PCC ― Facções aliadas, inimigas e neutras

Listagem atualizadas das facções em guerra e em paz com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

Levantamento dos grupos, facções e bondes — inimigos, neutros e aliados

Revisado e atualizado em junho de 2020
alterações em junho de 2021

Por ocasião do ingresso da facção PCP Primeiro Comando Panda, como facção com laços de amizade com o PCC Primeiro Comando da Capital, trago a nova lista atualizada.

Levantamento dos grupos, bondes e facções inimigas

Grupos Inimigos:

  • Alagoas
    BDL — Bonde dos Malucos
  • Amapá
    UCA — União Criminosa do Amapá
  • Bahia
    PCE — Primeiro Comando de Enápolis
    PCI — Primeiro Comando de Itabuna
    TG — Paulo TG
  • Paraná
    Máfia Paranaense

Bondes Inimigos: 4

  • Alagoas
    • Bonde do Pajé
    • Bonde do Tudo 5
  • Bahia
    • Bonde da Goméia BDG
  • Maranhão — PI e PA
    • Bonde dos 40
  • Santa Catarina
    • Bonde do Chelsea

Facções Inimigas: 11

  • ADA — Amigo dos Amigos
    • Roraima
  • APS — Amigos para Sempre
    Amapá
  • Bala na Cara
    Rio Grande do Sul
  • Clã Rotela
    Paraguai
  • Choleros
    Bolívia, AC e RO
  • CP — Comando da Paz
    Bahia
  • CV — Comando Vermelho
    Rio de Janeiro, DF, RO, GO, PB, AM, RN, AP, PA, MA, TO, MG, AL, MT, AC, PI, RR, MS, RS, e CE
  • CVM — Comando Vermelho do Maranhão
    • antigo Primeiro Comando do Maranhão PCM
  • FDN — Família do Norte
    Amazonas, RN, PÁ, PB, RO, PI, MS, e RR
  • MVL — Matar, Vingar e Libertar
    Goiás
  • Nova Okaida
    Paraíba
  • Okaida RD
    Paraíba, RN
  • PGC — Primeiro Grupo Catarinense
    Santa Catarina, RS
  • PGN — Primeira Guerrilha do Norte
    Pará
  • SDC — Sindicato do Crime RN
    Rio Grande do Norte, PB

Levantamento dos grupos, bondes e facções neutras

Grupos Neutros: 12

  • Alagoas
    Comissão
    PCA — Primeiro Comando de Alagoas
  • Distrito Federal
    Bala que Voa
    Comboio do Cão
  • Goiás
    Família Monstra
  • Mato Grosso
    Comando Terrorista do MG
  • Rio de Janeiro
    Complexo de Israel
  • Rio Grande do Sul
    Grupo MR — Mata Rindo
    PCI — Primeiro Comando do Interior
    Taurus de Pelotas
  • Santa Catarina
    12 Apóstolos
    Grupo Comando Leal

Bondes Neutros: 5

  • Bahia
    Bonde da Goméia
    Bonde do Antonio (FAL)
    Bonde do RR
    Bonde do Zé Bedeu
    Bonde Ordem e Progresso — B.O.P

Facções Neutras: 5

  • Cartel do Norte (CDN)
    Amazonas
  • GDE — Guardiões do Estado
    Ceará
    • RN, MS, PB
    • em Roraima continua aliado
  • Inimigo é de Graça*
    Rio Grande do Sul
  • Katiara
    Bahia
  • Os Caveira
    Bahia

Levantamento dos grupos, bondes e fações amigas

Grupos Amigos: 18

  • Minas Gerais
    Coréia
  • Paraíba
    USA — Estados Unidos
  • Pernambuco
    CSP
    Os Kalango
  • Rio Grande do Sul
    Anti Bala
    Comando pelo Certo
    Família Mathias Velho — FMV
    Família 33
    Grupo CK2
    Grupo Cebola
    Grupo os Milhão
    Grupo os Quiquim
    Grupo os Trezentos
    Grupo Zoreia
    Inimigo é de Graça*
    Os Abertos
    Os Alemão
    Os Reforçados
  • Venezuela
    Tren de Aragua

Levantamento dos Bondes Amigos: 11

  • Bahia
    Bonde 8 de Ouro
    Bonde Alto
    Bonde Dona Maria
    Bonde do Ajeita
    Bonde do Juninho
    Bonde do Terceiro
    Bonde Feira de Santana
  • Espírito Santo
    Trem Bala*
  • Goiás
    Bonde do Ozama
  • Pernambuco
    Bonde do Cangaço
    Bonde dos Cachorros
  • Rio Grande do Sul
    Bonde do Tuca

*Segundo artigo no tribunaonline, o Trem Bala é o braço armado da facção Primeiro Comando de Vitória PCV

Facções Amigas

  • ADA — Amigo dos Amigos
    • Rio de Janeiro
  • ADE —Amigos do Estado
    • Goiás e TO
  • B-13 — Bonde dos 13
    • Acre e TO, PA, MS, PR, e RO
  • BDM — Bonde do Maluco
    • Bahia e TO
  • Cartel La Luz
    • Peru
  • CCA — Comando Classe A
    • Pará e TO
  • INFARA
    • Acre
  • Os Manos
    • Rio Grande do Sul
  • PCP — Primeiro Comando Panda
    • Rondônia
  • PCRC — Primeiro Comando Revolucionário Catarinense
    • Santa Catarina
    • PCU — Primer Comando Uruguayo
    • Uruguai
  • PVC — Primeiro Comando de Vitória
    • Espírito Santo e RO
      • (o PVC do estado do ES já não seria uma facção amiga do PCC. Era até em 2010 agora é aliada do CV — essa mudança não constava quando na listagem distribuída dela hierarquia quando foi publicada no site)
  • Taurus
    • Rio Grande do Sul
  • Terror
    • Amapá e MS
  • TCP — Terceiro Comando Puro
    • Rio de Janeiro
  • Tríplice AFT
    • Peru, Colômbia e Brasil
  • V7
    • Rio Grande do Sul

