Todas essas críticas que têm me chegado foram previstas quando publiquei a série de textos a respeito do nefilim 1 em Itu, sua relação com a caça feita pela Igreja Católica, e o vendaval de 1991. Sendo assim, aceito responder aos questionamentos, no entanto não esperem que eu saia na defesa de uma posição ou de outra.
Cada um é senhor de suas crenças, se bem que vivemos um tempo onde todos defendem a pluralidade e a liberdade de expressão… desde quê se diga algo com que concordem. Hipocrisia.
Sei que a senhora de Itu e o religioso católico de Jundiaí acreditam nas informações e conclusões que me deram, além de fornecer indícios de sua veracidade, no entanto teríamos nós capacidade de admitir que as coisas não são como as vemos?
Nunca me passou pela cabeça a ideia de criticar as leis naturais ou morais, mas certos fatos se impuseram a mim, e não fui contra eles:
Essas pessoas acreditam que o pior tornado do Brasil teve causa sobrenatural com a finalidade de arrebatar e eliminar o último descendente do elioud2 Azazel 3 e 4 no Brasil e que estaria na cidade de Itu, e eles alegam terem participado de um grupo que tentou neutralizar 5 o herdeiro do anjo caído 6.
Houveram mensagens cifradas 7 publicadas no Jornal A Federação, órgão oficial da Igreja Católica? Como não achar estranho e significativo quando após o desastre que abalou a cidade e a colocou em destaque na mídia nacional esse periódico coloca a notícia apenas em sua última página com apenas uma nota com foto na capa?
Reparem nas matérias da edição publicada imediatamente antes da catástrofe do vendaval que teria servido para matar o descendente do anjo caído que teria se relacionado com uma humana, e que estaria vivendo entre nós como uma pessoa comum: o Diácono João Antonio Motta Navarro alerta para o fato de que não mais conhecemos as pessoas que passam por nós pelas ruas utilizando como metáfora um cavalo 8 e 9 e depois o acadêmico sorocabano Benedito Walter Marinho Martins escreve: “O sexo dos anjos… tanto os anjos bons como os maus (demônios, os rebelados) foram criados por Deus antes dos homens, disso a Bíblia nos dá boas explicações… ”.
Estaria ele se referindo ao Gênesis 10 onde os anjos tomara para si mulheres e o Livro de Enoque 11 que cita nominalmente Azazel como tendo participado?
Se voltarmos as edições buscando antes dessa data outras indicações não encontraremos. Seria apenas uma bruta coincidência, inspiração divina, ou de fato havia uma ação prevista?
Os trechos seguintes estavam na edição publicada logo após a tragédia, leiam e digam se de fato era o que se esperaria de um noticioso sobre essa tragédia ou se de fato existem razões para se crer que havia uma intensão oculta ou de ocultar:
“Luzes que se apagam, nada mais. Em alguém adentrado num ambiente iluminado e, acionando o interruptor de eletricidade, aquele pequeno estalido que ele produz de pronto traz, a escuridão total… , somente escuridão e nada mais. Neste hipotético recinto… O escuro é triste, é assustador. Nele ficamos sem ação, ficamos incertes. Nós fomos criados para a luz, e o oposto, nos deprime, invariavelmente, sempre. Saudações à Luz, à claridade! No escuro somos ninguém.”
Se alguém pode ter dúvida de qual luz está o autor Celso Sotilo se referindo há segue uma “MENSAGEM” publicada logo após:
“Imploramos, humildemente, sem cessar, ao Senhor nosso Deus de misericórdia, para que Ele nos conceda, termos sempre os benefícios da luz, principalmente, os da Luz Espiritual, e para que Ele não nos deixe de ajudar sempre.”
Saber exatamente quem é o inimigo e seu poder é um dom que poucos possuem, e mesmo entre os membros deste grupo que atuou em Itu nenhum deles se disse capaz de identificar pessoalmente o nefilim, que em nada se diferia de uma pessoa comum, exceto talvez a inexplicável riqueza material. Nessa mesma edição foram deixados dois pensamentos: “O homem será fonte de bênçãos, desde que compreenda o valor do próximo”.
1 – Nefilim – nepîlîm – נְפִלנ ְפִיל ; 2 – Elioud — Eljo — benê-hâ’elôhîm — benê-‘êlîm — bn il — angeloi tou theou; 3 – Azazel — Asael — עזאזל; 4 – Gênesis 6: 4; 5 – Repetidas vezes durante ele repetiu essa palavra “neutralizar” para designar o objetivo do grupo em relação aos eliouds, tentei repetidamente que ele definisse o que era “neutralizar um nefilim”, mas não obtive resposta; 6 – 1 Pedro 3:19-20; 2 Pedro 2:4; e Judas 6; 7 – Lucas 8: 8 — “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” 8 – O diácono Navarro era um profundo conhecedor das Sagradas Escrituras e provavelmente buscou em Zacarias a fundamentação para a ultilização do cavalo para transmitir a mensagem cifrada. Zc 1, 9-10: “Eu perguntei: Meu senhor, que cavalos são estes? E o anjo porta-voz respondeu-me: Vou explicar-te. O homem que se encontrava entre as murtas respondeu: Estes são os (mensageiros) que o Senhor mandou para percorrer a terra.” 9 – Trechos do texto publicado no Jornal Federação: “Não sei se animal irracional é ou não curioso. Só sei que … há um cavalo curioso… Viram que está faltando amor entre as pessoas que passam pelas ruas, sem se conhecerem, nem se cumprimentam… Esses mesmos animais, burro (parente do cavalo e o boi foram, afinal testemunhas…)” 10 – Gênises 6:3,5-7,11-13,17; 11 – Livro de Enoque 10: 13.
Deste ponto em diante passo a um resumo do que ele me disse:
Não cabe a nós julgarmos se um ser merece ou não viver, isso é uma decisão que cabe apenas a Deus, no entanto a Igreja há muito optou pela sobrevivência do homem sobre a terra, e nós apenas somos seu instrumento.
Não há portanto contradição em nossa ação. Hoje um nefilim passa por um ser humano como qualquer outro, um ser inferior ao que de fato ele é, mas que no futuro, claro que num futuro quase inimaginavelmente distante, destruiria a todos simplesmente por existir, como já aconteceu no passado.
A Bíblia de Jerusalém publicada pela Sociedade Bíblica Católica Paulus confirma que “… o pecado cometido por aqueles … anjos, que, … , mantiveram um relacionamento proibido com as mulheres … poderia justificar a sua destruição através do dilúvio“. 2 e 3
Os nefilins vivem em nossa sociedade de maneira inofensiva até assumirem o controle, quando passaram a agir de forma desumana. Deus prometeu que voltará agir como já o fez quando enviou o Dilúvio no momento no qual os nefilins voltarem a se proliferarem sobre a terra, e isso é algo inevitável pois está previsto nas escrituras, mas a Igreja conhecedora da profecia pode postergar esse momento evitando que essa espécie prolifere entre nós.
Chegará o tempo em que o Apocalipse se iniciará, e está escrito que será “… como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do Homem.” 4 Ora, então temos que procurar entender o que aconteceu no tempo de Noé para que Deus deflagrasse o Dilúvio.
Iniquidade e maldade sempre houve entre os homens, desde os tempos de Caim nossa espécie sempre foi profícua em se destruir, não somos piores hoje que fomos durante as duas grandes guerras mundiais, durante a Inquisição, ou das milhares de chacinas étnicas ocorridas em todo o mundo.
Algo diferenciou aquele momento e está escrito que será o mesmo estopim que fará com que a Terra seja novamente destruída. Assim está descrito em Gênisis as causas da primeira destruição: “… quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos;” … “A terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se a terra de violência.” 5 E os chamados “filhos de Deus” nada mais são do que os eliouds 6 que geraram filhos em humanas como já foi demonstrado nesse blog.
Enquanto a Igreja conseguir impedir que os nefilins dominem nosso planeta o Apocalipse não começará, será questão de tempo pois o fim foi previsto, mas a data poderá ser postergada enquanto houverem religiosos e leigos dispostos que creiam e combatam.
1 – Nefilim – nepîlîm – נְפִלנ ְפִיל; 2 – Trecho da A Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Sociedade Bíblica Católica e Paulus, 1985, p.39, cf. nota l. O pecado dessa geração antediluviana humana é tão grave (cf. Gn 6:5,11-2) quanto o pecado cometido por aqueles “seres celestiais”/”anjos”, que, segundo a lenda popular, mantiveram um relacionamento proibido com as mulheres (cf. Gn 6:1-4). Somente um pecado tão grave como o desta geração – a ponto de ser comparado ao pecado de seres celestiais – poderia justificar a sua destruição através do dilúvio (cf. Gn 6:13,17); 3 – Gênises 6:3,5-7,11-13,17; 4 – Gênises 6: 11; 5 – Matheus 24: 37 “E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem“; e 6 – Elioud — Eljo — benê-hâ’elôhîm — benê-‘êlîm — bn il — angeloi tou theou.
Quando o religioso católico avalizou a informação da senhora ituana1 que atribuiu ao vendaval de 19912, ocorrido na cidade de Itu, a qualidade de fenômeno sobrenatural, causado pela eliminação de um nefilim3, levantei dúvidas sobre detalhes que não se encaixavam nessa história.
Quem me acompanha neste blog sabe que não faço juízo de valor em questões de fé e cultura, no entanto vários pontos da história careciam de esclarecimentos. E o religioso passou semanas me tirando dúvidas e me mostrando novos fatos.
Parece um absurdo que há poucos anos a Igreja Católica tenha montado uma operação para localizar e neutralizar4 pessoas por acreditar que seriam filhos de um anjo caído5, 6 e possuidoras de poderes sobrenaturais, mas já citei neste blog fatos que indicam que essa caça existiu.
Venho de um berço católico e sei que um anjo, por ser um ente espiritual, não pode gerar filhos, mesmo por que eles são seres assexuados, então meu primeiro questionamento foi:
“Se Azazel7, 8 era um anjo, então como poderia ter descendentes?”
Segundo o religioso católico, os místicos que estudam essa matéria fora do âmbito da Igreja Católica acreditam que de fato estes seres celestiais podem atravessar as dimensões9, e os anjos, principalmente os de alto nível, como Azazel, não teriam dificuldade de circular entre uma ou outra dimensão e, ao penetrar na nossa, criar uma matéria para se alojar.
Existe no entanto quase um consenso entre os acadêmicos judaicos e cristãos de que os anjos de fato não tiveram relações sexuais com as mulheres, mas sim que conviveram com elas, pois está escrito em Gênesis: “e tomaram para si mulheres”10, e essa forma é utilizada de maneira comum na escritura para definir a união legal matrimonial11 e não propriamente o ato sexual12. Existe pelo menos uma criança que nasceu cujo pai foi imaterial e a mãe uma humana, Jesus Cristo, e nesse caso não houve relações carnais, o mesmo poderia ter ocorrido no caso dos eliouds5, visto que Azazel era um serafim, um anjo da hierarquia mais alta no coro celeste e, sendo mais próximo do Criador, conhecedor dos mistérios divinos.
Finalmente existe o grupo que garante que os chamados “filhos de Deus”5 eram os filhos de Sete13 (o filho piedoso de Noé), que haviam se unido as mulheres descendentes de Caim14, mas essa interpretação apareceu já na era Cristã para justificar esse trecho bíblico tido como escandaloso e descabido. Até hoje utilizamos o termo “filho de Deus” para nos referirmos a uma pessoa boa, e existe base nos textos sagrados que justificam esse uso, mas esse termo, em todas as outras vezes que é citada na Bíblia Hebraica, se refere aos seres celestiais15, apenas nesse caso, por ser escabroso procuram “arranjar” alguma alternativa.
A Igreja Católica escolheu desinformar deliberadamente quando optou por adotar oficialmente a “Interpretação Naturalista Setita-Caimita”, que é essa de justificar através de Sete, mas não o faz por fé, e sim para poder agir de maneira mais discreta e eficaz contra os descendentes dessa união remanescente.
