O PCC, a pacificação e a eleição de 2018

A estratégia do Primeiro Comando da Capital (facção PCC 1533) para as eleições de 2018 – o preço da pacificação.

PCC 1533 e a pacificação do estado de São Paulo PAX ROMANUM

A organização criminosa agirá nas eleições?

Há uma semana nada publico; não foi por desleixo, mas pela dúvida: será que eu poderia contar a você sobre a estratégia do Primeiro Comando da Capital para as eleições de 2018?

Você que já me conhece sabe que prefiro não me arriscar, ainda mais quando a vida de dezenas – senão de centenas – de pessoas estão em risco, mas Melina me convenceu a quebrar o silêncio.

Para você que não a conhece, eu a apresento: Melina Ingrid Risso é autora do trabalho Da prevenção à incriminação: os múltiplos sentidos da abordagem policial apresentado à EAESP-FGV.

Para relaxar depois de cumprir com minhas obrigações, dei uma lida no texto de Melina e garanto a você que valeu a pena. Ela apresenta e analisa a abordagem policial com dados inéditos, entrevistas e pesquisa de campo, e só então coloca em discussão a política de Segurança Pública e sua relação com a comunidade.

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Conhecer o perigo pode poupar vidas

Você sabia que são feitas mais de 14 milhões de abordagens policiais por ano? Pois é, mas o trecho que me convenceu a apresentar a você a possível estratégia de ataque da facção paulista foi outro:

“O ‘Salve Geral’ dado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) em Maio de 2006, isso é, a ordem para que policiais fossem assassinatos […] 23 policiais militares, 8 policiais civis, 8 agentes penitenciários, 3 guardas civis municipais e 1 bombeiro, além de 2 familiares de policiais – a noiva de um policial civil e o filho de outro […] a cúpula do governo sabia que o PCC havia dado o ‘Salve Geral’ mas optou por não alertar os policiais.”

As escaramuças de maio de 2006 deixaram um saldo de mais de 600 mortos, vidas que talvez tivessem sido poupadas se as forças policiais fossem alertadas a tempo.

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Aprendendo com o passado

Eu não sei onde você estava no dia 11 de Dezembro de 1989, mas sei que o empresário Abílio Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, foi sequestrado em São Paulo nesse dia.

Eu não estava envolvido naquele sequestro, e pelo que me lembre, você também não, mas o que eu sei com certeza é que em 2018, assim como 1989, há uma eleição presidencial e que o sequestro de Abílio Diniz foi a pedra que fez Lula tropeçar e não ser eleito naquele ano.

Apenas alguns homens e o boato que estariam ligados ao partido de Lula fizeram com que ele tivesse que esperar a próxima eleição para poder ser eleito.

O estado de São Paulo, hoje, apresenta o menor número de homicídios de sua história recente graças à pacificação imposta pelo PCC.

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Os Catorze do PCC decidirão a eleição

Você, eu e os Catorze sabemos disso, mas são esses últimos que decidem dentro do Primeiro Comando da Capital até quando a pacificação do estado de São Paulo se manterá – e a que preço.

Márcio Sérgio Christino e a antropóloga Karina Biondi que me perdoem, mas não é possível entender a facção criminosa PCC estudando seus livros – a gangue evolui em nossa sociedade com a eficácia de um vírus, e enquanto se desenvolve uma vacina o imbróglio já evoluiu.

Ao contrário do ocorrido em 1989, hoje a facção entende que o termo comando da capital que traz em seu nome não é apenas um grito de guerra, mas uma realidade indubitável. O PCC 1533 decidirá se Geraldo Alckmin e João Dória Júnior serão ou não eleitos – e a que preço.

Não se iluda com os discursos da direita ou da esquerda que alegam que a negociação do PCC é com o PSDB: as melhores ofertas são daqueles que querem chegar ao poder derrubando o acordo tácito que atualmente mantém a pacificação – e ofertas não faltam.

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A demonstração de poder será pontual

Quanto custaria e quanto valeria para um partido político comprar a instabilidade de São Paulo, mesmo que o preço fosse a morte de policiais e civis? Bem pouco para quem almeja conquistar os governos Federal e estaduais.

Ao contrário de 2006, a cúpula da Polícia não terá a oportunidade de omitir a informação da tropa, pois a facção recrutou voluntários entre criminosos sem ligação com a organização criminosa, cada um tendo se comprometido a matar cinco policiais, e não haverá um Salve Geral antecedendo o ataque.