* verificar com a Sintonia: Inimigo é de Graça está na listagem como “facção neutra” e como “grupo amigo”


COMUNICADO GERAL SISTEMA E RUA ESTADOS E PAÍSES
16/03/2020

PRIMEIRAMENTE UM SINCERO LEAL ABRAÇO A TODOS(a) IRMÃOS(a) COMPANHEIROS E AMIGOS SEM EXCEÇÃO, VIEMOS ATRAVÉS DESTE DEIXAR UMA CIÊNCIA QUE NA DATA 11/03/2020 NÓS DO PCC (PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL) FIZEMOS UM LAÇO DE AMIZADE COM A FACÇÃO PCP (PRIMEIRO COMANDO PANDA) ORIUNDA DO ESTADO DE RONDÔNIA ONDE OS AMIGOS DESFEZ O LAÇO QUE TINHAM COM NOSSOS INIMIGOS FDN E APS E ESTÃO COM NÓS EM TODOS OS SENTIDOS SENDO ASSIM ONDE TIVER UM INTEGRANTE DO PCP É PRA RECEBER DE BRAÇOS ABERTOS E PRESTAR TODO APOIO NECESSÁRIO TANTO NA RUA QUANTO NO SISTEMA POIS ESTAMOS LUTANDO PELOS MESMOS IDEAIS SENDO ASSIM A PARTIR DA DATA QUE FOI NARRADA PCP DO ESTADO DE RONDÔNIA SÃO NOSSOS AMIGOS.
DEIXAMOS UM GRANDE ABRAÇO A TODOS(a) SEM EXCEÇÃO.
ASS: PCC 1533


Listagem anterior publicada nesse site em agosto de 2018:

Facções criminosas aliadas da Família 1533 (28)

Acre: Bonde dos 13 (B13) e INFARA

Amapá: Terror

Bahia: AGEITA Q É NÓIS, Bonde do Maluco (BDM), CaveiraKatiara

Ceará: Guardiões do Estado (GDE)

Espírito Santo: Primeiro Comando de Vitória (PCV) e Trem Bala

Goiás: ADE, Bonde dos Cria, Bonde do Osama e Família Monstro

Maranhão: Bonde dos 40 (B40)

Pará: Comando Classe A (CCA)

Pernambuco: Cachorros, Coringa e USA (GRUPO)

Rio de Janeiro: Amigo dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP)

Rio Grande do Sul: Conceição, Os Abertos, Os Mano, Tauros e V7

Roraima: Primeiro Comando do Panda (PCP-RO)

Santa Catarina: Comando Leal (CL) e Primeiro Comando Revolucionário Catarinense (PCRC)

  1. Fora da lista original – acrescentada em maio de 2020
    1. Rondônia: Primeiro Comando do Pandinha (PCP) — Família do Gueto

Facções criminosas inimigas da Família 1533 (18)

Alagoas: BDL e COMICAO

Amapá: UCA-(OBS) e APS

Amazonas: Família do Norte (FDN)

Bahia: Primeiro Comando de Esperantina (PCE) e Primeiro Comando do Interior (PCI)

Brasília (Distrito Federal): Comboio do Cão

Goiás: Matar, Vingar e Libertar (MVL)

Mato Grosso do Sul: OPOSIÇÃO

Pará: Equipe REX

Paraná: Máfia Paranaense

Pernambuco: Okaida (OKD)

Rio de Janeiro: Comando Vermelho (CV)

Rio Grande do Norte: Sindicato do Crime RN (SC-RN)

Rio Grande do Sul: Bala na Cara

Santa Catarina: Primeiro Grupo Catarinense (PGC) e Bonde do Chelse

Facções criminosas neutras em relação à Família 1533 (10)

Alagoas: PCA

Bahia: Bonde do Neguinho (BDN) , Comissão da Paz (CP) e 8 de Ouro

Minas Gerais: CTGM

Rio de Janeiro: Povo de Israel (PVI)

Rio Grande do Norte: Primeira Guerrilha do Norte (PGN)

Rio Grande do Sul: Cova Rasa e Os Brasa

Santa Catarina: 12 Apóstolos

Total de facções criminosas listadas pela Família 1533 (56)

Facções criminosas em SINTONIA com a Família 1533

Acre: B13 liderança Dragão

Amapá: Terror liderança Espeta e Xico

Bahia: BDN liderança Coroinha , Doido , Fofão e Bonitão

Ceará: GDE liderança Juara , Siliciano, Moisés, Hendall e Célebro

Espírito Santo: PCV liderança Juliano

Maranhão: B40 liderança Gladiador, Dragão e Pivete

Pará: CCA liderança Goiano, Fúria e Ciclone

Rio de Janeiro: TCP liderança 90 e TH; A.D.A Liderança
FM A.D.A

Rio Grande do Sul: V7 liderança Negro

Mulheres: PCC oferece oportunidade de trabalho

A facção paulista Primeiro Comando da Capital e a situação da mulher que trabalha para o tráfico nas cidades amazônicas fronteiriças com a Colômbia.

