Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?

Os Disciplinas do PCC 1533 dentro da hierarquia da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (facção PCC).

Arte sobre a ação dos disciplinas do PCC nas comunidades carentes

“Disciplina do PCC 1533” retrata a força unificadora na facção criminosa de São Paulo. Integrantes do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) demonstram orgulho na disciplina rígida. Porém, descobrir os genuínos representantes da hierarquia da facção tornou-se um desafio.

Submersos na complexidade do crime, estes “Disciplinas” personificam o controle estrutural similar a grandes corporações. Cada faceta da organização, do financeiro à transmissão de regras, evidencia uma estrutura intricada de poder que define o PCC.

Incentivamos vivamente os leitores a compartilharem suas opiniões sobre a matéria em nosso site, no grupo de leitores ou por mensagem privada. Explore a complexidade do PCC e participe da discussão.

Os Disciplinas do PCC 1533 na hierarquia da facção

Os “Disciplinas do PCC” representam a força essencial que mantém coeso o conglomerado criminal de São Paulo. O Primeiro Comando da Capital é reconhecido por sua disciplina rigorosa, um elemento de orgulho para seus integrantes. Entretanto, recentemente tornou-se cada vez mais desafiador identificar, nas periferias e no submundo do crime, os autênticos representantes da hierarquia da facção.

Hierarquia dentro da organização criminosa

Embora não utilizem termos como “departamento” ou “setor”, na prática, a facção reproduz estruturas semelhantes às administrativas de grandes empresas legais. As principais áreas de atuação são:

  • Financeiro: controla o recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.
  • Sintonia do Cadastro: administra o ingresso e mantém o registro cadastral dos membros batizados, incluindo nomes, locais e padrinhos.
  • Salveiro: responsável por transmitir as atualizações das regras estabelecidas pela cúpula para toda a base operacional. Apesar de alguns compararem esse papel ao de Relações Públicas empresariais, suas comunicações são estritamente internas.
  • Sintonia do Progresso: executa missões especiais e tarefas cotidianas.
  • Sintonia dos Gravatas: constituída pelos advogados da facção.

Além dessas áreas, há cargos específicos de gerenciamento, chamados de “Resumos”, como o “Resumo Geral dos Estados e Países” ou “Resumo Geral do Estado”, podendo atuar também em locais específicos, como “Geral das Trancas do Estado” ou “Geral das Trancas da Unidade Prisional”.

Estrutura de Comando e Comunicação

O Conselho de Administração da organização criminosa é conhecido como “Sintonia Final“. Os “Disciplinas” recebem informações dos Salveiros e atuam segundo as diretrizes da Sintonia da Comunidade para manter a ordem entre os integrantes da facção.

Atuação dos Disciplinas na Cracolândia

Houve um tempo em que acreditei em um mundo ideal, no qual caberia à polícia a defesa da justiça e da segurança das pessoas. Mas esse tempo acabou.

Assim como eu, a pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta também aprendeu que a realidade é mais complexa do que os filmes nos fizeram crer.

Ela testemunhou diretamente o papel dos Disciplinas na Cracolândia, onde vários conflitos foram resolvidos graças à sua intervenção. Márcio Américo, humorista e antigo frequentador da região, concorda:

A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local que é completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital.

Observações da Pesquisadora

No conturbado epicentro da Cracolândia, Deborah Rio acompanhou pessoalmente as operações dos Disciplinas do PCC 1533, observando suas negociações com traficantes, usuários, jornalistas, policiais e autoridades governamentais. Esses homens constituem a espinha dorsal da facção, presentes em ruas, biqueiras, presídios e outras áreas de atuação da organização.

Os Disciplinas têm como responsabilidade aplicar o Dicionário do PCC, que determina o Regime Disciplinar, bem como emitir “salves”, alterações temporárias ou locais nas regras gerais.

Como relata Deborah, um episódio exemplifica claramente seu papel:

Logo me dei conta que uma rodinha de disciplinas estava por ali também. Fiquei mais tranquila.

Vários pontos de conflito que emergiram foram apaziguados graças à mediação dos disciplinas.

Um usuário, M., começou a questionar exaltadamente o coordenador da ação, Capitão Renato Lopes da Silva. Um disciplina interveio discretamente, pediu licença com voz firme e todos imediatamente abriram passagem. Ao colocar a mão no ombro de M., que rapidamente se acalmou, M. afirmou respeitar os ‘entendimentos’.

Função Social e Política dos Disciplinas

Os Disciplinas têm a complexa função de manter a ordem em territórios sob controle do PCC. Eles exigem comportamento civilizado de usuários e traficantes locais, proporcionando um ambiente aparentemente pacífico, que minimiza a presença ostensiva da polícia.

O medo e o ódio alimentam seu poder e sua autoridade – cordeiros não balem em terras onde lobos uivam.

Essa atuação política permite aos Disciplinas negociar diretamente com comunidades e autoridades. Um exemplo ilustrativo ocorreu quando o então prefeito Fernando Haddad e Alexandre de Moraes discutiam com um Disciplina dentro do espaço do Programa Recomeço, sob forte vigilância policial.

Realidade e Consequências da Atuação

Deborah Rio ressalta que, em diversas comunidades, a segurança e a paz são garantidas não pelo Estado, mas pelos próprios Disciplinas. Apesar de haver uma redução dos índices de homicídios e crimes menores nas áreas controladas pelo PCC, a violência institucional é substituída por uma força mais sombria e implacável, que não hesita em punir severamente.

Divisão e Hierarquia dos Disciplinas

Os Disciplinas dividem-se em categorias específicas, cada uma com responsabilidades definidas:

Nos Presídios (Disciplinas das Trancas): conhecidos como “jets”, operam dentro das unidades prisionais, com cargos específicos como “Jet da Unidade” ou “Jet do Estado”, podendo também ser chamados genericamente de Disciplinas.

Nas Ruas (Disciplinas das Quebradas): atuam em biqueiras e bairros, podendo existir diversos Disciplinas numa mesma cidade, dentre os quais um se destacará como “Disciplina Final da Cidade”. Há também os “Disciplinas do Estado”, responsáveis por resolver conflitos graves, e os “Disciplinas dos Estados e Países”, enviados para zonas de conflito com outras facções ou para mediar disputas locais.

