Como o PCC chegou a outros países sul-americanos

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) e sua estratégia de expansão e domínio do mercado transnacional de ilícitos (MTI) na América Latina baseiam-se no uso de mão de obra do sistema prisional.

 

A nistória se repete Centro de Rehabilitacion Santa Cruz Palmasola.jpg

Sem estresse, os negócios vão bem, obrigado.

O Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continua crescendo, com seus executivos desenvolvendo estratégias e conquistando novos mercados e seus funcionários seguindo motivados em todas as filiais em todos os estados e países.

Quem nos garante isso são os pesquisadores Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing no trabalho “Legitimacy in Criminal Governance: Managing a Drug Empire from Behind Bars”, o qual deverei apresentar aqui em breve.

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Crimes transnacionais nos dias de hoje

Hoje, estou aqui para apresentar o livro Subsistemas fronteiriços do Brasil: mercados ilegais e violência (FLACSO), da pesquisadora Letícia Nuñez Almeida e colegas.

Não há como se estudar os crimes transnacionais do Cone Sul sem entender a facção paulista Primeiro Comando da Capital, e Letícia não se faz de rogada, analisando profundamente a origem e a história da gangue nascida em São Paulo.

As origens do PCC definiram seu presente

Fomos você e eu quem definimos a forma como as drogas e armas seriam hoje transportadas do exterior para dentro de nosso território, você se lembra?

Letícia deixa que Camila Caldeira Nunes Dias conte como a semente foi plantada no final de 1993, quando na Casa de Custódia de Taubaté (o Piranhão) os presos se reuniram para protestar contra a crueldade exercida pelos agentes penitenciários.

Talvez você, assim como eu, se lembre que nós entendíamos que preso tinha mesmo é que sofrer, e prisão deveria ter as piores condições de vida; mas, pensando assim, colocávamos no governo pessoas que também professavam as mesmas convicções.

A queda de braço entre governo e presos foi sangrenta, e forjou o espírito dos homens que tomariam em suas mãos, no futuro, o controle do tráfico internacional de drogas e armas — o embrião do PCC foram aqueles prisioneiros.

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O crescimento acalentado pelo povo brasileiro

Camila conta que nos anos de 1994 e 1995 a base se solidificou graças a intensificação da repressão dentro do sistema carcerário — quanto mais dura se tornava a vida no cárcere, mais presos se aliavam à bandeira de solidariedade empunhada pelo PCC.

Camila Caldeira Nunes Dias PCC

“… as demonstrações de crueldade e de espetacularização da violência […] desempenharam uma série de funções na conquista e na manutenção do poder e do domínio do PCC sobre a população carcerária.”

Enquanto eu e você aplaudíamos as atrocidades que aconteciam dentro dos presídios, o Primeiro Comando da Capital ganhava adeptos fiéis entre a população carcerária, e esses passaram a atuar como soldados da facção dentro e fora dos presídios.

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O Primeiro Comando da Capital ganha moral e ruas

Entre 2002 e 2004, conquistaram a pacificação dentro dos presídios e começaram a disseminar a cultura de que os presos deveriam eleger um grupo mediador, capaz de estabelecer acordos e manter a paz dentro das muralhas.

Quando os presos deixaram de se enfrentar, ganharam força e organização para exigir do Estado melhores condições de vida dentro dos presídios.

A pena é longa, mas não é eterna, e, paulatinamente, os prisioneiros vão ganhando as ruas e levando consigo as técnicas de negociação, união e pacificação desenvolvidas pela facção dentro das muralhas — graças às escolhas que eu e você fizemos.

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O confronto fortalece o Primeiro Comando nas ruas

As novas lideranças são treinadas dentro das trancas e saem prontas para o gerenciamento do pessoal fora dos presídios. Os escritórios são as celas onde se discutem estratégias, mas a organização ainda tem dificuldade em conseguir adeptos nas ruas.

Nós, eu e você, não satisfeitos por termos criado uma organização estruturada dentro dos presídios, buscamos fortalecer a facção fora. A violência policial e os grupos de extermínio tinham amplo apoio, e jovens eram mortos às pencas.

Se faltava apenas uma razão para a facção justificar para seus membros uma ação contra o “Estado opressor e sua polícia”, nós a entregamos de bandeja, e a liderança do Primeiro Comando da Capital não perdeu a oportunidade e mandou seus soldados atacarem.

