O assassinato do Capitão Antonio Correa Pacheco

Em 1840, em Itu, o padre Pinna descobre por um escravo a verdade por trás do assassinato do capitão Antônio Pacheco. Acusações falsas, condenações injustas e conspirações políticas se entrelaçam num segredo guardado por gerações, enterrado sob símbolos sagrados e protegido por um pacto de silêncio.

O Segredo de Padre Pinna e a Morte do Capitão

Durante toda a minha vida temi este momento, desejando poder adiá-lo indefinidamente. Contudo, a justiça exige que a verdade venha à tona, para que a fraude seja desfeita e o nome de um inocente seja retirado da lista dos culpados.

Meu avô, Francisco Pereira Motta, conhecido como Chiquinho Lopes, revelou-me este segredo antes de sua morte, na presença do padre Amirá, um jesuíta da Igreja do Bom Jesus de Itu. Passo agora a relatar a história exatamente como a ouvi:

Quarta-feira, 18 de março de 1840, às quatro horas da tarde. Igreja Nossa Senhora da Candelária de Itu.

Naquele dia, o escravo Cosme procurou o padre Braz Luiz de Pinna, pároco da Igreja Matriz de Itu. Padre Pinna, curitibano respeitado pela comunidade e conhecido por sua oposição à elite republicana, ouviu atentamente o que Cosme tinha a dizer sobre o recente assassinato do capitão Antônio Correa Pacheco.

Poucas horas depois dessa conversa, Cosme foi brutalmente assassinado.

Oficialmente, a versão divulgada afirmava que o capitão Pacheco teria chicoteado injustamente um escravo. Em defesa desse escravo, Estevão, um respeitado líder negro, teria matado o capitão e iniciado uma revolta entre os escravizados. No entanto, Cosme revelou ao padre que a morte do capitão Pacheco não tinha relação com um conflito escravista, mas sim com uma violenta disputa interna pelo poder dentro do Partido Liberal.

Sem suspeitar de perigo, o capitão Pacheco recebeu a aproximação de seis cavaleiros que desmontaram e caminharam em sua direção. Um deles abaixou-se, apanhou um ferro e desferiu-lhe o golpe fatal. Esse assassinato foi apenas o início de uma sequência de injustiças. Estevão, inocente, foi rapidamente condenado à morte.

O julgamento de Estevão ocorreu poucos dias antes da conversa de Cosme com o padre, no salão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco. O evento foi realizado sob forte segurança da Guarda Nacional e tropas vindas da capital provincial. Estevão foi condenado ao enforcamento, sentença executada naquela mesma manhã. Anos depois, esse mesmo salão foi destruído por um incêndio criminoso, restando apenas o Cruzeiro São Francisco, no centro histórico de Itu.

Os monarquistas recuaram perante a força dos republicanos, já que a suposta revolta negra foi atribuída às políticas escravocratas imperiais. Padre Pinna permaneceu como o único opositor ativo aos republicanos locais. No mesmo ano, foi envenenado e teve sua saúde gravemente comprometida. Mateus de Abreu Pereira, bispo de São Paulo, ordenou que ele deixasse Itu. O padre, porém, ameaçou revelar publicamente tudo que Cosme lhe dissera caso os vereadores não solicitassem sua permanência.

O bispo acabou permitindo a permanência do padre Pinna e enviou inicialmente o padre Manoel Ferraz de Camargo para auxiliá-lo. Após ouvir a verdade de Pinna, Camargo recusou o encargo. Em seguida veio o padre João Paulo Xavier, que também renunciou três meses depois, ao descobrir o segredo.

Com a saúde debilitada, o padre Pinna solicitou a seu fiel sacristão que encontrasse alguém apto a assumir sua missão. Este viajou até Taubaté, longe da influência ituana, e convenceu o avô de meu avô a assumir a responsabilidade de guardar o segredo revelado pelo escravo Cosme.

Padre Pinna, preocupado em proteger sua revelação, deixou registros escritos da verdade descoberta. Primeiro anotou tudo atrás da capa do primeiro Livro Tombo da Igreja Nossa Senhora da Candelária. Temendo que esse documento fosse destruído, redigiu outros três relatos idênticos: um foi colocado em seu túmulo, outro escondido sob o Cruzeiro de São Francisco, e o último ocultado no braço esquerdo da imagem do arcanjo São Miguel, no altar lateral da matriz ituana.

Uma maldição parece ter acompanhado este segredo por gerações. Como se Deus desejasse que Cosme jamais tivesse sabido da verdade ou, ao menos, jamais tivesse compartilhado com alguém. O banho de sangue, as traições e os horrores da vida política ituana ficaram assim guardados nas frias paredes da Câmara Municipal, atingindo de forma trágica muitos inocentes e perseguindo minha família, incumbida desta amarga e silenciosa missão.


Análise por IA do texto: O assassinato do Capitão Antonio Correa Pacheco

Padre Miguel e o Caso do Capitão Pacheco: Uma Análise Factual e Histórica em Itu do Século XIX

I. Introdução

Itu, no século XIX, representou um ponto nevrálgico no cenário político, social e econômico da Província de São Paulo. A cidade, que em 1823 recebeu de D. Pedro I o título de “A Fidelíssima” em reconhecimento ao seu apoio à Monarquia, transformou-se meio século depois no palco da Convenção de Itu em 1873, um evento seminal para o movimento republicano paulista.1 Essa transição de um bastião monarquista para o berço do republicanismo não é meramente uma curiosidade local, mas oferece um espelho das profundas transformações políticas e sociais que permearam o Brasil no século XIX. O “Caso do Capitão Pacheco”, embora um evento local, pode ser compreendido como uma manifestação dessas tensões e conflitos em escala reduzida, ilustrando as dinâmicas nacionais.

A cidade era, ademais, um importante centro cafeeiro e abrigava a primeira fábrica a vapor de fiação e tecelagem, a São Luiz, simbolizando a modernização e o progresso econômico local.3 Essa prosperidade atraiu e consolidou uma elite agrária influente, cujos interesses econômicos e políticos moldariam profundamente a dinâmica da região. Dentro desse complexo tecido histórico, emergem figuras centrais para a compreensão dos eventos em análise.

A presente análise demandará uma distinção crucial entre os dois proeminentes “Padres Miguel” que atuaram em Itu em diferentes séculos, um ponto de potencial confusão histórica. O Capitão Antônio Corrêa Pacheco emerge como a figura central de um assassinato ocorrido em 1840, envolto em narrativas conflitantes. Padre Braz Luiz de Pinna é apresentado como o religioso que, segundo a tradição oral, recebeu e buscou preservar a “verdade” oculta sobre o caso. A família Pereira Motta é introduzida como a linhagem encarregada da guarda e transmissão desse segredo através das gerações.

O propósito central deste relatório é realizar uma análise factual e precisa do “Caso do Capitão Pacheco”, desvendando os eventos, avaliando a confiabilidade das diferentes narrativas e identificando as interconexões entre os personagens envolvidos e o complexo cenário político-social da Itu imperial. Será dada atenção especial à distinção entre fatos corroborados por fontes documentais e elementos provenientes de tradições orais, conforme as exigências de rigor histórico.

II. Os Padres Miguéis de Itu: Uma Necessária Distinção

A pesquisa histórica revela a existência de dois proeminentes párocos na Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária de Itu que compartilhavam o nome “Padre Miguel”, mas que atuaram em períodos distintos, separados por quase um século.4 Esta distinção é crucial para evitar anacronismos e garantir a precisão factual da análise do “Caso do Capitão Pacheco”, pois a confusão entre eles pode levar a interpretações errôneas dos eventos e suas cronologias.

Padre Miguel Dias Ferreira

Atuou em Itu na segunda metade do século XVIII, assumindo como vigário da vara após o falecimento de Padre Félix Nabor em 1750.4 Foi reconhecido pelo historiador e maestro Luís Roberto de Francisco como o “padre músico”, com registros de sua atuação como cantor e harpista em exéquias.4 Luiz Mott o identifica como Comissário do Santo Ofício, envolvido em inquéritos secretos e condenações da Santa Inquisição no Convento do Carmo.4 Sua atuação, portanto, precede em muito o período do “Caso do Capitão Pacheco”.

Padre Miguel Corrêa Pacheco

Chegou a Itu como vigário cooperador e, posteriormente, vigário coadjutor, assumindo o paroquiato com o afastamento de Padre Luiz Braz de Pinna em 1856.4 Sua atuação se estende até o final do século XIX. Sua gestão foi marcada por inúmeras obras e melhorias na Igreja Matriz e na cidade, demonstrando o papel multifacetado e muitas vezes central da Igreja e de seus membros influentes no desenvolvimento urbano, social e cultural das cidades brasileiras no século XIX. O clero, em muitos casos, atuava como um agente de modernização e bem-estar social, preenchendo lacunas de um Estado ainda em formação. Entre suas contribuições, destacam-se a reforma interna da capela-mor com instalação de estalas para os cônegos, a fundação de escolas para meninas e meninos pobres (que deram origem ao Colégio São Luiz e à Escola Convenção), a vinda de freiras para auxiliar na Santa Casa, a transferência do antigo órgão da Matriz para a Igreja São João de Deus, e a reforma da fachada da igreja, encomendada aos renomados engenheiros Joaquim Bernardo Borges e Ramos de Azevedo.4

Padre Miguel Corrêa Pacheco foi também um importante mecenas do pintor Almeida Júnior, cujo retrato a óleo do padre, datado de 1890, encontra-se na Paróquia Nossa Senhora Candelária.4 Faleceu em 1892, vitimado pela epidemia de varíola, destacando-se por sua dedicação em visitar paroquianos doentes, oferecendo apoio espiritual e material.4

Politicamente, o Padre Miguel Corrêa Pacheco era monarquista, mas demonstrou pragmatismo ao votar no liberal Dr. Antonio Francisco de Paula Leite. Este voto foi um ato de agradecimento, pois o político impediu que os republicanos fossem à Taubaté exterminar os Pereira Motta, pondo fim a um rastro de sangue que se arrastava por cinquenta anos.9 A posição de Padre Miguel Corrêa Pacheco como monarquista, mas seu voto pragmático em um liberal para proteger a família Pereira Motta dos republicanos, revela a fluidez e a complexidade das alianças políticas no Brasil imperial. Isso indica que, mesmo dentro de instituições tradicionalmente conservadoras como a Igreja, as decisões políticas podiam ser influenciadas por lealdades pessoais, ameaças iminentes e interesses específicos, transcendendo as rígidas divisões partidárias ideológicas. Ele também se manifestava publicamente, escrevendo para o jornal “O Ituano” em 1874 sobre arbitrariedades de figuras políticas locais.10

Embora o assassinato do Capitão Pacheco tenha ocorrido em 1840, antes de Padre Miguel Corrêa Pacheco assumir plenamente o paroquiato, é ele o “Padre Miguel” associado à transmissão posterior do segredo do caso. A narrativa oral indica que ele abençoou o novo cemitério da cidade e, nesse contexto, encarregou Francisco Pereira Motta de recuperar o documento oculto do túmulo de Padre Pinna.4

A tabela a seguir sumariza as informações dos dois Padres Miguel para facilitar a compreensão:

Tabela 1: Comparativo dos Padres Miguel de Itu

CaracterísticaPadre Miguel Dias FerreiraPadre Miguel Corrêa Pacheco
Nome CompletoPadre Miguel Dias FerreiraPadre Miguel Corrêa Pacheco
Período de Atuação em ItuSegunda metade do século XVIII (assumiu em 1750) 4Segunda metade do século XIX (assumiu em 1856) 4
Principais Contribuições/Características“Padre músico”, cantor e harpista. Comissário do Santo Ofício (Inquisição).4Obras na Igreja Matriz (reformas, órgão Cavaillé-Coll, fachada com Ramos de Azevedo), fundação de escolas (Colégio São Luiz, Escola Convenção), vinda de freiras para Santa Casa. Mecenas de Almeida Júnior.4 Faleceu em 1892, vítima de varíola.4
Conexão com o “Caso do Capitão Pacheco”Nenhuma conexão direta com o caso de 1840.Envolvido na transmissão do segredo do caso, encarregando Francisco Pereira Motta de recuperar documentos ocultos após abençoar o novo cemitério.4
III. O Assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco (1840)

O assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco ocorreu em 18 de março de 1840, por volta das 16 horas, nas imediações da Igreja Nossa Senhora da Candelária, em Itu, SP.11 A descrição do evento indica que Pacheco foi abordado por seis cavaleiros que desmontaram e se dirigiram a ele. Um deles, ao abaixar-se, pegou um ferro e desferiu o golpe fatal, marcando o início de uma série de injustiças, conforme a narrativa.11

As Versões do Crime: Oficial vs. Alternativa

A morte do Capitão Pacheco foi rapidamente envolvida em duas narrativas distintas, cada uma com implicações políticas e sociais profundas:

  • Versão Oficial: A versão amplamente disseminada na época alegava que o Capitão Pacheco havia chicoteado injustamente um escravo. Em resposta, Estevão, um líder negro respeitado, teria matado o fazendeiro e instigado uma sublevação de escravos.11 Essa narrativa se encaixava no contexto de tensões sociais e revoltas de escravos da época, como outros incidentes envolvendo “Antônio Corrêa Pacheco” ou ataques a fazendas por escravos sublevados 12, conferindo-lhe uma plausibilidade imediata para a elite e a população. A escolha da versão oficial do assassinato, que culpava uma revolta de escravos, não foi arbitrária. Em uma sociedade escravista como a do Brasil do século XIX, o medo de sublevações de escravos era uma ferramenta poderosa de controle social e político. Ao atribuir a morte de Pacheco a uma revolta, a facção política dominante (monarquistas) pôde descreditar seus oponentes (liberais/republicanos) e justificar medidas repressivas, desviando a atenção de conflitos internos da elite.
  • Versão Alternativa (O Segredo de Cosme): Revelada pelo escravo Cosme ao Padre Braz Luiz de Pinna, essa versão contestava a narrativa oficial. Segundo Cosme, a morte de Pacheco não foi resultado de um conflito com escravos, mas sim de uma violenta disputa de poder interna ao Partido Liberal.11 Esta revelação aponta para uma motivação política mais complexa e oculta, sugerindo que o evento foi instrumentalizado para fins políticos maiores.