As garotas do tráfico internacional amazônico

O Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) oferece vagas de trabalho na região da fronteira com a Colômbia. Têm preferência moradoras das cidades brasileiras de Vila Bittencourt, Ipiranga e Tabatinga ― caso tenha interesse, procure Júlia.

Júlia mudou meu conceito de quem são e como vivem as garotas que trabalham para as organizações criminosas e guerrilheiras na fronteira amazônica ― e a situação dessas mulheres, confesso, muito me entristeceu.

Hoje já não troco mais mensagens com nenhuma arlequina que vive no norte, mas quando o fazia, de longe podia sentir o calor, a vida e a alegria daquelas garotas ― de uma morena em especial, cujo nome não direi.

Eu convidei algumas vezes a morena para que viesse a São Paulo, mas, sempre por conta das responsas, estava impedida, contudo, se tivesse ouvido antes Júlia, eu teria me esforçado mais para trazer a arlequina para terras paulistas.

A mulher do tráfico no amazonas e a família do norte

A morena rasgou a camisa do 3 (e eu nem vi)!

A situação, naquela região, descrita por Júlia, com palavras de uma graduanda em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, seria algo que Granuja talvez descrevesse mais ou menos assim:

“La frontera de las chicas poderosas y hombres malos, y ladrones, y bandidos, y ladillas, y de perras de rodillas Casquillo de las balas y de grillas Los dos igual de peligrosos por si no lo pillás No sabes, no opinés.”

Após a morte de Jorge Rafaat Toumani e o massacre de Compaj, a equipe da qual a morena fazia parte migrou para o inimigo Comando Vermelho e, depois do racha CV FDN, passou a atuar como braço da facção inimiga Família do Norte.

Nem sei por que comentei essa história do passado com você, pois o que realmente me chamou a atenção no trabalho de Júlia foi algo que ela descreve como sendo a feminização da pobreza das mulheres que entram para o tráfico.

a feminização da pobreza Júlia Henriques Souza

A feminista, o cidadão de bem e a morena

Essa história de feminização ou o escurecimento da pobreza talvez seja um discurso desenhado por minorias de mulheres e negros indolentes ― a Constituição Cidadã (CF-88) e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já garantem o tratamento igualitário à todos.

Um candidato a presidente da república em debate deixou clara essa posição hipócrita de feministas e de grupos raciais que lutam pela paridade dos salários e do acesso aos cargos de chefia ― se mulheres ou negros querem ganhar mais, que trabalhem mais e melhor!

Júlia Henriques Souza, ariana e pertencente à elite cultural, discorda desse ponto de vista em seu artigo para a Revista Fronteira de Iniciação Científica e Relações Internacionais: “O narcotráfico nas fronteiras brasileiras e a feminização da pobreza: um ciclo vicioso”.

E ainda, de quebra, acabou por destruir minha ideia de quem era a morena amazônica que morou por tanto tempo em minha mente e em meu coração.

companheiras do primeiro comando da capital diferenças regionais

A mulher dentro do PCC

Mesmo que você ache que nunca encontrou algum membro da facção paulista, com certeza já ouviu falar de alguns deles, no mínimo de Marcola e Gegê do Mangue, mas duvido que possa mencionar uma mulher.

Em um esforço de memória, lembrei de algumas companheiras e aliadas, como Marcela Chagas no Rio de Janeiro e Jasiane Silva Teixeira, a da Dama de Copas que liderava (ou lidera) a facção aliada Bonde do Neguinho (BDN).

Aqui em São Paulo, as companheiras são muito ativas, e em geral têm algum relacionamento, seja de parentesco, seja amoroso, com um irmão ou um companheiro, e assim entram no mundo do crime.

Algumas acabam por ganhar autonomia nos corres, e raramente lideram equipes, mas sempre têm o maior respeito dos homens da facção.

A cúpula do PCC apregoa o respeito pela mulher do crime em todos os cantos nos quais mantém o domínio, no entanto Júlia nos mostra que na prática, por lá, pouco ou nada mudou.

a mulher do tráfico da farc na fronteira no brasil

A mulher do tráfico na fronteira colombiana

Júlia utiliza os estudos de Diana Parce para demonstrar que o ciclo de pobreza no qual as mulheres amazonenses estão inseridas as leva cada vez mais a buscar, nos grupos criminosos, uma forma de driblar as barreiras de ascensão social.

Se você conhece a vida em Vila Bittencourt, Ipiranga e Tabatinga pode dizer que Júlia está errada, mas, se não, bem, é melhor seguir o conselho de Granuja: No sabes, no opinés”.

As oportunidades de emprego são mínimas, e são oferecidas preferencialmente para os homens. As mulheres devem se limitar a algumas atividades de menor reconhecimento social e de baixa remuneração ― mercado formal é um luxo para poucas.

Não há como se falar naquela região sem mencionar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o tráfico de cocaína em um ambiente em que “muitas mulheres são forçadas a se prostituir e/ou trabalhar tanto para as FARC quanto para grupos paramilitares”.

Aquele ambiente é uma selva, e não estou usando uma metáfora: a fronteira é coberta por densa floresta e igarapés, e as cidades daquele lado da fronteira têm sempre uma cidade irmã do outro lado ― a aproximação cultural é regra, para o bem ou para o mal.

