"Se contar para seu pai farei pior" — dizia a torturadora.

Ele jamais poderá esquecer aquela cena, em sua frente, dormindo um sono tranqüilo, um pequeno corpo virado para a parede, junto a ele um brinquedo de papelão. Fernando Torres puxa um pouco mais o edredon e dá um beijo para se despedir do garoto de cinco anos, seu filho. O amor existente entre eles é visível, profundo, e de todos conhecido, e nem mesmo as manchas de sangue que sujaram o edredon e o brinquedo conseguiram destruir.

Segunda-feira, 19 de Abril de 2010. 14:30
Fórum de Itu, Rua Luiz Bolognesi sn, Itu, SP.

Ninguém jamais poderá esquecer aquela cena, o PM Paulino lotado no Fórum entra na sala de audiência e informa a Drª. Andrea Ribeiro Borges que o garoto quer ser ouvido novamente, agora com a presença de Camila Cristine Estefano, sua madrasta. A juíza autoriza a entrada da criança, que frente à frente com Camila lhe diz: “Ah! Então foi você que tentou me matar?”.

Sábado, 5 de dezembro de 2009. 20:30
Rua Cerquilho 25, Cidade Nova, Itu, SP.

O garoto e sua meia irmã brincam com Fernando e Camila. O homem não perde nenhuma oportunidade de ficar com suas crianças, e como pagamento recebe do filho um sorriso maroto, inocente, verdadeiro, espontâneo. Há dois anos Camila faz parte daquele lar, e o menino gosta dela. Muito antes de ela vir morar com o seu pai, já ia buscá-lo na escola, e agora bastava ficar um pouco distante para o pequeno lhe mandasse beijos e acenos.

O azulejista Fernando coloca o garoto na cama e a menina no berço, ela tem dois anos. Ao sair, olha mais uma vez para dentro e segue com Camila pelo corredor até a casa de Olaide Torres, pai de Fernando e que mora na casa da frente. O garoto gostava de dormir na casa do avô quando o pai não está em casa, então ele recomenda a Camila a deixasse o trinco da porta aberto, para o garoto possa ir para lá se quiser, lhe dá um beijo e pede: “cuida bem das crianças”. Olha à hora, faltam quinze minutos para as dez da noite, sobe na boleia e seguem para destino.

Domingo, 6 de dezembro de 2009. 5:00
Seguindo em uma estrada de Minas Gerais.

Fernando atende ao celular, era uma menina que vivia na casa de seu Odaide que pede para falar com o caminhoneiro que é o pai de Fernando. Ele passa o telefone e vê rosto sério do pai, que depois de alguns minutos ouvindo o que a pessoa lhe diz, desliga sem nada falar.

A viagem segue tranquila até às sete da manhã, só faltavam apenas três horas para chegarem ao seu destino, o celular novamente toca , é seu irmão Carlos Eduardo Torres que conta que o filho está internado em estado grave e que Camila está presa pelo crime. Fernando desce do caminhão que segue viagem, e a base de carona ele retorna para Itu.

Alguns dias depois, Fernando entregará à GCM Carmo, uma guarda municipal que está na Delegacia de Defesa da Mulher de Itu (DDM), as roupas usadas no dia pelo garoto. São as últimas provas que faltavam a chegar às mãos da delegada Drª. Ana Maria Gonçales Sola.

Segunda-feira, 19 de Abril de 2010. 14:30
Sala de audiências da 1ª. Vara Criminal da Comarca de Itu.

Após a noite de sangue, o garoto contou ao pai que Camila já havia enchido sua boca com guardanapos e com um sabonete, e às vezes lhe batia ameaçando: “se contar para seu pai de outra vez farei pior”.

O motivo, todos desconfiavam: ciúmes que pai e filho nutriam um pelo outro.

Fernando conta que foi a partir do nascimento da filha do casal que ele começou a desconfiar que algo não corria bem, sempre que o garoto se aproximava da menina Camila olhava ameaçadoramente, mas ninguém imaginaria que ela seria capaz de qualquer coisa.

O pai do garoto diz que a madrasta Camila jamais pisará novamente em seu lar. Adriana Lopes Siqueira, mãe genética do garoto, está presa por tráfico de drogas. Vamos aguardar que Fernando Torres, agora tenha com discernimento na escolha das futuras mulheres de sua vida. Seus filhos agradecerão.

Mãe é acusada de tentar matar filho com talhadeira.

O promotor de justiça Luiz Carlos Ormeleze foi comedido quando descreveu o crime para a Drª. Andrea Ribeiro Borges: Camila Cristine, grávida no quarto mês de gestação, tentou matar usando uma talhadeira seu enteado de cinco anos enquanto este dormia, e além da brutalidade dos ferimentos e do atroz e desnecessário sofrimento por ela causado, ainda tentou induzir a Justiça a erro, retirando a criança do local do crime e abandonando-a no quintal.

As palavras do promotor são suaves para descrever os momentos de horror e sangue que Camila protagonizou aquela noite. O Distrito do Pirapitingui na cidade de Itu, com absoluta certeza, nunca tinha visto tamanha covardia.

Sábado, 5 de dezembro de 2009. 3:25
Rua Cerquilho 25, Cidade Nova, Itu, SP

Camila acorda no meio da noite, levanta e segue até o quarto onde estão dormindo seu enteado de cinco anos e sua filha de dois anos. O garoto é filho de outro casamento do azulejista Fernando, seu companheiro há dois anos.

Nunca saberemos ao certo o que Camila viu ali: dizem uns que ela flagrou o garoto em pé ao lado do berço da menina, outros que ela viu apenas duas crianças dormindo. O que se sabe é que ela tinha ciúmes do garoto pelo amor que ele nutria pelo pai.

Também é sabido que Camila não gostava que o garoto se aproximasse de sua filha, olhava feio e tirava-a de perto. Camila virou-se, foi até o banheiro, pegou a talhadeira que Fernando usava no seu serviço e aplicou vários golpes na cabeça da criança.

Camila contará para o Dr. José Moreira Barbosa Netto, delegado de polícia, que ela não sentiu nada, nem ódio, nem dó, nada, apenas fez. A criança nem se mexeu. Ela achou que havia matado o garoto e levou-o até um monte de areia de construção.

Depois de deixar lá o corpo, volta para a casa sem janelas que fica no corredor do fundo da casa de seu sogro e limpa a casa. Segue para a casa da frente e chama a companheira de seu sogro, a doméstica Ivone Regina para ajudar a procurar a criança.

Ivone quer começar procurar pela casa, mas Camila tenta evitar. Não consegue. Ivone encontra marcas de sangue na roupa de cama do garoto, em um brinquedo e no chão. Desesperada Ivone corre para o quintal e encontra o corpo do garoto.

Em pouco mais de dez minutos o menino está sendo atendido no PAM da Vila Martins, de lá é encaminhado para a Santa Casa de Itu e de lá vai para o Hospital da UNICAMP em Campinas. Seu estado é desesperador, mas Camila parece…

Ivone e o guarda municipal que atendeu a ocorrência estranham a atitude da madrasta. Não corre, não chora, apenas acompanha os acontecimentos. Se o GCM Rota e Ivone tivessem lido O Estrangeiro de Albert Camus talvez achassem essa atitude normal, mas não leram.