Os “Disciplinas do PCC” representam o músculo robusto que mantém coeso o conglomerado criminal de São Paulo. A Primeiro Comando da Capital é conhecida por sua disciplina rigorosa, um ponto de orgulho para seus membros. No entanto, recentemente, tornou-se uma tarefa cada vez mais desafiadora localizar nas periferias e no submundo do crime os autênticos representantes da hierarquia da facção.

Leia a tese completa da pesquisadora Deborah

Análise por IA do texto: Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?

Análise do ponto de vista factual e de precisão

🧷 ISOLAMENTO DOS DADOS FÁTICOS DO TEXTO
  1. Disciplinas como eixo da estrutura do PCC, atuando em:
    • Ruas e comunidades (Quebradas)
    • Presídios (Jets)
    • Cidades, estados e países (Disciplinas de instâncias maiores)
  2. Função: Aplicar o Dicionário (Regime Disciplinar) e emitir salves (ajustes locais às normas).
  3. Ação na Cracolândia: Intervenções diretas em conflitos, controle informal da ordem, negociação com autoridades e usuários.
  4. Hierarquia e cargos:
    • “Disciplina Final da Cidade”
    • “Disciplina do Estado”
    • “Disciplina dos Estados e Países”
    • “Jet da Unidade” e “Jet do Estado” (em presídios)
  5. Suposta estrutura corporativa paralela:
    • Financeiro
    • Sintonia do Cadastro
    • Salveiro
    • Sintonia do Progresso
    • Sintonia dos Gravatas (advogados)
    • Resumo e Sintonia Final como instâncias superiores de comando
📌 VERIFICAÇÃO DOS DADOS SEGUNDO OUTRAS FONTES (acadêmicas, jornalísticas e judiciais)
Confirmado e amplamente documentado
ElementoVerificação externa
Disciplinas como força de controle e execução da ordem interna do PCCSim. Documentado em fontes como Ministério da Justiça, artigos da revista Piauí, livros como Irmãos: Uma História do PCC de Gabriel Feltran, além de diversas sentenças judiciais.
Atuação nas comunidades e presídiosSim. Presentes na periferia, controlam condutas, intermediam conflitos, fiscalizam biqueiras e têm autoridade disciplinar dentro das unidades prisionais.
Aplicação de regras internas e “Dicionário”Sim. O Regime Disciplinar interno é citado em investigações da Polícia Federal, inclusive em documentos do MP-SP.
Divisão entre Disciplinas das Ruas (Quebradas) e dos Presídios (Jets)Sim. Essa distinção é reconhecida e descrita em relatórios policiais e entrevistas de membros da facção.
⚠️ Presentes no texto, mas com pouca ou nenhuma documentação pública (sem confirmação direta)
ElementoComentário
Estrutura tipo “departamentos” (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas)A facção tem divisão funcional interna, mas o uso sistemático desses nomes em fontes públicas é raro. O termo “Sintonia” aparece em grampos e entrevistas, mas não necessariamente como departamentos formais.
“Salveiro” como cargo“Salve” é amplamente citado como mensagem normativa interna, mas “Salveiro” como função específica é pouco documentado. Pode derivar do vocabulário da própria facção.
“Resumo” e “Sintonia Final” como instâncias de administração centralNão aparece em fontes acadêmicas ou jurídicas públicas com essa nomenclatura. “Resumo” é um termo mais informal ou interno à gíria prisional, e “Sintonia Final” pode ser uma invenção interna ou simbólica.
🔍 SOBRE A CRACOLÂNDIA

O relato específico com o usuário “M.” e o Capitão Renato aparece em seu texto e no site do PCC 1533, mas não está presente em fontes acadêmicas, jornalísticas nem judiciais verificadas. No entanto, estudos como os de Deborah Rio Fromm Tinta, Gabriel Feltran e Bruno Paes Manso apontam sim para a presença dos Disciplinas na Cracolândia com papel informal de mediação e controle.

📘 CONCLUSÃO

Seu texto apresenta um retrato altamente coerente com a estrutura prática e hierárquica documentada do PCC, sobretudo no que tange:

  • Ao papel dos Disciplinas nas ruas e nos presídios,
  • À função do Regime Disciplinar interno,
  • E à descentralização funcional por regiões e temas.

No entanto, os termos mais institucionalizados como Salveiro, Resumo ou Sintonia Final parecem refletir:

  • Um vocabulário interno não amplamente difundido,
  • Ou uma interpretação mais analítica e administrativa sobre o funcionamento da facção.

Esses termos podem ser úteis para descrição, mas devem ser apresentados com a ressalva de que não aparecem formalmente em fontes públicas externas, sendo mais apropriados para análise interpretativa do que para afirmação factual direta.


Análise sob o ponto de vista da Teoria do Comportamento Criminoso

A análise do texto à luz da Teoria do Comportamento Criminoso, com foco nas principais escolas interpretativas da criminologia e como elas se aplicam — direta ou indiretamente — à construção narrativa e descritiva dos “Disciplinas do PCC 1533”.

🔎 Referencial: O que é a Teoria do Comportamento Criminoso?

A teoria do comportamento criminoso é um conjunto de explicações sobre por que indivíduos cometem crimes, com ênfases distintas a depender da escola teórica. As principais abordagens incluem:

  • Teorias sociológicas (ex.: Teoria da Associação Diferencial, Desorganização Social, Subcultura Criminal);
  • Teorias psicológicas (ex.: Controle Social, Personalidade Antissocial);
  • Teorias biológicas ou evolucionistas (ex.: predisposições neurológicas);
  • Teorias críticas (ex.: criminologia marxista, rotulagem social, criminologia cultural).

No texto, há forte alinhamento com teorias sociológicas críticas, em especial com a Teoria da Associação Diferencial, a Teoria da Subcultura e a Abordagem do Controle Social Informal.

