lei dentro e outra fora das trancas

Se alguém chega dentro de uma tranca paulista com ideias das religiões afro, essa pessoa é convidada de boa a guardar sua fé para si. O Primeiro Comando tem como regra básica não se meter com a vida de ninguém, mas impõe regras para o espaço comum.

Agora, para ver o bagulho ficar louco na tranca é só encontrar um cigarro de pé, atrás da porta da cela, mas nas comunidades fora das muralhas, a ordem é a da tolerância religiosa.

A paz, próximo às biqueiras, deve imperar para que a polícia não seja chamada e o fluxo continue constante e seguro. Se um templo, seja ele qual for, começar atrair viaturas para a comunidade, ele também será convidado a se retirar, mas só depois disso ser discutido dentro da sintonia e de chegarem a um acordo, se não…

Há alguns anos, um membro do PCC que dominava um bairro fechou uma igreja evangélica que ficava perto da sua biqueira. Agora, ele descansa em paz, sem se preocupar mais com os irmãos orando, sem se preocupar com mais nada, pois agiu por conta própria, sem consentimento da hierarquia do partido, e foi cobrado: ele morreu, e a igreja voltou.

Onde citei neste site o Sistema Carcerário → ۞

Não se pode confundir os SSs com as religiões afro

A Seita Satânica e aqueles que pregam o satanismo de qualquer maneira não são aceitos pelos membros do Primeiro Comando da Capital — as seções de autoflagelação e as formas de tortura a que são levados os que vivem nas trancas dos SSs são inarráveis.

Presidiário seita satânica SS Bauru

Mas o que é certo, é que nas ruas, os os pais e mães de santos as vezes são protegidos pelos membros da facção, como me conta um babalorixá aqui da zona norte da cidade:

“… alguns até participam dos cultos, mas são poucos. Aqui, quase na esquina tem uma biqueira, eles cuidam das vidas deles e nós da nossa. É só agente não atrapalhar eles que está tudo bem — nos dias de movimento no terreiro eles não deixam ninguém mexer nos carros e com as pessoas que frequentam o Centro.”

Todos somos membros da mesma sociedade

O mesmo se daria se o disciplina ou o sintonia da cidade tivesse recebido uma reclamação por parte de um pai de santo, pastor, padre…

Talvez, você possa me entender, mesmo que não faça parte de nenhuma organização criminosa, pois fazemos parte da mesma sociedade e temos a mesma base cultural. É difícil explicar uma sensação, mas sentimos de maneira parecida.

Quando apontamos o dedo acusador para os lados, estamos apontando-o para nós mesmos — claro que nem eu, e nem você apontamos; só os outros que não estão me lendo apontam.

Quando garoto, participei certo tempo da Umbanda em Pirituba. Larguei, mas trago comigo as porradas e os esculachos dados pelos policiais, assim como o preconceito da sociedade. Agora vêm os dois grupos apontar o dedo, se arvorando como defensores das religiões afro: menos, menos, muito menos.

O Primeiro Comando da Capital representa a sociedade brasileira, só não se esconde atrás das suas máscaras, e tenho certeza de que você já sentiu algo parecido com o que eles sentem quando estão num pátio de uma penitenciária, arrepiados, a orar e gritar:

“Se Deus é por nós, quem será contra nós? Por que Ele é justo!”

Claro que eu, e você somos tudo de bom; até mesmo os outros que não estão me lendo, mas os PCCs, esses não estão nem aí com o que eu, você, e os outros pensam a respeito deles, mas tem clareza na sua conduta, pois alegam com orgulho de ser: “O lado cerdo, do lado errado da vida”.

Ah! Ia me esquecendo de dizer que Luiz Roberto me avisou que agora a mãe-de-santo que foi agredida está pedindo asilo na Suíça e quer deixar o Brasil.

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O Governo perdeu o controle dos presídios?

A formação e o fortalecimento das facções dentro dos presídios brasileiros são consequências das práticas de negociação entre os agentes do Estado e as comunidade carcerária.


A revolta dos Guardiões do Estado (GDE 745)

É fácil ficar berrando que não se negocia com preso, mas Anália e Wellington já haviam avisado: a coisa não é bem assim.