Os ataques do PCC de 2006 no estado de São Paulo ficaram registrados na história, mas não era esse não era o principal objetido da liderança, como conta Guaracy Mingardi:

Guaracy Mingardi

“Para todos no sistema, o recado é que o Estado não tinha forças para enfrentar o PCC. Isso aumentou o prestígio do grupo, principalmente, nos presídios e entre os jovens rebeldes da periferia.”

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Ordem e Progresso — o céu é o limite

Como filhos, nós os trouxemos ao mundo e lhes mostramos o caminho a seguir, e se eles fizeram as escolhas que fizeram, não podemos nos eximir de nossas parcelas de culpa. O fato é que, crescidos, eles ganharam as ruas do Brasil.

Letícia explicou que o PCC cuidou de conseguir apoio dentro do sistema presidiário dos estados fronteiriços antes de cruzar as fronteiras, mas para isso precisaram de ajuda — e claro que eu e você não íamos deixar o pessoal do PCC na mão.

Lembra quando falaram em mandar para bem longe os prisioneiros que lideravam as revoltas? Nós aplaudimos e dissemos “amém”, e quanto mais longe fossem, melhor seria, não é mesmo?

Marcelo Batista Nery conta para Letícia que a consequência de nossa grande ideia foi o fortalecimento da posição do PCC dentro das trancas do Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia, nas fronteiras do Paraguai, da Bolívia, da Venezuela e da Guiana.

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Do Brasil para o mundo

O processo foi o mesmo: das trancas para as ruas, e de lá para o domínio das rotas de importação de drogas e armas.

Essa semana, o ministro do governo da Bolívia Carlos Romero está levando seu país a trilhar o mesmo caminho que nós já percorremos — apoiando a invasão do Centro de Rehabilitacion Santa Cruz “Palmasola”, que deixou mortos e dezenas de feridos.

Na Bolívia e no Paraguai, o mesmo padrão que nós levamos o PCC a desenvolver está servindo para a implantação da facção: aproveitar a opressão dentro do sistema carcerário para conquistar seguidores que, posteriormente, representarão o PCC fora dos presídios.

Marcelo ressalta que hoje a facção paulista tem se mostrado forte o bastante para controlar o comércio de drogas e armas e até gerir atividades econômicas legais, abrindo empresas e usando-as para lavagem de dinheiro.

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O Comando Vermelho (CV), de aliado fiel para inimigo mortal

Em um primeiro momento, o Comando Vermelho foi peça fundamental na estratégia de crescimento internacional do Primeiro Comando da Capital, mas a facção carioca via o Paraguai como fornecedor, enquanto a facção paulista criava raízes.

O PCC implantou a cultura da facção dentro dos presídios paraguaios e começou a doutrinar seguidores — por lá, ninguém imaginava que um grupo de presos poderia financiar os estudos de seus filhos, providenciar tratamento médico e alimentos para suas famílias.

Nas ruas, montaram suas próprias bases de distribuição, inicialmente por meio de parcerias locais, adquirindo aos poucos conhecimento e abrindo os próprios caminhos.

A estratégia do PCC de negociação e ingresso em novos mercados e comunidades se mostrou perfeita para o ambiente de fronteira, onde os marcos divisórios fincados entre os países e entre os diversos setores econômicos e sociais são mais fluídos e pouco claros.

Quando a estrutura estava sólida, a parceria com a facção carioca CV passou a ser um peso que precisou ser eliminado, e a guerra pelo monopólio foi iniciada com uma ação cinematográfica típica da facção 1533: o assassinato de Jorge Rafaat Toumani Letícia resume a história:

Letícia Nuñez Almeida.jpg

“É dessa maneira que o PCC adquiriu a liberdade necessária para fortificar as relações com os nós fronteiriços e as suas conjecturas, transformando, portanto, os sistemas carcerários em pontos intrínsecos às suas redes do mercado ilegal nacional e internacional.”

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Sem estresse: com ordem e progresso

Os escritórios do Primeiro Comando da Capital (PCC 1533) continuam atuando, os executivos dos mais diversos níveis continuam com o desenvolvimento de novas estratégias e os funcionários continuam motivados em todas as filiais.

Graham Denyer Willis e Benjamin Lessing explicam que dentro dos presídios e no meio de milhares de soldados prontos para serem doutrinados na filosofia e nas estratégias da organização fica fácil para as chefias da facção ficarem protegidas de seus inimigos e se dedicarem ao gerenciamento dos negócios da facção.