Camila foi levada para a delegacia, onde o delegado Dr. Moreira e o conselheiro tutelar Robson José Candiani Mota, que também não leram aquele autor francês, pressionaram Camila, que confessou o crime em todos seus detalhes.

Depois da prisão de Camila, a avó Maria de Lourdes ficou acompanhando o garoto até o retorno do avô e do pai que estavam em Minas Gerais. Agora o garoto, que já tinha deficiências nas mãos e nos pés, ficará agora com esta nova marca.

Fernando é um pai amoroso, e segundo Priscila Aparecida, irmã de Camila, seu único vício é a bebida. A madrasta já tinha sido internada também pelo mesmo problema. A mãe biológica, Adriana, está presa por tráfico de drogas.

Difícil é a situação deste garoto de futuro incerto. Difícil também está para Camila sustentar sua versão inicial que a mãe biológica e seu companheiro é que foram os autores do crime: a primeira está presa e o segundo morreu há anos.

Agora caberá ao Dr. Hélio Villaça Furukawa, juiz de direito da 2ª. Vara Criminal de Itu a decisão sobre mandar ou não Camila para o Tribunal do Júri da Comarca. Talvez ela tenha alguma chance se o magistrado preferir Camus à Kafka. Não quero desanimar ninguém não, mas Furukawa é latinista.

(Veja as explicações de Camila Cristina)

Garoto é preso ao trocar um cheque no banco.

Ninguém até hoje conseguiu me demover da certeza que o Destino é um ente real. Não consegui eu por minha vez provar a ninguém a sua existência, mas o sinto e atrevo-me a dizer que por vezes penso lhe tocar a face.

Alex pegou aquele cheque e nem olhou duas vezes para o emitente, era apenas mais um entre tantos que já havia recebido, e para dizer a verdade já tinha pego como pagamento toda espécie de coisas, afinal ninguém gostava de lhe ficar devendo.

A Guarda Civil Municipal de Itu foi acionada para comparecer até a agência do UNIBANCO da avenida Tiradentes na Vila Nova: tentavam sacar um cheque produto de furto. Por lá, o eletricista sorocabano Diego explicava que só estava ali a pedido de um amigo para que recebesse o cheque, e nada mais.

Diego convence ao GCM Walter que poderia leva-los ao verdadeiro dono do cheque, e que tudo não passaria de um ledo engano. Acompanha então aos guardas municipais até uma casa na Rua Miguel Arcanjo Dutra no Parque Industrial, faltavam apenas quinze minutos para o meio-dia, mas a hora do almoço seria a menor das preocupações para aqueles que lá estavam naquele doze de agosto de 2009.

O guarda municipal conta que chamou por Alex do portão, ao que apareceram três rapazes a porta da casa, a uma distância de uns oito metros do portão. Vendo os guardas, não vieram abrir de imediato, o GCM Surian observa pelo vão do portão que eles jogam alguns objetos para cima do telhado, daí os três voltam para dentro da casa e só depois Alex volta para abrir o portão.

Fundada suspeita seria uma maneira sutil de descrever a impressão dada pelos rapazes aos guarda municipais, que mesmo antes de entrar na casa algemam um adolescente que estava ao lado da janela. O garoto dirá depois na Justiça:

Eu e Diego só fomos até lá para pegar o controle remoto do vídeo game. Diego foi trocar o cheque a pedido de Alex e eu o vi pesando e embalando a droga, mas nem cheguei perto, fiquei esperando a volta de Diego do lado de fora da casa. Quando os guardas chegaram com Diego, me algemaram por que eu estava parado perto de uma janela onde haviam algumas paradas.

Alex Luis talvez venha a se lembrar de quem lhe passou o maldito cheque, mas com absoluta certeza não se esquecerá do dia em que a casa caiu. Segundo seu irmão, André Luis, sua dívida com os traficantes era de R$ 3.000,00, e como ajudante de caminhão não conseguiria pagar, por isso é que aceitou fazer aquele serviço. Alex disse ao guarda municipal Surian, que pagou em São Paulo R$ 29.000,00 por toda aquela droga, mas na delegacia declarou que lá pagou R$ 2.000,00.

O fato é que os guardas civis acharam 104 porções de cocaína, sacola branca com mais 406,86 gramas, uma pequena quantidade de maconha, material para embalar, triturar e pesar entorpecentes, além de diversos aparelhos eletro-eletrônicos. Tudo indicando encaminhado ao delegado do 1º DP de Itu, Dr. Antônio Carlos Padilha, que achou por bem manter a disposição da Justiça além de Alex e do adolescente, Everson Luis de Almeida que havia cedido o imóvel para Alex também caiu nessa.

Drª. Liliane Gazzola Faus no entanto atenta para a falta de provas que existe neste caso. Pergunta ela: “Quais as provas que existem nos autos que caracterizam as incidências penais contidas na denúncia?” Ela mesma responde: “Não existem provas!”

Que atos teriam sido praticados de fato por Alex? Ninguém nega que as drogas de fato lá estavam, e ele as assumiu. Mas na Justiça ele irá dizer que era apenas para seu consumo, e para tal a quantidade não importa. Então, exatamente o que de fato temos como prova de que Alex praticou algum ato ligado ao trafico de drogas?

Alex é um trabalhador de carteira assinada pela PROFICENTER Terceirização, faltavam dois dias para completar dois meses na firma quando foi preso, além disso ainda ajudava seu tio Odair no caminhão. Caberá agora à Drª. Andrea Ribeiro Borges, juíza da 1ª Vara Criminal de Itu, a decisão se este trabalhador tinha ou não um terceiro emprego: traficante.

Algumas pessoas hão de dizer que aquele cheque é quem meteu Alex em tal enrascada, mas eu acredito que na verdade o Destino não faz nada ao acaso, o faz às vezes por diversão, e assiste a tudo como se ele nada tivesse a ver com isso.

Drogras embaladas próximo a escola em Itu.

O eletricista da cidade de Sorocaba, Diego, jamais pensaria que entraria para o mundo do crime por ajudar um amigo. É certo que sequer foi preso, mas não fica bem para um trabalhador entrar algemado em uma viatura da Guarda Municipal de Itu.

A babá sorocabana Evelin acordou com aqueles guardas em seu quarto mandando que ela vestisse uma roupa, enquanto perguntavam sobre a droga que estava em um prato embaixo de seu armário. Ela não fazia a menor ideia do que eles estavam falando.

Evelin e seu irmão Everton moram com os pais, na Rua Miguel Arcanjo Dutra no Parque Industrial e são conhecidos de Diego desde que eram crianças, e todos eles só conheceram há pouco mais de um mês, aquele novo amigo e parceiro: Alex.

Naquele dia, Diego e um garoto foram até a casa de Everton e Evelin pegar o controle remoto do vídeo game, lá chegando, Alex pediu para que Diego fosse trocar para ele um cheque no banco, era ali pertinho. Tudo bem, Diego foi e o garoto ficou esperando na casa.