Ceará news incêndio em Cariri GDE 745

Com doze agentes penitenciários para gerir mais de mil cativos na Penitenciária Industrial e Regional do Cariri (PIRC), o Estado deveria se colocar em seu lugar, e fazer o que tem feito desde os tempos da Colônia: garantir a governabilidade através da negociação.

No entanto, o governo preferiu pagar para ver, endureceu as regras, e os aliados do Primeiro Comando da Capital, a facção cearense Guardiões do Estado, mandaram um recado: “devagar com o andor que o santo é de barro!”, e atacaram prédios públicos no Cariri, em Juazeiro do Norte.

A polícia prendeu alguns dos integrantes do GDE 745 que participaram da ação, mas o prejuízo para os cofres públicos, a sensação de insegurança transmitida para a população, a impunidade dos líderes criminosos e a impotência do Estado ficaram.

O que você sabe sobre o controle do Estado?

Você, assim como eu, talvez se pergunte se o governo perdeu o controle sobre o que acontece dentro dos presídios. Lamento dizer, mas Analía e Welliton afirmam que nós nem temos chance de entender o que está realmente acontecendo.

Se for esse seu caso, assim como é o meu, sugiro que, assim como eu o farei, volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news.

Os sociólogos Analía Sória Batista e Welliton Caixeta Maciel desconstroem o conceito de controle social exercido pela sociedade no artigo Prisão como gueto: a dinâmica de controle e de extermínio de jovens negros pobres, publicado pela UNESP.

Nós, pelo menos foi a impressão que tive ao ler o texto, vivemos em um mundo imaginário, acreditando no coelhinho da Páscoa, no Papai-Noel e na aplicabilidade do Positivismo e dos ideais iluministas de Rousseau.

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O sangue lusitano corre em nosso tecido social

Você se lembra de Ganga-Zumba? Eu nunca tinha ouvido falar, mas era ele quem controlava o Quilombo dos Palmares e, quando viu que a casa ia cair, fez um acordo com a Coroa Portuguesa para evitar o massacre. Não me acuse de spoiler, você já sabe que deu errado, o sobrinho dele, chamado Zumbi, recusou o acordo e o resultado foi uma carnificina.

Faz parte da cultura lusitana de base católica, herdada por nós, evitar o quanto possível a interferência armada do Estado nos conflitos. Não que os lusos tivessem uma queda nata e à frente de seu tempo para o liberalismo, mas conheciam as limitações do aparelho repressivo de seu Estado.

Enquanto as outras nações europeias começavam a discutir se o poder dos nobres adivinha do poder de Deus, Portugal já tinha um Estado constituído e contato com pessoas de todo o mundo, adquirido por meio das navegações marítimas.

Sobreviver no canto do continente europeu fez daquele povo especialista em conhecer seus limites. Negociar com o outro foi uma ferramenta de sobrevivência trazida para as terras brasileiras, algo visto nas tentativas de barganha com os revoltosos de Palmares.

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O habitus de relacionamento entre Estado e sociedade

Sei que o mundo ideal é aquele baseado no neoliberalismo, afinal, procuro ser uma pessoa politicamente correta, e hoje o correto é defender as ideias liberais, principalmente no que tange a vida dos outros.

Pressiono o governo para que me garanta aposentadoria, saúde, segurança, educação e infra-estrutura, mas defendo que o Estado deve interferir minimamente em minha vida — quanto maior for meu poder de influência, mais conquistas terei.

Os governantes nada mais fazem que gerir os interesses diferentes, pressionados pelos mais diversos grupos sociais, e nosso sangue lusitano entra em ação para manter a governabilidade, atendendo, na medida do possível, a todos.

Quanto maior é a capacidade do governante de fazer o controle social por meio da autogestão das diversas comunidades sob seu julgo, melhor será seu resultado administrativo e de manutenção da paz — foi assim na Colônia e é assim hoje.

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Evitando o ponto de ruptura

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Zumbi, que assumiu Palmares e resolveu que a liberdade não se negocia. Por sua vez, os portugueses mandaram Domingos Jorge Velho até lá, que arrasou a vila. À custa de muito sangue, para os dois lados, Zumbi se tornou herói e Palmares um símbolo.

