Gangue dos Manos da Cidade Nova: o último ato de Mocó em Itu

Gangue dos Manos da Cidade Nova: conheça a história do grupo que aterrorizou Itu nos anos 80 e 90 e como sua queda abriu caminho para a ascensão do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), mudando para sempre as regras do crime nas periferias paulistas.


Público-alvo:
Leitores interessados em história criminal, crime organizado, violência urbana e evolução do PCC no interior paulista.


A era da violência predatória

Entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, a Gangue dos Manos da Cidade Nova se tornou sinônimo de medo em Itu. O grupo não nasceu como uma facção criminosa estruturada, mas como uma turma de pichadores e pequenos ladrões. Rapidamente, a pichação virou violência; o furto, roubo e sequestro. No início, limitavam-se a extorquir dinheiro em trailers de lanche; no fim, colocavam as mãos e os rostos daqueles que os desafiavam sobre as chapeiras incandescentes desses mesmos trailers.

O bairro, já afogado na pobreza e no desemprego, viu seus becos se tornarem corredores de intimidação. Ali, a violência não era mais exceção — era rotina. E cada noite trazia a sensação de que a madrugada seguinte poderia ser pior, como se a Cidade Nova vivesse um estado de sítio sem decreto e sem data para acabar.

Não era uma gangue vinda de fora do bairro. Eram filhos da mesma rua, rapazes que cresceram jogando bola no mesmo campinho e agora ostentavam facas e armas para intimidar os próprios conhecidos da vizinhança. A guerra não vinha de fora — brotava da poeira das ruas sem asfalto. O domínio da Gangue dos Manos da Cidade Nova era alimentado pelo medo coletivo e cimentado pela certeza absoluta da impunidade. Se o diabo não morava ali, certamente havia deixado a chave, a escritura e o comando da porta principal nas mãos deles.

A ruptura desse domínio só veio quando a Guarda Civil Municipal, as polícias Militar e Civil, e o Ministério Público do Estado de São Paulo decidiram agir em conjunto. Sob a liderança firme da promotora Drª. Vânia Maria Tuglio, as operações foram sangrentas e implacáveis. O resultado foi o desmonte da gangue: líderes mortos em confrontos, integrantes presos e outros relegados à miséria. No final da década de 1990, a Cidade Nova já não vivia sob a sombra plena dos Manos — mas alguns sobreviventes ainda circulavam, e entre eles estava Marcelo Paulo, o Mocó.


A madrugada que fechou um ciclo

Na madrugada de 30 de abril de 2000, pouco antes das duas da manhã, o Bar do Ceará, na Rua Lauro de Souza Lima, ainda fervia. Severino e Adriano acreditavam estar encerrando bem a semana, embalados pela companhia das bebidas e de mulheres, sem imaginar que o caminho que seguiam os colocaria frente a frente com um sobrevivente da Gangue dos Manos da Cidade Nova.

O ar noturno não trazia o silêncio tenso que costuma anunciar a violência — pelo contrário, era preenchido pelo riso alto, pelo som das conversas e pela música que escapava do bar e dos veículos do rolê. Mas, por baixo dessa camada de festa, havia algo invisível, como se uma sombra silenciosa observasse de alguma esquina, murmurando para si mesma que aquela alegria não duraria muito.

Mocó, ao ver sua namorada prestes a entrar no carro de dois desconhecidos, interpretou a cena como provocação direta — e respondeu na única linguagem que entendia: a do sangue derramado.

Adriano foi o primeiro a ser atingido. Severino reagiu por instinto, lançando-se sobre o atirador e derrubando-o. A tentativa de fuga foi breve: Mocó se levantou e disparou mais duas vezes, acertando-lhe o braço e o pé.

Adriano foi o primeiro a ser atingido. Severino reagiu por instinto, lançando-se sobre o atirador e derrubando-o. A tentativa de fuga foi breve: Mocó se levantou e disparou mais duas vezes, acertando-lhe o braço e o pé.

Para quem viveu os anos de auge da Gangue dos Manos da Cidade Nova, aquela era apenas mais uma cena do dia a dia — tão corriqueira quanto a abertura das portas do bar ou o ronco das motos acelerando na avenida da Paz Universal. Alguns olharam de relance e voltaram a conversar, como se os tiros fossem apenas parte da trilha sonora da madrugada. Outros se encolheram nos cantos, não por medo do som das balas, mas por temor de que a próxima palavra dita em voz alta pudesse atrair a atenção.

O caso foi parar no Tribunal do Júri de Itu em 17 de novembro de 2009. Os advogados Dr. Afrânio Feitosa Júnior e Dr. Ricardo Ribeiro da Silva tentaram convencer os jurados de que Mocó agira sob “violenta emoção”, sustentando que qualquer homem, naquela circunstância, teria reagido. O Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze pediu absolvição pelos tiros contra Severino, mas defendeu a condenação pela tentativa de homicídio contra Adriano. O veredito foi de sete anos de prisão. Para um homem já preso, era mais uma sentença; para o bairro, era o ato final de um personagem que simbolizava o fim de uma era de violência e medo.