🧠 1. Teoria da Associação Diferencial (Edwin Sutherland)

Resumo da teoria: o comportamento criminoso é aprendido por meio da interação com outras pessoas que já participam de práticas criminosas. A aprendizagem envolve técnicas, motivações, justificações e atitudes.

Aplicação no texto:

“Os Disciplinas recebem as informações dos Salveiros e atuam segundo as diretrizes da Sintonia da Comunidade para manter a ordem entre os integrantes da facção.”

“Eles cobram civilidade de usuários e traficantes locais, garantindo um verniz de paz…”

Demonstrando que os Disciplinas aprendem sua função dentro da organização e passam a replicá-la com base nas diretrizes normativas internas (salves, Dicionário, condutas). Isso é a própria essência da teoria de Sutherland: o crime não nasce da patologia, mas da aprendizagem por contato com grupos nos quais ele é a norma.

A existência de “códigos de conduta” e normas específicas no universo do PCC reflete o processo de socialização criminal contínuo.

🧱 2. Teoria da Subcultura Criminal (Albert Cohen, Cloward & Ohlin)

Resumo da teoria: em ambientes onde o acesso ao sucesso social legítimo é limitado, surgem subculturas com valores alternativos, muitas vezes em oposição aos da sociedade dominante.

Aplicação no texto:

“Em determinadas comunidades, a proteção e a paz não são garantidas pelo governo, mas sim pelos Disciplinas do Primeiro Comando da Capital.”

“A opressão do sistema é substituída por uma força mais sombria, que não hesita em mutilar e matar.”

Você aponta para a formação de um sistema de justiça e ordem paralelos, com valores próprios e uma hierarquia distinta, criada onde o Estado fracassou. A facção PCC, especialmente por meio dos Disciplinas, atua como força normativa subcultural — impõe leis, distribui sanções, resolve disputas e regula a conduta de seus membros e da comunidade.

Isso corresponde exatamente ao modelo da teoria da subcultura: o crime não é apenas reação à exclusão, mas também forma de organização social coerente, dentro de uma lógica alternativa à dominante.

⛓ 3. Teoria do Controle Social (Travis Hirschi)

Resumo da teoria: o indivíduo com fortes vínculos sociais, familiares ou institucionais tende a evitar o crime. Quando os laços sociais se rompem, o controle sobre o comportamento desvanece.

Aplicação no texto:

“A polícia e a prefeitura apenas fingem ter controle do local que é completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital.”

O que se observa aqui é que o controle social formal (Estado) foi substituído por um controle informal (facção). O texto sugere que o crime organizado surge como mecanismo substitutivo de ordem, mantendo o controle dos comportamentos através de laços não estatais — o que evidencia a ideia de que não é a ausência de controle que leva ao crime, mas sim a transferência da fonte de controle.

🕯 4. Teoria da Rotulagem (Howard Becker)

Resumo da teoria: a sociedade impõe rótulos a determinados indivíduos ou grupos, e esses rótulos contribuem para sua internalização como desviantes.

Possível leitura no texto:

Embora não seja central, essa abordagem pode ser inferida na forma como a figura do “Disciplina” é tratada. O autor não o retrata como bandido irracional, mas como agente funcional de ordem — o que desafia a rotulagem simplificadora do discurso institucional ou midiático.

Essa neutralidade moral evidencia a crítica implícita à rotulagem tradicional, e uma abertura à complexidade das identidades desviantes.

📚 5. Ausência de teorias psicopatológicas ou biologizantes

O texto não recorre a explicações psicologizantes sobre desvios de conduta, nem a conceitos como “personalidade criminosa”, “sociopatia” ou “impulsividade”. Isso demonstra rejeição a abordagens reducionistas, e adesão clara a modelos que privilegiam o contexto social, histórico e político na explicação da criminalidade.

🧩 Conclusão

O texto dialoga com múltiplas escolas da Teoria do Comportamento Criminoso, especialmente:

TeoriaPresente no texto?Comentário
Associação Diferencial✅ ForteAprendizagem da conduta dentro da facção
Subcultura Criminal✅ ForteOrdem e valores alternativos ao Estado
Controle SocialO PCC ocupa o vácuo deixado pelas instituições
Rotulagem⚠️ ModeradaSugestão indireta de complexidade identitária
Teorias psicológicas/biológicasNão presentes, nem evocadas

O artigo assume uma perspectiva sociológica crítica, interpretando o crime como fenômeno estrutural, racional e funcional — e não como aberração, desvio mental ou desvio individual.


Análise Comparativa da Estrutura e Atuação dos “Disciplinas” do PCC: Uma Contraponto entre a Auto-Representação e Fontes Externas

1. Introdução: O Primeiro Comando da Capital e a Centralidade dos “Disciplinas”

O Primeiro Comando da Capital emerge como a maior e mais organizada facção criminosa do Brasil, com uma trajetória que se inicia no sistema prisional de São Paulo em 1993, logo após o trágico Massacre do Carandiru. Originalmente concebido como um grupo de autoproteção para defender os direitos dos detentos e lutar por melhores condições prisionais, o PCC evoluiu significativamente, transformando-se em uma complexa “multinacional do crime”. Atualmente, a organização estende sua influência por dois terços dos estados brasileiros e expandiu suas operações para pelo menos 28 países em quatro continentes. Essa expansão é sustentada por uma estrutura hierárquica bem definida, uma disciplina rigorosa e um modelo operacional que se assemelha ao de uma empresa.

O presente relatório tem como objetivo principal realizar uma análise aprofundada da auto-representação do PCC, especificamente no que tange à função e atuação dos seus “Disciplinas”, conforme detalhado na página faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org. Para tanto, as informações veiculadas por essa fonte interna serão cuidadosamente contrapostas a dados e análises provenientes de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas. Tal abordagem comparativa é crucial para se obter uma compreensão multifacetada da estrutura e do modus operandi da facção. A menção do “1533” no endereço URL do site analisado é um indicativo da própria facção, referindo-se à numeração das letras P, C, C no alfabeto (15ª, 3ª, 3ª letra, respectivamente), um código de identificação comum e reconhecido da organização.