Se bem que eles não teriam chegado aonde chegaram se não fosse por mim, você e nossas grandes ideias e escolhas de política social, carcerária e de segurança pública.

 

A segurança das fronteiras nas mãos do PCC 1533

Fuminho, esse é o cara do qual depende a estabilidade institucional latino-americana; é ele quem determinará as rotas e as políticas de importação e exportação de drogas e armas do Cone Sul. Duvida? Ria, mas tem quem não duvidará.

Fronteiras ENAFRON

Enquanto quem não conseguia enxergar o que estava acontecendo batia palmas e postava seus kkks nas redes sociais após a morte de Gegê do Mangue e Paca, o Promotor de Justiça Lincoln Gakiya colocava suas barbas de molho e alertava que nuvens escuras estavam despontando no horizonte.

Às nuvens que Gakiya já havia notado somaram-se outras, se somaram a outras, ainda mais pesadas, Coube ao ministro Hugo Vera, chefe da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (SENAD), contrariar os garotos que batiam palmas e postavam seus kkks nas redes sociais após a prisão de Galã.

A história da morte de Gegê começou a ser mal contada com o estranho surgimento do bilhete que auxiliou as autoridades a desvendarem todo o caso, o que leva à questão; desde quando as autoridades já estavam cientes do plano de eliminar os líderes do Primeiro Comando da Capital e quais serão as consequências dessas mortes?

A proteção militar!

Para aqueles que imaginam que os militares no Rio de Janeiro vão resolver o problema do tráfico de drogas e armas, é preciso lembrar que as fronteiras nacionais são garantidas há anos pelo sistema ENAFRON/SISFRON das forças armadas em ação conjunta às forças policiais dos países fronteiriços.

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Operação Ágata

As belas fotos dos soldados atuando no Rio já são velhas conhecidas nossas da Operação Ágata.

É ela que impede que nossas fronteiras sejam invadidas por traficantes de armas e drogas, com direito a belas fotos com militares nas estradas e helicópteros sobrevoando as matas e os rios — show.

Só valem pelo show. Gakiya e Vera sabem disso, e por isso se preocupam com as nuvens no horizonte.

A rota das armas e drogas, apesar dos militares, tem funcionado de maneira cada vez mais estável depois que o Primeiro Comando da Capital (PCC) assumiu a logística após a eliminação de Jorge Rafaat Toumani.

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O PCC e a política de fronteiras!

Gegê do Mangue criou um sistema que ésuaua sufocando as facções Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN), sem a necessidade de enfrentamento direto entre as facções, deixando os garotos da base se matando, mas segurando as ações contra a polícia e o Estado.

Além de manter e solidificar a tradicional linha de fornecimento do Paraguai, a equipe para estrategistas da organização criminosa desenvolveu uma estratégia de contaminar a tradicional rota norte, via rio Solimões, forçando a Família do Norte e o Comando Vermelho a buscar meios alternativos.

A exportação das drogas também deixou de ser centralizada e passou a ser operada através de diversos portos — tudo sob o olhar de Gegê do Mangue. Elton Rumich da Silva, o Galã, é uma figura ainda nebulosa dentro desse estratagema, todavia era personagem chave nesse jogo estratégico.

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As possibilidades:

  1. apesar de ter assumido o controle da distribuição da rota paraguaia com o apoio da facção paulista, Galã vendia com sobrepreço para a facção carioca Comando Vermelho com o aval de Gegê, como forma de evitar uma guerra direta, ao mesmo tempo que fragilizava seu caixa e conseguia informações estratégicas do inimigo;
  2. ele só comercializava com o PCC e seus aliados; e
  3. ele era um comerciante autônomo, agindo sem se reportar ao Primeiro Comando, mas garantindo paz na fronteira e rota livre para seus insumos.

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O terror nas ruas!

Enquanto a atual política de não enfrentamento do narcotráfico contra o Estado constituído e suas forças policiais persistirem, como tem sido a orientação do Primeiro Comando da Capital, há possibilidade de enfrentamento sem levar terror às ruas e à população através da polícia investigativa e ostensiva.

Para quem imagina que o ideal seria outro, é só ver como as coisas estão no Rio de Janeiro, onde o Comando Vermelho está no poder.

O mal maior!

A possibilidade de que Gegê do Mangue e Paca estivessem negociando com os inimigos do CV e FDN um acordo ou a mudança de camisa seria um tsunami para a segurança institucional latino-americano.