Ele se despede de mim depois desta entrevista com essa questão: Como poderia ter se dado a eliminação dos cinco nefilins no Brasil entre 1989 e 1991 se os esforços da Igreja tivessem sido abertos e ao conhecimento público?16
Um vigilante teria desaparecido durante um fenômeno sobrenatural no Condomínio Terras de São José na cidade de Itu no interior paulista;
Nefilim — nepîlîm — nepîlîm-gibbôrîm — נְפִלנ ְפִיל ; Repetidas vezes durante ele repetiu essa palavra “neutralizar” para designar o objetivo do grupo em relação aos eliouds, tentei repetidamente que ele definisse o que era “neutralizar um nefilim”, mas não obtive resposta;
Elioud — Eljo — benê-hâ’elôhîm — benê-‘êlîm — bn il — angeloi tou theou;
No entanto o termo “tomar à força” também foi utilizado quando a Sagrada Escritura descreve o estupro de Diná por Siquem, o que pode então justificar a vertente que acredita que os anjos de fato tiveram relações carnais;
Cinco novos prelados foram nomeados 2, entre eles Dom Amaury Castanho, que foi mandado como Bispo Coadjutor da Diocese de Jundiaí em Abril de 1989, um ano e meio antes do temporal de Itu de Setembro de 1991 3.
Dom Amaury fora Bispo Auxiliar de Sorocaba e conhecia como poucos o restrito ambiente sociopolítico e militar da cidade vizinha de Itu, onde viveria um dos cinco descendentes 4 do eliouds 5Azazel 6 no Brasil.
Tendo profundo conhecimento teórico e prático das doutrinas cristãs e grande facilidade de comunicação pois pertenceu a Pastoral dos Meios de Comunicação da Arquidiocese de São Paulo além ser de colaborador do Jornal O Estado de S. Paulo, Dom Amaury teria como missão organizar o grupo que conteria ou eliminaria o nefilim que estaria em Itu, assim como conhecer e neutralizar as notícias sobre o assunto que pudessem vazar para a imprensa 7.
Pouco antes de sua posse, a edição de Abril de 1989 8 do Jornal A Federação, órgão oficial da Igreja Católica já prenuncia de maneira cifrada a batalha que se iniciaria na região, alertando a quem tinha capacidade e necessidade de saber 9, em um artigo assinada pelo Diácono João Antonio Motta Navarro:
O QUE É QUE ELES QUEREM?
“Quando a gente começa a reparar no que está acontecendo por aí, fica a imaginar se o que pretendem é acabar com a fé, querendo destruir a Igreja. Está atingindo o que temos de mais caro, estão mexendo como o que há de mais sagrado. (…) Querem acabar com a Igreja de Deus. No entanto, nunca conseguirão. Jesus disse — e Ele é Deus — que “os portões do Inferno não prevalecerão contra ela”. Nós somos a Igreja, não tenhamos vergonha e nem nos sintamos diminuídos em afirmar. Somos contra tudo isso espalhemos isso, sem receio algum.” 10
A partir dos meses seguintes, o próprio Dom Amaury passá a escrever o editorial desse periódico católico.
Houveram cinco mudanças fundamentais dentro da hierarquia da Igreja Católica do Brasil em 1989: além da posse de Dom Amaury, foram criadas quatro novas Dioceses: São Miguel Paulista, Osasco, Campo Limpo e Santo Amaro.
É interessante notar que nessa mesma edição do Jornal Federação o próprio Dom Amaury escreve uma matéria sob o título: “Cinco mulheres e muito dinheiro”. referindo-se alegoricamente ao fato haverem cinco eliouds a serem combatidos — todos eles ricos descendentes de Azazel, anjo que abandonou a missão 11 que lhe foi confiada por Deus para ficar com uma mulher 12, daí a referência as mulheres no título.
Um ano e meio antes do cataclismo houve a divisão da Cúria Metropolitana de São Paulo (São Miguel Paulista, Osasco, Campo Limpo e Santo Amaro) e a nomeação de Dom Amaury Castanho como coadjutor na Diocese de Jundiaí.
Além de jornais na capital e no interior, Dom Amaury mantinha colunas em todos os jornais de importância da região;
Edição nº 4387 do Órgão da Comunidade Paroquial Nossa Senhora da Candelária de Itu, fundada pelo Padre Eliziario de Camargo Barros em 3 de Maio de 1905;
Lucas 8: 8 — “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”;
O artigo de fato critica uma obra de Martin Scorsese, no entanto basta analisar os artigos do Diácono Navarro anteriores a essa data e os posteriores para perceber a radical mudança do foco deste leigo católico; apesar de nunca ter sido citado como sendo membro do grupo que estaria atuando na busca da eliminação dos descendentes dos eliouds, os textos de Navarro são constantemente citados como peças da comunicação do grupo;
Judas 1: 6 — “… não guardaram o seu próprio principado, mas deixaram a própria morada” e
Com a autorização dele trago a conhecimento dos senhores o que ele me disse aquele dia:
Criado informalmente pelo então Cardeal Ratzinger, e posteriormente reafirmando quando assumiu como Papa Bento XVI, o grupo atuou de forma marcante durante o papado de São João Paulo II. Formado por religiosos e leigos que tinham a missão localizar e neutralizar os descendentes 1 do elioudAzazel 2, 3, e 4. Após os eventos de 19915 quando os últimos foram eliminados no Brasil, aqueles voluntários se dispersaram, e desde que Dom Vicente Costa assumiu como bispo de Jundiaí o assunto passou a ser tratado sem o conhecimento dele por um pequeno grupo dentro da Igreja.
Esclareceu que o vendaval que ocorreu em 1991 em Itu foi um fato profético e ocorreu em diversas partes do mundo 6, só não tendo sido pior aqui no Brasil por ação da Igreja Católica que se preparou para isso nos anos anteriores neutralizando 7 vários nefilins 8 e 9 antes de uma intervenção divina 10.
As mudanças ocorridas na estrutura da Igreja Católica no Brasil na década de noventa 11 faziam parte da estratégia desenvolvida por aqueles dois pontífices de evitar que ocorresse por aqui desastres como ocorreram em outras partes do mundo onde a Igreja por ter pouca penetração tinha dificuldades de atuar — as grandes catástrofes ocorreram fora das regiões cristãs.
Os bispos nomeados tiveram aproximadamente um ano e meio para tentar localizar e neutralizar os nefilins que a Santa Sé sabia que estavam naquelas regiões. Infelizmente, no caso de Itu, Dom Amaury Castanho não obteve êxito, ao contrário de seus outros colegas, e a ação divina não pode ser evitada.
Cheguei ao local onde ele pediu para que o levasse e ele marcou para a semana seguinte um novo encontro onde me passaria mais dados sobre como tudo aconteceu.
Repetidas vezes durante ele repetiu essa palavra “neutralizar” para designar o objetivo do grupo em relação aos eliouds, tentei repetidamente que ele definisse o que era “neutralizar um nefilim”, mas não obtive resposta;
Existem divergências quanto a denominação dos descendentes dos anjos caídos, no entanto aqui optamos por seguir aquele utilizado pelos membros deste grupo, que sempre se referiam a eles como nefilins;
Já de início o local me surpreendeu, pois imaginava encontrar uma igreja ou prédio centenário, mas era um edifício asséptico mais parecendo uma escola.
Na recepção que mais parecia ser de uma clínica particular, pedi para falar com a determinada pessoa pois eu estava escrevendo uma matéria sobre o vendaval de 1991.
Aguardei por muito tempo até que um funcionário tão asséptico quanto o prédio me conduziu a uma sala do lado direito de um corredor que saía a direita daquele saguão, onde fui acomodado em uma mesa de leitura sem nenhuma palavra e convidado a aguardar.
Acreditei que a pessoa a qual havia solicitado para conversar viria falar comigo, se bem que eu preferia sumir dali antes de vê-lo, pois aquele local mais parecia uma sala de interrogatório de delegacia de polícia ou para visita de presos de filme americano do que um ambiente religioso.
Surpreendentemente me volta muito tempo depois o mesmo funcionário com o segundo volume do Livro Tombo da Igreja Nossa Senhora da Candelária de Itu.
Estranho? Ficaria pior!
Me entregando a obra, passou a falar de como eu tinha sorte de poder folhear aquele documento, pois se fosse na Cúria de São Paulo, eu teria que fazer por escrito meu questionamento, pagar uma taxa, e tempos depois alguém daria uma resposta, e blá, blá, blá, até que saiu da sala sem mais nem menos.
Não entendi nada! Estaríamos falando a mesma língua? Seria ele um ser kafkiano?
Procurei por algo nas ilegíveis páginas daquele livro, mas nada encontrei que explicasse o que estava acontecendo, então esperei, esperei, esperei… e como o tal funcionário não dava sinais de vida e eu já estava muito puto da vida, perdi a paciência, saí da sala, passei pelo saguão e saí do prédio sem que ninguém desse a mínima atenção para mim. Nunca me senti assim, invisível, era como se eu nem estivesse ali.
Havia deixado meu fusca verde ao lado do edifício de quatro andares que fica na rua lateral, e ao chegar no carro um senhor moreno magro, camisa salmão e calças pretas, me perguntou se havia sido eu quem procurara por tal pessoa, e quando confirmei, ele me disse que havia eu fora imprudente e deselegante aparecendo daquela forma falando sobre o tornado de Itu de 1991, mas que tal pessoa me encontraria em quinze minutos no ponto de ônibus em frente ao Santuário Diocesano Nossa Senhora Aparecida no Jardim Guarani, aí ele virou as costas e foi embora.
Eu não gosto de escrever esse tipo de palavra, é mais cara do Carlota do Jornal Notícias Populares de Itu, mas dessa vez terei que abrir uma exceção: QUE SACO! — se bem que ele usaria um termo mais pesado.
Minha busca pelo dinheiro que veio para a cidade por ocasião do vendaval de 30 de Setembro de 1991 me levou a entrevistar algumas pessoas que vivenciaram aquele sinistro, mas a conversa que tive com uma moradora de uma chácara, mudou meu foco e me mostrou um mundo diferente de tudo o que eu conhecia e acreditava.
Eu simplesmente esperava que a senhora me respondesse se havia ou não recebido a grana da indenização, mas não foi isso que aconteceu, ela me disse que eu não havia entendido o que de fato havia ocorrido naquele dia, e que eu nada poderia fazer a respeito, pois tudo já havia sido há muito previsto.
Acreditei que estivesse falando a respeito do desvio das verbas, mas não era isso, segundo ela algo muito maior e mais importante havia acontecido ali e que eu, assim como a maioria das pessoas fomos levados a não ver apesar de ter sido algo tão evidente, e tudo se ligaria ao desaparecimento do vigilante do Condomínio Terras de São José que teria sido arrebatado pelo vendaval.
A conversa novamente passou a me interessar, qualquer fato sobre esse caso poderia esclarecer de vez se a história era mito ou realidade, mas ao mesmo tempo ela dizia que o que me diria estava acima de minha compreensão que se de fato quisesse saber a verdade teria que procurar outras pessoas para poder confirmar a história que ela iria me contar.
Segundo ela o nome do vigia não era importante, mas que eu teria problemas se citasse o nome de seu pai, pois ele seria filho ilegítimo de uma autoridade que na época tinha grande influência na cidade, e que pouquíssimos sabiam que eles eram descendentes 1 de Azazel2 e 3 .
O Dilúvio teria deixado para traz alguns nefilins 4 e 5 que viviam entre nós como pessoas aparentemente comuns até dia em que esse vigilante completou seu quinquagésimo aniversário e foi arrebatado e morto durante o vendaval 6 e 7.
A senhora me disse nada mais me diria e se eu quisesse saber mais sobre o caso deveria ir à Cúria de Jundiaí procurar uma pessoa que poderia me esclarecer mais sobre o caso.
Titubeei muito antes de tomar coragem de seguir à Jundiaí, fui, mas não sei se de fato não preferia ter deixado de ir, pois o que me foi dito lá, talvez eu preferia não ter ouvido.
Muitos dos meus leitores há tempos acompanham meu trabalho, então é desnecessário dizer que por vezes posto histórias e pontos de vistas que de fato não acredito, ou deixo aqui opiniões que por vezes não concordo. Porem, nunca sem me assegurar da procedência dos dados ou de tê-los posto a prova.
Assim o faço por acreditar que não sou o senhor da razão e que existem coisas nas quais não acredito e que são verdadeiras, assim como tenho como verdadeiras coisas que já foram ou serão demonstradas como falsas.
No caso do vigilante desaparecido durante o tornado de 1991 tornarei a essa regra. Toda minha pesquisa me dirige para fora dos limites de minha compreensão e da minha capacidade de aceitar.