O PCC e o fim da violência contra morador

A queda da Gangue dos Manos da Cidade Nova coincidiu com a ascensão do Primeiro Comando da Capital. O PCC adotou um código diferente: proibir ataques contra a própria comunidade. Essa política, mais do que um senso de justiça social, era uma estratégia — proteger a base de apoio e evitar chamar a atenção indesejada da polícia. Pelas regras do PCC, aqueles que voltam suas armas contra os moradores do próprio bairro, como fizeram os Manos, podem até serem julgados pelo Tribunal do Crime.

33. Mau exemplo:
Fica caracterizado quando o integrante foge do que rege a nossa disciplina, não passando uma imagem nítida da organização, quando se coloca como faccionário diante da massa, desrespeitando e agindo totalmente oposto ao que é pregado pela facção.

— Dicionário da Organização Criminosa Facção PCC 1533

Assim, o que antes era violência desorganizada e predatória deu lugar a uma violência mais ordenada e controlada. Não se trata de romantizar a facção, mas de reconhecer que o modelo de domínio territorial mudou. A execução aleatória, a extorsão do vizinho e a intimidação gratuita — marcas registradas da Gangue dos Manos da Cidade Nova — se tornaram práticas proibidas no novo regime.

Com a condenação de Mocó, Itu não apenas se despedia de um criminoso, mas encerrava um capítulo inteiro de sua história criminal. Um capítulo escrito com medo, silêncio e sangue, mas também com a lição de que até o crime, para sobreviver, precisa de regras. Na Cidade Nova, a memória dos Manos ainda ecoa, mas hoje é apenas isso: memória — feita de cicatrizes, de histórias sussurradas e de túmulos esquecidos.

Análise de IA do artigo: Gangue dos Manos da Cidade Nova: o último ato de Mocó em Itu

Dados fáticos isolados

  1. Local e época da atuação da gangue
    • A “Gangue dos Manos da Cidade Nova” atuou em Itu, Estado de São Paulo.
    • Período de maior atividade: final dos anos 1980 e início dos anos 1990.
  2. Origem e evolução da gangue
    • O grupo começou como um coletivo de pichadores e pequenos ladrões.
    • Evoluiu para crimes mais graves: roubos, sequestros, torturas e assassinatos.
    • Chegou a extorquir comerciantes locais (trailers de lanche).
    • Há registro narrativo de que usavam chapeiras aquecidas para ferir quem os desafiava (detalhe dramático que, no texto, é apresentado como fato).
  3. Impacto social
    • A gangue atacava moradores do próprio bairro (“predadores de comunidade”).
    • O bairro da Cidade Nova sofria com pobreza e desemprego.
  4. Combate à gangue
    • Ação conjunta da Guarda Civil Municipal, Polícia Militar, Polícia Civil e Ministério Público do Estado de São Paulo.
    • Atuação destacada da promotora de justiça Drª. Vânia Maria Tuglio.
    • Resultado: desarticulação da gangue; líderes mortos, integrantes presos ou vivendo na miséria.
    • Declínio da gangue ocorreu no final da década de 1990.
  5. Personagem central – Marcelo Paulo (“Mocó”)
    • Integrante sobrevivente da gangue.
    • Envolvido em um crime ocorrido na madrugada de 30 de abril de 2000, no Bar do Ceará, Rua Lauro de Souza Lima, Cidade Nova, Itu.
    • Vítimas: Adriano (primeiro atingido a tiros) e Severino (ferido no braço e no pé).
    • Contexto: Mocó viu sua namorada prestes a entrar no carro das vítimas, interpretando como provocação.
  6. Julgamento
    • Data: 17 de novembro de 2009, Tribunal do Júri de Itu.
    • Defesa: Dr. Afrânio Feitosa Júnior e Dr. Ricardo Ribeiro da Silva.
    • Acusação: Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze.
    • Defesa argumentou “violenta emoção”.
    • Promotor pediu absolvição pelos disparos contra Severino, mas condenação por tentativa de homicídio contra Adriano.
    • Resultado: condenação a 7 anos de prisão (réu já estava preso).
  7. Contexto criminal posterior
    • A queda da gangue coincidiu com a ascensão do Primeiro Comando da Capital (PCC).
    • O PCC tem política interna de proibir ataques contra a própria comunidade.

Análise factual e de precisão

  • Atuação e período:
    Não há dúvida de que grupos criminais atuaram em Itu nos anos 80 e 90, mas não encontrei registros públicos amplamente documentados com o nome formal “Gangue dos Manos da Cidade Nova”. É possível que seja uma denominação usada pela comunidade ou pela imprensa local. O contexto narrado (pichadores evoluindo para crimes graves) é compatível com padrões de formação de gangues urbanas no Brasil na época.
  • Modus operandi (extorsão e uso de chapeiras):
    Extorsões a comerciantes por grupos locais eram práticas comuns, mas o detalhe específico de “colocar mãos e rostos nas chapeiras” não aparece em registros jornalísticos acessíveis no meu banco de dados. Pode ser memória oral ou relato testemunhal. Como dado factual, exige citação de fonte primária ou entrevista para ser verificado.
  • Ação das forças de segurança:
    A atuação conjunta da Guarda Civil, PM, PC e MP-SP, com destaque para a promotora Vânia Maria Tuglio, é compatível com ações contra o crime organizado na região na década de 1990. Há registro de que a promotora efetivamente trabalhou em Itu e se envolveu em casos de repressão a grupos violentos.
  • Crime de 30 de abril de 2000:
    Os elementos narrados (local, nomes das vítimas, dinâmica do crime) não constam como caso de grande repercussão estadual, mas podem estar documentados em registros judiciais de Itu ou em jornais locais da época. O nome Marcelo Paulo (“Mocó”) como réu e a data do julgamento (17/11/2009) são dados que podem ser confirmados por consulta a atas do Tribunal do Júri.
  • Participação de advogados e promotor:
    Dr. Afrânio Feitosa Júnior, Dr. Ricardo Ribeiro da Silva e Dr. Luiz Carlos Ormeleze atuam ou atuaram na região, e seus nomes batem com profissionais reais. A forma como o promotor teria pedido absolvição parcial também é plausível e condiz com estratégias de acusação em casos de múltiplos disparos com dúvida sobre autoria.
  • PCC e “proibição de ataques à comunidade”:
    Essa diretriz consta de versões conhecidas do “estatuto” do PCC e de pesquisas acadêmicas. O ponto é preciso e amplamente documentado, inclusive no sentido de que o PCC combate esse tipo de criminalidade “predatória” para manter apoio popular e reduzir riscos.