A existência de um site que detalha funções e hierarquia da facção sugere um esforço deliberado do PCC em formalizar e, de certa forma, legitimar sua estrutura, tanto para seus membros quanto para o público externo. Essa iniciativa vai além de uma simples comunicação interna, indicando uma tentativa de construir uma narrativa organizacional. Ao criar uma plataforma online com informações detalhadas sobre seus “Disciplinas”, a facção demonstra uma evolução em sua estratégia de comunicação e auto-representação. Não se trata apenas de um grupo criminoso operando nas sombras, mas de uma organização que busca projetar uma imagem de estrutura, ordem e até mesmo de “orgulho na disciplina”. Este ato de “publicação” online, mesmo que em um domínio próprio e não oficial, aponta para um grau de sofisticação e uma intenção de controlar a narrativa sobre si mesma. Essa postura sugere uma tentativa de legitimar sua atuação perante seus membros e, potencialmente, perante as comunidades que controla, posicionando-se como uma entidade organizada e funcional, em contraste com a desordem frequentemente associada ao crime.

2. A Perspectiva Interna: Os “Disciplinas” Segundo o Site do PCC

O artigo publicado no site faccaopcc1533primeirocomandodacapital.org oferece uma visão detalhada da função e atuação dos “Disciplinas do PCC 1533” dentro da hierarquia do Primeiro Comando da Capital. A narrativa interna os retrata como a “força unificadora” da facção, com os integrantes demonstrando um “orgulho na disciplina rígida”. O texto também aponta para o desafio de identificar os verdadeiros representantes da hierarquia da facção nas periferias e no submundo do crime, apesar de seu papel central. Os “Disciplinas” são descritos como a personificação de um “controle estrutural similar às estruturas administrativas de grandes empresas legais”, embora a facção evite o uso de termos como “departamento” ou “setor”.

O site detalha as principais áreas de atuação e cargos específicos dentro da estrutura interna do PCC:

  • Financeiro: Responsável pelo controle do recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.12
  • Sintonia do Cadastro: Administra o ingresso e mantém o registro cadastral dos membros “batizados”, incluindo nomes, locais e padrinhos.12
  • Salveiro: Encarregado de transmitir as atualizações das regras estabelecidas pela cúpula para toda a base operacional, com comunicações estritamente internas.12
  • Sintonia do Progresso: Executa missões especiais e tarefas cotidianas.12
  • Sintonia dos Gravatas: Composta pelos advogados da facção.12

Além dessas áreas, existem cargos específicos de gerenciamento, denominados “Resumos”, como o “Resumo Geral dos Estados e Países” ou “Resumo Geral do Estado”. Esses “Resumos” podem atuar também em locais específicos, como “Geral das Trancas do Estado” ou “Geral das Trancas da Unidade Prisional”.12

A estrutura de comando e comunicação é centralizada no “Conselho de Administração” da organização, conhecido como “Sintonia Final”. Os “Disciplinas” recebem informações dos Salveiros e operam sob as diretrizes da “Sintonia da Comunidade” para manter a ordem entre os integrantes da facção. A “Sintonia Final” é responsável por comunicar periodicamente as alterações necessárias ao Estatuto da organização.

O site também descreve a atuação dos “Disciplinas” em contextos urbanos complexos, como a Cracolândia. A pesquisadora Deborah Rio Fromm Tinta é citada como testemunha direta do papel dos “Disciplinas” na região, onde diversos conflitos foram resolvidos graças à sua intervenção. Márcio Américo, humorista e antigo frequentador da Cracolândia, reforça essa percepção, afirmando que a polícia e a prefeitura apenas simulam controle do local, que seria completamente dominado pelo Primeiro Comando da Capital. Deborah Rio teria acompanhado pessoalmente as operações dos “Disciplinas”, observando suas negociações com traficantes, usuários, jornalistas, policiais e autoridades governamentais. Esses homens são apresentados como a “espinha dorsal da facção”, presentes em ruas, “biqueiras”, presídios e outras áreas de atuação.12

As responsabilidades dos “Disciplinas” incluem a aplicação do “Dicionário do PCC”, que determina o Regime Disciplinar, e a emissão de “salves”, que são alterações temporárias ou locais nas regras gerais. Um episódio relatado por Deborah descreve a intervenção discreta de um “Disciplina” que acalmou um usuário exaltado na Cracolândia, demonstrando o respeito e a autoridade que esses indivíduos possuem.

Em termos de função social e política, o site afirma que os “Disciplinas” mantêm a ordem em territórios sob controle do PCC, exigindo comportamento civilizado de usuários e traficantes locais, o que, por sua vez, minimiza a presença ostensiva da polícia. Essa atuação política permitiria aos “Disciplinas” negociar diretamente com comunidades e autoridades. O site conclui que, em diversas comunidades, a segurança e a paz são garantidas pelos próprios “Disciplinas”, e não pelo Estado. Embora isso possa resultar na redução de homicídios e crimes menores, a violência institucional é substituída por uma “força mais sombria e implacável”.

A divisão e hierarquia dos “Disciplinas” são apresentadas da seguinte forma:

  • Nos Presídios (Disciplinas das Trancas): Conhecidos como “jets”, operam dentro das unidades prisionais, com cargos específicos como “Jet da Unidade” ou “Jet do Estado”.12
  • Nas Ruas (Disciplinas das Quebradas): Atuam em “biqueiras” e bairros. Pode haver diversos “Disciplinas” em uma cidade, com um se destacando como “Disciplina Final da Cidade”. Existem também os “Disciplinas do Estado”, responsáveis por resolver conflitos graves, e os “Disciplinas dos Estados e Países”, enviados para zonas de conflito ou para mediar disputas locais.

A descrição do PCC como uma organização com “controle estrutural similar a corporações” não é meramente uma metáfora; ela reflete uma estratégia consciente da facção para projetar eficiência e profissionalismo. Essa projeção pode aumentar sua capacidade de recrutamento, negociação e, paradoxalmente, sua legitimidade em certas esferas de atuação. Ao utilizar termos como “Financeiro”, “Cadastro”, “Progresso” e “Gravatas”, o site do PCC mimetiza a linguagem empresarial. Essa escolha de vocabulário não é acidental; ela serve para construir uma imagem de organização eficiente e profissional. Em um ambiente criminoso, essa percepção de profissionalismo pode ser um diferencial competitivo, atraindo novos membros que buscam estrutura e “carreira”, e facilitando a interação com outros atores (legais ou ilegais) que valorizam a previsibilidade e a capacidade de entrega, mesmo que ilícita. A “aparência corporativa” é, portanto, uma ferramenta de poder e estabilidade para a facção.