A evolução dos métodos operacionais dentro da organização criminosa sempre me surpreendem, e desta feita o mecanismo de detonação não poderá ser rastreado: o irmão responsável pela ação irá ao local onde o ataque será ordenado e coordenará os voluntários que já têm seus alvos escolhidos por eles mesmos – não há listas, cada célula escolhe sua missão para cumprir a meta.

Sem aviso e sem rastros

Não pense que será feita alguma ameaça. Uma ação como essa, para ser efetiva, deve excluir qualquer chance de risco para a facção e para os políticos envolvidos na negociação, e, portanto, virá mascarada como vingança contra um ato de abuso de força policial que venha a acontecer, o que não é difícil.

Um incidente que em outra situação não teria relevância servirá para justificar perante a sociedade a realização do ataque, mantendo as verdadeiras razões ocultas e restringindo a zona de vingança por parte dos agentes policiais.

Esse texto foi baseado no conto O barril de Amontillado, de Edgar Allan Poe.

Marielle Franco, o PCC e a linguagem jornalística

A importância histórica do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) é inegável, mudou nosso comportamento em todas as áreas de nossa vida. Até as notícias que você lê só são escritas hoje, da forma que são, por conta da facção PCC.

A morte de Marielle Franco avançando para trás.jpg

A morte da ativista como fenômeno social

Me surpreende a violência que vive dentro de cada um de nós, parece filme de terror, e a morte da ativista Marielle Franco  trouxe à tona o que temos de pior; mas esse artigo não pretende defender ou condenar a ativista morta ou aqueles que a acusaram.

Raíssa Benevides Veloso e Francisco Paulo Jamil Marques me chamaram a atenção para a situação no seu artigo “O Papel das Fontes Oficiais na Cobertura sobre Segurança Pública — um estudo do jornal O Povo entre 2011 e 2013”.

Inicialmente, só ia aproveitar um fato lembrado nesse artigo produzido para a Universidade Federal do Paraná UFPR: 125 depois de sua fundação, o Jornal do Brasil criou em 2006 uma editoria específica sobre Segurança Pública por conta dos ataques do PCC.

Mas os pesquisadores em Comunicação Política da UFPR apresentaram uma análise histórica de nossa percepção da violência e dos caminhos que levaram o jornal a abandonar o conceito de “páginas policiais”, e essa mudança foi fruto de um fenômeno social nacional: o PCC.

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Os atentados do PCC de 2006 como fenômeno social

Para muitos de nós, uma morte é uma morte e ponto final. Os críticos de Marielle Franco reclamaram nas redes sociais que a imprensa e grupos de direitos humanos deram demasiada atenção para essa morte em detrimento das outras tantas diárias.

Para muitos de nós, crime é crime e ponto final. Até o fenômeno dos ataques do PCC em maio de 2006, as ações dos criminosos no controle das áreas periféricas e dentro dos presídios eram percebidas como problemas pontuais de polícia.

Mas para alguns de nós a coisa não é bem assim. Deve ser contextualizada e entendida, caso por caso, morte por morte, crime por crime, cada um com seu peso e sua medida, e os pesquisadores Raíssa e Francisco fizeram essa contextualização.

Para isso, utilizaram a ação do Jornal do Brasil, para demonstrar que algumas mortes e alguns crimes são reflexo de uma mudança que já estava em curso dentro da sociedade e, nesse caso, o crime deixava se ser um fato típico.

Com absoluta certeza, os líderes do PCC ao ordenarem os ataques, jamais imaginariam que com essa atitude estariam não apenas jogando uma pá de cal nas editorias policiais como estariam traçando um marco, assim como o grupo que matou a ativista.

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A Segurança Pública analisada como fenômeno Social

A imprensa passou a refletir cada vez mais os anseios de justiça social por parte do cidadão comum, e assim os jornalistas de segurança pública passaram a ter que levar em consideração temas paralelos, como as condições sociais, econômicas e políticas.

Exemplifico com reportagem da prisão de Welinton Xavier dos Santos, o Capuava, um dos líderes do PCC, na qual o repórter Marco Antônio de Carvalho, do Estadão, produziu um texto policial informativo, mas fazendo uma crítica social contra a corrupção no judiciário.

Mas ainda é pouco…

… como ficou claro para mim ao analisar os números do Google Trends para 2017 em relação a facção PCC e verificar que o UOL Notícias foi o veículo mais buscado pelos usuários do site de buscas, e não as tradicionais mídias ou policialescas…

Os repórteres do UOL Notícias fizeram a diferença pela forma como transmitiram as notícias — podia-se perceber as pessoas, sentir suas emoções, entender o fenômeno social que representavam, e tudo isso sem deixar de apresentar os fatos.