A arte de negociar chegou ao fim por decisão de Fleury, que assumiu o governo e resolveu que não se negocia com presos amotinados. A história se repetiu, e o Cel. Ubiratan arrasou o Carandiru. Dessa vez, também à custa de muito sangue, nasceu o Primeiro Comando da Capital, e Marcola se tornou herói e o PCC um símbolo.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Analía e Welliton analisam as dinâmicas de violência e de negociação entre o Estado e as facções criminosas, levando em conta os complexos processos sociais de produção, controle social e manutenção que formam os guetos — a lógica vale tanto para os atuais presídios, as regiões periféricas e as ocupações urbanas e rurais quanto para os antigos quilombos.

Todos nós estamos o tempo todo sob o julgo do Estado, que interfere de forma abstrata e generalizada em nossas vidas, impondo sua autoridade, e assim também ocorre dentro dos guetos — Zumbi e Fleury optaram quebrar o equilíbrio cada um por um lado e ao seu tempo.

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O controle do estado sobre a massa carcerária

Os meios de comunicação e os políticos defendem soluções fáceis e aceitas pelo público, e o presídio sob controle total dos agentes penitenciários faz parte dessa plataforma, alternativa que tem, no mundo real, tanta chance de se concretizar hoje como se tinha no século XVII.

Quando a facção paulista Primeiro Comando da Capital utiliza os presídios como centros de operações internacionais, fica claro que o Estado perdeu autoridade, no entanto, a pacificação do no sistema prisional prova que o Estado se mantém no controle.

O autogoverno carcerário é responsável por evitar fugas e garantir o retorno das saidinhas e a vida e a segurança de funcionários e sentenciados nos presídios — ou alguém imagina que um preso estuprado, roubado ou ferido por outro preso vai chamar o carcereiro e pedir para ir para a delegacia de polícia para fazer um boletim de ocorrência?

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Abandonando o moralismo para entender o mundo real

Analía e Welliton apresentam números que demonstram que a estrutura social vigente nos presídios, periferias e ocupações contemporâneas foram edificados a partir das décadas de 1970 e 1980, com o envio seletivo de negros pobres para o encarceramento.

Nas décadas seguintes, acrescentou-se ao ambiente prisional jovens, quase sempre pobres e negros com envolvimento com o tráfico de drogas, que traziam consigo das ruas experiência de guerra entre gangues pelo domínio de biqueiras.

A violência e a crueldade sempre existiram dentro das prisões, mas eram atos de desajustados violentos, repudiados e temidos pelos demais; agora, essas forças são organizadas, aplicadas pelos soldados do tráfico sob liderança.

A massa carcerária ganhou um autogoverno com seu próprio sistema de segurança pública, com organização, liderança e aceitação na comunidade que representa, e o Estado Constituído assistiu, depois de cinco séculos, à chegada da paz nos cárceres.

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Em um eterno movimento pendular

As chacinas dentro dos presídios do Norte e do Nordeste e a queda de braço entre os aliados Guardiões do Estado e o governo provam que nem tudo são flores nesse processo. O custo da paz pode ser muito violento, e sua estabilidade depende do uso da força e da negociação, e nunca será definitiva ou terá limites bem delineados.

Será extremamente difícil nossa sociedade sair —a construção de um círculo policial-midiático-criminoso, um pelourinho midiático ao qual expõe e criminaliza as comunidades periféricas para o deleite de uma população que se sente superior.

A mídia, em busca de espetáculo, cobra das autoridades uma maior presença do Estado no controle do dia a dia carcerário, assim como alguns políticos que visam lucro eleitoral. No entanto, a realidade é que o governo não tem condições efetivas de gerir essa questão — alguns acreditam que com a privatização dos presídios, quem sabe?

Em Portugal do Século XV, já analisava-se a capacidade real de ação do Estado. Eles agiam por pura emoção, e o mais incrível é que os antigos lusos ainda sequer tinham recebido as luzes do Iluminismo e do Racionalismo.

Por isso, sugiro que você faça como eu: volte para sua linha do tempo e seus grupos do Facebook e WhatsApp para postar suas opiniões sobre memes, fotos e manchetes de fake news, em que nossos amigos neoliberais e progressistas podem demonstrar para seus iguais que têm razão, sem se preocupar com a opinião de Analía e Welliton.

O que falei neste site sobre chacinas → ۞

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

PCC tiene presencia en países latinoamericanos

Surgido en el desbordado sistema penitenciario de San Pablo en 1992, el Primer Comando de la Capital (PCC) tiene presencia permanente en todo el territorio y en varios países latinoamericanos. Sólo en drogas factura unos 50 millones de dólares al año.