A atuação dos “Disciplinas” na Cracolândia, “garantindo segurança e paz” e “negociando com comunidades e autoridades”, revela uma estratégia de ocupação de vazios estatais. Essa “função social” não é altruísta, mas um meio de consolidar o controle territorial e social, tornando a facção uma autoridade de fato e minimizando a intervenção policial. O site descreve os “Disciplinas” como mantenedores da ordem em territórios controlados pelo PCC, minimizando a presença policial e até negociando com autoridades.12 Isso não constitui um serviço público; é uma forma de estabelecer um “governo paralelo”. Ao prover “segurança” e “paz” onde o Estado é ausente ou ineficaz, o PCC cria uma dependência da comunidade em relação à facção. Essa “função social” é, na verdade, uma tática para solidificar seu domínio, obter informações e lealdade, e operar seus negócios ilícitos com menos interferência, transformando a ausência do Estado em uma oportunidade para expandir seu poder e controle.

3. Análise Comparativa: “Disciplinas” do PCC em Contraponto com Fontes Externas
3.1. Estrutura e Nomenclatura: Convergências e Divergências

A análise de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas revela uma notável convergência com a auto-descrição do PCC em relação à sua estrutura e à função dos “Disciplinas”. Há uma confirmação ampla da existência de uma hierarquia clara e uma organização baseada em “sintonias” dentro da facção. O PCC é consistentemente descrito como uma “organização de poder de forma piramidal” com divisões em “células que compõem os diversos setores em sintonias”. A tese de Marília Furukawa detalha que as “sintonias” são células responsáveis por diferentes assuntos, operando tanto em presídios quanto em bairros de cidades brasileiras, e que são interconectadas em níveis regional, estadual, nacional e internacional.

Em relação à formalidade e ao uso de termos específicos apresentados no site do PCC, as fontes externas fornecem validação significativa:

  • “Sintonia Final” / “Sintonia Final Cúpula”: O site e a tese de Furukawa referem-se à “Sintonia Final” como o conselho de administração ou instância máxima. O Grupo de Atuação Especial e de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo confirma a existência de uma “Sintonia Final Cúpula” que substituiu a “Sintonia Final Geral”. Esta cúpula é responsável por estratégias e finanças, especialmente após a transferência de líderes para presídios federais, corroborando a existência e a centralidade dessa instância decisória.
  • “Salveiro”: O site descreve o “Salveiro” como responsável por transmitir regras. Pesquisas da UFMG corroboram a função do “Salveiro” em teleconferências (“R”), onde ele “puxa a R” (listando presença e nominando membros e sintonias) e encaminha as falas para diversas instâncias (Geral do Estado, Geral do Sistema, Comarca, financeiro, disciplinar). Isso valida a existência do cargo e sua função crucial na comunicação interna.
  • “Resumo”: O site menciona “Resumos” como cargos de gerenciamento. Embora o termo “Resumo” possa parecer mais informal ou interno, o GAECO/MP-SP aponta a “Sintonia dos 14” como sendo formada pelo “Resumo do Quadro dos 14 (Pé Quebrado)”, que atua em conjunto com a “Sintonia Final da Rua” para coordenar julgamentos e sanções. Isso indica que “Resumo” é, de fato, uma nomenclatura interna para posições de liderança e coordenação.
  • “Departamentos” (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas): O site lista essas áreas. Fontes externas confirmam a existência de “Sintonia Financeira”, “Sintonia do Cadastro” (ou “Sintonia Geral do Livro”), “Sintonia do Progresso” (ou “Sintonia Geral do Progresso”) e “Sintonia dos Gravatas” (ou “Sintonia Geral dos Gravatas”). A diferença reside mais na formalidade do nome (“departamento” versus “sintonia”) e na inclusão do termo “Geral” em algumas descrições externas, mas as funções são amplamente corroboradas.

A consistência entre a auto-descrição do PCC e as evidências externas sobre sua estrutura e termos é notável. Relatórios de inteligência e pesquisas acadêmicas validam muitos dos termos específicos que poderiam ser inicialmente considerados com “pouca ou nenhuma documentação pública”. Isso sugere que o vocabulário interno do PCC é mais consistente e formalizado do que se poderia inferir apenas pela ausência em fontes “públicas” mais antigas. A validação desses termos específicos do site por fontes externas de alta credibilidade (Ministério Público, universidades) reforça a precisão da auto-descrição do PCC e a profundidade da sua formalização interna.

A capacidade do PCC de se adaptar é evidente na revelação do GAECO/MP-SP de que a facção passou por uma reestruturação e instaurou um “novo organograma” após a transferência de membros da cúpula para presídios federais. Isso demonstra a resiliência da facção frente a pressões externas e a formalização contínua de sua estrutura. O conceito de “chefia sem mando” pode parecer contraditório com uma “estrutura piramidal” e “hierarquia clara”. No entanto, a informação de que a “Sintonia Final” é composta por “oito líderes experientes” e que a organização se reestrutura após a transferência de líderes elucida essa aparente contradição. Isso sugere que a “chefia sem mando” não significa ausência de liderança, mas sim uma liderança coletiva e distribuída na cúpula, onde a “Sintonia Final” atua como um conselho. Essa estrutura descentralizada no topo, mas com funções bem definidas abaixo, torna o PCC mais resiliente a prisões de indivíduos e garante a continuidade das operações, pois o “setor” ou a “sintonia” é mais importante que o indivíduo que o ocupa.

A complexidade da estrutura do PCC, com suas múltiplas “sintonias” e cargos, e a variação na nomenclatura entre a auto-descrição da facção e as investigações externas, tornam uma tabela comparativa uma ferramenta essencial. Ela permite uma rápida absorção da densidade de informações e a identificação de padrões de validação ou discrepância.

