A transferência de Marcola e o fim da pacificação
Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola do PCC, foi transferido para um presídio federal. E agora? O que se pode esperar como resultado disso? Haverá represálias por parte de integrantes da facção?
Há alguns anos, o Apocalipse foi previsto. Não pelos profetas de Israel ou pelos apóstolos cristãos, mas pelos líderes da Família 1533, prisioneiros da P2 de Presidente Venceslau – e já se vão mais de cinco anos…
O fim do mundo planejado pelos chefes do Primeiro Comando da Capital se daria no exato momento em que Marcola, o líder maior da facção, fosse impedido de sair do encarceramento após cumprir o seu tempo normal de prisão.
desembargadora Ivana David
Rogério Jeremias Simone, o Gegê do Mangue, acabou saindo pela porta da frente do presídio, dentro das normas legais, e assim também se esperava que acontecesse com Marcola. Contudo, temia-se que a Justiça encontrasse subterfúgios para mantê-lo preso.
A prorrogação do período de prisão de Marcola seria o gatilho do Apocalipse: ataques à ordem pública e às forças de segurança, que, diferentemente de 2006, em que estiveram à frente dos ataques os crias do 15, esses seriam orquestrados pelos profissionais da facção.
O tempo passou, e cada vez menos se ouvia falar dentro da facção sobre o Apocalipse, afinal outras condenações estavam a caminho de Marcola, que não mais contava com a saída a curto prazo. Assim, um novo gatilho foi criado: a transferência de Marcola para a federal.
Até hoje, os governos paulistas utilizaram a técnica de endurecimento paulatino para a retomada do controle do sistema carcerário, algo assim como quando se coloca uma rã na água e esta é colocada em fogo brando, e ela assim, vai se deixando ficar até morrer.
Hoje, a revista das visitas nos presídios é feita através de sistemas eletrônicos, e o serviço de inteligência das Secretarias de Segurança e da Administração Penitenciária (SASP), assim como a Promotoria Pública de São Paulo (MP-SP), têm conseguido interceptar e bloquear as comunicações dos presos.
O governo do Ceará, logo no começo da mais recente administração, optou por quebrar a ideologia de paulatinidade no endurecimento do tratamento dado aos prisioneiro — deu no que deu, e foi necessário o envio de forças federais para o estado.
Ao escolher agir de forma abrupta e não seguir com um processo gradual, o governo João Dória abandonou o bom senso e escolheu o caminho mais perigoso e ao alertar a rã a colocou em movimento.
Transferir Marcola para um presídio federal é um fato histórico e uma aposta do governador João Dória que tem poucas chances de não lhe ser vantajosa politicamente:
Dentro da facção, não se acreditava que João Dória, assim como seus antecessores, resolveria arriscar o embate, pois o número de mortos entre os agentes públicos e as ações de terror desgastariam o governo.
O erro de cálculo dos faccionados se deu ao acreditar que o governador estaria preocupado com a vida dos policiais e seus familiares, que ao contrário do salve de 2006, também seriam alvo no Apocalipse, no entanto…
Já se vão mais de cinco anos desde que o Apocalipse foi planejado. O mundo e a facção não são mais os mesmos, contudo, a imagem que a população tem do que é uma facção criminosa pode não ter acompanhado essa evolução.
Se aproveitando da ingenuidade da maioria, políticos e parte da imprensa vendem soluções se coadunam com o imaginário popular, como a política de aprisionamento e a transferência das lideranças criminosas para os presídios federais.
No entanto, hoje, o Primeiro Comando da Capital é uma organização mais horizontal e formada por subgrupos que não terão sua vida alterada pelo envio de Marcola e outros líderes para fora do estado e sua colocação no regime disciplinar diferenciado.
A estrutura da organização criminosa dentro e fora dos presídios continua existindo e me parece natural que haverá uma disputa interna para ocupar o lugar dessas lideranças que conseguimos isolar nos presídios federais. Não tenho nenhuma esperança que o PCC acabou
Lincoln Gakiya para a Revista Isto É
Nesse novo horizonte, o Apocalipse passou a ser apenas uma opção. Se será colocada em marcha ou não, será uma decisão tomada levando em conta os interesses políticos, econômicos e sociais da maioria dos integrantes da facção.
