Os Justiceiros da Fronteira Brasil-Paraguai teriam ligação com o PCC?

InSight Crime analisa o caso dos Justiceiros da Fronteira e suscita a participação do Primeiro Comando da Capital

Esquadrão de justiça deixa mensagem violenta na fronteira Brasil-Paraguai

Alessandro Ford para o InSight Crime

Um misterioso esquadrão de vigilantes operando na fronteira entre Brasil e Paraguai está matando suspeitos de ladrões e deixando bilhetes ao lado de seus corpos mutilados, uma mensagem macabra mesmo em uma região atolada na violência das drogas.

Na noite de 1º de agosto, dois irmãos brasileiros foram mortos a tiros na fronteira entre o município brasileiro de Ponta Porã, no estado de Mato Grosso do Sul, e a cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero, no departamento de Amambay, conforme noticiado pelo G1 Globo.

Segundo a mídia brasileira, esta é a sexta execução na área em menos de uma semana. E como nos assassinatos anteriores, no local dos fatos deixaram 30 balas usadas e uma nota assinada pelos “Justicieros de la Frontera” (Justiceiros da Fronteira), que diz que “não se aceitarão mais roubos na região” .

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Essas mortes elevam o número de mortos no lado brasileiro da fronteira para 53 nos primeiros seis meses deste ano, um aumento de 30% em relação às 39 pessoas mortas entre janeiro e julho de 2020, segundo relatório da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP), a que a imprensa brasileira teve acesso.

Por outro lado, 34 pessoas morreram nas mãos de pistoleiros no lado paraguaio da fronteira e outros 21 assassinatos ainda estão sendo investigados, segundo o G1 Globo com base em dados da polícia paraguaia.

“[As execuções se devem] aos contratempos sofridos pelo narcotráfico com o aumento das apreensões. Nos primeiros sete meses de 2021, mais de 480 toneladas de entorpecentes foram apreendidas. [Portanto] alguns traficantes buscam repor seus recursos roubando de outros traficantes ”.

Antônio Carlos Videira, secretário de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul

InSight Crime analisa

Enquanto os Justicieros de la Frontera já fizeram aparições na região da fronteira entre o Brasil e o Paraguai, a questão permanece: quem exatamente é esse grupo desconhecido?

Os Justicieros de la Frontera surgiram na década de 2010 em resposta ao aumento de roubos e assaltos. No entanto, o grupo permaneceu inativo por vários anos. Então, em maio de 2018, um jovem paraguaio residente na fronteira foi sequestrado e morto. Eles cortam suas mãos, que é como o grupo pune os ladrões. O bilhete que deixaram perto de seu corpo terminou com uma palavra: “voltamos“.

Desde então, o esquadrão da morte esporadicamente assassinou suspeitos de pequenos ladrões em ambos os lados da fronteira. Seu modus operandi sempre foi o mesmo: eles matam suas vítimas e deixam um bilhete ao lado dos corpos.

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Proclamando-se como protetores dos habitantes, o grupo parece ser uma versão mais violenta das milícias urbanas de extrema direita do Brasil. As mensagens ao lado dos cadáveres também lembram os grupos de autodefesa do México que há muito buscam conter as ondas de violência geradas pelo tráfico de drogas. Embora relatos da mídia indiquem que os Justiceiros de la Frontera foram formados pelo mesmo símbolo, é impressionante que eles não tenham atacado nenhum traficante de drogas conhecido.

Uma teoria recentemente considerada pela polícia brasileira é que a violência na fronteira tem pouco a ver com conflito de gangues ou roubo de drogas. Pelo contrário, os assassinatos são devido aos Justiceiros de la Frontera a trabalhar com o grupo mais poderoso da região, o Primer Comando de la Capital (Primeiro Comando da Capital, PCC), um grupo do Brasil.

A área de fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, disputada por ser uma importante rota de tráfico, é atualmente um reduto indiscutível do PCC. Os membros dessa gangue também exercem forte controle social sobre os habitantes da região e são conhecidos por atacar aqueles que estão em seu caminho. É por isso que é improvável que o esquadrão da morte pudesse operar sem o conhecimento da gangue ou sua aprovação tácita.

Contrapondo a análise do InSight Crime

O primeiro contato que tive com o caso dos Justiceiros da Fronteira foi através de um paraguaio que, estando em uma prisão com PCCs, me fez chegar vídeos e fotos que corriam em grupos de WhatsApp de faccionados com comentários indignados dos integrantes do PCC quanto à injustiça que um grupo estava se cometendo.