Júlia conta, inclusive, que, ao contrário do que se pensa no restante do país, a fronteira não é assim tão precisa. Os povos indígenas Tikuna circulam livremente e “a fronteira geográfica formal praticamente não tem significância, gerando problemas de nacionalidade emigração”.

o tráfico de drogas como opção ao mercado de trabalho

Drogas como a melhor opção de trabalho

Famílias deixam suas regiões de origem na Colômbia e buscam abrigo em outras regiões, sem um homem jovem ou adulto, pois esses foram recrutados à força pelas FARC ou pela milícias ― isso quando não morreram. Restaram apenas velhos, mulheres e crianças.

Algumas chegarão a La Pedrera/Vila Bitencour, Tarapacá/Ipiranga e Letícia/Tabatinga, e integrarão a azeitada indústria do tráfico da região.

Hoje há um maior controle ambiental do lado brasileiro à indústria extrativista, o que empobreceu e dificultou ainda mais a possibilidade de emprego deste lado, principalmente para as mulheres.

Enquanto você leu esse artigo, as facções criminosas transferiram de um país para outro cerca de 200 reais. Infelizmente para as garotas e para os policiais que gostavam de apresentá-las no plantão, elas já não são mais importante no processo.

Explorada pelas facções e milícias e esculachadas pelos agentes públicos, as mulheres do tráfico perderam espaço novamente para os homens que pilotam os aviões e os barcos com grandes quantidades de drogas ― algumas coisas não são tão ruins que não possam piorar.

“Acho que elas são piores do que as facções. No caso da facção fica muito claro quem é o bandido e quem o mocinho, a milícia transita entre o Estado e o crime, o que é bem pior.”

desembargadora Ivana David
ascenção social das meninas do mundo do crime pcc1533

A mulher do tráfico na fronteira colombiana

Reitero o convite. Caso tenha interesse sobre o emprego de mulheres pelas facções criminosas na região da fronteira com a Colômbia, procure o artigo de Júlia, acessível neste link.

Júlia mudou meu conceito de quem são e de como vivem as garotas que trabalham para as facções na fronteira amazônica ― e a situação dessas mulheres, confesso, muito me entristeceu. A vida no mundo do crime não é fácil como muitos pensam, mas eu não esperava que fosse tão obscura.

Por maior que seja o empenho das lideranças paulistas para tentar uma isonomia ao tratamento dado às companheiras dos vários estados, Júlia demonstrou que razões culturais vão se impor na região, impedindo a ascensão das meninas amazonenses.

O mundo nunca foi justo, mas também não precisava ser uma selva tão hostil como é na fronteira do Amazonas com a Colômbia ― e nem falei dos piuns (mosquitos incômodos)!

8 de dezembro de 2022

Foto do líder indígena Yanomami Dário Kopenawa e o símbolo do Greenpeace

Yanomami na luta contra o PCC e os garimpeiros ilegais

Dário Vitório Xiriana Kopenawa dirige a organização “Hutukara Associação Yanomami”. Por meio de seu trabalho, ele quer fazer valer as demandas dos Yanomami, entre outras coisas, no nível político. Seu trabalho se concentra em particular nos ataques de garimpeiros ilegais de ouro e crime organizado, confirmando o envolvimento da facção paulista nas ações criminosas no território indígena.

Já na década de 1980, cerca de 40 mil garimpeiros ilegais invadiram nossa terra Yanomami. O mesmo se repete hoje. Os Yanomami são mortos. Os invasores continuam aumentando. Grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital), que cometem crimes organizados contra os indígenas, também são uma ameaça. — Dário Kopenawa

Ele também se dirige diretamente aos líderes mundiais:

O que queremos hoje na região Yanomami é a ajuda dos países internacionais. Queremos apoio para pressionar o governo brasileiro. Os “garimpeiros” devem partir imediatamente, antes que mais parentes nossos, crianças e mulheres morram e mais violência aconteça.

O governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro tolerou as maquinações ilegais nos últimos anos de sua gestão, até mesmo encorajando-as com sua retórica agressiva. Ainda não se sabe como as coisas continuarão para a população indígena no Brasil sob o novo governo recém-eleito de Lula da Silva – mas há uma grande esperança de mais respeito pelos direitos humanos.

Trecho do artigo “wert? – Goldrausch in Brasilien zerstört Biodiversität” na página do Grampeasse

PCC e a morte de crianças e adolescentes

Facção paulista PCC 1533 se manifesta sobre recentes mortes de crianças, jovens e adolescentes.

Comunicado Geral Externo
― 20 de agosto de 2018 ―

Deixamos todos criminosos cientes que vem ocorrendo situações extremamente revoltantes e toda a família PCC está ficando indignada com tal frequência.

Temos visto e acompanhado que pessoas despreparadas e covardes tem cometido ações de violência inexplicáveis ao tirar a vida de crianças, jovens e adolescentes, na intenção de roubar celulares e objetos de pequenos valores ― apenas por maldade.

Esclarecemos a todos que não compactuamos com essas atitudes e que não aceitamos que nossas crianças, adolescentes e jovens sejam exterminados covardemente por motivos tão banais.

Pedimos que sejam trocadas umas ideias nas comunidades em todas as quebradas e orientando a rapaziada que age dentro deste perfil para evitar a violência nesta proporção, pois sabemos que o com ajuda muitos criminosos mas a vida de nossas crianças estão sendo tiradas por nada, e não vamos ser passivos com quem tirou a vida de crianças e adolescentes por covardia ou maldade.