Rícard Wagner Rizzi

O gato preto, a facção PCC e a Seita Satânica

É difícil saber o que é ficção ou realidade no mundo, e os faccionados do PCC levam muito a sério o espiritual.

Pedindo transferência para tranca do PCC

Não nos conhecemos, e eu não preciso dar satisfação a você, e nem você para mim. Só vou contar para você o que está acontecendo para que você tente entender porque preciso ser transferido para uma tranca da facção Primeiro Comando da Capital.

Talvez você fique em dúvida se é verdade o que vou lhe contar, mas lembre que não tenho nenhum motivo para mentir, e não há, de fato, nada de incomum nessa história, apenas algumas coincidências — que para mim pareceram engendradas pelo próprio demônio.

Essa é a razão pela qual quero voltar para um uma tranca do 15, para fugir do tinhoso, pois algo que as crias do PCC não toleram é essas coisas de satanismo — mesmo que isso me custe a própria vida.

Não omitirei ou acrescentarei nada à história. Talvez você possa entender melhor que eu o que aconteceu, por estar de fora e ter mais esclarecimento, talvez me diga que não há nada de extraordinário na morte de minha mulher e nos acontecimentos vinculados ao gato.

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Hoje sou PCC, mas fui um menino comum

Eu era um garoto quieto, ficava na minha, tanto na escola quanto na rua, nunca gostei de confusão, mas se precisasse entrar em briga para ajudar os amigos, eu sempre chegava junto.

Na escola eu ficava ouvindo histórias contadas pelos meus colegas, e na rua só saía para empinar pipa ou jogar futebol, pois o que eu gostava de verdade era ficar em casa ouvindo música e brincando com meu cão. Esse sim, verdadeiro e sincero amigo, e depois que cresci, me aproximei ainda mais do Bob.

Tive a sorte de arranjar uma garota que, assim como eu, gostava de animais. Ela mesma tinha um gato grande e preto. Quando fomos morar juntos, meu já envelhecido cão, me acompanhou, e o gato de imediato se apegou à ele.

Onde o cão estava o gato estava junto. Quando eu chegava do serviço, o Bob e o gato vinham me receber. À noite, o bichano não vinha para a cama conosco, se espremia com o cachorro em sua coberta junto à porta — nunca vi uma amizade como aquela.

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Gatos pretos são seres das trevas

Eu nunca dei trela a essas lorotas, mas seguia o conselho de minha tia Ana: “é melhor prevenir (fechar os olhos, virar o rosto) do que remediar (fazer curativo nos joelhos e/ou escovar com força o solado do sapato).”

Saí do emprego para fazer transporte de cigarro e outras coisas do Paraguai para o interior de São Paulo. O pagamento era bom, a distribuição era suave, e com o dinheiro me mudei para uma casa melhor.

Tudo corria muito bem, apesar do gato se comportar de maneira estranha. Se eu acordava de madrugada, o gato sempre estava sentado ao lado de Bob e me olhava profundamente.

Quando isso acontecia eu tentava dormir novamente, mas sabia que aqueles olhos continuavam fixos em mim. Com o tempo, não conseguia mais dormir, era só eu deitar e lembrava que o gato me olhava. Depois passei até a evitar de ir para casa.

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Entre sermões e louvores

Por conta daquele gato eu estava perdendo o controle, e o dinheiro fácil era utilizado a rodo com bebidas e drogas — minha mulher, estava sofrendo com isso.

Meu velho cão e seu fiel gato agora eram os únicos que ainda vinham até mim quando chegava em casa. Minha garota já me evitava, e quando vinha falar era para criticar meu comportamento, pedir mais dinheiro e reclamar de meus amigos.

Ela, que sempre foi evangélica, passou a ser fanática, e isso me irritava profundamente. Era eu chegar em casa e começavam os sermões e louvores. Se em casa o clima era tenso, na rua não era melhor, e até o geral do estado me chamou para trocar umas ideias sobre meus excessos.

Tudo por culpa daquele gato preto. Para você pode parecer que não tem nada de mais em um gato olhar para você, mas é cabuloso e fica encucado na cabeça.