Tabela 1: Comparativo de Termos e Funções na Estrutura do PCC (Site vs. Fontes Externas)

Termo/Função (Site PCC)Descrição (Site PCC)Corroboração/Variação (Fontes Externas)
DisciplinasForça unificadora, orgulho na disciplina rígida, controle estrutural similar a corporações.Força de controle e execução da ordem interna do PCC, atuam em comunidades e presídios, aplicam regras internas.
FinanceiroControla recebimento de contribuições, gestão financeira, contas bancárias e investimentos.Sintonia Financeira: Oferece suporte monetário e é responsável por outros departamentos.
Sintonia do CadastroAdministra ingresso e registro cadastral de membros (“batizados”).Sintonia do Cadastro / Sintonia Geral do Livro: Cuida dos registros de novos participantes, excluídos e relatórios de punição.
SalveiroTransmite atualizações de regras da cúpula para a base operacional.Função de “puxar a R” (teleconferências), listando presença e encaminhando falas para diversas instâncias.
Sintonia do ProgressoExecuta missões especiais e tarefas cotidianas.Sintonia do Progresso / Sintonia Geral do Progresso: Cuida da gestão do tráfico de drogas.
Sintonia dos GravatasConstituída pelos advogados da facção.Sintonia dos Gravatas / Sintonia Geral dos Gravatas: Contrata e paga advogados.
ResumoCargos específicos de gerenciamento (e.g., “Resumo Geral dos Estados e Países”).Resumo do Quadro dos 14 (Pé Quebrado): Atua com a “Sintonia Final da Rua” para coordenar julgamentos e sanções.
Sintonia FinalConselho de Administração da organização criminosa.Sintonia Final / Sintonia Geral Final / Sintonia Final Cúpula: Instância máxima, responsável por decisões estratégicas e financeiras.
Disciplinas das Trancas (Jets)Operam dentro das unidades prisionais.Se impõem como instância reguladora e mediadora das relações sociais na prisão, participam da gestão prisional.
Disciplinas das QuebradasAtuam em biqueiras e bairros.Atuação em comunidades e papel informal de mediação e controle, especialmente em áreas como a Cracolândia.
3.2. O Papel dos “Disciplinas” na Governança Informal e Mediação de Conflitos

A atuação dos “Disciplinas” em territórios específicos, como a Cracolândia, e dentro do sistema prisional, é amplamente corroborada por investigações e pesquisas etnográficas. A presença e o papel dos “Disciplinas” em áreas como a Cracolândia são confirmados por estudos de pesquisadores como Deborah Rio Fromm Tinta, Gabriel Feltran e Bruno Paes Manso. Relatos investigativos do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também confirmam a atuação organizada do PCC na Cracolândia, incluindo vigilância policial e operações de lavagem de dinheiro. Além disso, o PCC impõe-se como uma “instância reguladora e mediadora das relações sociais na prisão”, exercendo o papel de árbitro e determinando decisões em diversas formas de conflitos sociais, além de participar direta ou indiretamente da gestão das unidades prisionais. Isso valida o papel dos “Disciplinas das Trancas”.

A “função social e política” descrita pelo site do PCC encontra eco em análises acadêmicas. Gabriel Feltran, em sua etnografia, cunha o conceito de “Crime que produz governo, governo que produz crime”, que se alinha perfeitamente com a descrição do site sobre os “Disciplinas” garantindo ordem e segurança onde o Estado é ausente. Isso sugere uma governança informal que preenche lacunas estatais, embora com métodos coercitivos. A atuação do PCC na Cracolândia e em outras comunidades demonstra uma capacidade de exercer controle social e econômico, com o site afirmando que a segurança e a paz são garantidas pela própria facção.

A atuação dos “Disciplinas” na mediação de conflitos e manutenção da ordem transcende a mera atividade criminosa, configurando-os como um “Estado paralelo” em territórios específicos. Essa “legitimidade” é construída não pela legalidade, mas pela eficácia na resolução de problemas e na imposição de uma ordem, mesmo que baseada na violência implícita ou explícita. O site do PCC descreve os “Disciplinas” como garantidores de “segurança e paz” em comunidades, onde a polícia “apenas finge ter controle”. Essa afirmação é corroborada por Feltran ao falar de “crime que produz governo”. Isso sugere que o PCC não é apenas uma organização criminosa que explora o vácuo estatal, mas que ativamente cria e mantém uma forma de governança em certas áreas. A “legitimidade” dos “Disciplinas”, nesse contexto, deriva de sua capacidade de impor regras, resolver disputas e oferecer uma forma de ordem, mesmo que coercitiva. Essa é uma “legitimidade coercitiva” que se estabelece pela força e pela capacidade de entrega de “serviços” (como a segurança) onde o Estado falha, transformando-os em uma autoridade de fato para a população local.

A capacidade dos “Disciplinas” de intervir e manter a ordem na Cracolândia está intrinsecamente ligada ao controle econômico da facção sobre o tráfico de drogas na região. Informações indicam a venda de grandes quantidades de drogas e a cobrança por pontos. Isso demonstra que a “função social” é um subproduto da exploração econômica do crime. O site e as pesquisas descrevem a atuação dos “Disciplinas” na Cracolândia, com o site focando na resolução de conflitos e manutenção da ordem. No entanto, o domínio da Cracolândia pelo PCC, com a venda de 19 kg de droga por dia e a cobrança de R$ 80 mil por ponto, estabelece uma clara relação de causa e efeito. A capacidade dos “Disciplinas” de impor ordem e mediar conflitos (sua “função social”) é diretamente sustentada pelo controle econômico e pela lucratividade do tráfico de drogas na região. A “paz” e a “segurança” oferecidas são, na verdade, mecanismos para otimizar o ambiente para os negócios ilícitos, minimizando a interferência externa e maximizando os lucros, demonstrando que a governança informal está a serviço da economia do crime.