Onde citei nesse site sobre o Google Trends → ۞

A imprensa analisando o fenômeno social

A facção criminosa Primeiro Comando da Capital e a morte da ativista Marielle Franco tiveram o poder de mostrar o melhor e o pior de cada um de nós, forçando os governos e a sociedade a abrirem os olhos para aquilo que por muito tempo esteve escondido.

As políticas de Segurança Pública entraram na agenda do dia visto sob outra perspectiva, mesmo para aqueles que preferem manter sua opinião de que no tempo da Rota na Rua e do Regime Militar os números da violência eram menores do que os de hoje, apesar dos fatos…

… mas os fatos são entendidos de formas diferentes por cada um de nós. O gráfico Taxas de Homicídio de 1980 a 2016 (comparativo: Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro) serve como argumento tanto para os adeptos da direita quanto os da esquerda — vai do gosto.

Gráfico Comparativo de Homicídios 1980 a 2016

Nas décadas de 1970 e 1980, os jornais Espreme e sai sangue eram as grandes sensações, e aqueles que, assim como eu, viveram naquele tempo, ouviram em casa que não se podia mais sair nas ruas, que as pessoas ficavam presas em casa e os ladrões livres.

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Tudo mudou para nada mudar

Se Marielle Franco era uma voz a ser ouvida ou criticada, eu não sei — ela foi calada sob os aplausos de parte da sociedade e repúdio de outra parcela — o que sei é que essa morte permitiu que, afinal, sua voz fosse ouvida com a cobertura da imprensa que ela não tinha.

Se os presos que protestavam contra as desumanas condições do sistema carcerário tinham razão em suas reivindicações, eu não sei — eles foram calados na chacina do Carandiru, sob os aplausos de parte da sociedade e repúdio de outra parcela —, o que sei é que essas mortes abriram caminho para o surgimento do PCC, e essas vozes, afinal, conseguiram a cobertura da imprensa que elas não tinham.

Raíssa e Francisco da UFPR, analisando o conteúdo dos jornais, afirmam que estes mostram o ponto de vista dos governos, isso porque boa parte dos textos é reservado às autoridades de forma exclusiva, reprimindo, assim, as demandas sociais até a ruptura.

As vozes dos fenômenos sociais que discordam são mostradas pontualmente e servem para legitimar o discurso oficial. Com isso a morte de Marielle e dos que estão nas periferias ou prisões servem para ressaltar a importância de mais segurança pública com seus…

“… programas direcionados ao policiamento ostensivo, deixando de lado questões paralelas, como sistema penitenciário e a necessidade de avanços na investigação e na legislação.”

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Sangue novo alimenta fascistas e comunistas

Fiquei surpreso ao ver desnudada a violência que vive dentro de cada um de nós, com as reações públicas de alguns grupos sobre o atentado que vitimou Marielle Franco, mais me abismei ao ler a crônica da semana de João Pereira Coutinho, Mãe Rússia.

“Na minha inocência, pensava que os brasileiros nostálgicos [da ditadura militar] eram gente de 70 ou 80 anos. (…) Que nada, (…) são gente que nunca viveu no regime militar. Os nostálgicos sentem nostalgia por algo que nunca conheceram.”

Um cronista do outro lado do oceano teve que vir me explicar as razões pelas quais, apesar de tudo que fizemos, não mudamos:

“… o entusiasmo pela extrema esquerda e pela extrema direita é coisa de jovens. Não apenas porque os jovens são mais impulsivos e ignorantes em assuntos políticos — porque as memórias do comunismo e do fascismo são inexistentes para eles.”

E são esses que exigem mais ou menos segurança com repressão ou trabalhos sociais de acordo com o lado que estão — enquanto o sangue corre, pois a realidade não se preocupa com o ponto de vista e as convicções ideológicas dos jovens impulsivos ou não.

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Como o PCC chegou a outros países sul-americanos

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e sua estratégia de expansão e domínio do mercado transnacional de ilícitos (MTI) na América Latina baseiam-se no uso de mão de obra do sistema prisional.

 

A nistória se repete Centro de Rehabilitacion Santa Cruz Palmasola.jpg

Sem estresse, os negócios vão bem, obrigado.

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continua crescendo, com seus executivos desenvolvendo estratégias e conquistando novos mercados e seus funcionários seguindo motivados em todas as filiais em todos os estados e países.

