Uma garota me deu muito trabalho. Talvez você conheça Gabriela, mas eu não a conhecia até poucos dias atrás quando trombei com sua monografia Violência se resolve na (bancada da) bala: Percepções sobre a Frente Parlamentar de Segurança Pública apresentada para conclusão do curso de Ciências Sociais da Universidade de Brasília.
O título já mostrava que o texto seria tendencioso, e a primeira coisa que vi ao abrir o arquivo foi o gráfico apresentando o número absoluto de candidatos das forças repressivas a deputado federal no Brasil, elaborado pelo Observatório de elites políticas e sociais do Brasil — era exatamente o que eu queria, em poucas horas teria um texto pronto.
Explico: em ano de eleição, eu coloco minhas barbas de molho. Te conheço, e sei que não é seu caso, mas acredite, existem pessoas que julgam meus textos pela ilustração ou pelo título sem ao menos lê-los —, e a monografia de Gabriela Costa Carvalho, com todos os seus chavões panfletários, ilustraria minha decisão de me incluir fora das discussões políticas.
Gabriela, ao analisar a participação dos 972 policiais e militares que foram candidatos nas eleições para deputado federal entre 1998 e 2015, verificou que quanto maior a sensação de insegurança, maior o número de candidatos das forças de segurança pública. Sendo que o pico de candidaturas ocorreu após a onda de ataques do Primeiro Comando da Capital em 2006.
… as candidaturas estão condicionadas a contextos específicos, especialmente, aqueles que são exaustivamente explorados pela mídia.
E ela prova com números:
Foram eleitos 19 policiais (…). Além do crescimento expressivo no número de deputados federais eleitos frente aos pleitos anteriores, muitos dos parlamentares associados às carreiras policiais ou militares tiveram votações expressivas (…). Dos 19 deputados federais associados às forças de segurança, 5 foram os mais votados…
Segundo a pesquisadora, o sucesso desses candidatos se deu graças às próprias demandas da sociedade brasileira por alternativas repressivas, e faz um retrospecto histórico desde a colonização até a atualidade para encontrar as razões pelas quais preferimos investir na punição e não no aumento dos esforços sociais e preventivos.
Gabriela deixa claro que os policiais candidatos são ligados à direita, mas quem me apresentou números neste sentido foram Maria do Socorro Sousa Braga, Luciana Fernandes Veiga e Angel Miríade no artigo Recrutamento e Perfil dos Candidatos e dos Eleitos à Câmara dos Deputados nas Eleições de 2006:
Candidatos policiais e militares
67% — PFL/PP
10% — PT
23% restantes PMDB/PSDB
que cada um jogue onde quiser
(direita – centro – esquerda)
Maria do Socorro e suas colegas traçam o perfil desse novo indivíduo buscado pelos partidos políticos para compor seu quadro de candidatos: facilidade de falar com o público, imagem já veiculada pela mídia e afinidade com ela, ensino superior, flexibilidade de horários para poder se dedicar a campanha, um certo grau de apelo eleitoral e presença de espírito — enfim, um talking profession.
Os partidos mudaram e os policiais também.
Agora que você já conhece, assim como eu, um pouco sobre Gabriela, vou explicar por que me enganei quando pensei que seria fácil usar a monografia dessa garota para demonstrar que devíamos tentar analisar a questão da segurança pública sem deixar nos levar por nossos conceitos e preconceitos políticos.
Após uma década apostando na polícia cidadã, o PRONASCI apresentou resultados e mudou o perfil do profissional de segurança pública. A consequência disso foi a mudança da forma de relacionamento do policial para com a população, a mídia e os partidos políticos.
Por esse resultado os criadores PRONASCI não esperavam.
O policial semianalfabeto e especializado em bater e matar, graças à filosofia trazida pelo PRONASCI, foi substituído pelo profissional de nível superior, treinado em táticas operacionais e com foco na negociação e convencimento, que com isso acabou ficando mais seguro de si e bom de mídia.
Podemos ficar em dúvida sobre as razões pelas quais os policiais se tornaram candidatos bons de voto, seja por atenderem a ânsia de vingança e imposição de uma política de força, seja pelo aumento de sua capacidade técnica e midiática somada à abertura de vagas para esse tipo de perfil, mas não podemos duvidar dos números apresentados por Gabriela…
As conclusões da pesquisadora se baseiam no aumento da quantidade de candidatos policiais ou militares nos períodos nos quais houve um aumento da sensação de insegurança, mas não apresenta números que comprovem essa afirmação. Existem trabalhos que falam especificamente sobre isso, mas eu fico só com o Google Trends…
Os usuários do Google estavam mais preocupados com sua segurança em 2014 do que nos anos anteriores, mesmo no período após a onda de atentados promovidos pelo PCC em 2006, em que o Estado e as forças policiais foram afrontadas; essa insegurança não foi incorporada pelas pessoas — não discuta comigo, reclame com os usuários do Google.
Mas isso é apenas um detalhe…
Como eu disse, Gabriela me deu muito trabalho, principalmente, porque talvez ela tenha razão, ou não. Esses últimos números tanto derrubariam a sua teoria como também a minha, que foi baseada no que Leôncio, Maria do Socorro e suas colegas me disseram — não sei quanto a você, mas eu acho que vou me juntar às pessoas que julgam os textos pelas ilustrações ou pelo título sem ao menos lê-los — dá muito menos trabalho.
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