CV, FDN e CRBC — táticas de guerrilha em São Paulo

O governo estará ocultando ataques de grupos rivais a poderosa organização criminosa Primeiro Comando da Capital dentro do estado de São Paulo?

A imprensa tem esse poder, mas o quanto você acha que eu, você, a imprensa ou o governo tem direito de esconder a verdade, mesmo que ela possa causar a morte ou salvar a sua vida ou a de outras pessoas? A decisão de esconder que a guerra entre facções chegou a São Paulo nada mais é que isso aí.

No fim do ano passado, coloquei em destaque um alerta passado pelo Primeiro Comando da Capital para que todos os seus membros ficassem preparados para a virada — era de conhecimento público que a Família do Norte e o Comando Vermelho haviam planejado ataques ao PCC em seu território, mas havia algo mais na mensagem da facção.

Naquele momento, ao analisar as mensagens, acreditei que eles não estavam apenas alertando os faccionados do norte e nordeste, mas que o salve seria nacional, inclusive para o estado de São Paulo — não consegui acreditar, me senti um americano no 11 de Setembro vendo um grupo rebelde atacar a maior potência militar do mundo.

Logo no primeiro dia do ano recebi as primeiras mensagens narrando as atrocidades que estavam sendo cometidas, principalmente contra os garotos da facção aliada, Guardiões do Estado, GDE 745; dezenas tiveram seus dedos cortados, mas o que mais me assombrou foram as mutilações dentro do estado de São Paulo: mãos cortadas.

A guerra chegou a São Paulo.

A princípio achei que seria apenas o Comando Revolucionário Brasileiro do Crime (CRBC) buscando retomar áreas, mas as informações chegavam indicando que era uma ação conjunta entre o Comando Vermelho (CV) e a Família do Norte (FDN), que teriam enviado células para atacar, sem informação se os alvos seriam aleatórios ou pré-definidos, com método de guerrilha: chegariam à cidade, atacariam e seguiriam para a próxima.

Se o CRBC estaria atuando em conjunto ou apenas aproveitando o momento, ainda é um mistério.

O que se viu no entanto foi uma operação bem planejada dos CVs e FDNs — os primeiros dias de ataque fizeram os números de whatsapp da facção fervilhar de alertas, levando o terror para as quebradas, para que só então, em alguns pontos, principalmente da região metropolitana, a manobra de tomada de alguma cabeça-de-ponte começasse.

A caça às bruxas começou. Todos os que foram ou vieram da região norte ou nordeste e podem ter alguma ligação com o crime, até mesmo aqueles que já estão morando há décadas em território paulista, podem ser vistos como possíveis infiltrados. Tudo indica que 2018, assim como foram os anos de 1992 e 2006, será fundamental para o futuro da Família 1533.

Se você é do mundo do crime, sabe de tudo isso; se for das forças policiais talvez, mas essa informação quase não chegou à população. O silêncio foi quebrado pela primeira vez pela repórter Tânia Campelo, do site de notícias Meon do Vale do Paraíba, no artigo Homicídios em São José podem ter relação com briga entre facções.

Nele, pela primeira vez é noticiada a ação das facções do norte, e é descrito o ataque de guerrilha de forma bastante clara. A repórter questionou o delegado Célio José da Silva, responsável pelo caso que lhe respondeu que “isso não existe” — dias depois algumas coisas que não existiam foram capturadas e mortas pela facção PCC 1533 em Guarulhos.

Podemos afirmar então que ou as autoridades policiais ainda não sabiam o que estava acontecendo dentro do estado, ou não quiseram admitir, repetindo o que aconteceu em 1995, quando a Secretaria de Segurança Pública afirmou que a imprensa estaria “vendo fantasmas” ao dizer que existia uma facção criminosa chamada PCC em São Paulo.

O assunto voltou com a matéria de Ivan Longo da Revista FórumPeriferias de São Paulo vivem nova onda de terror com guerra entre facções, mas coube ao repórter Lucas Simões do pouco conhecido site O Beltrano trazer um artigo repleto de fatos reais e, por incrível que possa parecer, inéditos: Estoura guerra de facções em SP.