“Covardia dos Justiceiros que matam mulheres que não são do crime”.

Busquei contatos com integrantes da organização criminosa desse lado da fronteira e a reação era a mesma:

“… não correm pelo certo. São vendidos para comerciantes. No Paraguai o PCC só corre com o EPP.”

me disse uma liderança

No entanto, não é necessário usar de conhecimento empírico para chegar a conclusão que foi duvidosa a análise do InSight Crime sobre o caso no que tange ao envolvimento do Primeiro Comando da Capital.

Segundo o artigo de Alessandro Ford, o suposto envolvimento da organização criminosa paulista se baseia em informações da polícia brasileira que apresenta para justificar sua posição argumentos no mínimo risíveis.

Um argumento utilizado…

“[As execuções se devem] aos contratempos sofridos pelo narcotráfico com o aumento das apreensões. (…) [Portanto] alguns traficantes buscam repor seus recursos roubando de outros traficantes .”

Secretário de Segurança Pública Antônio Carlos Videira.

O analista do InSigth Crime em seguida dessa frase grafa sem se preocupar em justificar a contradição:

“… é impressionante que eles não tenham atacado nenhum traficante de drogas conhecido.”

Cabe perguntar: conhecido de quem cara pálida?

Os dois irmãos mortos eram bem conhecidos na região. Em um dos vídeos gravados por eles, estavam com o veículo com pelo menos uma dezena de tijolos de drogas.

Outra vítima, um integrante da facção Primeiro Comando da Capital, faz o sinal do três com os dedos enquanto segue com o carro ostentando armamento — essas contradições foram varridas para debaixo do tapete, mas não acabam por aí.

O InSight Crime sequer considerou questionar a razão pela qual, tão desesperadamente o Secretário de Segurança tenta incriminar os integrantes do PCC, mesmo que em uma semana diga que ele declare:

“Os crimes contra o patrimônio causam clamor público e enchem a região de polícia e isso atrapalha o negócio deles (traficantes)”.

… e na semana seguinte declare que eles traficantes estão atacando outros traficantes para compensar as perdas impostas pela polícia.

… o outro argumento utilizado…

“É por isso que é improvável que o esquadrão da morte pudesse operar sem o conhecimento da gangue ou sua aprovação tácita.”

Esse trecho é CtrlC CtrlV utilizado de norte a sul do Cone Sul: do ataque aos indígenas na Amazônia à morte do político Carlos Rubén Sánchez, o “Chicharõ,” no Paraguai — mesmo que o ataque aos Yanomamis tenha usado tática de milícia em uma área de forte influência do Comando Vermelho; e o político paraguaio tenha se desentendido com seu sócio ligado ao grupo criminosos carioca.

… tem mais…

Alessandro Ford também baseia sua conclusão que a facção PCC domina a região fronteiriça do Paraguai, e portanto seria “improvável que o esquadrão … pudesse operar sem seu conhecimento…” em um artigo do próprio InSight Crime.

Por maior que seja o respeito que se deva a Paes Manso e Camila Dias, a realidade mudou após a escrita daquele artigo.

Ainda hoje, toneladas de drogas passam pelo Paraguai em direção aos redutos do Comando Vermelho e outros grupos inimigos da facção paulista, e se, de fato houvesse  hegemonia do PCC, isso não ocorreria — também desmonta essa teoria a resistência de grupos locais como o clã Rotela ou o assassinato constante de PCCs em território paraguaio por integrantes do Comando Vermelho.

… apesar desses pequenos detalhes…

A reportagem e análise do site foram bem fundamentadas, fazendo crer que o autor optou, por alguma razão, a aceitar a versão oficial sem apontar os possíveis culpados e aqueles que tentam ocultá-los e protegê-los.

Não me atentei muito na leitura, mas quantos foram mesmos os assassinatos que continuam sem serem esclarecidos? Há quantos anos foi a primeira morte sem esclarecimento? Quem está investigando é a Polícia Civil que está subordinada ao secretario Antônio Carlos Videira?

Autor: Rícard Wagner Rizzi

O problema do mundo online, porém, é que aqui, assim como ninguém sabe que você é um cachorro, não dá para sacar se a pessoa do outro lado é do PCC. Na rede, quase nada do que parece, é. Uma senhorinha indefesa pode ser combatente de scammers; seu fã no Facebook pode ser um robô; e, como é o caso da página em questão, um aparente editor de site de facção pode se tratar de Rícard Wagner Rizzi... (site motherboard.vice.com)

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