COAB Nova Babilônia
COAB Nova Babilônia surge como o palco de um baile funk repleto de contrastes sociais e tensão latente. Há indícios da influência do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) nos olhares silenciosos. Entre a batida ensurdecedora e as histórias tatuadas na pele, sobram mistérios que merecem ser desvendados.
Público-alvo
Este texto é indicado para leitores interessados em crônicas urbanas, estudos sobre criminalidade, sociologia do crime, cultura do baile funk e dinâmicas de poder na periferia. Pesquisadores, estudantes, jornalistas e demais pessoas que buscam refletir sobre a realidade do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) e o papel das mulheres nesse contexto encontrarão aqui material de interesse.
Advertência Importante
Este conteúdo aborda temas como violência, crime organizado e sexualidade em um ambiente marcado pela desigualdade social. Algumas descrições podem ser fortes e podem não ser adequadas para todos os públicos. Leia com discernimento, tendo em mente que se trata de uma narrativa que reflete a crueza da realidade em determinadas periferias urbanas.
Porém Deus disse a Abraão: Não te pareça mal por causa do moço e por causa da tua serva; atende à voz de Sara em tudo o que ela te disser…
Gênesis 21:12 – o poder de vida e morte nas mãos da mulher
COAB Nova Babilônia. A luz dos postes não conseguia atravessar a escuridão. O baile funk da comunidade atraía homens e mulheres de todas as partes da cidade. Os graves sacudiam as paredes de concreto, por vezes derramando o sangue de algum desavisado que ousava ignorar as regras do lugar. Fui arrastado para cá por um amigo, daqueles que sempre sabem onde não se deve estar.
A tensão — ou mesmo um certo tesão — parecia enraizar-se no olhar das mulheres, que oscilavam entre um ar de segurança e a sombra de uma sociedade cada vez mais conservadora, exigindo delas um comportamento recatado, ao mesmo tempo em que valoriza a conquista sexual masculina. São fronteiras obscuras em que um simples esbarrão ou olhar podem significar tanto uma vitória de respeito quanto a morte.
Notei que algumas mulheres ostentavam tatuagens que não apenas indicavam afinidade com o baile funk, mas também sinalizavam uma conexão com o mundo do crime, onde uma tatuagem de uma simples lágrima poderia significar um ente querido preso ou morto — algo previsível, pois aquela comunidade funcionava como uma das principais bases de atuação do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) na região.
Em meio à densa fumaça, quase uma maresia, presenciei conversas em que uma delas parecia ocupar uma posição-chave, demonstrando um tipo de liderança que rompe o estereótipo da mulher como mero objeto de desejo; ainda assim, ela se esforçava para manter as aparências de submissão, preservando a imagem necessária para sobreviver naquele ambiente marcado pela tensão.
Aquele não era um ambiente propício à reflexão, mas sim para se entregar aos excessos da noite. Ainda assim, era impossível ignorar o contraste gritante do baile funk: de um lado, a exposição dos corpos femininos e a celebração do desejo sexual; de outro, a imposição silenciosa do recato e o conservadorismo social.
A tensão era palpável, reforçada pelos roncos ensurdecedores das motos, pelos beats estrondosos do funk, pelas bebidas e pelas drogas, levantando a questão essencial: será que essas mulheres realmente escolhem esse papel ou apenas se adaptam para sobreviver ao universo implacável ao seu redor?
Nem eu, nem ninguém de fora daquele submundo poderia imaginar que, na verdade, participávamos de uma espécie de casamento cerimonial. Ishtar — aquela garota que logo me chamou a atenção — em outros tempos talvez tivesse sido uma “irmã batizada” do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), mas não nessa sociedade.