Dizem que as bruxas não existem, mas devemos acreditar nelas. Como a história provou, não acreditar em fantasmas não os fizeram desaparecer ou ficarem menos perigosos. Até quando as autoridades e a imprensa continuarão plagiando o querido Padre Quevedo? “Isso non ecziste”.

Comando Vermelho capturado em São Paulo

Vídeo com coisas que non eczistem capturados pelos PCCs na capital  paulista — note que enquanto nega ser CV, o primeiro deles faz o símbolo da facção com a mão. 

Lucas Simões nos deixa a dúvida: será que a imprensa tem esse direito? O quanto você acha que eu, você, a imprensa ou o governo temos o direito de esconder a verdade, mesmo que ela possa causar a morte ou salvar a sua vida ou a de outras pessoas? A decisão de esconder que a guerra entre facções chegou a São Paulo nada mais é que isso aí.

Nos últimos dias, alguns garotos que vendem umas paradinhas, para sustentar seu vício e ganhar uns trocos, morreram ou tiveram as mãos ou os dedos cortados, agora faltam os policiais, a dona Luíza, eu e você — quando você vai começar a se interessar pelo assunto?

Três mortos em São José do Rio Preto PCC vs CRVC

Um setor de Inteligência da SSPDS considera que as tentativas de negar o avanço do crime organizado no Ceará só deram tempo e espaço para as facções se fortalecerem. — reportagem de Márcia Feitosa para o Diário do Nordeste: Crime organizado: um problema nacional que aflige o Ceará.

Ataques em 2006 do PCC pouparam 25.000 vidas

O número de pessoas mortas no estado de São Paulo comparado com outros índices brasileiros e os principais fatos políticos que possam ter influenciado o índice.

Violência e polícia: três décadas de políticas de segurança no Rio de Janeiro é o título de um estudo publicado pela socióloga Silvia Ramos, no qual é discutida a política de polícia pacificadora e a falta de continuidade nas políticas de segurança pública — e olha que quando ela escreveu esse trabalho a casa ainda estava apenas começando a ruir.

A pesquisadora elaborou um gráfico comparativo no qual coloca os índices do estado do Rio de Janeiro e o nacional — eu gostei da ideia, e acrescentei os dados do estado de São Paulo. Para ficar ainda mais interessante, incluí números mais antigos, do final do Regime Militar, e só não fui mais atrás pois os dados não seguiam os mesmos parâmetros.

Assim, eu não me preocupo se você é de direita, de esquerda, ou fica no meinho. Você mesmo pode chegar a suas próprias conclusões: se a vida era menos violenta nos tempos do “Rota na Rua” e “bandido bom é bandido morto”, ou agora com maior controle sobre as corporações policiais.

Concomitante ao índice histórico e político, marquei fatos importantes que tiveram influência direta na questão da mortandade: a aprovação da Constituição Cidadã de 1988, a Lei do Desarmamento, a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e os Ataques do PCC em 2006.

Assim, eu não me preocupo se você é de direita, de esquerda, ou fica no meinho. Você mesmo pode chegar a suas próprias conclusões: se a vida era menos violenta nos tempos da Constituição outorgada pelos militares em 1969, ou agora com a Constituição promulgada pela Constituinte.

Se você defende ou critica o ECA e a Lei de Desarmamento, pode ver através dos números se o que você acha se reflete na realidade. “Contra fatos não há argumentos”, então você poderá:

  • reafirmar seu ponto de vista, agora com convicção empírica;
  • mudar de posição (duvido); o
  • reafirmar seu ponto de vista baseado no achômetro, apoiado em um conceito especulativo, com sólido argumento teórico.
  • Uma política de Segurança Pública baseada em achômetros leva à morte de policiais e guardas civis e militares. Silvia Ramos e eu acreditamos que por vezes as políticas internas dos governadores têm mais influência que as grandes questões nacionais. Ela cita como exemplo o caso das UPPs no Rio de Janeiro — queda de 26,5% na taxa de homicídios.