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Perdi completamente o controle sobre mim

Numa madrugada ao chegar em casa, eu estava turbinado, misturei tudo, a mente estava nublada e só me lembro que o Bob e o gato foram até a porta me receber e que minha mulher veio me dar um sermão — bati nela e chutei o cão, só o gato foi poupado.

Ao acordar de manhã ela não disse nada, o cão também se aquietou com o gato ao seu lado, e alguns dias depois o cachorro morreu — ele era muito velho, era de se esperar que partisse mais cedo ou mais tarde, sua morte não podia ter sido por causa de meu chute.

Enquanto ainda estava vivo, o cão olhava para mim triste, sem se levantar de seu cobertor — o gato também me olhava, mas agora com puro ódio, e quando eu acordava à noite, ele estava sentado na cama, bem ao meu lado olhando para mim.

Jurei que nunca mais me excederia, e evitei ir para casa, onde eu sabia que teria que enfrentar o olhar daquele animal demoníaco — eu precisava dar um tempo fora de casa, e a solução veio em forma de um serviço.

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Fui para a Guerra do Acre — B13 PCC vs CV FDN

Em agosto de 2017 me chamaram para levar alguns equipamentos para o Acre, onde estava tendo uma guerra entre a facção Bonde dos 13 (B13) e o Comando Vermelho (CV).

Não ia ter pagamento para esse serviço, era para ajudar os aliados, e eu fui convidado. Era só ir para as proximidades de Aquidauana no Mato Grosso do Sul, esperar na casa de um aliado o carregamento que vinha da fronteira e seguir para Rio Branco.

A viagem correu tranquila, até que minha mulher me ligou perguntando pelo gato, ela achou que eu o havia matado, pois ele desaparecera desde o dia que saí para a viagem — a partir daquele momento, não mais consegui dormir.

Entreguei o material, e os irmãos que me receberam não me deixaram voltar. Fui recebido como rei, e acabei ficando uns dias, e mesmo não participando dos corres por lá, eu, que nunca deixei de ajudar os amigos em suas brigas, não fiquei fora da guerra.

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O sangue infecta a alma

Não preciso aqui mentir, pois não estou sendo julgado por nenhum dos crimes que aconteceram em Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia, mas garanto que nunca vi em São Paulo o que presenciei por lá. Era outro nível de violência e crueldade, algo satânico.

Aquilo impregna o espírito do homem, mesmo o de um criminoso experiente como eu.

Não é fazer um assalto e esperar que as vítimas não reajam para que tudo termine bem: é ir pegar alguém sabendo que ela será torturada e esquartejada — já havia feito contenções em São Paulo e no Paraná, mas as mortes eram menos cruéis.

Fiquei feliz quando disseram que houve um acordo com o governo e que as ações nas ruas e nos presídios iriam parar, só sendo aceitos os acertos de contas autorizados, sem envolver a população — parti de volta para São Paulo.

Ao chegar em casa, o gato estava no cobertor do cachorro, e de lá não saiu, só ficou me observando. Quando minha mulher chegou em casa disse que o animal ficou fora todos os dias enquanto eu viajava. Ela disse isso e começou a orar, o que me irritou.

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Enforquei o gato no quintal da casa

Repito, não estou aqui para tentar dizer que tinha ou não alguma coisa demoníaca com aquele animal, apenas narrando os fatos na ordem dos acontecimentos e do jeito que aconteceram.

A viagem ao Acre me livrou das drogas, voltei limpo, mas as coisas que vi por lá mexeram com a minha cabeça. Eu não mais toleraria aquele gato, e no começo da noite o enforquei na goiabeira no quintal de casa — e naquela noite minha casa pegou fogo.

Vim direto do Acre para casa, sem parar no caminho para deixar as coisas que trouxe da Família 1533, e se elas queimassem eu teria que enfrentar o Tribunal do Crime — estava colocando no carro as armas e a droga quando a polícia chegou, atraída pelo incêndio.

Segundo Raymundo Juliano Feitosa cobrança mais cruel pelo Código Penal do PCC é o chamado xeque-mate: esquartejamento do infrator enquanto ele ainda está vivo, e só depois ele é morto e todo esculacho é filmado e jogado nas redes – essa condenação é aplicada aos estupradores e pedófilos, também, tem por finalidade servir de exemplo para outros que teriam interesse em fazer o mesmo.