O FATO
Em 30 de Setembro de 1991 a cidade de Itu no interior paulista sofreu com a passagem de um tornado, algo sem precedentes em seus quatrocentos anos de história (o mais devastador Tornado já registrado em solo brasileiro). O governo municipal decretou Estado de Emergência e houve liberação de verbas para o socorro das vítimas e reconstrução da área destruída.
Houve rumores a respeito de um caso do vigilante que trabalharia nas Terras de São José e que teria sumido durante o vendaval. Alguns dizem que seu corpo, assim como a guarita na qual ele estava jazem até hoje no fundo de um dos lagos do condomínio, outros dizem que ambos foram encontrados dias depois em um eucaliptal há quilômetros de lá, e há um terceiro grudo que afirma que é puro mito, pois no dia do vendaval nenhum funcionário do condomínio desapareceu.
O fato é que minha investigação sobre o caso me levou a caminhos que jamais pensei que existissem, e conversei com pessoas que acreditam firmemente na versão que narrarei aqui. Um segredo bem guardado, e que talvez devesse continuar a ser assim…
Um colega recentemente questionou-me sobre o destino de um documento mencionado anteriormente por mim neste site. Para esclarecê-lo, relatarei a história tal como me foi contada por Chiquinho Lopes (meu avô), a respeito de seu pai, que tinha o mesmo nome que ele, Francisco Pereira Motta, protagonista dos acontecimentos narrados a seguir.
O Encontro na Neblina
Francisco havia chegado de Taubaté e passado duas noites escondido na mata. Aguardava às margens do córrego Boa Vista, na fazenda Piraí, em Itu, um encontro marcado em sigilo pelo pároco da Igreja Nossa Senhora da Candelária, padre Miguel Correa Pacheco — a mensagem dizia que ele deveria encontrar-se com o religioso próximo à entrada da fazenda Vassoural.
Francisco conhecia bem o caráter justo e tranquilo de Padre Miguel, que era um monarquista conservador convicto em uma cidade dominada pelos liberais republicanos. Certamente o sacerdote também sairia silenciosamente da cidade, evitando chamar a atenção dos liberais ituanos.
Embora seu pai tivesse lhe revelado o segredo confiado pelo padre Braz Luiz de Pinna sobre a morte do capitão Antônio Correa Pacheco, Francisco nunca acreditou estar em risco real até receber a mensagem enviada por Padre Miguel, que evidentemente desconhecia o falecimento de seu pai. Francisco compreendeu, então, duas coisas fundamentais: precisava informar ao sacerdote sobre a morte do destinatário original e, ao mesmo tempo, percebia que corria pessoalmente um risco real, diante da tensão política crescente entre monarquistas e liberais. Ciente dessas circunstâncias, compareceu ao encontro no lugar de seu pai.
Ele e seu capataz passaram pela entrada da fazenda Vassoural sem encontrá-lo. No topo do último morro antes do vale do córrego do Taboão, Francisco ouviu o som suave de um sininho aproximando-se pela estrada. Ao fazerem a curva, avistaram a cidade, e subindo pelo caminho vinha um jovem coroinha balançando suavemente uma pequena campainha, seguido pelo padre Miguel, caminhando solenemente sob uma umbela carregada pelo sacristão.
O Artifício do Padre Miguel
Nada poderia ser mais simples e eficaz que o artifício arquitetado pelo astuto sacerdote para sair da cidade sem chamar atenção. Padre Miguel, frequentemente ridicularizado pelos republicanos por seu jeito humilde e despretensioso, saíra paramentado e carregando o santo Viático, criando a impressão de que estava apenas a caminho para confortar algum enfermo.
Padre Miguel sorriu serenamente quando os cavaleiros ajoelharam-se em reverência. Sob o pretexto de ouvir a confissão de Francisco, afastou-se da comitiva e explicou o motivo pelo qual o convocara desde Taubaté.
A Revelação Final
Padre Miguel explicou que convivera com o padre Pinna em seus últimos anos de vida, enquanto atuava como cooperador do vigário coadjutor padre Benjamin Toledo Mello. Ele testemunhou, sem entender, as constantes desavenças do velho padre com os republicanos, vindo a conhecer a verdadeira razão — o caso do capitão Antônio Correa Pacheco — apenas dias antes do falecimento do velho pároco, em 10 de julho de 1865.
Padre Pinna escolhera o pai de Francisco pela firmeza de sua fé e caráter irrepreensível. Viver em Taubaté proporcionaria segurança contra represálias dos republicanos de Itu. Entretanto, era necessário alguém próximo para monitorar eventuais ameaças às provas que ele deixara, revelando o envolvimento de um grupo de republicanos liberais na morte do Capitão Pacheco. Para cumprir essa delicada missão, Padre Pinna confiou em Padre Miguel, garantindo cada um à sua maneira a proteção desse importante segredo.
Itu Inaugura seu Cemitério Municipal
Vinte anos se passaram desde o falecimento do padre Pinna, que levou para o túmulo as provas da inocência do escravo Cosme e da verdadeira autoria do assassinato do capitão Pacheco, cometido por um fazendeiro liberal devido a desavenças políticas.
Há nove meses, padre Miguel benzera o novo cemitério de Itu, tornando iminente a transferência dos corpos do antigo jazigo do Carmo para o novo local. Essa mudança tornava urgente a recuperação dos documentos e provas enterrados junto ao padre Pinna.
Com a colaboração do padre Miguel, Francisco executou discretamente a missão de retirar as provas do túmulo do sacerdote enquanto ainda estavam no jazigo do Carmo. Concluída essa delicada tarefa, retornou a Taubaté, onde, anos depois, confiou ao filho, que também levava seu nome, a responsabilidade pela proteção da verdade sobre o caso.
Gratidão e Legado
Embora monarquista convicto, padre Miguel votou no liberal Dr. Antônio Francisco de Paula Leite em gratidão por este ter impedido que os republicanos atacassem Taubaté com o intuito de exterminar a família Pereira Motta e assim eliminar as provas e testemunhas daquele que teria sido o primeiro atentado político na região.
Anos após a morte do padre Miguel, a família Pereira da Motta mudou-se primeiro para Cabreúva e depois para Itu, onde ainda possui membros. Atualmente, a carta-testamento e as provas passadas pelo padre Pinna estão protegidas na Cúria Metropolitana de São Paulo, levadas pelas mãos zelosas do Cônego Motta.
Esta é a história exatamente como me foi contada.
Segundo o historiador ituano Nardy Filho, Pe. Miguel saía pela área rural paramentado e carregando o santo Viático para ministrar Unção dos Enfermos aos mais pobres
Observação pertinente:
Entre os moradores mais notáveis de Itu no século XIX, o capitão Antônio Correa Pacheco ocupa lugar de destaque. Assassinado em 1840, seu nome permanece associado à casa imponente onde viveu, hoje transformada no Museu da Energia, na rua Paula Souza, coração da cidade.
Seu sobrenome, no entanto, não se apagou com sua morte. A família Corrêa Pacheco deixou descendência e entrelaçou-se com outras linhagens tradicionais: sua filha, Inácia Joaquina Corrêa Pacheco, casou-se com Francisco Galvão de Almeida, ampliando a rede de influências familiares na região.
Mas talvez a figura mais lembrada da família seja seu irmão, o padre Miguel Correa Pacheco. Nascido em 1826, Miguel teve trajetória marcante como vigário da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária. Além da dedicação pastoral, foi também mecenas do pintor Almeida Júnior, a quem apoiou decisivamente. Sua atuação espiritual e cultural moldou parte do imaginário ituanense, enquanto o assassinato do irmão permanece envolto em sombras, sugerindo tensões políticas da época.
Padre Miguel Correa Pacheco por Almeida Júnior
Análise por IA do texto: Padre Miguel e o Caso do Capitão Pacheco
Padre Miguel e o Caso do Capitão Pacheco: Uma Análise Factual e Histórica em Itu do Século XIX
I. Introdução
Itu, no século XIX, representou um ponto nevrálgico no cenário político, social e econômico da Província de São Paulo. A cidade, que em 1823 recebeu de D. Pedro I o título de “A Fidelíssima” em reconhecimento ao seu apoio à Monarquia, transformou-se meio século depois no palco da Convenção de Itu em 1873, um evento seminal para o movimento republicano paulista.1 Essa transição de um bastião monarquista para o berço do republicanismo não é meramente uma curiosidade local, mas oferece um espelho das profundas transformações políticas e sociais que permearam o Brasil no século XIX. O “Caso do Capitão Pacheco”, embora um evento local, pode ser compreendido como uma manifestação dessas tensões e conflitos em escala reduzida, ilustrando as dinâmicas nacionais.
A cidade era, ademais, um importante centro cafeeiro e abrigava a primeira fábrica a vapor de fiação e tecelagem, a São Luiz, simbolizando a modernização e o progresso econômico local.3 Essa prosperidade atraiu e consolidou uma elite agrária influente, cujos interesses econômicos e políticos moldariam profundamente a dinâmica da região. Dentro desse complexo tecido histórico, emergem figuras centrais para a compreensão dos eventos em análise.
A presente análise demandará uma distinção crucial entre os dois proeminentes “Padres Miguel” que atuaram em Itu em diferentes séculos, um ponto de potencial confusão histórica. O Capitão Antônio Corrêa Pacheco emerge como a figura central de um assassinato ocorrido em 1840, envolto em narrativas conflitantes. Padre Braz Luiz de Pinna é apresentado como o religioso que, segundo a tradição oral, recebeu e buscou preservar a “verdade” oculta sobre o caso. A família Pereira Motta é introduzida como a linhagem encarregada da guarda e transmissão desse segredo através das gerações.
O propósito central deste relatório é realizar uma análise factual e precisa do “Caso do Capitão Pacheco”, desvendando os eventos, avaliando a confiabilidade das diferentes narrativas e identificando as interconexões entre os personagens envolvidos e o complexo cenário político-social da Itu imperial. Será dada atenção especial à distinção entre fatos corroborados por fontes documentais e elementos provenientes de tradições orais, conforme as exigências de rigor histórico.
II. Os Padres Miguéis de Itu: Uma Necessária Distinção
A pesquisa histórica revela a existência de dois proeminentes párocos na Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária de Itu que compartilhavam o nome “Padre Miguel”, mas que atuaram em períodos distintos, separados por quase um século.4 Esta distinção é crucial para evitar anacronismos e garantir a precisão factual da análise do “Caso do Capitão Pacheco”, pois a confusão entre eles pode levar a interpretações errôneas dos eventos e suas cronologias.
Padre Miguel Dias Ferreira
Atuou em Itu na segunda metade do século XVIII, assumindo como vigário da vara após o falecimento de Padre Félix Nabor em 1750.4 Foi reconhecido pelo historiador e maestro Luís Roberto de Francisco como o “padre músico”, com registros de sua atuação como cantor e harpista em exéquias.4 Luiz Mott o identifica como Comissário do Santo Ofício, envolvido em inquéritos secretos e condenações da Santa Inquisição no Convento do Carmo.4 Sua atuação, portanto, precede em muito o período do “Caso do Capitão Pacheco”.