Só que, analisando com cuidado os dados, vemos que a taxa já caía 3,25% ao ano no período anterior aos UPPs (2002 a 2007). Com o desenrolar do projeto (2008 e 2009) houve, de imediato, uma redução de 6,1%, e um decréscimo anual de 1,45% até 2012, quando começou seu processo de entropia devido a corrupção e descontinuidade.

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2021 nos países com maior influência da facção Primeiro Comando da Capital:

Índice de Capacidade de Combate à Corrupção na Tríplice Fronteira

Silvia Ramos e eu acreditamos que a personalidade do governador influencia de maneira direta o número de pessoas assassinadas, mas os dados de São Paulo não concordam conosco, pois o linha dura Paulo Maluf, e seu sucessor, o humanista Franco Montoro, tiveram um número crescente das taxas de homicídios em seus respectivos governos.

Na sequência os governadores paulistas foram pró uso da força (Orestes Quércia e Fleury Filho) e mantiveram a taxa estável, e foram sucedidos pelo humanista Mário Covas que viu os índices de homicídio explodirem. Seu sucessor José Serra, com uma política técnica, manteve o índice sobe controle, e Geraldo Alckmin, também com uma visão técnica, derrubou o índice, que se mantém estável por quase uma década, e agora chega no seu menor índice desde 2001.

Cheguei ao trabalho de Silvia Ramos por ela ter afirmado que:

“Entre 2009 e 2012, Antonio Ferreira Pinto, (…) colocou a Rota na linha de frente da repressão ao PCC (Primeiro Comando da Capital). Em 2012, a estratégia deu início a uma guerra na qual o crime organizado matou pelo menos 26 PMs na Grande SP, enquanto a ação de policiais fardados e de grupos de extermínio provocou centenas de mortes na periferia. Num único mês (maio de 2013) da gestão do novo secretário de Segurança, Fernando Grella, as mortes por intervenção policial caíram 84% na capital (…)”

Contrapondo-se a lógica, o índice de mortalidade não se alterou com a colocação ou com a retirada da “Rota na Rua” no período entre 2009 a 2012, mas após os ataques do PCC em 2006 e a reação virulenta das forças policiais, houve uma na redução da taxa de homicídios — o estado de São Paulo foi o principal alvo da ação do PCC em 2006.

Seja lá como for, independente de sua linha de raciocínio, convido a conhecer o trabalho The “São Paulo Mistery”: The role of the criminal organizationn PCC in reducing the homicide in 2000s, dos professores Marcelo Justus, Daniel Cerqueira, Tulio Kahn, e Gustavo C. Moreira, que analisam por um ponto de vista diferente do meu a redução dos homicídios no início desse século.

Eu, no entanto posso continuar afirmando que o PCC, com os ataques em 2006, trouxe um grande ganho para a população, pois deixaram de ser mortas nos anos seguinte 2.500 pessoas a menos. Estou analisando os números, sem levar em consideração as opiniões pessoais ou o drama pessoal das vítimas daquele reich — favor não vir com mimimis politicamente corretos.

As causas prováveis da queda das taxas de homicídio após 2006:

  • Controle maior da Facção sobre seus comandados;
  • alteração da política de Segurança Pública do estado; e
  • fim da guerra entre agentes de segurança e facções criminosas.

As mortes despencaram em São Paulo, enquanto o número de prisões cresceu vertiginosamente, demonstrando uma maior profissionalização da ação policial. O Brasil (25.2) ocupa hoje o 7º lugar no ranking latino-americano de assassinatos, enquanto São Paulo (8,28) está mais pacificado que o Uruguai (8,42).

Entre os estados da União é o que possui a menor taxa de fatalidades:

“Como resultado das políticas de segurança pública desenvolvidas pelo governo, o Estado teve, nos últimos 12 meses, as duas menores taxas de homicídios dolosos da série histórica, iniciada em 2001. Foram 7,77 casos e 8,28 vítimas para cada 100.000 habitantes.”


Secretaria de Segurança Pública de São Paulo em outubro de 2017 para a UOL Notícias