Quem nos garante isso são os pesquisadores Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing no trabalho “Legitimacy in Criminal Governance: Managing a Drug Empire from Behind Bars”, o qual deverei apresentar aqui em breve.

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Crimes transnacionais nos dias de hoje

Hoje, estou aqui para apresentar o livro Subsistemas fronteiriços do Brasil: mercados ilegais e violência (FLACSO), da pesquisadora Letícia Nuñez Almeida e colegas.

Não há como se estudar os crimes transnacionais do Cone Sul sem entender a facção paulista Primeiro Comando da Capital, e Letícia não se faz de rogada, analisando profundamente a origem e a história da gangue nascida em São Paulo.

As origens do PCC definiram seu presente

Fomos você e eu quem definimos a forma como as drogas e armas seriam hoje transportadas do exterior para dentro de nosso território, você se lembra?

Letícia deixa que Camila Caldeira Nunes Dias conte como a semente foi plantada no final de 1993, quando na Casa de Custódia de Taubaté (o Piranhão) os presos se reuniram para protestar contra a crueldade exercida pelos agentes penitenciários.

Talvez você, assim como eu, se lembre que nós entendíamos que preso tinha mesmo é que sofrer, e prisão deveria ter as piores condições de vida; mas, pensando assim, colocávamos no governo pessoas que também professavam as mesmas convicções.

A queda de braço entre governo e presos foi sangrenta, e forjou o espírito dos homens que tomariam em suas mãos, no futuro, o controle do tráfico internacional de drogas e armas — o embrião do PCC foram aqueles prisioneiros.

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O crescimento acalentado pelo povo brasileiro

Camila conta que nos anos de 1994 e 1995 a base se solidificou graças a intensificação da repressão dentro do sistema carcerário — quanto mais dura se tornava a vida no cárcere, mais presos se aliavam à bandeira de solidariedade empunhada pelo PCC.

Camila Caldeira Nunes Dias PCC

“… as demonstrações de crueldade e de espetacularização da violência […] desempenharam uma série de funções na conquista e na manutenção do poder e do domínio do PCC sobre a população carcerária.”

Enquanto eu e você aplaudíamos as atrocidades que aconteciam dentro dos presídios, o Primeiro Comando da Capital ganhava adeptos fiéis entre a população carcerária, e esses passaram a atuar como soldados da facção dentro e fora dos presídios.

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O Primeiro Comando da Capital ganha moral e ruas

Entre 2002 e 2004, conquistaram a pacificação dentro dos presídios e começaram a disseminar a cultura de que os presos deveriam eleger um grupo mediador, capaz de estabelecer acordos e manter a paz dentro das muralhas.

Quando os presos deixaram de se enfrentar, ganharam força e organização para exigir do Estado melhores condições de vida dentro dos presídios.

A pena é longa, mas não é eterna, e, paulatinamente, os prisioneiros vão ganhando as ruas e levando consigo as técnicas de negociação, união e pacificação desenvolvidas pela facção dentro das muralhas — graças às escolhas que eu e você fizemos.

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O confronto fortalece o Primeiro Comando nas ruas

As novas lideranças são treinadas dentro das trancas e saem prontas para o gerenciamento do pessoal fora dos presídios. Os escritórios são as celas onde se discutem estratégias, mas a organização ainda tem dificuldade em conseguir adeptos nas ruas.

Nós, eu e você, não satisfeitos por termos criado uma organização estruturada dentro dos presídios, buscamos fortalecer a facção fora. A violência policial e os grupos de extermínio tinham amplo apoio, e jovens eram mortos às pencas.

Se faltava apenas uma razão para a facção justificar para seus membros uma ação contra o “Estado opressor e sua polícia”, nós a entregamos de bandeja, e a liderança do Primeiro Comando da Capital não perdeu a oportunidade e mandou seus soldados atacarem.

Os ataques do PCC de 2006 no estado de São Paulo ficaram registrados na história, mas não era esse não era o principal objetido da liderança, como conta Guaracy Mingardi:

Guaracy Mingardi

“Para todos no sistema, o recado é que o Estado não tinha forças para enfrentar o PCC. Isso aumentou o prestígio do grupo, principalmente, nos presídios e entre os jovens rebeldes da periferia.”

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Ordem e Progresso — o céu é o limite

Como filhos, nós os trouxemos ao mundo e lhes mostramos o caminho a seguir, e se eles fizeram as escolhas que fizeram, não podemos nos eximir de nossas parcelas de culpa. O fato é que, crescidos, eles ganharam as ruas do Brasil.