Apesar de toda a força que emanava de cada poro seu, Ishtar estava ali para selar seu casamento com o homem que, dentro daquela comunidade, ocuparia o lugar do irmão Enlil, líder encarcerado que comandava a COAB Nova Babilônia a partir da prisão federal. Assim, ao unir-se a Ishtar, esse novo “irmão” receberia não apenas a legitimidade de seu nome, mas também o controle das ruas, repetindo um ritual que ecoava mitos antigos em plena periferia urbana do século 21.
O texto “COAB Nova Babilônia: mulheres, baile funk e facção PCC” propõe uma abordagem que mistura observação social, crítica de costumes e elementos de mitologia babilônica para descrever a dinâmica de um baile funk permeado pelo crime organizado. Embora tenha uma proposta intrigante e estilisticamente bem trabalhada, o texto apresenta algumas fragilidades analíticas e narrativas que merecem destaque.
A partir de uma perspectiva antropológica, o texto revela como o baile funk, em sua forma mais crua, funciona como um espaço de sociabilidade e demonstração de poder. Nesse ambiente, percebe-se a negociação constante de papéis sociais, reforçada tanto pelo conservadorismo externo quanto pelas dinâmicas internas das comunidades. Ao apontar o contraste entre a liberdade aparente (corpos expostos, desejo sexual, música alta) e as pressões de recato, o texto apresenta um conflito central: a busca de autonomia das mulheres, simultaneamente contida pelos valores tradicionais e pelo universo de violência que permeia o crime organizado.
A presença do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) em alguns desses espaços ilustra como grupos criminosos constroem identidade coletiva, rituais e hierarquias específicas. As tatuagens descritas não são apenas marcas estéticas, mas também símbolos que expressam laços de pertencimento e narrativas de perda, sobrevivência ou reivindicação de poder. Tal forma de comunicação não verbal é central para a compreensão de como as pessoas negociam respeitabilidade e status na periferia, num ambiente em que a reputação pode significar a diferença entre a vida e a morte.
Sob o ponto de vista do ritual, o “casamento cerimonial” de Ishtar alude à mistura de elementos míticos (babilônicos) com práticas sociais contemporâneas. Para a antropologia, esse tipo de evento demonstra como antigos arquétipos de poder são ressignificados em contextos periféricos e urbanos, reforçando o poder simbólico tanto dos homens quanto das mulheres inseridos no crime. Ishtar, embora situada em posição de subordinação aparente, encarna o papel de mediadora do poder, pois seu enlace transfere legitimidade ao futuro líder. Assim, a cerimônia sustenta a ordem interna do grupo, enquanto projeta para o exterior uma imagem de unidade e continuidade.
Por fim, o texto também traz uma reflexão sobre a dualidade das mulheres nessas localidades: se por um lado muitas exibem força, liderança e desejo de autonomia, por outro convivem com estruturas de controle — seja o conservadorismo silencioso da sociedade, seja o código de conduta muitas vezes rígido do crime organizado. Dessa forma, a narrativa retrata de modo contundente como a mulher, nesse recorte cultural, permanece no limiar entre a resistência e a adaptação, utilizando-se de estratégias simbólicas e comportamentais para sobreviver em um espaço permeado por tensões e contradições.
Sob a ótica da Psicologia Criminal, o texto ilustra a influência do ambiente e das relações de poder na formação das atitudes e comportamentos de seus participantes. O baile funk descrito, embora pareça um espaço de descontração, revela-se como um palco de tensões constantes, no qual indivíduos internalizam e reproduzem códigos de conduta bastante rígidos. A lógica de subordinação e hierarquias criminosas, especialmente ligada ao Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533), promove sentimentos de pertença e segurança, mas também de medo e vulnerabilidade, levando homens e mulheres a assumirem papéis que equilibram a necessidade de aceitação com a preservação de suas próprias vidas.