Os Papéis dos Escravos Cosme e Estevão

  • Cosme: Figura crucial na narrativa alternativa, Cosme foi o escravo que descobriu a verdadeira causa do assassinato de Pacheco e a confidenciou a Padre Braz Luiz de Pinna. Tragicamente, Cosme foi brutalmente assassinado horas após essa conversa, sugerindo uma eliminação de testemunhas.11 O assassinato brutal de Cosme, poucas horas após ele ter revelado a verdade a Padre Pinna, é um testemunho trágico da extrema vulnerabilidade de indivíduos escravizados que ousavam desafiar as narrativas oficiais ou possuíam informações sensíveis. Isso sublinha as profundas assimetrias de poder na sociedade brasileira do século XIX e a violência empregada para silenciar as vozes subalternas e manter o controle da informação.
  • Estevão: Apresentado como o “líder negro” na versão oficial, Estevão foi prontamente acusado da morte de Pacheco e de incitar uma revolta. Ele foi submetido a um julgamento sumário e condenado à morte por enforcamento, com a execução ocorrendo na mesma manhã de seu julgamento.11 Sua rápida condenação e execução serviram para reforçar a versão oficial e suprimir qualquer questionamento.

O Julgamento e o Incêndio

O julgamento de Estevão ocorreu no salão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, dias antes da conversa entre Cosme e Padre Pinna. O evento foi realizado sob forte aparato de segurança, com a presença da Guarda Nacional e tropas da capital da província.11 Anos depois, o local do julgamento foi incendiado, restando apenas o Cruzeiro São Francisco no centro histórico de Itu.11 Este incêndio pode ser interpretado como um ato deliberado para destruir evidências ou apagar a memória do evento e de seu julgamento controverso, reforçando a supressão da verdade.

Análise de Precisão e Fontes

A sequência central dos eventos – o assassinato, o testemunho de Cosme, o enforcamento de Estevão, o incêndio do local do julgamento e o envenenamento de Padre Pinna – é corroborada por fontes secundárias locais.11 Isso confere uma base factual sólida à ocorrência dos eventos. No entanto, detalhes mais específicos, como a existência e os locais dos documentos ocultos de Padre Pinna e a renúncia de seus substitutos, são explicitamente identificados como parte da tradição oral familiar e carecem de corroboração em fontes independentes.11 A presença de figuras históricas e locais específicos (Capitão Pacheco, Padre Pinna, Igreja da Candelária, Ordem Terceira) proporciona uma boa consistência cronológica e geográfica à narrativa.11

A seguir, uma linha do tempo dos eventos e uma comparação das narrativas:

Tabela 2: Linha do Tempo do Caso do Capitão Pacheco

DataEvento ChavePersonagens EnvolvidosDescrição BreveFontes
18 de março de 1840Assassinato do Capitão PachecoCapitão Antônio Corrêa Pacheco, Seis cavaleirosCapitão Pacheco é assassinado perto da Igreja Nossa Senhora da Candelária em Itu.11
Março de 1840 (Semanas antes da conversa de Cosme)Julgamento e Execução de EstevãoEstevão, Guarda Nacional, Tropas da capitalEstevão é condenado à morte por enforcamento no salão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, sob forte segurança.11
Março de 1840 (Dias após o julgamento de Estevão)Revelação de Cosme a Padre PinnaEscravo Cosme, Padre Braz Luiz de PinnaCosme revela a Padre Pinna que a morte de Pacheco foi uma disputa política, não uma revolta de escravos.11
Março de 1840 (Horas após a revelação)Assassinato de CosmeEscravo CosmeCosme é brutalmente assassinado.11
1840 (Mesmo ano do assassinato)Envenenamento e Perseguição de Padre PinnaPadre Braz Luiz de Pinna, Bispo de São Paulo, Padres Manoel Ferraz de Camargo e João Paulo XavierPadre Pinna é envenenado e sofre tentativas de afastamento, mas resiste ameaçando revelar a verdade. Seus substitutos recusam ou renunciam.11
10 de julho de 1865Falecimento de Padre Braz Luiz de PinnaPadre Braz Luiz de PinnaPadre Pinna falece, com documentos ocultos em seu túmulo e outros locais.9
28 de setembro de 1884Inauguração do Cemitério Municipal de Itu—Inauguração oficial do novo cemitério da cidade.13
Por volta de 1885 (20 anos após a morte de Pinna)Recuperação do DocumentoFrancisco Pereira Motta (pai), Padre Miguel Corrêa PachecoPadre Miguel encarrega Francisco Pereira Motta de retirar o documento do túmulo de Padre Pinna no jazigo do Carmo, aproveitando a transferência de corpos para o novo cemitério.9
Anos depois de 1885Transmissão da MissãoFrancisco Pereira Motta (pai), Francisco Pereira Motta (filho)A missão de proteger a verdade é passada para o filho de Francisco Pereira Motta em Taubaté.9
1892Falecimento de Padre Miguel Corrêa PachecoPadre Miguel Corrêa PachecoPadre Miguel Corrêa Pacheco falece devido à epidemia de varíola.4
AtualmenteRepouso da “Carta Testamento”Cônego MottaA carta testamento repousa na Cúria de São Paulo, levada pelo Cônego Motta.9

Tabela 3: Narrativas do Assassinato do Capitão Pacheco: Versão Oficial vs. Alternativa

AspectoVersão Oficial (Pública)Versão Alternativa (Cosme/Pinna)Análise de Precisão/Confiabilidade
Motivação do CrimeCapitão Pacheco chicoteou um escravo injustamente; Estevão o matou em defesa do escravo e iniciou uma revolta de escravos.Morte de Pacheco foi fruto de uma disputa de poder interna ao Partido Liberal.A versão oficial era uma instrumentalização política do medo social. A versão alternativa é plausível no contexto político da época, mas depende de tradição oral para sua revelação.
Culpado OficialEstevão, um líder negro.Disputa entre facções do Partido Liberal. Estevão foi um bode expiatório.Estevão foi rapidamente condenado e executado, o que sugere um processo sumário para validar a narrativa oficial. Cosme, a testemunha da versão alternativa, foi assassinado.
Consequências ImediatasEstevão enforcado; revolta de escravos atribuída a políticas imperiais.Perseguição e envenenamento de Padre Pinna; ocultação de documentos; incêndio do local do julgamento.A sequência de eventos (assassinato, testemunho, execução, incêndio, envenenamento de Pinna) é documentada em fontes locais secundárias. Detalhes dos documentos ocultos e da cadeia de guardiões são de tradição oral e carecem de corroboração independente.
Instrumentalização PolíticaMonarquistas recuam diante da força republicana, culpando políticas escravocratas imperiais pela instabilidade.A verdade seria uma ameaça à elite política que orquestrou o crime.A instrumentalização da questão escravista para fins políticos é consistente com o cenário do século XIX.
IV. Padre Braz Luiz de Pinna e a Preservação da Verdade

Padre Braz Luiz de Pinna, pároco da Igreja Matriz de Itu em 1840, era uma figura respeitada na comunidade e conhecido por sua oposição à elite republicana.11 Ele se tornou o depositário da “verdade” sobre o assassinato do Capitão Pacheco, recebendo a confissão do escravo Cosme de que a morte foi resultado de uma disputa de poder no Partido Liberal, e não de uma revolta de escravos.11

A relevância e o perigo do segredo são evidenciados pela perseguição que Padre Pinna sofreu. No mesmo ano do assassinato (1840), ele foi envenenado, o que comprometeu gravemente sua saúde.11 O Bispo de São Paulo, Mateus de Abreu Pereira, ordenou seu afastamento de Itu, mas Padre Pinna resistiu, ameaçando revelar publicamente tudo o que Cosme lhe contara. Essa ameaça forçou o conselho a intervir e solicitar sua permanência.11 A gravidade do segredo é ainda mais sublinhada pela recusa ou renúncia de dois padres que deveriam substituí-lo – Padre Manoel Ferraz de Camargo e Padre João Paulo Xavier – ambos se afastando após tomar conhecimento da verdade.11 Os esforços meticulosos de Padre Pinna para documentar e esconder a verdade, apesar do envenenamento e da perseguição, revelam a profundidade de seu compromisso com a justiça e a verdade em um contexto de opressão política. Isso pode ser interpretado como uma forma de resistência intelectual e moral contra a manipulação histórica e a violência do Estado, destacando o risco pessoal envolvido em desafiar narrativas oficiais.

Ciente do perigo e da importância da verdade, Padre Pinna tomou medidas extraordinárias para garantir que seus registros sobrevivessem. Ele deixou contas escritas em quatro locais distintos: atrás da capa do primeiro Livro de Tombo da Igreja Nossa Senhora da Candelária; em seu próprio túmulo, no jazigo do Carmo; escondido sob o Cruzeiro de São Francisco; e oculto no braço esquerdo da imagem do arcanjo São Miguel, no altar lateral da matriz ituana.9

Padre Pinna faleceu em 10 de julho de 1865.9 Vinte anos após seu enterro (ou seja, por volta de 1885), a narrativa oral indica que “Padre Miguel” (identificado como Padre Miguel Corrêa Pacheco, que abençoou o novo cemitério cerca de 9 meses antes de sua própria morte em 1892 4) encarregou Francisco Pereira Motta (pai) de recuperar o documento do túmulo de Pinna no jazigo do Carmo.9 A transferência de corpos dos antigos cemitérios para o recém-inaugurado Cemitério Municipal de Itu (oficialmente inaugurado em 28 de setembro de 1884 13) teria facilitado essa missão.9 A missão de proteger a verdade foi subsequentemente passada para Francisco Pereira Motta (filho) em Taubaté, e a “carta testamento” repousa atualmente na Cúria de São Paulo, levada pelo Cônego Motta.9

É crucial ressaltar que os detalhes sobre os documentos ocultos e a cadeia de guardiões (especialmente a figura de Francisco Pereira Motta) são elementos da tradição oral familiar e, como tal, carecem de corroboração independente em arquivos históricos formais.11 A ausência de registros que confirmem a figura específica de “Francisco Pereira Motta” como guardião é uma lacuna notável.11 A dependência da tradição oral para elementos-chave da narrativa sublinha a importância desse tipo de fonte na preservação de relatos históricos alternativos, especialmente quando os registros oficiais são ausentes ou foram manipulados. No entanto, isso também ressalta os desafios inerentes à verificação e a potencial para alterações ou acréscimos ao longo do tempo, exigindo uma análise crítica e a busca por corroboração sempre que possível. Há uma aparente inconsistência temporal entre a inauguração oficial do Cemitério Municipal em 1884 13 e a bênção do “novo cemitério” por Padre Miguel Corrêa Pacheco em 1891/1892.9 Isso pode indicar que a transferência de corpos foi um processo contínuo ao longo de vários anos, ou que a narrativa oral condensa eventos para fins de coesão, exigindo uma nota de cautela na interpretação.

V. O Contexto Político e Social de Itu no Século XIX

O Império do Brasil na primeira metade do século XIX era caracterizado por uma intensa disputa entre o Partido Liberal e o Partido Conservador, com o Imperador exercendo um Poder Moderador que frequentemente intervinha na política.14 As Revoltas Liberais de 1842, que agitaram São Paulo e Minas Gerais, são um exemplo vívido da insatisfação liberal com o centralismo monárquico e a ascensão conservadora, demonstrando a volatilidade do cenário político.14 A morte do Capitão Pacheco em 1840, atribuída a uma disputa liberal, insere-se nesse quadro de tensões.

Itu, embora inicialmente um centro monarquista (“A Fidelíssima” 1), experimentou uma crescente efervescência política a partir de 1870, com a ideia republicana ganhando força. O descontentamento com a monarquia era generalizado, e a queda do Gabinete Zacarias em 1868 impulsionou a ala radical do Partido Liberal em direção ao republicanismo.2 A cidade se tornou um polo de modernidade econômica, com a produção de café e a inauguração da Estrada de Ferro Ituana em 1873 3, atraindo uma nova elite agrária com inclinações progressistas.

A ascensão de Itu como centro do movimento republicano não pode ser desvinculada de sua crescente importância econômica como polo cafeeiro e de sua conexão com a Estrada de Ferro Ituana.3 O desenvolvimento da cafeicultura no Oeste Paulista gerou uma nova elite de fazendeiros progressistas, cujos interesses econômicos (ligados à modernização e à exportação) se alinhavam mais com as propostas republicanas de autonomia provincial e menos com as estruturas centralizadoras do Império. Isso estabelece uma relação causal entre o desenvolvimento econômico e as mudanças políticas, mostrando como as bases materiais da sociedade impulsionavam as transformações ideológicas.