Não estamos impedindo nenhum criminoso de fazer seus corres, mas se acontecer uma covardia aonde estivermos seremos justos e cobraremos altura.

Um forte abraço a toda criminalidade!!
S.F

O PCC e Moisés e a solução do problema carcerário

A cultura judaico-cristã e o fenômeno da prisionização: stress, tortura e assassinato em um sistema carcerário insalubre.



Mil à esquerda e dez mil à direita ― ou quase

Muitas coisas os integrantes do Primeiro Comando da Capital e os homens da polícia e os agentes penitenciários (ASPens ou ASPs) têm em comum, e uma delas é a citação constante em suas redes sociais do Salmo 91:7:

“Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.”

Não podia ser diferente, ambos os grupos são ou se consideram guerreiros e foram doutrinados em uma sociedade judaico-cristã ― assim como você e eu.

Há poucos dias duas dezenas de integrantes ligados ao PCC caíram logo aqui ao sul (Sorocaba), e três dezenas de policiais envolvidos com o PCC caíram logo ali ao norte (Campinas) ― por isso resolvi dar um tempo nas postagens.

No entanto, caíram no meu colo dois artigos, um do Ponte Jornalismo, ”Pastoral Carcerária Nacional denuncia tortura em presídio de Anápolis (GO)”, e outro do Canal Ciências Criminais, “Os efeitos da prisionização nos agentes penitenciários” ― não resisti, voltei.

Fenômeno da Prisionização Pedro Magalhães Ganem

Prisioneiros Vs Carcereiros

Moisés matou um carcereiro que torturava um preso, e assim começou o Êxodo do povo de Israel, que culminou na construção de nossa base cultural e religiosa ― faz tempo, mas o caso ficou muito conhecido:

Ele foi ter com os seus irmãos e começou a dar­-se conta das terríveis condições em que viviam, certa vez viu mesmo um dos guardas a bater num dos seus irmãos! Não se conteve. Olhou dum lado e doutro para se certificar de que ninguém mais o via, matou-o…

O Ponte Jornalismo levantou a questão da tortura nos presídios, mas foi o pesquisador Pedro Magalhães Ganem quem me chamou a atenção para o fato de que os carcereiros também são tão vítimas desse processo tanto quanto os encarcerados.

Creio que você, ao ouvir a história de Moisés, possivelmente o apoiou, mas posso estar errado ― tente se lembrar o que você pensou na época que ficou sabendo do caso.

De fato ninguém, nem eu, nem você, derramamos lágrimas para o agente morto por Moisés. Repare: você que já ouviu falar da história com certeza não se lembra e nunca se indagou qual era o nome do carcereiro assassinado no Egito.

Diorgeres de Assis Victorio prisioneiro do PCC 1533

Ninguém está nem aí para com os carcereiros

“Então um dos detentos que parecia um líder disse que precisava de dois reféns para ir com ele até a muralha do pátio. Era ali, na frente de todo mundo, que eles costumavam matar os reféns. Como na época do Exército eu havia tido aulas de prisioneiro de guerra, com porrada, tapa na cara etc., concluí que poderia estar mais preparado do que os outros para ir, então eu acenei com a cabeça para um colega que achei que tinha mais frieza e nós dois dissemos que iríamos.”

Não, provavelmente você não se lembra de Diorgeres de Assis Victorio, assim como não se lembra do nome do carcereiro egípcio que foi morto, mas se lembra de ter ouvido falar de Moisés, assim como ouviu falar de Marcola, Gegê do Mangue, entre tantos outros.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

Não se culpe se você nunca ouviu falar sobre Marcola e seus comparaças, afinal não faz nenhuma diferença o nome daqueles que vão morrer, “Ave, Imperator, morituri te salutant”. A democracia e a tecnologia, no entanto, tiraram os cristãos de dentro das sangrentas arenas dos circos romanos para os sofás em frente das TVs.

Você talvez tenha visto Diorgeres de Assis Victorio pela televisão, tenha ficado torcendo por seu fim ou por sua salvação, mas, independente do resultado, seu nome seria esquecido, assim como foi o do agente penitenciário morto por Moisés.

penitenciárias deterioradas inseguras e insalubres.jpg

Em briga de lobos, ovelha não palpita, ou palpita?

Assim como no passado, hoje, o tratamento dado aos presos é violento, qualquer um que passou pelo Sistema Prisional pode te dizer isso, no entanto é impossível se provar as barbaridades que acontecem do lado de dentro das muralhas.

“Os presos e os membros da Carcerária têm medo de represália [mas] temos relatos em Goiás [de] tortura, ausência de direitos e outras violências, […] os apenados estão sendo submetidos a tratamentos humilhantes de forma consciente, os presos são machucados e possuem dedos quebrados.”

As poucas vezes que inquéritos foram abertos e chegaram à conclusão com a punição dos agentes foram aquelas que os próprios envolvidos filmaram o ocorrido, assim como acontece com os integrantes do Primeiro Comando da Capital que caem após filmarem suas execuções.

Os defensores dos manos, como são chamados pelos “cidadãos de bem”, cristãos, que defendem o cumprimento da lei e da ordem, acreditam que a violência cometida pelos agentes policiais e carcerários é justificada, mas será mesmo?