Padre Miguel Corrêa Pacheco
Chegou a Itu como vigário cooperador e, posteriormente, vigário coadjutor, assumindo o paroquiato com o afastamento de Padre Luiz Braz de Pinna em 1856.4 Sua atuação se estende até o final do século XIX. Sua gestão foi marcada por inúmeras obras e melhorias na Igreja Matriz e na cidade, demonstrando o papel multifacetado e muitas vezes central da Igreja e de seus membros influentes no desenvolvimento urbano, social e cultural das cidades brasileiras no século XIX. O clero, em muitos casos, atuava como um agente de modernização e bem-estar social, preenchendo lacunas de um Estado ainda em formação. Entre suas contribuições, destacam-se a reforma interna da capela-mor com instalação de estalas para os cônegos, a fundação de escolas para meninas e meninos pobres (que deram origem ao Colégio São Luiz e à Escola Convenção), a vinda de freiras para auxiliar na Santa Casa, a transferência do antigo órgão da Matriz para a Igreja São João de Deus, e a reforma da fachada da igreja, encomendada aos renomados engenheiros Joaquim Bernardo Borges e Ramos de Azevedo.4
Padre Miguel Corrêa Pacheco foi também um importante mecenas do pintor Almeida Júnior, cujo retrato a óleo do padre, datado de 1890, encontra-se na Paróquia Nossa Senhora Candelária.4 Faleceu em 1892, vitimado pela epidemia de varíola, destacando-se por sua dedicação em visitar paroquianos doentes, oferecendo apoio espiritual e material.4
Politicamente, o Padre Miguel Corrêa Pacheco era monarquista, mas demonstrou pragmatismo ao votar no liberal Dr. Antonio Francisco de Paula Leite. Este voto foi um ato de agradecimento, pois o político impediu que os republicanos fossem à Taubaté exterminar os Pereira Motta, pondo fim a um rastro de sangue que se arrastava por cinquenta anos.9 A posição de Padre Miguel Corrêa Pacheco como monarquista, mas seu voto pragmático em um liberal para proteger a família Pereira Motta dos republicanos, revela a fluidez e a complexidade das alianças políticas no Brasil imperial. Isso indica que, mesmo dentro de instituições tradicionalmente conservadoras como a Igreja, as decisões políticas podiam ser influenciadas por lealdades pessoais, ameaças iminentes e interesses específicos, transcendendo as rígidas divisões partidárias ideológicas. Ele também se manifestava publicamente, escrevendo para o jornal “O Ituano” em 1874 sobre arbitrariedades de figuras políticas locais.10
Embora o assassinato do Capitão Pacheco tenha ocorrido em 1840, antes de Padre Miguel Corrêa Pacheco assumir plenamente o paroquiato, é ele o “Padre Miguel” associado à transmissão posterior do segredo do caso. A narrativa oral indica que ele abençoou o novo cemitério da cidade e, nesse contexto, encarregou Francisco Pereira Motta de recuperar o documento oculto do túmulo de Padre Pinna.4
A tabela a seguir sumariza as informações dos dois Padres Miguel para facilitar a compreensão:
Tabela 1: Comparativo dos Padres Miguel de Itu
Característica
Padre Miguel Dias Ferreira
Padre Miguel Corrêa Pacheco
Nome Completo
Padre Miguel Dias Ferreira
Padre Miguel Corrêa Pacheco
Período de Atuação em Itu
Segunda metade do século XVIII (assumiu em 1750) 4
Segunda metade do século XIX (assumiu em 1856) 4
Principais Contribuições/Características
“Padre músico”, cantor e harpista. Comissário do Santo Ofício (Inquisição).4
Obras na Igreja Matriz (reformas, órgão Cavaillé-Coll, fachada com Ramos de Azevedo), fundação de escolas (Colégio São Luiz, Escola Convenção), vinda de freiras para Santa Casa. Mecenas de Almeida Júnior.4 Faleceu em 1892, vítima de varíola.4
Conexão com o “Caso do Capitão Pacheco”
Nenhuma conexão direta com o caso de 1840.
Envolvido na transmissão do segredo do caso, encarregando Francisco Pereira Motta de recuperar documentos ocultos após abençoar o novo cemitério.4
III. O Assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco (1840)
O assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco ocorreu em 18 de março de 1840, por volta das 16 horas, nas imediações da Igreja Nossa Senhora da Candelária, em Itu, SP.11 A descrição do evento indica que Pacheco foi abordado por seis cavaleiros que desmontaram e se dirigiram a ele. Um deles, ao abaixar-se, pegou um ferro e desferiu o golpe fatal, marcando o início de uma série de injustiças, conforme a narrativa.11
As Versões do Crime: Oficial vs. Alternativa
A morte do Capitão Pacheco foi rapidamente envolvida em duas narrativas distintas, cada uma com implicações políticas e sociais profundas:
Versão Oficial: A versão amplamente disseminada na época alegava que o Capitão Pacheco havia chicoteado injustamente um escravo. Em resposta, Estevão, um líder negro respeitado, teria matado o fazendeiro e instigado uma sublevação de escravos.11 Essa narrativa se encaixava no contexto de tensões sociais e revoltas de escravos da época, como outros incidentes envolvendo “Antônio Corrêa Pacheco” ou ataques a fazendas por escravos sublevados 12, conferindo-lhe uma plausibilidade imediata para a elite e a população. A escolha da versão oficial do assassinato, que culpava uma revolta de escravos, não foi arbitrária. Em uma sociedade escravista como a do Brasil do século XIX, o medo de sublevações de escravos era uma ferramenta poderosa de controle social e político. Ao atribuir a morte de Pacheco a uma revolta, a facção política dominante (monarquistas) pôde descreditar seus oponentes (liberais/republicanos) e justificar medidas repressivas, desviando a atenção de conflitos internos da elite.
Versão Alternativa (O Segredo de Cosme): Revelada pelo escravo Cosme ao Padre Braz Luiz de Pinna, essa versão contestava a narrativa oficial. Segundo Cosme, a morte de Pacheco não foi resultado de um conflito com escravos, mas sim de uma violenta disputa de poder interna ao Partido Liberal.11 Esta revelação aponta para uma motivação política mais complexa e oculta, sugerindo que o evento foi instrumentalizado para fins políticos maiores.
Os Papéis dos Escravos Cosme e Estevão
Cosme: Figura crucial na narrativa alternativa, Cosme foi o escravo que descobriu a verdadeira causa do assassinato de Pacheco e a confidenciou a Padre Braz Luiz de Pinna. Tragicamente, Cosme foi brutalmente assassinado horas após essa conversa, sugerindo uma eliminação de testemunhas.11 O assassinato brutal de Cosme, poucas horas após ele ter revelado a verdade a Padre Pinna, é um testemunho trágico da extrema vulnerabilidade de indivíduos escravizados que ousavam desafiar as narrativas oficiais ou possuíam informações sensíveis. Isso sublinha as profundas assimetrias de poder na sociedade brasileira do século XIX e a violência empregada para silenciar as vozes subalternas e manter o controle da informação.
Estevão: Apresentado como o “líder negro” na versão oficial, Estevão foi prontamente acusado da morte de Pacheco e de incitar uma revolta. Ele foi submetido a um julgamento sumário e condenado à morte por enforcamento, com a execução ocorrendo na mesma manhã de seu julgamento.11 Sua rápida condenação e execução serviram para reforçar a versão oficial e suprimir qualquer questionamento.
O Julgamento e o Incêndio
O julgamento de Estevão ocorreu no salão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, dias antes da conversa entre Cosme e Padre Pinna. O evento foi realizado sob forte aparato de segurança, com a presença da Guarda Nacional e tropas da capital da província.11 Anos depois, o local do julgamento foi incendiado, restando apenas o Cruzeiro São Francisco no centro histórico de Itu.11 Este incêndio pode ser interpretado como um ato deliberado para destruir evidências ou apagar a memória do evento e de seu julgamento controverso, reforçando a supressão da verdade.
Análise de Precisão e Fontes
A sequência central dos eventos – o assassinato, o testemunho de Cosme, o enforcamento de Estevão, o incêndio do local do julgamento e o envenenamento de Padre Pinna – é corroborada por fontes secundárias locais.11 Isso confere uma base factual sólida à ocorrência dos eventos. No entanto, detalhes mais específicos, como a existência e os locais dos documentos ocultos de Padre Pinna e a renúncia de seus substitutos, são explicitamente identificados como parte da tradição oral familiar e carecem de corroboração em fontes independentes.11 A presença de figuras históricas e locais específicos (Capitão Pacheco, Padre Pinna, Igreja da Candelária, Ordem Terceira) proporciona uma boa consistência cronológica e geográfica à narrativa.11
A seguir, uma linha do tempo dos eventos e uma comparação das narrativas:
Tabela 2: Linha do Tempo do Caso do Capitão Pacheco
Data
Evento Chave
Personagens Envolvidos
Descrição Breve
Fontes
18 de março de 1840
Assassinato do Capitão Pacheco
Capitão Antônio Corrêa Pacheco, Seis cavaleiros
Capitão Pacheco é assassinado perto da Igreja Nossa Senhora da Candelária em Itu.
11
Março de 1840 (Semanas antes da conversa de Cosme)
Julgamento e Execução de Estevão
Estevão, Guarda Nacional, Tropas da capital
Estevão é condenado à morte por enforcamento no salão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, sob forte segurança.
11
Março de 1840 (Dias após o julgamento de Estevão)
Revelação de Cosme a Padre Pinna
Escravo Cosme, Padre Braz Luiz de Pinna
Cosme revela a Padre Pinna que a morte de Pacheco foi uma disputa política, não uma revolta de escravos.
11
Março de 1840 (Horas após a revelação)
Assassinato de Cosme
Escravo Cosme
Cosme é brutalmente assassinado.
11
1840 (Mesmo ano do assassinato)
Envenenamento e Perseguição de Padre Pinna
Padre Braz Luiz de Pinna, Bispo de São Paulo, Padres Manoel Ferraz de Camargo e João Paulo Xavier
Padre Pinna é envenenado e sofre tentativas de afastamento, mas resiste ameaçando revelar a verdade. Seus substitutos recusam ou renunciam.
11
10 de julho de 1865
Falecimento de Padre Braz Luiz de Pinna
Padre Braz Luiz de Pinna
Padre Pinna falece, com documentos ocultos em seu túmulo e outros locais.
9
28 de setembro de 1884
Inauguração do Cemitério Municipal de Itu
—
Inauguração oficial do novo cemitério da cidade.
13
Por volta de 1885 (20 anos após a morte de Pinna)
Recuperação do Documento
Francisco Pereira Motta (pai), Padre Miguel Corrêa Pacheco
Padre Miguel encarrega Francisco Pereira Motta de retirar o documento do túmulo de Padre Pinna no jazigo do Carmo, aproveitando a transferência de corpos para o novo cemitério.
9
Anos depois de 1885
Transmissão da Missão
Francisco Pereira Motta (pai), Francisco Pereira Motta (filho)
A missão de proteger a verdade é passada para o filho de Francisco Pereira Motta em Taubaté.
9
1892
Falecimento de Padre Miguel Corrêa Pacheco
Padre Miguel Corrêa Pacheco
Padre Miguel Corrêa Pacheco falece devido à epidemia de varíola.
4
Atualmente
Repouso da “Carta Testamento”
Cônego Motta
A carta testamento repousa na Cúria de São Paulo, levada pelo Cônego Motta.
9
Tabela 3: Narrativas do Assassinato do Capitão Pacheco: Versão Oficial vs. Alternativa
Aspecto
Versão Oficial (Pública)
Versão Alternativa (Cosme/Pinna)
Análise de Precisão/Confiabilidade
Motivação do Crime
Capitão Pacheco chicoteou um escravo injustamente; Estevão o matou em defesa do escravo e iniciou uma revolta de escravos.
Morte de Pacheco foi fruto de uma disputa de poder interna ao Partido Liberal.
A versão oficial era uma instrumentalização política do medo social. A versão alternativa é plausível no contexto político da época, mas depende de tradição oral para sua revelação.
Culpado Oficial
Estevão, um líder negro.
Disputa entre facções do Partido Liberal. Estevão foi um bode expiatório.
Estevão foi rapidamente condenado e executado, o que sugere um processo sumário para validar a narrativa oficial. Cosme, a testemunha da versão alternativa, foi assassinado.
Consequências Imediatas
Estevão enforcado; revolta de escravos atribuída a políticas imperiais.
Perseguição e envenenamento de Padre Pinna; ocultação de documentos; incêndio do local do julgamento.
A sequência de eventos (assassinato, testemunho, execução, incêndio, envenenamento de Pinna) é documentada em fontes locais secundárias. Detalhes dos documentos ocultos e da cadeia de guardiões são de tradição oral e carecem de corroboração independente.
Instrumentalização Política
Monarquistas recuam diante da força republicana, culpando políticas escravocratas imperiais pela instabilidade.
A verdade seria uma ameaça à elite política que orquestrou o crime.
A instrumentalização da questão escravista para fins políticos é consistente com o cenário do século XIX.