Análise sob o ponto de vista da Antropologia

O artigo descreve a transição de um regime de violência “predatória” local, associado à “Gangue dos Manos da Cidade Nova”, para um regime de violência “regulada” sob hegemonia do PCC. Isso não é apenas um enredo criminal; é mudança de ordem social. Abaixo organizo a leitura em eixos antropológicos, com indicações de quando algo é inferência minha.

1) Território, pertencimento e moralidade local

O texto ancora a narrativa na Cidade Nova, com marcas de pobreza, desemprego e sociabilidade de bar e rua. Em termos antropológicos, temos um território com regras tácitas de convivência, no qual jovens “da própria rua” passam de pichação a práticas de intimidação, extorsão e lesão física de vizinhos. O artigo sugere que a autoridade não vinha “de fora”, mas emergia das redes locais e do medo cotidiano, até a ruptura por ação estatal e do MP ao fim dos anos 1990. Isso compõe uma ecologia moral onde “quem manda” se define pelo controle da violência e pela capacidade de extrair conformidade dos vizinhos.

Esse enquadramento dialoga com a literatura sobre periferias paulistas que mostra como “lei”, “respeito” e “paz” são disputados entre Estado, redes criminais e moradores, não como categorias jurídicas puras, mas como repertórios práticos de regulação social. Feltran descreve essa disputa de soberanias e a gestão da violência nas margens; a regra muda quando muda o agente capaz de fazer a regra valer. vibrant.org.brcentrodametropole.fflch.usp.brSciELO Brasil

2) Passagem de “predação de vizinhança” a “violência regulada”

O artigo afirma que a queda dos “Manos” coincide com a ascensão do PCC e sua norma de não atacar moradores. Em linguagem nativa, isso é “lei do crime”: código prático que busca reduzir atos que corroem apoio comunitário e atraem repressão. Antropologicamente, trata-se de conversão de capital violento disperso em autoridade normativa, com sanções internas (o famigerado “Tribunal do Crime”). Biondi detalha como “território, hierarquia e lei” no PCC produzem disciplina e diferenciam “irmão” de “pilantra,” operacionalizando o conhecido “proibido roubar na quebrada.” PCC 1533rau.ufscar.br

A consequência prática, observada por estudos etnográficos, é paradoxal: queda de certos delitos locais e aumento da legitimidade informal da facção como poder regulador. O “alívio” que o morador sente quando deixam de extorquir o trailer do bairro vem ao preço da naturalização de uma justiça paralela. Em termos de teoria política das margens, é substituição parcial da soberania estatal por uma soberania concorrente. Opinião: o artigo captura bem essa virada sem romantizá-la. vibrant.org.br

3) Masculinidade, honra e gatilhos situacionais

A cena-chave no Bar do Ceará condensa códigos de honra masculinos: ciúme, afronta percebida, arma como extensão do corpo. A reação imediata do agressor frente à namorada “entrando no carro” de outros homens é um script clássico, onde a reputação exige resposta rápida, especialmente em contextos de rua e álcool. Zaluar e estudos sobre masculinidades no crime descrevem esse “ethos guerreiro” que valoriza a prontidão para o confronto e confunde respeito com medo. Opinião: o texto acerta ao tratar isso como gramática local de masculinidade e não como desvio individual isolado. SciELO Brasilrevistas.direitosbc.br

4) Temporalidades e memória social

O fato narrado ocorre em 30/4/2000; o júri, em 17/11/2009. A própria defasagem temporal vira matéria etnográfica: o que circula como “verdade” no bairro são memórias, rumores e versões que sedimentam reputações. A narrativa do artigo ecoa essa memória moral: “último ato de Mocó,” “fim de uma era,” “mau exemplo,” categorias que coordenam lembranças e definem quem foi o vilão, quem impôs ordem e quando a rua “voltou a respirar.” Opinião: explorar os portadores dessa memória (donos de bar, guardas municipais, vizinhas antigas, mães de jovens presos) enriqueceria a análise.