O sistema prisional brasileiro, assim como a segurança pública, não pode prescindir da tortura e do uso ilegal da força, que a máquina de Justiça tolera, pois foi criada para fazer com que esses abusos não suportem um processo formal.

As ovelhas podem balar, mas os ASPens que caminham desarmados entre os lobos querem sobreviver, e não o conseguirão seguindo regras desenvolvidas em gabinetes para serem aplicadas em penitenciárias deterioradas, inseguras e insalubres.

Quem defende vagabundo é vagabundo também

Melhoria das condições do cárcere já!

Não, não sou eu, um PCC ou um defensor dos Direitos Humanos que faz ecoar esse brado, é ninguém mais e ninguém menos que Pedro, o pesquisador do site Canal Ciências Criminais:

“Diante desse prisma fica ainda mais evidente que é essencial buscar melhorias em todos os aspectos, garantindo direitos e assegurando o cumprimento do que estabelecido na lei.

Infelizmente, quando surge esse assunto, as pessoas logo tratam de associá-lo à busca pela garantia dos direitos apenas de quem está detido, naquilo que elas erroneamente denominam “defesa de bandido”.

Pare pra pensar: se o lugar é insalubre, mal iluminado, pouco ventilado, inóspito, […] não é somente para quem está preso, mas também para quem trabalha o dia inteiro lá.

Já parou para pensar como deve ser difícil trabalhar lá dentro? Como deve ser complicado compartilhar dessas precárias estruturas com as pessoas que estão presas?

Vivenciar todas as violações de direitos (deles próprios e dos detentos) é uma das causas desses trabalhadores serem acometidos das mais variadas doenças psíquicas.”

prisões o que não mata nos fortalece

O fenômeno da prisionização ― a vida como ela é

Pedro nos lembra que dentro do sistema carcerário existem vários tipos de presos, os apenados, os funcionários e todos aqueles que por um motivo ou por outro têm que ingressar nesse sistema que mata e tortura ― a todos, indistintamente, e aos poucos.

Você de certo se lembra que o povo hebreu enviado para o cativeiro voltava fortalecido e dominando novas tecnologias e ideologias. Foi assim que se desenvolveu o monoteísmo, o idioma, os sistemas de governo, justiça e administração militar.

Você de certo também se lembra que aqui no Brasil os criminosos comuns foram colocados juntos com os prisioneiros políticos e distribuídos por todo o país. Foi assim que desenvolveram sua cultura, o Estatuto do PCC, os Tribunais do Crime e a sua base nacional.

“Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido.”

Há poucos dias duas dezenas de integrantes ligados ao PCCs caíram logo aqui ao sul, e três dezenas de policiais envolvidos com o PCC caíram logo ali ao norte ― muitos deles ficarão nos cárceres, e que novas tecnologias e estratégias desenvolverão?

problema complexo requer solução simples

Qual é a solução para nosso problema carcerário?

Os carneiros balem às vezes pedindo a privatização do sistema prisional e a maior liberdade para os presos, também pela estatização e pelo enrijecimento no tratamentos dos detentos ― soluções fáceis para um problema complexo.

Moisés não colocou os pés na Terra Prometida, e não seremos eu ou você que chegaremos lá, mas podemos, sim, balir e opinar como os agentes públicos e os presos devem se comportar.

Crucifiquemos ora os ASPens, ora os presos, mas deixemos para lá a estrutura social e econômica criada em torno do cárcere, pois ela não deve ser tocada, afinal daria um trabalho danado ― deixemos como está para ver como é que fica.

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo

Marcola do PCC e o mito de Frankenstein

A elevação de Marcola como figura heroica para determinados grupos sociais é uma criação do Estado e da imprensa, que apenas buscavam os holofotes.


Afinal quem seria o monstro? A criatura ou seu criador?

Em 15 de agosto de 2011, escrevi meu primeiro artigo sobre o Primeiro Comando da Capital, mas só há pouco tempo, em resposta ao uso dos termos “crime organizado” ou “organização criminosa”, pararam de chegar mensagens como esta:

“Presos semialfabetizados montando uma organização criminosa kkk”

Em uma das vezes que fui prestar depoimento na delegacia, até o inquiridor batia na tecla que um grupo de semi-alfabetos era incapaz de gerir uma facção ― então tá! Se eles diziam isso, quem seria eu para contrariar?

Agora que imprensa, delegados, promotores de Justiça e juízes tratam o PCC como crime organizado, creio que me deixarão em paz, parei de receber os “kkks”, então o próximo passo é falar sobre o Mito de Frankenstein.

Na história de Mary Shelley, o doutor Victor Frankenstein coloca-se no lugar de Deus e decide criar um ser, formado essencialmente de partes de cadáveres. O resultado da empreitada é uma criatura de aparência horrível.

Ao deparar-se com sua criação, o doutor a abandona à própria sorte. Rejeitada, a criatura adentra, então, em um curso de caos e destruição. Essa história, que completa duzentos anos este ano.

Na nossa história, o Estado Constituído e a imprensa criaram e mantêm viva a imagem de um demônio folclórico chamado Primeiro Comando da Capital, só que esse ser ganhou vida e seus criadores tem agora que conviver com sua criatura, senão submeter-se a ela.