O cheque era furtado. A guarda civil municipal apareceu e o conduziu até a casa, afinal o cheque era de Alex, alguma coisa devia estar errada. Estava. O GCM Walter e o GCM Surian perceberam isso logo que chegaram no portão da casa.

Evelin conta que acordou muito surpresa com a presença dos guardas, pois achava que o irmão era apenas usuário de maconha, e acompanhou-os na revista da casa, confirmando na Justiça que viu quando acharam parte da droga no telhado da casa.

Everson conta que temia ser morto, pois já estava devendo dinheiro a Alex, então aproveitou que os pais haviam saído e aceitou a proposta do traficante de usar a sua casa por uma hora para embalar o produto, como contou depois para sua irmã, em troca receberia as duas porções de maconha. Sua irmã, Diego e o outro garoto de nada sabiam.

Uma escolha ruim talvez tenha sido a casa de Everson, ela fica a 80 metros de duas escolas municipais: EMEI Walter Seyssel “Pimentinha” e a EMEI Profª. Inalda L. L. de Souza Lima. Tráfico de drogas é um dos crimes de maior gravidade em nossa sociedade e sua pena pode ser ainda mais severa com a proximidade das escolas.

A pedido da família, Dr. Nilton Sérgio dos Santos, acompanha o caso e esclarece que na realidade a acusação não tem “… qualquer respaldo fático, razão do simplismo da peça vestibular, que sequer individualizou a conduta de cada um dos acusados, (…) razão de nosso veemente rechaço. (…) O que houve realmente foi uma mera casualidade, tendo Everson aquiescido tão somente ao pedido de Alex para que cedesse o espaço para que ajeitasse um material, (…) aceitou na espera de receber alguma porção para seu consumo, tendo este aquiescido tão somente dado aos apelos do vício maldito”

Dr. Nilton explica assim que Alex pode ser e é traficante, como ele mesmo declarou na polícia, mas Everson apenas foi fraco em enfrentar seu vício, mas caberá agora ao juiz de direito decidir o futuro de Everson e de seu novo amigo e parceiro: Alex.

Traficante é morto por usuário no São Judas.

O Sr. Fábio é um homem rude. Fiz o possível para abrandá-lo; mas nada consegui. Ele persistiu na sua ideia, e eu na minha.

É verdade que o populacho, de um extremo a outro da Terra, acredita piamente nas coisas mais absurdas. No entanto, quando defrontados com a razão, deviam aceitar os fatos tais quais eles são, no entanto, como toupeiras cegas, nunca abrirão seus olhos.

Narrei tudo de novo, como o garoto me contou:

… depois de matar Alessandro na frente do Bar do Marujo, Diego montou de volta na moto que era pilotada por Arrastão e deram pinote. A moto que eles tinham pegado emprestada de Robinho deu problema, então, ao parar na rua Henrique Moretto, Diego correu para um lado e Arrastão para outro. De lá ele passou na casa de seu amigo Isaac Cláudio, e como o cara não estava em casa, escondeu a arma e as munições atrás da caixa de água. Foi para casa e mais tarde a Guarda Municipal de Itu apareceu acusando-o do homicídio, ele confessou na hora para o GCM Pascoal.

Sente-se pela singeleza e candura de tal confissão que o rapaz é pessoa de boa fé. Mas o rude Fábio que continua insistindo que ele só diz parte da verdade, que quem estava com ele era Thales, que este tal de Arrastão provavelmente nem existe, mas foi um nome que ele inventou para livrar a cara do comparsa.

Diego era um prestimoso moto-boy, muito zeloso do que é seu e de seus amigos. Pasmem, que até nos seus pedicados seus inimigos vêem argumento para culpá-lo. Diego e Thales foram até a casa de Goinha, perto do Capucho Lanches, para colocar uma capa preta sobre o tanque de combustível da moto, uma proteção a mais que todo moto-boy zeloso faz. Mas o rude Fábio continua acreditando na versão contada por Japão, Vampeta (Orlando Oliveira Souza) e pelo investigador de polícia Moacir Cova, na qual a capa era na verdade para camuflar a moto.

Moacir Cova, aliás, que recebeu um dia antes os familiares de Diego que foram denunciar Alessandro por estar ameaçando o rapaz. Isto prova que o rapaz estava dizendo a verdade quando alegou que ao chegar ao bar para comprar uma cerveja, Alessandro colocou a mão na cintura e foi na direção dele, simulando estar armado. Diego apenas se defendeu. Mas o rude Fábio Ferreira continua acreditando que ele foi ao bar só para matar o desafeto, pois não agüentava mais as ameaças.

A diferença entre eles começou em um desentendimento no Clube Comerciários, coisa de moleque que quer aparecer para as meninas. A briga acabou, mas o ódio crescente das partes não. Diego conta a história em detalhes e com firmeza de espírito. Mas o rude Fábio que continua preferindo ouvir as maledicências que todos contam a respeito do rapaz, acredita que ele era viciado em drogas e que esta foi a maneira usada para acabar com sua dívida para com o traficante Alessandro.

Enfim, muitas pessoas disseram que Diego é uma pessoa de fino trato, que as suspeitas que os próprios amigos dele tinham de que ele era um ladrão, eram infundadas. Mas o rude Fábio que continua repetindo as palavras do Promotor de Justiça, Dr. Alexandre Augusto Ricci de Souza: Demonstra ser pessoa irascível, perigosa e incapaz de conviver em sociedade de maneira civilizada”.

O Sr. Fábio é um homem rude. Fiz o possível para abrandá-lo; mas nada consegui. Ele persistiu na sua ideia, e eu na minha.

É verdade que o populacho, de um extremo a outro da Terra, acredita piamente nas coisas mais absurdas. No entanto, quando defrontados com a razão, deviam aceitar os fatos tais quais eles são, no entanto, como toupeiras cegas, nunca abrirão seus olhos.

Traficante é morto em frente ao Bar do Marujo.

Não desejaria, mesmo que pudesse, ter que relatar aqui, a lembrança de minha miserável vida, repleta de privações e desencantos, tal e qual a de muitos homens que como eu viveram nas periferias das cidades. Mas estou morto e enterrado.

Todos ali me conheciam como Feio, não que o fosse, não que me achasse, mas trazia este apelido há muito. Deixei meu corpo aos 22 anos e meu filho Kauane, tinha à época apenas cinco meses. Seu nascimento trouxe esperança e luz à minha vida.

Meu nome era Alessandro Aparecido da Silva, morava na Rua Prof. Arlindo Veiga dos Santos 142, bairro São Judas, a dois ou três minuros do Marujo’s Bar, local em que fui morto. Era eu trabalhador, buscava oportunidades, mas para alguém que nasceu e viveu como eu vivi, elas não aparecem.

Robinho era o dono da moto em que aqueles dois rapazes chegaram para me matar. Posteriormente, dirá aos policiais que eu não era boa gente, que tinha envolvimento com drogas e roubos de motos. Não se deve dar crédito em tudo o que se fala sobre os mortos, sejam coisas boas, sejam coisas ruins.