O movimento republicano em Itu institucionalizou-se com a formação do Clube Republicano de Itu em 10 de setembro de 1871, impulsionado por figuras como João Tibiriçá Piratininga e José Vasconcelos de Almeida Prado.2 A Convenção de Itu, realizada em 18 de abril de 1873, na residência de Carlos de Vasconcelos de Almeida Prado, é considerada a primeira reunião oficial dos republicanos no Estado de São Paulo.2 A escolha de Itu como sede foi estratégica, não apenas por sua importância econômica (centro cafeeiro, primeira fábrica a vapor 3), mas também pela inauguração da Estrada de Ferro Ituana, que simbolizava o progresso e a modernidade.2

O Manifesto de Itu, resultado da Convenção, foi assinado por 133 convencionais, sendo 78 deles fazendeiros, além de médicos, advogados e jornalistas.3 O manifesto delineou as bases do Partido Republicano Paulista (PRP), defendendo a autonomia das províncias (federalismo), a oposição ao regime monárquico e a libertação da mão de obra escrava.3

A “suposta revolta de escravos” na versão oficial do caso Pacheco 11 reflete as tensões sociais latentes na sociedade escravista e como a questão da escravidão era instrumentalizada politicamente para desviar a atenção de conflitos internos da elite. Os republicanos paulistas, embora muitos fossem ideologicamente abolicionistas 16, adotaram uma postura cautelosa em relação à abolição para não alienar os fazendeiros, que eram a base de seu apoio econômico e político.2 Isso demonstra um pragmatismo político em detrimento de uma adesão rígida aos ideais. O cenário político de Itu e da província de São Paulo no século XIX não era rigidamente bipartidário ou ideológico. A atribuição do assassinato de Pacheco a uma disputa interna liberal 11, o voto pragmático de Padre Miguel Corrêa Pacheco (monarquista) em um liberal para proteger uma família dos republicanos 9, e a cautela dos republicanos em relação ao abolicionismo para não alienar os fazendeiros 2, demonstram que as alianças e decisões políticas eram frequentemente moldadas por interesses específicos, lealdades pessoais e conveniência estratégica, mais do que por uma adesão estrita a plataformas ideológicas. Isso revela uma complexidade nas relações de poder que desafia interpretações simplistas.

VI. A Família Pacheco e a Historiografia Local

A família Pacheco desempenhou um papel significativo na história de Itu, sendo destacada pelo historiador Nardy Filho em sua obra, que os categoriza como “Os Pacheco da Silva e Os Pacheco de Itu”.17 O primeiro membro da família a se estabelecer na região foi Antonio Pacheco da Silva, um sargento-mor originário de Cotia, que participou ativamente de bandeiras e entradas nos sertões de Cuiabá e Goiás.17 A família era proprietária de importantes propriedades rurais, como a Fazenda Engenho Grande (atual Chácara do Rosário), adquirida em maio de 1756, que permaneceu na família por sete gerações.1 A complexidade política da época se refletia nas próprias divisões internas da família Pacheco: enquanto alguns antepassados eram monarquistas, descendentes como Sérvulo Correia Pacheco e Silva tornaram-se republicanos, realizando reuniões políticas em suas fazendas.1 A revelação de divisões políticas internas na família Pacheco (antecessores monarquistas versus descendentes republicanos) demonstra que as grandes transformações políticas do século XIX não eram apenas um confronto entre classes sociais distintas, mas também envolviam realinhamentos e adaptações dentro das próprias elites tradicionais. Isso mostra a complexidade da adesão ideológica e como as famílias, como unidades sociais, navegavam pelas mudanças políticas.

Francisco Nardy Filho é uma figura central na historiografia de Itu, e sua obra “A CIDADE DE ITU”, em especial o volume III, “Crônicas Históricas” (São Paulo, 1950), é uma referência fundamental para a compreensão da história local.5 Nardy Filho enfatiza a participação de diversas famílias na história da cidade, com destaque para a família Pacheco.17 Sua pesquisa também registra a atuação de Padre Miguel Corrêa Pacheco como vigário da Igreja Matriz de Itu a partir de 1856 8, fornecendo um pilar factual para a biografia do padre.

A historiografia local, exemplificada pela obra de Nardy Filho, é indispensável para aprofundar o conhecimento sobre eventos micro-históricos como o “Caso do Capitão Pacheco”, oferecendo detalhes e perspectivas que raramente são abordados em estudos de escopo mais amplo. No entanto, a análise factual exige que essas fontes sejam complementadas e, sempre que possível, corroboradas por outros registros primários (eclesiásticos, judiciais, notariais), especialmente quando se trata de narrativas que se baseiam em tradições orais, como explicitado na análise de precisão do caso Pacheco.11 Embora a obra de Nardy Filho seja uma pedra angular para a história de Itu, a falta de corroboração independente para certos elementos da narrativa do caso Pacheco (como os documentos ocultos e o papel de Francisco Pereira Motta) ressalta os limites inerentes à dependência exclusiva de relatos locais ou de tradição familiar. Isso reforça a metodologia acadêmica da história, que exige a verificação cruzada de múltiplas fontes para estabelecer a precisão factual.

VII. Conclusões e Considerações Finais

O assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco em Itu, em 18 de março de 1840, é um evento histórico factual e bem localizado.11 No entanto, a motivação e os desdobramentos são apresentados em duas narrativas distintas: uma oficial, que o atribui a uma revolta de escravos, e uma alternativa, que o vincula a uma disputa política interna ao Partido Liberal. Esta última versão foi transmitida oralmente através de Padre Braz Luiz de Pinna e, subsequentemente, pela família Pereira Motta.11

A distinção entre Padre Miguel Dias Ferreira (atuante no século XVIII) e Padre Miguel Corrêa Pacheco (atuante no século XIX) é fundamental para a precisão histórica do caso. É Padre Miguel Corrêa Pacheco quem, segundo a tradição, se envolveu na transmissão do segredo do caso Pacheco, não o padre do século anterior.4 A atuação de Padre Miguel Corrêa Pacheco, com suas vastas contribuições para o desenvolvimento urbano e social de Itu, ilustra o papel multifacetado do clero na sociedade imperial, transcendendo as funções meramente religiosas.

A análise revela que a versão oficial do assassinato foi, provavelmente, uma instrumentalização política do medo social em uma sociedade escravista, desviando a atenção de conflitos internos da elite e justificando a rápida e sumária execução do escravo Estevão.11 O brutal assassinato de Cosme, a testemunha-chave da versão alternativa, sublinha a vulnerabilidade das vozes subalternas e as extremas medidas tomadas para silenciar informações sensíveis.

Os esforços de Padre Braz Luiz de Pinna para preservar a verdade, apesar do envenenamento e da perseguição, demonstram um profundo compromisso com a justiça e uma forma de resistência contra a manipulação histórica.11 No entanto, a dependência da tradição oral para detalhes cruciais sobre os documentos ocultos e a cadeia de guardiões, como a figura de Francisco Pereira Motta, exige cautela na avaliação da precisão. Embora a tradição oral seja vital para a memória histórica, ela impõe desafios de verificação que demandam corroboração com outras fontes.

O contexto político de Itu, que evoluiu de um centro monarquista para o berço do republicanismo paulista, é crucial para entender o caso Pacheco. A fluidez das alianças políticas e o pragmatismo das elites, que muitas vezes priorizavam interesses específicos e lealdades pessoais sobre ideologias rígidas, moldaram os eventos. A ascensão econômica de Itu, impulsionada pela cafeicultura e pela infraestrutura ferroviária, também desempenhou um papel significativo na efervescência política que culminou na Convenção de Itu.

A historiografia local, notadamente a obra de Nardy Filho, é indispensável para aprofundar o conhecimento sobre o caso. Contudo, para uma análise factual e precisa, é imperativo complementar essas fontes com registros primários e realizar uma verificação cruzada, reconhecendo as limitações inerentes às narrativas baseadas exclusivamente na tradição familiar.

Em suma, o “Caso do Capitão Pacheco” é um complexo entrelaçamento de fatos históricos, narrativas conflitantes e tradições orais. Ele serve como um microcosmo das tensões políticas e sociais do Brasil imperial, onde a verdade podia ser moldada e suprimida para atender a interesses poderosos. A persistência da narrativa alternativa, transmitida por gerações, atesta a resiliência da memória popular em face das versões oficiais, mesmo que a validação de cada detalhe exija um contínuo e rigoroso escrutínio histórico.

Uma Família em Festa e o Assassinato do Dr. Ferraz da Luz

No coração de Itu, em 1879, uma casa em clima de Natal foi palco de um assassinato brutal. A tragédia da família Ferraz da Luz revela, sob sua fachada festiva, as contradições da sociedade escravocrata brasileira e a tensão racial que fermentava nos bastidores.

Uma família feliz e um assassinato no centro de Itu

A casa assobradada e cheia de janelas que davam para o Largo, onde se vê o Cruzeiro da Cidade, com suas mangueiras no quintal espalhando as verdes copas carregadas de frutos saborosos, vivia um de seus dias de grande movimento.

Alí, morava o Drº João Dias Ferraz da Luz, mineiro de Campanha, ex-deputado Conservador em seu distrito, pela Província de Minas Gerais, sua esposa D. Balbina de Barros Ferraz da Luz e filhos. Viera a família da Villa do Patrocínio das Araras, anteriormente de Campinas, e de Pouso Alegre, onde se conheceram e se casaram.

Em Itu, cidade progressista, em grande desenvolvimento, devido a lavoura cafeeira e também pelo Colégio de Patrocínio das irmãs de São José, que se preocuparam em educar a juventude local e das cidades próximas, o “Sr. Doutor” como o chamava sua esposa, clinicava na Santa Casa e era médico das freiras do Patrocínio.

Nestes dias, que antecedem o Natal, as Festas de fim de ano, D. Balbina e suas escravas prosseguiam na arrumação da casa.

Cortinas, móveis, tudo era limpo e renovado, enquanto no fogão à lenha da cozinha, tachos fumegantes exalavam o perfume dos doces caseiros, que depois de prontos, eram guardados num quartinho, a dispensa.

Não só doces, mas rosquinhas, biscoitos de polvilho, pães, balas e, era chamada quitanda.

Os frangos e o célebre de pernil temperado com a receita da dona da casa, receita esta, que chegou até suas bisnetas, tudo era uma festa para os que participavam desta correria.

Presentes chegavam, enviados por famílias amigas, com cumprimentos de Boas Festas.

Estes presentes seriam retribuídos até o Dia de Reis, 06 de Janeiro, como era o costume da época.

Os escravos, que não eram muitos, já haviam recebidos fatos novos e alguns alegres com os festejos, corriam de cá para lá atarefados, enquanto outros resmungavam baixinho, para que a Sinhá não ouvisse.

O piano da sala, que D. Balbina tocava tão bem, era cuidadosamente lustrado e já se haviam escolhido as duas lindas meninas, filhas de escravos, que em seus vestidos vermelhos de tafetá e com o rostinho brilhando por causa do pouco óleo que se lhes passavam, ficariam junto ao piano emoldurado-o e ao recital esperado.

Isto se repetia todos os anos para a alegria de todos, mas só até aquele ano…

Dr. João Dias Ferraz da Luz, formado em Medicina em 1857, foi eleito deputado geral por Minas, e foi assassinado por seu escravo Nazário em 8 de fevereiro de 1879 em sua casa em Itu juntamente com duas filhas, uma preta e uma pobre senhora.

Este texto de autoria de Liana Prado Passos conta passo a passo a tragédia da família do médico João Leite Ferraz da Luz assassinado em 1879 em Itu, no interior paulista.


Análise por IA do artigo: Segredos e Tragédias na Família Ferraz em Itu

O texto “Uma família feliz e um assassinato no centro de Itu” revela camadas profundas da estrutura social brasileira do século XIX, expõe as contradições entre aparência de harmonia e opressão cotidiana, e permite uma análise crítica das relações entre classe, raça, patriarcalismo e poder simbólico no Brasil escravocrata.

1. A casa senhorial como palco simbólico da ordem social

A narrativa constrói uma imagem idílica da casa da família Ferraz da Luz — um espaço de fartura, organização, afeto e música, com mangueiras frondosas, doces sendo preparados, piano sendo lustrado e crianças com vestidos vermelhos emoldurando a cena.

Esse espaço doméstico, no entanto, representa mais que um lar: ele simboliza a ordem senhorial patriarcal, estruturada sobre a hierarquia entre brancos e negros, ricos e pobres, senhores e escravizados. A casa funciona como cenário de um teatro social, onde todos os papéis estão rigidamente distribuídos: a dona de casa benevolente, o doutor respeitado, os escravos obedientes ou “resmungões”, os filhos e filhas bem vestidos — e as negras infantis escolhidas para embelezar o ambiente, literalmente emoldurar a cena.

A harmonia descrita é ilusória: é sustentada pela invisibilização da violência estrutural da escravidão, normalizada pelo cotidiano e romantizada pela memória familiar. A “felicidade” dessa família está assentada sobre a subalternização dos corpos negros, como se fosse natural que crianças filhas de escravizados fossem enfeitadas para embelezar uma festa senhorial.

2. O mito da “escravidão doméstica branda”

A ideia de que os escravizados eram “poucos” e “bem tratados” remete à narrativa recorrente da historiografia tradicional brasileira, que construiu o mito da escravidão patriarcal e humanizada nas casas-grandes. Os que “resmungavam” são colocados em contraste com os “alegres com os festejos”, como se a gratidão pelo vestido novo ou o cheiro de rosquinhas justificasse ou aliviasse a opressão sistêmica.

Sociologicamente, esse discurso opera como um mecanismo de racionalização e autojustificação das elites, que buscam se ver como civilizadas, afetivas e benevolentes — mesmo quando seus privilégios se sustentam em relações de dominação racial, econômica e jurídica.

Nazário, o escravo que mata o patrão, rompe com esse pacto simbólico. Seu ato, embora individualizado e tratado como monstruoso, revela o nível de tensão latente dentro dessas estruturas aparentemente estáveis. É o corpo negro recusando o lugar imposto na encenação do poder.

3. Racismo estrutural e apagamento da agência negra

Nazário não é descrito com voz própria. Ele aparece como o elemento disruptivo, como o erro trágico dentro de uma história “feliz”. Sua subjetividade é ignorada: não se sabe o que pensa, o que sente, o que sofreu, nem como vê o mundo à sua volta. Seu gesto é tratado como quebra do equilíbrio natural das coisas — quando, de fato, pode ser compreendido como expressão radical da luta por dignidade, ou mesmo vingança contra uma estrutura desumana.