Letícia explicou que o PCC cuidou de conseguir apoio dentro do sistema presidiário dos estados fronteiriços antes de cruzar as fronteiras, mas para isso precisaram de ajuda — e claro que eu e você não íamos deixar o pessoal do PCC na mão.

Lembra quando falaram em mandar para bem longe os prisioneiros que lideravam as revoltas? Nós aplaudimos e dissemos “amém”, e quanto mais longe fossem, melhor seria, não é mesmo?

Marcelo Batista Nery conta para Letícia que a consequência de nossa grande ideia foi o fortalecimento da posição do PCC dentro das trancas do Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia, nas fronteiras do Paraguai, da Bolívia, da Venezuela e da Guiana.

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Do Brasil para o mundo

O processo foi o mesmo: das trancas para as ruas, e de lá para o domínio das rotas de importação de drogas e armas.

Essa semana, o ministro do governo da Bolívia Carlos Romero está levando seu país a trilhar o mesmo caminho que nós já percorremos — apoiando a invasão do Centro de Rehabilitacion Santa Cruz “Palmasola”, que deixou mortos e dezenas de feridos.

Na Bolívia e no Paraguai, o mesmo padrão que nós levamos o PCC a desenvolver está servindo para a implantação da facção: aproveitar a opressão dentro do sistema carcerário para conquistar seguidores que, posteriormente, representarão o PCC fora dos presídios.

Marcelo ressalta que hoje a facção paulista tem se mostrado forte o bastante para controlar o comércio de drogas e armas e até gerir atividades econômicas legais, abrindo empresas e usando-as para lavagem de dinheiro.

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O Comando Vermelho (CV), de aliado fiel para inimigo mortal

Em um primeiro momento, o Comando Vermelho foi peça fundamental na estratégia de crescimento internacional do Primeiro Comando da Capital, mas a facção carioca via o Paraguai como fornecedor, enquanto a facção paulista criava raízes.

O PCC implantou a cultura da facção dentro dos presídios paraguaios e começou a doutrinar seguidores — por lá, ninguém imaginava que um grupo de presos poderia financiar os estudos de seus filhos, providenciar tratamento médico e alimentos para suas famílias.

Nas ruas, montaram suas próprias bases de distribuição, inicialmente por meio de parcerias locais, adquirindo aos poucos conhecimento e abrindo os próprios caminhos.

A estratégia do PCC de negociação e ingresso em novos mercados e comunidades se mostrou perfeita para o ambiente de fronteira, onde os marcos divisórios fincados entre os países e entre os diversos setores econômicos e sociais são mais fluídos e pouco claros.

Quando a estrutura estava sólida, a parceria com a facção carioca CV passou a ser um peso que precisou ser eliminado, e a guerra pelo monopólio foi iniciada com uma ação cinematográfica típica da facção 1533: o assassinato de Jorge Rafaat Toumani Letícia resume a história:

Letícia Nuñez Almeida.jpg

“É dessa maneira que o PCC adquiriu a liberdade necessária para fortificar as relações com os nós fronteiriços e as suas conjecturas, transformando, portanto, os sistemas carcerários em pontos intrínsecos às suas redes do mercado ilegal nacional e internacional.”

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Sem estresse: com ordem e progresso

Os escritórios do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continuam atuando, os executivos dos mais diversos níveis continuam com o desenvolvimento de novas estratégias e os funcionários continuam motivados em todas as filiais.

Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing explicam que dentro dos presídios e no meio de milhares de soldados prontos para serem doutrinados na filosofia e nas estratégias da organização fica fácil para as chefias da facção ficarem protegidas de seus inimigos e se dedicarem ao gerenciamento dos negócios da facção.

Se bem que eles não teriam chegado aonde chegaram se não fosse por mim, você e nossas grandes ideias e escolhas de política social, carcerária e de segurança pública.

 

Até depois da última gota de sangue — invencível

O Primeiro Comando da Capital está na alma da população, é uma manifestação no corpo das contradições existentes em nosso espírito coletivo, assim não poderá eliminado, mas quando compreendermos sua natureza poderá controlado e dominado.

O espírito do guerreiro da facção pcc 1533.jpg

A segurança pública em nosso país sofreu profundas mudanças:

  • intervenção federal no Rio de Janeiro enfraquecendo a facção criminosa Comando Vermelho (CV); e
  • a morte e a prisão das principais lideranças da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC 1533).