No caso das mulheres, destaca-se a dualidade psicológica entre o desejo de poder e o cumprimento de normas conservadoras. Mesmo assumindo funções estratégicas e demonstrando liderança, elas se veem obrigadas a reforçar uma imagem de submissão, possivelmente para garantir a própria proteção. Esse paradoxo cria um estado de alerta contínuo, no qual a tensão entre impulsos pessoais (afirmação de identidade, busca por liberdade) e imposições externas (normas de recato, lealdade à facção) desencadeia conflitos internos. A sensação de “não pertencer totalmente” a nenhum dos dois universos — nem ao da sociedade convencional, nem ao das regras criminais — pode gerar forte estresse emocional, bem como estratégias de adaptação que beiram a dissonância cognitiva.
A cerimônia de casamento descrita no texto expõe ainda outro aspecto relevante para a Psicologia Criminal: o uso de rituais como forma de legitimar vínculos e conferir estabilidade ao grupo, mesmo em condições de constante perigo. A personagem de Ishtar, embora apresente sinais de autonomia e força, acaba integrando um pacto que a reposiciona na teia de poder da facção. Do ponto de vista psicológico, esses rituais fortalecem a coesão interna, reforçam a identificação com o grupo e estabelecem fronteiras claras entre “nós” e “eles”. Nessa lógica, a manutenção do status quo depende do cumprimento de papéis pré-definidos, o que muitas vezes impede qualquer questionamento direto ou ruptura das normas estabelecidas.
Assim, a análise do comportamento criminal descrito no texto evidencia como as características situacionais (ambiente hostil, presença de violência, regras sociais e criminosas) influenciam a psique de cada indivíduo, sobretudo das mulheres que ali convivem. Entre a necessidade de sobrevivência e o desejo de empoderamento, elas tateiam limites fluidos que podem oscilar entre a integridade física e emocional. Em última instância, a submissão aparente ou real não significa fraqueza; ao contrário, pode ser interpretada como estratégia de autoproteção que, no contexto de um grupo criminoso tão hierarquizado e perigoso, mostra-se essencial para garantir a própria vida.
Sob a ótica psicológica, cada personagem revela motivações e estratégias de adaptação moldadas pelo contexto em que vivem:
O observador (“eu” que narra):
Ele aparenta fascínio e estranhamento diante do baile funk e das dinâmicas criminosas, refletindo uma inquietude que o mantém em estado de alerta. Apesar de não pertencer integralmente a esse universo, mostra curiosidade e um certo distanciamento reflexivo, mas ainda assim sente-se atraído pela atmosfera de tensão e perigo. Sua presença indica alguém que, por necessidade de sobrevivência ou fascínio, tenta se integrar sem violar regras invisíveis.
O amigo que o levou ao baile:
Pouco se sabe sobre ele, mas sua atitude de “saber onde não se deve estar” sugere familiaridade com ambientes de risco. Possivelmente, ele busca algum tipo de validação ou excitação nesses espaços, sendo movido por uma combinação de adrenalina e conhecimento das regras sociais dali. É um “guia” que rompe com o cotidiano, expondo o narrador a uma realidade subterrânea.
As mulheres do baile funk:
Elas vivenciam um paradoxo interno: ao mesmo tempo em que exibem poder (através de tatuagens simbólicas, liderança em negociações, demonstração de confiança), também precisam se encaixar em padrões de submissão, refletindo um conflito entre a busca de autonomia e a conformidade forçada pela hierarquia do crime e pelos valores conservadores da sociedade. Esse embate gera uma tensão psíquica que se manifesta em seus olhares atentos e na hesitação entre demonstrar liderança ou recato. Para muitas, a aparente “submissão” pode ser, na verdade, uma estratégia de sobrevivência em um ambiente hostil.
Ishtar:
Personifica o papel de uma mulher que, embora apresente traços de força e protagonismo, encontra-se inserida em uma estrutura de poder que a subordina a pactos e rituais coletivos. Ela exibe firmeza (aliada a um possível orgulho pessoal) ao participar de negociações e assumir posição de destaque, mas o casamento cerimonial revela a pressão para que sua própria identidade seja usada como moeda de troca ou símbolo de legitimidade para o novo “irmão”. Psicologicamente, Ishtar transita entre a autoafirmação e a aceitação de um destino que atende às necessidades do grupo — um dilema que pode gerar tanto sensação de poder quanto frustração íntima.