Se o maremoto foi evitado, as nuvens não foram dissipadas. A Família do Norte e o Comando Vermelho poderão tentar retomar a rota do Paraguai e restabelecer a hegemonia no Solimões, e, se isso acontecer, muito sangue poderá correr, tanto de membros das facções, quanto de policiais.

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A hora é agora!

Com ajuda do Governo Federal, que com a intervenção militar no Rio de Janeiro criou dificuldades organizacionais para a organização carioca, o PCC poderá solidificar seus negócios com a Venezuela.

Hoje, devido às dificuldades econômicas da Venezuela, armas pesadas podem ser compradas por um preço bem abaixo do mercado.

Quando vamos ter outra oportunidade de comprar AR-15 e AK-47 por até US$ 5.000?

Militares e guerrilheiros estão vendendo as armas de suas organizações e aceitando oportunidades de serviço dentro e fora do país, e apesar da Família do Norte ter um vínculo mais antigo com os venezuelanos, a organização paulista tem condições econômicas e estratégicas para dominar a fronteira norte.

A rota boliviana como alternativa

Os paulistas conhecem desde o tempo dos bandeirantes a rota boliviana, que por algum tempo quase foi esquecida, e transportar via Mato Grosso do Sul maconha, cocaína e armamento era coisa para quem queria fugir do grande fluxo.

Há quem diga que o próprio Marcola havia proibido a utilização desse caminho — mas eu nunca vi esse salve. Seja como for, a estrada foi reaberta e está em funcionamento, como rota alternativa. Quem teria capacidade de gerenciar tal logística internacional?

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Sob nova direção!

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Por mais incrível que possa parecer, o futuro da estabilidade da América-Latina repousa nos braços de Fuminho, o Gilberto Aparecido dos Santos, que assumiu a gestão e a logística internacionais em nome da Família 1533.

Há quem consiga dormir tranquilo, sabendo que nossas fronteiras estão seguras pelo ENAFRAN/SISFRON e sua Operação Ágata, da mesma forma que o Rio de Janeiro agora dorme em paz com os militares no combate ao tráfico de drogas.

Boa sorte para todos nós, e agora sim é hora de bater palmas e postar kkks.

Gegê do Mangue — um grande golpe para o PCC 1533

A logística de distribuição de drogas evoluiu sob a batuta de Gegê do Mangue. O Primeiro Comando da Capital deixou de depender exclusivamente das armas e das drogas vindas do Paraguai e da Bolívia, criando uma rota alternativa ao norte.

Morre Gê do Mangue, a hierarquia cobra o preço da disciplina

Todos acreditavam que Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, cuidariam de zerar Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, quando ele deixasse a tranca — era mais seguro para ele na segurança do sistema do que na rua.

Agora Gegê e Paca já eram, as lideranças das trancas voltaram a dominar, e sem rivais à altura na rua. Acabou essa da facção criar uma raiz fora do sistema prisional.

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Uma das características da facção paulista, como em qualquer matilha, é o rígido sistema hierárquico cuja liderança é disputada à custa de sangue pelos diversos alfas — e essa é a melhor hipótese para a morte de Gegê e Pacas segundo a imprensa, os especialistas, os policiais e até entre os PCCs.

O Procurador de Justiça Marcio Sergio Christino lembra que a disputa pela liderança já aconteceu no passado com sangue. Se duvidarem, é só perguntar para Dionísio César Leite, o Cesinha, Jonas Mateus e Wander Eduardo Ferreira, o Cara Gorda.

Existe outra possibilidade.

A morte de alguns líderes, dentro e fora do sistema, teria sido engendrada por Gegê, e as execuções foram feitas sem seguir o procedimento da facção, com respeito às regras de hierarquia e defesa — e agora o errado foi cobrado.

No mundo das fofocas, correm boatos, também, de que eles estariam desviando dinheiro da facção, e outros falam até que Gegê estaria indo para o Ceará para tentar fechar um acordo com o Comando Vermelho (CV) e Família do Norte (FDN) sem aval da cúpula — e o medo era que ele resolvesse trocar de camisa…

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… um indício de que o assassinato teria sido uma ordem vinda de dentro é o fato de, ao contrário do que sempre acontece, não ter ocorrido a tradicional homenagem aos mortos feita pelos PCCs nos pátios dos presídios, como nos conta Josmar Jozino:

“Os prisioneiros fazem uma roda no centro da quadra, baixam a cabeça em sinal de respeito ao morto, rezam o Pai Nosso e depois entoam o tradicional grito de guerra da organização: PCC, 1533, PCC, 1533, um por todos, todos por um. Um por todos, todos por um.”