Fui abordado e já estava algemado quando o policial perguntou se tinha alguém na casa. Minha mente ainda não estava funcionando direito, respondi que não, mas naquele momento, da casa ainda em chamas vieram gritos horríveis.

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Minha mulher morreu e eu fui preso

Um dos que narraram o que lá se ouviu foi Carlos Eduardo Valente, um pelotense que havia se mudado para o estado de São Paulo:

“Santo Deus, apenas ecoou no silêncio um gemido, um soluço, um grito prolongado e alto, anormal e inumano, um urro, um guincho lamentoso, cheio de horror e triunfo, como só no inferno pode se erguer das gargantas dos danados a sua agonia, e dos demônios da danação.”

O sangue gelou e ninguém se mexeu enquanto aquele lamento diabólico não cessou, e aí os vizinhos se lembraram que na casa deviam estar minha mulher e o gato, não eu. Quando os bombeiros chegaram, já não restava mais nada a fazer do que o rescaldo.

O corpo dela foi encontrado ainda na cama e na parede queimada, uma mancha branca na parede agora negra. Todos se admiram daquela marca, não tinha como não ver claramente um gato enforcado.

Os bombeiros encontraram e mostraram para o policial o corpo do animal ainda pendurado na árvore, e todos acharam que eu havia aproveitado que minha mulher dormia para matar o bicho, fazer a marca satânica na parede, por fogo na casa e fugir enquanto ela queimava — mas que o plano falhara.

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Mesmo preso o gato me persegue

Não pense que fiquei triste com minha prisão, pensei que ia me livrar do pesadelo, pois na prisão ficaria livre daquele gato do diabo, mas não, fui mandado inicialmente para o CDP de Sorocaba, e lá levei muito “salve”, perdi uns dentes e tive um pulmão perfurado.

Acharam que eu tinha matado minha mulher — fui mandado para o seguro, e depois começaram minhas transferências sem fim.

Independente para onde eu ia, era só eu chegar que, durante a noite, aqueles gritos lamentosos e horripilantes começavam a ser ouvidos pelos corredores, e todos os atribuíam a minha presença.

A imprensa inventou muita coisa a meu respeito, dizendo que eu havia emparedado minha mulher com um gato, o que não foi verdade, mas a mídia comprou a ideia e o mito se colou em mim como o grito daquele gato preto.

Eu aguentei de tudo, mas, agora, que estou em uma tranca onde sou aceito, venho pedir pelo amor de Deus que você consiga minha transferência de volta para qualquer unidade prisional comandada pelo Primeiro.

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O cheiro de carne humana queimada é um elixir para Lúcifer

Eu contei a você tudo o que aconteceu, você pode ver que não tenho nada com esse negócio de satanismo, foram apenas coisas que aconteceram, e aquele gato negro que entrou em minha vida.

Agora estou em uma das poucas unidades, se não a única do estado, onde ainda tem alguns membros da Seita Satânica (SS), e me colocaram com eles — ninguém mais me aceita por perto.

Mas eu prefiro morrer nas mãos dos PCCs a continuar vivendo entre os SSs. Aqui é o inferno no inferno, eu mesmo não teria palavras para descrever o que acontece por aqui. É como Diorgeres de Assis Victorio contou para Guilherme Santana:

“Tenha um mau dia, que o demônio te acompanhe, e tudo de ruim para você.” — é assim que começamos o dia, mau. Nos dias bons, tem cheiro de churrasco, mas é carne de gente viva que é queimada dentro das celas — daqueles que são aceitos como irmãos.

As queimaduras são graves e acabam na enfermaria, eu sou um dos poucos que não aceitam participar dessa loucura, mas não posso negar que eles não tenham força, pois desde que estou aqui, nunca mais o gato maldito apareceu.

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O estatuto só tem 3 linhas , mas já é o que basta

Presidiário seita satânica SS Bauru

Achei que nada seria pior que o gato demoníaco, mas o cheiro de podridão da tranca da Seita Satânica, as paredes com símbolos de estrelas de cinco pontas e cruzes invertidas, tridentes e escrituras em uma língua estranha, as repetições do número 666 e desenhos de Baphomet e do olho de Lúcifer são muito mais difíceis de suportar que aqueles olhos acusadores ou gritos enlouquecedores do gato do inferno.

Ninguém conta de onde vem o sangue que é guardado até muito depois de apodrecer dentro das celas dos SS, e não serei eu quem o farei, mas o segredo talvez esteja no livro “Alquimia, Satanismo e Cagliostro”.