Enlil (líder encarcerado):
Embora não apareça ativamente, sua influência psicológica paira sobre todos. Ele representa a figura de autoridade máxima, capaz de ditar regras e conduzir alianças mesmo à distância. Para os personagens, especialmente para Ishtar, a presença ausente de Enlil condiciona comportamentos e decisões. O fato de ele ainda manter o poder sugere um domínio simbólico que extrapola as grades físicas, influenciando o “casamento cerimonial” e as hierarquias locais.
No conjunto, a psique dos personagens é marcada pelo jogo entre desejo de liberdade e necessidade de obediência a regras específicas (do crime, do conservadorismo social), resultando em constantes negociações internas. A dança, a violência e o erotismo presentes no baile funk intensificam esses conflitos, fazendo com que cada decisão tomada — seja um olhar, uma tatuagem ou uma aliança matrimonial — carregue um peso emocional e social, capaz de redefinir a trajetória de cada um em um ambiente onde o perigo e a busca por respeito são onipresentes.
Em síntese, o texto combina indícios de situações potencialmente reais (baile funk, tatoos como códigos simbólicos, liderança carcerária) com elementos possivelmente fictícios ou não confirmados (casamento cerimonial, hierarquia exata do PCC na “COAB Nova Babilônia”). Logo, do ponto de vista factual, há limitações de verificação, pois faltam registros ou referências que corroborem objetivamente as descrições apresentadas.
A Teoria da Associação Diferencial, proposta por Edwin Sutherland, sugere que comportamentos criminosos são aprendidos por meio da interação e comunicação em pequenos grupos ou redes de relacionamento. Aplicando essa perspectiva ao texto de “COAB Nova Babilônia”, podemos destacar alguns pontos:
Em suma, ao analisar o texto com base na Teoria da Associação Diferencial, percebe-se que os personagens e o ambiente descritos — sobretudo o baile funk no qual se imiscuem elementos de violência, sexualidade e adesão ao crime organizado — funcionam como espaços de socialização onde as normas e valores favoráveis ao comportamento desviado são ensinados, internalizados e perpetuados.
A análise sob o ponto de vista da linguagem revela um texto que mescla recursos literários e jornalísticos, empregando construções dramáticas para retratar um ambiente tenso e violento. Alguns aspectos merecem destaque:
Em síntese, o texto emprega uma linguagem que enfatiza o contraste (luz e sombra, recato e erotismo, conservadorismo e libertinagem), utiliza descrições sensoriais ricas e recorre a figuras míticas para potencializar o efeito narrativo. O resultado é um discurso híbrido, oscilando entre o tom jornalístico (informando sobre a presença do PCC e os códigos do crime) e o tom literário (construindo imagens fortes e tensão dramática), o que prende a atenção do leitor e confere profundidade à experiência descrita.
Ao comparar “COAB Nova Babilônia: mulheres, baile funk e facção PCC” com outros textos que abordam universos criminais em periferias brasileiras e enfatizam a presença de facções, alguns pontos de convergência e divergência se destacam:
Conclusão
Em resumo, “COAB Nova Babilônia” dialoga com outros textos sobre crime organizado e periferias pela ambientação violenta e pela análise das relações de poder. O que o singulariza, porém, é o foco na mulher, a combinação de referências míticas com a realidade do baile funk e do PCC, e a ênfase num tom literário que realça o contraste entre erotismo, religiosidade implícita e violência cotidiana. Isso o aproxima do jornalismo literário e, ao mesmo tempo, o diferencia de obras mais factuais e de realismo estrito, pois adota uma atmosfera mais simbólica e dramatizada.
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