Se você mora na cidade de São Paulo, pode sentir o cheiro da morte — houve 42% mais homicídios na capital paulista que no ano anterior.
O secretário de Segurança, Mágino Alves Barbosa Filho, afirma não saber a razão do aumento dos homicídios em maio, acrescentando que foi nesse mês a greve dos caminhoneiros: “mas, sinceramente, não vejo relação”, completa.
O medo é uma importante forma de controle social. A criminalidade de fato existe, então, o “príncipe deve proceder ante seus súditos” com o discurso do herói, condenando migrantes ou miseráveis e impondo punições severas.
O anúncio do aumento de pessoas assassinadas na capital se deu poucos dias após a Promotoria de Justiça afirmar que a desarticulação do PCC 1533 e o fim da pacificação imposta pela facção não teriam efeitos colaterais.
Você, ou alguém que você conhece, já foi ameaçado ou extorquido por um membro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital?
Ambas as possibilidades existem, mas você temerá o grupo que estiver mais distante de seu convívio, aquele sobre o qual você tenha menos conhecimento ou informações, sejam PCCs ou policiais.
Quem mora em alguma quebrada em um bairro afastado, mesmo sendo um honesto trabalhador ou estudante, temerá mais quando cruzar com a polícia durante a madrugada do que quando encontrar um grupo de moleques.
Quem mora em um bairro estruturado ou em um condomínio, mesmo que seja desonesto e viva de mesada dos pais ou de corres, temerá mais quando cruzar com um grupo de moleques do que quando vir uma viatura da polícia.
Zygmunt Bauman
É o lobo! É o lobo!, é a técnica de administração que cria o medo do inimigo para poder oferecer a proteção e a ação do salvador. Porém, às vezes, essa tática não funciona, e as consequências podem ser imprevisíveis.
Ele conta que durante o Grande Medo de 1789, milhares de pessoas, não conseguindo oportunidades de trabalho onde moravam, saíram em busca de emprego nas cidades, trazendo consigo a fome, a miséria e o banditismo.
Temerosa que as turbas atacassem, a sociedade, cujos cidadãos de bem acreditavam estar cumprindo seu dever cívico, exigia que as autoridades reprimissem de maneira exemplar aqueles que não conheciam:
“Um indivíduo suspeito, uma coluna de poeira, menos que isto: um ruído, um vislumbre, uma sombra bastava para persuadi-los […] Assim se desencadeavam os pânicos […], de preferência à noite…” — Georges Lefebvre
.
Consequência: castelos depredados, expansão do banditismo, crise econômica e política, hostilidade entre as camadas sociais — substitua a palavra castelos, usual em 1789, por ônibus, e terá uma descrição clara do que ocorreu este ano.
O medo é algo insano, gerido pela parte mais primitiva de nossa mente, que busca nos manter vivos a qualquer custo, sem frescuras sociológicas ou antropológicas ― e, por isso, não falamos abertamente sobre o que tememos, como explica Roland Barthes
O Príncipe pode então livrá-lo desse medo e libertá-lo para correr atrás de seus desejos e sonhos, mas, para isso, o perigo apresentado deve ser algo que o Príncipe possa enfrentar.
É fundamental para o bem estar social que o medo exista, mas, também, que possa ser controlado pela autoridade do governante, e que essa, por sua vez, possa apresentar publicamente e constantemente resultados favoráveis.
A imprensa mostra diariamente a ação das forças do príncipe e apresenta prisioneiros, ao vivo e em rede nacional. Nem Nicolau Maquiavel previu esse grau de sofisticação para satisfazer nosso desejo primitivo de fugir do perigo.
Economicamente, o medo é um bom negócio. Se não há medo, há quem o crie. Em um ciclo de consumo e produção de consumidores, o medo é materializado para poder ser destruído.
E você nem precisa se preocupar, a maioria dos mortos foram negros e pobres das periferias, logo, nada que realmente incomode.
Você, que nunca cruzou o caminho de um PCC, está agora se sentindo mais seguro, afinal, o Príncipe, por meio de Lincoln Gakiya e seus colegas, afirma que está tudo bem, o Primeiro Comando da Capital está sendo desarticulado.
Você já pode dormir mais tranquilo já que, como pode ser visto pela mídia, os criminosos estão sendo presos. Bem-vindo a um novo momento na história da Segurança Pública em São Paulo, em que o Estado volta a assumir seu papel de guardião da vida dos cidadãos ― por sinal, algo que nunca fez nas periferias e nos bolsões de pobreza do centro.
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