O que ninguém leva a sério é que isso tenha sido uma ação do governo ou dos inimigos. Foi como uma cena de Hollywood, de filme americano, com helicóptero atirando nos chefes do tráfico no solo em uma reserva indígena, coisa, assim, que só o Primeiro Comando da Capital poderia produzir.

As consequências disso são impossíveis de serem imaginadas, e quem o fizer vai estar apenas “chutando”.

Como ficará a questão sobre as ligações feitas por Gê no mercado internacional de armas e drogas, e quanto o Primeiro terá que rever contratos e rotas?

Os que fechavam com Gê vão continuar fiéis à facção ou vai ter algum deles rasgando a camisa e pulando para os inimigos?

Eu , se tivesse que chutar, diria que a estrutura ficou ainda mais forte e coesa, mas, ao eliminar um líder forte e articulado, a facção vai perder capacidade de gestão e logística. Quem assumirá o gerenciamento e controle nas ruas dos sintonias dos países?

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A logística de distribuição de drogas evoluiu sob a batuta de Gegê do Mangue. O Primeiro Comando da Capital deixou de depender exclusivamente das armas e das drogas vindas do Paraguai e da Bolívia, criando uma rota alternativa ao norte (Venezuela-Colômbia-Ceará).

Para isso a cabeça de ponte é garantida nas ruas pelos aliados dos Guardiões do Estado GDE 745, fundamentais para quebrar a barreira dos inimigos. O ministro da Segurança Pública, Torquato Jardim, confirma que”quem conquistar o Ceará, conquistará o Nordeste.

Com essa mudança de estratégia de importação, Gegê estaria conseguindo minar os vínculos de confiança entre os FDN CV e SD RN com os seus fornecedores estrangeiros. Até quem combatia o bandido sabia de seu valor. O Promotor de Justiça Lincoln Gakiya comentou a respeito da morte de Gegê:

“É um grande golpe para o PCC. Eles ajudaram muito a aumentar a arrecadação e o poder de crescimento do tráfico, principalmente, porque tinham autonomia, capacidade de gestão e gozavam da confiança da cúpula”.

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Além do tráfico de armas e drogas, Gegê também participaria da organização das mega-operações de assalto, como foi o caso da sede do PROSEGUR, na Ciudad del Este no Paraguai, e diversas outras ações dentro e fora do Brasil. Todos, inclusive eu, afirmavam que Gegê estava na Bolívia ou talvez no Paraguai, mas…

… para surpresa geral da galera “especialista”, o garoto parece que estava há mais de um ano morando com Paca, pertinho de onde foi morto. A dupla morava em um condomínio de alto padrão, o Alphaville do Porto das Dunas, em Aquiraz — pelo menos é o que afirma a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco).

Então, além de estar com um cordão de ouro e um pingente em forma de cifrão avaliados em 400 mil reais e um relógio de 40 mil reais, Gegê ainda estava morando em uma mansão de dois milhões de reais — falta de humildade também mata, principalmente quando seus colegas te olham do outro lado da muralha.

Algo muito estranho é que, antes mesmo dos corpos serem identificados formalmente, alguma boa alma pagou para a funerária 100 mil reais pelo embalsamento dos corpos — como tem gente boa nesse mundo!

Para quem quer conhecer mais quem era o Gegê do Mangue, sugiro duas reportagens:

Kleber Tomaz do G1 SP conta entre outras coisas que o garoto além de empinar pipas foi coroinha da igreja e office-boy no centro de São Paulo…

Fabíola Perez do R7 SP também buscou informações de sua juventude e trás um depoimento inconformado de um mecânico que diz que o traficante “sempre pagava pelo atendimento, ao contrário dos policiais que não pagavam o reparos em viaturas”. A repórter ainda conta que vários estabelecimentos comerciais do bairro lavavam o dinheiro da facção.

Legalizar as drogas: sim ou não?

Policiais e bandidos concordam pelo menos em uma coisa: as vendas de drogas devem ser proibidas e combatidas, mas há presidentes americanos que discordam — qual a posição da facção paulista Primeiro Comando da Capital?

Liberar ou combater as drogas e a maconha e a facção PCC 1533

Perguntaria para o Marcola em Venceslau sobre essa questão, mas ele não atende ao celular, e está certo ele — então como posso saber qual a posição do Primeiro Comando da Capital, a facção PCC 1533, em relação a legalização das drogas?