IV. Padre Braz Luiz de Pinna e a Preservação da Verdade
Padre Braz Luiz de Pinna, pároco da Igreja Matriz de Itu em 1840, era uma figura respeitada na comunidade e conhecido por sua oposição à elite republicana.11 Ele se tornou o depositário da “verdade” sobre o assassinato do Capitão Pacheco, recebendo a confissão do escravo Cosme de que a morte foi resultado de uma disputa de poder no Partido Liberal, e não de uma revolta de escravos.11
A relevância e o perigo do segredo são evidenciados pela perseguição que Padre Pinna sofreu. No mesmo ano do assassinato (1840), ele foi envenenado, o que comprometeu gravemente sua saúde.11 O Bispo de São Paulo, Mateus de Abreu Pereira, ordenou seu afastamento de Itu, mas Padre Pinna resistiu, ameaçando revelar publicamente tudo o que Cosme lhe contara. Essa ameaça forçou o conselho a intervir e solicitar sua permanência.11 A gravidade do segredo é ainda mais sublinhada pela recusa ou renúncia de dois padres que deveriam substituí-lo – Padre Manoel Ferraz de Camargo e Padre João Paulo Xavier – ambos se afastando após tomar conhecimento da verdade.11 Os esforços meticulosos de Padre Pinna para documentar e esconder a verdade, apesar do envenenamento e da perseguição, revelam a profundidade de seu compromisso com a justiça e a verdade em um contexto de opressão política. Isso pode ser interpretado como uma forma de resistência intelectual e moral contra a manipulação histórica e a violência do Estado, destacando o risco pessoal envolvido em desafiar narrativas oficiais.
Ciente do perigo e da importância da verdade, Padre Pinna tomou medidas extraordinárias para garantir que seus registros sobrevivessem. Ele deixou contas escritas em quatro locais distintos: atrás da capa do primeiro Livro de Tombo da Igreja Nossa Senhora da Candelária; em seu próprio túmulo, no jazigo do Carmo; escondido sob o Cruzeiro de São Francisco; e oculto no braço esquerdo da imagem do arcanjo São Miguel, no altar lateral da matriz ituana.9
Padre Pinna faleceu em 10 de julho de 1865.9 Vinte anos após seu enterro (ou seja, por volta de 1885), a narrativa oral indica que “Padre Miguel” (identificado como Padre Miguel Corrêa Pacheco, que abençoou o novo cemitério cerca de 9 meses antes de sua própria morte em 1892 4) encarregou Francisco Pereira Motta (pai) de recuperar o documento do túmulo de Pinna no jazigo do Carmo.9 A transferência de corpos dos antigos cemitérios para o recém-inaugurado Cemitério Municipal de Itu (oficialmente inaugurado em 28 de setembro de 1884 13) teria facilitado essa missão.9 A missão de proteger a verdade foi subsequentemente passada para Francisco Pereira Motta (filho) em Taubaté, e a “carta testamento” repousa atualmente na Cúria de São Paulo, levada pelo Cônego Motta.9
É crucial ressaltar que os detalhes sobre os documentos ocultos e a cadeia de guardiões (especialmente a figura de Francisco Pereira Motta) são elementos da tradição oral familiar e, como tal, carecem de corroboração independente em arquivos históricos formais.11 A ausência de registros que confirmem a figura específica de “Francisco Pereira Motta” como guardião é uma lacuna notável.11 A dependência da tradição oral para elementos-chave da narrativa sublinha a importância desse tipo de fonte na preservação de relatos históricos alternativos, especialmente quando os registros oficiais são ausentes ou foram manipulados. No entanto, isso também ressalta os desafios inerentes à verificação e a potencial para alterações ou acréscimos ao longo do tempo, exigindo uma análise crítica e a busca por corroboração sempre que possível. Há uma aparente inconsistência temporal entre a inauguração oficial do Cemitério Municipal em 1884 13 e a bênção do “novo cemitério” por Padre Miguel Corrêa Pacheco em 1891/1892.9 Isso pode indicar que a transferência de corpos foi um processo contínuo ao longo de vários anos, ou que a narrativa oral condensa eventos para fins de coesão, exigindo uma nota de cautela na interpretação.
V. O Contexto Político e Social de Itu no Século XIX
O Império do Brasil na primeira metade do século XIX era caracterizado por uma intensa disputa entre o Partido Liberal e o Partido Conservador, com o Imperador exercendo um Poder Moderador que frequentemente intervinha na política.14 As Revoltas Liberais de 1842, que agitaram São Paulo e Minas Gerais, são um exemplo vívido da insatisfação liberal com o centralismo monárquico e a ascensão conservadora, demonstrando a volatilidade do cenário político.14 A morte do Capitão Pacheco em 1840, atribuída a uma disputa liberal, insere-se nesse quadro de tensões.
Itu, embora inicialmente um centro monarquista (“A Fidelíssima” 1), experimentou uma crescente efervescência política a partir de 1870, com a ideia republicana ganhando força. O descontentamento com a monarquia era generalizado, e a queda do Gabinete Zacarias em 1868 impulsionou a ala radical do Partido Liberal em direção ao republicanismo.2 A cidade se tornou um polo de modernidade econômica, com a produção de café e a inauguração da Estrada de Ferro Ituana em 1873 3, atraindo uma nova elite agrária com inclinações progressistas.
A ascensão de Itu como centro do movimento republicano não pode ser desvinculada de sua crescente importância econômica como polo cafeeiro e de sua conexão com a Estrada de Ferro Ituana.3 O desenvolvimento da cafeicultura no Oeste Paulista gerou uma nova elite de fazendeiros progressistas, cujos interesses econômicos (ligados à modernização e à exportação) se alinhavam mais com as propostas republicanas de autonomia provincial e menos com as estruturas centralizadoras do Império. Isso estabelece uma relação causal entre o desenvolvimento econômico e as mudanças políticas, mostrando como as bases materiais da sociedade impulsionavam as transformações ideológicas.
O movimento republicano em Itu institucionalizou-se com a formação do Clube Republicano de Itu em 10 de setembro de 1871, impulsionado por figuras como João Tibiriçá Piratininga e José Vasconcelos de Almeida Prado.2 A Convenção de Itu, realizada em 18 de abril de 1873, na residência de Carlos de Vasconcelos de Almeida Prado, é considerada a primeira reunião oficial dos republicanos no Estado de São Paulo.2 A escolha de Itu como sede foi estratégica, não apenas por sua importância econômica (centro cafeeiro, primeira fábrica a vapor 3), mas também pela inauguração da Estrada de Ferro Ituana, que simbolizava o progresso e a modernidade.2
O Manifesto de Itu, resultado da Convenção, foi assinado por 133 convencionais, sendo 78 deles fazendeiros, além de médicos, advogados e jornalistas.3 O manifesto delineou as bases do Partido Republicano Paulista (PRP), defendendo a autonomia das províncias (federalismo), a oposição ao regime monárquico e a libertação da mão de obra escrava.3
A “suposta revolta de escravos” na versão oficial do caso Pacheco 11 reflete as tensões sociais latentes na sociedade escravista e como a questão da escravidão era instrumentalizada politicamente para desviar a atenção de conflitos internos da elite. Os republicanos paulistas, embora muitos fossem ideologicamente abolicionistas 16, adotaram uma postura cautelosa em relação à abolição para não alienar os fazendeiros, que eram a base de seu apoio econômico e político.2 Isso demonstra um pragmatismo político em detrimento de uma adesão rígida aos ideais. O cenário político de Itu e da província de São Paulo no século XIX não era rigidamente bipartidário ou ideológico. A atribuição do assassinato de Pacheco a uma disputa interna liberal 11, o voto pragmático de Padre Miguel Corrêa Pacheco (monarquista) em um liberal para proteger uma família dos republicanos 9, e a cautela dos republicanos em relação ao abolicionismo para não alienar os fazendeiros 2, demonstram que as alianças e decisões políticas eram frequentemente moldadas por interesses específicos, lealdades pessoais e conveniência estratégica, mais do que por uma adesão estrita a plataformas ideológicas. Isso revela uma complexidade nas relações de poder que desafia interpretações simplistas.
VI. A Família Pacheco e a Historiografia Local
A família Pacheco desempenhou um papel significativo na história de Itu, sendo destacada pelo historiador Nardy Filho em sua obra, que os categoriza como “Os Pacheco da Silva e Os Pacheco de Itu”.17 O primeiro membro da família a se estabelecer na região foi Antonio Pacheco da Silva, um sargento-mor originário de Cotia, que participou ativamente de bandeiras e entradas nos sertões de Cuiabá e Goiás.17 A família era proprietária de importantes propriedades rurais, como a Fazenda Engenho Grande (atual Chácara do Rosário), adquirida em maio de 1756, que permaneceu na família por sete gerações.1 A complexidade política da época se refletia nas próprias divisões internas da família Pacheco: enquanto alguns antepassados eram monarquistas, descendentes como Sérvulo Correia Pacheco e Silva tornaram-se republicanos, realizando reuniões políticas em suas fazendas.1 A revelação de divisões políticas internas na família Pacheco (antecessores monarquistas versus descendentes republicanos) demonstra que as grandes transformações políticas do século XIX não eram apenas um confronto entre classes sociais distintas, mas também envolviam realinhamentos e adaptações dentro das próprias elites tradicionais. Isso mostra a complexidade da adesão ideológica e como as famílias, como unidades sociais, navegavam pelas mudanças políticas.
Francisco Nardy Filho é uma figura central na historiografia de Itu, e sua obra “A CIDADE DE ITU”, em especial o volume III, “Crônicas Históricas” (São Paulo, 1950), é uma referência fundamental para a compreensão da história local.5 Nardy Filho enfatiza a participação de diversas famílias na história da cidade, com destaque para a família Pacheco.17 Sua pesquisa também registra a atuação de Padre Miguel Corrêa Pacheco como vigário da Igreja Matriz de Itu a partir de 1856 8, fornecendo um pilar factual para a biografia do padre.
A historiografia local, exemplificada pela obra de Nardy Filho, é indispensável para aprofundar o conhecimento sobre eventos micro-históricos como o “Caso do Capitão Pacheco”, oferecendo detalhes e perspectivas que raramente são abordados em estudos de escopo mais amplo. No entanto, a análise factual exige que essas fontes sejam complementadas e, sempre que possível, corroboradas por outros registros primários (eclesiásticos, judiciais, notariais), especialmente quando se trata de narrativas que se baseiam em tradições orais, como explicitado na análise de precisão do caso Pacheco.11 Embora a obra de Nardy Filho seja uma pedra angular para a história de Itu, a falta de corroboração independente para certos elementos da narrativa do caso Pacheco (como os documentos ocultos e o papel de Francisco Pereira Motta) ressalta os limites inerentes à dependência exclusiva de relatos locais ou de tradição familiar. Isso reforça a metodologia acadêmica da história, que exige a verificação cruzada de múltiplas fontes para estabelecer a precisão factual.
VII. Conclusões e Considerações Finais
O assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco em Itu, em 18 de março de 1840, é um evento histórico factual e bem localizado.11 No entanto, a motivação e os desdobramentos são apresentados em duas narrativas distintas: uma oficial, que o atribui a uma revolta de escravos, e uma alternativa, que o vincula a uma disputa política interna ao Partido Liberal. Esta última versão foi transmitida oralmente através de Padre Braz Luiz de Pinna e, subsequentemente, pela família Pereira Motta.11
A distinção entre Padre Miguel Dias Ferreira (atuante no século XVIII) e Padre Miguel Corrêa Pacheco (atuante no século XIX) é fundamental para a precisão histórica do caso. É Padre Miguel Corrêa Pacheco quem, segundo a tradição, se envolveu na transmissão do segredo do caso Pacheco, não o padre do século anterior.4 A atuação de Padre Miguel Corrêa Pacheco, com suas vastas contribuições para o desenvolvimento urbano e social de Itu, ilustra o papel multifacetado do clero na sociedade imperial, transcendendo as funções meramente religiosas.
A análise revela que a versão oficial do assassinato foi, provavelmente, uma instrumentalização política do medo social em uma sociedade escravista, desviando a atenção de conflitos internos da elite e justificando a rápida e sumária execução do escravo Estevão.11 O brutal assassinato de Cosme, a testemunha-chave da versão alternativa, sublinha a vulnerabilidade das vozes subalternas e as extremas medidas tomadas para silenciar informações sensíveis.
Os esforços de Padre Braz Luiz de Pinna para preservar a verdade, apesar do envenenamento e da perseguição, demonstram um profundo compromisso com a justiça e uma forma de resistência contra a manipulação histórica.11 No entanto, a dependência da tradição oral para detalhes cruciais sobre os documentos ocultos e a cadeia de guardiões, como a figura de Francisco Pereira Motta, exige cautela na avaliação da precisão. Embora a tradição oral seja vital para a memória histórica, ela impõe desafios de verificação que demandam corroboração com outras fontes.