A sociologia crítica (como a de Florestan Fernandes ou de Jessé Souza) ajuda a compreender esse processo: a elite branca brasileira naturalizou a dominação, e quando esta é rompida, ela reage com horror, linchamento e reforço do discurso de “barbárie negra”. O crime de Nazário, nesse contexto, é interpretado não como fato isolado, mas como ameaça existencial à própria estrutura de poder e identidade das classes dominantes.

4. Papéis sociais e a lógica da nobreza interiorana

O Doutor João Dias representa o tipo ideal de “homem de bem” oitocentista: branco, médico, político, católico, pai de família. Seu status se apoia não apenas na riqueza e na educação, mas em seu papel simbólico de mantenedor da ordem e da moralidade. O texto faz questão de reiterar que ele era bom, respeitado, íntegro.

A tragédia que recai sobre sua família é tratada como algo quase sacrilégio, e isso revela como a morte de um senhor branco era percebida como muito mais trágica do que a morte de escravizados, invisibilizados sistematicamente nos registros históricos. O texto sequer nomeia a “escrava” morta junto às filhas — ela é apenas “uma preta”.

A sociologia evidencia esse desequilíbrio: o valor das vidas era hierarquizado segundo a lógica senhorial. E a desgraça ganha força simbólica não porque houve morte — mas porque quem morreu não deveria morrer nesse sistema de castas disfarçadas.

5. A memória como instrumento de reafirmação social

A reconstrução da cena — com tantos detalhes sobre as festas, as comidas, os vestidos, a decoração e o piano — não é neutra. É uma tentativa de salvaguardar a imagem da família como símbolo de civilização e honra, mesmo diante da tragédia. A sociologia da memória (Maurice Halbwachs) ensina que a memória familiar serve para reforçar identidades coletivas e legitimar posições sociais.

Nesse sentido, o texto funciona quase como um “auto de beatificação laico” do Doutor e sua esposa, projetando o luto como prova de nobreza e os sofrimentos posteriores como injustiça cósmica. O sistema escravocrata desaparece como estrutura — e o crime vira um ponto fora da curva.

Conclusão: sociologia da harmonia aparente

O texto, ao descrever um cotidiano aparentemente feliz, e encerrá-lo com uma tragédia, espelha a sociedade brasileira do século XIX em miniatura: um país de festas e violências, pianos e senzalas, ternura e brutalidade. A sociologia revela que essa harmonia era ilusória, mantida pela desigualdade e pela negação da humanidade do outro.

A “felicidade” dessa família só existia porque alguém era privado da própria. Quando esse alguém se rebela, o sistema entra em colapso — e o que chamamos de tragédia talvez tenha sido, para outros, um grito de ruptura contra a farsa da ordem.

Cotidiano Natalino de uma Família Ituana no Século XIX

O texto retrata um dia típico da família Ferraz da Luz em Itu, no fim do século XIX. Em meio a vestidos franceses, oração do Angelus e a expectativa da missa do Galo, revela-se uma rotina elegante e tradicional, marcada por afeto familiar, devoção católica e distinção social.

Um dia na vida de uma família ituana durante o 2º Reinado

Albertina, Terezinha e Balbininha, estudantes do Colégio Patrocínio, com outras irmãs estavam no quarto e abriam as caixas, com as encomendas vindas de Paris, pedidas pelo Catálogo de Modas.

Eram lindos vestidos, com laçarotes, anquinhas, sapatinhos, echarpes, chapéus, perfumes, que provocavam exclamações felizes e alegres, e o sonhar com as festas e a missa do Galo, no Patrocínio.

Terezinha correu e apanhou o seu porta-jóias, tirando de lá, os doze botõezinhos de ouro e os doze de prata que todas elas também possuíam, e colocou-os sobre os vestidos, imaginando se não ficariam mais bonitos.

Maria José, a caçula, que viria a ser a minha avó, muito loura, bela e na inocência de seus sete anos de idade, encantada, tudo assistia e recebia também as suas encomendas como também sua irmã Josefina quase da mesma idade dela.

A felicidade seria completa naquela casa, com a chegada dos irmãos que estudavam em São Paulo. Fernando, estudante de Direito, no Largo de São Francisco e Adalberto que fazia engenharia, chegariam acompanhados por Mamede, escravo fiel e amigo. Vinham ansiosos por rever o pai, mãe e irmãs queridas.

A Hora do Angelus – Seis horas da tarde!

Bate o sino do Patrocínio!

D. Balbina reúne as filhas, escravos e diante do oratório com a imagem de Nossa Senhora, rezam a Ave Maria.

Todos com as cabeças inclinadas, respeitosamente acompanham a oração, enquanto a tarde morre aos poucos e as sombras da noite começam a encobrir a cidade ituana.

O trote de um cavalo ouve-se, vindos do terreiro para a estrebaria do quintal.

Apea-se o Senhor Doutor, vindo de seu trabalho na Santa Casa.

Chegaria mais cedo, pois não raro, muitas vezes ficaria até mais tarde, atendendo seus doentes.

Cuidava também de doentes pobres, nada lhes cobrando.

Alto, bonito, espadaúdo, aloirado e de feições bondosas e recebido com respeito e alegria pela esposa, filhos e criadagem. Entrando para o quarto, tira as botas empoeiradas e lógo, uma jarra com água levemente aquecida lhe é entregue.

Lava as mãos, rosto e se prepara para o jantar.

O tempo fez com que os filhos do casal se espalhassem, Adalberto Ferraz da Luz foi o primeiro prefeito de Belo Horizonte. Fernando Ferraz da Luz, João Carlos Ferraz da Luz (Juca), Augusto Ferraz da Luz, Francisco Ferraz da Luz e Júlio Ferraz da Luz. As moças foram: Albertina Ferraz da Luz, Teresinha Ferraz da Luz, Balbina Ferraz da Luz, e Ana Ferraz da Luz.

Este texto de autoria de Liana Prado Passos conta passo a passo a tragédia da família do médico João Leite Ferraz da Luz assassinado em 1879 em Itu, no interior paulista.


Análise por IA do artigo: Cotidiano Natalino de uma Família Ituana no Século XIX

O texto sobre o cotidiano natalino da família Ferraz da Luz em Itu, no final do século XIX, nos oferece um rico material para análise das estruturas simbólicas, rituais, papéis sociais e cosmologia doméstica de uma família pertencente à elite cafeeira e escravocrata do interior paulista durante o Segundo Reinado. A narrativa funciona como um microcosmo da ordem social, religiosa e estética que organizava o mundo das classes dominantes da época.

1. A casa como espaço simbólico e relacional

Antropologicamente, a casa da família Ferraz da Luz não é apenas um espaço físico — ela é um território de significados, uma espécie de templo doméstico onde cada cômodo, cada gesto e cada prática reforça a ordem social. A separação entre os quartos das moças, o oratório da oração coletiva e o ato ritualizado de retirar as botas para o jantar são marcadores simbólicos de pureza, hierarquia e decoro.

A presença do oratório e a centralidade da oração do Angelus revelam que a casa não é apenas laica — é também um santuário da fé católica, em que a religiosidade cotidiana cumpre a função de ordenar o tempo e consagrar os vínculos entre os membros da casa. A divisão entre os papéis dos homens e das mulheres, das crianças e dos adultos, e entre livres e escravizados é ritualizada no espaço doméstico com clareza quase litúrgica.

2. Vestuário, distinção e identidade social

A chegada dos vestidos de Paris e o encantamento das moças ao experimentar os modelos são momentos que revelam como a moda e o consumo funcionam como marcadores de classe e identidade. O uso do catálogo francês e o fascínio pelos botões de ouro e prata expressam o desejo de afinidade simbólica com a Europa, funcionando como mecanismo de distinção (no sentido bourdieusiano) frente às camadas populares e aos corpos servís.

Nesse sentido, o vestuário é um sistema de signos. Ele comunica não apenas riqueza, mas também feminilidade, docilidade, juventude, virgindade e nobreza — valores associados ao ideal de mulher da elite oitocentista. O vestuário funciona, ainda, como tecnologia do corpo, controlando os modos de andar, sentar, aparecer e ser percebida pelas outras famílias da elite.

3. Rituais domésticos e organização do tempo social

O Angelus, o jantar, o retorno do patriarca e a expectativa da Missa do Galo são elementos que, do ponto de vista antropológico, organizam o tempo da casa em ciclos sagrados e profanos. Esse tempo não é apenas cronológico — ele é cosmológico, sintonizado com o ritmo da Igreja, das festas religiosas e das convenções sociais da elite.

A prática do Angelus às 18h, com todos reunidos, reforça uma hierarquia religiosa e doméstica, onde os escravizados participam da cena, mas sempre em posição secundária, como figuras respeitosas, silenciosas e alinhadas à autoridade espiritual da Sinhá. Isso evidencia um tipo de catequese doméstica forçada, que buscava integrar os cativos à cosmologia do lar — sem, no entanto, conceder-lhes espaço simbólico ou autonomia real.

4. O escravizado como sujeito ausente/presente

Mamede, o “escravo fiel e amigo”, aparece como figura recorrente nesse tipo de narrativa, não como sujeito histórico, mas como personagem decorativo de uma memória idealizada, moldada pelo discurso da lealdade, da gratidão e da doçura do cativo. É a figura do escravo de confiança, expressão de uma relação de dependência afetiva romantizada — um artefato simbólico da ideologia senhorial.

Da perspectiva antropológica, esse tipo de representação cumpre uma função: naturalizar a desigualdade, tornando-a parte do “ambiente familiar”, integrando o cativo à narrativa como um “membro inferior da casa”. Mas o que é silenciado — sua voz, seus desejos, suas estratégias de sobrevivência — é justamente o que denuncia a violência estrutural por trás dessa cena harmoniosa.

5. A figura do patriarca e a ordem moral

O pai, médico, trabalhador, respeitado, loiro, espadaúdo, bonito, caridoso e amado por todos, é uma construção idealizada da masculinidade oitocentista, em conformidade com o papel de patriarca moral, juiz doméstico e modelo de honra. Seu retorno ao entardecer funciona como síntese simbólica da ordem, da racionalidade e da proteção.

Sua presença ordena o espaço, dá sentido ao ritual da higiene, à preparação da mesa e ao encerramento do dia. A figura masculina aparece como âncora da estabilidade simbólica. Ele é simultaneamente senhor da casa, guardião da tradição e representante da autoridade racional da ciência (médico) e da moral (pai). A cena de lavar-se para o jantar é quase sacerdotal: ele purifica-se para assumir o lugar de comando no espaço do alimento — um banquete com função cerimonial e socializante.

6. Tradição, memória e projeto de eternidade

O texto todo funciona como um artefato de transmissão cultural, uma espécie de mito de origem familiar, onde os eventos cotidianos ganham densidade simbólica. A avó Maria, que narra e rememora, é a xamã doméstica da memória, guardiã das imagens da felicidade passada — sua função é preservar a identidade do grupo e transmitir seus valores às gerações futuras.

Essa função é semelhante àquela dos griôs africanos ou dos contadores indígenas: é pela memória narrada que a cultura se perpetua. Mas aqui, a cultura transmitida é a de uma elite branca, senhorial, católica, patriarcal e racialmente hierarquizada, onde o que se eterniza é a nostalgia por uma ordem social estável, desigual, porém romantizada como “tempo bom”.

Conclusão

Sob o olhar antropológico, a narrativa do cotidiano natalino da família Ferraz da Luz não é apenas um retrato doméstico — é um ritual simbólico que reafirma a ordem social, os papéis de gênero, a hierarquia racial e a fé como cimento cultural da elite do Brasil oitocentista. A casa é um microcosmo de um mundo maior: estruturado, devoto, eurocêntrico, esteticamente apurado — mas também baseado na exclusão, na desigualdade e no silenciamento do outro.

A Missa do Galo em Itu: Celebrações de 1878

Na véspera do Natal de 1878, a família Ferraz da Luz se reúne para jantar, rezar e participar da Missa do Galo no Colégio do Patrocínio. A narrativa evoca afetos, tradições e a saudade de um tempo onde o cotidiano familiar era cheio de símbolos, delicadeza e fé.

Véspera do Natal em Itu — Século XIX

Na grande sala com paredes empapeladas com painéis, a mesa comprida e retangular quase ocupando o espaço todo em seu comprimento, as cadeiras eram então, ocupadas pelo médico, esposa e filhos.

Grande espelho bisotê refletia a luz e esta cena familiar e costumeira.

Feita a oração de agradecimento, os pratos que Ciriaca preparara, chegavam a mesa e todos num ambiente alegre desfiavam os acontecimentos do dia.

Fatos tristes e de somenos, eram evitados; perturbavam a digestão, dizia o pai.

Os assuntos mais comentados eram: os preparativos para as Festas, a chegada dos irmãos, a missa do Galo no Patrocínio, as encomendas vindas de Paris e a próxima viagem que os pais fariam à São Paulo.

Dona Balbina feliz, então se recordava de que nunca deixara de visitar, quando vinha à São Paulo, a prima Baroneza de Limeira.

Sorria com carinho, ao lembrar-se dela.

Depois do jantar, reuniam-se na sala de visita, onde era servido o cafezinho. Algumas bordavam. Mais tarde, dirigiam-se para os seus aposentos, tendo desejado uma Boa noite e tomado a benção dos pais.

Missa do Galo

Era véspera de Natal de 1878, e a missa do Galo no Patrocínio seria à meia-noite!

A Capela do Colégio, com seus altares dourados, seus santos, tudo brilhava à luz das velas e luminárias!

Altares floridos!

A sociedade ituana participava desta comemoração.

Senhoras, Senhores e jovens com seus mais belos trajes, chegavam e ocupavam seus bancos na igreja.