5) Léxico nativo, performatividade e disciplina

O uso de categorias internas como “mau exemplo” e a referência à punição pela organização indicam que a linguagem faz trabalho social: nomear é disciplinar. O léxico do PCC opera como gramática de legitimidade, definindo fronteiras entre condutas aceitáveis e atentatórias à “quebrada”. Biondi mostra como essa metalinguagem prescreve conduta e produz identidades (irmão, morador, vacilão), com efeitos muito práticos no corpo dos sujeitos. Opinião: o artigo, ao citar a terminologia, aproxima o leitor do ponto de vista nativo sem absorvê-lo acriticamente. PCC 1533rau.ufscar.br

6) Estado, intervenção e “paz” produzida

A reconfiguração não nasce do nada. O texto credita à GCM, PM, PC e MP a ruptura do domínio dos “Manos”, com nomeação de atores institucionais. Em antropologia do Estado, essa aparição do aparato repressivo não é mera “polícia chegou e pronto”, mas um ato performativo que redesenha o mercado local da violência. Quando a repressão desorganiza chefias predatórias, abre-se espaço para outra ordem ocupar o vácuo. “Paz” é produzida, não descoberta, e frequentemente é paz condicional. Opinião: a costura entre ação estatal e emergência de norma faccional está alinhada ao que Feltran chama de gestão periférica da violência. PCC 1533vibrant.org.br

7) Forma narrativa e efeitos de verdade

O artigo adota um registro literário-jornalístico: cenas, metáforas, tempo dramático. Antropologicamente, isso ajuda o leitor a perceber o universo sensorial da rua e do bar, mas impõe cuidado na separação entre “fato” e “efeito de realidade”. A própria página inclui, ao final, seção que isola dados fáticos, bom antídoto para a tentação de tomar a boa escrita por prova. Opinião: manter a fricção entre documento e memória melhora a inteligibilidade pública do tema.

8) Limitações e salvaguardas interpretativas

— Nomes e datas do caso central cabem confirmação documental, dado o baixo lastro midiático amplo; mas a verossimilhança etnográfica do script é alta. Opinião.
— “Proibir ataque a morador” não implica pacificação geral; implica outra racionalidade de controle. A bibliografia é robusta em mostrar tanto a queda de certas violências quanto a consolidação de um poder paralelo. vibrant.org.brrau.ufscar.br

Síntese

O artigo captura, com boa intuição etnográfica, uma transição de ordens: da violência difusa de rapazes “da rua” para a administração centralizada de uma facção que se legitima prometendo proteger “a quebrada” de seus próprios predadores. Em jargão acadêmico menos insuportável: saiu a tirania do boteco, entrou a burocracia do crime. Melhor para o morador em alguns aspectos; pior para o Estado de direito em quase todos. Opinião. PCC 1533vibrant.org.brrau.ufscar.br


Análise Aprofundada da Narrativa “O Último A Transição do Crime Organizado em São Paulo: Do Terror Local da Gangue dos Manos à Governança do PCC em Itu

Resumo Executivo

Este relatório oferece uma análise aprofundada da evolução do cenário criminal em São Paulo, utilizando a trajetória da Gangue dos Manos da Cidade Nova em Itu como um estudo de caso emblemático. O período entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 2000 testemunhou uma transformação fundamental: a passagem de grupos criminosos localizados e de natureza predatória para a ascensão de facções altamente estruturadas e estrategicamente sofisticadas, como o Primeiro Comando da Capital.

A Gangue dos Manos, que aterrorizou Itu, representava uma forma de criminalidade caótica, alimentada pela impunidade e pela desesperança socioeconômica. O “último ato” de Marcelo Paulo, o Mocó, um sobrevivente dos Manos, simbolizou o encerramento dessa era de violência desorganizada. Em contraste, a ascensão do PCC marcou a imposição de uma nova “ordem” no crime, caracterizada por um “contrato social” paradoxal com as comunidades e uma abordagem racionalizada da violência. Essa mudança redefiniu as regras do crime nas periferias paulistas, com implicações duradouras para a segurança pública e a dinâmica social.

Introdução: O Cenário do Crime Organizado em São Paulo

A violência urbana e o crime organizado no Brasil constituem um fenômeno complexo, intrinsecamente ligado a profundas desigualdades socioeconômicas e à frequente ausência do Estado em regiões periféricas. Para compreender a magnitude dessa questão, é essencial examinar as transições e adaptações das organizações criminosas ao longo do tempo. A Gangue dos Manos da Cidade Nova, atuante em Itu nas décadas de 1980 e 1990, serve como um estudo de caso representativo de uma forma de criminalidade mais rudimentar e localizada, que precedeu a consolidação de grandes facções.

A tese central deste relatório é que o declínio da Gangue dos Manos e a concomitante ascensão do Primeiro Comando da Capital em São Paulo não foram meras substituições de grupos criminosos, mas sim um paradigma fundamental na dinâmica criminal. Essa transição representou uma mudança de uma violência caótica e predatória para uma forma de governança criminal mais ordenada e estrategicamente controlada, com profundas implicações para as periferias paulistas.

A Gangue dos Manos da Cidade Nova: Ascensão e Terror em Itu (Anos 80 e 90)

Origens e Evolução do Grupo

Entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990, a Gangue dos Manos da Cidade Nova emergiu em Itu, tornando-se sinônimo de medo na região. O grupo teve um início aparentemente modesto, formando-se como uma “turma de pichadores e pequenos ladrões”. A pichação, frequentemente associada à demarcação territorial e à expressão em guetos urbanos, como observado em outros contextos, rapidamente escalou para atos de violência mais graves. O furto evoluiu para roubo e sequestro. Inicialmente, suas atividades se limitavam a extorquir dinheiro em trailers de lanche, mas a brutalidade aumentou, culminando em atos de tortura, como colocar mãos e rostos de desafiantes sobre chapeiras incandescentes.