O contexto político de Itu, que evoluiu de um centro monarquista para o berço do republicanismo paulista, é crucial para entender o caso Pacheco. A fluidez das alianças políticas e o pragmatismo das elites, que muitas vezes priorizavam interesses específicos e lealdades pessoais sobre ideologias rígidas, moldaram os eventos. A ascensão econômica de Itu, impulsionada pela cafeicultura e pela infraestrutura ferroviária, também desempenhou um papel significativo na efervescência política que culminou na Convenção de Itu.
A historiografia local, notadamente a obra de Nardy Filho, é indispensável para aprofundar o conhecimento sobre o caso. Contudo, para uma análise factual e precisa, é imperativo complementar essas fontes com registros primários e realizar uma verificação cruzada, reconhecendo as limitações inerentes às narrativas baseadas exclusivamente na tradição familiar.
Em suma, o “Caso do Capitão Pacheco” é um complexo entrelaçamento de fatos históricos, narrativas conflitantes e tradições orais. Ele serve como um microcosmo das tensões políticas e sociais do Brasil imperial, onde a verdade podia ser moldada e suprimida para atender a interesses poderosos. A persistência da narrativa alternativa, transmitida por gerações, atesta a resiliência da memória popular em face das versões oficiais, mesmo que a validação de cada detalhe exija um contínuo e rigoroso escrutínio histórico.
Em 1840, em Itu, o padre Pinna descobre por um escravo a verdade por trás do assassinato do capitão Antônio Pacheco. Acusações falsas, condenações injustas e conspirações políticas se entrelaçam num segredo guardado por gerações, enterrado sob símbolos sagrados e protegido por um pacto de silêncio.
O Segredo de Padre Pinna e a Morte do Capitão
Durante toda a minha vida temi este momento, desejando poder adiá-lo indefinidamente. Contudo, a justiça exige que a verdade venha à tona, para que a fraude seja desfeita e o nome de um inocente seja retirado da lista dos culpados.
Meu avô, Francisco Pereira Motta, conhecido como Chiquinho Lopes, revelou-me este segredo antes de sua morte, na presença do padre Amirá, um jesuíta da Igreja do Bom Jesus de Itu. Passo agora a relatar a história exatamente como a ouvi:
Quarta-feira, 18 de março de 1840, às quatro horas da tarde. Igreja Nossa Senhora da Candelária de Itu.
Naquele dia, o escravo Cosme procurou o padre Braz Luiz de Pinna, pároco da Igreja Matriz de Itu. Padre Pinna, curitibano respeitado pela comunidade e conhecido por sua oposição à elite republicana, ouviu atentamente o que Cosme tinha a dizer sobre o recente assassinato do capitão Antônio Correa Pacheco.
Poucas horas depois dessa conversa, Cosme foi brutalmente assassinado.
Oficialmente, a versão divulgada afirmava que o capitão Pacheco teria chicoteado injustamente um escravo. Em defesa desse escravo, Estevão, um respeitado líder negro, teria matado o capitão e iniciado uma revolta entre os escravizados. No entanto, Cosme revelou ao padre que a morte do capitão Pacheco não tinha relação com um conflito escravista, mas sim com uma violenta disputa interna pelo poder dentro do Partido Liberal.
Sem suspeitar de perigo, o capitão Pacheco recebeu a aproximação de seis cavaleiros que desmontaram e caminharam em sua direção. Um deles abaixou-se, apanhou um ferro e desferiu-lhe o golpe fatal. Esse assassinato foi apenas o início de uma sequência de injustiças. Estevão, inocente, foi rapidamente condenado à morte.
O julgamento de Estevão ocorreu poucos dias antes da conversa de Cosme com o padre, no salão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco. O evento foi realizado sob forte segurança da Guarda Nacional e tropas vindas da capital provincial. Estevão foi condenado ao enforcamento, sentença executada naquela mesma manhã. Anos depois, esse mesmo salão foi destruído por um incêndio criminoso, restando apenas o Cruzeiro São Francisco, no centro histórico de Itu.
Os monarquistas recuaram perante a força dos republicanos, já que a suposta revolta negra foi atribuída às políticas escravocratas imperiais. Padre Pinna permaneceu como o único opositor ativo aos republicanos locais. No mesmo ano, foi envenenado e teve sua saúde gravemente comprometida. Mateus de Abreu Pereira, bispo de São Paulo, ordenou que ele deixasse Itu. O padre, porém, ameaçou revelar publicamente tudo que Cosme lhe dissera caso os vereadores não solicitassem sua permanência.
O bispo acabou permitindo a permanência do padre Pinna e enviou inicialmente o padre Manoel Ferraz de Camargo para auxiliá-lo. Após ouvir a verdade de Pinna, Camargo recusou o encargo. Em seguida veio o padre João Paulo Xavier, que também renunciou três meses depois, ao descobrir o segredo.
Com a saúde debilitada, o padre Pinna solicitou a seu fiel sacristão que encontrasse alguém apto a assumir sua missão. Este viajou até Taubaté, longe da influência ituana, e convenceu o avô de meu avô a assumir a responsabilidade de guardar o segredo revelado pelo escravo Cosme.
Padre Pinna, preocupado em proteger sua revelação, deixou registros escritos da verdade descoberta. Primeiro anotou tudo atrás da capa do primeiro Livro Tombo da Igreja Nossa Senhora da Candelária. Temendo que esse documento fosse destruído, redigiu outros três relatos idênticos: um foi colocado em seu túmulo, outro escondido sob o Cruzeiro de São Francisco, e o último ocultado no braço esquerdo da imagem do arcanjo São Miguel, no altar lateral da matriz ituana.
Uma maldição parece ter acompanhado este segredo por gerações. Como se Deus desejasse que Cosme jamais tivesse sabido da verdade ou, ao menos, jamais tivesse compartilhado com alguém. O banho de sangue, as traições e os horrores da vida política ituana ficaram assim guardados nas frias paredes da Câmara Municipal, atingindo de forma trágica muitos inocentes e perseguindo minha família, incumbida desta amarga e silenciosa missão.
Análise por IA do texto: O assassinato do Capitão Antonio Correa Pacheco
Padre Miguel e o Caso do Capitão Pacheco: Uma Análise Factual e Histórica em Itu do Século XIX
I. Introdução
Itu, no século XIX, representou um ponto nevrálgico no cenário político, social e econômico da Província de São Paulo. A cidade, que em 1823 recebeu de D. Pedro I o título de “A Fidelíssima” em reconhecimento ao seu apoio à Monarquia, transformou-se meio século depois no palco da Convenção de Itu em 1873, um evento seminal para o movimento republicano paulista.1 Essa transição de um bastião monarquista para o berço do republicanismo não é meramente uma curiosidade local, mas oferece um espelho das profundas transformações políticas e sociais que permearam o Brasil no século XIX. O “Caso do Capitão Pacheco”, embora um evento local, pode ser compreendido como uma manifestação dessas tensões e conflitos em escala reduzida, ilustrando as dinâmicas nacionais.
A cidade era, ademais, um importante centro cafeeiro e abrigava a primeira fábrica a vapor de fiação e tecelagem, a São Luiz, simbolizando a modernização e o progresso econômico local.3 Essa prosperidade atraiu e consolidou uma elite agrária influente, cujos interesses econômicos e políticos moldariam profundamente a dinâmica da região. Dentro desse complexo tecido histórico, emergem figuras centrais para a compreensão dos eventos em análise.
A presente análise demandará uma distinção crucial entre os dois proeminentes “Padres Miguel” que atuaram em Itu em diferentes séculos, um ponto de potencial confusão histórica. O Capitão Antônio Corrêa Pacheco emerge como a figura central de um assassinato ocorrido em 1840, envolto em narrativas conflitantes. Padre Braz Luiz de Pinna é apresentado como o religioso que, segundo a tradição oral, recebeu e buscou preservar a “verdade” oculta sobre o caso. A família Pereira Motta é introduzida como a linhagem encarregada da guarda e transmissão desse segredo através das gerações.
O propósito central deste relatório é realizar uma análise factual e precisa do “Caso do Capitão Pacheco”, desvendando os eventos, avaliando a confiabilidade das diferentes narrativas e identificando as interconexões entre os personagens envolvidos e o complexo cenário político-social da Itu imperial. Será dada atenção especial à distinção entre fatos corroborados por fontes documentais e elementos provenientes de tradições orais, conforme as exigências de rigor histórico.
II. Os Padres Miguéis de Itu: Uma Necessária Distinção
A pesquisa histórica revela a existência de dois proeminentes párocos na Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária de Itu que compartilhavam o nome “Padre Miguel”, mas que atuaram em períodos distintos, separados por quase um século.4 Esta distinção é crucial para evitar anacronismos e garantir a precisão factual da análise do “Caso do Capitão Pacheco”, pois a confusão entre eles pode levar a interpretações errôneas dos eventos e suas cronologias.
Padre Miguel Dias Ferreira
Atuou em Itu na segunda metade do século XVIII, assumindo como vigário da vara após o falecimento de Padre Félix Nabor em 1750.4 Foi reconhecido pelo historiador e maestro Luís Roberto de Francisco como o “padre músico”, com registros de sua atuação como cantor e harpista em exéquias.4 Luiz Mott o identifica como Comissário do Santo Ofício, envolvido em inquéritos secretos e condenações da Santa Inquisição no Convento do Carmo.4 Sua atuação, portanto, precede em muito o período do “Caso do Capitão Pacheco”.
Padre Miguel Corrêa Pacheco
Chegou a Itu como vigário cooperador e, posteriormente, vigário coadjutor, assumindo o paroquiato com o afastamento de Padre Luiz Braz de Pinna em 1856.4 Sua atuação se estende até o final do século XIX. Sua gestão foi marcada por inúmeras obras e melhorias na Igreja Matriz e na cidade, demonstrando o papel multifacetado e muitas vezes central da Igreja e de seus membros influentes no desenvolvimento urbano, social e cultural das cidades brasileiras no século XIX. O clero, em muitos casos, atuava como um agente de modernização e bem-estar social, preenchendo lacunas de um Estado ainda em formação. Entre suas contribuições, destacam-se a reforma interna da capela-mor com instalação de estalas para os cônegos, a fundação de escolas para meninas e meninos pobres (que deram origem ao Colégio São Luiz e à Escola Convenção), a vinda de freiras para auxiliar na Santa Casa, a transferência do antigo órgão da Matriz para a Igreja São João de Deus, e a reforma da fachada da igreja, encomendada aos renomados engenheiros Joaquim Bernardo Borges e Ramos de Azevedo.4
Padre Miguel Corrêa Pacheco foi também um importante mecenas do pintor Almeida Júnior, cujo retrato a óleo do padre, datado de 1890, encontra-se na Paróquia Nossa Senhora Candelária.4 Faleceu em 1892, vitimado pela epidemia de varíola, destacando-se por sua dedicação em visitar paroquianos doentes, oferecendo apoio espiritual e material.4
Politicamente, o Padre Miguel Corrêa Pacheco era monarquista, mas demonstrou pragmatismo ao votar no liberal Dr. Antonio Francisco de Paula Leite. Este voto foi um ato de agradecimento, pois o político impediu que os republicanos fossem à Taubaté exterminar os Pereira Motta, pondo fim a um rastro de sangue que se arrastava por cinquenta anos.9 A posição de Padre Miguel Corrêa Pacheco como monarquista, mas seu voto pragmático em um liberal para proteger a família Pereira Motta dos republicanos, revela a fluidez e a complexidade das alianças políticas no Brasil imperial. Isso indica que, mesmo dentro de instituições tradicionalmente conservadoras como a Igreja, as decisões políticas podiam ser influenciadas por lealdades pessoais, ameaças iminentes e interesses específicos, transcendendo as rígidas divisões partidárias ideológicas. Ele também se manifestava publicamente, escrevendo para o jornal “O Ituano” em 1874 sobre arbitrariedades de figuras políticas locais.10
Embora o assassinato do Capitão Pacheco tenha ocorrido em 1840, antes de Padre Miguel Corrêa Pacheco assumir plenamente o paroquiato, é ele o “Padre Miguel” associado à transmissão posterior do segredo do caso. A narrativa oral indica que ele abençoou o novo cemitério da cidade e, nesse contexto, encarregou Francisco Pereira Motta de recuperar o documento oculto do túmulo de Padre Pinna.4
A tabela a seguir sumariza as informações dos dois Padres Miguel para facilitar a compreensão:
Tabela 1: Comparativo dos Padres Miguel de Itu
Característica
Padre Miguel Dias Ferreira
Padre Miguel Corrêa Pacheco
Nome Completo
Padre Miguel Dias Ferreira
Padre Miguel Corrêa Pacheco
Período de Atuação em Itu
Segunda metade do século XVIII (assumiu em 1750) 4
Segunda metade do século XIX (assumiu em 1856) 4
Principais Contribuições/Características
“Padre músico”, cantor e harpista. Comissário do Santo Ofício (Inquisição).4
Obras na Igreja Matriz (reformas, órgão Cavaillé-Coll, fachada com Ramos de Azevedo), fundação de escolas (Colégio São Luiz, Escola Convenção), vinda de freiras para Santa Casa. Mecenas de Almeida Júnior.4 Faleceu em 1892, vítima de varíola.4
Conexão com o “Caso do Capitão Pacheco”
Nenhuma conexão direta com o caso de 1840.