O Senhor Doutor, D. Balbina e filhos mais velhos; depois de cumprimentarem as irmãs e alguns amigos, dirigiam-se para os seus lugares reservados com assentos vermelhos de veludo.

O padre, amigo do médico, rezaria a missa que seria assistida com todo o fervor cristão.
Mesmo assim, Terezinha, Albertina, Fernando e Adalberto, não se esqueciam de vez em quando, afastando os olhos do Missal, de olharem seus pretendidos e amigos que ali estavam também.

Cânticos religiosos tornavam o ambiente de grande beleza e suavidade.

Terminada a missa, na saída, cumprimentos, sorrisos, olhares e todas se encaminham para casa.

Ao longe, ainda, se ouviam as despedidas.

Esta cena cheia de encanto, lá pelas idas de 1878, em Itu, se perde na voracidade do tempo, que tudo consome, restando a saudade de muita alegria e tristeza, na evocação destes acontecimentos.Acontecimentos, que viveram na lembrança da vovó velhinha Maria e dos netos que a ouviram contar, quando crianças.

Vovó costumava dizer, que os melhores anos de sua vida, na alegria e no doce aconchego dos familiares, passara em Itu.

Este texto de autoria de Liana Prado Passos conta passo a passo a tragédia da família do médico João Leite Ferraz da Luz assassinado em 1879 em Itu, no interior paulista.


Análise por IA do texto: “A Missa do Galo em Itu: Celebrações de 1878”

A Missa do Galo em Itu: Celebrações de 1878 pode ser lido como uma evocação simbólica do tempo, da memória e da ordem — e, mais profundamente, como uma tentativa de preservação da experiência do sentido frente à inexorabilidade da perda. Aqui, o cotidiano torna-se rito; o gesto simples, um emblema da eternidade possível; e a família, um microcosmo da busca humana por permanência num mundo que tudo dissolve.

1. O tempo como rito e a resistência contra o efêmero

A narrativa está impregnada de um desejo de eternizar o instante — um tema caro à filosofia desde Heráclito até Heidegger. A repetição dos gestos (oração, jantar, Missa do Galo, bordado, despedidas), os horários sagrados (meia-noite, Angelus), o cuidado com as palavras durante a refeição — tudo isso nos remete à dimensão do tempo ritualizado, cíclico, contrastando com a linha do tempo profano e destrutivo que “tudo consome”, como lamenta o último parágrafo.

Como diria Giorgio Agamben, o rito não serve para comunicar algo, mas para estabelecer uma forma de vida, uma maneira de permanecer no tempo. O jantar em silêncio sobre assuntos tristes não é fuga da realidade — é tentativa de preservar um espaço sagrado do existir, onde o sofrimento ainda não penetrou.

2. A mesa como metáfora ontológica

A mesa retangular, descrita em sua plenitude simbólica, quase preenchendo o cômodo, é mais que um móvel: é um espaço de comunhão ontológica. Ela representa a unidade da família como organismo social e metafísico. Cada um em seu lugar, num equilíbrio harmônico de papéis — o pai como moderador do discurso, a mãe como guardiã da ternura, os filhos como promessa de continuidade. Em um mundo pré-individualista, essa mesa é o centro do sentido.

Quando a avó diz que “os melhores anos de sua vida” foram ali, ela não está apenas evocando o prazer — mas a plenitude de ser em relação. Heidegger chamaria isso de Dasein em morada: a existência sendo ela mesma na proximidade com o outro, em um mundo habitável.

3. A Missa do Galo como experiência do sagrado

A Missa do Galo não é apenas um evento religioso; é a epifania da transcendência no coração da tradição burguesa oitocentista. O brilho das velas, os altares floridos, os bancos reservados, o padre amigo, o missal — tudo é coreografado para reforçar o pertencimento à ordem espiritual e social.

Mesmo os “olhares trocados” entre jovens durante a missa não subvertem o ritual, mas humanizam-no, pois revelam a interseção entre eros e fé, entre desejo e reverência, entre carne e espírito. Aqui, o sagrado não nega a vida — ele a intensifica.

Nessa cena, está presente o que Mircea Eliade chamaria de hierofania: a manifestação do sagrado no mundo. A Missa do Galo reencena o nascimento do Cristo, mas, ao mesmo tempo, reafirma a cosmologia da cidade de Itu, em que cada família tem seu lugar, e cada gesto tem seu valor.

4. Memória como retorno ao essencial

A narradora, ao falar da avó e de sua saudade, encerra o texto com uma reflexão implícita sobre o valor da lembrança como forma de resistência ontológica. A memória aqui não é apenas afeto: é preservação do sentido contra o esquecimento, é uma tentativa de garantir que o vivido não se perca no caos da cronologia.

Essa lembrança — compartilhada oralmente, repetida entre gerações — tem um traço que Platão valorizaria: ela reconduz à aletheia, ao desvelamento do que foi essencial, do que realmente foi, em meio ao que apenas passou. Ao declarar que Itu foi o tempo do “doce aconchego dos familiares”, a avó não apenas lembra — ela afirma ontologicamente um lugar onde o ser teve raiz.

5. Beleza, ordem e o ideal burguês

A estética do texto — bordados, luz de velas, trajes elegantes, frases medidas — revela o ideal filosófico de beleza como reflexo da ordem, como defendiam Plotino ou os filósofos clássicos do idealismo. Essa ordem estética é também uma ordem moral e espiritual. Tudo parece em seu lugar, não por acaso, mas por designação quase metafísica.

No entanto, esse ideal também carrega uma ambiguidade ética: o mundo apresentado exclui o sofrimento, silencia o conflito e opera uma filtragem da realidade — como diz o pai, “fatos tristes perturbam a digestão”. A filosofia moral poderia perguntar: qual o custo da harmonia? O silêncio sobre o que dói é sabedoria ou alienação?

Conclusão: entre o eterno e o finito

O texto é uma meditação involuntária sobre o tempo — entre o sagrado e o profano, o belo e o transitório, o ser e o desaparecimento. A cena familiar de Itu em 1878 torna-se, sob o olhar filosófico, um esforço humano de resistir ao esquecimento e preservar o sentido em meio à voracidade do tempo.

A Missa do Galo é, enfim, mais do que celebração religiosa: é o gesto pelo qual uma comunidade tenta afirmar que, por um instante, a vida teve um centro, um sentido, um brilho — e que isso não deve ser perdido.

A Tragédia da Família Ferraz da Luz em Itu

A chacina da família Ferraz da Luz em Itu, em 1879, protagonizada por um escravo recém-adquirido, revela as tensões do fim da escravidão no Brasil. Este texto analisa o episódio à luz do racismo estrutural, da elite provincial e dos fantasmas haitianos que assombravam o império.

João Dias Ferraz da Luz escolheu viver em Itu

Recebia para o jantar a família do Drº. João Dias Ferraz da Luz, o pároco da igreja (1) de quem era amigo, e de quem ouvia conselhos sobre problemas e talvez conflitos da própria vida.

Viera o pároco, ansioso e preocupado em evitar que o médico comprasse de uma família amiga, um escravo chamado Nazário.

Disse que este escravo devotava ódio aos senhores, e que prometera matar o primeiro e novo dono que tivesse, diziam ser transtornado das idéias.

Povo sofrido, os escravos sonhavam com a liberdade que vive tão dentro dos humanos e que por ela, tudo fariam.

Porém, apesar do aviso, estava o médico decidido a comprar o escravo, porque já dera a sua palavra e a cumpriria.

Veio então Nazário, para a sua casa assobradada, cheia de janelas que davam para o largo, em frente ao cruzeiro da cidade.

Seu serviço era na estrebaria do quintal, cuidando dos animais, carruagens, as vezes rachando lenha e cuidando do jardim.

Sempre soturno e carrancudo, Nazário era tratado como os outros escravos, com amizade e afabilidade, tanto que vinda a abolição da escravatura, alguns ficaram com a família.

Na tarde do dia 8 de fevereiro de 1879, a tragédia rondava a casa do Dr. João Dias Ferraz da Luz.

Sua esposa D. Balbina  de Barros Ferraz da Luz, encontrava-se em Pouso Alegre, visitando parentes, acompanhada de duas filhas menores.

O médico chegara mais cedo da Santa Casa de Itu, preocupado com as filhas Balbininha e Terezinha, doentes de tuberculose, devido a ingestão de vidro moído na alimentação, colocados pelos escravos.

Ao apear-se do cavalo, entregou as rédeas a Nazário que rachava lenha e perguntou-lhe se havia arranjado duas varinhas para apoio das roseiras, e seguiu em direção à casa.

Mal havia dado os primeiros passos, foi abatido a machadadas pelo escravo furioso.

Nazário correndo para dentro da casa com o machado nas mãos, abateu uma velha senhora que ali passava roupas e uma escrava que o interpelara dizendo: Que fizestes?

As duas filhas, Terezinha e Balbininha, acamadas, foram também abatidas sem piedade.

Semíramis, uma sobrinha, irmã de criação de minha avó, escondeu-se num cesto de roupas.

O escravo viu-a , ela então implorou -lhe que não a matasse e milagrosamente, conseguiu ser atendida.

Nazário correu para a rua e chegando a um boteco de esquina, bebeu aguardente, comprou cigarros, bateu no balcão e disse:

” Acabei com a família do Dr. João Dias! “

Preso, confessou cinicamente os crimes e três dias depois, o povo de Itu, reunindo-se à noitinha na Praça do Carmo, retiraram-no da cadeia, sendo linchado e seu corpo arrastado pelas ruas de Itu, pela população revoltada. (2)

Dr. João Dias Ferraz da Luz e as duas filhas foram enterrados no cemitério de uma igreja local. D. Balbina, sua esposa chegou três dias depois e já encontrou o esposo e filhas sepultados. Ficou tão traumatizada com o acontecido, que anos depois, até a sua morte, cuidada pela filha Josefina, levantava-se de madrugada, ia para o piano e tocava música clássica, árias conhecidas de óperas e operetas até altas horas.

A família abastada, seus filhos estudando, não tendo o pulso forte do pai, foram empreendendo maus negócios e ficaram reduzidos a nada e minha avó até como dona da pensão trabalhou aqui em São Paulo, para sustentar os filhos.

Contava minha avó, que certa vez, durante uma das epidemias que assolavam São Paulo, naquele tempo, carregou nos braços um negro que estava com a bexiga, pois os que o haviam vindo buscar para tratamento, não tiveram coragem de carregá-lo. Não foi infectada.

Os filhos de João Dias Ferraz da Luz casaram, vieram para São Paulo, Rio de Janeiro, e Minas Gerais e até hoje eu me pergunto, porque tanto sofrimento? Porque o ato de uma só pessoa, trouxe tanta dor e luto a uma família respeitada e bondosa como era a do Dr. João Dias Ferras da Luz?

E é tão verídica esta narrativa que minha mãe, estudante interna de favor, graças ao meu bisavô, no colégio das Irmãs de São José, que havia na Consolação, colégio que há muito não existe e que ficava onde é a igreja da Consolação; ouviu quando foi apresentada a Madre Teodora Voiron, beatificada há poucos anos pelo Papa João Paulo II, estas frases: “Esta é a netinha do Dr. João Dias!”

“Ah, minha filha, seu avô era tão bom!”.

É o que contava mamãe.

A morte do Dr. João Dias Ferraz da Luz , não teve explicações plausíveis, permanece como uma tragédia, pois nada o desabonava, era pessoa íntegra e benquista em Itu.

Uma das explicações ou versões, é de conotação política, pois o escravo havia sido vendido com ocultação de seu feito, pela família amiga que também possuía um membro que como o Dr. João Dias se candidataria a Deputado pelo partido conservador monarquista, que ele era.

E terminando Dona Balbina e filhas mudaram-se para Pouso Alegre e viviam às expensas dos irmãos, os Barros, que eram muito conhecidos e ricos, e de uma pensão dada a funcionários federais, pois fora Deputado.

Em Itu, cidades vizinhas e quiças no Brasil, foi grande a repercussão da tragédia. É o que contava Maria, minha avó, chamada pelos familiares carinhosamente, de Mariquinha.

São Paulo , 06 de dezembro de 1997.

Este texto de autoria de Liana Prado Passos conta passo a passo a tragédia da família do médico João Leite Ferraz da Luz assassinado em 1879 em Itu, no interior paulista.

(1) O mais provável é que a autora esteja se referindo ao padre Pe. Miguel Corrêa Pacheco que foi pároco da Igreja Nossa Senhora da Candelária entre 1856 e 1892. Este benemérito foi o grande incentivador da vinda das irmãs de São José de Chambery da Congregação de São José para o Patrocínio.
(2) Isabel Cristine Jerônimo anexou em seu trabalho um documento com o seguinte trecho:

Com referencia ao ataque a cadea a Tribuna liberal publicou hontem o seguinte boletim: hontem as onze horas da noite cerca de 300 pessoas atacaram a cadea de Ytu a fim de apoderarem-se do o assassino da familia do dr. Joao Dias Ferraz da Luz. Os atacantes nao conseguiram o seu intento ficando porem morto o soldado de nome Antonio Franco de Oliveira. Constou por telegrama, hoje recebido, que 150 pessoas iriam armadas de novo a cadea a fim de apoderarem-se do preso. O sr dr chefe de policia conseguindo do superintendente da estrada de ferro ingleza que demorasse por alguns instantes fez para ali seguir uma forca de dez pracas e um cadete. Se nao houver muita prudencia de parte da auctoridade policial e possivel que as cousa peiorem porque a protecao legal ao assassino da familia Ferraz da Luz pode indispor mais os animos exaltados. Mantenha a auctoridade a lei mas nao pratique violencias.