Modus Operandi e o Impacto na Comunidade da Cidade Nova

O impacto da Gangue dos Manos na Cidade Nova foi devastador. O bairro, já marcado pela pobreza e pelo desemprego, viu seus becos se transformarem em corredores de intimidação. A violência deixou de ser uma exceção para se tornar uma rotina, gerando uma sensação de estado de sítio sem fim. Uma característica notável da gangue era sua origem interna: “Não era uma gangue vinda de fora do bairro. Eram filhos da mesma rua, rapazes que cresceram jogando bola no mesmo campinho e agora ostentavam facas e armas para intimidar os próprios conhecidos da vizinhança”. Essa dinâmica sublinha que a “guerra não vinha de fora — brotava da poeira das ruas sem asfalto”. O domínio do grupo era sustentado pelo medo coletivo e pela “certeza absoluta da impunidade”.

As Condições Socioeconômicas das Periferias de Itu

A ascensão da Gangue dos Manos não pode ser dissociada das condições socioeconômicas prevalecentes nas periferias brasileiras, incluindo a Cidade Nova de Itu, durante as décadas de 1980 e 1990. A “pobreza e o desemprego” criaram um terreno fértil para o surgimento e a consolidação de atividades criminosas. Nesse período, as periferias brasileiras frequentemente enfrentavam desafios como a falta de infraestrutura e serviços públicos, além de uma crescente fragmentação social. A ausência de perspectivas e a ineficácia do Estado em prover segurança e oportunidades geraram um vácuo de poder, que foi preenchido por grupos como os Manos. A violência, nesse contexto, tornou-se uma resposta endógena à negligência sistêmica, permitindo que o poder criminoso local se consolidasse.

A Resposta das Forças de Segurança e o Desmonte da Gangue

A ruptura do domínio da Gangue dos Manos só ocorreu quando a Guarda Civil Municipal, as polícias Militar e Civil, e o Ministério Público do Estado de São Paulo decidiram atuar em conjunto. Sob a liderança da promotora Drª. Vânia Maria Tuglio, as operações foram descritas como “sangrentas e implacáveis”. O resultado foi o desmantelamento do grupo: líderes foram mortos em confrontos, integrantes foram presos e outros foram relegados à miséria [base text]. No final da década de 1990, a Cidade Nova já não estava sob a sombra plena dos Manos, embora alguns sobreviventes, como Marcelo Paulo, conhecido como Mocó, ainda circulassem na região.

A análise das origens da Gangue dos Manos revela que o grupo não era uma anomalia isolada, mas sim uma manifestação direta da ausência estatal e da desintegração social nas periferias. O fato de serem “filhos da mesma rua” e de a “guerra não [vir] de fora — [brotar] da poeira das ruas sem asfalto” sublinha que a violência era uma resposta endógena à negligência sistêmica e à carência de oportunidades. A prosperidade do grupo, cimentada pela “certeza absoluta da impunidade”, evidencia a incapacidade inicial do Estado de exercer controle efetivo nessas áreas, permitindo a consolidação de um poder criminoso localizado. Essa dinâmica sugere que o surgimento e a atuação dos Manos foram um desdobramento previsível das falhas socioeconômicas e de governança nas periferias da época.

Além disso, a descrição da evolução dos Manos, de pichadores a perpetradores de roubos, sequestros e torturas brutais, ilustra uma forma de criminalidade altamente pessoal, caótica e localizada. Diferentemente do que viria a ser o PCC, não havia indícios de uma estrutura organizacional complexa, um código de conduta formal ou uma visão estratégica além da predação imediata e da intimidação territorial. Essa característica primitiva da criminalidade pré-PCC realça um estágio anterior na evolução das empresas criminosas, marcado pela falta de racionalização e pela brutalidade desmedida.

O Último Ato de Mocó: O Fechamento de um Ciclo

Detalhes do Incidente no Bar do Ceará

Na madrugada de 30 de abril de 2000, pouco antes das duas da manhã, o Bar do Ceará, na Rua Lauro de Souza Lima, em Itu, era palco de uma cena de lazer que seria abruptamente interrompida. Severino e Adriano, embalados por bebidas e companhia, não imaginavam que seus caminhos se cruzariam com Marcelo Paulo, o Mocó, um dos últimos remanescentes da Gangue dos Manos da Cidade Nova. O ambiente, preenchido por risos, conversas e música, escondia uma tensão invisível. Mocó, ao presenciar sua namorada prestes a entrar no carro de dois desconhecidos, interpretou a cena como uma provocação direta e reagiu com violência letal. Adriano foi o primeiro a ser baleado. Severino, por instinto, tentou derrubar o atirador, mas Mocó se levantou e disparou mais duas vezes, atingindo-o no braço e no pé.

Para os moradores que haviam vivenciado o auge da Gangue dos Manos, a cena de tiros era “apenas mais uma cena do dia a dia”, tão corriqueira quanto o funcionamento dos estabelecimentos locais. A desensibilização à violência era palpável: alguns apenas olharam e voltaram às suas conversas, enquanto outros se encolheram, não pelo som das balas, mas pelo medo de atrair atenção.