Até agora, pelo menos, eu não consegui que me deixassem ver o livro. Ele fica enrolado em um pano preto junto com alguns charutos, mas as regras básicas são repetidas e por todos têm que ser decoradas:

1) Que a verdadeira justiça infernal reine em nossos corações.
2) Porque, na verdade, a justiça infernal é inviolável em toda a superfície do universo.
3) Nas profundezas do fogo, nas profundezas do inferno, em toda a superfície da terra, nas profundezas do mar e no espaço infinito, sempre para a glória infernal.

Diorgeres de Assis Victorio pode contar para você toda a história dessa facção, desde o seu início, passando pela difícil convivência com o Primeiro Comando da Capital no Carandiru, até o momento que praticamente foi riscada do mapa pelo PCC.

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O gato não se atreveu a enfrentar os SSs

O que aconteceu para aquele maldito gato ter deixado de me atormentar todas as noites, aqui, e enquanto eu estava nos outras trancas ele continuar a me perseguir?

Fui condenado pelos homens pela morte de minha mulher, do gato, e pelo incêndio na casa, mas não mereço ir para o inferno, e por isso me recuso a ficar com essas crias de Lúcifer.

Matei sim, mas não minha mulher, trafiquei sim, mas nunca fui uma pessoa má. Sempre gostei de animais, de ajudar meus amigos e ficar com minha mulher.

Por isso, e pela última vez, peço-lhe que consiga minha transferência, pois prefiro que esse meu corpo morra pelas mãos de meus irmãos, mas minha alma seja salva e siga seu caminho para longe daqueles olhos acusadores daquele gato maldito.

Esse texto foi baseado no conto “O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe.

Espalhai-vos sobre os presídios abundantemente

A ordem é para aproveitar as transferências para fortalecer aonde a facção esteja com pouca sintonia.

O Sintonia do Paraná falou:

Sede fecundos, disse-lhes ele, multiplicai-vos e enchei as trancas.
Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo aquele que pensar em se opor a vós.
Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva e o pó.
Somente comereis carne com a sua alma, com seu sangue.
Todo aquele que trair a nós terá seu sangue derramado pelos irmãos, porque faço de vós a nossa imagem.
Sede, pois, fecundos e multiplicai-vos, e espalhai-vos sobre a terra abundantemente. PCC 15:33

Caiu na escuta telefônica da Operação Dictum

Bem, talvez não tenham sido exatamente com essas palavras, mais ou menos isso que Luan Lino de Andrade, o Pirlo do PCC disse e que serviu para alertar a Polícia paranaense sobre os planos de disseminação do Primeiro Comando da Capital (facção PCC) pelos presídios do interior do estado.

A facção paulista há tempos utiliza os planos secretos dos estrategistas do governo para ampliar seu campo de atuação. A lição já deveria ter sido aprendida em 1992 quando espalharam os facciosos do Carandiru para todo o estado.

Posteriormente em outra tentativa de diminuir o poder da organização criminosa, os estrategistas dividiram os PCCs pelos mais diversos estados brasileiros, fazendo assim que a facção se tornasse uma potência nacional.

Agora, passado 25 anos, o delegado federal Marco Smith alerta que enviar os líderes do Primeiro Comando da Capital para o interior faz mal para a saúde:

delegado federal Marcos Berzoini Simith

“O que nos preocupa atualmente é a firme disposição da facção de espalhar seus líderes por todos os presídios (…) o objetivo da facção é espalhar os seus líderes pelo interior para fortalecer as regiões que, como eles chamam, não estão ‘na sintonia’.”

Rícard Wagner Rizzi

O Sistema Prisional e as soluções estrangeiras

Adaptar a solução jurídica escandinava à realidade latino-americana é a proposta de dois professores chilenos que estudaram o sistema nórdico de penalização.


Você acredita que não seria possível adaptar para o Brasil a experiência nórdica?


Podemos nos comparar com os outros?

Concordo com você, não tem como comparar uma coisa com a outra: nem o sistema prisional escandinavo, nem o americano podem ser usados como modelo para o latino-americano. As condições econômicas e a forma de organização social são diferentes e impedem que utilizemos aqui essas experiências que foram aplicadas com sucesso lá.