Análise por IA do artigo: A Tragédia da Família Ferraz da Luz em Itu

A tragédia da família Ferraz da Luz, ocorrida em Itu no ano de 1879, é um episódio que, quando analisado sob o ponto de vista histórico, revela um emaranhado de tensões sociais, políticas e culturais do Brasil do século XIX — particularmente no período de transição entre o regime escravocrata e o advento do trabalho livre, marcado por ressentimentos profundos, fragilidade institucional e conflitos de classe e raça ainda mal resolvidos.

1. Contexto histórico: o Brasil do Segundo Reinado em crise

O assassinato do Dr. João Dias Ferraz da Luz e suas filhas ocorreu durante o Segundo Reinado (1840–1889), sob D. Pedro II. Era um período em que o império brasileiro enfrentava forte pressão interna e externa contra a escravidão, que seria oficialmente abolida nove anos depois, em 1888. A Lei do Ventre Livre (1871) já indicava o caminho rumo à abolição e colocava em xeque a autoridade senhorial e o controle sobre os cativos.

A narrativa insinua que Nazário era um escravizado recém-adquirido, vendido a despeito de alertas quanto à sua rebeldia e ódio declarado aos senhores. Isso evidencia a crise do sistema escravocrata, onde as relações entre senhores e escravos deixavam de ser apenas baseadas na dominação unilateral e passavam a conter elementos de ressentimento latente, prestes a explodir. Nazário aparece como uma figura alegórica desse acúmulo de tensões.

2. Racismo, repressão e linchamento: a resposta da sociedade

A resposta popular à chacina — o linchamento do escravizado Nazário por uma turba enfurecida — revela mais do que mera comoção. Mostra o funcionamento da justiça paralela e racista, que recorre ao justiçamento quando a legalidade parece proteger o “inimigo”.

A notícia transcrita pela autora, tirada da Tribuna Liberal, dá conta de uma tentativa frustrada de invasão à cadeia, a morte de um soldado e a promessa de novo ataque por 150 pessoas armadas. É um claro sinal de que a autoridade policial e o aparato legal estavam em xeque, incapazes de conter uma população movida pela emoção e por um sentimento coletivo de revanche racial e de classe.

A imprensa liberal, mesmo recomendando “prudência” por parte da polícia, sugere que a “proteção legal” ao assassino pode piorar a situação, o que mostra como, na prática, o Estado de Direito era frágil diante da comoção popular, sobretudo quando envolvia um negro e ex-escravo como autor de crime contra uma família branca e de prestígio.

3. A elite rural e seus códigos: honra, palavra e reputação

O Dr. João Dias Ferraz da Luz aparece como um representante típico da elite abastada provincial, um médico honrado, amigo do pároco, tido como bom e íntegro. O fato de manter sua palavra na compra de um escravo, mesmo após o aviso, é narrado como um valor moral elevado — embora, aos olhos contemporâneos, isso possa soar como uma forma de imprudência travestida de honra.

A elite oitocentista brasileira, especialmente no interior, era regida por valores como prestígio social, vínculos familiares, educação formal, religiosidade e influência política. A tragédia que se abateu sobre a família é descrita como um abalo à ordem simbólica que sustentava essa elite.

A hipótese de que a venda do escravo teria tido motivação política — para sabotar a candidatura do médico ao Parlamento — também aponta para um cenário de disputa oligárquica, onde as famílias locais se enfrentavam dentro de um ambiente de clientelismo, traições veladas e instrumentalização de vidas humanas como peças no tabuleiro político.

4. O mito da “boa família” e o silenciamento das contradições

É notável como o texto constrói uma imagem idealizada da família Ferraz da Luz: bondosa, instruída, cristã, generosa com os escravos, amiga dos pobres e até caridosa com os doentes em epidemias. Este recurso narrativo — ainda que emocionalmente compreensível — tende a apagar as contradições de classe e os conflitos inerentes à ordem escravocrata, onde até o “melhor dos senhores” sustentava um sistema de brutalidade estrutural.

Ao mesmo tempo, a tragédia serve como fundamento simbólico para a decadência posterior da família, agora pobre, trabalhando em pensão, vivendo da ajuda de parentes. Há uma dimensão quase bíblica ou fatalista nesse destino: o sofrimento como castigo inexplicável ou prova moral, em uma narrativa onde o sofrimento parece ter mais valor do que a compreensão histórica dos mecanismos que o produziram.

5. A memória como patrimônio familiar e lenda urbana

O texto de Liana Prado Passos, escrito em 1997, é também um exercício de memória familiar. Carrega o tom emocional de quem deseja honrar a história de seus antepassados, ainda que misture memória oral com suposições e conclusões frágeis do ponto de vista documental.

A referência à madre Teodora Voiron e o comentário “Ah, minha filha, seu avô era tão bom!” reforça a tentativa de canonizar o personagem. Por outro lado, a narrativa também é um exemplo do que alguns chamam de “mitologia das famílias fundadoras” nas cidades do interior paulista: famílias vistas como pilar moral e social, cujos infortúnios são tratados quase como tragédias gregas — inexplicáveis, irreversíveis e solenes.

Conclusão

Sob o ponto de vista histórico, a tragédia da família Ferraz da Luz expõe:

  • a crise da escravidão no Brasil imperial;
  • o papel simbólico e político da elite provincial;
  • a fragilidade do sistema de justiça em momentos de comoção popular;
  • o racismo estrutural traduzido em justiçamentos extralegais;
  • e a forma como a memória familiar é construída para reforçar um ideal de honra e sofrimento.

A história, longe de ser apenas um caso isolado de violência, serve como espelho dos dilemas do Brasil oitocentista — entre a tradição senhorial e a modernidade republicana que se anunciava, ainda que cheia de contradições e injustiças não resolvidas.

Excelente observação, Wagner. A menção ao Haiti, sobretudo à revolta de escravizados que culminou na independência do país em 1804, teria sido extremamente pertinente — não apenas como pano de fundo histórico comparativo, mas como fantasma latente no imaginário das elites escravistas brasileiras do século XIX.

6. O espectro do Haiti e o medo branco no Brasil escravocrata

Embora o episódio ocorrido em Itu, em 1879, pareça um caso isolado e local, ele se insere num contexto atlântico mais amplo, onde a elite branca escravocrata do Brasil vivia sob o trauma não declarado da Revolução Haitiana.

Desde o início do século XIX, o Haiti havia se tornado um símbolo ambíguo: esperança de liberdade para os cativos e horror para as classes dominantes escravistas, especialmente no Brasil, Cuba e nos estados escravistas do sul dos EUA. O medo de um “haitianismo” tropical pairava como uma sombra nas senzalas, nos cafezais e nas casas-grandes — e essa tensão se intensificou conforme cresciam os debates abolicionistas e os sinais de colapso do sistema escravocrata.

Nazário, nesse contexto, pode ser lido — não como sujeito isolado e “louco” (como o texto tenta insinuar) — mas como expressão individual de uma revolta coletiva abafada, um corpo que, sozinho, realiza o que milhares sonhavam em silêncio. Não é difícil imaginar que, para muitos brancos daquela época, ele encarnava o medo arquetípico do “escravo vingador”.

Inclusive, o fato de os jornais da época falarem em ataques organizados à cadeia, do povo querer o linchamento imediato e da polícia hesitar em protegê-lo, pode ser interpretado como uma reencenação preventiva de pânico colonial: o desejo de restaurar a ordem simbólica que foi violentamente rompida por aquele gesto de revolta.

Assim como no Haiti, onde as primeiras revoltas começaram com assassinatos de senhores e incêndios em propriedades, o episódio de Itu reativa esses fantasmas coloniais — e revela como o Brasil escravocrata tinha consciência (ainda que inconsciente) da fragilidade de seu regime.

Complementando a análise: silêncio, repetição e lição histórica

É curioso (e sintomático) que esse caso brutal, ocorrido já tão perto da abolição formal, não tenha se tornado um símbolo nacional como outras histórias de martírio ou heroísmo — talvez porque desafia a narrativa “civilizatória” da transição pacífica brasileira para o trabalho livre. O caso de Nazário, como o de Zumbi ou de Luís Gama, contraria a tese da abolição “sem sangue”, tão cara à memória oficial da nação.

Mais do que isso: o silêncio em torno do Haiti nos discursos brasileiros da época (e em parte da historiografia posterior) é um silêncio estratégico. Falar do Haiti era lembrar que a ordem escravocrata podia ruir de forma violenta. Nazário, mesmo com todas as tentativas de retratá-lo como um monstro solitário, interrompe esse silêncio — ainda que brevemente — com o machado nas mãos.

A prisão do irmão Preto em 2008.

Eles são eles, nós somos nós. A verdade é algo deve existir entre o branco e o preto, pois existem vários tons de cinza, não existem? Então como ver a verdade entre o que dizemos e o que eles dizem?

A justiça feita pelo sistema abomina aquilo em que nós acreditamos. O paraíso apregoado por aqueles que fazem as leis é contra tudo o que acreditamos desde que nos conhecemos por gente, onde está então o branco, o preto e principalmente o cinza?

Mas se queremos crer que existem tons de cinza temos que acreditar que não existam: o certo ou o errado; e a verdade ou a mentira. Então como conciliar…

Os policiais declararam que lá chegaram depois que várias ligações anônimas que foram feitas para o Disque Denúncia da Polícia Militar, mas nós acreditamos que aqueles policiais queriam mesmo era incriminar Júlio César, o Preto, e por isso criaram toda aquela situação.

Eles disseram que Júlio César quando viu a viatura da polícia foi para dentro do portão de sua casa e se recusou a sair,segurando na grade e lutando, mas nós acreditamos que ele já estava dentro de casa e enquanto tentava destrancar o portão para atender o pedido, os PMs forçaram o portão botando-o abaixo.

Eles disseram que Júlio César atiçou seu cão da raça pitbull contra eles, mas nós acreditamos que aquele cachorrinho é doce e que até brincou com os policiais.
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Enfim, não acreditamos no que declararam os policiais que naquele dia 30 de julho de 2008 invadiram a casa de Preto na Vila São José e alegaram que encontraram naquele local trinta gramas de maconha e sessenta e sete porções de crack.

Acreditamos sim que tudo foi como Júlio César declarou:

Ele havia acabado de chegar de seu trabalho quando em frente ao portão de sua casa uma viatura da Polícia Militar com um menor no seu corró, e que o garoto de fato fazia suas correrias em uma biqueira localizada ali na esquina de sua casa, mas ele nada tinha a ver com isso. Quando foi abrir o portão os policiais forçaram-no e este veio a cair e machucar um policial. Por sinal os policiais estavam era com perseguição com o menor que já tinha sido pego naquela semana.

Os policiais foram claros e unânimes e disseram que toda a droga estava dentro da casa de Preto, mas ele nega e explicou à Juíza Drª. Andrea Ribeiro Borges que na realidade é que a casa em que ele mora dá fundos para com a que o garoto que estava com os policiais morava, e lá de fato era uma biqueira, e foi de lá que os policiais tiraram a tal droga. Júlio até disse para que o menor assumir tudo, mas qual o quê.

A verdade de uns é tão diferente da verdade de outros, então fica muito difícil de saber onde de fato ela está, mas os policiais tinham um trunfo: a coerência de suas declarações.

Júlio César também tinha dois trunfos e jogou-os: ele estava conversando na frente de sua casa com Alexandre que lhe vendia roupas trazidas da região do Brás em São Paulo; e também o menor que foi preso ali na esquina.

Preto e Branco – onde estarão os tons de cinza?

Alexandre que era uma das esperanças de Júlio César acabou mais prejudicando que ajudando, pois declarou que estavam fora no momento da abordagem dos policiais, diferentemente do que seu cliente tinha dito, também disse que os policiais queriam entrar na casa e Júlio se negou a deixar… ops, falhou de novo. A outra esperança da defesa de Júlio César era o tal menor que teria sido preso, mas ninguém o viu e ninguém sabe quem é o tal garoto.

A juíza então não teve dúvida, condenou Júlio César a mais de dez anos de prisão por tráfico, resistência e lesão corporal. Ela não acreditou ao contrário de nós nas palavras de Júlio César, mas convenhamos que a história contada por ele estava um pouco difícil de acreditar.

Mas será que não foi puro preconceito contra Júlio César que fez com que aquela juíza não levasse em consideração outras alternativas para a declaração dos policiais? Eles são eles, nós somos nós. A verdade é algo deve existir entre o branco e o preto, pois existem vários tons de cinza, não existem? Então como ver a verdade entre o que dizemos e o que eles dizem?

Será que não era verdade que as drogas estavam na casa localizada no fundo de sua residência e que Júlio César é quem passava as drogas por cima do muro para abastecer aquela biqueira? O Alexandre tinha dez reais no bolso, e o preço da parada é dez reais, pode ser que… Bem… deixa para lá, afinal estas teorias não o ajudariam muito.

Talvez seja melhor não procurar os tons de cinza, deixa o mundo continuar preto e branco, afinal aqui é Brasil e apesar de condenado a dez anos, não se passaram mais que quatro e ele já está livre, e olha que haviam outras condenações em outros processos.

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O Tribunal de Júri de Itu e seu Promotor de Justiça.