Será que justamente no momento em que se está sendo colocado em pauta uma nova legislação penal seria interessante para o mundo do crime uma onda de atentados?
A mim parece claro. A facção Primeiro Comando da Capital retaliará apesar de não ser a melhor solução técnica, pois assim como João Dória, sabe que deve agir pensando em sua platéia mesmo que seus homens sejam mortos.
A questão não é se, mas sim quando e se estamos preparados para contar os mortos e o prejuízo, mas o importante é que o governador cumpriu sua promessa de campanha.
Esperando uma possível onda de ataques o governo do estado de São Paulo colocou em prontidão 100 mil policiais militares e o governo federal autorizou a utilização da Força Nacional para guardar os presídios federais de: Brasília, Porto Velho (RO) e Mossoró (RN).
Apesar de Marcola e os demais líderes transferidos terem deixado de ser uma peças fundamentais para o bom funcionamento da facção os faccionados podem optar pela retaliação para impedir que outras medidas venham a ser implementadas.
Esperando uma possível onda de ataques o governo de São Paulo colocou em prontidão 100 mil policiais militares e fez operações em 3.300 pontos em todo o estado.
O governo federal autorizou a utilização da Força Nacional para guardar os presídio federal de Brasília e efetivos das forças armadas para guardarem o entorno dos presídios federais de Porto Velho (RO) e Mossoró (RN).
Leia mais detalhes sobre os principais líderes transferidos no G1.
Os especialistas em crimes transnacionais do site InSight Crime, Jeremy McDermott, Mimi Yagoub, Victoria Dittmar e Mike LaSusa, analisaram as principais organizações criminosas que se fortaleceram em 2018 e ranquearam, após investigarem as estratégias e a virulência de sua expansão territorial e econômica durante o ano, sua capacidade de resistir às investidas das forças públicas e sua capacidade de domínio fora de suas fronteiras.
O Primeiro Comando da Capital, segundo esses especialistas é a que melhor resultado teve, ficando à frente do Exército de Libertação Nacional (ELN)da Colômbia e do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) do México. Essa resiliência se deve à adaptação às novas realidades e ao uso racional da força, por isso não houve nenhuma reação imediata à transferência de sua lideranças.
Embora a tendência geral durante a última década na América Latina tenha sido a fragmentação de estruturas criminosas, três grupos quebraram esse paradigma e ganharam grande visibilidade, crescendo em número e influência territorial dentro e fora das fronteiras de seus países.
Enquanto muitos criminosos buscavam agir nas sombras, atuando em operações cada vez mais longes dos olhos do público, esses grupos foram para as ruas e apresentaram-se abertamente como organizações criminosas.
A exposição pública de sua força e marca são o segredo de seu sucesso? Ou será que a atenção que as facções estão atraindo com suas ações resultará na fúria e no poder de repressão das autoridades nacionais e internacionais, motivando sua fragmentação e desaparecimento definitivo?
A gangue prisional mais poderosa do Brasil em 2018, se aproveitou a total falta de vontade política para enfrentá-la:um governo fraco, paralisado e aparentemente corrupto do presidente Michel Temer gastou seu limitado capital político simplesmente agarrando-se ao poder. Foi nesse ambiente que o então candidato Jair Bolsonaro, um extremista em questões de segurança, concorreu e ganhou as eleições para presidente da República de 2018.
O PCC passou vários anos em expansão, mas em 2018 houve uma aceleração de seu crescimento, e sua estrutura estava muito mais coesa do que as estimativas levavam a crer: com operações agressivas no Paraguai e na Bolívia, e tentáculos que alcançam Colômbia, Argentina, Uruguai e Venezuela. A participação da quadrilha no comércio internacional de cocaína também revela uma capacidade de obter maiores lucros e se expandir para fora da América do Sul.
Um dos fatores que teriam influenciado o crescimento acelerado da facção seria a quebra, em 2016, da aliança que havia firmado com o Comando Vermelho (CV). Seu fortalecimento permitiu que a organização carioca fosse enfrentada, e esse enfrentamento não só não a enfraqueceu como levou o PCC ao domínio tanto de fontes primárias quanto de rotas.