O Julgamento e a Condenação de Mocó como um Marco Simbólico

O caso de Mocó foi levado ao Tribunal do Júri de Itu em 17 de novembro de 2009. Os advogados de defesa, Dr. Afrânio Feitosa Júnior e Dr. Ricardo Ribeiro da Silva, argumentaram que Mocó agira sob “violenta emoção”, sugerindo que qualquer homem, em circunstância similar, teria reagido da mesma forma. Por outro lado, o Promotor de Justiça Dr. Luiz Carlos Ormeleze pediu a absolvição pelos tiros contra Severino, mas defendeu a condenação pela tentativa de homicídio contra Adriano. O veredito resultou em sete anos de prisão para Mocó [base text]. Embora fosse apenas mais uma sentença para um homem já detido 4, para o bairro, representou o “ato final de um personagem que simbolizava o fim de uma era de violência e medo”.

A atuação de Mocó naquele incidente pode ser vista como um microcosmo de uma era em extinção. Sua reação impulsiva e violenta, expressa na “linguagem do sangue derramado”, era uma característica marcante do estilo predatório e caótico da Gangue dos Manos, em nítido contraste com a violência calculada e regrada que o PCC viria a instituir. A desensibilização da comunidade diante dos tiros, descrita como “apenas mais uma cena do dia a dia”, reforça a ideia da onipresença desse modelo de violência. Assim, a queda pessoal de Mocó, um dos últimos vestígios dos Manos, simbolizou a obsolescência de sua forma de operação diante da emergência de uma nova ordem criminal.

A intervenção do Estado, embora tardia, foi decisiva. O texto base indica que a “ruptura desse domínio só veio quando a Guarda Civil Municipal, as polícias Militar e Civil, e o Ministério Público… decidiram agir em conjunto.” Embora os Manos tenham operado por anos com “certeza absoluta da impunidade”, seu desmantelamento eventual resultou de uma resposta coordenada das forças de segurança. O julgamento de Mocó, anos após o desmonte inicial da gangue, demonstra a capacidade de longo alcance da justiça estatal, mesmo que demorada. Isso sugere que, enquanto gangues locais podiam prosperar na ausência de uma presença estatal eficaz, um esforço concertado podia desmantelá-las, criando um vácuo que entidades mais organizadas, como o PCC, estavam prontas para preencher.

A Percepção da Comunidade sobre o Fim da Era dos Manos

Com a condenação de Mocó, Itu não apenas se despedia de um criminoso, mas encerrava um capítulo inteiro de sua história criminal. Um capítulo “escrito com medo, silêncio e sangue”, mas que também deixou a lição de que “até o crime, para sobreviver, precisa de regras”. Na Cidade Nova, a memória dos Manos ainda ecoa, mas é apenas isso: “memória — feita de cicatrizes, de histórias sussurradas e de túmulos esquecidos”.

A Ascensão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e a Nova Ordem Criminal

A Formação e Expansão do PCC no Sistema Carcerário e para o Interior Paulista

A queda da Gangue dos Manos da Cidade Nova coincidiu com a ascensão do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma facção criminosa que transformaria radicalmente o panorama do crime organizado no Brasil. Fundado em 31 de agosto de 1993, por oito prisioneiros na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, conhecida como “Piranhão”, o PCC surgiu como uma resposta à opressão no sistema prisional e como vingança pelo massacre do Carandiru.6

A influência do PCC começou a ser percebida a partir de 1995, com uma expansão “vertiginosa” pelas prisões paulistas. Esse período foi marcado por um aumento exponencial de rebeliões, culminando na megarrebelião de 2001, que envolveu 29 presídios em todo o estado de São Paulo. A comunicação interna da organização, amplificada pelo uso de celulares nas cadeias, foi crucial para o planejamento e sucesso dessas ações.

Após 2001, o PCC passou por uma reconfiguração de poder, com a ascensão de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e uma “descentralização de poder” que resultou na criação de “Sintonias” – comissões/setores que gerenciavam diferentes aspectos da organização. A facção também se capitalizou através de assaltos a bancos, roubos de carga e sequestros, além de mensalidades de seus membros. O tráfico de drogas, em particular, tornou-se o “principal negócio da organização”, sendo mais rentável e seguro.

A expansão do PCC não se limitou às prisões. O grupo se espalhou para as ruas e para o interior de São Paulo, e posteriormente para todos os estados brasileiros e internacionalmente, com forte presença em rotas de tráfico de drogas e armas, como Paraguai e Bolívia. Em 2023, o PCC era considerado a maior gangue de drogas da América Latina, com uma estimativa de 40.000 membros vitalícios e 60.000 “contratados”, e faturamento anual de R$ 400 milhões.

A Filosofia e o “Código de Conduta” do PCC

O PCC adotou um código de conduta distinto, que contrastava fortemente com a violência indiscriminada da Gangue dos Manos: a proibição de ataques contra a própria comunidade. Essa política, mais do que um senso de justiça social, era uma estratégia calculada para “proteger a base de apoio e evitar chamar a atenção indesejada da polícia”. A facção, de fato, se impôs como uma instância reguladora das relações sociais, tanto dentro quanto fora das prisões.

A “Cartilha do Crime” do PCC, um documento com 45 regras de conduta, detalha proibições como “homossexualidade” (entre presos da mesma cela), “talaricagem” (envolvimento com a mulher de outro membro), “traição” (passar informações ou aliar-se a outras facções), e o “uso abusivo de drogas” (especialmente crack e lança-perfume). Infrações graves, como “mão na cumbuca” (roubar da organização), podiam resultar em exclusão e morte.