3.3. Disciplina, Estatuto e Comunicação: A Coesão Interna do PCC

O rigor da disciplina interna e a existência de um código de ética são pilares fundamentais da organização do PCC, conforme descrito tanto pelo site quanto por fontes externas. O site afirma que os “Disciplinas” aplicam o “Dicionário do PCC” e emitem “salves”. Fontes acadêmicas confirmam a “rigorosa disciplina interna”, a existência de um “código de ética interno” ou “Estatuto”, e a importância dos “salves” como comunicados internos. O Estatuto estabelece lealdade, respeito, igualdade e justiça como princípios fundamentais, com punições severas para quem causa divisão ou desrespeita a hierarquia. A evolução dentro da facção por mérito e dedicação é valorizada.

A comunicação é um elemento vital para a coesão do PCC. O site menciona que os “Disciplinas” recebem informações dos “Salveiros” e atuam segundo diretrizes. A tese de Furukawa destaca a comunicação como “essencial para o PCC”, utilizada para criar conhecimento, estimular relacionamentos e construir a “realidade organizacional”. A entrada de celulares nas prisões facilitou a articulação entre detentos e pessoas em liberdade. Os “salves” partem majoritariamente das “torres”, que são posições políticas ocupadas por membros com longa trajetória e experiência no sistema prisional. A “falta de personificação” nos “salves” é intencional para evitar penalidades jurídicas e reforçar a ideia de “chefia sem mando”, onde a mensagem vem de uma entidade e não de uma pessoa física superior. A ideologia de que “o crime fortalece o crime” é constantemente repetida nos “salves” e é um princípio central da organização.

A “disciplina rígida” e o “código de ética” não são apenas regras, mas elementos que constroem um “capital social” interno para o PCC. A analogia com uma “igreja do crime” e a ênfase na “lealdade” e “mérito” indicam que a disciplina é um mecanismo de controle ideológico que transcende a mera coerção, fomentando um senso de pertencimento e propósito, o que é crucial para a coesão de uma organização criminosa tão vasta. O site fala em “orgulho na disciplina rígida”, e uma fonte descreve a ética do PCC como uma “igreja do crime”. Essa linguagem sugere que a disciplina vai muito além de um conjunto de regras a serem seguidas; ela é internalizada e se torna parte da identidade dos membros. Ao criar um “código de ética” e um “Dicionário do PCC” que define o “proceder”, a facção constrói um sistema de valores e normas que funciona como um capital social interno. Esse capital social, baseado na lealdade e no mérito, reduz a necessidade de vigilância constante e aumenta a autodisciplina e a coesão do grupo. A disciplina, portanto, é um mecanismo de controle ideológico que garante a estabilidade e a perpetuação da organização, transformando a obediência em um valor intrínseco.

A descrição detalhada do papel do “Salveiro” e a natureza dos “salves” como mensagens padronizadas e despersonalizadas revelam uma sofisticada estratégia de comunicação. Essa formalização permite que a organização mantenha a coesão e transmita diretrizes de forma eficiente em uma estrutura vasta e descentralizada, garantindo que a “chefia sem mando” não resulte em anarquia, mas em uma governança distribuída e responsiva. O site e uma fonte detalham a função do “Salveiro” na transmissão de “salves”. Outra fonte explica que os “salves” são despersonalizados e partem das “torres”, reforçando a “chefia sem mando”. Essa formalização da comunicação, com protocolos claros para teleconferências (“R”) e a padronização das mensagens, é crucial para uma organização que opera em múltiplos estados e países. Em vez de depender de um líder carismático para transmitir ordens, o PCC desenvolveu um sistema que permite a difusão eficiente de diretrizes e a manutenção da disciplina em uma estrutura altamente descentralizada. Isso garante que, mesmo com a prisão de líderes, a organização possa continuar operando de forma coesa, pois a comunicação é institucionalizada, não pessoalizada.

A origem prisional do PCC e a observação de que o “maior perigo da facção é sua origem prisional, que facilita a disseminação de sua ideologia e estrutura rígida” (Promotor Lincoln Gakiya) revelam uma relação simbiótica entre o PCC e o sistema carcerário. As prisões não são apenas locais de confinamento, mas “universidades do crime” onde a ideologia, disciplina e estrutura organizacional dos “Disciplinas” são replicadas e disseminadas, permitindo a expansão nacional e internacional da facção. O sistema carcerário brasileiro, em vez de ressocializar, atua como um catalisador e multiplicador da estrutura do PCC. Dentro das prisões, a facção pode recrutar, doutrinar e treinar novos membros nas suas regras e hierarquia. A disciplina interna e o “Dicionário do PCC” são aperfeiçoados nesse ambiente fechado e depois exportados para as ruas e para outros países. Assim, a prisão se torna um laboratório e um centro de treinamento para os “Disciplinas”, garantindo a replicação do modelo organizacional e a perpetuação da facção, transformando a falha do Estado em um ativo estratégico para o crime organizado.

4. Conclusões e Implicações

A análise comparativa entre a auto-descrição do PCC em seu site e as informações provenientes de fontes acadêmicas, governamentais e jornalísticas revela um alto grau de precisão e coerência na representação da estrutura e atuação dos “Disciplinas”. O site do PCC apresenta um retrato notavelmente detalhado e, em grande parte, alinhado com a estrutura prática e hierárquica documentada da facção. Termos como “Sintonia Final”, “Salveiro”, “Resumo” e as divisões funcionais (Financeiro, Cadastro, Progresso, Gravatas) são corroborados, embora por vezes com nomenclaturas ligeiramente distintas ou mais formalizadas em relatórios de inteligência. A atuação dos “Disciplinas” na manutenção da ordem, mediação de conflitos e governança informal em territórios como a Cracolândia é amplamente confirmada por pesquisas etnográficas.12 A disciplina interna, o estatuto e a comunicação estratégica via “salves” são elementos centrais e bem documentados da coesão do PCC.

A proximidade entre a auto-descrição do PCC e as análises externas sugere que a facção possui uma estrutura interna altamente formalizada e uma narrativa própria bem desenvolvida. As fontes externas, especialmente relatórios de inteligência e pesquisas etnográficas, oferecem validação e aprofundamento, muitas vezes revelando as implicações mais amplas (sociais, econômicas, políticas) da atuação dos “Disciplinas” que a narrativa interna não aborda explicitamente.