Ninguém naquele salão do Tribunal do Júri viu o que de fato estava acontecendo ali: os irmãos Nazários não estavam sendo julgados pelo assassinato de Salvador Luiz do Jardim Alberto Gomes de Itu. Poucos são aqueles que têm a capacidade olhar de longe as luzes de uma cidade e sentirem calafrios pelos horrores que acontecem em suas sombras, se um desses estava naquele dia 24 de fevereiro de 2011 no Fórum de Itu, com certeza se arrepiou prevendo a luta que ali estava se iniciando.
O Tribunal do Júri da Comarca de Itu é o Dr. Luiz Carlos Ormeleze.
Muito se falou de manipulação dos resultados do Júri Popular de Itu, mas é balela, pois o Promotor de Justiça da cidade não manipula resultados, ele os impõe. Podemos sentir, não digo propositadamente ver, digo sentir mesmo, pois o que vemos durante uma audiência daquele Tribunal do Júri é a justa luta entre os argumentos da promotoria e dos advogados de defesa, mas se deixarmos o que nossos olhos vêem de lado e passemos a sentir o que de fato por lá ocorre, chegaremos mais próximos da verdade.
Palavras não podem descrever os sentimentos e os pensamentos dos jurados quando se vêem prostrados à vontade do Promotor de Justiça Dr. Ormeleze. O defensor de Hildo, o Dr. José Maria de Oliveira, entrou decidido a destruir esta magia, pois nenhuma prova havia que condenasse Hildo e seu irmão Evandro. Havia razão e oportunidade para cometerem o crime, mas as provas dependiam de dois testemunhos nebulosos, portanto o defensor acreditava na absolvição de seu cliente.

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Isso talvez ocorresse se o promotor não fosse o Dr. Ormeleze.
O defensor abandonou a tradicional abordagem jurídica para tentar quebrar o encanto que o Promotor de Justiça exercia sobre o corpo de jurados. Não perdeu muito tempo em manter na defesa técnica de seu cliente, buscou questionar os métodos do Promotor de Justiça, e por diversas vezes exigiu que a juíza Dr. Vanessa Velloso Silva Saad constasse em ata afirmações, opiniões e atos do Promotor de Justiça – o que ela sistematicamente não fez.
Posteriormente ela teve que responder a representação feita contra sua atitude, e em sua defessa ela ela confirmará que de fato se negou a atender ao pedido do defensor por não ter havido segundo seu entendimento depoimento pessoal por parte do promotor durante o debate.

O Dr. Ormeleze também chamado a responder sobre esse fato acrescentou que a juíza atuou no limite da legalidade, e que o Dr. José Maria como de costume alega sem provar, mas que ele não aceitará as falsas acusações, que seriam fruto de um indigno comportamento na tentativa de fomentar uma rivalidade infundada, sem nenhum êxito ou propósito.
O advogado Dr. José Maria de Oliveira não deixou que aquela audiência caisse no esquecimento por ninguém: a juíza e Promotor de Justiça estão tendo que justificar junto as suas esferas os atos que praticaram naquele dia. Segundo o defensor de Hildo, o Promotor de Justiça afirmou que as testemunhas foram ameaçadas pelos pais do rapaz para mudarem seu depoimento e trouxe à luz o negro passado dos pais do réu, coisas que não constavam do processo.

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Sob as luzes da cidade se escondem as mais profundas e sórdidas realidades, mas sob o salão do Tribunal do Júri da Comarca de Itu esconde uma profunda magia. O Promotor de Justiça Dr. Ormeleze impõe seus desígnios, pela razão, pela emoção, por sua história, e por algo imaterial. 

Os irmãos Nazários foram condenados a quinze anos de prisão em regime fechado, algo que seu defensor tenta agora reverter, mas a realidade é que nada pode deter a Justiça, e Dr. Ormeleze é sua encarnação, e aí esta a magia. Os jurados da Comarca aceitaram-no como sendo o paladino da justiça e ninguém até hoje conseguiu destruir este seu manto sagrado, se bem que muitos tentaram.
Às acusações do Dr. José Maria o Dr. Ormeleze rebate com uma frase de Dalai Lama: “responder à ofensa com ofensa é lavar lama com lama”.

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Habeas Corpus garante porte de arma a GCMs.

1 – Clemente Bortoleto Filho (Diretor da Guarda Municipal de Itu) e outros (identificados às folhas 14/17), ajuizaram o presente Habeas Corpus preventivo visando, em síntese, a declaração incidental da inconstitucionalidade da Lei 10.826/03, sob o fundamento de que teria ocorrido afronta aos princípios da igualdade e razoabilidade, na medida em que proibiu o porte de arma fora do horário de serviço aos guardas municipais das cidades com população entre 50.000 (cinquenta mil) e 500.000 (quinhentos mil) habitantes. Alegam que o porte de arma só é permitido durante o serviço e almejam que seja irrestrito, inclusive fora dos limites territoriais de Itu.

A Juíza da 1ª Vara Criminal local argüiu sua suspeição, a qual foi acolhida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Não há nos autos cópia do ofício com as razões da suspeição.

A liminar foi indeferida e foram dispensadas as informações da autoridade coatora, por se tratar de matéria de direito.

O Ministério Público, lamentavelmente, deixou de se manifestar sobre o mérito, dizendo que não há previsão legal expressa. Possivelmente, não vislumbrou existência de interesse público que justificasse sua atuação.

Relatados, Decido.

2 – A ordem deve ser concedida.

Insurgem-se os impetrantes contra o disposto no art. 6º, inciso IV, da Lei 10.826/03 (Estatuto do Desarmamento). Afirmam que a proibição ao porte de arma fora do horário de serviço é inconstitucional e coloca em risco suas integridades físicas. Argumentam que auxiliam os agentes da segurança pública do Município de Itu e que o porte é necessário para o pleno desempenho de suas funções.

O inciso III do mesmo dispositivo legal permite o porte de arma aos integrantes de guardas municipais das capitais dos Estados e dos Municípios com mais de 500.000 (quinhentos mil) habitantes. Os guardas destes Municípios têm autorização para portar armas de fogo dentro e fora do horário de serviço.
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O art. 5º da Constituição Federal dispõe que: “ Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade…”.

A diferenciação de tratamento introduzida pelo Estatuto do Desarmamento em função do número de habitantes do Município afronta o princípio constitucional da igualdade. Independentemente do tamanho da cidade, os guardas municipais exercem a mesma função, em decorrência da previsão do art. 144, § 8, da Constituição Federal. O critério diferenciador adotado não tem qualquer relação com o serviço prestado.

O constitucionalista Alexandre de Moraes leciona o seguinte a respeito do princípio da igualdade: (para que) “as diferenciações normativas possam ser consideradas não discriminatórias, torna-se indispensável que exista uma justificativa objetiva e razoável, de acordo com critérios e juízos valorativos genericamente aceitos, cuja exigência deve aplicar-se em relação à finalidade e efeitos da medida considerada, devendo estar presente, por isso uma razoável relação de proporcionalidade entre os meios empregados e a finalidade perseguida, sempre em conformidade com os direitos e garantias constitucionalmente protegidos”.

Conclui-se, dessa forma, que o elemento discriminador adotado pelo legislador (número de habitantes do município) não guarda qualquer relação com o serviço público prestado. Feriu-se, por conseguinte, o princípio da igualdade, na medida em que se permitiu o porte de arma fora de serviço para os guardas dos municípios com população superior a 500.000 (quinhentos mil) habitantes e não para aqueles das cidades menores.

Além disso, é preciso considerar que a criminalidade vem crescendo vertiginosamente e precisa ser combatida. E neste mister, a Guarda Municipal local, juntamente com a Polícia Civil e Militar, vem desenvolvendo trabalho bastante elogiável.

O Tribunal de Justiça de São Paulo já reconheceu a inconstitucionalidade incidental do referido dispositivo e autorizou o porte de arma fora de serviço aos Guardas Municipais de Sertãozinho, Embu, Praia Grande e Indaiatuba.

Assim, diante da manifesta inconstitucionalidade do referido dispositivo legal, não poderão os pacientes terem seu direito de liberdade restringidos por portarem armas fora do horário de serviço.

Contudo, a pretensão de que o porte seja válido para todo o Estado de São Paulo não comporta deferimento pois contrario o Decreto 5.123/04, que regulamenta a Lei 10.826/03. O art. 45 e seu parágrafo único autorizam o porte dentro dos limites territoriais do respectivo município, bem como nos deslocamento quando o guarda morar em outro município. Finalmente, é preciso ponderar que o porte diz respeito apenas às armas pertencentes à Corporação e que devem ser atendidos as demais exigências de natureza administrativa.

3 – Ante o exposto, concedo a ordem para autorizar os pacientes a portarem armas de fogo fora do horário de serviço, nos limites territoriais do Município de Itu e nos deslocamentos para a residência, determinando-se a expedição de salvo conduto.

Comunique-se a autoridade impetrada, o Delegado Seccional de Sorocaba e o Comandante do 50º Batalhão da Polícia Militar – Itu.

Sentença sujeita a reexame necessário, “ex vi” do art. 574, inciso I, do Código do Processo Penal. Decorrido o prazo recursal das partes, remetam-se os autos ao Eg. Tribunal de Justiça de São Paulo.

P.R.I.C.

Itu, 22 de janeiro de 2010.

Hélio Villaça Furukawa
Juiz de Direito

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Tentativa de assassinato no Reveillon em Itu.

Não teve como Tiago explicar a facada nas costas. Sua advogada tentou de tudo – a melhor tese foi legítima defesa – mas como convencer os jurados naquela situação?

O dia 1º de janeiro de 2009 foi o último réveillon que o jovem Tiago comemorou em liberdade. Ele sempre foi corajoso quando em quando se metia em confusão, foram diversas suas passagens pela policia quando menor de idade e agora com a maioridade resolveu comemorar com tudo que tinha de direito.

O sol já tinha raiado, eram quase nove horas da manhã, mas ele ainda estava comemorando ali pela Padaria Spina na rua Dr. Ulisses de Moraes 208, no Jardim São Judas Tadeu em Itu.

Tiago conta que “… já tinha bebido a noite inteira e depois estava bebendo na padaria”, quando resolveu ir até um grupo de homens que estavam sentados conversando em frente ao estabelecimento para desejar-lhes um Feliz Ano Novo, mas um deles o enxotou de lá.

O rapaz nunca foi de levar desaforo para casa, mas daquela vez achou melhor pedir desculpas e sair de fininho. Voltou para dentro da padaria e questionou um conhecido a razão da atitude daqueles homens para com ele, e ainda inconformado foi embora.

Segundo ele, no caminho encontrou um amigo e contou-lhe que estava sendo ameaçado pelos homens que estavam em frente à padaria, e este lhe forneceu uma faca e uma camiseta, sob a qual teria ocultado a faca. Aí vem uma contradição, pois ele e sua defensora durante o processo afirmaram que esta faca estaria sobre o balcão e foi pego apenas para se defender de um ataque inesperado por parte dos homens.
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O fato é que voltou a padaria e encarou Gilmar, dizendo que não tinha medo dele e queria saber o motivo pelo qual ele não o queriam lá. Quando o homem foi se levantar, já foi recebido com uma facada. Neste ponto também existem divergências, afinal o ferimento foi nas costas, portanto não tem cabimento a afirmação dele de que o homem estava vindo agredi-lo, por outro lado também a realidade não avaliza o argumento do promotor de justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze que ele foi surpreendido quando se levantava.

Seja como for, Gilmar ficou ferido, e seus amigos Oséias e Érico, que tentaram ajudá-lo também sofreram diversos ferimentos. Contaram aqueles que assistiram à cena que Tiago brigou como um louco, mas a superioridade dos homens fez com que fosse derrotado e apanhou então feito gente grande. Com a chegada da polícia foi encaminhado para a Santa Casa de Itu e de lá para a delegacia de polícia.

Um ano e oito meses se passaram até sair a condenação pelo Tribunal do Júri por tentativa de homicídio: cinco anos e quatro meses em regime inicial fechado.mmmmm (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Tentativa de linchamento na véspera do Natal.

Por volta das 23h30m os dois vizinhos saíram de suas residências, no bairro Salto de São José em Salto. Pelo caminho até a estrada as casas estavam iluminadas pelas luzes e vozes festivas do Natal, era a noite de 24 de dezembro de 2008.

Seguem eles pela Rodovia SP79 no velho caminhão Mercedes Bens 1313 amarelo de Odair José Miranda. Apenas um trecho de trevas separa as duas cidades: a baixada da Usina da Concretex, onde pelo retrovisor a cidade de Salto está oculta pelo moro da Rádio Cidade, e a frente, a cidade de Itu esconde-se atrás do morro do Portal de Itu.

Odair e Ricardo não observaram nada de diferente aquela noite, mas deveriam. Véspera de Natal é quando as pessoas mais querem ficar com suas famílias, e naquele trecho daquela estrada muitas famílias foram desfeitas. A morte as ceifou naquele trecho, e muitas destas almas por lá permanecem, apenas esperando incautos viajantes.
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A quietude da estrada imersa na mais pétrea treva deveria ter sido um alerta, que algo de ruim estava a ocorrer, mas ambos só pensavam em se divertir longe de suas famílias. Talvez alguém que não possa mais estar com seus entes queridos numa data tão especial, não tenha se conformado com isso, e naquele trecho embarcou na boléia.

Odair contará depois que sua intenção era chegar até o Extra Hipermercado de Itu, um caminho praticamente impossível de se errar, são três linhas retas apenas. Odair se perdeu, rodou em círculos e retornou até próximo a Estrada Velha Itu Salto, caminho de casa e sua chance de voltar para o aconchego de seu lar naquela véspera de Natal.

Na Delegacia de Polícia, Ricardo Freitas descreverá assim aquele momento: “ao passar pela Favela do Isaac onde estava acontecendo uma festa, e acenaram para nós, chamando-nos para o churrasco”. Calipso acenou com a imortalidade para Ulisses, as sereias tentaram-no com um oceano de prazeres, mas aqueles dois amigos foram tentados por churrasquinhos.
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Ulisses resistiu , mas Odair e Ricardo não. Contaram mais tarde que beberam e conversaram por horas com os seus novos amigos, seleta companhia que em breve tentariam linchar a Ricardo.

Um baque, uma história mal contada, apenas os dois poderão dizer ao certo o que aconteceu. Ricardo Freitas dirá que ainda estava conversando quando o caminhão desceu a rua sozinho, atropelou Aline, uma moradora da comunidade, e danificou alguns barracos.