Arquivos apreendidos pelas autoridades em 2018 elucidam fontes de renda, táticas de lavagem de dinheiro e aumento de recrutas do PCC. Os documentos indicaram que a receita anual do grupo pode chegar a US $ 200 milhões. De acordo com os arquvios, os membros do PCC pagam uma taxa de afiliação de até R$ 950,00 por mês, que é usada principalmente para manter os membros do grupo que estão na prisão.
A expansão do PCC no exterior tem sido mais evidente no Paraguai. O crescimento nesse país e a vontade do grupo para agir em desafio aberto a qualquer resposta paraguaia ficaram claros após o assalto cinematográfico na sede da Prosegur, uma empresa de carros blindados em Ciudad del Este. Com precisão militar, 60 homens armados explodiram as portas da sede da empresa e pacificamente levaram US$ 11,7 milhões, passaram em carreata atirando para em direção à fronteira e terminaram a fuga em barcos pelo rio Paraná em direção ao Brasil.
Desde então, as raízes do PCC no Paraguai, principal produtor de maconha na América do Sul e paraíso dos contrabandistas, se tornaram arraigadas e disseminadas. Acredita-se que o PCC agora domine a cidade fronteiriça paraguaia de Pedro Juan Caballero, onde exerce o controle total dos negócios de maconha e cocaína que passam por lá.
Todas as organizações criminosas brasileiras querem acesso à farta produção de cocaína colombiana e peruana, tanto para abastecer o mercado interno quanto para baratear o preço de venda e para conseguirem se inserir no comércio internacional de drogas — o que só é possível com o controle de custo, pegando a mercadoria direto do fornecedor externo.
A presença do PCC na zona trilateral, entre o Brasil, a Colômbia e o Peru, outro país produtor de cocaína, intensificou-se nos últimos anos, muitas vezes acompanhada de massacres e extrema violência. A Bolívia não foi isenta de uma dinâmica semelhante, embora em 2018 fosse o Comando Vermelho, mais do que o PCC, que tinha uma presença mais óbvia naquele país .
A Venezuela, com corrupção generalizada e fracasso econômico, tornou-se uma fonte de armas para grupos criminosos, e o PCC procurou estocar armas pesadas para lá.
Embora alguns dos principais líderes do PCC tenham morrido, o grupo conseguiu manter sua direção e controle graças a sua estrutura de atuação, que mais se parece como uma franquia com um conselho de administração do que com uma estrutura verticalmente integrada. Esse conselho de diretores é conhecido como “Sintonia Geral Final”, e é formado por cerca de oito a dez membros, e seriam eles quem tomariam as decisões mais importantes sobre estratégia e diretrizes gerais para as atividades dos membros do PCC.
Ironicamente, a eleição de Bolsonaro pode ser um estímulo para o PCC, sem dúvida, em termos de recrutas, porque estão previstos mais confrontos e prisões de membros, segundo a retórica de campanha do presidente.
Especificamente, o motor de crescimento do PCC são as prisões. As prisões são os lugares onde o PCC ancora sua base e cria sua força e suas bases sociais. Quanto mais a política de aprisionamento for promovida como uma resposta à violência, mais o PCC será fortalecido e expandido. Paradoxalmente, o estado acaba atuando para fornecer mais membros ao PCC.
Camila Nunes Dias
O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 700 mil presos, e segue de perto os Estados Unidos e a China, ambos com populações totais muito maiores. E esse número parece destinado a crescer durante o ano de 2019.
É opinião do InSight Crime que o PCC em breve se tornará uma das estruturas criminais mais importantes do continente americano, juntando-se aos colombianos e aos mexicanos. A expansão futura, especialmente no nível transnacional, dependerá de quanto o PCC está envolvido no negócio da cocaína, aproveitando a posição do Brasil como uma das principais pontes de tráfico da droga para a Europa e além.
“O PCC está no Brasil, Bolívia, Paraguai e está entrando no Uruguai e na Argentina. Eles vão nessa direção. Existe um vácuo e eles vão se expandir e expandir. E dominar “.
Márcio Sérgio Christino
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