Se você não me acredita, preferindo ouvir a voz do Zé Povinho, te desafio a ir até o Fórum da Comarca ver se tenho ou tive algum processo correndo por lá. Nada hão de encontrar, sou uma alma inocente.

Wellington Rafael Moura de Lima, o Japão, conhecido meu dos tempos de escola, é mais justo comigo. Contou ele que uma noite briguei no Clube Comerciários com Robinho, ficou a mágoa e a conta a acertar, e o dia chegou. Um dia Japão virá para cá, e hei de lhe perguntar o que quis dizer ao declarar: “… ele era folgado, não podiam olhar para ele que já arrumava briga”.

Vária pessoas procuraram a Juíza de Itu, Drª. Andrea Ribeiro Borges, para dizer que “as pessoas falavam mal dele por ser traficante, as pessoas tinham medo, e consideravam-no perigoso”. Ora, eu nunca fui uma pessoa má, era apenas minha profissão, ninguém tinha motivos para me temer.

Quem compra tem que pagar, é assim que uma sociedade organizada funciona. Infelizmente o mundo de lei e ordem, com seus gramadinhos e cerquinhas pintadas de branco, não são uma realidade na periferia em que eu morava, cinza e violenta, onde cada um tem que garantir sua própria segurança.


Diego me matou. Chegou ao Bar do Marujo na garupa da moto. Desceu, parece que não estava de capacete, mas usava o gorro. Mesmo assim eu o reconheci. Veio direto para mim, chegando bem a minha frente, quase encostou aquele Taurus preto no meu rosto e disparou um tiro. Eu caia e ele continuava atirando.


Disse ele à Juíza de Direito que passou pelo bar para comprar uma cerveja, desceu da moto e eu fui na direção dele, teria eu colocado a mão na cintura simulando estar armado, sem dar a ele tempo de tirar o capacete, mas ele foi mais rápido, seria ele ou eu. Fui eu.


Quem tem padrinho não morre pagão, e se tinha meus irmãos e primos aí, cá também os tenho. Deus pode ser justo, mas o Diabo é camarada.

Será que o GCM Pascoal da Guarda Municipal de Itu, não estranhou que quase imediatamente conseguiu localizar a moto? Não era o plantão do eficiente investigador Moacir Cova, mas por algum motivo ele passou pela DELPOL, justo no momento em que precisávamos dele para chegar até Diego, ninguém estranhou, não?.

Ops… Disse precisávamos… Não, foi empolgação.

A Justiça cabe a Deus, ao Diabo apenas a vingança.

Após ouvir a todos, Drª. Andrea decidiu que Diego será julgado pelo Tribunal do Júri de Itu, e ficará longe do aconchego do seu lar e de sua namorada Talita até o julgamento.

O assassinato no Jardim Aeroporto em Itu.

Alguém atento veria aquela nuvem negra, do mais puro e lúgubre ébano, pairando sobre o Jardim Aeroporto em Itu. À noite, normalmente escura, estava ainda mais tenebrosa. Olhos menos atentos não reparam nestes sinais que dão conta da presença do cão.

O moto-boy Robert Alves do Espírito Santo como todo jovem, sonha com um futuro para ele, sua namorada e seu tenro filho de apenas seis meses. Robinho sempre viveu em um dos bairros mais perigosos da cidade e não deixava se arrastar para fora da severa jurisdição da verdade, para o campo da superstição, mas talvez devesse.

19h45 – sexta-feira – 15/08/2008
Residência da família de Robinho – Rua Pe. Roberto Godding 553 (a)
O garoto e sua namorada estavam em casa quando Japão, VampetaDiego Marcelo dos Santos Prado, e Thales Santos de Almeida Cunha, chamaram-no para conversar. Não se passará quatro horas sem que um negócio seja proposto, uma pessoa seja morta, e duas sejam presas. Nenhum deles reparou nos sinais da presença do cão, indicadas por aquela nuvem que lá estava.

22h45
Delegacia Central de Itu – Rua Floriano Peixoto
O casal hesitava nas respostas. Moacir Cova, o mais eficiente investigador da cidade de Itu, notou o titubeio. A Guarda Municipal já havia localizado a moto (d), e o GCM Pascoal já a estava trazendo para a DELPOL, mas Robinho ainda não sabia disso.
Segundo o paudalhense Moacir, o rapaz inicialmente contou na delegacia que por volta das 22hs estava na Vídeolandia do Bairro São Luiz (b) alugando filmes, e ao retornar a casa de sua namorada foram abordados por dois indivíduos que lhes roubaram a moto.
Moacir já sabia que um assassinato havia ocorrido no Marujo’s Bar (c) na mesma hora em que Robinho disse estar na locadora. Separou o casal e começou a se atentar aos detalhes, buscando fazê-los se contradizer. Ela caiu primeiro, confessou. Ele não teve alternativa, a casa tinha caído.
O casal contou então que Robinho foi procurado pelos quatro homens. Diego e Thales propuseram que o moto-boy trocasse de moto com eles, pois iriam fazer um BO. Foram os seis, nas três motos, até a casa de Goinha e lá camuflaram a moto.
Alguns meses depois, Japa e Vampeta dirão que ao ver a capa preta sobre o tanque prata, se tocaram que Diego e Thales iriam cometer um assalto, e foram embora.
Da casa de Goinha, Robinho e a namorada foram à vídeo locadora com a moto de Diego. Quando voltavam, receberam uma ligação de Diego: “Matei um cara”.
O moto-boy vai até a casa de Diego e resolve dar a falsa queixa de roubo da moto e segue para a DELPOL, de onde sairá preso. Com a confissão do casal, o investipol Moacir e uma equipe da Guarda Municipal vão até a casa de Diego, que também é preso, a arma é localizada, e os outros participantes identificados.
O promotor de Justiça Alexandre Augusto Ricci de Souza acusa então Robinho por participação no homicídio, visto que ele “forneceu os meios para a prática criminosa, embora tenha tido resultado diverso do que esperava”.
Quem se revoltou com esta situação foi o Dr. José Maria de Oliveira, que esclarece que Robinho apenas emprestou a moto e “foi indiciado e preso PASMEM por participação no homicídio, … morrendo de medo” confessou, por que os policiais ameaçavam prender seu pai, pois a moto estava no nome dele. “Graças a imaginação do policial Moacir” Robinho transformou-se em um delator, que agora teme a morte sua e de sua família.

Continua o defensor: muitos moto-boys protegem o tanque de combustível com uma capa, e não como alega Moacir que ela lá estava para camuflar a moto. “Assim como é fruto da imaginação achar que quando Diego disse que ia fazer um BO, estava dizendo que iria cometer um crime. Fazer um BO pode ser encontrar uma garota ou resolver qualquer problema, nunca, em momento algum quer dizer que se trata de praticar um crime, como de maneira pouco feliz referiu-se o Policial Civil”. O fato de Robinho ter ido até a delegacia fazer a ocorrência do roubo é porque ele acreditou que quando Diego disse que tinha matado alguém, iria fugir com ela, e se alguém tivesse visto a placa acusariam o pai dele.