A capacidade do PCC de reestruturar-se e expandir-se globalmente, mantendo sua disciplina e hierarquia, demonstra sua notável adaptabilidade e resiliência. Os “Disciplinas” são a espinha dorsal dessa organização, atuando como executores da ordem interna, mediadores de conflitos e agentes de expansão, consolidando o poder da facção tanto dentro quanto fora do sistema prisional. A infiltração do PCC na economia formal e sua atuação como “Estado paralelo” representam um desafio complexo para as autoridades, exigindo uma compreensão aprofundada de sua estrutura e dinâmica.

A consistência entre a auto-descrição do PCC e as evidências externas sobre sua estrutura e termos, aliada à sua capacidade de reestruturação e expansão transnacional, posiciona o PCC não apenas como uma organização criminosa, mas como um modelo de “empresa criminal adaptativa”. Isso implica que as estratégias de combate devem ir além da repressão pontual, focando na desarticulação de sua governança interna e de suas redes financeiras e ideológicas. A facção se comporta como uma “empresa” no sentido de ser eficiente, resiliente e capaz de inovar em suas operações e governança. A implicação é que o combate a essa organização exige uma abordagem multifacetada que não apenas ataque suas atividades ilícitas, mas também desmonte sua estrutura de governança interna, seus mecanismos de comunicação e sua base ideológica, reconhecendo-o como uma entidade em constante evolução e adaptação.

A “paz” e a “segurança” que os “Disciplinas” supostamente garantem são intrinsecamente ligadas a uma “força mais sombria e implacável”. Essa dualidade da ordem imposta pela violência é uma implicação crítica para a compreensão da dinâmica do crime organizado no Brasil, onde a ausência do Estado é preenchida por uma governança paralela que, embora possa reduzir certos tipos de crimes, impõe sua própria forma de controle e exploração. O site do PCC afirma que os “Disciplinas” garantem “segurança e paz” em comunidades, mas imediatamente ressalta que isso substitui a violência estatal por uma “força mais sombria e implacável”. Isso revela uma dualidade fundamental na atuação do PCC: a “ordem” que ele impõe é inseparável da violência subjacente. A capacidade de mediar conflitos e de ser uma “instância alternativa de resolução de conflitos” é sustentada pela ameaça de sanções severas, incluindo a morte. A implicação é que a “paz” oferecida pelo PCC é uma “pax mafiosa”, uma ordem imposta pelo monopólio da violência e pela exploração, e não pela justiça ou pelo bem-estar social. Compreender essa dualidade é crucial para as políticas públicas, pois a simples ausência de crimes visíveis não significa a presença de um ambiente seguro e justo, mas sim a imposição de um regime de controle criminoso.

Autor: Ricard Wagner Rizzi

O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)

43 comentários em “Quem são os Disciplinas do PCC 1533? Como e onde atuam?”

  1. Infelizmente apenas quem é do corre pode saber. Não é disponibilizado nenhum cadastro. Quem é do crime e ligado a facção deve saber e poderá, se não for verdadeira a afirmação do cara, fazer chegar o verdadeiro disciplina.

  2. Tem um noia desgraçado aqui q se diz disciplina, nem sabemos se é vdd, faz escândalos mas portas das casas dos usuários, q moral c os pais, ofendem, ameaçando de morte, xingamentos, humilhações, sei não, esse cara não deve ser m…nenhuma, queria achar uma forma de descobrir se ele é realmente um disciplina ou um falso profeta.

  3. dando um salve ai, precisa ter urgente um disciplina do comando em atibaia os cara estao desrespeitando morador mae de familia muito comedia la se passando por irmao queimando o filme do comando

  4. Eu apoio o pcc por que só nos que mora en favela sabe que a nossa ceguransa sao eles que fasen eu tenho muito orgulho de dizer apoio o PCC sauve 1533 obrigado por proteger nossas crebada

  5. Sou simpatizante do comando, apoio os seus ideais, onde está presente o comando, não tem esculacho, opressão, deslealdade, injustiça entre outros. PREFIRO MIL VEZES MORAR ONDE O COMANDO DOMINA, DO QUE MORAR ONDE A POLICIA OPRIME.

  6. Sou simpatizante do comando, apoio os seus ideais, onde está presente o comando, não tem esculacho, opressão, deslealdade, injustiça entre outros. PREFIRO MIL VEZES MORAR ONDE O COMANDO DOMINA, DO QUE MORAR ONDE A POLICIA OPRIME.

    1. Cidade de Porto feliz não existe Santo minha mãe os irmão daqui de lagoa cidade de Porto feliz os irmão que só quer ganhar dinheiro só um terremoto sei que eu falo consigo os cara tem que ver a cidade de Porto feliz São Paulo perto de Itu perto da cidade de Itu

  7. Boa rapaziada um forte abraço ai pra quem se encontra lendo oque vai ta escrito aqui, quero comunicar que a pm vem fazendo um grande esforço pra oprimir o pessoal do interior, e dizer que com o passar dos anos perdemos muito irmãos por aq e o relogio nunca para, dizer para da uma atenção nas cidades pequena porque o caminho de volta é o do interior, apostar na nova geração que precisa do apoio da facção, não induzindo a menorzada mas pensar sempre em forma novos membros um forte e leal não deixem a corrente quebrar!

  8. Chegará um dia em que o próprio povo, sem esperar pelo Estado, estirpará de seu meio cânceres como o PCC. Nesse dia, pessoas ligadas a facções morrerão aos milhares e gritarão por ajuda, mas o povo cansado desses vermes será inclemente.

    1. Retardada em Porto feliz Porto feliz nunca existiu o PCC o irmão morre aí de Sorocaba onde existe aqui meu caramba dá uma atenção na quebrada eu sou um só criminoso mas existe visão aí de pão puma dos cara aí cadê os irmão lá da cidade de Porto feliz tem que ver essa condição eu sei que tem de frente da sintonia tem que ver essas baratas aí ele não respeita ninguém malandrão menina droga na nas

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