Para infelicidade daqueles que trabalham com jornalismo, todas as fontes tem que ser conferidas para não cair em descrédito, mas, para minha felicidade, no mundo das crônicas é diferente.

Na semana que passou, trombei com uma publicação sobre segurança internacional da Conferência do Forte de Copacabana, organizada em conjunto pela Fundação Konrad Adenauer (KAS) e pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), com apoio da Delegação da União Europeia no Brasil:

A visão sul-americana para uma melhor colaboração entre a América do Sul e a Europa contra o Tráfico de Drogas

Thiago Rodrigues e Carol Viviana Porto foram os autores do artigo que, pelo menos para mim, suscitou uma dúvida: Como os traficantes e os líderes do crime organizado analisam a questão da liberação do uso das drogas?

Posso não ter certeza do que Marcola pensa sobre esse tema, mas três presidentes americanos se manifestaram sobre a política de repressão às drogas: Nixon, que considerou que a guerra contra as drogas era um grande fracasso; Obama, que a considerou inútil; e Carter que disse que a punição excessiva destruiu a vida de milhões de famílias.

No Brasil, jogamos no campo da ideologia questões técnicas, e abandonar a atual política de repressão e encarceramento na questão das drogas é um desses exemplos — coisa de comunista e de moleques nóias — mas qual dos dois casos se encaixam então os presidentes americanos Nixon, Obama e Carter?

E no Brasil — Lula e Dilma?

Ambos são assumidamente pessoas ligadas a “esquerda”, e no período de governo dos dois houve uma aceleração dos encarceramentos e do combate as drogas. Se levarmos em conta apenas os fatos aqui citados, veremos então que à “direita” representada pelo ponto de vista dos presidentes americanos é a favor do abrandamento, e a “esquerda” prefere prender os envolvidos.

Mas isso é puro sofisma!

Sabemos então o que pensam cinco presidentes, mas e Marcola, os traficantes e os líderes do crime organizado? Os garotos do corre, a ponta mais conhecida do tráfico, dão de ombros, não pensam sobre isso, os gerentes de biqueira não esquentam, sempre se viraram e sempre se virarão, e a cúpula? É fácil supor ao ler o artigo de Thiago e Carol:

O atual sistema de repressão ao tráfico de entorpecentes nos Estados Unidos não diminuiu o consumo naquela nação, mas impediu que se produzissem as drogas, permitindo rápida expansão das áreas cultivadas e da industrialização dos produtos para suprir o mercado americano — PCC, CV, FDN, GDE, SCRN e ADA agradecem.

O tempo para o amadorismo passou e o sistema de repressão ao tráfico de entorpecentes obrigou a criação de organizações criminosas com uma intrincada estrutura dentro do território brasileiro e com ramificações internacionais:

  • produção das folhas — Peru e na Bolívia;
  • produção da pasta e distribuição internacional — Colômbia;
  • entrepostos — Caribe, Canárias, Madeira, Guiné-Bissau, Guiné e Costa do Marfim;
  • portos — Galícia, Marselha e Nápoles; e
  • sistema financeiro — China, Uruguai e Caribe.

Enquanto a polícia posta foto de trinta tubetes formando a sigla PCC acompanhada da frase “dando prejuízo ao tráfico”, o mundo gira, a imprensa tem matéria para postar, um outro garoto vai substituir na biqueira aquele que foi levado pela polícia para fazer a doutrinação nas regras da facção dentro do sistema prisional, e o cidadão se sente mais seguro.

Só que a estrutura se fortalece e se profissionaliza ainda mais.

Para infelicidade daqueles que trabalham com jornalismo, todas as fontes tem que ser conferidas para não cair em descrédito, mas, para minha felicidade, no mundo das crônicas é diferente. Eu posso afirmar que Marcola, os traficantes e os líderes do crime organizado analisam a questão da liberação do uso das drogas como sendo prejudicial aos seus negócios — sem ter que perguntar a eles.

Thiago e Carol, em seu trabalho, fazem uma análise do fluxo internacional da cocaína e das metanfetaminas e da política de drogas na América do Sul e as suas consequências no número de homicídios com um quadro comparativo por país, além de uma análise da tendência de combate às drogas em países da União Européia e no Uruguai.

Os dois pesquisadores, o Uruguai e a Europa, estão buscando outras formas de resolver a questão das drogas, sem se preocuparem com o que o policial, você, eu ou Marcola pensamos a esse respeito — é um absurdo!