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Charles Darwin o pcc e as prisões brasileiras

O darwinismo e a seleção natural das espécies

O sistema carcerário, da maneira como foi montado, possibilita aos presos tempo e ambiente propícios para a seleção natural dos mais fortes ― se você faltou à aula sobre Charles Darwin e Alfred Wallace, não tem problema, deixo aqui o link:

Nietzsche, a Seleção Natural Proposta por Charles Darwin e a Eugenia Antonio Baptista Gonçalves 127

Demorou para que a imprensa mudasse seu discurso, e só o fez após as autoridades mudarem o delas também: inicialmente negavam a existência da facção, depois a reconheciam como um grupo sem importância e hoje a apresentam como uma organização internacional.

A questão puramente semântica, é sobre se o Primeiro Comando da Capital é um grupo formado por bandidos semi-alfabetizados, ou uma facção criminosa, ou uma organização que age dentro e fora dos presídios, ou um cartel internacional, ou nada disso.

O que vale para a imprensa é a venda dos artigos, já para os representantes do Estado é mostrar cabeças rolando na guilhotina ― e se for a cabeça de um rei do tráfico, o sucesso da execução pública será maior que a de um bandido semi-analfabeto.

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pastor Lyman Beecher álcool e drogas

O PCC e pastor Lyman Beecher de Connecticut

Eurico fez um comentário em um artigo deste site no Grupo do Facebook “Discutindo Segurança Pública” que me levou a pesquisar sobre as razões que levaram Lincoln Gakiya e seus colegas do MP-SP entre outras autoridades a demonizar o PCC:

“Conversa do Emê Pê, pura autopropaganda […] querem se mostrar para o próximo governo, para permanecer na elite dos poderes. Muito fácil, requisitar, por as mãos na massa, somente diante dos holofotes. Já não enganam mais ninguém…”

Trecho de diálogo Facebook

Michael Woodiwiss, em seu artigo Organized Evil and the Atlantic Alliance: Moral Panics and the Rhetoric of Organized Crime Policing in America and Britain, publicado na The British Journal of Criminology, explica-nos a criação do que ele intitula de demônios folclóricos.

E foi lendo seu trabalho que tive o prazer de conhecer o reverendo Lyman Beecher:

As pessoas estão mudando, estamos nos tornando um outro povo. As pessoas que antes não roubavam por vergonha, agora não estão nem aí, ostentavam seu desprezo pela lei. Se não agirmos rapidamente, a sociedade sucumbiria aos traficantes de drogas.

Lyman disse algo assim em 1812. Bastou substituir “vendedores de rum” por “traficantes de drogas” para que parecesse que isso foi escrito hoje ― os discursos dos caçadores dos demônios folclóricos não mudaram em dois séculos de história.

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Conflitos urbanos regime militar e constituição cidadã

A causa da criminalidade urbana

Podemos apontar como causa do aumento da criminalidade tanto o Regime Militar de 1964 quanto a Constituição Cidadã de 1988 ― a criminalidade explodiu durante os governos militares, mas a sensação de insegurança só aumentou após a redemocratização.

Ambas as afirmações seriam falaciosas: a criminalidade aumentou com o inchaço das cidades devido ao êxodo rural, e a insegurança veio com o acesso às notícias antes manipuladas.

Assim como, no passado, fez o pastor Lyman, as autoridades e a imprensa apresentaram as hordas de pobres urbanos e vendedores de bebidas como causadores da criminalidade, papel atribuído hoje à facção PCC e aos traficantes de drogas.

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O demônio que vive entre nós

O demônio não é a causa, e, sim, o sintoma da doença

Lyman começou em 1812 a caça aos misteriosos ruff-scruffs, seres demoníacos que ameaçavam a sociedade, inimigos estranhos e nebulosos, “demônios folclóricos” que podiam atacar e destruir toda a sociedade.

Precisávamos criar por aqui algo parecido, os nossos ruff-scruffs, mas a sociedade brasileira não se assustava mais com os homens-do-saco ou com as loiras-do-banheiro.

Mostrava-se necessária a existência de alguém ou algo que pudesse ser demonizado e que tivesse se atrevido a exercer funções do Estado:

“O sistema político deixou muitas pessoas em estado de abandono, então elas tiveram que criar alguma solução. A regulação do PCC é o principal fator sobre a vida e a morte em São Paulo. O PCC é produto, produtor e regulador da violência”

A destruição da facção, sem que em paralelo se combatam as causas sociais que permitiram sua ascensão, terá tanta possibilidade de êxito quanto as ações de Lyman contra a venda de bebidas alcoólicas e a prostituição, há dois séculos.

O PCC é uma organização tão grande que, se você tentar eliminá-lo, você criará uma enorme quantidade de violência.

O crime desorganizado causa mais mortes nas periferias e entre policiais do que o crime organizado ― mas isso não é problema nosso, pobre tem de monte para morrer, e se um policial for morto é só contratar outro no lugar.

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Intervenção militar 2018 Rio de Janeiro

Papai resolve tudo, federalizar para ser feliz

Michael, em seu trabalho, conta-nos que uma das características da demonização é o clamor para que o Governo Federal assuma as rédeas do controle social, seja por meio da formulação de leis nacionais ou do controle direto das ações.

O pesquisador cita dezenas de exemplos na América e na Europa, no entanto, aqui mesmo no Brasil, vemos esse fenômeno se repetir.

Você já deve ter ouvido críticas ao fato de o Governo do Estado de São Paulo não entregar os condenados às prisões federais. Nome bonito, “PRISÃO DE SEGURANÇA MÁXIMA FEDERAL”, mas sempre tem o mas…

Foi dentro de uma máxima federal que se articulou a ação do Primeiro Comando da Capital, na Rocinha, no Rio de Janeiro, e…

Foi graças à federalização dos presos paulistas que a facção 1533 se espalhou com êxito por todo o país, e ninguém vai me convencer que o Governo Federal tem alguém que entende tão bem o PCC quanto Lincoln e seus colegas do MP-SP.