Odair fugiu dali e para fugir também de sua responsabilidade, correu a polícia para dar queixa do roubo do caminhão. Não contava que uma viatura policial tivesse localizado Ricardo e ele tenha sido acusado pelo roubo do veículo. Odair não estava entendendo como tudo isso podia estar acontecendo.

Aline, a vítima do atropelamento seria presa ainda àquela noite por tráfico de drogas, seu amigo que quase foi linchado pela população estava em frangalhos e ele condenado a uma multa de mil reais por falsa comunicação de crime à polícia e teve seu caminhão rebocado e batido. Tudo em uma Noite de Natal.

Odair e Ricardo não observaram nada de diferente aquela noite, mas deveriam. Véspera de Natal é quando as pessoas mais querem ficar com suas famílias, e que sempre pode existir algo que nos tente lembrar o verdadeiro Espírito do Natal. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Dr. Fernando Góes Grosso diz NÃO à impunidade.

Basta a impunidade que por aqui reina! – pensou irritado o Dr. Fernando Góes Grosso, Promotor de Justiça de Indaiatuba. Ele não pediu para vir até Itu, foi mandado para cá – juízes, promotores de justiça, e funcionários do judiciário cumprem o Plantão Judiciário que acontece todos os finais de semana na sede da Comarca.

Sábado, 06 de março de 2010 – 9:30 da manhã
Fórum da Comarca de Itu
Rua Luiz Bolognesi, Bairro Brasil

Muito receio, caro promotor, que a irrupção daquela família em sua sala não tenha sido obra do acaso, mas traquinagem de Lúcifer, o Senhor das Trevas. Nada ocorre por acaso, e Dr. Grosso seria a última pessoa que a delegada de polícia de Itu gostaria de ver sentada naquela cadeira, naquele momento, para atender aquela família.

Domingo, 07 de março de 2010 – 10:30 da manhã
Fórum da Comarca de Itu.

A delegada e sua equipe vão até a Promotoria de Justiça dar explicações.
Encontro entre titãs, a terra tremeu, e Lúcifer sorriu.

(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Sexta-feira, 05 de março de 2010 – 5:30 da manhã
Jardim Padre Bento, Itu SP

Uma mulher sai para trabalhar, e Ainda perto de casa, um homem forte, com cara de poucos amigos a segue. Ela tenta correr e é alcançada. Medo. Pensa que será assaltada, mas não. O homem agarra sua blusa e ela reage. Ele tenta beijá-la e diz “quero você”. Ela luta, apanha, ele é mais forte, parece estar drogado, violência, muita violência.

Arrastada para o mato, grita, e o marido está próximo, corre em seu socorro. O estuprador foge. O homem socorre sua companheira. Tentativa de estupro, disseram os policiais militares que estiveram no local. Lesão corporal, disse a delegada, que de longe tudo ouviu. Tentativa de estupro dirá o Promotor de Justiça, que ouviu a família.

Com as informações passadas pela vítima, a Investipol Adriana e o GCM Wellington, seguem para o local em busca do suspeito: Binho, como é conhecido Fábio César. Ele já havia anteriormente morado lá próximo e a vítima o conhecia de vista. Seu corpo todo tatuado não deixava dúvidas, que havia sido ele.

Todos sabiam muito bem quem era esse Binho, d’outra vez tentou estuprar outra mulher, manchando com sangue vida de uma família de um homem justo e pacífico. Para Binho que é um homem de espírito fraco falta-lhe tudo: nada de dinheiro, nada de estudo, nada de amor verdadeiro, nenhuma paz ele tem. Deus recusou tudo a ele.

Vingou-se de Deus entregando-se às bebidas e as drogas, que lhe tiram agora a razão. Sua verdadeira divindade é o prazer fácil; e sai em busca desse deus nos pontos escuros da cidade. Quero crer que delegada, seja uma mulher de bem; mas como confiar na Justiça se tal crápula, ao ser preso, é solto pela douta autoridade, e foi o que acorreu.
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Binho não foi localizado naquele momento, mas os tigres não ressonam se a caça lhes foge, e a Guarda Municipal ficou em seu encalço o dia todo, em todos os lugares em que poderia estar entocado. Passo a passo, cada pegada foi seguida, e o animal estava, enfim, acuado na casa de sua mãe, na rua Amadeu Fragnani, na Vila Fragnani.

Nossa feliz plaga, pródiga em benefícios para criminosos, conta ainda com a displicência de muitos que não querem fazer que a lei, já fraca, seja aplicada. Alarmou-me um secreto pressentimento quando vi orgulhosos de seu trabalho, os guardiões municipais conduzindo Binho para a DELPOL, mas em vão foi o esforço dos tigres.

Sorridente, Binho é de novo um homem feliz. Livre e impune. GCM Rovaldo, GCM Eliseu, GCM M. Silva, GCM Fábio, e toda a equipe que trabalhou na ocorrência puderam voltar para casa tranquilos, cumpriram seu dever, honraram o nome da Guarda Civil Municipal de Itu, e só não tiraram Binho das ruas por diabrura de Satã.

Se Deus escreve certo por linhas tortas, o demônio inspira os homens para o caminho mais fácil. Se o certo era ter escrito “tentativa de estupro” no BO (boletim de ocorrência), por que não fazer uma “lesão corporal” em um TCO (termo circunstanciado de ocorrência). É muito menos papelada e muito menos trabalho.

Deus pode se dar ao luxo de escrever em linhas tortas,
mas os homens não são deuses.

Ao chegar com Binho preso, Drª. Lia Limongi Arruda Matuck Feres mandou que os guardas o devolvesse para o aconchego de seu lar, para o carinho de seus entes amados. No Brasil a pena por “lesão corporal dolosa” em verdade em verdade não existe, e assim ele pôde ficar em liberdade, vivendo entre as mulheres e filhas de nossa feliz plaga, pródiga em benesses.

Deixando-as à mercê de Binho, uma raposa no meio de nossas ovelhas, Lúcifer terá muito com o que se divertir. Era tudo que ele queria. Tudo? Não! Nada supera uma briga entre titãs. Dr. Gosso não deveria estar ali, seu lugar era Indaiatuba, mas naquele sábado, naquele plantão judiciário…

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Ele, e mais que ninguém se revoltaria tanto com a impunidade e exigiria justiça.

Deus pode ter inspirado aquela família a procurar, naquele sábado a promotoria de Justiça, Ele é quem deve ter assoprado àquela família para levar o jornal Folha da Cidade, que contava em detalhes tudo o que aconteceu. Deus talvez tenha até estado ao lado do jornalista que escreveu com tantas minúcias e tanta inspiração aquela matéria…

Mas ninguém me tira da cabeça que foi Lúcifer quem teve a ideia de escalar para aquele plantão, o irritado Promotor de Justiça da cidade de Indaiatuba, Dr. Felipe Góes Grosso com o seu basta à impunidade que por aqui reina! (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Qual a verdade sobre morte daquele mala pela PM?

A Srª. Bovaris vive me dizendo que o que agente assiste na TV é apenas mentirinha e não é para levar a sério. Falo isso aos senhores, pois me recuso a assistir aos CSIs, e os senhores vão concordar comigo ou com ela…
Nivaldo e seu comparsa renderam a filha de um dono de uma transportadora e roubaram dez mil reais de sua residência no ResidencialRio Araguaia em Itu. Ao fugir foram surpreendidos pela polícia, houve troca de tiros, Nivaldo morreu.
Seu comparsa disse que nunca houve a tal troca de tiros.
Ao assistirmos um programa como o CSI nós nos deparamos com tudo o que há de mais moderno e que já está disponível no mercado, não é ficção científica, é realidade, então é fácil desvendar este mistério através das análises periciais.

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Será que os policiais brasileiros agem corretamente ao ultrapassar os próprios limites? Sem dúvida, se assim não o fizessem nosso país teria a muito virado um caos, a menos que todos os crimes fossem cometidos contra pessoas extremamente ricas, como os Nardonis e Aciolis.
Nivaldo morreu e é pobre, assim nunca saberemos a verdade.
A médica legista Drª. Regina Maria Caramuru Moreno examinou o corpo do rapaz e encontrou seis perfurações de entrada e duas de saída, mas sua colega a Drª. Edna Aparecida das Neves do Instituto Dr. Octávio Eduardo BritoAlvarenga não detectou nenhum resquício de chumbo nem nas mãos do falecido nem na do seu comparsa.
Se estivéssemos em um CSI concluiríamos que a troca de tiros não houve, comprovando a versão de Lucas, o comparsa de Nivaldo: os policiais atiraram deliberadamente e sem provocação em Nivaldo.
O material para a perícia foi retirado das mãos dos assaltantes e policiais menos de vinte e quatro horas depois dos tiros, mas… nas mãos dos policiais que nunca negaram que atiraram também não foram encontrados resíduos de pólvora!?!
Então podemos concluir que este exame feito por testes científicos sobre o método de Feigl-Sutter (exames residuográficos metálicos – residuais) não provou absolutamente nada, apesar de que no CSI consegue-se saber até a quantidade de tiros, o tempo entre um disparo e outro, e tantos outros detalhes, mesmo nos casos em que os suspeitos tentam esconder a verdade.

A perita criminal Drª. Ariadne Araújo Pinheiro Schemer esclareceu ao juiz de direito Dr. Hélio Villaça Furukawa que a princípio a conclusão sobre o resultado negativo do exame é a de que não houve disparo de arma de fogo, mas também pode ser que a concentração de chumbo ficou abaixo dos limites e não pode ser detectado, e neste caso, a conclusão sobre o fato fica condicionada a apreciação de outras evidências, não podendo sequer descartar a possibilidade de que os examinados tenham efetuado o disparo.
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Intão, o que os peritos disseram em outras palavras é que a Srª Bovaris está certa e CSI é apenas mentirinha, e eu acho que eu estou certo ao não assistir ao seriado, pois qualquer um ficaria envergonhado em viver em um país onde os políticos roubam tanto que não existe verba nem para saber se Nivaldo e tantos outros foi brutalmente assassinado, ou não.

Mas ele é pobre, não faz diferença. Ah! Se fosse um de nossa família fosse morto por um bandido ou em outra situação qualquer seria diferente?

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A complacência e a venda de CDs e DVDs piratas.


Tolerar ou não a pirataria é uma decisão que a ser tomada no conjunto da comunidade?

No passado vendedores de CDs e DVDs piratas dominavam o centro e os principais bairros, até que a Guarda Municipal e os fiscais da Secretaria das Finanças fizeram uma ofensiva para coibir a ação destes comerciantes, e hoje este delito existe mas está sob controle.

O crescimento do ilegal se faz graças a benesse de cidadãos que tentam ajudar aquele que considera ser o elo mais frágil da sociedade a que pertencem, mas neste caso perdem invariavelmente o controle para as facções criminosas.

Os protegidos pela covardia ou pela conivência passam então a seu controle passam então a se tornar profissionais agregando em seu entorno: tráfico de drogas, mendicância, e prostituição. Isto não é alarde, é fato. Basta ver o que ocorre em outros municípios que não agiram antes do crescimento e do descontrole dos mercados paralelos.
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Policiais militares e guardas civis então são feridosou mortos para reconquistar os espaços perdidos graças a complacência ou a covardia de cidadãos e governantes.

Quando o juiz de direito da Comarca de Itu declarou anistia aos casos de pirataria, incentivou a criação de um sistema de mão de obra rotativa na distribuição dos produtos piratas, onde os administradores do sistema trocam os vendedores a cada apreensão.

A Feira do Rolo da Cidade Nova é prova que já existiu uma organização por traz desta atividade criminosa. Não bastava chegar com seus CDs e DVDs e montar sua barraquinha, era preciso permissão para conquistar seu espaço.
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Em março de 2010 metade das dezesseis barracas da Feira do Rolo vendiam produtos ilegais ou de procedência duvidosa, agora com a relocação do evento para o terreno ao lado do Hospital do Pirapitingui a intenção do governo é recuperar de forma mansa o domínio daquela área.

Conivência pacífica entre o Estado que devia coibir o delito era escandaloso, clamando por uma investigação, pois deixava clara a predominância da vontade dos contraventores sobre a lei. Me pergunto se haverá força política para contrariar os interesses econômicos e eleitorais que existem por trás deste mercado, e qual o futuro de nossa sociedade se aceitarmos a conviver com a contravenção. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});

Íntegra da lei de abono de natal da Prefeitura de Itu.

“AUTORIZA A CONCESSÃO DE ABONO PECUNIÁRIO DE NATAL, E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS”.

HERCULANO CASTILHO PASSOS JÚNIOR, Prefeito da Estância Turística de Itu, Estado de São Paulo, usando das atribuições que lhe são conferidas por Lei;

FAZ SABER que a Câmara de Vereadores da Estância Turística de Itu, Estado de São Paulo, aprova e ele promulga e sanciona a seguinte Lei:

Art. 1º -Fica o Executivo Municipal autorizado a conceder, anualmente, no mês de dezembro, abono pecuniário no valor de R$ 100,00 (cem reais), tendo como beneficiários os servidores e empregados públicos ativos, do Poder Público, Administração Direta e Indireta e Câmara de Vereadores da Estância Turística de Itu.

Art. 2º -O abono pecuniário será reajustado, anualmente, pelo mesmo índice que for adotado para o cálculo da revisão geral anual da remuneração dos servidores e empregados públicos, do Poder Executivo, Administração Direta e Indireta e Câmara de Vereadores da Estância Turística de Itu.
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Art. 3º -As despesas decorrentes da aplicação desta Lei serão suportadas pelas dotações orçamentárias próprias do corrente exercício, suplementadas se necessário.

Art. 4º -Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

PREFEITURA DA ESTÂNCIA TURÍSTICA DE ITU
Aos 09 de novembro de 2.011
HERCULANO CASTILHO PASSOS JÚNIOR
Prefeito da Estância Turística de Itu 2

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