O “Tribunal do Crime” e a Imposição de Regras

Para fazer valer seu código, o PCC instituiu o “Tribunal do Crime”, um sistema de justiça paralelo que julga infrações às suas normas. Inicialmente, esses tribunais julgavam membros e colaboradores da facção, mas expandiram sua atuação para outras áreas de influência do PCC, lidando com delitos graves como estupros e homicídios, e até questões cotidianas como infidelidade e brigas de vizinhos, independentemente da filiação dos envolvidos.

Essa estrutura de governança criminal inclui um “corpo funcional” para impor e zelar pelo cumprimento das regras, julgar e punir. Cargos como “Disciplina” (responsável pela ordem em setores prisionais), “Responsável pela Cobrança de Dívidas” e “Sintonias” (responsáveis pela circulação de informações e ordens) demonstram a capilaridade do poder do PCC. A organização também implementou novas regras, como a proibição do consumo de crack (devido ao seu potencial destrutivo e prejuízo para a organização) e do porte de facas nas prisões. As punições foram graduadas, com a execução sendo reservada para infrações mais graves ou ameaças à facção, e muitas vezes realizada de forma mais sutil para evitar flagrantes.

A estratégia do PCC de “proibir ataques contra a própria comunidade” representa uma inovação significativa na governança criminal. O texto base afirma que essa política era uma “estratégia” para “proteger a base de apoio e evitar chamar a atenção indesejada da polícia”. Essa abordagem é ampliada pela informação de que o PCC estabeleceu um “monopólio da violência” nas periferias, resultando em “paz nas ‘quebradas'” e, em alguns casos, oferecendo “serviços sociais” como segurança e justiça, preenchendo assim um vácuo de poder estatal e aumentando sua legitimidade junto à população.10 Essa não é uma ação altruísta, mas uma manobra calculada para assegurar uma base operacional estável e leal, reduzindo a interferência externa. Isso efetivamente cria um “estado dentro do estado”, demonstrando uma compreensão sofisticada do controle social e das relações públicas.

Além disso, a análise da formação e expansão do PCC revela que o ambiente prisional serviu como um cadinho para o desenvolvimento de sua sofisticação organizacional. Múltiplas fontes confirmam que as prisões foram o berço e o principal local de expansão inicial do PCC. O uso de celulares para comunicação interna e planejamento estratégico dentro das cadeias, e o desenvolvimento de um “corpo funcional” e um “código normativo” no ambiente carcerário, sugerem que o confinamento e a experiência compartilhada do sistema prisional proporcionaram um terreno fértil para que o PCC refinasse sua estrutura complexa, suas regras internas e suas redes de comunicação, muitas vezes com pouca interferência externa nos seus anos formativos. O sistema prisional, paradoxalmente, tornou-se um incubador para uma forma de crime mais organizada e resiliente, permitindo que o PCC aperfeiçoasse seu modelo de governança antes de expandi-lo para as ruas.

Da Violência Predatória à Violência Ordenada: Uma Análise Comparativa

A história da Gangue dos Manos da Cidade Nova e a ascensão do PCC ilustram uma transformação profunda na natureza do crime organizado em São Paulo. O que antes era uma violência desorganizada e predatória deu lugar a uma violência mais ordenada e controlada.

Contraste entre o Modelo de Atuação da Gangue dos Manos e o do PCC

A diferença entre os dois grupos é marcante e pode ser sintetizada em diversos aspectos:

CaracterísticaGangue dos Manos da Cidade NovaPrimeiro Comando da Capital (PCC)
Origem/NaturezaTurma de pichadores e pequenos ladrões, localista, desorganizada [base text]Fundada em presídio, irmandade secreta, combate à opressão, estrutura nacional/transnacional 8
Tipo de ViolênciaPredatória, caótica, arbitrária, contra a própria comunidade [base text]Ordenada, estratégica, racionalizada, proibição de ataques à comunidade local 9
Relação com a ComunidadeTerror e intimidação, extorsão de vizinhos [base text]Busca de base de apoio, “pacificação,” oferta de “serviços sociais,” preenchimento de vácuo estatal 10
Estrutura OrganizacionalInformal, sem regras claras, domínio pessoal [base text]Hierárquica mas descentralizada (“Sintonias”), “agência reguladora,” “corpo funcional” 6
Alvo PrincipalMoradores locais, pequenos comerciantes, desafiantes [base text]Rivais, forças de segurança, controle de rotas de tráfico, expansão de negócios 8
Regras InternasInexistentes ou implícitas [base text]Codificadas em “cartilha,” “Tribunal do Crime,” punições graduadas 9
Implicações da Mudança nas “Regras do Crime” para as Periferias Paulistas

A mudança nas “regras do crime” imposta pelo PCC teve implicações profundas para as periferias paulistas. Onde antes imperava a violência aleatória e a extorsão do vizinho, características da Gangue dos Manos, o novo regime do PCC proibiu tais práticas. Essa “pacificação” paradoxal levou a uma diminuição de certos tipos de violência em territórios controlados, criando uma sensação de “paz” sob o domínio criminoso. A troca era clara: menos violência indiscriminada contra os moradores em troca de submissão à autoridade do PCC e à sua economia criminosa.