Aqueles que têm carência da autoridade paterna, assim como Lyman tinha, clamaram pela intervenção federal na Segurança Pública e pelo envio da Força Nacional para o estado do Ceará. Pois bem, seus sonhos foram realizados ― só que não.

Onde citei neste site a Intervenção Federal → ۞

A história como repetição cíclica

Eu e você sabemos que o mundo segue uma linha contínua: passado, presente e futuro, mas talvez isso seja apenas uma mentira construída por nossa formação judaico-cristã. Aqueles que foram criados sob a cultura hindú crêem que tudo no universo é cíclico.

Michael me lembrou essa diferença quando contou a história do Comitê Kefauver, e não há possibilidade de não associar a descrição do que aconteceu em 1950 com o que acontece hoje. Se há um ciclo histórico a ser repetido, estamos passando por ele.

Leia a descrição que Michael faz do caso do comitê americano e verá que cada linha pode ser utilizada para descrever com perfeição a caça aos PCCs, orquestrada na nossa contemporaneidade:

O governo federal estaria cada vez mais comprometido com o policiamento de mercados ilegais uma tarefa que estava provando estar além da capacidade das administrações locais.

Marcola, Frank Costello e o Mito de Frankenstein

Frank Costello foi elevado pelas autoridades como sendo o o líder mais influente do submundo. Ele declarou:não operava em lugar algum, não era convidado, e mesmo negando liderar a organização criminosa, passou a ser visto como seu líder.

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, foi elevado pelas autoridades como sendo o “líder máximo do PCC”. Ele declara que nem pertence à facção, e mesmo negando liderar a organização criminosa, passou a ser visto como seu líder.

O Marcola era homicida, sequestrador, roubava banco, não tinha nada a ver com a facção, mas é um homem articulado. E quando ele foi levado para o presídio de Tremembé [no interior de SP] começa a conversar com os últimos presos políticos no sistema prisional e aprende com eles sobre como estruturar o tráfico, a gerenciar como uma empresa, ao mesmo tempo em que vende internamente para os detentos a ideia de uma irmandade revolucionária.

desembargadora Ivana David

A facção Primeiro Comando da Capital surgiu para suprir demandas de grupos sociais abandonados pelo Estado à sua própria sorte. No entanto, foi demonizada para suprir o Estado de grupos sociais que pudessem ser culpabilizados pela falência da Segurança Pública.

Um líder assumiu o Primeiro Comando da Capital, e o Estado, para conquistar a atenção dos holofotes para sua guilhotina, o demonizou ― só lamento, agora o criador deve conviver com sua criatura, senão submeter-se a ela.

3 de agosto de 2018

PCC a facção que não para de crescer
Se eu colocasse essa manchete estava preso
Isto É  → Vicente Vilardaga e Fernando Lavieri
→ São Paulo
→ Organização Criminosa
No dia seguinte que eu postasse um artigo com essa chamada seria levado para prestar depoimento e responder por apologia ao crime, então é melhor lerem a reportagem na fonte (desculpe se me rio: kkkk).

Nos últimos anos, como consequência do acirramento da disputa por poder entre grupos criminosos, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), tem sido recorrente a execução de grupos rivais dentro de unidades prisionais. Nestes casos, a morte, mesmo qualificada por uma brutalidade terrível, choca ainda menos. Tornamo-nos uma sociedade sádica, despudorada que não apenas aceita estas mortes, mas vibra com elas. A morte deve entrar em casa, tomar café e almoçar todos os dias com cada um de nós e não mais assustar. Tal sadismo toma forma a partir do crescente número de programas jornalísticos sensacionalistas, sucessos de audiência, centrados no espetáculo da violência. O medo da violência não desperta indignação, mas alimenta o ódio ao “outro”, reforçando a cisão social. Neste sentido, a percepção reproduzida nos últimos anos de uma sociedade dividida entre “cidadãos de bem” e “marginais” aparece como a versão mais moderna da polarização entre a Casa Grande e a Senzala. (leia o artigo dessa citação na íntegra)

Rafael Moraes é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Pedro Rodrigues da Silva, o Pedrinho Matador, conhece o sistema prisional de São Paulo como poucos. Ele ficou sem ver a rua de 1973 até 2007 e de 2011 até 2018 — viveu mais de 40 atrás das grades e por lá, ele conta que viu mais de 200 presos serem mortos enquanto esteve por lá, sendo que mais de 100 foram ele mesmo que matou.

Viveu no cárcere no tempo do Regime Militar, da redemocratização e dos governos com leve viés progressista, mas mudança mesmo, houve quando a facção paulista despontou como hegemônica, acabando com as diversas gangs e grupos dentro das cadeias e presídios.

Sobre o Primeiro Comando da Capital ele afirmou durante uma entrevista:

“Fui [convidado a entrar no PCC], mas não entrei. Ali é o seguinte: depois que surgiu o partido, você vê que a cadeia mudou. Não morre ninguém porque o partido não deixa. É paz. Paz para a Justiça ver. Se começa uma briga, eles seguram. Eles também ajudam quem sai, arrumam trabalho.”

transcrito por Willian Helal Filho para O Globo
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