“Um dos riscos da intervenção é desarmar o Comando Vermelho, sair em dezembro e deixar o PCC fechar o Sudeste em janeiro. Não há como o interventor resolver esse problema, porque os generais do PCC estão em São Paulo, onde não há intervenção.” — Celso Rocha de Barros

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Uma nova realidade sem o Comando Vermelho (CV)

Quem sabe esse será o golpe mortal que aniquilará quem corre pelo lado errado do lado errado da vida? Mas não, não será assim.

O artigo de Alfredo Moreira Ávila Neto e seus colegas, O Gerenciamento de Crise em Rebeliões no Sistema Penitenciário Brasileiro, publicado na Revista Eletrônica Direito e Conhecimento, do Cesmac, Faculdade do Agreste de Arapiraca, me lembrou algo que não pode ser esquecido:

O Comando Vermelho foi fundado em 1979 — no ano que vem fará seu 40º aniversário — e, como o Primeiro Comando da Capital e o Quilombo dos Palmares, sobreviverão ao tempo independentemente do que você, eu, os militares e Celso Rocha de Barros venhamos a acreditar.

O artigo afirma que o CV e o PCC dominam 90% do sistema carcerário brasileiro, e as forças de ocupação federal estão atuando nas ruas, sem tocar no cerne das organizações, protegidas pelas muralhas dos presídios.

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“Até depois da última gota de sangue! Tudo 3!”

Há alguns meses fui convidado a comparecer na delegacia para dar explicações a respeito deste site, e a pessoa que me inquiria não se conformava quando eu reafirmava que o Primeiro Comando da Capital jamais seria eliminado.

Ana Luiza Almeida Ferro também afirmou que crime organizado no Brasil não será eliminado, mas ao contrário de mim, ela generalizou, e eu dei nome aos bois.

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Ana Luiza afirma: o PCC somos eu e você

Se você duvida, então é só dar uma olhada na obra El cincuentenario de los Pactos Internacionales de Derechos Humanos de la ONU — além do valor das ideias, a composição do texto é primorosa:

“A via jurídica não tem o condão de oferecer soluções mágicas para o controle do crime organizado. […] Nem tampouco ostentam tal condição quaisquer medidas e estratégias administrativas ou políticas que ambicionem, pelo caminho repressivo, a simples e total erradicação do problema. O crime organizado, como o crime em geral, pode ser controlado, mas não inteiramente erradicado, sob as condições sociais, econômicas, políticas e culturais hoje conhecidas, até porque, mesmo que sistemática e eficazmente combatido, pode até assumir novas feições, sem que tal signifique o seu completo desaparecimento, o que não indica que possamos baixar a guarda, caso algum dia cheguemos a imaginá-lo sob controle, como uma serpente aprisionada, cuja maior parte do veneno haja sido extraída. Porque essa serpente habita em nós. Ela cresce à sombra das próprias estruturas socioeconômicas e políticas de uma cidade, de uma região, de um país, uma imagem refletida no espelho da sociedade.”

Sendo assim, o PCC está em cada paulista, assim como as facções menores, como o CV, estão na alma de suas comunidades. A visão de Ana Luiza me pareceu muito dura, um soco em nossa autoimagem e autoestima, mas concordo com ela.

Como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital poderiam ser abalados por ações policiais ou militares nas ruas se, como nos lembra o artigo publicado na revista do Cesmac, as facções estão dentro do Sistema Prisional e, como nos conta Ana Luiza, dentro de cada um de nós?

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Entender o problema é o primeiro passo.

“Mas, já devo ter mencionado isso aqui em alguma ocasião, sou um otimista. Talvez o último otimista da face da Terra – o que, por sua vez, também é uma afirmação otimista, […] um caso de weltzschmerz – a incapacidade de confrontar o mundo da mente com o mundo real” Yuri Al’Hanati

O que eu tentei aquele dia dizer na delegacia, e o que Ana Luiza disse com primazia, foi que não adiantam apenas mudanças na política de segurança pública em nosso país, com intervenção militar e a morte e a prisão de lideranças das organizações criminosas — é preciso que tomemos consciência desse tal weltzschmerz citado por Yuri.

Assim, abandonaremos nossas ilusões — e deixaremos de tentar matar o que é imortal e poderemos nos concentrar em dominá-lo e mantê-lo sob controle, começando por nossas atitudes e pensamentos.

“Já devo ter mencionado isso aqui, sou um otimista.”