Diante de tudo isso a juíza de direito de Itu, Drª.
Andrea Ribeiro Borges, resolve relaxar a prisão de Robinho, que retornou às ruas depois de 18 dias no CDP de Sorocaba. Algum tempo depois o mesmo defensor conseguirá que as acusações contra Robinho sejam trancadas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.
Robinho pode ver crescer em paz sua criança, que por sinal é apenas um mês mais velha que Kauane, o filho do traficante assassinado Alessandro Aparecido da Silva, conhecido como Feio.

No Clube Comerciários meninos viram homens.

Só me desagrada que, por malícia do demônio, tudo tenha ruído. Ser um homem livre, um cidadão pleno, foi uma conquista que o jovem Diego Marcelo teve pouco tempo para desfrutar. Mal completou seus dezoito anos e tua liberdade foi tirada.

O Demônio inspirou, e Diego gostou do desafio.

Noite, Clube Comerciários, cidade de Itu: testosterona fluindo no ar, álcool e drogas circulando de mão em mão, e garotas passando de boca em boca. Ali garotos viram homens, e meninas viram mulheres. Se dois minutos de papo fazem de um mero conhecido e amigo de longa data, uma palavra, um olhar, um esbarrão podem terminar em morte.
O Demônio inspira, e garotos gostam do desafio.

Diego esbarra na garota que derruba seu copo de cerveja. Algumas garotas gostam disso, testam seus machos, jogam-nos uns contra os outros. Garotos, meras crianças nas mãos das minas. A garota é namorada de Alessandro, que instado, desfere um soco no rosto de Diego. Chega a turma do deixa pra lá que não vale a pena. Isso não vai ficar assim, Diego pagará caro por isso – Alessandro teria dito a alguém. Os dois rapazes viviam no São Judas, e lá morrerá Alessandro, e lá acabará a liberdade de Diego.

O Demônio inspirou, e garotas gostam do desafio.

O temido traficante de drogas Alessandro Aparecido era conhecido como Feio. Moacir Cova, um mestre da investigação criminal em Itu, disse que Diego e Thales eram suspeitos de serem os ladrões de motos da cidade. Com a prisão de Diego e fuga de Thales os roubos de motos praticamente acabaram. Japão e Vampeta eram amigos de Diego, poucos minutos antes do assassinato de Alessandro estavam com Diego e Thales, conhecendo a dupla e vendo que estavam camuflando uma moto, acharam que eles iriam cometer algum assalto, e saltaram de banda. Enfim, todas eram pessoas do mais fino trato.
O Demônio inspira, e seus súditos aceitam o desafio.

Alessandro faz de tudo para ameaçar Diego, vai até sua família, mostra a arma para ele e diz que está marcado, simula estar armado outras vezes, e desfere tapas em seu rosto. Mas naquele dia a coisa não foi assim, segundo Diego, afinal Alessandro está morto e não pode nos dizer o que ocorreu, quando ele chegou no Marujo’s Bar para comprar cerveja, lá estava Alessandro sentado em uma mesa. Ao vê-lo chegar, se levanta e vem em sua direção, coloca a mão na cintura e é o último movimento que faz entre os vivos.

O Demônio inspirou, e Alessandro pela última vez desafiou.

Diego não costuma andar armado – pelo menos o que ele diz. Na noite anterior, um sujeito chamado Arrastão o convidou para uma festa, inicialmente não aceitou, mas como sua namorada Talita deu cano, ele resolveu dar um pulo lá. Porquê Arrastão vendeu ama arma para Diego, só o Demônio pode responder, e não sou eu quem vou lá para perguntar. Diego foi armado para comprar a tal cerveja, e assim acabou seus dias de liberdade depois de ter dado seis pipocos no Feio. Alguns dizem que Alessandro estava ameaçando Diego por dívidas com drogas, outros que ele estava indo fazer um assalto e encontrou ao acaso Alessandro, outros que era o dia que estava marcado para o acerto final, mas o que temos certeza é que ficou lá o corpo estendido no chão.

O Demônio inspirou, e Diego não foge de um desafio.

A Madrasta Assassina da Cidade Nova de Itu fala.

Há anos que tenho conhecimento destes fatos, coisa boba, que não publiquei aqui pelo simples fato de que considerava águas passadas, e só me disponho agora a falar o que sei aos senhores por ter chegado novamente o nome deste homem aos meus ouvidos.

Sábado, 5 de dezembro de 2009. 3:25
Rua Cerquilho 25, Cidade Nova, Itu, SP

Durante a madrugada por algum motivo obscuro um garoto de cinco anos é agredido com golpes de talhadeira na cabeça quando estava dormindo em sua cama, e já desacordado e praticamente morto é abandonado enrolado em um edredom sobre um monte de areia de construção no quintal de sua casa.

Por pouco que seja, minha mente agora é avassalada por uma dúvida cruel: será que realmente a madrasta Camila, grávida no quarto mês de gestação, tentou matar seu enteado? Novas investigações a respeito da suposta participação da mãe biológica da criança deixam algumas dúvidas.

Serei breve, muito breve, pois tudo aquilo ainda me assusta deveras e neste momento estou sozinho, é tarde da noite, e a escuridão grassa nos cantos ocultos do lado de fora. Henry Evaristo

Camila não era uma santa, mas ninguém esperava dela uma agressão: não existiam antecedentes de distúrbios mentais ou de agressões contra quem quer que seja. Agora, é claro, aparecem dedos acusatórios de todos os lados, mas só agora!

Desde o primeiro momento ela afirmou que Adriana havia engendrado o crime de dentro da prisão, para fazer com que ela perdesse o amor e a confiança de seu companheiro Fernando. Ninguém acreditou naquela história.

Que mãe mandaria agredir de tal forma seu próprio filho?

O brilhante investigador Moacir Cova demonstrou que Adriana, mãe de quatro filhos, pertencia a facção criminosa Primeiro Comando da Capital PCC, e na época das investigações policiais tinha pouco mais de um ano de idade. Adriana já era naquele momento companheira de Donizete, o Careca, um irmão do Partido, hoje falecido. Estamos chegando aonde interessa.

Camila acusou de serem mandantes Adriana e Careca, o segundo estava morto e a primeira estava presa. Estava? Mesmo que estivesse, os contatos que mantinha com o irmão Preto, possibilitariam a execução deste crime sem a menor dificuldade.

Há anos é de conhecimento dos meios policiais que irmão Preto comanda o crime organizado na cidade, coisa boba, que não publiquei aqui pelo simples fato de que considerava águas passadas. Júlio César está preso na Penitenciária de Avaré e de lá controla o que se passa no mundo daqueles que o sustentam, nós meros trabalhadores.

Só me disponho agora a falar o que sei aos senhores por ter chegado novamente o nome do irmão Preto aos meus ouvidos. Seu nome aparece agora ligado ao de Adriana.

Publicarei neste blog nos próximos dias, se me sobrar algum tempo, informações sobre sua atuação na cidade de Itu, a influência do PCC, divisão algumas divisões de áreas da cidade e outros fatos interessantes.

Faço-o agora também porque não sei se poderei fazê-lo no futuro, alguém me disse que o irmão Preto já está na rua, beneficiado por uma dessas saidinhas não mais voltou. Bem, eu de fato não fui lá prá conferir, mas não duvido nada. Antes de sair ele deixou um recado que coloco aqui nas palavras dele:

“Tô loco pra mim sair mano, pra mim mete o revolver cara, puta…”

A chegada de um preso no CDP de Sorocaba.

Não estava totalmente escuro, pelos vãos do corró entravam resquícios de luz. Alguns de nós já passaram por isso antes, mas eu vivia tudo aquilo pela primeira vez. Estávamos os seis sentados no chiqueirinho de uma veraneio preta e branca, velha e fétida. Os solavancos faziam nossos corpos baterem com força na lataria, dor maior que das algemas de pés e das mãos que nos apertavam. É estranho, mas parecia que a cada parada ou curva aconteceria um acidente e que todos morreríamos lá, no meio das chamas.

Quase não conseguia mais respirar aquele ar abafado e fedorento, quando, finalmente, o motor foi desligado. Eis-nos aqui, no CDP de Sorocaba. Chegamos em pleno dia, uma sexta-feira, 21 de maio do Anno Domini de 2010. Presenciamos, a princípio, exatamente o contrário do que esperávamos.

Mal passamos o portão principal e vimos dois bandos de espectros, ambos vestindo camisetas brancas e calças cáqui. Estávamos deles separados por uma cerca, mas um desses bandos marchava lado a lado com o nosso grupo, gritando ameaçadoramente em nossa direção; as pessoas no outro, muito maior, cuidavam de suas vidas, conversando em pequenos grupos, mal olhando para nós.

Quando nosso grupo finalmente atravessou um novo portão, alguém gritou no meio da massa: aqui é o inferno.

Éramos os presos que chegávamos naquela tarde procedentes de Itu. Já nos conhecíamos, seja da vida, seja do pouco tempo que ficamos juntos na cela da delegacia da cidade, um lugar que tiraria noites de sono do próprio Dante. Os policiais civis que nos levaram até ali ficaram para trás.

Um funcionário mandou que tirássemos nossas roupas e que as colocássemos ao nosso lado. Todos nus, andamos alguns metros e ficamos encostados em uma parede. O funcionário, que antes falava suavemente dando instruções, muda o tom, grita, chamando-nos de vagabundos e outras palavras impublicáveis. Um jato de água fria é jogado sobre nós – para lavar nossa alma.

Ainda nus, recebemos as boas-vindas do Sistema Penitenciário. As regras de conduta nos são explicadas, pancada à pancada, e vamos ouvindo cada explicação. Alguns caem de joelhos, outros curvam-se, colocando a mão na barriga. Houve quem esboçou um choro, mas todos, aparentemente, entenderam todas as regras, pois nenhum de nós pediu para explicarem de novo.

Recebemos o uniforme e fomos colocados no pátio. Eu estava sozinho na fita, enquanto os outros se afundam e se mesclam no meio daqueles dois bandos que vimos assim que chegamos ao CDP. Um grupo se aproxima de mim. O homem que vem à frente diz que vai me arrebentar, os outros apenas olham. Chegou alguém que conheci um dia no Bar do Gordo, e diz a todos que sou firmeza e que ninguém deve mexer comigo. O grupo se afasta.

Vírgilio me leva até o X (cela) em que vou ficar. Inicialmente dormirei na praia (no chão). Naquele barraco (cela), não existe briga e também não há hierarquia rígida; ninguém manda em ninguém, não tem um disciplina (pessoa encarregada da ordem interna, em geral nomeado por uma facção). O CDP é dividido em quatro blocos, um para o CRBC, outro para o PCC, e dois para a população (sem partido), e eu estava neste último.

Bem, essa foi minha chegada ao inferno. Meu nome não falarei aqui, não por temer represálias, pois só Deus pode me punir, mas para não prejudicar aqueles que convivem comigo. Tendo notícias, lhes enviarei, direto do Antro Maldito.

Juíza resolve problema de moradia de garota.

Diz que deu, diz que dá, diz que Deus dará, não vou duvidar. E se Deus não dá, como é que vai ficar? Só por Deus, o que ela estava fazendo ali? Como chegou naquela situação? Será que um dia foi melhor? Teve em algum momento esperança, de outro futuro se não aquele?

Ela acredita piamente em Deus, mas ele só pode ser um cara gozador, que adora brincadeira, pois tinha o mundo inteiro para jogá-la, mas achou muito engraçado botá-la na barriga da miséria, na Favela do Isaac em Itu, e por isso agora os homens queriam condená-la.

Mônica Aparecida Della Paschoa é apenas uma das garotas de programa que atuam por ali. Não bastou ter sido tão mal alojada, tão mal vestida, tão mal alimentada durante toda sua vida, nascendo sem estrutura econômica e familiar, entre enganadoras esperanças e de sofrimentos reais. Seu corpo não se formou, se degradou, assim como sua alma que foi tomada pelos vícios da sociedade.

Da peste e da escória humana recolhe seu sustento, e se alimentando dos frutos do lixo ituano ― envenenou-se. Seu pálido brilho é suficiente para encantar alguns daqueles que se escondem nas sombras do submundo, sob o Império de Bola de Fogo, que tem a “sintonia geral” garantida pelo PCC – Primeiro Comando da Capital.

Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010, aos 48 minutos da madrugada.

Mônica pediu para as guardas municipais que foram revistá-la para que a levassem até um lugar mais reservado, não queria passar carão ali na frente de todos. GCM Surian foi quem solicitou a presença da guarnição feminina para a revista-la e as outras garotas.

Em uma viela próxima a GCM Ana Maria a revistou encontrando em sua calcinha vinte e duas porções de maconha em um plástico azul. A garota diz às guardas femininas que tem mais em sua residência. Vão até lá e a GCM Rosemary recolhe três porções de crack embaladas em papel alumínio e um cigarro parcialmente consumido.

A máquina de repressão ao tráfico começa a andar. O delegado Dr. Antônio Carlos Padilha prende Mônica, o promotor de justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze declarou que “…a quantidade e a forma de acondicionamento das substâncias apreendidas, o local e as condições em que a ação se desenvolveu, as condições sociais e pessoal, bem como a conduta da agente revelam a intenção de traficância.”
Mônica tenta explicar, que não á nada daquilo… muita gente… ela se lembra que tinha muita gente… todos bebendo, todos usando drogas. Assim é a noite na Favela do Issac, assim é a vida que ela conhece. Risos, brigas, drogas. Todos estavam lá. Ela ganhou dinheiro, faz programas, faz limpeza em casas, e comprou um pouco de droga. Um pouco, o resto ela achou no chão e guardou com ela, se o dono aparecesse ela devolveria, se não ela vendia. Mas ela achou, mas se deu assim, ela diz assim que se deu. O que ela estava fazendo ali? Como chegou naquela situação? Será que um dia foi melhor?

Seu advogado Dr. Aldo Ribeiro da Silva afirma que aquelas drogas eram apenas para seu uso, pois ela costumava mesclá-los, inclusive com bebidas alcoólicas. Lembra inclusive às claras e objetivas afirmações das Guardas Civis Municipais: apenas encontraram com ela as drogas, nada sabendo sobre comercialização ou a associação.

O local é de fato conhecido como ponto de drogas, mas ora, ela não escolheu viver ali, ela teve que morar lá, é sua residência, pode ser Mônica condenada por ter sido lançada na miserabilidade, padecer sob uma pena gravíssima imputada ao tráfico, um crime considerado hediondo?

Mônica acredita piamente em Deus, mas ele só pode ser um cara gozador, que adora brincadeira, pois de uma hora para outra fez com que seu defensor fosse substituído pela Dra. Adriana Dini Schimm Elpfeng, que abandonou o tom suplicante do Dr. Aldo e passou a buscar nulidades técnicas ― que foram uma a uma derrubadas pelo promotor de justiça e pela juíza.

Tenta ainda Dr. Adriana escudar-se no testemunho de duas garotas, Aline Ribeiro dos Santos e Natalina Aparecida de Souza Carvalho, que com ela trabalhavam e com o cliente que teria comprado às drogas para ela, um tal de Salvador, não apareceu para fazer sua parte. Tudo em vão.

Assim como Mônica, sou temente a Deus, nosso Salvador, e tocado pelas palavras de Dr. Aldo vejo quão justa foi a sentença de Drª. Andrea Ribeiro Borges. Esta magistrada deu uma oportunidade para que a garota viva em melhores condições de vida pelo período de dois anos e seis meses, com alimentação digna, sem ter necessidade de prostituir-se ou passar por mais humilhações da vida em liberdade.

Auguste Dupin, o PCC, e o Apocalípise.

“Com efeito, meu caro Dupin, se o ser a que chamam Diabo tivesse querido montar sua estrutura aqui na terra, acaso a teria formado de outro modo diferente que a organização criminosa Primeiro Comando da Capital?”

Discutíamos em uma roda de amigos sobre o Armagedom e a vinda do Anti-Cristo, e meu amigo Rodrigo Domingos Sevandija tentava persuadir Auguste Dupin que a estrutura demoníaca era o próprio PCC ou talvez algo congênere.

Os argumento de Rodrigo colocaram alguns da mesa a seu favor. Confesso que temi pelo amigo Dupin; eis no entanto como ele respondeu, sem perturba-se citando um caso ocorrido aqui em Itu, como sempre direto e prosaico:

“Não me parece que o Deus teria que mobilizar legiões de anjos para a Batalha Final caso sua ridícula teoria fosse verdadeira. Uma guerra onde bilhões de almas terão seu destino definido, não pode pela primariedade que é esta organização criminosa.

Alguns dos senhores aqui conhecem a GCMf Furlan. Uma guarda civil municipal profissional e competente, mas longe está de ser uma legionária apocalíptica, mas que participou da operação da prisão de um dos líderes do PCC de Itu.

A ação coordenada pela Polícia Civil de Itu e pelo DEIC, com apoio da Polícia Militar e da Guarda Civil Municipal, culminou com a prisão de Adelson, conhecido como Irmão Itu, e de sua companheira Cleonice.

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Enquanto Furlan e os demais policiais seguiram para Araçariguama, local onde estava vivendo o casal de criminosos, outros agentes seguiram para uma casa no Alberto Gomes em Itu para prender outros membros da organização.

Quando Cleonice alugou a residência de Paulo para ser a central de distribuição de drogas na cidade de Itu, ele não tinha ideia da dor de cabeça que teria ao aceitar aquela simpática senhora como sua locatária, muito menos suas intenções com a casa.

Os policiais fizeram um bom trabalho, mas convenhamos, todos nós aqui conhecemos os meios precários de que dispõem o nosso pobre aparelho policial, e se o PCC fizesse parte de um estratagema demoníaco, podem os senhores estarem certos que tão fácil não cairiam e com tanta facilidade. Uma legião demoníaca teria crivado de balas Furlan e todos os agentes da lei.

Mas algo eu convenho contigo Rodrigo, uma batalha apocalíptica começou naquele dia. A operação terminou, os algozes estavam presos, mas foi apenas o começo da guerra.

Passados anos o processo judicial ainda está patinando e ninguém foi julgado. O Dr. Milton Bonelli, advogado de defesa de Cleonice, desafia o investigador de polícia Moacir Cova que alegou durante uma audiência que teria filmagens confirmando o tráfico: ‘.. as referidas filmagens podem constituir-se em provas cabais contra, ou a favor, da acusada, a confirmar ou infirmar, as versões do policial.’ Será que a guerra entre Deus e o Diabo dependerá da batalha entre Dr. Bonelli e do investipol Moacir Cova?
O Armagedon e a vinda do Anti-Cristo, meu amigo Rodrigo, está sim próximo, pois assim está escrito, mas nada irá me dissuadir que a estrutura demoníaca é o próprio sistema político. Não existem outra organização criminosa tão eficiente. O demônio estava inspirado quando sugeriu àquele grego que batizasse tal sistema político de democracia – talvez foi piada ou egocentrismo, não arrisco a dizer.”
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A organização criminosa expande sua atuação.

Você me coloca em uma posição difícil ao exigir que eu escolha. Não é um direito seu me obrigar a me declarar ingênuo ou idiota. Na realidade talvez eu não seja nem uma coisa nem outra. Agora, se o senhor disser que eu sou hipócrita, alegando que de tudo eu sabia, mas nada fiz para acabar com aquela barbaridade por pura comodidade, talvez seja justo.

O Governador Mário Covas, que Deus o tenha em Seu Reino, bradou aos sete ventos que não existia a facção criminosa que dominava presídios, impondo aos detentos uma lei de cão… Foram sete anos negando até que a realidade chutou sua porta. Muita gente morreu e sofreu enquanto ele tapava o sol com a peneira, e nós, todos nós, incluindo você não queríamos ver.

Agora, o governo nega o restabelecimento do Primeiro Comando da Capital, pois segundo a Secretaria de Segurança Pública, a partir da queda do Geleião sobraram apenas membros isolados trabalhando de maneira desarticulada. No entanto o que se percebe é um crescimento efetivo do poder deste grupo, e todos nós, incluindo você não queremos ver.

São raras as cidades no estado em que alguma facção não tenha completo domínio dos pontos de vendas em seu território, mas a população ainda não conseguiu ver esta realidade, pois aparentemente são os pequenos e pobres rapazes que fazem as correrias que são presos no dia-a-dia policial, exatamente como o governo afirmou, e é o que nós queremos acreditar.