Envolvido na transmissão do segredo do caso, encarregando Francisco Pereira Motta de recuperar documentos ocultos após abençoar o novo cemitério.4
III. O Assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco (1840)
O assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco ocorreu em 18 de março de 1840, por volta das 16 horas, nas imediações da Igreja Nossa Senhora da Candelária, em Itu, SP.11 A descrição do evento indica que Pacheco foi abordado por seis cavaleiros que desmontaram e se dirigiram a ele. Um deles, ao abaixar-se, pegou um ferro e desferiu o golpe fatal, marcando o início de uma série de injustiças, conforme a narrativa.11
As Versões do Crime: Oficial vs. Alternativa
A morte do Capitão Pacheco foi rapidamente envolvida em duas narrativas distintas, cada uma com implicações políticas e sociais profundas:
Versão Oficial: A versão amplamente disseminada na época alegava que o Capitão Pacheco havia chicoteado injustamente um escravo. Em resposta, Estevão, um líder negro respeitado, teria matado o fazendeiro e instigado uma sublevação de escravos.11 Essa narrativa se encaixava no contexto de tensões sociais e revoltas de escravos da época, como outros incidentes envolvendo “Antônio Corrêa Pacheco” ou ataques a fazendas por escravos sublevados 12, conferindo-lhe uma plausibilidade imediata para a elite e a população. A escolha da versão oficial do assassinato, que culpava uma revolta de escravos, não foi arbitrária. Em uma sociedade escravista como a do Brasil do século XIX, o medo de sublevações de escravos era uma ferramenta poderosa de controle social e político. Ao atribuir a morte de Pacheco a uma revolta, a facção política dominante (monarquistas) pôde descreditar seus oponentes (liberais/republicanos) e justificar medidas repressivas, desviando a atenção de conflitos internos da elite.
Versão Alternativa (O Segredo de Cosme): Revelada pelo escravo Cosme ao Padre Braz Luiz de Pinna, essa versão contestava a narrativa oficial. Segundo Cosme, a morte de Pacheco não foi resultado de um conflito com escravos, mas sim de uma violenta disputa de poder interna ao Partido Liberal.11 Esta revelação aponta para uma motivação política mais complexa e oculta, sugerindo que o evento foi instrumentalizado para fins políticos maiores.
Os Papéis dos Escravos Cosme e Estevão
Cosme: Figura crucial na narrativa alternativa, Cosme foi o escravo que descobriu a verdadeira causa do assassinato de Pacheco e a confidenciou a Padre Braz Luiz de Pinna. Tragicamente, Cosme foi brutalmente assassinado horas após essa conversa, sugerindo uma eliminação de testemunhas.11 O assassinato brutal de Cosme, poucas horas após ele ter revelado a verdade a Padre Pinna, é um testemunho trágico da extrema vulnerabilidade de indivíduos escravizados que ousavam desafiar as narrativas oficiais ou possuíam informações sensíveis. Isso sublinha as profundas assimetrias de poder na sociedade brasileira do século XIX e a violência empregada para silenciar as vozes subalternas e manter o controle da informação.
Estevão: Apresentado como o “líder negro” na versão oficial, Estevão foi prontamente acusado da morte de Pacheco e de incitar uma revolta. Ele foi submetido a um julgamento sumário e condenado à morte por enforcamento, com a execução ocorrendo na mesma manhã de seu julgamento.11 Sua rápida condenação e execução serviram para reforçar a versão oficial e suprimir qualquer questionamento.
O Julgamento e o Incêndio
O julgamento de Estevão ocorreu no salão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, dias antes da conversa entre Cosme e Padre Pinna. O evento foi realizado sob forte aparato de segurança, com a presença da Guarda Nacional e tropas da capital da província.11 Anos depois, o local do julgamento foi incendiado, restando apenas o Cruzeiro São Francisco no centro histórico de Itu.11 Este incêndio pode ser interpretado como um ato deliberado para destruir evidências ou apagar a memória do evento e de seu julgamento controverso, reforçando a supressão da verdade.
Análise de Precisão e Fontes
A sequência central dos eventos – o assassinato, o testemunho de Cosme, o enforcamento de Estevão, o incêndio do local do julgamento e o envenenamento de Padre Pinna – é corroborada por fontes secundárias locais.11 Isso confere uma base factual sólida à ocorrência dos eventos. No entanto, detalhes mais específicos, como a existência e os locais dos documentos ocultos de Padre Pinna e a renúncia de seus substitutos, são explicitamente identificados como parte da tradição oral familiar e carecem de corroboração em fontes independentes.11 A presença de figuras históricas e locais específicos (Capitão Pacheco, Padre Pinna, Igreja da Candelária, Ordem Terceira) proporciona uma boa consistência cronológica e geográfica à narrativa.11
A seguir, uma linha do tempo dos eventos e uma comparação das narrativas:
Tabela 2: Linha do Tempo do Caso do Capitão Pacheco
Data
Evento Chave
Personagens Envolvidos
Descrição Breve
Fontes
18 de março de 1840
Assassinato do Capitão Pacheco
Capitão Antônio Corrêa Pacheco, Seis cavaleiros
Capitão Pacheco é assassinado perto da Igreja Nossa Senhora da Candelária em Itu.
11
Março de 1840 (Semanas antes da conversa de Cosme)
Julgamento e Execução de Estevão
Estevão, Guarda Nacional, Tropas da capital
Estevão é condenado à morte por enforcamento no salão da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, sob forte segurança.
11
Março de 1840 (Dias após o julgamento de Estevão)
Revelação de Cosme a Padre Pinna
Escravo Cosme, Padre Braz Luiz de Pinna
Cosme revela a Padre Pinna que a morte de Pacheco foi uma disputa política, não uma revolta de escravos.
11
Março de 1840 (Horas após a revelação)
Assassinato de Cosme
Escravo Cosme
Cosme é brutalmente assassinado.
11
1840 (Mesmo ano do assassinato)
Envenenamento e Perseguição de Padre Pinna
Padre Braz Luiz de Pinna, Bispo de São Paulo, Padres Manoel Ferraz de Camargo e João Paulo Xavier
Padre Pinna é envenenado e sofre tentativas de afastamento, mas resiste ameaçando revelar a verdade. Seus substitutos recusam ou renunciam.
11
10 de julho de 1865
Falecimento de Padre Braz Luiz de Pinna
Padre Braz Luiz de Pinna
Padre Pinna falece, com documentos ocultos em seu túmulo e outros locais.
9
28 de setembro de 1884
Inauguração do Cemitério Municipal de Itu
—
Inauguração oficial do novo cemitério da cidade.
13
Por volta de 1885 (20 anos após a morte de Pinna)
Recuperação do Documento
Francisco Pereira Motta (pai), Padre Miguel Corrêa Pacheco
Padre Miguel encarrega Francisco Pereira Motta de retirar o documento do túmulo de Padre Pinna no jazigo do Carmo, aproveitando a transferência de corpos para o novo cemitério.
9
Anos depois de 1885
Transmissão da Missão
Francisco Pereira Motta (pai), Francisco Pereira Motta (filho)
A missão de proteger a verdade é passada para o filho de Francisco Pereira Motta em Taubaté.
9
1892
Falecimento de Padre Miguel Corrêa Pacheco
Padre Miguel Corrêa Pacheco
Padre Miguel Corrêa Pacheco falece devido à epidemia de varíola.
4
Atualmente
Repouso da “Carta Testamento”
Cônego Motta
A carta testamento repousa na Cúria de São Paulo, levada pelo Cônego Motta.
9
Tabela 3: Narrativas do Assassinato do Capitão Pacheco: Versão Oficial vs. Alternativa
Aspecto
Versão Oficial (Pública)
Versão Alternativa (Cosme/Pinna)
Análise de Precisão/Confiabilidade
Motivação do Crime
Capitão Pacheco chicoteou um escravo injustamente; Estevão o matou em defesa do escravo e iniciou uma revolta de escravos.
Morte de Pacheco foi fruto de uma disputa de poder interna ao Partido Liberal.
A versão oficial era uma instrumentalização política do medo social. A versão alternativa é plausível no contexto político da época, mas depende de tradição oral para sua revelação.
Culpado Oficial
Estevão, um líder negro.
Disputa entre facções do Partido Liberal. Estevão foi um bode expiatório.
Estevão foi rapidamente condenado e executado, o que sugere um processo sumário para validar a narrativa oficial. Cosme, a testemunha da versão alternativa, foi assassinado.
Consequências Imediatas
Estevão enforcado; revolta de escravos atribuída a políticas imperiais.
Perseguição e envenenamento de Padre Pinna; ocultação de documentos; incêndio do local do julgamento.
A sequência de eventos (assassinato, testemunho, execução, incêndio, envenenamento de Pinna) é documentada em fontes locais secundárias. Detalhes dos documentos ocultos e da cadeia de guardiões são de tradição oral e carecem de corroboração independente.
Instrumentalização Política
Monarquistas recuam diante da força republicana, culpando políticas escravocratas imperiais pela instabilidade.
A verdade seria uma ameaça à elite política que orquestrou o crime.
A instrumentalização da questão escravista para fins políticos é consistente com o cenário do século XIX.
IV. Padre Braz Luiz de Pinna e a Preservação da Verdade
Padre Braz Luiz de Pinna, pároco da Igreja Matriz de Itu em 1840, era uma figura respeitada na comunidade e conhecido por sua oposição à elite republicana.11 Ele se tornou o depositário da “verdade” sobre o assassinato do Capitão Pacheco, recebendo a confissão do escravo Cosme de que a morte foi resultado de uma disputa de poder no Partido Liberal, e não de uma revolta de escravos.11
A relevância e o perigo do segredo são evidenciados pela perseguição que Padre Pinna sofreu. No mesmo ano do assassinato (1840), ele foi envenenado, o que comprometeu gravemente sua saúde.11 O Bispo de São Paulo, Mateus de Abreu Pereira, ordenou seu afastamento de Itu, mas Padre Pinna resistiu, ameaçando revelar publicamente tudo o que Cosme lhe contara. Essa ameaça forçou o conselho a intervir e solicitar sua permanência.11 A gravidade do segredo é ainda mais sublinhada pela recusa ou renúncia de dois padres que deveriam substituí-lo – Padre Manoel Ferraz de Camargo e Padre João Paulo Xavier – ambos se afastando após tomar conhecimento da verdade.11 Os esforços meticulosos de Padre Pinna para documentar e esconder a verdade, apesar do envenenamento e da perseguição, revelam a profundidade de seu compromisso com a justiça e a verdade em um contexto de opressão política. Isso pode ser interpretado como uma forma de resistência intelectual e moral contra a manipulação histórica e a violência do Estado, destacando o risco pessoal envolvido em desafiar narrativas oficiais.
