Enterrar as lembranças da vida no Primeiro Comando da Capital

Há anos escrevo sobre a organização criminosa Primeiro Comando da Capital, mas, por vezes, eu quero enterrar minhas lembranças do passado.

enterrar o passado segundo Edgar Allan Poe

Minha visita à Delegacia Central de Itu

Há alguns meses eu me encontrava mais uma vez na sala de interrogatório da Delegacia Central de Itu.

Um dos investigadores adentrou a sala, fechando a porta com um baque seco e arrastando uma cadeira para bloqueá-la.

Com um sorriso irônico no rosto, ele sentou-se, deixando claro que sua intenção era me intimidar.

Eu já estava acostumado com aquela situação. Afinal, não era a primeira vez que eu era convocado para prestar depoimento sobre este site. E, infelizmente, eu sabia que talvez não seria a última.

Sinceramente, sentia-me honrado

Sentado diante de mim, havia um escrivão ocupado em seus afazeres, enquanto o delegado permanecia em silêncio, digitando em seu computador sem olhar para mim.

Tudo estava tão silencioso que era possível ouvir o som de cada tecla sendo pressionada. Mas eu não me sentia acuado, há muito estava preparado para esse embate.

Com olhar acusador, o escrivão indagou se as histórias que eu escrevia neste site eram verídicas.

Respondi-lhe com toda a sinceridade que, sentia-me honrado que um profissional da polícia tenha ficado em dúvida se as histórias publicadas por mim eram reais.

Disse-lhe que quando preparava os textos para o site, jamais imaginei que alguém acreditaria que eram verdadeiras as histórias que aqui conto.

Afirmei que, de fato, as narrativas que eu aqui relato têm suas raízes firmemente plantadas na realidade, mas apenas suas raízes eram reais.

Histórias com uma raíz de realidade

Mas não fui poupado de sua inspeção escrupulosa.

O investigador retirou de sua pasta uma pilha de papéis impressos com meus textos, determinado a provar ou refutar a veracidade das histórias que eu criara.

É verdade que eu escrevo sobre minhas próprias experiências com o Primeiro Comando da Capital, a facção PCC 1533.

Contudo, também é verdade que, por vezes, eu me deixo levar pela imaginação e crio contos inspirados em relatos que ouvi ou li em algum lugar.

Mas quem pode julgar onde termina a realidade e começa a ficção?

A mente humana é um abismo profundo e misterioso, cujas fronteiras são indistintas e imprecisas.

Relembrando como tudo começou

Nas últimas madrugadas, eu escrevi aqui no site as razões que me levaram a relatar a história da organização criminosa Primeiro Comando da Capital.

Uma sensação de angústia que tomou conta de mim, enquanto eu revivia cenas que preferiria ter esquecido, e daí veio a certeza que teria que enterrar definitivamente aquele passado.

Hoje, minha vida é pacata e tranquila, vivendo sob os preceitos da lei. Mas nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que eu caminhava pela estrada tortuosa da ilegalidade, mergulhando cada vez mais fundo no mundo do crime.

Não me arrependo de muita coisa que fiz, mas também me restam as lembranças de atitudes que eu preferiria apagar.

Arrependimentos do passado me perseguem, lembranças de crimes por vezes sórdidos cometidos contra inocentes e que deixaram marcada para sempre minha alma.

Quero enterrar esse passado, para que nunca mais paire sobre mim essa sombra.

Rever meu passado, rever aqueles que viveram comigo, poderia ser a maneira redentora capaz de enterrar de vez essas experiências obscuras.

Enterrar o passado sob nuvens escuras

Justamente agora no momento em que escrevo, nuvens negras prometem tempestade que deixarão a terra encharcada.

Eu pretendia fechar algumas das covas de um recanto escondido em meu quintal, mas agora, com a terra pesada ficará tudo mais difícil.

Minha casa é conhecida pelos meus leitores, nunca me escondi e ela consta até no Google Maps, sendo um refúgio de paz entre a natureza abundante.

No entanto, há segredos inquietantes e perigosos escondidos sob a aparência inocente deste lugar.

Aqueles que se aventuram sem minha companhia durante a noite podem tropeçar em covas, escavadas cuidadosamente em meio às árvores.

Muitos me consideram mórbido por planejar a disposição pós morte dos meus fiéis cães neste jardim enigmático.

Mas, para mim, é apenas uma solução prática e afetuosa.

Afinal, como saber o que o futuro me reserva?

Como saber em que momento terei que enterrar aqueles que me foram fiéis?

Como saberei quando enterrarei finalmente as tristes lembranças do passado do qual me arrependo?

Duas mulhere de meu passado

Duas mulheres foram testemunhas do meu envolvimento com o mundo do crime, mas há muito não as via, pois seguiram seus próprios caminhos.

Nos últimos dias, ao resgatar memórias que haviam sido há muito esquecidas, cheguei novamente a essas duas mulheres.

Eu sabia que elas carregam com elas, ainda hoje, lembranças que eu preferia ver esquecidas e enterradas.

Não foi para mim difícil encontrá-las e muito menos chamá-las.

Ontem, dois amigos foram buscar uma delas. Fiquei feliz ao recebê-la. É sempre bom quando pessoas que fizeram parte de nosso passado retornam.

Essa manhã, ela estava ainda na mesma posição na qual a deixei ontem quando dela e de parte das lembranças de meu passado eu me despedi.

Hoje, a outra mulher do meu passado chegou. Ela estava passando por dificuldades e ficou feliz quando lhe convidei para voltar.

Ela já me aguarda no quarto, mas uma sensação de profunda angústia se apodera de mim.

Olho as nuvens negras que prometem tempestade.

Apesar da terra pesada e encharcada, hoje enterrarei as últimas lembranças vivas que restam desse passado que me arrependo.

Sem novas visitas à Delegacia Central de Itu

Dessa vez, no entanto, nenhum investigador adentrará a sala da Delegacia Central de Itu, fechando a porta com um baque seco e arrastando uma cadeira para bloqueá-la.

Também não verei nenhum sorriso irônico tentando me intimidar. Nenhum escrivão ocupado em seus afazeres. Nenhum delegado em silêncio digitando em seu computador sem olhar para mim.

Mas, confesso que sentiria-me honrado se um profissional da polícia tivesse ficado em dúvida se essa história que eu escrevo agora é verdadeira.

Vou entrar me despedir da mulher e das lembranças que me incomodam, e em breve tudo estará tão silencioso que será possível ouvir o som de alguém enterrando seu passado em uma terra encharcada.

Autor: Ricard Wagner Rizzi

O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)

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