Ana María Munizaga e Guillermo Sanhueza, no entanto, acreditam que é possível o modelamento escandinavo. É o que afirmam no artigo Una revisión del modelo carcelario escandinavo con notas para Chile, publicado na Revista TS Cuadernos de Trabajo Social, da Facultad de Ciencias Sociales y Humanidades, da Universidad San Sebastián.

Talvez seja difícil trazer para nossa realidade a experiência escandinava, mas a chilena, nem tanto.

“[…] as deploráveis condições de vida nos estabelecimentos penitenciários do país, aliadas à falta de uma política carcerária, não permite a reinserção social dos internos; […] celas abarrotadas, sem higiene, ventilação, e luz; […] os tratos cruéis e as situações indignas a que são submetidos os reclusos […]”

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Segurança para os Aspen e para os internos

Essa descrição feita pela fiscal da Suprema Corte chilena, Mónica Maldonado, poderia ser utilizada para qualquer instituição carcerária brasileira, então, realmente, não somos tão diferentes de nossos irmãos andinos — a opressão do Sistema não respeita fronteiras.

Os articulistas ressaltam que a busca pela adaptação ao modelo externo tem como finalidade não apenas o aumento do índice de ressocialização e das condições dos internos, mas também elevar a segurança e melhorar as condições de trabalho dos agentes penitenciários, além de beneficiar toda a sociedade. Pode ser que estejam sonhando de mais, pode ser que não.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, no entanto, acredita que é possível o modelamento segundo o sistema americano, por meio de sua proposta de introdução, aqui, da visita monitorada: o preso fala com seu advogado, parente, ou visita autorizada, separados por um vidro, através de um telefone, com a conversa gravada.

Se você acredita que não é possível adaptar a nossa cultura àquilo que foi utilizado com sucesso pelos nórdicos, deve pensar também que não é possível adaptar a nossa cultura àquilo que foi utilizado com sucesso pelos americanos.

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Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, ressaltou nossa característica cultural de agirmos com emoção. Emoção essa que faz com que eu e você nos decidamos se devemos ou não aceitar como possível a utilização, em nosso país, de uma experiência estrangeira deixando de lado uma análise racional, afinal, somos culturalmente emotivos.

A proposta escandinava, se bem aplicada e fiscalizada, economizaria rios de dinheiro para os cofres públicos ao colocar em liberdade uma massa de presos, que é o sonho do PCC 1533, sua proposta de vida, mas também é o seu maior pesadelo, pois ele se fortalece e se reproduz dentro das prisões superlotadas — quanto mais duro o sistema, mais forte ele fica.

A proposta americana, por sua vez, se bem aplicada e fiscalizada, economizaria rios de dinheiro para os cofres públicos ao evitar os crimes que ocorrem fora dos presídios, e também tornaria mais dignas as visitas, que não teriam que passar pelas vexaminosas revistas íntimas, que é outro sonho do PCC 1533 — mas que, assim, deixaria a facção sem as drogas e os celulares trazidos pelos visitantes.

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Somos brasileiros e não agiremos com a razão, e sim com a emoção

Aqueles que acreditavam antes de ler esse texto que o melhor é endurecer as penas e isolar os presos, acreditará que a solução americana será a melhor e deverá ser aplicada em nosso país — mesmo que os pesquisadores chilenos e a experiência escandinava provem o contrário.

“A superlotação de presídios alimenta o grupo, segundo apontam especialistas em segurança pública.”

Aqueles que acreditavam antes de ler esse texto que o melhor é humanizar as penas e socializar os presos, acreditará que a solução escandinava será a melhor e deverá ser aplicada em nosso país — mesmo que o atual governo e a experiência americana provem o contrário.

“No sistema tradicional, a sociedade já perdeu a guerra contra o crime. O sistema prisional comum é uma grande universidade, onde os antigos no crime ensinam os mais jovens e vão utilizá-los lá fora. O melhor local para se fazer um exército de marginais, de pessoas carentes e sem perspectivas, é a cadeia.” — Marcos Valério Fernandes

Curiosidade: os chilenos utilizaram a dissertação Da pulverização ao monopólio da violência: expansão e consolidação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema carcerário paulista, da doutoranda Camila Caldeira Nunes Dias, na elaboração de seu artigo, afinal, eles são chilenos, e não têm que se basear em suas emoções, e sim em sua razão.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo