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Autor: Ricard Wagner Rizzi
O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)
Como faço todos os dias, acordei neste dia 24 de novembro às 6h30min, tomei meu banho, fui ao meu escritório que fica nos limites de minha casa, trabalhei o dia todo, atendendo clientes e tudo mais, sai do meu escritório às 17h30min. Fui pra casa? Que nada, fui ajudar minha esposa e filho na sorveteria da família. É, sou abençoado, levo uma vida boa, tenho um escritório e uma sorveteria, cheio de dívidas, mas tenho uma vida confortável, afinal trabalho muito para isso. Chovia nesse dia, mesmo assim para tentar pagar as contas ficamos com a sorveteria aberta até as 20h. Que droga, perdemos tempo, não vendemos nada… E as contas como ficam?
Mas tudo bem, amanhã é outro dia. Jantei, vi um filme na televisão e cansado fui dormir. Acordei de madrugada com minha cachorra latindo, minha sorveteria fica no mesmo terreno de minha casa. Saí com medo, mas saí… Que droga! Peguei um ladrão dentro de minha sorveteria. Brigamos, minha mulher apavorada só gritava. Ligamos para a polícia, que veio rapidamente. Aliás, que Deus mantenha e abençoe a nossa Polícia Militar, pois aí está um pessoal que mesmo fazendo papel de palhaços pela justiça, trabalham pra caramba. Eles prendem a justiça solta…
Foi com a chegada da PM que a minha surpresa começou. Fiquei sabendo que o bandido, já tinha estado em minha sorveteria horas antes e tinha conseguido efetuar o roubo, porém, foi detido pela nossa gloriosa e também trabalhadora Guarda Civil Municipal, que tinha levado o bandido para a Delegacia de Polícia, que por sua vez, também fazendo papel de palhaço diante da lei, foi obrigado a liberar o jovem de 17 anos, não é jovem infrator… Palhaçada Geral.
Pois é meus amigos, o bandido foi detido após um roubo e teve a cara de pau de voltar para roubar o resto, menos de uma hora depois… Certeza de impunidade dá nisso.
Mas esperem que a surpresa não termina aí. Na delegacia fiquei sabendo que o bandido, já tinha sido preso várias outras vezes, inclusive por atirar na perna de uma moça. Caramba! Cadê a Febem? Cadê as casas de recuperação? (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Pior de tudo, foi que o tempo todo o bandido ameaçava a mim e a minha família, dizendo que iria voltar para me matar. Quase pedi para ficar preso, pois assim me sentiria seguro contra esse bandido.
Porém, tenham calma, tem mais… Com a chegada da mãe do bandido… Ah!!! Desculpa, posso ser processado por isso, ele não é bandido, é “menor infrator”, por favor, autoridades pelo uso indevido da palavra bandido. Continuando, com a chegada da mãe do menor infrator ficamos sabendo que ela já tinha ido até o Ministério Público, dias antes, pedir para que prendessem o filho, pois ela como responsável legal, não estava conseguindo mais segurar a criança… Criança? Precisam ver o tamanho da criança! E mesmo assim, nada foi feito com esse menor infrator. E pior, agora repetindo as palavras da mãe: “fui até menosprezada no Ministério Público”. Fiquei muito irritado, pois não costumo usar nariz de bola vermelha e prá não sair da delegacia junto ou mesmo após quem me roubou, vim embora irritado. Ah! Vim a pé, pois não tenho carro.
Na chegada em minha casa, encontrei minha esposa nervosa e com medo de voltar abria a sorveteria, pois como já disse, as ameaças foram contínuas. Liguei a TV para me distrair, e no noticiário, ouvi uma matéria que dizia de um assalto à casa de um juiz, nem lembro onde, e que os assaltantes, menores lógico, tinham sido encaminhados a casa de menor para ficarem detidos. Caramba, taí a resposta a todos os meus problemas. Vou mudar de profissão e virar Juiz, pelo menos assim se assaltarem minha casa, os ladrões vão ficar presos. Até que enfim achei a saída para tudo isso!
Meus amigos, até quando vamos aguentar essa palhaçada toda? Até quando vamos ver a população com medo? Até quando vamos ver a polícia trabalhando feitos palhaços, pois vivem vendo os bandidos rirem das caras deles, apenas por serem menores, sem nada poder fazer…
Até quando isso tudo vai continuar? Desculpas e mais uma vez agradeço a nossa Polícia, que, mesmo sabendo que iria ter que soltar, fez o seu papel e levou mais um bandido para a Justiça. Pena que no Brasil, nem tudo o que leva o nome de Justiça é justa! Mais um bandido solto, mais uma família com medo e mais um político sem fazer nada… (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});
TS Bovaris: Esta matéria foi originalmente publicada na coluna Tribuna do Leitor do Jornal Periscópio. Com autorização do autor, Sr. José Carlos Dalben, reproduzimos aqui na íntegra.
Os termos: bandido e menor infrator, foram termos utilizados pelo autor. Este blog denomina tais cidadãos como profissionais do crime, em respeito a estas laboriosa classe trabalhadora, e em respeito aos seus direitos civis. Lembramos também que não publicamos aqui matérias envolvendo menores, tão protegidos pela legislação. Só não entendemos porque é que nós também não podemos ser protegidos também.
A Avenida da Paz Universal é a fonte da vida do Bairro Pirapitingui em Itu, tudo passa por aquela via: o comércio floresce, as pessoas se divertem, e o tráfico de drogas tem um de seus principais eixos de distribuição.
Luciano resolveu dar um pulinho até lá, naquela manhã de quarta-feira, 13 de maio de 2009. Antes tivesse ficado em sua casa do outro lado da cidade no Jardim Oliveira.
Um cidadão está por lá liga para a Guarda Municipal denunciando que dois jovens estão traficando na esquina da Rua Mauá: “ um deles sem camiseta e shorts branco e outro com camiseta na cor preta”. Uma viatura da guarda chega ao local e lá estão os rapazes. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Luciano apresenta ao GCM Délcio uma pedra de crack que ele trazia na boca e diz que tinha acabado de comprar a droga de Andrezinho por dez reais, dinheiro conseguido com a penhora do carregador de celular e que no dia anterior tinha comprado dele oito pedras pagando por elas com um celular.
O outro rapaz abordado era o tal do Andrezinho, como é conhecido André Luiz Silva da Costa, um rapaz de vinte anos que apresentou oito pedras de crack que trazia consigo na cueca. Disse ao GCM Waldir que era usuário e que tinha que vender a droga por estar desempregado e ter que sustentar seu vício.
Levados à presença do delegado do 4º DP, Dr. Regis Campos Vieira, André disse que tinha acabado de comprar aquelas drogas de um tal de Joãozinho, que tinha deixado o local um pouco antes da Guarda Civil chegar. Diante disso Dr. Regis manteve-o a disposição da justiça, e liberou Luciano que pode então voltar para o aconchego do lar.
Já, os parentes de André, estão tendo que visitá-lo no CDP de Sorocaba, mas seu defensor, o Dr. Francisco Aluízio Gazzola, afirma: “Este processo tem condições jurídicas a merecer uma mudança de rumo, uma guinada setentrional…”.
Para que lado penderá a agulha da bússola probatória, caberá à Drª. Andrea Ribeiro Borges dizer. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});
Para Rousseau, “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, talvez, mas também me parece claro que todo homem no seu âmago sabe que é mau. O certo é que todas as pessoas, em certo momento sentiram em seu coração, o mais primitivo impulso animal, a muito condenado: cometer ações malignas, sem dó nem piedade. Às vezes por motivos inacreditáveis…
Três pessoas morrerão por Camila tê-lo chamado de banguela.
O veredicto sobre esse caso o júri popular já deu, mas o leitor poderá julgar por si, desde que, em nenhum momento de sua vida, nem mesmo quando sido tomado de súbita emoção, ou quando era criança, que tenha desejado que algo de mau acontecesse a alguém que tenha lhe contrariado ou ferido. Pois a diferença entre desejar e fazer é apenas a coragem de executar seu intento.
Ir a Avenida da Paz Universal na Cidade Nova em Itu no final de semana a noite é a diversão dos jovens daquele bairro. É lá onde tudo acontece, onde está o som, o agito, as azarações e o fervo. Camila da Guia de Souza, não ia deixar de acontecer àquela noite: (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Morena clara de cabelos ondulados, dezessete anos e visual incrementado: mini-blusa preta, calça jeans, relógio Champion de pulso, gargantilha com pingente, anéis com ideogramas orientais. Não teria prá ninguém. Ainda era cedo, mal tinha dado oito da noite, quando ela despediu-se de sua mãe e avisou que ia até o Clube de Forró do Ceará e lá pelas três da manhã estaria de volta.
Marcos Michel ia ficar com alguém aquela noite. Ele tinha certeza disso. No Bar Altas Horas na avenida da Cidade Nova, chegou para uma, passou para outra, e assim ia de garota em garota. Já passava da meia-noite quando Edson Oliveira dos Santos, o Bila ou Billi, passou por lá com as duas garotas, uma delas a morena Camila. Marcos Michel conhecia a garota e não gostava nem um pouco dela, afinal ele tentou namorar a sua irmã, a Tatiane, e ela estragou tudo. Mas ela ficou conversando com um conhecido deles, o Hugo Inocêncio Filho, com quem acabou saindo.
Tatiane da Guia de Souza, a irmã de Camila, lembra que Marcos Michel estava muito louco aquela noite e lhe disse: “Mina, tá passando uma cena muito louca na minha cabeça. Vou aprontar, depois você vai ver.”
Camila voltou com Hugo depois das duas da manhã. Marcos Michel chega até ela e lhe mostra uma parada de maconha, todos ali afirmarão mais tarde que Camila saia com qualquer um por um michê branco. O fato é que, Marcos Michel, convidou-a para dar um pulinho numa construção lá perto para fumarem sossegados.
Camila vagava despreocupada pela madrugada, esquecendo-se que havia dito para sua mãe que retornaria às três da manhã e já havia passado meia hora. O tempo voa nas assas negras da morte, e ela aceitou o convite de Marcos Michel, seguindo para a obra com ele e mais dois amigos: o Billi e o Preto, como era conhecido por ali o Aparecido Sérgio Ramos.
Algo como uma hora depois, Marcos Michel volta. Sozinho, elétrico e bastante nervoso: dá um tapa na cabeça de Hugo e vai embora. Era madrugada do dia 31 de janeiro de 2004, e não se passariam trinta horas antes que três corpos fossem achados, sendo primeiro o de Camila, ainda naquela manhã, na malfadada construção da Rua Isabel Chandeco de Souza.
Os componentes daquela viatura da Guarda Civil Municipal foram acionados para atender a um caso de furto. Um comércio foi invadido e a vítima conhecia quem praticou o crime – morava lá próximo. A viatura segue para o local, Marcos Michel estava dormindo. Aqueles guardas, sem saber estavam lhe salvando a vida no momento em que o algemaram.
Na madrugada do dia seguinte cabe ao GCM Valdeir e ao GCM Spinard as providências quanto ao segundo corpo encontrado. Billi estava abandonado na Rua Lazaro de Castro, 265, no Jardim Europa. O corpo de Preto, seria encontrado mais tarde na Rua Timburi no Bairro Cidade Nova.
Muitos acusaram Calango, um rapaz que ficava direto com Camila no Trailler do Jair, próximo ao campinho da Cidade Nova, como sendo o justiceiro da garota. O que se sabe ao certo é que dos três homens que teriam ido até a construção com ela, apenas Marcos Michel permaneceu vivo, pois no dia de fúria ele estava a salvo, atrás das grades.
Marcos Michel posteriormente foi solto, pelo crime pelo qual estava preso. Teria então passado a ameaçar Hugo, pois achava que ele tinha sido a última pessoa viu Camila com vida junto dele indo para a obra. Preso novamente por outro crime, ele sobreviveu para poder dizer aos jurados do Tribunal de Justiça de Itu e quem o quisesse ouvir o que realmente aconteceu àquela madrugada fatídica:
De fato ele foi até o quiosque, ficou lá até uma hora da manhã tomando cerveja com o Michel, filho do proprietário do local, e com duas amigas: Tami e Paola. Viu Camila de quem não gostava, pois ela o havia chamado de banguela, mas ele foi para a sua casa e dormiu o sono dos inocentes até a chegada dos homens da Guarda Municipal, que o acordaram ainda bem cedo. Fim da história.
Após ouvi-lo cuidadosamente, assim como seu brilhante defensor, os jurados optaram por condená-lo pelo crime de assassinato e de estupro. O Dr. Hélio Villaça Furukawa fixou a pena total em dezessete anos de prisão. O qual deverá responder preso, com ou sem dentes, mas vivo. Sorte que não tiveram Preto e Billi, culpados ou não, banguelas ou não. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});
Não se pode descrever a cena de outra forma: uma fúria demoníaca se apossou de Severino, ele já não sabia mais o que estava fazendo, não era mais ele quem estava no comando daquele corpo. Seguiu em direção a Djalma, seu colega de morada, um deficiente físico sem uma das pernas, que estava bêbado deitado na cama. Djalma Souza da Silva não teria chance aquela noite. Em poucos minutos estaria morto à pauladas.
Anos depois o Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze e o advogado de defesa do réu Dr. José Maria de Oliveira iriam de digladear perante os jurados do Tribunal do Júri da Comarca de Itu para saber o destino de Severino Francisco de Moreira. Noite de 12 de dezembro de 1996, quinta-feira. Uma noite tão boa para beber quanto qualquer outra. Pelo menos para aqueles dois, que viviam embriagados. Mas o clima já não estava bom entre eles há muito tempo. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Meses antes, Isaac Shapiro havia convidado Severino Francisco de Moreira, um morador de rua para habitar um barracão de sua propriedade na Avenida Alfredo Savi próximo à Favela do Isaac, no Jardim Novo Itu. Em troca ele deveria ajudar no concerto e na limpeza de móveis e fogões usados de sua loja no centro da cidade. Um bom negócio para ambos. Severino estava satisfeito também, teve mais uma chance na sua vida, e desta feita não pretendia perder. Mas nem tudo era perfeito. O barracão já tinha um morador: Djalma, um aproveitador e usurpador. Severino via aquele homem com quem foi fadado a dividir o espaço, como um chupim disposto a comer suas próprias entranhas, se ele assim o permitisse. Mas ele não o permitiria. Ele não o permitiu. Não estamos aqui a levar em consideração nossas convicções pessoais, religiosas ou de foro intimo. Para isso confio no julgamento dos senhores, pois a justiça dos homens já cuidou de Severino à sua maneira. Mais uma briga: além de ter que trazer comida para o barracão, agora Djalma queria obrigá-lo a cozinhar. Severino foi bêbado para o barracão para se deitar. Severino aguarda tempo suficiente para que ele se ajeite. Segue também para a morada e vai empunhando o objeto que em breve estaria sujo com o sangue de Djalma. Depois do primeiro golpe este ainda tenta se levantar da cama, mas apenas consegue se arrastar pelo chão enquanto outros golpes lhe são aplicados. Um sobre os outros, todos na cabeça, até não mais haver vida naquele corpo.
Severino foi preso, mas fugiu da Cadeia Pública de Itu no dia 2 de junho de 1997. Encarcerado novamente sentou-se perante seu acusador, o Ministério Público da cidade de Itu, que lhe descreveu-o como mal. Apoiado no depoimento perante o júri popular do GCM Machado, que na época participou das investigações do crime, alegou que ele não apenas era um alcoólatra compulsivo, mas como alguém que odeia a todos que o rodeiam. Um perigo para a sociedade, que ele Promotor de Justiça, tem por dever proteger e afastar dos perigos. Pedia, portanto, exemplar condenação.
No entanto o defensor, Dr. José Maria, atentou para que os jurados deliberassem com a razão. Julgar com a inteligência é a seu modo de ver, seria enviá-lo a um manicômio judiciário. Claro está que ele não age de maneira racional. É um louco, e um louco perigoso, que ouve vozes e imagina coisas – afirmou o próprio defensor. Para seu próprio bem e de toda a sociedade deve ser mandado para tratamento e lá ficar até que seja prontamente restabelecido de suas faculdades mentais. Demore o quanto demorar.
Os jurados condenaram o réu a dezesseis anos de prisão.
“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia” esta frase poderia ser a conclusão de qualquer um de nós ao assistir aquela cena.
Assim como Edgar Allan Poe não o fez, eu também não pedirei a nenhum dos senhores que acreditem no que vou aqui narrar. Pessoas sensatas os senhores devem ser e talvez até caçoem destas minhas linhas, e louco estaria eu se não esperasse tal reação.
O que aqui descreverei acontece por todo o país, e imagino quanto isso não custa aos nossos bolsos – o que os sorridentes e simpáticos políticos não roubam, acaba sendo usado para custear tal escárnio.
No Fórum de Itu, dezesseis horas da véspera do feriado da Consciência Negra chega um camburão do Sistema Carcerário do Estado de São Paulo, escoltado por uma viatura da Policia Militar. Aquele preso, apesar de previsto, não era esperado. Quem imaginaria que aqueles cinco homens uniformizados, representando a força do Estado e a vontade do povo, teriam que cumprir aquele ridículo papel. Os seguranças do Fórum colocam-se de prontidão, tomando as medidas para receber o encarcerado garantido que chegue com segurança até a presença do magistrado – sinais dos tempos, antigamente se garantia a segurança dos cidadãos e autoridades, agora garantesse a segurança do réu.
Um dos agentes de segurança penitenciário vai até o oficial de justiça de plantão para apresentar o escoltado. O escrivão da sala do Juiz vai até o réu confirmar seus dados, chamando-o para ser ouvido gabinete do magistrado onde estão: o juíz, o promotor de justiça, o escrivão, a advogada de defesa nomeada pelo Estado, o agente penitenciário e o Policial Militar. O réu, com aparência de quem ainda estava sob o efeito de alguma droga olha com olhar perdido para tudo aquilo.
Kafka não teria alucinado o diálogo que ocorreu ali:
Eu não estava nesta fita. Os polícias entrouxaram em mim este 157. – réu olhar distante.
Não é pelo roubo, que o senhor está aqui, ele corre por outra vara. – com calma e paciência invejáveis, o magistrado responde.
Eu não sei nada deste 121. Não vou falar nada. – réu olhando mais longe ainda.
Sua audiência sobre o homicídio foi ontem. O senhor quer fazer a gentileza de permitir que eu faça a leitura. – magistrado, já um pouco impaciente:
“No dia tal, na Avenida da Paz Universal, no Bairro Pirapintingui, o senhor foi flagrado com duas porções de maconha, por este fato, manda a lei que eu o advirta. É só isso que o senhor está aqui. Pode assinar e ir embora.”
Cadê meu advogado. – pergunta o réu vendo através das paredes.
É a doutora tal que está aí ao seu lado. – responde o desolado magistrado, que com certeza pensava naquele momento se valeu a pena estudar tanto para chegar a isso.
Eu não vou assinar nada doutora… – fala o réu focando o olhar através da doutora.
Depois de meia hora de esforços de todos ele aceitou assinar o papel.
Gangue dos Manos da Cidade Nova: conheça a história do grupo que aterrorizou Itu nos anos 80 e 90 e como sua queda abriu caminho para a ascensão do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), mudando para sempre as regras do crime nas periferias paulistas.
Público-alvo: Leitores interessados em história criminal, crime organizado, violência urbana e evolução do PCC no interior paulista.
Advertência ao leitor: Contém descrição de crimes e violência que podem ser sensíveis para alguns leitores.
A era da violência predatória
Entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, a Gangue dos Manos da Cidade Nova se tornou sinônimo de medo em Itu. O grupo não nasceu como uma facção criminosa estruturada, mas como uma turma de pichadores e pequenos ladrões. Rapidamente, a pichação virou violência; o furto, roubo e sequestro. No início, limitavam-se a extorquir dinheiro em trailers de lanche; no fim, colocavam as mãos e os rostos daqueles que os desafiavam sobre as chapeiras incandescentes desses mesmos trailers.
O bairro, já afogado na pobreza e no desemprego, viu seus becos se tornarem corredores de intimidação. Ali, a violência não era mais exceção — era rotina. E cada noite trazia a sensação de que a madrugada seguinte poderia ser pior, como se a Cidade Nova vivesse um estado de sítio sem decreto e sem data para acabar.
Não era uma gangue vinda de fora do bairro. Eram filhos da mesma rua, rapazes que cresceram jogando bola no mesmo campinho e agora ostentavam facas e armas para intimidar os próprios conhecidos da vizinhança. A guerra não vinha de fora — brotava da poeira das ruas sem asfalto. O domínio da Gangue dos Manos da Cidade Nova era alimentado pelo medo coletivo e cimentado pela certeza absoluta da impunidade. Se o diabo não morava ali, certamente havia deixado a chave, a escritura e o comando da porta principal nas mãos deles.
A ruptura desse domínio só veio quando a Guarda Civil Municipal, as polícias Militar e Civil, e o Ministério Público do Estado de São Paulo decidiram agir em conjunto. Sob a liderança firme da promotora Drª. Vânia Maria Tuglio, as operações foram sangrentas e implacáveis. O resultado foi o desmonte da gangue: líderes mortos em confrontos, integrantes presos e outros relegados à miséria. No final da década de 1990, a Cidade Nova já não vivia sob a sombra plena dos Manos — mas alguns sobreviventes ainda circulavam, e entre eles estava Marcelo Paulo, o Mocó.
A madrugada que fechou um ciclo
Na madrugada de 30 de abril de 2000, pouco antes das duas da manhã, o Bar do Ceará, na Rua Lauro de Souza Lima, ainda fervia. Severino e Adriano acreditavam estar encerrando bem a semana, embalados pela companhia das bebidas e de mulheres, sem imaginar que o caminho que seguiam os colocaria frente a frente com um sobrevivente da Gangue dos Manos da Cidade Nova.
O ar noturno não trazia o silêncio tenso que costuma anunciar a violência — pelo contrário, era preenchido pelo riso alto, pelo som das conversas e pela música que escapava do bar e dos veículos do rolê. Mas, por baixo dessa camada de festa, havia algo invisível, como se uma sombra silenciosa observasse de alguma esquina, murmurando para si mesma que aquela alegria não duraria muito.
Mocó, ao ver sua namorada prestes a entrar no carro de dois desconhecidos, interpretou a cena como provocação direta — e respondeu na única linguagem que entendia: a do sangue derramado.
Adriano foi o primeiro a ser atingido. Severino reagiu por instinto, lançando-se sobre o atirador e derrubando-o. A tentativa de fuga foi breve: Mocó se levantou e disparou mais duas vezes, acertando-lhe o braço e o pé.
Adriano foi o primeiro a ser atingido. Severino reagiu por instinto, lançando-se sobre o atirador e derrubando-o. A tentativa de fuga foi breve: Mocó se levantou e disparou mais duas vezes, acertando-lhe o braço e o pé.
Para quem viveu os anos de auge da Gangue dos Manos da Cidade Nova, aquela era apenas mais uma cena do dia a dia — tão corriqueira quanto a abertura das portas do bar ou o ronco das motos acelerando na avenida da Paz Universal. Alguns olharam de relance e voltaram a conversar, como se os tiros fossem apenas parte da trilha sonora da madrugada. Outros se encolheram nos cantos, não por medo do som das balas, mas por temor de que a próxima palavra dita em voz alta pudesse atrair a atenção.
O caso foi parar no Tribunal do Júri de Itu em 17 de novembro de 2009. Os advogados Dr. Afrânio Feitosa Júniore Dr. Ricardo Ribeiro da Silva tentaram convencer os jurados de que Mocó agira sob “violenta emoção”, sustentando que qualquer homem, naquela circunstância, teria reagido. O Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze pediu absolvição pelos tiros contra Severino, mas defendeu a condenação pela tentativa de homicídio contra Adriano. O veredito foi de sete anos de prisão. Para um homem já preso, era mais uma sentença; para o bairro, era o ato final de um personagem que simbolizava o fim de uma era de violência e medo.
O PCC e o fim da violência contra morador
A queda da Gangue dos Manos da Cidade Nova coincidiu com a ascensão do Primeiro Comando da Capital. O PCC adotou um código diferente: proibir ataques contra a própria comunidade. Essa política, mais do que um senso de justiça social, era uma estratégia — proteger a base de apoio e evitar chamar a atenção indesejada da polícia. Pelas regras do PCC, aqueles que voltam suas armas contra os moradores do próprio bairro, como fizeram os Manos, podem até serem julgados pelo Tribunal do Crime.
33. Mau exemplo: Fica caracterizado quando o integrante foge do que rege a nossa disciplina, não passando uma imagem nítida da organização, quando se coloca como faccionário diante da massa, desrespeitando e agindo totalmente oposto ao que é pregado pela facção.
Assim, o que antes era violência desorganizada e predatória deu lugar a uma violência mais ordenada e controlada. Não se trata de romantizar a facção, mas de reconhecer que o modelo de domínio territorial mudou. A execução aleatória, a extorsão do vizinho e a intimidação gratuita — marcas registradas da Gangue dos Manos da Cidade Nova — se tornaram práticas proibidas no novo regime.
Com a condenação de Mocó, Itu não apenas se despedia de um criminoso, mas encerrava um capítulo inteiro de sua história criminal. Um capítulo escrito com medo, silêncio e sangue, mas também com a lição de que até o crime, para sobreviver, precisa de regras. Na Cidade Nova, a memória dos Manos ainda ecoa, mas hoje é apenas isso: memória — feita de cicatrizes, de histórias sussurradas e de túmulos esquecidos.
Análise de IA do artigo: Gangue dos Manos da Cidade Nova: o último ato de Mocó em Itu
Dados fáticos isolados
Local e época da atuação da gangue
A “Gangue dos Manos da Cidade Nova” atuou em Itu, Estado de São Paulo.
Período de maior atividade: final dos anos 1980 e início dos anos 1990.
Origem e evolução da gangue
O grupo começou como um coletivo de pichadores e pequenos ladrões.
Evoluiu para crimes mais graves: roubos, sequestros, torturas e assassinatos.
Chegou a extorquir comerciantes locais (trailers de lanche).
Há registro narrativo de que usavam chapeiras aquecidas para ferir quem os desafiava (detalhe dramático que, no texto, é apresentado como fato).
Impacto social
A gangue atacava moradores do próprio bairro (“predadores de comunidade”).
O bairro da Cidade Nova sofria com pobreza e desemprego.
Combate à gangue
Ação conjunta da Guarda Civil Municipal, Polícia Militar, Polícia Civil e Ministério Público do Estado de São Paulo.
Atuação destacada da promotora de justiça Drª. Vânia Maria Tuglio.
Resultado: desarticulação da gangue; líderes mortos, integrantes presos ou vivendo na miséria.
Declínio da gangue ocorreu no final da década de 1990.
Personagem central – Marcelo Paulo (“Mocó”)
Integrante sobrevivente da gangue.
Envolvido em um crime ocorrido na madrugada de 30 de abril de 2000, no Bar do Ceará, Rua Lauro de Souza Lima, Cidade Nova, Itu.
Vítimas: Adriano (primeiro atingido a tiros) e Severino (ferido no braço e no pé).
Contexto: Mocó viu sua namorada prestes a entrar no carro das vítimas, interpretando como provocação.
Julgamento
Data: 17 de novembro de 2009, Tribunal do Júri de Itu.
Defesa: Dr. Afrânio Feitosa Júnior e Dr. Ricardo Ribeiro da Silva.
Acusação: Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze.
Defesa argumentou “violenta emoção”.
Promotor pediu absolvição pelos disparos contra Severino, mas condenação por tentativa de homicídio contra Adriano.
Resultado: condenação a 7 anos de prisão (réu já estava preso).
Contexto criminal posterior
A queda da gangue coincidiu com a ascensão do Primeiro Comando da Capital (PCC).
O PCC tem política interna de proibir ataques contra a própria comunidade.
Análise factual e de precisão
Atuação e período: Não há dúvida de que grupos criminais atuaram em Itu nos anos 80 e 90, mas não encontrei registros públicos amplamente documentados com o nome formal “Gangue dos Manos da Cidade Nova”. É possível que seja uma denominação usada pela comunidade ou pela imprensa local. O contexto narrado (pichadores evoluindo para crimes graves) é compatível com padrões de formação de gangues urbanas no Brasil na época.
Modus operandi (extorsão e uso de chapeiras): Extorsões a comerciantes por grupos locais eram práticas comuns, mas o detalhe específico de “colocar mãos e rostos nas chapeiras” não aparece em registros jornalísticos acessíveis no meu banco de dados. Pode ser memória oral ou relato testemunhal. Como dado factual, exige citação de fonte primária ou entrevista para ser verificado.
Ação das forças de segurança: A atuação conjunta da Guarda Civil, PM, PC e MP-SP, com destaque para a promotora Vânia Maria Tuglio, é compatível com ações contra o crime organizado na região na década de 1990. Há registro de que a promotora efetivamente trabalhou em Itu e se envolveu em casos de repressão a grupos violentos.
Crime de 30 de abril de 2000: Os elementos narrados (local, nomes das vítimas, dinâmica do crime) não constam como caso de grande repercussão estadual, mas podem estar documentados em registros judiciais de Itu ou em jornais locais da época. O nome Marcelo Paulo (“Mocó”) como réu e a data do julgamento (17/11/2009) são dados que podem ser confirmados por consulta a atas do Tribunal do Júri.
Participação de advogados e promotor: Dr. Afrânio Feitosa Júnior, Dr. Ricardo Ribeiro da Silva e Dr. Luiz Carlos Ormeleze atuam ou atuaram na região, e seus nomes batem com profissionais reais. A forma como o promotor teria pedido absolvição parcial também é plausível e condiz com estratégias de acusação em casos de múltiplos disparos com dúvida sobre autoria.
PCC e “proibição de ataques à comunidade”: Essa diretriz consta de versões conhecidas do “estatuto” do PCC e de pesquisas acadêmicas. O ponto é preciso e amplamente documentado, inclusive no sentido de que o PCC combate esse tipo de criminalidade “predatória” para manter apoio popular e reduzir riscos.
Análise sob o ponto de vista da Antropologia
O artigo descreve a transição de um regime de violência “predatória” local, associado à “Gangue dos Manos da Cidade Nova”, para um regime de violência “regulada” sob hegemonia do PCC. Isso não é apenas um enredo criminal; é mudança de ordem social. Abaixo organizo a leitura em eixos antropológicos, com indicações de quando algo é inferência minha.
1) Território, pertencimento e moralidade local
O texto ancora a narrativa na Cidade Nova, com marcas de pobreza, desemprego e sociabilidade de bar e rua. Em termos antropológicos, temos um território com regras tácitas de convivência, no qual jovens “da própria rua” passam de pichação a práticas de intimidação, extorsão e lesão física de vizinhos. O artigo sugere que a autoridade não vinha “de fora”, mas emergia das redes locais e do medo cotidiano, até a ruptura por ação estatal e do MP ao fim dos anos 1990. Isso compõe uma ecologia moral onde “quem manda” se define pelo controle da violência e pela capacidade de extrair conformidade dos vizinhos.
Esse enquadramento dialoga com a literatura sobre periferias paulistas que mostra como “lei”, “respeito” e “paz” são disputados entre Estado, redes criminais e moradores, não como categorias jurídicas puras, mas como repertórios práticos de regulação social. Feltran descreve essa disputa de soberanias e a gestão da violência nas margens; a regra muda quando muda o agente capaz de fazer a regra valer. vibrant.org.brcentrodametropole.fflch.usp.brSciELO Brasil
2) Passagem de “predação de vizinhança” a “violência regulada”
O artigo afirma que a queda dos “Manos” coincide com a ascensão do PCC e sua norma de não atacar moradores. Em linguagem nativa, isso é “lei do crime”: código prático que busca reduzir atos que corroem apoio comunitário e atraem repressão. Antropologicamente, trata-se de conversão de capital violento disperso em autoridade normativa, com sanções internas (o famigerado “Tribunal do Crime”). Biondi detalha como “território, hierarquia e lei” no PCC produzem disciplina e diferenciam “irmão” de “pilantra,” operacionalizando o conhecido “proibido roubar na quebrada.” PCC 1533rau.ufscar.br
A consequência prática, observada por estudos etnográficos, é paradoxal: queda de certos delitos locais e aumento da legitimidade informal da facção como poder regulador. O “alívio” que o morador sente quando deixam de extorquir o trailer do bairro vem ao preço da naturalização de uma justiça paralela. Em termos de teoria política das margens, é substituição parcial da soberania estatal por uma soberania concorrente. Opinião: o artigo captura bem essa virada sem romantizá-la. vibrant.org.br
3) Masculinidade, honra e gatilhos situacionais
A cena-chave no Bar do Ceará condensa códigos de honra masculinos: ciúme, afronta percebida, arma como extensão do corpo. A reação imediata do agressor frente à namorada “entrando no carro” de outros homens é um script clássico, onde a reputação exige resposta rápida, especialmente em contextos de rua e álcool. Zaluar e estudos sobre masculinidades no crime descrevem esse “ethos guerreiro” que valoriza a prontidão para o confronto e confunde respeito com medo. Opinião: o texto acerta ao tratar isso como gramática local de masculinidade e não como desvio individual isolado. SciELO Brasilrevistas.direitosbc.br
4) Temporalidades e memória social
O fato narrado ocorre em 30/4/2000; o júri, em 17/11/2009. A própria defasagem temporal vira matéria etnográfica: o que circula como “verdade” no bairro são memórias, rumores e versões que sedimentam reputações. A narrativa do artigo ecoa essa memória moral: “último ato de Mocó,” “fim de uma era,” “mau exemplo,” categorias que coordenam lembranças e definem quem foi o vilão, quem impôs ordem e quando a rua “voltou a respirar.” Opinião: explorar os portadores dessa memória (donos de bar, guardas municipais, vizinhas antigas, mães de jovens presos) enriqueceria a análise.
5) Léxico nativo, performatividade e disciplina
O uso de categorias internas como “mau exemplo” e a referência à punição pela organização indicam que a linguagem faz trabalho social: nomear é disciplinar. O léxico do PCC opera como gramática de legitimidade, definindo fronteiras entre condutas aceitáveis e atentatórias à “quebrada”. Biondi mostra como essa metalinguagem prescreve conduta e produz identidades (irmão, morador, vacilão), com efeitos muito práticos no corpo dos sujeitos. Opinião: o artigo, ao citar a terminologia, aproxima o leitor do ponto de vista nativo sem absorvê-lo acriticamente. PCC 1533rau.ufscar.br
6) Estado, intervenção e “paz” produzida
A reconfiguração não nasce do nada. O texto credita à GCM, PM, PC e MP a ruptura do domínio dos “Manos”, com nomeação de atores institucionais. Em antropologia do Estado, essa aparição do aparato repressivo não é mera “polícia chegou e pronto”, mas um ato performativo que redesenha o mercado local da violência. Quando a repressão desorganiza chefias predatórias, abre-se espaço para outra ordem ocupar o vácuo. “Paz” é produzida, não descoberta, e frequentemente é paz condicional. Opinião: a costura entre ação estatal e emergência de norma faccional está alinhada ao que Feltran chama de gestão periférica da violência. PCC 1533vibrant.org.br
7) Forma narrativa e efeitos de verdade
O artigo adota um registro literário-jornalístico: cenas, metáforas, tempo dramático. Antropologicamente, isso ajuda o leitor a perceber o universo sensorial da rua e do bar, mas impõe cuidado na separação entre “fato” e “efeito de realidade”. A própria página inclui, ao final, seção que isola dados fáticos, bom antídoto para a tentação de tomar a boa escrita por prova. Opinião: manter a fricção entre documento e memória melhora a inteligibilidade pública do tema.
8) Limitações e salvaguardas interpretativas
— Nomes e datas do caso central cabem confirmação documental, dado o baixo lastro midiático amplo; mas a verossimilhança etnográfica do script é alta. Opinião. — “Proibir ataque a morador” não implica pacificação geral; implica outra racionalidade de controle. A bibliografia é robusta em mostrar tanto a queda de certas violências quanto a consolidação de um poder paralelo. vibrant.org.brrau.ufscar.br
Síntese
O artigo captura, com boa intuição etnográfica, uma transição de ordens: da violência difusa de rapazes “da rua” para a administração centralizada de uma facção que se legitima prometendo proteger “a quebrada” de seus próprios predadores. Em jargão acadêmico menos insuportável: saiu a tirania do boteco, entrou a burocracia do crime. Melhor para o morador em alguns aspectos; pior para o Estado de direito em quase todos. Opinião.PCC 1533vibrant.org.brrau.ufscar.br
Análise Aprofundada da Narrativa “O Último A Transição do Crime Organizado em São Paulo: Do Terror Local da Gangue dos Manos à Governança do PCC em Itu
Resumo Executivo
Este relatório oferece uma análise aprofundada da evolução do cenário criminal em São Paulo, utilizando a trajetória da Gangue dos Manos da Cidade Nova em Itu como um estudo de caso emblemático. O período entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 2000 testemunhou uma transformação fundamental: a passagem de grupos criminosos localizados e de natureza predatória para a ascensão de facções altamente estruturadas e estrategicamente sofisticadas, como o Primeiro Comando da Capital.
A Gangue dos Manos, que aterrorizou Itu, representava uma forma de criminalidade caótica, alimentada pela impunidade e pela desesperança socioeconômica. O “último ato” de Marcelo Paulo, o Mocó, um sobrevivente dos Manos, simbolizou o encerramento dessa era de violência desorganizada. Em contraste, a ascensão do PCC marcou a imposição de uma nova “ordem” no crime, caracterizada por um “contrato social” paradoxal com as comunidades e uma abordagem racionalizada da violência. Essa mudança redefiniu as regras do crime nas periferias paulistas, com implicações duradouras para a segurança pública e a dinâmica social.
Introdução: O Cenário do Crime Organizado em São Paulo
A violência urbana e o crime organizado no Brasil constituem um fenômeno complexo, intrinsecamente ligado a profundas desigualdades socioeconômicas e à frequente ausência do Estado em regiões periféricas. Para compreender a magnitude dessa questão, é essencial examinar as transições e adaptações das organizações criminosas ao longo do tempo. A Gangue dos Manos da Cidade Nova, atuante em Itu nas décadas de 1980 e 1990, serve como um estudo de caso representativo de uma forma de criminalidade mais rudimentar e localizada, que precedeu a consolidação de grandes facções.
A tese central deste relatório é que o declínio da Gangue dos Manos e a concomitante ascensão do Primeiro Comando da Capital em São Paulo não foram meras substituições de grupos criminosos, mas sim um paradigma fundamental na dinâmica criminal. Essa transição representou uma mudança de uma violência caótica e predatória para uma forma de governança criminal mais ordenada e estrategicamente controlada, com profundas implicações para as periferias paulistas.
A Gangue dos Manos da Cidade Nova: Ascensão e Terror em Itu (Anos 80 e 90)
Origens e Evolução do Grupo
Entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, a Gangue dos Manos da Cidade Nova emergiu em Itu, tornando-se sinônimo de medo na região. O grupo teve um início aparentemente modesto, formando-se como uma “turma de pichadores e pequenos ladrões”. A pichação, frequentemente associada à demarcação territorial e à expressão em guetos urbanos, como observado em outros contextos, rapidamente escalou para atos de violência mais graves. O furto evoluiu para roubo e sequestro. Inicialmente, suas atividades se limitavam a extorquir dinheiro em trailers de lanche, mas a brutalidade aumentou, culminando em atos de tortura, como colocar mãos e rostos de desafiantes sobre chapeiras incandescentes.
Modus Operandi e o Impacto na Comunidade da Cidade Nova
O impacto da Gangue dos Manos na Cidade Nova foi devastador. O bairro, já marcado pela pobreza e pelo desemprego, viu seus becos se transformarem em corredores de intimidação. A violência deixou de ser uma exceção para se tornar uma rotina, gerando uma sensação de estado de sítio sem fim. Uma característica notável da gangue era sua origem interna: “Não era uma gangue vinda de fora do bairro. Eram filhos da mesma rua, rapazes que cresceram jogando bola no mesmo campinho e agora ostentavam facas e armas para intimidar os próprios conhecidos da vizinhança”. Essa dinâmica sublinha que a “guerra não vinha de fora — brotava da poeira das ruas sem asfalto”. O domínio do grupo era sustentado pelo medo coletivo e pela “certeza absoluta da impunidade”.
As Condições Socioeconômicas das Periferias de Itu
A ascensão da Gangue dos Manos não pode ser dissociada das condições socioeconômicas prevalecentes nas periferias brasileiras, incluindo a Cidade Nova de Itu, durante as décadas de 1980 e 1990. A “pobreza e o desemprego” criaram um terreno fértil para o surgimento e a consolidação de atividades criminosas. Nesse período, as periferias brasileiras frequentemente enfrentavam desafios como a falta de infraestrutura e serviços públicos, além de uma crescente fragmentação social. A ausência de perspectivas e a ineficácia do Estado em prover segurança e oportunidades geraram um vácuo de poder, que foi preenchido por grupos como os Manos. A violência, nesse contexto, tornou-se uma resposta endógena à negligência sistêmica, permitindo que o poder criminoso local se consolidasse.
A Resposta das Forças de Segurança e o Desmonte da Gangue
A ruptura do domínio da Gangue dos Manos só ocorreu quando a Guarda Civil Municipal, as polícias Militar e Civil, e o Ministério Público do Estado de São Paulo decidiram atuar em conjunto. Sob a liderança da promotora Drª. Vânia Maria Tuglio, as operações foram descritas como “sangrentas e implacáveis”. O resultado foi o desmantelamento do grupo: líderes foram mortos em confrontos, integrantes foram presos e outros foram relegados à miséria [base text]. No final da década de 1990, a Cidade Nova já não estava sob a sombra plena dos Manos, embora alguns sobreviventes, como Marcelo Paulo, conhecido como Mocó, ainda circulassem na região.
A análise das origens da Gangue dos Manos revela que o grupo não era uma anomalia isolada, mas sim uma manifestação direta da ausência estatal e da desintegração social nas periferias. O fato de serem “filhos da mesma rua” e de a “guerra não [vir] de fora — [brotar] da poeira das ruas sem asfalto” sublinha que a violência era uma resposta endógena à negligência sistêmica e à carência de oportunidades. A prosperidade do grupo, cimentada pela “certeza absoluta da impunidade”, evidencia a incapacidade inicial do Estado de exercer controle efetivo nessas áreas, permitindo a consolidação de um poder criminoso localizado. Essa dinâmica sugere que o surgimento e a atuação dos Manos foram um desdobramento previsível das falhas socioeconômicas e de governança nas periferias da época.
Além disso, a descrição da evolução dos Manos, de pichadores a perpetradores de roubos, sequestros e torturas brutais, ilustra uma forma de criminalidade altamente pessoal, caótica e localizada. Diferentemente do que viria a ser o PCC, não havia indícios de uma estrutura organizacional complexa, um código de conduta formal ou uma visão estratégica além da predação imediata e da intimidação territorial. Essa característica primitiva da criminalidade pré-PCC realça um estágio anterior na evolução das empresas criminosas, marcado pela falta de racionalização e pela brutalidade desmedida.
O Último Ato de Mocó: O Fechamento de um Ciclo
Detalhes do Incidente no Bar do Ceará
Na madrugada de 30 de abril de 2000, pouco antes das duas da manhã, o Bar do Ceará, na Rua Lauro de Souza Lima, em Itu, era palco de uma cena de lazer que seria abruptamente interrompida. Severino e Adriano, embalados por bebidas e companhia, não imaginavam que seus caminhos se cruzariam com Marcelo Paulo, o Mocó, um dos últimos remanescentes da Gangue dos Manos da Cidade Nova. O ambiente, preenchido por risos, conversas e música, escondia uma tensão invisível. Mocó, ao presenciar sua namorada prestes a entrar no carro de dois desconhecidos, interpretou a cena como uma provocação direta e reagiu com violência letal. Adriano foi o primeiro a ser baleado. Severino, por instinto, tentou derrubar o atirador, mas Mocó se levantou e disparou mais duas vezes, atingindo-o no braço e no pé.
Para os moradores que haviam vivenciado o auge da Gangue dos Manos, a cena de tiros era “apenas mais uma cena do dia a dia”, tão corriqueira quanto o funcionamento dos estabelecimentos locais. A desensibilização à violência era palpável: alguns apenas olharam e voltaram às suas conversas, enquanto outros se encolheram, não pelo som das balas, mas pelo medo de atrair atenção.
O Julgamento e a Condenação de Mocó como um Marco Simbólico
O caso de Mocó foi levado ao Tribunal do Júri de Itu em 17 de novembro de 2009. Os advogados de defesa, Dr. Afrânio Feitosa Júnior e Dr. Ricardo Ribeiro da Silva, argumentaram que Mocó agira sob “violenta emoção”, sugerindo que qualquer homem, em circunstância similar, teria reagido da mesma forma. Por outro lado, o Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze pediu a absolvição pelos tiros contra Severino, mas defendeu a condenação pela tentativa de homicídio contra Adriano. O veredito resultou em sete anos de prisão para Mocó [base text]. Embora fosse apenas mais uma sentença para um homem já detido 4, para o bairro, representou o “ato final de um personagem que simbolizava o fim de uma era de violência e medo”.
A atuação de Mocó naquele incidente pode ser vista como um microcosmo de uma era em extinção. Sua reação impulsiva e violenta, expressa na “linguagem do sangue derramado”, era uma característica marcante do estilo predatório e caótico da Gangue dos Manos, em nítido contraste com a violência calculada e regrada que o PCC viria a instituir. A desensibilização da comunidade diante dos tiros, descrita como “apenas mais uma cena do dia a dia”, reforça a ideia da onipresença desse modelo de violência. Assim, a queda pessoal de Mocó, um dos últimos vestígios dos Manos, simbolizou a obsolescência de sua forma de operação diante da emergência de uma nova ordem criminal.
A intervenção do Estado, embora tardia, foi decisiva. O texto base indica que a “ruptura desse domínio só veio quando a Guarda Civil Municipal, as polícias Militar e Civil, e o Ministério Público… decidiram agir em conjunto.” Embora os Manos tenham operado por anos com “certeza absoluta da impunidade”, seu desmantelamento eventual resultou de uma resposta coordenada das forças de segurança. O julgamento de Mocó, anos após o desmonte inicial da gangue, demonstra a capacidade de longo alcance da justiça estatal, mesmo que demorada. Isso sugere que, enquanto gangues locais podiam prosperar na ausência de uma presença estatal eficaz, um esforço concertado podia desmantelá-las, criando um vácuo que entidades mais organizadas, como o PCC, estavam prontas para preencher.
A Percepção da Comunidade sobre o Fim da Era dos Manos
Com a condenação de Mocó, Itu não apenas se despedia de um criminoso, mas encerrava um capítulo inteiro de sua história criminal. Um capítulo “escrito com medo, silêncio e sangue”, mas que também deixou a lição de que “até o crime, para sobreviver, precisa de regras”. Na Cidade Nova, a memória dos Manos ainda ecoa, mas é apenas isso: “memória — feita de cicatrizes, de histórias sussurradas e de túmulos esquecidos”.
A Ascensão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e a Nova Ordem Criminal
A Formação e Expansão do PCC no Sistema Carcerário e para o Interior Paulista
A queda da Gangue dos Manos da Cidade Nova coincidiu com a ascensão do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma facção criminosa que transformaria radicalmente o panorama do crime organizado no Brasil. Fundado em 31 de agosto de 1993, por oito prisioneiros na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, conhecida como “Piranhão”, o PCC surgiu como uma resposta à opressão no sistema prisional e como vingança pelo massacre do Carandiru.6
A influência do PCC começou a ser percebida a partir de 1995, com uma expansão “vertiginosa” pelas prisões paulistas. Esse período foi marcado por um aumento exponencial de rebeliões, culminando na megarrebelião de 2001, que envolveu 29 presídios em todo o estado de São Paulo. A comunicação interna da organização, amplificada pelo uso de celulares nas cadeias, foi crucial para o planejamento e sucesso dessas ações.
Após 2001, o PCC passou por uma reconfiguração de poder, com a ascensão de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e uma “descentralização de poder” que resultou na criação de “Sintonias” – comissões/setores que gerenciavam diferentes aspectos da organização. A facção também se capitalizou através de assaltos a bancos, roubos de carga e sequestros, além de mensalidades de seus membros. O tráfico de drogas, em particular, tornou-se o “principal negócio da organização”, sendo mais rentável e seguro.
A expansão do PCC não se limitou às prisões. O grupo se espalhou para as ruas e para o interior de São Paulo, e posteriormente para todos os estados brasileiros e internacionalmente, com forte presença em rotas de tráfico de drogas e armas, como Paraguai e Bolívia. Em 2023, o PCC era considerado a maior gangue de drogas da América Latina, com uma estimativa de 40.000 membros vitalícios e 60.000 “contratados”, e faturamento anual de R$ 400 milhões.
A Filosofia e o “Código de Conduta” do PCC
O PCC adotou um código de conduta distinto, que contrastava fortemente com a violência indiscriminada da Gangue dos Manos: a proibição de ataques contra a própria comunidade. Essa política, mais do que um senso de justiça social, era uma estratégia calculada para “proteger a base de apoio e evitar chamar a atenção indesejada da polícia”. A facção, de fato, se impôs como uma instância reguladora das relações sociais, tanto dentro quanto fora das prisões.
A “Cartilha do Crime” do PCC, um documento com 45 regras de conduta, detalha proibições como “homossexualidade” (entre presos da mesma cela), “talaricagem” (envolvimento com a mulher de outro membro), “traição” (passar informações ou aliar-se a outras facções), e o “uso abusivo de drogas” (especialmente crack e lança-perfume). Infrações graves, como “mão na cumbuca” (roubar da organização), podiam resultar em exclusão e morte.
O “Tribunal do Crime” e a Imposição de Regras
Para fazer valer seu código, o PCC instituiu o “Tribunal do Crime”, um sistema de justiça paralelo que julga infrações às suas normas. Inicialmente, esses tribunais julgavam membros e colaboradores da facção, mas expandiram sua atuação para outras áreas de influência do PCC, lidando com delitos graves como estupros e homicídios, e até questões cotidianas como infidelidade e brigas de vizinhos, independentemente da filiação dos envolvidos.
Essa estrutura de governança criminal inclui um “corpo funcional” para impor e zelar pelo cumprimento das regras, julgar e punir. Cargos como “Disciplina” (responsável pela ordem em setores prisionais), “Responsável pela Cobrança de Dívidas” e “Sintonias” (responsáveis pela circulação de informações e ordens) demonstram a capilaridade do poder do PCC. A organização também implementou novas regras, como a proibição do consumo de crack (devido ao seu potencial destrutivo e prejuízo para a organização) e do porte de facas nas prisões. As punições foram graduadas, com a execução sendo reservada para infrações mais graves ou ameaças à facção, e muitas vezes realizada de forma mais sutil para evitar flagrantes.
A estratégia do PCC de “proibir ataques contra a própria comunidade” representa uma inovação significativa na governança criminal. O texto base afirma que essa política era uma “estratégia” para “proteger a base de apoio e evitar chamar a atenção indesejada da polícia”. Essa abordagem é ampliada pela informação de que o PCC estabeleceu um “monopólio da violência” nas periferias, resultando em “paz nas ‘quebradas'” e, em alguns casos, oferecendo “serviços sociais” como segurança e justiça, preenchendo assim um vácuo de poder estatal e aumentando sua legitimidade junto à população.10 Essa não é uma ação altruísta, mas uma manobra calculada para assegurar uma base operacional estável e leal, reduzindo a interferência externa. Isso efetivamente cria um “estado dentro do estado”, demonstrando uma compreensão sofisticada do controle social e das relações públicas.
Além disso, a análise da formação e expansão do PCC revela que o ambiente prisional serviu como um cadinho para o desenvolvimento de sua sofisticação organizacional. Múltiplas fontes confirmam que as prisões foram o berço e o principal local de expansão inicial do PCC. O uso de celulares para comunicação interna e planejamento estratégico dentro das cadeias, e o desenvolvimento de um “corpo funcional” e um “código normativo” no ambiente carcerário, sugerem que o confinamento e a experiência compartilhada do sistema prisional proporcionaram um terreno fértil para que o PCC refinasse sua estrutura complexa, suas regras internas e suas redes de comunicação, muitas vezes com pouca interferência externa nos seus anos formativos. O sistema prisional, paradoxalmente, tornou-se um incubador para uma forma de crime mais organizada e resiliente, permitindo que o PCC aperfeiçoasse seu modelo de governança antes de expandi-lo para as ruas.
Da Violência Predatória à Violência Ordenada: Uma Análise Comparativa
A história da Gangue dos Manos da Cidade Nova e a ascensão do PCC ilustram uma transformação profunda na natureza do crime organizado em São Paulo. O que antes era uma violência desorganizada e predatória deu lugar a uma violência mais ordenada e controlada.
Contraste entre o Modelo de Atuação da Gangue dos Manos e o do PCC
A diferença entre os dois grupos é marcante e pode ser sintetizada em diversos aspectos:
Característica
Gangue dos Manos da Cidade Nova
Primeiro Comando da Capital (PCC)
Origem/Natureza
Turma de pichadores e pequenos ladrões, localista, desorganizada [base text]
Fundada em presídio, irmandade secreta, combate à opressão, estrutura nacional/transnacional 8
Tipo de Violência
Predatória, caótica, arbitrária, contra a própria comunidade [base text]
Ordenada, estratégica, racionalizada, proibição de ataques à comunidade local 9
Relação com a Comunidade
Terror e intimidação, extorsão de vizinhos [base text]
Busca de base de apoio, “pacificação,” oferta de “serviços sociais,” preenchimento de vácuo estatal 10
Estrutura Organizacional
Informal, sem regras claras, domínio pessoal [base text]
Hierárquica mas descentralizada (“Sintonias”), “agência reguladora,” “corpo funcional” 6
Rivais, forças de segurança, controle de rotas de tráfico, expansão de negócios 8
Regras Internas
Inexistentes ou implícitas [base text]
Codificadas em “cartilha,” “Tribunal do Crime,” punições graduadas 9
Implicações da Mudança nas “Regras do Crime” para as Periferias Paulistas
A mudança nas “regras do crime” imposta pelo PCC teve implicações profundas para as periferias paulistas. Onde antes imperava a violência aleatória e a extorsão do vizinho, características da Gangue dos Manos, o novo regime do PCC proibiu tais práticas. Essa “pacificação” paradoxal levou a uma diminuição de certos tipos de violência em territórios controlados, criando uma sensação de “paz” sob o domínio criminoso. A troca era clara: menos violência indiscriminada contra os moradores em troca de submissão à autoridade do PCC e à sua economia criminosa.
O PCC como “Agência Reguladora do Crime”
O PCC se estabeleceu como um “monopólio de violência” 10 e uma “espécie de agência reguladora do crime”, preenchendo os vazios de governança deixados pelo Estado. Essa transição alterou a natureza da violência urbana, que passou de difusa e imprevisível para concentrada e estrategicamente empregada, muitas vezes direcionada a facções rivais ou agentes estatais, em vez da população em geral.
Ano/Período
Evento Chave (Gangue dos Manos / Itu)
Evento Chave (PCC / Contexto Geral)
Final dos Anos 1980s – Início 1990s
Auge da Gangue dos Manos da Cidade Nova em Itu, violência predatória e impunidade
1993
Fundação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em Taubaté, com objetivo de combater opressão prisional
1994-1995
Início da expansão do PCC no sistema carcerário paulista
Final dos Anos 1990s
Desmonte da Gangue dos Manos em Itu por ação conjunta da polícia e MP; sobreviventes ainda circulavam
30 de Abril de 2000
Incidente no Bar do Ceará envolvendo Marcelo Paulo, o Mocó, marcando seu “último ato” de violência
Fevereiro de 2001
Megarrebelião em 29 presídios de SP, consolidando a existência e poder do PCC
2002-2003
PCC consolida sua política econômica através do tráfico de drogas; ascensão de Marcola e reconfiguração de poder
Maio de 2006
Crise de Maio, 74 unidades prisionais rebeladas e ataques externos; PCC dita “toque de recolher” em SP.9 Início da “pacificação” nas prisões e periferias pelo PCC, com monopolização da violência
17 de Novembro de 2009
Julgamento e condenação de Mocó a sete anos de prisão, simbolizando o fim de uma era em Itu
Pós-2006
PCC consolida hegemonia e expande-se nacional e internacionalmente, atuando como “agência reguladora do crime”
A observação de que “o que antes era violência desorganizada e predatória deu lugar a uma violência mais ordenada e controlada” aponta para um fenômeno complexo: a paradoxal “paz” sob a hegemonia criminosa. A diminuição dos índices de violência em São Paulo após 2006 e a “calmaria nas prisões” não foram resultado direto de políticas de segurança pública, mas sim de um processo de monopolização do crime pelo PCC, que passou a “centralizar e ordenar o crime a não atuar contra essas populações”. Isso cria uma situação em que uma organização criminosa, através de seu domínio, estabelece uma forma de “paz” em áreas anteriormente assoladas pela violência caótica. Essa “paz” não é fruto da eficácia estatal, mas de um controle racionalizado por uma entidade privada, onde a violência é utilizada estrategicamente para manter a ordem interna e atingir objetivos externos, em vez de ser uma predação aleatória. Isso revela as maneiras complexas e, por vezes, contraintuitivas pelas quais o poder criminoso pode redefinir a ordem social em áreas marginalizadas.
Além disso, o contraste entre o “domínio” dos Manos, baseado no “medo coletivo e certeza absoluta da impunidade” [base text], e a “hegemonia no controle da ordem prisional” e o “monopólio privado do exercício da violência física” estabelecidos pelo PCC , indica uma evolução do mero “controle territorial” para uma forma de “governança criminal”. O PCC desenvolveu um “código normativo”, “tribunais” e até ofereceu “serviços sociais”. Isso significa que a organização transcendeu a simples dominação de um espaço físico para instituir um sistema paralelo de regras, justiça e, em certa medida, bem-estar, exercendo funções quase estatais em áreas onde a presença do Estado é fraca ou ausente. Essa compreensão mais profunda destaca a sofisticação do modelo do PCC e suas implicações para a soberania estatal e a cidadania nesses territórios.
Conclusão: Legados e Perspectivas Futuras
A trajetória da Gangue dos Manos da Cidade Nova em Itu e a ascensão do Primeiro Comando da Capital em São Paulo revelam uma transformação fundamental no panorama do crime organizado brasileiro. O que antes era uma criminalidade localizada, caótica e predatória, exemplificada pelos Manos, evoluiu para uma forma de crime estruturada, estratégica e com características de governança, representada pelo PCC. A história de Mocó, com seu “último ato”, serve como uma narrativa local pungente que reflete essa transformação sistêmica e de maior escala na dinâmica criminal do estado.
A memória da Gangue dos Manos na Cidade Nova persiste como “cicatrizes, de histórias sussurradas e de túmulos esquecidos”, simbolizando uma era passada de violência bruta e indisciplinada. Em contrapartida, a influência do PCC se mostra duradoura e pervasiva, com suas “regras do crime” redefinindo fundamentalmente as periferias urbanas. A facção estabeleceu uma nova, embora criminosa, forma de ordem, onde a violência é racionalizada e controlada para manter a estabilidade de seus negócios e sua base de apoio.
As perspectivas futuras para a segurança pública e o desenvolvimento social nas comunidades marginalizadas são desafiadoras. A consolidação do PCC como uma “agência reguladora do crime” representa um desafio direto à autoridade estatal, exigindo estratégias mais complexas do que a mera repressão. A “lição” extraída dessa transição é clara: para sobreviver e prosperar, mesmo o crime se adapta, racionaliza suas operações e estabelece seus próprios sistemas complexos de regras e controle, redefinindo continuamente o cenário da violência urbana.
Ricardo estava passando pelo trailer de lanches (A) próximo a Praça Gente Jovem em Itu quando resolveu parar para conversar com um rapaz sobre seu filho que mora na cidade de Bauru. Por alguma estranha razão, o descabeçado rapaz começou a agredi-lo com socos e pontapés sem o menor motivo. Não satisfeito passou a socá-lo no rosto e o jogou ao chão. Ricardo resolveu fugir dali e ir para o abrigo de seu lar (B) afinal não é de sua índole arranjar confusão, mas nem a sua casa o agressor respeitou, ficou passando em frente com um Escort. Ricardo então saiu à porta de sua chácara e foi novamente agredido, mas então se defendeu com uma faca…
Quem narrou esta história foi o aposentado Ricardo tem de quarenta e dois anos e é um velho conhecido dos meios policiais, já tendo sido processado mais de duas dezenas de vezes pelos mais diversos crimes, e apesar da brandura de nossa legislação sofreu algumas condenações: crime de trânsito, furto e tráfico de drogas. Este cidadão ituano acionou a Guarda Civil Municipal que prontamente chegou em seu auxílio. Ricardo foi socorrido pelo GCM M. Silva que o conduziu para o Pronto Atendimento Médico da Vila Padre Bento, e como o aposentado disse ter sido agredido por três pessoas que estariam no trailer, outra viatura foi acionada para verificar o local dos fatos. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Meia hora antes…
O comerciante fecha seu bar depois de um exaustivo dia de serviço na Vila Esperança, eram quase oito e meia da noite da quinta-feira, nove de julho de 2009, mas muita coisa ainda se passaria antes a noite terminasse. Edilson resolve ir até o trailer de lanches que existe em frente ao seu comércio e pede um lanche, ficando conversando com seu amigo Mário, que dentro em pouco viria a lhe salvar a vida.
Ouve alguém lá fora chamando seu nome e vai ver quem é. Reconhece Ricardo que mora no bairro e vive apanhando de todo mundo por ali, visto que sempre procura motivo para brigas, e hoje pelo jeito, seria com ele.
Ricardo estava lá berrando para quem quisesse ouvir que ele, Edilson, havia estuprado os filhos dele. Ora, ele nem sabia que o Ricardo tinha rebentos! Mas não ficou apenas nos gritos e ameaças, como costume, pulou para dentro e partiu para cima do comerciante que lhe desferiu um pontapé que fez o agressor recuar. Mas Ricardo não ia deixar barato não. Voltou minutos depois armado de faca e partiu para cima do salgadense Edilson, desferindo dois golpes na perna esquerda, ambos certeiros. Mário tira a faca de Ricardo antes que este fizesse mais mal do que já causou. Ricardo vai embora deixando uma cena de sangue atrás de si.
O líder de eventos Mário José, recifense de vinte e dois anos, foi quem conseguiu tirar a faca stainless de cabo emborrachado e lâmina de treze centímetros das mãos do aposentado Ricardo, e diz que a versão dele não passa de fantasia. Que ele estava bêbado ou drogado quando atacou e o fez de maneira covarde e gratuita.
A Guarda Municipal também socorreu o comerciante Edilson, e depois a viatura conduziu comandada pelo GCM Waldir conduziu a todos à presença da delegada de polícia Drª. Lia Limongi Arruda Matuck Feres. Que achou por bem indiciar Ricardo Martini por lesão corporal. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});
Homem simples e laborioso, este lavrador oriundo de Paranapanema, em seus 49 anos de vida, nunca precisou tanto de seu Deus como naquele momento. O medo pairava no ar entre aquelas pessoas que se reuniram na casa de seu Antônio para louvar o nome do Senhor Jesus, residência que pela sua fé se transformou em local de culto evangélico. Antônio Santos de Souza nunca mais esquecerá o que ocorreu aquela noite de quinta-feira, por volta das dez da noite na Rodovia Marechal Rondon km 116, no Bairro Itaim, em Itu, no interior de São Paulo.
Horas antes, o paulistano José Jorge, um agente da segurança pública da cidade de Itu, prepara-se calmamente para jantar, quando Ivanil lhe disse que ele mesmo faria a comida. Pediu ao amigo paulistano o carro emprestado (A), ia dar um pulinho na casa de sua garota antes de jantar, mas voltaria em vinte minutos, a tempo de preparar o rango. Ivanil Inácio de Souza, nascido em Paranavaí há 55 anos, caseiro em uma chácara no Condomínio City Castelo, estava a nove dias dividindo aquele apartamento com o agente da segurança, e este estava satisfeito com a parceria. Ivanil era uma pessoa pacata e tudo levaria a crer que pagaria direitinho sua parte das despesas, o que viria a calhar, afinal a vida não andava muito fácil. Além disso, não seria por muito tempo, Ivanil dizia que ia começar a construir no terreno que ele tinha na cidade, e assim que desse para lá mudaria com a sua amasia da qual se separara a alguns dias pois não queria mais viver na casa dos sogros com quem não se dava muito bem.
(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); O policial que estava de plantão na 1ª Companhia da Polícia Militar de Itu naquele 16 de julho de 2009 vê chegar um senhor desesperado. Dizia ele que recebeu em seu trabalho, uma ligação de uma de suas filhas, contando que seu genro havia entrado armado e ameaçara a todos naquela casa, dizendo: “vai sobrar para todo mundo“.Sua esposa estaria escondida em casa de visinhos. A Polícia Militar, prontamente se mobiliza e acompanhada de Marcelino Benedito dos Santos, sexagenário baiano natural de Ribeiro do Pombal, até o Pesqueiro Olhos d’Água(B), onde este reside com a família.
Só com a chegada da polícia dona Miralda Maria de Jesus, pombalense de 46 anos, companheira de seu Marcelino teve coragem de sair da proteção da casa de seu vizinho, o evangélico Antônio. Familiares. Ivanil a muito ameaçava a família, mas ninguém acreditava que ele tentaria realizara suas ameaças, mas naquela noite ele estava possesso.
Impedido de entrar na casa por dona Miralda forçou o portão tentando abri-lo a força, mas o cadeado resistiu. Não seria aquilo que o deteria, pulou o portão e com um chute arrebentou a porta da casa. Medo e gritos não impediram de que o homem ensandecido sacasse a arma que trazia na cintura e coloca-se à na cabeça da senhora, exigindo aos gritos que ela entrega-se sua filha Maria José de Jesus, com quem viveu durante quatro anos naquela mesma casa, até que ele mesmo terminou o relacionamento a nove dias. Quando ela disse que a moça por lá não estava, disparou primeiro em direção a cabeça dela e depois para o alto.
Dias antes, em uma de suas ameaçadoras ligações telefônicas, Ivanildo disse que aquela família iria “chorar lágrimas de sangue“, dona Miralda respondeu que Jesus não ia permitir isso acontecesse, ao que ele respondeu que: “Jesus está morto“. Fato é que os dois tiros disparados por Ivanil não saíram. Dona Miralda se aproveitou quando ele a empurrou usando a arma e saiu da casa correndo, buscando abrigo entre os fiéis da casa de seu Antônio.
Após a fuga de sua vítima, o homem começa a caçá-la. Vai até aonde se reúnem os evangélicos, mas eles dizem que ela não está lá. Ele assusta a todos com seu jeito e não larga a arma. Como todos afirmam que não foi para lá que ela fugiu ele desiste. Pega o Celta Preto de seu colega paulistano e se dirige a um eucaliptal lá próximo (C), onde esconde a arma. Mais tarde, perante o juiz, Ivanil vai declarar que tinha a intenção de devolver a arma, mas o promotor de justiça Rafael Corrêa de Morais Aguiar usará este fato contra o réu.
É coisa do Coisa Ruim ajudar a fazer, e não a esconder, e foi isso que aconteceu. Ivanildo após esconder a arma resolveu voltar à cena do crime como se nada tivesse acontecido. Quando por lá chegou, viu dezenas de pessoas cercando a viatura policial: os familiares, os evangélicos e a vizinhança toda. Os policiais mandam que ele desça do carro, mas o rapaz recusa-se a sair do veículo. Os policiais cercam o carro e usam de força para tirá-lo de lá, e o questionam a respeito da arma. Ivanildo não se dá por vencido e nega que tivesse utilizado qualquer arma. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); A Guarda Civil Municipal também está na busca, vai até o Jardim Rosinha e acordam o proprietário do veículo, o paulistano diz que realmente tinha emprestado o carro e leva o GCM Tártari até o armário onde ele guardava sua arma, cujos documentos estavam de acordo com a legislação, e constata que sua pistola Taurus 380 niquelada havia desaparecido. Retornando ao local dos fatos, a guarnição da guarda municipal coloca Ivanildo diante dos fatos: agora, com ou sem arma, ele não tem mais como negar que agiu armado. Diante disto ele resolve colaborar levando os policiais militares até o local onde estava a pistola.
Perante a autoridade do 2º distrito policial de Itu, o Dr. José Moreira Barbosa Netto, nada quis Ivanildo declarar, mas perante o magistrado da 2ª Vara Criminal de Itu, o Dr. Hélio Villaça Furukawa, disse que não tinha a intenção de atirar, pretendia apenas assustar a família, e assim, trazer sua amada Maria José de Jesus novamente para perto de si. Mostra também ao juiz diversos certificados das escolas de formação de vigilantes, que o consideraram apto para o manuseio de arma de fogo, e, portanto ele sabia que a arma não dispararia, pois estava travada.
Ele diz que se de fato quisesse matar as mulheres as teriam matado com toda a facilidade. O promotor de justiça relembra que uma das diretrizes do modo de agir dos homens de segurança é que jamais se coloca o dedo no gatilho a não ser que se tenha intenção de atirar, sendo assim, tendo ele sido treinado com esta norma, ele assumiu o risco de atirar de fato. Além disso, a trava não seria uma fonte totalmente idônea, devendo ser considerado apenas como ferramenta preventiva.
Diante de tudo isso os jurados do Tribunal do Júri de Itu considerou que o rapaz de fato não quis matar as mulheres, apenas a assustá-las. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});
O GCM Rota e o GCM Arlindo abordaram Ana Cristina Nunes que segundo populares estaria em atitude suspeita. Inquirida pela guarnição ela apresentou três facas serrilhadas de cozinha que consigo levava, dizendo que estava indo para sua casa – os guardas sabiam que não era verdade, mas nada se poderiam fazer naquele momento.
Começa a cair à noite quando Lizane vê a última cliente sair da loja e se prepara fechar o comércio quando vê uma mulher que ela não conhece entrar com uma faca e encostar no corpo de sua mãe – a dona da lojinha – e manda-a esvaziar o dinheiro do caixa.
Ana Cristina estava assaltando o pequeno Bazar e Papelaria União, na Rua João de Toledo Aranha 14 no Jardim União(B), a pouco mais de seiscentos metros donde tinha sido abordada pela viatura da guarda. Não seria o único alvo dela nesta noite. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Antes de sair deu a ordem: “não olhem para onde eu vou e não chamem a polícia!”. Obediente, Lizane não chamou a polícia, ligou para a Guarda Civil Municipal através do atendimento de emergência: 199.
Acionado via rádio, GCM Rota chega ao local e começa a colher os dados quando chega um motoqueiro. Ana Cristina tinha feito mais uma vítima. Leila, comerciante, proprietária da Rio Gás, localizada a poucos quarteirões dali, na Rua Lauro de Souza Lima 221 (C), na Vila Martins, que tinha sido roubada por uma mulher armada de faca.
Lúcifer ajuda a fazer, mas não a esconder. Enquanto os guardas civis passavam os dados para as outras viaturas, Lizane vê no final do quarteirão a ladra (D). – começa a perseguição.
No começo da Rua José Félix dos Santos (E) Ana Cristina encerra sua noite de medo: Tendo roubado oitenta reais da empresa de Lizane e quarenta reais de Leila, ainda estava de posse de cem reais e das três facas, dizendo que entregou os outros vinte reais para um tal de Pelé.
Ao delegado de polícia Dr. José Moreira Barbosa Netto, Ângela Cristina preferiu nada dizer, e este determinou sua prisão. Perante o juiz Dr. Hélio Villaça Furukawa ela assumiu toda a culpa, alegando que pretendia usar o dinheiro para fazer um óculos para um de seus dois filhos, e para provar isso disse que quando foi presa, estava de posse da receita do oculista. Já seu advogado pediu que ela fosse libertada, visto ser La inimputável: Ângela recebe aposentadoria por invalidez, causada por insanidade mental.
O juiz não se convenceu, e espera pacientemente chegar o resultado do laudo pericial feito no dia 13 de outubro. Enquanto isso a Cadeia Feminina de Votorantim tem mais uma visitante. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});
Importante há de ser, para os futuros estudiosos de nossa terra, a coluna do brilhante jornalista ituano José Carlos Rodrigues de Arruda, que leva ao Jornal Periscópio, histórias do dia a dia deste rincão bandeirante. Não histórias tais quais nos acostumamos ver nos livros didáticos, mas a história viva de nosso povo.
Muito me surpreendeu, quando vi lá postada, uma epístola do delegado da Polícia Civil do Pará, Dr. Wilson Ronaldo Monteiro. Este membro da Secretaria de Segurança Pública do Pará, começa assim sua carta-manifesto:
“Senhor Bandido:
Esse termo de senhor que estou usando é para evitar que macule sua imagem ao lhe chamar de bandido, marginal, delinquente ou outro atributo que possa ferir sua dignidade, conforme orientações de entidades de defesa dos Direitos Humanos … e por aí vai a autoridade policial.”
(veja na íntegra) (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); A crítica, ou melhor, o desabafo deste cidadão, é muito mais que justo. Mas peca pelo atraso e pela desatualização. Chamar um infrator da lei de “Senhor Bandido”, hoje, é passível de punição e pode ser considerado ofensivo a dignidade do meliante.
Ora, senhor delegado. Ora, senhor J. C. Arruda.
Esses cidadãos são trabalhadores incansáveis, e como tal devem ser sim respeitados. Sugiro que doravante, o Jornal Periscópio, do qual o senhor é peça fundamental, passe a tratar tal categoria como “profissionais do crime”, linha editorial que este blog já adotou, antes que ser processado por alguma organização criminosa ou de direitos.
Não me venham os pregadores do direito do alheio dizer que estou exagerando, afinal Cristo foi proibido de entrar nas escolas italianas por infringir os Direitos Humanos!!!
Aqui em Itu, ao menos, o judiciário tem evitado cair na tentação de punir policiais por simplesmente fazer cumprir a lei, a algumas semanas, um cidadão ituano perdeu uma
ação onde reclamava de uma abordagem policial. Mas, mesmo por aqui, existem casos que nem o diabo acredita. Pasmem, senhores, um traficante sobejamente conhecido e já condenado diversas vezes, possui um habeas corpus que o livra de ser revistado. Isto não ocorre em Terras da Carochinha, é um exemplo vivo que percorre as ruas do Jardim Aeroporto, sem ser importunado, afinal, é seu direito.
Sexta-feira, 17 de agosto de 2007, lá pelas três e meia da tarde. José Thiago, um ajudante geral de Cabreúva, chega a rodoviária de Itu(A). Sua intenção era visitar seu amado pai, mas o destino lhe reservava uma surpresa.
Como não encontrou seu ente querido em casa, resolveu ele dar um passeio pela estância turística, afinal Itu é conhecida por seu eixo histórico com antigos casarões e belíssimas igrejas barrocas e neoclássicas. Enfim, de passo em passo acabou indo até o Jardim Vitória(B) e de lá retornando ao centro. Tudo deveria ter terminado assim, mas…
O passeio foi longo, afinal, José Thiago queria conhecer um pouco da cidade. Já haviam se passado mais de dez horas desde que chegara, e já era madrugada de sábado, uma e meia da manhã e ele ainda estava perambulando por cá e por lá, quando, uma pessoa em cima do telhado da loja Schanoski Antenas Parabólicas na Rua Dr. Silva Castro na Vila Nova(C), assobiou para ele. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Muito prestativo, ele se aproximou e um rapaz de cima da loja pediu que Thiago o ajudasse a passar uma caixa por cima da grade, colocando-a na calçada. Com toda cortesia que lhe é familiar, o mancebo ajudou ao desconhecido, que pulou então para a rua. Chegando ao solo o rapaz vê um vigilante noturno que por ali passava com sua moto e fala para Thiago: “vai sujar, corre“. Fala e já sai no pique, e o cabreuvense corre para o outro lado, perseguido de perto pelo segurança, que com auxílio da Guarda Civil Municipal, o deteve na Praça do Carmo (D) no centro da cidade.
O vigilante noturno Aguinaldo, um cotiense de 44 anos, confirma a versão do rapaz. De fato, ele viu Thiago pegando a caixa e colocando-a na calçada, e viu também o outro rapaz que correu para o outro lado. Após perseguir Thiago, Aguinaldo ligou para o proprietário da loja, o paranaguaense José Elias Schanoski, que foi até seu comércio e constatou que os jovens haviam retirado e danificado: trinta telas de alumínio para armação de antenas e três armações para antenas de UHF, num valor aproximado de trezentos e trinta reais.
Shanosky chama a atenção para a destreza necessária para realizarem tal furto, visto que a empresa possui grades e portões com mais de dois metros de altura, encimados por arame farpado, mas que nem isso desestimulou os meliantes.
Ao GCM Adorian, Thiago disse que já era conhecido dos meios policiais de Cabreúva, o que explica o fato de quando o Delegado de Polícia Dr. José Moreira Barbosa Netto, ter tentado contato com a mãe do garoto ela ter lhe respondido: “os problemas do filho dela eram problemas dele mesmo“.
Ao analisar tudo isso, o juiz de direito Dr. Hélio Villaça Furukawa declarou em sua sentença: “a alegação de que apenas passeava pelo local é risível e não merece nenhuma credibilidade“. Mas o réu não pode ouvir sua pena, afinal, a justiça ainda está a sua procura. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});
Um homem em desembalada carreira desce a rua Joaquim Bernardo Borges, no bairro Vila Nova em Itu, em direção ao Hospital Sanatorinhos, seguido de perto por um rapaz que o persegue. Esta cena foi descrita ao GCM Gilmar que estava em patrulhamento ali perto e rapidamente que conseguem alcançar aos dois personagens.
O primeiro era o servente Antônio Anselmo, 38, natural de Palmeirândia, que estava a frente sem camisa e atrás dele vinha o estudante Bruno, filho do proprietário da Star Doces, Antonio Donizetti , que estava viajando.
Antônio explicou o por que de estar fugindo de Bruno: tinha bebido um pouco e estava resolvido a comer um doce; passando pela doceria em que estava o garoto, comprou e pagou normalmente a guloseima, mas como o rapaz estava ao telefone, achou que este não perceberia quando ele tirasse uma grana do caixa. Mas o diabo ajuda a fazer mas não ajuda a esconder. Quando estava pegando o dinheiro, umas moedas vieram a cair no chão, chamando a atenção de Bruno, que não teve dúvidas: correu atrás do prejuízo. Ele até jogou o dinheiro que tinha pego no chão, mas o estudante agarrou a grana e ainda assim o alcançou.
Levado a presença do delegado de polícia pelos guardas municipais, Antônio Anselmo, que já foi processado dezessete vezes por furto, foi preso, e responderá a este crime atráz das grades. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});
O encanador Vítor Gerson da Silva trafegava pelo Parque América em Itu quando colidiu seu veículo em outro dirigido pelo GCM Nelson. Vítor foi acusado de estar dirigindo embriagado e sua advogada questionou a ação da Guarda Civil Municipal no atendimento desta ocorrência.
Drª. Paula Sarmento lembra que a Polícia Civil não atende acidente de trânsito e sim a Polícia Militar, pois não se encontra em suas atribuições tal função, e se o fez foi uma exceção por ser um guarda civil um dos envolvidos, numa “ação entre amigos” que usou um “poder de polícia paralelo” para favorecer um membro da corporação, pois mesmo a polícia militar não se desloca até o local do sinistro quando é um caso de acidente sem vítima.
Apesar dos esforços da advogada de defesa a situação do acusado era indefensável. A própria esposa do réu declarou para aos guardas que ele era “um viciado assumido” e estes tiveram que atuar para que Vitor não a agredisse naquele momento.
O GCM Oliveira declarou que de fato não foi para o local para registrar um boletim de ocorrência de acidente de trânsito sem vítima, e sim para atender a um caso de desinteligência e embriaguez ao volante, o que derrubou a tese defensiva de favorecimento corporativo.
Mesmo antes da declaração do guarda civil o magistrado Dr. Hélio Villaça Furukawa já havia declarado que o “eventual abuso de autoridade deve ser apurado na via própria e nada interfere no delito ora apurado”.
A advogada ainda elencou três testemunhas que endossariam a tese que ele bebeu depois do acidente e não estava embriagado na hora do sinistro. Ela baseou a teoria no fato de que houve um lapso de três horas entre o acidente e o exame de teor alcoólico e Mário Abílio Neves, Antônio Pianca Sobrinho e Elton Alex da Silva provariam que ele foi para o bar depois do acidente.
Foram patéticas as declarações dos três, o que contrastava com o seguro depoimento da acusação. O juiz chegou a declarar que “a alegação do réu de que bebeu somente depois da colisão é ridícula e não encontra amparo nos autos. É evidente que o réu estava embriagado no momento da colisão. Além disso, já foi processado anteriormente pelo mesmo delito, indicando ser pessoa dada ao vício da bebida e da direção embriagada.”
Nove meses com a carteira de habilitação recolhida e um ano de trabalhos comunitários foi a pena imposta pela justiça a Vitor, que quem sabe não terá mais que enfrentar a alegada injusta da “ação entre amigos” da Guarda Civil e da Polícia Civil.
A garota acorda assustada e sua mãe lhe diz que a tia Rosa havia tentado matar o seu tio Alvacir. Passava um pouco das 16 horas de sexta-feira, dia 30 de maio de 2009 quando Valéria da Conceição Américo levantou e soube da gravidade dos ferimentos e chama o serviço de ambulância, mas não tem nenhuma naquele momento que possa ir em socorro. Disca então 199 e pede ajuda à Guarda Civil Municipal de Itu, que chega em poucos minutos. Segundo o Promotor de Justiça de Itu, Dr. Alexandre Augusto Ricci de Souza, o caranaibenseAlvacir Fernandes da Silva só foi salvo, pois a GCM Rosimary e o GCM Rosivalprestaram eficiente socorro à vítima.
(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); Alvacir está amasiado com Rosalina Américo há oito anos e ambos são catadores de papéis em Itu, na Vila Progresso, vivendo na Rua Segundo Feriozzi, e naquele dia, o casal que já tinha por hábito brigar violentamente, exagerou, e Alvacir sofreu um profundo corte de sete centímetros no pescoço que quase o levou à morte, deixando-o três dias no hospital e causando paralisia parcial dos movimentos de um dos lados do corpo.
Ela contou que…
Seu amásio Alvacir tem costume de beber, e naquele dia…
… ele que era demasiadamente ciumento, chegou em casa e foi conversar com o pai dela, que por ali estava. Aparentemente ele tinha ficado muito nervoso com ela, ciúmes de um cara que teria estado por ali a conversar com o seu pai, mas que ele encasquetara que tinha ido atrás dela. Ela que é uma senhora “com uma filha e dois netos“, ninguém de fora entra na casa, mas ele encasquetava que Rosa lhe traía. De repente ele vira e joga uma garrafa de 51 na direção dela, a garrafa estoura sobre o tanque de lavar roupas, ela pega um pedaço e joga na direção dele. Pronto, mal feito, feito.
Ele contou que…
Sua amásia Rosa tem o costume de beber, e naquele dia…
… ele tinha ido visitar seus filhos no CEACA, e quando voltou de lá contou para ela que naquele dia não houve visitas. Ela já aparentava estar muito nervosa. Ele foi então preparar um caldo de cana para acalmá-la, e levou um susto quando ela começou a gritar com ele: “filho de uma égua”, “isto é uma prisão“, e outras coisas. Mas ele não perdeu as estribeiras, ficou confeccionando um “teclado de garrafas” que pretendia dar para o pai dela. Como Rosa viu que ele não ia perder a calma, acabou saindo comprar uma 51, que tomou toda sozinha. Quando voltou jogou um pedaço da garrafa em sua direção, acertando-o, e mesmo vendo-o sangrar muito, ainda jogou-o para fora da casa, juntamente com todas as suas roupas.
Ambos concordam que…
Foi brincadeirinha e que querem ficar morando juntos por muitos anos. E, como ambos concordaram com isso, a juíza da 1ª Vara Criminal de Itu, Drª Andrea Ribeiro Borges, acolheu a tese da promotoria e da defesa que pediram a desclassificação do crime de tentativa de homicídio para lesão corporal grave. Condenando Rosa há três anos e meio em regime semi-aberto. Ela que já possui outras duas dúzias de condenações por furto, lesão corporal e tentativa de homicídio, já está na rua, podendo viver com seu amado no aconchego de seu lar. (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});