Ciente do perigo e da importância da verdade, Padre Pinna tomou medidas extraordinárias para garantir que seus registros sobrevivessem. Ele deixou contas escritas em quatro locais distintos: atrás da capa do primeiro Livro de Tombo da Igreja Nossa Senhora da Candelária; em seu próprio túmulo, no jazigo do Carmo; escondido sob o Cruzeiro de São Francisco; e oculto no braço esquerdo da imagem do arcanjo São Miguel, no altar lateral da matriz ituana.9
Padre Pinna faleceu em 10 de julho de 1865.9 Vinte anos após seu enterro (ou seja, por volta de 1885), a narrativa oral indica que “Padre Miguel” (identificado como Padre Miguel Corrêa Pacheco, que abençoou o novo cemitério cerca de 9 meses antes de sua própria morte em 1892 4) encarregou Francisco Pereira Motta (pai) de recuperar o documento do túmulo de Pinna no jazigo do Carmo.9 A transferência de corpos dos antigos cemitérios para o recém-inaugurado Cemitério Municipal de Itu (oficialmente inaugurado em 28 de setembro de 1884 13) teria facilitado essa missão.9 A missão de proteger a verdade foi subsequentemente passada para Francisco Pereira Motta (filho) em Taubaté, e a “carta testamento” repousa atualmente na Cúria de São Paulo, levada pelo Cônego Motta.9
É crucial ressaltar que os detalhes sobre os documentos ocultos e a cadeia de guardiões (especialmente a figura de Francisco Pereira Motta) são elementos da tradição oral familiar e, como tal, carecem de corroboração independente em arquivos históricos formais.11 A ausência de registros que confirmem a figura específica de “Francisco Pereira Motta” como guardião é uma lacuna notável.11 A dependência da tradição oral para elementos-chave da narrativa sublinha a importância desse tipo de fonte na preservação de relatos históricos alternativos, especialmente quando os registros oficiais são ausentes ou foram manipulados. No entanto, isso também ressalta os desafios inerentes à verificação e a potencial para alterações ou acréscimos ao longo do tempo, exigindo uma análise crítica e a busca por corroboração sempre que possível. Há uma aparente inconsistência temporal entre a inauguração oficial do Cemitério Municipal em 1884 13 e a bênção do “novo cemitério” por Padre Miguel Corrêa Pacheco em 1891/1892.9 Isso pode indicar que a transferência de corpos foi um processo contínuo ao longo de vários anos, ou que a narrativa oral condensa eventos para fins de coesão, exigindo uma nota de cautela na interpretação.
V. O Contexto Político e Social de Itu no Século XIX
O Império do Brasil na primeira metade do século XIX era caracterizado por uma intensa disputa entre o Partido Liberal e o Partido Conservador, com o Imperador exercendo um Poder Moderador que frequentemente intervinha na política.14 As Revoltas Liberais de 1842, que agitaram São Paulo e Minas Gerais, são um exemplo vívido da insatisfação liberal com o centralismo monárquico e a ascensão conservadora, demonstrando a volatilidade do cenário político.14 A morte do Capitão Pacheco em 1840, atribuída a uma disputa liberal, insere-se nesse quadro de tensões.
Itu, embora inicialmente um centro monarquista (“A Fidelíssima” 1), experimentou uma crescente efervescência política a partir de 1870, com a ideia republicana ganhando força. O descontentamento com a monarquia era generalizado, e a queda do Gabinete Zacarias em 1868 impulsionou a ala radical do Partido Liberal em direção ao republicanismo.2 A cidade se tornou um polo de modernidade econômica, com a produção de café e a inauguração da Estrada de Ferro Ituana em 1873 3, atraindo uma nova elite agrária com inclinações progressistas.
A ascensão de Itu como centro do movimento republicano não pode ser desvinculada de sua crescente importância econômica como polo cafeeiro e de sua conexão com a Estrada de Ferro Ituana.3 O desenvolvimento da cafeicultura no Oeste Paulista gerou uma nova elite de fazendeiros progressistas, cujos interesses econômicos (ligados à modernização e à exportação) se alinhavam mais com as propostas republicanas de autonomia provincial e menos com as estruturas centralizadoras do Império. Isso estabelece uma relação causal entre o desenvolvimento econômico e as mudanças políticas, mostrando como as bases materiais da sociedade impulsionavam as transformações ideológicas.
O movimento republicano em Itu institucionalizou-se com a formação do Clube Republicano de Itu em 10 de setembro de 1871, impulsionado por figuras como João Tibiriçá Piratininga e José Vasconcelos de Almeida Prado.2 A Convenção de Itu, realizada em 18 de abril de 1873, na residência de Carlos de Vasconcelos de Almeida Prado, é considerada a primeira reunião oficial dos republicanos no Estado de São Paulo.2 A escolha de Itu como sede foi estratégica, não apenas por sua importância econômica (centro cafeeiro, primeira fábrica a vapor 3), mas também pela inauguração da Estrada de Ferro Ituana, que simbolizava o progresso e a modernidade.2
O Manifesto de Itu, resultado da Convenção, foi assinado por 133 convencionais, sendo 78 deles fazendeiros, além de médicos, advogados e jornalistas.3 O manifesto delineou as bases do Partido Republicano Paulista (PRP), defendendo a autonomia das províncias (federalismo), a oposição ao regime monárquico e a libertação da mão de obra escrava.3
A “suposta revolta de escravos” na versão oficial do caso Pacheco 11 reflete as tensões sociais latentes na sociedade escravista e como a questão da escravidão era instrumentalizada politicamente para desviar a atenção de conflitos internos da elite. Os republicanos paulistas, embora muitos fossem ideologicamente abolicionistas 16, adotaram uma postura cautelosa em relação à abolição para não alienar os fazendeiros, que eram a base de seu apoio econômico e político.2 Isso demonstra um pragmatismo político em detrimento de uma adesão rígida aos ideais. O cenário político de Itu e da província de São Paulo no século XIX não era rigidamente bipartidário ou ideológico. A atribuição do assassinato de Pacheco a uma disputa interna liberal 11, o voto pragmático de Padre Miguel Corrêa Pacheco (monarquista) em um liberal para proteger uma família dos republicanos 9, e a cautela dos republicanos em relação ao abolicionismo para não alienar os fazendeiros 2, demonstram que as alianças e decisões políticas eram frequentemente moldadas por interesses específicos, lealdades pessoais e conveniência estratégica, mais do que por uma adesão estrita a plataformas ideológicas. Isso revela uma complexidade nas relações de poder que desafia interpretações simplistas.
VI. A Família Pacheco e a Historiografia Local
A família Pacheco desempenhou um papel significativo na história de Itu, sendo destacada pelo historiador Nardy Filho em sua obra, que os categoriza como “Os Pacheco da Silva e Os Pacheco de Itu”.17 O primeiro membro da família a se estabelecer na região foi Antonio Pacheco da Silva, um sargento-mor originário de Cotia, que participou ativamente de bandeiras e entradas nos sertões de Cuiabá e Goiás.17 A família era proprietária de importantes propriedades rurais, como a Fazenda Engenho Grande (atual Chácara do Rosário), adquirida em maio de 1756, que permaneceu na família por sete gerações.1 A complexidade política da época se refletia nas próprias divisões internas da família Pacheco: enquanto alguns antepassados eram monarquistas, descendentes como Sérvulo Correia Pacheco e Silva tornaram-se republicanos, realizando reuniões políticas em suas fazendas.1 A revelação de divisões políticas internas na família Pacheco (antecessores monarquistas versus descendentes republicanos) demonstra que as grandes transformações políticas do século XIX não eram apenas um confronto entre classes sociais distintas, mas também envolviam realinhamentos e adaptações dentro das próprias elites tradicionais. Isso mostra a complexidade da adesão ideológica e como as famílias, como unidades sociais, navegavam pelas mudanças políticas.
Francisco Nardy Filho é uma figura central na historiografia de Itu, e sua obra “A CIDADE DE ITU”, em especial o volume III, “Crônicas Históricas” (São Paulo, 1950), é uma referência fundamental para a compreensão da história local.5 Nardy Filho enfatiza a participação de diversas famílias na história da cidade, com destaque para a família Pacheco.17 Sua pesquisa também registra a atuação de Padre Miguel Corrêa Pacheco como vigário da Igreja Matriz de Itu a partir de 1856 8, fornecendo um pilar factual para a biografia do padre.
A historiografia local, exemplificada pela obra de Nardy Filho, é indispensável para aprofundar o conhecimento sobre eventos micro-históricos como o “Caso do Capitão Pacheco”, oferecendo detalhes e perspectivas que raramente são abordados em estudos de escopo mais amplo. No entanto, a análise factual exige que essas fontes sejam complementadas e, sempre que possível, corroboradas por outros registros primários (eclesiásticos, judiciais, notariais), especialmente quando se trata de narrativas que se baseiam em tradições orais, como explicitado na análise de precisão do caso Pacheco.11 Embora a obra de Nardy Filho seja uma pedra angular para a história de Itu, a falta de corroboração independente para certos elementos da narrativa do caso Pacheco (como os documentos ocultos e o papel de Francisco Pereira Motta) ressalta os limites inerentes à dependência exclusiva de relatos locais ou de tradição familiar. Isso reforça a metodologia acadêmica da história, que exige a verificação cruzada de múltiplas fontes para estabelecer a precisão factual.
VII. Conclusões e Considerações Finais
O assassinato do Capitão Antônio Corrêa Pacheco em Itu, em 18 de março de 1840, é um evento histórico factual e bem localizado.11 No entanto, a motivação e os desdobramentos são apresentados em duas narrativas distintas: uma oficial, que o atribui a uma revolta de escravos, e uma alternativa, que o vincula a uma disputa política interna ao Partido Liberal. Esta última versão foi transmitida oralmente através de Padre Braz Luiz de Pinna e, subsequentemente, pela família Pereira Motta.11
A distinção entre Padre Miguel Dias Ferreira (atuante no século XVIII) e Padre Miguel Corrêa Pacheco (atuante no século XIX) é fundamental para a precisão histórica do caso. É Padre Miguel Corrêa Pacheco quem, segundo a tradição, se envolveu na transmissão do segredo do caso Pacheco, não o padre do século anterior.4 A atuação de Padre Miguel Corrêa Pacheco, com suas vastas contribuições para o desenvolvimento urbano e social de Itu, ilustra o papel multifacetado do clero na sociedade imperial, transcendendo as funções meramente religiosas.
A análise revela que a versão oficial do assassinato foi, provavelmente, uma instrumentalização política do medo social em uma sociedade escravista, desviando a atenção de conflitos internos da elite e justificando a rápida e sumária execução do escravo Estevão.11 O brutal assassinato de Cosme, a testemunha-chave da versão alternativa, sublinha a vulnerabilidade das vozes subalternas e as extremas medidas tomadas para silenciar informações sensíveis.
Os esforços de Padre Braz Luiz de Pinna para preservar a verdade, apesar do envenenamento e da perseguição, demonstram um profundo compromisso com a justiça e uma forma de resistência contra a manipulação histórica.11 No entanto, a dependência da tradição oral para detalhes cruciais sobre os documentos ocultos e a cadeia de guardiões, como a figura de Francisco Pereira Motta, exige cautela na avaliação da precisão. Embora a tradição oral seja vital para a memória histórica, ela impõe desafios de verificação que demandam corroboração com outras fontes.
O contexto político de Itu, que evoluiu de um centro monarquista para o berço do republicanismo paulista, é crucial para entender o caso Pacheco. A fluidez das alianças políticas e o pragmatismo das elites, que muitas vezes priorizavam interesses específicos e lealdades pessoais sobre ideologias rígidas, moldaram os eventos. A ascensão econômica de Itu, impulsionada pela cafeicultura e pela infraestrutura ferroviária, também desempenhou um papel significativo na efervescência política que culminou na Convenção de Itu.
A historiografia local, notadamente a obra de Nardy Filho, é indispensável para aprofundar o conhecimento sobre o caso. Contudo, para uma análise factual e precisa, é imperativo complementar essas fontes com registros primários e realizar uma verificação cruzada, reconhecendo as limitações inerentes às narrativas baseadas exclusivamente na tradição familiar.
Em suma, o “Caso do Capitão Pacheco” é um complexo entrelaçamento de fatos históricos, narrativas conflitantes e tradições orais. Ele serve como um microcosmo das tensões políticas e sociais do Brasil imperial, onde a verdade podia ser moldada e suprimida para atender a interesses poderosos. A persistência da narrativa alternativa, transmitida por gerações, atesta a resiliência da memória popular em face das versões oficiais, mesmo que a validação de cada detalhe exija um contínuo e rigoroso escrutínio histórico.