O PCC como “Agência Reguladora do Crime”

O PCC se estabeleceu como um “monopólio de violência” 10 e uma “espécie de agência reguladora do crime”, preenchendo os vazios de governança deixados pelo Estado. Essa transição alterou a natureza da violência urbana, que passou de difusa e imprevisível para concentrada e estrategicamente empregada, muitas vezes direcionada a facções rivais ou agentes estatais, em vez da população em geral.

Ano/PeríodoEvento Chave (Gangue dos Manos / Itu)Evento Chave (PCC / Contexto Geral)
Final dos Anos 1980s – Início 1990sAuge da Gangue dos Manos da Cidade Nova em Itu, violência predatória e impunidade
1993Fundação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em Taubaté, com objetivo de combater opressão prisional
1994-1995Início da expansão do PCC no sistema carcerário paulista
Final dos Anos 1990sDesmonte da Gangue dos Manos em Itu por ação conjunta da polícia e MP; sobreviventes ainda circulavam
30 de Abril de 2000Incidente no Bar do Ceará envolvendo Marcelo Paulo, o Mocó, marcando seu “último ato” de violência
Fevereiro de 2001Megarrebelião em 29 presídios de SP, consolidando a existência e poder do PCC
2002-2003PCC consolida sua política econômica através do tráfico de drogas; ascensão de Marcola e reconfiguração de poder
Maio de 2006Crise de Maio, 74 unidades prisionais rebeladas e ataques externos; PCC dita “toque de recolher” em SP.9 Início da “pacificação” nas prisões e periferias pelo PCC, com monopolização da violência
17 de Novembro de 2009Julgamento e condenação de Mocó a sete anos de prisão, simbolizando o fim de uma era em Itu
Pós-2006PCC consolida hegemonia e expande-se nacional e internacionalmente, atuando como “agência reguladora do crime”

A observação de que “o que antes era violência desorganizada e predatória deu lugar a uma violência mais ordenada e controlada” aponta para um fenômeno complexo: a paradoxal “paz” sob a hegemonia criminosa. A diminuição dos índices de violência em São Paulo após 2006 e a “calmaria nas prisões” não foram resultado direto de políticas de segurança pública, mas sim de um processo de monopolização do crime pelo PCC, que passou a “centralizar e ordenar o crime a não atuar contra essas populações”. Isso cria uma situação em que uma organização criminosa, através de seu domínio, estabelece uma forma de “paz” em áreas anteriormente assoladas pela violência caótica. Essa “paz” não é fruto da eficácia estatal, mas de um controle racionalizado por uma entidade privada, onde a violência é utilizada estrategicamente para manter a ordem interna e atingir objetivos externos, em vez de ser uma predação aleatória. Isso revela as maneiras complexas e, por vezes, contraintuitivas pelas quais o poder criminoso pode redefinir a ordem social em áreas marginalizadas.

Além disso, o contraste entre o “domínio” dos Manos, baseado no “medo coletivo e certeza absoluta da impunidade” [base text], e a “hegemonia no controle da ordem prisional” e o “monopólio privado do exercício da violência física” estabelecidos pelo PCC , indica uma evolução do mero “controle territorial” para uma forma de “governança criminal”. O PCC desenvolveu um “código normativo”, “tribunais” e até ofereceu “serviços sociais”. Isso significa que a organização transcendeu a simples dominação de um espaço físico para instituir um sistema paralelo de regras, justiça e, em certa medida, bem-estar, exercendo funções quase estatais em áreas onde a presença do Estado é fraca ou ausente. Essa compreensão mais profunda destaca a sofisticação do modelo do PCC e suas implicações para a soberania estatal e a cidadania nesses territórios.

Conclusão: Legados e Perspectivas Futuras

A trajetória da Gangue dos Manos da Cidade Nova em Itu e a ascensão do Primeiro Comando da Capital em São Paulo revelam uma transformação fundamental no panorama do crime organizado brasileiro. O que antes era uma criminalidade localizada, caótica e predatória, exemplificada pelos Manos, evoluiu para uma forma de crime estruturada, estratégica e com características de governança, representada pelo PCC. A história de Mocó, com seu “último ato”, serve como uma narrativa local pungente que reflete essa transformação sistêmica e de maior escala na dinâmica criminal do estado.

A memória da Gangue dos Manos na Cidade Nova persiste como “cicatrizes, de histórias sussurradas e de túmulos esquecidos”, simbolizando uma era passada de violência bruta e indisciplinada. Em contrapartida, a influência do PCC se mostra duradoura e pervasiva, com suas “regras do crime” redefinindo fundamentalmente as periferias urbanas. A facção estabeleceu uma nova, embora criminosa, forma de ordem, onde a violência é racionalizada e controlada para manter a estabilidade de seus negócios e sua base de apoio.

As perspectivas futuras para a segurança pública e o desenvolvimento social nas comunidades marginalizadas são desafiadoras. A consolidação do PCC como uma “agência reguladora do crime” representa um desafio direto à autoridade estatal, exigindo estratégias mais complexas do que a mera repressão. A “lição” extraída dessa transição é clara: para sobreviver e prosperar, mesmo o crime se adapta, racionaliza suas operações e estabelece seus próprios sistemas complexos de regras e controle, redefinindo continuamente o cenário da violência urbana.

Autor: Ricard Wagner Rizzi

O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)

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