Recente um membro da facção foi preso enquanto agia no Jardim Araras, em Alta Floresta ao Norte de Cuiabá. Segundo o noticioso 24horasnews.com.br o nome do integrante seria Júlio Cézar de Souza, conhecido por Polaco ou Bruxo, que tinha em seu poder um quilo de pasta base, e estaria atuando como garimpeiro na região. Será que um dia saberemos o que de fato lá ocorreu?

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Provavelmente não. A polícia busca condenar o indivíduo e esclarecer outros casos correlatos, não tendo interesse em estudar a estruturação social do crime, e é esta fragilidade do sistema de segurança permite que a facção criminosa expanda seus domínios, não de forma estudada e orquestrada, mas de maneira natural e intuitiva, conforme apregoou o governo de São Paulo.

Não é apenas em Cuiabá que membros da facção se infiltram entre os garimpeiros. Aqui em Itu, uma tradicional cidade paulista com quatrocentos anos de história e berço dos colonizadores que formaram Cuiabá, passa pelo mesmo problema. Há alguns anos o Ministério Público do Meio Ambiente de Itu tentou desocupar um bairro chamado Pedreira…

O local é uma pequena favela formada principalmente de pessoas ligadas à lavra. A polícia militar não garantiu a segurança da equipe que faria as intimações sem um planejamento de ocupação, pois aquela era uma área de risco – de fato pedras eram jogadas nas guarnições que por lá apareciam. No fim foi a Guarda Civil Municipal quem convocou a população.

Era sabido que no bairro Pedreira em Itu haviam membros da facção criminosa que utilizavam o local por ser de fácil acesso e ao mesmo tempo longe do controle da polícia. Mas quem é que se preocupava ou se preocupa com a segurança das pessoas que viviam e vivem naquele bairro? Os governadores que negavam a existência da facção? Eu e você? Ninguém!

Não há quem possa resistir às hordas dos criminosos organizados. Os garimpeiros honestos de Cuiabá, os proprietários de Vans que servem o litoral, os flanelinhas dos principais centros urbanos, a população do bairro Pedreira… são dominados como se fossem crianças de berço, enquanto isso, eu e você vamos fazer de conta que acreditamos que a facção está decadente.

Mas na humildade e disciplina cada soldado do PCC está chegando chegando, representando os irmãos do crime, e por tudo isso não é um direito seu me obrigar a me declarar ingênuo ou idiota. Na realidade talvez eu não seja nem uma coisa nem outra, só esteja tentando viver minha vida, mesmo sabendo que pessoas estão chorando em um vale de lágrimas, aqui ao lado.
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O garoto e o chefe do Primeiro Comando da Capital.

Chevalier Auguste Dupin divertiu-se em sustentar a opinião daquele meu desafeto. Meu amigo sempre que podia tentava me tirar do sério defendendo pontos de vista opostos aos meus. Puro exercício de semântica. Só relato aqui, pois um dia os dados contidos neste diálogo podem ser de alguma importância no estudo dos fatos relativos aos PCC (Primeiro Comando da Capital) de Itu.

Disse ele que o consumo e o comércio de substâncias psicotrópicas são tão antigos quanto à própria sociedade humana, e o mais natural, pois já o haviam encontrado presente em ambos na antiguidade de ambos os hesmiférios; algumas civilizações incorporaram seu uso aos rituais sagrados; outras se tanto controlavam sua distribuição, mas nenhuma em verdade a proibia.

Afirmou que nos países muçulmanos se encontram bebidas em casas dos xeiques, mas a plebe é duramente castigada quando da mesma posse. Aqui um garoto em um bairro é condenado com duas paradas enquanto o filho de um industrial é liberado como usuário quando é flagrado em seu veículo de luxo com dois tijolos ou pacotes de êxtase.

Cita que as bebidas alcoólicas e as demais drogas são usadas pelas às camadas sociais mais favorecidas e imputadas como más para as outras. Lembrou que no nosso Livro Sagrado diz que é mais fácil um rico passar pelo buraco de uma agulha que entrar no Reino dos Céus. Segundo ele uma forma da antiga classe dominante fazer com que as outras valorizassem a pobreza e não buscassem tomar seus bens.
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Eu rebati dizendo que na verdade era mais fácil colher algumas folhinhas que ir à caça de lobos; o traficante nada mais é no meu modo de ver que um homem que não quer trabalhar, achou um caminho muito mais fácil que é usar da força a encarar a labuta diária: cansativa e interminável. Catar algumas folhas e deitar sob a sombra de uma arvore, como os antigos índios faziam.

Citei eu um caso que conheço e acompanho a anos:

Um garoto morador do Jardim Aeroporto é tido por muitos com extremamente perigoso. Ele e seus irmãos de fato conhecem não é de hoje o mundo do crime. Não creio que o jovem tenha mais que uns dezesete anos, mas em 2006 quando dos atentados do PCC, foi ele quem executou a única ação em Itu, a bomba caseira jogada no 50º Batalhão da Polícia Militar. Era então apenas uma criança e é claro que não estava sozinho.

Muitos acreditaram que ele fez por pura zoeira, outros que seria prova de coragem para ganhar moral junto ao partido, mas o que o tempo provou é que realmente ele não agiu ao léu. Outro dia desses estava um dos irmãos dele conversando com Júlio César dos Santos, o Preto, chefe do tráfico em quase toda cidade de Itu e líder do PCC local. O garoto resolveu montar uma biqueira no bairro São Camilo para vender “verdinhas” (maconha).
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Júlio César fechou com o garoto, mas alertou para tomar cuidado com quem ia colocar nas correrias (vendedores): “…só que é o seguinte cara, se esses moleques der perdido em mim, nós vai matar…”. É a palavra do garoto que sustentou a transação: “não, não, o moleque que eu tenho lá irmão, não dá perca não, é certinho.”

Este garoto tem de tudo para se tornar um dos futuros líderes do partido na cidade, pois seu trabalho tem se destacado em várias áreas. Se Júlio César levou três anos para em um 27 de janeiro se tornar irmão, o jovem já está chegando ao tempo. As regras mudaram e hoje a ascensão dentro da estrutura é cada vez mais difícil, mas o destaque de suas ações é notória dentro e fora do mundo do crime.

Este garoto encaixa-se perfeitamente no exemplo que eu queria dar a Dupin, não tenho a menor dúvida que com seu espírito empreendedor, audacioso e com liderança nata, teria chances de ascensão em qualquer empresa que ingressasse. No entanto além do glamour do mundo negro, junta-se a falta de concorrência e a liberdade de horário. Como disse é mais fácil pegar umas folhinhas que encarar o trabalho duro do dia a dia. Não tendo nada de “costume natural” da sociedade humana como dizia Dupin, apenas preguiça.

O movimento na Praça da Matriz naquela noite estava acima do normal, uma viatura da polícia militar passou por nós e acenou, descendo a rua Sete de Setembro. Dupin foi até um garoto que descia de bicicleta vindo da Praça do Carmo. Logo volta e mostra duas porções que havia comprado. Entendi como Watson devia se sentir quando Holmes se deleitava com seu ópio e sua cocaína.

Não fiquei para a réplica de Dupin. Deixei-o lá com meu desafeto e suas drogas de idéias. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});